Você está na página 1de 4

24 DE SETEMBRO

26. NOSSA SENHORA DAS MERCÊS


– A nossa Mãe Santa Maria, eficaz intercessora para nos livrar de todos os apegos.

– As suas mãos estão cheias de graças e dons.

– Recorrer sempre a Ela.

Esta festa comemora a fundação da Ordem dos Mercedários, dedicada nas


suas origens à redenção dos cativos. Conta uma piedosa tradição que a
Santíssima Virgem apareceu certa noite ao Rei Jaime I de Aragão, a São
Raimundo de Peñafort e a São Pedro Nolasco, pedindo-lhes que instituíssem
uma Ordem para libertar os cristãos que tinham caído em poder dos
muçulmanos. Para recordar o episódio, criou-se esta festa, que o Papa
Inocêncio XII estendeu a toda a cristandade no século XVII. Actualmente, é
celebrada em alguns lugares. Tem uma Missa própria no volume de Missas da
Virgem Maria, publicado por João Paulo II.

I. A MINHA ALMA glorifica o Senhor porque Ele auxiliou Israel,


seu servo, lembrando-se da sua misericórdia, conforme tinha
prometido aos nossos pais1.

A Santíssima Virgem é venerada sob o título de Nossa


Senhora das Mercês em muitos lugares da Espanha e da
América Latina. Sob essa invocação, nasceu uma Ordem
religiosa que teve como missão resgatar os cativos cristãos em
poder dos muçulmanos. “Todos os símbolos das imagens de
Nossa Senhora das Mercês recordam-nos a sua função
libertadora: cadeias quebradas e grilhões abertos, como os seus
braços e as suas mãos estendidas oferecendo a liberdade [...], o
seu filho Redentor”2. Actualmente, a Ordem dedica os seus
esforços principalmente à libertação das cadeias do pecado,
mais fortes do que a pior das prisões.

Nesta festa da nossa Mãe, devemos lembrar-nos dos nossos


irmãos que são marginalizados de diferentes maneiras por
causa da sua fé, ou que sofrem num ambiente hostil à sua
conduta e princípios cristãos. Trata-se por vezes de uma
perseguição sem sangue, a da calúnia e da maledicência, que
os cristãos já tiveram ocasião de experimentar desde as origens
da Igreja e que não é desconhecida nos nossos dias, mesmo em
países de forte tradição cristã.

Deus também sofre nos nossos dias, nos seus membros.


Naturalmente, “não chora nos céus, onde habita numa luz
inacessível e onde goza eternamente de uma felicidade infinita.
Deus chora na terra. As lágrimas deslizam sem cessar pela face
divina de Jesus, que, mesmo sendo um com o Pai celestial,
sobrevive e sofre aqui na terra [...]. E as lágrimas de Cristo são
lágrimas de Deus.

“Deste modo, Deus chora em todos os aflitos, em todos os que


sofrem, em todos os que choram no nosso tempo. Não podemos
amá-lo se não enxugarmos as suas lágrimas”3. A paixão de
Cristo continua de certo modo nos nossos dias. Ele continua a
passar com a Cruz às costas pelas nossas ruas e praças. E nós
não podemos ficar indiferentes, como meros espectadores.

A primeira Leitura da Missa4 fala-nos de Judite, aquela mulher


que, com grande valentia, libertou o Povo eleito do assédio de
Holofernes. Assim cantavam todos, cheios de alegria: Tu és a
glória de Jerusalém; tu, a alegria de Israel; tu, a honra do nosso
povo. Porque o teu coração se encheu de coragem, ó benfeitora
de Israel... A Igreja aplica à Virgem das Mercês este cântico de
júbilo, pois Ela é a nova Judite, que com o seu fiat trouxe a
salvação ao mundo e cooperou de modo único e singular na
obra da nossa salvação. Associada à sua Paixão junto da Cruz,
é agora elevada à cidade celeste, advogada nossa e
dispensadora dos tesouros da redenção5. Recorremos hoje à
Virgem como eficaz intercessora, para que induza os nossos
amigos, parentes ou colegas que se encontram afastados do
seu Filho a aproximar-se d’Ele, especialmente por meio do
sacramento da Penitência, e para que fortaleça e alivie aqueles
que de alguma forma sofrem perseguição por serem fiéis à fé.

Recorremos a Ela para pedir-lhe também pelas nossas


pequenas ou grandes necessidades. A nossa Mãe do Céu
sempre se distinguiu pela sua generosidade em conceder
mercês.

II. O EVANGELHO DA MISSA relata-nos o momento em que o


Senhor nos deu a sua Mãe como Mãe nossa: Jesus, pois, tendo
visto a sua Mãe, e perto dela o discípulo que ele amava, disse à
sua Mãe: Mulher, eis aí o teu filho. Depois, disse ao discípulo:
Eis aí a tua Mãe. E, dessa hora em diante, o discípulo a teve em
sua casa6.

O Senhor deu-nos Maria como Mãe amantíssima7. Ela cuida


sempre com afecto maternal dos irmãos do seu Filho que se
encontram em perigo e ansiedade, para que, quebradas as
cadeias de toda a opressão, alcancem a plena liberdade do
corpo e do espírito8. As suas mãos estão sempre cheias de
graças e de dons – de mercês –, para derramá-los sobre os seus
filhos. Sempre que nos sintamos preocupados ou aflitos,
recorramos como que por instinto à nossa Mãe do Céu; e
façamo-lo especialmente se em algum momento se apresenta
uma complicação interior – esses nós e enredos que o demónio
tende a armar nas almas, que separam dos outros e dificultam o
caminho que conduz a Deus. Ela é o Auxílio dos cristãos, como
dizemos na Ladainha, nosso auxílio e socorro nessa longa
navegação que é a vida, na qual encontramos ventos e
tempestades.

Nós, os cristãos, temos mil maneiras de recorrer a Nossa


Senhora: olhando com devoção para uma imagem que tenhamos
no quarto, no meio da rua, quando se apresenta uma tentação,
com a recitação do terço... Um dos mais antigos testemunhos
da devoção filial à Virgem é a oração Sub tuum praesidium
confugimus... “À vossa protecção nos acolhemos, Santa Mãe de
Deus, não desprezeis as súplicas que em nossas necessidades
Vos dirigimos, mas livrai-nos sempre de todos os perigos,
Virgem gloriosa e bendita”9, e a oração Memorare ou Lembrai-
vos, que podemos rezar todos os dias pela pessoa da família que
mais precise de ajuda naquele momento.

Dizemos à nossa Mãe, com versos de um poeta que se lêem


num nicho de uma rua da cidade de Barcelona, da qual é
Padroeira: Virgem e Mãe, / nosso consolo, / fazei-nos encontrar o
bom caminho. / Eu sou homem, sou vosso filho. / Vós sois a
estrela, eu o peregrino. Tu iluminarás sempre o meu caminho.

III. MULHER, EIS AÍ O TEU FILHO. Ao aceitar o Apóstolo João


como filho, a Virgem mostra o seu incomparável amor de Mãe.
“E naquele homem – orava o Papa João Paulo II – foi-te confiado
cada homem, todos os homens. E Tu, que no momento da
Anunciação, naquelas simples palavras: Eis a escrava do
Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1, 38),
concentraste todo o programa da tua vida, abraças a todos,
procuras maternalmente a todos [...]. Perseveras de maneira
admirável no mistério de Cristo, teu Filho unigénito, porque
estás sempre onde quer que estejam os homens seus irmãos,
onde quer que esteja a Igreja”10. As suas mãos encontram-se
sempre cheias de graças, sempre dispostas a derramá-las sobre
os homens.
São João recebeu Maria em sua casa e cuidou dela com
extrema delicadeza até que subiu aos céus em corpo e alma: E,
dessa hora em diante, o discípulo a teve em sua casa. “Os
autores espirituais viram nestas palavras do Santo Evangelho
um convite dirigido a todos os cristãos para que todos saibamos
também introduzir Maria em nossas vidas. Em certo sentido, é
um esclarecimento quase supérfluo, porque Maria quer sem
dúvida que a invoquemos, que nos aproximemos d’Ela com
confiança, que recorramos à sua maternidade, pedindo-lhe que
se manifeste como nossa Mãe”11.

Mostra que és Mãe! Tantas vezes lho temos pedido! E Ela


jamais deixou de escutar-nos. Não nos esqueçamos nunca de
que a presença da Virgem na Igreja, e portanto na vida de cada
um, é sempre “uma presença materna”12, que tende a facilitar-
nos o caminho, a livrar-nos dos extravios – pequenos ou grandes
– a que nos conduz a nossa torpeza. O que seria de nós sem os
seus desvelos maternais! Procuremos ser bons filhos.

Nossa Senhora está sempre atenta às necessidades de cada


um dos que se confiam à sua intercessão. E o poeta catalão
prossegue os seus versos: Por que nos olhas, Virgem Santa, /
com esses olhos tão abertos? / Cria sempre na nossa alma / um
santo estremecimento! / Que os milagres de outrora / se repitam
hoje em dia, / livra-nos do pecado / e de uma vil covardia!

(1) Lc 1, 46.54-55; Antífona de entrada da Missa do dia 24 de setembro; (2) A.


Vázquez, Santa Maria de la Merced, Madrid, 1988, pág. 86; (3) W. van Straten,
Dios llora en la tierra, BAC, Madrid, 1981, pág. 7-8; (4) Jud 15, 8-10; 16, 13-14;
(5) Missas da Virgem Maria; (6) Jo 19, 26-27; (7) Oração depois da Comunhão;
(8) cfr. Prefácio da Missa de Nossa Senhora das Mercês; (9) A. G. Hamman,
Oraciones de los primeros cristianos, Rialp, Madrid, 1956; (10) João Paulo II,
Homilia na Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe, 27-I-1979; (11)
Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 140; (12) cfr. João Paulo II, Enc.
Redemptoris Mater, 25-III-1987, 24.

(Fonte: Website de Francisco Fernández Carvajal AQUI)