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RENÉ DESCARTES

- o grande racionalista pergunta:


- o que posso saber? –1

*1596 – França
+1650 – Suécia

Não se pode dar férias para a Razão!


Você tem certeza que recebeu sua porção de Razão?

Quando a autoridade da Igreja se enfraqueceu, muitos passaram a


acreditar que o mundo poderia ser conhecido apenas pelo uso da
Razão.
Mas, como o homem já havia se enganado muitas vezes, isso levava
à dúvida e era preciso assentar seu conhecimento em base sólida,
inquestionável, como uma primeira verdade da qual fosse possível
deduzir todo o restante de uma forma lógica e segura.

1
Os pré-socráticos perguntaram o que é o mundo? Sócrates perguntou como devo viver? Descartes
perguntou o que posso saber? A filosofia deixou de ser “ontologia” e tornou-se “gnosiologia”. E a
questão de Descartes durou três séculos na filosofia. Agostinho também diz se duvido, existo (si fallor
sum). A dúvida de Agostinho leva até Deus, o “cogito” de Descartes revela o homem.
1
Texto elaborado pelo Prof. João Virgílio Tagliavini
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1. Biografia

1596 – Descartes nasce em La Haye2, na França


1606 – Entra para o colégio Jesuíta de La Flèche
1616 - Licenciou-se em Direito em Poitiers
1618 – Descartes vai para a Holanda (onde havia mais
liberdade) – lá ele inicia sua instrução militar sob a
direção de Maurício de Nassau.
1619 – Vai para a Alemanha
1622 – Volta à França
1628 – Escreve Regras para a direção do espírito.
Passa a viver na Holanda.
1633 – Galileu é condenado pela inquisição
1634 – Temendo o que aconteceu com Galileu e não querendo
se indispor com a Igreja (até por causa de sua
profunda fé – foi formado pelos jesuítas), renuncia à
publicação de seu Tratado do Mundo.
1637 – Publica o Discurso do método (escrito em Francês e
não em latim)
1641 – Publica Meditações.
1649 – Parte para a Suécia, a convite da rainha Cristina.
1650 – Morre em Estocolmo, de pneumonia.

2. Grandes questões da sua vida e do seu pensamento

Surpreendi-me com o grande número de falsidades


que aceitara como verdades em minha infância.3

2.1. Observando o mundo com o uso dos sentidos: a fachada da mesma


igreja, com luzes diferentes, parece diferente cada vez que a contemplo.
Olho um galho de árvore submerso na água: ele parece torto, mas
quando o retiro, vejo-o reto. Os sentidos enganam. Meus sonhos
também me enganam. Será que o conhecimento que temos até hoje não
é feito de sonhos?

2.2. Toda a ciência tem que partir de uma certeza. E sobre tal certeza pode-
se construir o conhecimento por deduções lógicas. O ponto de partida
deve ser simples e indubitável, como na matemática, por exemplo: a

2
Hoje chama-se Haye-Descartes
3
Repetindo Cícero, Descartes diz que seria difícil imaginar algo tão estranho e incrível que não tenha
sido dito por algum filósofo. Assim começa Descartes na primeira meditação. Pode-se comparar o espanto
de Descartes com a situação da adolescente que descobre que é filha adotiva: sua mãe é sua tia, seu pai é
seu tio, aquele tio que a trata tão bem é seu pai, uma das avós não é sua avó, em compensação, ganha
outros avós e irmãos, seus irmãos são primos e sua mãe é sua tia que está no cemitério (morreu no seu
parto). Até então todo seu conhecimento se assentava na crença na palavra dos mais velhos. Agora ela
percebe que terá que descobrir tudo por si e reorganizar o seu mundo, a partir do nada.
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menor distância entre dois pontos é uma linha reta. Descartes se propõe
a introduzir as certezas da lógica e da matemática na filosofia.

2.3. Minha única certeza: se sonho, tenho dúvidas etc. é porque penso e, se
penso4, existo: cogito, ergo sum.

2.4. Duas preocupações de Descartes: respeito pelas idéias claras e distintas


e preocupação com o homem.

2.5. Ainda o conflito entre ciência e fé: Descartes está para publicar o tratado
do Mundo5, quando recebe a notícia da condenação de Galileu. Descartes
desiste da publicação, com a seguinte justificativa: Galileu deve ter
querido afirmar o Movimento da Terra que, bem sei, já foi outrora
censurado por alguns cardeais. Mas pensei ter ouvido que, depois do que
se deu, não mais se deixou de ensinar isso, e até em Roma. Confesso
que, se esse movimento é falso, todos os fundamentos de minha
filosofia também o são, pois aquele se demonstra, evidentemente, por
estes. E está de tal maneira ligado com todas as partes do meu Tratado,
que não o poderia daí destacar sem tornar o restante completamente
defeituoso. Mas como não desejo, por nada deste mundo, que de mim
se origine um discurso em que se encontre a menor palavra que possa
ser desaprovada pela Igreja, desse modo prefiro suprimi-lo do que fazer
com que apareça estropiado...6 Será que ele teve medo ou simplesmente
queria ficar fora da polêmica para preservar sua tão querida paz de
espírito para continuar pesquisando?

3. Discurso do método – é o prefácio do pensamento moderno7

Divide-se em seis partes e


é escrito após a desistência de publicar o
Tratado do mundo.

1ª parte: diversas considerações relativas à ciência. A razão é igual para todos


e, com método, todos podem chegar à verdade8. Decepcionado com o
que está nos livros, Descartes põe-se a viajar para conhecer o mundo.
Depois disso aplica-se ao método para se conhecer com certeza. Qual
é esse método?

4
Pensamento para Descartes são todas as operações da vontade, do intelecto, da imaginação e dos
sentidos. Como Arquimedes pedia uma alavanca para mover o mundo, essa certeza é o início de tudo. É
a res cogitans, sem cortes entre pensamento e ser.
5
Esse Tratado do mundo só foi publicado postumamente, em 1664.
6
Trecho que carta enviada a Mersenne em fins de novembro de 1634. In Discurso do método, Ediouro,
23.
7
Com a condenação da tese de Galileu como contrária à Escritura (bíblia), Descartes sentiu a urgente
necessidade de enfrentar o problema da objetividade da razão e da autonomia da ciência em relação ao
Deus onipotente. Assim, construiu o seu método. O Discurso do método é uma síntese das Regras para a
orientação do espírito que analisaremos adiante. Mais do que preocupar-se com as coisas iluminadas (as
diversas ciências, é preciso preocupar-se com o SOL (a razão), que deve emergir, impor a sua lógica e
fazer respeitar as suas exigências.
8
Aqui, eu tenho vontade de perguntar: Você deu férias para a sua razão?
3
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2ª parte: principais regras do método: primeiro, isolado do mundo, Descartes
esforça-se para se desfazer das opiniões que lhe tinham ensinado e
decide seguir apenas sua razão. Com isso, encontrou

quatro preceitos:

1. Evidência, obtida pela intuição. Aceitar só o que é evidente


como verdadeiro9.
Evitar a precipitação e a prevenção.
Aceitar apenas os juízos que se apresentam de forma clara e
distinta ao espírito, de modo a não ser possível a dúvida a respeito
deles;

2. Análise que chega ao mais simples. Dividir as dificuldades que


teria que examinar em tantas parcelas quantas pudessem ser e
fossem exigidas para melhor compreendê-las;
3. Síntese rumo ao absoluto. É a reconstrução da cadeia dos
conhecimentos, tomados no seu conjunto. Conduzir os
pensamentos por ordem, a partir dos objetos mais simples e mais
fáceis de serem conhecidos, para subir, pouco a pouco, como por
degraus, até o conhecimento dos mais compostos, e supondo
mesmo certa ordem entre os que não se precedem naturalmente
uns aos outros;
4. Fazer enumerações tão completas e revisões tão gerais que
pudesse estar seguro de nada haver omitido;

3ª parte: regras da moral provisória, enquanto outra, baseada na ciência, não vier
a substituí-la:

1. Obedecer às leis e aos costumes de nosso país, guardando a


religião em que nos instruíram durante a infância, e governar-nos
segundo as opiniões mais moderadas dos homens mais sensatos
entre os quais vivemos;
2. sermos o mais firme que pudermos em nossas ações; e
seguirmos, com constância, as opiniões pelas quais nos decidimos.
Seguir sempre no mesmo rumo, como numa floresta, para não se
perder;
3. procurar vencer-nos a nós mesmos, modificando nossos desejos
do que vencer o sorte e a ordem do mundo;
4. a melhor ocupação do homem: uso da Razão.

4ª parte: expõe os lineamentos de sua metafísica: não confia nos sentidos e coloca
tudo em dúvida. É a dúvida metódica cartesiana. Aquele que duvida,
pensa. O primeiro princípio que a razão estabelece é penso, logo
existo. Torna-se mais fácil conhecer a alma do que o corpo. A partir da
idéia de perfeição, Descartes afirma a existência de Deus, o único que
poderia nos ter dado essa idéia. Só depois disso é que ele parte para
conhecer o mundo.

5ª parte: estuda a ordem das questões da física: é um resumo do Tratado do


mundo. “Descartes admite que a matéria foi criada por Deus. A seguir,
partindo da idéia de perfeição de Deus, deduz as leis do movimento e,

9
Por exemplo, a extensão, no mundo material (res extensa). Cor, peso, tamanho etc., não são evidentes e
distintos por si. Podem nos enganar.
4
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sendo dados a matéria e o movimento – sim invocar a intervenção de
qualquer outro princípio – procura explicar como se formaram os seres.
Graças a essas leis do movimento, formam-se, a partir da matéria, os
céus, a Terra, o Sol. E, deste modo, ainda dentro de uma pura explicação
mecânica, forma-se a água, o ar, assim como todo os corpos que
existem na Terra.”10
Tudo se explica a partir de um jogo mecânico, tudo se passa
automaticamente.

O relógio, o homem, o animal são máquinas11.


O MUNDO É UMA MÁQUINA.12
Tanto o corpo como os organismos animais
são máquinas e, portanto, funcionam com base
em princípios que regulam seus movimentos
e suas relações.13
4. Alguns pontos de uma nova filosofia

10
In Discurso do método, Ediouro, 29.
11
“O mundo é um imenso relógio mecânico, composto de inúmeras rodas dentadas: os vórtices (turbilhão
que se forma, sob determinadas condições, em meio a um fluido em escoamento) fazem com que se
engrenem, de modo a impelirem-se uma à outra para adiante” (Popper). In Reale, 378.
12
As figuras acima foram extraídas do seguinte endereço na INTERNET:
http://www.france.diplomatie.fr/culture/france/biblio/folio/descartes/corps.html, no dia 26 de agosto de
2000.
13
REALE, História da filosofia, vol II, 379.
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4.1. Uma nova ciência. Ex novo, Descartes procura construir uma
nova ciência, como descobridor, explorador ansioso. Seu estilo é
fácil, dirigido aos seus alunos.
Para Descartes, toda a filosofia é como uma árvore, cujas raízes
são a metafísica, o tronco é a física e os ramos que procedem do
tronco são todas as outras ciências.
Leibniz afirma: Quem ler Galileu e Descartes se encontrará em
melhores condições de descobrir a verdade do que se houvesse
explorado todo o gênero dos autores comuns.14
Para ele, a lógica dos escolásticos, à base de silogismos, é
perfeita, mas não permite conhecer nada de novo.
Se o cogito é verdadeiro, pode a razão sair de si e conhecer o
mundo?

4.2. A existência de Deus. Há uma idéia inata de Deus, da


perfeição. Essa idéia, se é inata, é efeito. Se é efeito, a causa
existe. Deus existe.
A existência é parte integrante da essência, de modo que não é
possível ter a idéia (essência) de Deus sem simultaneamente
admitir a sua existência. Nossas faculdades são obras de Deus.
Precisamos, portanto, confiar nelas. É possível a ciência do mundo.
Deus é o fiador, a garantia da razão do homem.

“O intelecto pode considerar o mundo corpóreo valendo-se da


imaginação e das faculdades sensórias, que se revelam passivas
ou receptivas de estímulos e sensações”.15 Deus, que é
responsável pelo meu intelecto, imaginação e sentidos, seria
imperfeito caso eu fosse enganado a respeito da existência do
mundo. E isso é impossível. Deve-se partir do que é claro e
distinto: mais distinto no mundo é a extensão.

4.3. Res cogitans e res extensa.


O mundo espiritual é a res cogitans,
o mundo material é a res extensa.
Só há a res cogitans e a res extensa, sem intermediários.
O mundo é como um ovo preeenchido (sem vácuos): só há
extensão e movimento.
“O universo é composto somente da matéria em movimento, no
qual todos os acontecimentos são causados pelo choque de
partículas movendo-se umas sobre as outras...”16
Princípios desse mundo mecânico:
 Conservação: o movimento permanece constante.

14
Ibidem, 353
15
Ibidem, 375.
16
Ibidem, 377-378.
6
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 Inércia: só há movimento através da impulsão dos
corpos.
 O movimento originário é um movimento retilíneo.

4.4. Mecanicismo. O modelo mecânico simplifica o universo,


facilitando o seu domínio para colocá-lo a serviço do homem. É
possível a conversão do espírito humano da theoria à práxis. O
projeto programático de Bacon, enunciado, mas não realizado, de
conhecer o mundo para domina-lo, encaminha-se então para a sua
realização, primeiro com Galileu e depois com Descartes.17
Os animais e o corpo humano nada mais são do que máquinas,
“autômatos”, como as define Descartes, ou “máquinas
semoventes” mais ou menos complicadas, semelhantes a
“relógios, compostos simplesmente de rodas e molas, que podem
contar as horas e medir o tempo”.18

4.5. Conseqüências do mecanicismo:


O universo é simples, lógico e coerente como os teoremas de
Euclides. “A natureza é opaca, silenciosa, inodora e incolor: é
apenas a impetuosa sucessão da matéria, sem fim e sem motivo”
(A.N. Whitehead).19 Esse mundo é quantificável e pode ser
compreendido pela matemática.
Onde se encontra Deus? Em lugar algum (nullibi).

4.6. Geometria analítica.

A álgebra e a matemática tomam o lugar da geometria.

4.7. Alma e corpo.

Ao contrário de todos os outros seres, no homem encontram-se


juntas duas substâncias claramente distintas entre si: a res
cogitans (alma) e a res extensa (corpo). A alma é pensamento e
não vida. A alma entra em contato com o corpo através da
glândula pineal. Mas, como poderia uma alma inextensa exercer
algo como uma impulsão sobre um corpo extenso?

17
Ibidem, 381.
18
Ibidem, 379-380.
19
Ibidem, 380.
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5. REGRAS PARA A ORIENTAÇÃO DO ESPÍRITO (1628)20

Regra I
Os estudos devem ter por meta dar ao espírito uma
direção que lhe permita formular juízos sólidos e
verdadeiros sobre tudo que se lhe apresenta.

A meta é A ciência é a sabedoria humana que é uma e a mesma


conhecer tudo. sempre, embora iluminando coisas diferentes, como o faz o sol
sobre nosso mundo. O objeto do conhecimento é tudo e não
alguma coisa especificamente.
Bom senso é a universal Sabedoria.
Felicidade nesta vida é a contemplação do verdadeiro.
As ciências estão todas tão ligadas que é mais fácil
aprendê-las todas juntas.
A razão se exercita para aumentar sua luz natural...

Regra II
Os objetos com os quais devemos nos ocupar são
aqueles que nossos espíritos parecem ser suficientes
para conhecer de uma maneira certa e indubitável.

Rejeitamos todos os conhecimentos que são apenas


prováveis e declaramos que se deve confiar somente no que é
Objeto do perfeitamente conhecido e do qual não se pode duvidar.
conhecimento: só o O homem enganou-se a si mesmo, passando-se por
que não pode ser
sábio... quando, na realidade, estava apenas tentando mostrar
questionado.
conhecimento de tudo.
(Diríamos que, neste caso, o que vale é o silogismo,
dentro do raciocínio lógico dedutivo que não deixa margem
O estudo deve se para opiniões).
ocupar de objetos Muitas inferências não têm fundamento, por isso não
que nos dão levam a lugar algum.
certezas
Aritmética e Geometria: operam por dedução – não há o
semelhantes às da
Aritmética e que questionar.
Geometria. A demonstração (lógica) garante a certeza.
A argumentação (dialética) leva apenas à probabilidade.

Regra III
No que tange aos objetos considerados, não é o que
pensa outrem ou o que nós mesmos conjecturamos
que se deve investigar, mas o que podemos ver por
intuição com clareza e evidência, ou que podemos
deduzir com certeza: não é de outro modo, de fato,
que se adquire a ciência.

20
Este texto é uma análise e apresentação didática do livro Regras para a orientação do espírito de René Descartes, traduzido por
Maria Ermantina Galvão e editado pela Martins Fontes em 1999.
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Aquele que aprende com os outros, pode contrair algumas
manchas. Aquele que estuda o que os outros pensaram faz
A certeza só é
garantida, tendo história e não ciência.
como ponto de De tanto defender certos argumentos (que, no início não
partida a passavam de probabilidades), suas verdades adquiriram
INTUIÇÃO e
caráter de certeza (mas carecem de fundamento).
raciocinando por
DEDUÇÃO. Só há dois atos que nos garantem a certeza:
 INTUIÇÃO: o conceito que a inteligência pura e
atenta forma com tanta clareza que não fica
absolutamente nenhuma dúvida (um triângulo
tem três lados).
 DEDUÇÃO: Essa intuição deve estender-se
também ao raciocínio em si – é preciso ter a
evidência (por intuição) da ligação dos anéis de
A fé nos um raciocínio, do primeiro ao último.
garante uma
certeza que a (O objeto da revelação divina, cuja crença é um ato da vontade
razão ainda e não do espírito, é mais certo do que qualquer conhecimento:
não um dia a razão saberá demonstra-lo)
compreendeu.
Regra IV
O método é necessário para a busca da verdade.

Aquele que não tem método procura um tesouro sem o


Método para auxílio de um mapa. Poderá ter sorte, sem dúvida, mas poderia
encontrar muitos
ter encontrado muito mais.
tesouros...
A construção do conhecimento exige que se coloque um

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tijolo sólido sobre outro...
A definição de Método... regras certas e fáceis cuja exata observação
MÉTODO.
fará que qualquer um nunca tome nada de falso por
verdadeiro, e que, sem despender inutilmente nenhum esforço
de inteligência, alcance, com um crescimento gradual e
contínuo de ciência, o verdadeiro conhecimento de tudo quanto
for capaz de conhecer.21
A construção do
conhecimento  Não se pode pôr um tijolo falso como se fosse
exige tijolos verdadeiro;
sólidos.  Pode-se construir tudo.
A inteligência humana tem algo de divino que fez com que
os sábios utilizassem esse método sem tê-lo formulado.
Artesãos ou filósofos que intuíram verdades simples as
complicaram para revestir de importância e admiração suas
descobertas.
Matemática universal: aquilo em que somente se
Matemática
examinam a ordem e a medida.
Universal: é o
princípio das Aritmética, Geometria, Astronomia, Mecânica, Música,
ciências. Ótica etc. são partes da Matemática.
Começar pelos mais simples e mais fáceis, a Matemática
Universal.

Regra V
O método todo consiste na ordem e na organização
dos objetos sobre os quais se deve fazer incidir a

21
Eu costumo definir o MÉTODO da seguinte maneira: é o caminho para se atingir um objetivo, de forma correta e com economia
de esforço.
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De proposições
penetração da inteligência para descobrir alguma
mais complicadas verdade. Nós lhe ficaremos ciosamente fiéis, se
e obscuras para
as mais simples e
reduzirmos gradualmente as proposições
daí para o complicadas e obscuras a proposições mais simples,
conhecimento de
todas as outras.
e, em seguida, se, partindo da intuição daquelas que
são as mais simples de todas, procurarmos elevar-
nos pelas mesmas etapas ao conhecimento de todas
as outras.

Esse é o fio de Teseu para entrar no labirinto.


Deve-se proceder por partes, não se deve desprezar os
degraus de uma escada. Assim faz o:
Não se pode  Astrólogo que, sem conhecer a natureza dos
desprezar os
céus, quer prescrever seus efeitos.
degraus de uma
escada.  A mecânica sem a física...
 O filósofo que despreza a experiência.

Regra VI
Para distinguir as coisas mais simples daquelas que
são complicadas e pôr ordem em sua investigação,
cumpre, em cada série de coisas em que deduzimos
diretamente algumas verdades umas das outras,
observar o que é mais simples e como dele se
distancia, mais ou menos, ou igualmente, o resto.

11
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Descartes ensina a não aceitar passivamente as distinções
de gênero e espécies da filosofia clássica, quem vem desde
Aristóteles. Para ele é preciso conhecer uma coisa pelas outras,
por comparação.
Há coisas que são:
 Absolutas: contém em si a natureza pura e
simples sobre a qual versa uma questão – o
uno, o universal, o reto...
 Relativas: está em relação e só é
compreendido nessa relação – dependente,
efeito, composto, múltiplo...
É preciso percorrer o caminho perfeitamente de modo que,
se partirmos das mais relativas, chegaremos às mais simples e
absolutas com segurança.
As relações de grandeza que se estabelecem entre dois
extremos podem ser conhecidas diretamente (6-12) ou
indiretamente (6 – 24 =12). Deve-se começar pelas mais
simples e, portanto, mais claras.

Regra VII
Para o acabamento da ciência, é preciso passar em
revista, uma por uma, todas as coisas que se
relacionam com a nossa meta por um movimento de
pensamento contínuo e sem nenhuma interrupção, e
é preciso abarca-las numa enumeração suficiente e

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metódica.
O conhecimento
por indução A indução não é a via mais perfeita para o conhecimento,
também é
mas pode ser a única que nos resta, em certos casos, quando
necessário,
embora seja não é possível a intuição.
menos perfeito Nesses casos, será preciso uma enumeração suficiente,
que a intuição e sem pular um único elo da cadeia22 para não arruinar a
a dedução.
conclusão23.
Nesse caso, a Descartes insiste que, além de suficiente, a enumeração
enumeração precisa ser metódica, uma vez que não dá, em todos os casos,
precisa ser para abarcar todos os indivíduos de uma espécie para se poder
suficiente e fazer uma afirmação sobre ela. O método significa aqui
metódica.
organizar os indivíduos em gêneros e espécies.

Regra VIII
Se, na série dos objetos que serão procurados,
apresentar-se alguma coisa que nosso entendimento
não possa ver bem mediante intuição, convém
deter-se aí, sem examinar o que se segue, evitando-
se um trabalho supérfluo.

Se, mesmo aplicando as sete regras anteriores, torna-se


impossível ir adiante no processo de conhecimento por
encontrar dificuldade num dos passos (num elo da cadeia), é
porque a busca do conhecimento, nesse caso, é impedida pela
Há limites no
própria natureza da dificuldade ou pela limitação de sua
conhecimento. É
preciso deter-se condição de homem. Um conhecimento pode depender de

22
Preciso estar seguro de ter abrangido todos em minha enumeração e que os tenha distinguido em particular uns dos outros.
23
No ensino da Lógica costuma-se dizer: se eu, após anos de observação, afirmar que todos os cisnes são brancos, e vier depois a
descobrir, pelo menos um cisne negro, minha conclusão estará prejudicada. Por isso, para Descartes, o conhecimento que vem pela
indução é inferior ao que vem por dedução necessária de uma verdade primeira, clara e distinta.
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quando outro que ainda não foi desenvolvido. Muitas vezes o cientista
necessário.
chega a uma conclusão, mas não consegue restabelecer os elos
da cadeia para poder explicá-la.
Apenas das coisas puramente simples e absolutas é que
se pode ter uma experiência certa.
Antes de começar
Assim como o artesão prepara antes as ferramentas, para
a pesquisa, é
preciso afiar os se ter conhecimento é preciso afiar os instrumentos. Aquele
instrumentos: que os tiver bem afiados (capacidade de raciocínio) poderá
o entendimento, chegar a todo o conhecimento que estiver ao alcance do
a imaginação e a
outros. Segundo Descartes, o ponto de partida seguro para o
memória.
conhecimento é o ENTENDIMENTO PURO. Ele é absoluto e
simples. Depois vêm seus instrumentos: a imaginação, os
sentidos e a memória..
Antes de começar a pesquisar para conhecer a verdade, é
preciso estudar o poder da razão humana: o limite pode estar
no entendimento do homem ou na própria natureza do objeto a
ser conhecido.

Regra IX
Cumpre dirigir toda penetração de nosso espírito ao
que é menos importante e mais fácil, e aí determo-
nos um bom tempo, até termos adquirido o hábito
de ver a verdade, por intuição, de uma maneira
distinta e nítida.

Conhecer do Como ficar mais aptos para o exercício das duas operações
mais simples do conhecimento: intuição e dedução?
para o mais
Perspicácia para a intuição;
complexo, com a
ajuda do método. Sagacidade para a dedução.
“Portanto, todos têm de acostumar-se a abarcar pelo pensamento tão
poucas coisas ao mesmo tempo e coisas tão simples que nunca acreditem
saber nada sem o ver por intuição, tão distintamente quanto o que eles
conhecem o mais distintamente de tudo”.24
Deve-se partir sempre das mais fáceis e seguras para
atingir as mais obscuras e distantes.25

24
Página 59
25
Não sei se entendi bem Descartes. Mas eu ousaria fazer uma comparação: um ferro velho é um amontoado confuso de sucatas e
de peças de automóveis. Olhando tudo de uma vez eu só capto a confusão. Mas, se eu me detiver em cada um dos componentes e,
em seguida, começar a juntá-los, formando peças, para depois juntar essas peças, com um método (uma direção preestabelecida), eu
montarei um automóvel (atingi a verdade buscada). O que era confuso e obscuro ficou claro e simples. Depois disso posso montar
até uma frota...
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Regra X
Para que o espírito se torne sagaz, devemos
exercitá-lo em pesquisar o que já foi encontrado por
outros, e em percorrer com método todas as artes
ou ofícios dos homens, mesmo os menos
importantes, sobretudo aqueles que manifestam ou
supõem ordem.

Aquele que chega às próprias conclusões percorrendo


sozinho os caminhos estará exercitando melhor sua razão. Mas,
como poucos têm essa capacidade, é preciso exercitar-se,
É mais
primeiro, no caminho que os outros fizeram para adquirir a
importante
conhecer o própria capacidade de percorrê-los. Mas, não basta conhecer a
caminho do que a conclusão alheia, é preciso, sim, seguir os passos que o outro
chegada. deu para chegar àquela conclusão. Ou seja, refazendo o
caminho do outro eu aprendo o método.26
Mais importante
“A dialética comum (argumentação) é totalmente inútil para aqueles que
o método do que
querem descobrir a verdade das coisas”.27
a conclusão.

Regra XI
Depois da intuição de algumas proposições simples,
quando delas tiramos outra conclusão, é útil
percorrer as mesmas proposições com um
movimento contínuo e em nenhum lugar
interrompido do pensamento, refletir em suas
relações mútuas e conceber distintamente várias de
uma só vez, tantas quanto pudermos; é assim, de
fato, que nosso conhecimento fica mais certo e,
sobretudo, que se aumenta a amplitude de nosso
espírito.

26
Na Ciência do Direito, por exemplo, eu diria que uma coisa é ler um Acórdão de maneira superficial, preocupando-me apenas
com a sentença: a conclusão. Outra coisa é fazer a análise minuciosa da fundamentação dada pelo Relator, o que me leva ao método
jurídico: a análise da lei, do fato e da jurisprudência e como um é subsumido pelo outro. É melhor aprender um método do que
saber um Acórdão. Com o método eu posso analisar todas decisões judiciais e posso, inclusive, fazer uma fundamentação jurídica de
um caso que me for proposto para chegar a uma sentença.
27
Página 65. Já vimos que a dialética (argumentação) serve apenas para convencer no campo das probabilidades. O lugar da
dialética é a RETÓRICA e não a FILOSOFIA.
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À inferência tirada de um grande número de coisas
chamamos indução (por enumeração).
Enquanto a dedução se faz por intuição, quando ela é
simples. É possível captá-la imediatamente.
No movimento do espírito para conhecer, a intuição e a
enumeração operam em conjunto. É na memória que se
Intuição e guardam os elos da cadeia do conhecimento (intuições
enumeração encadeadas formando o conhecimento)28.
operam em “Por exemplo, suponhamos que, através de várias operações, eu tenha
conjunto, com o chegado a conhecer primeiro que relação existe entre uma primeira grandeza e
auxílio da uma segunda, depois entre uma segunda e uma terceira... até a quinta: nem
memória. por isso vejo qual relação há entre a primeira e a quinta e não a posso deduzir
daquelas que já são conhecidas, a menos que me lembre de todas elas. É por
isso que é necessário que meu pensamento as percorra de novo, até que eu
passe da primeira para a última com tal rapidez que, sem deixar à memória
quase nenhuma função, eu pareça ver o todo a um só tempo por intuição.”29

Regra XII
Enfim, temos de utilizar todos os recursos do
entendimento, da imaginação, dos sentidos e da
memória, seja para ter uma intuição clara das
proposições simples, seja para pôr entre as coisas
que procuramos e aquelas que sabemos uma ligação
adequada que permita reconhecê-las, seja para
encontrar as coisas que devem ser comparadas
entre si, sem desprezar nenhum recurso da indústria
humana.

Nós conhecemos os objetos que estão por conhecer por


meio do ENTENDIMENTO, auxiliado pela:
 imaginação
 sentidos
 memória
O que é a inteligência do homem?
O que é o seu corpo?
a) Os sentidos externos: passivos na sensação30
b) A figura que o sentido recebe é transportada para uma
outra parte do corpo chamada de sentido comum, num
mesmo instante e sem passagem real de nenhum ser
de um lugar para o outro.31
c) O sentido comum desempenha também o papel de um

28
29
Página 69.
30
Assim como a cera recebe a forma do sinete.
31
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sinete para formar na fantasia ou imaginação, as
mesmas figuras ou idéias que vêm dos sentidos
externos, e que são retidas pela memória.
d) Com isso provoca-se movimentos nos nervos que
conduzem as sensações ao cérebro.
e) Ver, lembrar-se, conceber, compreender... é uma força
puramente espiritual, que se utiliza das sensações
vindas dos sentidos.
Há uma troca constante entre Entendimento, imaginação,
sensação, memória etc. O entendimento trata das idéias que se
têm dos objetos e não dos objetos em si.
Descartes denomina simples as coisas cujo conhecimento
é tão nítido e distinto que a inteligência não pode dividi-las em
várias outras conhecidas mais distintamente: assim são a
figura, a extensão, o movimento...
Essas coisas denominadas simples são:
 puramente intelectuais: conhecidas pelo
entendimento graças a uma luz inata e sem
a ajuda de nenhuma imagem corporal. Por
exemplo: o que é o conhecimento, o que é a
dúvida, o que é a ignorância...?
 puramente materiais: só existem nos corpos
– extensão, figura, movimento etc.
 comuns: atribuídas ora aos objetos
corporais, ora aos espíritos, sem distinção –
existência, unidade, duração etc. Cabe aqui
também o princípio de que duas coisas
idênticas a uma terceira são idênticas entre
si...
“Se me ocorre julgar que uma figura não está em movimento, direi que
meu pensamento é de certo modo composto de figura e de repouso...”32
Quando dizemos o que conhecemos dizemos também o
que ignoramos.
A ligação das coisas simples entre si é
 Necessária: uma é tão intimamente
implicada pelo conceito da outra que não
podemos conceber distintamente uma ou a
outra se a julgarmos separadas entre si.
Nesse sentido, a figura é unida à extensão,
o movimento à duração etc. Se Sócrates diz
que duvida de tudo, segue-se que ele
compreende pelo menos que duvida.
 Contingente: não implica entre as coisas
nenhuma ligação indissolúvel – um corpo
está animado, um homem está vestido...

32
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É mais fácil, muitas vezes, conhecer todas as coisas juntas
do que separá-las. Eu conheço o triângulo antes de conhecer os
ângulos, linha, número três...
Quanto às compostas, as conhecemos porque as
experimentamos ou porque as compomos.
Só podemos ser enganados ao compor nós mesmos de
certa maneira o que acreditamos (imaginem um daltônico
acreditando que o mundo seja em preto e branco).33
A composição dos objetos pode ser feita por:
 Impulso: juízo sobre as coisas baseado nas
“crenças, sem que disso sejam persuadidos por
nenhuma razão, mas determinados somente, seja por
alguma potência superior, seja pela liberdade própria,
seja por uma tendência da imaginação”34

 Conjectura: o ar está acima da água e o éter


acima do ar porque o segundo é mais leve
que o primeiro. Atingimos, com isso, apenas
a probabilidade.
 Dedução: a única que nos deixa seguros da
verdade. Pode-se chegar a conclusões falsas
se o espírito não tiver sido bem conduzido. A
precipitação em generalizar, por exemplo.

Conclusões:
 Não há vias abertas ao homem para
conhecer com certeza a verdade afora a
intuição evidente e a dedução
necessária.
 Deve-se ter sempre muito cuidado e
estar atento e de acordo com as luzes
do espírito.
 Toda ciência humana consiste
unicamente em ver de uma maneira
distinta como essas naturezas simples
concorrem juntas para a composição
das outras coisas.
 Os conhecimentos das coisas não
devem ser olhados como uns mais
obscuros do que os outros, porquanto
todos eles são da mesma natureza e só
consistem numa composição de coisas
conhecidas por si sós.35
 A dedução pode ser feita facilmente,
quer das palavras para as coisas, quer
do efeito para a sua causa, quer da
causa para o seu efeito, que do

33
O mundo que eu vejo é o mundo que existe ou o mundo que eu vejo é simplesmente o mundo que eu vejo?
34
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35
Diante das dificuldades do conhecimento, (1) uns simplesmente o têm e o expõe de forma confusa, (2) outros abdicam de
conhecer por si, entregando-se à crença no que diz aquele que tem autoridade.
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semelhante para o semelhante, quer
das partes para as partes ou para o
próprio todo...

Regra XIII
Se compreendemos perfeitamente uma questão,
temos de abstraí-la de qualquer conceito supérfluo,
reduzi-la a sua maior simplicidade e dividi-la em
partes tão pequenas quanto possível enumerando-
as.

É preciso definir 1. Em toda questão, deve haver necessariamente algo


bem o que se desconhecido.
procura conhecer. 2. Esse desconhecido deve ser bem determinado.
3. O desconhecido só pode ser designado por meio de
alguma outra coisa que seja conhecida (a palavra e seu
significado são importantes)36.
Em todas as coisas, nas mais simples, devemos estar aptos
para distinguir o verdadeiro do falso.

Regra XIV
A mesma regra deve ser aplicada à extensão real
dos corpos e proposta por inteiro à imaginação com
a ajuda de figuras puras e simples: assim, de fato,
ela será compreendida com muito mais clareza pelo
entendimento.
O nosso conhecimento se dá por comparação entre objetos que
têm natureza comum.

Regra XV
Comumente também é útil traçar essas figuras e
apresentá-las aos sentidos externos, a fim de que
por meio disso seja mais fácil manter nosso
pensamento atento.

Os sentidos ajudam o intelecto a ficar mais atento.

Regra XVI
Quanto ao que não requer a atenção imediata da
inteligência, mesmo sendo necessário à conclusão, é

36
Descartes fala que é preciso estar bem atento ao que se procura. Ele fala de um empregado que, mesmo
sem ter ouvido toda a ordem de seu patrão sai apressado procurando... o quê? Isso costuma acontecer na
Internet quando o termo de busca é muito genérico. Eu encontro tudo e não encontro nada.
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melhor designá-lo pelas anotações mais curtas do
que por figuras inteiras: assim a memória não
poderá enganar-se e, não obstante, entrementes, o
pensamento não ficará distraído em retê-las,
enquanto se aplica a outras deduções.

Regra XVII
A dificuldade proposta deve ser diretamente
percorrida, não levando em conta o fato de que
alguns de seus termos são conhecidos e os outros
desconhecidos, e examinando por intuição a
dependência mútua de cada um deles com relação
aos outros, graças aos verdadeiros raciocínios.

Regra XVIII
Para tanto, somente são requeridas quatro
operações: a soma, a subtração, a multiplicação e a
divisão; dentre elas, as duas últimas amiúde devem
não ser feitas aqui, quer para nada complicar
inoportunamente, quer porque podem ser efetuadas
com mais facilidade mais tarde.

Para deduzir certas grandezas de outras grandezas, necessito


apenas de quatro operações.

Regra XIX
Por meio desse método de raciocinar, cumpre
procurar outras tantas grandezas expressas de duas
formas diferentes, que supomos de termos
desconhecidos bem como conhecidos, para percorrer
diretamente a dificuldade: assim é, de fato, que se
terão outras tantas comparações entre duas coisas
iguais.

Regra XX
Encontradas as equações, cumpre efetuar as
operações que deixamos de lado, nunca utilizando a
multiplicação todas as vezes que for conveniente a
divisão.

Regra XXI
Se tivermos várias equações desse tipo, será preciso
reduzi-las todas a uma só, ou seja, àquela cujos
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termos ocuparem menos graus na série das
grandezas continuamente proporcionais, segundo a
qual os mesmos termos devem ser ordenados.

Filósofo meditando
Rembrandt (1632)
Descartes prefere viver
solitário, isolado do mundo, com
suas meditações, na busca de uma
nova ciência universal. Bem viveu
quem bem se escondeu, ele diz.

Capa da edição original das


Meditações – 1641 -

BIBLIOGRAFIA

DESCARTES, René. Discurso do método. Trad. João Cruz Costa. São


Paulo: Ediouro, sd.
____________ . Discurso do método; paixões da alma; meditações;
objeções e respostas. Trad. J. Guinsburg e Bento Prado Jr. São
Paulo: Nova Cultural, 1996. Col. Os Pensadores.
____________. Regras para a orientação do espírito. Trad. Maria
Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
MAGEE, Bryan. História da filosofia. Trad. Marcos Bagno. São Paulo:
Loyola, 1999.
REALE, Giovanni, ANTISERI, Dario. História da filosofia. 2ª ed. São
Paulo: Paulus, 1990. Vol. II.
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