Você está na página 1de 9

Democratização da Comunicação na América Latina: processos populares de educação e comunicação 1

Djalma Ribeiro Junior

Universidade Federal de São Carlos

Maria Waldenez de Oliveira

Universidade Federal de São Carlos

Resumo

A democratização da comunicação na América Latina é um processo que precisa ser

compreendido na sua complexidade, o que implica em reconhecer os mecanismos que operam na centralização da comunicação e as forças que lutam pela sua democratização. O texto aqui apresentado pretende mostrar, em um primeiro momento, a ligação entre as

grandes corporações midiáticas e os regimes ditatoriais militares que aconteceram na América Latina, desembocando em um processo conhecido como redemocratização e que coincide com a hegemonia dos meios de comunicação de massa. É neste período histórico, marcado por regimes políticos anti-democráticos, que se consolida toda uma estrutura

midiática marcada pela concentração dos meios de comunicação. Neste cenário, as grandes corporações empresariais que dominam os meios de comunicação de massa na América Latina vão ganhando terreno jurídico para sustentar o seu caráter hegemônico e a sua função ideológica de tentar homogeneizar gostos, valores e culturas, atrelando sua grade de programação aos interesses mercantis e políticos de grupos que ainda impedem a verdadeira democratização da sociedade. Após reconheer os mecanismos que permitem a centralização da comunicação, o texto pretende apresentar processos de educação popular

e de comunicação popular como forças latinomericanas que tecem a crítica a este sistema

centralizador e apontam possibilidades de uma outra comunicação, que tem por objetivo contribuir para a democratização das sociedades latinoamericanas. Ao contrário do modelo centralizador, controlador e padronizador das grandes corporações midiáticas da América Latina, podemos encontrar experiências protagonizadas por grupos populares que planejam e executam uma outra comunicação baseada no diálogo, nos contextos locais e no sentido de comunidade. Desde esta perspectiva, é possível afirmar que a democratização da comunicação não se completa sem a democratização da própria sociedade e que este processo se sustenta a partir de uma mirada mais complexa das relações humanas, nas quais os sujeitos participam das decisões que são tomadas e que vão interferir na sua vida concreta. Buscar a democratização dos meios de comunicação na América Latina significa, portanto, buscar a verdadeira democratização das sociedades latinoamericanas. Este movimento vem sendo, historicamente, construído por meio de processos de educação popular e de comunicação popular. Temos nestes dois conceitos, maneiras populares latinoamericanas que podem contribuir para a construção de sociedades participativas e democráticas.

1 Eje 1- DEMOCRACIA, CIUDADANÍA Y DERECHOS HUMANOS. Mesa 1 - Debates en torno a la democratización de la comunicación en América Latina.

Democracia e Comunicação: aproximações históricas e epistemológicas Democracia e comunicação precisam ser compreendidas não como uma ideia

abstrata, solta no ar, mas como conceitos que são construídos no decorrer do processo histórico. Isto implica em dizer que democracia e comunicação não são termos absolutos, pelo contrário, quando nos referimos a estes conceitos, nos mais variados discursos, estamos atribuindo significados que carregam perspectivas de mundo muitas vezes diferentes, tantas outras antagônicas.

A palavra comunicação deriva da raíz latina communis que pode ser traduzida como

por em comum algo com outro. Comunicação, comunidade e comunhão, são palavras que se originam da mesma raíz: “expresa algo que se comparte: que se tiene o se vive en

común” (KAPLÚN, 1998, p. 60). Todavia, o sentido de comunicação foi, de período em período, passando por reformulações teóricas e práticas de acordo com interesses muitas vezes ligados à valores mercadológicos. Foi assim que o conceito de comunicação, por exemplo, foi se relacionando com uma noção de transmissão e se apoiou em uma teoria matemática para dar sustentação aos modelos de comunicação de massa baseado no esquema emissor – mensagem – receptor 1 . É sobre este esquema que se levantaram as grandes empresas de comunicação midiática que atuam na transmissão de conteúdos em todos os cantos do mundo.

É extremamente importante destacar que a ideia original de comunicação, a que se

apresenta na própria etimologia da palavra, vai se tornando um conceito que serve para

legitimar e afirmar uma determinada perspectiva, ao mesmo tempo em que desqualifica outras.

Da mesma maneira, precisamos tomar cuidado quando falamos de democracia, para não corrermos o risco de atribuir ao termo uma característica quase mágica, quando, na verdade, se trata de um conceito condicionado pelo processo histórico. Democracia não é, portanto, uma ideia abstrata, “não é um valor em si, sem adjetivos, solto no espaço, no nada. Pode ser formal, real, política, social, burguesa, socialista” (IANNI, 1993, p. 86). Não é possível, portanto, simplesmente pegar um conceito de democracia de um determinado período histórico e de uma detrminada cultura e tentar aplicar aos dias de hoje, desconsiderando todo o processo histórico e todas as diferentes culturas que ressignificaram este termo conforme interesses muitas vezes justos e solidários, tantas outras injustos e opressores. Propomos, então, acercarmos de uma forma crítica dos conceitos de comunicação e democracia para compreendermos a democratização da comunicação na América Latina. Quando falamos de comunicação e democracia ou ouvimos estes termos é sempre bom

questionarmos: a favor de que e de quem? Contra que, contra quem? Partindo destas questões, evidenciamos que qualquer processo de democratização da comunicação só se completa com a própria democratização das estruturas sociais. Defendemos que a comunicação precisa ter como princípio o diálogo e que a democracia só se sustenta com participação e respeito às diversidades. Tanto a comunicação, quanto a democracia precisam ser compreendidos como processo que jamais se encerra. Aqui está o caráter pedagógico e a dimensão política destes conceitos que conferem historicidade e que colocam a democratização da comunicação na América Latina como movimento de tensão entre forças que operam na concentração dos meios de comunicação e nas incursões antidemocráticas contra forças que buscam na comunicação um processo de diálogo e de respeito entre as diversidades, fortalecendo assim a própria democratização das relações sociais.

Concentração dos meios de comunicação e tentativas de homogeneização

É muito comum associarmos os meios de comunicação de massa apenas com a

televisão, quando, na verdade, há uma gama maior de meios. Rede Globo, Televisa, Clarín,

por exemplo, não controlam apenas canais de televisão ou um único meio de comunicação, e, sim, uma cadeia de comunicação que envolve a radiodifusão, as mídias impressas e portais na internet. Ou seja, estas grandes corporações midiáticas atuam na comunicação em escala ampla, incluindo as transmissões midiáticas (televisão, rádio) e, também, a indústria cultural (livros, cinema). As grandes corporações empresariais que dominam os meios de comunicação de

massa na América Latina se firmaram durante regimes antidemocráticos. Isto se deve por dois fatores principais: o primeiro diz respeito ao período histórico de aprimoramento da tecnologia de teledifusão que vai se consolidando e permitindo a implantação de empresas de comunicação, ao mesmo tempo em que na América Latina alguns países estão passando por instabilidades políticas que culminarão em regimes de aspirações antidemocráticas e; segundo, pela decisão política das empresas de comunicação de se aliarem aos regimes autoritários, apoiando diretamente ou omitindo atitudes desumanas proporcionadas por estes regimes.

É aí que se começa um modelo de comunicação social centralizado na iniciativa

privada que vai concentrar, praticamente, todos os ramos que se relacionam com a comunicação e com a indústria cultural, ampliando, assim o seu poder político na configuração das forças decisórias dos rumos das sociedades. “É a televisao privada que dispõe de meios para capturar a audiência massiva. Em toda a América Latina, esta pródiga

fonte de dinheiro e de votos está em muito poucas mãos” (GALEANO, 2007, p. 308). Torna- se inegável, portanto, que os meios de comunicação de massa possuem grande poder de influência na prática política. “A mídia eletrônica, destacando-se a televisão, ultrapassa os partidos e o poder legislativo, na sua capacidade de formar e deformar atitudes, expectativas, condições e possibilidades de pensar e agir na política” (IANNI, 1993, p. 84). Se os meios de comunicação de massa se consolidaram concentrados nas mãos de poucos durante os regimes autoritários, podemos dizer que o triunfo deste modelo se deu quando, mesmo em um processo de democratização política, assistimos aumentar ainda mais a concetração dos meios e do poder político destas empresas privadas de comunicação. Há aqui uma estratégia política muito ardilosa que coloca as empresas privadas de comunicação de massas, que se fortaleceram nos regimes autoritários, como sendo protagonistas de ações ditas democráticas! Um exemplo pode ilustrar o que estamos apontando. No Brasil, a Rede Globo foi fundamental para colocar na presidência da república o primeiro presidente civil depois de mais de duas décadas de ditadura militar e também foi quem colaborou para depor o próprio presidente que ela havia apoiado. Ora, não há exemplo de força maior do que você ter o poder de colocar e tirar o presidente de um país em vias de instaurar uma democracia! 2 Outro movimento fundamental que contribuiu ainda mais para ampliar a concentração dos meios de comunicação de massas nas mão da iniciativa privada tem relação direta com a política neoliberal do final do século passado que se apoiou no processo de globalização econômica 3 que, dentre outras consequências nefastas, culminou com as privatizações dos sistemas de telefonia em grande parte dos países da América Latina. “O controle do ciberespaço depende das linhas telefônicas e nada é mais casual que a onda de privatizações dos últimos anos, no mundo inteiro, tenha arrancado os telefones das mãos públicas para entregá-los aos grandes conglomerados da comunicação” (GALEANO, 2007, p. 283). Com a concentração da comunicação social nas mãos da iniciativa privada, temos, também, a transmissão de informações que operam no campo simbólico e na constituição do imaginário coletivo, permitindo que determinados valores sejam afirmados, enquanto outros são desqualificados. “Vivemos em um ambiente de mídia, e a maior parte de nossos estímulos simbólicos vem dos meios de comunicação” (CASTELLS, 2010, p. 421). O que temos, então, é a configuração de um padrão único, prejudicial a democracia da sociedade, na medida em que impõe um modelo e, a partir dele, desqualifica outras perspectivas. Há, assim, uma tentativa de homogeneização de valores, gostos, costumes, que estão atrelados aos interesses do lucro e da manutenção dos privilégios das empresas de

comunicação de massa 4 . "Através dos meios massivos de comunicação, os donos do mundo nos comunicam a obrigação que temos todos de nos contemplar num único espelho, que reflete os valores da cultura de consumo." (GALEANO, 2007, p. 26). E este quadro se agrava mais quando, travestido de um discurso tecnológico de liberdade de expressão, temos a sensação de estarmos participando de uma verdadeira democracia amarrada nas redes sociais dos meios virtuais. “A tecnologia põe a imagem, a palavra e a música ao alcance de todos, como nunca antes ocorrera na história humana, mas essa maravilha pode se transformar num logro para incautos se o monopólio privado acabar impondo a ditadura da imagem única, da palavra única e da música única” (GAELANO, 2007, 286). O processo de homogeneização, que se apóia no constructo simbólico transmitido pelos meios de comuncação, acaba por converter potenciais cidadãos em consumidores práticos, dentro da lógica da globalização do mercado econômico, o individualismo e a competitividade são estimulados, ao passo que outras sensibilidades, fundamentais para construção de um processo de democratização abrangente, como a solidariedade, a individualidade são adormecidos. “A glorificação do consumo se acompanha da diminuição gradativa de outras sensibilidades, como a noção de individualidade que, aliás, constitui um dos alicerces da cidadania” (SANTOS, 2000, p. 35). A concentração dos meios de comunicação impede, assim, o diálogo entre a pluralidade de vozes que compõe nossas sociedades, afetando a própria democracia. “A informação fabricada é econômica e geograficamente concentrada. Dispondo da exclusividade dos canais de difusão, os responsáveis pela informação descem até os indivíduos, ao passo que estes não podem fazer subir suas aspirações até eles. Essa desigualdade é tanto econômica e social quanto geográfica. Quanto mais longe dos centros do poder, mais difícil é fazer ouvir a própria voz” (SANTOS, 2000, p. 92) 5 .

Democratização dos meios de comunicação e a construção do diálogo e do respeito Há o reconhecimento de que o tema da democratização da comunicação surge como pauta política e tópico de estudos originalmente na América Latina (MATTELART, 2011, p. 119), uma vez que há experiências latinoamericanas de transformações sociais que auspiciam a construção de uma sociedade mais democrática, o que implica em dizer, que as estruturas sociais, e aqui se insere a comunicação, também precisam se democratizar. Na esteira deste processo, é histórica e constante a luta de grupos populares que buscaram articular a comunicação com a organização popular, passando pelo seu caráter pedagógico de contribuição ao processo de conscientização política e se fortalecendo no diálogo como base para a construção de uma sociedade mais justa, participativa e democrática. A

importância das experiências de Paulo Freire, na educação popular, e de Mario Kaplún, na comunicação popular, são fundamentais para compreedner este processo que articula a educação e a comunicação com o diálogo para uma proposta de transformação social que não se dá de forma diretiva, mas em comunhão 6 . “Notemos que a América Latina distinguiu- se bastante cedo, e de maneira constante, por sua reflexão sobre o vínculo entre comunicação e organização popular” (MATTELART, 2011, p.119). Para um verdadeiro processo de democratização da comunicação, é preciso levar em consideração o fato de que a concentração dos meios de comunicação impedem outras perspectivas de se expressarem, ou seja, “a liberdade de expressão está condicionada à possibilidade de expressão” (FERRÉS, 1996, p. 66) 7 . Impedir a ampliação das possibilidades de expressão é algo que inviabiliza o diálogo e desrespeita as diversidades, enfraquecendo não só a democratização dos meios de comunicação, mas também a própria democracia. “La democracia no sólo permite la diversidad sino que debiera estimularla y requerirla. Porque necesita de la presencia activa de los ciudadanos para existir, de lo contrario es masificadora y genera indiferencia y conformismo” (SABATO, 2006, p. 98). Na Venezuela, o governo estatal vem estimulando uma outra comunicação por meio de programas de formação organizados pelo Ministerio del Poder Popular Para la Comunicación y la Información (MINCI) e alguns em parceria com o Instituto Cubano de Radio y Televisión (ICRT), por meio do Convenio de Cooperación Integral Cuba–Venezuela. Trata-se de uma proposta de formação para a comunicação comunitária. Proposta que sustenta uma outra comunicação que vai ao encontro dos anseios populares e que, por isso, cria enfrentamento com a as empresas de comunicação, aquela que mantem privilegios e cria uma rede de privilegiados em uma sociedade injusta calcada nos valores mercantis 8 . Esta outra comunicação valoriza o local, a comunidade, projetando mudanças e transformações na política, caracterizando a democracia com a participação popular e não somente com a representação partidária. “Los medios populares, alternativos y comunitarios son fundaciones comunitarias, que persiguen generar cambios sociales, basado en las necesidades e intereses de las comunidades locales para impulsar la participación democrática y consolidar la cultura regional” (USECHE; ROMERO; ESCALONA, 2010,

p.19).

A democratização da comunicação na América Latina, cuja concentração dos meios de comunicação é muito evidente e enfática, passa pela proposta de uma outra comunicação que não está apoiada nos valores de mercado, mas nos princípios éticos de solidariedade e comunidade. Esta outra comunicação “no está dada por un emisor que habla y un receptor que escucha, sino por dos o más seres o comunidades humanas que

intercambian y comparten experiencias, conocimientos, sentimientos (aunque sea a distancia a través de medios artificiales). Es a través de ese proceso de intercambio como los seres humanos establecen relaciones entre sí y pasan de la existencia individual aislada a la existencia social comunitaria” (KAPLÚN, 1998, p. 64).

1

Em Histórias das teorias da comunicação, escrito por Armand e Michèle Mattelart (2011), é possível acompanharmos as diferentes construções teóricas que diversas escolas epistemológicas atribuíram à comunicação no decorrer do processo histórico. O livro traça a relação entre a teoria da comunicação e a sua relação com determinado período histórico, bem como com os interesses políticos e econômicos que condicionam as construções teóricas. Um destes contextos históricos diz respeito à construção da teoria da informação que começou a ganhar força no final da dáecada de 1940, após o final da guerra. A teoria da informação baseou-se nos avanços no campo da comunicação militar e na teoria matemática da comunicação desenvolvida pelo engenheiro Claude Elwood Shannon que propôs um sistema linar de comunicação baseado nos conceitos de emissor/codificador, mensagem e receptor/decodificador. Desenvolveu este modelo trabalhando na empresa de telecomunicações American Telegraph & Telephone (AT&T) com o objetivo de aprimorar os sistemas de comunicação, evitando ruídos e tornando a comunicação um negócio rentável (MATTELART, 2011, p. 57-58).

2

Neste trecho, Eduardo Galeano resume o papel da Rede Globo no processo eleitoral e na deposição do presidente Fernando Collor: “Fernando Collor, que tinha sido modelo de Dior, chegou à presidência do Brasil, em 1990, por obra da televisão. E a mesma televisão que fabricou Collor para impedir a vitória eleitoral da esquerda, derrubou-o um par de ano depois” (GALEANO, 2007, p. 305). Recentemente, declarações de Boni, que já foi o homem mais poderoso da Rede Globo, abaixo apenas do dono Roberto Marinho, revelaram detalhes de como a Rede Globo, supostamente, manipulou informações e criou um personagem em cima da figura de Collor, a fim de evitar que a esquerda chegasse ao poder nas eleições presidenciais de 1989. O mais curioso, senão trágico, é que estas declarações foram dadas em um programa de televisão de um dos canais das organizações Globo

3

“Três políticas inter-relacionadas construíram os alicerces da globalização: a desregulamentação das atividades econômicas domésticas (que começou com os mercados financeiros); a liberalização do comércio e dos investimentos internacionais; e a privatização das empresas públicas (quase sempre vendidas a investidores estrangeiros). Essas politicas, iniciadas nos Estados Unidos em meados da dec ada de 1970, e na Inglaterra no inicio da decada de 1980, espalharam-se por toda a Uniao Europeia na decada de 1980 e se tornaram predominantes na maioria dos paises do mundo, e padrão normal no sistema econômico internacional na decada de 1990” (CASTELLS, 2010, p.178).

4

A lucratividade é quem dita a atuação das industrias culturais, o que implica em dizer, que a construção simbólica e do imaginário está, no momento histórico em que vivemos, contaminadas de valores mercadológicos e, portanto, carregada de individualismo, competitividade, solidão. “A indústria cultural, que se articula em escala mundial, é uma indústria no sentido próprio e figurado. Trata-se de um setor produtivo altamente rentável, ao mesmo tempo que leva mensagens, fórmulas, ideais, valores: a liberdade econômica como fundamento da liberdade política; o padrão de consumo das economias capitalistas dominantes como símbolo de progresso, bem estar, felicidade; e assim por diante. (IANNI, 1993, p. 96).

5

Os grifos são de Milton Santos e reforçam a ideia de uma comunicação verticalizada que impede a construção do diálogo e a participação da população nos meios públicos de comunicação social.

6

No livro Pedagogia do oprimido, Paulo Freire (2005) vai apresentar a teoria da ação dialógica como fundamental para a orientação de projetos de transformação social que se pautam na busca constante da superação de situações-limites e na construção do ser-mais. Há a proposta de uma pedagogía realizada em comunhão com os oprimidos, firmando uma educação popular que não se separa, mas se fortalece, no processo de conscientização e participação política. No livro Una pedagogía de la comunicación (1998), Mario Káplun sustenta a ideia de que a comunicação precisa se pautar em processos de diálogo que vão caminhando para uma maior apropriação dos meios de comunicação por grupos populares, amplinado, também sua participação política.

7

Aqui caímos em um terreno cheio de armadilhas em torno do conceito de liberdade de expressão. Muitas vezes, na América Latina, quando há mecanismos que estejam reagindo contra o monopólio da informação única e da tentativa de manipulação da mídia, surge a velha ladainha da defesa da liberdade de expressão. Ora, em uma sociedade democrática é preciso lutar, antes, pela liberdade de se expressar. Há um trecho de um artigo escrito por Cicília Peruzzo que analisa esta questão: “nem se cogita a possibilidade de restrições à liberdade de informação e de expressão. Porém, direito à comunicação na sociedade contemporânea requer a negação da concentração da mídia nas mãos de grandes grupos econômicos e políticos; pressupõe o direito a mensagens fidedignas e livres de preconceitos; e inclui o direito ao acesso ao poder de comunicar. Ou seja, pressupõe que o cidadão e suas organizações coletivas possam ascender aos canais de informação e comunicação – rádio, televisão, Internet, jornal, alto-falantes etc. – enquanto emissores de conteúdos, com liberdade e poder de decisão sobre o que é veiculado. Nessas condições, o cidadão se torna sujeito, assumindo um papel ativo no processo de comunicação. Os meios de comunicação são bens públicos constituídos pelo conhecimento acumulado pela

humanidade. Pertencem à coletividade e a ela devem estar subordinados. Tanto o controle oligárquico dos meios de comunicação, como o impedimento ao acesso amplo das comunidades aos canais de comunicação, decorrem de contingências históricas que podem ser transformadas pela ação dos próprios cidadãos (PERUZZO, 2007, p. 27). 8 As transformações que vem ocorrendo na comunicação social na Venezuela mostram que o processo de democratização da comunicação nos países latinoamericanos não se dará de forma tranquila, uma vez que ataca a concetração dos meios de comunicação de massas que estão na iniciativa privada, todavia, a luta é extremamente importante e da sinais de um processo de democratização da comunicação em curso. Em 1998, na Venezuela, havía 331 emissoras FM privadas autorizadas e 11 estatais; 36 TV comerciais e 8 públicas. Não havía emissoras comunitárias. Em 2012, o número de emissora FM aumentou em 508 operadoras privadas e 86 públicas, destaque para a implantação de 249 operadoras comunitárias. Enquanto as concessões para televisão cresceram da seguinte maneira: 119 TV por sinal aberto: 66 operadores privados; 14 públicos e 39 comunitários. Os dados comprovam uma grande ampliação dos meios comunitários, o que significa mais diversidades de perspectivas sendo colocadas em diálogo. Estes dados podem ser conferidos em http://www.minci.gob.ve/2012/09/04/venezuela-destaca-por- su-soberania-comunicacional/

Bibliografia

CASTELLS, Manuel (2010). A Sociedade em Rede. São Paulo: Editora Paz e Terra. FERRÉS, Joan (1996). Televisão e Educação. Porto Alegre: Artes Médicas. FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra. GALEANO, Eduardo (2007). De pernas para o ar: a escola do mundo ao avesso. Porto Alegre: L&PM IANNI, Octávio (1993). O labirinto latino-americano. Petrópolis-RJ: Vozes. KAPLÚN, Mário (1998). Una pedagogía de la comunicación. Madrid: Ediciones de la torre.

MATTELART, Armand e Michèle (2011). História das teorias da comunicação. São Paulo:

Edições Loyola. PERUZZO, C.M.K. (2007). Direito à comunicação comunitária, participação popular e cidadania. Lumina, 1, 1 – 29. SABATO, Ernesto (2006). La resistencia. Buenos Aires: Seix Barral. SANTOS, Milton (2000). O espaço do cidadão. São Paulo: Studio Nobel. USECHE, M., ROMERO, M., ESCALONA, Y. (2010). Estrategias de formación en la comunicación popular, alternativa y comunitaria en Venezuela. CONHISREMI, Revista Universitaria de Investigación y Diálogo Académico, 6, 1, 15 – 31.