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TEMPO COMUM. VIGÉSIMA QUINTA SEMANA.

SEXTA-FEIRA

17. O TEMPO E O MOMENTO


– Viver o momento presente.

– Realizar com plena atenção as tarefas que temos entre mãos.

– Evitar as preocupações inúteis.

I. PARA NOS APRESENTARMOS diante de Deus Pai com as


mãos cheias de fruto, são muitas as tarefas que temos de
realizar. A Sagrada Escritura ensina-nos, numa das Leituras para
a Missa de hoje, que tudo tem o seu tempo e o seu momento. As
circunstâncias e acontecimentos da vida fazem parte de um
plano divino. Mas há ocasiões em que o homem não consegue
compreender esse querer de Deus sobre as criaturas e não
encontra o tempo oportuno para cada coisa.

Com frequência, os homens põem o seu interesse em coisas


que estão longe do trabalho que têm entre mãos: o pai pode
viver alheio aos filhos quando deixa de prestar-lhes mais
atenção, de ajudá-los nos seus problemas, de ouvi-los nos seus
motivos de alegria ou de preocupação, embora esteja
fisicamente presente. O estudante tem por vezes a imaginação
fora da matéria que deve estudar e não aproveita um tempo de
que depois sentirá falta, talvez com preocupação e angústia.

“O tempo é precioso – dizia Paulo VI –, o tempo passa, o


tempo é uma fase experimental do nosso destino decisivo e
definitivo. Das provas que dermos de fidelidade aos nossos
deveres dependerá o nosso destino futuro e eterno.

“O tempo é um dom de Deus: é uma interpelação do amor de


Deus à nossa livre e – pode dizer-se – decisiva resposta.
Devemos ser avaros do tempo, para empregá-lo bem, com
intensidade no agir, amar e sofrer. Que não exista jamais para o
cristão o ócio, o tédio. O descanso sim, quando for necessário
(cfr. Mc 6, 31), mas sempre com vistas a uma vigilância que só
no último dia se abrirá a uma luz sem ocaso”1.

Uma das Leituras da Missa convida-nos a aproveitar a vida


aos olhos de Deus, estando atentos ao momento presente, o
único de que podemos verdadeiramente dispor. Cada tarefa tem
o seu tempo: Há um tempo para nascer e um tempo para morrer.
Há um tempo para plantar e um tempo para arrancar o que se
plantou... Há um tempo para destruir e um tempo para edificar.
Há um tempo para chorar e um tempo para rir. Há um tempo
para calar- se e um tempo para falar...2

Perder o tempo é dedicá-lo a outras tarefas, talvez


humanamente interessantes e produtivas, mas diferentes das
que Deus esperava que nos ocupassem naquele momento
preciso: dedicar ao trabalho ou aos amigos uma horas que se
deveriam empregar no lar; ler o jornal quando a ocupação
profissional pedia que estivéssemos mergulhados no trabalho...
E assim por diante. E aproveitar o tempo é fazer o que Deus quer
que façamos; é viver o momento presente sabendo que a vida
do homem se compõe de contínuos presentes, os únicos que
podemos santificar.

Do passado só devemos tirar motivos de contrição por tudo


aquilo que fizemos mal, de acções de graças pelas ajudas que
recebemos do Senhor, e experiência para realizarmos com nova
perfeição as nossas tarefas. Por sua vez, os acontecimentos
futuros não nos devem preocupar muito, pois ainda não temos a
graça de Deus para enfrentá-los.

“Viver plenamente o momento presente é o pequeno segredo


com o qual se constrói, tijolo a tijolo, a cidade de Deus em
nós”3. Não possuímos outro tempo que o de agora. Este é o
único tempo que – sejam quais forem as circunstâncias que nos
acompanhem – podemos e devemos santificar. Hoje e agora,
este momento, vivido com intensidade, com amor, com toda a
perfeição possível, é o que podemos oferecer ao Senhor. Não o
deixemos passar à espera de melhores oportunidades.

II. NÃO CUMPRIR O DEVER que o instante requeria, deixá-lo


para depois, equivale em muitas ocasiões a omiti-lo. Aproveitai
o tempo presente...4, exortava São Paulo aos primeiros cristãos.

Para isso, devemos começar por elaborar uma ordem de


prioridades nos nossos afazeres diários, e depois respeitá-la
rigorosamente. Preguiçoso é não só aquele que deixa passar o
tempo sem fazer nada, mas também quem faz muitas coisas,
mas recusa-se a cumprir a sua obrigação concreta em cada
instante: escolhe as suas ocupações conforme o capricho do
momento, ou então dedica-se ao que deve, mas sem energia e
disposto a mudar de tarefa à primeira dificuldade. O preguiçoso
pode até ser amigo dos “começos”, mas a sua incapacidade
para um trabalho contínuo e profundo impede-o de colocar as
“últimas pedras”, de acabar bem o que tinha começado. “Quem
é laborioso aproveita o tempo, que não é apenas ouro; é glória
de Deus! Faz o que deve e está no que faz, não por rotina nem
para ocupar as horas, mas como fruto de uma reflexão atenta e
ponderada”5.

Viver o hodie et nunc, o “hoje e agora”, leva-nos a estar


atentos à tarefa que temos entre mãos, convencidos de que se
trata de uma oferenda ao Senhor e, portanto, requer plena
dedicação, como se fosse a última obra que fazemos por Deus.
Esta atenção ajudar-nos-á a terminar bem os nossos afazeres,
por pequenos que possam parecer, porque, oferecidos ao
Senhor, passam a ser grandes.

Quem se concentra no momento presente não se


sobrecarrega com preocupações inúteis a respeito de doenças,
desgraças ou trabalhos que ainda não se apresentaram e que
talvez nunca cheguem a apresentar-se. “Um simples raciocínio
sobrenatural seria suficiente para os varrer: se esses perigos
não são actuais e esses temores ainda não se verificaram, é
obvio que não dispões da graça de Deus necessária para os
vencer e aceitar. Se esses receios vierem a cumprir-se, então
não te faltará a graça divina e, com ela, e com a tua
correspondência, a vitória, a paz.

“É natural que não tenhas agora a graça de Deus para


venceres os obstáculos e aceitares as cruzes que existem
apenas na tua imaginação. É preciso construir a vida espiritual
com base num realismo sereno e objectivo”6.

Viver o dia presente, conduzidos pela mão do nosso Pai-Deus,


como bons filhos, livra-nos de muitas ansiedades e permite-nos
aproveitar bem o tempo. Quantas coisas funestas, que
temíamos, simplesmente nunca chegaram a acontecer! O nosso
Pai-Deus cuida dos seus filhos mais do que nós pensamos em
algumas ocasiões.

III. É NAS TAREFAS de hoje e agora que podemos enriquecer a


nossa vida sobrenatural, pois o cumprimento do dever presente
é um apelo contínuo ao espírito de fé, de esperança, à fortaleza
e à caridade. E é nelas que podemos praticar as virtudes
humanas: a laboriosidade, a ordem, o optimismo, a cordialidade,
o espírito de serviço... Não o esqueçamos. O homem que
cumpre o seu dever, que “faz o que deve e está no que faz”7,
enrijece o carácter, torna-se mais varonil, enérgico,
empreendedor. E todas estas virtudes compõem a base sem a
qual não se podem erguer as virtudes cristãs. “Agora é o tempo
de misericórdia, então será somente tempo de justiça; por isso,
agora é o nosso momento, então será só o momento de Deus”8.

O próprio Senhor nos convidou a viver com serenidade e


intensidade cada jornada, eliminando preocupações inúteis pelo
que aconteceu ontem e pelo que pode acontecer amanhã. Não
queirais, pois, andar inquietos pelo dia de amanhã. Porque o dia
de amanhã cuidará de si; basta a cada dia o seu cuidado 9. É um
conselho, e ao mesmo tempo um consolo, que nos leva a não
evadir-nos do momento actual. Viver o momento presente
significa abraçá-lo decididamente para santificá-lo e afastar
muitos pesos desnecessários e – tantas vezes! – muito mais
difíceis de carregar aos ombros. Esta sabedoria é própria dos
filhos de Deus, que se sabem nas suas mãos, e do sentido
comum da experiência quotidiana: Quem observa o vento não
semeia, e quem considera as nuvens nunca ceifará10.

“Porta-te bem «agora», sem te lembrares do «ontem», que já


passou, e sem te preocupares com o «amanhã», que não sabes
se chegará para ti”11. Nem o desejo do Céu, nem a meditação
sobre os últimos fins do homem – a morte, o Juízo, o Céu e o
inferno – podem fazer-nos esquecer os afazeres desta terra. Já
se disse de modos muito diversos que devemos trabalhar para
esta terra como se sempre fôssemos viver nela, e ao mesmo
tempo trabalhar para a eternidade como se fôssemos morrer
ainda hoje. Mais do que isso: devemos ter sempre em conta que
é precisamente esta tarefa do momento que vivemos a que nos
leva ao Céu. Agora é tempo de edificar: não nos enganemos
pensando que o faremos num futuro próximo.

A Virgem, nossa Mãe, ajudar-nos-á a dizer faça- se diante das


tarefas de cada instante, com a docilidade com que Ela o disse
ao Anjo no momento da Anunciação.

(1) Paulo VI, Homilia, 1.01.1976; (2) Ecl 3, 1-11; Primeira leitura da Missa da
sexta-feira da 25ª semana do Tempo Comum; (3) Chiara Lubich, Meditações,
pág. 61; (4) cfr. Gál 6, 10; (5) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Amigos de
Deus, n. 81; (6) Salvador Canals, Reflexões espirituais, Quadrante, São Paulo,
pág. 104; (7) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Caminho, n. 815; (8) São
Tomás de Aquino, Sobre o Credo, 7; (9) Mt 6, 34; (10) Ecl 11, 4; (11) Bem-
aventurado Josemaría Escrivá, Caminho, n. 253.
(Fonte: Website de Francisco Fernández Carvajal AQUI)