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FUNDAÇÃO MARIO COVAS

em revista
ano 1 - março 2009 - n º 4
Em revista

história oral
editorial

Uma história contada


por muitos
Você lembra aquele dia quando estávamos...
Uma vez ele me contou...
Durante uma discussão ele sempre...
A participação dele foi...
Eu me lembro um dia em que ele...

As frases iniciadas assim foram recorrentes nos últimos oito meses de 2008, durante a
realização do Projeto de História Oral, do Centro de Memória da Fundação Mario Covas. Um
projeto que veio concretizar um antigo anseio do grupo mais próximo de colaboradores,
amigos e familiares do ex-governador. Nos anos de convivência com ele, eram comuns
os comentários: “Ah! Essa história é muito boa. Precisamos colocar isso no papel. Alguém
está registrando tudo isso?”. O corre-corre cotidiano impediu o registro organizado dos
momentos e bastidores presenciados pelas testemunhas da trajetória de Mario Covas.

Muitos registros existem em documentos, livros, entrevistas, reportagens, jornais, áudio


e vídeo. Inúmeros já resgatados e organizados em nosso Centro de Memória. Mas nós
queríamos ir além, queríamos mais. E fizemos. Fomos buscar na memória e na emoção
de cada um dos que compartilharam do dia-a-dia de Mario Covas um pedaço de sua
história. Juntas, as partes contam não só a vida de um homem público, mas a história
recente de um país.

As lembranças abrem as portas para o que veio antes e depois, diz Fernando Frochtengarten,
mestre em Psicologia Social da USP. No artigo Memória Oral no Mundo Contemporâneo, o
mestre afirma, com propriedade: “Uma recordação chama a outra, compondo uma teia
de rememorações mais ou menos singular, cuja textura se alinhava pela maneira como
cada memorialista recolhe e amarra as imagens pregressas e busca sua significação...”.
E mais: “Narrar o passado deveria ser um direito estendido a todos os homens. Aqueles
que partem sem ter o heroísmo de sua biografia reconhecido por um ouvinte deixam a
impressão de ter morrido duas vezes. Uma vida é vivida quando narrada.”

Antonio Carlos Rizeque Malufe


Presidente da Fundação Mario Covas

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índice

Fotoclip 6

Uma vontade realizada 8

A infância em Santos 10

Os amigos da praia 11

A Escola Politécnica, começo de tudo 12

Lila: mulher, amiga, companheira 14

Os filhos 16

Os netos 18

Os familiares 19

O trabalho do engenheiro 20

A primeira campanha 21

O senhor deputado 22

A cassação 23

Dez anos de iniciativa privada 24

Volta à política 26

A convenção de 1981 28

Prefeito de São Paulo 30

Senador constituinte 38

Nasce o PSDB 40

A campanha presidencial 42

Rumo ao governo de São Paulo 44

Governador de São Paulo 48

A reeleição 73

A saúde de Covas 75

Covas e os políticos 77

O estilo Covas 79

O legado 84

Créditos 86

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fotoclip
Uma vontade realizada
Em oito meses, o projeto de História Oral realizou 144 entrevistas,
gravadas em mais de 150 horas de vídeo digital

Mario e Lila Covas na posse do primeiro mandato como governador no Palácio dos Bandeirantes

Ao iniciar o trabalho de História Oral, do barzinhos e restaurantes, foi possível resgatar as


Centro de Memória da Fundação Mario Covas, histórias de quem, em algum momento, ou em
elaboramos uma lista entre familiares, boa parte de sua vida, trabalhou, presenciou,
amigos de Santos, contemporâneos da Poli, observou, conviveu e aprendeu com Mario Covas.
colaboradores da época da prefeitura de São
Paulo e do governo do Estado, adversários A equipe
políticos, líderes partidários e tantos outros.
Puxando pela memória, chegamos a uma No projeto de História Oral, coube a Ione Nunes,
primeira lista com 120 nomes. Fomos à luta, relações públicas, a tarefa dos agendamentos e
mas sabíamos que o ano eleitoral de 2008 contatos. “Ficou para mim o triste pesar por não
seria um complicador. Seria difícil conciliar ter tido a oportunidade de conhecer Mario Covas
agendas, horários, encontrar pessoas, todas pessoalmente, mas também a esperança por
elas atarefadas. Mas para nossa surpresa, no ter aprendido que é possível fazer política com
final de dezembro estávamos com mais de 150 seriedade, paixão e honestidade”, disse Ione.
horas de gravação.
A jornalista Márcia Telles ficou com a incumbência
Nos oito meses da primeira fase do projeto, a da pesquisa, da leitura de documentos, livros,
equipe percorreu os quatro cantos da cidade jornais e revistas para os depoimentos com os
de São Paulo, da periferia ao centro, das zonas memorialistas. “O jornalismo e a história utilizam
norte, sul, leste e oeste e também a cidade de um instrumento dos mais fascinantes para mim:
Santos. Em escritórios, residências e até mesmo a entrevista, o depoimento. Tive o privilégio de

8 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l


O governador Mario Covas caminha com a população em evento do governo do Estado de São Paulo

dar voz aos companheiros, amigos, familiares É claro que muitos temas importantes, do
e até adversários de Mario Covas, buscar suas cenário paulista e brasileiro, sugiram durante
experiências e memórias e, sobretudo, dar os depoimentos e muitos narram o mesmo
espaço a suas emoções”, disse Márcia. “Quantos episódio sob sua óptica. Nossa tarefa não era
choros foram gravados e quantas risadas foram fazer contrapontos ou chamar atenção aos fatos.
registradas”, lembrou. Ao também jornalista Muitos falaram sobre a atuação do engenheiro
Guilherme coube o trabalho técnico de gravação civil, outros sobre seu trabalho na prefeitura de
dos depoimentos em mini-DVDs, utilizando Santos, na capital paulista e no governo de São
o equipamento de vídeo da Fundação Mario Paulo. Alguns relataram passagens de Covas no
Covas. “Foi uma experiência única poder ouvir parlamento, como deputado federal e senador
relatos interessantes e fatos relevantes da da República, diversos depoimentos revivem
história contemporânea brasileira, contados por o político, a cassação, suas opções e embates.
personalidades de destaque da política e por O fato é que todos foram unânimes em deixar
pessoas comuns. Mas o que mais me impressionou registrado o comportamento e a postura ética e
foi saber como Mario Covas se importava com o moral de Mario Covas.
povo e suas causas”, afirmou Guilherme.
Ao finalizar o projeto com a produção desta
Não foi definido um padrão e muito menos revista, foi necessário fazer uma escolha editorial
um tempo de gravação para as entrevistas. A e, para isso, uma pergunta foi colocada: Como
ordem foi deixar falar, estimular a memória e editar tantas entrevistas gravadas em vídeo em
contar histórias. As únicas exigências, se é que uma publicação impressa e com limitação de
podemos chamá-las assim, foi contar como os páginas? Optamos por ter como fio condutor a
entrevistados conheceram Mario Covas, qual história cronológica da vida de Mario Covas. Com
o seu legado, e que relatassem passagens ou isso, pudemos organizar melhor os depoimentos,
momentos que mostrassem o “estilo Covas” ao e deles retirar breves, mas importantes extratos.
lidar com as mais diferentes situações.
Outra escolha foi apresentar os entrevistados
Foram meses de pura emoção. Primeiro, porque os com a designação que tinham à época dos fatos
entrevistados ficaram empolgados em participar relatados. Pois bem, o projeto de História Oral da
do projeto; segundo, porque todos, sem exceção, Fundação Mario Covas não acaba aqui. Ele será
tinham histórias pessoais para contar, o que disponibilizado na internet, no site da Fundação,
nos leva a crer que, mesmo com aquele jeito para que todos tenham acesso, e mais, muitos
que muitos consideravam turrão e bravo, Covas depoimentos não entraram nessa edição, já
fez com que todos que com ele conviveram que os prazos acordados impossibilitaram essa
fossem considerados especiais, e terceiro, risos e tarefa e outros depoimentos ainda precisam ser
lágrimas correram soltos nas entrevistas, muitas colhidos, jáque muitas histórias ainda precisam
delas com mais de duas horas de gravação. ser contadas.

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A INFÂNCIA EM SANTOS
De onde veio o apelido zuza? nidia covas barrenuevo, única irmã de
mario covas, conta essa e outras histórias

Mario Covas Junior nasceu em Santos em 21 de abril de 1930, filho do comerciante de café Mario Covase
neto de Jesus Covas Peres, espanhol de Pontevedra, que imigrara para o Brasil com 14 anos. Sua mãe,
Arminda Carneiro Covas, descendia de portugueses e brasileiros. A Casa Comissária Covas & Assunção,
sociedade entre Covas pai e Horácio Assunção, permitiu que a família levasse vida de classe média alta.

para Lambari, uma estação de águas. Naquele


ano, o Zuza, pequeno, foi com ela e eu fiquei
com papai, pois estava em aula. No Carnaval,
eu e papai fomos encontrar com eles. Não é que
papai começa a flertar com uma funcionária do
hotel? Mamãe, desconfiada, foi encontrar os dois
namorando numa praça. Papai tomou uma surra
de guarda-chuva, e nós voltamos para casa.

O arteiro

Somos de uma geração em que menina brincava


com menina, e menino, com menino. Portanto,
não tenho muitas recordações de nossa infância
juntos, até porque, dos 7 aos 18 anos estudei
em uma escola onde ficava semi-interna. Ia
Nidia Covas Barrenuevo
pela manhã, e só voltada para casa no início da
noite. Zuza era muito arteiro. Adorava mexer
nas minhas coisas, que eram muito organizadas,
Os avós e gostava futebol. Uma vez, estávamos na
calçada lá de casa, e os vizinhos soltavam fogos
Nosso avô paterno, Jesus Covas de artifício. Ele gostava muito. Não é que um dos
Peres, veio da Espanha, da região fogos veio bater no peito dele? Foi uma correria
da Galícia, com 14 anos de idade, danada, e a queimadura foi grave.
acompanhado por um tio. Contam que ele seria
filho de um padre. Mas nunca conseguimos checar Quem conviveu com ele deve lembrar que o Zuza
isso. Minha avó paterna, Ana Rodrigues Peres, tinha dificuldade de audição em um dos ouvidos.
era portuguesa. Veio ao Brasil com três anos de Quando era menino, teve uma infecção muito
idade. A grande coincidência é que depois de séria, que acabou perfurando o tímpano. Fez
muitos anos eles se conheceram e descobriram tratamento, mas ficou a seqüela. Na época, ele
que chegaram ao Brasil no mesmo navio. Do ficou anêmico, e o médico receitou bastante ferro
lado materno, o vovô era português e tinha na alimentação. Eu acabei entrando na dança.
uma panificadora em Santos. Vovó Rosalina era Todo dia, mamãe fazia sopa de aveia com caldo
brasileira. Eles tiveram sete filhos, três homens de bife de fígado. Ela passava o bife na frigideira
e quatro mulheres. Papai, Mario Covas, o mais bem rápido, e depois extraía o suco. Ficamos
velho dos homens, era um comerciante bem- fortes, mas nunca mais comemos fígado.
sucedido em Santos. Nós não nascemos em berço
de ouro. Todos sempre trabalharam muito. Mamãe era festeira, gostava de Carnaval, festa
junina. No Carnaval, ela sempre nos fazia
O pai e a mãe fantasias muito elaboradas. Nas festas juninas
também colocávamos roupas típicas, e o nome
Papai era um homem generoso e solidário. Não Zuza vem daí. Uma vez, escreveram esse nome
era bonito nem atraente, mas tinha alguma coisa do chapéu de palha dele e pegou. Zuza pra cá,
que agradava as pessoas. Era um pouco Don Juan, Zuza pra lá, e o apelido ficou. Na
mulherengo. Separou-de de mamãe no final de família e para alguns amigos mais
1948: ela foi morar em São Paulo, e ele ficou em próximos, Mario Covas era papai;
Santos. Foi um casamento tumultuado. Lembro- meu irmão era o Zuza. Ele adorava
me de uma passagem. Mamãe todos os anos ia uma anedota e era muito amoroso.

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OS AMIGOS DA PRAIA
Líder nato, mario covas discutia política na adolescência, entre
um e outro jogo de futebol com os amigos de santos

O próprio Mario Covas, que nunca se vangloriou de sua infância confortável, nunca a escondeu, destacando
que a prosperidade atingia uma grande parte dos santistas. Fez muitos amigos em Santos e os cultivou.
Em 1998, ao final de seu primeiro mandato no governo do Estado, autorizou a restauração do prédio da
Bolsa Oficial de Café de Santos, o que lhe valeu um agradecimento formal dos Amigos de Mario Covas.

Luiz Pereira de Carvalho


amigo de escola

Estudamos juntos por um bom tempo. O Zuza foi


filho de pai rico e de pai pobre, mas para ele não
tinha problema, tratava todos de forma igual.
Ele era pequeno, gordinho, alegre, gostava de
Carlos Frigério tirar sarro dos outros e a paixão era o futebol,
amigo de juventude ou melhor, o Santos Futebol Clube. Tínhamos
cadeira cativa. Era fácil ser amigo de Covas.
A turma se reunia na praça Fernandes
Pacheco, para conversar e jogar futebol. Ali Mario
Covas já demonstrava liderança. Com 13 ou 14
anos, falava sobre política e tinha atitudes firmes
e sérias. Nós jogávamos vôlei e, uma vez, fomos a
Campinas jogar contra um time de lá, que tinha
grande rivalidade com o nosso pessoal de Santos.
Nós ganhamos a partida, e a torcida campineira
xingava, ameaçando. O diretor do Campinas
sugeriu que o time do Santos saísse pelos fundos,
para evitar tumulto. ‘Vamos sair pela frente’,
decidiu Mario Covas. No futebol, Covas era um
craque. Aos domingos, jogávamos no Caiçara
Club – e isso durou até quando já era deputado.
Mas quando Covas achava que era falta, parava Elias Abib Elias – amigo
a bola e falava para o juiz: ‘marca aí!’. Eu fui um
dos fundadores do grupo Amigos do Mario Covas, Naquela época ele já mostrava que poderia ser
criado quando ele concorreu à prefeitura de um bom político. Sempre que voltava a Santos,
Santos. Saíamos às ruas com cartazes, fazendo era procurado por muitas pessoas e atendia a
o corpo a corpo. Ele tinha uma lealdade muito todas. Quando ele fez o discurso em defesa de
grande com o grupo, que o acompanhou a vida Marcio Moreira Alves, todos nós fomos para a
toda, em todas as campanhas. Depois de cada casa dele. Eu lembro da prisão na Base
eleição, Covas marcava um almoço ou um jantar Aérea e da atitude da Lila que, depois de
com os amigos. Ele era um líder, e nós, jovens saber onde ele estava, se plantou lá com
revolucionários, achávamos que Covas era o mais os filhos até deixarem -na ver o marido.
indicado para defender nossos ideais. Um ato maravilhoso, o dela.

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A ESCOLA POLITÉCNICA,
COMEÇO DE TUDO
Durante o curso de Engenharia Civil, Covas casou-se com lila e
despontou como um brilhante orador
Em Santos, Covas cursou o primário e parte do secundário, integrantes do atual ensino fundamental.
Transferiu-se em 1947 para São Paulo, onde preparou-se para o ingresso no ensino superior. Formou-se
em Química Industrial pela Escola Técnica Bandeirantes em 1951 e graduou-se em Engenharia Civil pela
Escola Politécnica da Universidade de São Paulo – Poli-USP, em 1955.

Plínio Assmann
amigo da Poli e
secretário de
Transportes do Estado

Uma característica inesquecível


de Mario Covas é que, naquela época, ele já era
um orador brilhante. Teva uma vez em que duas
alunas de Engenharia de Porto Alegre, filhas de
militares, teriam por lei o direito à transferência
para a Poli sem novo vestibular. Isso mexeu
com os brios de todos, toda a comunidade era
contrária. O grêmio convocou uma assembléia
para discutir o assunto, com as duas moças
presentes. O Zuza fez um discurso fenomenal e
convenceu a todos que elas fossem aceitas. O
Mario era sentimental e detentor de uma lógica
objetiva, clara.

João Carlos de Souza Meirelles


amigo da Poli e secretário
Adão Clementino Coltri da agricultura
amigo da Poli
Naquele momento (anos 1950) havia um estado
Quando estávamos na Poli, fomos à Faculdade muito positivo de tensão que se manifestou
de Direito da USP falar sobre a greve. Na época em tudo, até na música popular brasileira, o
existia muita disputa, e os alunos do Direito surgimento da bossa nova, uma coleção de
não respeitaram o presidente do grêmio da Poli. valores culturais e políticos que explodiam. E o
Mas o Zuza não titubeava e fez um discurso que Mario era entre todos nós um dos grandes líderes,
acabou, arrasou os alunos de Direito, e dentro da respeitado dentro da escola. Empolgava pelo que
casa deles, a faculdade do Largo São Francisco. foi a marca de sua vida inteira: a higidez do seu
Vieram cumprimentá-lo. Onde o Mario falava, a caráter e a coerência ideológica permanente. O
argumentação prevalecia. Mario elegeu como padrão de vida a coerência.

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Paulo Breves Stefani
amigo da Poli

Ficamos na mesma turma na Escola Politécnica e


também na de topografia. Mario Covas tinha uma
liderança natural. No terceiro ano, interessei-
me pelo futebol. No quarto ano, participei
da competição Pauli-Poli. O Mario não jogou,
ganhamos de 1 a 0 e eu fiz o gol. No último ano,
além de jogador de futebol, Covas era o técnico.
Toda quarta-feira tinha treino. Eu só pensava no
jogo contra o Mackenzie, era o primeiro Mack-
Poli. No dia do jogo, o Mario me deu uma camisa
de reserva e disse: ‘não fica sacaneado’. Não
fiquei. Entrei no segundo tempo, fiz um gol e
ganhamos de 2 a 1. Ele era inteligentíssimo, uma
liderança espontânea, natural.

Mário Eduardo Duarte Garcia


amigo da Poli

Mario Covas era brincalhão, mas muito


responsável e sério. Trabalhava enquanto
estudava e foi um dos poucos que se casaram
durante o curso. Ele dava aulas no cursinho
da Poli e se dedicava muito ao grêmio, que
funcionava como uma empresa. O Centro
Acadêmico representava os alunos perante a
direção da escola, mas o mais importante era
participar de movimentos políticos estaduais e
nacionais. A gente se metia em tudo, na morte
do Getúlio, na tentativa de impedir a posse de JK.
O Covas tinha uma presença forte, personalidade
marcante, fazia tudo com muita seriedade
porque já trabalhava e acompanhava a vida
política. Mas seguia sempre uma linha voltada à
política como vivência do bem comum.

José Carlos Nadalini


amigo da Poli

Até hoje guardo uma camiseta comemorativa dos


50 anos da Atlética da Poli, que traz estampada
na parte de trás o trecho de um discurso de Covas
no Senado, que diz o seguinte: ‘Na mesma medida
que a Escola Politécnica forma o profissional, é o
esporte que desenvolve no homem os principais
aspectos do seu caráter. É onde se aprende a
ganhar e a perder, é onde se pratica o tempo
todo a solidariedade, é onde se
cultua o respeito pelo oposto.
A Atlética da Poli faz isso: ela
ajuda a melhorar o ser humano’.

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LILA:
MULHER, AMIGA, COMPANHEIRA
Ainda estudante da Poli, Mario Covas casou-se com Florinda
Gomes, que lhe deu três filhos e apoio incondicional

Envolvido em política desde os tempos da faculdade, Mario Covas chegou a dirigente da União Estadual
dos Estudantes (UEE) e da seção paulista da União Nacional dos Estudantes (UNE). Ainda cursando
Engenharia, na Poli, Covas casou-se em 15 de outubro de 1954 com Florinda Gomes, a Lila. Permaneceram
juntos durante 55 anos. Tiveram os filhos Renata, Sílvia e Mario Covas Neto (Zuzinha). Um quarto filho,
Tomás, nasceu em Brasília no dia 10 de agosto de 1968, mas viveu apenas poucas horas. O casal teve
quatro netos: Bruno, Gustavo, Mario Covas e Silvia.

A vida em Brasília de semana. Quando foi eleito líder, a família


mudou-se para Brasília. Só o deputado tinha
Quando nos casamos, o Mario ainda direito a passagem de avião. Eu, dirigindo, e
estudava, e os colegas da Poli iam meus filhos, fomos e voltamos de carro fazendo
lá para casa. Na Câmara Federal, era a mesma a mudança, naquela estrada vazia, quilômetros
coisa. Em Brasília, os parlamentares ficavam e quilômetros. Mas eu gostava. Antes de mudar
sem as mulheres. O Mario era Caxias, ia até o fim para Brasília, coloquei uma escrivaninha na sala
da sessão, e, depois, levava todo mundo para de nossa casa em Santos e ficava atendendo os
casa. Adorava certas coisas e achava que eu ia eleitores de manhã e à tarde. Em Brasília, passei
adorar também. O xadrez, ele queria me ensinar, a ser mulher, mãe e dona de casa, coisa que eu
e eu nunca quis. Em Brasília, se ele ia fazer um não era havia muitos anos.
discurso, eu tinha de estar lá, aplaudindo. O
Mario era ciumento: eu só podia bater palmas A prisão
para ele e lá na Câmara, junto com os jornalistas.
Mario foi levado para a Base Aérea de Cumbica,
Quando o Mario foi eleito deputado federal, ia sem que a família fosse informada. O Oswaldo
para Brasília e voltava no fim de semana. Eu Martins e o Fausto, meu irmão, seguiram a
ia levá-lo e buscá-lo no aeroporto todo fim Kombi que levava o Mario, mas se perderam

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em determinado ponto. Foi numa noite de passava na vida pública. No primeiro Carnaval
sexta-feira. No sábado, ligou o secretário de um da cassação, voltamos logo para casa. As pessoas
ministro procurando pelo Mario e eu respondi: choravam, vinham dizer que tinham rasgado
‘ele que procure, porque o Mario foi preso ontem, o título. Aquilo fazia mal para ele. As pessoas
aliás, raptado, já que não avisaram a família’. sumiram não por desprezo, era a vida normal. Mas
Mandaram-me preparar uma mala, que levariam todos continuaram amigos. O Mario não falava
para o Mario. A mala voltou e logo vi que o em política, evitava completamente. A Renata
ministro ia cair. E caiu. dizia: ‘Como o papai aguenta?’ Ele pensava que
atrapalharia os outros. Mas não se lamentava.
No sábado, liguei para todos os quartéis em São
Paulo. Eu sabia que o oficial que tinha recebido Sem jornal
o Mario era um major e ele ainda estaria em
serviço. Falei com todos, e nada, não conseguia No começo, a cassação foi difícil, ele chutou muita
informação. Liguei para uns amigos do Mario, que coisa, muita canela. Passei a não comprar mais
eram colegas da Poli e trabalhavam na Prefeitura. jornal. Ele lia no café da manhã e passava mal.
Eles montaram um grupo e foram procurar o Paulo Via o futuro. Passamos dificuldades no início.
Maluf, que era prefeito de São Paulo e estava de Tiramos as crianças da escola paga, dispensamos
cama, com gripe. Com um telefonema, o Maluf a empregada, vendemos o carro e hipotecamos
descobriu onde o Mario estava preso e pediu que a casa. As crianças aprenderam a pegar ônibus e
não contassem a ninguém que essa informação compreenderam, ninguém foi para o psicólogo.
havia sido dada por ele.
A fé
A greve de fome
Mario era religioso. Rezava todo dia de manhã
Às onze e meia da noite, fui para Cumbica com com o joelho no chão. Não deixava de rezar um
meu irmão Tite e minha cunhada. Levei roupa e só dia, atrasado ou não. Na Câmara Federal,
um bilhete que dizia o seguinte: ‘Sei que você quando fazia algum discurso na tribuna, ficava
estará logo de volta porque acredito em quem descalço, em respeito. Ele dizia que era um ato
comanda a nação.’ Sabia que o Mario ia ficar de humildade, para pedir ajuda, para proteger e
bravo, mas era o jeito de o bilhete chegar até usar as palavras certas. Nunca ninguém viu.
ele. Na segunda-feira, o major Vale me ligou e
eu entrei em Cumbica. O Mario estava em greve A política
de fome, o major não queria que acontecesse
nada com ele. E eu disse: ‘Vocês querem que eu
Participei de todas as campanhas e da vida
acredite nisso? Foram raptá-lo no escritório’. O
partidária do Mario. Na prefeitura e no governo
major então me mandou escrever um bilhete para
do Estado, trabalhei, ajudando quem mais
o Mario, eu não quis. O Mario me disse depois
precisava, como os mais pobres, os mais velhos e
que, pela janela, me via entrar e sair do prédio.
os portadores de necessidades especiais. Aprendi
Escrevi o bilhete e o Mario só assinou. Comecei a
com o Mario e defendo a militância partidária.
chorar, o major quase me pegou no colo.
Nas campanhas, montava comitês.

Eu ia lá dia sim, dia não. O Mario falava: ‘Vamos No começo, os comitês funcionavam na minha
sair do país’. Depois, esqueceu. Ele só recebeu casa. Depois, fomos crescendo, nos organizando,
a mala na segunda-feira, quando eu estive lá. buscando parceiros e implantando novas ideias.
Eu levava pastel e eles me deixavam ficar. Mario Formei o Clube dos Tucaninhos. Os adultos ainda
ficou 23 dias preso. Quando saiu, às dez da noite, tinham medo de entrar em comitês políticos.
ligou dizendo que queria sopa de ervilha. Eu fiz. Aí pensei, vamos formar as crianças, falar de
política, mostrar a elas os direitos e deveres dos
A cassação cidadãos. Com isso, as crianças
passaram a chamar os pais. Quando
Com a cassação, sumiu todo mundo. Foi outra saí, deixei 25 mil crianças formadas
vida. Antes iam lá em casa saber o que se no Clube dos Tucaninhos.

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OS FILHOS
Renata e Mario Covas Neto falam da convivência com o pai político
e das lições que aprenderam com ele

A cassação

Meu pai ficava caladão, nunca praguejou contra


a cassação. Devia sofrer. Minha mãe cortou o
jornal de casa. Devia ser doloroso. As pessoas
começaram a atravessar a rua, não porque eram
canalhas, mas porque tinham medo. Minha mãe
costumava passar no ponto de ônibus e oferecer
carona. Apareceu um jogo de botão no carro.
Não era o do Zuzinha. Um dia, toca o telefone,
era o menino que esqueceu o jogo no carro. Foi
buscar lá em casa. O muro era baixo. O pai ficou
na outra esquina para não ser visto na casa do
Mario Covas. Imagine como o clima era ruim. Daí
para a frente nada mais nos impressionou.

A prefeitura de São Paulo

“Na época da prefeitura, eu ia muito aos


mutirões. Ou eu ia ou não via meu pai. Tudo
o que era fora do gabinete ele adorava. Dizia
que só assim é possível ver a realidade. Foi
ali, na periferia da cidade, que ele começou a
ficar impressionado com a força das mulheres.
Naquela época não era como hoje. As mulheres
ficavam no bairro e sabiam o que era preciso, as
mulheres estavam à frente das associações. Ele
fez coisas incríveis, como a criação do Passe dos
Renata Covas Lopes
Idosos. Tratou de forma correta o acampamento
de funcionários na porta da Prefeitura e fez a
intervenção nas empresas de ônibus. Tinha que
O estilo ser muito macho para fazer. Foi em cima de uma
ameaça dos donos das empresas de ônibus. Ele
Quando eu era pequena, mudamos de ficou tão danado e foi muito corajoso.
casa. Me lembro de entrar na nova casa
de mãos dadas com ele. Subimos para ver os As campanhas de 1989 e 1990
quartos, e eu me decepcionei, achei pequenos.
Ele falou que havia famílias inteiras que A campanha presidencial de 1989 foi uma
moravam num quarto do tamanho daqueles. loucura, a mais bonita. Foi a última vez em que
Quarenta anos depois, ele, como governador, o vi apaixonado pela política, trabalhando com
se dedicou à habitação. Em outra ocasião, já muita garra. Era uma candidatura para valer, e,
adulta, estávamos vendo TV, e passou uma no final das contas, ele ficou sozinho. Ia para
reportagem sobre a Lei do Inquilinato. Achei que lugares onde não tinha praticamente ninguém.
era sacanagem com o dono do apartamento. Ele Em 1990, o partido apertou e ele saiu candidato,
imediatamente falou: ‘É porque você pensa com mas acabou ficando sozinho. Puxaram o carro.
a cabeça do dono, tem que pensar com a cabeça No meu entendimento, o povo estava com
do inquilino’. Meu pai não gostava de música e muita raiva do apoio de Mario Covas a Lula, no
fez a Sala São Paulo. Não mexia com cartão, e fez segundo turno da campanha presidencial. Mas
o Poupatempo. Falo dele com orgulho, e não com eu acho que não tinha outro jeito e teria ficado
vaidade. Ele era um cara legal. assombrada se ele apoiasse o Collor.

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Mario Covas Neto
Líder na Constituinte
A cassação Vivi uma experiência que talvez nunca tenha
novamente, numa reunião dele com lideranças
Lembro de voltar da escola e encontrar minha partidárias. O que fosse consensual era colocado,
mãe fritando alguma coisa e chorando: ‘seu pai o que não tinha acordo, ficava para depois.
Era fantástico. Várias pessoas representativas,
foi preso’. Eu tinha uns dez anos, não tinha a
lideranças, cada uma com sua convicção,
dimensão das coisas. Aquilo era um problema de
fazendo defesas brilhantes. Eu não sabia para
adultos. Mas lembro que aí começou uma nova que lado eu ia. Uma experiência das mais ricas.
fase na família. De mais convívio com os filhos, E ele ficava por último. E assim foi. Ele era o
de maior proximidade. Ele teve uma conversa marisco entre a onda e a pedra. Se subordinava
comigo e com minhas irmãs bastante séria. à opinião da maioria.
Perguntou se nós achávamos que ele era um bom
pai. Eu fui claro e disse que não. A Renata ficou O PSDB e a campanha presidencial
brava comigo. Mas acho que a resposta fez com
que ele nos desse mais atenção. Na Constituinte, ficou claro que o PMDB era
inviável para tantas correntes. Valeu para a
redemocratização do país, mas era um momento
O apoio a Lula novo. Acho que o PSDB acabou acontecendo
quando meu pai disse que ia para o partido. Em
1988, ele já participou das eleições para prefeitos
Ele tomava posições em virtude de conceitos,
das capitais, e em 1989, da presidencial.
com lógica e coerência. A autoridade no âmbito
político era sempre ele. Por exemplo, um Não tinha recursos nem estrutura partidária.
momento muito difícil politicamente para a Mas era uma proposta de afirmação de um novo
gente foi quando ele perdeu a eleição em 1989 partido. Até que foi bem, foi o mais votado na
e não foi para o segundo turno. Na época, havia cidade de São Paulo. Era uma adesão por crença,
uma divisão entre os eleitores do PSDB sobre e isso é diferente. Tinha gente chorando com o
a tomada de posição pró Lula, pró Collor ou título de eleitor na mão. Foi marcante o comício
nenhum dos dois. Pensar em apoiar o PT depois de encerramento em Santos. O clima estava tão
da Prefeitura, da Constituinte, para mim não para cima, o comício com palanque na areia,
passava. Não sei por que tomou a decisão de entre o mar e a praia, um mar de gente. Foi um
apoiar Lula – o tempo mostrou que ele estava comício emocionante. O dia estava feio, choveu, o
certo. Mas ocasionou uma reação hostil. O céu estava com nuvens. Na hora em que
apartamento em que a gente morava sempre meu pai foi falar, abriu um pedaço de
teve o número do telefone na lista. Precisamos nuvem no céu, o sol se pondo iluminou
mudar o número diante da hostilidade. o palanque, um negócio de arrepiar.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l 17


OS NETOS
Gustavo e Bruno, filhos de Renata Covas, e Silvia, filha de Mario
Covas Neto, contam como se relacionavam com o avô

Gustavo Covas Lopes

Lembro que algumas vezes as pessoas


reclamavam que o governador não
estava fazendo nada por São Paulo.
Conversei com meu avô e perguntei
por que ele não falava para a população o que
estava fazendo. Sabe o que ele respondeu? Com
o dinheiro da publicidade ele poderia comprar
novas viaturas para a polícia e construir escolas,
casas e estradas para a população.

Outra conversa que tivemos foi sobre o episódio


do enfrentamento com os professores em greve
na Praça da República. Eu disse que ele não
precisava ter ido até lá e passar por aquilo tudo.
Na hora ele me respondeu: ‘É o governador do
Estado de São Paulo que não pode ser impedido
de ir ou entrar aonde é preciso, não eu’.

Silvia Covas

Tenho um nome forte e me orgulho disso. Antes


Bruno Covas Lopes
eu só tinha a imagem do avô. Agora, paro para
pensar no que ele fez, sobre o jeito que agia,
Quem o conheceu sabia que ele fazia tudo com
suas posturas, sempre calmo, dando risada,
paixão. Quanto se envolvia e quanto sofria. Era
todo mundo ria junto e tenho mais noção da
impossível você ver aquilo e não se contagiar.
Quando fui morar com ele, em 1995, vi o quanto importância dele. Na oitava série, tive que fazer
se dedicava. No meio do jantar, lembrava- um trabalho sobre ditadura e, lá na Riviera,
se de alguma coisa, já telefonava, mandava o assisti a um vídeo sobre o AI 5. Aí vi muita
sujeito entrar, não deixava nada para depois. coisa que meu avô fez. Até hoje muita gente
Às vezes eu saía para a faculdade e ele já tinha fala bem de Covas para mim, quando ficam
saído. No jantar, ele ainda não tinha retornado. sabendo que ele era meu avô, e sempre tem um
Trabalhava 24 horas. Não fazia nem com o fígado reconhecimento. Uma mulher mais velha veio me
nem com o cérebro, fazia mesmo com o coração. dizer que uma vez dançou com meu avô; outro,
que ele fez um projeto que o beneficiou. Na
Meu sobrenome é pesado e leve ao mesmo tempo. escola, mesmo os professores petistas diziam que
Pesado porque as pessoas sempre dizem: ‘Você votavam em Covas. Uma vez, em um
está fazendo isso, será que seu avô faria isso?’ Sei clube, quando fui apresentada como
lá, não tem como saber. Mas também acho que neta de Covas, uns garotos começaram
o sobrenome que é leve, por causa do respeito, o a falar mal dele. Depois descobri que
carinho que as pessoas tinham por ele. eram parentes do Paulo Maluf.

18 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l


OS FAMILIARES
Sobrinha e prima de Mario Covas falam da convivência com o
político em tempo integral

Estar ao lado de Mario Covas era respirar e viver a política. Os parentes mais próximos não escaparam da
regra. Renira, sobrinha de dona Lila, e Renata, prima de sangue, acompanharam a trajetória.

Renira de Nardo
sobrinha e secretária
particular de dona Lila

No dia 31 de dezembro de 1994,


véspera da posse, o tio Mario me
chamou para uma conversa lá no apartamento:
‘Olha, a partir de amanhã você vai ser a mulher
mais linda o mundo, a mais inteligente e vão
querer te dar presentes. Não acredite em nada
disso. Em quatro anos tudo vai acabar’. Eu era
secretária da presidente do Fundo Social de
Solidariedade, a tia Lila, e morava com eles no
palácio. Depois que todo mundo ia embora, o
expediente lá na ala residencial continuava, ele
me chamava e pedia as coisas. Foi a tia Lila que
me convidou, porque precisava de uma pessoa
de confiança. Ele não queria me contratar, por
ser parente. Mas tia Lila precisava. Então o Covas
resolveu o problema à sua maneira. Eu pedi
licença sem vencimentos na prefeitura de Santos
e ele me pagava o salário do próprio bolso.

Regina Covas
prima e militante política

Sou 11 anos mais nova que o Mario, e desde muito


pequena, depois da morte de meu pai, fui morar
com nossa avó em Santos. O tio Mario, pai do
Mario Covas, depois que se separou, também foi
morar lá. Minha convivência com ele foi familiar
e cresceu sob o pilar da política. Quando ele era
deputado federal, passamos a conviver mais
de perto. Eu estudava na UNB, era militante
estudantil e estava sempre na casa dele, na 105
– Sul, nunca me esqueço desse endereço. Era um
verdadeiro quartel general da política brasileira,
com grandes discussões, reuniões e encontros.
Mas não era só isso. Na
época da ditadura, o
Mario abrigou muita gente
naquele apartamento.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l 19


O TRABALHO DO
ENGENHEIRO
De volta a Santos, Mario Covas passou a trabalhar como
engenheiro na Secretaria de Obras da prefeitura municipal

Em 1956, três dias consecutivos de violentas chuvas provocaram alagamentos e deslizamentos nas
encostas dos morros de Santos. O Monte Serrat, conhecido pelo antigo cassino construído no topo e pelo
funicular que lhe dá acesso, perdeu um pedaço tão grande de sua encosta que lhe alterou a forma. Uma
proteção de concreto, construída depois das chuvas, ficou como marco da catástrofe.

Os deslizamentos no morro do Marapé e no José Menino comoveram a público. Como engenheiro da


prefeitura, Mario Covas participou intensamente dos socorros à população atingida. O noticiário da
televisão mostrou as imagens do resgate de uma senhora grávida dos escombros de sua casa. Mario
Covas, que dirigia a operação, começou a se tornar conhecido.

Oswaldo Ali
amigo de Santos

Era uma coisa dantesca. Foram soterrados


uns 40 chalés, morreram 22 pessoas. O Mario
era o engenheiro encarregado dessa parte,
dedicou-se a um trabalho insano. Foi marcante
sua dedicação à população, revelando sua
identificação com o sofrimento das pessoas e
com as causas populares. Ele deixou um marco
que mereceu a admiração de todos nós. Começou
aí a possibilidade de Covas ser candidato a um
cargo administrativo.

Moacir Bezerra da Silva


fiscal de obras da Prefeitura de Santos

Rigoroso, correto, ele não queria saber de


encrenca. Era tudo na caneta. Covas faz muita
falta, é como um pai de família que se afasta.
Faz falta para o povo, para o Estado, para o país.
Como um pai bom. Politicamente, Mario Covas
foi um exemplo não só para o Brasil, mas para
outros países. Começou cedo, era inteligente,
sabia tudo o que ia fazer, não
fazia coisa errada.

20 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l


A PRIMEIRA CAMPANHA
Em 1961, os contatos políticos haviam se aprofundado o bastante
para Covas ser convidado a se candidatar à prefeitura de Santos

A política paulista do início dos anos 1960 era dominada por duas figuras rivais: Adhemar de Barros e
Jânio Quadros. Nas eleições santistas de 1961, Adhemar apoiava Luís La Scala Junior, candidato do então
prefeito Silvio Fernando Lopes. Jânio Quadros preferia Mario Covas, candidato da oposição.

Apurados os votos, La Scala foi declarado vencedor e diplomado. Mas não chegou a tomar posse. Vítima
de um acidente de automóvel, entrou em coma e morreu poucos dias mais tarde. Surgiu, então, uma
controvérsia sobre quem deveria assumir. Alguns opinavam que esse direito cabia ao vice-prefeito da
chapa vencedora. Outros afirmavam que o correto seria entregar o cargo ao segundo mais votado.

A questão foi decidida pelo próprio Mario Covas. Colocando suas convicções acima do interesse imediato,
defendeu a posse do vice. Consultado a respeito, o Supremo Tribunal Federal referendou o entendimento
de Covas. Criou-se assim uma jurisprudência, invocada em 1985 para a posse do vice José Sarney, em
lugar do presidente eleito Tancredo Neves, vítima de doença fatal antes do início de seu mandato.

Luiz Antunes Caetano


amigo de Santos

Sou testemunha de como o Mario


entrou para a política. Logo depois do episódio do
morro, ele ficou muito à mostra, ficou notório na
cidade. Em Santos havia o ademarismo e o grupo
que o combatia. Havia também o Fórum Sindical
de Debates. Eu estava na casa de Covas, no
Campo Grande, quando apareceram os diretores
do Fórum, presidido pelo Osvaldo Martins
Rodrigues, o Badeco, que era do sindicato dos
Agentes de Navegação, o presidente do Sindicato
dos Contabilistas, o Vitelmino e o Expedito.
Eles tinham feito uma pesquisa em Santos e
detectaram que o candidato a prefeito tinha que
ser engenheiro. O Mario foi convidado e disse
que gostaria de conversar com o prefeito, Silvio,
que era o chefe dele. Foi para essa conversa
na casa do Silvio e, na volta, afirmou: ‘eu sou
candidato!’. Durval Figueira
amigo de Santos

A campanha de Covas para prefeito de Santos


foi belíssima. O símbolo era a girafa, que
identificava Covas como ‘um candidato à altura’.
Foi um sucesso. Perdemos a eleição, mas ali
começou a atuação dos Amigos do Mario Covas.
Quando veio a campanha para deputado federal,
Covas teve o apoio dos portuários. Lembro que
íamos à noite ao cais do porto
de Santos , do 1 ao 25, fazendo
campanha. Uma maravilha.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l 21


O SENHOR DEPUTADO
A campanha POLÍTICA para a prefeitura de Santos tornou o
nome de Mario Covas suficientemente conhecido para elegê-LO
deputado federal

Sob a legenda do Partido Social Trabalhista (PST), liderado por Jânio Quadros, Mario Covas foi eleito
deputado federal em 1962. Empossado em fevereiro de 1963, conquistou no mês de abril seguinte a vice-
liderança do PST na Câmara, passando, em fevereiro de 1964, à liderança do bloco dos pequenos partidos.
Além do PST, esse bloco englobava o Partido Social Progressista (PSP), o Partido Trabalhista Nacional (PTN),
o Partido Republicano (PR), o Movimento Trabalhista Renovador (MTR) e o Partido Democrata Cristão (PDC).

Com a derrubada do presidente João Goulart pelos militares no dia 31 de março de 1964, iniciava-se o
longo período de ditadura militar. Nos primeiros quatro anos, entretanto, o Congresso continuou aberto,
embora submetido a fortes ingerências do Executivo. Todos os partidos existentes foram extintos pelo
Ato Institucional nº 2, de 27 de outubro de 1965, dando lugar ao bipartidarismo, no qual os deputados
se viam obrigados a escolher entre a Aliança Renovadora Nacional (Arena) e o Movimento Democrático
Brasileiro (MDB). Reuniram-se na Arena os que apoiavam o governo, enquanto a oposição se reconhecia
no MDB. Na recomposição da Câmara, em novembro de 1966, Covas reelegeu-se pelo MDB, conquistando
a sua liderança em março de 1967. A seu lado, militavam políticos de atuação expressiva, como Ulysses
Guimarães, Tancredo Neves e André Franco Montoro.

Koyu Iha
deputado

“Estudante de Direito, disse ao então deputado


federal Mario Covas que gostaria de me
candidatar a vereador por São Vicente. Ele me
deu todo o lastro, fui o terceiro mais votado
pelo MDB. Estive na casa de Covas para prestar
solidariedade quando ele foi cassado. Ficava
impressionado com o fato de Covas não sair do
país. Ele dizia: ‘Sair por quê? Não devo nada para
ninguém!’ Foi uma grande lição que ele deu para
quem tinha receio da repressão política. Deixou
uma grande força moral.”

Como líder da oposição, Covas procurou derrubar os dois projetos de lei enviados pelo governo que mais limitavam
o exercício do jogo democrático. O primeiro deles enquadrava 68 municípios brasileiros como áreas de segurança
nacional. Em vez de eleitos, seus prefeitos passavam a ser indicados diretamente pelo Executivo. Para evitar que
esse projeto fosse votado, e provavelmente derrotado, a liderança do governo esvaziou o plenário, ocasionando
a aprovação por decurso de prazo. O segundo projeto combatido por Covas foi o da criação de sublegendas, para
eleições majoritárias e proporcionais. Esse projeto permitia que a Arena continuasse a abrigar grupos separados por
interesses regionais e que não queriam perder sua identidade.

22 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l


A CASSAÇÃO
Na tribuna da Câmara Federal, Covas defende um deputado, entra
em confronto com os militares e é cassado e preso

O grande embate entre o governo e a oposição liderada por Mario Covas surgiria no final de 1968. O
deputado Márcio Moreira Alves pronunciara um discurso considerado ofensivo às Forças Armadas, e os
militares resolveram pressionar o Congresso Nacional para que este concedesse licença para se proceder
ao processo contra o deputado. No dia 12 de dezembro, Covas fez um discurso contrário à concessão da
licença, utilizando argumentos de naturezas jurídica e política.

“Contesta-se, sob o império da razão política, uma prerrogativa da qual não temos o direito de abdicar,
porque, vinculada à tradição, à vida e ao funcionamento do Parlamento, a ele pertence, e não aos
parlamentares. (...) Tem o Poder Legislativo o direito de transferir a outro Poder um problema que,
surgido no seu âmbito, da sua competência, o colocará em confronto com outros poderes e instituições?
É possível que o faça. Mas, nesse momento, não será um Poder.”

Ao término de seu pronunciamento, Mario Covas explicitou a profissão de fé que embasara sua atitude:
“Creio na palavra, ainda quando viril ou injusta, porque acredito na força das ideias e no diálogo que
é seu livre embate. Creio no regime democrático, que não se confunde com a anarquia, mas que em
momento algum possa rotular ou mascarar a tirania. Creio no Parlamento, ainda que com suas demasias
e fraquezas, que só desaparecerão se o sustentarmos livre, soberano e independente (...)”.

No dia seguinte, o governo editou o Ato Institucional nº 5, que fechou o Congresso e desencadeou
uma série de cassações de direitos políticos e prisões. Suspendia também o direito ao habeas corpus.
Considera-se geralmente o AI-5 como o principal marco do endurecimento do regime militar.
Não restava então outra opção, senão o confronto, pois votar pela concessão significaria abdicar das
prerrogativas do Legislativo. Todos os deputados do MDB e mais quatro da Arena manifestaram-se contra.
Mario Covas foi preso no dia 15 de dezembro e levado para uma dependência do Exército em Brasília, onde
permaneceu por oito dias, sendo liberado na antevéspera do Natal.

Oswaldo Martins
amigo, jornalista e
secretário de
comunicação

Mario foi preso pelo Exército em Brasília e, ao


ser solto, voltou a Santos. Eu ia toda noite à
casa dele conversar. Ele me dizia: ‘Nunca mais
vou sair de casa’. A justificativa era: ‘Com que
cara vou sair à rua, se sou líder do partido da
oposição, 33 deputados são cassados e eu sou
poupado? O mínimo que vão pensar é que eu fiz
um acordo com os milicos’. Houve uma torcida
para ver se saía uma segunda lista, para que ele
pudesse ficar aliviado. Foi o que aconteceu em
16 de janeiro de 1969. Nessa noite, estávamos só
nós dois, ouvindo a Voz do Brasil como nos dias
anteriores, na esperança de alguma novidade.
Aí saiu a segunda lista de cassados, com o nome
dele. Ele ficou aliviado: ‘Nossa, finalmente
eu posso sair na rua!’ Coincidentemente,
também saí do jornal em que trabalhava
e ficamos os dois desempregados. E fomos
procurar o que fazer na vida.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l 23


DEZ ANOS DE INICIATIVA PRIVADA
Alijado da política, Mario Covas abriu uma empresa de comércio
exterior e trabalhou como engenheiro
O afastamento compulsório da política obrigou Mario Covas a procurar outras atividades. Em um primeiro
momento, tentou montar uma empresa de importação e exportação. Foi para o Rio de Janeiro e FEZ
vários contatos com embaixadas que, na época, ainda não haviam se transferido para Brasília.

Surgiu, no entanto, outra possibilidade. Esmerino Arruda, deputado também cassado em 1964, montara
a empresa Rent TV, dedicada ao aluguel de aparelhos de televisão, sobretudo para hotéis. Sugeriu que
Mario Covas montasse uma empresa similar em São Paulo, onde as condições pareciam ser ainda mais
favoráveis. O deputado federal Ubirajara Keutenedjian, presidente do PST, partido por meio do qual Covas
entrara na política, era proprietário de uma cadeia de hotéis, interessou-se não apenas em alugar os
aparelhos da empresa a ser montada, como a apresentá-la a outros proprietários de hotéis.

Covas possuía, ainda, valiosos contatos por intermédio de parentes de sua esposa, Lila Covas, comerciantes
no ramo de eletrodomésticos. Por motivos ignorados, entretanto, essa ideia não se concretizou. Covas
preferiu insistir no seu primeiro projeto e montou a MACO Importação e Exportação.

Jair Manhani e Alzira Monteiro dos Santos Manhani


amigos de Santos e atuais proprietários da MACO

Mario Covas era muito rigoroso e detalhista. Uma vez, um fiscal da alfândega queria falar com
o dono da empresa, com o Mario Covas, especificamente, antes de desembaraçar a mercadoria. Ele,
irritado, disse: ‘Eu vou até lá pessoalmente ver o que ele quer’. Foi e, ao chegar lá, já com as garras
afiadas, constatou que o fiscal queria era rever o velho amigo dos tempos de juventude. Todo mês era
uma loucura. Ele fazia o balancete mensal da empresa aos domingos. Chamava todo mundo, fumava
feito um louco e ficava até as dez da noite fazendo o balancete, conferindo e refazendo todos os cálculos.
Às vezes ele ficava sozinho no escritório, e quando ia embora, deixava o escritório todo aberto.
Batia a porta e saía. As meninas que faziam ponto ali na rua ligavam para a casa da gente
avisando. Na mesa dele tinha uma campainha para chamar as pessoas. A campainha tocava o dia
inteiro. Não ligava se achavam que ele era chato.

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Um dia depois de aberta a empresa, foram ao escritório de Santos militares da Aeronáutica à paisana
e um delegado do Dops. Prenderam Covas sem dizer para onde seria levado. Oswaldo Martins seguiu os
militares até o comando da Quarta Zona Aérea na capital, prosseguindo até a Base Aérea de Cumbica,
local da detenção. Em Cumbica, Covas ficou onze dias, período no qual depôs como testemunha no caso
Parasar, por ele denunciado. O caso referia-se ao brigadeiro João Paulo Burnier, do gabinete do ministro
da Aeronáutica Márcio de Sousa e Melo. Atribuía-se a Burnier um plano para explodir o gasômetro do
Rio de Janeiro e sequestrar 40 políticos da oposição, que seriam levados em um DC-3 e atirados ao mar.

Paulo Maluf
prefeito de São Paulo

Em 1969, eu era prefeito de São Paulo e fui


procurado por um amigo comum. Eu me
dava muito bem com o comandante da Quarta
Zona Aérea, brigadeiro José Vaz da Silva. Liguei
para ele e perguntei sobre o Mario Covas, disse
que a família estava preocupada. Falei que Covas
e eu éramos contemporâneos da Poli, dei boas
referências e avisei a família.

Uma vez liberado, Covas voltou às suas atividades


na iniciativa privada, não sendo mais incomodado
pelos militares. Como os negócios de importação
e exportação não deram os resultados esperados,
mudou-se para São Paulo, onde passou a
trabalhar como engenheiro na Codrasa, empresa
de Léo Maniero, ex-colega da Escola Politécnica.
Lá permaneceu até 1977, transferindo-se então
para a Ductor Implantação de Projetos, outra
empresa de engenharia formada por ex-colegas
da Escola Politécnica da USP.

Lúcia Maria Dal Médico


colega na Ductor e assessora especial
do governador

Nossa afinidade foi instantânea. Ele dizia que


eu tinha um nariz político, queria que eu lesse
um livro sobre política eleitoral. Fiquei amiga da
família, a gente pensava da mesma forma. Eu
estudava astrologia, fiz o cálculo do ascendente
dele, era Touro com ascendente em Touro. A
teimosia não era só por causa do lado espanhol.
Eu chegava de manhã, ele me chamava para
conversar sobre assuntos gerais, mas a política
estava sempre presente, uma paixão. Covas foi
uma figura enfática. Dizia que não era bravo,
era enfático e trabalhava muito. Na Ductor,
usava aquelas fichas de contabilidade,
conferia centavos, extrato bancário, era
apegado à perfeição. Tinha senso de justiça
e coerência com ele mesmo.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l 25


Mario Covas discursa durante convenção do MDB em 1979, após recuperar os seus direitos políticos

VOLTA À POLÍTICA
mario Covas mantém atividade política semiclandestina no
período de cassação, apóia o MDB e participa de campanhas de
outros candidatados

Durante os anos em que esteve cassado, Mario Covas nunca deixou de fazer política. Participou de vários
encontros semiclandestinos com lideranças e personalidades interessadas em pensar o futuro do país.
Também acompanhava e incentivava a trajetória ascendente do MDB.

O partido oposicionista ganhara visibilidade redobrada na transição de Emílio Garrastazu Médici para
Ernesto Geisel na presidência da República, quando Ulysses Guimarães lançara a sua “anticandidatura”.
Em companhia do candidato a vice, Barbosa Lima Sobrinho, Ulysses Guimarães percorrera as capitais
brasileiras divulgando o ideal da volta à democracia. A impossibilidade de vitória no Colégio Eleitoral, na
eleição a presidente de 15 de janeiro de 1974, não impedira a ampla repercussão popular da campanha. Os
reflexos seriam sentidos naquele mesmo ano, quando o MDB elegeu 15 senadores nas 21 vagas em disputa
e 165 deputados federais dos 364 que haviam sido eleitos.

Nas eleições seguintes, marcadas para 1978, Covas não podia concorrer diretamente, pois não se esgotara
o prazo de sua cassação. Mas voltou à arena política e, mais uma vez, sua ação foi decisiva. Uma das
sublegendas do MDB apresentara o nome de Fernando Henrique Cardoso para o Senado. Na mesma
sublegenda, Antonio Angarita concorria a deputado federal. Por coincidência, o comitê eleitoral de
Angarita ficava próximo da Ductor, onde Mario Covas trabalhava. Os dois se conheciam e se estimavam.
Era quase inevitável que, ao terminar o expediente, Covas passasse pelo comitê de Angarita.

A convivência com Angarita, incentivada por amigos comuns, levou Covas para a campanha de Fernando
Henrique Cardoso. Embora oficialmente cassado, arriscou-se a participar, comparecendo a comícios e
multiplicando os contatos. Além do mais, o prestígio do seu nome alavancava qualquer candidatura.

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Graças em boa parte a esse apoio, Fernando Henrique elegeu-se suplente do senador Franco Montoro com
1.250.000 votos. Vigorava então o sistema de sublegendas, duas por partido nas eleições majoritárias.
Dentro do mesmo partido, podiam concorrer no caso do Senado até dois candidatos por sublegendas. O
mais votado assumia e o segundo mais votado tornava-se primeiro suplente.

Em 16 de janeiro de 1979, Mario Covas recuperou seus direitos políticos. Naquela ocasião, amigos e
correligionários lotaram o Teatro Independência, em Santos. No seu discurso de agradecimento, Covas
reafirmou os valores democráticos fundamentais que haviam embasado, dez anos antes, seu último
discurso antes da cassação do mandato de deputado federal. A força do arbítrio que o afastara do
caminho da política não fora o bastante para abalar suas convicções.

José Maria Guimarães


Monteiro – coordenador
de campanha e presidente
da cosesp

Foi emocionante o ato que marcou o fim do


período de cassação do Covas. O apresentador
foi o ator Carlos Zara, amigo e ex-colega da Poli.
Também estavam presentes José Richa, Fernando
Henrique Cardoso, Ulysses Guimarães e Oswaldo
Martins, este o grande artífice do evento. O mais
tocante foi quando Mario Covas subiu à tribuna
e retomou o discurso do ‘credo’ de 1968, onde
ele afirmava que acreditava na palavra, no
regime democrático e no parlamento. A crença
de Mario Covas continuava para a construção da
democracia.

Eva Wilma - atriz e amiga


Meu marido Carlos Zara tinha orgulho da amizade
com Covas. O próprio Mario o convidou para
apresentar seu retorno à vida política em Santos.
Aí eu vi Mario Covas falando. Era uma fase de
conscientização permanente, oportunidade
inesquecível. Posteriormente, a amizade se
solidificou, quando me engajei na campanha
contra a ditadura e pela anistia. Formamos um
grupo que liderou a campanha de artistas pela
anistia, com Antônio Fagundes, Carlos Vereza,
Renato Consorte, Zara. Levamos 700 assinaturas a
Brasília, em mãos. A oportunidade da campanha
quem nos deu foi uma turma de homens como
Sérgio Motta e Mario Covas.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l 27


A CONVENÇÃO DE 1981
mario Covas disputa com orestes Quércia a candidatura a vice-
governador na chapa de Franco Montoro
A reformulação partidária desencadeada com o fim do bipartidarismo, em 29 de novembro de 1979, levou Covas
a filiar-se ao PMDB, sucessor do MDB, assumindo a presidência da comissão executiva regional. A mudança de
nome não apaziguara a rivalidade entre as facções do partido. A convenção de 20 de junho de 1981 ratificou
o nome de André Franco Montoro como candidato do partido à eleição para governador, vencendo as
pretensões de Orestes Quércia, que lutava pelo posto. Houve, no entanto, uma contrapartida. Estava
acordado que Covas sairia candidato a vice-governador na chapa de Montoro, mas Quércia tumultuou a
convenção através do MR-8, grupo que ele controlava integralmente, e conseguiu o lugar para si.

Nelson Fabiano Sobrinho


secretário de Governo
na Prefeitura

Era preciso compor a executiva do partido,


e estava difícil. Vários integrantes foram para a
minha casa - na sala ficaram Franco Montoro,
Fernando Henrique, Grama e acho que o Almino
Afonso. No quarto estavam Quércia, Goldman,
Robson Marinho, Resk e eu, andando do quarto
para a sala. A chapa ficou com Covas presidente,
Goldman vice, mas eram cinco componentes.
Fabiano percebeu que os dois grupos queriam o
mesmo nome para o quinto cargo, que seria João
Gilberto Sampaio. Combinou-se que o grupo de
Quércia fingiria aceitar o nome de Gilberto.

Na convenção do partido, Covas tinha sido


escolhido vice. Quércia queria ser vice e havia
risco de rachar o partido. O MR-8 estava apoiando
bravamente Quércia, e Covas não teve dúvida.
Mesmo já escolhido, abriu mão da candidatura em
nome da unidade do partido.”

Maria de Lurdes da Silva (lurdinha)


militante e assessora de governo

A convenção foi uma briga de foice. Houve


um primeiro momento em que a disputa ficou
entre o Quércia e o Montoro, o Montoro levou
vantagem, o Covas como vice dele. Aí o Quércia
saiu e foi criar um caso desgraçado para virar
o vice, e virou, mas foi uma briga terrível. Todo
mundo gritava e muita gente contra, até porque
o pessoal do MR-8 era ligado ao Quércia. Briguei
muito nessa convenção. Eu não podia subir ao
palco. Estava lá o Ulysses Guimarães, o Montoro
e o Covas, que era o presidente do partido. Iam
me tirar de lá, mas eu disse que não ia sair.
O Zuzinha falou: ‘larga ela aí’. Ninguém ia me
tirar de lá. Eu só arrumava confusão. Respondi
a tanto processo na minha vida por causa
de política. Fazia tudo da minha cabeça,
não ficava esperando ninguém, e o Mario
Covas sempre me apoiava.

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Covas dedicou-se à sua candidatura a deputado federal, elegendo-se em 1982, no mesmo pleito em
que André Franco Montoro tornou-se governador do Estado de São Paulo.

Maria Cristina Mazagão


militante e chefe de gabinete do memorial da américa latina

Mario Covas era candidato pela primeira vez depois da cassação. Desde que eu soube
que ele era candidato, tinha decidido que ele era meu voto para federal. Foi aberto um comitê
na avenida Juscelino Kubitscheck, no meio do caminho onde eu morava e onde estava instalado
o comitê do Montoro. Um dia, fui até lá com a cara e coragem, bati na porta, e disse: ‘Vou votar
no Mario Covas e vim buscar material’. Na campanha do Montoro, eu cuidava das reuniões com
candidatos a vereador na capital. A gente precisava de mais espaço, e lá fui eu pedir no comitê do
Covas. Na primeira reunião alguém me disse que o Mario Covas queria me cumprimentar.

Covas gostava de ver as pessoas, conversar com elas, dar atenção. E para mim foi uma maravilha.
Eu parecia uma menina de colégio, não parecia que eu já estava no meio da política, ao conhecer
um daqueles ícones da luta contra a ditadura. Ele foi muito gentil, acompanhou de longe cinco
minutos da reunião e me pediu para fazer uma reunião em Santos, no comitê dele, nos moldes do
que fazíamos na capital. Chamava Projeto Brigadas, nem lembro a razão, mas era
um projeto grande, com várias pessoas envolvidas. E lá fui eu a Santos junto com
Mario Covas. Fui e voltei. Uma das coisas que mais impressionavam no Covas era a
capacidade de dar atenção às pessoas.

Covas e Montoro mostravam-se favoráveis a uma mudança na legislação, permitindo a volta das
eleições diretas para a prefeitura da capital. Havia um projeto de lei nesse sentido, e a mudança
parecia possível. Enquanto essa questão não se decidia, Covas exerceu as funções de secretário dos
Transportes do governo Montoro. Em maio de 1983, ao se verificar a inviabilidade imediata de eleições
diretas, Covas assumiu a Prefeitura por indicação de Montoro.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l 29


PREFEITO DE SÃO PAULO
No comando da capital paulista de 1983 a 1985, Mario Covas buscou
reduzir a desigualdade social

Em seu discurso de posse como prefeito nomeado do município de São Paulo, Mario Covas anunciou como
diretriz o esforço para diminuir as desigualdades sociais. “O espaço entre o centro da cidade e o mais longínquo
trecho da periferia não se mede em quilômetros apenas, mas, sobretudo, em distância social. Ali, as pessoas
vivem sob padrões elevados. Acolá, tentam precariamente administrar a própria sobrevivência. De um lado, o
superconsumo do supérfluo, de outro, o subconsumo do essencial.”

Antonio Benjamim Giosa


assessor do prefeito

Covas ficava intolerável, chutando lixo, passando


mal, com os nervos à flor da pele, quando tinha
de aumentar a tarifa do ônibus, porque sabia
que atingia direto o bolso do trabalhador. Era
um horror. Ele nunca enganou ninguém: se dava
para atender, atendia; se não dava, dizia logo.
Atendia todos os vereadores, independentemente
do partido. Lembro também que ele não queria
aumentar quadro de pessoal e não atendia
secretários que vinham pedir novas contratações.
Para esses, dava um chá de cadeira.

Lelivaldo Benedicto Marques


presidente da Cohab

Nunca trabalhei tanto, ganhei tão pouco e fui


tão feliz. O Mario não se incomodava com coisas
pessoais, com o que falavam dele, queria fazer
o bem. Trabalhamos muito na Cohab. Havia um
grande estoque de terra e financiamento do
Sistema Financeiro da Habitação. Foram 33 mil
habitações emtregues em 34 meses. Concluímos
o Conjunto Habitacional Cidade Tiradentes, que
começou com o Paulo Maluf, continuou com o
Reynaldo de Barros, mas estava todo deteriorado.
Na inauguração, Covas pediu desculpas por
entregar um local tão distante do centro aos
moradores. As unidades eram
entregues em sorteios, obedecendo a
uma fila. Nunca fui peemedebista ou
psdebista, sou covista.

A preocupação com a periferia orientou várias medidas para levar até ela serviços antes só disponíveis
nas ruas centrais, como a implantação, em outubro de 1985, da varrição e da limpeza em todas as ruas
asfaltadas da capital. Até então, esse serviço só existia em 20% das vias públicas.

30 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l


Edson Tomaz
militante e
diretor da cosesp

O Mario Covas tinha uma prática política


avançada e pedagógica, quando chamava
a população a se organizar, a participar dos
mutirões. Ele sabia distinguir muito bem quem
falava de problemas pessoais ou quem era
termômetro social – nesses casos, ficava mais de
uma hora conversando. Ele adorava.

Francisco de Assis Silva (Chicão)


líder comunitário

Na época, nós organizamos um mutirão cata-lixo


no Jardim das Oliveiras, onde não havia coleta
de lixo porque nenhuma rua era asfaltada. A
idéia era levar as 12 toneladas de lixo para o
gabinete do prefeito, no Ibirapuera. Mario Covas
ficou sabendo e foi até o bairro ver o que estava
acontecendo. Ele ficou impressionado com a
organização da população. Mandou retirar o
lixo e marcou uma reunião no gabinete, quando
surgiu a idéia dos mutirões de guia e sarjeta. Era
prefeito amassa barro, ajudava a assentar guia,
dona Lila ia junto, até debaixo de chuva.

Para atender as vastas áreas sem pavimentação de São Paulo, foi desencadeado um programa de mutirões
para a colocação de guias, sarjetas e calçamento. A preferência pelos mutirões, solução encontrada para
contornar a escassez das verbas disponíveis, contribuiu intensamente para tornar mais conhecido o
nome de Mario Covas. Ele fazia questão de visitar pessoalmente todas as obras, passando a maioria de
seus fins de semana na periferia da capital paulista.

Cleuza Ramos
líder comunitária

Conheci Mario Covas como prefeito da cidade,


nos mutirões de guias e sarjetas da periferia, e
logo me apaixonei. Ele estava lá com a gente
nos finais de semana, chegava às sete horas da
manhã, e isso fora do período de eleição. Covas
era do povo, punha a mão na
massa, não chegava à periferia
como prefeito.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l 31


Carlos Eduardo Sampaio Dória
secretário das
Administrações Regionais

Ele dedicou parcela importante da infraestrutura


e da equipe da prefeitura para equipar melhor as
administrações regionais, para melhorar o dia-
a-dia da população, com atendimento melhor,
com máquinas e pessoal capaz de atender
com qualidade. Covas parou a decadência das
administrações regionais. Era tão angustiado em
atender a periferia que não se conformou com o
papel burocrático e passivo. Tomou a iniciativa
de ir em busca dos problemas.

Luiz Carlos Frigério


assessor de gabinete

Um dia ele abriu um monte de pastas e mandou


eu escolher uma. Estava escrito: Pirituba-Perus.
Ele disse: ‘É isso que eu quero que você faça, no
fim de semana, com seu carro. Você vai visitar
escolas, postos de saúde, creche, parques. Vai
fazer vistoria em cada lugar e trazer o relatório.
Te dou um mês’. Isso ele fez com cada sub-
prefeitura e com cada assessor. Tinha que
trabalhar mesmo. A gente era os olhos dele. Não
que ele não tivesse olhos. Toda noite, quando
saía do gabinete, ele queria ver alguma coisa.
Na época, a prefeitura comprou uma máquina
de frisagem e ele quis ir lá na Freguesia do Ó ver,
às nove da noite. A máquina ia operar, era nova.
Atrás vinha a equipe para asfaltar as ruas. Ele
achou que o funcionário que operava o esguicho
de óleo quente não estava fazendo de forma
correta. Foi lá, pegou o esguicho e mostrou ao
rapaz como devia ser feito. Ficou todo sujo de
óleo. Com a máquina nova de desentupir bueiro
ele fez a mesma coisa.

Marilene Batista dos Santos, Tia Lena


líder comunitária

Na época da prefeitura, fizemos um laço de


amizade, de luta, sempre juntos. Durante os
mutirões, Covas ia às entidades, e o almoço era pão
francês com mortadela. Covas tinha um carinho,
uma atenção especial para as associações que
trabalham em prol da comunidade. Pesquisava a
condição de vida dos moradores, caminhava com
a gente na periferia e valorizava muito
o trabalho da mulher e a participação
feminina na vida política.

32 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l


Jayme Aparecido de Souza
líder comunitário

A diferença entre Covas e os outros políticos


é que ele era popular, carismático, fazia por
onde ganhar a confiança da gente, nunca se
atrasava, não faltava aos encontros marcados,
não deixava ninguém falando sozinho. Pedia
para marcar um pedido num pedaço qualquer de
papel e depois mandava fazer. Ia para o bar com
os moradores tomar café e comer pastel. Mario
Covas não era prefeito, senador, governador. Era
amigo. Ia lá em casa, comia marmitex e pedia
licença para tirar a camisa.

Padre Rosalvino

Era engraçado o jeito de ele falar com a


população. Quem não conhecia, achava que
ele estava agredindo o povo. Mas, prestando
atenção, chegando mais perto, era fácil ver a
vontade, a força a garra. Ele queria que o povo
participasse do progresso e do desenvolvimento.
Não achava correto a prefeitura fazer, inaugurar
e ir embora. Para Mario Covas, o povo era o
autor da obra, o verdadeiro protagonista. Na
periferia, cabia às lideranças agregar e motivar
a população. Aí ele vinha, cobrava, fazia junto
e chorava. Muitas vezes vi lágrimas de emoção
no rosto de Covas nas inaugurações de guias e
sarjetas. E não era só ele que chorava.

A iniciativa mais marcante de sua passagem pela prefeitura foi a criação, em dezembro de 1983, da
Carteira de Passageiro Especial – O Passe do Idoso, permitindo que as pessoas com mais de 65 anos
viajassem gratuitamente nos ônibus da cidade, entrando pela porta dianteira dos veículos. A repercussão
extraordinária dessa iniciativa pioneira, copiada posteriormente por um grande número de cidades
brasileiras, é considerada uma conquista definitiva, que hoje ninguém pensaria em abolir. Além disso,
Covas iniciou os corredores de ônibus, com a implantação do corredor Santo Amaro – Nove de Julho e a
corajosa intervenção no sistema de transporte de ônibus da capital.

Adriano Murgel Branco


conselheiro da cmtc

Covas foi ousado na prefeitura da capital.


Dificilmente os prefeitos têm coragem para
enfrentar a máquina do transporte privado,
que sempre foi muito forte. A gente conhecia a
máquina e não havia mais a pressão
dos militares. Podia dar errado a
iniciativa dele, mas não deu.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l 33


Getúlio Hanashiro
secretário de Transportes

Covas sempre relutava em tomar uma


decisão em prejuízo da população mais carente.
Na época, os empresários do setor de transporte
coletivo publicaram matéria paga nos jornais,
ameaçando não aceitar mais o Passe do Idoso.
Foi o estopim para Mario Covas, e a prefeitura fez
a intervenção. Às 18h57 do dia marcado, Covas
deu entrevista para a rádio Jovem Pan, dizendo:
‘Face a ameaça das empresas de ônibus, e
para que a população não sofra, decreto a
intervenção no sistema de transporte de ônibus
em São Paulo’. Aí entrava no ar a Voz do Brasil.
Disparamos o processo, saímos do gabinete
para as treze empresas, e Mario Covas foi junto
para uma delas. Foi uma medida de preservar
a autoridade pública em defesa do interesse
público. Em menos de 24 horas mobilizamos
mais de 1.100 pessoas. Ganhamos em todas as
instâncias jurídicas do país. As empresas foram
pegas totalmente de surpresa, e a lei era clara.
Toda a arrecadação que entra é gerenciada pela
prefeitura e tudo que sai é pago pela prefeitura,
com técnicos da CMTC gerenciando as empresas
durante a operação. Deu para ver o alto grau de
rentabilidade das empresas, na época.

Sua gestão também se mostrou superior no que se refere ao número de quilômetros pavimentados e ao
preço pago aos empreiteiros. Segundo um levantamento publicado pelo Jornal da Tarde, em 13 de junho
de 1989, o metro cúbico na sua gestão saiu por pouco menos de 5 OTN’s , valor um pouco inferior ao pago
por Olavo Setubal e menos de um quarto daqueles vigentes nas gestões de Reynaldo de Barros e de Jânio
Quadros. Por outro lado, a média mensal de 35 quilômetros pavimentados na gestão Covas foi mais do
que duas vezes superior à observada nas gestões de Setubal, Jânio, Reynaldo de Barros ou Paulo Maluf.

Antonio Arnaldo Queiroz e Silva


secretário de Vias Públicas

Quando eu levava proposta de asfalto para


regiões mais nobres da cidade, Covas era contra.
O que ele queria era diminuir a distância social.
Empresários, empreiteiros tinham dificuldade em
falar com o prefeito, ao contrário de entidades
como associações de bairro, que eram logo
atendidas. Covas era trabalhador sério e honesto.
Eu lembro que a grande carência da população
naquela época era o asfalto, e então Covas bolou
os mutirões de guias e sarjetas nos bairros pobres.
Foram quatro mil ruas asfaltadas, um negócio de
louco, mas Covas adorava essas coisas do povo e
dizia: ‘A pavimentação valoriza o imóvel e
facilita a vida das pessoas, até caminhão de
lixo, de gás e de entregas podem transitar’.

34 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l


Na Educação, as três prioridades eram a reestruturação da carreira, a reorganização escolar e o currículo.
Covas refez todo o regimento escolar, dando mais força para o conselho escolar e favorecendo a
participação de pais e professores na gestão da escola. Esse processo, em detalhes, está depositado na
Fundação Carlos Chagas. Covas acompanhou de perto todo o processo e a participação da população.

Guiomar Namo de Mello


secretária da Educação

Quando Covas acreditava


na proposta, ficava ao nosso lado e nos dava
confiança para ousar. Mudar toda a carreira de
professor, enfrentar a burocracia da secretaria. A
briga pela merenda escolar, com uma oposição
inconseqüente e leviana, foi tarefa árdua.
Trabalhar com ele foi uma experiência de
ousadia e firmeza. Mario não transigia, desde
as coisas menores às grandes. Se concordava
comigo, ia até o fim. Na época, existiam recursos
para construir 21 pré-escolas, mas Covas pediu
uma revisão. Ele ajudou, e pudemos construir 57
escolas, das quais 14 de ensino fundamental.

Durante sua gestão na prefeitura, Mario Covas aumentou de 28% para 39% a participação da área
social no orçamento do município. Ainda assim enfrentou quatro greves do funcionalismo, conflitos
com os sem-teto e outros movimentos reivindicatórios, como o dos desempregados que permaneceram
acampados diante da prefeitura em setembro e outubro de 1984.

João Dória Junior


presidente da Paulistur

No custo do Carnaval, ele discutia centavos. No


início, o custo total do Carnaval era bancado
pela prefeitura. No final da gestão Covas, a
iniciativa privada arcava com 75% desses custos.
Ele adorava frequentar os eventos da ‘equipe dos
menudos’ da Secretaria de Turismo e da Paulistur
e dizia: ‘Só me convidam para
eventos prazerosos, não me
pedem dinheiro’.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l 35


Denisard de
Oliveira Alves
secretário de Finanças

Herdamos a prefeitura de São Paulo quase


quebrada. Durante um tempo, só vinham
pessoas querendo receber, não tinha
dinheiro nem para a folha de pessoal.
Em janeiro, foi feito um empréstimo com
o Banespa, uma antecipação de receita
para pagar o funcionalismo. Foi dureza o
primeiro ano para recuperar. O Mario era
duro nas negociações, forçou redução de
preços de pavimentação, obras, coleta
de lixo. Recuperamos as finanças do
município sem aumentar os impostos.

Iberê Bandeira de Mello


secretário de Negócios Extraordinários

Mario Covas não era homem de revanche.


Na época, o bairro de Santo Amaro queria se
emancipar, e um deputado do MDB fez um
pronunciamento na Assembléia Legislativa,
dizendo que Covas usava métodos escusos. Ele,
é claro, não gostou nem um pouco. Passou. Um
belo dia, Covas me chama para testemunhar
uma conversa em seu gabinete. Entro na sala
do prefeito e lá está sentado o tal deputado.
O clima, no início tenso, foi
ficando tão bom que o deputado
se dispôs a pedir desculpas
publicamente. Mario Covas não
quis. Era homem de grandezas.

A gestão de Mario Covas na prefeitura de São Paulo terminou em 31 de dezembro de 1985.

36 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l


SENADOR CONSTITUINTE
Em 1986, Mario Covas elegeu-se senador com 7,7 milhões de votos, o
maior resultado eleitoral no Brasil até então

A volta das eleições diretas para prefeito nas áreas de segurança nacional deveria fazer de Mario Covas
o candidato natural do PMDB. Mas, como recorda Fernando Henrique Cardoso em A Arte da Política, uma
manobra política no Congresso vedou aos titulares das prefeituras o direito de se candidatar em 1985.
“Favorecia-se, assim, a candidatura do ex-presidente Jânio Quadros, do PTB, em coligação do PFL, com
a eliminação do competidor mais forte da oposição, Mario Covas.” A alternativa do PMDB consistiu em
apresentar o próprio Fernando Henrique no lugar de Covas. Jânio venceu as eleições.

Covas também não conseguiu a indicação para as eleições ao governo de São Paulo em 1985. A escolha
recaiu sobre Orestes Quércia.Em compensação, em novembro de 1986, Covas elegeu-se senador com o
maior resultado eleitoral da história política do Brasil até então – 7.785.667 votos. Empossado em 1º de
fevereiro de 1987, primeiro dia de funcionamento da Assembléia Nacional Constituinte, assumiu logo a
seguir a liderança do PMDB, rivalizando em influência com o presidente Ulysses Guimarães.

Fernando Padula
Clube dos Tucaninhos
Um dia toca o telefone lá em casa:
‘O senador quer falar com você’. Era
a primeira vez que eu iria ao escritório dele, e ele
falou: ‘Menino, você sabe onde é o prédio da IBM?
Meu escritório fica em frente. Passa aqui’. Lá fui
eu. Minha mãe não estava em casa nem meu pai.
Minha tia foi comigo. Eu fiquei lá, um menino de
11 anos, conversando durante uma hora e meia
com o senador Mario Covas. Acho importante falar
isso porque mostra o quão diferenciado ele era.
Um senador em pleno exercício do mandato, com
quase 8 milhões de votos, com alguém que não
era filho de ninguém conhecido. Nessa conversa,
ele disse: ‘Agora, uma vez por mês, você me liga,
passa aqui, pra gente ir conversando’. Eu estava
no Boletim de Ligações do senador Mario Covas.

Como líder de bancada, Covas ganhou a reputação de excelente negociador. Não reunia o número de
votos para vencer um embate direto com o Centrão, bloco parlamentar majoritário. Mas, negociando
cuidadosamente, conseguiu dar cunho mais avançado a assuntos quase tabus, como o da reforma agrária.

Mendes Thame
deputado federal constituinte e
secretário de recursos hídricos

Mario Covas teve um papel extremamente importante


para que a Constituição corrigisse problemas, para
que a legislação não fosse só um conjunto de regras
sobre direitos, mas um indutor de comprometimentos,
inibindo os deletérios e estimulando aqueles com
propostas mais avançadas no campo das reformas, nos
temas de preservação do meio ambiente e nas grandes
questões sociais. Defendeu o parlamentarismo e opôs-
se aos cinco anos de mandato para o presidente José
Sarney. Embora vencido nesses dois embates,
sua atuação mostrou-se essencial para a
evolução da política partidária no país.

38 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l


Antonio Delfim Netto
deputado federal
constituinte

Eu era presidente da Comissão de Princípios, e o


Covas, comandante do bando que se acreditava
socialista. Era divertido ver o Mario invadindo
a Comissão para exigir dos liderados os votos.
Havia bom humor, enriquecia as divergências.
Ele não era mal humorado, era turrão. Tínhamos
divergências ideológicas, mas nunca tive
intenção de convencê-lo. O importante era que
tanto eu quanto ele acreditávamos no teorema
de Pitágoras. Nem eu perdi tempo para tentar
convencê-lo nem vice-versa.

Miguel Reale Junior


secretário de Administração e
Modernização do Serviço Público

Durante a Constituinte, eu assessorava a


presidência, e Covas era o líder do PMDB com
uma posição marcante. Pela manhã, os líderes se
reuniam, e Covas, como líder da maioria, presidia
as reuniões. Fazia a lição de casa, anotava tudo,
tinha absoluta memória e raciocínio lógico,
unidos à capacidade emocional. Os discursos
na Constituinte impressionavam pela firmeza
do raciocínio e a emocionalidade. Ele sempre
teve posições de coerência e fidelidade a seus
princípios, às vezes exageradamente. Como
no caso da votação sobre os cinco anos para
o governo Sarney. Covas fez uma consulta não
oficial aos convencionais, que mostrou que a
maioria do partido votaria pelos quatro anos.
Fui interlocutor de uma proposta de José Sarney,
de parlamentarismo já e cinco anos para seu
mandato. Eu e o Nelson Jobim levamos a proposta
para o Mario, que foi inflexível: ‘Se o partido
resolveu quatro anos, não aceito’. Uma decisão
que contrariava sua própria opinião.
Mas Mario Covas era muito firme em
suas convicções, não concedia nada
que as ferisse.

As posições assumidas por Covas no Senado funcionaram como um divisor de águas, canalizando numa só
corrente os políticos do PMDB interessados na renovação do partido. No âmbito paulista, esse desacordo
político se via agravado pela velha rivalidade entre o grupo de Covas e o de Orestes Quércia. Além do
distanciamento pessoal, havia a separá-los divergências profundas no modo de encarar a prática política.
Assim, em junho de 1988, Covas e seus aliados afastaram-se da sua antiga agremiação e reuniram-se sob
uma nova bandeira partidária: a do Partido da Social Democracia Brasileira – PSDB.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l 39


NASCE O PSDB
Covas sai candidato à presidência da República na primeira
eleição direta desde o fim da ditadura

Ao lado de Covas, encontravam-se no PSDB políticos de expressão, como Fernando Henrique Cardoso,
Franco Montoro, José Richa, José Serra e Pimenta da Veiga. Mas era urgente confirmar a identidade da
nova agremiação, apresentando um candidato próprio à presidência da República. Muito embora as
circunstâncias não fossem das mais favoráveis, Mario Covas aceitou a incumbência. Era a primeira eleição
direta para a presidência da República desde o fim da ditadura, e ele, que tanto lutara por esse dia,
sentiu que não poderia se esquivar.

Maria Helena Berlinck


chefe de GABINETE
DO GOVERNADOR

Não haveria partido se Mario Covas não quisesse.


Ele era uma espécie de lastro do PSDB, o que
dava sentido e rumo ao partido. Até o fato de
terem decidido que a presidência seria ocupada
alternadamente em rodízio, foi ideia de Mario
Covas. O interessante é que, enquanto Fernando
Henrique Cardoso formava os multiplicadores,
o Mario Covas viajava. Ele e a Lila saiam pelo
interior do Estado fundando os diretórios
municipais. Iam de fusquinha, e muitas vezes era
o próprio Covas que ia dirigindo.

Avelásio Jacobina
líder comunitário

Mario Covas foi fundamental para a criação do


PSDB. O retrato de 1987 é o retrato de hoje. Quércia
dominava São Paulo, pagava camisetas, carro,
gasolina, e nós não tínhamos nada. O Mario se
reuniu com Montoro, e disse: ‘Vamos criar um
novo partido’ com Euclides Scalco, Montoro,
Fernando Henrique, Tasso Jereissati, Dante de
Oliveira. Covas deu vez e voto para as lideranças
comunitárias, foi o grande mobilizador das
massas. Dizem que é um partido de elite, mas
surgiu porque Covas deu voz às massas. Tinha
grandes pensadores, lideranças, que foram
ajudando a fazer o estatuto. Mas
o mobilizador das massas foi
o Mario. Ele era invejado, mas
jamais igualado.

40 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l


Antonio Perosa
deputado CONSTITUINTE e
presidente do daee

Foi uma dificuldade grande fundar o PSDB. Eu fui


o sexto a assinar a lista. A fundação partiu da
bancada do PMDB de São Paulo, a maior e mais
importante. Ali estavam Ulysses, Covas, Montoro,
os grandes líderes políticos da ocasião. Partiu
daqui. Companheiros de outros Estados aderiram
por princípios. Para mim, pessoalmente, foi
muito difícil. O governador de São Paulo, que
era o Quércia, quando a gente saiu do partido,
foi à minha cidade na campanha subsequente
e me chamou de traidor. Eu enfrentei muitas
dificuldades, a gente estava deixando um
partido organizado e estruturado para criar algo
novo. Tanto que não me reelegi. Meu voto era de
companheiros do PMDB que tinham feito minha
campanha. Quando eu saí, eles não vieram junto.
Me lembro de Mario Covas ter dito: ‘Você vai ter
dificuldade para se reeleger’. Eu sabia. Mas não
podia deixar de ir junto com meus companheiros
de partido. Foi uma dificuldade grande para
todo mundo. Imagina para um deputado que já
tem cinco ou seis mandatos largar um partido
tradicional. Foi superdifícil, a gente enfrentou
muita oposição, interna do PMDB e externa,
sobretudo do PT. De uma certa forma, a gente
ocupava espaço semelhante em termos éticos e
morais, até então. E o partido só saiu quando
Mario Covas deu a palavra de que iria para o
novo partido. Ele tinha uma noção de ética
muito grande, e o partido só foi fundado depois
da Constituinte. Ele não queria enfraquecer a
liderança do Ulysses. Necessariamente, a saída
do PMDB significava isso. Nós éramos a ala do
Ulysses, mas a gente não podia concordar com
algumas coisas. Ulysses, para ficar, teve que
concordar com isso. Nós saímos.

Bob Fernandes - jornalista

Deles todos, Mario Covas era o mais


dedicado ao partido. O PSDB nasceu e
existe porque tinha o Covas. As demais
lideranças não tinham dimensão nem
estrutura para montar o partido. O Covas
acreditava e trabalhava
da forma mais profunda
e arrojada.

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A CAMPANHA PRESIDENCIAL
Partido novo e dificuldade de acordo com políticos influentes
deixam Covas em quarto lugar no primeiro turno
Na sessão do Senado de 28 de junho de 1989, Covas apresentou as bases de sua campanha presidencial
com um discurso de ampla repercussão e que ficaria conhecido como o do Choque do Capitalismo. Nele,
anunciava sua crença na social democracia como “a mais vitoriosa experiência política do pós-guerra”
e explicitava sua opinião sobre pontos delicados, como o das relações entre Estado e iniciativa privada.

Ronaldo César Coelho


deputado federal constituinte

Covas era uma referência ética na


política. Não era referência do meio acadêmico,
mas da capacidade de contato com o povo e
também de integridade. Entendia o povo mesmo
quando o povo não o entendia. Viajei com Covas
pelo Brasil todo na campanha presidencial
de 1989. A bela campanha que desfraldava a
bandeira da ética. Ele não se traiu em momento
algum. Íamos a lugares onde não tinha ninguém
para receber o candidato, e Covas em nenhum
momento demonstrou tristeza ou rebeldia. Foi
uma aula para mim - às vezes, não aceito o
destino. Aprendi com ele essa superioridade. No
fim da campanha, ele ligou pessoalmente para
cada um que ajudou.

A necessidade de dar identidade ao PSDB dificultava os acordos com políticos influentes. Em Minas
Gerais, o governador Helio Garcia manifestou o desejo de apoiar Covas, mas não chegou a concretizá-lo,
pois seu nome foi vetado por Pimenta da Veiga, então prefeito de Belo Horizonte. Pimenta da Veiga, que
coordenava a campanha de Covas em Minas Gerais, ambicionava candidatar-se ao governo estadual em
1990 e não tinha interesse numa aproximação com Helio Garcia. A única adesão a Mario Covas entre os
governadores partiu de Tasso Jereissati, do Ceará, que deixou o PMDB e aderiu ao PSDB.

Woyle Guimarães
coordenador do programa de TV

O Covas era explosivo, autêntico, tinha


consciência do papel que representava como
político. À primeira vista, era formal, preocupado
com a campanha, mas depois se mostrou alegre,
expansivo. Era reflexivo e tinha medo de ser
transformado em boneco de TV. Queria agir
como se estivesse numa tribuna onde podia ser
eloquente, falava de cima para baixo, com maior
volume de voz. Na TV tinha que ser diferente, mas
ele era um sedutor. Começaram as gravações, a
campanha era tumultuada por ser a primeira,
o PSDB não tinha base pelo país, havia Estados
onde não tinha sequer local para fazer comício.
Foi uma campanha guerreira, com
muito envolvimento, Mario Covas
olhando de frente, falando a
verdade, como sempre fez.

42 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l


Covas lutou pela vitória. Ao final do primeiro turno, Covas obteve 11,52% dos votos válidos.No segundo
turno, depois de intensa discussão interna, o PSDB acabou por apoiar Lula. Covas manifestou o seu apoio
pessoal no Rio de Janeiro.

José Serra
presidente do psdb

“Concordei com o apoio a Lula e


internamente defendi a liberação do voto,
já que a vontade da maioria era apoiar Brizola no
segundo turno. Mas a decisão estava tomada e fui
com Covas ao comício do Lula, no Rio de Janeiro.
O apoio a Lula em 1989 trouxe desgaste em parte
dos eleitores, principalmente em São Paulo, já
que muitos não entenderam os motivos do apoio.
Em 90 foi muito difícil. Covas não queria ser
candidato a governador. O Quércia apresentava
um grande volume de obras, e nós não tínhamos
prefeitos no Estado. Eu era presidente do partido
e os deputados queriam o Covas como candidato
a governador para garantirem as suas eleições.
Ele foi empurrado para ser candidato. Somando
a tudo isso, tínhamos o mote principal do PT
naquela eleição, que era nos atacar, apesar do
apoio a Lula em 89. Em São Paulo Covas perdeu
o governo e Montoro o senado. No Paraná, Richa
foi derrotado e em Minas Gerais, Pimenta da
Veiga também perdeu a eleição”.

Fábio Feldman
DEPUTADO E SECRETÁRIO
DO MEIO AMBIENTE

Ninguém queria apoiar o Collor, mas apoiar Lula


era difícil. Num comício, começaram a cantar
a Internacional Socialista, os outros líderes se
afastaram e Mario Covas ficou. E pagou caro por
isso. Hoje podem achar estranho, Lula está bem.
Mas em 1989 era outro momento. O presidente da
Fiesp sugeriu que se saísse do país. Covas apoiou
Lula e foi quem mais pagou por esse apoio.

Arnaldo Madeira
vereador

“O PSDB nacional decidiu apoiar o Lula, e Covas,


com sua coerência, foi em frente. Mas a sociedade
paulista ficou com um pé atrás com ele. O apoio
provocou desgaste. Em 90 conversei com ele que
não devia ser candidato pelo desgaste de 89. Ele
concordou, mas havia pressão dos deputados
que haviam ido para o PSDB e queriam um
candidato a governador para puxar votos.
Ele acabou cedendo, foi para o sacrifício
para eleger a bancada. Ele tinha espírito
partidário, mesmo em prejuízo próprio”.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l 43


RUMO AO
GOVERNO DE SÃO PAULO
Na disputa de 1990, Covas não passou do primeiro turno, voltou ao
Senado e, corrigindo a rota, elegeu-se em 1994

Em 1990, Covas candidatou-se pela primeira vez ao governo do Estado de São Paulo, não passando do
primeiro turno. A eleição foi vencida pelo candidato do ex-governador Orestes Quércia, Luiz Antonio
Fleury Filho, que derrotou Paulo Maluf no segundo turno.

Zulaiê Cobra Ribeiro


candidata a vice

Mario Covas me chamou no dia 1º de


junho de 1990. A convenção aconteceria no dia
3. Fiquei contente, encantada, era viúva recente,
não sabia se sairia candidata a deputada federal
– o que significava mudar para Brasília, e meus
filhos eram pequenos. Mario Covas me chamou
para vice, ia apresentar meu nome na reunião
da executiva, mas pediu que eu não fosse. Ele
falou: ‘Só saio candidato se você for minha
vice e não quero você lá’. Não fui. Havia cinco
pré-candidatos a vice, todos homens. Eu não
tinha sido nada ainda, e ele cortou qualquer
manifestação contra mim: ‘ou aceitam ou saio
e não volto’. Fui para a convenção, tenho belas
fotos. É bom que se saiba que em 1990 era muito
difícil mulher ser vice. No comício, em carreata,
perguntavam: quem é aquela mulher ali? Foi
uma campanha muito difícil. Paulo Markun
coordenador do programa de TV

Na campanha para o Senado, Covas sentava


em um banquinho no estúdio e contava uma
história. Foi eleito com quase 8 milhões de votos.
Em 1990, ele insistia no mesmo conceito. Mas
era preciso apresentar o programa de governo, e
Covas não aceitava ponderação de não entrar na
briga com Fleury. A campanha começou com 42
pontos nas pesquisas e terminou com 14. Ele não
queria ser candidato, estava extremamente mal
humorado. Quatro anos depois quis e se elegeu. A
coisa era tão complicada que um dia me ajoelhei
aos pés dele e implorei que gravasse o programa.
Mas não adiantava, qualquer alternativa que eu
ou o Marcelo Vaz apresentássemos ele
não aceitava. Mas não dizia o que
queria. Fomos ficando sem programa.

De volta ao Senado, Covas assumiu papel relevante no principal acontecimento político do início da década
de 1990: o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello. Durante os debates, os defensores
do presidente haviam alegado que a CPI fora aberta para apurar os desmandos de PC Farias e seria
desvirtuá-la de suas finalidades envolver o presidente. Respondera Covas, citando Pedro Collor, que PC
Farias ficava com apenas 30% dos ganhos ilegais, cabendo 70% ao presidente. Dessa maneira, não havia
como desvincular um nome do outro, a não ser que se quisesse rebatizar a Comissão como a CPI dos 30%.

44 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l


Jorge Bornhausen
senador constituinte

Em fevereiro de 1992, fui chamado pelo


presidente Fernando Collor de Mello, depois
de uma votação na Câmara Federal em que o
governo teve um só voto. Collor queria formar
um ministério multipartidário para restaurar o
governo. Demorei para aceitar, mas depois me
empenhei a fundo. Convidamos Tasso Jereissati,
então presidente do PSDB, e Fernando Henrique
para comporem o ministério. Jereissati para
a Integração Regional e FHC para as Relações
Internacionais. Tratei muito com FHC, de quem
era próximo. O PSDB, pelo voto de desempate de
Mario Covas, não aceitou. Nem por isso a amizade
ficou abalada. Covas estava certo.

Com a renúncia de Collor em 29 de dezembro de 1992, o vice-presidente Itamar Franco, já presidente


interino desde 2 de outubro, assumiu definitivamente o cargo. Mario Covas defendeu no PSDB a tese
vitoriosa de um governo de união nacional em torno de Itamar Franco. Em janeiro de 1993, Fernando
Henrique Cardoso assumiu o Ministério das Relações Exteriores do governo. Deixava vaga a liderança da
bancada do PSDB no Senado, que foi ocupada por Mario Covas.

O governador dos paulistas Antonio Angarita


coordenador do Programa de Governo e
secretário de Governo
Em dezembro de 1993, Mario Covas lançou-se
candidato ao governo de São Paulo, e a proposta Várias pessoas queriam ajudar Mario Covas
básica do programa de governo, elaborada na Fundação Getúlio Vargas. Também havia o
por ele, era mudar o Estado por meio de três contingente de engenheiros da Poli que sempre
revoluções. A primeira delas era ética: o governo o acompanhara, além do pessoal que havia
vivido a experiência da prefeitura. Além desses,
não poderia mais continuar dando motivo para
muita gente procurava a Casa do Programa, o
ser agredido pela sociedade. A segunda seria uma
que, na verdade, era um complicador – talvez
revolução administrativa, e a terceira, contra
seja mais fácil administrar a escassez do que
o desperdício. Em torno dessa trilogia, foram a abundância. Foram criados 30 grupos de
criadas as políticas públicas que viriam a nortear trabalho. Para que não houvesse um único
todas as ações do governo Mario Covas. coordenador em cada grupo, que poderia
pensar que já seria secretário, entregamos o
comando a três pessoas: um político, um ligado
a universidade e outro de empresa. A orientação
foi cumprida em cerca de 70% dos casos. Cada
um levou seu próprio contingente. Era muita
gente. A dificuldade era deixar de discutir o
programa, todo mundo queria conversar. Eu
não podia derrubar o entusiasmo nem deixar o
programa escapar de nossas mãos. A campanha
já nas ruas, e o programa sendo elaborado.
Havia divergências, discórdias, conflitos entre
membros da equipe. E a GW, produtora do
programa de televisão, pressionando. Até que
um dia, o Luiz Gonzalez pegou um
livrinho qualquer e mostrou no ar
como sendo o programa do governo.
Mario Covas ficou muito bravo.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l 45


Para evitar ciúmes e clivagens determinadas por lideranças diversas dentro do próprio PSDB, algo que
prejudicara gravemente a campanha anterior, Covas ampliou o número de colaboradores ligados às
principais lideranças do PSDB naquele momento: Montoro, Serra, Fernando Henrique e Sérgio Motta.

Robson Marinho
coordenador da campanha de
1994 e secretário da Casa Civil

Recebi dele duas recomendações


de imediato: primeiro, que nenhuma briga,
nenhuma disputa, nenhuma fofoca de
campanha eleitoral chegasse até ele, que fosse
resolvida e estancada no nascedouro. Segundo,
que fizéssemos a campanha de acordo com os
recursos arrecadados e no ritmo em que os
recursos financeiros estivessem disponíveis.
Nunca gastar um tostão além daquilo que
arrecadasse, porque ele não tinha patrimônio
pessoal para honrar dívida de campanha. Essas
foram as duas primeiras recomendações.

Geraldo Alckmin
vice-governador

Em 1993, eu era presidente estadual do PSDB e


sempre me chamou a atenção a preocupação
de Covas com a democracia interna. Havia dois
candidatos a governador: Covas e Serra. Eu
marquei a data de inscrição das primárias para
dezembro de 1993, e em janeiro seria a escolha.
Covas foi e se inscreveu. Serra abriu mão, não
se inscreveu. Serra saiu candidato a senador, e
Covas, a governador. Coordenei o processo até
a convenção. Mario Covas não tirou do bolso do
colete um candidato a vice. Fez uma reunião na
véspera da convenção na casa dele, com umas
40 pessoas. Havia dois possíveis candidatos a
vice: eu e o Walter Barelli. Mandaram a gente sair
para comer uma pizza e ficamos esperando sair
a fumaça branca do episcopado. Voltamos para
o apartamento, e Covas chamou Barelli para
conversar. Eu tinha sido o escolhido.

Gugu Liberato
apresentador de TV

Sempre pensei em participar do PSDB,


desde a fundação do partido. Já havia
sido convidado para participar de
campanhas políticas de candidatos de
outros partidos, mas nunca aceitei. Com
Mario Covas foi diferente.
Nele, eu confiava.

46 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l


Danilo Palásio
editor-chefe do programa de
TV nas campanhas de 1994 e 1998

Covas era uma pessoa apaixonada pelo que


fazia. Nosso primeiro contato foi numa noite,
num encontro de apresentação entre a equipe
e o candidato. Chamou a atenção Covas ter
ficado o tempo todo, mais de duas horas, de
mãos dadas com dona Lila, muito amoroso,
acariciando as mãos dela. Um contraste com a
imagem do Covas guerreiro, brigador. De início,
Covas ficou desconfiado em relação ao plano
do programa de TV, reclamou que tinha que ir
gravar várias vezes por semana. Depois passou
a ser mais colaborativo, respeitava a equipe.
Outra coisa que me marcou logo nos primeiros
dias era a obstinação com a exatidão das
informações. Em uma reunião sobre educação,
Covas chamou um monte de gente, queria saber
como ia implementar os projetos, de onde viriam Favorito desde o início da campanha, Covas
os recursos etc. Ele não se incomodava em ser passou para o segundo turno em novembro de
chato. A reunião durou mais de dez horas. 1994 e venceu facilmente Francisco Rossi.

JUSCelino Cardoso
deputado estadual e secretário
da Casa Civil

Teve uma passagem que me marcou no segundo


turno, eu já eleito deputado estadual. Francisco
Rossi estava crescendo e alguém disse a Covas que
havia problemas com os salários dos professores
e que ele tinha de assumir na campanha o
compromisso de aumentar os salários. Covas
respondeu: ‘Por que vou falar isso? E se não tiver
condições de atender? Vou pegar o Estado falido,
não sei se posso honrar esse compromisso.
Primeiro tem que sanear. Se tiver que perder a
eleição, eu perco, mas mentir eu não vou’. Fiquei
olhando, poucos fazem isso.

Irene Ravache
atriz

Quando junto o meu nome ao de um político


é porque estou acreditando na proposta de
um cidadão. Não faria contratada, não é um
comercial, é um testemunho. Fiz algumas
campanhas para Mario Covas.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l 47


GOVERNADOR DE SÃO PAULO
Com coragem, lisura e austeridade, Covas enfrentou as
dificuldades do Estado e buscou as soluções

Mario Covas sabia dos problemas que iria encontrar para administrar as finanças paulistas e definiu o
ajuste fiscal como objetivo inicial de seu governo. Por mais drástico que fosse esse ajuste, entretanto, a
crise não seria resolvida sem a renegociação da dívida do Estado com o governo federal, que crescia de
forma exponencial, a uma taxa de juros que chegou a 4% ou 5% ao mês.

Ricardo Trípoli
deputado estadual, presidente
da Assembléia e secretário do
meio ambiente

Quando assumi a presidência da Assembléia


de São Paulo, em 1995, Covas me disse: ‘Olha,
serão os dois piores anos das nossas vidas.
Vamos votar a rolagem da dívida do Estado,
as privatizações e as concessões’. A assembléia
tinha que ser parceira em projetos que nem
sempre eram simpáticos. As votações de projetos
importantes eram sempre com plenário cheio,
tomado por membros das três centrais sindicais,
vaiando deputados, o pessoal do setor elétrico
contra a privatização da CESP. Covas trabalhou
duro. Chamava os sindicatos para explicar a
necessidade da aprovação. Tudo com diálogo,
conversa, e sem tropa de choque os projetos iam
sendo aprovados. Mario Covas não facilitava a
vida de ninguém.”

Sueli Martins
secretária

Quando chegamos, o Palácio dos Bandeirantes


estava um caos, sujo, com os poucos
computadores quebrados, abertos, uma coisa.
Aí eu falei: ‘Meu Deus, o que eu vim fazer aqui?’
Mas tínhamos uma missão, eu, principalmente,
desde a época de Santos. Fui como secretária,
éramos duas, depois começou apertar muito, e
chegamos a ficar em quatro pessoas, fazendo
rodízio. Eu ficava o dia inteiro. Ele não tinha
hora. Até organizar tudo foi muito complicado.
Todo mundo queria falar com ele. Os secretários
com mil problemas, os políticos, os fornecedores,
era uma loucura. No começo foi uma barra. Ele
atendia todo mundo. E tínhamos que ficar até ele
terminar. Mas as pessoas eram muito engajadas.
Todos nós éramos amigos, companheiros, o
Covas fazia as pessoas agirem dessa
maneira. Você acabava fazendo parte
da resolução dele, do projeto político
dele. Era icansativo, mas incrível.

48 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l


Walter Feldman
deputado, líder do governo e
secretário da casa civil

Naquele ano, uma grande bancada foi eleita,


e Covas me convidou para ser seu líder na
Assembléia. Eu estava chegando na Casa e
perguntei a ele: ‘Como vou montar maioria?’.
‘Problema seu’, respondeu Covas. Era um desafio
quase impossível de ser superado. Com Covas
não havia nenhum tipo de troca. Era a força
moral. Um período de grandes transformações,
concessões de rodovias, mudanças tributárias,
priorização de políticas sociais. O trabalho era
diuturno. Depois de um ano, conseguimos atrair a
bancada do PMDB. Era uma prática republicana,
com o compromisso de compartilhar a gestão.
Assim, aprovaram tudo. Do primeiro para o
segundo ano houve pressão de deputados sobre
o orçamento de Covas. Falei para o governador
que a situação estava crítica, a maioria era
instável, os deputados queriam mudanças.
Covas respondeu: ‘Diga para os líderes rejeitarem
o orçamento, é isso que eu quero deles’. E eu
argumentei: ‘Você está preparado para ser
derrotado?’ E Covas: ‘Eu quero ser derrotado’. E
o orçamento foi aprovado. Covas não se curvava.

Rubens Rizek Junior


chefe de gabinete da
Assembléia Legislativa

Lembro-me que uma vez fui despachar com o


governador, acompanhando o deputado Macris,
presidente da Assembléia Legislativa. Nós
entramos na sala dele, ele cumprimentou com Milton Flávio
uma certa distância institucional, eu estranhei, líder da bancada do PSDB e
mas ele disse: ‘Presidente – chamou o Macris presidente do iamsp
de presidente – presta atenção no que você vai
me pedir, porque o governador não fala não ao Covas sempre incentivou o debate, e seus
presidente do Poder Legislativo, eleito pelo povo’. projetos sempre exigiram embates acalorados.
Ele falou aquilo com autoridade pública, ele deu As corporações vinham aqui, jogavam moedas,
um sentido tão nobre àquela reunião entre o havia ameaças físicas. O governador gostava
chefe do Poder Executivo com o chefe do Poder disso, que tivéssemos coragem de defender
Legislativo, que deixamos de lado os assuntos o modelo que queríamos em São Paulo. Uma
que não tinham relevância. Covas constrangia as coisa importante, que me envaidece,
pessoas de forma elegante, sempre lembrando a é que Mario Covas nunca pediu que
elas a importância do cargo que exerciam. Isso transgredíssemos. Ele dizia: ‘Não estou
para mim foi muito marcante. pedindo que aprovem, mas que votem’.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l 49


Finanças
Às vésperas da posse, surgiu uma agravante inesperada. Pedro Malan, presidente do Banco Central,
telefonou para Covas avisando que o Banespa estava com grandes dificuldades, e Pérsio Arida, que o
substituiria no cargo, iria a São Paulo conversar sobre o assunto. Na mesma tarde, Arida sugeriu a Covas
que tomasse a iniciativa de solicitar a intervenção federal no Banespa, a exemplo do que acabara de
fazer o governador do Rio de Janeiro, Marcelo Alencar.

Eugênio Staub
empresário

Uma vez fui convidado pela revista Veja


para responder a um teste. Nele, classifiquei
Mario Covas como um político de esquerda
liberal. Era assim que eu o via. Covas tinha
qualidades que não se encontram em políticos.
Era preocupado com o momento social,
obstinado, honesto, coerente com seus ideais e
fiel com os companheiros. Um homem teimoso,
mas teimosia não é, necessariamente, um
defeito. Todos devem sempre lembrar o quanto
ele lutou e teimou em relação ao Banespa.

Paulo Cunha
empresário

Eu presidia o Instituto de Estudos para o


Desenvolvimento do Estado de São Paulo, criado
por empresários, para discutir o desenvolvimento
industrial do Brasil. Procuramos Mario Covas, ele
se interessou muito, nos instou a procurá-lo com
mais freqüência. Eu, o Paulo Francini, o Eugênio
Staub e o Cláudio Bardella passamos a nos reunir
com Covas para tratar da indústria paulista. Não
me lembro de ocasião em que o assunto não fosse
o Brasil, São Paulo. A política era sua cachaça.
Nos encontros, falávamos muito sobre política
econômica. Nunca vi Mario Covas fazendo críticas
públicas ao governo federal, ele tinha uma
grande lealdade e sempre deixava claro seu
apoio ao governo do presidente Fernando
Henrique Cardoso.”

Tanto o governo federal quanto o do Estado de São Paulo tinham interesse numa solução rápida, pois
seus destinos estavam indissoluvelmente ligados. Grosso modo, o governo, em seus três níveis, aplicava
em São Paulo em torno de 20% do PIB, mas arrecadava em torno de 40%. A diferença era transferida para
o governo federal e, por intermédio deste, para os demais Estados, especialmente por meio do Fundo
de Participação dos Estados e Municípios. Não havia, portanto, possibilidade de consolidar o Plano Real
sem um acerto com São Paulo. Tanto mais que os outros Estados tomavam São Paulo como exemplo e só
cediam nas negociações o que São Paulo cedesse. Por outro lado, a demora em encontrar uma solução
fazia crescer rapidamente o montante da dívida paulista.

50 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l


Yoshiaki Nakano
secretário da Fazenda

A relação com o governo Fernando Henrique


Cardoso tinha duas dimensões: Mario Covas
era de uma lealdade absoluta, mas divergia
totalmente do tipo de política do governo federal.
Covas dava prioridade absoluta à geração de
empregos e à melhoria das condições de vida
da população. Portanto, não podia haver juros
altos, câmbio valorizado. Havia divergências,
defendia juros baixos, câmbio mais favorável
para exportação, Covas era contra expandir
gastos e aumentar carga tributária e assinou
mais de 170 atos reduzindo o ICMS. Covas também
queria, de imediato, as reformas da Previdência,
a tributária e a política para deixar para depois
a reforma econômica.

Havia, é claro, a saída, finalmente aceita, de saldar parte das dívidas com a venda ou entrega de ativos.
Mas, além das dificuldades para o estabelecimento de critérios de avaliação, sobravam implicações
políticas. Durante a Constituinte, Covas criara uma imagem de adversário das desestatizações. Nunca
admitiu, aliás, que se afirmasse como questão de princípio a inferioridade da empresa pública diante da
empresa privada. Mas fora obrigado a reconhecer a impossibilidade em que se encontravam as empresas
públicas de São Paulo de investir as somas necessárias a seu desenvolvimento, motivo pelo qual já
aceitara as desestatizações como parte do Programa de Governo.

André Franco Montoro Filho


secretário de Planejamento

O Covas, sempre visto como esquerdista


estatizante, tirou a ideologia desse processo e
fez o que era necessário para o povo. E enfrentou
com bravura os protestos da oposição. Fazia
questão de ir pessoalmente aos leilões das
empresas energéticas e não
se amedrontava diante das
manifestações.

Assim, a Companhia Paulista de Força e Luz acabou leiloada em novembro de 1997 por 3,015 bilhões de
reais. No mês seguinte, a Eletropaulo foi dividida em quatro empresas, duas de distribuição, uma de
geração e uma de transmissão, que logo depois passaram a ser cotadas na Bolsa de Valores. Veio depois
a venda da Cesp em julho de 1998, e da Comgás, no primeiro semestre de 1999.

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Andréa Matarazzo Mauro Arce
presidente da CESP e Diretor da CESP e Secretário de Energia
secretário de Energia
Foi um período difícil, onde era preciso tomar
Na CESP, a intenção inicial não era decisões importantes, pensando no futuro do
privatizar, mas sanear e dar continuidade às Estado de São Paulo e do país. Privatizar não
ações da empresa. Mas, depois de avaliar os era uma questão ideológica para Mario Covas.
dados, optamos pela desestatização. A CESP Era uma necessidade. Não tinha outra saída.
tinha 22 mil funcionários, a maioria trabalhando Havia uma dívida imensa, e Covas foi obrigado
em escritórios na avenida Paulista. Reduzimos a fazer, porque o Estado estava quebrado. Ele
para 8 mil e devolvemos os imóveis. A história participava de tudo, das reuniões, da tomada de
vai julgar Mario Covas pela sua simplicidade. Ele decisão, discutia preço, prazo e condições. Nesse
não tinha segundas intenções, era transparente. processo todo, sua força moral foi de extrema
Entendia o que a sociedade queria, não fazia importância. Ele brigava muito, mas quando
um personagem político. Resistia às pressões resolvia a questão, era disciplinado, ético e
contrárias à privatização, e todos somos cumpridor. E mais, segurava a barra de todo
unânimes em dizer que, tomada a decisão, mundo. Era um agregador.
tínhamos total apoio dele.

Antes que o processo terminasse, o governo de Mario Covas já ganhara força bastante junto ao governo
federal para negociar sua dívida em melhores condições. E sua maior credencial era o êxito do ajuste das
contas públicas. Além do valor simbólico como “banco dos paulistas”, o Banespa, na opinião de Covas,
atravessara apenas um período de má gestão, mas tinha todas as condições de se recuperar. O correr do
tempo, no entanto, deixou claro que a equipe considerava a privatização como caminho obrigatório para
todos os bancos estaduais. Restou aos paulistas o consolo de ter salvado a Nossa Caixa.

Adroaldo Moura da Silva


amigo e empresário

Foi um momento de alta tensão. Eu estava


na casa de Mario Covas, com minha mulher,
Rose, e a Lila Covas, quando ele recebeu a
notícia da intervenção no Banespa. Covas ficou
enlouquecido. Mas o episódio mostrou bem
seu caráter. Ele dava estocadas no Fernando
Henrique, no Malan, mas segurou o pepino por
respeito ao presidente. Demorou muito tempo
para Covas deglutir a intervenção.

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Fernando Henrique Cardoso
presidente da República

Antes do primeiro turno da eleição de 1994, eu e o


Mario fomos visitar D. Paulo Evaristo Arns. O Mario
chegou mal humorado, de óculos escuros, não
entendi nada. Eu sabia que ia ser eleito e achava
que o Mario também. Falei para ele: ‘Temos um
pepino, o Banespa. Indique três pessoas para
discutir o caso’. Ele indicou o Adroaldo, o Angarita
e o Calabi. Foi para o segundo turno e seguramos
o anúncio da intervenção para não prejudicar a
eleição. Eu concordei com a intervenção. Comigo
ele nunca teve uma explosão, só resmungava.
Explosão foi com o Malan. O Banco Central sempre
se opôs à negociação sobre o Banespa. Fechamos
quase 40 bancos, e se não tivéssemos fechado,
hoje estaríamos capotando. O Mario sempre
achou que foi injustiçado. Mas não é verdade.

Graças à soma de esforços empreendidos pelo governo de Mario Covas, foi possível assinar o acordo de
renegociação com o governo federal em termos favoráveis. A dívida do Estado de São Paulo, que chegava
a 76,8 bilhões de reais em dezembro de 1994, caiu para 64,6 bilhões de reais. Os pagamentos ficaram
limitados a um teto de 13% da receita corrente líquida.

Havia uma cláusula do acordo prevendo juros diferenciados, dependendo de o financiamento cobrir
ou não a totalidade da dívida. Para os Estados ou municípios que quitassem 20% do total no ato da
assinatura do contrato, os juros anuais seriam de
6%. Para os que não fizessem esse pagamento,
os juros anuais subiriam para 9%. São Paulo foi
dos poucos que pagaram os 20%, cedendo ao
governo federal ativos como os da Fepasa.

Francisco Graziano
secretário de Agricultura
e Abastecimento

Mario Covas nunca titubeou sobre a grande


reforma administrativa que precisava ser feita na
Secretaria da Agricultura de São Paulo. Ele deu
apoio incondicional para arcar com os custos
financeiros e políticos das demissões no Ceagesp,
que foi privatizada em sua gestão. Fora isso,
enfrentou as reclamações de prefeitos
que se sentiam desprestigiados,
mas seguiu em frente, enxugando
uma estrutura hierarquizada e
modernizando o Estado.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l 53


A revolução administrativa

A segunda revolução anunciada por Covas referia-se à parte administrativa, necessitada de um salto de
qualidade e de uma aproximação com o povo. O instrumento principal consistiu na aplicação em larga
escala da tecnologia da informação, ou seja, a conjugação da computação com as novas tecnologias de
telecomunicações. Todas as informações do governo seriam digitalizadas e os diversos setores conecta-
dos em rede, constituindo o que se convencionou chamar de “governo eletrônico”.

Alexandre Schneider
assessor da Secretaria
de Governo

A situação do estado era caótica, com muitas


dívidas. Covas pediu a Angarita, secretário
de Governo, com quem eu trabalhava, para
ver pessoalmente todos s contratos. Angarita
argumentou que era muita coisa, mas Covas
disse que queria mesmo assim. Angarita então
trouxe dois carrinhos de mão cheios de contratos
e ali começou a informatização dos dados, o
que possibilitou levantamento de custos e como
conseqüência o corte de despesas.

Dalmo do Valle Nogueira


secretário adjunto de Governo

Ele não negociava individualmente com a


Assembléia. Achava que, se a instituição era ruim,
um dia ia melhorar. É injusto considerar Covas
centralizador. Ele discutia tudo, queria saber de
tudo e receber todas as informações, e na maior
parte das vezes as decisões eram dos secretários,
que escolhiam os presidentes das empresas e se
reportavam a eles. Antigamente a diretoria só
falava com o governador e não com o secretário.
Covas não foi substituído, não
tem ninguém com o peso dele,
respeitado como estadista.

Com sua formação de engenheiro, Mario Covas logo percebeu o alcance das inovações que o governo
paulista estava propondo e cuidou de viabilizá-las através de um empréstimo obtido junto ao BID
em setembro de 1995. Isso permitiu que a capacidade dos técnicos do governo fosse ampliada pela
contratação de consultores em informática ou de empresas de softwares para o desenvolvimento de
produtos eletrônicos. Dentro da revolução administrativa proposta por Covas estava o cadastramento
eletrônico de 20 mil fornecedores e a padronização de editais e contratos.

54 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l


Vitor Levy Aly
assessor especial do governador

Eu e o Zeppo, dois engenheiros, fomos colocados


pelo governador em uma sala ao lado da dele.
Fazíamos tabelas, planilhas e gráficos, dos mais
variados assuntos de governo. Ele queria tudo em
ordem, e para ontem, é claro. Passou o primeiro
ano tendo sobressaltos. Fazia reuniões, chamava
pessoas e o som da sala dele vazava na nossa. A
gente deixava o ar condicionado ligado pra não
ouvir a conversa. O ar condicionado era velho e
barulhento, mas a gente não deixava trocar. A
gente fazia tudo, precatórios, Banespa, obras,
serviços preferenciais do estado e a prestação de
serviços terceirizados, que deu origem a tabela
de preços, que mudou toda esta questão de
gestão, preços preferenciais e concorrências. Foi
duro ficar tão próximo, mas foi um aprendizado.

Saulo de Castro Abreu Filho


corregedor geral da Administração
e presidente da Febem

A determinação do governo era apurar todas


Edward Zeppo as denúncias, sem revanchismo, mas indo a
assessor especial do governador fundo. Para isso, era preciso criar um grupo
com técnicos. Criamos sistemas de decisões do
Eu e o Vitor tínhamos a tarefa de acompanhar governo, inclusive com fotos de obras e sistema
as 220 obras prioritárias do governo. Nós não de contratos terceirizados. Com isso vieram os
fiscalizávamos, mas fazíamos o acompanhamento indicadores. Gerou-se economia de bilhões e sem
da obra. Foi feito um programa e a gente tinha o quebrar contratos. Era um processo transparente.
cronograma de todas as obras. Eram de 2 a 3 mil O governador se mantinha bem informado e
quilômetros de estrada a cada 15 dias. Na volta, melhorou a qualidade do serviço público. Tinha
com o relatório e fotos na mão, o governador auditoria de campo, buscamos a lei de 1950, de
cobrava. Além das prioritárias, haviam mais Jânio Quadros, criamos a corregedoria geral da
de 2.000 obras paradas, algumas, dependendo administração. Chagamos a 80 corregedores, deu
de pequenos valores para terminar. Ele fez um uma boa moralizada. Tinha o aspecto punitivo,
estudo de viabilidade de cada obra. Chamava com demissões, exonerações, prisões. O governo
o o empreiteiro junto com o secretário da área federal e municípios copiaram esse modelo.
e nós tínhamos o levantamento de quanto a
obra ia custar. Ele falava para o empreiteiro: Em Era um trabalho delicado, as pessoas iam
quanto tempo você me entrega a obra pronta? A reclamar com o governador. Covas então colocava
pessoa dava o prazo e ele respondia: Pois bem, o reclamante frente a frente comigo. Já criava
neste prazo, posso te pagar tanto por mês. Pode um constrangimento. Ele fazia questão de
confiar. Covas não era homem de falar uma coisa sempre ter o contraditório e nunca pediu
e fazer outra. Com suas atitudes, a credibilidade para interromper uma investigação. E era
voltou para o governo de São Paulo. com gente graúda, até mesmo do PSDB.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l 55


Educação

Quando Covas assumiu o governo, as escolas eram amontoados de crianças e jovens; a mesma carteira que
recebia o menino de sete anos pela manhã, recebia o rapaz de 24 anos à noite. As escolas funcionavam
em quatro ou até cinco turnos, às vezes só com três horas de aula por dia. Nas salas, os materiais não
podiam ficar expostos, porque eram destruídos pelos alunos de outros períodos.

Covas preferiu fazer uma reforma abrangente, que beneficiasse todos os alunos da rede pública. Os
resultados vieram mais cedo do que o esperado. Em 1996, após a racionalização da ocupação, 70% das
escolas se tornaram exclusivas para alunos de primeira a oitava séries ou de quinta a oitava séries e de
ensino médio. Mais tarde seriam implantadas cinco horas diárias de aula em toda a rede pública.

Para combater as taxas de evasão e repetência elevadíssimas, criou-se a chamada progressão continuada
ou em ciclos. O sistema introduzia maior flexibilidade, permitindo que alunos com resultados fracos em
determinadas matérias não fossem condenados a repetir integralmente o ano letivo. Passavam para a
série seguinte, recebendo reforço especial naquilo que não haviam conseguido aprender.

O fim da desordem nas matrículas foi mais uma das conquistas do governo eletrônico e, com a
informatização do cadastro em 1995, verificou-se em março de 1996 a existência de 280 mil matrículas
duplicadas. Feito o ajuste, evitou-se, pela primeira vez, o desperdício nas compras de merenda escolar.

Rose Neubauer
secretária de Educação

Trabalhar com Mario Covas foi uma


lição incrível. Nosso grupo era idealista, poder
administrar com ele parecia utopia. Durante
as inaugurações de escolas, Mario Covas fazia
questão de dizer : ‘A escola é de vocês, feita com
dinheiro de vocês, não têm que agradecer’. Ele
nunca foi de esquerda, mas tinha compromisso
com a população, respeito à coisa pública, que
muita gente de esquerda coloca no discurso e
não põe em prática.

Hubert Alquéres
secretário adjunto da Educação

Covas deixava as pessoas se manifestarem. Ele


também tinha espírito do confronto, quando
necessário. Tinha obsessão pela verdade, e não
gostava de argumentos falaciosos. No começo da
gestão, muitos professores faziam protestos com
os holerites nas mãos, dizendo que ganhavam
pouco. Mas os holerites não traziam todas as
informações. Covas então pediu o salário de
todos os professores. Montamos num laptop um
programa onde havia todas as informações sobre
o professor. No palanque Covas respondia aos
manifestantes. Sempre que tinha um grupinho
de professores ele topava a briga,
rebatia e tinha razão. Com Covas,
essa prática acabou.

56 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l


Habitação

A mistura de boa gestão e boa política, no melhor sentido da palavra, deu resultados felizes na habitação.
Do lado técnico, as construtoras e indústrias de construção civil foram incentivadas a desenvolver novas
tecnologias de construção e apresentá-las para testes na CDHU — Companhia de Desenvolvimento
Habitacional e Urbano. Um entusiasta do sistema de mutirão, Mario Covas tratou de incentivá-lo,
oferecendo aos interessados formas alternativas de construção com peças e estruturas pré-moldadas.

No âmbito político, Covas introduziu duas novidades no programa de habitação do estado. A primeira delas
refere-se à escolha dos contemplados entre os inscritos na CDHU. Para eliminar qualquer possibilidade
de favorecimento, decidiu que a atribuição seria feita exclusivamente através de sorteio público. Esses
sorteios logo transformaram-se em eventos acompanhados por milhares de pessoas.

Como segunda novidade, o contrato passou a ser assinado, não mais pelo casal, mas exclusivamente pela
mulher, que desta maneira se tornava única proprietária. Covas adotou a medida de imediato e passou
a referir-se a ela em todos os sorteios públicos, recolhendo a cada vez uma nova onda de aplausos. A
medida, uma das mais populares de seu governo, nunca foi contestada, jurídica ou politicamente.

Goro Hama
presidente da CDHU

A habitação popular era um


programa de muito sucesso, e Covas participava
pessoalmente de tudo. Ou na quarta ou no
sábado, ou até duas vezes por semana, lá ia
ele participar dos sorteios em vários pontos do
Estado. Chegou ao final do primeiro mandato
com 120 mil unidades entregues, representando o
atendimento direto a 600 mil pessoas, que agora
passavam a ter teto e endereço. O governador
tinha uma atenção muito especial pela área
de habitação, já que ela cuidava diretamente
do povo. Covas adorava. A sensação da pessoa
receber uma casa, era um negócio inimaginável.

Padre Ticão

Ele tinha uma sensibilidade comunitária única, e


para nós da zona leste, que pegamos os piores
políticos, principalmente na época da ditadura,
foi um atraso social enorme, com a periferia
inchando sem qualquer planejamento. Mario
Covas tinha planejamento, todo um pensar a
partir da periferia. Foi um marco histórico. Em
políticas públicas Mario Covas deixou um marco
importante para todos nós.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l 57


Saúde

Uma das principais diretivas adotadas por Mario Covas em seu governo foi a de não começar novas
obras enquanto aquelas em andamento não estivessem terminadas. Válida para todas as áreas, essa
preocupação mostrou-se essencial no caso da Saúde. Ao assumir o governo, Covas encontrara catorze
esqueletos de hospitais iniciados e abandonados. Cuidou de terminar essas construções, começando
pelas que estavam mais avançadas ou as localizadas em locais mais necessitados.

Somente depois de terminada a fase de finalizações, cuidou de construir hospitais novos, cujo número
chegou a quinze: cinco na capital, oito na Grande São Paulo, um em Bauru e um na cidade de Sumaré. A
capacidade dessas novas unidades chegava a três mil leitos, número que, somado aos três mil reativados
e/ou criados por ampliações nos hospitais antigos, elevou o total de leitos disponíveis em seis mil.

Partindo do princípio de que serviço público não precisa ser estatal, Covas submeteu à Assembleia
Legislativa e obteve a aprovação da lei que criava as Organizações Sociais. Graças a essa inovação legal,
Mario Covas pôde autorizar a assinatura de uma série de contratos de gestão com entidades beneficentes,
que recebem o dinheiro do Estado, contratam o pessoal e compram medicamentos.

José da Silva Guedes João Batista Rizeque


secretário de Saúde assessor de Obras da
Secretaria da Saúde
A proposta de Mario Covas foi vista com muita
seriedade, e só o PT e o PC do B votaram contra. A gente devia muito dinheiro, e o governador
Alguns juristas chegaram a sugerir que as dizia que tínhamos que dar satisfação e receber
parcerias poderiam sem implementadas por as pessoas. Naquele momento, no início do
decreto, mas Covas fez questão de ir para a governo, faltava credibilidade ao Estado. Um dia,
Assembléia Legislativa. No novo modelo das ele me chamou e disse: ‘Vamos retomar a obra
Organizações Sociais, os hospitais custam 25% de um hospital e, se der certo, faremos mais’.
menos e têm rendimento 30% maior. Mas Covas Para renegociar os contratos, ele chamou os
fez mais. Logo no primeiro Diário Oficial, no empreiteiros. Nas reuniões, ele dizia: ‘Vou retomar
dia 2 de janeiro de 1995, saiu decreto alterando a obra que está sob a sua responsabilidade
a estrutura da Secretaria Estadual de Saúde. na seguinte base: vou pagar tanto e você vai
Eram 65 escritórios regionais de saúde, e todos me entregar em tal prazo’. E assim foi. Um por
os centros de saúde eram estaduais. Foram um. Quando sobrava um dinheiro, ele chamava
reduzidos para 24 diretórios regionais, com e ia retomando a obra. Era uma conversa de
tarefas diferentes. Dos cargos de confiança, 800 cavalheiros. O empresário aceitava, e se
foram cortados. Sabíamos que seria traumático. comprometia a cumprir. A maioria dos
Mas, a partir daí, os funcionários precisavam ter prazos foi cumprida e as obras, todas
um perfil técnico e não político. entregues como o combinado.

58 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l


Justiça e Defesa da Cidadania

Na gestão Covas, foi criada a possibilidade de atuar em terras devolutas. Ficaria caro para o governo
desapropriar terras para reforma agrária em São Paulo. Mas havia terras, a oeste do Estado, que o Tribunal
de Justiça tinha declarado públicas, em 1957. Era 1995 e ninguém tinha feito absolutamente nada para
cumprir a lei. E foi cumprindo a lei que Mario Covas fez a reforma agrária em São Paulo.

Belisário dos
Santos Junior
secretário da Justiça
e Defesa da Cidadania

O governador gostava muito de ver o momento


em que a pessoa recebia um título de terra. Nós
entregamos centenas, milhares de títulos, e o
governador gostava, ele se emocionava, eram
coisas muito fortes. O governador entregou
título de terra até para o José Rainha, líder
do Movimento dos Sem Terra. E não era só a
terra. Fizemos assentamentos, mas também
entregamos sementes e colocamos à disposição
equipamentos e técnicos do Instituto de Terras.
Foi incrível, após um curto período, ver a
produção agrícola prosperar naqueles locais.

Edson Vismona
secretário adjunto e secretário
da Justiça e Defesa da Cidadania

O governador só ficava indignado quando as


coisas não aconteciam, ele queria resultados. Era
fácil trabalhar com Mario Covas, porque ele tinha
princípios e valores muito claros. Sua meta era
atender à sociedade, não importava se iria ferir os
interesses de outros. Lembro quando o Instituto
de Terras de São Paulo fez um levantamento de
quem ocupava irregularmente áreas públicas há
muitos anos, sem que o Estado tomasse alguma
providência. Havia nomes muito influentes,
e Covas determinou a desocupação imediata
das terras, enfrentando as pressões políticas. É
preciso ter coragem para governar. E coragem
não faltava a Mario Covas.

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Casa Militar

Cel. PM Olavo Sant’Anna Filho Jurandir Junqueira


Chefe da Casa Militar Ajudante de Ordens do Governador

A Defesa Civil de São Paulo, durante Os primeiros seis meses foram muito difíceis.
a gestão de Mario Covas, foi pioneira na Dificuldades físicas, porque você não dorme, a
descentralização. Antes, a atuação era só de cabeça a mil por hora, vivendo em função do
emergência, depois de alguma catástrofe – governador, além da vida pessoal, tudo o que
inundação, deslizamento, chuva de granizo. Com cerca o governador, informações, estrutura,
Mario Covas, passou a ser também preventiva, viajando terça, quinta e sábado. Nos primeiros
com a criação de depósitos virtuais, mapeamento quatro anos de governo, foram visitados 645
do Estado de São Paulo por áreas de risco e municípios, viajando de oito a dez cidades por
educação infantil nas escolas para desastres. vez. Em todas eu fui, pelo menos duas vezes em
cada cidade. Em algumas, fui dez vezes. Teve
uma cidadezinha, Itaoca, em que nunca um
governador havia pisado. Na hora em que o
helicóptero decolou e teve que voltar, ele falou:
‘É a segunda vez que um governador vem aqui’.
Transportes

O governo tinha duas metas principais para tocar na área de transportes: uma era o Programa de
Concessões de Rodovias e a outra, o trecho inicial do Rodoanel. A oposição batia na Assembléia Legislativa,
mas o Estado estava quebrado e sem capacidade de investimento. Fazer a concessão era o caminho, e
Covas fez. Os preços dos pedágios eram uma grande discussão. Eles não eram mais baratos nas estradas
movimentadas. Se fosse assim, as tarifas teriam que ser mais altas nas regiões mais carentes do Estado, e,
portanto, com menos movimento. Mas para o governo era preciso aplicar as regras da social democracia
e diminuir as diferenças. As decisões de Covas deram frutos duradouros. São Paulo tem a melhor malha
viária do país, e o Rodoanel, que hoje leva o nome de Mario Covas, é uma realidade.

Michael Zeitlin
secretário de Transportes

As estradas vicinais eram outra grande


preocupação de Covas. Foram asfaltados mais
de 1.000 quilômetros de vicinais em todo o
Estado. Ele dizia que isso era importante para
reduzir as diferenças, já que o asfalto facilitava o
escoamento da produção agrícola, a ambulância
chegava mais rápido, levava as crianças
para a escola rural com mais segurança
e deixava as cidades mais próximas do
homem do campo.

60 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l


Luiz Carlos Frayze David
supervisor de obras
da prefeitura,
superintendente do DER e secretário
adjunto de Transportes

Mario Covas sempre quis a participação das


prefeituras no governo do Estado, e fazia
questão de assinar os contratos na frente do
prefeito e da população, recomendando que os
moradores cobrassem do prefeito a manutenção
da estrada. Dizem que, no caso da pavimentação,
o governador cobrava mais das prefeituras mais
ricas e sem distinção partidária. Lembro de uma
vez em que fui procurado por Antônio Palocci,
prefeito de Ribeirão Preto, com uma proposta de
parceria. Consultei o governador, que respondeu
na hora: ‘E você não topou por quê? Só porque é
do PT? É claro que é para fazer’.

Transportes metropolitanos

No setor de transportes metropolitanos, o essencial para Covas era a retomada do que estava parado,
basicamente o Metrô, com três extensões paradas há anos e muitas dívidas. Mario Covas dizia: “Não
faço nenhum centímetro novo se não resolver o que está parado”. Outro problema sério eram os trens
metropolitanos. O governo federal pegou ferrovias centenárias e jogou na CPTM, que também administrava
a divisão antiga da Fepasa, com várias ferrovias federais, como a Santos-Jundiaí. Foram tomadas medidas
vigorosas, como paralisar a ferrovia por seis meses para obras. O governo paulista mostrou que ferrovia
também pode ter dignidade, com a chegada dos novos trens com ar-condicionado e música ambiente,
para atender ao trabalhador e morador da periferia da cidade de São Paulo.

Cláudio de Senna Frederico


secretário de Transportes
Metropolitanos

Covas usou o terror negro como instrumento na


cabeça de todos. Reunia as piores informações
possíveis e usava com o secretariado. Assim,
ele estimulava e mantinha a equipe entrosada.
Nakano pintava um quadro sem saída. Todo
mundo ficava deprimido, e Covas empurrava mais
para baixo e dizia: ‘Vocês têm planos? Só que não
vão fazer nada se não cortar, economizar’. Saía
todo mundo debaixo da porta. Motivou
todos assim, para que tomassem
medidas drásticas, mas necessárias.
Tinha de tirar leite de pedra, e ele não
dava leite para ninguém.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l 61


Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico

Era preciso buscar investimentos privados, gerar empregos e desenvolver a economia. Em um período
em que os governos estaduais deflagraram uma verdadeira guerra para atrair investidores, oferecendo
benefícios e subsídios, o governo paulista fez nova revolução. Ampliou seu parque industrial e atraiu
novas indústrias estrangeiras sem entrar guerra fiscal. São Paulo poderia oferecer muito e a todos, mas
não seria loteada, e os interessados não teriam privilégios.

Emerson Kapaz
secretário de
Ciência, Tecnologia e
Desenvolvimento ECONÔMICO

Mario Covas não cedeu à guerra fiscal, em


que muitos Estados davam incentivos para a
instalação de empresas. Ele não queria nem
saber. No seu governo, usamos uma política
de convencimento, baseada em seriedade,
mostrando as vantagens que São Paulo poderia
oferecer – estradas, energia, tecnologia,
universidades. Com isso, conseguimos trazer
empresas como Toyota, Honda, Compac, HP,
Nokia. Ele ficava louco quando alguém falava
que São Paulo perdera empresas como a Ford,
para a Bahia, e a GM, para o Rio Grande do Sul.
Foi uma luta, mas ele, mais uma vez, estava
certo. As empresas vieram e ficaram.

José Aníbal
Secretário de Ciência, Tecnologia
e Desenvolvimento Econômico

Covas não dava incentivos fiscais, mas oferecia


condições de investimento para as empresas.
Uma vez, o presidente da Embraer levou a Covas
propostas de incentivo fiscal do Paraná e de
Minas Gerais. Covas simplesmente rasgou os
papéis e ofereceu uma área e outros benefícios. A
Embraer se instalou em Gavião Peixoto, causando
um grande impacto na região. Outro exemplo foi
a Mercedes-Benz, que não podia trazer outra
linha de montagem para sua fábrica por causa
das enchentes. Liguei para Covas, que mandou
fazer um piscinão, tomando uma
decisão rápida. Isso era Mario Covas.

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Universidades

Com as universidades paulistas – USP, UNESP e UNICAMP, a relação sempre foi de muito respeito,
principalmente pela autonomia e pelo cumprimento das leis estabelecidas.

Flávio Fava de Moraes


Reitor da Universidade
de São Paulo e Secretário
de Ciência, Tecnologia e
Desenvolvimento Econô0mico

“O Conselho de Reitores das Universidades de São


Paulo sempre teve acesso ao governador, com
quem se reunia com uma relação cordial e de
respeito mútuo. E mais, respeitava a autonomia
das universidades. Vale lembrar que em 1989
criou-se o conceito de autonomia financeira,
com o orçamento indexado à arrecadação do
ICMS. A cada ano a Lei de Diretrizes Orçamentárias
propunha uma indexação, quando aprovada,
virava lei que durava só um ano. Todo ano, em
governos anteriores havia a tentativa de acabar
com a indexação. A partir de Mario Covas, mesmo
com as finanças do Estado comprometidas,
consolidou-se a indexação. Os valores foram
alterados: de 8,4% do ICMS líquido, passou para
9% e depois para 9,57%, o que permanece até
hoje para as 3 universidades”.
Uma simples relação das realizações das vinte e cinco secretarias de governo sob o comando de Mario
Covas ocuparia centenas de páginas. E também não seria fácil organizar uma seleção, pois a importância
relativa de cada uma delas depende do ponto de vista de cada um. Mas vamos a mais algumas:

Cultura
Para os amantes de música clássica, não haverá legado maior do que a Sala São Paulo, uma das mais
modernas salas de concerto do mundo e ponto central da revitalização da estação ferroviária Julio
Prestes, no bairro paulistano da Luz.

Marcos Mendonça
Secretário da Cultura

“Covas via a cultura como fator de integração


social e o Projeto Guri, de formação de orquestras
para jovens em situação de risco é o melhor
exemplo. Numa rebelião na Febem os meninos
esconderam os instrumentos musicais para não
serem destruídos. Tido como um homem que
não ligava para as questões culturais, Covas
deixou marcas importantíssimas. A restauração
da Pinacoteca, que possibilitou uma exposição
de Rodin, que provocou enormes filas e chamou
atenção da população e da mídia. O Memorial
do Imigrante e o Museu da Língua
Portuguesa, que começou na gestão
dele. O projeto Revelando São Paulo,
que fez renascer o folclore em São
Paulo, e as oficinas culturais.

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Emprego e trabalho

Quando a questão envolvia trabalho, para Mario Covas a prioridade era o emprego. São Paulo foi o Estado
pioneiro na criação da Secretaria de Emprego e Relações do Trabalho. A meta passou a ser a mudança de
prioridade, ou seja, olhar o orçamento do ponto de vista do emprego, aproveitando as potencialidades
do Estado para gerar oportunidades. O programa Auto-Emprego capacitava pessoas para o mercado de
trabalho, o Banco do Povo oferecia crédito popular a juros baixos para quem queria abrir ou expandir seu
pequeno negócio, além das frentes de trabalho.

Walter Barelli
Secretário de Emprego e
Relações do Trabalho

Nas frentes de trabalho, o governo entrava


com o dinheiro e as secretarias tinham que
encontrar vagas para os trabalhadores. Mario
Covas ia pessoalmente visitar as frentes, brigava
com os secretários, que também passavam
por dificuldades financeiras, mas tinham que
arcar com a alimentação e o transporte dos
trabalhadores. Além do trabalho e da cesta
básica, todos recebiam, uma vez por semana,
cursos de qualificação profissional. Os requisitos
para entrar no programa eram a cara do
Covas: participava quem estivesse mais tempo
desempregado, quem era mais velho ou quem
tinha mais filhos para sustentar. Era um
programa social-democrata, não era capitalista.

Segurança Pública

Se a utilidade ou a oportunidade de muitas das realizações de Mario Covas não foram postas em dúvida,
nem mesmo por seus adversários, e obtiveram todas grande repercussão popular, o mesmo não ocorreu
com algumas políticas públicas, que geraram vivas controvérsias. A mais polêmica delas foi a da Segurança
Pública, decididamente voltada para os direitos humanos.

José Afonso da Silva


advogado e Secretário da
Segurança Pública

Sempre defendi os direitos humanos, e Covas,


também. Ao assumir a secretaria, era o momento
de pôr a ideia em prática. Em janeiro de 1995, 60
pessoas foram mortas pela polícia. Em fevereiro,
57. Chamei o comandante e disse: ‘Tire todos os
matadores da rua’. Ele colocou 200 na prisão.
Em setembro, lançamos o Proar, um programa
de seis meses de assistência psicológica aos
policiais envolvidos em situação de risco. Foi um
problema sério. Deputados da oposição eram
contra a política de direitos humanos, alguns do
próprio PSDB. Quem fazia a defesa na
Assembléia era o PT. Naqueles anos, a
criminalidade diminuiu.

64 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l


A política de defesa dos direitos humanos foi mal compreendida por uma parcela da população,
acostumada a pensar que a violência só pode ser combatida com mais violência. Inúmeras vezes Mario
Covas foi avisado de que essa ênfase poderia prejudicar sua popularidade e as chances da reeleição.

Mas, segundo o testemunho unânime de seus amigos e colaboradores, quando Covas se convencia do
acerto de determinada atitude, era inútil tentar demovê-lo com argumentos de conveniência política
imediata. Firme em suas convicções, de acordo com alguns, teimoso ou turrão, segundo outros, ele era
de uma veemência inusitada nas discussões internas do governo e fora dele.

Paulo Francini
Empresário

Covas desfrutava da sinceridade,


o que é raro em seres políticos.
Em geral, os políticos dizem o que você quer
escutar e mudam de conversa de acordo com os
ouvidos. Mario Covas, não. O governador tinha
convicções e falava delas. Nunca tive a sensação
de ser enganado. Ele falava o que pensava. Era
um traço particular dele. O chamavam de turrão.
Acho que era mesmo, pois só é turrão quem tem
convicções. Quem se move ao vento pode ser
agradável e nunca será turrão. Acho que essa era
uma qualidade dele.

Marco Vinício Petrelluzzi


ASSESSOR ESPECIAL DO GOVERNADOR E
Secretário da Segurança Pública

No meio do primeiro mandato, fui com outras


pessoas para Nova Yorck conhecer a experiência
bem-sucedida de combate à criminalidade.
No segundo mandato, fui chamado para a
Secretaria da Segurança. O desafio era reduzir
em 50% os homicídios, o que Covas achava
irrealizável em quatro anos. Ele não abria mão do
respeito aos direitos humanos e à humanização
da polícia. O binômio do trabalho foi álcool e
armas. Implantamos o Infocrim, um programa
que possibilita visualizar todos os crimes, fazer
projeções, planejar e colocar metas, Mario Covas
queria metas. A polícia deixou
de ser reativa para ser proativa.

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Administração Penitenciária

Ao iniciar o governo em seu primeiro mandato, Mario Covas assumiu como tarefa prioritária a retomada
do controle das polícias, coibindo abusos e violências que haviam se tornado rotina. Fazia parte dessa
orientação a humanização no trato dos detentos e dos menores da Febem. A superlotação dos presídios
e das cadeias das delegacias banalizara as rebeliões, e estas, por sua vez, eram combatidas com mais
repressão, geradora de novos motins, num círculo vicioso sem fim.

João Benedito de
Azevedo Marques
Secretário de Administração
Penitenciária

Essa era uma área em que os problemas eram


de todas as ordens: atraso de pagamento,
desmandos e corrupção, e o governador era
visceralmente contra, abominava política de
negociata, cambalacho e impunidade. A Casa
de Detenção tinha 7.200 presos perigosos e 1.200
funcionários. A comida era feita lá, pagavam
carne de primeira e recebiam carne de segunda
e em quantidades erradas. Não fizemos nada
sozinhos, era uma grande equipe com o mesmo
espírito de austeridade de Covas. Sanear,
punir, eliminar fraudadores. A gente se sentia
amparado e apoiado pelo governador.

Nagashi Furukawa
Secretário de Administração
Penitenciária

O que Covas fez foi inovador e um exemplo para o


país. Iniciou fechando as carceragens da Polícia
Civil, criou os Centros de Detenção Provisória e os
Presídios de Segurança Máxima e entregou para
as ONGs os serviços de alimentação, rouparia,
assistência médica, jurídica e odontológica. O
resultado foi maior qualidade e controle e queda
dos custos. A alimentação, por exemplo, que
custava 10 reais por preso em 1995, caiu para 3
reais e melhor. Fora tudo isso, a informatização
do sistema, com os dados de 140 mil presos, de
seus parentes e advogados, em
um único programa, facilitou o
controle dos presídios.

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Saneamento Básico

Cuidar das pessoas era uma preocupação constante de Mario Covas. Por isso, ele estabeleceu metas já no
programa de governo. Uma das que foram cumpridas à risca foi o saneamento. Na gestão dele, acabou o
rodízio de água em São Paulo, 100% da população passou a ter rede de água, 85%, rede de esgoto. Em
janeiro de 1995, a Sabesp tinha problemas de caixa, não pagava funcionários, trabalhava com empresas
terceirizadas. Em setembro de 1998, foram contabilizadas 1.200 obras entregues em todo o Estado.

Hugo Marques da Rosa


Secretário de Obras
e Saneamento

Covas pessoalmente deu a


determinação de colocar nos locais de trabalho
uma lista com o nome e os horários de cada
funcionário. A diretoria foi reduzida, e todos os
cargos de confiança foram extintos. Ainda no
governo de transição recebemos um plano de
recuperação elaborado pelos trabalhadores da
Sabesp. Ele propunha algumas medidas duras,
inclusive com demissões. Conseguimos negociar
e estabelecer critérios para os desligamentos e o
governador deu total apoio, não importando se
os demitidos tivessem alguma ligação política.
Já em 1995 a Sabesp deu lucro.

Comunicação

Durante suas diversas campanhas eleitorais, Covas nunca entendeu muito bem o mundo dos “marqueteiros”
e dos publicitários. Mesmo admitindo sua importância, preferia se concentrar no que fazia melhor, o
contato direto com a população e o uso da palavra. Conservava muito vivo o desejo de expor seus pontos
de vista, de convencer. No governo, sempre manteve relações cordiais e simpáticas com jornalistas e
formadores de opinião, cultivava pessoalmente alguns relacionamentos conquistados ao longo de sua
vida pública, era respeitado por suas posições, mas era intransigente com o gasto do dinheiro público,
inclusive nesta área. Não admitia gastar em comunicação e deixar de construir mais casas, escolas, redes
de esgoto etc. Mas era um ávido leitor de jornal. E o dia dependia sempre do noticiário.

Alexandre Machado
Secretário de Comunicação

Quando assumi, queria implantar uma política


que mostrasse a forma como o governo defendia
certos valores. Covas pegou o Estado numa
situação de estrago e acho que conseguimos
mostrar isso para a opinião pública. Mas a
Comunicação tinha dívidas da administração
anterior, e nosso orçamento era zero para as
agências. Eu conversava com o governador e
dizia que a comunicação tinha que espelhar
de maneira mais ordenada o que estava
acontecendo. Mas não tinha jeito. Covas
dizia que enquanto faltasse uma escola
no Estado, não daria dinheiro para
comunicação. Era um político austero.

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Teresa Cristina Miranda Mary Zaidan
Assessora de Imprensa Assessora de Imprensa

A idéia da primeira campanha Com os poucos recursos que tínhamos no início


mostrava a bandeira do Estado, seu maior do governo - para se ter uma idéia, nossa
símbolo, sendo lavada. Era uma representação impressora durante muito tempo foi uma
do limpar, arrumar e colocar a casa em ordem. A matricial caseira emprestada pelo Zuzinha,
agência vai ao gabinete apresentar a campanha filho do governador - privilegiávamos o
e Covas não aparece. Quem presidiu a reunião atendimento direto aos jornalistas, o que, na
foi o Angarita e o Sergio Reis, secretário de prática, significava entrevistas quase diárias
Comunicação, na época. As lâminas da campanha com o governador. Ele se divertia muito nessas
foram deixadas lá no palácio e colocadas na entrevistas tumultuadas, apertado entre
sala de reunião privativa do governador. Uma câmeras e repórteres. Mas a característica mais
madrugada, após um evento em Santos, e já de marcante para mim na relação de Covas com
volta ao palácio, ele me cutuca e diz: ‘O que é isso a imprensa era o tratamento igualitário que
aqui na minha sala?’ E eu digo: ‘É a campanha ele conferia aos repórteres e aos veículos de
publicitária, governador, o Angarita e o Sergio comunicação. Quando pegava o telefone para
Reis já falaram com o senhor’. Ele olha bem pra falar com qualquer um deles - e ele fazia isso
mim e diz: ‘Senta aí’. A Lúcia Dal Médico estava com frequência quando queria rebater alguma
junto, e dona Lila chegava da ala residencial com notícia da qual discordava - dedicava o mesmo
o chá da madrugada. Expliquei a campanha e tempo e atenção a um repórter da grande
mostrei a tabela de custos. Aí ele começa a fazer imprensa quanto a um de um jornal semanal
conta e me mostra: ‘Olha quantas casas, quantas do interior do Estado. Brincava com a fama
salas de aula e redes de esgoto eu poderia fazer de que ele não dava lead (síntese do assunto),
com esse dinheiro’. E eu falei: ‘Está certo, mas jamais falava em off (sem ser identificado) e
o senhor também precisa prestar contas do que adorava rádio, especialmente entrevistas ao
está sendo feito’. Dona Lila ajudou: ‘Mario, todo vivo. Sua relação com os jornalistas que cobriam
mundo fica dizendo que você não está fazendo o governo no dia-a-dia era muito intensa,
nada, precisa mostrar’. No final, ele arrematou: e todos perceberam isso quando, na fase
‘A idéia é boa, mas é muito dinheiro’. Ele fez todo final da doença, ele fez questão de falar
mundo sofrer dias, mas a primeira campanha foi com a imprensa, na mais emocionante das
ao ar em dezembro de 1996. entrevistas que presenciamos.

68 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l


Cerimonial e eventos
Brasília de Arruda Botelho
Chefe do Cerimonial
na Prefeitura e no
Governo do Estado

Mesmo não gostando de formalidades, Covas


recebia os visitantes e cumpria os ritos de
forma correta e elegante. E nunca, na história
do Palácio dos Bandeirantes, tantos chefes de
Estado e altas autoridades passaram por lá. Na
visita do imperador e da imperatriz do Japão,
houve uma saia justa. O imperador quis ver um
jogo de futebol, e a escolha pela tabela dos jogos
foi o final do campeonato paulista no Morumbi,
com São Paulo e Corinthians. O combinado era
que o imperador assistisse ao primeiro tempo, aí
o anfitrião – o governador Mario Covas – deveria
se levantar para o imperador ir embora. Mas
Covas não levantava, queria ver o jogo. Eu pedia
para ele levantar e ele não levantava, dizia que
o imperador estava gostando do jogo, até que
falei com rigor e ele levantou, mas foi embora
contrariado, queria ver o jogo. No episódio do
enfrentamento com os professores na Praça
da República, quando Covas voltou ao palácio
com Malufinho, Osvaldinho e Junqueira, todos
rasgados e machucados, parecendo o Exército de
Brancaleone, eu perguntei: ‘Vocês não têm juízo?’
E Mario Covas, com um sorriso largo, respondeu:
‘Você não estava lá para dizer quem podia entrar
e quem não podia...’

José Salles dos Santos Cruz


Assessor do Governador NA PRODUÇÃO
DE Discursos e Palestras

Ele respeitava a palavra, e como eu mexia com


a palavra, foi fácil. A gente sentia que havia
uma integração, a tal ponto que, às vezes, eu
imaginava que era ele e ele imaginava que era
eu. Havia momentos em que ele vinha me contar
coisas que eu tinha contado para ele, que estavam
nos documentos que eu preparei. Acho que foi
um privilégio ter trabalhado com Mario Covas. Eu
não sabia por que eu tinha estudado tanto, lido
tanto na vida. Acho que, para dar significado
ao que estudei, fui trabalhar com ele. Sempre
fui um leitor furioso, e poder passar algumas
informações para o Covas deu um sentido àquilo
tudo. Eu pensava: eu leio por prazer, porque eu
quero conhecer, mas só isso?
Como eu reparto isso? E o Covas
foi o repartidor dessas coisas.
Acho que ele deu sentido à
minha vida.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l 69


Claudiney Queiroz
Mestre de Cerimônias

Covas não aguentava e tirava o


microfone da minha mão quando
alguém fazia uma reivindicação ou provocação.
Uma vez no aeroporto em Votuporanga, onde o
pessoal da saúde fazia manifestação, com faixas
e esparadrapos na boca, ele disse simplesmente
o seguinte: eu estou feliz por vocês estarem
aqui, eu lutei por isso. Só espero que não seja do
hospital que vocês tenham tirado o esparadrapo.
E chamou os manifestantes para o palanque.
Um representante dos manifestantes falou e foi
saindo. Aí o governador chamou e pediu para que
ele ficasse no palanque para ouvir a resposta. Ele
não deixava passar de jeito nenhum. Outra vez,
numa época em que os professores iam sempre
atrás de Covas, um deles durante o discurso
gritou: É mentira! Prá que. Essa era a palavra-
chave, era a morte para ele. Trouxeram o RG e
os dados do manifestante, o governador tirou
o microfone da minha mão e perguntou para o
manifestante: O seu nome é tal? Seu RG é tal?
Então você hoje ganha tanto, e antes ganhava
tanto. O professor respondeu que não era verdade
e Covas o desafiou a mostrar o holerite dizendo:
Se for mentira eu renuncio agora. E o professor
não teve como desmentir. Por isso era
gostoso trabalhar com ele.

70 F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l


A REELEIÇÃO
Em 1998, ao aproximar-se o final de seu primeiro mandato, Covas
decidiu lançar sua candidatura à reeleição

Embora não fosse obrigado pela legislação, durante os meses da campanha à reeleição, Mario Covas
preferiu afastar-se do governo, passando o cargo para o vice-governador, Geraldo Alckmin.

Ricardo Penteado
advogado em campanhas
políticas

Mario Covas trabalhava rigorosamente dentro


da legalidade, respeitava os limites da lei e
prestigiava seus advogados. Tinha preocupação
em entender o que a lei determina. Em 1998,
aconteceria a primeira reeleição no país, e Covas,
contrariando muitos, se afastou do governo,
deu uma lição ao jamais utilizar a máquina
administrativa. Portanto, não precisou enfrentar
na Justiça nenhum questionamento quanto a
isso durante a campanha.

Depois de um início difícil, a candidatura de Mario Covas à reeleição como governador cresceu muito
pouco antes do dia da eleição. Ultrapassou Marta Suplicy, passando para o segundo turno juntamente
com Paulo Maluf. Elegeu-se, então, com 9,8 milhões de votos, 53% dos votos válidos.

e ele queria polemizar com o Paulo Maluf. Na


televisão, Covas tinha 3 minutos e 14 segundos,
e Maluf, 10 minutos, metade do tempo dando
pau no adversário. O Maluf colocou o Afanásio
Jazadji chamando Zuzinha de ladrão, falando da
CDHU. Em resposta ao ataque malufista, o Woyle
Guimarães escreveu um texto violentíssimo.
Covas chegou à produtora babando, mas quando
viu o texto, avaliou: ‘Isso aqui vai dar problema,
direito de resposta e punição’.

A maior briga foi sobre educação, a reorganização


das escolas, a progressão continuada. Todo dia
Luiz Gonzalez tinha crítica na pesquisa qualitativa. Fiz um texto
coordenador do programa de TV para o Covas explicar o que estava acontecendo
na educação, mas ele não quis gravar porque
A campanha de 1998 foi a mais sofrida. Mario parecia que estava pedindo desculpas. Foi uma
Covas saiu em quarto lugar, a população o odiava. briga danada. Covas dizendo que o problema
Fez o primeiro governo na porrada, brigando na não é ganhar a eleição, mas ‘os companheiros
rua, teve uma postura diferente da que o eleitor que não acreditam na gente’. Ficamos os três –
tinha visto na campanha. Ele resolveu ir ver a Covas, Woyle e eu –, alucinados, gritando um
primeira pesquisa qualitativa e ouviu: ‘Esse é com outro, parecia briga do cais do
o maior ladrão que tem no país. Todo político porto. Com o Covas era assim, e eu
rouba, mas faz alguma coisa, esse não fez admirava isso. Quando tinha que
nada!’. O Covas ficou doido. Havia muita pressão brigar, brigava pela frente.”

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l 73


Antonio Carlos
rizeque malufe
SEcretário particular

Mario Covas era contra a


reeleição. Dizia que oito anos era muito tempo.
As pesquisas o colocavam em quarto lugar, e
ninguém acreditava na reeleição. O segundo
turno foi um sufoco. Teve uma boa campanha,
com boa assessoria, boa estrutura, a militância
nas ruas e menos dinheiro em caixa do que em
1994. Em 1998 ainda tinha muita coisa para ser
feita no governo: Metrô, penitenciárias, Febem,
calha do Tietê. O governo dele dependia de mais
quatro anos para se completar. Covas foi ousado
na primeira administração, arrumou o Estado e
deu início a muitas obras.

Não consigo enxergar outra pessoa no exercício


do poder tão inovador em políticas públicas.
Covas inventou as Organizações Sociais na
saúde; teve o maior índice de assentamentos no
Pontal; consolidou a Secretaria de Administração
Penitenciária; fez a gestão de empresas públicas;
a concessão de rodovias e a concepção clara de
políticas públicas na educação. Medidas ousadas,
de coragem política em todas as pastas. Além
da figura humana com ética e caráter. É isso o
que justifica a Fundação Mario Covas cuidar do
acervo dele, foi um período revolucionário.

Mariana Caetano
Jornalista

Eu trabalhava no jornal O Estado de S. Paulo e


cobria o governo, portanto, acompanhei todo o
período da doença de Covas, desde a primeira
manifestação, em dezembro de 1998. A gente
teve que aprender junto com ele e a família o que
estava acontecendo. Passei muitas horas no Incor
para entender o câncer. Foi admirável a forma
como Covas conduziu esse período, sempre com
verdade e transparência. A abertura que a gente
teve com o David Uip e toda a equipe médica que
acompanhava o governador foi surpreendente.
Ninguém escondia nada, e diariamente os
médicos falavam com os jornalistas. Tudo isso
foi exemplar, em se tratando de uma figura
pública. Também foi doloroso, pelo menos para
mim, acompanhar o sofrimento da família.
Existiam momentos em que a gente deixava de
ser jornalista e vivia o drama. Ele era uma figura
que a gente aprendeu a respeitar. Lutou
muito para sobreviver e de forma admirável.
Como homem público, ele compartilhava,
não se escondia e não fugia do assunto.
A SAÚDE DE COVAS
No final de 1998, exames de rotina do governador reeleito
detectaram câncer de bexiga e abortaram seus sonhos

Iniciando o segundo mandato, já com as finanças do Estado de São Paulo saneadas e um ambicioso
programa de governo, Mario Covas atingia o melhor momento de sua carreira. A presidência da República
parecia ao alcance da mão. Mas estava condenado. No dia 3 de dezembro de 1998, internou-se no Incor
para exames de rotina. Detectou-se câncer na bexiga. Não houve tempo para pensar. Foi operado no dia
seguinte para retirar o tumor e reconstruir a bexiga com tecido retirado do intestino.

David Uip Sami Arap


médico infectologista médico urologista

Mario Covas deu duas determinações: Antes da cirurgia, a pressão foi enorme, muita
a primeira era que não se escondesse nada gente querendo dar palpite, emitir opinião
dele, da família ou da população. Isso foi e aparecer na imprensa. O governador Mario
uma quebra de paradigma, foi inusitado. A Covas sentiu isso. Tanto sentiu que pediu para
outra determinação é que o tratássemos até a Renata falar com a gente. ‘Olha, meu pai
o limite e não o deixassem sofrer. A partir daí pediu para conversar com o senhor. Ele está
cumpriu tudo o que foi sugerido, o que não foi muito preocupado com seu equilíbrio emocional.
pouco, já que foram várias as internações e os
Porque se o senhor estiver sofrendo a metade da
procedimentos. E mais, o governador decidiu
pressão em relação à cirurgia, é para ficar louco.
se tratar num hospital público, no Incor, uma
Mas ele pediu para lhe dizer que nem secretário
decisão institucional, e também pela equipe.
nem ministro nem presidente nem Jesus Cristo
Lembro que, na sexta-feira de Carnaval de 2001, vão mudar o que ele já decidiu. Ele vai operar
Mario Covas me chamou, dizendo que queria ir com o senhor e aqui no Incor. Fique tranquilo.’
para a praia. Concordei que fosse para a Riviera
de São Lourenço. Eu fui ao Guarujá, para ficar Isso foi de uma dignidade, de uma lealdade
mais perto dele. No sábado, me chamaram. Fui com a equipe médica, particularmente comigo,
até lá e vi que ele tinha piorado. No domingo, muito grande. O governador doente capta
bati o olho nele e disse: ‘Não dá mais, vamos isso e, inteligente como era, manda a filha
embora’. Ele perguntou: ‘Para o palácio?’ E eu conversar com a gente e nos tranquilizar. E
disse: ‘Para o hospital, governador, para o
foi além. O governador disse que se alguém
hospital’. No helicóptero estavam a Renata, a
buzinasse, interferisse, era só avisar
dona Lila, o capitão Junqueira e eu. Covas estava
para ele remover os obstáculos.
na cadeira de rodas quando eu peguei o pulso
dele e vi que estava a mais de 300. Ele falou: Nesses termos. Uma atitude de
‘David, muito obrigado por você ter deixado eu solidariedade. Achei fantásticos a
ver o mar pela última vez’. lealdade e o respeito de Mario Covas.

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Angelo Perosa
FOTÓGRAFO E assessor de imprensa

No final de 2000, depois de sete anos


sem férias, peguei minha mulher e meus
filhos e fui para o Nordeste. Dois dias depois, o
governador me ligou: ‘Estou aqui todo ferrado e
você aí. Onde estão as fotos? Preciso das fotos’.
Peguei as malas e voltei para São Paulo. Uma
das coisas que Covas mais gostava era viajar,
estar com as pessoas, vistoriar as obras, mas ele
já não podia viajar. Então queria ver tudo por
fotografia. Queria saber o estágio das obras,
ver como estava a conservação daquilo que já
havia entregado. Ele fez uma lista e nós saímos
fotografando tudo. Percorremos o Estado e
entregamos para ele 45 álbuns de todas as obras
e ações das secretarias e empresas - estradas,
escolas, hospitais, unidades habitacionais. Cada
vez que eu ia entregar uma foto era terrível,
muito pesado e muito difícil. Ele na cadeira de
rodas e querendo mais e mais fotos.

O governador reeleito tomou posse no dia 10 de janeiro de 1999, após receber alta do hospital. Submeteu-
se, então, a três sessões de quimioterapia e, apenas em maio, assumiu plenamente suas funções no
governo do Estado. Parecia recuperado, mas o câncer voltou. Já não havia possibilidade de cura. Mario
Covas morreu no dia 6 de março de 2001, às 5h30 da manhã, no Instituto do Coração, em São Paulo.

Henry Sobel
rabino

Covas lutou a vida inteira. Lutou por seus ideais


e pelos seus princípios. Lutou por aquilo em que
acreditava. Lutou pelo bem estar de sua família,
lutou por seu Estado e por seu país. Lutou contra
a doença. E sua luta nos dignificou a todos.

Inconformados com esse final prematuro, os familiares, amigos e admiradores de Mario Covas reuniram-se para
preservar o seu legado essencial. Nasceu, assim, a Fundação Mario Covas, com uma dupla missão: desenvolver
atividades políticas e acadêmicas de estudos e pesquisas, com ênfase na questão social e no desenvolvimento das
técnicas de administração pública e privada e de gestão governamental. E defender o ideário político de Mario Covas.

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COVAS E OS POLÍTICOS
Correligionários ou adversários, todos reconhecem a importância
do político santista no cenário nacional

Marta Suplicy
prefeita de São Paulo

Convivemos em muitos momentos da


vida pública brasileira e paulista. Concorremos
em lados opostos em eleições, mas existe
um momento que ficará marcado em toda a
minha vida. Em 1998, concorremos ao governo
de São Paulo. Perdi no primeiro turno e apoiei
Covas no segundo turno contra o Maluf. Depois
ele teve o mesmo gesto comigo na campanha
para a prefeitura de São Paulo, mas não foi um
gesto qualquer. O Alckmin perdeu a eleição no
primeiro turno. Ficamos eu e Maluf no segundo
turno, e eu fui conversar com o Covas. Ele não
teve a menor dúvida em me apoiar. O mais
bonito foi que estávamos num momento difícil,
achávamos que se ele não entrasse seria muito
difícil ganhar. Ele ia se internar no Incor no dia
da eleição, para continuar seu tratamento. Essas
são coisas que a gente não esquece. Eu disse:
‘Para mim é fundamental que você venha, pode
fazer a diferença’. E ele foi. Era um encontro no
Sindicato dos Jornalistas. Ele falou: ‘Marta, eu
adiei a entrada no hospital. Além de te apoiar,
vou pra rua fazer campanha. Só vou para o
hospital quando as urnas estiverem fechadas’.
Fiquei emocionada, não era um gesto qualquer,
era um gesto com a saúde dele.

Aécio Neves
deputado federal e presidente
da Câmara Federal

Mario Covas já governava São Paulo, quando


ocorreu um episódio em que a atuação dele foi
decisiva na minha trajetória. Quando houve a
possibilidade de o PSDB reassumir a presidência
da Câmara, havia uma ala que defendia a
manutenção do PFL. Fui a São Paulo falar com
Covas, que já estava doente. Ele me perguntou
se eu estaria disposto a enfrentar a resistência
Celso Giglio da presidência da República. Respondi que sim,
prefeito de Osasco pelo PTB se houvesse apoio dele. Covas foi a Brasília
e declarou: ‘Por que não o PSDB?’ Foi uma voz
Covas sempre atendeu muito bem os prefeitos, de comando importante. Setores do partido
e comigo não foi diferente em relação a Osasco. que o temiam, aderiram à minha
Quando levávamos algum pleito, ele era objetivo: candidatura. Ganhamos já em primeiro
pode, pode, não pode, não pode. E se dizia turno. Fiz questão de vir a São Paulo
‘pode’, podíamos confiar. dedicar minha vitória a Mario Covas.

F UN DAÇ ÃO M A R IO C OVA S E M R E V I S TA h ist ó ria o ra l 77


Paulo Egydio Martins
ex-governador de São Paulo
Eduardo Suplicy
senador pelo PT
O regime militar se assustava com o jeito
aguerrido do Mario Covas. Mas eu conhecia a
A relação dos senadores paulistas com o governo
pureza, o idealismo dele. Ele tinha o apoio dos
Covas era de muito respeito. Sempre encaminhei
portuários, tinha uma visão mais de esquerda,
solicitações e demandas de movimentos sociais,
mas longe de ser comunista. Merecia meu
e Mario Covas as considerava com seriedade.
respeito absoluto. A história do país não dava
Algumas vezes fui ao Palácio dos Bandeirantes
um período de paz, e, com isso, é muito difícil
acompanhado de prefeitos e em situações
manter a crença íntegra. Quando tem um homem
de tensão, envolvendo questões de justiça,
puro como Mario, que tem crença num mundo
segurança e terras. Covas tinha o espírito mais
melhor, como combatê-lo? Ele era crente de que
aberto, uma crença forte na democracia. Lutou
era possível melhorar o mundo.
de forma consistente para o aprimoramento
do processo democrático, tinha muito bom
senso, era respeitado pela seriedade com que se
conduzia na vida política. Deixou grandes lições.

Cláudio Lembo Luiz Paulo Teixeira Ferreira


Presidente do PFL-SP deputado estadual pelo PT

Uma personalidade firme, corajosa, decisiva, Quem retomou a capacidade de investimento do


mas às vezes excessiva. Conheci a biografia dele Estado de São Paulo foi ele. Mario Covas viabilizou
por meio de Jânio Quadros, que também tinha a duplicação das rodovias dos Bandeirantes e
grande admiração pelo Covas. Jânio o conheceu dos Imigrantes, a retomada de investimentos
em Santos e o escolheu para ser candidato a no Estado. Justiça seja feita, vejo um marco de
prefeito. Covas foi cassado porque era vulcânico, realizações. É um dos maiores políticos do Estado
tinha explosões verbais de alto nível, irritava de São Paulo. Ao mesmo tempo, tinha visão de
os militares. Mario Covas não podia aceitar esquerda. Fez embate à ditadura militar quando
o golpe de 1964. Na Constituinte, vi atitudes podia ter se escondido, se expôs e foi cassado.
notáveis dele. Era uma assembléia agressiva, e Teve um papel enorme ao administrar a cidade
no plenário a figura de Covas acresceu muito. Ele com grande atenção à periferia, e um papel
levou intelectuais da área jurídica para Brasília, fundamental como constituinte, que garantiu
permitindo um movimento impensável no Brasil, uma visão de nação. Queria ressaltar
como o artigo 5, com direitos fundamentais da a figura política de talento, a figura
pessoa, a família formada só pelo pai ou a mãe, humana dele. O governador Mario Covas
que é uma realidade no país, os quilombolas, as foi uma pessoa que deu dignidade à figura
minorias. Covas percebeu tudo isso. pública, escreveu seu nome na história.

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O ESTILO COVAS
Objetivo, exigente, detalhista e austero são algumas das
características do modo Mario Covas de governar

Rubens Rizek
amigo

Fui convidado para um almoço


no Palácio dos Bandeirantes. O Mario estava
comendo fritura, e dona Lila disse que era feita
com óleo de milho, porque ele era safenado.
Aí eu fiz um comentário maldoso: ‘Pena que o
safenado pobre não pode comer esse óleo, tem
que engolir soja’. Aí o Mario parou de comer,
olhou bem sério para mim e perguntou: ‘Por
quê?’ Eu falei: ‘Porque o óleo de soja, que está na
cesta básica, tem 7% de ICM. E todos os demais
óleos vegetais que não estão na cesta básica têm
ICM de 18%. Então o pobre não pode comprar esse
óleo por causa do imposto’. Ele pensou, pensou, a
conversa continuou e mais para o fim do almoço
ele disse: ‘Você vai à Secretaria da Fazenda,
procura o Clóvis Panzarini e o convença de que
é certo baixar o ICM dos óleos vegetais para 7%.
Se ele se convencer, que venha me convencer que
o Estado não irá perder arrecadação’. Lá fui eu
para a Secretaria da Fazenda. Uns três meses
depois saiu um decreto do governador baixando
para 7% o ICM de todos os óleos vegetais no
Estado de São Paulo. Ele era um homem justo.

Luiz Carlos Frigério


assessor do governador

Eu estava em casa, toca o telefone, era o senador Covas. ‘Pode vir aqui me pegar? Posso, mas eu não
tenho carro, só um bug. E isso não é carro? Você não quer me pegar?’ E fui com meu bug. Quando ele viu,
perguntou: ‘É isso aí? Como se entra?’ Expliquei, ele entrou, estava sem a capota. Ele sentou e começou
a ler um jornal, na avenida Faria Lima. A cara das pessoas exclamando era incrível: ‘É o senador’. Ele
tinha uma simplicidade, um jeito determinado de fazer as coisas.

Nagashi Furukawa
secretário de Administração Penitenciária

Quando parecia que Covas era contra uma determinada proposta, nós precisávamos estar preparados,
ele contra-argumentava, chegava aos detalhes. Era difícil, só depois é que aceitava. Quanto mais
íntimos, mais xingados. Até que Covas começasse a me xingar, demorou um pouco.

Emerson Kapaz
secretário de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico

A preocupação de Covas com o dinheiro público era constante. Uma vez, durante uma apresentação
sobre a privatização de uma empresa, usei a expressão ‘recursos próprios’ para esclarecer que
o recurso vinha do governo. Covas não teve dúvida, interrompeu a apresentação, perguntando:
‘Recursos próprios, de quem? Aqui no governo os recursos sempre serão públicos’. Isso ficou
gravado na minha cabeça.

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Sergio Kobayashi
jornalista, presidente da Imprensa
Oficial do Estado de São Paulo

No segundo ano do governo e com a Imprensa


Oficial superavitária, bati na porta do Palácio
dos Bandeirantes porque precisava comprar uma
nova rotativa. Fiz todos os estudos, projetos e
análises para uma licitação. Custava 20 milhões
de dólares, e eu tinha dinheiro, estava aplicado
na Caixa. Aí a conversa com Covas foi a seguinte:

Sergio: Mario, a rotativa está para pifar, a


Imprensa Oficial existe por conta do Diário Oficial,
imagina não fazer o Diário Oficial, quero comprar
uma nova.

Covas: Quanto custa?

Sergio: 20 milhões de dólares, eu tenho o dinheiro e estou avisando que vou comprar.

Covas: Como você tem 20 milhões de dólares?

Sergio: Recebi atrasados, economizei, enxuguei a máquina.

Covas: Não senhor. Eu aqui desesperado, fazendo das tripas coração para comprar os trens espanhóis e
você com 20 milhões sobrando? Não senhor. Passa esse dinheiro para o Nakano, fica sem máquina nova.
Bem ao estilo Covas, isso foi feito. A população ganhou o trem espanhol, e a Imprensa Oficial reformou
sua rotativa.

Marcos Arbaitman
secretário de Esportes e Turismo

Um dia, no meio de uma reunião de secretariado,


daquelas longas e com muita gente que gostava
de realizar, Covas perguntou se estavam cuidando
do Parque Villa Lobos, porque passou por lá e viu
mato crescendo. Expliquei que quem fazia o serviço
eram presidiários de Franco da Rocha, que estavam
de férias. Covas perguntou por que não contratava
outros e respondi, informando que a licitação era
demorada. Covas não teve dúvida e acrescentou:
‘Porque a sua firma não faz?’ Não tinha jeito, a
gente se via obrigado a fazer e ficava envergonhado
se não fizesse.

Marco Vinício Petrelluzzi

O mais relevante em Mario Covas era a sua sensibilidade popular, saber se colocar ao nível do povo e
dialogar. Mas também adorava uma discussão. Uma vez saiu do hospital, no início da segunda
gestão, e teve um problema na Febem. Tinha uma mãe que começou a discutir com Covas e virou
um bate-boca feio. Covas não deixou ninguém intervir. Quando acabou a discussão, ele entrou no
carro e disse: ‘Eu estava louco por uma briga’.

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Claudio Senna Frederico

Fiz parte do governo de transição, na USP, mas não sabia se assumiria alguma secretaria. Fui um dos
últimos a ser convidado. O Covas me chamou e disse: ‘Você vai ficar com Transportes Metropolitanos’.
Sempre usei rabo de cavalo, tamanco, brinco, era um tanto heterodoxo, riponga, não gostava de terno.
Mas comprei um terno para o dia da posse. Quando Covas me viu assim disse: ‘Esse meu governo vai dar
certo, o Claudio está de terno’.

Alexandre Schneider

Lembro que, logo no início do rodízio de carros, cheguei mais cedo para trabalhar. Ás sete horas da
manhã, Mario Covas passou como um tufão na Secretaria de Governo, que ficava no mesmo andar do
gabinete do governador. Ele reclamava que não tinha ninguém trabalhando e disse: ‘Não podemos
perder um minuto, fomos delegados pelo povo para trabalhar.

Gugu Liberato
apresentador de TV

Participei de vários showmícios de Mario Covas, mas lembro de um em especial, em Osasco. O palanque
estava cheio de gente e começou a desmoronar. Foi uma correria, uma gritaria, segurança pra tudo que
é lado, e o palanque cedendo. Só não foi uma tragédia porque havia um carro embaixo do palanque,
que acabou dando sustentação. O sistema de som, é claro, pifou, mas o Mario Covas não se importou.
Assumindo suas responsabilidades, virou-se para os organizadores e disse: ‘Deixa que eu falo com a
população’. E, aos gritos, pediu calma.

Vanya Sant’anNa
amiga e assessora do prefeito

O período da prefeitura foi maravilhoso. A gente ia,


via o que estava acontecendo e tentava encontrar
uma solução. Os mutirões eram uma festa pura.
Para Covas, o pior castigo era ficar no gabinete.
Ele gostava de estar em contato com as pessoas e
ficava na rua o máximo que podia. Quando voltava,
estava com os bolsos cheios de bilhetes. Todos os
pedidos, inclusive os feitos no papel de pão, eram
registrados, e Covas saía com seu caderno com todos
os pedidos feitos. Ele tinha um gênio complicado,
mas era um explosivo carinhoso, e o mais incrível é
que a gente gostava de apanhar dele. Outra coisa,
ele despertava mais paixão nos homens do que nas
mulheres. Era impressionante, mas os barracos de
ciúmes eram frequentes.

Flávio Fava de Moraes

Mario Covas tinha algo especial com a Universidade de São Paulo. Primeiro, por ter sido aluno de lá.
Segundo, porque via a universidade como pólo referencial. Ele visitava frequentemente as três
universidades estaduais. Uma vez, já com a saúde bastante debilitada, foi convidado para
paraninfo na formatura dos alunos de engenharia da Poli. Eram uns 400, e ele fez questão de
ficar até o fim da cerimônia e tirou foto com cada um dos formandos.

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Alexandre Machado

Era começo de governo. Um belo dia, entro na sala do governador e lá está ele lendo jornal, possesso,
tenso, vermelho, com raiva, batendo na mesa e gritando: ‘É mentira, é mentira’. Aí eu viro pra ele e digo,
tentando acalmar: ‘Nem tudo é má notícia, governador’. E ele, gritando, responde: ‘Hoje não quero
saber de notícia boa. Só quero notícia ruim’.

Belisário dos Santos Junior


secretário da Justiça e Defesa da Cidadania

Numa dessas tardes, acho que no terceiro ano de governo, vem lá um publicitário mostrar um filme,
cheio de sobrevôos de helicóptero, aquelas construções da Sabesp fotogênicas, a Carvalho Pinto. Quando
acabou o filme, o publicitário perguntou para o governador: ‘E aí?’ A dona Lila perguntou ao governador:
‘Eu falo ou você fala?’ O governador falou: ‘Deixa comigo’. Ele começou dizendo: ‘Você não entendeu
absolutamente nada, nada!’ O publicitário respondeu cavando um fosso maior ainda: ‘Mas governador,
eu mostrei o que o senhor está fazendo’. Ele respondeu: ‘Esse é o problema. O que eu estou fazendo,
qualquer um pode fazer’. Isso eu converso muito quando dou palestra sobre ética do cotidiano.

Ele falou: ‘Isso qualquer um pode fazer. Você não está mostrando como nós estamos fazendo. Você
valorizou o assentamento, mas não valorizou o processo do assentamento, que foi numa negociação.
Você valorizou a CDHU, mas não disse uma palavra que eu entrego a chave para a mulher. Vai ver se
pode isso no Direito Civil? Não pode, mas eu entrego a chave para a mulher. Você valorizou o negócio
da Sabesp, mas não sabe como a gente recuperou a Sabesp, não falou isso’. Ou seja, ele passou a idéia
de que a valorização do processo é a valorização do fim, é a a ética da responsabilidade. Vou fazer uma
coisa, mas de uma forma que dê exemplo. Vou criar uma coisa, mas valorizo o processo.

Fábio Feldmann
secretário do Meio Ambiente

Nossa relação sempre foi bastante conflituosa e tensa no governo. Tínhamos opiniões divergentes em
alguns temas, mas sempre com muito respeito. Um dia, em um de nossos encontros de trabalho, falei
com ele sobre as questões do palmito. Ele não teve dúvida e saiu com a seguinte indagação: ‘Só me
faltava essa. Agora você vai me proibir de comer pastel na feira?’ Ele também sabia ser engraçado.

João Dória Junior


presidente da Paulistur

Covas era um fumante inveterado. Na prefeitura, sempre havia um cinzeiro enorme cheio de bitucas de
cigarro. No Anhembi, era proibido fumar nas áreas internas. A primeira vez que Covas foi ao Anhembi,
tomei a liberdade de pedir ao prefeito que tentasse não fumar, só se fosse imprescindível. Covas
respondeu: ‘Pois é imprescindível. E só faço reunião se fumar’.

Nivalda Rocha de Jesus


empregada da família

Quando Covas foi eleito governador, eu disse pra


ele que queria uma casa da CDHU. E ele falou:
‘Não é assim. Se você quiser, vai entrar na fila
igual a todo mundo.’ Eu fiz minha inscrição e
não falei nada. No dia do sorteio, o Covas estava
lá. Ele me viu no meio da multidão. Sorteou
umas dez casas e foi embora. No dia
seguinte, perguntou o que eu estava
fazendo lá. E eu contei. Com ele não
tinha facilidades.

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Arlindo Gomes da Silva
motorista de Mario Covas

Uma vez, voltando de Santos, tocou o telefone


do carro. Era alguém pedindo para Covas
representar o governador Franco Montoro num
evento no Anhembi, com a presença do então
presidente João Figueiredo. Chegando lá, ele
desce para o evento, mas antes percebe que o
segurança impediu o acesso das pessoas que o
acompanhavam. Ele voltou para o carro e disse
que ia embora. ‘Se as pessoas que estão me
acompanhando não podem entrar, eu também
não entro.’ Foi uma loucura. O Exército cercou o
carro, disseram que seria prejudicial. Ele ficou, mas com a condição de que todos pudessem entrar.

Robson Marinho
coordenador da campanha de 1994 e secretário da Casa Civil

Numa segunda-feira, eu estava despachando com o governador quando ele chamou o chefe da Casa
Militar e mandou calcular o custo do helicóptero de São Paulo até a Riviera de São Lourenço, litoral sul
paulista. Quando o chefe da Casa Militar saiu, eu perguntei: ‘Governador, por que o senhor mandou fazer
esse cálculo?’ E ele respondeu: ‘Porque eu quero recolher aos cofres do Estado o custo da viagem até a
Riviera, ida e volta’. Eu disse: ‘Mas por quê? Era um final de semana em que sua família estava lá, o
senhor estava chegando de viagem ao interior e se deslocando para passar o final de semana com sua
família’. Ele respondeu: ‘Não quero saber, eu vou recolher’. Como de fato recolheu aos cofres do Estado,
para que ninguém pudesse insinuar que ele estava usando o helicóptero para ir para a casa de praia
dele. Isso mostra o respeito dele com o dinheiro o público.

Miguel Jorge
executivo

Covas era detalhista. Uma vez eu estava com ele


e, sobre a mesa, havia um monte de processos de
concorrência, uma pilha enorme. A gente estava
conversando e eu falei: ‘Mario, você está lendo
processos de concorrência?’ Ele respondeu: ‘É,
isso aqui é importante. São estradas vicinais’. Eu
falei: ‘Não acredito que você esteja lendo um por
um’. E ele: ‘Eu vejo todos. Mesmo que tenha que
ficar aqui a noite inteira, eu não deixo de ler’.
Ele tinha fixação em acompanhar tudo de perto.

OSWALDO MARTINS
AMIGO E SECRETÁRIO DE COMUNICAÇÃO

Todo político que está no Executivo corre o risco de perder um pouco a noção de realidade, até porque
não faltam bajuladores em volta. Onde tem corte, tem o bobo da corte, tem cortesão, tem cortesã, toda
corte é assim, seja no império, na monarquia ou na república. Tudo igual. Isso pode iludir, sobretudo
se a pessoa for deslumbrada. Mario Covas nunca teve nenhuma atração pelas benesses do poder, até
porque,ele não gostava de conforto. Coisa estranha, mas não gostava, ele gostava de sofrer. E quem
estava ao lado dele sofria junto, gostasse ou não gostasse, porque estava naquele jogo. Mais
uma vez, “A ação conforme a pregação” é um bom rótulo para a trajetória do Mario porque, no
Executivo, onde podia ser tudo diferente, não foi nada diferente. Continuou praticando a mesma
democracia que defendia e praticava quando estava no parlamento.

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O LEGADO
Por onde passou, Mario Covas deixou lições de seriedade na
administração pública e coerência com seus princípios e valores

Yoshiaki Nakano
secretário da Fazenda

O legado de Mario Covas foi Estado saneado, mais condição de investir, Estado com dívida
renegociada. Ele recebeu uma herança maldita, o Estado endividado, e pensava no futuro. Pagou as
dívidas para deixar o Estado bem.

Paulo Francini
empresário

O maior legado de Mario Covas é o de um homem político. Essa é a inspiração maior de Mario Covas,
vocação de homem público, homem de convicções. Nunca o vi embaralhado em atitudes de corrupção.
Tratava com seriedade a questão pública. Tinha convicções dolorosas e uma enorme necessidade de
promover o saneamento econômico do Estado de São Paulo.

Paulo Cunha
empresário

É um exemplo, em primeiro lugar, de persistência. Basta olhar sua vida política, de grande determinação.
Tinha talento e possibilidades para seguir outros caminhos. Quando foi cassado, trabalhou como
engenheiro, administrador. Mas a vocação dele era a de homem público, tratava a coisa pública como
coisa pública. Do ponto de vista civilizatório, é um exemplo relevante até hoje. Um homem público.

Ronaldo César Coelho


deputado federal constituinte

O PSDB e a política brasileira devem muito a Mario Covas. Ele não fez nada sozinho, mas o Brasil, que
acordou para a ética e a moralidade, devem muitíssimo a homens como Covas.

Cleuza Ramos
Líder Comunitária

Para quem tem vergonha na cara, Covas deixou um grande exemplo de trabalho e clareza, de viver para
servir. Ele sempre colocou o interesse do outro acima do seu.

Edson Vismona
secretário da Justiça e Defesa da Cidadania

Aprendi com Covas que é possível fazer política com grandeza. Covas dizia que a política não pode ser
esquecida, pois é na política que um país rico como o Brasil tem condição de ser mais justo.

Bruno Covas
neto

Meu avô era um político que não defendia a educação, a saúde, a segurança, a habitação. Ele
defendia princípios e valores. A grande bandeira de Mario Covas sempre foi a da seriedade, da
honra e da ética.

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Walter Barelli
SECRETÁRIO DE EMPREGO E RELAÇÕES DO TRABALHO

O legado de Mario Covas é a social-democracia praticada num país subdesenvolvido, em meio ao


neoliberalismo, sem paternalismo, sem fazer o povo sofrer.

Antonio Angarita
secretário de Governo

Covas teve coragem, a grande virtude do político. Era um trabalhador fora do comum. Eu dizia a ele:
‘Você é pior do que escravo, é galé. Porque escravo come, dança. Galé só rema’. Não era um intelectual.
Apesar de muito bem informado, escolheu ser gestor. Não era mal humorado, era grave.

BOB FERNANDES
JORNALISTA

Seu legado é perceber que é possível ter integridade na política, que é possível ter palavra e cumpri-la.
Num meio tão difícil como a política, é ter o respeito do adversário; alguém com começo meio e fim,
sabendo que pode ser prejudicado. Covas era admirável. Ainda que absolutamente comum como pessoa,
era incomum no comportamento como político.

Padre Ticão
RELIGIOSO

Conosco estabeleceu uma relação tão fraterna que podíamos entender quando ele falava: ‘Não dá para
atender’. Mas era muito difícil ele dizer isso. Foi sempre uma pessoa de uma sensibilidade muito grande.
Isso marcou nossa região até hoje. Então temos o campus da USP que tem o nome dele, escolas, conjuntos
habitacionais, o Mario Covas é lembrado sempre com muito carinho. Até naquilo que muita gente dizia
que ele era turrão, para nós foi bom, porque ele era turrão com aqueles que precisavam, como um pastor
que tem um cajado e bate no lobo. Ele usava o cajado para defender o povo. Acho que Mario Covas
conseguiu passar uma realidade como a nossa de tanta desigualdade, conseguiu mostrar que é possível
fazer uma política diferente, fazer a política que é necessária para responder às necessidades básicas da
população. Que Mario Covas continue nos iluminando na sua prática.”

Mario Covas Neto (Zuzinha)


filho

Ele tinha presença. Era daquelas pessoas que chegam e preenchem o espaço, é inerente, não se
aprende. Tinha também o poder de comunicação, com toda braveza, “espanholice” e decibéis acima.
Seus pequenos gestos eram captados e valorizados, como passar a mão na cabeça, perguntar, valorizar
sua opinião. Fora isso, tinha um sentido de justiça forte, com argumentação forte, orientada para a
justiça social, nunca pessoal, mas sempre com propósitos coletivos. Se preocupava em estar preparado
para tratar dos assuntos e com seriedade. Assumia riscos que causavam admiração até em adversários.
Entrava em piquete para defender suas posições.

Rose Neubauer
Secretaria da Educação

Nas inaugurações de escolas, Mario Covas fazia questão de dizer que “a escola é de vocês, feita com
dinheiro de vocês, não têm que agradecer”. Ele tinha compromisso com a população. Nunca foi de
esquerda, mas tinha compromisso com a população, respeito à coisa pública, o que muita gente
de esquerda tem no discurso, mas não pratica.

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Fundação Mario Covas
Diretoria

Presidente da Fundação Mario Covas Antonio Carlos Rizeque Malufe


Diretor Secretário Luis Sergio Serra Matarazzo
Diretor Tesoureiro Marcos Martinez

Conselho Curador

Presidente Bruno Covas Lopes


Vice-Presidente Belisário dos Santos Junior
Secretário Marco Vinício Petrelluzzi
Membros Vitalícios Florinda Gomes Covas
Mario Covas Neto
Renata Covas Lopes
Rubens Naman Rizek
Membros Eletivos Edson Tomaz de Lima Filho
Edson Vismona
Fernando Padula Novaes
José da Silva Guedes
Luiz Carlos Frigério
Marcos Arbaitman
Marco Ribeiro de Mendonça
Mauro Guilherme Jardim Arce
Michael Paul Zeitlin
Osvaldo Martins de Oliveira Filho
Sami Bussab

Administração Rosangela Lopes Moreno Baptista


Eduardo Strabelli
Odair Aparecido Ribeiro Campos

Centro de Memória Mario Covas



Coordenação Raquel Freitas
Consultora Arquivística Márcia Cristina de Carvalho Pazin
Técnicos Documentalistas Gustavo Molina Turra
Noubar Sarkissian Junior
Tiago Silva Rodrigues Navarro
Wesley Cunha Soares

Gestão de Projeto Cultural FormArte – Projetos, Produção e Assessoria Ltda.

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Fundação Mario Covas
em revista
Coordenação Editorial Atelier de Imagem e Comunicação
Teresa Cristina Miranda - MTb 12.170

Editora Lucia Reggiani - MTb 11.479


Redação Teresa Cristina Miranda
Lucia Reggiani
Administração Cláudia Sardinha

Projeto Gráfico e Diagramação Anibal Sá Comunicação & Design

Fotografia A2 Fotografia

Edição Angelo Perosa


Produção Rosana Jerônimo Ribeiro
Ana Paula de Oliveira Silva
Tratamento de imagem Daniel Guimarães
Fotógrafo Luludi/Agência Estado (pág. 8)
Acervo Fundo Mario Covas

nota:
Parte do texto sobre a trajetória de vida de Mario Covas foi extraída do Guia do Acervo,
publicação do Centro de Memória da Fundação Mario Covas.

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patrocínio

apoio

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FUNDAÇÃO MARIO COVAS

RUA 7 DE ABRIL, 59 | 2º E 3º ANDARES | CENTRO | SÃO PAULO | SP | CEP 01043-090


TEL/FAX: 55 11 3129-7341 / 55 11 3129-7657
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