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CIVILIZAÇAO BRASILEIRA

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QUEM AJUDOU * A HITLER

COLEÇÃO

D O C U M E N T O S DA H IST Ó R IA C O N T E M P O R Â N E A volume 26

I, MAISKI

tradução d e
CRISTIAN O M .
o it jc ic a

civilização b ra sile ira

Título do original em russo:
k to p om ogal g u itle r u

desenho de capa:
M a r iu s L a u r i t z e n B ern

Direitos para a língua portuguesa adquiridos pela EDITÔ RA CIVILIZAÇÃO BRA SILEIRA S .A . Rua 7 de Setembro, 97
RIO DE JANEIRO

que se reserva a propriedade desta tradução. 1966 Impresso nos Estados Unidos do Brasil Frinted in the United States o f Brazil

ÍNDICE
Prefácio
até

IX

1939 3 10 16 25 32 42 48 56 67 82 84

"

Instruções do Governo soviético O que encontrei na Inglaterra Luta em prol do convênio comercial Breve degêlo e suas causas Passos de aproximação Churchill e Beaverbrook Esfriamento Abaixo de zero Munich Uma trapaça de Chamberlain No limiar de 1939
,
em

1939 89 105 121 129 142 149 156 164 182 191
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A anexação da Tcheco-Eslováquia e as manobras de Chamberlain A U R S S propõe um pacto de assistência mútua Dois projetos de pacto Mencioná-los ou não? O pacto e a convenção militar Preparação das negociações militares As negociações militares de Moscou O dilema do Governo soviético Fracasso das negociações tripartidas e acôrdo forçado com a Alemanha Conclusão

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P R E F Á C IO
Em certos m eios d o exterior criou-se uma falsa lenda, am plam ente difundida, sôbre a conduta d o G overn o soviético às vésperas da Segunda G ran de Guerra. E ssa tenda con­ siste, em essência, no seguinte. A firm a-se, ardilosam ente, qu e a U nião Soviética jogou com pau d e dois bicos na prim avera e no verão d e 1939 (d e março a °agôsto) . P or um lado, m anteve n egociações públi­ cas com a Inglaterra e a F ran ça para firm ar um pacto d e assistência mútua das três potências contra a A lem anha hitlerista; por outro, sustentou paralelam ente, atraiçoando a In ­ glaterra e a F ran ça, n egociações secretas com a A lem anha d e H itler com vistas a concluir um acordo alinhado contra as "dem ocracias ocidentais " . A firm a-se também que a U nião Soviética tomou com o pretexto minúcias sem substância para prolongar, d e form a artificial, as n egociações com a In gla­ terra e a F ran ça à espera d e que terminassem as que man­ tinha com a A lem anha. E quando, apesar d e tudo, chegou o m om ento d e assinar o p acto tripar tido, a U R SS, segundo os autores d essas aleg ações, mudou bruscam ente d e posição, rompeu com a Inglaterra e a F ran ça e concluiu com a A le­ m anha um acôrd o que fo i (d êle geralm ente se fa la com p re­ m editada vagueza) pouco m enos que uma aliança militar con­ tra a Inglaterra e a F ran ça. N ossos adversários dizem , por último, que a assinatura d o acôrdo d a U nião Soviética com a A lem anha abriu as portas para a agressão d e H itler à P o ­ lônia, à Inglaterra e à F ran ça e qu e em virtude disso, recai sôbre a U nião Soviética a responsabilidade p elo d esen cad eamento d a Segunda G rande G uerra. E ssa detu rpada lenda, cuja origem rem onta a 1939 e 1940, retocada e com pletada sistem aticam ente com tôda sorte d e d etalh es no p eríodo d o após-guerra, tem d ad o origem a nu­

m erosas variantes e tem sido difundida am plam ente por p o ­ líticos, jornalistas e historiadores d o O ciden te. A m aldosa lenda surge ainda em docum entos diplom áticos d a maior im­ portância d o s governos capitalistas, inclusive algum as notas d o P residente E isen h o w er. A p esar d e tudo, a lenda em questão é um m odêlo clás­ sico d e falsificação burguesa da história, destinado aos dcsm em oriados e a vastos setores que não conhecem minucio­ sam ente os verdadeiros fa to s das relações internacionais. N e s ­ se caso, a falsificação é dupla. Prim eiro, distorcem grossei­ ram ente os acontecim entos d a prim avera e d o verão d e 1939. D epois, consideram -nos isoladam ente, desvinculados d o p as­ sado, on de têm suà origem , im pedindo assim que sejam com ­ preendidos e valorizados com o devem . E para que lhes seja mais fácil, com o dizem os norte-am ericanos, " vender” esta falsificação ao grande público, seus autores evitam, geral­ m ente, descrever com minúcias a história d a s n egociações tripartidas. P referem referir-se a elas “em geral”, d e m odo breve e sumário, sem porm enores, partindo da suposta tese "de todos con hecida” — e que, portanto, não precisa d e d e ­ m onstração — d e que a U nião Soviética é a culpada d o fr a ­ casso d as n egociações. N as páginas seguintes darei a con hecer a verdade do que ocorreu efetivam ente nas relações d a U R SS com a Inglaterra, a F ran ça e a A lem anha durante a prim avera e o verão d e 1939. N esse ponto, encontro-m e numa situação pri­ vilegiada. D e um lado, com o em baixador soviético em L on ­ dres naqueles dias, fui testem unha partícipe d as negociações tripartidas d e 1939 entre a U R SS, a Inglaterra e a França. D e outro, com o historiador, tive possibilidade d e estudar no p eríod o d o após-guerra tudo o que se escreveu (docum en­ tos, m emórias, m onografias, etc.) e se publicou após o úl­ timo conflito mundial nas vésperas d êste.

N ã o obstante, para que a verdade que me proponho re­ latar-lhes constitua a mais* pura verdade, d ev o encetar minha exposição não em 1939, mas bastante antes. E ssa data está determ inada, naturalmente, p elo limite que serve d e linha di­ visória. na época com preendida en tre as duas guerras: a as­ censão d o nazismo ao P o d er na A lem an ha. Além disso, essa data d o início d o relato é muito cô ­ m oda para mim. R esolvi d ar a form a d e recordações ou m e­ mórias 'à minha narrativa, porquanto perm ite ao leitor com ­ preender com maior facilid ad e o am biente e os acontecim en­ tos d aqu eles anos, já relativam ente distantes. Isso porque cheguei a L on dres com o em baixador d a U R SS no outo­ no d e 1932, isto é, apenas três m eses antes d o golp e d e E s ­ tado nazista em Berlim . Assim, tanto d o pon to d e vista político geral com o d o pessoal, torna-se singularm ente propício iniciar o relato com­ as prim eiras im pressões d a minha estada na Inglaterra. E m bora os acontecim entos d e que m e propon ho falar tenham ocorrido há mais d e vinte anos, apresentam viva se­ m elhança com os dos' nossos d ias. Com efeito, então com o h oje, negras nuvens precurso­ ras d e tormenta adensavam o horizonte político internacio­ nal. N aq u ele tem po, com o h oje, era fundam ental para tôda a hum anidade saber se uma guerra mundial seria desen ca­ d ead a ou n ão. E n tão, com o h oje, o cam po d o socialism o, re­ presentado naqueles dias unicam ente p ela U nião Soviética, d efen dia, com tôdas as suas forças, a causa d a paz, ao passo que o cam po d o capitalismo, qu e agrupava todos os dem ais países e E stad os, ansiava cega e criminosamente p ela guer­ ra e, no fim d e contas, levou a hum anidade a uma terrível catástrofe. Q uando se ouvem os discursos d o s líderes atuais d o capitalismo, se pensa com freqüência: o m esm o diziam

C ham berlain e D aladier na d éca d a d e 1930-40. P elo visto, os filh os nada aprenderam d a experiência d o s pais. N ão obstante, isto significa que as coisas devam termi­ nar também agora em uma conflagração mundial, mais es­ pantosa ainda qu e a anterior? N ão, não significa isso, pois a correlação d e fôrças no cenário internacional m odificou-se apreciávelm ente nos últi­ mos vinte an os. N ão havia então mais qu e um E stad o socialista cm nosso planêta: a U R S S ; atualm ente existe tôda uma constela­ çã o d êles. M ais d e um têrço d a hum anidade se encontra em nossos dias sob a bandeira d o socialism o. Outra têrça parte é integrada pelos países neutros, tambéin defen sores d a paz e inimigos d a guerra. N o setor d o capitalism o militante, há apenas cêrca d e um têrço d o gên ero hum ano. M as incluído nêle há não pou cos am igos da p az. E precisam ente essa cor­ relação d e fôrças na esfera internacional nos d á motivos para considerar qu e a Terceira G ran de G uerra não é inevitável, e que p o d e ser conjurada com a devida atividade e energia das fôrças partidárias d a paz. E m tais condições, é útil recordar o qu e ocorreu às vés­ peras d a segunda conflagração universal. Im porta, sobretu­ do, m ostrar a fen om en al cegueira histórica d o s governos das potências ocidentais daqu eles tem pos, que não viram nem qui­ seram ver o abism o a que arrastavam a hum anidade. O qu a­ dro vivo d essa cegueira — oriunda d o seu ódio ao comunis­ mo, ao E stad o soviético — e d e suas funestas conseqüên­ cias p o d e aju dar os elem entos m ais sen satos d o setor capi­ talista d os nossos dias a assim ilar os ensinam entos d o p as­ sad o recente e, com isso, facilitar a vitória d a s fôrças d a paz sôbre as fôrça s d a guerra. O A U TO R

Até 1939

IN S T R U Ç Õ E S D O G O V Ê R N O S O V IÉ T IC O

^ J o o u to n o de 1932 fui nomeado embaixador da U R SS na Inglaterra, e em fins de outubro parti para Londres após receber o agrém eni do Governo inglês. Que tarefas me atribuiu o Govêrno soviético? Com que propósitos, planos e estado de espírito parti para o meu nôvo pôsto de trabalho? Posso afirmar com plena convicção que o Govêrno so­ viético me enviou como mensageiro de paz e amizade entre a U R SS e a Grã-Bretanha e que aceitei com alegria e prazer o cumprimento dessa missão. Sem superestimar, de modo algum, minhas próprias fôrças, resolvi de antemão fa­ zer todo o possível para melhorar as relações entre Moscou e Londres. As causas a que obedeciam as aspirações do Go­ vêrno soviético tinham um caráter mais geral e mais par­ ticular . As causas de caráter mais geral consistiam na própria natureza do Estado soviético como um Estado pacífico, no qual não há classes ou grupos que possam tirar proveito da guerra. Os operários, os camponeses e os intelectuais — ele­ mentos sociais de que é formada a sociedadè soviética — só podem sair perdendo com a guerra. Isto não significa, está

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daro, q u e ‘ sejam partidários da paz a todo custo! Não, de maneira alguma! Os bolcheviques não são tolstoianos. Como diz uma conhecida canção soviética, nosso “trem blindado” está sempre pronto no desvio e apetrechado com material bé­ lico o mais moderno. Porém, p ela própria natureza, não que­ remos a guerra, odiamo-la e procuramos evitá-la na medida que o permitem as possibilidades humanas. Estamos empe­ nhados na edificação do socialismo e do comunismo, à qual consagramos a nossa inteligência e o nosso coração, e nada desejamos que possa afastar-nos dêsse labor, tão arraigado, e menos ainda que possa desprezá-la sèriamente. Assim tem sido e é a todo momento a linha geral do Estado soviético. E se a U R S S se viu, não obstante, obrigada a combater — e não pouco — em seus 46 anos de existência, deve-se isso ao fato de que a guerra nos [o i im posta pelas fôrças inimi­ g as d o exterior, que pretendiam varrer da face da terra o primeiro país socialista do mundo. Assim ocorreu nos anos da guerra civil e da intervenção estrangeira. Assim ocorreu tam­ bém nos dias da Grande Guerra Pátria de 1941-1945. As causas de caráter mais particular que acentuavam o desejo do Govêrno soviético de viver em paz e amizade com a Inglaterra no momento de ser eu designado embaixador em Londres, consistiam, por um lado, em certas particularidades da situação interior do país e, por outro, no rápido cresci­ mento do perigo de fascistização da Alemanha. ■ Vejamos primeiramente a situação interior da U R S S . Quando parti para a Inglaterra chegou ao seu término o seu primeiro plano qüinqüenal. Já se haviam lançado oíí primei­ ros alicerces da nossa nova indústria, porém os frutos dos heróicos esforços que isso nos custou eram coisn do porvir. O regime kolkosian o acabava de nascer, porém í\ burguesia rural (os ku laks) continuava lutando contra êle, O país ex­ perimentava dificuldades de víveres. Escassenvam m nrtigos de amplo uso e consumo. Fora da U R SS uma grave crise econômica (a célebre crise de 192*) 1*>H ) . Os preços mundiais das matérias-primas e produto.') alimentícios haviam descido enormemente, com cuja exporfagin ]Mijáva­ mos, sobretudo, naqueles anos, as máquinas <)iu* utltiiilnamos no exterior. A s receitas em divisas eram esc.iss.t*:, Á Indús­ tria de ouro soviética encontrava-se ainda mi.s pi nurlidii cta-

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pas do seu ressurgimento após a ruína provocada pela guer­ ra civil e a intervenção, bem como pela interferência dos con­ cessionários da Lena G oldfields na década de 1920-30. Tudo isso tornava extremamente difícil o pagamento pontual da maquinaria importada para a indústria. Recordo que no in­ verno de 1932 a 1933, encontrando-me já em Londres, houve momentos verdadeiramente críticos. Não obstante, o Gover­ no soviético pagou sempre em dia e na hora. Tínhamos em altíssima estima a reputação da U R SS no mercado mundial como pagadora irrepreensível e não poupávamos esforços para conservá-la. Tudo isso, como é natural, levava o Go­ verno soviético a evitar qualquer complicação no terreno da política exterior que pudesse criar dificuldades ao nosso co­ mércio e tornar indispensáveis despesas imprevistas. Era uma política nobre e, além disso, extraordinàriamente inteligente; porém, como era difícil mantê-la naqueles anos! Passemos agora à Alemanha. Em fins de 1932 era evi­ dente a plena decomposição da República de Weimar. Os nazistas avançavam com rapidez e conquistavam uma após outra posição. A cisão nas fileiras proletárias era profunda e os sociais-democratas se negavam obstinadamente à uni­ dade de ação com os comunistas contra o fascismo. Em tais condições, tornava-se muito provável a ascensão de Hitler ao Poder. Se isso acontecesse, que efeito produziria em tôda a situação internacional? Como se refletiria, em particular, nas relações germano-soviéticas? Está claro que não se po­ deria esperar nada de' bom. Antes de partir para Londres mantive longa palestra com Maxim Litvínov, na ocasião Comissário do Povo de Ne­ gócios Estrangeiros da U R SS, durante a qual me deu ins­ truções gerais sôbre a minha futura missão na Inglaterra. — Compreenderá, naturalmente — explicou-me Lit­ vínov < — que não são instruções pessoais minhas, mas de organismos mais altos. Recordo-me muito bem daquela conversa e considero que não será demais reproduzir aqui seus pontos mais essenciais. — A política exterior soviética — afirmou-me Litvínov — é uma política de paz. Seu caráter dimana dos nossos princípios, dos próprios fundamentos do Estado soviético. A

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base da nossa política exterior não muda nunca, mas ao pôr em prática essa política há que contar com a situação inter­ nacional concreta. A Alemanha é, até agora, o país com que sempre tivemos as melhores relações, e em nossos atos temos procurado, na medida do possível, manter a frente única com ela ou, pelo menos, levar em conta sua posição e seus inte­ resses. Porém se tratava da Alemanha de W eimar, que se encontra agora, como se pode ver, em,agonia. Não se pode alimentar ilusões a êsse respeito. Hitler subirá ao Poder de um momento para o outro e a situação mudará instantanea­ mente. A Alemanha deixará de ser nossa "amiga” para íransformar-se em inimiga. Se essa é a perspectiva, qme dedu­ ção devemos tirar? É claro que, agora, no setor da política de paz, devemos procurar melhorar as relações c o e i a In­ glaterra e a França, sobretudo com a primeira co zo princi­ pal potência capitalista da Europa. É certo que êsses dois Estados mantêm, até o momento, uma atitude de hostilidade para conosco.. . Para corroborar suas idéias, Litvínov enumerei: alguns dos fatos mais importantes: participação dominante da In­ glaterra e da França-na intervenção de 1918-1920, szitimatum de Curzon em 1923, assalto à A R C O S 1 e ruptura das re­ lações diplomáticas anglo-soviéticas em 1927, furiosas cam­ panhas anti-soviéticas em 1930 e 1931, etc. E ens seguida prosseguiu: — Porém hoje a situação mundial objetiva se modifica: como é lógico, os nazistas empreenderão um terrível movi­ mento de vingança quando subirem ao Poder, começarão a rearmar-se, a exigir a devolução" das colônias, etc. Isso de­ verá fazer com que raciocinem, pelo menos em parte, os meios governamentais da Inglaterra e da França, ohricando-os a pensar nos aliados contra a Alemanha. Lembrar-se-ão for­ çosamente então da E ntente que existiu durante a Guer­ ra Mundial e, por conseguinte, de nosso país. Isso cria­ rá um ambiente mais favorável para o seu trabaJho ma In­ glaterra. Porém não, basta confiar no curso des aconteci1 All-Russian Cooperative Society, isto é, Sociedade Cooperativa da Rússia; naqueles anos era o organismo central do comércio soviético na Inglaterra e estava registrada juridicamente como companhia comercial inglesa.

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mentos. Sua missão consiste em aproveitar ao máximo, a bem da aproximação anglo-soviética, a situação que possa criarse na Inglaterra. — Concordo com sua apreciação da situação e suas de­ duções — falei; porém, como imagina as ações concretàs imediatas? — Farei referência ünjcamente à Inglaterra, que é aon­ de você vai — respondeu Litvínov. Que devemos procurar conseguir ali, em primeiro lugar? A máxima ampliação das nossas relações com os consfervadores. Na vida política da Grã-Bretanha dominam duas fôrças: os conservadores e a oposição, integrada por liberais e trabalhistas. Em outros tempos, os liberais constituíam a fôrça fundamental da opo­ sição; porém, êsses tempos passaram: hoje, rolam de encosta abaixo, se fracionam e se enfraquecem. Os trabalhistas de­ sempenham cada dia mais o papel principal na oposição. Observe que todos os atos positivos no terreno das rela­ ções anglo-soviéticas partiram, até agora, dos liberais e dos trabalhistas. Por exemplo, o primeiro e importantíssimo con­ vênio comercial concluído entre a Inglaterra e a Rússia So­ viética em 1921 foi firmado por um Govêrno presidido por Lloyd George; o reconhecimento diplomático da U R SS em 1924 foi efetuado pelo primeiro Govêrno trabalhista; o res­ tabelecimento das relações diplomáticas entre ambos os paí­ ses, desfeitas em 1927, foi obra do segundo Govêrno tra­ balhista em 1929. Os conservadores, ao contrário, só têm feito até agora coisas más. É uma lástima, porque, apesar de tudo, os “senhores” da Inglaterra foram e continuam sendo êles. E enquanto não mudarem de posição nossas relações com a Inglaterra continuarão sendo precárias e estarão expos­ tas a qualquer eventualidade. Maxim Litvínov pôs ordem a uma pilha de papéis que tinha sôbre a mesa e concluiu dizendo: — Em Londres temos sustentado e sustentamos boas relações com os trabalhistas. Essas relações devem ser culti­ vadas por todos os meios, pois têm muita importância, so­ bretudo com vistas ao futuro. Tampouco são más nossas re­ lações com determinado grupo de liberais, e você deverá ado­ tar tôdas as medidas oportunas para garanti-las e ampliá-las. Mas, em troca, não temos quase nenhuma relação com os

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conservadores. E são êles, repito, os verdadeiros “senhores" da Inglaterra! Eis porque sua tarefa primacial e principal consiste em romper o muro de gêlo que separa nossa Em­ baixada em Londres dos conservadores e estabelecer conta­ tos mais amplos e firmes precisamente com êles. Se o conse­ guirmos, teremos dado um passo proveitoso na luta contra a agressão alemã. Medite bem nos primeiros passos que tenciona empreender ao chegar a Londres, informe-me a res­ peito disso e então voltaremos a falar. Dois dias depois visitei novamente o Comissário do Povo e dei-lhe a conhecer o plano dos meus primeiros passos na Inglaterra. Constava de três pontos principais: 1. Conceder uma entrevista à imprensa britânica logo após a apresentação das minhas credenciais. 2 . Ampliar o mais possível o número de visitas impos­ tas pela etiquêta diplomática a um nôvo embaixador, não limitando-as ao reduzido grupo de pessoas vinculadas ao Foreign O ffice, mas tornando-as extensivas a diversos mem­ bros do Govêrno, políticos destacados, homens da City e per­ sonalidades do mundo cultural. 3 . Ressaltar, de modo especial, a expansão do comér­ cio anglo-soviético. Litvínov aprovou meu plano e me inquiriu se havia pre­ parado o texto da minha próxima entrevista. Entreguei-lhe o projeto. O Comissário do povo leu-o, fêz algumas corre­ ções de estilo de pouca importância e logo o aprovou defini­ tivamente. A entrevista era do seguinte teor: — “Ao entrar em função como embaixador da U R SS no vosso país, considero destacar, em primeiro lugar, que o Go­ vêrno e os povos da União Soviética, alheios a todo propó­ sito agressivo, querem viver em paz e boa harmonia com a Grã-Bretanha, da mesma forma que com tôdas as partes do Império Britânico. A política da U R S S é uma política de paz. Esta afirmativa tem sido ilustrada repetidas vêzes no passado e se vê confirmada também hoje com extraordiná­ rio brilho” . Para corroborar essa última asserção enumerava eu os pactos de não-agressão firmados ou em processo de elabo­ ração para sua assinatura entre a U R S S e outros países e assinalava a posição adotada pela delegação soviética na Con­

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ferência de Desarmamento inaugurada em Genebra em feve­ reiro de 1932. Em seguida prosseguia: “Com muito maior motivo procura a U R SS desenvolver as relações de amizade com a Grã-Bretanha, com a qual tantos contatos diversos mantém no terreno econômico. O feliz cumprimento do primeiro plano qüinqüenal, que deu ori­ gem a um imenso desenvolvimento das fôrças produtivas da U R SS, e a próxima realização do segundo plano qüinqüenal, que terá como resultado ucia grande ascensão do bem-estar das massas trabalhadoras do nosso país, constituem uma boa base para desenvolver e fortalecer as relações econômicas soviético-briíânicas e, em conseqüência, as relações políticas. Tenho a esperança de que o bom senso, tão próprio do povo inglês, e sua capacidade, por ninguém superada, para levar em consideração os fatos (e quinze anos de existên­ cia da U R SS e seu desenvolvimento são um fato indiscutí­ vel e iniludível) facilitarão em grande medida o cumprimen­ to desta missão. A melhoria das relações entre ambos os países, além de representar o maior bem para êles, seria um fator de paz internacional de extraordinário alcance, o que tem singular importância nestes dias conturbados e difíceis” . Terminava a entrevista com algumas palavras de na­ tureza pessoal. "N o que diz respeito à minha pessoa — dizia — aco­ lhi com grande satisfação a minha nomeação como embaixa­ dor da Ü R SS na Grã-Bretanha. Nos últimos vinte anos vivi e trabalhei várias vêzes em vosso país e tive a oportunidade de conhecer de perto o povo inglês e de apreciar melhor a cultura inglêsa. Estou agradecido também à Inglaterra, que me concedeu o direito de asilo como exilado político nos anos que precederam a revolução. Por isso, me considerarei singularmente feliz se lograr contribuir para a aproximação entre a U R SS e a Grã-Bretanha” . O espírito que impregnava a entrevista preparada por mim é tão claro que dispensa comentários. Minhas duas conversações com Litvínov ocorreram na primeira quinzena de outubro de 1932. Porém, no dia 17 recebeu-se um telegrama de nossa Embaixada em Londres, no qual se informava que o ministro do Exterior, sir John Simon, havia denunciado no dia anterior, por meio de uma

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nota espedal, o convênio comercial anglo-soviético firmado em 1930 com o segundo Govêrno trabalhista. Foi um ato inesperado e manifestamente anti-soviético, do qual ocuparme-ei mais adiante com maiores detalhes. Litvínov chamoume dois dias depois e disse-me: — Você se propunha iniciar suas atividades na Ingla­ terra com uma entrevista cujo texto aprovei.. . Em geral, se­ ria uma declaração acertada se existissem relações normais entre a U R S S e a Gsã-Bretanha. Não obstante, depois da denúncia unilateral do convênio comercial anglo-soviético, a situação mudou: Londres manifestou-nos publicamente sua animosidade. Em tal situação, será melhor abster-se de fa­ zer declarações amistosas como as preparadas por você. Essa foi a causa por que a citada entrevista morreu antes de nascer. Não obstante, reproduzi-a para mostrar cla­ ramente o estado de espirito que reinava em Moscou quando tomei o trem a fim de partir para Londres como embaixa­ dor da U R S S na Inglaterra. Repito, uma vez mais, com plena convicção: o Govêrno e o povo soviéticos desejavam sincera e profundamente que se estabelecessem as melhores relações entre a União So­ viética e a Grã-Bretanha. Porém, como se sabe, a amizade é um ato bilateral. Não bastava que a parte soviética desejasse ter as melhores re­ lações com a Grã-Bretanha: faltava, além disso, que a parte inglêsa tivesse também êsse desejo. Teve-o? Deixemos que os fatos respondam a essa pergunta.

O QUE EN CO N TREI NA IN G L A T E R R A

Quando penso como me recebeu o Govêrno da Ingla­ terra naquele longínquo outono de 1932, acodem-me clara­ mente à memória algumas recordações. Não se tratava, evi­

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dentemente, de mim como pessoa, mas sim como embaixador da União Soviética e, portanto, da União Soviética como povo e Estado. Essas recordações mostrarão melhor que quaisquer considerações prolixas como as classes dominàntes da Inglaterra reagiram em face do desejo, absolutamente sin­ cero, de amizade e colaboração que revelavam o Govêrno e o povo soviético. A primeira lembrança está relacionada com o comércio anglo-soviético. Já tive títasião de afirmar que, durante os preparativos da minha viagem a Londres, atribui-me o pro­ pósito de dedicar atenção especial, na minha tarefa como embaixador, a ampliar por todos os meios as operações co­ merciais entre ambos os países. E um fato casual quis mos­ trar-me de maneira palpável as dificuldades com que haveria de esbarrar precisamente nesse terreno. Nã véspera da minha chegada a Londres, o jornal do­ minical Sunday C hronicle “descobriu” de imediato um espan­ toso acontecimento: "Moscou” havia introduzido na Ingla­ terra, de contrabando, “em ataúdes de procedência estran­ geira”, caixas de fósforos de cêra russa nas quais figurava, como marca de fábrica, o Sagrado Coração trespassado por um punhal!” O jornal, num frenesi, exigia do Govêrno que adotasse as medidas mais enérgicas contra semelhante “sa­ crilégio” . A sensacional notícia do Sunday C hronicle foi reproduzida de imediato por muitos outros órgãos da im­ prensa. Nos meios políticos e parlamentares levantouse ràpidamente uma vaga anti-soviética. Começou uma furiosa campanha contra o comércio com a U R S S . A atmosfera tornava-se tensa. Em vão o diretor da A R C O S protestou contra as estúpidas acusações e demonstrou que nas caixas de fósforos de cêra, soviéticas, jamais tinha ha­ vido algum emblema anti-religioso: não quiseram dar-lhe ou­ vidos. Não se sabe onde teria terminado tôda essa confu­ são se, por sorte, não se houvesse descoberto logo depois que as famosas caixas de fósforos de cêra não tinham vindo da U R SS , mas da índia, e não em "ataúdes”, mas em caixões de madeira do tipo mais comum. Soube-se, além disso, que o que menos pensavam os fabricantes da índia era cometer sacrilégios, visto que o coração trespassado por um punhal é para os indianos um símbolo sublime e belo.

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Outra recordação apresenta um aspecto algo diverso. Em 8 de novembro de 1932 fiz entrega de minhas credenciais ao soberano inglês, formalizando assim juridicamente minha situação como embaixador da U R S S na Grã-Bretanha. No dia seguinte tive que comparecer, já como representante so­ viético, ao banquete oferecido anualmente pelo Prefeito da City londrina ao tomar posse.2 Êsse banquete é uma ceri­ mônia em estilo medieval, pitoresca ao extremo, à qual com­ parecem de 500 a 600 pessoas, a autêntica “nata” da Inglaterra capitalista. Para se ter uma idéia de até que ponto chega a escolha dos convidados para êsse banquete bastará lembrar que do Corpo Diplomático acreditado em Londres convidam-sa unicamente os embaixadores. A ministres plenipotenciários não é dispensada essa honra. O banquete do Prefeito é também um ribtável acontecimento político: o Pri­ meiro Ministro ou um ministro de projeção pronuncia um extenso discurso, no qual trata de alguma importante ques­ tão política da atualidade. A um banquete dessa natureza assisti no dia 9 de novembro de 1932. E eis o que nêle sucedeu (cito as notas que fiz então, rigorosamente de acôr­ do com os fatos): "A cerimônia de apresentação dos convidados, à medi­ da que chegam ao banquete, consiste no seguinte: na extre­ midade de um grande salão que serve de biblioteca encon­ tram-se, de pé sôbre um pequeno estrado, o Prefeito recém-eleito e sua espôsa. Da entrada do salão até ao estra­ do estende-se um largo tapête vermelho-escuro, pelo qual caminha solenemente cada convidado. Um arauto, vestido como na época dos Tudor, anuncia seu nome em voz alta. O convidado percorre com lentidão o tapête, sobe ao es­ trado e aperta a mão do Prefeito e de sua espôsa. Enquan­ to o convidado se dirige ao estrado, ressoam em sua honra os aplausos dos que chegaram antes. O volume de aplausos varia segundo a situação e a popularidade do convidado. É uma espécie de plebiscito. E pela quantidade de aplausos com que é acolhido um convidado se pode julgar, sem temor de equivocar-se, da atitude que adota perante a Inglaterra governante.
2 O Prefeito de Londres

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eleito todos os anos.

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Quis o acaso que me coubesse percorrer o tapête ver­ melho logo após o embaixador japonês Matsudaira, ao qual se dispensou uma acolhida mais que boa. Foi uma verdadei­ ra ovação: foi êle aplaudido ruidosa, longa e entusiàsticamente. V ia-se que tanto seu país como a sua pessoa eram muito populares nas altas esferas inglêsas. E isso apesar do incidente manchul3 O arauto anunciou a seguir: — Sua Excelência Iván Maiski, embaixador soviético! Pareceu que uma rajada de ar gelado houvesse percor­ rido a sala. Todos se calaram imediatamente. Comecei a andar pelo tapête vermelho. Nem um ruído! Nem um aplau­ so!. . . Cercava-me um silêncio sepulcral, um silêncio de re­ serva e hostilidade. A luzidia multidão, alinhada de ambos os lados do tapête, me acompanhava com penetrantes olha­ res de curiosidade. Damas trajadas luxuosamente me fita­ vam ccyn seus lorn h ões, C ochichavam m alicio sam en te e riam . No meio dêsse eloqüente silêncio percorri lentamente, com passo firme e a cabeça bem erguida, tôda a extensão do ta­ pête e, como exige o cerimonial, apertei a mão do Prefeito e de sua espôsa” . Sim, a manifestação de sentimentos da Inglaterra go­ vernante para com a União Soviética havia sido clara e terminante!. . . ' Eis aqui outro episódio. Duas semanas após o banquete que acabo de descrever abriu-se o nôvo período de sessões do Parlamento. É também uma cerimônia muito suntuosa e pitoresca, na qual parece ouvir-se a voz dos séculos. A abertura do Parlamento realiza-se no salão de ses­ sões da Câmara dos Lordes. A ela comparecem os lordes, que envergam seus mantos vermelhos adornados de armi­ nho; suas esposas, vestidas com apuro e ostentando jóias; os notáveis do Estado e o Corpo Diplomático. O rei e a rai­ nha estão sentados no trono. Seguindo uma velha tradição, não se permite a entrada no salão aos membros da Câmara dos Comuns. Um pequeno número de representantes seus encontram-se de pé (precisamente de pé, e não sentados!) por trás de uma barreira especial, que fecha a saída do salão. O camareiro-mor entrega ao rei, fazendo uma profunda re­
3 Assim denominava então o Govêrno da Inglaterra a anexação do Nordeste da China pelo Japão, efetuada em 1931.

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verência, a texto da mensagem da Coroa. O rei põe-se de pé e o lê. Depois, os reis fazem uma reverência a todos os presentes e deixam o salão, considerando-se aberta a ses­ são do Parlamento. Assisti cora minha espôsa à abertura do período de ses­ sões das Câmaras correspondentes a 1932-1933, que tão dra­ mático havia de ser na história das relações anglo-soviéticas, como veremos mais adiante. De acôrdo com a etiquéta, en­ contrava-me com os demais embaixadores à direita do tro­ no, e minha espôsa, com as outras embaixatrizes, à esquer­ da. A etiquéta também exige que se destine ali o lugar de maior honra às esposas dos embaixadores e, somente depois delas, as damas da Côrte de categoria mais elevada. Minha espôsa era, naquele momento, a mais jovem entre as esposas dos embaixadores,4 motivo por que se encontrava ao seu lado a mais ilustre representante da aristrocracia inglêsa. Era a duquesa de Somerset, mais velha que Matusalém e feia como um demônio, mas, mesmo assim, resplandecia coberta de sêdas e brilhantes. Antes de começar a cerimônia, a duquesa entabulou conversa com minha espôsa e, ao dar-se conta que era estrangeira, perguntou-lhe: — Que país a Senhora representa? Minha espôsa respondeu com serenidade: — Represento a União Soviética. O efeito que produziram essas palavras foi impressio­ nante. O rosto da duquesa mudou de súbito, como se ela houvesse pisado numa cobra. Enrubesceu horrivelmente, intumesceram-se-lhe as veias do pescoço anêmico e seus olhos lançaram faíscas de ódio. Afastou-se bruscamente da minha espôsa e exclamou colérica: — Pois fique sabendo. . . Eu odeio os soviéticos! Havia desaparecido sem deixar rastro a serenidade in­ glêsa, a mais elementar cortesia social!. . .
4 A antiguidade no Corpo Diplomático depende do tempo que o em­ baixador se encontre acreditado no país. N o outono de 1932, eu, que acabava de chegar a Londres, figurava como o penúltimo na lista de embaixadores na Inglaterra. O último era o embaixador alemão, Leopold von Hoesch, que havia feito entrega de suas credenciais ao rei inglês no mesmo dia que eu, poiém um quarto de hora mais tarde. N ão obstante, Hoesch era solteiro, razão por que minha espôsa era a embaixatriz mais jovem.

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Minha espôsa não se desconcertou e, por sua vez, res­ pondeu asperamente: — Nesse caso, lamento muito que seu lugar se encon­ tre ao lado do meu.R ' Êsse incidente — pequeno, porém tão sintomático — veio completar maravilhosamente o ocorrido no banquete do Prefeito. * Citarei, por último, outra recordação das minhas pri­ meiras semanas de trabalho em Londres na qualidade de embaixador soviético. Entre as personalidades oficiais que visitei depois de apresentar ao rei as credenciais figurava Neville Chamber­ lain, na ocasião ministro de Finanças e, de fato, líder do Partido Conservador. Durante a palestra que mantivemos, Chamberlain se lamentou de que a U R SS vendia muito à Inglatferra, porém lhe comprava pouco e investia os lucros obtidos em Londres fazendo grandes pedidos na Alema­ nha. V ia-se que o coração do ministro estava aflito e cla­ mava aos céus contra tal “injustiça” . Repliquei-lhe com se­ renidade: — Por que se surpreende, senhor ministro? O Govêr­ no soviético procede como o faria qualquer bom comercian­ te: vende onde mais lhe convém e compra onde lhe é mais vantajoso. — M as por que consideram os senhores mais vanta­ joso fazer pedidos à Alemanha e não à Inglaterra? — in­ quiriu Chamberlain. — Por uma razão muito simples ■ — contestei. Os ale­ mães nos concedem créditos até de cinco anos; os senho­ res, não. . .
5 Êste incidente teve o seguinte, desenlace diplomático. Dois dias mais tarde visitei o senhor Monck, chefe da seção de protocolo do Foreign Office. Informei-o do ocorrido quando da abertura do Parlamento e ro­ guei-lhe que adotasse as medidas pertinentes para que minha espôsa não tivesse que sentar-se novamente ao lado da duquesa de Somerset. Monck lamentou a falta de comedimento da duquesa, que era, segundo disse, um verdadeiro enfant terrible na Côrte inglêsa, e (devo fazer-lhe justiça) preocupou-se no sentido de que a minha espôsa e a duquesa de Somerset jamais voltassem a ser vizinhas nos diversos almoços e jantares diplomáticos.

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Apenas* pronunciei essas palavras, o rosto de Cham­ berlain adquiriu uma expressão gélida. Voltou bruscamen­ te a sua posição de empáfia e falou com voz sinistra e pausada: — Que querem os senhores? Que concedamos créditos a longo prazo aos nossos inimigos? Não, será melhor que empreguems nosso dinheiro em outras coisas. Sim, essas palavras mostravam o verdadeiro Cham­ berlain, o autêntico Chamberlain, destituído de qualquer ar­ tifício. Retruquei-lhe no mesmo tom: — Não quero absolutamente nada, senhor Chamber­ lain. Não vim de modo algum pedir-lhe créditos. . . O se­ nhor perguntou-me por que a União Soviética faz seus pe­ didos preferencialmente na Alemanha. Dei-lhe a explicação, e nada mais. O resto é problema seu. Que dedução podia tirar dos meus primeiros contatos, ainda que superficiais, com a Inglaterra governante daqueles dias? Somente uma: a Inglaterra governante, longe de as­ pirar a estabelecer relações de am izade e colaboração com o País dos Sovietes, expressava abertamente sua hostilidade, esquecendo, às vêzes, até as regras mais elementares de cor­ tesia e de moderação diplomática.

LU TA EM PRO L D O C O N V Ê N IO C O M E R C IA L

Os contatos posteriores, mais profundos, com a Ingla­ terra governante, acentuaram em mim semelhante estado de espírito. Minha primeira grande “operação diplomática” em Lon­ dres foram as negociações para a assinatura de um nôvo convênio comercial que substituísse o de 1930, denunciado pelo Govêrno conservador. Não vacilo ao mínimo em deno-

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minar de conservador o Govêrno que se encontrava no Po­ der em 1932, apesar de chamar-se oficialmente “nacional” e composto de conservadores, nacionais-liberais (encabeçados por Simon) e nacionais-trabalhistas (com MacDonald à fren­ te) . Não vacilo, tampouco, em falar assim porque dos 520 deputados do Parlamento que formavam a coalizão gover­ namental, 471 eram co»servadores. Formalmente, o Primei­ ro-Ministro era MacDonald; porém, na realidade, o chefe do Govêrno era seu vice-presidente, Baldwin. As negociações que tivemos de sustentar em Londres, o nosso representante comercial na Inglaterra, A . Ozerski — homem inteligente e flexível — e eu, tornaram-se muito di­ fíceis e duraram nada menos de quinze meses. Por quê? Por que o próprio objetivo das negociações ■ —■ a conclusão do nôvo convênio — era demasiado complicado? Por que as con­ tradições entre a U R SS e a Inglaterra na esfera comercial eram extraordinàriamente agudas? Nada disso. A s negocia­ ções tornaram-se difíceis e demandaram muito tempo porque o Govêrno britânico procurou sempre aplicar, no tocante à União Soviética, uma política d e discrim inação hostil. Aí es­ tava o qu e da questão. Essa era precisam ente a origem de tôdas as disputas e conflitos principais, que adquiriam, às vêzes, até um caráter dramático. Como se desenrolaram, realmente, os acontecimentos? Não me proponho a expô-los aqui com pormenores (fi-lo em outro livro),6 porém devo lembrar, ainda que brevemente, os aspectos fundamentais das negociações. Começareis pelo princípio. O Govêrno soviético com­ preendia perfeitamente que após a Conferência imperial de Ottawa (outono de 1932) e da passagem da Inglaterra do livre comércio para o protecionismo era inevitável a revisão dos tratados comerciais firmados anteriormente pela GrãBretanha com outros países. Essa revisão vinha efetuandose passo a passo. M as como era feita habitualmente? V ia de regra, o Govêrno inglês, sem denunciar o antigo trata­ do, propunha ao Govêrno correspondente entabular negocia­ ções para introduzir no mesmo as modificações necessárias como conseqüência da mudança radical na política comer­
6 I. Maiski, M emórias de un Em bajador Soviético en la Gran Bretana, Editorial dei Instituto de Relaciones Internacionales, 1960.

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ciai da Inglaterra. Êsse método era inteiramente razoável e legítimo, visto que reduzia ao mínimo as dificuldades oriun­ das da adaptação do comércio inglês com o país em consi­ deração às novas condições. M as como procedeu o Govêrno britânico com a União Soviética? De maneira completamente diversa! Em 16 de outubro de 1932, o ministro das Relações E x ­ teriores britânico, John Simon, enviou inesperadamente à re­ presentação plenipotenciária da U R SS em Londres uma nota não muito cortês, na qual comunicava que o Govêrno inglês denunciava, em um ato unilateral, o convênio comercial anglo-soviético de 1930. Para nós foi como um trovão num dia de céu límpido. O Govêrno soviético viu-se diante de um fato consumado, cujo caráter, inamistoso ao extremo, ad­ quiria maior relevância pela circunstância de que Simon nem sequer propunha em sua nota entabular negociações para concluir um nôvo convênio comercial. O ministro inglês li­ mitou-se a expressar que estavam dispostos a “examinar a situação criada pela denúncia” do anterior convênio comercial. E ra uma evidente discriminação no tocante à União So­ viética, a discriminação número 1. Que exigências apresentou o Govêrno britânico quando se iniciaram, por fim, as negociações comerciais? Constavam, fundamentalmente, de dois pontos: . a) Nivelar o balanço comercial entre a U R SS e a In­ glaterra (êsse país havia até então tido um balanço passivo em seu comércio conosco) . Porém. . . a Inglaterra apresen­ tava também um balanço muito passivo no comércio com os Estados Unidos, a Alemanha, a Argentina, a Dinamarca e outros países e, apesar disso, jamais lhes exigiu que se mo­ dificasse tal situação. Voltava a fazer-se uma exceção ape­ nas com a União Soviética. Era a discriminação número dois. b) Reconhecer ao Govêrno britânico o direito de limi­ tar e inclusive proibir a todo momento, com um ato unilate­ ral, a entrada na Inglaterra de qualquer mercadoria sovié­ tica que implicasse, a seu juízo, uma ameaça de solapamento das p osições d o Canadá no mercado inglês. O Govêrno inglês jamais havia apresentado pretensões semelhantes a

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qualquer outro país. Somente com relação à União Sovié­ tica voltava a fazer-se uma exceção. Era a discriminação nú­ mero três. Não satisfeito com as exigências que acabo de assina­ lar, o Govêrno britânico complicou extraordinariamente as negociações, incluindo nelas algumas questões completamen­ te estranhas. % Como conseqüência das dificuldades que era preciso ven­ cer para cumprir o plano qüinqüenal, naqueles tempos esta­ va muito difundida no mundo capitalista a crença de que ha­ via fracassado a tentativa de industrializar a U R SS , de que a terra vacilava sob os pés do Govêrno soviético e podia se esperar muito breve o colapso completo de todo o sistema so­ viético. Sir Esmond Ovey, na ocasião embaixador britânico em Moscou, contribuiu em escala não pequena para que as referidas opiniões se firmassem na Inglaterra: durante o in­ verno de •1932 a 1933 enviou a Londres informações cada qual mais sombria sôbre a situação interna da U R S S . O Govêrno inglês, e sobretudo o ministro do Exterior, Simon, devoravam prazerosamente a informação que lhes enviava Ovey (desejavam tanto que isso fôsse verdade!) e resolve­ ram aproveitar a conjuntura favorável, como êles acredita­ vam, para ajustar as contas com "M oscou". Os políticos londrinos atribuíram-se, portanto, o obje­ tivo de "vender” o mais caro possível o nôvo convênio co­ mercial com a U R S S . Daí porque, além do cumprimento das duas exigências já assinaladas, apresentaram como con­ dição para a assinatura ,do nôvo convênio que a U R S S con­ cordasse com os três pontos seguintes: indenizar os capi­ talistas inglêses prejudicados pela Revolução de Outubro; pagar as “perdas” à companhia anglo-norte-americana L ena G old field s1 e, por último (embora pareça uma anedota, foi,
7 A companhia inglesa Lena Goldfields recebera, já em 1908, uma concessão do Govêrno czarista para explorar as aluviões auríferas do rio Lena. A Revolução de Outubro pôs fim a essa concessão; não obstante, em 1925, à base do decreto dos Sovietes de 1920 sôbre as concessões, a Lena Goldfields concluiu um nôvo contrato (em condi­ ções diversas da anterior, naturalmente) e empreendeu em grande es­ cala a extração de ouro. E m 1929 trabalhavam em suas emprêsas cêrca de 1 5 .0 0 0 pessoas. Mas como a Lena Goldfields, transformada na oca­ sião em consórcio anglo-norte-americano, procurava sistemàticamente ex-

infelizmente, uma realidade diplomática), fixar nos armazéns do Torgsín 8 os preços dos artigos e produtos em consonân­ cia com os do mercado mundial. A êsse extremo de desplante chegou então o Govêrno britânico! Era a discrimina­ ção número quatro. É de todo evidente que a posição da parte inglesa nas negociações comerciais dificultava por ela mesma, em me­ dida extraordinária, a consecução de um acôrdo. Porém, a situação agravou-se mais ainda em março de 1933, quando entrou em jôgo um nôvo fator, explosivo ao extremo. Nos anos do primeiro plano qüinqüenal, o Govêrno so­ viético firmou tratados de assistência técnica com várias com­ panhias importantes dos países capitalistas. Entre elas figu­ rava o conhecido consórcio inglês M etropolitan~Vickers, que tinha um escritório em Moscou e cujos engenheiros traba­ lhavam em diversas obras soviéticas. Em 12 de março dc 1933 foram detidos cêrca de 25 empregados da M etropolitan piorar as jazidas segundo o estilo capitalista e infringia sem cessar as leis soviéticas, surgiam a cada passo desavenças e conflitos entre a companhia e o Govêrno soviético. Em 1930, em consonância com o contrato firmado ao fazer-se a concessão, chegaram a um acôrdo no sentido de submeter todos os litígios ao julgamento de um tribunal, estabelecendo-se também, entre ambas as partes a composição do mes­ mo; não obstante, uma semana antes da data assinalada para a solução do pleito, a Lena Goldfields declarou o lock-out, chegando mesmo a fechar seus escritórios em M oscou. Com êsses atos, a companhia in­ fringiu, de modo patente, o contrato da concessão, o qual deixou de existir d e jure e de facto. O Govêrno soviético, como é lógico, não julgou possível participar na arbitragem prevista pelo contrato, já ca­ rente de vigor. Apesar disso, a Lena Goldfields insisiu para que os dois membros restantes do tribunal arbitrai (o presidente e o repre­ sentante da companhia) examinassem a pendência sem a presença do representante soviético. Essa pseudo-arbitragem ditou o seguinte veredito: o Govêrno soviético devia indenizar a companhia na importância de 3 .5 0 0 .0 0 0 libras esterlinas pelo capital investido e, além disso, 9 .5 0 0 .0 0 0 libras esterlinas a título de compensação pelos lucros que a companhia pensava obter durante os 25 anos que faltavam até que se extinguisse o prazo da concessão. Como é natural, o Govêrno so­ viético repeliu enèrgicamente as pretensões, sob todos os pontos de vista infundadas, da Lena Goldfields. Em inícios de 1933, o Govêrno britânico (sobretudo sir John Simon) tentou “tirar uma fatia” para a companhia durante as negociações em tôrno do nôvo convênio comer­ cial anglo-soviético.

Vickers, entre êles seis engenheiros inglêses, acusados de es­ pionagem e sabotagem. Êsse fato provocou na Inglaterra uma tempestuosa rea­ ção, apoiada e fomentada por todos os meios pelo próprio Govêrno inglês. Nêles voltou a desempenhar um papel ex­ tremamente sinistro o embaixador britânico em Moscou, Ovey. Nada ter-se-ia a objetar‘ quanto aos seus atos se Ovey, ao tomar conhecimento da detenção dos engenheiros inglêses. se houvesse limitado a pçrguntar ao Govêrno soviético a causa da mesma e a preocupar-se no sentido de que os de­ tidos se encontrassem em boas condições, de que a instru­ ção do sumário se efetuasse sem mais delongas e fôsse as­ segurada aos acusados a devida defesa. É dever iniludível de todo embaixador demonstrar interesse e preocupação pelos seus compatriotas objeto de repressão no país onde se encontra»acreditado. Porém, Ovey foi muito mais além. Edu8 Em fins de 1932 orgnizaram-se na URSS os armazéns do Torgsín (sigla que em russo significa “Comércio com os estrangeiros” ), bem abastecidos de víveres e artigos de amplo consumo, nos quais as com ­ pras eram pagas em ouro, jóias e moeda estrangeira. O Torgsín tinha como- objetivo concentrar nas mãos do Govêrno o ouro e outros va­ lores que a população possuía, a fim de aumentar os recursos de que carecia o Estado para pagar a importação de máquinas e instala­ ções. A o mesmo tempo, foram fechados os armazéns do Insab ( “Abas­ tecimento aos estrangeiros” ) , nos quais os diplomatas de outros países acreditados em Moscou podiam adquirir até então, com dinheiro so­ viético, víveres e diversos artigos em quantidade ilimitada (naqueles anos, os víveres e outras mercadorias estavam racionados para a po­ pulação da U R S S). Na prática, o sistema de abastecimento através do Insab dava lugar a numerosos abusos dos diplomatas estrangeiros e era um meio ilegal de enriquecimento de muitos dêles. A o serem abertos os armazéns do Torgsín, deu-se a conhecer aos diplomatas es­ trangeiros e era um meio ilegal de enriquecimento de muitos dêles. A o serem abertos os armazéns do Torgsín, deu-se a conhecer aos di­ plomatas estrangeiros que, a partir daquele momento, deveriam aten­ der às suas necessidades de víveres e de outras mercadorias através dos referidos estabelecimentos, isto é, pagando em ouro ou divisas. Essas medidas do Govêrno soviético privaram de gordas receitas os especuladores diplomáticos, muitos dos quais protestaram ruidosamente contra elas. À frente dêsses diplomatas “descontentes” encontrava-se o embaixador inglês em Moscou, sir Esmond Ovey. E êsse foi o motivo por que a parte inglesa apresentou ao Govêrno soviético uma exigência tão disparatada e injuriosa durante as negociações comerciais.

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cado nas tradições britânicas de potência dominante, imagi­ nou que podia ditar suas condições ao Govêrno soviético. Era a discriminação número cinco. Com efeito, no mesmo dia 12 de março, horas depois de efetuadas as detenções e quando não havia começado se­ quer a instrução do sumário, Ovey assegurou a Simon que os engenheiros inglsêes eram absolutamente inocentes e re­ comendou ao Govêrno britânico que exigisse sua imediata liberdade sem formação de culpa. O Govêrno inglês acei­ tou a recomendação do seu embaixador e exerceu furiosa pressão sôbre o Govêrno soviético, insistindo para que fôsse sustada a culpa iniciada contra os seis súditos britânicos. Ovey ameaçava com o rompimento das relações anglo-soviéticas caso nos negássemos a isso. Litvínov, em Moscou, e eu, em Londres, tivemos de repelir com energia essa pre­ tensão como uma ingerência intolerável em nossos assuntos internos. Declarou-se com tôda firmeza aos inglêses que seus seis engenheiros compareceriam ante os tribunais soviéticos, qualquer que fôsse a reação do Govêrno britânico. Os políticos de Londres resolveram então adotar medi­ das mais incisivas. Embalados pelas falsas informações de Ovey acêrca da situação interna da U R SS , assim como pelos seus relatórios, excessivamente subjetivos e retocados, das conversações mantidas com Litvínov em tôrno do assunto da M etropolitan -V ickers, calculavam que por êsse caminho po­ deriam conseguir, no mínimo, a liberdade imediata dos enganhéiros inglêses e, no máximo, ajudar o Govêrno sovié­ tico a aniquilar-se com maior rapidez. Em 20 de março, os políticos de Londres deram o pri­ meiro passo: suspenderam ostensivamente as negociações co­ merciais. Em vista de têrmos reagido com absoluto sangue frio diante dessa providência, empreenderam outras medidas de caráter repressivo, sôbre as quais não é preciso fazer men­ ção, aqui, com pormenores. Bastará dizer que, apesar de to­ dos os esforços do Govêrno britânico, o julgamento da causa realizou-se em Moscou: um engenheiro inglês foi absolvido, três expulsos da U R SS e dois condenados a três e dois anos de reclusão, respectivamente. M as os políticos de Londres, lançados pela senda da chantagem, já não podiam deter-se e, descendo cada vez mais pelo despenhadeiro, fizeram que

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se chegasse a uma guerra comercial de três meses entre a In­ glaterra e a U R SS. O Govêrno inglês proibiu a entrada de mercadorias soviéticas na Inglaterra, ao que reagiu o Go­ vêrno soviético proibindo a entrada de mercadorias inglêsás na U R S S . Essa guerra comercial somente terminou em l 9 de julho de 1933 após ambas as partes haverem suprimi­ do, à base da reciprocidade, a proibição de importar merca­ dorias e também depois de serem expulsos da U R SS, me­ diante indulto, os dois engeftheiros condenados à reclusão. Em 3 de julho reiniciaram-se as negociações comerciais. Sem dúvida, as dificuldades durante as negociações fo­ ram muitas. Essas dificuldades (que não desapareceram de­ pois de terminada a guerra comercial) tinham sua origem na política de discriminação aplicada pelo Govêrno britânico no tocante à U R S S . Mas, apesar de tudo, conjugando em sua tática a firmeza com a flexibilidade, o Govêrno soviético le­ vou as negociações a bom têrmo. Em 16 de fevereiro de 1934 foi firmado o nôvo convênio comercial. É certo que le­ vava a denominação “de provisório", porém, desde então, transcorreu mais de um quarto de século e êsse convênio “pro­ visório” continua em vigor, regulando até aos nossos dias o desenvolvimento do comércio anglo-soviético. Que impressão deixou em minha consciência a tática de discriminação multissecional aplicada pelo Govêrno inglês durante a luta em tôrno do convênio comercial? Que dedu­ ção fiz involuntàriamente da experiência da minha primeira “operação diplomática” séria em Londres? Essa dedução não diferia de forma alguma das impres­ sões que recebera ao chegar à Inglaterra. Antes pelo con­ trário, não fiz mais que confirmar sua justeza. V i ainda com maior clareza que as altas esferas do país mostravam grande hostilidade para com a U R S S e só faziam conces­ sões a esta quando circunstâncias que escapavam ao seu con­ trole lhes obrigavam a isto. Em poucas palavras, minha des­ confiança em relação à Inglaterra governante não diminuiu, mas, de fato, aumentou. Êsse sentimento adquiria agudeza singular em face de certo grupo de políticos britânicos, sô­ bre os quais tentarei falar mais adiante: o grupo represen­ tado tão genuinamente por Simon.

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Quanto ao lado inglês, encabeçavam oficialmente as ne­ gociações o* ministro das Relações Exteriores, Simon, e o M i­ nistro do Comércio, Runciman. Mas, na prática, êste não to­ mava parte alguma nas negociações. Durante os quinze me­ ses de sua duração, Runciman participou nelas duas vêzes: 11a primeira sessão, ao iniciar-se, e, na última, no momento de ser firmado o convênio comercial. Quanto às outras, não foi natada sequer a sua presença, e os funcionários do M i­ nistério do Comércio, que foram os que mantiveram, real­ mente, as negociações, sustentaram, em sua maioria, uma po­ sição razoável. Desejavam sinceramente o desenvolvimento do comércio anglo-soviético e procuravam — na medida que lhes permitiam as instruções do Govêrno britânico • —■ não complicar a assinatura do convênio comercial, mas, ao con­ trário, facilitá-la. Porém Simon e o seu sistema eram outra coisa. Apesar do seu passado liberal, o Simon da década de 1930-40 era um dos inimigos mais irreconciliáveis da U R S S . Durante as negociações esforçou-se constantemente por alongar, e não encurtar, o caminho que haveria de levar ao acôrdo. Foi êle precisamente quem se dedicou a procurar tôda sorte de pre­ textos para complicar as negociações com diversos problemas alheios ao assunto, alguns dos quais tão ridículos quanto os dos preços nos armazéns do Torgsín. O coração de Simon batia em uníssono com os interêsses dos representante „mais fortes do mundo capitalista, como a companhia L ena G old ­ field s, e nos altares dos mesmos estava disposto a sacrificar inclusive os interêsses do comércio britânico. Além disso, Simon não olhava os meios para conseguir seus objetivos, e na luta esgrimia com grande freqüência a arma da mentira e da calúnia. Seu espírito encarnava, naqueles anos, (com algumas honrosas exceções) o sistema do F oteig n O ffice. Lembro-me do seguinte caso. As negociações comerciais chegavam ao fim. Tudo já estava resolvido, exceto o pro­ blema do Torgsín. Porém Simon, tomando-o como pretexto, retardava a assinatura do convênio comercial. Em vista dis­ so, convidei à minha casa o conhecido jornalista liberal A. Cummings, com quem mantinha então boas relações, e dis­ se-lhe francamente por que não haviam terminado ainda as negociações. No dia seguinte, 2 de fevereiro de 1934, o

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N ew s C hronicle publicou com grande destaque um virulento artigo de Cummings, com o seguinte título em letras garra­ fais: As batatas d o em baixador britânico. Êsse artigo, no qual seu autor explicava os verdadeiros motivos por que se retardara a assinatura do acôrdo comercial, provocou gran­ de celeuma nos meios políticos de Londres. O deputado tra­ balhista Grenfell fêz uma interpelação no Parlamento, per­ guntando que relação existia entre a assinatura do convê­ nio comercial e os víveres do embaixador inglês em Moscou. A resposta oficial deu-a o próprio Simon. E que disse êle? Textualmente o seguinte: “Não há uma palavra de verdade nas afirmações de que a assinatura do convênio anglo-soviético foi retardada por culpa dessa questão” . Até a êsse extremo chegava a falsidade de Simon! É para ter-se surprêsa, portanto, de que êsse fato não fizesse mais que acentuar a desconfiança da parte soviética para com a Inglaterra governante?

B R E V E D EG ÊLO E SU A S C A U SA S

Em meados de 1934, aproximadamente, iniciou-se um degêlo provisório, isto é, de curta duração, nas relações an~ glo-soviéticas. Obedeceia êle a duas causas principais. A primeira, era que Hitler havia subido ao Poder na Alemanha em janeiro de 1933. De início, a Inglaterra go­ vernante não levou o F ü hrer muito a sério. Recordo-me mui­ to bem de que os políticos inglêses de tôdas as tendências — conservadores, liberais, trabalhistas ■ — passaram o ano de 1933 discutindo se Hilter se sustentaria ou não no Poder. Até um estadista de tanta experiência como Vansittart, que ocupava então o pôsto-chave de subsecretário permanente

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das Relações Exteriores, me disse no verão daquele ano du­ rante uma‘conversa: ■ — Hitler tem muitas dificuldades e inimigos, tanto in­ ternos como externos. . . Os franceses, os belgas, os tchecos e os poloneses olham-no com extraordinária desconfiança. . . No seio do partido nazista reina a inquietação. . . Há gente que pretende ocupar o primeiro pôsto em suas fileiras e Hi­ tler não conseguirá dominá-la fàcilmente. . . Não está fora de cogitações que as lutas internas levem o partido nazista ao desmoronamento. . . Há que esperar e aguardar os acon­ tecimentos . No que diz respeito aos líderes trabalhistas, estavam êles convictos, na sua maioria, de que o domínio nazista na Alemanha duraria pouco. Não obstante, em 1934, sobretudo em meados dêsse ano, depois de Hitler haver aniquilado o grupo de Rohm e, em geral, esmagado a oposição interna em seu partido, os meios governamentais da Inglaterra tenderam a mudar de opinião. Começaram a compreender que o hitlerismo se firmava e que seria preciso levá-lo em conta sèriamente, pelo menos duran­ te alguns anos. Êsse fato provocou inquietação e alarma nos referidos meios. Em sua memória ressuscitaram de imediato os acontecimentos e circunstâncias da Primeira Grande Guer­ ra, quando a Grã-Bretanha teve de defender com extraordi­ nárias dificuldades suas posições mundiais em face dos pe­ rigosos atentados do imperialismo alemão. As aspirações e reclamações de Hitler pressagiavam claramente o ressurgi­ mento dos velhos planos de hegemonia alemã — que tão importante papel haviam desempenhado no estalar da pri­ meira conflagração universal — talvez, até de forma mais ameaçadora ainda. Perante os meios governamentais da In­ glaterra surgia com persistência crescente a pergunta do que se haveria de fazer. Sua reação inicial reduzia-se à idéia de que era pre­ ciso restabelecer a E n ten íe da época da Primeira Grande Guerra, isto é, a aliança militar da Inglaterra, França e Rús­ sia contra a Alemanha. É claro que, em vez da Rússia czarista, existia a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Isto era um fato desagradável, muito desagradável; porém, no final das contas, não são as emoções, mas os interêsses prá­ ticos, que servem de orientação na política internacional. Se

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os interêsses o exigem, não há outro remédio senão engolir a pílula, por mais amarga que seja. Assim aconteceu que, na época à qual venho me referindo, não só os trabalhistas e liberais, como também muitos conservadores, começaram a pensar sèriamente na melhoria das relações com o País dos Sovietes. A segunda causa eonsistia em que, após a divergência relativa à M etropolitan -V ickers, os meios governamentais da Inglaterra se haviam convencido defintivamente da fôrça e da consistência da U R SS e chegado à conclusão de que o "fa ­ tor soviético” passava a ser um elemento constante da situação mundial. Independentemente de sentir-se por êle simpatia ou antipatia, havia que levá-lo em conta em todos os cálculos e acordos políticos. E como os políticos inglêses sempre se distinguiram por sua capacidade de levar em conta os fatos (inclusive os desagradáveis), depois da assinatura do con­ vênio comercial de 1934, passaram a calcular como poderiam aproveitar melhor, em interêsse próprio, o poderio da U R SS, que tão inesperadamente haviam descoberto. Começaram, pois, como acabo de dizer, a pensar cada dia mais nos ca­ minhos tradicionais da E ntetite da Primeira Grande Guerra. 1 Uma circunstância fortuita contribuiu em grande escala para essa mudança do estado de espírito dos meios gover­ namentais da Inglaterra. Entre fevereiro e abril de 1934 ocorreu a memorável “epopéia do Chetíuskin” . Após a per­ da do barco, uma centena de soviéticos, entre êles mulhe­ res e crianças, foram ter, com O . Schmidt à frente, a um bloco de gêlo polar- longe da terra firme. O mundo oci­ dental, sua imprensa, seus políticos, cientistas e explorado­ res davam por mortos os tripulantes do C heliuskin. Reza­ vam em sua intenção a oração dos agonizantes. Porém o mundo soviético pensava e sentia de outra forma. Os pró­ prios cheliuskianos, longe de desanimarem e de se deixarem dominar pelo pânico, criaram sôbre o gêlo uma coletividade maravilhosamente organizada, que manteve bem alto o pavi­ lhão do País dos Sovietes, prosseguiram com as investiga­ ções científicas e preocupando-se com a saúde e os brios de seus componentes. O chefe do acampamento sôbre o gêlo, O. Schmidt, chegou a fazer para seus companheiros um ci­ clo de conferências sôbre o materialismo histórico. Entretan­ to, o Govêrno e o povo soviéticos mobilizaram tôdas as suas

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possibilidades para salvar os infortunados compatriotas. Ho­ mens, recursds, máquinas, rádio, aviões: tudo foi pôsto a ser­ viço dêsse nobre fim. E, em poucas palavras, todos os tri­ pulantes do Cheliuskin foram salvos. Os aviões transporta­ ram para a terra firme até os oito cães que havia no acam­ pamento . Os dramas polares sempre têm atraído a atenção e a simpatia dos mais vastos setores humanos. O drama do Ç h eliuskin atraiu essa atenção com fôrça singular, primeiro, por­ que suas vítimas era uma centena de homens, e, segundo, porque o rádio permitiu acompanhar diàriamente todos os fatos, mesmo os mais insignificantes, da vida no acampamen­ to sôbre o gêlo. O valoroso comportamento dos cheliuskianos despertou admiração por tôda a parte, em todos os se­ tores, quaisquer que fôssem as opiniões políticas e o espirito dos seus componentes. Ao mesmo tempo, a colossal energia e os grandes recursos empregados pelo Estado soviético para salvar os que se encontravam a bordo do Cheliuskin sur­ preenderam o mundo burguês. Lembro-me que Lloyd George me disse então: — É impressionante! Nenhum outro Govêrno teria fei­ to tantos esforços para salvar alguns exploradores do Ár­ tico!. . . É muito nobre e. . . e muito inteligente! Os olhos do líder liberal brilharam de imediato com cen­ telhas de malícia, terminando por dizer, inesperadamente: ■ — Felicito-os! Os senhores conquistaram uma grande vitória diplomática. Lloyd George tinha razão. Sim, a ‘‘epopéia do Chelius­ kin ” confirmou mais uma vez a fôrça e a vitalidade do E s­ tado soviético. Porém fêz algo mais: mostrou com todo bri­ lho, perante o mundo inteiro, sua nobreza, seu humanismo e seu profundo discernimento. A popularidade da U R SS su­ biu de chôfre, sobretudo entre os trabalhadores do mundo inteiro, muito mais que nos anos e anos de um trabalho tenaz de propaganda. Uma manifestação disso foi que o re­ trato de O. Schmidt não deixou de aparecer durante muitos meses nas páginas dos jornais burgueses. A “epopéia do C heliuskin” não desempenhou também papel de pouca importância na progressão do degêlo inicia­ do em meados de 1934 nas relações anglo-soviéticas. Essa

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epopéia facilitou psicologicamente a muitos adversários da U R SS a transição para novas posições políticas. No final das contas, como conseqüência de tôdas as circunstâncias enumeradas, nos meios governamentais da .In­ glaterra predominaram por algum tempo os políticos parti­ dários de ressuscitar a Entente. Será oportuno acrescentar, a êsse respeito, que, duran­ te o período compreendido entre as duas grandes guerras, a classe dominante inglêsa dividiu-se em dois grupos prin­ cipais em tôrno do problema relativo à atitude a adotar pe­ rante a União Soviética. Num, predominava o princípio do interêsse estatal. Êsse grupo via que entre a Inglaterra e a U R SS , como po­ tências, não existia nenhuma contradição séria e que, inclu­ sive, podiam ser muito úteis uma à outra no setor da eco­ nomia. Por isso, defendia a política de aproximação com a U R SS. "Seus representantes mais destacados eram Lloyd George, Beaverbrook, Eden, Vansittart e outros, aos quais se acrescentou Churchill após a ascensão de Hitler ao Poder. No outro grupo, predominava, ao contrário, o ódio cego de classe à U R SS como País do Socialismo. Êsse grupo jul­ gava necessário atacar a União Soviética, quaisquer que fos­ sem as condições, inclusive desprezando os interêsses nacio­ nais da Inglaterra como Estado. Seus representantes de maior projeção foram Curzon, os irmãos Chamberlain — Austen e Neville — Birkenhead, Joynson-Hicks, Simon, Halifax, etc. Churchill também acompanhou êsse grupo até 1934. Qual era a correlação de fôrças entre os dois grupos mencionados? • Como é natural, essa correlação não representava uma magnitude crescente, mas que mudava de ano para ano em consonância com os diversos acontecimentos e circusntâncias. Mas, apesar de tudo, o “grupo de ódio de classe” (que adiante denominarei cham berlainianos) era, via de re­ gra, muito mais poderoso que o “grupo de interêsse esta­ tal” (que a seguir denominarei de chu rchillian os). Mais ou menos nos meados e na segunda metade da década de 1930­ 40, a correlação de fôrças no seio da classe dominante da Grã-Bretanha (incluindo-se no mesmo parêntese conserva­ dores e liberais) era, aproximadamente, a seguinte: no Par­ tido Conservador, três quartas partes acompanhavam Cham-

berlain e apenas cêrca de uma quarta parte partilhava a posição de Churchill; os liberais estavam divididos em dois grupos aproximadamente iguais, embora naqueles anos já fôsse evidente que se encontravam em descensão e haviam perdido a maior parte da sua anterior influência política. O que ficou dito mostra com clareza que, no período objeto do nosso exame, os chamberlainianos desempenhavam o papel decisivo nas fileiras da classe dominante, sobretudo se se levar em conta que na época compreendida entre as duas grandes guerras ficaram demasiado tempo no poder e pude­ ram engrossar suas fileiras com a maior parte dos funcioná­ rios públicos. Claro está que os chamberlainianos viam-se obrigados a contar com os trabalhistas que, em meados da década de 1930-40, já se haviam transformado no segundo partido da Inglaterra, deslocando dessa posição os liberais.9 Por duas
9 Os resulados das eleições parlamentares de novembro de 1935 podem oferecer uma certa idéia da correlação de fôrças então existente entre os diversos partidos. Ei-los aqui: Partidos Votos milhares) 1 0 .4 8 9 *867 i ■ 340 97 N úm ero de deputados 387 33 8 3

( em

Conservadores ....................................... Nacionais-liberais (grupo Simon) Nacionais-trabalhistas (grupo M ac Donald) .............................................. Outros partidos ....................................

Coalização governamental em seu conjunto .............................................. Trabalhistas ............................................ Liberais (oposição) ........................... Comunistas .............................................. Outros partidos ....................................

1 1 .7 9 3 8 .4 6 5 1 .3 8 2 27 275

,s
i

,
i

431 158 21 1 4

Oposição em seu conjunto ............

1 0 .2 0 9

i
I

184

As cifras citadas provam, sem qualquer sombra de dúvida, que os conservadores e os trabalhistas eram, em meados da década

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vêzes, em 1924 e em 1929-1931, os trabalhistas também for­ maram govêrno, embora se tratasse, certamente, de um go­ vêrno minoritário. Os trabalhistas encontravam-se oficial­ mente em oposição aos chamberlainianos e defendiam a co­ laboração com a U R S S . Em 1924, o primeiro Govêrno M ac­ Donald estabeleceu relações diplomáticas com o nosso país. Em 1929, o segundo Govêrno MacDonald restabeleceu essas relações, rompidas pelos conservadores dois anos antes, e fir­ mou com a União Soviéti£a o convênio comercial de 1930, benéfico para ambas as partes. A classe operária inglêsa queria, sem dúvida alguma, manter as relações mais amis­ tosas com o Estado soviético (como o demonstrou com a maior clareza em 1920 ao ser frustrado o intento de inter­ venção militar da Inglaterra contra a R S F S R durante a guer­ ra sovieto-polonesa); não obstante, o Partido Trabalhista estava Ipnge de refletir plenamente em sua atividade êsse es­ pírito das massas. Onde pior andavam as coisas era na cúpula dirigente do referido partido. Até 1931, Ramsay M ac­ Donald, Philip Snowden, James Thomas e alguns outros pugnavam quase que abertamente por orientar o partido con­ tra a U R S S . Todos êles, expulsos das fileiras trabalhistas em 1931, abandonaram o campo dos conservadores, forman­ do o efêmero partido “nacional-trabalhista” . Porém, mesmo depois disso, entre os trabalhistas ortodoxos que continuaram no partido oficial, percebia-se sempre certa tendência, que, no fundo, os levava a simpatizar com os líderes expulsos, porém êles evitavam proclamá-lo abertamente. Isso fazia com que a resistência da oposição trabalhis­ ta aos chamberlainianos fôsse muito mais fraca do que po­ deria sê-lo, o que abria a êstes últimos um campo de ação bastante amplo para sabotar a aproximação anglo-soviética.
S e j a c o m o fô r, o c e r to é q u e a e x is tê n c ia d o s d o is g r u ­ p o s m e n c io n a d o s n o se io d a c la s s e d o m in a n te e a lu ta c o n s ­ t a n t e e n tr e ê le s f iz e r a m -s e s e n tir a to d o m o m e n to n a s r e ­ de 1930-40, os dois partidos fundamentais do país; que os liberais haviam sido deslocados para o segundo plano, senão o terceiro, e que os “nacionais-trabalhistas” de MacDonald eram quase um zero à es­ querda. Isso significava que três quartas partes dos conservadores mais a metade dos liberais podiam, com certa passividade dos diri­ gentes trabalhistas, sabotar eficazmente a aproximação anglo-soviética.

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lações anglo-soviéticas durante o período que separa as duas grandes guerras. Um ou outro grupo (sem perder de vis­ ta, é claro, o pêso relativo da oposição trabalhista) deixou a sua marca no tocante às medidas práticas do Govêrno soviético e tudo o que dizia respeito à União Soviética. Em virtude das causas indicadas, em meados de 1934, os churchillianos conseguiram o predomínio provisório, o que se ma­ nifestou por tôda uma série de fatos concretos.

P A SS O S D E A P R O X IM A Ç Ã O

Os primeiros dêsses fatos foram, no decorrer do tem­ po, as longas conversações que mantivemos, Vansittart c eu, na qualidade de embaixador soviético, entre julho e agôsto de 1934. As conversações foram iniciadas por iniciativa de Vansittart. Por certo é muito curiosa a forma que deu ori­ gem a essa iniciativa. Em 21 de júnho de 1934 compareci com minha espôsa a um almôço oferecido pelos Vansittart em sua casa. Sentamos à mesa umas dez pessoas, entre elas sir John Simon. Não o,bs'tante, o almôço não era em sua homenagem, mas em nossa, minha espôsa e eu. Por êste motivo, como exige a etiquéta inglesa, minha espôsa sentara-se à direita do an­ fitrião e à minha direita a dona da casa. Simon sentou-se à esquerda desta, sendo, portanto, o convidado n9 2. Du­ rante o almôço, quando já se ouvia o ruído das conversas, Lady Vansittart inclinou-se ligeiramente na minha direção c perguntou: —• Então, como está achando Londres? O tom com que pronunciou essas palavras e a expres­ são do seu rosto me fizeram compreender que sua pergunta não tinha o caráter mundano habitual em tais recepções. Não obstante, respondi circunspecto: — Londres é uma bela cidade, porém encontro aqui grandes dificuldades.

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Lady Vansittart inclinou-se mais ainda na minha dire­ ção e perguntou-me em voz velada: — É o meu vizinho da direita quem cria essas difi­ culdades? — Referia-se a Simon, e eu assenti com a cabeça. — Por que não fala francamente de tudo com Van? — perguntou, aludindo ao seu espôso, a quem chamava fami­ liarmente de V an . " Eu sabia que Simon e Vansittart não combinavam po­ liticamente, pois representavam duas correntes diplomáticas diversas; não obstante, não esperava que lady Vansittart me desse a entender com tanta franqueza, que existiam discrepâncias entre o ministro do Exterior e seu subsecretário per­ manente. ■ —■ Dada a atmosfera que se criou em tôrno da Embai­ xada soviética em Londres — respondi — me parecia vio­ lento tomar a iniciativa nesta questão. — Ah, sim?! —■ exclamou lady Vansittart. — Pois se se trata somente de quem tem de iniciar a conversação, é fácil superar essa dificuldade. . . Eu me encarrego disso. Estava claro para mim que pela bôca de lady Vansittart falava o próprio subsecretário permanente de Relações Exte­ riores. Não obstante, não me abandonava certa dose de ce­ ticismo: as mulheres são sêres emotivos, e eu temia que aque­ la mulher diminuta e elegante pudesse, em sua conversa­ ção comigo, ir mais além do previsto nas "instruções" que lhe havia dado seu espôso. Porém me equivoquei! A intervenção de lady Vansittart teve um resultado prático: dois dias depois, Vansittart te­ lefonou-me e convidou-me a vistitá-lo no Ministério para fa­ lar das relações anglo-soviéticas. Minha primeira conversa­ ção circunstanciada com êle verificou-se no dia 3 de julho; a segunda e a terceira, em 12 e 18 do mesmo mês. Tôdas elas foram, com efeito, muito francas e estiveram impregna­ das de um espírito prático. Examinamos todos os problemas então existentes entre a U R SS e a Inglaterra e chegamos à conclusão de que, apesar da discrepância em alguns casos quanto às opiniões de ambos os governos, isso não podia constituir óbice para melhorar substancialmente as relações.

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Em nossas conversações ocupou lugar muito importan­ te o problema do chamado Locaráo Oriental. Com o propó­ sito de fortalecer a segurança européia, o ministro de Ne­ gócios Estrangeiros francês, Barthou, defendia então com energia um projeto de pacto de assistência mútua entre a U R SS , Polônia, Letônia, Estônia, Lituânia, Finlândia e Tcheco-Eslováquia. A França devia atuar como fiadora do Locarno Oriental, e a U R SS , como fiadora do Locarno Oci­ dental. A União Soviética simpatizava com o plano de Bar­ thou. A Grã-Bretanha mantinha uma posição nada clara. Durante a primeira conversação com Vansittart procurei convencê-lo da necessidade de que a parte inglêsa apoias­ se o projeto de Barthou. Em 8 de julho o próprio Barthou visitou Londres e falou sôbre isso com o Govêrno inglês. Durante a segunda entrevista, realizada em 12 de julho, V an­ sittart disse-me que a Inglaterra apoiaria o Locarno Orien­ tal se nêle fôsse admitida a Alemanha. A União Soviética e a França aceitaram essa condição, e o Govêrno de Lon­ dres pronunciou-se a favor do Locarno Oriental. Contudo, a Alemanha — e, depois dela, a Polônia — negaram-se a participar na projetada união, com o que assestaram um gol­ pe mortal em todo o projeto. Porém o problema do Locarno Oriental desempenhou um papel muito positivo em minhas conversações com Vansittart, e o fato de o Govêrno soviético concordar que se incluísse nêle a Alemanha convenceu V an ­ sittart dos sinceros propósitos de paz da U R S S . Litvínov, na ocasião Comissão do Povo dos Negócios Estrangeiros da U R SS , estava muito satisfeito com as mi­ nhas conversações com Vansittart, vendo nelas o primeiro passo para a ampliação das relações anglo-soviéticas. E com efeito, como provaram mais tarde os acontecimentos, êsse sincero intercâmbio de opiniões em Londres desbravou o ca­ minho para que o Govêrno inglês apoiasse a entrada da U R SS na Sociedade das Nações. Porém, trataremos disso mais adiante. Gostaria de dizer algumas palavras sôbre Vansittart. Era um homem inteligente e instruído, diplomata e político hábil, poeta e escritor de talento. Não é preciso dizer que era carne da carne e sangue do sangue da classe dominante da Inglaterra. Sua divindade era o Império Britânico: a prote­

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ção da sua integridade e intangibilidade e a defesa das po­ sições mundiais do imperialismo britânico constituíam o sím­ bolo da fé de Vansittart. Partindo dêsse fator fundamental, manobrava, orientava-se para a direita ou para a esquerda e, em particular, mudava de atitude no tocante à U R S S . É sabido que Vansittart, à semelhança de outros mui­ tos estadistas inglêses, formou, depois da Segunda Guerra Mundial, nas fileiras dos inimigos da União Soviética. Isto aconteceu porque a luta riao terminou como desejavam os líderes da classe dominante da Grã Bretanha. Esperavam que a U R SS saísse da guerra extraordinariamente enfraque­ cida, que não pudesse durante longo tempo seguir uma po­ lítica exterior ativa e que deixasse de perturbar o sonho dos políticos de Londres, pelo menos, durante tôda uma geração. Quando aconteceu coisa inteiramente diversa, quando se evi­ denciou "que a U R SS do após-guerra era muito mais forte que a de pré-guerra e que, além disso, se havia formado em tôrno dela o poderoso campo socialista, não somente os cham­ berlainianos, como também os churchilianos, a começar pelo próprio Churchill, lançaram-se furisos contra a U R S S . Al­ gumas manifestações de Vansittart contra a U R SS no apósguerra eram tão más e estereotipadas que, ao lê-las, me pa­ recia simplesmente estranho que fôssem dêle. Aonde tinham ido parar sua inteligência e instrução, seu jôgo de idéias e sua arte literária?. . . É isso que resulta marchar contra as fôrças do progresso histórico, contra o alvorecer da hu­ manidade! Não obstante, em meados da década de 1930-40, logo após o fortalecimento do fascismo na Alemanha, Vansittart foi um caloroso partidário do ressurgimento da E n ten te. E , valendo-se da situação que ocupava na máquina governamen­ tal inglêsa, muito fêz, com efeito, nessa direção. Se a E n ­ tente não chegou a ser criada antes da Segunda Grande Guerra, não foi culpa sua. O segundo fator que testemunhava o início do degêlo nas relações anglo-soviéticas é a história do ingresso da U R SS na Liga das Nações. Sabe-se que em 1919, ao fundar-se essa organização internacional, a Rússia Soviética não foi convidada a formar parte dela. Então, como durante os quinze anos posteriores, a Sociedade das Nações era um foco

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de hostilidades, intrigas e maquinações de tôda sorte contra o Estado soviético. Por volta de 1934, a situação mundial havia mudado muitíssimo com relação a 1919, o que se re­ fletiu na sorte da Sociedade das Nações. O Senado norteamericano recusou em 1920° a ratificação do Tratado de Versalhes, motivo por que os Estados Unidos não ingres­ saram na Liga. O Japão e a Alemanha, que seguiram a tri­ lha da agressão ativa, desligaram-se da Sociedade das Na­ ções em 1933. Ficaram como “donos” dela a Inglaterra e a França, impotentes sob todos os aspectos de governarem sua nave num momento em que a tempestade internacional se aproximava com nitidez crescente. Isso obrigou os líderes do bloco anglo-francês a pensarem na conveniência de atrair a U R SS para a Sociedade das Nações. Por sua parte, o Govêr­ no soviético chegou, em fins de 1933, à conclusão de que, nas condições criadas, era oportuno o ingresso da U R SS na refe­ rida organização. Isto punha a seu serviço a tribuna inter­ nacional mais importante daqueles tempos para defender a paz e combater o perigo de uma Segunda Guerra Mundial e, por sua vez, proporcionava a • possibilidade ( embora o Go­ vêrno soviético jamais tivesse superestimado a importância da Sociedade das Nações) de levantar certos obstáculos no caminho do desencadeamento de uma nova conflagração uni­ versal. Como resultado de tudo isso, a U R SS passou a ser membro da Sociedade das Nações em setembro de 1934, com um pôsto permanente em seu Conselho. Tudo isso, como se compreendera, tinha que ser pre­ parado. Nessa preparação, Barthou desempenhou papel mui­ to importante, sendo êle, na ocasião, ministro de Negócios Estrangeiros da França. Durante os primeiros anos que se seguiram à Revolução de Outubro, foi um dos inimigos mais encarniçados da Rússia Soviética. No fundo, foi êle quem torpedeou a Conferência de Gênova de 1922. Não obstante, como patriota sincero (embora conservador), mais tarde com-» preendeu que o fator de o hitlerismo subir ao Podér na Alemanha, a segurança da França dependia em imensa es­ cala da colaboração com a U R S S . Entregou-se êle com fer­ vor ao cumprimento dessa tarefa, defendendo, em particular, a idéia de incorporar o País dos Sovietes à Sociedade das Nações. Barthou encontrou não poucos obstáculos nesse ter-

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reno, porém, no final das contas, soube vencê-los. Seu com­ panheiro de luta na Inglaterra era então Vansittart. Ambos conseguiram que 30 paises membros da Sociedade das Na­ ções se dirigissem ao Govêrno soviético, em setembro de 1934, convidando-o a formar parte da mesma. Por encargo do Govêrno soviético, Litvínov sustentou com grande habi­ lidade tôdas as negociações preparatórias e formalizou o pró­ prio ingresso da U R S S na^Liga das Nações. Quando isso ocorreu, Vansittart me disse durante uma palestra: — Bem, agora somos sócios do mesmo clube. Espero que, de agora por diante, nossas relações sejam as que cor­ respondem a sócios de um mesmo clube. A acolhida que me foi dispensada durante o tradicio­ nal banquete do Prefeito de Londres veio confirmar as pa­ lavras de Vansittart. Naquela ocasião não se verificou na biblioteca o eloqüente silêncio com que eu fõra acolhido dois anos antes. Ao contrário, as personalidades do Estado me aplaudiram. Aplaudiram-me com moderação, sem entusiasmo nem calor; porém, em todo o caso, de uma forma suficien­ temente ruidosa que permitia comprovar a considerável mu­ dança operada na atitude da cúpula governamental no to­ cante à U R S S . O terceiro fator que servia de testemunho ao início do degêlo foi a vista de Eden a Moscou em março de 1935, em cuja preparação e realização Vansittart desempenhou pa­ pel muito importante. • Eden começava então a destacar-se na vida política. Era filho de uma família de latifundiários médios, culto e ins­ truído, sendo dotado de grande dose de bom senso e de in­ falível instinto político. A ascensão de Hitler ao Poder fê-lo pender para a opinião de que somente o “renascimento da E n íen te " poderia salvar o Império Britânico, motivo por que passou para o grupo do Partido Conservador que se batia pela aproximação da Inglaterra e da U R S S . Fundamentava sua posição até com sérios raciocínios históricos. Recordo-me que ,em 1943, quando deixei Londres, já durante a guerra, para exercer em Moscou o cargo de Vice-Comissário do Povo de Negócios Estrangeiros, Eden pronunciou extenso discurso no almôço de despedida a mim oferecido, dizendo:

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< — Em todo o decurso do último século e meio, a In­ glaterra < S a Rússia estiveram sempre no mesmo campo ao surgiu na Europa qualquer crise grave. Assim ocorreu na época de Napoleão, assim ocorreu nos anos da Primeira Grande Guerra. E assim ocorre também agora, nos dias da Segunda. Como explicá-lo? Isto se explica porque a Ingla­ terra e a Rússia são dois Estados grandes e poderosos em confins opostos da Europa, que não podem conformar-se a que se estabeleça nela a hegemonia absoluta de nenhuma ou­ tra potência. Essa terceira potência, demasiado poderosa, está transformando-se em um perigo tanto para a Inglaterra como para a Rússia, devido ao qual ambas se unem para lutar contra ela e, em poucas palavras, consegue que se des­ trua. O mal é que, passada a crise, a Inglaterra e a Rússia iam cada uma para o seu lado e até começavam a desavir-se. E isso criava a possibilidade de que surgisse um nôvo pre­ tendente à dominação européia e inclusive mundial, A tarefa mais importante da diplomacia atual — inglêsa 6 soviética — consiste em impedir que tal se repita depois de terminado o atual conflito. Infelizmente, Eden não soube frianter essa posição no período do após-guerra e foi passando paulatinamente para os caudilhos da “guerra fria", proclamada pelos líderes do imperialismo norte-americano e apoiada pelos líderes do im­ perialismo britânico. Porém, na década de 1930-40, Eden defendia energi­ camente a política de aproximação com a U R SS, o que, no fundo, lhe permitiu fazer carreira. Quando cheguei n Lon­ dres em fins de 1932, Eden era o subsecretário parlamentar de Relações Exteriores na Câmara dos Conumí), Mua como Simon fazia parte também dessa Câmara e nela atadttkiva todos os problemas mais importantes de politlm exterior, Eden via-se obrigado a desempenhar um papel íieeimilAdo. M ais tarde, contudo, sua ascensão foi rapklí/iííiiua. ()eveu=se isso, em parte, aos seus vínculos com a cúpula ra, embora tivesse mais importância ainda a lula Mttileiitoda pelos dois grupos das esferas governamentas a t|iu* ute referi antes. Os partidários do "ressurgimento <la l ‘nr> nf> vinm em Eden o homem que lhes convinha e começaram a tlarJhe destaque. Em 1934 foi nomeado no gabim*ti* tle Haklwin,

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lorde do Sêlo Privado (cargo puramente decorativo) isto é. ministro sem pasta, mas para o qual, não obstante, foi en­ carregado de uma missão especial: servir à Liga das- Na­ ções. Como resultado disso, houve, na Inglaterra, durante certo tempo, dois ministros de Relações Exteriores: o “maior" (Simon) e o “menor" l Eden) . Um e outro representavam duas correntes diversas — e, numa série de questões, tam­ bém opostas —■ da política externa da Inglaterra. As rela­ ções entre êles eram marcantes. Vansittart, que tampouco se dava bem com Simon, apoiava Eden. Dessa forma, no Foreign O ffice ocorria uma luta interna constante, reflexo da que tratavam, via de regra, nos meios governamentais do país em tôrno dos problemas de política exterior. Em inícios de 1935 deveria realizar-se uma visita de Si­ mon e Eden a Berlim para manter negociações com Hitler. Já estaVa tudo acertado e os ministros inglêses se prepara­ vam para a viagem quando, em fevereiro, Hitler desfez de imediato e publicamente os artigos militares do Tratado de Versalhes e declarou que, a partir daquele momento, a Ale­ manha se rearmaria sem sentir-se coagida por qualquer res­ trição. Êsse nôvo “salto” do F ü h rer nazista levantou enor­ me celeuma na Inglaterra e na França. A visita dos minis­ tros britânicos a Berlim ficou no ar. Nos meios governa­ mentais inglêses travou-se dura luta entre os defensores da E ntente e os partidários do “apaziguamento” dos agresso­ res. Os primeiros esforçavam-se por demonstrar que a via­ gem dos ministros inglêses a Berlim, na situação criada, se­ ria a maior humilhação para a Inglaterra e somente conse­ guiria aumentar o apetite de Hitler. Os partidários do “apa­ ziguamento” respondiam que quanto mais real se tornasse o perigo de agressão, mais imprescindível era aproveitar to­ dos os meios e medidas, inclusive as mais insignificantes, para conservar a paz. No fim de contas, chegaram a um meio têrmo: Simon e Eden iriam a Berlim, de onde o segundo prosseguiria viagem até Moscou para manter conversações com o Govêrno soviético. Assim realizou-se a visita de Eden a Moscou. Em nossos dias, Moscou transformou-se em centro de atração para os chefes de Estado e os ministros de di­ versas nações e confins do mundo. Acostumamo-nos a isso

è o consideramos como algo natural. Porém naqueles tem­ pos a situação era completamente diversa. Durante os pri­ meiros 18 anos de regime soviético, Moscou havia sido tabu para os líderes do mundo capitalista. Moscou era boicotada politicamente, se não de maneira formal, mas de fato. Ne­ nhum ministro das grandes potências do Ocidente conside­ rava possível pisar a terra moscovita. E, de chôfre, Eden, membro do Govêrno da Grã-Bretanha ■ —• bastante poderosa ainda na ocasião — > se apresenta em Moscou em março de 1935! Foi um acontecimento de grande importância política e suscitou numerosos comentários da imprensa mundial. Com a concordância do Govêrno soviético acompanhei Eden durante sua viagem de Berlim a Moscou. Estive pre­ sente a tôdas as entrevistas de Eden com os dirigentes da U R SS e, em algumas ocasiões, atuei como intérprete. Assis­ ti, em particular, à entrevista de Stalin com Eden e acom­ panhei êste durante sua visita aos locais de atração da ca­ pital soviética. Lembro-me que Eden se interessava espe­ cialmente pelas coleções de pinturas francesas existentes em nosso país (Gauguin, Cézanne, Renoir, etc.) e que ainda em Londres já havia incluído em seu programa ver essas obras de fama universal. "Eden viajou também pela primeira vez no Metrô de Moscou. * As negociações, que duraram três dias, deram especial realce a uma grande coincidência de opiniões de ambas as partes sôbre os problemas internacionais. Litvínov encarre­ gou-me de redigir a minuta do comunicado que se pensava publicar após a visita de Eden. Assim o fiz. Eden, por seu lado, designou para elaborar o comunicado W . Strang, um funcionário do F oreign O ffice especializado em questões da Liga das Nações e ex-conselheiro da Embaixada inglêsa em Moscou. Tivemos a entrevista no edifício da Embaixada, no Pôrto de Sófia, e logo chegamos a um acôrdo: Strang não fêz mais que algumas correções insignificantes no texto pro­ posto por nós. O comunicado assim preparado foi definitiva­ mente aprovado por ambas as partes e veio a lume na im­ prensa no dia l 9 de" abril de 1935. Sua parte mais impor­ tante dizia: “Como resultado sincero e exaustivo de um intercâmbio de opiniões, os representantes dos dois governos comprova­

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ram que, atualmente, não existe contradição alguma de inte­ rêsses entre ambos os governos em nenhum dos problemas fundamentais da política internacional, e que êsse fato cria uma base sólida para o desenvolvimento da proveitosa cola­ boração entre êles na causa da paz. Estão convictos de que ambos os países, conscientes de que a integridade e a pros­ peridade de cada um dêles, coincidem com os interêsses do outro, orientar-se-ão em suas relações mútuas pelo espírito de colaboração e leal cumprimentos dos compromissos assumidos, que se originam da sua participação comum na Liga das Nações” . 10 A parte soviética ficou satisfeita com a visita e com o comunicado. Eden, igualmente. Durante uma conversação afirmou-me êle que estava contente com a sua viagem a M os­ cou e que o comunicado lhe parecia muito bom. O degêlo viu-se confirmado mais ainda por outros dois acontecimentos que se seguiram à viagem de Eden a Moscou. Em 2 de maio de 1935 foi firmado em Paris o pacto de as­ sistência mútua entre a França e a U R SS , depois do que o ministro de Negócios Estrangeiros francês, Pierre Lavai, fêz uma viagem à capital soviética. Em 16 de maio foi as­ sinado' em Praga o pacto de assistência mútua entre a U R SS e a Tcheco-Eslováquia e, depois de pouco tempo, o ministro das Relações Exteriores tcheco, Benes, também visitou a União Soviética. Não é preciso dizer que me considerava extremamente satisfeito com o ocorrido. Até comecei a admitir que fôra aberta uma nova página de melhoria ampla e sistemática. Em todo caso, sentia grande desejo de que assim fôsse. Não obstante, preocupava-me uma idéia. Eden, que havia man­ tido as negociações e firmado o comunicado, era partidá­ rio da aproximação com a U R S S . É claro que não podia ter agido dessa forma sem a aprovação do Govêrno inglês; con­ tudo, como reagiriam Simon, Neville Chamberlain e outros, ante o fato consumado? Não se dedicariam a regar com água gelada os botões, tenros e ainda débeis, da aproximação anglo-soviética? Em tais condições, não se transformaria o co­ municado de Moscou em um documento carente de todo valor?
ío Pravda, 1.° de abril de 1935.

Ao despedir-se Eden, que partiu de Moscou para Pra­ ga e Varsóvia, procurava eu persuadir-me de que minhas dú­ vidas careciam de fudamento. Porém o germe da suspeita, escondido no mais recôndito da alma, não me deixava em p a z .. . Minhas dúvidas, ah!, tornaram-se mais que justificadas. Assim o demonstraram, e com a maior evidência, os acon­ tecimentos subseqüentes.

C H U R C H ILL E B E A V E R B R O O K

Mas, antes de expor êsses acontecimentos, julgo impres­ cindível mencionar um grande êxito que nos proporcionou o breve degêlo nas relações anglo-soviéticas. Já tive ocasião de afirmar que Litvínov, ao enviar-me a Londres, atribuiu-me, por encargo do Govêrno soviético e como tarefa de primeira ordem, estabelecer relações e con­ tatos com os meios conservadores. Comecei a atuar nesse sentido desde os primeiros dias das minhas atividades na capital inglêsa. Porém o êxito dos meus esforços, antes que se iniciasse o degêlo, foi extremamente modesto. Consegui “conquistar" os liberais, entre êles alguns tão destacados como Lloyd George, Herbert Samuel, Archibald Sinclair e outros. É claro que os liberais formavam parte da classe do­ minante; porém, na década de 1930-40, como já assinalei, não gozavam de grande influência com algumas personagens de segunda e terceira categoria, porém as figuras de primei­ ro plano continuavam pondo de lado a Embaixada soviética. A única exceção era a casa dos Astor, mas isso de­ vido a causas especiais. Em 1931, lady Nancy Astor fêz uma viagem a Moscou em companhia de Bernard Shaw e lord Lothian, sendo recebida pelos dirigentes do País dos Sovteies. Naquele período, lady Astor apresentava-se como “amiga” da U R SS, embora alguns anos depois, como verá

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o leitor mais adiante, se transformasse em inimiga ferrenha da União Soviética. Não obstante, o nome de lady Astor não tinha cotação muito alta nos meios conservadores; consi deravam-na uma norte-am ericana rica e ridícula capa z de qualquer extravagância, como uma espécie de enfant terrible na política. Por isso, o fato de que o embaixador soviético tratasse com lady Astor^ ainda não me abria as portas de outras cidadelas conservadoras. O degêlo fêz mudar tudo isso. Os políticos dirigentes do campo conservador começaram a procurar relações conos­ co. Como é natural, tratei de aproveitar ao máximo a con­ juntura e, com efeito, consegui estabelecer contatos está­ veis com tôda uma série de destacadíssimos representantes do conservadorismo britânico. Êsses contatos eram tão está­ veis com tôda uma série de edstacadíssimos representantes conservadorismo britânico. Êsses contatos eram tão estáveis que s e " mantiveram até mais tarde, quando o curto de­ gêlo nas relações anglo-soviéticas cedeu seu pôsto primeiro, ao esfriamento e, logo em seguida, ao gêlo. O s mais impor­ tantes e interessantes dêsses novos conhecidos foram, sem dúvida, W . Churchill e lorde Beaverbroolc. Em fins de julho de 1934, um mês após o almôço com Simon antes citado, os Vansittart convidaram a mim e a mi­ nha espôsa para um jantar em casa dêles, tendo também comparecido Churchill e sua senhora. A situação em que então se encontrava Churchill era das mais originais. Descendente do duque de Malborough e um dos mais ilustres aristocratas da Inglaterra, Churchill ha­ via feito brilhante carreira política e ocupado numerosíssimos cargos ministeriais, inclusive o de Ministro de Finanças (1924-1929), um dos mais elevados na hierarquia governa­ mental britânica. Porém sua carreira foi interrompida brus­ camente. Quando me entrevistei com Churchiil na casa dos Vansittart, fazia já cinco anos que não ocupava nenhuma pasta no Govêrno e era formalmente um simples deputado no Parlamento. Adiantando-me aos acontecimentos, direi que Churchill continuou naquele "nível inferior” até o início da Segunda Grande Guerra. O Partido Conservador, que era o partido governante, estava evidentemente interessado em não permitir-lhe que assumisse as rédeas do Poder. Por quê?

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Eis aqui a minha suposição. A década de 1929-1939 foi um período de desenvolvimento relativamente tranqüilo na vida política inglêsa. Durante êle atuaram na competi­ ção da gestão do Estado políticos de segunda e inclusive de terceira grandeza, como, por exemplo, Neville Chamberlain, Samuel Hoare, Halifax, Simon e outros. Não há por que exagerar os dotes políticos de Churchill, como se faz com freqüência nas publicações do Ocidente. Churchiil equivo­ cou-se repetidas vêzes na apreciação dos homens e dos acon­ tecimentos, como veremos mais adiante, e durante a guerra seguiu uma linha equívoca de longo alcance, equívoca in­ clusive do ponto de vista dos interêsses inglêses. Mas, ape­ sar de tudo, Churchill era muitíssimo mais inteligente que todos os personagens que acabo de enumerar e, além disso, se distinguia por seu forte caráter autoritário. Eis porque os ministros de então o temiam: temiam que, valendo-se das suas qualidades e do seu prestígio nos meios conservadores e no país, os esmagasse, envolvendo-os e transformando-os em seus peões. Melhor será, pensavam, que êsse astuto buli d o g político permaneça à margem do caminho no qual des­ liza com relativa suavidade a carruagem» do Poder!. . . E so­ mente a terrível crise da Segunda Grande Guerra levou no­ vamente Churchill ao Govêrno, de início, como Ministro da Marinha e, depois, como Primeiro Ministro. Foi então que entraram em jôgo fatores que escapavam ao poder dos C ham berlain e dos Simon. Porém, apesar de privado de uma pasta ministerial, Churchill era, naqueles anos, uma das mais destacadas fi­ guras políticas da Inglaterra e gozava, sem dúvida, de gran­ de influência entre vastos setores parlamentares. Essa in­ fluência aumentou ainda mais em meados da década de 1930­ 40, quando se pôs à frente da oposição no seio do Partido Conservador, a qual via a chave da segurança do Império Britânico no ressurgimento da E ntente da Primeira Grande Guerra. Ignoro a quem cabe a iniciativa da entrevista de Chur­ chill comigo (ao próprio Churchill ou a V ansittart); con­ tudo, é um grande acontecimento o fato de que naquela tem­ perada tarde de julho de 1934, nos sentássemos os seis à mesma mesa e abordássemos diversos temas da atualidade.

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Depois do café, obedecendo ao costume inglês, as senhoras passaram para a sala de visitas e, na sala de jantar, ficamos unicamente os homens. Entabulou-se então uma conversa mais séria, durante a qual Churchill me explicou franca­ mente a sua posição. ' — O Império Britânico . — falou — é para mim o comêço e o fim de tudo. O que é bom para o Império Bri­ tânico, é bom também para mim; o que é mau para o Im­ pério Britânico, é mau também para m im .. . Em 1919 consi­ derava que o seu pais representava o maior perigo para o Império Britânico; por isso fui então inimigo do seu pais. H oje considero que o maior perigo para o Império Britânico é a Alemanha; por isso sou agora inimigo da Alemanha. . . Ao mesmo tempo, creio que Hitler se prepara para a ex­ pansão não somente contra nós, como também no Leste, con­ tra os senhores. Por que não nos unirmos na luta contra o inimigo comum?. . . Sou inimigo do comunismo e continuarei a sê-lo, porém estou disposto a colaborar com os Sovietes a bem da integridade do Império Britânico. Compreendi que Churchill falava sinceramente e que os argumentos que expunha para motivar sua mudança de orien­ tação eram lógicos e levavam a se acreditar nêles. Respondi a Churchill com a mesma franqueza: Os soviéticos são por princípio inimigos do capita­ lismo, porém desejam muito a paz e na luta por ela estão dispostos a colaborar com qualquer Estado, qualquer que seja seu sistema, se êsse Estado tende efetivamente a evitar a guerra. E ao dizer isto recordei tôda uma série de fatos con­ cretos e acontecimentos históricos . Churchill ficou inteiramente satisfeito com as minhas pa­ lavras e, a partir daquela tarde, se estabeleceram entre nós relações que duraram até ao último dia das minhas ativi­ dades na Inglaterra. Essas relações eram pouco comuns e, em certo ponto, até paradoxais. Churchill e eu pertencía­ mos a dois campos opostos e tínhamos isso sempre presen­ te. Eu também tinha presente que Churchill havia sido o principal líder da intervenção de 1918-1920 contra a Rússia Soviética. Ideologicamente separava-nos um abismo. Porém, no terreno da política exterior, é forçoso, às vêzes, marchar

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com os inim,igos de ontem contra o inimigo de hoje se assim o exigem os interêsses do país. Precisamente por isso, na década de 1930-40 mantive constantes relações com Chur­ chill, com pleno beneplácito de Moscou, a fim de preparar a luta conjunta com a Inglaterra contra a ameaça hitlerista. Sentia constantemente, como é natural, que Churchill pen­ sava em seu fôro íntimo em como melhor aproveitar o “fator soviético” para conservar as posições mundiais da Grã-Bre­ tanha. Devia, por isso, estar sempre em guarda. Não obs­ tante, as relações com Churchill tinham um grande valor e desempenharam seu papel nos acontecimentos ulteriores, so­ bretudo durante o período da Segunda Grande Guerra. Um tanto diversa foi a forma em que começaram as minhas relações com lorde Beaverbrook. No verão de 1935, aproximadamente um ano depois da minha primeira entre­ vista com Churchill, veio visitar-me o líder trabalhista da es­ querda, Aneurin Bevan. Éramos bem conhecidos e desde o primeiro momento me falou "sem rebuços” . — Vim falhar-lhe de um assunto delicado — começou Bevan. — Tenho um amigo, lorde Beaverbrook. . . Já ou­ viu falar dêle, não é verdade?. . . Assenti com a cabeça. — Pois bem — prosseguiu Bevan — lorde Beaverbrook gostaria de conhecê-lo. . . Já fêz um convite em seu nome para um almôço, porém me pediu que antes perguntasse ao senhor como receberá êsse convite. . . Seria desagradável para Beaverbrook que o recusasse.. . Além disso, está verdadei­ ramente interessado, por motivos políticos, em entrevistarse com o senhor. . . Que lhe parece? Pela minha mente desfilaram de imediato os detalhes mais importantes que conhecia sôbre lorde Beaverbrook: ca­ nadense, iniciou sua carreira como modesto advogado; em­ preendeu logo o caminho do jornalismo; chegou à Inglater­ ra durante a primeira Grande Guerra e se transformou ra­ pidamente no rei da imprensa; ministro por algum tempo no gabinete de Lloyd George; naqueles momentos, uma das fi­ guras mais influentes nos meios políticos inglêses e proprie­ tário de todo um “matagal” de órgãos de imprensa, entre os quais figurava o D aily E xpress, com uma tiragem de dois milhões de exemplares; manteve posição anti-soviética nos

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últimos anos, e nos dias da crise anglo-soviética, tendo como objetivo a M etropolitan~V ickers, fêz furiosa campanha con­ tra a U R SS e contra mim pessoalmente.. . E êsse mesmo Beaverbrook me convidava para um al­ môço em sua casa! — E quais são agora o estado de espírito e os propó­ sitos de Beaverbrook? perguntei a Bevan. — Oh!, os melhores! — exclamou meu interlocutor .— Beaverbrook considera que, na situação atual, a Inglaterra e a U R SS podem caminhar juntas. Bem — concluí eu — aceitarei o convite de Bea­ verbrook. . . Não há por que revolver o passado se no pre­ sente podemos marchar juntos contra a Alemanha hitlerista. Dias mais tarde (em 4 de junho, se a memória não me falha) sentava-me à mesa na residência de Beaverbrook. E stávamos os dois a sós e tive a oportunidade de examiná-lo de perto. Era um homem de pequena estatura, extraordinàriamente vivo e inquieto, de rosto redondo e expressivo e olhar agudo e penetrante. De seus lábios escapavam em abun­ dância, como verdadeiros fogos de artifício, aforismos, sen­ tenças, apreciações e características de homens e aconteci­ mentos. Não se moderava ao mínimo nas expressões. A pa­ lestra com Beaverbrook foi extremamente interessante e ins­ trutiva e passei mais de duas horas em sua companhia. Ten­ tei várias vêzes levantar-me e despedir-me, porém o anfitrião não mo permitia. Durante a conversa, Beaverbrook julgou necessário, da mesma forma que Churchill, explicar-me os motivos da sua mudança no problema das relações com a U R S S . < — Sim, sim, — disse-me Beaverbrook precipitadamente devemos marchar juntos. . . Digo-lhe com franqueza que não gosto muito do seu país, porém aprecio muito o Impé­ rio Britânico. . . Estou disposto a tudo para conservar a saú­ de do Império Britânico. . . E a Alemanha é hoje o pro­ blema principal não só para a Europa, como também para o Império Britânico. Sejamos, portanto, amigos! Isso era também franco e, o que tem singular impor­ tância, inteiramente sincero. Sentia-me muito satifeito. Sem­ pre me provocaram asco os protestos melífluos de simpatia pela ‘‘Rússia e o povo russo” com que alguns políticos in-

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glsêes encobriam a vacuidade dos seus sentimentos e inclu­ sive suas intrigas anti-soviéticas. O realismo um tanto rude de Beaverbrook me causou uma impressão reconfortadora. Sim, guiava-se pelo interêsse egoísta do seu Estado e ape­ lava para o "interêsse egoísta” (em sua concepção) do E s­ tado soviético: porém nessa base podia erigir-se uma polí­ tica séria de unidade de ação contra o perigo comum que representava o agressor alemão. Com efeito, minhas relações com Beaverbrook se firma­ ram depois de forma marcante e com bastante proveito para a União Soviética. Durante a Segunda Grande Guerra, Bea­ verbrook, como membro do gabinete militar de Churchill, prestou não poucos serviços ao nosso país nbs suprimentos. Mesmo desde o início da Grande Guerra Pátria, transfor­ mou-se em caloroso defensor da abertura da segunda frente na França. Não foi por acaso que o Govêrno soviético conde­ corou Beaverbrook com uma das nossas ordens mais altas.

E S F R IA M E N T O

O degêlo nas relações anglo-soviéticas não durou mui­ to: apenas cêrca de um ano. Seu apogeu foi a viagem de Eden a Moscou. Logo depois dêle, começou a arrefecer a atmosfera das relações anglo-soviéticas, pois os chamberlai­ nianos, alarmados com a possibilidade de uma forme melho­ ria das relações entre Londres e Moscou, voltaram a erguer a cabeça e, pondo em jôgo seu poderio político, começaram a sabotar essa possibilidade por todos os meios. Os chamberlainianos apresentaram, precisamente naquele período, um nôvo plano destinado a paralisar a agressão ale­ mã, denominado então conceito de “segurança ocidental”. Em 1934, os meios governamentais inglêses de tôdas as ten­ dências e correntes se inclinavam a ressuscitar a Entente da

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Primeira Grande Guerra, vendo precisamente nela a garantia da conservação do Império Britânico. Porém cm 1935, nes­ ses mesmos meios, começou a revelar-se com evidência cres­ cente uma diferenciação entre os partidários do “interesse es­ tatal” e os do "ódio de classe” . O s primeiros continuavam se batendo pelo ressurgimento da B n íen te e, portanto, pela aproximação da Inglaterra e da Rússia. Os segundos, se inclinavam cada dia mais em apostar noutro cavalo. Racio­ cinavam mais ou menos assim: Para o Império Britânico são perigosas tanto a Alemanha hitlerista como a Rússia So­ viética: há que fazer que entrem em choque (com tanta maior razão porque comunistas e fascistas se odeiam mutua­ mente) e que nós permaneçamos à margem; quando a Ale­ manha e a U R S S se tenham dessangrado bem e se sintam muito enfraquecidas como conseqüência da guerra, chegará o momento de entrar em cena o “Ocidente”, em primeiro lu­ gar, a Inglaterra. Então o “Ocidente” ditará à Alemanha e à U R SS uma paz que garanta por miuto tempo, senão para sempre, a segurança do Império Britânico e, provàvelmente, sua, hegemonia mundial. Dessa concepção dimanavam, na­ turalmente, a luta contra a aproximação entre Londres e M os­ cou e tôda sorte de estimulos a Hitler para que desenca­ deasse a guerra no Leste. Litvínov levou em conta essa concepção quando, apli­ cando a política do Govêrno soviético, lançou no inverno de 1934 a 1935, a senha de "a paz é indivisível” e demonstrou convincentemente que tôda guerra séria no Leste da Europa se transformaria sem dúvida numa guerra mundial. Êsse mesmo espírito impregnou os numerosos discursos pronuncia­ dos por Litvínov nas sessões da Liga das NaÇões e em di­ versas conferências a reuniões internacionais. Durante as en­ trevistas oficiais e privadas com os estadistas e diplomatas europeus, Litvínov envidou esforços tenazes para pesruadilos da justeza dessa concepção. Às vêzes fazia-o também com relação a assuntos insignifacantes, se considerava que essas pequenas coisas podiam servir aos interêsses da política so­ viética. Lembro-me que durante a visita de Eden a Moscou, o Comissário do Povo dos Negócios Estrangeiros da U R SS ofereceu um almôço oficial em sua honra. Pois bem, na torta

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servida à sobremesa, figurava, escrito em inglês, em letras de açúcar: "P eace is indivisible". Êsse detalhe provocou evi­ dente impressão em Eden. Os políticos mais perspicazes da Inglaterra também com­ preendiam perfeitamente a indivisibilidade da paz. Na prima­ vera de 1935 almocei um dia com Churchiil. Meu interlo­ cutor voltou a falar longa e extensivamente do perigo hitlerista sem medir as expressões. Que é a Alemanha hitlerista? — interrogou Chur­ chill —• Oh, é uma fôrça terrível e perigosa!. . . A Alema­ nha hitlerista é uma enorme máquina de guerra organiza­ da cientificamente e com meia dúzia de gangsters norte-ame­ ricanos à frente. Dêles pode-se esperar tudo. Ninguém sabe exatamente o que querem e o que farão amanhã. . . Qual é sua política externa?. . . Ninguém o sabe. Não me surpreen­ deria absolutamente se Hitler não desferisse o primeiro golçe contra a U R SS , pois isso é bastante perigoso, senão contra outros países. E refeçindo-se depois aos partidários da “segurança ocidental”, prosseguiu Churchill: • —• Êsses homens raciocinam assim: de tôdas as formas, a Alemanha precisa lutar em algum lugar e estender suas conquistas em alguma direção: o melhor será, portanto, que se forme um império à custa dos Estados situados no Leste e Sudeste da Europa! Que se distraia com os Balcãs ou a Ucrânia, mas que deixe em paz a Inglaterra e a França. Naturalmente, êsses raciocínios constituem pura idiotice: mas, infelizmente, gozam ainda de bastante popularidade em cer­ tos meios do Partido Conservador. Não obstante, estou fir­ memente convicto de que, no final das contas, não triunfarão os partidários da “segurança ocidental”, mas os que, como etí^õu Vansittart, opinam que a paz é indivisível e que a In­ glaterra, a França e a U R SS devem constituir o arcabou­ ço de uma aliança defensiva que infunda à Alemanha o de­ vido temor. Não se pode fazer nenhuma concessão a Hitler. Tôda concessão de nossa parte será interpretada pomo um sintoma de fraqueza e não fará mais que dar azo a Hitler para que aumente suas exigências. As considerações de Churchill muito me alegraram e as apoiei integrlamente. Queria crer que um homem como êle

podia ser um bom juiz da sagacidade e capacidade de ação da classe dominante britânica. . . Porém, como infelizmente o demonstraram os acontecimentos posteriores, Churchill foi demasiadamente otimista em suas predições. Os chamberlainianos provaram ser muito mais fortes e obtusos do que êle pensava. Em particular, mal Eden regressara de Moscou começaram a fazer imensos esforços, nada estéreis, para res­ tabelecer sua influência. O primeiro passo nesse sentido foi a Conferência de Stresa, realizada em meados de abril de 1935 para exami­ nar a infração, pela Alemanha, dos artigos militares do T ra ­ tado de Versalhes. A ela compareceram: pela Inglaterra, MacDonald e Simon; pela França, Flandin (Primeiro Minis­ tro) e Lavai (Ministro dos Negócios Estrangeiros); pela Itá­ lia, Mussolíni e Suvich (Subsecretário das Relações Exterio­ res) . Era completamente natural que Mussolíni sabotasse tôda manifestação brusca contra Hitler, porém tampouco os inglêses nem os franceses mostraram o menor desejo de in­ dispor-se com o ditador nazista. Em poucas palavras, a Con­ ferência de Stresa, que se limitou a uma condenação aca­ dêmica dos atos de Hilter, fugiu à adoção de medidas efi­ cazes contra seu passo agressivo. Com isso, não fêz outra coisa senão estimular o F ü hrer a continuar correndo na mes­ ma direção. E o que é mais, a Conferência de Stresa (em particular Simon e MacDonald) deu a entender a Mussolíni que a Inglaterra não impediria a conquista da Etiópia pela Itália, para o que está última se preparava. O segundo passo para restabelecer as posições dos chamberlainianos foi a reorganização do Govêrno inglês. Em maio de 1935 fazia 25 anos da coroação do rei George V . Por êste motivo houve numerosas cerimônias e se fizeram muitas nomeações. Os chamberlainianos procuraram apro­ veitar a ocasião para firmar suas posições. O Govêrno in­ glês continuou a conservar seu anterior caráter “nacional”, porém se pôs à sua frente o conservador Baldwin — que ocupava antes o pôsto de vice-presidente do Conselho de M i­ nistros, embora, de fato, fôsse o chefe do Govêrno — e o exPrimeiro Ministro MacDonald, que era uma figura deco­ rativa e passou a ser vice-presidente do Conselho. Ainda mais importantes foram as mudanças efetuadas no Foreign

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0//ice. Até nos meios governamentais começaram a com­ preender que os quatro anos de permanência de Simon à frente do Departamento de Relações Exteriores não haviam proporcionado qualquer beneficio ao Estado britânico (no qual não desempenhou papel de pouca relevância sua atua­ ção durante as negociações comerciais anglo-soviéticas) . Por isso foi transferido para o pôsto, mais "neutro", de ministro do Interior. Quem substituiu Simon no F oreign O ffice? Essa desig­ nação deu lugar a uma longa luta. Vansittart tinha gran­ des esperanças de que o nõvo ministro das Relações Exte­ riores fôsse Eden, e inclusive atuou com afã nesse sentido por trãs dos bastidores; porém os chamberlainianos se opuse­ ram de maneira decidida e, em última instância, conseguiram impor a sua escolha. Foi nomeado nôvo ministro do E x ­ terior, Samuel Hoare, representante tipico da cúpula gover­ namental inglêsa: estudou em Oxford, aos 25 anos foi "se­ cretário particular” do Ministro de Colônias, Lyttelton; aos 42, Ministro da Aviação; aos 51, Ministro Encarregado dos Assuntos da índia e, por último, aos-55 anos, Ministro das Relações Exteriores. Durante a Primeira Grande Guerra, Hoares foi agente militar britânico adjunto do Quartel Ge­ neral czarista e um entusiasta admirador dos oficios de Pás­ coa da Igreja Ortodoxa russa, que com tanto colorido des­ crevera em seu livro, um tanto superintelectual, O quarto sêlo (Fourth Seal, 1930). O caráter de Hoare tinha, em geral, algo de mistico. Por exemplo, no vestibulo do seu apartamento havia um es­ tranho adôrno, que tinha a forma de um féretro prateado e suscitava um ligeiro estremecimento nos visitantes. Em meados da década de 1930-40, Hoare era um dos mais ínti­ mos correligionários de Chamberlain e caloroso defensor da "segurança ocidental” . Contudo, os chamberlainianos viam-se obrigado,') n levar em consideração as tendências pacifistas, então muito popu­ lares na Inglaterra e manifestadas com singular cvklGncla na aspiração das grandes massas, de assegurar o pau universal através da Liga das Nações. Em fins de 1934, a organização britânica L eagu e o f N ations Union, dirigida por lorde Robert Cecil, organizou no pais um plebiscito dn [>n,r, de cará­

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ter voluntário, no qual participaram onze e meio milhões de pessoas. Delas, cêrca de dez milhões e meio pronunciaramse a favor do emprêgo da fôrça contra os agressores. Isso obrigou os chamberlainianos a mostrarem certa prudência- e a manobrarem. Por isso, mesmo fazendo de Samuel Hoare Ministro das Relações Exteriores, conservaram Eden como Ministro Sem Pasta, porént com o encargo de dedicar-se aos assuntos da Liga das Nações. O terceiro passo nessa, mesma direção foi o convênio naval anglo-alemão, firmado em junho de 1935. Sabe-se que o Tratado de Versalhes estabeleceu restrições muito rigoro­ sas para o armamento naval da Alemanha. Em fevereiro de 1935 Hitler rompeu, por decisão unilateral, todos os artigos militares dêsse tratado e estabeleceu a corrida armamentista alemã em terra e mar. A Conferência de Stresa condenou (embora pão severamente) os citados atos do F ü h rer. Mas apenas dois meses depois, a Inglaterra reconheceu oficial­ mente o direito da Alemanha dispor de um armamento naval que ultrapassava de muito os limites assinalados em Versa­ lhes! Êsse ato de "apaziguamento” do agressor se tornava tão provocador que inclusive a França expressou seu pro­ testo à Inglaterra na véspera da assinatura do acôrdo. Po­ rém o Govêrno de Baldwin desprezou o descontentamento do seu aliado e no dia seguinte, 18 de junho, assinou o alu­ dido acôrdo, que previa uma proporção geral de 100 a 35 na tonelagem da Marinha de ambos os países, reconhecendo, não obstante, à Alemanha o direito de ter uma frota sub­ marina igual a de todo o Império Britânico. Os comentá­ rios oficiosos não davam margem a dúvida de que seme­ lhante acôrdo tinha como motivo principal o desejo da In­ glaterra de assegurar à Alemanha o domínio no Báltico em face da U R S S , Com isso ficou não somente aberto, como inclusive legalizado, o caminho da corrida armamentista hi­ tlerista . Muito bem, como no outono de 1935 deviam realizar-se na Inglaterra eleições parlamentares e vastos setores da po­ pulação continuavam condenando violentamente os agresso­ res fascistas, Samuel Hoare recorreu a um estratagema para caçar votos: em setembro de 1935 pronunciou em Genebra, na sessão da Liga das Nações, um tonitruante discurso con­ tra os agressores, dando a impressão de que a Inglaterra es­

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tava disposta a aplicar sanções contra a Itália, que se pre­ parava para desfechar a guerra contra a Etiópia. M as o discurso não passou de um truque de jogador trapaceiro. Por­ que quando Mussolíni, apesar de tudo, iniciou, em 3 de ou­ tubro, as hostilidades na África, a Inglaterra governante não moveu um dedo. E quando em 14 de novembro se realiza­ ram as eleições que deram a vitória aos conservadores (uma vitória não tão brilhante como a de 1931, mas que, não obs­ tante, lhes assegurou plenamente a permanência no Poder), os chamberlainianos tentaram tomar uma desforra através do discurso de setembro de Samuel Hoare. A guerra na África colocou em tôda acridez o proble­ ma das sanções da Liga das Nações contra a Itália. Embo­ ra Eden revelasse não pouca atividade em Genebra, exigin­ do a aplicação das mesmas, Chamberlain declarava publica­ mente em Londres que as sanções eram "uma loucura”. Lavai, que encabeçava então o Govêrno francês, sabotava simples­ mente sua imposição. M as como a U R S S defendia com fir­ meza a política de sanções, secundada por vários Estados de segunda e terceira categoria, Chamberlain e Lavai não con­ seguiram por completo livrar delas "a Itália. O que conse­ guiram foi que o compromisso finalmente aprovado pela Liga das Nações tivesse um caráter bastante inofensivo: por exem­ plo, as sanções não se tornavam extensivas ao petróleo, pro­ duto tão importante do ponto de vista militar. Em dezembro de 1935, os chamberlainianos deram nôvo passo avante: Samuel Hoare elaborou conjuntamente com Lavai, Primeiro Ministro francês, um plano para pôr fim à guerra ítalo-abissínia, submetendo ao controle de Mussolíni a metade do território da Etiópia. Era uma dádiva im~ pudente ao agressor como recompensa por haver praticado um ato de agressão! Era um estímulo a outros agressores potenciais para que seguissem o caminho de Mussolíni!. . . A reação imediata na Inglaterra e na França ante êsse pla­ no foi tal que Lavai se manteve no Poder a duras penas e Samuel Hoare viu-se obrigado a demitir-se imediatamente.11
11 Por certo, H oare não ficou muito tempo sem pasta: não era em vão que era considerado pela camarilha governante como “um dos seus” ! Certamente que na questão da Etiópia incorrera em êrro, mas era impossível irritar-se por longo tempo com um colega tão constan-

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Somente então Eden foi nomeado Ministro das Rela­ ções Exteriores, fato que podia ser considerado como um êxito dos “partidários da E n ten te" . Não obstante, por trás dos bastidores, os chamberlainianos opuseram-lhe de imedia­ to uma série de obstáculos, transformando-o em um prisio­ neiro dos caudilhos do^ódio d e classe. Não é difícil imagi­ nar-se o resultado. Quando Hitler anunciou em 7 de março de 1936 a rup­ tura do Pacto de Locarno e voltou a ocupar a região do Reno, a U R S S propôs que se adotassem medidas enérgicas contra êsse nôvo ato de agressão; porém a Inglaterra e a França, apoiadas pelos Estados Unidos, se limitaram a fa­ zer protestos verbais que, como é natural, não causaram a Hitler nenhum efeito. E , não obstante, como se soube mais tarde, os generais hitleristas levavam no bôlso do colête, ao entrar-na região do Reno, a ordem de retirarem-se imedia­ tamente se os franceses opusessem a menor reação. E quando Franco, com o ativo apoio de Hitler e Mussolíni, sublevou-se em 18 de julho de 1936 contra o Go­ vêrno legítimo da República Espanhola, a Inglaterra e a Fran­ ç a — apoiadas novamente pelos Estados Unidos — tiveram a iniciativa da farsa denominada “não-intervenção", que foi de fato uma ajuda indireta a Franco e aos seus protetores estrangeiros. 12 Não é preciso dizer que todos os atos do Govêrno bri­ tânico que acabamos de assinalar estavam em contradição com o comunicado de Moscou de l 9 de abril de 1935 e tinham, em última instância, um caráter anti-soviético. Seja como fôr, durante o inverno de 1936-1937, sendo Baldwin, Pri­ meiro-Ministro e, Eden, Ministro das Relações Exteriores, a Inglaterra procurou guardar as formas da neutralidade e a imparcialidade, ao menos aparentemente, no problema es­ panhol. Consegui também reduzir ao mínimo as nocivas con­ seqüências acarretadass para as relações anglo-soviéticas em seu conjunto pelas nossas discrepâncias em tôrno dos assun­
te! E m 1936, aplacadas até certo ponto as paixões sociais, Hoare foi nomeado Ministro da Marinha e, posteriormente, Ministro do Interior. 12 E m minhas recordações sôbre o Comitê de não-intervenção nos assuntos da Espanha, publicadas em 1962 pela Editorial Militar sob o título de Cuadernos Espanoles, trato pormenorizadamente dessa questão.

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tos espanhóis. Lembra-me uma conversa que tive com Eden acêrca dessa questão pouco antes de começar a guerra da Espanha. Para mim está claro — disse eu — que os governos so­ viético e britânico focalizam de maneira diversa os aconte­ cimentos da E sp an h a.. . Nesse terreno existem discrepâncias entre nós, que podem inclusive aumentar; não obstan­ te, a Espanha é apenas um d o s problem as da política exter­ na de ambos os países. Há muitos outros, também mais im­ portantes que êsse, nos quais não existem contradições entre a U R S S e a In glaterra.. . Localizemos, portanto, nossas discrepâncias no tocante ao problema espanhol e procuremos fazer com que repercutam o menos possível nas relações anglo-soviéticas em geral. . . Seria indesejável ao extremo que o comunicado de Moscou se transformasse em um farrapo de papel. Eden ficou pensativo por um instante e depois respondeu: — Estou completamente de acôrdo com você e, de mi­ nha parte, farei todo o possível para que nossa política se atenha aos princípios expostos no comunicado de M oscou .. . Isso é muito importante não somente para a Inglaterra e a U R SS, como também para a manutenção da paz universal. Eden voltou a ficar calado por mais alguns segundos e logo acrescentou em voz mais baixa: — M as, como você há de compreender, nem tudo de­ pende de mim. ' Sim, compreendia-o perfeitamente; porém, de tôda for­ ma, devo deixar consignado que a temperatura nas relações anglo-soviéticas se manteve bastante elevada acima de zero até meados de 1937.

A B A IX O D E Z ER O

Em 28 de maio de 1937 Baldwin demitiu-se, suceden­ do-o na chefia do Govêrno inglês Neville Chamberlain. Ao

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saber dessa notícia, pensei involuntàriamente: “Churchili equivocou-se no seu prognóstico: não é senão Chamberlain quem empunha o leme. Agora nos espera a confabulação de Chamberlain com Hitler. E d ep o is?... • Neville Chamberlain era, sem dúvida, a figura mais si­ nistra que se destacava no horizonte político da Inglaterra. Sinistra pelo caráter orgânico, profundamente reacionário, de suas concepções. E sinistra também pela influência de que gozava no Partido Conservador. O fato de Neville Cham­ berlain ser um homem de idéias limitadas e faculdades mí­ nimas e de que seu horizonte político não ia além, segundo a expressão de Lloyd George, da de “um fabricante provin­ ciano de camas de ferro” não fazia mais que agravar o pe­ rigo que representava sua ascensão ao Poder. O pai de Nevil­ le, o famoso Joseph, considerava seu filho (à desemelhança da outro, Àusten) incapaz para a política e preparou-o desde a juventude para a atividade comercial. Porém Neville não conquistou tampouco lauréis invejáveis no setor do co­ mércio. Em vista disso, fê-lo seguir a “linha municipal”, na qual, após uma série de degraus intermediários, chegou ao pôsto de prefeito de Birmingham. Em 1917, como conserva­ dor de origem aristocrática, Neville Chamberlain foi nomea­ do ministro de Recrutamento do Exército no Govêrno de coalizão de Lloyd George, porém fracassou vergonhosa­ mente e o Primeiro Ministro expulsou-o do gabinete. E êsse mesmo Chamberlain foi quem chefiou o Govêr­ no britânico em maio de 1937, em uma situação mundial ex­ tremamente complicada e difícil! Sem querer, pensava eu de vez em quando: “A que extremo de profunda decomposi­ ção chegou a classe dominante inglêsa!” A chegada de Neville Chamberlain ao Poder teve para mim, como embaixador da União Soviética, um significado absolutamente especial. Não havia esquecido a conversação que tivera com êle em novembro de 1932, à qual me referi antes. Os cinco anos posteriores confirmaram por com­ pleto, com numerosos fatos e exemplos, que Neville Cham­ berlain era um inimigo conseqüente da U R SS. E a única coisa que podia fazer um Primeiro Ministro dotado de tais qua­ lidades era agravar as relações anglo-soviéticas. Precisamen­ te por sua hostilidade ao Govêrno soviético, semelhante Pri­

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meiro Ministro só poderia acentuar a política de "apazigua­ mento” dos agressores. Nada de bom podíamos esperar dêle! Por sombrios que fôssem meus sentimentos, resolvi, ape­ sar de tudo, entrevistar-me com o nôvo Primeiro Ministro e sondar seu estado de espírito. Chamberlain recebeu-me em 29 de julho em seu gabinete no Parlamento, mantendo-se mais sereno e comedido do que durante a nossa primeira entre­ vista cinco anos atrás. Perguntei-lhe qual era, em linhas ge­ rais, a política que se propunha aplicar o Govêrno inglês no terreno das relações internacionais. E Chamberlain explicoume longa e circunstanciadamente que o problema fundamen­ tal, no momento, era, na sua opinião, a Alemanha. Em pri­ meiro lugar, ter-se-ia que solucionar êsse problema, depois do que, tudo o mais não apresentaria dificuldades especiais. M as como resolver o problema alemão? Ao Primeiro Minis­ tro se lhe afigurava inteiramente possível fazê-lo se se apli­ casse um m étodo acertado. — Se pudéssemos — disse êle .—•sentar-nos com os ale­ mães à mesma mesa e reexaminar, de lápis na mão, tôdas as suas queixas e pretensões, muito .ficariam esclarecidas as relações. Isto é, o que da questão residia unicamente em sentarse à mesma mesa de lápis na mão! Que simplório! Lembreime involutàriamente das palavras de Lloyd George: "fabri­ cante provinciano de camas de ferro ". Como sc conclui, Chamberlain imaginava a Hitler e a si mesmo como dois co­ merciantes que discutem, gritam, regateiam e, no final, fe­ cham o trato. Tão rudimentares eram assim as noções po­ líticas do Primeiro Ministro! Do que me falou Chamberlain em 29 julho se dedu­ zia, de forma iniludível, que aspirava a conseguir um pacto dos quatro, vendo nisso a maneira de “apaziguar", por to­ dos os meios, Hitler e Mussolíni. Êsse prognóstico pessimista tornava-se mais provável ain­ da devido a que, precisamente naquela época, assumiu for­ ma definitiva em Londres a chamada cam arilha d c Clivcdcn, que tão sinistro papel desempenhou nos anos que precederam a Segunda Grande Guerra. Lady Nancy Astor, a mesma lady Astor que em 1932-1933 havia flertado com o País dos Sovietes fazendo-se passar por sua “amiga”, descobriu nos

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anos posteriores sua verdadeira face e, no fim de contas, transformou-se na "dona” do salão político em que se reu­ niam os representantes mais reacionários do Partido Conser­ vador. Em sua suntuosa mansão campestre de Cliveden (nos arredores de Londres), que pretendia ser uma imitação de Versalhes, passavam habitualmente os w eek-en d personagens como Neville Chamberlain, lorde Halifax, Samuel Hoare, Kingsley W ood e outros. Ali bebiam, comiam, se divertiam, trocavam opiniões e traçavam planos de ação imediata. Com freqüência, entre duas partidas de gôlfe se resolviam impor­ tantíssimas questões de Estado. Quanto mais se aproximava a guerra, maior era a atividade de Cliveden. O salão de lady Astor passou a ser a cidadela principal dos inimigos da União Soviética e dos amigos da aproximação anglo-alemã. Dêle partia a propaganda mais vigorosa do conceito da "se­ gurança ocidental”; nêle se saboreavam com singular voluptuosidade os quadros do extermínio recíproco sovieto-alemão, no qual cifravam suas esperanças os comensais de Cliveden. O salão de lady Astor atuava com fôrça extraordinária na nomeação dos ministros, na formação dos governos e na de­ terminação da linha política dêsses. A subida de Neville Chamberlain ao Poder significava uma onipotência tal da cam arilha d e C liveden que somente podia despertar os mais alarmantes temores nos meios dirigentes da União Soviética. E, efetivamente, não foi preciso esperar muito. O objetivo de Chamberlain consistia em “apaziguar” os ditadores fascistas como meio de estabelecer a “segurança ocidental” . É claro que isso não passava de uma idiotice, como dissera Churchill; porém o ódio de classe ao Estado socialista era tão grande em Chamberlain (e não somente nêle) que lhe ofuscava por completo o espírito. Em suas me­ mórias de guerra, Churchill assinala ironicamente ao falar de Chamberlain e de sua atitude perante Hitler: “Mister Chamberlain animava-se da esperança de apaziguá-lo e re­ formá-lo para levá-lo depois à plena mansidão”.13 Churchill atém-se nesse trecho a maneiras literárias polidas. Porém nas conversações particulares expressava-se com muito mais ru­ deza. Recordo-me de que um dia me disse:
13 W . Churchill, Second World War, 5.a edição, vol. I, L . , pág. 3 22. 1955,

— Neville é um imbecil. . . Pensa que se pode cavalgar um tigrp. Infelizmente, Chamberlain pensava precisamente assim. E por isso transformou-se em um apóstolo conseqüente da política de “apaziguamento” dos agressores. Para levar essa política à prática necessitava de um Govêrno que, por sua composição, se harmonizasse com tal idéia e, antes de tudo, um ministro “adequado” das Relações Exteriores. Eden não servia para isso, menos ainda porque, em Roma e em Ber­ lim, era impopular ao extremo. Chamberlain escolheu para êsse pôsto-chave lorde Halifax; não obstante, levando em conta o estado de espírito então reinante entre a opinião pú­ blica da Inglaterra, não resolveu desembaraçar-se de imedia­ to, de Eden. Havia que preparar o terreno para isso, o que seria melhor, obrigar o próprio Eden a apresentar sua demis­ são. Eis por que Chamberlain designara “de momento” lor­ de Halifax para o cargo, honroso porém puramente decora­ tivo, de vice-presidente do Conselho de Ministros, isto é, de Ministro Sem Pasta, a quem, de quando em quando, se atri­ buem missões especiais. E como veremos depois, a missão mais importante, especial, que se .atribuiu a Halifax estava relacionada com a política exterior. O primeiro passo nítido empreendido por Chamberlain no “apaziguamento” dos ditadores foi o envio de uma carta amistosa a Mussolíni, a qual êste, como é lógico, respon­ deu sem delongas no mesmo tom amistoso. Em seguida man­ teve com êle ativas negociações, procurando conseguir a as­ sinatura de um amplo tratado de amizade e colaboração en­ tre a Inglaterra e a Itália. Eden e alguns outros políticos destacados eram contra essas negociações. E não porque simpatizassem com a República Espanhola. Não, longe disso! Nem Eden nem a maioria dos seus correligionários sentiam a menor simpatia por ela. Porém conheciam a perfídia dos ditadores fascistas e não criam muito em suas promessas, pois que exigiam de Mussolíni, como prova da seriedade dos seus propósitos, que retirasse prèviamente da Espanha as tro­ pas italianas que lutavam ao lado de Franco. Mas Chamber­ lain permaneceu inflexível e aplicou obstinadamente sua po­ lítica de acelerar a assinatura do tratado anglo-italiano. Isto serviu de base para que surgisse um desentendimento entre

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Chamberlain e Eden (avivado, possivelmente, de forma ar­ tificial, pelo Primeiro M inistro), que resultou na demissão de Eden em 20 de fevereiro de 1938. Juntamente com Eden apresentou também demissão seu subsecretário parlamentar, lorde Cranborne, partidário igualmente, naqueles anos, da aproximação com a U R S S . Pouco antes de ocorrer tudo isso, em l 9 de janeiro de >938, Vansittart deixou de participar ati­ vamente nos assuntos do F oreign O ffic e , tendo sido nomeado para o cargo, honrosq, porém pouco ativo, de “conselheiro diplomático principal do Govêrno britânico” . Ao dar-me a conhecer sua nova designação, Vansittart observou com um amargo sorriso: — - Conselheiro diplomático principal.. . Porém não é obrigatório pedir-lhe conselho.. . Tudo depende dos dese­ jos do Primeiro M inistro. . . .V ansittart predisse com acêrto o seu futuro: Chamber­ lain, com efeito, não recorreu aos seus conselhos. Iniciou-se então a rápida ascensão de sir Horace W il­ son como conselheiro autêntico, e cada dia mais poderoso, do Primeiro Ministro para os assuntos de política exterior. Cojihecia-o bem das negociações comerciais com a Inglaterra. Horace W ilson, na ocasião “conselheiro industrial principal do Govêrno britânico”, foi o representante mais destacado da parte inglêsa durante a elaboração do convênio comer­ cial provisório de 1934. Era um homem astuto e hábil, cí­ nico até à medula, e para o qual o mundo era composto de imbecis e miseráveis. W ilson conhecia à perfeição todos os assuntos do comércio e da indústria, porém seus horizontes em matéria de política exterior se encontravam ao nível do pequeno-burguês médio. E Chamberlain atribuía precisa­ mente a êsse homem, como perito da sua maior confiança, a solução dos problemas internacionais fundamentais! Parecia uma loucura.. . Mas, não foi tôda a política exterior de Chamberlain por acaso uma loucura, uma loucura completa, cultivada com o fermento do ódio de classe, ida estupidez e da ignorância? Depois de limpar o F oreign O ffice de quantos não eram do seu agrado, Chamberlain nomeou como Ministro das Re­ lações Exteriores lorde Halifax, aristocrata inglês de linha­

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gem, cuja longa carreira política e administrativa havia cul­ minado no cargo de vice-rei da índia. Era um homem alto, magro e lento. Trazia sempre uma luva negra na mão es­ querda, defeituosa, e falava pausadamente, com voz surda, sempre com um agradável sorriso nos lábios. Seu aspecto predispunha a seu favor e dava a impressão de ser um ho­ mem profundo ou, em todo caso, que se interessava pelos grandes problemas. Tinha uma mentalidade filosófica, po­ rém a filosofia própria do seu espírito era místico-filosófica. Pertencia à chamada A lta Ig reja — isto é, à corrente do anglicanismo que pouco se distingue do catolicismo — e gos­ tava de falar de temas religiosos e morais. Dizia-se que, quando Halifax foi vice-rei da índia, por trás do seu ga­ binete havia uma pequena capela. Antes de qualquer entre­ vista ou discussão séria, encerrava-se durante algnuns mi­ nutos na capela e pedia a Deus que iluminasse o seu enten­ dimento. Halifax possuía, sem dúvida alguma, vasta cul­ tura, o que não lhe impedia, contudo (como veremos mais adiante), de revelar com freqüência a mais completa incom­ preensão da época e das suas fôrças motrizes. Mas nisso se manifestava a estreiteza de suas concepções de classe. Como membro do Govêrno de Chamberlain, Halifax apoiava integralmente a política de “apaziguamento” e era um dos pilares da cam arilha d e C liveden . Era um homem de caráter complacente e se conformava facilmente com o “ fato de o Primeiro Ministro (de acôrdo com Horace W ilson) ha­ ver usurpado a política exterior da Grã-Bretanha e trans­ formado o Ministério das Relações Exteriores num simples escritório diplomático adjunto de sua pessoa. Para evitar qualquer complicação, depois de Vansittart, nomeou-se para o importante cargo de subsecretário permanente do Exterior Alexander Cadogan, de quem não se podia esperar nenhuma surprêsa. Dêsse modo, Chamberlain muniu-se de um sistema mo­ desto e dócil, após o que empreendeu a aplicação conseqüen­ te de sua “própria” política exterior. Começou pela Alemanha. Já em fins de novembro de 1937, Halifax recebeu de Chamberlain a incumbência de fa­ zer uma peregrinação até Berlim e entabular negociações com Hitler sôbre um acôrdo geral das relações anglo-germânicas.

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Naquele momento, desconhecíamos ainda todos os detalhes desssas negociações, porém seu sentido geral era claro para nós. Outrossim, nos meios políticos da Inglaterra filtrou-se algo do que ocorria em Berlim e chegou ao nosso conheci­ mento. Em conseqüência, aumentou em grande escala a des­ confiança da parte soviética para com o Govêrno de Cham­ berlain. Os documentos* do Ministério das Relações E xte­ riores da Alemanha encontrados pelo Exército Soviético em Berlim provam hoje que tínhamos motivos mais que sobejos para desconfiar. Com efeito, as notas de conversação mantida por Hitler e Halifax em 17 de novembro de 1937, publicadas pelo M i­ nistério de Negócios Estrangeiros da U R SS em 1948, mos­ tram, com tôda clareza, que Halifax propôs a Hitler, em nome do Govêrno Britânico, uma espécie de aliança à base de um . ‘‘pacto dos quatro” e de deixar-lhe as mãos livres na Europa Central e Oriental. Halifax declarou, em parti­ cular, que "não se deve excluir nenhuma possibilidade de mudar a situação existente” na Europa. E mais adiante fri­ sou que “entre essas questões figuram Dantzing, a Áustria e a Tcheco-Eslováquia” . Como é natural, ao apontar a Hitler a direção da agressão que encontraria menos resistência por parte do Govêrno de Chamberlain, Halifax considerou ne­ cessário fazer a seguinte ressalva: — “A Grã-Bretanha está interessada únicamente em que as referidas mudanças se façam por meio de uma evo­ lução pacífica e em que se possa evitar os métodos suscetí­ veis de produzir novas emoções que nem o F ü h rer nem os outros países desejariam” . 14 Hitler, contudo, compreendia bem o valor dessa ressal­ va, e pela qual pôde considerar sua conversação com Hali­ fax como o beneplácito de Londres para a conquista violenta de espaço vital nas zonas indicadas. E quando Eden se de­ mitiu e Halifax foi nomeado Ministro das Relações Exterio­ res, Hitler pensou, e não sem razão, que havia chegado o momento de levar à prática o programa de agressão traçado durante sua entrevista de novembro de 1937. Não perdeu tempo, e em 12 de março de 1938, doze dias depois de Hali14 D ocumentos y maíeriales de vísperas de la Segunda G uerra M un­ dial, íojno I. págs. 24 e 34, ed. em espanhol, Moscou, 1948.

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fax ser nomeado Ministro das Relações Extriores, deu o pri­ meiro grande “salto” : apoderou-se da Áustria com um golpe relâmpago. Como se zombasse dos “apaziguadores” de Lon­ dres, o F ü hrer lêz coincidir a anexação precisamente com o dia em que Chamberlain recebia na Inglaterra, com tôda so­ lenidade, o Ministro das Relações Exteriores da Alemanha, von R ibbentrop. E o que aconteceu? A Inglaterra e a Fran­ ça reagiram perante tão clamante ato de agressão unicamen­ te com protestos verbais, que nem êles próprios, e muito me­ nos Hitler, levavam a sério. Por maior e legítima que fôsse, depois de todo o ocor­ rido, a desconfiança do Govêrno soviético para com o Go­ vêrno de Chamberlain, os dirigentes da U R S S tentaram, na­ quele momento crítico, apelar para o bom senso dos dirigen­ tes da Grã-Bretanha. Em 17 de março de 1938, cinco dias após a anexação da Áustria, o Comissário do Povo de Ne­ gócios Estrangeiros, Litvínov, fêz, em Moscou, alumas de­ clarações aos jornalistas, em nome do Govêrno soviético, nas quais, entre outras coisas, afirmou: — "S e os casos de agressão se haviam registrado an­ tes em continentes mais ou menos âfastados da Europa ou no extremo da E u ro p a.. . desta vez a violência se produ­ ziu no centro da Europa, provocando um iniludível perigo tanto para os onze países que agora fazem limites com o agressor, como para todos os Estados Europeus, e não so­ mente europeus. . . ‘ Surge, em primeiro lugar, uma ameaça para a Tcheco-Eslováquia. . . A atual situação internacional faz surgir ante todos os Estados pacíficos e, em particular, perante as grandes po­ tências, o problema de sua responsabilidade pelo destino dos povos da Europa e não somente da Europa. O Govêrno so­ viético está consciente da parcela de responsabilidade que lhe cabe, como também dos compromissos que lhe dizem respeito na Carta da Sociedade das Nações, no pacto BriandKellog e nos tratados de assistência mútua que firmou com a França e a Tcheco-Eslováquia, e pode declarar em seu nome que está disposto, como antes, a participar nas ações coletivas acordadas conjuntamente com êle e que tenham por fim deter o desenvolvimento da agressão e eliminar o cres-<

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cente perigo de uma nova guerra mundial. O Govêrno so­ viético está disposto a examinar imediatamente, junto com outras potências, na Sociedade das Nações ou à margem dela, as medidas práticas ditadas pelas circunstâncias" t15 Simultâneamente, recebi de Moscou a indicação de en­ tregar ao Govêrno britânico o texto das declarações de Li­ tvínov, acompanhando-as uma nota na qual se dizia que as citadas declarações expressavam oficialmente o ponto de vista do Govêrno soviético. Assim o fiz. O mesmo fize­ ram também, cumprindo as instruções recebidas de Moscou, os embaixadores soviéticos em Paris e W ashington. Assim, portanto, a U R S S declarou publicamente que estava dis­ posta a adotar medidas enérgicas contra a agressão e exor­ tou a Inglaterra, a França e os Estados Unidos a procede­ rem da mesma maneira. A União Soviética cumpriu com o seu dever. E os outros? Em 24 de março, o Ministério das Relações Exterio­ res da Grã- Bretanha enviou à Embaixada soviética uma longa nota firmada por Halifax. Nela se dizia que o Go­ vêrno britânico “saudaria calorosamente a realização de uma conferência internacional na qual participassem todos os Estados europeus” (isto é, os agressores e os não-agressores. — I . M . ) , porém se opunha à realização de “uma conferência com o desígnio. . . de organizar uma ação con­ junta contra a agressão”, pois, no parecer do Govêrno bri­ tânico, semelhante conferência teria um efeito desfavorável para a paz européia.16 Assim, portanto, em vez de lutar contra os agressores, estéreis conversações com êles! Um nôvo “Comitê de nãointervenção”, porém não somente nos assuntos espanhóis, mas também nos de tôda a Europa! Dito de outro modo, pílulas calmantes para as grandes massas, a fim de dar tem­ po aos agressores para que preparassem novos “saltos”. Isso era o que queria o Govêrno inglês! Assim traduzia na prática as palavras de Halifax sôbre o desejo de que se pro­ duzissem mudanças na situação européia “por meio de uma evolução pacífica”!
15 Izvestia, 18 de m arço de 1938. 16 Docum ents on British Foreign Policy (1 9 1 9 -1 9 3 9 ), Third Series, vol. I, L . , pág. 101, 1949. (A seguir, d b f p . )

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A reação em Paris e Washington ao chamado sovié­ tico não foi melhor que a de Londres. Poderia crer-se que a anexação da Áustria deveria fa­ zer com que Chamberlain agisse dentro da razão, por pouco que fôsse, levando-o a ser mais prudente nas relações com os ditadores fascistas. Nada disso! Cego pelo ódio à União Soviética, Chamberlain nada quis ver. Prosseguiu obstina­ damente na sua política funesta (funesta para a própria In­ glaterra) e, em 16 de abril, assinou o tratado de amizade e colaboração com a Itália, que buscava tão ansiosamente. Êsse tratado continha, entre outras coisas, o reconhecimento do Govêrno britânico da ocupação da Etiópia pela Itália. Não obstante, movido pelo desejo de tranqüilizar as massas democráticas da Inglaterra, que consideravam a assinatura do tratado anglo-italiano naquele momento como uma trai­ ção à República Espanhola, Chamberlain fêz uma ressalva importante: comprometeu-se a ratificar o tratado ünicamente depois que a Itália evacuasse da Espanha suas tropas em consonância com o plano que então era elaborado pelo “Comitê de não-intervenção nos assuntos espanhóis”. Mais adiante direi como Chamberlain cumpriu êsse compromisso. Lembro-me que, na primavera de 1938, encontrei-me com lady Vansittart em uma recepção. Estava muito depri­ mida. O afastamento do seu marido do trabalho ativo na aplicação da política externa inglêsa, a nomeação de Halifax como Ministro da Relações Exteriores, a preponderân­ cia dos clivedenianos no Govêrno e outras muitas coisas haviam-na tornado pessimista ao extremo. — V an está convencido — disse-me ela — de que a guerra se acha muito próxima, logo ali ao virar a esquina. . . Que desgraça para nós têrmos um Primeiro-Ministro tão imprestável em momentos tão difíceis! Lady Vansittart perguntou-me depois pelo estado das relações anglo-soviéticas. Narrei-lhe com tôda franqueza como andavam as coisas, e ela, juntando as mãos com amar­ gura, exclamou: — Recorda-se como V an conseguiu, há quatro anos, suavizar as relações entre os nossos dois p a íses?... Tudo foi pôsto a perder agora! Respondi:

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— Sim, em 1934 e 1935, com o concurso do seu ma­ rido produziu-se o degêlo nas relações anglo-soviéticas; po­ rém a g o r a .. . • — Agora o quê? — interrompeu-me impaciente.. — Agora — concluí — a temperatura nas relações anglo-soviéticas está abaixo de zero. Lady Vansittart voltou a juntar as mãos e acrescentou, com profundo sentimento: — Em todo caso, V an fêz o que pôde.

MUNICH

Porém se Chamberlain não soube obter nenhum ensi­ namento do colapso da Áustria, Hitler mostrou ser muito mais capaz. O “salto” a Viena foi, para êle, uma prova im­ portante: o ditador nazista queria comprovar como reagi­ riam as "potências democráticas" diante da sua agressão. A comprovação mostrou que a Inglaterra e a França não se movimentaram. Não é de surpreender que Hitler o interpre­ tasse assim: Caminho livre! E dois meses após a ocupação da Áustria empreendeu uma nova "operação”, ainda mais grave. Ocorreu o que Litvínov havia predito em suas declara­ ções de 17 de março: a ameaça caiu sôbre a Tcheco-Eslováquia. Hitler iniciou em maio de 1938 furiosa campanha contra êsse país, na qual não participaram apenas a im­ prensa e o rádio: as tropas alemãs começaram a concentrarse na fronteira com a Tcheco-Eslováquia, enquanto que no interior dêsse país os nazistas dos Sudetos, obedecendo a ordens de Berlim, lançaram-se às mais insolentes provoca­ ções contra o Govêrno tcheco. A atmosfera política se eletrizava cada dia mais na Tcheco-Eslováquia e no restante da Europa Central, na Inglaterra e na França. Cheirava a pól­ vora. Porque a França tinha um pacto de assistência mútua

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com a Tcheco-Eslováquia, e se a Alemanha agredisse a esta, ela estava obrigada a sair em sua defesa. A Inglaterra não tinha um pacto formal dêsse tipo com a Tcheco-Eslováquia, porém como aliada imediata da França, não podia tampou­ co ficar à margem. Em agôsto, a situação tornara-se tão ameaçadora e o alarma e a inquietação das massas francesas e inglêsas eram tão fortes que o Govêrno britânico viu-se obri­ gado a fazer algo para atenuar a tensão criada. Que fêz êle? Algo que correspondia plenamente ao espírito de Cham­ berlain : Ao invés de declarar firmemente que a Inglaterra e a França não permitiriam que Hitler tragasse a Tcheco-Es­ lováquia (e essa providência tinha então probabilidades de deter o braço do agressor), o Govêrno de Chamberlain re­ solveu enviar à Tcheco-Eslováquia uma missão presidida por lorde Runciman. Quem era lorde Runciman? Um velho dignitário que jamais se havia ocupado dos assuntos inter­ nacionais, surdo, lerdo e que não sabia sequer com exatidão onde ficava a Tcheco-Eslováquia, como pude comprovar durante uma conversação que mantive com êle no verão de 1938. Que objetivo foi atribuído à missão de Runciman? Oficialmente, devia "estudar” no terreno a situação e apre­ sentar uma proposta de mediação para solucionar o conflito germano-tcheco. De fato, como mostraram os acontecimen­ tos, o “trabalho” da missão limitou-se a desbravar o cami­ nho para o desmembramento da Tcheco-Eslováquia. Embora a acolhida dispensada em Londres e Paris à gestão soviética de 17 de março de 1938, por motivo da anexação da Áustria, não predispusesse, de modo algum, a fazer-se novas tentativas dessa natureza, resolveu o Govêr­ no soviético, naquele momento de terrível perigo para a Tcheco-Eslováquia, apelar mais uma vez para o bom-senso dos lideres franco-inglêses. Pensávamos nós: “Talvez que a amarga experiência dos meses transcorridos desde então lhes tenha ensinado algo. . . Talvez estejam dispostos, ainda que somente agora, a ações mais enérgicas contra os agres­ sores. . . Não se deve deixar de aproveitar uma única pos­ sibilidade sequer, por menor que seja, de impedir a ca­ tástrofe” .

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Baseando-se nessas considerações, Litvínov recebeu em 2 de setembro de 1938 o encarregado de negócios francês em Moscou, Payart (o embaixador, Naggiar, encontravase ausente), e lhe declarou, com a solicitação de que o trans­ mitisse com urgência ao Govêrno francês, que em caso de agressão da Alemanha à Tcheco-Eslováquia, o Govêrno so­ viético cumpriria os confpromissos previstos no pacto sovieto-tcheco-eslovaco de assistência mútua de 1935 e presta­ ria ajuda armada ao refeçido país. Mas como, segundo es­ tipulava o pacto, o compromisso de ajuda soviética entraria em vigor somente no caso de que a França, unida à Tche­ co-Eslováquia também por um pacto de assistência mútua, tomasse armas simultaneamente contra a Alemanha, o Go­ vêrno da U R S S queria conhecer os propósitos do Govêr­ no francês ante a situação criada. Por seu lado, o Govêr­ no da JJR S S propunha ao Govêrno francês a realização ur­ gente de uma conferência de representantes dos Estados Maiores Centrais soviético, francês e tcheco — para ado­ tarem as medidas pertinentes. Litvínov supunha que a Ro­ mênia deixaria passar por seu território as tropas e a avia­ ção soviéticas, porém considerava que seria muito conve­ niente, a fim de influenciar a Romênia nesse sentido, apresen­ tar na Sociedade das Nações, com a maior rapidez possível, o problema da ajuda eventual à Tcheco-Eslováquia. Se no Con­ selho da Organização Internacional pelo menos a maioria apoiava essa ajuda (a Carta da Liga das Nações exigia a unanimidade), a Romênia se acrescentaria, sem dúvida, a ela e não se oporia a que as tropas soviéticas cruzassem seu território. Como declarou mais tarde Gottwald (Presidente da Tcheco-Eslováquia depois da guerra), aproximadamente na­ queles dias, J. Stalin deu a conhecer, pela sua conduta, ao Presidente da República Tcheca, Benes, que a União So­ viética estava disposta a prestar à Tcheco-Eslováquia aju­ da armada mesmo no caso de que a França se negasse a fazer o mesmo.17 Na manhã de 3 de setembro recebi um despacho de Moscou que continha a declaração feita por Litvínov a Pay17 Por una paz duradera, por una democracia popular!, 21 de dezem­ bro de 1949.

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art. Na situação de então era um documento do maior sig­ nificado político. Importava dá-lo a conhecer ao máximo, pois a cam arilha d e C liveden havia levado a cabo durante todo o mês de agôsto uma campanha de insinuações nos meios políticos, cuja essência consistia no seguinte: “Salvaríamos com muito prazer a Tcheco-Eslováquia, mas isso é difícil sem a Rússia, e esta guarda silêncio e foge evidentemente ao cumprimento dos seus compromissos, previstos no pacto sovieto-tcheco-eslovaco de assistência mútua” . Naquele mesmo dia, 3 de setembro, visitei Churchill em sua casa de campo de Chartwell e dei-lhe a conhecer com pormenores o conteúdo da declaração de Litvínov a Payart. Churchill compreendeu de imediato a importância des­ sa declaração e disse-me que levaria minha informação ime­ diatamente ao conhecimento de Halifax. Cumpriu sua pro­ messa, e n esse m esm o dia enviou uma carta a H alifax in­ formando-lhe circunstanciadamente da gestão de Litvínov, como confirma em suas memórias de guerra.18 Não me li­ mitando à conversação com Churchill, entrevistei-me tam­ bém com Lloyd George e Arthur Greenwood, suplente do
is Escreve W . Churchill: “E m 2 de setembro, depois do jantar, re­ cebi uma mensagem do embaixador soviético, na qual êle m c comu­ nicava que desejava visitar-me em Chartwell para um assunto da maior u rg ê n c ia ... Recebi-o, e após algumas frases preliminares narrou-me com expressões muito precisas e claras o relato que a seguir passo a fazer. De pronto compreendi que o Govêrno soviético havia preferido dirigir-se a mim, pessoa privada, com semelhante declaração, e não diretamente ao Foreign Office, temendo encontrar uma reação hostil nessa instituição. Estava claro que me transmitia essa informação con­ fiando que a levaria ao conhecimento do Govêrno de Sua Majestade. O embaixador não me disse isso, porém estava subentendido, pois não me pediu que guardasse segrêdo de sua inform ação. Com o a questão apresentada pelo embaixador tinha a maior importância, procurei dela dar conhecimento a Halifax e a Chamberlain de tal form a e em tal linguagem que não dessem lugar a qualquer atrito entre nós” . E Churchill reproduz textualmente sua carta a Halifax, na qual menciona com grande exatidão o que lhe disse então acêrca da con­ versação de Litvínov com P ayart. ( W . Churchill, Second World War, vol. I, págs. 2 6 3 -2 6 5 .) Como se vê pelo texto, os motivos e circunstâncias que me leva­ ram a dirigir-me a Churchill nesse caso foram algo diversos aos que êle expõe para explicar minha form a de agir, porém o próprio fato da minha visita está exposto corretamente.

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líder do Partido Trabalhista no Parlamento, e lhes repeti o que havia dito a Churchill. Meus cálculos eram os seguintes: os três líderes- da oposição falariam, sem dúvida, com seus companheiros de partido da gestão de Litvínov (tanto mais que, ao informarlhes sôbre ela, não lhes*pedia que mantivesse em sigilo as minhas palavras), e, por conseguinte, nos meios políticos de Londres conheceriam a verdadeira posição da U R SS ante um problema tão sério. E se algum membro do Govêrno falasse caluniosamente no Parlamento da “passividade" da U R SS no problema tcheco-eslovaco, a oposição poderia darlhe uma resposta que restabelecesse a verdade. Posterior­ mente, meus cálculos viram-se justificados plenamente. E não duvidava então, nem duvido hoje, de que a Tche­ co-Eslováquia teria sido salva e todo o curso ulterior dos acontecimentos europeus e mundiais teria tomado outros ru­ mos se o Govêrno francês houvesse apertado a mão que lhe estendeu a União Soviética em 2 de setembro, se a Ingla­ terra e a França tivessem aceito sinceramente, inclusive na­ quele momento tardio, a unidade de ação com a U R SS . Po­ rém proceder assim haveria significado indispor-se com Hi­ tler, desligar-se para sempre dos planos de “segurança oci­ dental” e renunciar às esperanças de enfrentar a Alemanha com a U R S S . .. Não, não! Nem Chamberlain nem Daladier queriam aceitar isso! Preferiam deixar-se levar por suas absurdas e fantásticas quimeras, ditadas pelo ódio de clas­ se ao País do Socialismo! No altar dêsse estavam dispostos a sacrificar a Tcheco-Eslováquia, e não somente a TchecoEslováquia . . . Disse Churchill em suas memórias de guerra que em 5 de setembro recebeu a resposta de Halifax à carta antes men­ cionada. O Ministro das Relações Exteriores declarava nela que a colocação do problema da Tcheco-Eslováquia na So­ ciedade das Nações “será agora pouco útil, porém levá-lo-ei em conta”.19 Dois dias após a resposta de Halifax a Churchill, em 7 de setembro, o jornal T h e Tim es publicou um sinistro ar­
19 W . Churchill, Second World War, v d . I, pág. 2 6 6 .

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tigo de fundo, no qual se dava a entender claramente que a melhor saída para a situação seria a entrega, pela TchecoEslováquia à Alemanha, da região dos Sudetos. O Minis­ tério das Relações Exteriores da Inglaterra apressou-se a declarar que nada tinha a ver com o artigo em questão, po­ rém ninguém acreditou nisso. Lembro-me que em 8 de setembro, no dia seguinte ao aparecimento do aludido artigo do Tim es, Halifax convidoume a visitá-lo e durante a conversação, na qual tratamos de questões diversas, manifestou-me que o Govêrno britânico não tinha nenhuma relação com o que foi mencionado no jornal. Porém tampouco eu acreditei nêle. Admitia, é cla­ ro, que nem o F oreign Of f i c e nem o Govêrno no seu con­ junto haviam dado qualquer incumbência direta e formal ao Tim es de publicar o malfadado artigo. Por acaso, são pou­ cas as vias indiretas e extra-oficiais de que dispõem as au­ toridades supremas para verem expressas nas páginas da im­ prensa os pontos de vista e as opiniões que desejam? Assim ocorreu precisamente naquele caso, pois tanto o conteúdo como o tom do artigo em causa refletiam magnificamente o espírito dos pensamentos e dos atos da cam arilha d e C li­ veden. Que motivos podia ter, portanto, para dar crédito ao desmentido de Halifax? Logo vieram os vergonhosos dias de Munich. O chefe do Govêrno britânico, "o homem do guarda-chuva” (como o batizaram naqueles dias os mordazes jornalistas) caiu < — com o enérgico concurso de Daladier — no papel de um in­ significante viajante político que se agitava convulso entre Hitler e o Govêrno tcheco-eslovaco. M ais ainda: Chamber­ lain humilhou-se até ao extremo de transformar-se no “grande carrasco” do F ü hrer nazista, exigindo da TchecoEslováquia que capitulasse perante o agressor alemão. Não obstante, antes que êsses esforços se vissem coroa­ dos de pleno êxito, a U R S S tentou mais uma vez salvar a situação. Em setembro de 1938 a Liga das Nações reuniuse em sessão ordinária. Litvínov dirigiu-se a Genebra e me chamou até lá para que participasse no trabalho da delega­ ção soviética. A atmosfera em Genebra estava ao rubro. Nos corredores da Liga corriam os rumores e as opiniões mais alarmantes. Esperava-se, de um dia para o outro, a

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agressão da Alemanha contra a Tcheco-Eslováquia. Até os pacíficos suíços faziam exercícios de defesa antiaérea e ex­ perimentavam o sistema de b lack -oa t das cidades. E Genebra soubemos que Bonnet, ministro francês dos Negócios Estrangeiros e um dos mais ferrenhos inimi­ gos da U R SS , havia ocultado à maioria dos membros do seu Govêrno a declara*ção de Litvínov a Payart. Bonnet ha­ via explicado sempre a criminosa política da França com re­ lação à Tcheco-Eslováquia invocando a “passividade da Rússia” na questão tcheco-eslovaca. Eis porque a declara­ ção feita em 2 de setembro pelo Comissário do Povo dos Negócios Estrangeiros da U R S S não lhe conviera de modo algum. Resultou que na França ninguém conhecia, nem se­ quer os membros do seu Govêrno, o propósito do Govêrno soviético de defender a Tcheco-Eslováquia. Era necessário mostrar à França e ao mundo inteiro, custasse o que custas­ se, a verdadeira posição da União Soviética. Precisamente por isso, Litvínov repetiu publicamente da tribuna da Liga das Nações, em seu discurso de 21 de setembro de 1938, tudo o que 19 dias antes havia comunicado por via diplo­ mática ao Govêrno francês através de Payart. A intriga de Bonnet fracassou e seu desmascaramento perante o mundo inteiro contribuiu para aumentar o prestígio internacional da U R SS. Dois dias mais tarde, em 23 de setembro, os represen­ tantes britânicos em Genebra, Butler e lorde De la W arr, convidaram a Litvínov e a mim para conversarmos sôbre a situação criada. Os inglêses queriam saber como a parte so­ viética imaginava os passos concretos que dimanavam da de­ claração feita por Litvínov no dia 21 na sessão da Socie­ dade das Nações. Como resposta, Litvínov propôs que se realizasse imediatamente uma conferência de representantes da Inglaterra, França e da U R S S em Paris ou em qualquer outro lugar adequado (não em Genebra) para concretizar as medidas de defesa da Tcheco-Eslováquia. -Acrescentou que o pacto sovieto-tcheco-eslovaco de assistência mútua se­ ria aplicado qualquer que fôsse a posição adotada pela Liga das Nações (esta declaração havia sido feita três dias antes ao Govêrno tcheco-eslovaco em resposta a uma pergunta sua

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sôbre a posição do Govêrno soviético). Litvínov comunicou mais adiante que o Govêrno soviético havia feito importan­ te advertência ao Govêrno da Polônia: se ocorrer à V arsóvia agredir a Tcheco-Eslováquia para tirar-lhe a região de Teschen (do que então se falava muito), a U R SS consi­ derará automàticamente anulado o pacto sovieto-polonês de não-agressão. Butler e De la W arr pareceram interessar-se muito pelas declarações de Litvínov e chegaram a mostrar certa simpatia pelos atos da U R S S . Prometeram informar ime­ diatamente a Londres do conteúdo da nossa conversação e entrevistar-se novamente conosco enquanto recebessem ins­ truções. M as, infelizmente, essa nova entrevista não che­ gou a concretizar-se, e não por culpa nossa, como é natural. Será que podia acontecer de outra forma? Porque, precisa­ mente naqueles últimos dias de setembro de 1938, Cham­ berlain e Daladier ultimavam sua "operação de traição” à T checo-Eslováquia. Litvínov propôs-me no dia 27 de setembro que regres­ sasse imediatamente a Londres. < — Sua presença ali .— disse-me êle — é agora muito mais importante do que na Suíça. Nesse mesmo dia parti de Genebra. A estação estava envolta nas mais profundas trevas, pois as autoridades lo­ cais faziam naquela noite prova de black-ou t na cidade. Na madrugada do dia 28 estava em Paris. Chovia e as co­ nhecidas ruas da capital francesa pareciam desertas e tristes. Naquele mesmo dia, por volta das quatro horas da tarde, já me encontrava em Londres e da estação fui diretamente ao Parlamento. Cheguei no momento mais dramático. Sabe-se que a primeira peregrinação de Chamberlain à Alemanha para entrevistar-se com Hitler ocorreu em 15 de setembro. O F ü hrer recebeu o Primeiro-Ministro inglês em Berchtesgaden e apresentou suas exigências à Tcheco-Eslo­ váquia, ameaçando empregar a fôrça caso esta se negasse a aceitá-las. Chamberlain regressou a Londres. Realizou-se uma reunião extraordinária dos ministros anglo-franceses, que aceitaram as exigências de Hitler. Em 19 de setembro, sob a pressão de Londres e Paris, o Govêrno tcheco-eslovaco acedeu também a elas.20 Chamberlain partiu pela segunda vez

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de avião para conversar com Hitler. A entrevista verificouse nos dias 22 e 23 de setembro em Godesberg. Chamber­ lain esperava firmemente merecer a aprovação do Führer quando pusesse na mesa a aquiescência da Tcheco-Eslová­ quia, porém se equivocou redondamente. Ao ver em Berchtesgaden que não se; encontrava perante um cavaleiro de aço, mas sim diante do “homem do guarda-chuva” coberto de trapos, Hitler resolveu que não tinha por que andar cheio de cuidados. Durante °a segunda entrevista com Chamber­ lain apresentou novas exigências, muito mais duras que as primeiras. O Primeiro-Ministro britânico sentiu-se muito desalentado; não obstante, empreendeu a tarefa de “conven­ cer” a Tcheco-Eslováquia de que cedesse mais uma vez. Regressou mais uma vez a Londres e, juntamente com Daladier, tentou, outra vez, exercer pressão sòbre Praga. Po­ rém dessa feita o tiro lhe saiu pela culatra: o Govêrno tcheco-eslovaco repeliu o “programa godesberguiano” de Hitler. Nessa decisão dos tcheco-eslovacos desempenhou papel de relevância a assertiva da parte soviética, recebida dias antes, de que estava disposta a prestar ajuda à Tcheco-Eslovãquia quaisquer que fôssem as circunstâncias, inclusive no caso de uma traição por parte da França. Hitler ficou furioso, e em 26 de setembro declarou que iniciaria as hostilidades se a Tcheco-Eslováquia não capitulasse antes das duas horas da tarde de 28 de setembro. O pânico apoderou-se de Cham­ berlain e Daladier, e o Primeiro-Ministro britânico dirigiuse a Hitler e Mussolíni, rogando-lhes encarecidamente que organizassem uma entrevista dos quatro para resolver em definitivo o problema tcheco-eslovaco. Ao mesmo tempo, com o fim de criar um determinado estado de espírito entre as grandas massas da população, o Govêrno francês decre­ tou a convocação de várias classes de reservistas, ao mesmo tempo em que o Govêrno britânico mobilizava a esquadra e adotava algumas medidas de defesa antiaérea. Todos se in­ terrogavam com terrível tensão se Hitler aceitaria a nova entrevista.
2o A cúpula da burguesia tcheco-eslovaca, inclusive Benes e vários ministros, mantinham tendências capitulantes, o que facilitou ao extre­ mo a missão de Chamberlain e Daladier.

Quanflo, em 28 de setembro, ocupei meu pôsto na tri­ buna dos embaixadores no Parlamento, Chamberlain, ner­ voso e excitado, estava de pé diante da tribuna azul e agi­ tava nervoso a mão direita, mostrando a todos uma fôlha de papel branco que apertava entre os dedos. Era uma carta de Hitler, que acabava de receber durante a sessão do Par­ lamento em resposta ao seu derramamento de lágrimas pe­ dindo a entrevista dos quatro. Hitler acedia à entrevista e Chamberlain não ocultava a sua alegria. A imensa maioria dos conservadores tributou-lhe verdadeira ovação. Os tra­ balhistas e os liberais foram mais comedidos, porém tam­ pouco ocultaram seu regozijo. Nessa situação, Chamberlain deixou o edifício do Parlamento para empreender de ime­ diato sua peregrinação a Munich. Tôda essa cena causou-me a mais deprimente impres­ são. Tinha a mesma sensação que se experimenta ao ver um grande automóvel cheio de gente que roda para o abis­ mo sem que se possa fazer nada para detê-lo. Ao abando­ nar a tribuna dos embaixadores encontrei nos corredores do Parlamento um conhecido trabalhista, que eu tinha visto aplaudindo Chamberlain. < — Por que o aplaudiu? — perguntei-lhe. < — Como não aplaudir! respondeu — Apesar de tudo, a Tcheco-Eslováquia salvou-se e é possível que não haja guerra. • Respondi-lhe: < — Não quero ser Cassandra, porém se lembre do que vou dizer: a Tcheco-Eslováquia pereceu e a guerra se tor­ nou ineviíavel. O trabalhista olhou-me surpreendido. — Está falando a sério? — inquiriu perplexo. — Absolutamente a sério. . . Quem fôr vivo verá. O que ocorreu depois é do conhecimento geral. Nos dias 29 e 30 realizou-se a conferência de Munich. Hitler es­ tava extremamente insolente. Mussolíni apoiou-o. Cham­ berlain e Daladier retorciam-se como enguias. Afinal de contas, firmou-se, à traição da Tcheco-Eslováquia, o acôr­ do de Munich, cuja essência consistia no seguinte: Transferia-se para a Alemanha a região dos Sudetos com todos os bens nela existentes, além do que a Tcheco-

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Eslováquia tinha de satisfazer às pretensões territoriais da Polônia e da Hungria ao referido país. O que restava da Tcheco-Eslováquia, indefesa e humilhada, devia receber ga­ rantias do “grande quarteto”, cujo valor, depois de tudo o que havia sucedido, quase não passava de zero. Para atenuar um jd ouco a deprimente impressão que de­ via produzir a traição ae Munich aos mais vastos setores da opinião pública inglêsa, Chamberlain convenceu Hitler de que assinassem juntos um papel declarando que daí por dian­ te não devia haver guerras entre a Inglaterra e a Alema­ nha. Um papel sem valor, útil unicamente, como se com­ provou mais tarde, para ser lançado à cesta!. . . Chamber­ lain agitou ostensivamente êsse papel no areporto de Lon­ dres ao regressar de Munich, proclamando em altos brados que estava assegurada "a paz em nosso tempo” . O ministro das Relações Exteriores, Halifax, não ficou atrás do seu Primeiro-Ministro. Nas anotações da conver­ sação que o embaixador alemão na Inglaterra, Dirksen, manteve com êle em agsôto de 1939, entre outras coisas, relata: , “Logo no decorrer da entrevista, lorde Halifax disseme que desejava expor-me com detalhes suas idéias e opi­ niões formadas depois de Munich. . . Depois de Munich êle estava persuadido de que se havia assegurado por cinqüen­ ta anos a paz para o mundo inteiro mais ou menos nas se­ guintes bases: a Alemanha, potência dominante no continen­ te com direitos preferenciais, em particular de caráter político-comercial, no Sudeste da Europa; a Grã-Bretanha não manterá ali mais que um comércio em escala modesta; a GrãBretanha e a França, defendidas na Europa Ocidental con­ tra um conflito na Alemanha por linhas de fortificações bi­ laterais, procurarão salvaguardar com medidas defensivas suas possessões e desenvolver seus recursos (naturais); ami­ zade com os Estados Unidos; amizade com Portugal; a E s­ panha é, no momento, um fator impreciso que, em todo caso, deve necessàriamente permanecer à margem de tôdas as com­ binações das potências durante os próximos anos;21 a Rús­ sia, situada à margem, é um país grande e difícil de abar21 Nos dias de Munich não havia terminado ainda a guerra da Es­ panha .

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car; anseio'da Grã-Bretanha de assegurar para si através do Mediterrâneo, Aden, Colombo e Singapura, o caminho dos domínios e do Extremo Oriente”.22 É difícil afirmar, ao ler essas linhas, o que nelas se en­ contra em maior quantidade: a contumácia imperialista ou a fenomenal cegueira perante a história. Uma coisa está clara: Halifax não compreendia, em absoluto, o que esta­ va acontecendo no mundo. Quão significativa é, em parti­ cular, sua observação de que “a Rússia, situada à margem, é um país grande e difícil de abarcar”! Halifax não encon­ trou nada mais coerente para dizer de um povo que habita uma sexta parte do mundo e é o porta-estandarte do futuro da humanidade! A reação na Inglaterra ante o acôrdo de Munich foi muito violenta. As grandes massas do povo, que compreen­ diam a essência dos acontecimentos melhor que Halifax, sen­ tiam-se indignadas pela traição à Tcheco-Eslováquia e alar­ madas pelo crescente perigo de guerra. Os círculos mais perspicazes da classe dominante compreendiam que o Pri­ meiro-Ministro arrastava o país para* o abismo e se sentiam profundamente humilhados pelo triste papel que havia de­ sempenhado nesta trágica história. Houve, inclusive, um membro do Govêrno, Duff Cooper, Ministro da Marinha, que não pôde suportar o ocorrido e demitiu-se ostensivamcnte em l 9 de outubro de 1938. Não obstante, a cam arilha d e C liveden cerrou fileiras mais compactas e procurou des­ carregar sua responsabilidade pelo crime histórico.. . sôbre a União Soviética! De tudo o que ficou dito, isso poderá pa­ recer um absurdo, mas foi assim. Em 11 de outubro de 1938, dez dias depois da trai­ ção de Munich, o ministro lorde W interton pronunciou extenso discurso em uma reunião pública, no qual disse que os inglêses e franceses tinham-se visto na necessidade de fa­ zer concessões a H itler. . . Sabem por quê?. . . pela fraque­ za militar da União Soviética e, como conseqüência disso, pela sua incapacidade e falta de desejo de cumprir os com­ promissos assumidos no pacto de assistência mútua com a T checo-Eslováquia.
22 D ocumentos y materiales de vísperas de la Segunda G uerra M un­ dial, t. II, pág. 133, ed. em espanhol, Moscou, 1948.

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Ao ler nos jornais o discurso de W interton senti-me profundamente indignado e pedi imediatamente uma entre­ vista com Halifax, a quem expressei meu protesto contra as caluniosas inverdades de W interton. Ao mesmo tempo, distribuí uma nota à imprensa, em nome da Embaixada so­ viética, na qual dizia: “A declaração de "W interton falseia por completo a verdadeira posição do Govêrno soviético ante o problema da Tcheco-Eslováquia. Eçsa posição foi formulada com exa­ tidão e precisão, sem deixar margem a nenhuma confusão, pelo Comissário do Povo de Negócios Estrangeiros, M. Litvínov, quando do discurso que pronunciou em Genebra, a 21 de setembro, na sessão plenária da Sociedade das N a­ ções. Litvínov resumiu em seu discurso a conversação que havia mantido em Moscou em 2 de setembro de 1938 com o encarregado de negócios francês e declarou que a U R SS tem o propósito de cumprir todos os compromissos decorren­ tes do pacto sovieto-tcheco-eslovaco e, juntamente com a França, prestar à Tcheco-Eslováquia a ajuda necessária por todos os meios ao seu alcance. , Acrescentou Litvínov que o Comissariado do Povo de Defesa da U R S S está disposto a entabular imeditamente ne­ gociações com os representantes dos Estados Maiores Cen­ trais da França e da Tcheco-Eslováquia a fim de traçar me­ didas concretas para a ação em comum”.23 Pensava que tudo acabaria aí. Nada disso! Na ma­ nhã seguinte, 12 de,outubro, vi nos jornais um resumo de nôvo discurso de Winterton em uma reunião pública, na qual êle voltava a repetir sua falaz afirmativa. Isso me Indignou mais ainda e entreguei à imprensa uma segunda nota da Embaixada, mais enérgica que a primeira. Dizia nela que era inútil discutir com um homem que fechava premedita­ damente os olhos perante a verdade, mas que a mentira não poderia transformar-se em verdade por mais que fôsse repe­ tida. A polêmica entre a Embaixada soviética e um mem­ bro do Govêrno britânico, em uma atmosfera tão aquecida como a daqueles dias, atriu a atenção geral. Os trabalhis­
23 Pravda, 14 de outubro de 1938.

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tas fizeram uma interpelação no Parlamento, à qual o pró­ prio Primeiro-Ministro teve de responder. É fácil de com­ preender como isso foi desagradável para êle e os esforços que fêz para desculpar seu colega de ministério. Apesar disso, Chamberlain viu-se obrigado a desautorizar W interton. Havíamos recebido uma pequena satisfação .. . Sim, pequena! Porque o que era verdadeiramente gran­ de, importante e primordial a erguer-se então em tôda sua estatura perante nós, ante o Estado e o Govêrno soviético —■isto é, a posição da Inglaterra no concerto internacional — só podia suscitar em nós (e o suscitava, com efeito) profun­ da inquietude e indignação. Em Munich, havia tomado for­ ma o decantado “pacto dos quatro”, dirigido contra a U R SS, em sua variante mais abominável e repugnante: um "pacto dos quatro” no qual os ditadores fascistas eram senhores absolutos e os representantes da Inglaterra e da França os seguiam cacarejando, diligentes e medrosos. Como foi sin­ tomática, na realidade, a conduta do Govêrno britânico du­ rante os críticos dias de setembro! Não tentou, nem uma só vez, pelo menos, consultar o Govêrjno da U R SS sôbre o pro­ blema da Tcheco-Eslováquia e da paz européia. Tôdas as negociações de Chamberlain com Mussolíni, tôdas as suas viagens para entrevistar-se com os ditadores fascistas e to­ dos os seus acordos com êles, inclusive o de Munich, ocor­ reram à revelia do Govêrno soviético, sem sequer informarlhe do que se passava. O único contato que Halifax teve comigo sôbre os acontecimentos de setembro foi a nossa en­ trevista do dia 29, isto é, quando Chamberlain se encontra­ va em Munich e a sorte da Tcheco-Eslováquia já estava de­ cidida. M as de que falamos durante aquela conversação? D a posição da Inglaterra no tocante ao problema tchecoeslovaco? Das perspectivas e diretrizes do acôrdo com a Ale­ manha e a Itália? Nada disso! Durante a conversação de 29 de setembro, Halifax queria explicar-me por que a In­ glaterra e a França haviam acedido em realizar sem a U R SS uma conferência com os ditadores fascistas; contudo, as jus­ tificativas de Halifax eram piores que a mais grave acusa­ ção contra a política de Chamberlain. Eis aqui as verdadei­ ras palavras de Halifax, tiradas dos seus próprios aponta­ mentos sôbre nossa conversa:

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“Devemos todos levar em conta os fatos, e um dêsses fatos é, como êle ( “êle” sou eu) sabe muito bem, que os chefes dos governos alemão e italiano não teriam desejado, nas circunstâncias atuais, tomar parte na conferência ao lado dos representantes soviéticos. Consideramos vital para nós, e creio que também ,para êle, que, com o fim de evitar a guerra, se procure solucionar tôdas as questões litigiosas de um ou outro modo à base da negociação. Precisamente essa consideração levou o Primeiro-Ministro a dirigir ontem um convite a Herr Hitler, propondo-lhe a realização de uma con­ ferência para a qual poderão ser convidados outros se Herr Hitler o desejar”.24 E ra um verdadeiro atestado de pobreza passado ao Go­ vêrno britânico por seu Ministro das Relações Exteriores. Na realidade, como concebia Halifax a situação? Hitler se­ ria ò centro de tudo. O Primeiro-Ministro da Grã-Breta­ nha a suplicar-lhe a realização de uma conferência. Do pró­ prio Hitler dependia também quem teria de participar dela. Chamberlain nada podia fazer. Não apresentaria condição alguma, não expressaria sequer algum desejo. Limitar-se-ia a aceitar, com gratidão, das mãos do ditador nazista, o que êste caprichosamente desejasse lhe lançar da mesa do fes­ tim. É difícil imaginar-se um quadro mais humilhante para o chefe do Govêrno de uma das maiores potências mun­ diais, que ainda possuía possessões em todos os recantos da terra. Não ocultei a Halifax meus verdadeiros sentimentos e disse-lhe, com tôda franqueza, o que pensava das suas pa­ lavras e da política de Chamberlain nas questões interna­ cionais. Ressaltei especialmente que a fraqueza patenteada pelo Govêrno britânico durante os acontecimentos de 1938, ao invés de afastar o perigo de uma Segunda Grande Guer­ ra, o aproximava. Infelizmente, Halifax “esqueceu-se” de reproduzir essas minhas objeções em suas anotações daque­ la conversação. Por certo, coisa freqüente, nos documentos diplomáticos inglêses. Que deduções tirei, e que não podia deixar de tirar, da penosa experiência da tragédia tcheco-eslovaca?
24

d b f p , Third Series, v o l .

II, L . ,

1949, p á g s .

623-626.

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Eram simples, porém pouco consoladoras. Disse-me êle: Assim cumpre a França de Daladier os compromissos que assume nos tratados firmados por ela! Assim observa a Inglaterra de Chamberlain os preceitos da Carta da Liga das Nações!

UM A TRA PA ÇA D E C H A M BER LA IN

Em novembro de 1938, quando a agitação motivada por Munich se havia aplacado um pouco, produziu-se nôvo e grave acontecimento. Já disse que Chamberlain e Mussolíni firmaram em 16 de abril de 1938 um tratado de amizade e colaboração, mas que, desejoso de tranqüilizar, por pouco que fôsse, a opi­ nião pública inglesa, Chamberlain prometeu que o tratado não seria ratificado enquanto as tropas italianas não saís­ sem da Espanha, em consonância com o plano do C om itê d e n ão-in terven ção. Após longas discussões e desinteligêneias, êsse plano foi, por fim, aprovado, em 5 de julho de 1938. No que tange à evacuação dos combatentes estrangeiros da Espanha, o plano estipulava que a parte que tivesse menor número dêsses combatentes deveria evacuar 10.000, e a par­ te que tivesse mais, deveria recuar uma percentagem análo­ ga do total de estrangeiros que lutassem em suas fileiras. Concretamente, isso significava o seguinte: no verão de 1938, ao lado do Govêrno republicano, combatiam cêrca de 12.000 homens, os combatentes das famosas Brigadas In­ ternacionais; portanto, os 10.000 combatentes estrangeiros a serem evacuados do território da República Espanhola re­ presentavam 80% do seu número total. Em troca, ao lado de Franco lutavam então cêrca de 130.000 estrangeiros, dos quais nada menos de 100.000 eram italianos; por isso, para cumprir as condições previstas no plano do Comitê, Franco deveria enviar ao seu país nada menos de 8 0 .0 0 0 italia-

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nos. Isto, como é natural, não lhe convinha, motivo por que no outono de 1938 começou a protelar o assunto, apoiado firmemente por alemães e italianos. ■ Sem esperar que terminassem as negociações do Com itê d e não-intervenção sôbre a evacuação proporcional dos com­ batentes estrangeiros de*ambas as partes, em setembro de 1938, o Govêrno republicano renunciou, por iniciativa pró­ pria, à ajuda das Brigadas Internacionais e solicitou à Liga das Nações que enviasse uma comissão especial, como assim se fêz, para testemunhar que os republicanos cumpriam lite­ ralmente tal decisão. Franco foi pôsto em situação difícil e resolveu "fazer bonito” : declarou que estava disposto a eva­ cuar 10.000 combatentes estrangeiros. Mesmo no caso de que todos êsses fôssem italianos, não representariam mais de 10% do total de italianos que lutavam ao lado de Fran­ co. Era vez disso, o plano do C om itê d e não-intervenção exigia que 80% fôssem evacuados, isto é, 8 0.000 italianos. A proposta de Franco era um verdadeiro lôgro, e estava claro para todo mundo que de modo algum significava cum­ prir o plano do C om itê. Visto que o plano não era cumpri­ do, Chamberlain, de acôrdo com sua própria promessa de abril de 1938, não tinha o direito de ratificar o tratado anglo-italiano. Porém isso havia sido prometido antes de Munich. D e­ pois de Munich, o Primeiro-Ministro britânico se tornou "mais sábio” . Lembro-me de que durante a conversação que tive com Halifax em 11 de outubro perguntei-lhe francamen­ te: Considera o Govêrno inglês que a evacuação de 10.000 italianos da Espanha é suficiente para ratificar o tratado anglo-italiano? A resposta de Halifax foi ambígua e vaga. Falou longamente de que a evacuação devia ser abordada do ponto de vista dos problemas mais gerais, em particular visando liquidar o mais rapidamente possível com “o pro­ blema espanhol”, fonte de ‘‘agudo alarma internacional” . E , no final, Halifax disse-me que “essa consideração (isto é, a mais rápida liquidação do “problema espanhol” . — I . M .) é muito mais importante que as cifras exatas dos súditos da Itália ou de qualquer outra potência que devem ser evacua­ dos da Espanha”.25
25
d b fp ,

Third Series,

v o l.

III, L . , 1950,

pág.

331.

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I

Tudo estava claro. O Govêrno de Chamberlain que­ ria sufocar o mais rápido possível a República Espanhola e, por isso, estava disposto a fechar os olhos perante o logro de Franco. E foi isso o que fêz, no final das contas. Cham­ berlain considerou que Franco cumpria o plano do Com itê ao retirar 10.000 italianos, e o Govêrno britânico, depois dessa trapaça ratificou, em 16 de novembro de 1938, o tra­ tado anglo-italiano. Tive de repetir mais uma vez de mim para mim: “Assim, a Inglaterra de Chamberlain cumpre sua palavra!”

NO L IM IA R D E 1939

Ao iniciar-se o ano nôvo, 1939, dei involuntariamente um balanço dos meus seis anos de atividades em Londres como embaixador da U R S S . Era um balanço pouco risonho. Havia chegado à capital inglesa em 1932 com os me­ lhores propósitos e, no decorrer dos seis anos, cumprindo a incumbência do Govêrno soviético, havia envidado esfor­ ços imensos para melhorar as relações entre a Inglaterra e a U R S S . Isso coincidia também com meus prcprios senti­ mentos e aspirações: desde a minha infância senti simpa­ tia e respeito pelo povo inglês, por sua elevada cultura e sua magnífica literatura. Tinha grande desejo de auxiliar no sentido de criar uma colaboração firme entre ambos os países. Sabia muito bem que milhões e milhões de sovié­ ticos partilhavam os desejos do seu Govêrno. Porém ao en­ cetar meu sétimo ano de trabalho em Londres, tinha que comprovar com amargura que os frutos de todos êsses es­ forços eram pouco mais que modestos. 6 certo que entre a União Soviética e a Inglaterra se havia firmado (depois de encarniçada luta!) um convênio comercial provisório. É certo que no transcurso de um ano.

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depois disso, as relações anglo-soviéticas haviam tido um caráter que se podia considerar “amistoso” . É certo também que havia conseguido encontrar na Inglaterra não poucas pes­ soas inteligentes, perspicazes e influentes entre a classe do­ minante e estabelecer com elas boas relações.. . Tudo isso estava bem e era útil para a U R SS , para a Inglaterra e para a causa da paz universal. Mas, apesar de tudo, o Poder encontrava-se firmemen­ te na Inglaterra em mãos dos elementos mais reacionários do Partido Conservador. Apesar de tudo, o Primeiro-Mi­ nistro da Grã-Bretanha era Chamberlain, e o Ministro das Relações Exteriores, lorde Halifax. Apesar de tudo, a ca­ m arilha d e C liveden determinava as diretrizes fundamentais da política oficial do Govêrno. Apesar de tudo, essa polí­ tica oficial estava dirigida abertamente contra a U R SS e os princípios da segurança coletiva cifrava suas esperanças em semear a discórdia entre a Alemanha e a União Soviética e sacrificava diversos países e povos visando alcançar tais objetivos. O s exemplos da Áustria, da Tcheco-Eslováquia e da Espanha eram extremamente eloqüentes. . . E o que prometia o futuro? Negras e sombrias nuvens adensavam o horizonte eu­ ropeu. A Segunda Grande Guerra podia ser conjurada uni­ camente pelos esforços conjugados e unânimes da U R SS, da Inglaterra, da França e dos Estados Unidos. Do ponto de vista prático tinha singular importância a colaboração de Londres e Moscou-. Durante o inverno de 1938-1939 decla­ rei numa reunião pública que o problema da guerra ou da paz dependia, em última instância, do caráter que tivessem as relações entre a Inglaterra e a U R S S . Porém, de tudo o que havia visto e observado durante mais de seis anos de atividade em Londres e do que havia ocorrido na Europa em 1938 era pouco provável a estreita colaboração das po­ tências não interessadas no desencadeamento da guerra. No que menos se podia confiar era que Chamberlain acedesse a essa colaboração. . . É claro que, mesmo em condições tão desfavoráveis, es­ tava decidido a fazer tudo o que fôsse humanamente pos­ sível para conseguir a aproximação entre Londres e Moscou, pois era meu dever como embaixador soviético, era uma es­

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perança, senão conjurar a Segunda Grande Guerra, pelo menos retardá-la durante certo tempo. . . Não obstante, entrávamos no ano de 1939 com som­ brios pressentimentos e com o pesado fardo de uma pro­ funda desconfiança para com o Govêrno inglês de então e, antes de tudo, para com o seu Primeiro-Ministro, Neville Chamberlain. T al era o fundo psicológico em que desenha­ vam seus arabescos os acontecimentos daquele ano de in­ fausta memória. . . Se falo tão detalhadamente dos meus pensamentos, sen­ timentos e estado de espírito de então não é porque lhes atribua uma importância especial, pessoal. Faço-o únicamente porque refletiam com exatidão o que pensavam e sen­ tiam o povo soviético, o Estado soviético, o Govêrno sovié­ tico. Minha psicologia era uma fotografia em miniatura da psicologia de todo soviético. E somente como tal é mere­ cedora da atenção do leitor.

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Em 1939

T udo o que expus nas páginas anteriores não é mais que a pré-história d as n egociações tripartidas en­ tre a U R SS, a Inglaterra e a F ran ça p ara a assinatura d e um pacto d e assistência mútua. P o r isso, abord ei sucintam ente os acontecim entos d e 1932-1938, pon do o d e lado muitos d etalh es (às vêzes muito significativos) e traçando um quadro cuja escala se m ede p or m eses e inclusive p or an os. P asso agora às minhas lem bran­ ças das próprias n egociações tripartidas, isto é, ao tem a principal d êste livro, e d ev o m udar a escala em qu e serão representados os fato s e os acontecim entos. D aqui por dian te não s e tratará d e an os nem d e m eses, m as d e sem anas, d e dias e, em alguns casos, também d e horas. Assim será mais correto, mais gráfico e mais convincente.

A A N E X A Ç A O DA T C H E C O -E S L O V Á Q U IA E A S M A N O BR A S D E C H A M BER LA IN

S a m u e l H o a r e , Ministro do Interior e um dos mais em­ pedernidos reacionários de cam arilha d e C liveden, pronun­ ciou em 10 de março de 1939 um extenso discurso em Lon­ dres. Apresentou com o maior otimismo a situação criada na Europa depois de Munich, declarou que a Inglaterra e a França não desejavam atacar ninguém, destacou que a Ale­

manha e a Itália haviam feito reiterados protestos de fide­ lidade à causa da paz e em seguida prosseguiu: — Que aconteceria se neste ambiente de grande con­ fiança se levasse à prática um plano qüinqüenal, infinita­ mente maior que qualquer outro que tentou realizar nos últimos anos qualquer país isolado? Que aconteceria se no espaço de cinco anos não houvesse guerras nem rumores de guerras; se os povos da Europa pudessem descansar do seu recente pesadelo e do ônus esmagador das despesas para armamento? Não poderiam, nesse caso, aproveitar todos os incríveis inventos e descobertas do nosso tempo para criar uma idade áurea em que a pobreza fôsse reduzida a um mínimo insignificante e o nível geral de vida elevado a uma altura inusitada?. . . Surge uma grandiosa oportunidade para os líderes do mundo. Se cinco homens da Europa (Hoare referia-se aos dirigentes da Inglaterra, França, Alemanha, Itália e da U R S S . — I . M . ) , estivessem coesos pela uni­ dade de ação e de objetivo, poderiam transformar tôda a história do mundo em um espaço de tempo incrivelmente cur­ to. . . Nosso próprio Primeiro-Ministro já demonstrou que está disposto com tôda a alma e dê todo o coração a mar­ char sem vacilações rumo a êsse objetivo. Não posso crer que outros líderes da Europa não o apóiem em tão gran­ de aspiração.28 Quando se relê agora o discurso de Samuel Hoare tor­ na-se difícil imaginar-se um modêlo mais claro de hipocri­ sia, torpeza e completa incompreensão do que ocorre no mundo (embora, por outro lado, Halifax falasse depois de Munich em um comêço de cinqüenta anos de paz na Eu­ ropa!). Mas também, em março de 1939, todos os políti­ cos mais sensatos e dotados de raciocínio consideraram que o discurso de Hoare era absurdo e perigoso, já que podia entorpecer vastos setores da população e desarmá-los psi­ cologicamente perante o extraordinário perigo bélico. A vida real pôs imediatamente a nu o verdadeiro valor do dou­ rado ouropel tão prodigamente difundido pelo Ministro do Interior.

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T he Tim es, 11 de m arço de 1939.

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Cinco dias após o discurso de Samuel Hoare, em 15 de março, Hitler lançou-se como um raio sôbre a TchecoEslováquia, ocupou Praga, declarou a Boêmia e Morávia protetorado alemão e fêz da Tcheco-Eslováquia um “Esta­ do independente” . A Europa sentiu-se sacudida pelo golpe de um terremoto político. O acôrdo de Munich tinha sido reduzido a farrapos. * E Chamberlain? Nesse mesmo dia,» 15 de março, o Primeiro-Ministro teve que falar na Câmara dos Comuns sôbre a anexação da Tcheco-Eslováquia. Viu-se obrigado, é claro, a conde­ nar verbalmente a conduta de Hitler, porém não conside­ rou necessário recomendar ao Parlamento a adoção de qual­ quer medida prática. Continuou a repetir obstinadamente que tenderia, como antes, a volta à atmosfera de compreen­ são mútua e boa-vontade entre tôdas as potências e a so­ lução dos litígios internacionais por meio de negociações. Afirmou também que, apesar de tudo o que havia ocorri­ do, considerava acertada sua política de Munich e estava certo de contar com a simpatia da opinião pública mundial. „ A posição de Chamberlain provocou uma reação vio­ lenta não somente da oposição trabalhista e liberal, como até de certos elementos do Partido Conservador. Eden, em particular, criticou duramente a política exterior do Govêr­ no e advertiu que a anexação da Tcheco-Eslováquia seria se­ guida de novos atos de agressão dos ditadores fascistas. E xi­ giu enèrgicamente a formação de um Govêrno de coalizão de todos os partidos que se atribuísse como objetivo lutar de modo eficaz contra a agressão, estabelecendo para isso estreita colaboração com os demais Estados pacíficos.27 No dia seguinte, 16 de março, a imprensa inglêsa ata­ cou unânimemente a Alemanha e declarou aos quatro ven­ tos que não se podia acreditar em Hitler. O jornal T he Times qualificou a anexação da Tcheco-Eslováquia de "ato cruel e brutal de esmagamento”; o D aily T elegraph caracterizou-o como "um crime monstruoso”; o D aily H erald chamou a agressão de Hitler de postscriptum d e M unich e exortou o país a organizar a resistência aos ditadores fascistas con­
27 Parlicimentary Debates. House of Commons, vol. 345, col. 435-462.

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juntamente com a França, a U R SS e os Estados Unidos; o Y orkshice P ost (órgão chegado a Eden) declarou que não se podia confiar tanto nas promessas nazistas como o fizera o Govêrno britânico durante os últimos tempos. No mesmo espírito manifestaram-se também os demais órgãos da im­ prensa . Estava claro que vastos setores sociais e políticos da Inglaterra, em particular das massas trabalhadoras, sen­ tiam-se profundamente indignados tanto pela agressão de Hitler como pelos atos do seu próprio Govêrno. Em tal situação, Chamberlain viu-se obrigado a manobrar. Mudou de tom imediatamente. Já em 17 de março, isto é, dois dias depois da sua intervenção no Parlamento, pronunciou ex­ tenso discurso numa reunião de conservadores de Birmingham. Como demonstraram os acontecimentos posteriores, a "alma” de Chamberlain não havia mudado no mínimo, po­ rém o tom do seu discurso foi completamente diverso do de dois dias antes. Desta vez, o Primeiro-Ministro pediu per­ dão por sua excessiva moderação no Parlamento, explican­ do-a pela insuficiência das informações recebidas até aque­ le momento acêrca dos acontecimentos da Tcheco-Eslová­ quia, condenou com dureza os atos agressivos de Hitler e jurou que a Inglaterra oporia resistência até o último extre­ mo a qualquer intenção da Alemanha de implantar seu do­ mínio mundial. Não obstante, foi muito vago e inclusive am­ bíguo ao falar do que se devia fazer com a finalidade de conjurar êsse perigo. Aproveitou a ocasião, em particular, para declarar que não estava de acôrdo em assumir-se com­ promissos indeterminados. que seria preciso cumprir em cir­ cunstâncias impossíveis de então se prever. Traduzido em linguagem mais simples, isso significava que Chamberlain era contrário a que se firmasse com outros países (levava em conta, em primeiro lugar, como é natural, a U R S S . ^ I . M . ) pactos de assistência mútua de caráter mais geral. No dia seguinte, 18 de março, Chamberlain empreen­ deu nova manobra, cujas conseqüências, como é de supor, não previu, to g o depois da anexação da Tcheco-Eslová­ quia, correram pela Europa boatos insistentes (originados, talvez, de Berlim) de que a próxima vítima da Alemanha seria a Romênia. Êsses boatos eram propalados, em Lon­

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dres, de modo particularmente ativo, pelo ministro plenipotenciário romeno, Tilea. Tão eletrizada estava a atmosfe­ ra, que fàcilmente se acreditava em semelhantes boatos, pois o nôvo “salto”, dessa vez na direção da Romênia, corres­ ponderia, absolutamente, aos apetites agressivos do Führer. Todos lhe admitiam essa possibilidade e até probabilidade. Os boatos em questão chegaram ao conhecimento do govêr­ no britânico, preocupando-o sèriamente. Em conseqüência de ludo isso, o embaixador inglês em Moscou, Seeds, visitou, na manhã do dia 18 de março, o Comissário do Povo dos Negócios Estrangeiros, Litvínov, e, por ordem do seu govêrno, perguntou-lhe que faria a U R SS caso Hitler agredisse a Romênia. Na tarde do mesmo dia, Litvínov respondeu, por ordem do govêrno soviético, que a melhor forma de lutar contra o perigo que ameaçava a Romênia seria convocar, imediatamente, uma conferência de representantes da Inglaterra, França, U R SS , Turquia, Po­ lônia e Romênia. O govêrno soviético, acrescentou Litvínov, achava que, do ponto de vista psicológico, o melhor seria realizar essa conferência em Bucarest, mas estava disposto a aceitar qualquer outro ponto que considerassem convenien­ te os demais participantes. Assim se iniciaram as negociações de 1939 entre a U R SS, a Inglaterra e a França, negociações que tão impor­ tante papel deviam desempenhar nos acontecimentos que precederam a Segunda Grande Guerra. Será oportuno fazer, aqui, uma pausa para examinar a que fins visava cada uma das partes, ao encetar essas ne­ gociações. A U R SS procurava, mais do que nunca, preservar a paz. Compreendia perfeitamente até que ponto estava próximo o perigo da Segunda Guerra Mundial e se dispunha a apro­ veitar qualquer meio adequado para impedi-la, ou, pelo menos, retardá-la. A U R S S não tinha ilusão alguma. A experiência do passado só deixara nela desconfiança e irri­ tação extremas em relação ao govêrno britânico e, particular­ mente, a Chamberlain; mas, ao seu ver, no âmbito interna­ cional, era preciso aplicar uma política de raciocínio e não de sentimentos. Por isso, ainda naquele momento, depois das desilusões dos três anos anteriores, julgava necessário

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procurar conseguir a colaboração da Inglaterra e da França para lutar contra os agressores. Os representantes soviéticos tinham a esperança de que a tragédia da Tcheco-Eslováquia talvez houvesse aberto os olhos até dos clivedenianos, fa­ zendo-os ver o perigo que implicava para a própria Inglater­ ra o “apaziguamento” de Hitler e que, em vista disso, o govêrno de Chamberlain acedesse, por fim, a colaborar, efi­ cazmente, com a U R SS para conjurar a Segunda Guerra Mundial. Porém, no caso dessa esperança resultar em pura ilusão, era mister intentar, de tôdas as formas, um acôrdo com Chamberlain e Daladier. Daí ter o govêrno soviético respondido com rapidez tão fenomenal (no mesmo dia!) à indagação formulada pelo govêrno britânico em 18 de mar­ ço e feito proposta que lhe testemunhava a disposição de adotar medidas eficientes contra o perigo que ameaçava a Romênia. Muito diverso foi o comportamento do lado britânico, isto é, do govêrno de Chamberlain, concretamente. Confor­ me demonstraram os ulteriores acontecimentos, a tragédia da Tcheco-Eslováquia nada, absolutamente, havia ensinado à cam arilha d e Cliveden. A linha geral do govêrno de Cham­ berlain não se alterou em coisa alguma. Ê sse govêrno con­ tinuou a cifrar as suas esperan ças principais no desen cadeamento d e uma guerra germ ano-soviética ; por isso indispor-se com Hitler era o que menos desejava. Chamberlain, •(neste e nos sucessivos casos, refiro-me a êle não só como pessoa, mas também como incarnação da maioria do Partido Con­ servador) ainda seguia a política do ódio de classes relativa­ mente à U R S S 28 e essa paixão o cegava de tal modo que não via, nem queria ver o abismo que com crescente evi­ dência se abria, precisamente naquele momento, ante a Grã28 Keith Feiling, biógrafo de Chamberlain, cita o seguinte fragmento de carta escrita por êste à sua irmã, em 26 de m arço de 1939: “Devo confessar que sinto a mais profunda desconfiança em re­ lação à Rússia. Não creio, absolutamente, na sua capacidade de sus­ tentar uma ofensiva eficaz, mesmo no caso de querer fazê-lo. E des­ confio dos seus motivos que, a meu ver, pouco têm de comum com as nossas idéias de liberdade. O que ela quer é, apenas, esmagar todos nós” (Keith Feiling, T he L ife o f Neville Chamberlain, L . , 1946, pág. 4 0 3 . Vemos, pois, que a nossa desconfiança de então com relação a Neville Chamberlaih era mais do que justificada.

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Bretanha. Daí também dimanava a sua conduta durante as negociações de 1939. Se se houvesse preocupado, efetiva­ mente, com a preservação da paz, conforme declarou em mais de uma ocasião, o Primeiro-Ministro inglês teria apro­ veitado com alegria a proposta que lhe fêz a União Sovié­ tica em 18 de m arço.»E, se tivesse isso feito, todo o curso dos ulteriores acontecimentos haveria tomado outros rumos. É possível e até provável que, nesse caso, não tivesse ha­ vido a Segunda Guerra Mundial. Chamberlain, contudo, tal qual um pássaro carpinteiro, continuou repisando, teimosa­ mente, um ponto: a guerra sovieto-alemã! Por isso, em 18 de março, longe de apertar com alegria a mão que lhe es­ tendia a U R SS , começou a sabotagem sistem ática d e tôdas as tentativas d e colaboração honesta com o govêrn o sovié­ tico, sabotagem que informou a conduta da Inglaterra até o fim cias negociações. Chamberlain estava tão fundamente certo da infalibilidade dos seus cálculos políticos e da ine­ vitabilidade do choque germano-soviético que nem sequer observou que a guerra se aproximava, furtivamente, de seu país muito antes de atingir a União Soviética. Disso, entre­ tanto, falaremos mais adiante, com maior detalhe. Sim, a sabotagem (não se pode encontrar outro nome) das negociações com a U R S S começou em 18 de março de 1939. No dia seguinte, recebi telegrama de Moscou, no qual me informavam das conversações travadas, na véspera, entre Seeds e Litvínov. Lembrado da "subjetividade” ten­ denciosa, durante ò conflito anglo-soviético, por culpa da M etropolitan -V ickers (1 9 3 3 ), de sir Esmond Orvey, que enviara a Londres informações muito inexatas acêrca das suas conversações com Litvínov, resolvi, desta vez, paralela­ mente às negociações anglo-soviéticas de Moscou, de mi­ nha parte informar Halifax de tudo quanto aí ocorresse. Assim, seria mais fácil prevenir qualquer desinformação de Seeds, se êste tivesse a idéia de seguir o exemplo de O r­ vey. Entretanto, a bem da justiça, devo dizer, que, no tem­ po todo que duraram as negociações tripartidas, não tivemos o menor motivo para pôr em dúvida a boa fé de Seeds. Muito bem: ao receber, em 19 de março, o comunicado de Moscou acêrca das conversações Seeds-Litvínov, pedi, sem demora, uma entrevista com Halifax e lhe repeti o que

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Litvínov dissera a Seeds. Halifax me agradeceu a infor­ mação e acrescentou que o govêrno britânico examinara, já na manhã do dia 19, a proposta soviética de realizar, ime­ diatamente, uma conferência das seis potências, chegando à conclusão da sua improcedência. Perguntei-lhe por quê. A resposta de Halifax foi muito significativa. O Minis­ tro das Relações Exteriores britânico expôs dois argumen­ tos: primeiro, o Govêrno inglês não poderia, naquele mo­ mento, encontrar homem de suficiente responsabilidade para mandar àquela conferência; segundo, era arriscado convocar a conferência sem saber como terminaria. Olhei, surpreendido, para Halifax e não escondi que os seus argumentos nada tinham de convincentes. Exprimi, particularmente, a opinião de que a conferência não podia falhar, se a U R SS, a Inglaterra e a França mantivessem, enquanto ela decorresse, a sua unanimidade. M as Halifax não se pôs de acôrdo comigo e chegui à única conclusão a que se podia chegar: evidentemente, o ministro britânico não acreditava possível a unanimidade dg U R SS , de um lado, e da Inglaterra e França, de outro. Isso, por si, era sintomá­ tico. Em resumo, Halifax disse-me que os governos britâ­ nico e francês, compreendendo plenamente a necessidade de proceder com urgência, estavam examinando outra medida capaz de substituir a proposta soviética. Não deu, no en­ tanto, resposta mais concreta à minha pergunta sôbre que medida se estava considerando. 29 Isso se esclareceu daí a dois dias: 2 1 de março. Os inglêses e franceses apresentaram o projeto de publicar, sem mais tardar, uma declaração firmada por quatro potências: Inglaterra, França, U R S S e Polônia. Nessa declaração dizia-se que, em caso de nôvo ato de agressão, as mencionadas potências se consultariam, ur­ gentemente, para exame das medidas a adotar. O govêrno soviético tornou a responder com grande ra­ pidez: Litvínov comunicou a Seeds, em 2 2 de março, e eu a Cadogan (subsecretário permanente das Relações E xte­ riores), no dia seguinte, que, embora não considerasse efi­ caz tal medida, a U R SS estava disposta a assinar a decla­
29 dbfp, Third Series, v o l. V , L . , 1952, pág. 392.

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ração proposta desde que assim o fizessem a França e a Po­ lônia. A essa mesma data, Chamberlain declarou, no Par­ lamento, que era adverso a que se criassem, na Europa, blo­ cos de potências que se encontrassem em oposição entre si. 30 Isto diminuiu ainda mais a importância, por si peque­ na, da declaração dos. quatro, proposta por inglêses e fran­ ceses. Entretanto, a declaração, dessangrada até politicamen­ te, estava predestinada *a não nascer: a Polônia recusou-se a assiná-la junto com a U R S S ; e Chamberlain e Daladier não julgaram necessário exercer sôbre ela a influência de­ vida. No curso da conversa travada em 23 de março, Cadogan explicou-me que o procedimento do govêrno polonês resultava do seu temor de que união tão pública com a U R SS provocasse a ira da Alemanha .31 Admito que tal motivo pu­ desse1 desempenhar certo papel na recusa por parte dos po­ loneses de assinar a decluaração; mas o principal era, na­ turalmente, outra coisa: era a profunda hostilidade do go­ vêrno polonês de então (o tristemente célebre “govêrno dos coronéis” ) com relação à União Soviética, hostilidade que, conforme veremos mais adiante, pregou o último prego no féretro das negociações tripartidas de 1939. Falhou, pois, o projeto de declaração das quatro po­ tências. Que restava a fazer aos clivedenianos? O maior de­ sejo dêles era não fazer nada, mas isso vinha a ser difí­ cil. A onda de indignação popular que a anexação da Tcheco-Eslováquia .havia levantado na Inglaterra, era mui­ to grande. Hitler ocupou Memel em 2 2 de março e Mussolíni pronunciou discurso tonitruante, apoiando essa ação; o que fêz aumentar ainda mais o espírito antifascista na GrãBretanha. Chamberlain teve de recorrer, outra vez, a ma­ nobras capazes de tranqüilizar, por menos que fôsse, a opi­ nião pública exacerbada. E uma coisa ocorreu que lhe patenteava o completo desconcêrto. No dia 31 de março, o Primeiro-Ministro convocou-me, inesperadamente, para as 12 horas da manhã. Já no seu gabinete, entregou-me uma fôlha de papel e disse-me: — Peço-lhe que leia isto.
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s® Parliamentary Debates. H ouse o f Commons, v o l . 345, c o l . d b f p , Third Series, v o l . IV , p á g . 5 3 1 .

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Percorw, rapidamente, os olhos nas linhas impressas, Era uma declaração oficial do govêrno britânico, dizendo que, enquanto durassem as negociações em curso com outras po­ tências, o govêrno britânico acudiria em socorro da Polô­ nia com todos os meios ao seu alcance se, durante êsse temp.*, se produzisse “alguma ação que ameace, claramente, a independência da Polônia e que o govêrno polonês considere tão vital que lhe oponha resistência com as suas fôrças nacio­ nais”. A Inglaterra não exigia reciprocidade alguma da Po­ lônia. — Tornarei pública esta declaração, hoje, às duas ho­ ras da tarde, na Câmara dos Comuns — disse-me ChamberIain, quando terminei a leitura. Espero que o seu conteú­ do não suscite objeções da sua parte, pois o Sr. Stahn pro­ meteu também, no recente Congresso do Partido dos se­ nhores, o apoio da União Soviética a qualquer país que fôsse vítima de agressão e opusesse resistência ao agressor... Posso dizer, hoje, no Parlamento, que a nossa garantia à Polônia conta com a aprovação da União Soviética? Sentia-me indignado com a faltà de circunspecção de Chamberlain; mas conservei, aparentemente, a serenidade e respondi: — Não compreendo a sua solicitação. O govêrno britâ­ nico resolveu dar garantias à Polônia por conta própria, sem nenhuma consulta prévia ao govêrno soviético. Esta reso­ lução é-me dada a conhecer só agora, duas horas antes de ser tornada pública na Câmara dos Comuns. Não tenho ne­ nhuma possibilidade física de pôr-me em contato com o meu govêrno em prazo tão curto e de saber o que êle pensa acêr­ ca da declaração dos senhores. Como posso, pois, autori­ zá-lo a anunciar que o govêrno soviético aprova a declara­ ção? Não, seja qual fôr o conteúdo desta declaração, não posso assumir a responsabilidade de lhe dar tal autorização. Chamberlain exprimiu o seu pesar pela minha respos­ ta e nos despedimos. Nesse mesmo dia, o Primeiro-Ministro deu a conhecer ao Parlamento a resolução tomada pelo go­ vêrno. A Câmara aprovou-a. Nas suas palavras de apre­ sentação, Chamberlain não se animou a declarar que a ga­ rantia inglêsa à Polônia fôra aprovada pela União Sovié­

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tica; mas disse: “Não duvido que os princípios que servem de base às nossas ações encontrem compreensão e simpa­ tia no govêrno soviético” . O Primeiro-Ministro precisara di­ zer isso para criar a impressão (talvez o grande público não perceba os detalhes!) de que o govêrno britânico estava em contato com o govêrno soviético, a fim de elaborar, conjun­ tamente, as medidas de luta contra a agressão fascista. As massas democráticas do país exigiam, então, êsse contato e, naturalmente, o mais estreito possível. A França deu, simultâneamente, a mesma garantia à Polônia. Daí a três dias, chegou a Londres o ministro polonês das Relações Exteriores, Beck, que era, de fato, o líder do “govêrno dos coronéis” . Permaneceu lá três dias e entabulou negociações com Chamberlain e Halifax, negociações das quais resultou que a garantia unilateral da Inglaterra à Polônia se transformasse em bilateral: no caso de “qualquer ação” ameaçar a independência britânica, a Polônia também acudiria em socorro da Inglaterra. Resolveu-se, além disso, entabular negociações para a assinatura de um pacto formal de assistência mútua entre os dois países. Adiantando-.me um pouco aos acontecimentos, direi que essas negociações se prolongaram muito, por diversas causas, e que o pacto anglo-polonês de assistência mútua foi assinado em Londres, poucos dias antes de começar a Segunda Guerra Mundial. Havia-se tornado pública a garantia inglêsa à Polônia e havia-se prometido á assinatura de um pacto de assistência mútua com ela; mas era muito obscuro o que, na prática, isso significava. No dia 6 de abril, perguntei a Halifax, em con­ versa, se a garantia seria reforçada por negociações entre os Estados-Maiores Centrais dos dois países. A resposta do Ministro dos Negócios Estrangeiros foi muito sintomática: — Não estão excluídas, naturalmente, as negociações entre os Estados-Maiores. É possível que sejam considera­ das oportunas. Mas, por enquanto, nada íe decidiu de con­ creto . Perguntei-lhe, a seguir, como se devia entender a ex­ pressão, contida na declaração do Primeiro-Ministro acêrca das negociações com Beck, segundo a qual cada um das par­

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tes acudiria em socorro da outra, no caso de ameaça “di­ reta" ou‘ “indireta” à sua independência. Halifax respondeu, encolhendo os ombros: — Sim, trata-se, indubitàvelmente, de questão que deve ser esclarecida; mas havemos de conversar a êste respeito com o govêrno polonês. 32 Era evidente que as garantias à Polônia, até aquêle mo­ mento, eram, apenas, um pedaço de papel. A sua importân­ cia futura afigurava-se nebulosa e enigmática. r Em 7 de abril, Mussolíni ocupou a Albânia, também com um golpe relâmpago. Correram boatos insistentes de que a isso não se limitaria e de que se apoderaria também da ilha grega de Corfu. Os “meios de Cliveden” foram tomados de pânico. Em apenas três semanas, haviam-se cometido três atos indubitáveis de agressão: em 15 de março, contra a Tcheco-Es­ lováquia; em 22 de março, contra a Lituânia; e em 7 de abril, contra a Albânia. Hitler e Mussolíni, estimulados pelos “apaziguadores” de Paris, Londres e Washington, não tinham mais freios. Seria possível que tivesse falido a política clivedeniana de confabulação com os a"gressores contra a U RSS? Seria possível que triunfassem os inimigos dessa política? Não! Não! Os clivedenianos não podiam resignar-se a isso. Nos meios políticos da capital, iniciou-se atividade febril. O Primeiro-Ministro que, justamente na véspera, to­ mara férias para ir pescar trutas na Escócia (Chamberlain era louco pela pesca), regressou, imediatamente, a Londres. Realizou-se reunião extraordinária do gabinete, reunião na qual tomaram parte também os líderes da oposição liberal e trabalhista. Convocou-se reunião especial do Comitê de De­ fesa Imperial. As fôrças navais da Grã-Bretanha começa­ ram a concentrar-se em Gibraltar e M alta. Halifax expri­ miu um protesto ao encarregado de negócios italiano por cau­ sa da anexação da Albânia e assustou-o com os “fortes senti­ mentos” que a agressão de Mussolíni despertara na Ingla­ terra. Londres e Paris consultavam-se constantemente a res­ peito do que se devia fazer.
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O alarma estendeu-se também à Europa Continental. A França, a Bélgica, a Holanda mobilizaram várias classes de reservistas; foram minadas as embocaduras do Escalda e do Mosa. A Itália aumentou o seu exército para 1.200.000 ho­ mens. Washington declarou que os atos dos agressores ha­ viam aniquilado a confiança no terreno internacional e que isso representava ameaça à segurança dog Estados Unidos. Em tal situação, o govêrno britânico viu-se obrigado a adotar alguma medida, a fazer alguma coisa que desse a sensação de rapidez, decisão e energia. E Chamberlain de­ clarou, a 13 de abril, no Parlamento, que a Inglaterra con­ cedia à Romênia e à Grécia garantia unilateral semelhante àquela dada, a 31 de março, à Polônia. A França fêz, nes­ se mesmo dia, declaração análoga. Só então, quando a Inglaterra contraíra, pressurosamente, o compromisso de defender a independência de três paí­ ses, Chamberlain julgou oportuno lembrar-se da U R SS. No dia 14 de abril, o govêrno britânico propôs, oficialmente, ao govêrno soviético que concedesse à Polônia e à Romênia a mesma garantia unilateral que a Inglaterra e a França haviam dado à Polônia, a 31 de março; à Romênia e à Grécia, a 13 de abril. Por seu lado, o govêrno francês apresentou pro­ jeto de declaração conjunta da U R SS e da França, baseado ilo princípio da reciprocidade dos compromissos. Simultâneamente, a 14 de abril, Roosevelt exortou a Alemanha e a Itália a manterem a paz e se absterem de qual­ quer agressão. Êsse apêlo foi acolhido em Berlim com gros­ seiros insultos. Mussolíni, ao contrário (maravilhem-se!), respondeu que só pensava.. . em fortalecer a paz e promo­ ver a colaboração entre os povos!. . . O apêlo de Roosevelt foi saudado calorosamente na Inglaterra e na França. A U R SS exprimiu também a sua simpatia; e M. Kalinin man­ dou a Roosevelt telegrama nesse sentido. Entretanto, a im­ portância prática do apêlo do Presidente norte-americano foi mais do que modesta. Nos anos decorridos desde os acontecimentos que des­ crevo, vários poucos esforços foram feitos para se explicar satisfatoriamente a política de "garantias” unilaterais apli­ cada pelo govêrno britânico em março e abril de 1939. Não foi tarefa fácil, porque, do ponto de vista do bom-senso, de

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que tanto se gabam os inglêses, a conduta de Chamberlain, naquelas semanas criticas, foi uma loucura. Recordo-me de que Lloyd George disse-me, em conversa, logo após se anun­ ciarem as “garantias” à Romênia e à Grécia: ■ — O senhor sabe que nunca tive Chamberlain em alto conceito, mas o que está fazendo, agora, bate todos os re­ cordes de estupidez. . . Damos garantias à Polônia e à Ro­ mênia, mas que é que podemos fazer por elas, se forem agre­ didas por Hitler? Quase nada! Êsses dois paises estão si­ tuados, geogràficamente, de tal modo que é impossível che­ gar a êles. Até o fornecimento de armas e munição só será possível através do território soviético. A chave para sal­ var êsses países está nas mãos dos senhores. Sem a Rússia, nada adiantará. . . Por conseguinte, a primeira coisa que se devia ter feito era entrar em acôrdo com Moscou. E que é que fêz Chamberlain?. . . Sem chegar a acôrdo com a União Soviética, e de fato à sua revelia, distribui “garantias”, à direita e à esquerda, a países encravados na Europa Oriental. Escandalosa estupidez! Até onde chegou a diplomacia bri­ tânica! . Nas palavras de Lloyd George, havia muito de razão. Para qualquer pessoa instruída politicamente, não era segrêdo que, mesmo no caso em que a Inglaterra e a França quisessem cumprir, honestamente, os compromissos contraí­ dos, não podia ser muito eficiente o auxílio delas à Polô­ nia e à Romênia. Na melhor das hipóteses, êsse auxílio po­ deria reduzir-se a realizar uma operação que fixasse parte do exército alemão na fronteira franco-alemã, organizar o bloqueio marítimo da Alemanha e bombardear esta com fôr­ ças da aviação anglo-francesa. Em qualquer circunstância, Hitler disporia de fôrças armadas suficientes para esmagar vertiginosamente os exércitos polonês e romeno. Que valor efetivo teriam, em tal caso, as “garantias" anglo-francesas? E em que situação ficariam a Inglaterra e a França se, postas à prova essas “garantias”, lhes evidenciasse, na prática, a inutilidade militar? Sim, o comportamente de Chamberlain contradizia, por completo, a cautela e a prudência habituais da política ex­ terna britânica. Dava a impressão de ruptura com as tra­ dições diplomáticas do passado, mas houve momento em que,

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íitê n mim, me pareceu que tudo podia ter, a despeito do pró­ prio Chamberlain, grandes e favoráveis conseqüências para a causa da paz. Entretanto, o poder da cam arilha d e C li­ veden e a sua obtusidade no campo da política externa des­ vaneceram, ràpidamente, essas idéias. Logo se viu que Chamberlain era incorrigível, que a sua linha política prin­ cipal — atiçar a Alemanha e a U R SS uma contra a outra — conservava todo o vapor. Como explicar, então, o apareci­ mento da política de "garantias”? Quando agora, passados muitos anos, resumo tudo que vi e observei, em 1939, e tudo que tenho sabido pelos li­ vros, memórias e documentos publicados após a guerra, in­ clino-me a responder a esta pergunta da maneira que se segue. Eçi março e abril de 1939, Chamberlain permaneceu tão fiel à sua linha política quanto antes. Por ela, resignou-se, fàcilmente, à hecatombe da Áustria, Tcheco-Eslováquia, Memel e Albânia, que já se havia produzido; ter-se-ia resignado, não menos fàcilmente, ao sacrifício da Romênia e da Polô­ nia, que ainda podia produzir-se. Chamberlain — que, como sabemos, obtuso e teimoso ao extremo — marchava em li­ nha reta para o seu fim, sem olhar para os lados. Além dis­ so, sentia-se sustentado pelo poderoso apoio da cam arilha d e C liveden, a cuja frente, então, se encontrava. Contudo, o Primeiro-Ministro viu-se sacudido por Im­ petuosos acontecimentos que escapavam a seu controle. Os insolentes atos de agressão fascista alarmaram, profundamen­ te, tôda uma série de pequenos países (Bélgica, Holanda, Suíça, Dinamarca, Noruega, Suécia, etc.), vinculados, po­ lítica ou economicamente, aos interesses da Grã-Bretanha. Êsses países, tivessem ou não tratados com a Inglaterra, gra­ vitavam, de forma natural, em redor de Londres e em Lon­ dres buscavam defesa contra o parigo subitamente surgido. Êsses mesmos atos insolentes de agressão fascista le­ vantaram, na própria Grã-Bretanha, uma vaga de indigna­ ção e alarma da opinião pública. Pessoas das mais diver­ sas opiniões e situação social (inclusive consideráveis seto­ res da burguesia) perguntavam a si mesmas, a contragosto: Para onde vai a Inglaterra? Será possível que o mundo cor­ ra ao encontro da ditadura fascista? É justa a política do

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govêrno,«que mais não faz do que aguçar o apetite agres­ sivo de Hitler e Mussolíni?. . . E muitas, muitíssimas pessoas (sobretudo, as grandes massas operárias) respondiam: "Não, a política do govêrno é injusta e até criminosa. No mun­ do, existem fôrças suficientes para esmagar os agressores fascistas ou, pelo menos, para lhes deter a agressão. O que é preciso é unir e organizar essas fôrças. E, em primeiro lu­ gar, criar com a União Soviética uma poderosa coligação da paz e da resistência aos ditadores fascistas” . A essas fôrças internas e externas que se opunham à linha geral de Chamberlain somava-se também a poderosa pressão da U R SS , que exigia luta decidida contra os agres­ sores germano-italianos como um meio único de conjurar a Segunda Guerra Mundial. Tôdas essas influências, que se entrelaçavam e cruza­ vam, criaram, na Inglaterra, uma atmosfera política que fêz a cam arilha d e C liveden cogitar se poderia ou não susten­ tar-se no poder. Foi preciso manobrar para atalhar o peri­ go da demissão forçada de Chamberlain. Como disse Samuel Hoare, jim sábado, à noite, na casa He campo de lady Astor, era necessário atirar um osso qualquer ao cão para que dei­ xasse de latir; pelo menos, temporàriamente. . . Tinham que proceder com rapidez, com açodamento. Precisavam de tem­ po para pensar bem em tôdas as possíveis conseqüências das medidas que adotavam. Os melhores especialistas em polí­ tica externa, como Vansittart ou Eden, haviam sido afas­ tados dos seus postos; Halifax, componente também da ca­ m arilha d e C liveden, nadava à vontade a favor da corren­ te, deixando liberdade de ação ao Primeiro-Ministro. Tôda a política externa da Grã-Bretanha, naqueles dias, era obra de Chamberlain, de comum acôrdo com o seu "gênio do mal”, Horace W ilson. Eis porque os atos do govêrno britânico, em março e abril de 1939, foram, freqüentemente, casuais, pre­ maturos e míopes. Se continham algum elemento de cons­ ciência estatal, êste se reduzia, fundamentalmente, a duas considerações: a) "apaziguar” a oposição interna e conservar o poder nas mãos da cam arilha d e C liveden, mediante a concessão de “garantias” à Polônia, Romênia e Grécia;

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b) exercer certa influência psicológica sôbre Hitler e Mussolíni e impedir que realizassem novos atos de agres.são desfavoráveis à Inglaterra, na esperança de que qual­ quer alteração da conjuntura internacional permitisse, nesse ínterim, aos clivedenianos tornar a aplicar, de modo aberto e conseqüente, a sua linha geral. A primeira consideração desempenhava, naturalmente, o papel principal; mas também a segunda era tida muito em conta, visto que, com isso,’ os clivedenianos ganhavam tempo para elidir a necessidade de colaborar com a U R S S . De mais a mais, conforme provava a proposta feita ao govêrno soviético de concessão de garantias unilaterais à Po­ lônia e à Romênia, os clivedenianos tinham a vã esperança de obrigar, de um ou outro modo, a União Soviética a lhes servir os interêsses, sem contrair, do seu lado, nenhum com­ promisso com a U R S S . E , por último, ainda sobrava aos clivedenianos uma "saída” de reserva para o caso de todo o resto não dar o resultado apetecido: trair a Polônia, Romênia e Grécia, como acabavam de trair a Tcheco-Eslováquia, Áustria e Espanha. É claro que a política da cam arilha d e C liveden, zelo­ sam ente aplicada por Chamberlain, era cega e estúpida, con­ forme demonstraria o desenvolvimento dos ulteriores acon­ tecimentos. M as é o que sempre ocorre, quando o poder se acha, em momento crucial da história, nas mãos dos repre­ sentantes da reação e do obscurantismo.

A U R SS P R O P Õ E A S S IS T Ê N C IA M Ú T U A

A proposta do govêrno britânico de concessão de ga­ rantias unilaterais à Polônia e à Romênia obrigou o govêr­ no soviético a dar maior atenção ao problema das medidas

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que poderiam ser, verdadeiramente, eficazes para impedir novas agjfessões fascistas. O que Chamberlain pretendia de nós era inaceitável para o govêrno soviético, por duas razões primordiais: a) não poderia impedir o desencadeamento da Segun­ da Guerra Mundial, e êsse era o nosso objetivo fundamental; b) colocaria a U R SS em situação de desigualdade com relação à Inglaterra e à França e aumentaria, enormemen­ te, o perigo de agressão da Alemanha ao povo soviético. Na realidade Hitler e Mussolíni compreendiam bem um só argumento: a fôrça. Por conseguinte, para conjurar novas agressões fascistas e a sua inevitável conseqüência — a Se­ gunda Guerra Mundial — era mister criar uma coligação itão poderosa de países não interessados no desencadeamento da contenda que fizesse Hitler e Mussolíni perderem a vontade de experimentar a sua fôrça. Achávamos que a Inglaterra, a França e a U R SS , tomadas em conjunto, dispunham de fôrça suficiente para tanto; mas, para poder sustar o bra­ ço dos ditadores fascistas, era preciso que não tivessem a menor dúvida de que essa fôrça se voltaria contra êles à mínima tentativa de nova agressão. 'E isso, por sua vez, im­ punha que a união das três potências fôsse clara e indiscutí­ vel, que na sua esfera de ação entrasse tôda a Europa, e não alguns dos seus confins; e que as condições da união previssem sistema o mais simples e automático possível de sanções contra o agressor. No entanto, a proposta inglêsa não correspondia, abso­ lutamente, a tais exigências. Em primeiro lugar, não criava nenhuma união comum da U R SS , Inglaterra e França para lutar contra a agressão na Europa; mas, sim, limitava as ações conjuntas das três potências ao caso de a Alemanha agre­ dir a Polônia e a Romênia. Logo, essa proposta não po­ dia, em geral, conjurar a guerra; só podia era “canalizar” a agressão nas direções não defendidas pelas “garantias”; es­ pecialmente, em direção tão importante tanto para a U R SS como os Estados bálticos. Além disso, a proposta inglêsa não previa entre as três grandes potências nenhum convênio militar que estabeleces­ se, com precisão, o volume, prazos, condições, etc., da aju­ da armada que elas prestariam umas às outras e à vítima

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da agressão. E isso era de capital importância. A União So­ viética já tinha, nesse sentido, experiência muito desagradá­ vel relativamente à França. Conforme lembramos antes, em maio de 1935, concluiu-se um pacto de assistência mútua entre a U R SS e a França; mas a redação e a assinatura do con­ vênio militar destinado a reforçar êsse pacto foram transfe­ ridas para mais tarde. Entretanto, os governos franceses que se sucederam com rapidez sabotaram, sistemàticamente, a j assinatura do convênio, que continuava inexistente em 1939. É natural que o govêrno soviético considerasse defeito mui­ to sério da proposta inglêsa o fato de não fazer qualquer alusão à possibilidade de assinatura de convênio militar. Qualquer acôrdo de luta contra os agressores devia ter as prêsas bem afiadas; sem as quais se transformaria em es­ pada de papelão, que se poderia brandir, mas não serviria para combater. Êsse vazio geral na estrutura das “garantias” tornava inevitáveis a discordância entre os signatários do acôrdo em tôrno da interpretação dos compromissos contraídos, a difi­ culdade de elaborar estratégia e tática comuns, a lentidão das ações e muitas outras faltas de coordenação. Em últi­ ma instância, a proposta inglêsa não podia contribuir para criar a concentração de poderio das potências pacíficas, con­ centração por si capaz de conter os ditadores fascistas e im­ pedir que cometessem novas agressões. Menos ainda podia assegurar a rapidez e a unidade dos atos punitivos da In­ glaterra, França e U R SS contra quem quisesse desencadear uma Segunda Guerra Mundial. Todavia, essa proposta, além de ineficaz para prevenir nova matança mundial, era ofensiva para a União Soviética, visto que a colocava em inferioridade de condições relativa­ mente à Inglaterra e à França. Ao govêrno soviético interes­ sava, como era natural, não o aspecto jurídico da questão, mas o seu aspecto prático. De fato, a situação consistia na circunstância de que a Inglaterra, a França e a Polônia estavam unidas entre si por acordos de assistência mútua; no caso de a Alemanha agredir um dêsses países, os outros dois deveriam, imediatamente, acudir-lhe em socorro com todos os meios ao seu alcance (armas inclusive). A União Sovié­ tica, pelo contrário, tinha pacto de assistência mútua só com

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a França. Nem a Inglaterra, nem a Polônia estavam obri­ gadas a socorrê-la, se fôsse agredida pela Alemanha. E a concessão de “garantias” à Polônia e à Romênia da parte da União Soviética devia piorar, sem dúvida alguma, as re­ lações desta com a Alemanha e aumentar o perigo de agres­ são hitlerista ao povo soviético, sobretudo através do Báltico. Era evidente a desigualdade de direitos da U R SS rela­ tivamente à Inglaterra e à França em questão tão capital quanto a segurança nacional e estatal. Isso tinha importân­ cia primordial. Tais foram as considerações principais que forçaram o govêrno soviético a rejeitar a proposta inglêsa. M as o go­ vêrno da U R SS não se deteve aí. Embora o que acontecera à Tcheco-Eslováquia e à Espanha lhe houvesse minado a confiança no propósito da Inglaterra e da França de cum­ prir, conscienciosamente, os seus compromissos; embora o comportamento dêsses países antes da anexação de Memel e da Albânia pelas potências fascistas nada prometesse de bom, o govêrno soviético, apesar de tudo, não achava pru­ dente desentender-se com êles. O momento era por demais sério e o perigo de uma Segunda Guerra Mundial muito maior para desprezar, mesmo sob o influxo de emoções mais do que legítimas, a menor possibilidade de salvar o mundo de nova e terrível catástrofe. Nessa hora fatal, o govêrno soviético resolveu guiar-se, unicamente, pelos ditames do bom-senso, e fazer nôvo esforço para chegar a um acôrdo com a Inglaterra e a França, a fim de proceder em comum contra os agressores fascistas. Todavia, devia ser um esfôrço realm ente sério, com propostas sérias e meios sérios para al­ cançar o objetivo previsto: conjurar uma Segunda Guerra Mundial. Levando em conta tanto a posição inglêsa, quanto a fran­ cesa, o govêrno da U R SS apresentou a sua própria proposta, em 17 de abril de 1939, isto é, três dias após o govêrno britânico nos ter proposto conceder garantias unilaterais à Polônia e à Romênia. A essência da proposta soviética pode resumir-se em três pontos: 1. Assinar pacto tripartido de assistência mútua en­ tre a U R S S , a Inglaterra e a França.

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2 . Assinar convênio militar para fortalecer êsse pacto. 3 . Conceder garantias de independência a todos os Estados fronteiriços com a U R SS , do Mar Báltico ao M ar Negro. Ao entregar a Halifax a nossa contrapoposta, disselhe eu: — Se a Inglaterra e a França querem, de fato, lutar sèriamente contra os agressores e evitar uma Segunda Guer­ ra Mundial, devem aceitar as propostas soviéticas. E se não as aceitarem. . . Fiz, então, um gesto muito eloqüente, cujo sentido não era difícil compreender. Halifax procurou afiançar-me que os propósitos dos inglêses e franceses eram dos mais sérios; mas eu disse com meus botões: "O s fatos o d em onstrarão...” Ao mesmo tempo que mandava as nossas contrapropos­ tas, Litvínov chamou-me a Moscou para tomar parte no exa­ me que o govêrno ia fazer do problema do pacto tripartido de assistência mútua e das perspectivas da sua assinatura. Saí de Londres em 19 de abril e lã voltei em 28 do mesmo mês. Repugnava-me ver a Alemanha nazi, com a sua suás­ tica e o ‘‘passo de ganso” dos seus soldados; por isso, re­ solvi transferir-me para Moscou dando uma volta. Fiz, de avião, a viagem de Londres a Estocolmo e daí a Helsinki, onde tomei o trem, chegando a Moscou por Leningrado. Pernoitei em Estocolmo, onde travei longa e interessante conversa sôbre temas políticos da atualidade com Alexandra Kilontai, velha amiga minha (ainda dos tempos da emigra­ ção) e, ao tempo, embaixadora da U R SS na Suécia. — Será possível que Chamberlain não compreenda que a sua política leva a Inglaterra, diretamente, à catástrofe? — perguntou-me ela, perplexa. Falei-lhe detalhadamente da situação que se criara em Londres e, resumindo, lhe disse: — O ódio de classe pode cegar a tal ponto as pes­ soas que elas deixam de ver as coisas mais corriqueiras. É o que agora observo com relação a Chamberlain e tôda a cam arilha d e C liveden . Claro que a história os castigará com tôda a dureza; mas, por desgraça, isso acontecerá, pro-

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vàvelmente, quando os canhões já estiverem começando a disparar. Em Moscou, assisti a uma rfcunião do govêrno, na qual se examinou, com muitas minúcias, o problema do pacto tripartido. Tive de dar os pormenores e explicações mais cir­ cunstanciados sôbre o estado de ânimo reinante na Inglater­ ra, a correlação de fôrças entre os partidários do pacto e os seus inimigos, a posição do govêrno em seu conjunto e dos seus diversos ministros com referência ao pacto, as perspec­ tivas do desenvolvimento político imediato nas Ilhas Britâ­ nicas e muitas outras coisas relacionadas, de um modo ou de outro, com a provável sorte das contrapropostas soviéti­ cas. Ao informar o govêrno, procurei ser extremamente ho­ nesto e objetivo. Sempre achei que um embaixador deve dizer a verdade, sinceramente, ao seu govêrno, e não criar nêle qualquer ilusão, seja otimista ou pessimista. O govêr­ no pode empreender umas ou outras ações práticas, baseado nas informações do embaixador; se, porém, estas forem de tom demasiado róseo, ou demasiado sombrio, o govêrno pode ficar em situação difícil ou forçada. A observância estrita dêsse princípio, às vêzes causou-me até aborrecimentos, mas, de qualquer forma, continuei a fazer o que considerava correto. Naquela memorável reunião do Kremlin, repito, dis­ se a verdade, só a verdade e, no final das contas, o quadro veio a ser pouco animador. Não obstante, o govêrno jesolveu prosseguir nas negociações e fazer todos os esforços pos­ síveis para persuadir os inglêses e franceses de modificarem a sua atitude; porque, tanto naquela reunião, como nas con­ versas particulares com os membros do govêrno, meus co­ nhecidos, sempre percebia uma idéia que impregnava tudo: “É preciso evitar, a todo custo, nova guerra mundial! É pre­ ciso chegar a um acôrdo, o mais cedo possível, com a In­ glaterra e a França!” Voltei a Londres pelo mesmo caminho, mas, de Esto­ colmo, estive, de passagem, em Paris, a fim de melhor co­ nhecer o estado de espírito do govêrno francês relativamen­ te ao pacto. O nosso embaixador em França, Y . Surits, homem de grande cultura e vastos horizontes políticos, reve­ lou-me, prazerosamente, todos os detalhes da situação rei­ nante na capital francesa.

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— Daladier, apesar de todos os seus defeitos (e tem muitos), iria com mais facilidade que Chamberlain ao en­ contro das nossas contrapropostas. . . Além disso, a Fran­ ça já tem pacto de assistência mútua com a U R S S . . .■ Pelo menos, no papel. . . Agora, por exemplo, o govêrno fran­ cês está insistindo junto ao britânico para que aceite, como base de discussão, as *nossas propostas de 17 de abril so­ bre o pacto tripartido de assistência mútua. . . Léger, secretário-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Fran­ ça, redigiu até um contraprojeto de pacto tripartido para apre­ sentá-lo ao govêrno soviético.. . É mais reduzido que o nossc, mas tem a mesma b a s e .. . Londres, porém, não quer acei­ tá-lo e continua a insistir na sua proposta de 14 de abril de garantias unilaterais da U R S S à Polônia e à Romênia. . . Não sei como terminará a disputa anglo-francesa, mas sou pessimista.. . Sürits fêz um gesto de desalento: depois, continuou: — A desgraça é que hoje, a França não tem política externa independente. Tudo depende de L o n d res... A França dos nossos dias é grande potência de segundo pla­ no, que se considera grande potência apenas por tradição. . . E, por estranho que pareça, os franceses se têm conforma­ do com isso, de certo m od o.. . Vão a reboque da Inglater­ r a . . . Consideram-se potência número 2 no bloco anglofrancês e isso não os in d igna.. . — ' E os norte-americanos, como é que se portam aqui? — perguntei. — Os norte-americanos? — retrucou Surits. — A esta pergunta responde, claramente, o nome do embaixador dêles em Paris: W illiam Bullitt. Lembrei-me, a contragosto, do que sabia de Bullitt: mandatário do Presidente W ilson que, em março de 1919, chegou a Moscou com a proposta de paz; partícipe ativo nas negociações sovieto-americanas de 1933, em Washington, acêrca do reconhecimento diplomático recíproco; depois, pri­ meiro embaixador norte-americano em Moscou, onde se cele­ brizou pela organização de extravagantes recepções diplomá­ ticas 33 e (o que é mais importante) tentou dar ordens ao go33 U m dia, por exemplo, Bullitt deu, na embaixada, uma recepção diplomática que mais parecia um sabá: não só “o champanha correu

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vêrno soviético, sob a máscara de amizade aparente, trans­ formando-se de “amigo” em inimigo, quando se chocou com a resistência do govêrno soviético.. . E êsse mesmo Bullitt representava, então, os Estados Unidos na França! Surits, entretanto, prosseguiu: ■ — Bullitt mostra grande interêsse pela marcha das ne­ gociações, dá conselhos, às vêzes lições, invoca os conheci­ mentos que tem sôbre a U R S S e o seu govêrno.. . Como é natural, a sua opinião pesa muitíssimo no espírito de Dala­ dier e Bonnet. . . Porque Bullitt os apoiou, enèrgicamente, nos dias de Munich e até recebeu Daladier com um ramo de flôres, quando êle regressou, após trair os tchecos. Posteriormente, quando se desenvolveram as negocia­ ções, Bullitt tentou, mais de uma vez, estorvá-las, com os seus "conselhos” a Bonnet e Daladier; o que, naturalmente, não fêz mais do que acentuar a sabotagem, cujo espirito se apo­ derara, por completo, dos governos inglês e francês. No dia seguinte ao meu regresso de Moscou, 29 de abril, visitei Halifax. Ainda sob o efeito das impressões que acabava de receber em Moscou, procurei demonstrar-lhe, longa e ardorosamente, a importância que tinha a conclusão, o mais breve possível, do pacto tripartido de assistência mú­ tua: e falei-lhe, insistentemente, do mais sincero desejo do govêrno soviético de colaborar com a Inglaterra e a Fran­ ça na luta contra a agressão. Halifax escutou-me com um sorriso de ceticismo e, quando lhe perguntei se o govêrno britânico aceitava as nossas contrapropostas, respondeu-me, muito vagamente, que ainda não havia terminado as suas consultas com a França. As palavras dêle foram para mim como um jato de água fria. Falei-lhe, a seguir, de outros assuntos do dia: as negociações da Inglaterra com a Romê­ nia, o projeto de acôrdo anglo-turco, etc. Saí da entrevista com o ministro das Relações Exterio­ res extremamente irritado pela obstinada cegueira da camatorrencialmente” e se serviram manjares em quantidades homéricas, como até o edifício da embaixada transformou-se numa espécie de casa de feras: nos aposentos voavam pássaros, entre as mesas corriam cabras e, num canto “de honra”, cercado de plantas, grunhia um urso vivo. Como é de imaginar, semelhante recepção causou “sensação” excepcional, no estilo d? Hollywood: mas em nada contribuiu para aumentar o prestígio do embaixador norte-americano.

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rilha d e C liveden . Durante a minha viagem a Moscou, ti­ nham ocorrido dois acontecimentos que provavam, claramen­ te, que os agressores, desenfreados, corriam para o seu cri­ minoso objetivo: no dia 28 de abril, Hitler rompeu, simultâneamente, o pacto de não-agressão com a Polônia e o acôrdo anglo-germâniço de 1935 sôbre a limitação dos arma­ mentos navais. Os clivedenianos, contudo, não viam, não queriam ver êsses sinais ameaçadores da época e continua­ vam, teimosamente, a Sua corrida fatal para o abismo. Eis um fato, extremamente sintomático, passado durante a mi­ nha ausência de Londres: à anexação da Tcheco-Eslováquia, o govêrno britânico chamou o seu embaixador em Berlim, Henderson, “para realizar consultas”; gesto simbólico, des­ tinado a exprimir o seu descontentamento. Mas, a 24 de abril, o govêrno britânico autorizou Henderson a voltar a Berlim; também gesto simbólico, porém de significação con­ trária . Em 3 de maio, Litvínov deixou de ser Comissário do Povo dos Negócios Estrangeiros, ocupando seu pôsto, M olotov. Essa substituição causou, então, grande sensação na Europa e foi interpretada como mudança de rumo da polí­ tica externa da U R S S . Daí a três dias, 6 de maio, Halifax convidou-me a vi­ sitá-lo e, após comunicar-me que a Inglaterra não terminara ainda as suas conversações com outras capitais a respeito da proposta soviética, perguntou-me, à queima-roupa, o que sig­ nificavam as substituições de pessoas que acabavam de ocor­ rer em Moscou. — Na União Soviética, ao contrário do que, muitas v e­ zes, se dá no Ocidente — respondi — os diversos minis­ tros não aplicam a sua própria política. Cada ministro apli­ ca a política geral do govêrno, em seu conjunto. Por isso, apesar da demissão do Comissário do Povo dos Negócios Estrangeiros, M . Litvínov, a política externa da União So­ viética continua a ser a mesma. Assim, pois, as nossas pro­ postas de 17 de abril continuam de pé. A 8 de maio, após três semanas de consultas e medita­ ções, o govêrno britânico entregou-nos, afinal, a sua respos­ ta (que era, ao mesmo tempo, a resposta da França) à pro­ posta de assinatura de um pacto tripartido de assistência mú­ tua. Que resposta, porém? O govêrno britânico repetia, li­

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geiramente modificada, a sua proposta de 14 de abril, isto é, continuava tentando conseguir que a União Soviética con­ cedesse garantias unilaterais à Polônia e à Romênia. Evi­ dentemente, a resistência da França não ajudara. O pessi­ mismo de Surits se justificava. Claro estava que os clivedenianos e, particularmente, Chamberlain continuavam a cifrar as suas esperanças-no cho­ que da Alemanha com a U R SS , motivo pelo qual não que­ riam indispor-se com Hitler. Também estava claro que, tôdas as negociações em tôrno da colaboração da Inglaterra com a U R SS , visando à luta contra os agressores, mais não eram do que uma manobra hipócrita do govêrno, a fim de enga­ nar o povo inglês; cortina de fumaça para ganhar tempo em proveito da aplicação dessa mesma linha geral do Primei­ ro-Ministro. Não é de espantar que o govêrno soviético rea­ gisse com firmeza e decisão à resposta inglêsa. No dia 15 de maio, o Govêrno de Moscou entregou a Seeds uma decla­ ração escrita, dizendo, com tôda a clareza, que a conces­ são de garantias unilaterais à Polônia e à Romênia era ina­ ceitável para o govêrno soviético e°que a única forma, real e verdadeiramente eficaz, de lutar contra a agressão era o pacto tripartido de assistência mútua, à base das condições expostas na proposta soviética de 17 de abril. O tom de nossa resposta foi tal que os inglêses (e os franceses) se viram diante de uma alternativa: ou pacto de assistência mú­ tua ou falência das negociações. Formou-se um atoleiro, tanto mais estranho porquanto a Inglaterra e a França assinaram, precisamente naquela oca­ sião, um tratado de assistência mútua com a Turquia. Na imprensa e nos meios políticos de Londres, levantou-se for­ te onda. As pesadas nuvens que cobriam o horizonte inter­ nacional mais ainda se adensaram. Hitler, estimulado pela conduta de Chamberlain e Daladier, se soltava de dia a dia. Foi então que empreendeu furiosa campanha por causa de Dantzig, exigindo da Polônia que a cidade fôsse devolvi­ da à Alemanha e que se lhe fôsse concedida liberdade de trânsito pelo corredor polonês. O govêrno polonês rejeitou semelhantes pretensões. A atmosfera nas relações germanopolonesas se inflamava e a explosão era esperada de um mo­ mento para outro. Pois bem, apesar de tudo isso, Chamber-

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lain não queria, de modo algum, aceitar a proposta sovié­ tica de pacto tripartido de assistência mútua. Não é de es­ pantar que todos os políticos inglêses mais sensatos (sem falar já nas grandes massas) se sentissem extraordinàriamente desassossegados e procurassem uma forma de exercer pres­ são sôbre o govêrno.. A 18 de maio, telefonou-me Churchill. — Amanhã, haverá debates de política externa no Par­ lamento. Estou disposto a intervir e chamar a atenção sô­ bre a forma pouco satisfatória por que se estão levando as negociações com a R ú ssia.. . Entretanto, antes de falar em público sôbre êste assunto, queria saber do senhor em que consistem, exatamente, as propostas do govêrno soviético que Chamberlain se recusa a aceitar. Na cidade, correm mui­ tos boatos a êste respeito. Imediatamente, respondi pelo telefone à pergunta de Churchill. Êste escutou-me muito atento e, quando termi­ nei, disse, surpreendido: — Não compreendo o que é que Chamberlain viu de mau nas propostas dos senhores. A meu ver, tôdas são aceitáveis. O senhor saberá, melhor do que eu, interpretar a conduta de Chamberlain — respondi-lhe, rindo. Realmenete, no dia seguinte, entabularam-se, na Câma­ ra dos Comuns, grandes debates em tôrno da política exter­ na da Grã-Bretanha. Churchill, conforme prometera, pronun­ ciou extenso discurso, no qual disse, entre outras coisas: — As propostas apresentadas pelo govêrno da Rússia, às quais se deu publicidade realmente considerável, prevêem aliança tripartida da Inglaterra, França e Rússia, aliança de cujos benefícios podem também gozar outras potências, se quiserem e quando quiserem. A aliança tem como único fim lutar contra novos atos agressivos e ajudar as vítimas da agressão. Não compreendo o que é que há de mal em tudo isso. Há quem diga: ‘‘Pode-se confiar no govêrno soviético da Rússia?” E suponho que, em Moscou, hão de dizer: "P o ­ de-se confiar em Chamberlain?” . . . Nestas questões, não de­ vemos guiar-nos pelo sentimento, mas pela análise dos inte­ rêsses em jôgo. A minha opinião pessoal é que a Rússia tem interêsses grandes e vitais que lhe ditam a cooperação com

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a Grã-Bretanha e a França, na prevenção de novos atos agressivos. Referindo-se, a seguir, às afirmativas dos clivedenianos de que era impossível o pacto tripartido porque, segundo êles, a Polônia, a Romênia e os Estados Bálticos receavam ser "garantidos” por uma aliança da qual participasse a U R SS. Churchill ridicularizou êsses argumentos e acrescen­ tou, dirigindo-se aos membros do govêrno: — Se os senhores estão dispostos a ser aliados da Rús­ sia em tempo de guerra. . . se estão dispostos a estender a mão à Rússia para defender a Polônia e a Romênia, às quais os senhores concedem garantias, por que é que não querem ser aliados da Rússia agora, quando, graças a isso, justa­ mente, a guerra pode ser, em geral, conjurada? Nessa mesma sessão, interveio contra o govêrno, com não menos energia, Lloyd George. Falando dos armamen­ tos da Alemanha e da Itália, disse: ■ — Não se armam para defender-se. . . Não se prepa­ ram para repelir os ataques da França, da Inglaterra ou da Rússia. Por êsse lado, ninguém as” ameaça. . . Preparam-se para atacar, êles próprios, qualquer país no qual estejamos interessados. . . O principal objetivo militar dos ditadores é conseguir resultados rápidos, fugir de uma guerra longa, Guerras longas são sempre desfavoráveis para os ditadores. E , para impedir a vitória rápida dos ditadores, Lloyd George considerava da máxima importância assinar, quanto antes, um acôrdo tripartido contra êles. — Sem a ajuda da Rússia — disse Lloyd George — não poderemos cumprir os nossos compromissos com a Po­ lônia e a Romênia. O líder liberal fêz notar, mais adiante, que a U R S S dis­ punha da melhor aviação do mundo e de fôrças blindadas extraordinàriamente poderosas. Por que não havia ainda o go­ vêrno assinado o pacto de assistência mútua com a U RSS? Evidentemente porque não confiava no govêrno soviético. “Mas a Rússia — exclamou Lloyd George não tem motivos para desconfiar de nós? Desde 1930, temos violado todos os pactos firmados por nós relacionados com situações semelhan­ tes à atual”. Em conclusão: Lloyd George exigiu do govêrno

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que se levassem a cabo, com urgência, as negociações tripartidas. Eden também pronunciou caloroso discurso a favor da mais rápida criação de uma “frente de paz". E , como pri­ meiro passo em tal direção, propôs a assinatura imediata de uma aliança tripartida entre a Inglaterra, a França e a U R SS na base da plena reciprocidade e igualdade de direitos. 84 A posição firme da União Soviética, de um lado, e os debates parlamentares de* 19 de maio, de outro, persuadi­ ram Chamberlain da necessidade de nova manobra hipócri­ ta, pois, de outro modo, o govêrno poderia ver-se atrapalha­ do. E Chamberlain fêz a manobra: dessa vez, porém, em Genebra. No dia 22 de maio, começou, em Genebra, a sessão or­ dinária do Conselho da Sociedade das Nações. Cabia a pre­ sidência, pelo rodízio, ao representante da U R S S . O govêr­ no soviético encarregou-me dessa missão, razão pela qual sai de Londres para a Suíça a 20 de maio. De caminho, pas­ sei várias horas em Paris onde Surits disse-me que o go­ vêrno francês manifestara, ultimamente, grande desconten­ tamento com a lentidão e teimosia dos inglêses nas negocia­ ções com a U R S S . Até Bonnet, então Ministro dos Negó­ cios Estrangeiros e antigo inimigo de “Moscou”, achava que se tinha formado uma situação crítica e que era preciso en­ trar-se num acôrdo, o quanto antes, com o govêrno soviético. Halifax e Bonnet também se tinham dirigido para Ge­ nebra, onde eu os encontraria, todos os dias, durante uma semana inteira, em redor da mesa da Sociedade das Nações. Ainda em Londres, Halifax me advertira, cortesmente, de que tinha esperança de continuar as conversações na Suíça. De fato, na manhã de 22 de maio, em Genebra, travamos conversação extensa e, num certo sentido, “decisiva" — acerca do pacto. Halifax começou pedindo-me que lhe explicasse por que o govêrno soviético rejeitara a última proposta britânica de 8 de maio (isto é, a proposta inicial, ligeiramente modifi­ cada, de que a União Soviética concedesse garantias uni­ laterais à Polônia e à Rom ênia).
34 Parliamentary Debates. House o f Commons, vol. 347, col. 1860. 1810­

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Respondi-lhe que reijetávamos a proposta britânica por duas razões principais: a) queríamos conjurar a guerra em geral, coisa possível, unicamente, com o pacto tripartido de assistência mútua; a proposta britânica, pelo contrário, dei­ xava completamente de lado êsse importantíssimo aspecto; b) a proposta britânica colocava a União Soviética em si­ tuação de desigualdade relativamente à Inglaterra e à Fran­ ça, coisa que não podíamos, de modo algum, aceitar. E lhe expliquei, brevemente, em que era que víamos essa desigual­ dade (disso já falei antes com detalhes). Halifax tentou demonstrar-me que era diminuta a pos­ sibilidade de agressão da Alemanha à U R SS através dos países bálticos e que, mesmo no caso de vir a acontecer essa agressão, a Polônia e a Romênia se veriam também en­ volvidas, sem dúvida alguma, pelo que entrariam em vigor as garantias anglo-francesas aos dois referidos Estados. Des­ sa forma, a Inglaterra e a França acudiriam, de fato, em so­ corro da U R S S . Divergi de Halifax e disse-lhe que também não me tran­ qüilizavam as garantias anglo-francesas à Polônia e à Ro­ mênia . ' — Imagine o senhor o seguinte caso — continuei. — A Alemanha consegue, pela intimidação, pelo suborno ou pela combinação do chicote e do dinheiro, que a Polônia e a Romênia se aliem a ela contra a U R SS , ou, pelo menos, au­ torizem que as suas tropas passem pelo território de ámbos os países. Então, não entrarão em ação as garantias anglofrancesas, já que elas só são aplicáveis se a Polônia e a Romênia opuserem resistência à Alemanha. Logo, nesse caso, que é hipotético, mas pode muito bem ocorrer, a U R SS terá de combater sozinha contra a Alemanha, sem receber ajuda das potências ocidentais. Halifax tentou refutar os meus argumentos, lembrando que entre a França e a U R S S existia pacto de assistência mútua. — Absolutamente certo — respondi. — M as entre a Inglaterra e a U R SS não existe pacto semelhante, o que é muito importante. A essa altura, Halifax observou: Talvez conviesse introduzir em nossa proposta um artigo que obrigasse os Estados limítrofes com a U R SS a não

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cederem o seu território para a passagem das tropas ale­ mãs, nem para a instalação de bases alemãs com fim de agressão contra a terra dos senhores? Opinei ser pouco provável que os Estados limítrofes acedessem a contrair semelhante compromisso; além disso, mesmo no caso de o assumirem, não poderiam cumpri-lo. Tôdas essas combinações complicadas e sinuosas, em cuja elaboração trabalhavam com tanto afã os inglêses, tinham caráter ambíguo e rudimentar; e nada podiam resolver. O único caminho verdadeiramente eficaz para lutar contra a agressão era o pacto tripartido de assistência mútua pro­ posto pelo govêrno soviético. De repente, Halifax pensou em me intimidar: êsse pac­ to, disse-me êle, pode enfurecer Hitler, que se porá a gri­ tar que “se está cercando” a Alemanha, se servirá dêsse slogan para agrupar à sua volta o povo alemão e desencadea­ rá a guerra. Assim, acrescentou Halifax, nós mesmos pro­ vocaríamos aquilo que, justamente, quiséramos evitar com os nossos atos. Retruquei que Halifax, pelo visto, não compreendia bem a psicologia de homens como Hitler. Êste, à sua maneira, não era tolo e nunca se lançaria a uma guerra, se pensasse que podia perdê-la. As nossas negociações de então o obri­ gavam mesmo a mostrar certa prudência, dado que, até aquêle momento, não agredira a Polônia. E , se se assinasse o pacto tripartido de assistência mútua, ver-se-ia forçado a fa­ zer marcha-ré. Homens como Hitler só reconhecem um ar­ gumento: a fôrça. O govêrno soviético sabia-o muito bem pela sua experiência com o Japão. O pacto tripartido de as­ sistência mútua, pelo contrário, criaria tal concentração de fôrças em favor da paz que o inimigo não teria outro re­ médio senão retroceder com o rabo entre as pernas. Halifax perguntou-me, por último, se o govêrno sovié­ tico estava disposto a prever, no pacto tripartido de assistên­ cia mútua, garantias de segurança não só para os pequenos Estados da Europa Oriental, mas também para os pequenos países da Europa Ocidental, dando a entender que se refe­ ria à Bélgica, à Holanda e à Suíça. Respondi-lhe que, naquele momento, nada podia dizer àquele respeito em nome do govêrno soviético, pois essa ques­

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tão não se formulara, nem se discutira, até então; achava, porém, que podia ser examinada e, a meu juízo, não seria di­ fícil chegar-se a acôrdo. A nossa conversa durou uma meia hora e, quando nos separamos, pareceu-me ter impressionado, consideràvelmente, o Ministro das Relações Exteriores da Grã-Bretanha. Em todo caso, dera-lhe a entender, com absoluta clareza,, que o govêrno soviético poderia fazer concessões em problemas se­ cundários para chegar a acôrdo, mas não aceitaria compro­ misso algum em tôrno dos três pontos fundamentais de que já falei (pacto tripartido de assistência mútua, convênio mi­ litar e garantias de segurança para todos os pequenos paí­ ses compreendidos entre o M ar Báltico e o M ar N eg ro ). Pelos documentos que o F oreign O ffic e tem publicado, vejo que pensava, então, acertadamente. Halifax termina com as seguintes palavras as notas da conversa que teve co­ migo, a 2 2 de maio: “No curso de nossa longa conversa, receio não ter po­ dido, o menos que seja, abalar Maiski no ponto principal: a sua insistente exigência de pacto tripartido de assistência mútua. . . Acho que nos encontramos, agora, diante de al­ ternativa muito desagradável: falência das negociações ou acôrdo na base do ponto 4 do meu telgrama n9 165 a V arsóvia (quer dizer, do pacto tripartido de assistência mútua. - I . M . ) . 85 ’ Nesse mesmo dia, 22 de maio, conversei com Bonnet sôbre o mesmo tema fundamental. O ministro francês dos Negócios Estrangeiros estava muito melhor predisposto do que Halifax e logo nos pusemos de acôrdo. Êle, inclusive, se queixou da teimosia e lentidão dos inglêses. O govêrno britânico viu-se, então, colocado, e de manei­ ra decisiva, ante o dilema: uma coisa ou outra. Chamberlain compreendeu que, naquela fase de desenvolvimento, a sua nova manobra (só pensava em manobra) devia abranger, obrigatoriamente, o pacto tripartido de assistência mútua. Entretanto, conforme o futuro veio a mostrar, o PrimeiroMinistro se manteve fiel à sua linha geral anterior.
35 Third Series, vol. V, 6 34.

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Daí a dois dias, 24 de maio, Chamberlain fêz ao Par­ lamento breve declaração, na qual apreciou, em tons mui­ to otimistas, as perspectivas imediatas. "Tenho tôdas as razões — disse Chamberlain —• para esperar que, em conseqüência das propostas que o govêrno de Sua M ajestade est% em condições de fazer, agora, acêr­ ca das questões fundamentais surgidas durante as negocia­ ções, se possa conseguir pleno acôrdo em data muito pró­ xima ” . 30 * Chamberlain precisava, naquele instante, dêsse otimis­ mo hipócrita para tranqüilizar a “opinião pública” britânica. No dia 25 de maio, o embaixador inglês em Moscou, Seeds, entregou ao govêrno soviético as novas propostas do govêrno britânico, mencionadas por Chamberlain no seu dis­ curso perante o Parlamento.

D O IS P R O JE T O S D E P A C T O

Parecia, pois, estar superada a dificuldade principal das negociações. Os governos da Inglaterra e da França haviam, por fim, reconhecido a necessidade de concluir um pacto tri­ partido de assistência mútua. É claro que se tinham perdi­ do dez semanas valiosíssimas por causa da resistência, das manobras e vacilações; mas, de qualquer forma, ainda não era tarde, se se procedesse com rapidez a decisão, para de­ ter o braço do agressor. A U R S S se dispunha a comportar-se precisamente, assim. Raciocinávamos, mais ou menos, da seguinte manei­ ra: “O pacto tripartido de assistência mútua foi reconheci­ do, em princípio, por ambas as partes; os inglêses e fran­ ceses sabem que nós insistimos nas garantias aos países bálticos; nós sabemos que os inglêses e franceses insistem nas
36 Parliamentary Debates. House o f Commons, vol. 347, col. 2.267.

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garantias ,a uma série de países que lhes interessam espe­ cialmente (Bélgica, Grécia, Turquia, etc.); em princípio, nem êles, nem nós nos opomos a tais garantias, o que significa não ser dif.cil chegar a um acôrdo nesta questão. O desejo de entrarem em vigor, simultâneamente, o pacto e o convênio militar não pode suscitar dúvida alguma; por conseguinte, também será fácil chegar a um acôrdo neste ponto. Daí deduz-se, com clareza, que as perspectivas são favoráveis, se..., naturalmente, ambos os lados desejam, realmente, êsse acôr­ do. Nós o queremos, queremos muito; mas também o que­ rem os inglêses e franceses?” Tínhamos a esperança, ou melhor, queríamos ter a es­ perança de que, pelo menos sendo assim, em comêço de ju­ nho, os governos da Inglaterra e da França houvessem apren­ dido alguma coisa e compreendido a necessidade (não muito agradável para êles, mas, afinal de contas, necessidade) de fazer frente única com a U R SS contra a agressão. De qual­ quer modo, considerávamos um dever político e histórico, ape­ sar de tôdas as desilusões do passado, realizar nova tenta­ tiva para encontrar linguagem comum com os inglêses e fran­ ceses. E assim fizemos, convencidos de que, com boa von­ tade de ambos os lados, o pacto tripartido de assistência mú­ tua poderia ser assinado no mais breve prazo: o mais tar­ dar, no decurso do junho. Por desgraça, porém, equivocamo-nos completamente. Chamberlain e Daladier (menciona-se Daladier, também aqui e doravante não só como pessoa, mas como encarnação das famosas “duzentas famílias” ) continuaram aferrados à sua linha inflexível, isto é, à política de atiçamento da Alema­ nha com a U R S S . Mesmo naquele momento, quando o ter­ rível espectro da Segunda Guerra Mundial já se desenhava, claro, no horizonte, Chamberlain e Daladier continuaram a pensar, sobretudo, não em concluir o quanto antes o pacto tripartido, mas em elidir a necessidade de assiná-lo. Os inglêses e franceses tinham consciência da proximi­ dade do nôvo “salto” de Hitler? Sim, tinham consciência disso e posso dar prova contundente. No dia 12 de junho, tive importante conversa com Halifax (conversa de que vol­ tarei a me ocupar adiante), durante a qual lhe perguntei como decorreria, a seu ver, o verão que acabava de come­ çar. O Ministro das Relações Exteriores britânico respon­

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deu-me, textualmente, o que se segue (cito as suas próprias notas) : A meu ver, será difícil a H err H itler com parecer p e ­ rante a C on ferên cia d e N urem ber37 sem , prèviam ente, tentar resolver o problem a d e D antzig. P or isto, devem os esp e­ rar que julho e agosto sejam m eses torm entosos38 (grifo do a u to r.) * Como vemos, o govêrno inglês compreendia perfeitamen­ te que o ar cheirava a„ tempestade e que, dessa vez, ia-se decidir o destino d a P olônia, cuja integridade e independên­ cia C ham berlain e D aladier acabavam d e garantir. O govêr­ no inglês não podia deixar de compreender que, sem o acôr­ do com a U R SS , não poderia salvar a Polônia. E, apesar disso, em lugar de concluir com a maior rapidez o pacto tri­ partido de assistência mútua, pôs em execução, princípios de junhq, o caminho da sabotagem pertinaz do pacto, cuja ne­ cessidade acabava de, oficialmente, reconhecer. A dolorosa história dessa sabotagem será relatada nas páginas seguin­ tes. Quero agora dizer que é difícil encontrar, nos anais diplomáticos, exemplo semelhante de hipocrisia e doblez como as que revelaram Chamberlain e D aladier nas conversações tripartidas de 1939. É também difícil encontrar exemplo mais patente de cegueira política distada pelo ódio de clas­ se! Ao mesmo tempo, a posição dos governos da Inglaterra e da França, nos meses críticos das conversações tripartidas, prova, sem deixar margem à dúvida, que, o que menos os preocupava era salvar a Polônia; que a Polônia, à seme­ lhança da Tcheco-Eslováquia, no ano anterior, era para êles, apenas, uma moeda de troca no seu grande jôgo com a Ale­ manha hitlerista. Ao recordar êsses dias, não posso deixar de refeir-me a outra figura que desempenhou papel de não pouca impor­ tância na sabotagem anglo-francesa das conversações tri­ partidas: a figura de Joseph Patrick Kennedy, então embai­ xador norte-americano em Londres. Filho de família abastada, Joseph Kennedy fizera car­ reira rápida como financista e homem de negócios. Aos cin37 Alude-se ao grande desfile fascista que os hitleristas realizavam, todos os anos, em Nuremberg, no mês de setembro. 38 d b f p , Third Series, vol. V, págs. 50-51.

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qüenta anos, já era muito rico. Segundo o costume na Amé­ rica do Norte, recebeu a sua "compensação” pelos serviços prestados a Franklin D. Roosevelt durante a campanha elei­ toral e, em 1938, chegou à Inglaterra como embaixador dos Estados Unidos. Imediatamente, Kennedy tornou-se a “sen­ sação” da temporada; sobretudo, por ser pai de nove filhos! Tais coisas não são freqüentes entre os membros do Corpo Diplomático. A sorridente fisionomia do embaixador norteamericano adornou, invariàvelmente, durante meses, as pá­ ginas dos jornais e revistas; às vêzes, à frente de tôda a fa­ mília; outras, com os filhos, que eram quatro; e outras, com as filhas, que eram cinco. Depois se iniciou a campanha de concessão a Kennedy de títulos de D octo r H onoris C ausa em Direito; seis (!) universidades — as de Dublin, Edimburgo, Manchester, Birmingham, Bristol e Cambridge — dispensaram essa honra ao embaixador norte-americano. E a cada momento se cantavam tôda espécie de loas a Kenne­ dy; e os fotógrafos o apresentavam com a toga universitá­ ria ou sem ela, com o barrete de professor ou de cabeça descoberta. o Entretanto, o embaixador norte-americano não se dedi­ cava, apenas, à vida mundana e às funções representativas. Fazia também política, terreno no qual logo se tornou ídolo da cam arilha d e C liveden . Duas idéias principais lhe domi­ navam o espírito: a fé no poderio da Alemanha hitlerista e a descrença na vitalidade da Grã-Bretanha. E como, ao mesmo tempo, não sentia simpatia alguma pela U R SS , pas­ sou a ser, logicamente, o apóstolo do “apaziguamento” dos agressores. O embaixador norte-americano apoiou a política de Chamberlain durante a crise tcheco-eslovaca e, após M u­ nich, disse que o povo inglês deveria erguer uma estátua ao seu Primeiro-Ministro por ter salvo da guerra a GrãBretanha e a Europa. Lembro-me de que, daí a uns meses, em junho de 1940, depois de a França ter capitulado, quando a Inglaterra se achava ante o dilema de concluir a paz com a Alemanha ou continuar a guerra, Kennedy veio à Embaixada visitar-me e perguntou a minha opinião no assunto. Para êle, a In­ glaterra era impotente diante da Alemanha; perdera, defini­ tivamente, a guerra e quanto antes assinasse a paz com Hi­ tler, melhor. O embaixador norte-americano ficou muito sur­

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preendido quando lhe refutei as afirmações e procurei de­ monstrar-lhe que nada havia de perdido para a Inglaterra até aquêle momento; que ela tinha grandes possibilidades de resistir a repelir a ameaça alemã, se, claro estava, conser­ vasse a coragem e a disposição para a luta. Destaquei que, a julgar pelas minhas observações, o espírito das grandes massas populares era firme e que, até na cúpula governamen­ tal, havia homens que não se renderiam à insolência dos agressores fascistas. Daí concluía ser errôneo pintar a pers­ pectiva com os tons mais negros. Quando terminei, Kennedy, abrindo os braços, exclamou: < — Sabe o que lhe digo?. . . Que o senhor é um otimis­ t a . . . Nada tenho ouvido de parecido nem sequer dos in­ glêses! E como ia ouvi-lo!? Os inglêses com os quais Kennedy se avistava ostentavam a marca de C liveden e nem êles pró­ prios acreditavam no futuro do seu país. Contudo, na Grã-Bretanha encontrava-se no poder, na­ quele momento, um govêrno presidido por Churchill. Tinha os seus defeitos, mas, apesar de tudo, refletia melhor o es­ tado de espírito das massas; daí não ter a Inglaterra capi­ tulado ante a Alemanha hitlerista. O embaixador norteamericano e os seus amigos torciam as mãos, horrorizados; a história, porém, veio a justificar, plenamente, a decisão ado­ tada pelo govêrno britânico de então. É fácil compreender que um homem como Kennedy po­ dia influir e, com efeito, influiu na conduta dos inglêses, du­ rante as conversações tripartidas de 1939. Foi um firme es­ teio de Chamberlain, ao longo de tôdas as complexas peri­ pécias dessa desditosa história. Seeds recebeu novas instruções em 25 de maio. De acôr­ do com elas, o embaixador britânico em Moscou (do mesmo modo que o seu colega francês Naggiar) apresentou ao go­ vêrno soviético o seu projeto de pacto tripartido de assistên­ cia mútua cuja essência era: 1. A Inglaterra, a França e a U R SS , “procedendo em concordância com os princípios do artigo 16, parágrafos 1 e 2 da Carta da Sociedade das Nações”, se prestarão, mütuamente, tôda espécie de ajuda e apoio nos três casos se­ guintes: a) se alguma delas fôr vítima de agressão por par­
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te de uma‘ potência européia; b) se alguma delas se vir Im­ plicada em operações militares por fôrça da concessão de ga­ rantias a qualquer Estado europeu; c) se alguma delas se vir implicada em operações militares por fôrça da ajuda pres­ tada a qualquer Estado europeu que, embora sem ter garan­ tias dos signatários do pacto, se dirigir a êles em petição de ajuda para lutar contra a agressão (arts. 1 e 2 ) . . 2 . Os três governos deverão examinar, conjuntamen­ te, os métodos a empregar para que o seu apoio e ajuda re­ cíprocos possam dar, em caso de necessidade, resultados mais eficazes (art. 3 ). 3 . O pacto será firmado no prazo de cinco anos .39 Como se compreenderá, êsse pacto de modo algum po­ dia satisfazer a U R SS , visto padecer de uma série de de­ feitos, dos quais eram os principais; Primeiro, vinculava o pacto tripartido à Sociedade das Nações. Isso significava, na prática, que, dadas as normas e regras vigentes nessa organização, o pacto jamais condu­ ziria a ações rápidas e eficientes. Tudo ficaria reduzido a boas palavras e resoluções no papel1 . Segundo, colocava a U R SS em situação de desigualdade relativamente aos outros signatários, obrigando-a a acudir em socorro da Inglaterra e da França, se se vissem arras­ tadas à guerra por fôrça das garantias dadas à Polônia, Ro­ mênia, Grécia e alguns outros Estados; mas não obrigava a Inglaterra e a França a acudir em socorro da U R SS , se esta se visse envolvida em guerra, por fôrça da agressão da Alemanha aos países bálticos, visto que a Inglatterra e a França não lhes haviam dado garantias. E era, justamente, dêsse lado que a U R S S podia esperar, a todo momento, surprêsas desagradáveis. E , terceiro, o ponto referente ao reforço do pacto com um convênio militar estava formulado de maneira tão vaga e abstrata que se tornava difícil dizer quando seria assinado e se, em geral, chegaria a assinar-se. De bom ou mau gra­ do, a impressão que se tinha era que os inglêses e franceses viam no pacto um “papel”, que podia servir para especular nas negociações com a Alemanha; não, porém, verdadeiro
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Thírd Series, vol. V , pág. 6 79.

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instrumento de luta contra a agressão, dotada de afiadas prêsas. Sim, o conteúdo do projeto anglo-francês sugeria tris­ tes reflexões e nada de bom pressagiava. Apesar disso, a U R SS resolveu continuar as negociações, na esperança de que a situação endireitasse pouco a pouco; pelo que o govêr­ no soviético entregou, em 2 de junho, aos seus companheiros de negociações um contraprojeto, cuja essência era: 1. A França, a Inglaterra e a U R S S se prestariam mutuamente, ajuda imediata e eficaz, se alguma delas se visse implicada em operações militares com potência européia, nos seguintes casos: a) agressão dessa potência a um dos signatários do pacto; b) agressão dessa potência à Bélgica, Turquia, Gré­ cia, Romênia, Polônia, Letônia, Estônia e Finlândia, que a Inglaterra, a França e a U R S S se comprometiam a defen­ der no caso de tal agressão; e c) a ajuda de um dos signatários do pacto a qual­ quer potência européia (das não-garantidas) que solicitasse essa ajuda para lutar contra a violação de sua neutralidade. 2 . No caso de se iniciarem operações militares con­ juntas em virtude da aplicação do pacto, as três potências signatárias se comprometeriam a concertar o armistício ape­ nas de comum acôrdo. 3 . No caso de surgir ameaça de agressão por parte de potência européia, os três signatários do pacto se consul­ tariam sem demora e, se fôsse preciso, decidiriam em co­ mum quando e como devia ser pôsto em marcha o mecanis­ mo da ajuda mútua, independentemente de qualquer proce­ dimento estabelecido pela Sociedade das Nações para exami­ nar essa questão. 4 . Os três signatários do pacto concluiriam, no prazo mais breve possível, um acôrdo acêrca dos métodos, formas e amplitude da ajuda mútua. O pacto entraria em vigor ao mes motempo que êsse acôrdo. 5 . O pacto seria firmado pelo prazo de cinco anos. Como vemos, o projeto soviético de pacto, que tinha caráter puramente defensivo, sanava os defeitos do proje­ to anglo-francês: rompia a sua vinculação com a Sociedade das Nações, continha enumeração completa dos Estados que

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recebiam garantias das três grandes potências, inclusive dos países bálticos, isto é, criava situação de igualdade de direi­ tos da U R SS com os seus sócios ocidentais — e, por fim, determinava, com tôda a firmeza, que o pacto e o convênio militar entrariam em vigor simultâneamente. De mais a mais, o projeto soviético obrigava a todos os signatários do pacto, no caso de surgir a guerra, a concertar o armistício ou a paz somente de comum acôrdo (digamos, de passagem, que esta última cláusula não desempenhou papel essencial algum nas negociações). Se os governos da Inglaterra e da França houvessem as­ pirado, de verdade, a erguer barreira intransponível diante da agressão fascista, deveriam ter aplaudido e aceitado, em brevíssimo prazo, o projeto soviético; porque êsse projeto garantia, plenamente, todos os países que lhes interessavam de maneira especial, conforme haviam dito até então, e por­ que, além disso, criava autêntico instrumento, eficiente e rá­ pido, de ajuda mútua para a luta contra a agressão. Essa aspiração principal, contudo, era o que faltava, de modo completo! Chamberlain e Daladier declaravam, hipo­ critamente, que desejavam o pacto e'até o mais depressa pos­ sível; mas, na realidade, maldiziam o dia e a hora em que a amarga necessidade os obrigara a iniciar as conversações tripartidas. Daí, justamente, terem cerceado, em seu projejeto de 25 de maio, com tanta irreverência, a própria “alma” do pacto. Daí, também, ao se chocarem com o contraprojeto soviético de 2 de junho, haverem iniciado sabotagem longa e fastidiosa, por meio de emendas, ressalvas, adições e modifi­ cações sem fim. Quando perdiam uma posição, aferavamse a uma segunda; perdida esta, aferravam-se a uma tercei­ ra; e, assim, ao infinito. As coisas mais evidentes eram, ime­ diatamente, impugnadas e postas em dúvida. Sob a nossa pressão, os inglêses e franceses viam-se obrigados a retro­ ceder constantemente; mas, com lentidão e má vontade, rilhando os dentes e exigindo-nos “compensações” em troca de cada uma das suas “concessões” . Quando relembro aquêle verão de 1939, sufocante, can­ sativo e carregado de tormentosa eletricidade, quando relem­ bro todos os debates, disputas, conversações, entrevistas, con­ flitos e compromissos em cuja atmosfera tive de passar o verão, posso afirmar, com a mão no peito, que jamais, em

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minha vida, conheci período mais duro. Sentia que o mun­ do corria veloz para a catástrofe, que eram necessários es­ forços gigantescos para evitar nova carnificina mundial. Lá longe, porém, à beira do Tâmisa e do Sena, formigavam aos meus próprios olhos uns anões que não queriam compreen­ der, nem compreendiam o que se estava passando na Terra e que viviam, dia após dia, afundados até as orelhas nas mesquinhas jogadas e contra-jogadas da banal rotina di­ plomática .

M E N C IO N Á -L O S O U NÃO?

Façamos justiça aos inglêses e franceses: na questão da Sociedade das Nações, fizeram concessões rápidas e tenta­ ram até apresentar as coisas como se as discordâncias hou­ vessem surgido por mera incompreensão. Argumentaram que não tinham pensado de modo algum, em aplicar a interven­ ção da Sociedade das Nações no caso do pacto tripartido e que era puramente acadêmica a constatação de corresponder o pacto tripartido aos princípios da Sociedade. Eu tinha grandes dúvidas a respeito da sinceridade de semelhante ex­ plicação: nela desempenhou papel muito mais importante, provàvelmente, a circunstância de que a Sociedade das N a­ ções, àquela época, se desacreditara, por completa, como ins­ trumento de luta contra a agressão. Porém, o fato é que, nos primeiros dias de junho, haviam já desaparecido as di­ vergências sôbre essa questão. A U R SS aplaudiu êsse passo à frente nas negociações, mas se absteve, de momento, de fazer prognósticos sôbre o futuro. No dia 8 de junho, em conversa, Halifax disse-me que, com o fim de acelerar as negociações, resolvera enviar a Moscou W illiam Strang, funcionário destacado do Foreign O ffic e. Isso criava dupla impressão. De um lado, o fato de enviar Strang, homem inteligente e que bem conhecia a União

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Soviética por seus serviços-anteriores, provava o desejo apa­ rente do govêrno britânico de chegar a acôrdo com a maior rapidez. De outro lado, contudo, vinha a ser um tanto es­ tranho que se escolhesse como emissário, para a obtenção de objetivo tão importante, não um político de relêvo, mas um funcionário (capaz, mas, de qualquer forma, funcionário) do departamento diplomático. A notícia de Halifax me pôs em guarda, até certo ponto, mas não quis tirar conclusões pre­ maturas. Por isso, limitei-me a dar-me por informado de ha­ ver Strang saído de Londres, de avião, no dia 1 2 de junho. Chegou a Moscou a 14 e tomou parte ativa nas negociações até princípios de agôsto. Para assinar o pacto tripartido com verdadeira rapidez (o que constituía nosso objetivo principal) e, ao mesmo tem­ po, sondar os propósitos autênticos dos nossos companheiros de negociações britânicos, o govêrno soviético resolveu con­ vidar Halifax a ir a Moscou. Entretanto, na dúvida de como êle acolheria o convite, deu a êste forma mais circunspecta. Na manhã de 1 2 de junho, no mesmo dia em que Strang partiu para Moscou, recebi instruções -no sentido de visitar, imediatamente, Halifax para recomendar-lhe, amistosa e in­ sistentemente, “em meu próprio nome”, que se dirigisse, quanto antes, a Moscou, a fim de concluir as negociações e assinar o pacto. No mesmo dia, visitei o ministro britânico e cumpri a incumbência recebida de Moscou. Disse-lhe'eu: — Agora que as partes chegaram a acôrdo na questão principal e vai ser assinado a pacto de assistência mútua en­ tre os três Estados, é da maior importância que êsse indis­ pensável ato diplomático se efetue sem demora. A situação internacional é extremamente tensa e, em Dantzig, podem, qualquer dia, ocorrer acontecimentos prenhes de perigos. . . As fôrças da paz devem apressar-se.. . Se o pacto triparti­ do fôr firmado nos próximos dias, isso pode esfriar muito H itle r.. . Creio que todos nós estamos nisso interessados.. . Pensando no que poderia valer a mais rápida criação da co­ ligação tripartida contra os agressores, cheguei à conclusão de que muito depende do senhor, pessoalmente, lord Halifax. Se acedesse a visitar Moscou agora, esta semana, ou em úl­ timo caso, na próxima, levar a cabo as negociações e assi­ nar o pacto, a paz na Europa se preservaria. Não é, por

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acaso, tarefa digna de um grande estadista? Não conviria fazer todos os esforços possíveis para cumpri-la? Posso afian­ çar-lhe, com tôda a exatidão, que o govêrno soviético aplau­ diria essa sua decisão e que o senhor teria, em Moscou; o acolhimento mais caloroso e cordial. Enquanto dizia isso, observava Halifax com atenção. O rosto dêle, alongado e feio, conservou, de comêço, o seu habitual sorriso de ceticismo. Entretanto, à medida que eu falava, foi adquirindo expressão de crescente seriedade. Ha­ lifax era diplomata suficientemente esperto para compreen­ der que o embaixador soviético não podia aconselhá-lo, com tanta insistência, e até “a título pessoal”, a empreender via­ gem a Moscou sem para tanto contar com a sanção do seu govêrno. — Se o senhor, lord Halifax — disse-lhe eu, con­ cluindo, » — julgasse possível viajar agora, para Moscou, pe­ diria ao meu govêrno que lhe enviasse convite oficial. O rosto de Halifax adquiriu expressão severa e enig­ mática. Olhou, atentamente, para o teto, esfregou depois o entrecenho e, por fim, disse, muito significativamente: 7 - Levarei isso em conta. Claro que eu compreendia que Halifax não podia re­ solver a sua viagem a Moscou sem discutir a questão no gabinete. Esperei vários dias, mas não recebi resposta ao meu convite. Passou-se uma semana, mas Halifax continuou a guardar silêncio. Tudo, então, se explicou: Halifax não queria ir a Moscou, o govêrno britânico não pensava em concluir com rapidez o pacto. A sua disposição para assi­ nar o pacto de assistência mútua, de que nos dera conhe­ cimento a 25 de maio, não era mudança sincera dos seus pontos de vista, mas simples manobra imposta pelas circuns­ tâncias. Não se podia dar o menor crédito a essa disposi­ ção. Dêsse modo, o govêrno soviético recebeu resposta à questão que lhe interessava: a passividade de Halifax (até o fim das negociações não tornou êle a aludir sequer à ques­ tão por mim formulada) era mais eloqüente do que as mais requintadas declarações diplomáticas. Hoje, ao cabo de tantos anos, posso colocar um postscriptam muito importante à conversa de 1 2 d e junho com Halifax, conversa que acabo de relatar. Nos D ocum entos d a política externa britânica, publicados pelo govêrno inglês,

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figuram umas notas dessas entrevistas, então tomadas pelo próprio Halifax. Como é que nelas se apresenta o meu con­ vite para visitar Moscou? Reproduzo fragmento textual dessas notas. " . . . 7. Em conclusão, I . Maiski acentuou que seria bom fizesse eu mesmo uma viagem a Moscou, quando as cir­ cunstâncias se tornassem mais tranqüilas. Respondi a isso que, conquanto, naturalmente, nada me proporcionasse maior prazer, sentia, entretanto, que a minha ausência de Londres era impossível, naquele instante". Fazendo abstração do fato de haver sido a nossa con­ versa, bastante longa, reduzida, nesse documento, a umas quantas linhas muito vagas, a exposição de Halifax que acabo de citar contém, pelo menos, duas falsidades evidentes. Em primeiro lugar, recomendei-lhe, com insistência, que partisse para Moscou im ediatam ente, em m eados d e junho d e 1939, a fim de, sem demora, assinar o pacto e, com isso, criar na Europa “circunstâncias mais tranqüilas” . E Hali­ fax diz, justamente, o contrário: que lhe recomendei ir a Moscou só depois que “as circunstâncias se tornassem mais tranqüilas": isto é, pelo visto, depois” da assinatura do pacto. A veracidade da minha versão é confirmada, no fundo, pelo próprio Halifax, o qual, nas suas notas, ao expor a res­ posta que deu à minha sugestão, diz: “a minha ausência de Londres era impossível naquele instante” . Por conse­ guinte, falamos da sua viagem “naquele instante” e não no futuro. Em segundo lugar, Halifax, em suas notas, afirma terme declarado, imediatamente, que lhe era impossível diri­ gir-se a Moscou naquele instante. A realidade é que o M i­ nistro das Relações Exteriores não me falou disso, limitan­ do-se a responder que levaria em conta a minha proposta. Se a segunda falsidade não tem grande importância, a primeira é verdadeira falsificação mal-intencionada, pois, adultera, completamente, a verdade. Não sei se Halifax pen­ sou em Deus quando escreveu as notas da nossa conversa, mas não cabe a menor dúvida de que o respeitável lorde proce­ deu, então, de maneira absolutamente indigna. Surge, por si mesma, a pergunta: que necessidade ti­ nha êle de fazer isso? A explicação que encontro é a se-.

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guinte: como as notas das conversas com os embaixadores são enviadas, habitualmente, a todos os componentes do ga­ binete, Halifax quis ocultar a minha proposta até dos seu« colegas ministros, temendo que suscitasse complicações in­ ternas entre os membros do govêrno; porque, àquela altura, tôda a política externa da Inglaterra estava, de fato, con­ centrada nas mãos de tjês homens: Chamberlain, Horace W ilson e Halifax, com a particularidade de que o segundo desempenhava papel muito mais importante que o terceiro. A justeza da minha Suposição se confirma também por outro fato surpreendente. Eden, ao saber, então, da má von­ tade de Halifax de ir a Moscou, dirigiu-se ao govêrno bri­ tânico, por iniciativa própria, oferecendo-lhe os seus ser­ viços . — Tenho razões para pensar — disse êle — que os russos não têm má opinião a meu respeito. . . Se lord Ha­ lifax nãt> acha conveniente, seja por que fôr, ir agora a M os­ cou, mandem-me a mim e encarreguem-me de levar a cabo a questão do pacto. O govêrno de Chamberlain, porém, rejeitou a proposta de Eden . 40 , Assim, pois, já sabemos que o govêrno britânico não experimentara nenhuma “mudança de coração”, como dizem os inglêses, e continuava fiel à linha política dos clivedenia­ nos. O govêrno soviético, entretanto, resolveu prosseguir nas negociações contra todos os obstáculos: era preciso levar a cabo o desejo de assegurar a paz, mediante a criação de uma coligação tripartida. Assim o ditavam os interêsses do povo soviético e de tôda a humanidade. Assim o ditava, também, a sua responsabilidade perante a história. Não me é possível descrever, com todos os detalhes (nem o considero, além disso, necessário), o alvoroço febril que criaram os inglêses e franceses, no verão de 1939, em tôrno do pacto tripartido, a fim de sabotar o êxito feliz das
40 No verão de 1939, chegaram-me, apenas, alguns rumores vagos acêrca dessa tentativa de Eden p ara concertar a situação. Bem mais tarde, já durante a guerra, o próprio Eden contou-me o seu insucesso de então. Disso falam também Keith Feiling, biógrafo de Neville Cham­ berlain (veja-se Keith Feiling, The L ife o f Neville Chamberlain, pág. 4 0 9 ) e W . Churchill, (W . Churchill, Second World War, vol. I, pág. 3 4 7 ).

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negociações. Direi, apenas, que nunca deixei de ter a sen­ sação de que nós, soviéticos, estávamos abrindo passagem por matagal cerrado e espinhoso, no qual, a cada instante, se nos deparavam obstáculos de tôda espécie. Apesar de tudo, avançávamos com tenacidade para conseguir o obje­ tivo visado. . . Ai de nós, porém! Não pudemos atingi-lo. Por quê? Mais adiante haveremos de ver. Por ora, ficarei, ape­ nas, nas balizas principais das negociações de entãò. Todo o mês de junho foi dedicado à luta (coisa in­ crível!) em tôrno de uma questão: mencionar ou não, nomi­ nalmente, no texto do pacto, os países aos quais as três grandes potências concediam garantias. Como jã dissemos, no projeto anglo-francês de 25 de maio, havia um ponto que obrigava a Inglaterra, a França e a U R S S a se prestarem ajuda mútua, no caso de se verem envolvidas na guerra como garantidoras de qualquer Estado europeu. Era fórmula por demais geral e insuficientemente concreta, que se prestava a diversas interpretações, na prática. Poderia ter sido aceita, se as relações entre o govêrno soviético, de um lado, e os govêrnos inglês e francês, de outro, tivessem como base a amizade e a confiança recíprocas. Na verdade, porém, as relações entre êles estavam impregnadas de desconfiança e receio mútuos, para os quais o govêrno soviético tinha, con­ forme sabemos, razões de sobra. Por isso, no seu contraprojeto de 2 de junho, a U R S S mencionou, um por um, os oito países aos quais as três grandes potências pensavam em conceder garantias. Eram (repetirei uma vez mais) a Bél­ gica, Turquia, Grécia, Romênia, Polônia, Letônia, Estônia e Finlândia. Essa contraproposta levava em consideração tan­ to os interêsses da U R SS quanto os da Inglaterra e da Fran­ ça. Podia acreditar-se que Chamberlain e Daladier se jul­ gariam satisfeitos. M as não! Estavam descontentes. Por quê? D e início, porque entre os países que recebiam garan­ tias figuravam três Estados bálticos. Para que isso? Era carga excessiva! Os inglêses e franceses tentaram convencernos, em tons diversos, de que essas garantias eram desne­ cessárias, fincando pé, especialmente, no fato de ser o ter­ ritório do Báltico demasiado estreito para nêle se criar uma frente de guerra eficaz. Por conseguinte — argumentavam — êsse território não poderia ser utilizado pelos alemães con­

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tra a U R SS , sem estender, ao mesmo tempo, a frente ao território da Polônia. E se a Polônia se visse envolvida na guerra, entrariam em vigor as garantias que lhe haviam dado a Inglaterra e a França. É claro que o govêrno soviético-não podia aceitar argumentos semelhantes e, na conversa de 1 2 de junho com Halifax, declarei-lhe, categoricamente, que, sem as garantias aos três Estados bálticos, não haveria pacto algum. Quando se viram fosçados, depois disso, a retirar as suas objeções contra as garantias aos países bálticos, os in­ glêses e franceses declararam, inesperadamente, que julga­ vam desaconselhável a enumeração nominal, no texto do pac­ to, de todos os Estados aos quais se concediam garantias. Por quê? Apresentaram êles diversas considerações: a declara­ ção pública das garantias feria o orgulho nacional dos paí­ ses aos quais eram outorgadas; a declaração pública das ga­ rantias assustaria os Estados que as recebessem, porque da­ ria a impressão de se haverem êles incorporado à frente anti-hitlerista; a declaração pública das garantias, sem o con­ sentimento direto dos Estados aos quais eram dadas, con­ tradiria os princípios do Direito Internacional. . . Quando a U R SS , em resposta, propôs à Inglaterra e à França que in­ fluíssem sôbre os Estados a garantir e incitassem os respec­ tivos governos a não se oporem, pelo menos, às garantias, Chamberlain e Daladier assumiram, imediatamente, uma ati­ tude solene e declararam que cada Estado era soberano; pelo que representava um pecado sugerir-lhe que fizesse par­ te da frente anti-hitlerista. Mais ainda: os nossos compa­ nheiros de negociações, principalmente os inglêses, estimula­ ram (se não oficialmente, pelo menos semi-oficialmente) os governos reacionários dos países bálticos a declarar, públicamente, que não queriam receber garantia alguma das três grandes potências. E, com efeito, os Ministros das Relações Hxteriores da Finlândia, Estônia e Letônia fizeram declara­ ções nesse sentido, destacando-se, pela sua singular belicofiidade, o representante da Estônia. O govêrno soviético tirou, então, a dedução lógica que rcsultava da situação criada: no dia 16 de junho, o ComisfiArio do Povo dos Negócios Estrangeiros propôs aos em-

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baixadoreí inglês e francês em Moscou, Seeds e Naggiar, respectivamente, não figurasse no pacto, em geral, garantia alguma a outros Estados europeus e se assinasse, simples­ mente, um pacto tripartido de assistência mútua entre a In­ glaterra, França e U R S S para o caso de agressão direta da Alemanha a uma das potências referidas. A proposta causou grande desconcêrto em Londres e Paris, onde raciocinaram da seguinte maneira: “Se se acei­ tar a proposta soviética, que é que fica das garantias conce­ didas à Polônia e à Romênia pela Inglaterra e pela França, em março e abril de 1939? Ficarão no ar e se transforma­ rão em pedaços de papel, capazes, entretanto, de assestar golpe de não pequena monta no prestígio das potências que deram as garantias". Daí se terem os governos inglês e fran­ cês apressado a recusar assinatura a um simples pacto tri­ partido de assistência mútua e voltado ao pacto tripartido com garantias a outros países. Durante várias reuniões realizadas em Moscou, tentaram êles, sob diversos pre­ textos, elidir a necessidade de mencionar no pacto os paí­ ses que recebiam garantias. E, quando se convenceram de ser isso impossível, propuseram, em 2 1 de junho (a propos­ ta foi apresentada pelo embaixador francês, Naggiar) que a lista dos países em questão desaparecesse do artigo l 9 do texto fundamental do pacto para figurar num protocolo se­ creto anexo ao mesmo. 41 Não conseguíamos perceber por que isso convinha mais aos inglêses e franceses, dado que, em nossos dias, o conteúdo de todos os documentos secretos não demora a cair no domínio público; mas, como os nos­ sos companheiros de negociações insistiam na proposta, o go­ vêrno soviético não julgou necessário opor-se ao aludido pro­ tocolo . Julgo necessário, a êste respeito, fazer uma observação acêrca das relações entre inglêses e franceses durante as negociações tripartidas. Já disse, baseando-me nas palavras do nosso embaixador em Paris, J . Surits, que o govêrno de Daladier, apesar de todo o seu reacionarismo, mantinha po­ sição mais favorável em relação ao pacto do que o govêrno de Chamberlain. Isso não se devia naturalmente a serem os franceses dotados de fidalguia ou perspicácia especial,
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Third Series, v o l. V , págs. 140-142.

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mas ao fato de que a Alemanha ameaçava a França muito mais diretamente do que a Inglaterra. Em todo caso, o cer­ to é que, não obstante a linha comum a que se atinham Lon­ dres e Paris, existiam, entre êles, nas negociações, difèrenças de matiz que se manifestavam num ou noutro caso. Assim se deu, particularmente, ^com o problema da enumeração no pacto dos países que recebiam garantias, quando Naggiar propôs transferir essa enumeração para um protocolo secre­ to. Conforme veremos adiante, êsse fato se repetiu, depois, em mais de uma ocasião. Todavia, o problema da enumeração dos países aludi­ dos não terminou com o que ficou dito acima. Decidida a questão do protocolo secreto, os inglêses e franceses decla­ raram, de repente, que desejavam estender as garantias a mais três países que lhes interessavam: Holanda, Luxembur­ go e Stiíça. Assim, pois, as três grandes potências deviam garantir não oito Estados, como até então se havia tratado, mas onze, dois dos quais (Holanda e Suíça) nem sequer mantinham relações diplomáticas com a União Soviética. Isso teria, é lógico, de aumentar a carga que os grandes haviam de suportar; de modo especial, a União Soviética, porque lhe recairia nos ombros, justamente, o pêso maior das garantias concedidas a seis Estados: Polônia, Romênia, Tur­ quia e os três países bálticos. A União Soviética fêz sentir, em uma das reuniões, que, traduzidos para a linguagem mi­ litar, os compromissos relativos aos oito países inicialmente previstos exigiriam da U R SS , no caso de serem postos em prática, colocar cem divisões em linha; ampliando-se, po­ rém, o número de países garantidos, seriam necessárias ain­ da mais divisões; à vista do que o govêrno soviético decla­ rou estar disposto a só tomar sob a proteção do grande tercêto mais três Estados, se recebesse certa compensação: por exemplo, pactos de assistência mútua com a Polônia e a Tur­ quia, em vez das garantias unilaterais da União Soviética aos dois países, garantias anteriormente previstas. A Ingla­ terra e a França, novamente, se esconderam atrás da sobe­ rania da Polônia e da Turquia, ficando evidente que, com semelhante posição, era mais do que duvidosa a assinatura de pactos de assistência mútua com a Polônia e a Turquia. Resolveu-se, por isso, que a Holanda, o Luxembrugo e a

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Suíça não‘figurassem na lista dos países que receberiam ga­ rantias, mas que, no protocolo secreto já mencionado, se dis­ sesse o seguinte: no caso dêsses três países verem ameaça­ da a sua independência, os membros do grande tercêto se consultariam sôbre as medidas a adotar. Os inglêses e franceses, entretanto, além de alonga­ rem, a todo momento, as negociações, exigiam da. U R SS “compensações” a cada uma das concessões que faziam: donde resultou forte altercação entre Halifax e eu, no dia 23 de junho. Pediu-me êle que fôsse vê-lo no F oreign Of f i c e e, à minha chegada, começou a queixar-se, amargamente, da "obstinação” e “intransigência” soviéticas. Depois, com ex­ pressão severa e enigmática, perguntou-me, subitamente, se o govêrno soviético queria, realmente, assinar o pacto tri­ partido . — Por que o pergunta? — foram as minhas palavras. — Sabe muito bem que o govêrno soviético é partidário con­ victo do pacto tripartido. Não é o que vejo — declarou H alifax. < — Quando se travam negociações, as duas partes fazem concessões e, no fim de tudo, chegam a compromisso. Nós, inglêses, lhes temos feito não poucas concessões, durante estas negocia­ ções, mas os senhores não se afastaram um milímetro das suas posições in icia is... É evidente que o govêrno sovié­ tico não está interessado no pacto. — Desculpe, lord Halifax — repliquei —• mas, ao que parece, a U R SS e a Inglaterra compreendem de forma di­ versa o que são conversações diplomáticas. Os inglêses, se­ gundo vejo, as imaginam como uma espécie de feira na qual dois mercadores regateiam; de início, ambos querem preços exorbitantes; pouco a pouco, põem-se a fazer abatimentos; no fim, fecham o negócio. Nesse regateio, cada mercador exige, a cada concessão feita, que o outro faça concessão semelhante. . . Pois bem, nós, soviéticos, temos opinião mui­ to diversa das negociações diplomáticas. Não procuramos, de início, exigir medidas máximas, para ter, depois, a possi­ bilidade de “ceder” alguma coisa. Dizemos, de imediato, o que é necessário, a nosso juízo, para conseguir o fim visado. Assim temos procedido também nas atuais negociações. Tudo que está exposto no projeto de 2 de junho é o " mínimo " in~

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dispensável capaz d e assegurar a p az na E u rop a. Os senho­ res, pelo contrário, começaram com uma coisa que não po­ dia assegurar essa paz e, por isso, como é natural, tiveram de ir-se aproximando, paulatinamente, da nossa posição,’ pois também os senhores devem estar interessados em preservar a paz na Europa. Não podemos renunciar ao nosso "mínimo dispensável” sem trair a causa da paz. Os senhores, porém, precisam aproximar-se um pouco mais de nós, a fim de es­ tarmos em condições, com os esforços comuns, de pôr dique à agressão. Portanto, será melhor guardarem o catálogo das concessões que têm feito e não nos exigirem por elas com­ pensação alguma. Não o aceitaremos. Somos realistas. Compreenda que o que nos interessa não são as fórmulas jurídicas, nem o equilíbrio no balanço de concessões de um lado e de outro. O que nos interessa é a essência d a qu es­ tão, isto é, conjurar, realmente, a agressão e assegurar a paz na Europa. Para lograr êsse fim, não há sen ão um ca­ m inho: o cam inho seguido pela U R S S . Marchemos juntos por êle. Halifax escutou-me com atenção, mas nãó se pôs de acôrdo comigo, procurando demonstrar-me que, em tôda ne­ gociação, tem grande importância o "elemento humano", "elemento” que prevê a obrigação de se fazerem concessões recíprocas. Sem elas não se pode criar "atmosfera” que contribua para a boa marcha e feliz êxito das negociações. Cometemos êrro, se deixamos de lado a questão da “at­ mosfera” . • — Escutando os seus argumentos — disse-lhe eu, em resumo: — ' estou disposto a reconhecer que o govêrno so­ viético cometeu, de fato, um êrro: não ter levado em conta os métodos “mercantis” da diplomacia inglêsa e ter desco­ berto cedo demais e com excessiva sinceridade o seu “mí­ nimo indispensável” . Contudo, a bem da verdade, não te­ mos motivos para pedir desculpas por êsse êrro. Quanto mais duravam as negociações, mais claro se tor­ nava que os inglêses e os franceses aplicavam, simplesmen­ te, a tática da sabotagem. A situação européia se agravava dia a dia. A ameaça se voltava, sem sombra de dúvida, con­ tra Dantzig onde se apresentou Goebbels, em 18 de ju­ nho, pronunciando discurso raivoso, no qual declarava, aber­

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tamente, que se aproximava o momento em que Dantzig faria parte da Alemanha hitlerista. Nos dias seguintes, mi­ lhares de “turistas” alemães inundaram a cidade, e para lá foram transportados, de contrabando, quantidades imensas de armas de todos os tipos, até artilharia pesada; o lider nazista de Dantzig, Forster, incitou a população a não pou­ par esforços para transformá-la, novamente, em cidade ale­ mã. Sob o influxo de todos êsses acontecimentos, foi cres­ cendo a tensão das relações polono-alemãs e aumentando cada vez mais a inquietação em Londres e Paris. Daladier declarou, em 27 de junho, no Parlamento, que "jamais a Europa conheceu situação tão delicada, nem tão grave quan­ to a presente”; daí a cinco dias, em 2 de julho, o PrimeiroMinistro francês fêz constar que “a situação geral na Eu­ ropa é extraordinàriamente séria” . Churchill disse, em dis­ curso de 28 de junho, em Londres: — Estou muito preocupado com a situação em que, atualmente, nos encontramos. É muito semelhante à do ano passado, mas com a importante diferença de que, êste ano, não temos a possibilidade de retroceder. Com a Tcheco-Eslováquia não nos ligavam obrigações contratuais, mas, ago­ ra, demos garantia absoluta à Polônia. Tudo prova que os nazistas se preparam para forçar a Polônia a fazer conces­ sões. Se ela não ceder, será atacada, de oeste e sul, por grandes contingentes. • . O próprio Halifax, em discurso pronunciado a 29 de ju­ nho, apresentou com tons muito sombrios as perspectivas que se abriam à Europa. Pois bem: apesar de tudo isso, os inglêses e franceses continuaram a adiar, de maneira artificial e aborrecida, as negociações relativas ao pacto tripartido. Um dos seus mé­ todos preferidos consistia em retardar a resposta às nossas propostas ou emendas. Justamente naqueles dias, fiz peque­ na estatística do tempo que haviam necessitado, no curso das negociações, o lado soviético e o lado anglo-francês para pre­ parar as respectivas respostas. Dos setenta e cinco dias que já duravam as negociações, a U R SS utilizara, apenas, de­ zesseis para o preparo das suas respostas, ao passo que a Inglaterra e a França tinha precisado de cinqüenta e nove. Não é de estranhar que essas cifras fôssem utilizadas pela

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imprensa soviética. P ravda disse, em artigo de 29 de junho de 1939: “As negociações anglo-franco-soviéticas para a conclu­ são de um pacto eficaz de assistência mútua contra a agres­ são estão num atoleiro.. . “A intolerável demora e as intermináveis delongas nas negociações com a U R SS levam a duvidar da sinceridade dos verdadeiros propósitos da Inglaterra e da França, obrigan­ do-nos a perguntar quaLé, exatamente, a base dessa polí­ tica: a aspiração real à formação da frente da paz, ou o desejo de servir-se das negociações e da respectiva demora para outros fins, que nada têm de comum com a criação de uma frente das potências inclinadas à paz? “Esta indagação é tanto mais iniludível quanto, no de­ correr das negociações, os governos inglês e francês acumu­ lam dificuldades artificiais e criam a aparência de existirem sérias discrepâncias entre a Inglaterra e França, de um lado, e a U R SS , de outro, relativamente a questões que poderiam ser, sem demora, nem impedimentos, resolvidas, caso hou­ vesse boa vontade e propósitos sinceros por parte da Ingla­ terra e da França” . Depois de referir-se a uma dessas "dificuldades arti­ ficiais” (as garantias dadas aos Estados bálticos) e desta­ car que, em outros casos, quando se sentia, de fato, interes­ sada (as garantias à Holanda, et c. ) , a Inglaterra não se preocupava muito com os desejos dos países que se pro­ punha garantir, P ravda prosseguia: " . . . Os inglêses e franceses não querem um tratado com a U R SS baseado no princípio da igualdade e da reciproci­ dade, embora protestem, todos os dias, que também êles são partidários da “igualdade” . O que querem é um tra­ tado no qual a U R SS desempenhe o papel de peão, em cujos ombros recaia todo o pêso dos compromissos” . Após afirmar que nem se podia pensar em tratado com semelhantes características, P ravda terminava o seu artigo com as seguintes palavras, muitíssimo significativas: “ . . . Parece que os inglêses e franceses não querem fir­ mar verdadeiro tratado, aceitável para a U R SS , mas, unica­ mente, falar do tratado para, especulando perante a opinião pública dos seus países com a presumida intransigência da

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U R SS , facilitar o caminho para o conchavo com os agres­ sores” . Era uma verdade dita sem ambages, nem rodeios.

O P A C T O E O C O N V Ê N IO M IL IT A R

Seja como fôr, o certo é que, em comêço de julho, fi­ cara resolvido o problema da enumeração dos Estados que receberiam garantias das três grandes potências. Chegara o momento de vencer outras dificuldades que se erguiam no caminho da assinatura do pacto. A mais importante delas era a ligação existente entre o p acto e o convênio militar d estin ado a forta lecê-lo. Era impossívél dizer que ainda não se tivesse tocado nessa questão. Absolutamente! Já no mês de junho, dela se falara, mais de uma vez, durante as ne­ gociações entre os representantes soviéticos e anglo-franceses, em Moscou, bem como nas minhas conversações com Halifax, em Londres. Entretanto, os esforços fundamentais das partes se concentraram, no mês de junho, em resolver se se deviam mencionar ou não os Estados que receberiam garantias do grande tercêto. Em julho, passou a ocupar o primeiro plano o proble­ ma da ligação entre o pacto e o convênio militar. Para isso havia motivos especiais: a atmosfera, na Europa, estava ter­ rivelmente carregada, a guerra podia rebentar a qualquer mo­ mento e era preciso determinar, com a maior rapidez e exa­ tidão possíveis, a ajuda que se prestariam as três grandes po­ tências, se alguma delas se visse arrastada à guerra contra a Alemanha. Durante as negociações de Moscou com os re­ presentantes anglo-franceses, fêz-se finca pé, repetidas vêzes, para fazer ver que o pacto sem o convênio militar seria “um pedaço de papel” e que, na situação criada, o convê­ nio militar tinha mais importância do que o pacto. Contu­

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do, os nossos interlocutores usavam com cegueira pertinaz, também nessa questão, da tática da sabotagem, embora a êles próprios a terra começasse a arder embaixo dos pés. A posição de uma lado e do outro acêrca do pactó e do convênio militar consistia, fundamentalmente, no seguinte: O govêrno soviético opinava que o pacto e o convênio militar deviam formar um todo único, ser duas partes de um mesmo acôrdo e entrar em vigor simultâneamente. Em ou­ tras palavras, sem o convênio militar, era impossível haver pacto político. Êsse ponto de vista já tinha sido exposto com clareza em nossas primeiras propostas de 17 de abril e a êle nos cingíamos, estritamente, em tôdas as nossas negocia­ ções com os inglêses e os franceses, tanto em Moscou quan­ to em Londres e Paris. Não falarei'aqui, porque já o fiz, dos motivos que nos impeliam a nos cingor, estritamente, a tal critério. Pelo contário, os governos inglês e francês achavam que o pacto e o convênio militar eram dois documentos diversos e que não era oportuno ligá-los de um modo por demais estreito. Por quê? Quando tratei dessa questão, pela pri­ meira vez, com Halifax, em nossa conversa de 8 de junho, o Ministro das Relações Exteriores britânico disse-me: — M as exigir que o pacto e o convênio militar entrem em vigor simultâneamente significará retardar muito a assi­ natura do a cô rd o .. . Não se elabora assim tão ràpidamente um convênio m ilitar.. . Tôda delonga será perigosa para a causa da p a z . . . É preciso apressar-nos! E Halifax propôs assinar, primeiro, o pacto para cuidar depois do convênio militar. Não concordei com êle, mas, como o mais importante para nós, naquele momento, era chegar a um acôrdo a respeito da enumeração, no pacto, dos países aos quais se concederiam garantias, o problema do pacto e do convênio militar ficou pendente até um momento mais oportuno. Postreiormente, tanto os inglêses quanto os franceses apoiaram, invariàvelmente, o ponto de vista ex­ posto por Halifax na conversa que acabo de recordar, re­ petindo sempre: — O convênio militar não fará mais do que retardar a assinatura do pacto e precisamos dar-nos pressa, acelerar o mais possível. . . É tão ameaçador o aspecto que esá to­ mando a situação internacional!. . .

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í

É difícil imaginar exemplo mais patente de fingimento e hipocrisia! Qual era a verdadeira causa de semelhante conduta dos inglêses e franceses? A mesma de sempre: a imutável fidelidade de uns e ou­ tros à linha geral dos clivedenianos e a hostilidade, daí de­ rivada, ao pacto tripartido de assistência mútua. Justamen­ te nesses dias me comunicaram que, em princípios de julho, ocorrera a seguinte troca de idéias entre Chamberlain e o seu íntimo amigo W ood, então Ministro da Aviação: — Que é que há de nôvo quanto às negociações sô­ bre o pacto? — perguntou-lhe W ood. Chamberlain fêz um gesto irritado e respondeu: — Ainda não perdi a esperança de conseguir evitar a assinatura dêsse malfadado pacto. Se tal era o estado de espírito do chefe do govêrno, nada tem de estranho na indisposição de Halifax e Daladier para considerar um todo único o pacto e o convênio militar. Como o govêrno soviético, entretanto, abordou, catego­ ricamente, em começos de julho, o prpblema da unidade do pacto e do convênio militar, os inglêses e franceses, de bom ou mau grado, tiveram de ocupar-se dêle. No dia 12 de julho, Halifax convidou-me a visitá-lo e tentou, outra vez, demonstrar a improcedência de entrarem em vigor simultâneamente o pacto e o convênio militar. In­ terrompi-o de chôfre, declarando ser inútil discutir sôbre êste ponto, visto que o govêrno soviético não assinaria, ab­ solutamente, o pacto sem o convênio. Halifax perguntou-me a que se devia a nossa obstinação nesse particular. Em res­ posta, contei-lhe, sucintamente, a nossa experiência infeliz com o pacto francês-soviético de assistência mútua. O go­ vêrno soviético, disse eu, decidiu, firmemente, que, agora, nada deve repetir-se como naquele caso, principalmente, le­ vando em conta que a situação é, hoje, muito mais perigo­ sa do que em 1935.42 Halifax guardou silêncio uns intantes, engolfado nas suas reflexões: depois, disse-me, muito significativamente, olhando-me de esguelha:
42 Ano em que se assinou o pacto franco-soviético de assistência

mútua.

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Quer dizer que não têm confiança em nós? Encolhendo os ombros, retruquei: — Se três grandes Estados procuram chegar a um acôrdo sôbre coisas de muita importância, tudo tem de ser claro e exato, pois, de outro modo, podem surgir as mais indesejáveis incompreensges e conflitos. O govêrno soviético defendeu tenazmente, em Moscou, o conceito do acôrdo único com duas partes. A fim de ga­ nhar tempo, propôs que começassem, imediatamente, as ne­ gociações acêrca do convênio militar sem aguardar que fi­ casse terminado o pacto. As negociações políticas podiam continuar paralelamente, proposta que desagradou muito a H alifax. O govêrno soviético, entretanto, manteve-se firme na sua posição: ou pacto e convênio simultâneos, ou pacto algum. Daí ter Talifax indicado a Seeds, em meados de ju­ lho, que' aceitasse a unidade do pacto e do convênio, assim como a iniciação das negociações sôbre êste último antes do previsto, facultando ao embaixador resolver quando deve­ ria informar disso o govêrno soviético. Seeds, de sua parte, esperou uma semana mais e só na reunião de 24 de julho deu a conhecer ao comissário do povo soviético que o govêrno britânico não se opunha ao início imediato das negociações relativas ao convênio militar. O govêrno soviético propôb que essas negociações se realizassem em Moscou. Assim, pois, graças à sabotagem dos nossos interlocuto­ res, foram necessárias três semanas mais para resolver o pro­ blema da ligação entre o pacto e o convênio militar. Não foi só isso, porem. Resolvidos os problemas da enu­ meração nominal dos Estados que receberiam garantias e da unidade do pacto e do convênio militar, era preciso vencer outra dificuldade: dar definição mais exata ao conceito de ag ressão. As três grandes potências comprometiam-se a acudir em socorro dos demais oito Estados, em casos de se­ rem êstes vítimas de agressão. Como devia, porém, ser en­ tendido o têrmo “agressão”? E começou uma interminável polêmica. O govêrno so­ viético adotou posição muito flexível nessa questão, levando muito em conta as objeções dos nossos interlocutores e fa­ zendo-lhes freqüentes concessões, modificando e reduzindo as suas próprias propostas. Tudo, no entanto, debalde. Os

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olhos receosos de Halifax descobriam, a todo momento, em qualquer íórmula soviética, um palavra, uma vírgula que lhe causava reação negativa. As discussões em tôrno da de­ finição de “agressão” duraram todo o mês de julho e pros­ seguiram em agôsto sem levar a resultado algum. E ficaram sem terminar, quando falharam, definitivamente, as conversa­ ções tripartidas. Devo relembrar, uma vez mais, a êste respeito, as di­ vergências surgidas entre inglêses e franceses no decurso das negociações. Em telegrama de Seeds datado de 2 2 de julho, figura o seguinte ponto: “A opinião pessoal do embaixador francês é que a de­ finição de agressão indireta proposta por Molotov pode ser aceita, tendo-me êle dado a entender, em caráter privado, que esta é também a opinião do govêrno francês. Está sen­ do cada vez mais difícil para o embaixador francês apoiar a oposição do govêrno de Sua Majestade à fórmula de M o­ lotov” . 43 Simultâneamente, no mesmo dia, Halifax telegrafou a Seeds: • “Em Paris e Londres, têm aparecido informações jor­ nalísticas segundo as quais o govêrno francês está disposto a fazer tôdas as concessões a Molotov, tentando, debalde, in­ fluir sôbre o govêrno de Sua Majestade nesse sentido. Se o seu colega francês formular esta questão, pode o senhor dizer-lhe que, de acôrdo com todos os dados de que dis­ pomos, tal informação partiu de fonte francesa " . 44 O problema da fonte de origem da informação tinha importância secundária. Muito mais importante era que quan­ to mais se alongavam as negociações por culpa de Chamber­ lain mais claras se manifestavam as divergências entre Lon­ dres e Paris. Observando, dia após dia, a conduta dos inglêses, du­ rante os debates sôbre a definição da agressão, tínhamos de perguntar, a nós mesmos: pode proceder assim um govêrno que deseja, realmente, concluir o quanto antes o pacto tri43 44
d b f p — Third Series, v o l . Ibid., págs. 448-449.

V I, pág. 4 5 0 .

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partido? E nos víamos obrigados a sempre responder: "Não, não pode; é evidente que o govêrno inglês continua a não querer assinar o pacto”. Em julho, deu-se um importante acontecimento que veio adensar ainda mais as nossas dúvidas acêrca da sinceridade dos negociadores inglêses. Mais ou menos em 20 da agôsto, avistaram-se o Ministro *do Comércio Exterior inglês, Hudson, e o conselheiro de Goering, em questões econômicas, W ohlthat. Oficialmente, W ohlthat fôra a Londres tomar parte na Conferência Internacional da Indústria Baleeira; na prática, tinha a incumbência de fazer sondagens a respeito das possibilidades que existiam de regular em ampla escala as relações entre a Inglaterra e a Alemanha. Àquele mo­ mento, não conhecíamos todos os pormenores das conversa­ ções de W ohlthat com os estadistas inglêses. Ignorávamos, particularmente, as suas conversas com Horace W ilson (coi­ sa que só se esclareceu quando a guerra terminou). Em no­ tas do então embaixador alemão em Londres, Dirksen, da­ tadas de 21 de julho de 1939, encontramos os seguintes da­ dos sôbre as conversas de W ohlthat com Hudson e Horace W ilson. Por intermédio do membro norueguês da comissão ba­ leeira, Hudson pediu a W ohlthat que fôsse visitá-lo. Du­ rante a conversa que tiveram, Hudson expôs ambiciosos pla­ nos de colaboração anglo-alemã, a fim de encontrar novos mercados mundiais e explorar os já existentes; e declarou, de modo especial, que a Inglaterra e a Alemanha poderiam aplicar as suas energias, em vasta escala, na China, Rús­ sia e Império Britânico; Hudson julgava imprescindível deslíndar as esferas de interêsses inglêses e franceses. Depois, W ohlthat visitou Horace W ilson, por inicia­ tiva dêste último. As duas conversas de W ohlthat com W il­ son, principal conselheiro de Chamberlain nas questões de po­ lítica externa, tiveram caráter mais amplo. W ilson decla­ rou que o seu objetivo era "um aplíssimo acôrdo anglo-alemão sôbre tôdas as questões importantes”; especialmente: a) assinatura de um pacto anglo-alemão de não-agressão; b) assinatura de um pacto de não-ingerência e de distribuição das esferas de influência; c) limitação dos armamentos em terra, mar e ar; d) concessão à Alemanha de possibilidades

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I

de participar da exploração das colônias; e e) concurso fi­ nanceiro recíproco e problemas de comércio internacional. Perguntando W ohlthat se o govêrno alemão podia acres­ centar outras questões à ordem do dia, W ilson respondeu que F ü hrer não tem mais do que pegar uma fôlha de papel em branco e nela escrever as questões que lhe interessarem; o govêrno britânico está disposto a examiná-las” . W ilson pediu que Hitler designasse uma pessoa munida dos devidos podêres para travar negociações a respeito de tudo quanto se relacionasse com a colaboração anglo-alemã. Dirksen escreve, mais adiante: “Sir Horace W ilson dis­ se, claramente, ao Sr. W ohlthat que a assinatura de um pac­ to de não-agressão ( com a Alemanha. — I . M . ) permitiria à Grã-Bretanha desligar-se dos seus compromissos com a Polônia ” . 45 W ilson propôs a W ohlthat que falasse, imediatamente, com Chamberlain para se convencer de estar êste de acôrdo com o programa que lhe expusera, mas W ohlthat evitou avis­ tar-se com o Primeiro-Ministro. Tais foram as conversações entre Chamberlain e a Ale­ manha, no verão de 1939, nas costas da U R SS ! Se, em de­ finitivo, delas nada saiu, foi por fatores que não dependiam do Primeiro-Ministro. E os historiadores e políticos do O ci­ dente ainda se atrevem a jogar pedras no govêrno sovié­ tico, acusando-o de conchavar e até de aliar-se à Alemanha nas costas da Inglaterra e da França! Mesmo 1 1 0 caso de que o govêrno soviético houvesse assim procedido, não teria feito mais que pagar com a mesma moeda às “democracias” ocidentais. Na realidade, conforme adiante demonstraremos (veja-se o capítulo O D ilem a d o govêrn o soviético) nada disso ocorreu. Repito que, no verão de 1939, ainda igno­ rávamos os detalhes das negociações secretas entre a In­ glaterra e a Alemanha hitlerista. Entretanto, o que transpi­ rou na imprensa e nos meios políticos, em julho de 1939, era mais do que suficiente para tornar-se sèriamente inquieto.
45 D ocumentos e materiales de vísperas de la segunda guerra m un­ dial, t. II, págs. 71-72, ed. em espanhol, Moscou, 1948: A . M. Nekrich, L a política dei imperialismo inglês en Europa ( outubro 1938 — setem­ bro 1 9 3 9 ), E dit. da Academia de Ciências d a u r s s , 1955, págs. 359­ 362, 3 6 5-369. •

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Como então disseram Os jornais e como Chamberlain reco­ nheceu, na sua declaração de 24 de julho perante o Parla­ mento, Hudson e W ohlthat trataram da ampliação das re­ lações comerciais e financeiras anglo-alemãs e da concessão de colossal empréstimo inglês à Alemanha, em determinadas condições, empréstimo que poderia oscilar entre 500 e 1.000 milhões de libras esterlinas! Tratado comercial de tal mag­ nitude tinha importância política de primeira ordem. Se um membro do govêrno britânic© julgava possível examinar se­ melhante projeto com um alto dignitário do Estado hitle­ rista, isso significava.. . Não tiramos daí deduções de al­ cance excessivo; mas era natural que crescesse nossa des­ confiança quanto aos verdadeiros fins do govêrno britânico, desconfiança alimentada por tôda a experiência do passado; principalmente, pela experiência das negociações tripartidas.

PREPA RA ÇÃ O DAS N E G O C IA Ç Õ E S M IL IT A R E S

Em 25 de junho, Halifax convidou-me a visitá-lo e co­ municou-me que, em Moscou, se concordara em começar, imediatamente, as negociações militares. Já o sabia por te­ legrama recebido, na véspera, do Comissariado do Povo dos Negócios Estrangeiros da U R SS , mas exprimi a grande sa­ tisfação que me davam as palavras do ministro britânico. Todavia, algumas dúvidas me inquietavam e procurei, no mesmo instante, comprovar a que extremo eram fundadas. — Diga-me, lord Halifax — perguntei. — Quando é que acha que poderão essas negociações iniciar-se? O ministro ficou pensativo, olhou para o teto, como se refletisse, e depois respondeu: —’ Precisaremos de sete a dez dias para efetuar o tra­ balho preparatório necessário.

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Isso, significava que as negociações não começariam, de fato, antes de duas semanas. Halifax, é claro, não pensa­ va em dar-se pressa. ■ — Já foram designados os componentes da sua delega­ ção, que vai tomar parte nas negociações militares? — tor­ nei a indagar. — Não, por ora não. . . —• Fá-lo-emos nos próximos dias — disse Halifax; e acrescentou: — Acreditamos que Paris seja o lugar mais adequado para as negociações mili­ tares, mas, já que o govêrno soviético desejou que se rea­ lizem em Moscou, estamos dispostos a avistar-nos lá. Saí do escritório de Halifax muito alarmado: o velho jôgo continuava, ao passo que a situação internacional se agravava dia a dia. Dantzig se militarizava as marchas for­ çadas e a tensão das relações polono-alemãs se tornava qua­ se isuportável. Em 2 1 de julho, o Ministério das Relações Exteriores alemão declarou que Dantzig tinha de ser restituída à Alemanha, “sem condição alguma” . O líder do exército polonês, marechal Rydz-Smigly, respondeu que, se a Alemanha tentasse resolver o destino de Dantzig de for­ ma unilateral, a Polônia empunharia as armas. A essa altura, o general inglês Ironside visitou Varsóvia e entrou em ne­ gociações com o Estado-Maior Central da Polônia. No E x ­ tremo Oriente, desenrolavam-se acontecimentos importantes: a guerra sino-japonêsa já durava dois anos sem chegar a têrmo; em Halhin-Gol, travavam-se combates entre os agres­ sores nipônicos e as tropas mongolo-soviéticas; os imperia­ listas japonêses sustentavam, na China, furiosa campanha contra a Inglaterra, bombardeavam-lhe os barcos no YangTsé-Kiang, organizavam manifestações antiinglêsas nas ci­ dades chinesas e ameaçavam de morte os cidadãos britâni­ cos nelas residentes. Tudo isso suscitava alarma extraordiná­ rio na Inglaterra e as massas populares — sobretudo a clas­ se operária atacavam, com crescente insistência, o govêrno pela sabotagem que fazia nas negociações tripartidas. Em todo o país, de um extremo ao outro, ressoava clamorosa exigência: “Assinar, imediatamente, o pacto com a União Soviética!” Chamberlain teve, novamente, de manobrar. Em 31 de julho, desencadearam-se, no Parlamento, tempestuosos de­ bates sôbre política externa. Archibald Sinclair, líder dos li­

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berais, criticou com dureza a política de Chamberlain e exi­ giu que se enviasse a Moscou “um homem da mais alta po­ sição política” para levar a cabo as negociações relativas ao pacto. Dalton, representante dos trabalhistas, propôs que fôsse a Moscou o próprio Halifax, ou que se convidasse a vir a Londres um memljro do govêrno soviético. Eden insis­ tiu em que se enviasse, urgentemente, uma missão política à U R SS sob a presidência de alguém cuja posição lhe per­ mitisse pôr-se em contato direto com o govêrno soviético. No mesmo sentido se manifestaram muitos outros oradores. Chamberlain teve a idéia de apoiar-se nos precedentes do passado para se defender dos ataques que lhe eram fei­ tos pela sabotagem das negociações. Disse que as negocia­ ções relativas à aliança anglo-japonêsa de 1903 haviam du­ rado seis meses: a E n ten te anglo-francesa de 1904 exigira nove meses de negociações e a E n ten te anglo-russa de 1907, quinze meses. . . A conclusão era clara; as negociações que, então, se mantinham com a U R S S duravam, apen as, quatro meses e meio. Que era, pois, que se queria dela? í 6 É di­ fícil de imaginar exemplo mais claro de inatividade políti­ ca do que êsses argumentos do Primeiro-Ministro britânico, em um momento no qual estava a ponto de se desencadear uma tormenta histórica. Apesar da indignação dos mais vastos setores da opi­ nião pública inglêsa, Chamberlain continuou fiel à sua linha geral, sem perder a esperança de atirar a Alemanha contra a U R SS , conforme provavam todos os atos do govêrno bri­ tânico, inclusive naquele instante tardio. Após a conversa que tive com Halifax em 25 de julho, tentei influir na composição da delegação militar que a In­ glaterra se dispunha a mandar à U R S S . Pensei assim: "Se Halifax não quis ir a Moscou, em junho, que agora, pelo menos, o representante principal da Inglaterra seja figura militar realmente destacada e ativa. Isso será proveitoso para as próprias negociações; poderá esfriar um pouco os ardo­ res agressivos de Hitler; será prova da atitude honesta da Inglaterra relativamente ao pacto tripartido, se é que se pro­ duziu alguma melhoria no estado de espírito da sua cúpula governante, no próprio limiar da guerra.
46 Parliamentary Debates. House o f Common», vol. 350, col. 2.023.

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Dirigi-me a Arthur Greenwood, suplente do líder do Partido Trabalhista no Parlamento, com quem tinha boas re­ lações, e pedi-lhe que fizesse saber, extra-oficialmente, ao Govêrno britânico que a União Soviética nutria a esperan­ ça de ver à frente da delegação inglêsa um militar eminente; melhor do que qualquer outro, o general Gort, então chefe do Estado-Maior Central britânico. Sei, com tôda a certe­ za, que Greenwood satisfez meu pedido. Em resposta,,rece­ beu carta de Chamberlain, (eu mesmo a li), na qual o Pri­ meiro-Ministro lhe comunicava que, embora lamentasse, o govêrno não podia mandar Gort a Moscou por ser dema­ siado necessário em Londres naquele momento; mas que, no seu lugar, presidiria à delegação um homem que infundiria o "respeito” devido ao Govêrno soviético. E que aconteceu? Chamberlain declarou em 31 de julho no Parlamento que o gabinete tinha confiado a direção da delegação militar inglêsa a sir Reginald Plunkett-Ernle-Erle D rax. Devo confessar que, nos sete anos que era embai­ xador soviético em Londres, nem uma só vez ouvi falar nesse nome. E nada há de particular nisso: é que sir Reginald Drax não tinha então nenhuma relação ativa com as fôrças ar­ madas inglêsas; mas, em compensação, estava perto da Côrte e sustentava as opiniões de Chamberlain. De maneira algu­ ma se poderia encontrar candidato menos adequado do que êsse antigo almirante da Marinha britânica para manter ne­ gociações com a U R S S . O s outros membros da delegação (o marechal da Aviação Burnett e o major-general Heywood) não ultrapassavam o nível médio do pessoal de comando das fôrças terrestres inglêsas. Quando soube quem compunha a delegação inglêsa, só pude chegar a uma conclusão: “Tudo continua igual, a sa­ botagem do pacto tripartido continua”. O govêrno francês seguiu o caminho de seus colegas londrinos: nomeou chefe da delegação francesa o general de Corpo de Exército Doumenc, e membros da mesma o gene­ ral da Aviação Valin e o capitão da Marinha Willaume. Nela não havia também uma só pessoa que pudesse falar com autoridade em nome de tôdas as fôrças armadas do seu país. A delegação francesa chegou a Londres nos primeiros dias de agôsto. Daí ambas as delegações deviam ir juntas

a Moscou. Decidi dar um almôço em honra delas. Por mui­ to que me tivesse desiludido a composição das delegações, um dever de cortesia diplomática exigia de mim êsse gesto. Além disso, desejava falar pessoalmente com seus membros. O almôço foi servido no jardim de inverno da Embaixada. Além das delegações inglêsa e francesa, a êle compareceram os nossos funcionários miiltares (os adidos miiltar, aéreo e naval) e os chefes da representação comercial. À minha di­ reita, como hóspede de maior categoria, se sentou o Almi­ rante Drax, inglês alto, magro e encanecido, de movimen­ tos lentos e voz pausada. Quando, no fim do almôço, nos serviram o café, tive com êle a seguinte conversa: E u . Quando partem os senhores para Moscou, al­ mirante? D rax . Ainda não está decidido, definitivamente, mas nos próximos dias. E u . Irão de avião, não?. . . Não há tempo a per­ der: a atmosfera na Europa está ferv end o!... D rax . Oh, não! As duas delegações, mais o pes­ soal auxiliar, somam cêrca de quarenta pessoas. Além disso, levamos bagagem muito volumosa. . . Não é cô­ m odo voar de avião! E u . Se não lhes convém o avião, irão, então, em um dos seus cruzadores rápidos?. . . Seria muito apro­ priado e impressionante: as delegações militares em navio de g u erra.. . E , afora isso, precisariam pouco tempo para ir de Londres a Leningrado. D rax (com azedume). Não, também o cruzador não serve. Porque se assim o fizéssemos, teríamos que desalojar dos camarotes duas dezenas de oficiais e ocupar-lhes os lugares. . . Por que incomodar as pes­ soas?. . . Não, não! Não iremos de cruzador. . . E u . Nesse caso, tomarão um de seus rápidos na­ vios ocmerciais?. . . Repito que a situação está ferven­ do e que devem chegar a Moscou quanto antes. D rax (com evidente desejo de não continuar a conversa). Na realidade nada posso dizer-lhe.. . O Ministério do Comércio é o encarregado de organizar o tran sp o rte... Tudo está em suas m ã o s ... Ignoro o que acontecerá. . .

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E aconteceu o seguinte: as delegações militares parti­ ram de Londres a 5 de agôsto em um navio misto C ity o f E x eter, que fazia 13 nós por hora, e só a 10 de agôsto che­ garam, afinal, a Leningrado. Levaram nada menos que cin­ co dias na travessia, em um momento em que a balança da história contava as horas e até os minutos!. . . Então, concluí que a fenomenal lentidão com que se preparava a viagem da delegação à U R S S era uma manifes­ tação a mais do espírito de sabotagem das negociações, que tão bem conhecíamos. É indubitável que, em geral, estava pensando certo. M as hoje, à vista dos documentos diplo­ máticos publicados pelo Govêrno inglês, pode-se comprovar que a lentidão com que Drax e seus colegas fizeram a via­ gem a Moscou tinha, além de tudo, sentido especial. Já dis­ se que, quando as partes chegaram a acôrdo no sentido de iniciarem, imediatamente, as negociações militares, o pacto político não havia sido ainda aprovado por completo: fal­ tava resolver o problema da definição da "agressão” . Pen­ sava-se manter paralelamente as negociações políticas e mi­ litares. Pois bem, no ponto 8 das instruções que o Minis­ tério das Relações Exteriores inglês deu por escrito à sua delegação, para que se guiasse por elas durante as negocia­ ções de Moscou, dizia-se: “Enquanto não estiver concluído o acôrdo p olítico.. . a delegação não deverá apressar-se nas suas conversações, seguirá constantemente a marcha das negociações políticas e manterá o contato mais estreito com o embaixador de Sua M ajestade (em Moscou. I . M . ) ” 47 E como no momento de partirem de Londres as dele­ gações militares, pendia ainda no ar a definição da agres­ são, o govêrno britânico considerou que não havia motivo para apressar a viagem. Voltaram a manifestar-se, nessa questão, as divergências entre Londres e Paris. Em telegrama enviado a 13 de agôs­ to, Seeds pediu a Halifax que dissipasse a sua perplexidade. "A s instruções dadas por escrito ao almirante Drax comunicou Seeds de Moscou — tendem, pelo visto, a que as conversações militares se desenvolvam com lentidão en­ quanto não se chegar a acôrdo acêrca das questões políticas
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Third Series, vol. V I, pág. 7 3 6 .

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pendentes.. . D e outro lado, as instruções recebidas pelo general francês prescrevem que procure conseguir o mais rapidamente possível a assinatura do convênio militar. É evi­ dente que estas instruções não coincidem com as que rece­ beu o almirante Drax” . Com efeito, a divergência entre Londres e Paris era evidente. E não só entre Londres e Paris, mas também (fato significativo em extremo) entre o govêrno britânico e o seu próprio embaixador em Moscou. Por mais treinado que es­ tivesse, nem sequer Seeds pôde resistir, no fim das contas, ao escárnio que fazia o Govêrno britânico dos interêsses da segurança européia e das normas elementares do bom-senso. Seeds acrescentava no telegrama mencionado: “Ser-lhe-ia grato, se me explicasse com urgência se o Govêrno de Sua Majestade faz depender da prévia solução do problema da “agressão indireta" o progresso das negocia­ ções militares, acima de vagas generalidades que a nada obri­ gam. Lamentaria profundamente que fôsse essa a verdadei­ ra decisão do govêrno de Sua Majestade, pois tudo indica que a missão militar soviética quer resolver o assunto com absoluta seriedade” . 48 A êsse extremo chegou a miopia política dos líderes de então da burguesia inglêsa! Até aí os levou a cegueira de classe!

Aqui terminam, realmente, minhas recordações pessoais das negociações tripartidas de 1939, pois que, ao partirem para a U R S S as delegações militares, essas negociações ces­ saram por completo em Londres. O centro de gravidade das negociações, já revestidas de uniformidade, se transferiu para Moscou e nelas não participei diretamente. Contudo, não posso pôr aqui um ponto final. A lógica do relato me incita a descrever, ainda que brevemente, o que ocorreu em Moscou e como terminou a malfadada história das negocia­ ções tripartidas. Nesta parte da minha exposição, deverei utilizar não as minhas próprias recordações, mas o que ouvi
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Third Series, vol. V I, págs. 682-683.

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de outras íestemunhas fidedignas dos acontecimentos de Moscou e o que soube mais tarde por diversas publicações e documentos.

A S N E G O C IA Ç Õ E S M IL IT A R E S D E M O SC O U

Diversamente dos governos inglês e francês o govêrno Soviético focalizou as negociações militares com tôda a serie­ dade que mereciam. A missão soviética que nelas participou era composta de personalidades de primeira ordem. Presidia-a o marechal K. Vorochilov, então Comissário do Povo da Defesa da U R SS, e integravam-na o chefe do Exército de primeira catego­ ria B . Shaposhnikov, chefe do Estado-Maior Central; o al­ mirante de segunda categoria N. Kuznetsov, Comissário do Povo da Marinha; o chefe do Exército de segunda catego­ ria A . Loktionov, chefe das Fôrças Aéreas, e o chefe de Corpo de Exército I. Smoródinov, subchefe do Estado-Maior Central. Ao chegarem a Leningrado, as missões inglêsa e francésa foram recebidas por altos representantes das autorida­ des militares e navais da cidade, que lhes mostraram os lu­ gares notáveis-de Leningrado e de seus arredores. O embai­ xador inglês na U R SS , Seeds, destacou, em informe ao F oreign O ffice, que as autoridades soviéticas "quiseram, evi­ dentemente, dar aos hóspedes tôdas as possibilidades” . 49 Em Moscou, foi-lhes dispensada também recepção de "primeira classe” . N c mesmo dia da chegada foram rece­ bidos pelos Comissários do Povo dos Negócios Estrangei­ ros e da Defesa. À noite, ambas as delegações comparece­ ram a um banquete dado em sua honra pela missão sovié­ tica. Seeds indicava, no informe mencionado, ao descrever a visita das missões a Voroshilov:
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Third Series,

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V l l f L ., 1954,

pág.

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"O marechal Voroshilov, que antes não havia tido opor­ tunidade de ver, vestia uniforme branco de verão muito bo­ nito e me produziu a impressão mais favorável por sua gen­ tileza e vivacidade. Pelo visto, estava realmente contente de entrevistar-se com as missões” . 50 O banquete causou grande impressão ao embaixador inglês. * “A recepção — dizia no seu informe — durou até altas horas da noite. O banquete foi seguido de excelente concêrto. Reinou atmosfera cordial e só as dificuldades do idio­ ma atrapalharam um pouco a conversa. Na resenha oficial da recepção, publicada no Izvestia, a 12 de agôsto, falavase dos brindes amistosos trocados durante o jantar ” . 51 Os sovietes fizeram, portante, todo o possível para mos­ trar a sua seriedade ante as negociações em tôrno do convê­ nio militar e seu sincero desejo de levantar barreira eficaz que impedisse a repetição da agressão. Assim o testemunham os próprios inglêses. M as qual foi a atitude anglo-frances a ? ... Tudo, ah! continuou como antes: a sabotagem do pacto tripartido continuou. Essa sabotagem se fêz evidente já na primeira reunião oficial das três missões, a 12 de agôsto. Terminadas tôdas as formalidades, o chefe da missão soviética propôs que se dessem a conhecer as credenciais de cada delegação. E apre­ sentou, desde logo, as credenciais da delegação soviética, nas quais dizia-se que estava autorizada a “manter negocia­ ções com as missões militares inglêsa e francesa e assinar convênio militar sôbre a organização da defesa militar da Inglaterra, França e U R SS contra a agressão na Europa ” . 52 O chefe da missão francesa, general Doumenc, leu as suas credenciais, que o encarregavam de “chegar a um acôr­ do com o Alto Comando das fôrças armadas soviéticas acêr­ ca das questões relativas ao estabelecimento da colaboração entre as fôrças armadas de ambos os países” . 53 E ra bem menos daquilo a que estava autorizada a missão soviética;
so d b f p , Third Series, vol. VII, pág. 46. Ibid., págs. 46-47. 52 “Negociações das missões militares da u r s s , Inglaterra eFrança, em Moscou, em agôsto de 1939”, revista La Vida Internacional,Mos­ cou, 1959. n.° 2, pág. 145. 53 Ibid., pág. 1 45.

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não obstante, o general Doumenc tinha a possibilidade de manter negociações sérias com o govêrno soviético. A situação do almirante Drax veio a ser muito pior, porque verificou-se não possuir êle credencial escrita algu­ ma. Seria preciso prova melhor da falta de seriedade com que o govêrno britânico via as negociações militares? Era evidente que a missão inglêsa não havia sido enviada a Moscou para assinar com urgência um convênio militar, mas para falar sôbre êle sem responsabilidade. O almirante Drax procurou sair da embaraçosa situação em que se encontra­ va, declarando que, se a conferência fôsse transferida para Londres, disporia de todos os podêres necessários. Entretan­ to, o chefe da delegação soviética objetou, em meio a hilaridade geral, que “é muito mais fácil trazer uns papéis de Londres a Moscou que ir para lá grupo tão numeroso ” . 54 No fim de contas, o almirante prometeu que solicitaria de seu govêrno credenciais escritas, as quais só chegaram no dia 2 1 de agôsto, quando, como veremos mais adiante, já eram des­ necessárias . Assim, pois, a carência de credenciais escritas ao almi­ rante Drax foi a gôta que fêz transbordar o caso dos longos meses de paciência do govêrno soviético. Êste se conven­ ceu defintivamente de que Chamberlain era incorrigível e de que as esperanças depositadas na conclusão do pacto se tinham tornado mínimas. Era necessá;rio defender os interêsses soviéticos por outras vias. Todavia, não seria ra­ zoável, do ponto de vista político, romper bruscamente as negociações antes que o outro lado a elas renunciasse. Embora o almirante Drax carecesse de podêres em re­ gra, a delegação soviética declarou que não se opunha a que continuassem os trabalhos da conferência. E , com efei­ to, nos dias 13, 14, 15, 16 e 17 de gôsto, realizaram-se sete reuniões, nas quais as partes trocaram informações acêrca das suas fôrças armadas e dos seus planos em caso de agres­ são hitleriana. Em nome da Inglaterra intervieram o almi­ rante Drax, o marechal da Aviação Burnett e o general Heywood; da França, os generais Doumenc e Valin e o capitão
54 “N egociações das missões militares da u r s s , Inglaterra e França, em Moscou, em agôsto de 1939”, reyista L a Vida Internacional, M os­ cou, 1959, n.° 2, pág. 145.

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Willaume; e da U R SS , o chefe do Estado-Maior Central, chefe do Exército de primeira categoria B . Sháposhnikov; o chefe das Fôrças Aéreas, chefe do Exército de segunda categoria A . Loktiónov, e o Comissário do Povo da M a­ rinha, almirante de segunda categoria N. Kuznetsov. O quadro geral das fôrças armadas das três potências era o seguinte: * A F ran ça dispunha de 100 divisões, sem contar a de­ fesa anti-aérea, a defesa ^costeira e as tropas aquarteladas na África; havia, além disso, uns 2 0 0 . 0 0 0 combatentes da República Espanhola55 que haviam entrado na França depois da vitória de Franco e pedido seu engajamento no exército francês. O armamento das fôrças francesas constava de 4 .0 0 0 tanques modernos e de 3 ,0 0 0 peças de artilharia de grosso calibre, de 150 mm para cima (sem contar a artilha­ ria de divisão). A frota aérea da França tinha 2.000 aviões de primeira linha, dois terços dos quais eram modernos para o nível daqueles tempos, entre êles caças com velocidade de 450 a 500 k/h e bombardeiros cuja velocidade oscilava entre 400 e 450 k/h. A Inglaterra tinha preparadas 6 divisões, podia transferir outras 9 para o continente “em prazo brevíssimo" e acres­ centar “no segundo escalão” mais 16 divisões: quer dizer, 32 divisões ao todo. As fôrças aéreas da própria Inglater­ ra compreendiam mais de 3 .0 0 0 aviões de primeira linha. A União Soviética dispunha, para lutar contra a agres­ são na Europa, de 120 divisões de infantaria e 16 de cava­ laria, 5 .0 0 0 canhões pesados, 9 .0 0 0 a 10.000 tanques e 5.000 a 5 .5 0 0 aviões de combate. Além disso, as três grandes potências tinham a seu ser­ viço M arinhas d e G uerra entre as quais se destacava pelo seu poderio a Esquadra britânica . 56 Como vemos, as fôrças armadas dos eventuais firmadores do p acto tripartido eram muito consideráveis e superavam de longe as que tinham, então, a Alemanha e a Itália. Essas fôrças bastariam ou teriam bastado, sem dúvida alguma, para
A cifra de espanhóis era muito exagerada. “Negociações das missões militares da u r s s , Inglaterra e França, em Moscou, em agôsto de 1939”, revista L a Vida Internacional, Mos­ cou, 1959, n.° 2, págs. 144-158; n.° 3, págs. 139-158.
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conjurar a agressão fascista, mas com uma condição iniludível: que os* três governos quisessem, realmente, criar uma frente única eficaz contra Hitler e Mussolíni. O govêrno so­ viético tinha muita vontade de chegar a essa frente única, mas não se pode dizer o mesmo, absolutamente, do govêr­ no da França e, muito menos, da Inglaterra. Eis dois fatos sintomáticos. Na reunião de 14 de agôsto, o marechal Voroshilov e o general Doumenc tiveram a seguinte troca de impressões: "M arechal V oroshilov : Ontem, fiz ao general Doumenc a seguinte pergunta: Como imaginam as de­ legações presentes, ou os Estados-Maiores Centrais da França e Inglaterra a participação da União So­ viética numa guerra contra o agressor, se êste atacar a França e a Inglaterra, se atacar a Polônia ou a Ro­ mênia, ou a Polônia e a Romênia juntas, ou a Turquia?. . . G en eral D oum enc: O general Camelin pensa e eu, como subordinado seu, compartilho com o seu modo de pensar, que a nossa tarefa principal consiste em que cada um mantenha, firmemente, a frente e agrupe as fôrças nessa frente. Quanto ao que diz respeito aos países mencionados, consideramos que cabe a êles de­ fender o seu território.. . M as os ajudaremos, se nolo pedirem. . M arechal V oroshilov : E se não o pedirem? G en eral D oum enc: Sabemos que precisam dessa ajuda. M arechal V oroshilov: Se não pedirem a tempo essa ajuda significará que levantaram as mãos, que se entregaram. G en eral D oum enc: Isso seria extremamente desa­ gradável . M arech al V oroshilov: Que fará, então, o exército francês? G en eral D oum enc: A França manterá, então, em sua frente, as fôrças que considerar necessárias ” . 57
57 “N egociações das missões militares da u r s s , Inglaterra e França, em M oscou, em agôsto de 1939, revista La Vida Internacional, M os­ cou, 1959, n .° 2, pág. 154,

Assim, pois, o Estado-Maior Central francês padecia de evidente complexo de passividade. No caso de nôvo “salto” de Hitler, recomendava aos futuros integrantes do pacto "manter firme a frente” e esp erar.. . esperar qué a vítima pedisse ajuda. Aplicado à U R SS , isso significaria que, se Hitler agredisse a Polônia ou a Romênia, o govêr­ no soviético deveria concentrar as fôrças em sua fronteira ocidental e observar, friamente, o que ocorria do outro lado da mesma. Só se os governos polonês ou romeno se diri­ gissem a ela é que poderia acudir e socorrê-los.. . E se não se dirigissem? E se o fizessem tarde demais? E ra indubitãvel que a estratégia recomendada pelo Estado-Maior Central francês podia conduzir, unicamente, ao triunfo do agressor. Foi mais aguda ainda a divergência manifestada entre o lado soviético e o lado anglo-francês relativamente a ou­ tra questão. A U R SS achava que, para falar sério dos pla­ nos de luta contra os agressores, era indispensável coord e­ nar exatam ente, d e antem ão, as a ções práticas, no momento d o perigo, sem esperar que se chegasse à hora crítica. Jus­ tamente por isso, considerando que a U R S S e a Alemanha não tinham fronteira comum, o chefe da delegação soviética perguntou, claramente, aos chefes das missões inglêsa e fran­ cesa, nessa mesma sessão de 14 de agôsto: “Pressupõem os Estados-Maiores Centrais da G rã-Bre­ tanha e França que se deixarão entrar as fôrças soviéticas em território polonês para estabelecer contato com o inimi­ go, se êste agredisse a Polônia?. . . Prevê-se o trânsito das fôrças soviéticas pelo território romeno, se o agressor atacar a Romênia? Depois de esclarecer que se tratava, em primeiro lugar, da passagem das tropas soviéticas pelo corredor de Vilna e pela Galícia, o representante soviético acentuou que, “se esta questão não se resolver, favoràvelmente, ponho em dú­ vida, de modo geral, a utilidade das nossas negociações. 08 Que responderam as missões inglêsa e francesa? De início, tentaram demonstrar que, em geral, não exis­ tia problema algum quanto ao trânsito das tropas soviéticas,
68 “Negociações d a s missões militares da u r s s , Inglaterra e França, em Moscou, em agôsto de 1939”, revista L a Vida Internacional, M os­ cou, 1959, n.° 2, págs. 155-156.

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pois, como havia declarado o general Doumenc, no caso da agressão álemã, "a Polônia e a Romênia lhe suplicarão, se­ nhor marechal, que lhes acuda em socorro” . Quando o ma­ rechal Voroshilov, retrucou: “Pode acontecer que não o fa­ çam ,59 Drax e Doumenc deram a entender que a questão formulada pelo govêrno soviético tinha caráter político e não era da competência das missões militares. Todavia, como o chefe da delegação da U R SS declarara que a passagem das tropas soviéticas era uma questão de "importância car­ deal” 60 e que sem sua solução satisfatória não se podia se­ quer pensar em assinar o convênio militar, os chefes de am­ bas as delegações ocidentais fizeram constar, por escrito, que era preciso dirigir-se aos governos da Polônia e da Romê­ nia para receber resposta à indagação feita pela U R S S . Re­ comendaram que fôsse o govêrno da U R S S que a fizesse, admitindo, ao mesmo tempo, que Londres e Paris podiam enviar a indagação correspondente. O govêrno soviético, como se há de compreender, não tinha motivo algum para fazer gestões junto a Bucareste e Varsóvia. Enfim, Drax e Doumenc se comprometeram a pe­ dir aos governos inglês e francês que solicitassem à Polô­ nia e à Rombênia resposta à indagação relacionada com a passagem das tropas soviéticas pelo território dos referidos países. No fim dessa mesma reunião de 14 de agôsto, a dele­ gação soviética fêz a leitura de declaração escrita, que’ dizia, entre outras coisas: "A missão militar soviética lamenta que as missões mi­ litares da Inglaterra e da França não tenham dado respos­ ta à indagação formulada acêrca da passagem das fôrças armadas soviéticas pelo território da Polônia e da Romênia. A missão militar soviética considera que, sem solução favorável dessa questão, todo o trabalho iniciado para assi­ natura de convênio militar entre a Inglaterra, a França e a U R SS está condenado, de antemão, à falência ” . 81
69 “Negociações das missões militares da u r s s , Inglaterra e França, em Moscou, em agôsto de 1939”, revista La Vida Internacional, Mos­ cou, 1959, n.° 2, pág. 156. 60 Ibid., pág. 156. 61 Ibid., pág. 158.

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No dia seguinte, Drax comunicou que ambas as mis­ sões haviam pedido informações a Londres e Paris a respei­ to da questão que interessava à delegação soviética. Como, porém, nem a 16, nem a 17 de agôsto, chegasse resposta alguma de Londres ou Paris, a delegação soviética decla­ rou que, “se durante o dia de hoje e de amanhã, não se re­ ceber resposta dos governos da Inglaterra e da França, nos veremos na lamentável necessidade de suspender, por algum tempo, as nossas negociações, à espera dessa resposta ” . 6 2 Combinou-se, em conseqüência, que a reunião seguinte das delegações se realizasse a 2 1 de agôsto. Todavia, Londres e Paris continuaram aplicando a tá­ tica de sabotagem e não se apressaram. As missões inglêsa e francesa não receberam resposta ao pedido, nem a 18, nem a 19, nem a 20, nem a 21. Daí resultou que, na véspera do dia marcado para a reunião, Drax e Doumenc enviaram a Voroshilov uma carta, pedindo-lhe que se adiasse a reu­ nião por mais três ou quatro dias. O chefe da delegação so­ viética não aceitou essa proposta e fêz realizar-se, apesar de tudo, uma reunião na manhã de 2 1 de agôsto. Nela de­ clarou, firmemente, que, à vista das delongas à resposta a uma indagação que tinha importância capital para as nego­ ciações, era preciso fazer uma pausa mais prolongada, já que os membros da delegação soviética estariam ocupados nas manobras de outono. Drax, compreendendo que cheiravam a falência as nego­ ciações, tentou, em nome das delegações inglêsa e francesa, fazer recair sôbre o govêrno soviético a responsabilidade dessa falência. Em declaração escrita, que leu, dizia-se: " . . . Fomos convidados a aqui vir para fazer um con­ vênio militar. Por isso, é-nos difícil compreender a atitude da missão soviética, cujo propósito consistia, evidentemente, em formular, imediatamente, questões políticas complexas e importantes. . . As missões inglêsa e francesa não podem assumir a responsabilidade do adiamento que ocorre ” . 63 Na reunião da tarde do mesmo dia, a União Soviética leu também a sua resposta escrita, da qual reproduzo as se­ guintes passagens:
62 63 Ibid.., n.° 3, pág. 153. Ibidt, n.° 3, pág. 156.

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“Da mesma forma que as tropas inglêsa e norte-ameri­ cana não tferiam podido, durante a Guerra Mundial passa­ da, tomar parte no esforço militar conjunto com as fôrças armadas da França, se não houvesse tido a possibilidade de operar no território desta última, as fôrças armadas so­ viéticas não poderão colaborar, militarmente, com as fôrças armadas da França e da Inglaterra, se não lhes permitirem entrar no território da Polônia e da Romênia. Isso é um axio­ ma militar. . . “A missão militar soviética não compreende como pu­ deram os governos e os Estados-Maiores Centrais da In­ glaterra e da França, ao enviarem à U R S S as suas missões militares para negociar a assinatura de um convênio militar, deixar de dar-lhes indicações precisas e positivas acêrca de questão tão elem entar.. . “Entretanto, se os franceses e os inglêses transformam essa questão axiomática em grande problema, que exige lon­ go estudo, isso significa que existe todo fundamento para du­ vidar de que aspitrem à verdadeira e séria colaboração mi­ litar com a U R S S . “À vista do exposto, a responsabilidade da dilação das negociações militares, assim como a pausa nelas, recai, como é natural, sôbre os lados francês e inglês” . 64 Portanto, em conseqüência da sabotagem da Inglaterra e da França, as negociações militares também se perderam num pantanal. •

O D IL E M A D O G O V Ê R N O S O V IÉ T IC O

Que era que se podia fazer? O govêrno soviético se deparou diante de um agudo di­ lema: prosseguir nas negociações tripartidas com os go64 “Negociações das missões militares da u r s s , Inglaterra e França, em Moscou, em agôsto de 1939”, revista La Vida Internacional, Mos­ cou, 1959, n.° 3, pág. 157.

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vernos inglês e francês, que não desejavam, evidentemente, o pacto, ou procurar outros rumos para reforçar a sua se­ gurança? • Vinha à memória, involuntariamente, impressionante episódio dos primeiros tempos da União Soviética. Logo após a Revolução de outubro, o jovem Estado So­ viético, ainda não fortalecido, viu-se colocado ante a neces­ sidade de solucionar importante e difícil problema: como pôr fim à guerra em meio à 'qual havia nascido? Da solução que se desse a êsse problema dependia todo o futuro da revo­ lução e do povo soviético; mais ainda: todo o futuro da humanidade. N a verdade, qual era a situação? Na Rússia, acabava de ocorrer a Grande Revolução, que se chocara com a furiosa resistência das velhas classes do­ minantes, apoiadas por todo o mundo capitalista, e que her­ dara do regime czarista a grave ruína econômica, bem como a ignorância das grandes massas populares. Para poder manter-se e subsistir, a jovem República dos Sovietes, ainda fraca, necessitava, sobretudo, de paz, ou, pelo menos, de "trégua” . Como procedeu, então, o govêrno soviético, dirigido por Vladimir Ilitch Lênin? No famoso Decreto da Paz, de 8 de novembro de 1917, e nas subseqüentes notas dirigidas a diversos governos, ape­ lou, em primeiro lugar, para todos os países beligerantes, pro­ pondo-lhes que cessassem, imediatamente, as hostilidades e assinassem uma paz geral, justa e democrática, sem anexações, nem tributos. O govêrno soviético achava que essa forma de acabar com a guerra era a mais desejável, a mais condizente com os interêsses da classe operária e de tôda a humanidade. Sabe-se que a iniciativa do govêrno soviético caiu, en­ tão, em terreno pedregoso. Nem a Alemanha, nem a Âustria-Hungria, nem a Inglaterra, nem a França, nem os Esta­ dos Unidos deram importância ao apêlo do Estado sovié­ tico. Atenazados por luta de morte, prosseguiram a guerra durante mais de um ano. Como procedeu, nessa situação, o govêrno soviético? Como procedeu Lênin? O govêrno soviético não empreendeu o caminho da "guerra revolucionária”, para o qual o empurravam os cha­

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mados “comunistas da esquerda”, nem o de “nem paz, nem guerra”, que lhe recomendava Trotski; escolheu outro cami­ nho. Raciocinou assim: se, por motivos alheios à sua vonta­ de, não se podia conseguir paz democrática geral — que teria sido, naturalmente, o melhor — pelo menos tinha que se preocupar em tirar, o quanto antes, da guerra o próprio país. Isso tinha excepcional importância para salvar a revo­ lução e preservar a pátria do Socialismo. Se não se podia conseguir “trégua” mediante a assinatura da paz geral, era preciso consegui-la, ao menos, mediante paz em separado com a Alemanha. Sim, a Alemanha era, efetivamente, uma potên­ cia imperialista agressiva. Que importava, porém? A Rússia soviética não existia no vazio, mas se via cercada pelo mundo capitalista hostil. E já que, apesar da aspiração soviética, a paz democrática geral era impossível naquele momento, ti­ nha-se de conseguir, pelo menos, uma “trégua” temporária mediante acôrdo com o imperialismo alemão (mas com a condição iniludível, é claro, de não se imiscuir nos negócios internos da Rússia Soviética). E Lênin deu o passo decisivo que, para alguns pare­ ceu, então, apostasia dos princípios da Revolução de outu­ bro, mas que foi, na prática, manobra genial, justamente com base nesses princípios. Nasceu, assim, a paz de Brest-Litovsk, paz muito dura, com anexações e tributos à custa do povo soviético, paz má, paz “grosseira”, como a qualificou Lênin. Entretanto, essa paz deu à República Soviética o que ela mais necessitava, naquele instante: "trégua”, que, como ficou demonstrado mais tarde, foi a premissa indispensável do pujante desenvol­ vimento da U R SS, nos decênios seguintes. A história justi­ ficou plenamente a conduta de Lênin, nesses dias difíceis. Lênin revelou ser grande mestre da causa revolucionária que não sacrifica a sua essência às frases revolucionárias. 65
65 As reflexões do general alemão M ax Hoffmann, que participou da representação alemã nas negociações de Brest-Litovsk, nos oferecem curiosa confirmação do acêrto da manobra de Lênin; confirmação — é estranho dizê-lo! — procedente dos nossos inimigos. No seu livro, A guerra das possibilidades perdidas, Hoffmann diz, em particular: “Tenho pensado muitas vêzes se não teria sido melhor que o Govêrno Imperial e o Alto Comando M ilitar tivessem refugado tôda espécie de negociações com as autoridades bolchevistas. Dando-lhes a possi-

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I

Vinte e dois anos depois de se assinar a paz de BrestLitovsk, em 1939, o govêrno soviético viu-se, de nôvo, à fren­ te de importante e difícil problema. Certamente, durante o tempo transcorrido desde então, haviam mudado muitas coi­ sas no mundo e, em primeiro lugar, crescera imensamente o poderio da União Soviética. Todavia, na situação de 1939, concorriam não poucos elementos semelhantes aos que havia predominado em 1917. Em 1939, a União Soviética via-se novamente ameaçada por grande perigo: o perigo da agressão das potências fas­ cistas, principalmente, a Alemanha e o Japão. Ainda mais: existia o perigo de se criar uma frente única capitalista con­ tra o Estado soviético, visto que, segundo mostrava clara­ mente o desenvolvimento das negociações tripartidas, Chamberlain e Daladier podiam colocar-se, a qualquer momento, ao lade das potências fascistas e apoiar, de uma maneira ou de outra, a agressão à U R SS. Era preciso conjurar êsse peri­ go a todo custo: mas como? A melhor saída, à qual tendia o govêrno soviético, com tôdas as fôrças e meios, era criar poderosa coligação de­ fensiva dos países não interessados no desencadeamento da Segunda Guerra Mundial. Concretamente tratava-se, em primeiro lugar do pacto tripartido de assistência mútua en­ tre a Inglaterra, a França e a U R S S . Nas páginas anterio­ res, mostramos com suficiente fôrça de convicção que o go­ vêrno soviético enveredara, no comêço, precisamente por êsse caminho. Fôra êle que propusera à Inglaterra e à França a assinatura de um pacto tripartido. E fôra êle tam­ bém que sustentara, tenazmente, durante quatro longos me­ ses, negociações com Londres e Paris para a assinatura dêsse pacto, revelando paciência quase angélica. Entretanto, a sabotagem sistemática de Chamberlain e Daladier — - os quais, como assinalamos repetidas vêzes, ci­ fravam as suas esperanças no desencadeamento de uma guerra germano-soviética — fêz afundarem as negociações tri­ partidas, em agôsto de 1939. A disputa relativa à passagem
bilidade de concluir a paz e, dêste modo, satisfazer o apaixonante desejo das massas populares, nós as ajudamos a tomar, firmemente, o poder e nêle manter-se” . H offm ann, La guerra de las possibilidades perdidas, ed. em russo, Edit. do Estado, 1925, pág. 160.

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das tropaá soviéticas pelo território da Polônia e da Romênia não foi mais que um último e defintivo elo da longa cadeia de desilusões precedentes. Ficou absolutamente claro que o pacto tripartido de luta contra os agressores era impossível, e não precisamente por culpa da U R S S . Mesmo admitin­ do que, no fim das contas, êsse pacto pudesse ser assinado, surgia, antes de tudo, uma pergunta: Quanto tempo seria ainda preciso para conseguir êsse resultado? Não chegaria tarde demais para deter a mão, já levantada, dos agressores? Porque a terra da Europa já ardia debaixo dos pés! Vinha também outra pergunta, mais importante ainda: como cum­ pririam a Inglaterra e a França o pacto assinado? Acabavam de desfilar à nossa vista os dolorosos exemplos da Áustria, Tcheco-Eslováquia e Espanha. Os três países haviam sido simplesmente traídos pela Inglaterra e pela França. Onde estava a garantia de que essas duas grandes potências se portariam melhor, no cumprimento dos seus compromissos com a U R SS? Seria muito mais provável que Chamberlain e Daladier, com um ou outro pretexto, nos voltassem as cos­ tas no momento crítico? Todo o fundamento dessas dúvidas se viu confirmado três semanas mais tarde, quando a A le­ manha atacou a Polônia. Não, em agôsto de 1939, não se podia confiar na as­ sinatura de um pacto tripartido! Valia a pena, nesse caso, continuar as negociações tripartidas? Valia a pena fomentar nas massas a ilusão de que era possível uma aliança defensi­ va da Inglaterra, França e U R S S ante os agressores fascis­ tas? Não, não valia a pena. Tinha que se pensar em outra coisa. E a genial ma­ nobra de Lênin nos dias de paz de Brest-Litovsk dava res­ posta à indagação do que se devia fazer. No caso de cessarem as negociações com a Inglaterra e a França, ao govêrno soviético se delineavam duas possí­ veis perspectivas: a política de isolamento ou o acôrdo com a Alemanha. Entretanto, a política de isolamento naquela si­ tuação, quando os canhões já disparavam nas fronteiras da U R SS , no Extremo Oriente (Hasan e Halhin-Gol!), quan­ do Chamberlain e Daladier faziam esforços inauditos para empurrar a Alemanha contra a U R SS , quando na própria Alemanha havia vacilações acêrca da direção em que se de­ via assestar o primeiro golpe; em situação assim, a política

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de isolamento era extremamente perigosa, e o govêrno so­ viético repeliu-a com tôda razão. Restava uma só saída: o acôrdo com a Alemanha. E ra possível? Sim, era possível, dado que, mesmo desde o comêço das negociações, Berlim dava mostrar de grande nervosismo e seguia com atenção tôdas as suas peripécias. Como jã dissemos,,os políticos e historiadores do O ci­ dente têm criado a lenda de que a U R SS jogou com pau de dois bicos durante a primavera e o verão de 1939. Por exemplo, Daladier escreveu, em abril de 1946: “Desde o mês de maio (de 1939. —< I . M . ) , a U R S S tinha mantido duas negociações: uma com a França, outra com a Alema­ nha ” . 60 Churchill é menos concreto, mas também faz notar, nas suas memórias de guerra: “Não é possível fixar o mo­ mento em que Stalin abandonou, definitivamente, a intenção de atuar em comum com as democracias ocidentais e deci­ diu pôr-se de acôrdo com Hitler ” . 67 Daí deduz-se que tam­ bém Churchill admite a possibilidade de um duplo jôgo por parte do govêrno soviético. Com o fim de demonstrar a existência dêsse duplo jôgo, o govêrno norte-americano publicou, em 1948, um volume es­ pecial acêrca das relações sovieto-alemãs em 1939-1941, vo­ lume que contém seleção, tendeciosa ao extremo, de documen­ tos do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha, conquistados como troféus pelas potências ocidentais, ao tér­ mino da Segunda Guerra Mundial” . 68 Depois de tudo quanto se disse, não é preciso demons­ trar que tôdas essas afirmações não passam de calúnias e patranhas infundadas. Entretanto, é interessante repassar com um pouco mais de atenção o volume a que acabamos de alu­ dir e ver de que falam os documentos nêle compilados. Assim fazendo, devemos ter em conta duas coisas: 1. O s autores da compilação se esforçaram, sem dúvida alguma, por selecionar os documentos mais favoráveis para êles e, por conseguinte, mais desfavoráveis para a U R S S .

66 67 68

W . Churchill, Second World War, vol. I, pág. 3 31. Ibi'd.t p ág. 3 2 6 . N aziSoviet Relations 1939-1941, W ash ., 1948. (Daqui em diante,

N S R .)

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2 . © s documentos que figuram na compilação — cor­ respondência entre o Ministério das Relações Exteriores da Alemanha e a sua Embaixada em Moscou, notas das con­ versações dos diplomatas alemães com os soviéticos, con­ siderações acêrca da política externa da U R SS , etc. — re­ fletem, unicamente, a opinião de uma d as p artes : a alem ã. É natural que os citados documentos estejam impregnados de tendência anti-soviética e, às vêzes, sejam simplesmente falseamento da verdade em favor da Alemanha. Se lord Halifax, como já demonstrei, pôde tergiversar por completo., nas suas notas, a essência da conversa que tivemos em 1 2 de junho de 1939, por que devemos dar maior crédito aos documentos dos diplomatas alemães? Assim, pois, a compilação do que falamos contém a quin­ tessência do que se pode dizer contra a U nião Soviética. Em todo caso, nas suas páginas, nada se pode encontrar que favoreça a U R S S . Muito mais curioso é conhecer os do­ cumentos que contêm esta "ata de acusação” contra o go­ vêrno soviético. Que diz, pois? A compilação está dividida em-oito seções, das quais só a primeira nos interessa neste caso, pois abrange quase com­ pletamente o período das conversações tripartidas (de 17 de abril a 14 de agôsto de 1 939). A primeira seção con­ tém 32 documentos, divididos de maneira muito desigual en­ tre os diversos meses: abril, 1; maio, 12; junho, 7; julho, 5; e agôsto (até o dia 14), 7. Entretanto, o conteúdo dos do­ cumentos publicados tem mais importância que a ordem cro­ nológica, Os documentos correspondentes a abril, maio e junho se referem, fundamentalmente, a questões econômicas corri­ queiras. Certamente que também se abordavam questões po­ líticas, mas só muito raro, e de passagem, com caráter de sondagem recíproca que a nada obrigava. Trata-se corren­ temente da possibilidade de melhorar as relações entre a U R SS e a Alemanha que, àquele tempo, se distinguiam por grande tensão. As conversações dêsse tipo são rotina coti­ diana entre os representantes diplomáticos de dois países, se­ jam quais forem, cujas relações mútuas deixam a desejar. Nas conversações sovieto-alemãs do citado período, nada há de “sinistro” para os interêsses da Inglaterra e França,

m

Não se pode falar em duplicidade alguma da política sovié­ tica. Vejamos alguns detalhes concretos. Como acabamos de recordar, só um documento está da­ tado de abril. São as notas das conversações mantidas pelos representantes alemães e soviéticos em Berlim acêrca do es­ tatuto da representação comercial soviética em Praga e do cumprimento das encomendas que a U R SS havia feito às fábricas Scoda, antes da ocupação da Tcheco-Eslováquia pela Alemanha. Trata-se, pois, de questão atinente às rela­ ções econômicas rotineftas entre dois países, questão que nada tem contra as potências ocidentais. A 5 de maio, Karl Schnurre, representante destacado do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha, que se ocupava, principalmente, de questões econômicas, convi­ dou o encarregado de negócios soviéticos em Berlim, Astájov, a visitá-lo comunicando-lhe que se haviam dado ordens às fábricas Scoda de satisfazerem os pedidos soviéticos. Astá­ jov, como é lógico, exprimiu a sua satisfação por essa notícia e perguntou se se reatariam, em futuro próximo, as nego­ ciações sovieto-alemãs (também sôbre questões econômicas), interrompidas em fevereiro de 1939. Schnurre deu resposta evasiva. Nas suas notas dessa conversação diz mais adiante: “Astájov referiu-se à demissão de Litvínov (ocorrida dois dias antes, — I . M . ) , e sem perguntá-lo abertamente procurou esclarecer se êsse acontecimento não levaria a mu­ dança de nossa posição com respeito à União Soviética ” . 09 Se Schnurre reproduz fielmente o que disse Astájov a êsse respeito (do que, como é natural, não podemos absolu­ tamente, estar certos) é de supor-se que desejasse fazer cer­ ta sondagem, visto que a demissão de Litvínov fôra inter­ pretada no Ocidente como a transição da U R SS da cola­ boração com a Inglaterra e a França à política de isola­ mento ou até de colaboração com a Alemanha. Já lembrei que Halifax me perguntou, a 6 de maio, à queima-roupa, como se devia interpretar a demissão de Litvínov do cargo de Co­ missário do Povo dos Negócios Estrangeiros e se continua­ vam de pé as propostas do pacto tripartido de assistência mútua que tínhamos apresentado em 17 de abril. Ao govêrno soviético podiam ser úteis informações sôbre a reação dos
69 n sr,

pág . 3 .

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meios governamentais alemães ante as alterações efetuadas em Moscotr. Mas é muito provável que fôsse o próprio Schnurre que se interessasse, na realidade, pelo efeito que po­ dia ter a demissão de Litvínov sôbre as relações germanosoviéticas e que, nas suas notas de conversação, apresentas­ se as coisas como se a pergunta houvesse partido de Astájov (êsses truques são freqüentes na diplomacia burguesa) . De fato, quando, a 9 de maio, quatro dias depois, o mesmo Astájov fêz a apresentação do nôvo correspondente da T A S S , Fillíppov, ao funcionário do Ministério das Relações Exte­ riores da Alemanha, Braun von Stumm, êste lhe perguntou que influência exercia sôbre a política exterior da União So­ viética a mudança do Comissário do Povo dos Negócios E s­ trangeiros. E Astájov respondeu-lhe que Litvínov não apli­ cava política pessoal, mas a política "que dimana dos prin­ cípios gerais do Estado soviético” . 70 Seja qual fôr a versão correta da conversa citada, não cabe a menor dúvida de que a sondagem sôbre o efeito da demissão de Litvínov não sig­ nificava, absolutamente, nada que se parecesse, de perto ou de longe, com as negociações em tôrno de acôrdo com a Ale­ manha . ' Astájov tornou a visitar Schnurre em 17 de maio, fa­ lando com êle do estatuto da representação comercial sovié­ tica em Praga. E Schnurre diz, mais adiante, em seu in­ forme: "Durante a conversa subseqüente, Astájov tornou ’a re­ ferir-se com grande detalhe ao desenvolvimento das relações germano-soviéticas” . 71 . A fórmula de Shnurre não mostra claramente quem foi o iniciador da conversa sôbre êste tema; mas se foi Astájov até pelas notas de Schnurre se deduz que o que disse o en­ carregado de negócios soviéticos sôbre esta questão estava impregnado de grande desconfiança quanto à Alemanha. A s­ tájov mostrou-se satisfeito com o fato de a imprensa alemã ter manifestado certo comedimento em relação à U R SS , du­ rante as semanas precedentes, mas acrescentou nessa altura,
*o NSR, p á g . 4 .
T1 NSR, p á g . 5.

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que “os Sovietes não podem julgar ainda se êsse comedimento não é uma pausa temporária com finalidades táticas . 72 Astájov citou o exemplo das relações ítalo-soviéticas como protótipo do que era possível também nas relações entre a U R SS e a Alemanha. ' Nenhuma das conversações dos representantes soviéti­ cos em Berlim com os diplomatas alemães continha, absolu­ tamente, nada que exceSesse os limites da natural preocupa­ ção cotidiana em melhorar as relações entre dois países que as têm muito tensas. Nem com microscópio se pode nelas descobrir sintoma de pérfida conjuração contra a Inglaterra e a França. A 20 de maio, registrou-se um acontecimento muitissímo importante: nesse dia, o embaixador alemão em Moscou, Schulenburg, visitou o Comissário do Povo dos Negócios Estrangeiros da U R SS e procurou reatar as negociações co­ merciais germano-soviéticas, interrompidas em fevereiro. Era uma evidente manifestação de agrado que a Alemanha fa­ zia à U R S S . Que recebeu como resposta? O Comissário do Povo soviético, longe de manifestar o menor entusiasmo por isso, declarou com bastante rispidez que tôda a história das precedentes negociações comerciais entre ambos os países pro­ duziam no govêrno soviético impressão de falta de serie­ dade por parte da Alemanha, cujo jôgo visava, evidentemen­ te, a fins políticos. Daí o Comissário do Povo tirava a con­ clusão lógica de que, antes de reatar as negociações, deviase criar a necessária “base política”, isto é, melhorar as re­ lações políticas entre ambos os países. 73 O informe de Schulenberg acêrca dessa conversa cau­ sou grande desalento em Berlim. A 21 de maio, o secretá­ rio de Estado, Weizsaecker, telegrafou ao embaixador ale­ mão em Moscou: "O s resultados da sua discussão com Molotov nos levam à seguinte conclusão: devemos esperar em silêncio para ver se os russos exprimem o desejo de falar com maior clareza” . 74 Êste é o verdadeiro quadro das relações germano-soviéticas em maio de 1939, conforme patenteiam até os documen­
72
n sr,

pág.

5.

73 74

Ibid., pág. 6 . Ibid., pág. 7 .

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tos do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha, ten­ denciosamente selecionados por incumbência dos nossos ad­ versários nos Estados Unidos. E Daladier atreveu-se, de­ pois disso, a afirmar gratuitamente que "desde o mês de maio, a U R SS havia mantido duas negociações: uma com a França e outra com a Alemanha”! Entretanto, as negociações tripartidas inquietaram enor­ memente a Alemanha hitlerista, e a “espera em silêncio” não durou muito. Weizsaecker escreveu a Schulenburg, a 27 de maio: "Aqui (isto é, em Berlim, — I . M . ) sustentamos a opinião de que não será fácil prevenir a combinação anglo-russa ” . 75 E a 30 de maio, por indicação especial de H i­ tler, chamou Astájov e, depois de dizer-lhe que o estatuto da representação comercial soviética em Praga afetava grandes problemas de princípio, formulou-lhe, em tôda a sua impor­ tância, a questão das relações políticas entre a Alemanha e a U R S S . Isso fazendo, W eizsaecker desenvolveu a seguin­ te concepção: em Berlim, não se quer o comunismo e se aca­ bou com êle dentro do país: em Berlim, não se espera que em Moscou se queira o nacional-socialismo; mas as diferen­ ças ideológicas não devem ser obstáculo a que se mantenha entre ambos os países relações práticas normais. Era nova manifestação alemã à U R SS , mas Astájov rea­ giu a ela com muita cautela. As notas de W eizsaecker mos­ tram que Astájov lembrou ao seu interlocutor a desconfian­ ça arraigada em Moscou, relativamente à Alemanha hitleris­ ta; todavia, como é lógico, declarou-se de acôrdo com a opi­ nião de W eizsaecker de que, apesar das diferenças ideoló­ gicas, os dois países podiam normalizar completamente as suas relações; porque essa era e é, justamente, um dos prin­ cípios fundamentais da política externa soviética, em geral. Mais importante ainda era que Moscou não reagia de maneira alguma ao nôvo ato da ofensiva diplomática alemã. Durante o mês de junho, mantiveram-se animadas negocia­ ções comerciais entre a Alemanha e a U R SS , cessando, po­ rém, no fim do mês, por ser impossível superar as discrepâncias existentes entre as duas partes. A U R S S declarou que a posição alemã não lhe era bastante favorável.
75
n sr

, pág.

9.

174

Apesar dessa falência, apesar de o govêrno soviético continuar cauteloso em relação à conversa de 30 de maio de Weizsaecker com Astájov, Schulenburg visitou, em 28 de junho, o Comissário do Povo dos Negócios Estrangeiros da U R SS e voltou a repetir, oficialmente, em nome de seu go­ vêrno, que a Alemanha desejava normalizar as relações en­ tre os dois países. Schulenburg assinalou uma série de fatos que, no seu modo de pensar, provavam a disposição de Ber­ lim de ir ao encontro da União Soviética: assinatura de pac­ tos de não-agressão, entre a Alemanha e os países bálticos, mudança de tom da imprensa alemã relativamente à U R SS , etc. Isso coincidia com os desejos soviéticos e significava progresso, favorável para nós, na política alemã; entretanto, o Comissário do Povo soviético não manifestou, também nes­ se caso, nenhum entusiasmo especial, mas, a julgar pelas pró­ prias notas de Schulenburg, respondeu, serenamente, que re­ cebia as suas palavras com satisfação e considerava necessá­ rio sublinhar que a política externa do govêrno soviético, em consonância com as declarações dos seus dirigentes, tendia a cultivar as boas relações com todos os países, o que di­ zia respeito também à Alemanha, com a condição, é claro, de que houvesse reciprocidade.76 Passou, depois, um mês inteiro, o aziago mês de julho, durante o qual os inglêses e franceses sabotaram, obstinada­ mente, a unidade do pacto e do convênio militar. Contudo, a compilação citada não contém um só docum ento que tes­ temunhe a aproximação progressiva entre a U R SS e a Ale­ manha no terreno político. Apesar dessa sabotagem, apesar das crescentes dúvidas do govêrno soviético acêrca da pos­ sibilidade de assinar o pacto tripartido, a U R S S continuou firme nas negociações com a Inglaterra e a França, abstendo-se de fazer a menor demonstração de simpatia à Ale­ manha . Completamente diverso foi o comportamento de Berlim. As negociações tripartidas e, em particular, o acôrdo quan­ to a enviar a Moscou as missões militares inglêsa e france­ sa, despertaram alarma, cada dia maior, nos meios do govêr78
nsrj

págs. 26-27.

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no hitlerista. Êste examinou febrilmente e procurou aplicar diversas medidas que deviam, no seu modo de pensar, frus­ trar ou, pelo menos, retardar a assinatura do pacto tripar­ tido. Na segunda quinzena de julho, reatamos as negociações comerciais com a Alemanha, interrompidas três semanas an­ tes; dessa vez, o lado alemão acedeu com agrado aos de­ sejos soviéticos. A 26 de julho, Schnurre, por indicação direta das. altas esferas, deu em Berlim um banquete em honra de Astájov e do representante comercial soviético na Alemanha, Babarin. Nêle, Schnurre fêz tudo para demonstrar que eram perfei­ tamente possíveis as boas relações entre a Alemanha e a U R SS e até chegou a apontar, de maneira concreta, as eta­ pas consecutivas da respectiva melhoria. Afirmou, mais adiante, que a Alemanha estava disposta a fazer com a U R SS um acôrdo de longo alcance sôbre todos os problemas “desde o Báltico ao M ar N eg ro". Que responderam a isso os hóspedes soviéticos de Schnurre? O próprio Schnurre diz, nas suas notas: “Astájov, apoiado integralmente por Babarin, conside­ rou que o caminho traçado (por Schnurre. — L. M .) para a aproximação com a Alemanha corresponde aos interêsses vitais dos dois paises. Não obstante, fêz finca-pé para que o rítimo do desenvolvimento venha a ser, provàvelmente, muito lento e gradual. A política externa nacional-socialista ameaça a União Soviética. . . Astájov recordou o Pactcr A n ticomintern , “as nossas relações com o Japão, Munique e a liberdade de ação que tivemos na Europa Oriental. Ás con­ seqüências políticas de tudo isso se voltam, inevitavelmente, contra a U R S S . . . A Moscou não é fácil crer que a polí­ tica da Alemanha, no que diz respeito à União Soviética, tome outro rumo. A diferença de estado de espírito só se pode produzir aos poucos" . 77 Como vemos, os representantes soviéticos em Berlim aco­ lheram com grande reserva os cantos de sereia nazistas e, em todo caso, não excederam em suas manifestações os li­ mites de uma aspiração absolutamente legítima: contribuir para melhorar as relações entre os dois países.
77
nsr ^

págs.

33-36.

176

Estã aqui, agora, a curiosa apreciação da atitude do govêrno soviético com relação às manifestações alemães que encontramos em telegrama de Weizsaecker a Schulenburg, datado de 29 de julho: • "Teria importância esclarecer se encontram eco em Moscou as declarações feitas a Astãjov e Babarin (durante o banquete de 28 de ^ulho. — I. M .) . Se o senhor tiver oportunidade de falar novamente com Molotov, peço-lhe que o sonde nesse sentido. . . . E se acontecer que Molotov aban ­ d on e a reserva que tem m antido até agora, p o d e d ar o se ­ guinte p asso adiante ( grifado por mim. — I . M .) , 78 Assim, pois, na apreciação feita pelo lado alemão, o go­ vêrno soviético não fêz eco, de abril a julho, à ofensiva di­ plomática alemã. Uma semana depois, a Alemanha deu nôvo passo, e mui­ to importante, em direção à U R S S . A 3 de agôsto, nos mes­ mos dias em que as missões militares inglêsa e francesa se preparavam sem pressa para partir rumo a Moscou, Ribbentrop convidou Astájov para visitã-lo e lhe fêz uma declara­ ção da maior importância. Na prática diplomática, o fato de qye o “próprio’’ Ministro das Relações Exteriores receba em seu escritório um “encarregado de negócios” significa que a gestão é de urgência e importância extremas. Ribbentrop de­ clarou que era possível transformar, radicalmente, as rela­ ções germano-soviéticas à base de duas condições fundamen­ tais: a) não ingerência recíproca nos negócios internos, e b) renúncia (por parte da U R S S . — I . M . ) à política orien­ tada contra os interêsses alemães. Ribbentrop assegurou a Astájov que o govêrno alemão estava predisposto a favor de “Moscou” e acrescentou que se “Moscou" fôsse ao encontro do govêrno alemão, “não haveria problemas do Báltico ao M ar Negro que não pudessem ser resolvidos entre nós”. Astájov, segundo as notas de Ribbentrop, foi muito co­ medido nas suas respostas; não se comprometeu em absoluto e se limitou a declarar que “a seu ver, o govêrno soviético desejava seguir política de compreensão mútua com a Ale­ manha” . Isso, naturalmente, não contradizia em nada com a possibilidade de assinar o pacto tripartido.
78
n sr

, páe.

36.

177

Depois,, de transmitir a Schulenburg o conteúdo de sua conversa com Astájov, Ribbentrop acrescentou, para conhe­ cimento do próprio embaixador: “O encarregado de negócios, que parecia interessado, procurou, várias vêzes, fazer recair a conversa sôbre ques­ tões mais concretas. Contudo, dei-lhe a entender que só es­ tou disposto a ser mais concreto no caso de o govêrno so­ viético declarar oficialmente que reconhece, em princípio, a conveniência de dar um nôvo caráter às relações. Se Astá­ jov receber instruções nesse sentido, nós, de nosso lado, es­ taremos interessados em concluir o quanto antes um acôrdo defintivo” . 79 No dia seguinte, 4 de agôsto, Schulenburg, cumprindo as indicações de Ribbentrop, transmitiu ao Comissário do Povo dos Negócios Estrangeiros da U R SS tudo que Ribben­ trop havia dito, na véspera, a Astájov. Como reagiu o Co­ missário do Povo soviético às palavras do embaixador alemão? Schulenburg informou a Berlim que o Comissário do Povo lhe havia comunicado a opinião do govêrno soviético, favorável à assinatura de acôrdo econômico entre os dois países; havia exprimido o critério de que a imprensa das duas partes devia abster-se de manifestações que pudessem aze­ dar as relações entre êles, e reconhecido ser desjável o res­ tabelecimento gradual dos contatos no terreno cultural. Schulenburg escrevia, mais adiante: . “Passando, depois, à questão das relações políticas, o Comissário do Povo declarou que o govêrno soviético dese­ java também a normalização e a melhoria das relações mú­ tuas. Não é culpa sua que as relações tenham piorado. Êle (o Comissário do Povo. —■ I . M . ) vê a causa da piora, so­ bretudo, na assinatura do P acto Anticomintern e em tudo o que se tem dito e feito em relação a êle” . Schulenburg tocou na questão da Polônia. Disse que a Alemanha procurava resolver as suas divergências com a Po­ lônia por via pacífica. Entretanto, se a obrigassem a proce­ der de outra forma, levaria em conta os interêsses soviéti­ cos. O Comissário do Povo respondeu que o ajuste pací­ fico entre a Polônia e a Alemanha dependia, sobretudo, da
79 NSRj págs. 37-39.

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Alemanha. Como se vê pelas notas posteriores de Schulen­ burg, esta resposta aborreceu-o muito. O embaixador alemão não deixou de se referir às ne­ gociações tripartidas, ao que o Comissário do Povo soviéti­ co respondeu que visavam a fim puramente defensivo. Comentando essa conversa, Schulenburg escreveu a Ber­ lim que, a julgar por tôdos os sintomas, "o govêrno sovié­ tico se sente agora mais inclinado à melhoria das relações germano-soviéticas; entretanto, a velha desconfiança em re­ lação à Alemanha continua muito forte " . 80 Vemos, pois, que durante a primavera e o verão de 1939, o govêrno soviético revelou plena lealdade nas rela­ ções com as potências que participavam das negociações tri­ partidas. Não houve confabulação secreta alguma com a Alemanha dirigida contra elas. Não houve, do lado sovié­ tico, iitfenção alguma de formar bloco com Berlim por trás da Inglaterra e da França e “trair” a Londres e Paris. Não houve nada que recordasse, sequer remotamente, as conver­ sações de Horace W ilson com W ohlthat. Até o mês de agôsto, as relações germano-soviéticas tiveram o caráter de relações diplomáticas corriqueiras, com tintas, certamente, não muito "amistosas” . E as conversações entre os repre­ sentantes de ambos os governos foram também conversa­ ções corriqueiras, daquelas que mantêm, todos os dias, em todos os pontos da Terra, os ministros e os embaixadores sôbre diversos problemas da atualidade. Assim o provam, de maneira indubitável, os próprios documentos compilados pelos nossos adversários nos Estados Unidos para denegrir ao máximo o govêrno soviético. 81 Só em agôsto, quando as negociações tripartidas defi­ nitivamente desmoronaram em conseqüência da sabotagem anglo-francesa; quando se desvaneceu por completo a espe­ rança de ser assinado um pacto eficaz de assistência mútua
so
n sr ,

págs. 40-41.

81 Aqui está um curioso testemunho, procedente de fontes pouco amistosas, de que o govêrno soviético não cometeu nenhum ato des­ leal. O embaixador norte-americano em Paris, William Bullit, disse, entre outras coisas, em seu informe de 28 de junho de 1939, acêrca da conversa mantida com o Primeiro-Ministro Francês, Daladier: “D a­ ladier disse que não acreditava, naturalmente, nas declarações russas (acêrca da lealdade das relações com os inglêses e os franceses. —

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entre a U R SS , Inglaterra e França, o govêrno soviético viu* se obrigado a fazer uma alteração g eral d e sua política, co i­ sa plenamente natural e legítima, se um govêrno considera que circunstâncias alheias à sua vontade o obrigam a fa­ zê-lo. Eis porque, na primavera e no verão de 1939, não existia o jôgo com pau de dois bicos de que acusam o govêrno soviético os seus adversários estrangeiros, mas um afã claro, firme e absolutamente leal para com a Inglaterra e a França de concluir com elas um pacto tripartido contra os agressores. E se, em defintivo, a êle não se conseguiu che­ gar, não é, em todo caso, sôbre a U R S S que recai a culpa. Porém, nem nessa situação, o govêrno soviético quis queimar, de imediato, as pontes. A 3 de agôsto, a Alema­ nha (justamente a Alemanha, e não a União Soviética) fêz, oficialmente, ao govêrno soviético, propostas de longo alcan­ ce acêrca da transformação radical das relações entre os dois países. Isso devia levar primeiramente, à sua normalização e, depois, de modo gradual, ao que, em linguagem diplomá­ tica, se chama “amizade” . Semelhante perspectiva corres­ pondia inteiramente às aspirações pacíficas do govêrno so­ viético e sua realização podia fortalecer, em alto grau, a se­ gurança do povo soviético. Contudo, “Moscou”, também nesse caso, não se deixou seduzir pelas tentações de Ber­ lim. "Moscou” continuou pensando no pacto tripartido e quis fazer mais um esforço, o último, para levar à práticà a me­ lhor variante da luta contra a agressão. Apesar de tôdas as dúvidas engendradas pela história precedente das negocia­ ções tripartidas, "Moscou” não perdeu a esperança de que os governos da Inglaterra e França soubessem, talvez, refle­ tir profundamente e enveredar pelo caminho certo, embora fôsse só cinco minutos antes da catástrofe.
I .M .) ; mas nem as embaixadas, nem os serviços secretos franceses e inglêses puderam receber, até agora, informação alguma indicadora de que os russos mantenham negociações com a Alemanha ( Foreign Relations o f the United States, 1939, vol. I . W ash ., 1956, pág. 2 7 8 ) . A coisa é bem simples: essas negociações não existiram. Como ajustar essas declarações de Daladier às suas afirmações, citadas anteriormente (veja-se a pág. 169 do presente volum e), de que a u r s s mantinha negociações com a Alemanha “desde maio de 1939” por trás da França?

ISO

Por isso, “Moscou” esperou dez dias mais. Berlim, im­ paciente, queria acelerar, de qualquer modo, os acontecimen­ tos. Uma semana após a conversa de Ribbentrop com A s­ tájov, em 10 de agôsto, Schnurre insistiu, conversando com Astájov, em que se fixasse com a maior rapidez a atitude da U R S S ante as propostas que lhe havia feito a Alemanha. "M oscou”, porém, continuou a se abster, como vinha fazendo desde a conversa de Ribbentrop com Astájov a 3 de agôsto, de adotar decisão defintiva. " M oscou ” esperou, enquanto as m issões militares inglêsa e fran cesa faziam a travessia d e L on dres a Leningrado em navio m isto. “M o s­ cou" esperou, enquanto s e realizavam , na capital soviética, as prim eiras reuniões com as m issões m ilitares. M as, quando no d ecorrer d essas reuniões, s e form ulou o problem a d a p a s­ sagem d as tropas soviéticas p elos território d a P olôn ia e da R om ênia (qu estão central d e todo o acôrdo m ilitar); quan­ d o se mu claram ente qu e nem as m issões m ilitares inglêsa e fran cesa, nem os govern os inglês e fran cês davam respos­ ta a esta qu estão; quando L on dres e Paris só reagiram com longo silêncio a o s telegram as qu e lh e foram enviados, por êsse motivo, a longa paciência soviética acabou -se. F icou absolutam ente claro que C ham berlain e D aladier eram in­ corrigíveis e qu e não s e p odia criar com êles nenhuma segu­ rança coletiva d as potências p acíficas. O melhor método de luta contra a agressão fascista fa­ lhou por culpa exclusiva de Chamberlain e Daladier. Chegou o momento de passar à única saída que ainda restava. A situação do govêrno soviético, no decorrer das ne­ gociações tripartidas, podia comparar-se à de um homem acossado cada vez mais pela maré alta: a água lhe chega aos joelhos, depois à cintura, depois ao peito, à garganta. . . Um momento mais, e a água lhe cobrirá a cabeça, se o ho­ mem não der um salto rápido e decidido, capaz de fazê-lo alcançar uma rocha inacessível à maré. Com efeito, o perigo da Segunda Guerra Mundial se aproximava mais e mais; em março e abril, apenas se vis­ lumbrava; em maio e junho, começou a adquirir contornos mais definidos; em julho, o seu terrível alento começou a empeçonhar tôda a atmosfera da Europa; e, em meados de

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ij

agôsto, já iiinguém duvidava de que faltavam poucos dias para que troassem os canhões e caíssem as bombas dos aviões. Não se podia esperar mais. Só então, em meados de agôsto, o govêrno soviético viu-se obrigado a resolver, de­ finitivamente, o que devia fazer. O dilema que tinha formu­ lado antes se converteu em amarga necessidade de entrar em acôrdo com a Alemanha. Os cinco meses de sabotagem do£ governos da Inglaterra e França, apoiados pelos Estados Unidos, às negociações tripartidas não deixaram outra saída à U R SS.

F R A C A S SO D A S N E G O C IA Ç Õ E S T R IP A R T ID A S E A C Ô RD O F O R Ç O S O C O M A A LEM A N H A

No dia 14 de agôsto, Schnurre telegrafou a Schulen­ burg que Astájov o havia visitado para comunicar-lhe que o govêrno soviético estava disposto a "discutir por grupos individuais de questões” tudo o que se referisse às relações germano-soviétivas. O govêrno soviético propôs manter as negociações em Moscou . 82 Nesse mesmo dia, apenas recebida a comunicação de Astájov, Ribbentrop enviou, urgentemente, a Schulenburg a indicação de que visitasse o Comissário do Povo dos N e­ gócios Estrangeiros da U R S S para declarar-lhe, em nome do govêrno alemão, que “não há contradição de interêsses entre a Alemanha e a U R S S ”; que “não existe motivo al­ gum para atitude agressiva de uma parte à outra” e que, ao ver do govêrno alemão, “não há questão entre o Báltico e o M ar Negro que não possa ser resolvida de modo absolutamente satisfatório para ambos os países” . Ribben­ trop sublinhou a possibilidade de ampliar as relações eco­ nômicas germano-soviéticas em todos os sentidos e declarou
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n sr ,

pág. 4 8 .

.

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também que, “a fim de normalizar com a maior rapidez pos­ sível as relações germano-soviéticas, estava disposto a visi­ tar, êle próprio, Moscou, mas com a condição de ser rece­ bido por Stalin ” . 83 . O govêrno alemão tomou, pois, nova iniciativa e deu, já de maneira inteiramente oficial, passo decisivo. Schulen­ burg cumpriu, a 15 de‘agôsto, a ordem de Berlim. O Co­ missário do Povo dos Negócios Estrangeiros da U R SS , se­ gundo informou a Berliin o embaixador alemão, “congratu­ lou-se com as intenções alemãs de melhorar as relações com a União Soviética”, mas opinou que a visita de Ribbentrop a Moscou “requer preparação adequada” . Perguntou, além disso, se o govêrno alemão estava disposto a concluir com a U R SS um pacto de não-agressão, assinar conjuntamente com a U R SS uma garantia aos Estados bálticos e influir sôbre o Japão a fim de melhorar as relações sovieto-nipônicas. 84 No dia seguinte, Ribbentrop enviou um telegrama a Schulenburg pedindo-lhe que comunicasse, urgentemente, ao Comissário do Povo soviético que a Alemanha estava dis­ posta a concluir pacto de não-agressão com a U R SS , dar garantias, conjuntamente, côm a U R SS aos Estados bálti­ cos e influir sôbre o Japão para melhorar as relações niposoviéticas. Ao mesmo tempo, insistiu na necessidade de sua visita a Moscou e manifestou-se disposto a empreender essa viagem “a qualquer momento depois de sexta-feira, 18 de agôsto ” . 85 A 18 de agôsto, Schulenburg informou o govêrno so­ viético do que se disse acima e recebeu, ao mesmo tempo, a resposta dêste às propostas alemães de 14 do mesmo mês. Que representava essa proposta? Tinha caráter estritamente prático, enumerava as cau­ sas que haviam obrigado, até então, o govêrno soviético a des­ confiar dos propósitos da Alemanha e a adotar medidas para reforçar a defesa da U R SS , assim como a participar na cria­ ção de frente única contra a agressão. A resposta soviética dizia, mais adiante, que, se o go­ vêrno alemão se propunha, sinceramente, a melhorar as suas
83

84 85

n sr , págs. 50-52. Ibid., pág. 52. Ibid., pág. 5 2 .

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relações políticas com a U R S S , o govêrno soviético só podia aplaudir semelhante mudança e, por seu lado, estava dispos­ to a modificar a política soviética, orientando-a no sentido de melhorar sèriamente as relações com a Alemanha. A resposta declarava que considerava plenamente pos­ sível a melhoria das relações sovieto-alemãs, pois a coexistên­ cia pacífica dos sistemas políticos diferentes é princípio, há muito estabelecido, da política externa da U R S S . Passando, por último, ao terreno das medidas práticas, a resposta propunha, antes de tudo, concluir um convênio comercial e financeiro e, mais tarde, após curto prazo, as­ sinar um pacto de não-agressão. Quanto à visita do chan­ celer alemão a Moscou, a resposta declarava que o govêrno soviético a aplaudia como prova dos sérios propósitos do go­ vêrno alemão; mas opinava que essa visita exigia boa pre­ paração prévia e devia efetuar-se com o mínimo aparato pú­ blico e o menor sensacionalismo jornalístico. Como vemos, o govêrno soviético, obrigado por Cham­ berlain e Daladier a modificar o rumo de sua política exter­ na, abordava a viragem inevitável com serenidade, sensatez e sangue frio, sem pressa alguma supérflua. O govêrno ale­ mão, pelo contrário, nervoso ao extremo, tinha pressa. Em telegrama enviado a Schulenburg, a 18 de agôsto, Ribbentrop deu ao seu embaixador as seguintes instruções: . “Esta vez, mantenha a conversação (com o Comissário do Povo dos Negócios Estrangeiros da U R SS — I . M . ) . . . insistindo enèrgicamente. . . na realização mais rápida de mi­ nha viagem (a Moscou < — I . M . ) e afastando, de forma de­ vida, qualquer nova objeção possível dos russos” . 86 Schulenburg cumpriu a ordem de seu ministro, mas, a 19 de agôsto, teve de comunicar a Ribbentrop que o govêr­ no soviético acedia à visita dêste só uma semana depois de ser publicada a notícia sôbre a assinatura do convênio co­ mercial e financeiro. A Alemanha pôs, então, em jôgo a sua artilharia mais pesada. A 20 de agôsto, Hitler enviou mensagem a Stalin, comunicando-lhe que, na véspera, fôra assinado o convênio
86
n sr

,

pág. 6 3 .

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comercial e financeiro87 e pedindo-lhe, insistentemente, que recebesse Ribbentrop em Moscou, o mais tardar, a 22 ou 23 de agôsto . 88 Chegava o momento em que o govêrno soviético .tinha de adotar uma decisão importante. Até então, havia ocor­ rido, unicamente, um intercâmbio de opiniões entre Moscou e Berlim, uma sondageta recíproca para conhecer o estado de espírito de ambas as partes. Mas, naquele momento, se formulava, na ordem do„ dia, o problema da conclusão do próprio pacto de não-agressão. Era necessário apreciar com justeza, uma vez mais, a situação criada no terreno das ne­ gociações tripartidas, que continuava sendo muito sombria. Em 16 de agôsto, respondendo à proposta do general Dou­ menc de iniciar a redação do projeto do convênio militar, Voroshilov declarou, categòricamente: ”» . . Não chegou ainda o momento de redigir documen­ to algum. Não resolvemos o problema principal para a União Soviética; a passagem das fôrças armadas da União Soviética pelo território da Polônia e da Romênia para as ações con­ juntas das fôrças armadas das partes contratantes contra o inimigo comum. 89 A indagação das missões militares a Londres e Paris acêrca dessa questão fôra feita em 14 de agôsto. Passaram, porém, sete dias sem que se recebesse resposta alguma dos governos britânico e francês. Em meio da atmosfera febril daquele momento, tão longo silêncio era por si mesmo res­
87 A 19 de agôsto, assinou-se em Berlim o convênio comercial e de crédito entre a u r s s e a Alemanha, convênio pelo qual a segunda con­ cedia à primeira um crédito de 2 0 0 milhões de m arcos alemães por prazo de sete anos, com juro anual de 5% . A compra de mercadorias alemãs à custa dêsse crédito estava calculada para dois anos. Nesse mesmo prazo, a u r s s devia fornecer à Alemanha mercadorias no valor de 180 milhões de marcos ( Izvestia, 21 de agôsto de 1 9 3 9 ). Como vemos, o volume do convênio era bastante modesto, e não se podia comparar, de modo algum, com as somas (de 5 0 0 a 1.000 milhões de libras esterlinas) que tinham figurado, como possível empréstimo, durante as negociações que Wohlthat mantivera em Londres, com Hudson e Horace Wilson. 88 n s r , págs. 66-67. 89 “Negociações das missões militares da u r s s , Inglaterra e França, em agôsto de 1939”, revista La Vida Internacional, Moscou, 1959, n.° 3. pág. 148.

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posta. Ao .mesmo tem po , chegavam de Varsóvia as notícias mais desalentadoras; o "govêrno dos coronéis” não queria, de modo algum, autorizar a passagem das tropas soviéticas pelo seu território. Em tal situação, ao govêrno soviético só restava dar o último passo, o passo decisivo. Em 2 1 de agôsto, à vista de que Londres e Paris estavam, havia uma semana, sem responder a solicitação das missões militares de que, por causa disso, Voroshilov pro­ pusera suspensão das reuniões tripartidas, Stalin respondeu à mensagem d e Hitler: exprimiu esperança de que o pacto germano-soviético de não-agressão significasse reviravolta para melhoria das relações políticas entre ambos os países e acedeu a que Ribbentrop fôsse a Moscou, em 23 de agôsto. Os documentos publicados, depois da guerra, pelo go­ vêrno britânico provam que êsse passo do govêrno soviético era mais que justificado. Dêsses documentos se depreende que Londres não tinha sequer o propósito de responder à indagação de sua missão militar. A sabotagem das negocia­ ções sôbre o pacto tripartido continuava inclusive nessa fase . 90 • No dia assinalado, Ribbentrop chegou de avião a Moscou, acompanhado do respectivo séquito. Na capital da U R SS, avistou-se duas vêzes com Stalin. No fim dêsse mesmo dia, a U R SS e a Alemanha assinaram o pacto de não-agressão por um prazo de dez anos. Entrou em vigor logo que as­ sinado, embora se previsse a sua ratificação ulterior. O con­ teúdo do pacto pouco diferia dos pactos análogos concluídos pela U R SS com muitos outros países nos anos precedentes. Era a expressão da política tradicional da União Soviética, que se esforçava por aplicar o princípio leninista da coexistên­ cia pacífica. Ambas as partes se comprometiam a abster-se de tôda agressão entre si (art. 1 ), resolver só por meios pacíficos todos os litígios que pudessem entre elas surgir (art. 5 ), não participar de grupos hostis à outra parte (art. 4 ) e não apoiar a uma terceira potência, se alguma das par­ tes fôsse objeto de hostilidades por essa terceira potência
90 d b f r , Third Series, vol. V II, pág. 119 (Vejam-se mais detalhes nas págs. 189-190 do presente volum e).

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(art. 2 ) . O art. 3 previa que a Alemanha e a U R SS "con­ tinuariam em contato no futuro, para manter consultas, a fim de informar~se mutuamente das questões que afetassem os seus interêsses” . 91 _ Chamo a atenção para as palavras “consultas” e “infor­ mar-se”, sublinhadas por mim. Estas palavras, como todo o conteúdo do pacto .em geral, testemunham, de maneira indubitável, que o documento assinado a 23 de agôsto de 1939 era, unicamente, um pacto de não~agressão. Não era, de modo algum, aliança militar entre os dois países — como procuraram fazer crer, repetidas vêzes, os políticos e jor­ nalistas do Ocidente nem obrigava a U R S S a prestar al• > guma ajuda à Alemanha. Ao assinar o pacto, o govêrno so­ viético não se iludia, em absoluto, achando que, cedo ou tarde, Hitler violaria os compromissos nêle contidos. Entre­ tanto, julgava que o pacto permitiria à U R SS ganhar tem­ po para preparar-se melhor com vistas à guerra futura. Sa­ be-se que isso assegurou ao povo soviético quase dois anos mais de paz. Entretanto, o govêrno soviético não conseguiu só ga­ nhar tempo. Recebeu também do govêrno alemão a segu­ rança de que as operações militares não se transfeririam aos países bálticos. Na situação criada por causa da sabotagem de Chamberlain e Daladier, de um iado, e do “govêrno dos coronéis” de Varsóvia, de outro, o govêrno soviético não estava em condições de prestar ajuda à Polônia, tão cate­ goricamente rejeitada pelos “coronéis” . A única coisa que se podia fazer ainda era salvar da invasão alemã a Ucrânia Ocidental e a Bielo Rússia Ocidental. E foi o que fêz o go­ vêrno soviético. Em resumo, a U R SS obteve as seguintes vantagens do acôrdo com a Alemanha: Primeiro, frustrou-se a possibilidade de formar uma fren­ te única capitalista contra o povo soviético: mais ainda, fo­ ram firmadas as premissas para a criação ulterior da coli­ gação antihitlerista na qual as potências ocidentais nem se­ quer pensavam então. Só pensavam Chamberlain e Dala­ dier, àquele tempo, em empurrar, a todo custo, a Alemanha hitlerista à guerra contra a União Soviética.
91 Izvestia, 24 de agôsto de 1939.

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O pacto de não-agressão tornou impossível o desenca­ deamento da Segunda Guerra Mundial com agressão à União Soviética. A assinatura do pacto significou falência completa dessa vergonhosa estratégia de Munique. O fato desempenhou sem dúvida alguma, importante papel nos destinos da U R S S e de tôda a humanidade. Segundo, graças ao tratado com a Alemanha, desapa­ receu a ameaça de agressão à U R S S por parte do Japão, aliado da Alemanha no bloco anti-soviético. Se não tives­ se existido o pacto de não-agressão sovieto-alemão, a União Soviética poderia ter-se encontrado em situação difícil: ter de fazer a guerra em duas frentes, dado que, naquele mo­ mento, a agressão da Alemanha à U R SS , vinda do Oeste, implicaria a agressão do Japão a Este. Precisamente em agôsto de 1939, os combates junto ao rio Halhin-Gol atin­ giram o maior encarniçamento. O govêrno de Hiranuma se negava, teimosamente, a resolver o conflito por via pacífica e concentrava tropas na fronteira soviética, esperando que a Alemanha se lançasse à luta. Efitretanto, após assinado o pacto germano-soviético de não-agressão (23 de agôsto), caiu o govêrno de Hiranuma (28 de agôsto), e o govêrno de Abe, que lhe sucedeu, apressou-se a aceitar a solução pací­ fica do conflito militar. Portanto, a assinatura do tratado com a Alemanha teve como conseqüência imediata a extin­ ção da fogueira bélica acesa nas fronteiras orientais da U R SS. O govêrno soviético teve de considerar, como era na­ tural, que o acôrdo com a Alemanha podia ser utilizado (e o foi, realmente) para atiçar as paixões anti-soviéticas nos “países democráticos”: que, no estrangeiro, havia pessoas, inclusive não inimigas da U R SS, que não compreendiam (como ocorreu, na realidade) a justeza de seus atos. E , en­ tretanto, após sopesar os prós e os contras, o govêrno so­ viético chegou à conclusão de que os primeiros predomina­ vam, indubitàvelmente, sôbre os segundos. Daí por que as­ sinou o acôrdo com a Alemanha. Era a única saída, saída que nos foi imposta pela política estupidamente criminosa de Chamberlain e Daladier.

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Há mais outra acusação que gostam de lançar contra a U R SS os seus inimigos do estrangeiro: "A o assinar o acôrdo com a Alemanha — dizem — os senhores desen­ cadearam a Segunda Guerra Mundial” . Desprezíveis e ce­ gos caluniadores! Como se vê do exposto, a responsabili­ dade autêntica do desencadeamento da Segunda Guerra Mundial recai, por um>lado, sôbre Hitler e, por outro, sôbre Chamberlain e Daladier (sirvo-me dêsses nomes com sen­ tido sim bólico). Sim, sim, a grave responsabilidade de tôdas as calamidades que acarretou a Segunda Guerra Mundial recai sôbre os grupos políticos que se achavam no poder, na Inglaterra e na França, na segunda metade da década de 30; recai sôbre os grupos que, cegos pelo ódio de classe, aplicaram a política d e “apaziguamento” dos agressores e confiaram no desencadeamento de uma guerra de extermí­ nio recíproco entre a Alemanha e a U R S S . Foram, justamentè, êsses grupos que colocaram a U R S S à beira do cepo em que, entretanto, êles mesmos caíram, pois a agressão hi­ tlerista, na Segunda Guerra Mundial, não descarregou o seu primeiro golpe sôbre Moscou, mas sôbre Londres e Paris. Assim aconteceu porque a diplomacia soviética veio a ser mais inteligente que a anglo-francesa. M as não temos por que escusar-nos disso. Para rematar o meu relato, devo falar brevemente do triste fim que tiveram as malfadadas negociações tripartidas de 1939. Em 22 de agôsto, no dia seguinte àquele em que o go­ vêrno soviético adotara a decisão definitiva de concluir acôr­ do com a Alemanha, o general Doumenc recebeu de Paris uma comunicação urgente: o govêrno francês opina que, no momento de rebentar a guerra entre a Polônia e a Ale­ manha, deve-se conceder às tropas soviéticas o direito de entrar no território polonês. O govêrno francês opina. . . M as que opinava sôbre êste assunto o govêrno polonês? Pa­ ris guardou completo silêncio acêrca dessa importante ques­ tão. De Varsóvia, no entanto, continuavam chegando notí­ cias desagradáveis ao extremo. H oje sabemos, através dos documentos publicados pelo govêrno inglês, que Seeds, baseando-se nas instruções rece­ bidas pelo general Doumenc, em 2 2 de agôsto, perguntou a

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Londres: "Q s senhores estão de acôrdo?” M as Londres nada respondeu à pergunta do seu embaixador em M oscou. Strang (que regressara ao seu país no comêço de agôsto) escre­ veu de próprio punho, nesse mesmo telegrama de Seeds: “Foi impossível responder a êste telegrama porque não se adotou nenhuma decisão ” . 92 Até aí chegou a sabotagem do govêrno britânico! Ignorávamos, então, todos êsses pormenores, mas co­ nhecíamos o fato fundamental: que Londres não queria dar resposta à questão principal das negociações militares. E isso significava muitíssimo. Em tal situação, o chefe da delega­ ção soviética reuniu, em 2 1 de agôsto, as três missões mili­ tares e, como já disse, propôs suspender as reuniões.9 3 Era, simplesmente, uma forma diplomática de dizer: as negocia­ ções tripartidas faliram. As missões militares da Inglaterra e França, do mesmo modo que Seeds e Naggiar, compreenderam perfeitamente o sentido da declaração feita pela delegação soviética. E embora os chefes das missões e os embaixadores da Ingla­ terra e da França continuassem a se avistar e conversar, du­ rante os três ou quatro dias seguintes, com os Comissários do Povo, da Defesa e dos Negócios Estrangeiros da U R SS , já não puderam alterar a situação. Às missões não restava senão regressar aos seus países. Em entrevista publicada na imprensa soviética, em 27 de agôsto de 1939, o chefe da delegação militardaU R SS definiu do seguinte modo as causas da falência das nego­ ciações militares: “A missão militar soviética achava ue a U R SS , que não tem fronteira comum com o agressor, podia prestar aju­ da à França, à Inglaterra e à Polônia com a condição de permitir-se a passagem das suas tropas pelo território po­ lonês, já que não há outros caminhos para que as tropas so­ viéticas entrem em contato com as tropas do agressor. . . "Apesar de ser, absolutamente, evidente a justeza dessa posição da missão soviética, as missões militares inglêsa e
Third Series, v o l . V II, p á g . 1 1 9 . “Negociações das missões militares da u r s s , Inglaterra e França; em Moscou, em agôsto de 1939”, revista L a Vida Internacional, Mos­ cou, 1950, n.° 3, pág. 156.
82
dbfp,

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francesa não se puseram de acôrdo com ela e o govêrno po­ lonês declarou, abertamente, que não precisa, nem aceita ajuda militar da U R S S . . . Esta é a base das divergências. Êste é o pomo em.que se suspenderam as negociações” . Respondendo, mais adiante, à pergunta do jornalista se era exata a notícia da agência Reuter, segundo a qual o govêrno soviético suspendera as negociações tripartidas por ter assinado o acôrdo com a Alemanha, o chefe da delega­ ção soviética declarou: "A s negociações militares com a Inglaterra e a França não se suspenderam porque a U R S S tenha firmado pacto de não-agressão com a Alemanha; pelo contrário, a U R SS assinou o pacto de não-agressão com a Alemanha em con­ seqüência, entre outras coisas, de haverem atolado as ne­ gociações militares com a França e a Inglaterra, em virtude de divergências insuperáveis” . 84 Com isso se puseram todos os pontos nos ii.

C O N C LU SÃ O

De tudo que dissemos nas páginas precedentes dimanam numerosas conclusões. As mais importantes são: 1 . Nos anos de pré-guerra a que se referem essas re­ cordações (1932-1939), a União Soviética procurou, since­ ra e insistentemente, estabelecer as melhores relações com a Inglaterra. Assim o ditavam, de um lado, a sua política ge­ ral de paz e coexistência pacífica com os Estados de siste­ mas diferentes do existente na U R S S ; de outro, o cálculo .político concreto do govêrno soviético de erguer, conjunta94 Pravda, 27 de agôsto de 1939.

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mente com a Inglaterra e a França, barreira segura ante as potênciafs fascistas agressoras: Alemanha e Itália, na Europa. 2 . Entretanto, os bons propósitos da União Soviética não encontraram, lamentàvelmente, eco de simpatia na In­ glaterra. E claro que, no país, existiam não poucos elemen­ tos (operários, grupos consideráveis de intelectuais e os re­ presentantes mais perspicazes da burguesia) que simpatiza­ vam com a idéia de levantar barreira tripartida à agressão fascista, que ameaçava também a Inglaterra e as suas posi­ ções no mundo. Entretanto, no período descrito, o poder público encontrava-se firmemente nas mãos dos setores mais reacionários da burguesia inglêsa, cegos pelo ódio de classe à U R S S como país do socialismo. O centro político diri­ gente dêsses setores mais reacionários era chamado cam a­ rilha d e C liveden, que se reunia no salão de lady Astor e tinha por líder reconhecido Neville Chamberlain. Por causa da sua extremada hostilidade à União Soviética, a cam arilha d e C liveden era resolutamente contra a criação dè barreira tripartida para dafender dos agressores fascistas as posições britânicas, concebendo a idéia “feliz”, segundo ela, de em­ purrar a Alemanha contra a U R SS, com o propósito de im­ por à Europa, quando ambas as potências se esgotassem em dura guerra, uma paz lucrativa para a Grã-Bretanha. Essa estúpida e criminosa concepção foi-se fortalecendo, paulati­ namente, e alcançou o seu apogeu depois de 1937, qüando Neville Chamberlain passou a ser o Primeiro-Ministro da Inglaterra e Lord Halifax, Ministro das Relações Exteriores. Da citada concepção, em que se inspirava a cam arilha d e C li­ veden, dimanou a política de “apaziguamento” dos agresso­ res; em primeiro lugar, de Hitler. Na espectativa do êxito dessa política (êxito que não se chegou a lograr), a In­ glaterra e a França, com o apoio de certas esferas dos E s­ tados Unidos, sacrificaram, em 1938 e 1939, a Áustria, a Espanha e a Tcheco-Eslováquia. 3 . Apesar dessas condições, tão desfavoráveis, a União Soviética prosseguiu nos esforços de estreitar as relações com a Inglaterra e, em 1939, para levantar barreira ante a Ale­ manha e a Itália, sob a forma de pacto tripartido de assis­ tência mútua, no qual via a melhor garantia contra a agres­

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são fascista. De fato, a iniciadora dêsse pacto foi, precisa­ mente, a U R S S . Sob a pressão de vastos setores da opi­ nião pública britânica e de alguns Estados estrangeiros que temiam, de maneira especial, Hitler e Mussolíni, a camarilha d e C liveden, inimiga acérrima de semelhantes planos, viu-se obrigada a manobrar e a aparentar, de quando em quando, estar disposta a criar a . barreira tripartida contra os agres­ sores. Essas manobras alcançaram a sua maior amplitude em 1939, depois que Hitler destruiu o acôrdo de Munique. Essa foi a origem da concessãb pela Inglaterra (e França), em março e abril de 1939, de garantias unilaterais à Polônia, Romênia e Grécia para o caso dêsses países se verem ataca­ dos pelos Estados fascistas. Essa foi também a origem de que o govêrno de Chamberlain (assim como o de Daladier) considerasse necessário participar das negociações tripar­ tidas para a assinatura de um pacto de assistência mútua com a U R S S . Mas foram negociações entabuladas contra a sua vontade, à fôrça e com o propósito de enganar as mas­ sas. Por isso, reduziram-se, de fato, à mais pura sabotagem, da qual tão abundantes exemplos citamos nas páginas ante­ riores. O que mais preocupava Chamberlain (e Daladier) não era concluir o quanto antes o pacto tripartido, mas en­ contrar a maneira de fugir à sua assinatura. Essa linha de conduta do govêrno britânico (e do francês) teve como con­ seqüência inevitável que as conversações tripartidas, defini­ tivamente, fracassassem em agôsto de 1939. Ficou inteira­ mente esclarecido que, por causa da sabotagem de Cham­ berlain e Daladier (e só por causa dêle), era impossível erguer uma barreira tripartida verdadeiramente eficaz con­ tra os agressores fascistas. 4. Tendo falhado tôdas as tentativas de negociações contra a nossa vontade, a melhor forma de luta contra a agressão das potências fascistas, a União Soviética teve de pensar em outros meios para garantir a sua segurança, em­ bora de forma apenas temporária e precária. Nos primeiros meses que se seguiram à Revolução de outubro, o grande Lênin deu exemplo genial de manobra na palestra interna­ cional. Com o fim de assegurar à Rússia Soviética, recémnascida, uma “trégua” — que era o de que mais precisava, então — Lênin propôs, a princípio, a todos os países beli­

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gerantes a assinatura de uma paz democrática geral, sem anexações, nem tributos, vendo nisso a forma mais desejá­ vel do povo soviético obter uma "trégua”, capaz até de con­ verter-se em longo período de paz. Entretanto, quando fi­ cou claro que o apêlo do govêrno soviético caíra em terre­ no pedregoso, Lênin decidiu fazer a paz em separado com a coligação alemã. Era, como dizia Lênin, paz "grosseira”, extremamente desvantajosa para a Rússia Soviéticà; mas, em todo caso, proporcionava a esta uma "trégua” temporá­ ria e, como demonstraram os acontecimentos ulteriores, se justificava plenamente, do ponto de vista histórico. Recor­ dando êsse magnífico exemplo político, o govêrno soviético resolveu segui-lo em 1939. É claro que a situação e as con­ dições eram, àquela altura, um tanto diversas das de 2 2 anos antes (sobretudo porque, desde então, havia crescido, em imenso grau, o poderio do povo soviético); mas, não obs­ tante, na situação mundial de 1939, concorriam não poucos elementos que a tornavam semelhante à de 1917-1918. Era necessário impedir, a todo custo, a criação de uma frente úni­ ca capitalista contra a U R S S ; era preciso conjurar ou, pelo menos, retardar o mais possível a agressão das potências fascistas à União Soviética. Assim o ditavam o senso ele­ mentar de autoconservação, próprio de todo Estado, qual­ quer que seja a sua natureza. Assim o ditavam também con­ siderações de caráter mais geral. Porque, no período que analisamos, a União Soviética não era, simplesmente, uma grande potência de nosso planêta. A União Soviética re­ presentava algo muito mais importante: era, então, o único país d a Terra que constituía a pátria d o socialism o e lev a­ va em si o germ e d o futuro comunista d e tôda a humani­ d a d e . Sôbre os ombros dos soviéticos daquela época, em particular sôbre os ombros do govêrno soviético, recaía enor­ me responsabilidade pela manutenção da integridade e inde­ pendência de um país de tão excepcional importância histó­ rica. Essa responsabilidade grandiosa exigia também audá­ cia, flexibilidade e decisão grandiosas. 5. Em meados de agôsto de 1939, o govêrno chegou, defintivamente, à conclusão de que a política de Chamber­ lain e Daladier excluía a possibilidade de concluir um pacto tripartido eficaz. Por isso, resolveu mudar de rumo polí­

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tico; cessar as negociações com a Inglaterra e a França, que careciam de sentido, e concluir um acôrdo com a Alemanha. Os nossos adversários do estrangeiro puseram em circula­ ção a caluniosa lenda de que o govêrno soviético jogoü com pau de dois bicos durante a primavera e o verão de 1939; manteve negociações públicas com a Inglaterra e a França acêrca do pacto triparíido de assistência mútua contra os agressores e, por trás delas, procurou, em segrêdo, fazer acôrdo amistoso com a Alemanha e, em última instância, pre­ feriu a Alemanha às “democracias ocidentais” . Com o pro­ pósito de demonstrar essas balelas pérfidas, o Departamen­ to de Estado dos Estados Unidos chegou inclusive a publi­ car, em 1948, uma compilação, extremamente tendenciosa, de documentos diplomáticos alemães dos quais se apoderaram os norte-americanos, na Alemanha. Entretanto, a análise circunstanciada dos citados documentos (correspondentes ao período das negociações tripartidas) que fizemos nas pági­ nas precedentes prova, sem dúvida alguma, a completa fal­ sidade de semelhantes afirmações. Pelo contrário, até mea­ dos de agôsto de 1939, apesar da flagrante sabotagem das negociações tripartidas pelos governos da Inglaterra e da França, a U R SS foi absolutamente leal aos seus companhei­ ros de negociações e rejeitou tôdas as tentativas da Alema­ nha (não poucas, certamente) de abrir uma brecha entre a U R SS e as “democracias ocidentais” . Foi quando, em mea­ dos de agôsto, o govêrno soviético chegou à conclusão de que as negociações tripartidas careciam de tôda perspectiva, re­ solveu mudar o rumo da sua política e, com efeito, mudou-o. O govêrno soviético exerceu, nesse caso, legítimo direito de qualquer govêrno de substituir uma linha política por outra, se as circunstâncias a tanto o obrigam. Nesse caso concre­ to, a mudança de rumo era mais que justificada, pois fôra imposta ao govêrno soviético pela estúpida e criminosa con­ duta de Chamberlain e Daladier. 6 . O pacto germano-soviético de 23 de agôsto de 1939 não foi, naturalmente, um ato perfeito (o próprio govêrno soviético jamais o considerou assim ); mas, em todo o caso, evitou a possibilidade de formar-se uma frente única capi­ talista contra a U R SS, livrou 13 milhões de ucranianos e bielo-russos ocidentais do terrível destino de se transforma­

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rem em escravos do hitlerismo, assegurou a reunificação na­ cional de todos os ucranianos e bielo-russos em uma só fa­ mília, que marcha, ràpidamente, pela senda do desenvolvi­ mento socialista; e avançou as fronteiras soviéticas várias centenas de quilômetros na direção ocidental, fato que teve grande importância estratégica. Conforme mostraram os acontecimentos ulteriores, o referido acôrdo atrasou cêrca de dois anos a agressão da Alemanha à U R SS , facilitou, em larga medida, a defesa dos centros vitais do país e a pas­ sagem das fôrças armadas soviéticas à vitoriosa contra-ofen­ siva, tornou possível a derrota da Alemanha hitlerista e criou as premissas para um restabelecimento mais rápido da U R SS em suas fronteiras atuais. Como remate, quisera reproduzir aqui dois fragmentos de manifestações de dois homens que pertencem a campos opostos. Em 27 de novembro de 1958, Nikita Kruchov enviou a Dwight Eisenhower, então Presidente dos Estados Unidos, extensa nota, na qual se referia, de passagem, à situação mundial existente às vésperas da Segunda Guerra Mundial: "Sabe-se que — dizia nessa nota o chefe do govêrno soviético ■ — os Estados Unidos, assim como a Grã-Breta­ nha e a França, não chegaram, então, sequer à conclusão de que era necessário colaborar com a União Soviética para fa­ zer frente à agressão hitlerista, apesar de o govêrno sovié­ tico ter-se declarado constantemente disposto a isso. Nas capitais dos Estados ocidentais prevaleceram, durante longo tempo, as aspirações opostas. . . Só quando a Alemanha fascista, após deitar por terra os cálculos míopes dos inspiradores de Munique, voltou-se contra as potências ocidentais, só quando o exército hitle­ rista iniciou o seu avanço para o Ocidente, esmagando a D i­ namarca, a Noruega, a Bélgica e a Tolanda e precipitando-se sôbre a França, os governos dos Estados Unidos e da GrãBretanha não tiveram outro remédio senão reconhecer os seus erros de cálculo e trataram de organizar, conjuntamen­ te com a União Soviética, a resistência à Alemanha e à Itá­ lia fascistas e ao Japão. Se a política das potências ociden­ tais tivesse sido mais perspicaz, essa colaboração da União Soviética, Estados Unidos, Grã-Bretanha e França poderia

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ter-se estabelecido muito antes, já nos primeiros anos que seguiram à tomada do poder por Hitler na Alemanha e então não teria havido ocupação d a F ran ça, nem D unquerque, nem P earl H arbor (grifo do autor ) . 85 Então, teria sido possí­ vel preservar os milhões de vidas dados pelos povos da União Soviética, Polônia, Iugoslávia, Inglaterra, Tcheco-Eslováquia Estados Unidos, Grécia, Noruega e outros países para dominar os agressores. W . Churchill diz, nas suas memórias de guerra, refe­ rindo-se às negociações tripartidas de 1939: "Não pode caber dúvida, inclusive à luz da perspectiva histórica, de que a Grã-Bretanha e a França deveriam ter aceitado a proposta russa. . . M as M r. Chamberlain e o F o ­ reign O ffice pareciam enfeitiçados pelo enigma da esfinge. Quando os acontecimentos se desenrolam com tal rapidez e abundância como aconteceu àquele tempo, o mais acertado é dar, conseqüentemente, um passo atrás do outro. A aliança da Inglaterra, França e Rússia, em 1939, teria despertado o mais profundo alarma no coração da Alemanha, e ninguém p o d e provar qu e a guerra não teria sido, então, evitada (gri­ fo do a u to r). O passo seguinte poderia ter sido dado exis­ tindo superioridade de fôrças a favor dos aliados. A diplo­ macia teria reconquistado a iniciativa. Hitler não poderia ter ousado nem atirar-se a uma guerra em duas frentes — que com tanto energia êle mesmo sempre condenou — nem permitir malogro. É pena não se haver colocado em tão di­ fícil situação, que poderia ter-lhe custado a v id a .. . Se, por exemplo, M r. Chamberlain houvesse dito, ao receber a pro­ posta russa: "Sim, unamo-nos os três e torçamos o pescoço a Hitler”, ou outras palavras no mesmo estilo, o Parlamento as .teria aprovado, Stalin o teria compreendido e a história poderia haver seguido curso d ife r e n te .. . Em vez disso, con­ tinuou ( em resposta à proposta russa. — I . M .) longo si­ lêncio e, enquanto isso, se prepararam diversas semimedidas e compromissos artificiosos” . 96 Apesar de tôdas as diferenças existentes entre os auto­ res das citações que acabo de reproduzir (e não julgo ne­ cessário demonstrar que são muito grandes), ambos coincifs 96 Pravda, 28 de novembro de 1958. W . Churchill, Second W orld War, vol. I, págs. 325-328.

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dem na opinião de que a Segunda Guerra Mundial poderia ter sido conjurada se a U R SS , a Inglaterra, a França e os Estados Unidos, (pelo menos, a U R SS , a Inglaterra e a França) houvessem criado, com rapidez, firmeza e decisão, uma barreira eficaz contra a agressão das potências fascistas. Quem impediu a criação dessa barreira? A União So­ viética? Não, a União Soviética não tem culpa disso! Pelo contrário, a União Soviética fêz tudo o que era humana­ mente possível para erguer barreira à agressão. Tudo o que dissemos neste livro não deixa a menor dúvida sôbre isso. Quem impediu, efetivamente, a criação da barreira triparti­ da foram a cam arilha d e C liveden, na Inglaterra, e as "duzentas famílias”, na França. E ao falar-se nas pessoas que ajudaram Hitler, que encarnaram em maior grau essas fôr­ ças reacionárias e aplicaram com a maior atividade a polí­ tica que lhes convinha, ter-se-á de mencionar, principalmen­ te, Neville Chamberlain e Daladier. É difícil sobrestimar tôda a gravidade de sua responsabilidade histórica pelo de­ sencadeamento da Segunda Guerra Mundial e pelas inume­ ráveis vítimas, perdas e sofrimentos que acarretou a todo o gênero humano.

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E s t a o b r a f o i e x e c u t a d a n a s o f ic in a s C o m p a n h ia G r á f ic a L U X , r u a F r e i C a n e c a , 224 — Rio d e J a n e ir o , p a r a E d it o r a C iv il iz a ç ã o B r a s il e ir a S . A .
da

B R A S I L E I R A

Quem Ajudou a Hitler
livro escrito pelo diplomata

IVAN

MAISKI,

CIVILIZAÇÃO
da

em baixador em Londres de 1932 a 1943 e participante da fa ­ mosa Conferência de Ialta, que reuniu os Q u a im G ran d es, explica as razões que levaram a U R SS a firm ar o célebre e até hoje controvertido tratado de não agressão germ ano-soviético. São personagens destas empolgantes e reveladoras memórias, Chamberlain, Lord Halifax, M axim Litvínov, W inston ChurchilI, Lloyd George, Ànthony Eden, entre outros homens que tiveram em suas mãos a terrível responsabilidade do destino humano numa hora de mêdo, ameaça e perigo. Depoimento sereno, objetivo, vivo e dram ático, a um só tempo, esta obra lança novas luzes sôbre o discutido comportamento da União Soviética em grave momento de sua História e da HL.tória de todos os povos.

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Comunidade Josef Stalin
h ttp :/ / com unidadestalin.blogspot.com .br h ttp :/ / comunidadestalin. org

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