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Liderança e autoridade*

Pe. José Cristo Rey Garcia Paredes


jose_cristorey@yahoo.com

Tradução: Benê Oliveira, fms

Revista Testimonio nº 214


Março/Abril 2006
Fonte: www.conferre,cl/.../testimonio06_mar_abr.html

Editorial – O século XX foi o século do nascimento


e da morte das maiores utopias da história da
humanidade. Vivemos hoje numa sociedade em crise
de orientação que, em pequena escala, tem muito que
ver com frustração, medo, ansiedade, vazio... e, em
grande escola, com o fanatismo e com o déficit de
ética pública. Nossa coluna vertebral está
desmoronando. Muitas pessoas estão sem referências
básicas em sua vida; não sabem sequer que opiniões
fundamentais servirão para as pequenas ou grandes
decisões diárias, tampouco que preferências seguir,
que prioridades estabelecer, que símbolos escolher. Os antigos ideais utópicos, as instâncias e
tradições que as orientavam têm cada dia menos peso.

Além disso, na comunidade cristã, vivemos arrastados por uma cadeia de coisas que geram
incessantemente outras, num ritmo tal que facilmente desorienta nossa capacidade de conduzir os
processos com conhecimento claro de sua finalidade e de seus objetivos. Talvez hoje precisemos
não de espelho que reflita o conjunto, mas de lupa que concentre nossa visão nos detalhes. É
necessária uma orientação que nos capacite a elaborar e organizar os pormenores. Nisso consiste o
desafio fundamental de arquitetura para líderes e autoridades na vida religiosa.

A revista Testimonio, com o olhar no horizonte do Reino, aborda a particularidade temática da


liderança e da autoridade. Nossa preocupação e a dos que se encontrarem conosco nessa reflexão
está centrada no Reino, na vida religiosa... duas grandes paixões no sentido mais ambíguo da
palavra. Paixões pelo fato de as amarmos, e paixões porque nos fazem sofrer e enfrentar
ferimentos e maus tratos, quando nos dedicamos à construção do Reino. Nossa revista se sente
orgulhosa de compartilhar com seus leitores estas reflexões sobre liderança e autoridade que nos
retiram da poeira da inércia e nos renovam com suas pinceladas de cores e sonhos
transformadores.

Não nos podemos deixar levar pelo pessimismo ou pelo temporal do desespero que nos fazem
perder o entusiasmo dos empreendedores e que se transformam no desmancha-prazeres moderno.
Nosso estilo de vida está exigindo uma mudança global de tal dimensão que é fácil cair em atitudes
vitais paralisantes de desânimo, desespero, fuga... ou cair em messianismos redentores próprios
dos iluminados, como se a mudança pudesse nascer de fora e não do interior. São imprescindíveis
os arquitetos,
arquitetos, profetas e místicos, homens e mulheres, líderes qualificados, arraigados na vida de
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Deus, que fazem germinar em abundância a esperança, permitindo que a vida religiosa continue
recarregando-se de energia criadora.

Líderes... mulheres e homens de esperança que nos ajudam a caminhar rumo à novidade do Reino,
o horizonte permanentemente novo de um futuro cheio de promessas. A esperança encerra força
misteriosa, sopro criador, alento espiritual e esforço de superação que nos leva a olhar tudo com fé
e otimismo. Nossas comunidades precisam de líderes, pessoas com esperança, que nos resgatem e
redimam, para “nos arrancar das mãos dos inimigos e de todos os que nos odeiam” (Sl 30, 16).

O líder na vida religiosa é profeta, e profeta é aquele que vê mais longe e que vê mais dentro.
Aquele que capta o sentido das coisas e dos acontecimentos, e que não cai na tentação de brincar
de prolongar o passado. O líder da comunidade religiosa é a pessoa que oferece aos seus a luz de
sua fé, a força de sua esperança, a alegria de seu serviço, a entrega de sua ternura.

O líder é animador, e só quem é animado pode animar, como pessoa que vive com a vontade de
viver para transmitir vida. A sua presença na comunidade será mais espiritual e formadora de
atitudes que encarnam a esperança: ousadia, criatividade, santidade. A animação do líder implica
situar-se no que concerne às necessidades dos demais e entregar-se com paixão à tarefa de resolvê-
las. Na prática implica a seguinte tríade.

 Despertar o Espírito. O impulso, a utopia, o ânimo, o entusiasmo, a alegria... no encontro,


no serviço, na entrega, nas relações diárias, na vida de cada dia. O líder provoca esses
encontros, alimentando-os e consolidando-os. Fará todo o possível para que toda a
comunidade se deixe tocar por sua alma, o Espírito, se deixe ferir pelo amor de Deus. O
líder é aquele que ajuda a tecer redes comunitárias de confiança fraterna.

 Despertar a pessoa. Todo ser humano tem uma energia adormecida, qualidades sem
desenvolvimento, sementes não germinadas. Deus nos fez criadores, com carismas a serem
colocados em prática. Precisamos que os outros nos ajudem a nos tornarmos mais pessoas.
O líder, com uma palavra esclarecedora, uma advertência carinhosa, um gesto valorizador...
vai despertando na comunidade a pessoa adormecida que cada um carrega dentro de si.
Liderar é motivar as pessoas e motivá-las para a criatividade.

 Despertar um modo de agir, caracterizado pela missão de Jesus Cristo. “Fui ungido
para dar a boa nova aos pobres, para anunciar a liberdade aos cativos e dar a vista aos
cegos... e proclamar um ano de graça do Senhor”. Nosso modo de agir... serviço aos pobres,
com meios pobres e sendo pobres. O líder, com compreensão fraterna e compaixão
humana, é capaz de orientar o que se realiza em benefício dos pobres. Pôr, de modo
inteligente e eficaz, o capital material e cultural a serviço da vida dos pobres para que
tenham a vida. O poder... o mistério da vida consagrada consiste em formar religiosos a
partir de sua pequenez, para crescerem na sua pobreza e chegarem à lua cheia da
fraternidade.

Erguemos um brinde a uma liderança que seja sinal do Reino e que sua mensagem responda às
palavras de Paulo: “Quando
“Quando a bondade e o amor de Deus, nosso Salvador, se manifestaram, ele
salvou-nos, não por causa dos atos justos que houvéssemos praticado, mas porque, por sua
misericórdia, fomos lavados pelo poder regenerador do Espírito Santo”
Santo” (Tt 3, 4). Como diz Santa
Teresa, precisamos na vida religiosa de uma linguagem de sinais fortes, que só sabem usar homens
e mulheres “fortes amigos de Deus”.

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I - Existe um problema?
Não nos encontramos em tempos fáceis para conduzir a nave da vida consagrada de nossas
ordens, de congregações ou institutos, de nossas comunidades. Às vezes temos impressão
de que não navegamos e sim de que a nave apenas flutua, ancorada em pleno mar. Temos à
nossa disposição roteiros valiosos para atingir novos mares; mas, depois de muitos
fracassos, os condutores do barco procuram reconduzi-lo ao porto seguro, acabando
ancorados numa visão realista sem sobressaltos.

Sabemos muito bem para onde queremos ir, mas será que os que governam sabem como
conduzir o grupo à meta sonhada? Acreditávamos contar com bons líderes, mas as
decepções têm sido muito grandes. Quantos líderes gozam de prestígio e da confiança das
maiorias? Quantos líderes têm autoridade? Que repercussão têm suas palavras, suas
propostas em nossos grupos? Geram concordância, ilusões, desencantamento ou
indiferença?

Nossos líderes estão sobrecarregados de tarefas, viagens, reuniões, encontros sociais,


documentos a serem publicados com grande urgência etc. Não dispõem do sossego, da
calma que exigem os desafios pessoais e institucionais que devem enfrentar. Tendem a
utilizar recursos fáceis, soluções que nada solucionam ou a refugiar-se em projetos que
satisfazem ao modismo do momento, mas que nada resolvem.

Vamos refletir sobre o que significa para um Instituto ter uma liderança sem visão, sem
autoridade, incompetente, durante vários anos. Como, por outro lado, não é freqüente entre
nós a “ética da renúncia” e não poucos superiores pensam que a “reeleição” é gratidão e
recompensa pelas tarefas realizadas, os períodos de liderança são duplicados em “segundos
períodos” piores que os primeiros.

Isso é confirmado no terreno da política, seja mundial seja nacional, no âmbito eclesiástico
e também da vida religiosa.

Não seria justo, se não dissesse também que essas lideranças — que não são nem frias nem
quentes, e sim mornas e sem paixão — são as mesmas que nós próprios elegemos e
toleramos. As grandes maiorias optaram por belas declarações e medíocres realizações.
Dedicarão seu tempo para ter um texto perfeito até nas vírgulas, mas muito pouco tempo
para ensaiar a partitura e interpretá-la como deveriam ou para preparar-se para a
caminhada, tendo em vista atingir realmente a meta.

Por todas essas razões, parece-me especialmente interessante o tema “Liderança e


autoridade”.

II - O perfil do líder

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Vamos começar pelo perfil de uma liderança autêntica, adequada a nossos grupos que
pretendem ser sempre dóceis ao projeto de Deus, à ação do Espírito no mundo.

1. O perfil constitucional

Há um perfil de liderança determinado pelas Constituições e pela legislação dos diversos


Institutos.

Superiores ou Superioras gerais, provinciais, locais, e seus colaboradores ou colaboradoras,


estão ao serviço de um projeto de vida e de uma missão por um número determinado de
anos. Devem ser capazes de realizá-lo, de concluí-lo; e desse cumprimento terão de prestar
contas. Sua função é ativar todos os recursos do Instituto para o cumprimento do projeto
que os Capítulos Gerais, Provinciais ou Assembléias comunitárias destacaram e
propuseram.

Não é suficiente um determinado perfil espiritual (homem ou mulher de fé e de oração, de


amor profundo ao Instituto e ao Carisma); seria, outrossim, necessário acrescentar ao perfil
constitucional elementos novos que respondem ao crescimento espiritual da humanidade e
da Igreja e aos fenômenos característicos de nosso tempo (globalização, interculturalidade).
É diferente dirigir um grupo regional, nacional e dirigir um grupo internacional,
intercontinental, inter-racial. O ocidentalismo que forjou os líderes eclesiásticos e
religiosos é exagerado e sempre manifestou pouca sensibilidade em relação às demais
culturas. Um exemplo claro disso é a primeira encíclica do papa Bento XVI. Trata-se de
um texto excelente, inspirador, avançado... Foi dado grande passo à frente, introduzindo
citações de Nietzche, Aristóteles, Platão... Esse é um passo importante na direção da
desclericalização do pensamento. Mas não teria sido também o momento de mostrar o
modo como o amor é entendido nas culturas e religiões asiáticas, africanas ou americanas e
de citar alguns de seus autores, algumas de suas categorias? Que iríamos pensar de um
líder mundial indígena que só mencionasse seus autores locais indígenas? Sem nos darmos
conta, a liderança se fecha exageradamente nas coordenadas culturais e nativas do líder.
Precisamos de uma liderança em que todos se sintam compreendidos, acolhidos, aceitos.
Daí a necessidade de uma reforma constitucional no que se refere ao perfil da liderança
congregacional.

2. O perfil simbólico

A figura do líder na vida consagrada e em seus diversos níveis é tão importante por seu
caráter simbólico quanto por suas reais funções de governo. O símbolo produz a união,
inspira, anima... Lembremo-nos de Jesus. Ele costumava mostrar-se com o perfil simbólico
de “Filho do homem”. Essa imagem, criada pelo profeta apocalíptico Daniel, ajudava a
descobrir a transcendência de sua Pessoa em vez de ficar apenas na aparência. Dava a
impressão, às vezes, de se estar conversando com alguém diferente. Ocorre exatamente isso
quando utilizamos a linguagem simbólica: quando nos referimos ao “superior/superiora
geral” como uma personagem em que se concentram significados decisivos para o
Instituto.

Para um grupo, para uma congregação é muito importante essa personalidade simbólica,
sucessora simbólica da liderança do Fundador. Temos um ritual sóbrio para reconhecê-la
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assim. É importante para os grupos. Os ritos criam comunidades (Durkheim). O respeito
para com quem representa a todos nós é o próprio respeito que dedicamos ao conjunto. Os
grupos podem exigir isso, podem pedir isso. A desvalorização da figura do
Superior/Superiora Geral ou Provincial ou Local vai além do estritamente pessoal;
transforma-se em desprezo para com o próprio grupo que ele/ela representa e para com o
carisma coletivo.

A eleição de nossos superiores ou superioras tem que ver com a eleição de um símbolo
vital, pessoal, por tempo determinado. O Superior Geral e seu Governo não só se revestem
de simbolismo, como também darão à sua atuação um caráter simbólico; não lhes cabe
desvalorizar os gestos simbólicos; pelo contrário, cabe-lhes criar novos símbolos coerentes
com os novos tempos.

Não me cabe dizer quais seriam esses símbolos; mas, por exemplo, a escolha de lugares
simbólicos para a realização de certas Assembléias, a escolha de gestos que podem ser mais
significativos para o conjunto e para a internacionalidade do Instituto, a escolha das
imagens, dos símbolos e dos sinais em que se encarna o carisma para os dias de hoje.

Insistir na temática da figura simbólica do Superior Geral é de suma importância. Ela se


manifesta nos gestos simbólicos de nossos líderes, sua forma simbólica de aparecer e de se
expressar, a utilização de símbolos no seu modo de governar... A eficácia simbólica é muito
maior do que a eficácia puramente instrumental.

Por tudo isso creio que é importante estar atento a esta capacidade que, em alguns
membros da Congregação, é mais evidente que em outros. Isso nada tem que ver com
gestos majestosos ou artificiais, mas tem muito que ver com a identificação carismática que
se expressa com dignidade e força afetiva.

3. O perfil antropológico

Nossos líderes devem ser capazes de realizar, de levar a cabo, de conduzir o projeto de vida
e de missão que o Instituto prescreveu para si mesmo no Capítulo Geral, ou no Capítulo
Provincial ou na Assembléia comunitária.

Requer-se hoje um tipo de liderança que seja transformador e inovador. As características


de um líder neste sentido podem ser elencadas como segue.

 Que seja uma pessoa de visão: para dar andamento às mudanças necessárias, uma
organização precisa ter visão. Essa visão é como perspectiva sedutora que atrai
todos a agir, ou como futuro que mereça crédito capaz de levar a todos a torná-la
real.

 Que seja um agente de transformação: alguém que possa intervir com seus esforços
para resolver as dificuldades. Os problemas devem ser resolvidos e não
abandonados à inação.

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 Que seja uma pessoa construtora de equipes: a liderança não é uma tarefa
individual, mas grupal. Hoje é tão complexo governar que em equipe se conseguirá
muito mais.

 Que seja uma pessoa capaz de aprender: uma pessoa capaz de criar o espaço vital
necessário para sua formação permanente dentro de um mundo cheio de mudanças,
especialmente no âmbito tecnológico, missionário. Não pode deixar-se levar pelo
ativismo de governo nem pelo desejo de uma onipresença meramente exterior.

 Que seja uma pessoa confiável por sua honestidade. Isso inclui as qualidades morais
que despertam respeito e confiança. A honestidade é uma das características que
mais dão valor a um líder. A honestidade se manifesta na coerência entre as palavras
e as ações ou os fatos. O pesquisador austríaco Hans Selye (1993) comentava que
“os líderes só são líderes, quando têm respeito e lealdade para com seus seguidores”.

A essas qualidades somam-se outras como a capacidade de se arriscar, a decisão em


momentos especialmente difíceis; ter profundo conhecimento das pessoas, das missões e
das tarefas. Os líderes autênticos, além disso, conhecem seus limites, sua força e sua
fraqueza, atuando sempre de acordo com esse conhecimento. As habilidades de liderança
podem ser aprendidas, mas só uma pessoa com instinto para liderar sabe quando e como
aplicá-las.

4. O perfil pastoral

Um líder no estilo de Jesus não é cientista nem asceta, nem sequer um legislador, mas
apenas alguém dotado do dom da “pastoralidade”, no estilo do bom pastor. O perfil
“pastoral” indica que essa pessoa:

 Não divide, mas soma; não despreza, mas recupera. (Ez 34, 5-12).
 Guia, orienta, retira da perdição e do caos. (Mt 9, 36).
 O bom pastor dá a vida por suas ovelhas. (Jo 10, 11).
 Conhece cada uma de suas ovelhas e suas ovelhas o conhecem. (Jo 10, 14)
Os que seguem a liderança do bom Pastor defendem seus irmãos e irmãs, lutam por eles,
cuidam deles e os protegem, os tratam com naturalidade, independentemente do tipo de
cultura ou de raça a que pertençam: “o pastor conhece suas ovelhas... chama-as por seu
nome... caminha à frente delas... as protege do inimigo”.

Os líderes espirituais estão chamados a exercer sobre os demais certa paternidade ou


maternidade espiritual. Não devem substituir, certamente, a paternidade espiritual dos
Fundadores, e sim torná-la presente, dar-lhe continuidade, servi-la. O perfil de “pai-mãe”
espiritual, tal como o Novo Testamento o entende, é o seguinte:

 Ilumina com sua luz os bons e os maus, os justos e os injustos (Mt 5 45-48).
 Recompensa seus filhos (Mt 6 1-6).
 Tem uma especial sensibilidade diante das necessidades deles a ponto de conhecê-
las antes que peçam sua ajuda (Mt 6, 8.26.32).

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 Tem uma atitude permanente de perdão, de acolhida e de hospitalidade (Mt 6, 12-
15).

Completam este perfil mais algumas características especialmente valorizadas nos dias de
hoje:
• Que seja uma pessoa livre e generosa, equilibrada e compreensiva. Por
conseguinte, que não seja ambiciosa ou egoísta, nem que se deixe levar por
interesses pessoais ou de grupos.
• Que seja uma pessoa que ame sua vocação e o carisma coletivo; que tenha um
espírito aberto.
• Que seja uma pessoa construtiva e disposta a servir, não sendo negativa, derrotista
nem concentrada em seus próprios interesses.

Um Capítulo é espaço, ambiente em que se delineia e se descreve um projeto de vida e de


missão para a Congregação nos seis anos seguintes. A elaboração desse projeto tem
importância enorme. Essa mesma importância terá a equipe de governo que tentará realizá-
lo. Nesse momento o serviço da autoridade se reveste de toda a sua importância.

III. O serviço da autoridade

É lugar comum afirmar que nossos Superiores ou Líderes são eleitos “para servir”. Fala-se
com freqüência do “serviço da autoridade”. Jesus mesmo disse: “Não vim para ser servido,
mas para servir”.

O que não se esclarece nem se concretiza é “que significa servir?”

Falamos também de autoridade: “Que significa autoridade?” Vamos recordar isso.

1. Que significa “servir”?

Sermos servidos, e não servir é nossa atitude mais espontânea. Não temos a tendência inata
de servir. Servimos porque alguém exige ou ordena, ou, às vezes, por apelo de nossa
consciência. Quando servimos, um duplo sentimento toma conta de nós: a doçura do
serviço juntamente com um ressentimento de azedume ou certa hostilidade reprimida. A
consciência de nossa dignidade humana nos impede de assumir atitudes de serviço diante
de nossos iguais, quando não houver reciprocidade, quando formos reduzidos à condição
única de servidores.

Com a palavra “serviço” estão associadas outras palavras como servo, servil, serviçal,
servidão, servilismo. Todas são derivadas do vocábulo latino “servus”. Em nossa cultura o
serviço não confere poder. Pelo contrário, só possuem poder as pessoas ou os sistemas que
encomendam serviços.

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Os políticos nos prometem “bons serviços”, “serviços de qualidade”. Nas sociedades mais
desenvolvidas, está havendo melhoria dos serviços: maior rapidez nos transportes, nos
controles, na gestão econômica, na segurança dos cidadãos, nos meios de comunicação, na
alimentação, nos eletrodomésticos etc. Estas melhorias nos serviços seguem os avanços
tecnológicos e a implantação de um instrumental de “nova geração”. Entretanto este tipo de
serviços é impessoal.

Existe outro tipo de serviços de qualidade que são pessoais: carros com motorista, atenção
personalizada, atendimento ao cliente etc. O serviço personalizado privilegia a pessoa mais
que o serviço. Uma pessoa serve a outra: “Estou a seu dispor, você está à minha
disposição”. Na relação senhor/escravo o serviço, mesmo personalizado, não é aliança da
qual faça parte a reciprocidade. Só quem atua por caridade pode oferecer serviço
personalizado, sem ser afetado pela hostilidade reprimida que o serviço ocasiona.

Há serviços personalizados que não levam em conta a pessoa, mas apenas a remuneração
que eles produzem. O serviço se identifica com o emprego. O trabalho se converte em
atividade ritual que não está em função de alguém, mas apenas de algo.

Quando falamos de melhoria de serviços, deveríamos referir-nos não apenas aos serviços
impessoais, mas também a tudo aquilo que qualifica melhor os serviços pessoais. O que de
fato humaniza é a qualificação do serviço pessoal, não como emprego, mas como vocação
gratuita.

O serviço genuinamente humano tem uma dimensão estética. O serviço de qualidade


provoca expressões de elogio do tipo: estupendo, elegante, excelente, divino, maravilhoso,
magnífico! O bom serviço agrada tanto ao prestador do serviço como a seu receptor,
porque a beleza afeta positivamente tanto a pessoa que serve — dignificando seu serviço
— como a que o recebe — a pessoa também é dignificada. É o caso da mulher anônima do
Evangelho, quando derramou em Jesus um perfume caríssimo (Mc 14, 3-9). A qualidade de
um serviço tem, por isso, muito que ver com beleza. A excelência de um serviço melhora a
qualidade de vida e a embeleza.

Numa visão global do mundo percebe-se que tudo está correlacionado e, portanto, em
relação de serviço recíproco. Nada nem ninguém está ilhado e, assim, a relação de serviço
dá vida ao mundo. Quando alguém pretende apenas ser servido bloqueia os dinamismos da
vida e gera clima de morte.

O serviço não só se realiza nas relações entre as pessoas, como também com o mundo
animal, o mundo vegetal, com a totalidade da natureza. O serviço é ecológico. A
interdependência com a biocenose (comunidade; conjunto de populações), com o biótopo
(conjunto de condições físicas e químicas que caracterizam um ecossistema ou bioma), com os
ecossistemas nos torna responsáveis pela vida do planeta e de todos nós que moramos nele.
Como integrantes do sistema ecológico somos tanto provedores como receptores, tanto
servidores como servidos. Poderíamos definir como “serviço qualificado” o que “é bom
para a alma e para o mundo”.

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Quando um comportamento ou uma atitude causarem sofrimento ao mundo, temos de nos
interrogar: “Quanto custa isso para o mundo?” “Que parte do futuro da humanidade
estamos colocando em risco?”

Esta forma de entender o serviço exige entrega e atenção permanente para com o Outro.

Às vezes esse serviço será terapêutico. A palavra grega “terapia” traduz-se como “atenção e
serviço”. Terapeuta era alguém que atendia, era um prestador de serviço e, portanto, capaz
de curar. O serviço nos leva a ser terapeutas da realidade, dos irmãos e das irmãs. O
serviço é resposta ecológica adequada, é obediência ao conjunto. Ao obedecermos ao
conjunto, nos transformamos em destinatários de seu bem-estar. Serviços bem executados
provocam aumento de valor e de beleza.

Se compreendermos o serviço da autoridade com esses critérios, que contribuições traria


para nós?

2. Que significa “autoridade”?

Sabemos que a palavra “autoridade” deriva do vocábulo latino “auctoritas” que por sua vez
vem do verbo latino “augere”, que significa “crescer”. A autoridade tem que ver com o
crescimento, com a capacidade de fazer crescer.

a) O crescimento e sua ambivalência

Cresce quem aumenta de tamanho, quem se expande ou se amplia. Cresce o que evolui na
forma e na função, o que progride, o que passa de uma etapa para outra até amadurecer.
Um sinal de crescimento é a autocriação que leva à conquista da autonomia e da
independência. A partir desse significado etimológico e primário, “o serviço da autoridade”
se definiria como serviço que faz crescer, aumentar, evoluir, progredir, chegar à
independência.

A palavra “crescimento” tem sido uma das palavras mágicas do mundo econômico e do
mundo político. Ficamos felizes ao ouvir nossos políticos e economistas dizerem que
“nosso país cresce”. Igualmente sentimos orgulho ao sabermos que nossos institutos, o
número de pessoas, as iniciativas apostólicas, suas instituições e sua economia estão
“crescendo”.

Nós nos esquecemos, porém, que essa palavra mágica “crescimento” não é inocente, não
expressa apenas pontos positivos. O crescimento não é sempre vantagem. Amadurecer é
também murchar e morrer. Tornar-se independente é também isolar-se. Há crescimento que
nos leva à obesidade. Baudrillard falou da “obesidade dos sistemas”, que se manifesta na
obesidade da informação, na obesidade da comunicação, dos controles, do consumismo. A
obesidade deforma a realidade, tornando-a oca, ampliando-a a ponto de perder sua
consistência. A obesidade é repetição não significativa, quase cancerígena, da mesmice.
Crescem os informes, crescem os dados, crescem os catálogos, crescem os produtos, mas a
pergunta imediata é “Para quê?”

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Ainda assim, o crescimento continua cheio de significados positivos: fertilidade, esperança,
boa saúde, progresso, otimismo, força. Por isso a expressão “crescer ou morrer” tem sido
usada por nós mesmos, referindo-nos a todas as nossas instituições e comunidades. Apesar
disso, fala-se muito hoje em crescimento “sustentável”. Em princípio, podemos dizer que o
crescimento — entendido de modo ingênuo — não é a solução terapêutica para os males do
mundo.

b) Como entender a “auctoritas” que faz crescer?

O significado da autoridade que faz crescer está preso ao entendimento que tivermos de
crescimento. Uma autoridade que tem como objetivo um crescimento do tipo quantitativo,
multiplica as leis, as normas, os programas, as informações, as reuniões, as instituições, as
inovações. Promove e ajuda os irmãos a se tornarem bons trabalhadores, para que fiquem
satisfeitos com o que fazem; cuida que trabalhem e se dediquem, a fim de terem sucesso
sem prejudicar sua saúde. Esse modelo de autoridade se identifica muito com a autoridade
do “executivo”. Deste modo se constrói um instituto obeso, agigantado, mas sem
consistência: gigante com pés de barro, obesidade cada vez mais inútil e talvez
cancerígena.

Há outros critérios para se definir o crescimento. Cumpre interrogar-nos acerca de qual é


que atualmente nos faz avançar, crescer, progredir de modo autêntico e frutífero.

“Hoje prosseguir significa identificar os erros de nossa cultura e ir até a origem da dor de
nossas lembranças. Precisamos de heróis que tornem patentes nossas inferioridades, não
de mestres em negar tudo; precisamos de exemplos de maturidade capazes de tolerar a
tristeza, que dêem amor aos anciãos, que mostrem sua alma sem ironia nem vergonha.
Precisamos de mentores e não de animadores; de conselheiros e não de incentivadores. É
melhor que a tristeza esteja em níveis altos do que sofrer de depressão como um mal
endêmico ‘na população e na economia”. (JAMES HILLMAN, Tipos de poder. Guia para
pensar por uno mismo, ed. Granica, Buenos Aires, Barcelona, 2000, p.55)

É quando o crescimento significa maior maturidade e afeta positivamente o conjunto que


surge uma autoridade autêntica.

“Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como
criança. Depois que me tornei homem, fiz desaparecer o que era próprio de criança”. (1
Cor 13, 11)

A autoridade que faz crescer deve hoje expressar-se nos seguintes termos: profundidade,
intensidade, repetição, desprendimento e esvaziamento.

A autoridade da profundidade. Este tipo de autoridade visa ao crescimento que nasce da


interioridade, do mundo interior e espiritual que possuímos. Os serviços personalizados a
cada um dos irmãos do Instituto têm como objetivo ajudá-los a viver a partir da
profundidade religiosa, espiritual. Sem vida interior, a ação externa fica vazia, oca. A
característica mais rica da interioridade humana não é seu mundo intelectual, e sim seu
mundo afetivo, seu amor. A “sétima morada” — seguindo a metáfora de Santa Teresa ao
comentar a última etapa do caminho espiritual — não se caracteriza pelo conhecimento,
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mas pela “superação de toda ciência”, pelo amor. Servir a interioridade é ajudar os irmãos a
viverem “no amor”, a deixar-se dominar pelo Amor. “Se eu não tiver amor, nada sou”. (1
Cor 13, 2). Os que se sentem possuídos por grande paixão de Amor são “o próprio São
Paulo vivo hoje”.

O amor transforma nossa interioridade em “morada”, na “sétima morada”, isto é, a


“interioridade perfeita na qual vivem Deus e os irmãos e o cosmos”. Na terminologia
mística de Teresa de Jesus, podemos dizer que o serviço da autoridade nesta dimensão
ajuda os irmãos a percorrer o caminho das moradas até fazer de sua interioridade uma
autêntica morada.

A autoridade da intensidade ou densificação. O crescimento autêntico tem que ver com


intensificação — como pré-requisito — e com densificação — como resultante. É curioso,
neste sentido, lembrar que a língua alemã traduz poeta pela palavra Dichter, e a poesia pela
palavra Gedicht. O vocábulo alemão “dichten” significa “densificar”. Um poema, uma
poesia é o resultado artístico de uma bela densificação. Em poucas palavras muitas coisas
são ditas. Que é o surgimento do amor senão “uma intensificação do amor que reside em
nós”? Num fragmento se descobre o todo. A poesia nos faz desfrutar do minúsculo, da
miniatura. Ao império do extenso se contrapõe a força do intenso.

Os processos mais vitais têm muito que ver com os processos de concentração, de
intensificação, de densidade qualitativa. Uma autoridade da densificação deixa de lado o
imediatismo, o eficacismo, a mera extensividade e valoriza a miniatura, o pequeno, o que
de fato produz vida e não a extensão estéril. A intensificação não se atinge com gestos
espetaculares, nem com a precipitação e a velocidade. A intensificação é o resultado da
lentidão, do ritmo tranqüilo, sereno, perseverante. (Cf. PIERRE SANSOT, El buen uso de la
lentitud, Tusquets, Barcelona, 2001).

A autoridade da repetição. Existe um modelo de repetição que é neurótico, cancerígeno.


Mas há outro tipo de reiteração, de repetição, que é vital, absolutamente necessário. A
contemplação nasce da reiteração; a beleza precisa ser contemplada reiteradamente; o amor
se mantém vivo com a repetição de declarações de amor. Um ser humano que se recria sem
cessar, que vive em busca de novidades, que constantemente introduz inovações em sua
vida, que não se prende a ritos, a usos e costumes é um ser humano desorientado, sem
centro. Uma autoridade a serviço da “inovação” permanente, que se deixa levar pelo
modismo do momento, que não permite que nada se solidifique, não está prestando um
serviço, está sim diluindo e destruindo. É, contudo, evidente que a repetição de um vício se
torna doentia. Por isso as tradições ruins trazem consigo a morte. A repetição de uma
oração feita simplesmente porque é obrigatória não tem vida, não serve para nada. O
cumprimento de normas tradicionais, já viciadas e obsoletas, só traz a morte. O que em
princípio deveria ser virtude se converte em vício, que é costume pernicioso.

A autoridade do desprendimento e do esvaziamento. Há momentos em que para crescer é


necessário podar, limpar, morrer. Jesus nos expôs isso de várias maneiras na parábola da
videira. São Paulo também nos diz que levava a morte de Jesus por onde ele andasse:

“Incessantemente e por toda a parte trazemos em nosso corpo a agonia de Jesus, a fim de
que a vida de Jesus seja também manifestada em nosso corpo”. (2 Cor 4, 10).
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O teólogo J. B. Metz, referindo-se à vida religiosa, faz já alguns anos, falava da “ars
moriendi charismatica”. Com essa expressão dava a entender que ser carismático não é
apenas crescer, mas igualmente morrer. Mais que isso, existe uma arte carismática de
morrer para tudo aquilo que pode inviabilizar o carisma futuramente. O medo dificulta a
mudança. Assim como as pessoas, as organizações acumulam sistemas, equipamentos,
procedimentos que as protegem do medo de mudar. A tarefa de empreender a mudança é da
mesma natureza que o enfrentamento dos medos de uma terapia. É necessário aprender a
morrer, a se desapegar, a se despojar para crescer. Essa é a arte de uma autoridade que faz
as pessoas crescerem.

“Servir” é a palavra mágica da autoridade na vida religiosa. “Crescer”, “fazer crescer” é a


função prototípica da autoridade. Oferecer o serviço do crescimento se confunde com o
“serviço da autoridade”. A vida religiosa está hoje num momento em que precisa crescer e
necessita de um serviço que lhe dê vitalidade. Não nos podemos mais enganar. Sem
intensidade a extensão fica oca e estéril. Sem profundidade a missão vira apenas um
trabalho e a vida fica sendo apenas uma existência ou sobrevivência.

IV. Liderar com autoridade um projeto: áreas e


compromissos

1. Regenerar o tecido carismático do Instituto

A tarefa mais importante do Governo ou da Liderança na vida consagrada está relacionada


ao carisma. Eu penso no carisma como um ser vivo. Ele pode situar-se em qualquer etapa
da vida: infância, adolescência, juventude, maturidade, velhice, decrepitude. Ele pode
reconhecer-se num estado de doença, de paralisia, de metástase.

O carisma não é conceito, como sabemos, nem ideal. É “um algo” contagioso que, pelos
nossos Fundadores, nos atingiu e, através de nós, tende a se contagiar também. Cada
pessoa, cada geração, cada grupo reestrutura essa energia carismática a seu modo.

Alguns lhe acrescentam elementos novos, novas energias... e o transmitem revitalizado.


Outros o deixam apagar, o estragam e, às vezes, o deixam sem força nenhuma.

Não queremos que o carisma se apague. Não queremos que o tecido carismático do
Instituto entre em processo de necrose ou metástase. Por isso o Capitulo Geral é uma
súplica, uma oração ao Espírito para que nos regenere, nos faça nascer de novo, para que
refunde novamente o Instituto.

Ao chamar todos os Institutos Religiosos a assumir o esforço da renovação, o Vaticano II


fez da instituição centenária do Capítulo Geral o instrumento privilegiado para levar a cabo
essa tarefa. Ao longo da execução de um Capítulo Geral, um instituto assume seu carisma
novamente, o relê no contexto eclesial e cultural do momento em que vive e toma as
decisões necessárias para se inserir de forma adequada no carisma da Igreja e no mundo
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contemporâneo. O Governo Geral, que provém de um Capítulo, é responsável por essa
tarefa carismática.

A graça de novas vocações, procedentes de novas raças, novos países e culturas, torna
especialmente importante esta atenção ao tecido carismático, à herança transmitida e à sua
reinterpretação. No documento “Por dentro da Globalização” da USG falávamos da
importância que tem hoje a inculturação da teologia da vida religiosa, dos carismas
particulares às sensibilidades emergentes. Por isso um Governo Geral para hoje, início de
um novo século, procura dar uma nova versão do carisma numa cultura global nova, nas
culturas de povos bem diversos.

2. Em tempos de redução e de aumento

Está no fim o velho equilíbrio de forças. Começa a se estabelecer novo equilíbrio. Os que
antes não contavam agora contam. Os que contavam antes contam cada vez menos. Há
mudança de propriedade.

Isso quer dizer que entramos numa espécie de labirinto diabólico? Seria possível colocar
isso em ordem logo? Seria melhor que essa forma de vida religiosa morresse na espera de
que surja nova forma? Fazemo-nos todas essas perguntas. No fundo elas destilam um triste
pessimismo e, além disso, não fazem justiça aos milhares de religiosos e religiosas que são
pessoas excelentes, que têm sabido manter sua fidelidade a Deus e a nossos institutos e
grupos, em tempos muito difíceis e intranqüilos.

Não podemos ressuscitar, se não confiarmos em nós mesmos, se não reconhecermos o dom
de Deus. Há muito mais riqueza do que percebemos. A vida religiosa continua sendo
grande reserva de sabedoria para a Igreja e para nossos Institutos. Na Ásia, na África, na
América, a vida consagrada oferece novos rostos, novas inteligências, novos corações
capazes de viver o carisma de assegurar seu futuro. Devemos manter-nos abertos à nova
realidade.

3. Numa sociedade “obesa” de memórias e sem memória

Fala-se hoje da obesidade dos sistemas. Estamos acumulando tanta, tanta informação que
os sistemas se tornam obesos, uma obesidade tão grande que nos impede caminhar.
Estamos tornando excessivamente técnica a vida evangélica. Para que tanta informação,
tantos documentos? Se, no final, a história que se escreve é a oficial, e não a real. A
memória histórica é, não raro, uma memória parcial e injusta.

Urge, de algum modo, atingir a simplicidade. É importante agilizar a vida e descobrir o


essencial. Menos maratonas de trabalho e mais sabedoria e abertura à revelação do que
ocorre hoje e nos dinamiza!

Por isso temos de transferir “as memórias” para a “memória”. É importante produzir a
grande síntese da “memória” dos últimos tempos. Construir essa memória não é fazer um
exame de nossos trabalhos e esforços, e sim fazer a memória da ação de Deus em nosso
Instituto e de nossa resposta e colaboração em seu projeto.

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Construir a memória é também purificá-la. Sabemos até onde conseguiu chegar a presença
do Mal na Congregação, nas pessoas. Os escândalos que pouco a pouco vêm à luz da
opinião pública nos fazem ver que nem tudo o que reluz é ouro, que uma comunidade
religiosa pode ser também um lugar de corrupção, de infidelidade institucionalizada.
Quando o mal está presente entre nós, não nos cabe procurar apenas os culpados, mas
também descobrir em que medida o sistema participa dessa culpa.

Conclusão
Temos em mãos instrumentos valiosos para a caminhada. Temos de seguir adiante e
acelerar a regeneração que nos aguarda. Não precisamos de super-homens ou de super-
mulheres como líderes, mas de pessoas conscientes de seu perfil, de sua missão e serviço.
As naves devem colocar-se em movimento, dirigidas pelo sopro do Espírito. Devemos
aproveitar os momentos propícios.
Sabemos muito bem para onde devemos caminhar. Líderes, coloquem seus grupos em
marcha! Mudem sua visão, abandonem suas idéias pessoais, deixem-se transformar pela
realidade e não sejam fiéis a vocês mesmos, mas ao Deus da História! Não pactuem com o
Maligno. Não sejam pastores de vocês mesmos. Não aceitem máfias de favoritismos que
impõem sua lei contra os excluídos de seus grupos. Sejam de todos e todos os seguirão.
Assim, vocês se assemelharão ao Bom Pastor, o único líder que tem a autoridade do Pai,
mais do que a vocês mesmos.

*LIDERAZGO Y AUTORIDAD
José Cristo Rey García Paredes
REVISTA TESTIMONIO Nº 214
Marzo / Abril 2006
www.conferre.cl/.../testimonio06_mar_abr.html

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