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SEXUALIDADE

E

ESPIRITUALIDADE

ASPECTOS PARA ALCANÇAR A TRANSFORMAÇÃO HUMANA

SEXUALIDADE

E

ESPIRITUALIDADE

ASPECTOS PARA ALCANÇAR A TRANSFORMAÇÃO HUMANA

Irmão Francisco

PARA ALCANÇAR A TRANSFORMAÇÃO HUMANA Irmão Francisco Editores: U NI ÃO I NTERNACIONAL D E E

Editores:

UNIÃO INTERNACIONAL DE ESPIRITISTAS CRISTÃOS

FEDERAÇÃO ESPÍRITA CRISTÃ DE ESPANHA

COMUNIDADE ESPÍRITA CRISTÃ DO IRMÃO PEDRO EL GRAN CORAZÓN

COLECÇÃO: BUSCA INTERIOR Director de colecção: Irmão Francisco. Paginação: María Victoria Díaz Sanz e Maria Jesús Riquelme Mellado. Desenho editorial e capa: Francisco Riquelme Mellado. Tradução ao português por: María Teresa Santos

SEXUALIDADE E ESPIRITUALIDADE Aspectos para alcançar a transformação humana © Irmão Francisco © Edição em PDF, 2003. Comunidade Espírita Cristã do Irmão Pedro

Dep. Legal: MU-1.375/2002 Título original em espanhol: Sexualidad y Espiritualidad Aspectos para alcanzar la transformación humana. Edições publicadas:

1ª edição em espanhol, Maio 2002. 2ª edição em português, Maio 2003.

Para qualquer informação e pedidos pode dirigir-se a:

Unión Internacional de Espiritistas Cristianos Federação Espírita Cristã de Espanha Comunidad Espírita Cristiana del Hermano Pedro “El Gran Corazón” Valle del Sol, nº 7 caminho 3. ( 30590 ) GEA Y TRUYOLS- MURCIA. ES-PAÑA Apdo. Correos 143 (30730) SAN JAVIER- MURCIA ESPAÑA Tel-Fax: 968 43 00 58 / E-mail: grancorazon@ctv.es Internet: http/www.grancorazon/USERS/ctv.es

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investigador e crente espírita, baseia-se única e exclusivamente na

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Do mesmo modo, muitas das obras são distribuídas a preço de custo a grupos e associações espíritas, para que possam financiar eventos com outros fins divulgativos, aplicando-lhes um tanto por cento de benefício que repercute directamente em quem os vende. O Irmão Francisco cedeu os direitos de autor de todas as suas obras, para que livremente possam ser publicadas por outras editoras, sempre sob a supervisão do autor ou da editora, e com a sua autori- zação expressa por escrito, para não vulnerar os direitos de autor. Também, pouco a pouco, se estão incluindo de forma gratuita na Internet os livros publicados, graças ao formato PDF do livro electró- nico, acessível sem custo algum a todos os que tenham acesso à Internet, como é o caso da Constituição Espiritista Internacional (dis- ponível em www.grancorazon.org). Nenhuma pessoa que colabora ou participa na edição das obras da Editora El Gran Corazón, ou o próprio autor, recebem remuneração alguma pelo seu desinteressado trabalho. A todos nos une um único interesse: o espírito altruísta de conhecer o bem que esta literatura leva a muitos leitores e o interesse de que cada vez mais conheçam o tra- balho que realizamos dentro do Espiritismo Cristão.

As obras do Irmão Francisco denotan um marcado carácter colo- quial, simples e acessivel a todo o tipo de compreensão, devido a se- rem recompilhações de suas numerosas conferências e palestras, rea- lizadas, muitas delas, de forma totalmente improvisada.

DEDICATÓRIA

Esta minha escrita converte-se hoje numa cálida mensagem até ti, meu bom amigo e mestre. A lembrança da tua imagem gravada em meu coração surte o mesmo efeito que naquela tarde em que pela primeira vez cravaste o teu olhar em minha alma. O meu ser continua cheio desse mesmo ideal pelo que te pro- curei nestes mundos, e o meu regozijo volta a estar vivo cada vez que penso em ti. Amar-te e seguir-te foram as minhas duas sólidas promessas, que ainda cumpro com a dor e o pesar que me envolvem neste

mundo frio que não conhece o amor. Mas o meu esforço, cada vez que se torna frágil e decaído, remonta-se aos teus anos de solidão e tristeza, quando olhavas para

o suceder dos anos e nos vias, desde esse passado, a todos nós nes- tes tempos. Nesta Comunidade cada um representa uma parte de ti; e em

conjunto o teu ser, a tua vida, o teu esforço, as tuas lutas

El Gran

Corazón não é mais do que um reflexo de ti mesmo em cada um de nós; uma pequena parte que diz ao mundo que somos discípu- los daquele homem simples e bom que disse chamar-se Irmão Pedro, sendo ele próprio simples e modesto, em sua humildade e grandeza, um homem repleto de Deus. Hoje sou eu quem projecto o meu olhar para o suceder dos

anos porvindouros e vejo aos que te seguirão sendo teus filhos em sabedoria. E embora não te tenham conhecido sentirão por ti todo

o amor que lhes professaste em outros tempos. Eu o posso assegu- rar.

Eis aqui a tua herança, ante mim uma família que luta como o resto desta humanidade no mais profundo de si mesma, nas suas desventuras e ilusões, mas sincera no amor e cheia de esperança e fé. São as promessas da nova primavera que hão de florescer nos próximos campos da geração futura; o bom fermento que dará son- ho e vida a este mundo; uma esperança espargida, como nós, por todo este mundo que nos tocou viver.

Mas este rebanho tem-te a ti como pastor. E mansos no amor te seguimos na noite destes tempos, como ao luzeiro da madrugada no obscuro, buscando o próximo amanhecer. Tanto nos deste e tanto temos que dar, estamos tanto em dívida contigo que muito teremos de trabalhar para sentir-nos em justiça com o teu legado. Por isso o nosso esforço será sempre pouco para tudo dar aos nossos irmãos, sem esperar nada em troca. Entretanto ter-te-emos em nossos sonhos, estarás em nossos projectos, nos nossos sorrisos e nas nossas orações, porque nunca mais o teu olhar se apartará de nós, do mesmo modo que o nosso amor para com o teu espírito.

AGRADECIMENTOS

Quero de igual modo fazer chegar os meus agradecimentos aos que no transcurso dos anos converteram as minhas obras em bene- fícios para todos aqueles que caiam em suas mãos:

María Victoria Díaz, Francisco Riquelme, María Jesús Riquel- me e Nuria Aguilera; cujo trabalho, sempre desinteressado, de correcção, maquetação, desenho gráfico e ilustração deste livro, faz com que se engalane pelo afã e pela fé, tanto de quem o escre- veu como deles mesmos, para convertê-la num ensinamento que seja benéfico para muitos. A todos eles a minha mais eterna gratidão.

Irmão Francisco.

CONTEÚDO

INTRODUÇÃO Sexualidade e Espiritismo Cristão

17

PARTE I Aspectos gerais sobre a sexualidade

I. Amor e sexo

25

Sexo, liberdade e cultura • Sexo e o seu sentido transcenden-

te • Porquê e para quê praticar o sexo • A cara oculta do sexo

 

• Vulgarização do sexo • A rotina no sexo • Agressões sexuais

• Querer, amar desejar • Quanto sexo? • O instinto • Necessi-

dades sexuais: o sexo • Necessidades afectivas: o amor • O se- xo em cada idade.

II. Sexo humano e sexo espiritual

39

Sexo humano • Sexo espiritual.

III.

Costumes no sexo e a espiritualidade

45

O desenvolvimento espiritual • O poder do “costume” . Cos-

tumes, moda e hábitos sexuais • Causa dos vícios sexuais

 

Outro elemento para ser revisto: A rotina.

IV.

Os ciúmes

55

Os ciúmes nas relações íntimas • O desenvolvimento espiri-

tual do ser humano: um processo lento • Sexo masculino su- perior ao feminino? • Os ciúmes como resposta emocional

 

Alguns pontos de vista • A manifestação dos ciúmes no ser

humano • A suspeita • O receio • A rivalidade • A inimizade

 

A separação • A ruptura.

V. A consciência

71

• A consciência • A consciência no desenvolvimento interior

• Consciência superior e consciência individual • A consciên-

cia superior • A consciência individual ou humana • Factores que influem na consciência.

PARTE II O Espiritismo Cristão ante a sexualidade

VI.

O comportamento sexual

83

O comportamento ou conduta sexual • Manifestação do com-

portamento sexual • Formas de comportamento sexual • Os distintos aspectos que expressam o comportamento sexual.

VII. Modos de expressar a sexualidade

91

Critérios para julgar o comportamento sexual • As distintas razões de todo o comportamento sexual • A ordem no com- portamento sexual • Comportamento sexual • A capacidade criativa do ser humano • A sexualidade evolui • Outra forma de compreender a sexualidade.

VIII. Homossexualidade e lesbianismo

101

A homossexualidade na história • A homossexualidade estu-

dada pela ciência • O ponto de vista da Igreja Católica • Opi-

niões de todos os tipos • Uma contradição lógica • O esclare- cimento.

IX.

Bissexualidade

117

• Tendências de um passado • Reencarnação e conduta sexual

• Expressão da sexualidade.

X. Hermafroditismo e Transexualismo

125

• Dívidas de um passado que se cumprem num presente • Her-

mafrodita e transexual • Origem e consequências da conduta

transexual e hermafrodita.

XI. A castidade

133

• Uma definição de castidade • Duas interpretações de castida- de • A castidade e a ciência do conhecimento espiritual • A mente e sua influencia na sexualidade • A renúncia sexual, uma questão íntima.

XII. O celibato

• Origem do celibato • O cio orgânico e biológico • O proble-

ma do celibato • O verdadeiro sentido da castidade e do celi- bato.

143

XIII.

A masturbação

151

A força da mente • Os efeitos da lei de afinidade • A prática do onanismo: boa ou má? • A Igreja ante a masturbação.

XIV.

A prostituição

159

O sentido da prostituição • Os efeitos da prostituição • Por

que existe a prostituição.

XV. Pornografia, feiticismo, erotismo e sensualidade

165

Pornografia e feiticismo • O erotismo e a sensualidade • O feiticismo.

PARTE III Espiritualidade e sexualidade

XVI.

A sexualidade frente ao conhecimento espiritual

173

O sexo e sua relação com a Espiritualidade • Definição de se- xualidade • O verdadeiro sentido da sexualidade.

XVII. A mente na sexualidade

181

• A influencia da mente no comportamento sexual • O celiba-

to e a castidade • A natureza do ser humano • As enfermida- des, sua origem e influência no ser humano • A sexualidade em mundos mais evoluídos.

XVIII.

Os mecanismos de estimulação sexual

191

• Tipos de estímulos • Os estímulos de origem espiritual • Os

estímulos de origem físico • Estímulo endógeno • Estímulo exógeno • Os estímulos de origem mental • O acto sexual e suas repercussões físicas e espirituais • Efeitos da carência ou excesso nas relações sexuais • A carência sexual • Os excessos na sexualidade • Efeitos de uma vida sã.

 

XIX.

Os sonhos na sexualidade

201

Causas que produzem sonhos eróticos.

XX. A reencarnação e o seu enfoque sobre a sexualidade

207

O organismo humano: um elemento neutro • Os estímulos e

o comportamento sexual • Heterossexualidade • Homossexua- lismo • Lesbianismo • Bissexualidade.

 

PARTE IV Opinião do espírito sobre diversas questões da sexualidade

 

XXI.

A sexualidade sob o enfoque do mundo espiritual

221

A sexualidade • O casal e a família.

PARTE V

 
 

A família

XXII. O matrimónio

251

• O matrimónio, um acontecimento social • O matrimónio na

actualidade • A chegada dos filhos • As etapas do matrimónio

• A primeira etapa • A segunda etapa • A terceira etapa.

XXIII. Ruptura matrimonial: Separação e divorcio

• “O que Deus uniu para sempre que o homem não o separe”

• Ruptura matrimonial versus compromisso espiritual • Reen-

carnação e separação • Duas crenças distintas e um dilema a enfrentar • Quando não é lícita a ruptura matrimonial?

259

XXIV. A família carnal e a família espiritual

275

• A família carnal e a família espiritual • A vida em comuni-

dade • A família física • A Era de Peixes • O perigo das seitas

• Relações desfeitas.

CONCEITOS BÁSICOS DO ESPIRITISMO

289

COMUNIDADE “EL GRAN CORAZÓN”

301

OUTRAS PUBLICAÇÕES DA COMUNIDADE EL “GRAN CORAZÓN”

315

INTRODUÇÃO

Sexualidade e Espiritismo Cristão

Este livro não pretende ser um manual nem um tratado sobre se- xualidade. Não sou sexólogo, nem sociólogo, nem psicólogo, nem an- tropólogo. Sou espiritista cristão, além de investigador sobre a realida- de e dimensão humana, que pretende explorar os mais recônditos mis- térios do homem no seu todo, tanto humano como espiritual. E ainda que pareça um tanto audaz da minha parte, temerário ou atrevido para falar, com certa autoridade, sobre estes misteres, não pretendo impor critérios, dogmatizar nem parecer saber mais que ninguém na matéria. De modo nenhum esta obra visa ser uma apologia de alguma tendência sexual em particular. É apenas a sincera expressão da liber- dade sexual que por direito é, ou deve ser, inerente à espécie humana. O meu propósito é aportar um ponto de vista novo, diferente, que bebe directamente do Espiritismo Cristão, mais que como crença, co- mo forma de ver e viver a vida. Por isso notará o leitor que o meu en- foque não é o do espiritualista moralista, que entende o sexo como um contratempo dos instintos que deve ser aplacado, restringido ou exter- minado; do mesmo modo que notará seguramente contraposições so- bre a maneira de ver o sexo que se generalizou na actualidade, basea- do numa atitude materialista e exclusivista da vida. Tal assim é porque o ponto de vista do Espiritismo Cristão não nasce nem se baseia em conceitos culturais ou sociais, humanos em definitivo, mas sim do con- hecimento espiritual que se recebe através da mediunidade. Também não vejo descabido manifestar abertamente, como espiri- tista cristão, o parecer do Espiritismo a respeito de uma questão tão fundamental e pessoal na vida do ser humano como é a sexualidade e que tantos contratempos tem gerado com respeito a manter uma postu-

Introdução

17

ra religiosa ou espiritual na vida.

O meu interesse sobre este particular é deixar bem claro um ponto

de vista alheio à sociologia, psicologia, antropologia ou sexologia, a respeito de observar e analisar a sexualidade por cima das ideias e tendências humanas, dos costumes de cada época e sociedade, tão cambiantes e instáveis. Seguramente este ponto de vista será o nosso enfoque difinitivo al- gum dia, quando já não tenhamos este pesado lastro carnal e a nossa mente possa sondar os profundos mistérios do universo, com uma ab- soluta liberdade de indagação e de expressão. Sem tantos condicionamentos e preconceitos, adquiridos desde pe- quenos, tão coartadores do pensamento, o ser humano poderia, se as- sim se predispusesse, alcançar outra perspectiva muito distinta sobre os mais diversos aspectos da humanidade e do mundo em que vive. Li- berar-se de todo esse lastro é realmente difícil, e muito poucos têm es- tado a salvo deles. Espero que esta obra sirva para que muitos encontrem as pistas e caminhos que lhes levem a uma mais limpa compreensão destes as- pectos. O delineamento desta obra, é uma proposta para todos aqueles livre pensadores em qualquer área do pensamento humano. E cujo afã de busca lhes tenha conduzido a eliminar as barreiras mentais que tan- to entorpecem e atrasam o bom crescimento de qualquer atitude espi- ritual. Sobre esta questão do sexo, os trabalhos de Allan Kardec, codifi- cador do Espiritismo Cristão no século XIX, são bastante parcos e pou- co precisos; remetendo-se a umas curtas respostas no Livro dos Espí- ritos, e cuja leitura se encontra ao alcance de todos os que conheçam as obras fundamentais do mais importante investigador da doutrina espí-

rita.

A razão é óbvia. Primeiro porque os seus trabalhos são iniciadores,

não concludentes e definitivos, como ele mesmo argumentava. Segun- do porque é impossível que um homem, nem cem, nem mil, possam

abarcar todo o conhecimento espiritual por muito que aprofundizem em seus trabalhos e investigações. Sem dúvida que Kardec foi, nesse sentido, prisioneiro da sua épo-

ca, cujo conceito de sexualidade e moralidade que a estas práticas se associa, era muito diferente da actual. Em cada época a mentalidade do ser humano se abre a novos campos do conhecimento, que variam de forma ostensiva segundo a sua capacidade para admitir novos ensina- mentos. Vemos com assiduidade que o ser humano se aferra à letra es- crita, aos livros sagrados da ciência ou da religião. E comprovamos que com o tempo este fica fora da realidade que o circunda. Toda a ciência avança em cada tempo. Toda a doutrina se encontra do mesmo modo obrigada a avançar, não só com a própria ciência, co- mo também o ser humano, sua mente e seu meio. Deus não muda por muito que avancem os tempos. É a nossa visão Dele a que varia tornando-se cada vez mais e mais perfeita. Por isso, em matéria de sexo, sexualidade, actividade, prática e comportamento sexual, é necessário que o ser humano faça um esforço para adaptar-se à compreensão de um novo enfoque espiritual que co- loca as coisas em seu sítio: apartando as ideias espartilhadas que a mo- ral impõe de forma repressiva e avisando dos perigos de uma sexuali- dade onde tudo vale desde que se consiga prazer. O ponto de vista que o Espiritismo Cristão aporta não é mais do que a aplicação e compreensão profunda do ensinamento de Jesus de Nazaré, que continua sendo, inclusive para muitos que se consideram militantes da doutrina, um grande desconhecido e incompreendido. Em sua vida e obra encontramos numerosas passagens, factos e afirmações que transmitem um profundo respeito pelo ser humano, a transcendência ética e espiritual da vida humana. Passagens como a defesa da mulher adúltera, o perdão dos ladrões, a bondade para com as mulheres da má vida são apenas alguns fragmentos onde se mani- festou a sua forma de ser. Se o Mestre aplicou a sua bondade para com aqueles etiquetados de “diferentes” ou “marginalizados” pelos seus defeitos e práticas se- xuais, porque iriam os espiritistas cristãos julgar ou taxar de enfermos, transviados e distanciados das leis divinas, aos que sentem e praticam a sexualidade de forma distinta? A sexualidade está sujeita a constantes interpretações sob muitos preconceitos ou experiências pessoais traumáticas e dissolutas.

Pessoalmente, em minha adolescência, tive os meus preconceitos sobre certas condutas sexuais fora da heterossexualidade, que contem- plava desde a cómoda posição do meu próprio critério exclusivo. Custava-me aceitar, como seguramente a muitas pessoas, algo dis- tinto como lícito e natural. Contudo, ao madurar, aprofundando o lado humano e espiritual da vida e de quem somos, ao compreender o com- portamento dos “diferentes”, cheguei à conclusão que o que torna sujo

ou elevado um acto, e por extensão a uma prática sexual, não é o que se faz, senão a qualidade do sentimento com que se faz. Em definitivo,

é a elevação moral da pessoa e o seu amor pelo outro, o que sublima

qualquer acto sexual e o separa da animalidade do seu intrínseco com- ponente instintivo. Grandes tragédias familiares e sociais têm dado motivo para que se menospreze com raiva e sátira aos que se sentem distintos da maioria. Por esta causa, voluntária ou involuntariamente, se tende a marginali- zá-los e descriminá-los, sobretudo nas épocas em que o diferente aten- ta contra a moral estabelecida. O Espiritismo Cristão carece de dogmas ou códigos sagrados, de hierarquias ou de uma figura de crédula infalibilidade, como é o caso do Papa para os católicos, capaz de impor um critério sobre cada questão da vida. Devido a isto, os aspectos da vida que Kardec, como codificador do Espiritismo, não estudou ou não aprofundou, ficam liv- res de interpretação. Eis aqui como muitas questões humanas e espíri- tas da própria doutrina se converteram em ponto de discórdias e de opi- niões contrárias, nascidas das mais variadas convicções. Não obstante, o Espiritismo Cristão também se nutre do mediunis- mo, tal como o seu codificador Allan Kardec realizou em seu tempo. Um vasto campo do saber do qual extrai o pensamento profundo, sábio

e esclarecedor dos que já não são humanos e se encontram muito aci-

ma do nosso nível de conhecimento e sabedoria. Nas minhas obras tenho-me encontrado com a oposição dos que seguem com os seus velhos hábitos e crenças personalistas militando no Espiritismo. O mais lamentável é que adoptaram aquilo que se ajus- tava às suas crenças pessoais, e o resto interpretam-no ao seu libre ar- bítrio; fora do seu contexto espiritual e original.

Viajar tem-me feito entender que inclusive estas interpretações pessoais estavam condicionadas pela influência cultural e social de ca- da país, quando o Espiritismo Cristão nada entende de partidarismos neoculturais, históricos ou religiosos (os estabelecidos em cada doutri- na religiosa, como a católica, budista, muçulmana, judaica, etc.). Antes propugna um liberalismo de todos os condicionantes, para formar um pluralismo espiritual desarraigado de todo o humano, e com o fim de forjar uma mentalidade baseada na perspectiva sublime do ser humano e não na materialista, tão exposta ao erro. Com uma atitude cerrada e exclusivista será impossível que possa- mos liberar-nos da nossa pobre condição humana, nem lograr aquela vital transformação tão propugnada pelo Mestre da Galileia em sua vi- da, quando se referia ao homem novo e ao homem velho. Próximos estão os tempos, anunciados desde antigamente, nos quais tudo tem de transformar-se notavelmente. E desaparecerão as controvérsias quando faltem as prescrições dogmáticas dos “grandes sábios”. O ser humano conquistará uma nova faceta do saber mais pró- pria do seu grau de evolução, sem estar condicionada por todo o hu- mano que o rodeia. Algum dia conseguirá ser auto-suficiente para encontrar a sua pró- pria verdade. Uma verdade que o levará a outra muito mais grande quando seja capaz de assumir que é um pequeno elo na inacabável es- piral de vida que orbita no cosmos.

Irmão Francisco.

PARTE I

ASPECTOS GERAIS SOBRE A SEXUALIDADE

Capítulo I

AMOR E SEXO

“A sexualidade converte-se no mais sensível indicador das tendências fundamentais menos visíveis do indivíduo”.

Von Gebsatell

P ara muitas pessoas aquele ditado popular de que “do amor ao ódio é apenas um passo”, se poderia aplicar a este binómio particular que é o sexo e o amor. São dois conceitos diferen- tes, amor e sexo, ainda que quotidianamente os unamos na

vida. Mas como enfrentá-los desde uma perspectiva espiritual? Como separar um do outro? Como enfrenta o Espiritismo Cristão o mundo da sexualidade e as suas repercussões na vida do ser humano? Aceita ou rechaça alguma postura ou opção dentro da sexualidade? Novamente abordo um tema da vida humana que, indubitavel- mente, está muito marcado pelas experiências pessoais. Ainda que subjacentes (inevitavelmente), o meu desejo é enfocá-lo sem perspec- tivas próprias; nem pessoais, nem dogmáticas. Estou convencido de que inclusive alguns que professam a fé espírita não estarão de acor- do com estas opiniões. Talvez este qualificativo de “escabroso”, seja o que os humanos se tenham obstinado em etiquetar, com frequência, a um aspecto tão natural como o sexo.

Sexo, liberdade e cultura

Enquanto a sexualidade humana foi um acto natural, no princípio dos tempos, nada havia seguramente se sujo, vexatório ou impuro entre os seres humanos, entregues aos seus instintos como qualquer outra espécie animal. Mas bastou que com o tempo se edificassem as culturas, e com elas os grandes princípios religiosos, para que as sociedades construíssem uma mentalidade obtusa e ortodoxa, estrutu- rando um modus vivendi “standard” ao que havia que amoldar o comportamento pessoal, ainda que pudesse ser rechaçado ou perse- guido.

Um claro exemplo disto é a postura que mantém a Igreja Católica sobre a sexualidade, cujo único fim é procriador (algo que cada vez

defende mais em boca pequena), e que devia de evitar-se o sentir pra- zer e, por conseguinte, todas as possibilidades que este oferece como experiência de conhecimento mutuo no casal. Claro que, segundo o seu ponto de vista, toda este “bacanal de prazer à romana” deve ser empregue única e exclusivamente para a procriação, já que a paróquia tem de desfrutar mais dos filhos que do carnal. Pelo menos no momento de concebe-los, pois em mais de uma ocasião se reafirma aquele ditado de “uma noite de gosto e toda uma vida de desgosto”. Paradoxos da vida, porque os que tanto têm lutado por impor uma moral impoluta de sexo asséptico, sem prazer; ou seja, o clero, têm sido os grandes difamadores e denegridores da sexualidade, e os que maiores escândalos guardam secretamente, no seu historial particular, por detrás dos muros de muitos conventos e seminários. Se surpreen- der esta afirmação aconselho uma de tantas obras profundamente reveladoras, de um bom investigador, Pepe Rodríguez: A vida sexual do clero. Revelador e escandaloso obviamente. Ainda há países onde as práticas sexuais como a felação, a sodo- mia, o lesbianismo, a homossexualidade ou o adultério são castigados com prisão ou até inclusive com a morte, pelos métodos mais cruéis, como a lapidação. Para não citar a inacabável lista de normas, ocupações, profissões, etc., da sociedade actual onde os que são “distintos” à ortodoxia da heterossexualidade, são vilmente marginalizados. Contudo, a sexualidade é algo mais, muito mais, do que uma visão tão limitada e exclusivista em mentes de tão curto alcance, tão cheias de preconceitos e de uma moral rançosa e desfasada. A terminologia sexual indica algo muito significativo: “um grego,

um francês, um cubano, um indonésio”

definir actos ou práticas dentro do amplo jogo da sexualidade. Talvez

são chavetas populares para

seja este um claro indicador de que o sexo é património do ser huma- no em geral, e não dos que ditam a moral, ou de um estatuto religio- so, por muito sagrado que se o considere.

Sexo e o seu sentido transcendente

Desde uma óptica espiritual o sexo é sempre uma prática benéfica desde que não atente contra a dignidade da pessoa, não a leve a uma degradação pessoal, nem a um denegrimento de si mesma, nem a uma dependência, nem a uma desordem interna, nem a uma margina- lização, nem a algo que represente outra coisa senão um benefício interior para ela. Infelizmente a maioria dos humanos não vêem mais além da mera prática sexual. Praticam-no fundamentalmente por prazer ou necessi- dade, às vezes quase mais por impulso do que por um deleite; na rea- lidade, longe de qualquer outra essência mais criativa, subtil ou enri- quecedora. Daí os mitos, as frases populares, especialmente de ori- gem feminina com respeito à falta de delicadeza, sensualidade e ter- nura dos homens, os que em geral se preocupam menos em encontrar um fundamento de ternura e transcendência. No entanto, ao transpor o limite do meramente humano descobri- mos outro mundo cujas concepções resultam profundas e enriquece- doras. Não me refiro a um mundo do além-túmulo, senão a um mundo de ideias, sensações e emoções de difícil interpretação desde uma óptica meramente superficial ou materialista. Transformar os sentimentos do ser humano em outros mais subli- mes é tarefa árdua em nosso mundo nestes tempos. Hoje em dia a vis- ceral voragem sexual que nos sacode, estimulada e exaltada pelos anúncios publicitários, enche de adrenalina o nosso tão açoitado cére- bro, saturando-o de impulsos que a muitos se torna difícil controlar. Quem indaga e aprofunda nos elevados cumes do sublime desco- bre na sexualidade uma força inusitada. Algo que muitas vezes vulga- riza ao meramente carnal para dar-lhe um matiz delicado e subtil. Não me refiro a práticas tântricas, que me consta aplicarem certas pessoas para despertar a libido, buscando uma essência transcenden- te. Senão a ir ao encontro do belo, do harmonioso no humano, um caminho a transitar, como é o sexo, que habitualmente marginamos na rotina diária.

Porquê e para quê praticar o sexo

As razões do porquê e para quê praticar o sexo são diversas. Cada pessoa é um mundo completamente distinto, complexo e intrincado aos olhos dos demais, isso é evidente. Nesse sentido não existem

regras, nem critérios estabelecidos mais do que os protagonistas dese- jem estabelecer. Principio e final pactuam-se num improvisado ou preparado desejo de amar-se.

E assim é porque o sexo é, ou deveria ser sempre, antes de tudo

um jogo. À margem dos sentimentos e impressões que afloram, o sexo é um campo de experiências e sensações a descobrir, e em todo o momento tem algo a transmitir-nos e a enriquecer-nos. Imaginemos o sexo como se fosse uma guerra. Inicialmente nas guerras pactuam-se uma série de condições, como as estabelecidas na Convenção de Genebra. Neste caso as duas partes contendentes sabem até onde querem chegar, quais são as suas limitações, os seus

gostos, os seus desejos. Contudo, numa guerra efectuam-se distintas batalhas e cada uma delas costuma ser diferente às demais. Requer uma estratégia e habilidade engendrada pelo génio humano, com o único objectivo de vencer. Do mesmo modo é ou deveria ser com o sexo. Um mundo em que os dois sabem aonde desejam chegar, mas pelo caminho, podem des- cobrir mil experiências e sensações.

O sexo é um dos aspectos mais criativos na vida do ser humano.

Talvez alguém possa tildar de absurdo esta definição, mas segura- mente será porque a sua vida sexual seja monótona, aborrecida, roti- neira ou, como assinalei anteriormente, de “tipo standard”. Se não, fixemo-nos nos seguintes parâmetros que se conjugam na prática do sexo:

Imaginação: Permite-nos criar um mundo de ideias com respeito ao sexo. Ideias que ao serem plasmadas no humano nos ajudam a completar e às vezes a compreender os nossos próprios vazios inter- nos. É, juntamente com a criatividade, o lado mais produtivo e frutí- fero no ser humano, pois abarca e manifesta todas as habilidades mentais e emocionais da nossa sexualidade, para conceber emoções e ideias expressas na destreza de cada um nas suas relações sexuais. Plasticidade: Na relação sexual não só são protagonistas os nos-

sos órgãos sexuais. Todo o corpo é responsável por sentir, viver e par- ticipar na sexualidade tanto de forma activa como passiva, receptiva ou emissora. As mãos, zonas erógenas, a beleza e sensualidade das formas, os odores, o tacto de cada parte do nosso corpo, etc. É um erro centralizar e focar a nossa atenção sexual nos órgãos reprodutivos. O ser humano é um ser sexual y sensual, e todo ele expressa sentimentos e emoções. Saber interpretar o mapa corporal de nossas emoções é descobrir uma importante faceta do nosso eu mais profundo. Cumplicidade: Os que participam do acto sexual vinculam-se entre si. A cumplicidade une e intensifica as relações entre o casal, solidificando as suas relações e personalidade. Pelo contrário, a falta de cumplicidade cria divergências nas relações e, sobretudo com o tempo, distanciamento e desconfiança. Sensualidade: O corpo humano está repleto de sentidos. Quando estes se activam proporcionam-nos uma carga de estímulos totalmen- te benéficos. Bombardeiam o nosso sistema límbico, sensorial e parassimpático, ao mesmo tempo que estimulam todo o organismo por meio de hormonas benéficas. Prazer: Prioritariamente é o que os humanos procuram no sexo. Porém, para além do prazer, o sexo oferece outras vantagens, outras alternativas. O prazer desperta os sentidos do mesmo modo que o faz a dor e outras sensações corporais. Submerge o ser humano num mundo de sensações plácidas que lhe proporcionam bem estar e esta- bilidade. Sentimentos: A parte emocional é, com certeza, a mais implicada no sexo. Ainda que pensamentos e sentimentos se fundam em cada acto sexual, estes últimos são os mais afectados. Implica inundar o nosso ser de uma forte carga de emotividade e entrar num jogo afecti- vo de onde os protagonismos variam segundo o jogo: possuir ou ser possuído, ser amante ou amado e milhares de variantes mais. Desejos: Passamos grande parte da puberdade e da adolescência desejando algo no sexo e de entrar na sua dinâmica. Quando este momento chega, descarregam-se nele todos esses desejos na medida em que nos permite, ou estabelece diferentes regras, a pessoa com quem os partilhamos.

Fantasia: A fantasia evade-nos da realidade que nos circunda e do nosso meio, de quem somos, inclusive da nossa própria identida- de. É com frequência uma válvula de escape que evita a saturação psíquica por problemas e bloqueios internos. Fantasiar no sexo é transgredir essa realidade com a qual não se está conforme ou nos causa mal estar, para liberar outra muito distinta, sexualmente falan- do, na qual nos ocultamos temporalmente. Vínculos: O sexo, com ou sem amor, vincula as pessoas. O sexo puro e duro não deixa de converter-se num laço comum entre indiví- duos que, mediante a prática sexual desnudaram uma parte de si mes- mos e compreenderam uma poderosa experiência. É como uma espécie de amizade improvisada, de desnudez íntima num momento determinado, que os converte em cúmplices daqueles momentos partilhados. Necessidades fisiológicas: Não há dúvida alguma que outro fac- tor importante do sexo é este. Os órgãos sexuais são glândulas hor- monais, máquinas que fabricam diversas substâncias, que afectam a profundos níveis psicossomáticos. Não são como os instrumentos musicais, que não têm outra função que não seja quando se os neces- sita para serem utilizados. Terapêutica: O sexo bem entendido e praticado, significa para o ser humano, uma terapia. E os que pensem ao contrário é porque des- conhecem a sua própria sexualidade. O abuso ou o desuso do sexo levam a situações não muito boas assim como a estados físicos, men- tais e emocionais. “Em sua justa medida está a virtude”. Estabilidade: Desfrutar de uma vida sexual sã e agradável pro- duz estabilidade, harmonia e equilíbrio psicológico. Ter coberta essa parte significa preencher um profundo espaço afectivo. No entanto, nem sempre o sexo cumpre esta função. Muitas pessoas que não des- frutam de uma vida sexual, conseguem a sua estabilidade com outras coisas na vida. Criatividade: A criatividade dispara todos os recursos psicológi- cos do ser humano com o fim de despertar a agudeza para produzir todo o tipo de estímulos. Levados à prática fomentam o engenho e a diversidade sexual, algo muito importante para lutar contra o tédio e a monotonia, aspectos que proporcionam a rotina sexual, um dos facto-

res capazes de destruir todo o tipo de relações. Conceber todos estes aspectos como parte da nossa vida sexual é, com certeza, enriquecer um acto que, por torna-lo demasiado quoti- diano, perdeu o seu lado subtil e importante na vida humana.

A cara oculta do sexo

Há que dizer que o sexo nem sempre é um mundo maravilhoso, agradável e terapêutico como eu descrevia há momentos. É evidente que, como tudo na vida, tem o seu lado negativo quando se emprega mal ou se o concebe mal. Uma sexualidade mal entendida ou pratica- da produz todos os sintomas contrários aos anteriormente descritos como benéficos. No nosso mundo os traumas sexuais têm abundado em todos os tempos. Tanto nos que existia repressão como nos de liberalismo. Uma má informação, problemas de comportamento, uma edu- cação incorrecta, uma cultura fechada, o dogmatismo religioso, pre-

conceitos, imaturidade, etc., são factores condicionantes para muitos dos problemas produzidos diariamente na vida dos seres humanos com respeito ao sexo.

O sexo nunca deve ser uma dependência nem um prazer capaz de

subjugar a vontade do ser humano. Porque então converte-se num dos tantos factores que, longe de produzir-lhe uma compensação na vida, devem ser controlados e superados como obstáculos ou provas. É muito habitual na actualidade a adicção ao sexo ou à pornografia, condutas que a psicologia já estuda como psicopatias.

Vulgarização do sexo

Vulgarizar o sexo é outra das constantes habituais na sociedade actual. A extravagância, a vulgaridade, a exaltação do sensual, aspec- tos tão comuns aos personagens televisivos, fomentam uma moda hoje em dia, e formam estereótipos sociais a imitar, constituindo uma referencia para orientar o sexo para um terreno pouco sério.

O sexo cumpre um papel fundamental na vida do ser humano.

Jamais deveríamos vulgariza-lo ou ridiculariza-lo. Nem por isso tam-

bém deve ser visto como um tabu ou algo com o qual não se possa

gracejar inocentemente ou ironizar; mas nunca convertê-lo num meio de vexação, seja de que tipo fôr.

A rotina no sexo

A rotina no sexo é, sem dúvida, um caminho que leva muitas pes-

soas a terem uma visão do sexo aborrecida, pobre e desoladora, inclu- sive até ao ponto de desprezá-lo. Quando se perdem aspectos como a criatividade, imaginação ou habilidade, é fácil cair numa espiral puramente fisiológica e onde os demais aspectos como a cumplicidade, as facetas prazenteiras, sen- suais, etc., levam o casal a uma insatisfação e a contemplar o sexo como um acto de desafogo, uma obrigação ou inclusive a algo mais desagradável. Os humanos não são enfadonhos, o sexo também não, a vida muito menos. Se o sexo se torna enfadonho é porque fizemos dele um acto mecânico, perdendo o sentimento ou reduzindo-o a coisa pior. Nunca se deve transformar em rotina algo tão fundamental e extraordinário, sobretudo porque na sua mais pura essência há por descobrir uma força inusitada, poderosa, criadora e geradora de um estado ainda não conhecido pela maioria. Os grandes iniciados do conhecimento espiritual, conheceram

esta força. Uma força que os transformou, dotando-os de capacidades incríveis. É a transmutação da natureza humana pela divina.

O sexo não é o caminho para consegui-lo. É apenas uma das par-

tes a transformar, interpretar e compreender do nosso Eu integral. Quando mudamos a nossa visão e concepção na vida também se transformam todos os valores que habitualmente havíamos interpreta- do sob uma essência humana. Todo o humano tem a sua corres- pondência com o Divino. Encontrar o caminho que vincula a ambos é tarefa de cada um na medida em que é capaz de percorrer o seu espaço interior e conhecer- se a si mesmo.

Agressões sexuais

O sexo nunca deve ser entendido como uma agressão. A violência

ou a falta de delicadeza empregada por muitas pessoas fazem com que outras entendam as relações sexuais como verdadeiras agressões. Uma coisa é o jogo aceite por ambas as partes que simula agre-

ssão ou a carícia que roça a dor, e outra é a busca de satisfação provo- cando dano ou recebendo-o. Quando se produz uma agressão sexual é necessário entender, dentro do duro trauma que tal encerra, que nada acontece ao acaso na vida e que por detrás existem causas que o pro- duzem.

É difícil imaginar para alguém cujos conceitos da vida humana se

baseiam exclusivamente no materialismo, que já vivemos outras vidas, que o nosso actual estado se encontra condicionado por esse passado e que vivemos experiências, felizes ou infelizes, pelos nossos méritos ou dívidas desse então. O sexo expressa amor, ternura. É o desejo de dar e receber prazer por ambas as partes, e não como forma de satisfazer-se apenas uma delas, esquecendo as necessidades da outra.

Querer, amar, desejar

É óbvio também que muitas vezes os humanos confundem certos

critérios com palavras que globalizam desejos, sentimentos, emoções e ideais da nossa vida e que adquiriram um significado determinado e parcial. Por exemplo, usamos a expressão “fazer amor” para referir- nos a praticar o acto sexual. Muitos pensam que amam enquanto mantém certas relações sexuais. Amor e sexo, ainda que possa parecer paradóxico, são dois conceitos que podem ser análogos e estarem profundamente ligados em alguns casos, mas muito distintos e separados em outros. Já que existe o sexo sem amor e o amor sem sexo.

Quanto sexo?

Qualidade e quantidade são qualidades que não devem necessa- riamente estar zangadas uma com a outra. Um bom coleccionista pode ter um grande número de peças de muito boa qualidade e valor, ou vice-versa. No entanto, no sexo as tornas podem mudar por com- pleto.

O mais importante é que a quantidade do sexo se ajuste a cada

pessoa. É impossível que os humanos se acoplem a ter uma frequên- cia sexual determinada, porque essas necessidades variam em cada pessoa, sexo, etc. E além disso a idade altera cada uma destas fre- quências. Todas as necessidades biológicas em cada ser humano são distin- tas, já que se ajustam a múltiplos parâmetros: fisiológicos, culturais, raciais, orgânicos, etc. Portanto, conceber e estabelecer uma medida de quanto sexo é necessário para estabelecer uma norma no género humano é coisa inviável e carente de sentido. O que para uma pessoa poderá parecer uma frequência muito grande para outra poderia ser insuficiente.

O instinto

O instinto é uma força, inclinação ou tendência motora que

impulsiona os seres vivos a realizar actos quotidianos às vezes de forma reflexa, irracional, automática ou inconsciente.

O nosso mundo encontra-se dominado por estes impulsos instinti-

vos. Todos os seres vivos se movem sob eles: a conservação da vida, a multiplicação das espécies, o instinto maternal com respeito às suas crias, o instinto de protecção, de alimentar-se, de caçar, de sobrevi-

São forças inteligentes que empurram a cada ser para uma

direcção concreta. Racionalizar os instintos é difícil. Contudo, sim, se podem domi-

nar, controlar e executar com um forte domínio de si mesmo.

O trabalho de todo o iniciado no conhecimento espiritual é dar-se

conta do domínio que os seus impulsos e desejos exercem sobre a sua vida. O segundo passo é exercer um controle sobre eles, o terceiro é

domina-los à vontade para utiliza-los com inteligência, e o quarto é excluí-los da sua vida se o crer oportuno.

A mente é o mecanismo necessário para conseguir esta potestade.

Os yoguis na Índia são capazes de vencer estes instintos com um estrito e disciplinado treino, que requer duros exercícios e muita per- sistência. Eles são capazes de vencer a dor, a fome, o sexo ou o frio mediante a férrea vontade da sua mente. Dentro do conhecimento espiritual a função de todo o iniciado

ver

não tem por que ser extirpar todos os seus instintos, senão pode-los controlar à vontade. Controlando-os evitará que o dominem e além disso encontrará o verdadeiro significado de cada um deles.

A utilização de um critério inteligente sobre os instintos carnais é

a mais acertada posição ante os seus compulsivos arrebates. Normalmente os humanos realizam todo o tipo de práticas sem pensar por um momento o que significam em sua vida. Convertem- nos em actos mecânicos e involuntários, sem encontrar nisso mais sentido que a pura rotina ou a simples necessidade.

Necessidades sexuais: o sexo

O sexo é a manifestação de um instinto físico por meio de impul-

sos e desejos que necessitam ser saciados. Originariamente os actos sexuais não precisavam de um laço afectivo. Os humanos constróem estes laços afectivos que mais tarde significam vínculos entre eles. Mas muitas relações sexuais não implicam amor. A prostituição, as relações ocasionais e a promiscuidade, etc., costumam ser relações carentes de um amor entendido como o que se compartilha num casal estabelecido. De qualquer maneira evitar implicar os sentimentos no sexo cos- tuma ser, nas relações formais, realmente difícil. E apesar de ser habi- tual chegar ao sexo depois do amor, também pode ocorrer que após uma relação sexual se comece outra relação de natureza mais afecti- va.

Necessidades afectivas: o amor

Amar implica uma forma de pensar, sentir e actuar consequente- mente para com a pessoa que se ama. O amor tem duas vertentes:

uma carnal e outra afectiva. Na vertente carnal o amor expressa-se, comparte-se e manifesta-se por meio do próprio corpo: carícias, bei- jos, abraços e todo o tipo de contactos servem de mecanismo de transmissão e de expressividade afectiva. Na faceta afectiva o laço de união é ainda algo mais profundo. A afectividade é uma área do ser humano complexa e intrincada. É dis-

tinta em cada pessoa e por isso as atenções e necessidades emocionais variam segundo cada um dos padrões que compõem o nosso carácter humano. Educação, cultura, época social, moda, tendência, maturidade ou as experiências vividas, são factores determinantes dos gostos e necessidades do afecto.

O sexo em cada idade

O sexo é um componente do ser humano variável em cada etapa

da vida. Todos os períodos da existência são verdadeiros cursos de aprendizagem nos quais, a sexualidade, se apresenta dum modo dife-

rente. Adapta-los à nossa compreensão humana segundo a maturidade

alcançada em cada um é uma tarefa primordial. É um primeiro passo para abrir a nossa compreensão para a descoberta de tudo quanto existe, guardado com desvelo no nosso interior.

A sexualidade, apesar de existir desde a infância, começa a mani-

festar-se de maneira mais ostensiva nas primeiras etapas da puberda- de e adolescência. A sua fase mais activa encontra-se na juventude. A maturidade aporta-nos temperança e serenidade sexual. A velhice, ao contrário do que normalmente se crê, não deve significar uma fase inactiva para o sexo. Em cada idade a pessoa deve encontrar umas pautas equilibradas para viver a sua sexualidade de forma que o beneficie globalmente, segundo as suas próprias necessidades e não espartilhando o que pode ser uma sexualidade sã, devido ao estabelecido pela sociedade.

Capítulo II

SEXO HUMANO E SEXO ESPIRITUAL

“O que nunca devemos esquecer é que o ser humano pos- sui duas naturezas: uma natureza inferior, animal, e outra superior, divina, às que eu chamei personalidade e indivi- dualidade”.

Omraam Mikhaël Aïvanhov

Sexo humano

A necessidade sexual representa um impulso natural, importante e

necessário que o ser humano deve adornar e embelezar com o legado que vida após vida subtrai da ciência do progresso espiritual. O que pode diferenciar o acto procriativo nos animais da sexualidade huma- na é precisamente todo o conteúdo afectivo capaz de aprofundar em novos sentidos dentro do amor e mais distanciados do instintivo. Leis divinas como a Lei de Evolução e Progresso, a Lei da Reen- carnação ou a Lei do Karma impulsionam-nos constantemente com o

fim de conseguir que o nosso enfoque e consideração para com tudo o que é de ordem físico seja cada vez menos carnal e mais espiritual; dis- tanciando-nos de tudo quanto no humano distorcione a sua essência transcendente. Não quero dizer com isto que na medida em que sejamos mais espirituais dentro da existência humana seja necessário eliminar a nossa vida sexual. Mas sim sublimar todas aquelas forças e instintos, arraigados habitualmente como bagagem e património ancestral, e que frequentemente nos impedem de ver para além deste aspecto instinti- vo e algumas vezes puramente libidinoso.

A atenção dada ao sexo humano deve transcorrer dentro dos cau-

dais naturais pelos quais brota de forma natural em todo o ser. Toda a aberração da sexualidade representa uma distorção da sua essência. Os

desvios e alterações que distorcem a imagem da sexualidade humana têm representado toda uma ampla problemática dentro do campo men- tal do ser humano, chegando inclusive a causar enfermidades em seu psiquismo e alterar gravemente a sua vida. Devido a isto, colocou-se o sexo na cauda de uma longa lista de aspectos da vida quotidiana que significam para o ser humano, em

geral, causa de transtorno, mania, delírio ou pior ainda de enfermida- de.

são algumas destas peque-

nas coisas habituais que, distorcidas por uma mente alterada raiando o anormal, têm destruído milhões de vidas. Por esta causa o sexo humano deve formar parte do íntimo de todo

o ser juntamente com os seus mais belos e intensos sentimentos. No momento em que o sexo se distancia destes princípios entra numa dinâmica puramente visceral capaz de alienar todo o sentido e essên- cia mais além do banal ou do transcendente.

O jogo, a bebida, a comida, a imagem

Sexo espiritual

Têm vida sexual os seres desencarnados no Astral? Ao desencarnar mantemos a nossa imagem terrena devido ao corpo astral ou também chamado periespírito, que não se destrui pela morte. O periespírito conserva cada parte da nossa última identidade como humanos e por conseguinte conserva os nossos órgãos reprodu- tores. Contudo, o facto de manter a nossa parte sexual não significa que conservemos do mesmo modo as mesmas exigências carnais; assim como também já não é necessário consumir alimentos que nutriam o nosso corpo físico. As necessidades sexuais variam completamente do plano humano

ao Astral. Porém, as sensações astrais são tão intensas, pletóricas e espirituais que nada convida ou atrai para algo que tenha relação com

o humano. No mundo terreno pratica-se o sexo por três razões fundamentais:

1º) Para a procriação, ter filhos e constituir uma família; é a tendência da maioria. 2º) por uma necessidade fisiológica. 3º) por prazer. No entanto, no Astral não se apresentam nenhuma destas três razões para que faça sentido praticar o sexo. Os seres desencarnados, desde o preciso momento em que se des- prendem do seu corpo material e da ligação mental que os ata ainda ao humano, deixam automaticamente de sentir qualquer tendência carnal

e, por tanto sexual. Consequentemente não manifestam necessidade alguma de prati- car sexo, visto que se desarraigaram já dele e na dimensão em que se encontram não se sentem estimulados a tal prática. Não quero dizer com isso que desde uma perspectiva espiritual o sexo seja despreciado ou se observe como uma prática baixa e deca- dente. Em absoluto; é apreciado como algo fundamental que supõem, com frequência, a integração entre os mortais de uma série de senti- mentos e laços vinculantes capazes de quebrar inclusive os terríveis grilhões kármicos de outras existências vividas no ódio, na indiferença ou na carência de amor. Porém, nem todos quantos desencarnam se desligaram de seus vícios, instintos inferiores ou dependências mentais. Durante os meus anos como medium observei muitas vezes como se manifestam desen- carnados aferrados fortemente ainda aos seus desejos carnais. Vivem atormentados por não poderem satisfazer as suas incli- nações sexuais e por isso aproximam-se dos que mentalmente os ali- mentam com as suas emanações, atando-se mais num círculo vicioso. Os seres do baixo Astral frequentemente manifestam esta tendên- cia. Todas as sensações inferiores e degradantes são alimentadas pelas suas mentes pouco evoluídas no espiritual. Contudo, à medida que se produz uma mudança nesses seres para o bem, esta tendência se vai transformando até desaparecer.

Capítulo III

COSTUMES NO SEXO E A ESPIRITUALIDADE

“É mais fácil alterar o curso de um rio do que o carácter de um homem”.

Provérbio Chinês.

C erto dia, um Mestre, quis pôr à prova os seus discípulos, assim que os reuniu todos numa manhã e disse-lhes: “Hoje vou dar-vos uma missão cheia de riscos e de responsabili- dades muito importantes. Umas para que deis testemunho

de quem sois, e assim dar o exemplo aos vossos irmãos. Outras como

meus discípulos, representando o vosso Mestre, já que ireis em meu

nome. E outras, no plano espiritual pelo ensinamento que lhes trans- mitireis”.

O mestre continuou solene: “Sei que aqui junto de mim vos sen-

tis muito bem e confortados, por todo o conhecimento que vos dou, mas há outros muitos irmãos vossos que também necessitam de rece- ber esta sabedoria que eu vos transmito”. “Chegou a vossa hora de partir para diversos lugares onde residi- reis durante um tempo prudente, com os vossos irmãos os homens, para ensiná-los tudo o que eu vos tenho ensinado”. Assim pois, se foram os discípulos para diversas zonas do con- celho onde tinham que conviver com os seus habitantes, durante um período de tempo que eles mesmos tinham que delimitar, até que o seu cometido se concluísse.

À maioria tocou-lhes viver em casas humildes e simples, com-

partilhando uma convivência austera e sóbria, comida frugal, com- panhia amena, trabalhando no lar como um membro mais da família. Aravam o campo, cuidavam do gado e durante os momentos de ócio transmitiam os ensinamentos do Mestre. Sentiam-se satisfeitos entre aquelas pessoas humildes e serviçais tanto para o espiritual como para os misteres da vida quotidiana. Mas a um deles tocou-lhe a sua estância numa rica e acaudalada propriedade. Ofereciam-lhe bons ágapes, o melhor de uma bem sor-

tida adega, uma cama confortável, belas cortesãs que estavam duran- te todo o dia atendendo ao discípulo. E este sentia-se profundamente lisonjeado e satisfeito. Frequentemente celebravam festas e banquetes em sua honra com os melhores manjares e vinhos, pelo que não tinha necessidade algu- ma de trabalhar nem de ganhar o seu sustento, como os seus outros companheiros. Sem dar-se conta passavam os dias, entre convites e festins, e aquele discípulo descuidado tornava-se cada vez mais folgazão com respeito às suas tarefas espirituais naquela casa. Não meditava, nem orava, deixou a leitura, a doutrinação, o jejum e pouco a pouco cresceu-lhe a barriga de tanta desocupação. Assim que, sem dar por isso, adquiriu os costumes folgazões daquela casa e daquelas pessoas muito dadas às grandes abundâncias e a preocupar- se pouco em crescer no sentido espiritual. Mas eis que um dia, o seu Mestre, que pressentia tudo o que esta- va acontecer pela indisciplina do seu pupilo, apresenta-se-lhe em son- hos e disse-lhe:

“Meu jovem irmão, não te eduquei para que te recreies nos pra- zeres do mundo e te submirjas nas suas vãs preocupações, Dei-te a responsabilidade de uma missão muito importante da que muitos outros dependem. E converteste-te num ser inútil para o labor que te foi confiado. Reajusta depressa os teus passos e põe-te em marcha de seguida. O teu tempo acaba-se. Lembra-te que o mal assalta na noite do descuido roubando-te o mais valioso que o ser humano possui”. O discípulo despertou de repente transpirado e inquieto, e o seu espírito reflectiu num momento de lucidez sobre o que seu Mestre lhe havia dito no sonho:

“Como hei actuado! Que egoísta!” —disse a si mesmo em tom aflito culpando-se. “Agora mesmo partirei em busca do Mestre, demorei-me demasiado por aqui sem fazer o que ele me encomen- dou”. Mas, uma vez tranquilo e sereno o seu ego cobiçoso, começou a recriminar-lhe esta reflexão, até que por fim pensou: “Que mau sonho tive, decerto que amanhã já não o recordarei”. Enquanto descansava placidamente pensava: “O bem mais valio-

so do ser humano é, sem dúvida alguma, a vida. Estou certo que aqui a conservarei graças a todos os cuidados que recebo. Não tenho por que preocupar-me”. Assim, o discípulo voltou a adormecer, sem dar-se conta de que uns ladrões tinham entrado sigilosamente em casa para roubar. Surpreenderam-no e ali mesmo lhe tiraram a vida. Quando os restantes discípulos voltaram a reunir-se notaram a ausência do seu jovem companheiro, o Mestre explicou-lhes então o sucedido dando-lhes este ensinamento:

“Na espiritualidade, meus queridos irmãos, não se trabalha por obrigação, nem forçado por nada, nem por ninguém que não seja sim- plesmente pela fé que se deposita em Deus; mas, quando esta falta, falta tudo no ser humano. Há sempre um Mestre que dormita no inte- rior de cada um, e somente com o passar do tempo desperta, se o bus- carmos no lugar adequado”. “Jamais façais as coisas nem por mim nem por ninguém, senão por vós mesmos e por Deus, porque se o fazeis por mim, que aconte- cerá quando eu partir do vosso lado? Com certeza esquecereis os vos- sos compromissos com o vosso Mestre, como o fez o vosso irmão irresponsavelmente. Por isso jamais depositeis o vosso esforço em ninguém nem em nada. Apenas em Deus, que é o que eternamente permanece com o espirito do ser humano”. Nesta singela história iniciática se encontra depositada uma pro- funda verdade: que a morte surpreende muitas vezes o ser humano descuidado do seu verdadeiro trabalho na vida material. Esse trabal- ho constante é o do auto conhecimento e o auto aperfeiçoamento.

O desenvolvimento espiritual

Se algo há de suma importância para o desenvolvimento espiritual do ser humano, é tudo quanto interiormente o possa impulsionar para que o seu caminhar, passo a passo, na vida, não se detenha nunca ante nenhuma adversidade por difícil que esta possa ser. Este difícil transito pela existência humana através do qual nós humanos caminhamos é uma constante luta, que em muitas ocasiões se torna muito difícil conseguir. É então quando a saturação, o desa- nimo, a desilusão pelo esforço que se há de imprimir para supera-la,

se torna uma factura demasiado pesada sobre a vontade e a esperança

que depositamos nos nossos mais firmes esforços, acabando por diminuir o potencial que existe para superá-los no nosso interior.

A realidade é que os autênticos Mestres, que muitas pessoas

encontram quando realmente estão preparadas, representam uma porta franca aberta para todo um mundo que em algum momento de suas vidas sentiram, necessitaram ou buscaram. É graças a esta deter- minação que muitas pessoas conseguem encontrá-lo.

O poder dos “costumes”

Muito frequentemente actuamos pela força do hábito, sem nos determos para pensar se o que fazemos com a inércia do quotidiano está bem ou mal, se é positivo ou negativo para nós, se poderíamos fazer melhor, se tem contrapartidas ou consequências não avaliadas, etc.

E o costume converte-se assim num pobre justificante ao qual

normalmente recorremos quando o que fazemos ou o que dizemos nos põe em clara evidência ante os demais.

Mais frequentemente do que pensamos somos arrastados pelo poder do costume. Vejamos e analisemos todas as possíveis facetas da nossa vida e estou convencido de que encontraremos motivos suficientes para reflectir sobre os nossos actos, mas de maneira consciente.

A linguagem humana, por exemplo. Quantas vezes não nos sur-

preendemos empregando expressões que não são nossas, mas que as adoptamos do ambiente apesar inclusive de nos parecerem pouco apropriadas.

Nos afazeres quotidianos do lar, na nossa relação para com os demais, na alimentação ou no trabalho há sempre algo que observar.

E como não, na sexualidade, que também significa uma faceta capaz

de produzir consequências graves. Os costumes são hábitos adquiridos quando certas coisas em nossa vida se tornam repetitivas. Também as tradições sociais, cultu- rais, religiosas, familiares ou laborais podem produzir um costume. Manifestam-se, como já vimos, de múltiplas e variadas formas e maneiras em qualquer canto da personalidade humana.

A importância dos costumes reside em que neles estão reunidos

todo esse conjunto de inclinações e modos de actuar, pensar e sentir que são os responsáveis pelo carácter e personalidade.

Constituem o modo usual de proceder na vida. Mas é necessário observar que certos costumes são principalmente nocivos em duas idades bem distintas: Na infância e na velhice. São estas duas fases da existência humana, onde mais risco existe para adquirir-se certos comportamentos e hábitos negativos que, de facto, vão incidir de maneira decisiva em muitas coisas essenciais na vida da pessoa.

O uso e a prática destes hábitos dão-nos como resultado uma con-

duta, a qual se transforma numa determinada forma de ser com o pas- sar do tempo. É necessário ter bem presente que os costumes com os que quotidianamente vivemos, podem ser de carácter positivo e tam- bém de carácter negativo, segundo sejam as consequências que mais tarde proporcionam ao longo da nossa existência. Quantas vezes ouvimos: “sempre procedi assim, não sei como proceder de outra maneira”, ou essa outra: “Os meus pais ensinaram- me a ser desta maneira e agora é difícil mudar”.

Costumes, moda e hábitos sexuais

Observando alguns destes costumes afirmados no ser humano, é fácil dar-se conta como muitos se convertem em verdadeiros rituais, mais fortes, superiores e poderosos que a própria vontade do ser humano. Sobretudo àqueles responsáveis pela diminuição da saúde mental e do equilíbrio emocional, como podem ser as relacionadas com a alimentação e, sobretudo com a sexualidade. Heis aqui quando os costumes negativos na sexualidade se tor- nam, sem nos aperceber-nos, em hábitos bastante nocivos; quer dizer, em vícios absurdos e destrutivos. É necessário observar que o mais preocupante é o que transcende na atitude visível para quem se encontra observando o nosso comportamento. São as daninhas viciações de certos costumes as que representam um testemunho prejudicial para com as pessoas que se deixam influir, de forma às vezes alarmante, por outras que não encontraram sufi- ciente capacidade e força interior para serem eles mesmos, nem para desprender-se desse comboio de vida de todo o absurdo, instituído e

fomentado por esta sociedade actual. Onde se costuma produzir isto com maior frequência é entre os mais jovens, os quais se vêm arrastados pelo tropel da sociedade, pela simples razão de serem muito mais receptivos na hora de captar o mais prejudicial dela, como a violência, as drogas, a delinquência, as modas e tendências destrutivas, etc., e um sexo tão desinibido como selvagem. A influência exercida pelos média neste aspecto (como no fomento da violência) é determinante na criação de modas, não só na forma de vestir, mas também na maneira de viver o ócio e, evidente- mente, o sexo. A publicidade costuma utilizar o sexo como reclame associado à marca ou ao produto que se anuncia para aumentar as suas vendas. E está provado que funciona.

Causa dos vícios sexuais

Podemos considerar como vício sexual, uma prática repetitiva e que o indivíduo não pode controlar. Arrasta a sua vontade para a repe- tição sem que o possa evitar. Considerando a prática normal da sexua- lidade como algo natural, pode chegar a converter-se num vício. Os vícios sexuais destrutivos são defeitos depravados capazes de perseverar no ser humano devido à sua pouca força de vontade. Corrompem-no tanto a nível interno, mental, emocional e espiritual, assim como fisicamente, deteriorando o seu estado de bem estar e saúde. Isto dá-se fundamentalmente pelo desconhecimento que a nossa sociedade actual tem sobre as leis Divinas, a Lei de Causa e Efeito, a das Vidas Sucessivas ou Reencarnação, a Lei Kármica e a de Corres- pondência Vibratória ou de Afinidade, são Leis Universais que o levariam a um conhecimento mais exacto do efeito das suas acções no presente e suas repercussões no seu destino e porvir. Também, poderíamos culpar à grande falta de auto-observação existente hoje em dia. São poucos os que reconhecem os seus erros, fracassos ou debilidades sexuais. Todo o mundo está melhor assim, tanto se é para bem como para mal, sem pensar por um momento que poderiam optar por serem melhores do que são, com um mínimo de esforço continuo se de verdade desejassem ser sinceros consigo mes- mos.

Porque, não devemos esquecer que o ser humano é o único cria- dor e responsável tanto da sua felicidade como do seu sofrimento, não podemos culpar realmente a ninguém de tal. Não se pretende moralizar sobre até que ponto uma prática con- creta é viciada ou não, porque isso depende mais da atitude de quem a pratica. Nem também há que esgrimir argumentos religiosos ou espirituais com o fim de criar uma barreira entre as necessidades humanas neste âmbito da sexualidade. Mas antes conduzir o ser humano através de um caminho para que compreenda a profundida- de da sexualidade e desviá-lo das atrocidades instintivas que o con- duzem a uma sem-razão e à decadência de si mesmo.

Outro elemento para ser revisto: A rotina

As rotinas são comportamentos repetitivos que tarde ou cedo che- gam a cansar em todos os âmbitos da vida: na vida matrimonial, no trabalho, na família ou no espiritual. Até no sexo representa um gran- de prejuízo e um grande obstáculo. Não é aconselhável em absoluto fazer rotina de nada, mas em especial é muito prejudicial fazer rotina de tudo o que se refira à sexualidade e à espiritualidade. Quando o sentimento religioso de uma pessoa cai no estancamen- to da rotina, produz um grande vazio interior no crente. Isto assim é por uma razão de peso fundamental: é impensável que algo brotado sinceramente do coração seja constantemente consagrado a uma ladainha cujo fim é converter-se num hábito rotineiro sem sentido algum. E isto é válido também quando se lê, se reza, se medita, se ora, se faz jejum, etc. E quanto ao que se refere à sexualidade, as rotinas vão desfazen- do cada um dos vínculos que o sexo promove no casal: cumplicida- de, sentimento, etc. Com o tempo os sentimentos se esfriam, por que muitos casais esquecem-se de cultivar os seus laços, pelo facto de terem contraído matrimónio ou viverem juntos. O amor, como o sexo, são duas acti- vidades no ser humano cujas facetas devem ser constantemente reno- vadas. São tempos de renovar-se; e tanto em matéria de amor, sexo ou espiritualidade não há desculpas suficientes para não poder fazê-lo,

nem pela idade, nem pelo tempo. Cada dia temos uma nova oportu- nidade para a inovação e reforma interior, para o desenvolvimento e para substituir o inútil pelo versátil, para um progresso revolucioná- rio em todos os sentidos e âmbitos das infinitas facetas humanas, onde de desdobram os tantos e tantos caminhos por onde fazer tran- sitar o nosso espírito, para encontrar o progresso que lhe devolva a sua autêntica liberdade. O Mestre dizia: “A Verdade vos libertará”.

Capítulo IV

OS CIÚMES

“A sexualidade assume um carácter patológico quando, traindo a ‘estrutura amorosa da existência’, se converte em simples episódio instintivo”.

V. Gesbsattel

E sta é a história de dois sábios, um jovem e outro ancião, que viviam nas margens de um sereno e tranquilo lago. O sábio jovem tinha-se tornado muito famoso por todo o país, graças à sua reputação de possuir um grande conhecimento; porém,

do sábio ancião ninguém sabia nada, era um completo desconhecido.

Um dia o sábio ancião foi ver o jovem sábio, tomou da sua barca

e foi remando até ao outro estremo da margem. Uma vez aí saudou-o

com grande honra pela sua celebridade e pediu-lhe que lhe ensinasse algumas coisas sobre o conhecimento espiritual.

Assim pois, o sábio jovem esteve todo o dia dissertando sobre a Espiritualidade, transmitindo-lhe grandes ensinamentos.

O sábio ancião, ao finalizar o dia, tomou a sua barca e voltou de

novo ao seu lar. O jovem sábio ficou muito orgulhoso depois deste encontro por ter

sido seu instrutor. Contudo, o ancião era um homem de coração nobre e sentimentos

humildes e sentia-se imensamente feliz com os novos conhecimentos que tinha adquirido. Mas, eis aqui que no dia seguinte o ancião voltou com a sua barca

à casa do jovem. Com cara triste disse-lhe:

“Estimado irmão, desculpa este pobre velho que em sua senilida- de esqueceu as lições tão sábias que ontem lhe deste. Poderias-me ensiná-las de novo?”

O jovem ensinou-lhe de novo aqueles conhecimentos e pensou

todo orgulhoso: “Que pouco proveito lhe farão estes ensinamentos se

nem sequer os retém na memória!” Uma vez acabada a sessão educativa, o ancião despediu-se agra-

decido ao jovem e para assombro deste o velho foi-se embora camin- hando sobre as águas daquele tranquilo lago.

Moral da história:

A maior aquisição, a melhor conquista é a pureza de coração; quando limpamos o nosso interior de tudo o que corrói o nosso ser espiritual, poderemos andar sobre as águas mansas da vida interior, em paz e harmonia.

Os ciúmes nas relações íntimas

Neste capítulo vamos tratar de um dos defeitos mais comuns e pre- judiciais que dão cabo da cabeça dos seres humanos, sobretudo nas suas relações mais íntimas; estou-me referindo aos ciúmes. Quem já não haverá sentido ciúmes em relação a outras pessoas em algum momento ou circunstância da sua vida? Qual de vós já não se encontrou ante outra pessoa em certas situações que lhe motivaram ciúmes por algum motivo? Vejamos então, o que são os ciúmes? Como se manifestam na nossa vida diária? Que repercussões têm na vida quotidiana, no nosso mundo interno e também na nossa vida espiritual? Os ciúmes são o inevitável produto de uma série de comporta- mentos, formas de pensar, sentir e de observar a vida, definidas e espe- cíficas, que induzem o ser humano a cair no seu frenético e arriscado jogo, pelo profundo desconhecimento que possui da vida interior e espiritual. Os ciúmes são, pois, um perigoso factor de risco que provocam disputas, confrontos, discussões e conflitos de todo o tipo que levam no fim a muitas roturas, sobretudo no terreno pessoal e íntimo, como são os de casal. Por que se produzem os ciúmes? Por que nos sentimos ciumentos em determinados momentos para com outra ou outras pessoas? Que pode motivar-nos a beber e sentir o amargo veneno dos ciúmes? Os grandes responsáveis, os denominadores comuns que produ- zem os ciúmes, sobre outras coisas, são sem dúvida o egoísmo, a inve- ja e a vaidade. Nos ciúmes pode dar-se um sentimento de perda da importância pessoal, de perda da pessoa amada (pensando que nos

pertence totalmente), de perda de uma posição ou coisa que outra pes- soa nos arrebata, ou pode dar-se tudo ao mesmo tempo.

A forma como os humanos instituíram a sociedade actual é mera-

mente egoísta, ambiciosa e ao mesmo tempo muito dominante, tre- mendamente possessiva, onde a todo o custo se quer monopolizar os sentimentos de carinho da pessoa amada e defender-se das agressões que querem tirar-nos o que nos pertence.

O desenvolvimento espiritual do ser humano: um processo lento

Desde os tempos mais remotos, e já nas tribos e formações sociais mais primitivas que povoaram este planeta, sobressaía e destacava-se de forma natural e necessária então, a figura predominante do macho. Exercia poder, segurança e domínio sobre o resto do grupo e ante outros grupos, por essa lei imperante na vida selvagem do mais forte. As sociedades matriarcais, ainda que numerosas e evidentes, eram mais esporádicas, isoladas e pequenas que as patriarcais, que são as que predominam na actualidade.

Desde então até aos nossos dias, as inclinações da vida humana, sua prática e modos de observá-la, senti-la e defini-la, se separaram no forçoso cruzar de caminhos que a Lei Divina de Evolução e Progresso propõe ao caminhante humano e grande enigma do progresso espiri- tual, como reza a lenda da esfinge egípcia, propondo-lhe um mistério a resolver, a todo aquele que cruzasse em frente dela.

O espírito humano, através do tempo, buscou no progresso alcan-

çado, reencarnação após reencarnação, outros valores, outros compor- tamentos, outras atitudes mais espirituais e menos animalizadas, cheias de um conteúdo de liberdade, de compreensão, de amor para com os demais e não de domínio, ambição e egoísmo tão opressivo. Também acontece, e dá-se o caso, de que nem todos avançam no tempo através da evolução de cada sociedade. Uma parte importante dela, por um lado, se foi apartando e distanciando dessa tendência ani- malizada ou primitiva, buscando refinar ou polir o sentido da sua existência fora dos convencionalismos impostos pelas sociedades ignorantes, que pisotearam tantas vezes os direitos fundamentais dos povos e das suas gentes, abraçando-se assim aos autênticos valores humanos e espirituais de amor, respeito e fraternidade.

E por outro lado, a outra grande parte desta humanidade esqueceu- se de despojar-se dessas velhas e caducas recordações ancestrais do passado animal, e partilhar uma vida em comum de direitos, respei- tando a liberdade do mais débil, como sejam as crianças, os anciãos, os enfermos, as minorias marginalizadas e, especialmente à mulher, que tem sido quase sempre a parte mal vista em muitas culturas. Assim, surgiram desde a noite dos tempos posturas extremas como o machismo, que é uma das causas principais e decisivas produtora dos ciúmes.

Sexo masculino superior ao feminino?

Embora no mundo espiritual não existam diferenças entre sexos definidos, porque o ser espiritual é assexual, quer dizer sem sexo dife- renciado, entende-se e compreende-se nestes níveis astralinos que o sexo é apenas uma ferramenta para progredir numa etapa precisa e específica da evolução espiritual. Somente quando se está encarnado como matéria, como ser humano. É um factor que não deverá deter- minar distinção, nem diferenciação, nem categoria alguma. No entanto, a falta de concepção da realidade da vida espiritual conduz ao machismo, a exercer sobre a mulher uma atitude de pre- potência e autoridade dominante e excessiva, que, com uma postura absurdamente cega conduz, em muitos casos, a considerar o sexo mas- culino superior ao feminino. Isto deve-se ao grande desconhecimento que existe das verdades divinas, que promulgam a igualdade de qualquer sinal de diferença dos seres, como nos ensina precisamente o Espiritismo Cristão, quer seja de sexo, raça, condição social, cultural ou religiosa; já que essa energia Cósmica e Divina que chamamos Deus criou a todos os seus filhos no mais absoluto conceito de igualdade universal. O sublime Jesus dizia-nos a respeito: “Jesus definia o amor dos espíritos, a comunidade de seus interesses diante de Deus, o desen- volvimento, o emprego das faculdades pensantes. Combatia portanto os poderes fundados sobre o desprezo das Leis de Deus e a imobilida- de do espírito decretada por estes poderes”. Retrocedendo na história, ao recordar em favor deste mal chama- do “sexo débil”, podemos ver como graças à luta de valentes mulhe-

res nos finais de século XVIII surgiu um movimento social em prol da defesa da igualdade de direitos entre os sexos, advogando a emanci- pação da mulher entre outras coisas. Aquele movimento social foi baptizado com o nome de “feminismo”.

O machismo e o feminismo não são mais que o produto do des-

conhecimento da existência de Deus e do carácter transitório da vida humana, por parte daqueles humanos que continuam ancorados no seu pretérito imemorial mais animalizado.

O ser humano conquistou em sua evolução certa independência do

instinto e da individualidade de sua consciência, em relação aos demais animais. Mas às vezes pensa que continua em vigência a lei do mais forte ao compartilhar a sua vida junto de outros de condição mais débil. Toda essa cultura do macho predominante traz consigo uma carac-

terística das relações sociais nas que se dá a dominação e a submissão,

e a consequente falta de liberdade, o que traz consigo controversos ele- mentos de desordem e separatividade, como são os ciúmes.

Os ciúmes como resposta emocional

O que são os ciúmes? Como poderíamos entender a sua manifes-

tação e como poderíamos evitar cair neles? Que representam vistos desde uma óptica espiritual? Os ciúmes, procurando uma definição comum para todos, são toda uma série de respostas emocionais que surgem de uma ampla varieda- de de estados afectivos que nós humanos sentimos. Estas respostas emocionais às que me refiro manifestam-se através

de um variado conjunto de comportamentos ou circunstancias que ser- vem de detonantes.

O impulso vital de sentir ciúmes de alguém pode surgir, no exem-

plo mais comum que todos conhecemos, quando um indivíduo receia

a perda de carinho da pessoa a quem ama. Nesta delicada situação o ciumento condicionou-se tenazmente à pessoa que ama, que pensa nela como se fosse mais uma possessão da sua vida, que lhe pertence. Não pode viver sem pensar que todo o amor, todo o afecto, todo o carinho, toda a amizade que a pessoa a quem ama possa sentir, tem que ser somente para ele.

Os inevitáveis ciúmes podem referir-se a qualquer um, porque a pessoa amada compartilha conversação com outros, porque sorri para outros ou tem atenções para com outras pessoas. Os ciúmes não só se manifestam no casal, entre marido e mulher no seu aspecto mais egoísta, mas também surgem entre pais e filhos, irmãos e irmãs, entre amigos, entre companheiros de trabalho; em definitivo, em qualquer tipo de relações humanas ainda que nem sem- pre seja forçosamente por laços sanguíneos.

Alguns pontos de vista

A Igreja Católica, com os seus absurdos e inúteis dogmas de fé, sustenta que quando se cai em algum tipo de falta ou debilidade se peca. O pecado e a sua posterior condenação é um dos mais proble- máticos tropeços deste tipo de religiões, que travam de forma irracio- nal o progresso espiritual dos humanos. Mas fixai-vos como e de que forma tão subtil uma pessoa pode fal- tar ou pecar sem ter chegado a nenhum acto externo, já que onde ver- dadeiramente começa a falta nos seres humanos é na sua própria mente, uma vez que o seu comportamento, a sua forma de actuar, e o seu testemunho, são apenas um acto reflexo, um braço executor dos seus pensamentos, sentimentos e emoções; quer dizer, de tudo quanto contém para o bem ou para o mal dentro de si mesmo. Por isso devemos perguntar-nos a nós mesmos: Quem não haverá sentido algo fora do normal, algo especial por outra pessoa?, quem não se sentirá querido quando outra pessoa lhe transmite amor, apesar dessa não ser a pessoa com a qual se tem uma relação estável? Como podemos limitar a nossa capacidade de amar a uma só pessoa? Com isto tão pouco se quer fazer apologia da promiscuidade, esquecendo o respeito pela pessoa amada. Só que estas ideias religiosas costumam fomentar tensões desnecessárias, pecados e condenações eternas, em sentimentos que são inevitáveis e que somente devem ser controlados para não encher a nossa vida de problemas sentimentais. Já que, em essência, são produto da capacidade de amar do ser humano, capaci- dade que se expressa no seu contexto social e cultural de muitas for- mas e matizes distintos.

A manifestação dos ciúmes no ser humano

Se através do Espiritismo Cristão sabemos que podemos ter tido outras muitas vidas múltiplas, relações como pais, como filhos, como irmãos, como amigos ou como inimigos, também é lógico pensar que

ao relacionar-nos na vida actual se manifestam alguns sentimentos que

estão ocultos na nossa memória passada quando nos voltamos a encontrar no presente. Não existe tal falta ou pecado, como alguns pensam, nesses inevitáveis sentimentos. Mas sim é certo que é neces- sário integrar e controlar os nossos desejos e querenças para não ser-

mos uma veleta embalada ao capricho de onde sopra o vento. Vejamos pois, qual é a mecânica dos ciúmes e como se manifes- tam no ser humano.

A suspeita

O primeiro aspecto que surge como aviso dos ciúmes é a suspeita.

A suspeita é um elemento muito comum no ciumento e nasce quando

se estabelece uma ideia insistente que se forma por indícios, às vezes

fundados, de certas situações que ele observa. Ainda que em muitas outras ocasiões são totalmente infundados e imaginários, e que o levam a cair estrepitosamente em erros e cavilações inúteis, tão amar- gos quanto desesperantes. A pessoa ciumenta costuma suspeitar de tudo e de todos. Há pessoas que pela sua débil condição de fragilidade interior afectiva e emocional necessitam sentir-se vítimas deste tipo de situações. Em muitos casos não têm provas fundadas para sentir-se assim, mas necessitam chamar a atenção do seu cônjuge e recorrem a este tipo de paródias, que podem chegar inclusive a desembocar em depressões, ansiedade, obsessões e até no suicídio num caso estremo.

O receio

Uma vez que o ciumento suspeita, a desconfiança e o medo pas- sam a domina-lo. E como não, começa a duvidar sem discriminação e a questionar-se sobre muitas coisas que antes tinha por seguras. Há sujeitos que caem numa espécie de paranóia descontrolada, com frequentes e traumáticos episódios de alucinações de todo o tipo,

onde na realidade vêem o que a sua mente quer ver. São pessoas que constróem a sua realidade particular e não vêem mais além. Ainda existem também os que, sem serem masoquistas, gostam ou têm necessidade deste tipo de situações, de sentir que de verdade são enganados, que as suas suspeitas são certas. É-lhes difícil viver sem aceitar que aquilo que suspeitavam não era real, ainda que desejassem que não fosse. Aqui é onde entra em jogo algumas das mais perigosas enfermi- dades do pensamento que o Espiritismo Cristão estuda e trata de forma terapêutica, como por exemplo a obsessão, a fascinação, a subjugação ou a fixação mental de uma série de irrealidades emocionais ou men- tais que certamente não existem senão no seu deteriorado e enfermo pensamento. E dentro de todo este jogo enfermiço de inculpados e culpáveis, precisamente quando mais debilitado o homem se encontra, intervém o mundo espiritual más obscuro, quer dizer, os seres negativos do baixo Astral. O Espiritismo tem desentranhado o mecanismo da influencia mental, em especial a que se produz com frequência entre os encarnados e desencarnados. Como também o estado dos seres que deixam o mundo físico após o processo da morte. É um trânsito que não muda substancialmente a pessoa, que mantém as suas mesmas ideias e desejos. Não é de estranhar que muitos desencarnados, longe de continuar a sua evolução no mundo espiritual, se dediquem a obsi- diar e influir negativamente nas paixões dos humanos. Os seres inteligentes e poderosos do baixo Astral sabem como ini- ciar em certos indivíduos esta bola de neve, que em cada situação deste género se agiganta mais, produzindo em cada ciclo um mal mais acentuado e uma inevitável colisão com quem os rodeia, à priori, tam- bém mais catastrófica. Incitam, escarnecem, produzem sentimentos de culpabilidade, ori- ginam pensamentos irreais quando verdadeiramente não existem; em definitivo, encenam em muitos casos uma paródia de emoções, pensa- mentos e ideias que somente levam a pessoa a pensar mal da outra. Nestes casos não são apenas os ciumentos os que caem no jogo sujo das críticas e dos comentários saídos de tom da realidade autênti- ca, senão que muitas pessoas que também são dadas a certo tipo de

comentários desta natureza, se deixam arrastar por este “dar a sua opi- nião” quando en realidade também entram no “desporto de criticar ao próximo”, baseando-se nas meras suposições. Um dos ensinamentos de Jesus foi amar ao próximo mais que a nós mesmos. A razão, a prudência e o amor que sentem pelo próximo, devem estar sempre acima de todas estas situações que não fazem senão comprometer-nos com um futuro kármico doloroso.

O Mestre dizia-nos:

“As condições de família carnal encerram os altos propósitos do Pai, que, mediante elas, sabiamente fazem brotar os mais belos senti- mentos entre esposos, entre pais e filhos, entre irmãos e irmãs, trans- formando os ódios, momentaneamente ocultos pelo véu da matéria, em estreitos laços de afecto, que vão logo entrelaçar os membros da família espiritual em pontos em que a recordação de ofensas ou o

desejo de vingança deixaram lacunas de obscuridade no meio de cam- pos de luz. É portanto na Fraternidade Universal sobre a qual o espíri- to deve repousar, encontrando nela o fim dos seus tropeços na rota e sobre ela a base eficaz para a sólida edificação do seu porvir, como anjo de luz, Mensageiro do Senhor”. Às vezes, a pessoa vítima dos ciúmes chega a sentir-se provocada pela vigilância do ciumento, que chega ao estremo de contratar os ser- viços de um detective privado, ou fazer investigações por si mesmo. Lembro-me da experiência vivida por um detective privado que foi contratado porque o marido de uma mulher se ausentava várias horas, durante certos dias por semana sem dar explicação alguma ao seu côn- juge. Devido ao seu trabalho, este homem, relacionava-se com jovens e belas secretárias. E sua mulher, como é normal, pensou que o seu marido a enganava.

O que não se esperava esta pobre vítima do engano foi o que o

detective que havia contratado descobriu no final das suas pesquisas. Depois de seguir o marido durante vários meses descobriu que o homem lhe era de todo fiel, pois tendo oportunidade de fazê-lo não a enganava em absoluto. Farto do receio e das insistentes suspeitas da mulher, refugiava-se num lugar fora da cidade para estar tranquilo e praticar uma afeição favorita nos seus momentos de ócio.

A rivalidade

Uma vez que os ciúmes atingem estas fases de suspeita e de receio chega-se a produzir a rivalidade.

A rivalidade é uma contenda que leva à zanga e à disputa, que

facilmente desemboca numa inimizade bastante dolorosa, porque durante a rivalidade produzem-se actos e situações muito desagradá- veis e traumáticas. Em algumas ocasiões chega-se infelizmente a muito mais longe:

maus tratos, insultos, vexações de toda a classe, inclusive ao crime quando os ciúmes transbordam numa mente que perde a razão e o sen- tido comum, pelo facto de sentir-se ultrajada e enganada em seu amor próprio.

O evitar cair nos ciúmes, ainda quando se tenha razões que sobrem

para tal, não quer dizer que sejamos partidários do “amor livre”, que muitos converteram numa libertinagem de relações físicas; no, toda a

pessoa que se una a outra numa relação, contrai um compromisso enquanto está unida a ela, só que a forma em que possa compartilhar esse amor pode ser natural e sem ciúmes, ou egoísta e enturvado por este veneno causante de perturbantes disputas e confrontos entre os seres humanos. Analisemos como são as relações afectivas e matrimoniais na generalidade do nosso mundo, assim como o carácter e a natureza do amor humano e veremos que é totalmente dependente de uma atitude excessivamente possessiva.

Este tipo de condutas possessivas traduzem-se por um reiterado comportamento que trata de controlar e absorver de forma excessiva o meio emotivo e afectivo da pessoa amada.

O facto de estar unido a outra pessoa coadjuva, na mentalidade

dominante dos homens, o risco e o conseguinte receio da perda de carinho da pessoa amada, pela presença de uma terceira pessoa, ou seja, um rival. Como ocorre em muitos casos, o homem ou a mulher que partilha a sua vida com uma pessoa ciumenta, deve perder ou anular, pela força autoritária do seu par, a força instintiva e natural de sua sexualidade em relação ao sexo contrário. Para que se entenda melhor: a mulher que se casa com um marido ciumento, ou vice-versa, já não pode

atrair-se por nenhuma faceta de outra pessoa para além do seu único e exclusivo cônjuge. Contudo, é natural sentir atracção por outras pessoas, já que é muito difícil que a pessoa com a qual compartilhamos a nossa vida nos proporcione todas as necessidades afectivas e de casal que tenhamos.

E ainda que inclusive assim fosse, acaso não é natural sentir-se atraí-

do pela beleza ou por uma pessoa que tem certo atractivo?

Deve-se sempre guardar distancia para que não pareça ter interes-

se por outra pessoa, não poder ter intimidade nem ter certas confianças com determinadas pessoas, sobretudo se sentimos carinho especial por elas. Em culturas como a muçulmana dá-se mais este tipo de situações.

A mulher vive somente para o marido e para os filhos, deve cobrir o

rosto e sair acompanhada. Todos podemos recordar a que extremos levou o regime dos Talibães sobre estes preceitos no Afeganistão. Ninguém nos pode forçar a coarctar o facto de sentir. E é muito perigoso tentar que outra pessoa sinta como nós desejamos que o faça; porque então anulamos a sua parte íntima, evitando que seja ela mesma. Quando se atinge este ponto tão conflictivo advém indubita- velmente a inimizade, a desavença entre as pessoas, e muitas vezes a impossibilidade de reconciliação.

A inimizade

Durante a inimizade produzem-se com mais frequência, os cho- ques e altercados de todo o género, e onde já é muito difícil voltar a

trás para resolver o que às vezes é irremediável, pelo caos tão crítico a que chegaram duas pessoas.

A maioria das inimizades que se produzem pelos ciúmes levam ao

penúltimo ponto do nosso estudo, que é a separação.

A separação

A separação considera-se por vezes como uma terapia necessária

ou tratamento curativo para recapacitar, para tentar, na solidão, curar

os males de certos comportamentos ou atitudes negativas, ainda que normalmente estas desagúem numa ruptura sem solução.

A ruptura

Muitas destas relações humanas chegam, de forma insalvável, à crista da onda dos ciúmes: a ruptura, último degrau que representa o escalão terminal desta história.

As rupturas de qualquer género são o produto natural de não obser-

varmos nem praticar, na vida humana, os conceitos espirituais que eli- minariam de uma só pincelada os tantíssimos fracassos nas relações humanas com o consequente karma adquirido. Porque, não devemos esquecer que o ser humano é a consequên- cia das suas responsabilidades espirituais tanto quanto humanas, em

todas as facetas da vida. Uma vez passado ao outro lado da vida, ao

mundo espiritual, se lhe exigirá, como conta pendente a saldar, numa nova existência, tudo quanto não tenha feito nesse sentido: em favor da transcendência.

A vida em espírito, tal como nos mostra o Espiritismo, abre a

mente para uma extensa visão tão ampla como o próprio Universo, já que somente a curta visão humana pode produzir fenómenos tão carentes de amor e tão limitados como os que já vimos. Recordemos que tudo o que atesoramos na vida física se enquista profundamente na nossa faceta humana, incrustando-se no nosso ser

espiritual; se é positivo nos será uma grande bênção para o nosso pro- gresso, mas se é negativo nos custará dolorosos momentos nos quais

o bisturi do karma intervenha para extirpar o mal enraizado pelo nosso mau procedimento. Pensemos que se algo em verdade nos pertence é a nossa própria vida, e que uma vez cruzada a barreira que nos cega o coração e a mente, seremos testemunhos de excepção de uma nova realidade mais eterna, mais em consonância e harmonia com a nossa autêntica ori- gem, com Deus. Uma mulher é igual a um homem, tanto como um homem é igual

a uma mulher. Deus confunde em seu imenso Amor um mesmo senti-

mento, o homem põe, devido à sua ignorância, barreiras e distinções entre tudo aquilo que é diferente: o sexo, a cor da pele, as crenças, a fé, etc. Somente um amor concebido por Deus se pode entender como uma síntese absoluta de todos os sentimentos e emoções que engran- decem a alma do ser humano.

Jesus, máximo expoente do amor sublime e divino, deixou-nos um legado de axiomas muito importantes para a nossa vida: “Que o Amor vos liberte”, “ama ao próximo como a ti mesmo”, “comfundei aos homens com o vosso amor”, “só pelo amor será salvo o homem” Reflictamos profundamente para alcançar uma luz de proveito e claridade sobre estes conhecimentos. Que tenham a qualidade de ser úteis em nossa vida diária, porque esse é o campo que, muitas vezes sem sabe-lo, nos torna melhores e maiores.

Capítulo V

A CONSCIÊNCIA

“A consciência é uma zona neutra, uma zona franca onde elementos e forças de diversa natureza vêm dar a sua opi- nião e a expressar-se na medida em que as circunstâncias o permitam”.

Omraam Mikhäel Aïvanhov

A vida é um grande ensinamento quando se sabe penetrar na sua essência. Através dela, polimos por um lado, tudo aquilo que ofusca a nossa pessoa e que se afirma em nós pelos maus hábitos de vida. E por outro lado adquirimos

valiosas lições que ampliam o poder de visão no mais interno e pro- fundo do nosso ser. Esta aquisição do conhecimento acerca de quem somos realmen- te, mais além da pessoa que animamos, como somos e do que possuí- mos dentro de nós próprios, nos vai oferecendo a possibilidade de encontrar no interior de cada um valiosas ferramentas com as que progredir e avançar na luta diária desta difícil vida. Deus, como fonte infinita de bondade e misericórdia, dotou os seus filhos de todos aqueles elementos com que caminhar pelos mun- dos escola, como é o nosso planeta Terra, com uma clara orientação que lhes permita processar seus passos pelos longos caminhos por Ele traçados. O destino de todo o ser humano, mais tarde ou mais cedo, é o mesmo: alcançar a sabedoria, chegar à perfeição. E isso é valido tanto para o mais primitivo dos humanos como para o mais adianta- do.

A consciência

Um destes importantes elementos dos que todos somos portado- res, para alcançar uma melhor posição, é a consciência. É muito extensa, actuando em grande parte e de forma profunda em múltiplos aspectos do ser humano. A consciência manifesta-se no ser humano como o eco de uma voz com vida própria e inteligente, que orienta a personalidade huma- na em cada instante, acto, pensamento ou sentimento que esta produz.

Também madura e progride como o ser humano no transcurso do

tempo, e das situações que o comprometem a tomar determinações ou decisões importantes.

A consciência exerce uma pertinaz influencia sobre a nossa vida;

quer dizer, actua no sentido da responsabilidade das acções do indiví- duo alterando o seu estado psíquico e emocional. Proporciona satis- fação e regozijo interno, quando opera de forma correcta na vida; e repudio e remorso quando procede ao contrário, transtornando a sua emotividade e saúde, anulando nos casos graves o sentido prudente do bom raciocínio. Neste último caso, a alma libera no espírito o que conhecemos como sentimento de culpabilidade, remorsos que são um sinal para endereçar o mau proceder na vida. Contudo, já conhecemos sobeja- mente como o ser humano é capaz de tornar-se surdo aos seus avisos.

A consciência no desenvolvimento interior

Nos seres pouco desenvolvidos no conhecimento da verdade, a consciência carece de força ante a indefinida personalidade, ainda primitiva na razão e no desenvolvimento espiritual, pois está ampla- mente subjugada à vasta brutalidade do instinto animal, que se arraiga no ser desde os seus inícios. Mas aqueles que já alcançaram certo grau de lucidez e conhecimento, considerando-se plenamente respon- sáveis dos seus actos, adquirem maior responsabilidade, já que são possuidores da sabedoria necessária para actuar sempre em con- cordância: a sua consciência está mais desenvolvida e a responsabili- dade de todos os seus actos é maior. Não podemos, portanto, respaldar a nossa consciência, educada e instruída na verdade, nos seus falsos e titubeantes passos, quando esse conhecimento é suficientemente extenso para proporcionar-nos o impulso necessário, e para que a nossa vida física decorra sempre de forma paralela aos sentimentos orientadores aos que esta instruída consciência nos induz constantemente.

Consciência superior e consciência individual

A consciência actua em relação com o plano em que cada ser se

manifesta e se relaciona. Depende do grau de liberação do espírito sobre a matéria que anima, e do conhecimento que se tenha de Deus. Não se trata de ser um fervoroso conhecedor da religião do nosso mundo, senão de viver com autenticidade a verdadeira religião: A religião universal, que é o sincero sentimento de união com Deus no nosso interior, e que desperta insuspeitáveis potencialidades ocultas do ser humano. Mas de forma global podemos estabelecer as seguintes defi- nições:

—Consciência superior ou livre: todas as suas manifestações fora do ser encarnado. —Consciência individual ou humana, é a que toda a pessoa pos- sui na vida física. Cada uma trabalha e existe no seu meio comum e natural, mas ambas se conjugam na orientação do ser humano sobre os mundos físicos.

La consciência superior

A consciência superior é própria do ser espiritual e constitui para

ele um centro elevado que projecta sentimentos, positivos ou negati-

vos, relativamente à atitude da personalidade adoptada em diferentes decisões e determinações.

O nosso Ser Espiritual rege-se por dois princípios. Um é a Alma,

que é a parte à que correspondem os sentimentos, sensações e emoções. Outro é o aspecto da inteligência e da razão. A alma é a

portadora da Consciência, que é a voz da alma na recolhimento e no silêncio de cada um, convertendo-se na consciência do espírito.

A consciência superior actua tanto a nível interno ou espiritual

como a nível externo ou humano.

A nível espiritual ajuda-o na formação de conceitos, actuando na

classificação de ideias e enquadrando o valor de cada um. Na parte humana o predispõe, ante as situações com que se en- frenta, a tomar decisões e actua do mesmo modo nas suas relações humanas e compromissos a realizar. Também entra em relação com o seu conceito-ideia de Deus e a identificação com o seu ego pessoal.

A consciência individual ou humana

A consciência individual ou humana é o reflexo da consciência

espiritual no humano. É bastante precária e torpe pela sua falta de desenvolvimento nos factores de perfeição e conceitos elevados. A

consciência espiritual perdeu a sua clareza e sensibilidade ao interpe- netrar no corpo físico. A sua capacidade de ser a voz regente dos actos humanos depende de muitos factores: desapego do egocentris- mo, desejos de fraternidade e caridade, desejos espirituais, karma, recordação de outras vidas, etc. Em definitivo; quanto mais se despo-

ja das baixas paixões e do egoísmo humano, mais claramente terá a

sua consciência.

O nível de maturidade da consciência humana depende do grau de

evolução que o seu espírito alcançou na superação das experiências vividas e que traz na sua existência presente. Mesmo que não sejamos plenamente conscientes de todos os con- hecimentos adquiridos, estes permanecem latentes no interior da memória espiritual, que o espírito guarda, a modo de arquivo. Deus, desta maneira, permite que não se perca nem um ápice de conheci- mento que possa servir-nos de ajuda ou progresso. Assim, a consciência converte-se num livro educativo nos camin- hos da evolução que nas vidas sucessivas nos aproximará de Deus, com infinitas páginas escritas e outras muitas que escrever. As primeiras páginas escrevem-se com as experiências vividas em cada uma das vidas físicas e as páginas sucessivas se escreverão com as experiências que ainda temos que passar e superar. Após a morte ilusória, trânsito do espírito encarnado para o mun-

do espiritual, a consciência adquire a lucidez plena quando clarificou

o seu novo estado, activando-se a sua memória sobre o passado na

medida em que o seu grau evolutivo e capacidade lhe permitam. No Astral fica, portanto, a consciência também como ferramenta importante para o espírito, que desafogada das limitações físicas passa a ser a guia mais fiel de todos os seus impulsos. Eis aqui de que forma se manifesta esta consciência superior. Quando desperta, estimula e desenvolve, produzindo no espírito essa ânsia e necessidade pela busca do conhecimento e da verdade. Quando a sua consciência individual chega a entrar em estreita

relação com a sua consciência superior, exerce no ser humano o seu papel mais importante. Assim o seu ego pessoal anula-se paulatina- mente, afirmando dessa maneira conceitos e ensinamentos no tocante ao amor fraterno e na personalidade universal, próprios de um espíri- to que avança na fusão com Deus. Esta inclinação, que produz tendências investigadoras em seu espírito, é na realidade uma maneira de reconhecer o caminho do desenvolvimento espiritual a seguir. É então quando anela cada vez com mais força assimilar e afirmar em si mesmo todo o conhecimen- to necessário para adquirir a sabedoria que tanto necessita.

Factores que influem na consciência

Existem múltiplos aspectos da nossa vida que influem na cons- ciência, estabelecendo assim certos critérios formados pelo que o mundo, em sua ignorância, obscureceu. Factos onde uma consciência impregnada do que é o amor puro expressado entre dois seres, podem ser interpretados erroneamente, rotulados e recriminados pelo mundo, quando não é mais do que um sentimento liberado e limpo de amor no qual sempre se expressa a quinta-essência de Deus que existe em nós. Outro factor que incide de forma importante na consciência é a dor e o sofrimento, infelizmente, tão referido nestes tempos, neste planeta. Este permite à consciência individual de cada um sensibili- zar-se com o transcendente, liberando-se do mundo das sensações, para sentir e perceber com maior clareza se a consciência superior o comanda e dirige. A consciência pode receber múltiplas influências e operar depen- dendo da natureza destas. Desde o Mundo Astral, para quem conhece a realidade viva do espírito, é evidente que os seres que o conformam exercem sobre os humanos múltiplas influências. Estas influências, que podem ser benéficas ou perniciosas, actuam de forma decisiva e contundente ao longo da nossa vida, embora o espírito se veja amplamente limitado por não ser este o seu meio mais adequado para manifestar as suas grandes capacidades. Quando as forças subtis da luz penetram na consciência e inva-

dem o espírito, estimulam-no e impulsionam-no para que possa sobrepor-se a qualquer circunstância difícil ou penosa à que se enfrente na vida, e orienta-lo para o conhecimento profundo da verda- de que há-de conduzi-lo para uma mudança decisiva em todos os âmbitos da sua pessoa. O outro aspecto da influência, o negativo, coarcta a consciência, privando-a da lucidez necessária para albergar nela o raciocínio sufi- ciente e actuar no sentido correcto. Isto só poderá produzir-se num tempo determinado, até que a pes- soa por ela mesma interrompa a acção perniciosa desta perturbadora influência. A oração, a meditação em relação ao transcendente e uma vida distanciada dos maus costumes, são fórmulas que fortalecem o espírito e aos mecanismos de que se vale, para proteger-se dos graves impactos aos que todo o ser encarnado está submetido pelo tão lamentável estado do planeta, dominado pelo caos e pelo ódio. Todos os que habitamos este mundo podemos ver-nos afectados pelos dois tipos de energias, mas também possuímos uma característi- ca interna capaz de repudiar a uma e aumentar a capacidade da outra:

o poder da nossa mente. Ambas se conjugam frequentemente na vida, pondo-se de mani- festo em cada um o livre arbítrio, pois Deus nos oferece os dois caminhos como prova evidente e decisiva para repudiar um e afirmar- nos por completo no outro. Como disse Jesus: “Não se pode servir a dois senhores, porque se servimos a um ofendemos o outro Na medida em que o ser humano se responsabilize de seus actos e adquira os numerosos ensinamentos que a vida lhe proporciona, vai- se situando no círculo de ideias e conceitos elevados na moral e no bom senso, afastando-se do erro e do fracasso produzidos pela imper- feição no sentido das coisas da vida. Depois de muitos erros vai-se aproximando cada vez mais da per- feita imagem de Deus, plasmada na minúscula essência que completa o seu ser espiritual num contínuo ir e vir à matéria, aprendendo a lutar e sobreviver num mundo rude e hostil, mas grandemente útil para um maior e mais rápido progresso; liberando-se ao mesmo tempo de cargas e dívidas passadas acumuladas no karma pessoal e intransferível do qual todos, sem excepção, somos portadores.

Somos parcelas infinitamente pequenas de Deus. E esta verdade permanece inegável nas consciências de todos os que sabiamente ten- ham chegado a descobri-la.

PARTE II

O ESPIRITISMO CRISTÃO ANTE A SEXUALIDADE

Capítulo VI

O COMPORTAMENTO SEXUAL

“A transmissão de conhecimentos através da criança per- mite uma continuidade de comportamentos de uma geração a outra”.

André Langaney

S e buscamos encontrar uma resposta profunda e plena de sig- nificado no intenso campo da sexualidade, querendo chegar inclusive à sua essência criativa na vida do ser humano, devemos analisar detidamente, sob um ponto de vista neutro

e objectivo, os diversos condicionantes do comportamento sexual

humano, (inclusive até por razões kármicas, reflexão que se tratará em sucessivos capítulos). Antes do mais há que discernir três posturas a ter sempre bem pre- sentes no momento de abordar este tema ou qualquer outro:

1.- Há que respeitar a todos, porque é justo que cada qual seja, pense ou sinta como lhe apeteça; claro está, desde que não atente contra a liberdade dos demais. 2.- Não se deve julgar ninguém, porque afinal quem somos nós; na realidade, não estamos à altura para poder opinar superficialmen- te.

3.- Há que distinguir, em todo o momento, o que advém de todo

o comportamento cabal, humano e sensato —dentro de como expres-

sa cada um a sua própria sexualidade— de todo aquele comporta- mento ou conduta que destrói os valores morais do homem ou da mulher, humilhando ou rebaixando a dignidade humana. Em sucessivos capítulos, vamos abordar certos comportamentos sexuais com o fim de chegar à necessária conclusão e raciocínio de todos eles.

O comportamento ou conduta sexual

Como podemos definir o comportamento sexual na vida huma- na?, como classificá-lo?, como defini-lo? O comportamento sexual é a conduta pessoal dentro da sexuali-

dade. É a forma pela qual o ser humano gere as suas apetências ou gostos internos e dirige as suas emoções e paixões sexuais.

O comportamento sexual tem dois níveis. Um é o que implica a

satisfação do próprio indivíduo, outro é quando existe uma relação com uma segunda pessoa. Neste segundo caso, no comportamento sexual entra em jogo a cumplicidade de uma linguagem corporal, de emoções e sensações que transmitem e recebem todo o tipo de estí- mulos em que ambos participam.

O comportamento sexual nos define a cada um. Actuamos conso-

ante a necessidade que manifestemos, segundo seja também a nossa concepção do sexo e das experiências que tenhamos vivido a seu res- peito na vida.

Manifestação do comportamento sexual

No comportamento ou na conduta sexual normalmente costuma manifestar-se uma certa possessão sobre o parceiro. Porém, segundo os ideais que estamos adquirindo dentro da crença espiritual, a pos- sessão tem conotações e pontos de vista totalmente díspares. Por exemplo, aqueles em que o seu carácter é tremendamente egoísta e ambicioso, vão interpretar a sexualidade e a sua atitude ante ela, de uma forma completamente possessiva, a nível de domínio exclusivo sobre o seu parceiro, quer dizer, vão exercer um poder e uma superioridade que vão pressionar e forçar o seu cônjuge pelo direito que crêem ter sobre ele ou ela. Este domínio que avassala de forma autoritária homens e mulhe- res nas suas relações sexuais, produz graves e irreparáveis conse- quências, como se fossem terríveis “enfermidades” que corroem os sentimentos humanos envenenando, de acordo com isto, as suas relações íntimas. Como produto da possessão egoísta surgem diferentes posturas como os ciúmes, o machismo, as invejas, a rivalidade, a descon- fiança, a suspeita contínua e injustificada e sobretudo uma intranqui- lidade constante que chega a romper a relação e separar o casal. Contudo, se entendermos a possesão, nesse comportamento sexual, de outra forma muito mais profunda, mais espiritual, se assim podemos defeni-lo, dar-vos-eis conta que possuir é sinónimo dos sig-

nificados que diferem por completo do sentido egoísta. Estes significados são:

1.- De ambição, de ser temporariamente dono de algo passageiro que se compartilha, mas que fica para sempre impresso em seu inte- rior, já que o Espírito no esquece jamais o que ama. 2.- De responsabilidade, de ser o responsável por uma vida que está a seu cargo e que deve cuidar e respeitar, como se costuma dizer:

Até que a morte os separe.

Formas do comportamento sexual

Cada pessoa é um mundo, e o comportamento sexual varia com respeito a muitos factores da vida humana, sobretudo com a idade e com a forma de entender a vida. Mas esse fogo que os dois compo- nentes do casal devem manter, uma vez que diminui ou se extingue, há de permanecer a luz e o calor de esse fogo, embora as chamas que pertencem ao carnal, no que diz respeito às suas emoções e sensações, se tenham consumido. Os humanos, e sobretudo a juventude dos nos- sos dias, vivem e mantêm-se unidos frequentemente, pelo fogo e pelas chamas das suas condutas sexuais; porque a sexualidade não deixa de ser uma energia potente que há que saber conhecer e domi- nar na vida. Por isso entendereis agora o sentido que pode ter a sexualidade na relação com o Conhecimento Espiritual. Sim, o nosso comportamen- to sexual baseia-se nesse fogo interior que todos sentimos. Mas pode- mos cair no perigo de consumir rapidamente a fogueira dos nossos impulsos quando não a dosificamos com prudência. Há que utilizar a táctica que usam os camponeses para queimar as ervas daninhas dos seus campos. Vão controlando o fogo à medida que se vai estendendo, apagando por um lado, avivando-o por outro, sempre por onde é mais benéfico. Eis aqui um procedimento exem- plar e prudente. Contudo, muitos casais dão rédea solta e tresloucada ao seu fogo interno nos primeiros meses ou anos das suas relações. Assim, num breve prazo de tempo chegam a consumi-lo e já não lhes satisfaz. Então, sem esse interesse passional, muitos dão-se conta de que já não se suportam e acabam por separar-se, quando o principal, que para eles é viver e sentir pelo, e para o sexo, já não os une.

O fogo do seu descontrolado comportamento sexual arrasou e

consumiu, não só as ervas daninhas do campo, senão também o celei-

tudo se tornou pasto da insensatez. Este é o

autêntico problema sexual dos humanos ao não conceber que o tempo é uma razão para meditar e progredir, não para demoli-lo ou aniqui- lá-lo completamente como o faz um ciclone à sua passagem.

ro, a casa, a colheita

Os distintos aspectos que expressam o comportamento sexual

Certo é que a continuidade do nosso mundo se desenvolve por meio de um ciclo natural composto por dois pólos opostos: o femini- no e o masculino. Sem eles a nossa espécie não poderia subsistir nem desenvolver-se. Isto é evidente e não há dúvidas a respeito. Na nossa cultura judaica-cristã estamos mal habituados a pensar que, tal como nos quer fazer crer a Igreja, a vida sexual dos humanos se baseia exclusivamente no modelo exemplar que nos deixaram os seus personagens mais antigos: Adão e Eva, da fábula do paraíso terreno, ou à incorrecta e manipulada interpretação que fizeram da vida de Jesus, criando o celibato para os religiosos como via para alcançar a graça de Deus. Contudo, as diversas expressões pelas quais a sexualidade se manifesta na humanidade do nosso mundo, não se podem reter nem conter em cânones tão estreitos como numa caixa de fósforos. As emoções e os sentimentos na vida são inclassificáveis e não se podem conter. Não é possível guarda-los num tubo de ensaio nem espartilhá-los como uma norma, porque cada ser expressa e vive a sexualidade de maneira totalmente distinta. Alguns dos factores mais importantes que a modelam são: a sua necessidade humana, a sua ili- mitada imaginação e fantasia, a manifestação do seu karma na vida, as condições da sua formação como humano na sociedade, os costu- mes, a tradição, o meio social ou racial, os complexos, as fobias inter- nas ou os traumas; a lista seria inacabável. Uma sociedade e cultura oprimida pelas normas impostas por uma fé religiosa equivocada, carente de amor e de respeito, não pode dizer ao ser humano sem mais nem menos como há de sentir para não condenar-se eternamente pelo pecado mortal da luxúria. E muito menos quando os religiosos dão um exemplo tão denunciável.

Continuamos observando como a Igreja segue fiel ao seu: Faz o que eu digo e não o que eu faço. O respeito para com o que cada um sente em seu interior, é fun- damental quando se trata de tentar compreender ao próximo, ao nosso irmão. Quando alguma pessoa me procura para consultar-me sobre algo íntimo, não trato de julgá-lo em absoluto e muito menos condená-lo pelo que é, sente ou faz; visto que eu nada sou para dizer-lhe se o seu comportamento íntimo, os seus sentimentos e emoções vão ou não ser aceites pela sociedade, ou se estão dentro das suas normas e, por tal, deva ou não de continuar fazendo-as. Tento compreende-lo respei- tando-o como gostaria que me respeitassem também a mim. E com essa atitude, aconselhar ou orientar para que a pessoa reflicta e livre- mente decida por ela mesma. Portanto, aproximemo-nos sempre dos demais, nossos irmãos, não para recriminar-lhes qualquer comportamento na sua conduta sexual, senão para, com amor e carinho, aconselhá-los, no sentido de orientarem o seu comportamento sexual como uma essência criativa interna que os conduza a um desenvolvimento moral e espiritual posi- tivo.

Capítulo VII

MODOS DE EXPRESSAR A SEXUALIDADE

“A mudança mais importante foi que a sexualidade se con- verteu num dos factores mais gratificantes da vida humana, o que influiu nos hábitos e comportamentos”.

Carlos Malo de Molina

Q uando se trata de emitir uma opinião sobre um comporta- mento sexual determinado, alheio ao nosso e à nossa ma- neira de pensar ou sentir, é imprescindível não deixar-se le- var por uma opinião que se baseie somente na nossa forma interna de sentir, observar ou viver a sexualidade.

Critérios para julgar o comportamento sexual

Um homem não pode sentir cem por cento como uma mulher, da mesma maneira que uma mulher não pode ter os mesmos sentimentos

internos de um homem, não até esses extremos —embora na homos- sexualidade os pólos sexuais de ambos se invertam até um certo pon- to—, já que os seus corpos são distintos, tanto como a forma em que interiormente vivem a nível de emoções, sentimentos, etc. Os distintos critérios e opiniões que as pessoas emitem para julgar

o comportamento sexual, partem das próprias referências pessoais que cada um recolheu nesse terreno da intimidade.

É certo que todo o mundo tem direito a opinar. Porém, uma coisa é

opinar e outra muito diferente é julgar os outros pelo seu comporta- mento, sentimentos ou formas de actuar. Outra ainda mais grave é condenar aos que são distintos, por razões que estão fora da nossa for-

ma de sentir e compreender, quando, além do mais, desconhecem as

Leis Divinas tão fundamentais como são a Lei da Reencarnação ou a Lei do Karma, entre outras.

A nossa atitude deve ser de fraternidade, começando pelo respeito

e compreensão, para tentar assim entender (ou pelo menos respeitar)

aqueles que têm necessidades internas a nível sexual diferentes, ou contrárias às normas de conduta que a nossa sociedade impôs e forma- lizou como modelo de vida.

A falta de respeito, além de muitos preconceitos que se tem a res-

peito, e a prepotência que o ego manifesta (com o seu machismo ou no caso da mulher com o feminismo absolutista) são factores que incenti-

vam a condenação de certas atitudes sexuais. Mas, acima de tudo, e

com mais intensidade, desde que a enfermidade Sida se tornou presen- te na sociedade dos anos oitenta no século vinte, com o medo e a má informação que existiu sobre o contágio, além da marginalização que se cerne sobre aqueles que o padecem.

O medo e o desconhecimento foi sempre um factor determinante

nas causas que produzem na humanidade os distanciamentos entre os

seres humanos: o racismo, a xenofobia, a marginalização social, etc.

A nossa forma de vida está baseada na nossa cultura e a nossa cul-

tura determina também a forma pela qual pensamos e observamos a vida. Reflictamos: se a nossa cultura estivesse baseada em princípios espirituais, que nos revelassem questões que desconhecemos sobre a nossa origem e a nossa vida no mundo, conceberíamos a vida e suas manifestações sob uma óptica muito distante da que possui a humani- dade actual. Por isso, devemos fazer um esforço para evitar ao máximo o con- dicionamento tão forte que produz a sociedade sobre a nossa maneira de ver a existência, para recuperar um olhar limpo e isento de prejul- gamentos que tanto limitam o nosso entendimento.

As distintas razões de todo o comportamento sexual

A razão de qualquer comportamento sexual advém de uma causa

do passado (de nossas existências anteriores) ou de uma causa que criamos na actualidade. Mergulhar no passado e no karma de cada um é algo muito com- plexo e difícil; já que, embora conhecendo as causas, nos seria pratica- mente impossível poder assimilar, de forma completa, dentro da nossa maneira de pensar e sentir actual, o nosso karma pessoal. O passado descobre-nos o porquê de muitas coisas sucederem na nossa vida, muitas de nossas tendências. No entanto, o esquecimento das vidas passadas também é uma terapia necessária, que nos ajuda a empreen- der novos capítulos na Terra sem termos que carregar excessivamente com os acertos e erros, com os condicionantes, das outras existências,

que sobrecarregariam a nossa mente. Quanto mais evoluídos esteja- mos espiritualmente mais probabilidades teremos de descobrir facetas das nossas vidas passadas.

Nas nossas vidas humanas, onde temos sido tantas e tantas vezes homem e mulher, se um sexo se torna muito repetido, marca com grande força a personalidade espiritual, segundo as exigências do kar- ma nessa linha de existências. É fácil deduzir que, nessa miscelânea de sentimentos e comportamentos opostos, haja vidas onde o corpo que se tem não corresponda aos sentimentos que bulem no nosso inte- rior, e que podem marcar uma tendência sexual contrária ao corpo. Este caso vê-se com certa assiduidade no nosso mundo: homens afe- minados ou com tendências homossexuais e mulheres masculinizadas ou que se sentem atraídas por outras mulheres.

A natureza é sábia como o é o seu Criador, o suficiente para não

cometer erros, nem criar pessoas enfermas ou confusas em sua forma de sentir e viver a sexualidade. Não nos encontramos ante um erro, uma inexactidão, um engano, uma falha ou um fracasso da natureza. E muito menos de Deus, que é Perfeição Absoluta.

O erro comete-o o ser humano, que desconhece e ignora os funda-

mentos e princípios nos que se baseia a Ciência Espiritual e suas Leis Divinas, que regem em harmonia e ordem constante sobre todos os se- res e mundos.

A ordem no comportamento sexual

Há duas formas básicas de entender a vida. O materialismo apega- nos aos aspectos externos da existência. A espiritualidade é capaz de ir até ao fundo, à essência das coisas e da vida. A vida é a oportunida- de que o ser humano tem para trabalhar sobre si mesmo, para conhe- cer-se e ordenar todas as coisas e forças que compõem o seu universo interior, onde estão integradas todas as essências e propriedades de um ser.

A ordem é um princípio natural que governa todos os sistemas que

existem no Universo. O ser humano pode ser concebido como um mi- crocosmos, onde deve reinar essa ordem natural. Contudo, é obvio que à margem da ordem estabelecida por Deus no Universo, os huma- nos constituem e concebem outra ordem muito distinta da vida, da na-

tureza, na medida em que progredimos e evoluímos vida após vida. Desde a remota antiguidade acreditávamos que a Terra era o cen- tro do Universo e tudo girava ao seu redor. Tardaram vários milénios para deitar por terra esta teoria. Foi Galileo Galilei, quem concebeu a teoria heliocêntrica, quer dizer, a que nos diz que todos os planetas do nosso sistema solar giram à volta do sol. A ciência e o entendimento humano, do mesmo modo que neste exemplo, se vai aproximando progressivamente da verdade. E esta tem que sofrer o conflito com as ideias antigas imperantes, até que seja admitida por todos. As culturas e as civilizações do mundo estabeleceram uma ordem para as coisas através do tempo, com frequência uma ordem muito distanciada do autêntico que descobrimos no mundo espiritual. O mundo ensinou-nos como devemos pensar e sentir, como devemos ver as coisas, quando essas mesmas coisas não são o que parecem por cer- tas exigências do guião kármico do nosso progresso espiritual.

Comportamento sexual

Todo o comportamento sexual é uma expressão da necessidade instintiva e da necessidade interna de amar e ser amado. O amor, tem um componente físico e outro sentimental. E a sexualidade é, sem dú- vida, uma expressão física do amor. Através desse comportamento pessoal e íntimo manifestamos um vazio interior que desejamos pre- encher com o calor de outra pessoa. No entanto, esse vazio cheio de necessidades na sexualidade, manifesta-se em cada um de nós encena- do e expressado de uma forma distinta e pessoal. Do mesmo modo que não há duas almas idênticas nem tão pouco duas impressões digitais que se pareçam, os sentimentos que expres- samos nesses momentos são diferentes em cada ser humano. Tomemos um exemplo: Escolhemos uma bela modelo para ser imortalizada por vários pintores; mas seleccionamos artistas de distintos estilos ou mo- vimentos de vanguarda, como o Impressionismo, o Surrealismo, o Cubismo, a Abstracção e o Realismo. Cada artista preencherá o seu vazio criativo com o estilo que lhe é peculiar. Assim, o impressionista tentará plasmar a forma dos reflexos da luz sobre a pele do corpo que pinta. O surrealista evocará o seu mundo interior, criando uma imagem

deformada da realidade, produto dos seus próprios medos, problemas e inquietudes internas. O cubista criará uma estrutura geométrica frac- cionando a realidade em múltiplos pontos de vista. O pintor abstracto centrará a sua obra num jogo de cores e formas sem ter presente a mo- delo. E por último, o realista se esforçará em perfilar, o mais fiel possí- vel, a realidade do que tem por modelo tentando inclusive, superá-la. Se transferirmos este exemplo para o campo dos sentimentos, ve- mos que esses estilos são também a expressão sexual que se encontra no nosso interior. Cada um de nós busca essa ordem cósmica que, neste estado da vi- da, como espíritos encarnados, manifesta, segundo tudo o que contem interiormente e tudo o que já experimentou e adquiriu como bagagem pessoal. Somente quando desencarnados, quando nos vamos deste mundo físico, nos daremos conta de que o que chamamos ordem na vida é algo muito distinto à verdadeira ordem que se manifesta nas es- feras mais elevadas.

A capacidade criativa do ser humano

Todos os humanos têm um aspecto criativo, aspecto que nos dife- rencia dos animais, entre muitos outros, claro está. Esta capacidade está em consonância com a cultura, o estado evolutivo, a concepção da moral e outras mais. Por vezes a criatividade manifestada em qualquer aspecto huma- no, pode chegar à extravagância e produzir estranheza aos demais. Sem julgar a extravagância como algo negativo, o certo é que com fre- quência provoca o ridículo, insensatez, o absurdo mais inconcebível e sobretudo, um profundo contra-senso que distorce a maneira de enten- der a vida e de conduzir os passos do ser humano para um futuro no mundo espiritual.

A sexualidade evolui

Na nossa cultura de profundas raízes judaica-cristã, criamos, tradi- cionalmente, uma ordem sexual que se poderá definir como a ordem da procriação. Uma ordem em que se tem como única finalidade a

procriação e a continuação da espécie humana. Essa finalidade subli- ma a inevitável sujidade da união carnal e do prazer pecaminoso que inevitavelmente o acompanha. Os transtornos e problemas que essas ideias coercitivas, para uma sexualidade sã, provocaram e continuam produzindo na nossa cultura ocidental e em outras muitas em todo o mundo, são imensos. Marginaliza-se, condena-se e subentende-se mal tudo o que saia deste rol social assumido pela sexualidade. Segura- mente que o único que é aceite são as relações heterossexuais, quer di- zer, a relação sexual entre um homem e uma mulher com uma relação legal (matrimónio). Não é de estranhar que as revoluções sociais dos anos sessenta e setenta (com os seus excessos) tivessem como um dos seus eixos fun- damentais a livre expressão da sexualidade, o amor livre e todo o tipo de libertinagens. E no entanto, todo este tipo de ideias burguesas e acomodatícias sobre a sexualidade produzem uma revolução silenciosa e íntima na sociedade, que de vez em quando nos assombra com um dos seus no- vos escândalos sexuais, produzidos pelos que têm que viver na clan- destinidade a sua sexualidade reprimida. Quantos casais e famílias não teriam tido que passar por separações e traumas obscuros durante anos se o conceito da sexualidade tivesse sido mais aberto, mais since- ro, um campo de auto conhecimento e auto complacência na família, e não uma dimensão cheia de proibições e tabus implícitos ou explícitos que maniatam os sentimentos e produzem tantas insatisfações. Nos tempos em que vivemos, sem dúvida que mudou muito a ma- neira de encarar o sexo, sobretudo nos países europeus. As investi- gações científicas dos últimos trinta anos, revelaram-nos muita infor- mação sobre a nossa natureza sexual, o que biologicamente necessita- mos. Os avanços da psicologia descobriram a necessidade de uma sexualidade sã e satisfatória para o bem estar global da vida humana. Toda essa informação rompeu muitas ideias equivocadas e medos arrastados pela tradição. Por outro lado, a liberação social de muitos comportamentos sexuais, a pornografia e a publicidade, que quase sempre se vale da incitação sexual, arrastam para outro extremo peri- goso: a excitação constante da libido, a perda da referência sentimental e a viciação do sexo.

Outra forma de compreender a sexualidade

Poucos vêem no sexo oura coisa que não seja desafogar a exigên- cia dos instintos. Vejamos agora, este exemplo: Um homem e uma mulher têm encarnado repetidas vezes, cada um no mesmo sexo, por- que assim o seu karma o exigia. As suas concepções sobre a sexuali- dade ficaram gravadas na sua “retina espiritual” até que chega o mo- mento de reencarnar num corpo de distinto sexo. Apesar do seu novo sexo ter as suas próprias inclinações biológicas, contudo, é possível que eles sintam em seu interior a tendência que lhes impulsionou em outros tempos a sentir atracção para o seu sexo oposto. É necessário entender que o corpo é um elemento neutro, já que a vida e tudo o que se manifesta através dele é imprimido pelo espírito:

tudo o que sente, pensa e necessita. Assim podemos entender muitas tendências homossexuais, certos aspectos do travestismo, além de fobias, manias, insatisfações e dese- jos repetidos em nossos comportamentos sexuais. Hoje em dia com as regressões, a hipnose profunda e as terapias a vidas passadas descobrem-se muitos porquês de tantas coisas que ma- nifestamos na vida. Se algo devemos aprender do conhecimento que nos dá a Reencarnação e a espiritualidade é que não podemos repudiar outros comportamentos sexuais alheios ao nosso, já que vemos que são uma consequência do passado, do nosso passado, já que se nos re- vela como exigência ou necessidade kármica no presente que vive- mos.

Capítulo VIII

HOMOSSEXUALISMO E LESBIANISMO

“Uma relação sexual verdadeiramente humana não deve- ria ser uma relação animal, onde a última palavra é exclu- sivamente fisiológica e instintiva”.

P. Chauchard

A homossexualidade implica uma inclinação sexual para pessoas do mesmo sexo, tanto homens como mulheres. Neste último caso é conhecido por lesbianismo. Naturalmente o comportamento e a vida sexual dos huma-

nos são duas facetas da vida nas que é mais complexo estabelecer o

limite entre o anormal, o normal ou o que provém de algum tipo de transtorno.

O ser humano recebeu do seu meio ambiente uma grande influên-

cia, que lhe determinou a sua forma de comportar-se, tanto ou mais

que a sua forma de crer e conceber a sexualidade. Recebeu fortes influências do seu contexto social, da sua cultura e da religião. Mas devemos ter bem presente que o decorrer dos tempos faz variar nota- velmente os critérios de uma cultura, a transformação das sociedades faz com que a observemos de um modo distinto, tal como com as reli- giões. O que hoje vemos com bons olhos, amanhã pode ser denunciá- vel ou pecado mortal e vice versa.

E outros dois aspectos importantes a ter em conta: além das

influências que recebe do seu meio, é necessário ter presente também

o próprio critério pessoal de cada ser humano assim como as incli- nações e tendências internas das suas anteriores existências.

A homossexualidade na história

Um exemplo de como a maneira de apreciar as condutas sexuais

mudam é, precisamente, a homossexualidade. Na antiga Grécia a homossexualidade era considerada como o amor mais puro, relegando

o papel da mulher na sexualidade ao mero acto reprodutivo. Porém,

tempos depois foi considerado como algo anormal. Este foi o caso de Oscar Wilde, que foi condenado e encarcerado por imoral por causa da

sua homossexualidade. Mais tarde foi concebido como um transtorno interno da pessoa por uma parte da psicologia. Na época victoriana considerava-se inadequado manter relações sexuais aos Domingos e, no entanto, hoje em dia no Reino Unido nin- guém tem já presente esta curiosa norma. Na actualidade a tendência, pelo menos na cultura ocidental, é de aceitar a homossexualidade e o lesbianismo como algo completamen- te normal.

A homossexualidade estudada pela ciência

Graças ao desenvolvimento, sobretudo nestes últimos 30 anos, das investigações médicas sobre a sexualidade e a liberalização da cultura (que defende a liberdade sexual como uma das grandes conquistas do indivíduo), os enfoques são muito distintos em relação aos tempos anteriores. Esta evolução à que me refiro, vemo-la claramente reflec- tida na mudança de opinião que sofreu a homossexualidade para rele- vantes pessoas da ciência e entidades de importância, como a Asso- ciação Psiquiátrica Americana. Esta Associação considerou a homossexualidade em 1968 como um transtorno da pessoa. Contudo, em 1980 elimina este diagnóstico, relegando-o unicamente para certos casos de problemas internos do sujeito. E definitivamente, em 1987 deixaram de ser sinónimo de transtorno para todos os casos de homossexualidade em geral.

A única menção que existe sobre o tema, na já citada Associação

Psiquiátrica Americana, encontramo-la um ano mais tarde em 1988, na que abarca uma série de transtornos sexuais não especificados con- hecidos como “de mal estar notável e persistente acerca da própria orientação sexual”, num número muito reduzido de pessoas. E não só em homossexuais, senão em maior percentagem entre heterossexuais. Estes dados devem levar-nos a analisar as distintas opiniões tão distanciadas da ciência espiritual, e também no âmbito médico e psi- cológico, concebe-se e entende-se ainda que este último, o avanço científico, não esteja em consonância com o de muitas mentes anti- quadas e curtas na sua visão humana e espiritual.

É certo que à volta deste tema criaram-se opiniões sobre muitíssi-

mos aspectos, e em muitas ocasiões sobre mitos, lendas e tabus, que

estiveram mais em consonância com a falta de conhecimento, respei-

to e amor que com a autêntica verdade e razão do seu porquê e da sua

natureza.

Todos conheceis perfeitamente o caso dos famosos meninos pro- dígio. Amadeus Mozart foi um deles, talvez o mais conhecido. Quem crê na Lei da Reencarnação e do Karma sabe positivamente que Mozart manifestou o conhecimento e a habilidade da música pelas suas repetidas vidas anteriores em que teve relação com ela, do mesmo modo que tantos outros personagens da nossa história o tiveram ao largo das várias vidas numa determinada vertente de suas missões terrestres.

O sublime Jesus, por exemplo, encontramo-lo na mítica Atlântida

sendo o célebre Antúlio; Jesuelo, discípulo de Antúlio é João o Após- tolo de Jesus, que volta séculos mais tarde na figura de Francisco de

Assis. Júlio César tenta conquistar o mundo no Império Romano, do mesmo modo que quando encarna na figura de Napolião Bonaparte em França ou como Adolfo Hitler na Alemanha. O profeta Elias nasce

na Palestina de Jesus como o apaixonado orador do rio Jordão, João Baptista

A história repete-se para bem ou para o mal e em todos os âmbi-

Tudo está

tos do nosso ser. Sentimentos, ideais, impulsos, desejos

contido e registado no nosso arquivo interno, no nosso espírito e é missão de cada um vencer o negativo, os nossos defeitos e imper- feições e fazer predominar na vida as virtudes e qualidades Divinas para alcançar um maior progresso espiritual.

O ponto de vista da Igreja Católica

Em 1986 o Papa João Paulo II aprovou um documento entitulado Carta aos bispos da Igreja católica, sobre a atenção pastoral às pes- soas homossexuais que diz assim:

“O homossexual manifesta uma ideologia materialista que nega a natureza transcendente da pessoa humana, como também a vocação sobrenatural de todo o indivíduo. A prática da homossexualidade ame- aça seriamente a vida e o bem estar de um grande número de pessoas.

A homossexualidade põe seriamente em perigo a natureza e os direi-

tos da família. A actividade homossexual impede a própria realização

e felicidade, porque é contrária à sabedoria do Criador”. Agora observaremos por um momento estas estatísticas:

20% dos sacerdotes praticam relações homossexuais apesar de não o serem. 12 % o são. Ainda por cima, como se ainda fosse pouco, a Igreja acostumou- se a não condenar o pecado nem ao pecador, mas sim à vítima do peca- do; neste caso a mulher. O sacerdote apanhado em falta na prática sexual, apenas deve pagar uma multa ao seu bispo, enquanto que o decreto do Concílio de Augsburgo, no ano 952, condenava as concubinas dos sacerdotes a serem azotadas, marcadas como o gado e a cortar-lhes o cabelo publi- camente, ficando assim sinaladas por toda a vida. Ou como também promulgou o Papa Lião IX, décadas mais tarde, ordenando que as mulheres dos clérigos fossem entregues como escra- vas à Igreja.

Opiniões de todos os tipos

Mas há muitos pontos de vista tão absurdos ou mais. Um famoso conferencista espírita brasileiro, opinava assim sobre a homossexuali- dade como resposta a uma pergunta que lhe formulava um rapaz da assistência, numa conferência dada num centro espírita:

Pergunta: A homossexualidade é contrária à Lei de Deus? Resposta: “O grande problema não é se é favorável, senão qual é

a razão da homossexualidade. Cada um vive com os seus problemas.

Se a homossexualidade para alguém é o seu problema, deverá pensar:

será assim que me sinto feliz?; será assim que me sinto tranquilo? A maioria das pessoas que vive a experiência da homossexualidade com as quais tenho falado, dizem-me que não se sentem felizes, que se sen- tem cada vez mais ansiosas, na busca de um ideal que não encontram”. “Então encontramos pessoas que vivem a experiência da homosse- xualidade sem faltar ao respeito a ninguém e sem exibições. Vivem lutan-

do contra a sociedade. E ainda que os meios de comunicação queiram

dizer que é o natural, que é o normal, que hoje em dia todos o fazem, não

é verdade. A natureza informa-nos por meio das Leis que estão na nossa consciência, que algo está errado na nossa maneira de ver a homosse- xualidade. Então, podemos viver a experiência espiritual da homosse-

xualidade sem que essa coisa se traduza por prostituição sexual?” “Vivemos problemas muito difíceis na área da sexualidade entre as energias espirituais, dentro de nós mesmos; mas cada qual está lutan- do com as suas possibilidades. O ideal é que busquemos sempre a Divindade por meio do trabalho no bem, por meio da oração, da ofe- renda das nossas energias para o bem; mas se estamos falando de um fenómeno homossexual, de prostituição do corpo, da viciação das energias, é outra coisa que não pode estar de acordo com a Lei de Deus”. “Senão teremos que conceber que a prostituição feminina, que existe no mundo desde todos os tempos, é algo correctíssimo, é algo belíssimo. Porque, que faz a mulher? O sexo orgânico praticado por dinheiro não faz com que se sinta feliz. Então vemos que a questão da homossexualidade feminina e masculina passa pelo mesmo caminho. O homem ou a mulher possuem essa força sexual. Dizer a alguém:

“Está correcto, vive como queiras!”, não é a verdade. “Não, não há problema!”, não é a verdade. Não há problema porque não é a minha consciência. O problema está na consciência de cada qual. Cada pes- soa terá que dar respostas a si mesma sobre o que está fazendo com as suas energias e com o seu corpo. Então o Espiritismo tem concepções bem gerais”. Este conferencista prossegue:

“Quando lemos o Livro dos Espíritos na questão 202, para que você se possa ilustrar lendo sobre três questões 200, 201, 202 onde Allan Kardec pergunta ao Mundo Espiritual sobre a questão do sexo, e depois na questão 822, quando pergunta sobre o sexo outra vez, quando compara o homem com a mulher. Allan Kardec pergunta ao mundo espiritual sobre a preferência do espírito quando se encontra no Além, nascer num corpo feminino ou masculino, como homem ou como mulher. E o Espírito de Verdade contesta-lhe: “que para o Espírito no mundo espiritual o mais importante é o género de tarefa que terá que desenvolver no mundo”. “Então por meio desta contestação nós sabemos que não nascemos num corpo de homem por casualidade, há um motivo, não nascemos num corpo de mulher por casualidade, há um motivo. Não o encon- tramos é nosso problema; mas há uma razão: dizer que o homossexual

de hoje foi mulher numa vida passada é uma mentira sem nome e não

é orientação do Espiritismo. Porque eu não posso pensar nem vocês

poderão conceber, que as nossas mães que viveram com dignidade a sua condição de mulheres em outra existência agora reencarnem como homens e tenham que ser homossexuais. Não há sentido nenhum nisso”. “Não podemos conceber que o homem digno de hoje reencarne amanhã como mulher e seja homossexual. Por isso, porque viveu muito tempo num corpo de homem, senão o erro seria da Divindade,

não seria nosso então. O Espiritismo leva-nos sempre à responsabili- dade. Se a mim me parece que está bem ofender a sociedade sem ferir

a vida das pessoas, desenvolvendo as experiências que me dá na gana,

que eu as desenvolva! Se eu sinto que as desenvolvo como me apete- ce, mas depois vivo tormentos de consciência, sinto que não é normal. Todas as coisas que estão de acordo com a Lei de Deus dão-nos feli- cidade sempre, se algo me alegra agora e mais tarde me dá tristeza não foi uma boa realização”.

Uma contradição lógica

Estou plenamente consciente de que a minha opinião não agrada- rá a muitos dos que têm defendido a todo o transe conceitos como estes mas considero que, apesar de respeitar a este senhor, a Verdade terá que ser defendida acima de tudo e de todos. E com isso não quero dizer que no restante conhecimento espiritual esteja errado. O nosso querido irmão Allan Kardec também o fez no século passado e por isso custou-lhe muitas inimizades. Mas, a quem devemos dar contas no fim dos nossos dias?, aos homens, para conforma-los e que não se sintam mal porque lutamos por uma causa justa, ou a Deus? Diz este senhor conhecer um certo número de homossexuais arre- pendidos e infelizes, o que contrasta em pleno com a imensa e cres- cente realidade actual dos que felizmente vivem a sua própria sexuali- dade. Isso de chamar coisa à homossexualidade e compará-la com uma prostituição sexual sim, é uma aberração sem nome e uma falta de consideração, respeito e amor para com o próximo. Afirma que o Espiritismo tem concepções “muito gerais” e cita

várias questões do Livro dos Espíritos de Allan Kardec 200, 201, 202

e 822 que, segundo ele podem ilustrar sobre o tema. E menciona de

memória uma resposta delas —que precisamente não é a que contém

o livro de Kardec— sobre a preferência do espírito quando encarna.

Pois bem, tal é a ignorância destes tempos ante este tema; deslumbra- mo-nos ante o carisma de um conferencista que confunde mais do que aclara. Porque uma coisa é ter palavras e outra muito diferente é ter respostas. Se consultarmos tais questões do Livro dos Espíritos, como nos indicava este bom senhor, de ilustração nada. São três perguntas

que ocupam na sua totalidade seis linhas. Diz assim no Livro dos Espíritos:

Questão 200: Os Espíritos têm sexo? Resposta: “Não como o entendeis, porque os sexos dependem da constituição orgânica. Há entre eles amor e simpatia, mas baseados na afinidade de sentimentos”. Questão 201: O espírito que animou o corpo de um homem pode animar o de uma mulher, numa nova existência, e vice-versa? Resposta: “Sim, pois são os mesmos espíritos que animam os homens e as mulheres”. Questão 202: Quando somos Espíritos, preferimos encarnar num corpo de homem ou de mulher? Resposta: “Isso pouco importa ao Espírito; depende das provas que ele tiver que sofrer”.

A aclaração

A questão 822 fala da igualdade entre o homem e a mulher, e da igualdade dos seus direitos, não sobre a sua sexualidade. Isto de que o Espiritismo tem concepções “muito gerais” é certo, mas tão suma- mente gerais que, se tivéssemos que basear a nossa concepção espíri- ta sobre a sexualidade no que pobremente contêm as obras do seu codificador, nunca poderíamos ter uma visão clara de um contexto tão vasto e profundo como este. Reflictamos sobre uma importante questão. Se hoje em dia a sexo- logia ou a Psicologia Clínica, com o desenvolvimento actual que al- cançaram depois de quase um século de estudo e investigação, têm ainda certas lacunas, problemas ou enigmas que resolver, para os quais

ainda não se encontrou fundamento para poder dar uma resposta, na

verdade, as simples e escassas respostas citadas desta obra de Kardec servem ao mundo espírita de hoje como único ensinamento e ilus- tração ao tema da sexualidade? Isso que afirmava dizendo: “dizer que o homossexual homem de hoje foi mulher numa vida passada é uma mentira sem nome e não é orientação do Espiritismo”, leva-me a perguntar: de que Espiritismo?, do seu Espiritismo?, da sua concepção particular do Espiritismo?, do Espiritismo que começa e acaba nas obras de um autor? Porque na sua codificação, Kardec deixa claro o contrário na questão 201. Kardec desencarnou em 1869 e as suas concepções ou respostas recolhidas dos Espíritos, “naquele então”, eram muito escassas e com falta de profundidade para poderem manter-se em dia com o passar do tempo, em muitos casos, como vimos, com o tema do sexo.

O Espiritismo continua falando ao ser humano da mesma maneira

em qualquer ponto do Mundo. O avanço e a actualização do Espiri- tismo, para os espiritistas de manual, continua sendo uma matéria pendente. Para quem concebe opiniões tão abomináveis como estas acerca de que a homossexualidade é algo indigno ou contrária à lei de Deus,

deveria saber que na actualidade, se produzem mais vexações, abusos sexuais e degradações a adultos, menores e diminuídos psíquicos, por parte de pessoas e entre os casais heterossexuais que entre os homos- sexuais, e o mesmo em matéria de fracassos matrimoniais e de casal, que se traduzem em divórcios e separações.

O Mestre dizia: “Amarás ao próximo como a ti mesmo. Faz aos

outros o que queres que te façam a ti”. Mas há muitos que, ignorantes da autêntica verdade de Deus e do seu amor, continuam naquela de: “a palavras néscias, ouvidos surdos”. Quantas pessoas há que manifestam uma mania, uma fobia, um medo determinado em relação a algo, e sabemos que é por uma causa do passado, de uma desencarnação dolorosa, de um trauma, de um transtorno psicológico, de uma agonia, etc. Se a manifestação do karma ou de qualquer outro fenómeno de uma vida a outra é tão patente e marcada em todos os sentidos, como por exemplo ser de uma raça, ser homem ou mulher, ter alguma defi-

ciência física, ser rico ou pobre, culto ou ignorante, ter uma profissão

determinada, ter êxito ou fracassar

xualidade, em alguns casos, ser um factor kármico?, o que é que leva

alguns a repudiarem esse facto só porque não aparece nas obras de

Kardec manifestando-se a favor ou contra? Ou será por repulsa pesso- al contra tais pessoas?

A ignorância, veja-se como se a veja, continua sendo a causa des-

tas posturas.

E muitas são as opiniões como estas que se encontram baseadas

nas que tem este conferencista, considerando que quando uma mãe vive tão dignamente como tal, e muda de sexo na sua próxima vida, tem forçosamente que ser um indigno homem homossexual. Infelizmente, este tipo de pessoas fez dos livros de Kardec o mes- mo que os católicos fizeram com a Bíblia ou os muçulmanos com o Corão, ou com o Tora dos Judeus: um inútil dogma de fé. Neste caso um inútil dogma de doutrina, impedindo-os de raciocinar e crer por eles mesmos, para evoluir a par e passo com o Espiritismo e com os tempos actuais; já que a revelação dos Espíritos evolui com o avanço da humanidade em cada tempo. Muitos dizem ser espiritistas, mas não o são, e muitos dos que o são, não estão no Espiritismo. Vemos assim como cada corrente religiosa, filosófica ou espiritual, caída nas mãos de mentes curtas de visão, unificam os seus preceitos no idealismo mais absoluto dos seus dirigentes ou criadores, sem dei- xar entrar nada que não contenha o que os seus mestres disseram ou deixaram estabelecido. Por exemplo. Helena Blavatsky tornou-se infalível para os teóso- fos, o Papa o é da mesma maneira para os católicos, Allan Kardec é

porque não poderia a homosse-

indiscutível para os espiritistas, os rosacruzes não aceitam que se con- trarie nada de Max Heindel, os profetas são intocáveis para os protes- tantes, os budistas não aceitam nada que não se encontre incluído nos

E no entanto, a Ciência Espiritual é algo mais

profundo que uma breve e imperfeita sequência no tempo e na vida curta de qualquer Mestre. Imaginem este exemplo, tomemos a figura de um Mestre que encarna no mundo para dar conhecimento de um ensinamento espiri-

ensinamentos de Buda

tual. Ponhamos o caso de Buda. Do compêndio da sua vida e dos seus ensinamentos funda-se mais tarde o Budismo. Bem, todos somos bu-

distas, estamos contentes de possuir a nossa parte de verdade focada pelos ensinamentos do Mestre Buda. Mas, ao pensar que nada há que

o supere, não aceitamos conceito algum proveniente de outra vertente

espiritual, mesmo que esta seja nova mas, nem por isso, equivocada. Acaso não foram novos os ensinamentos que aportou Kardec para

o momento no qual surgiram? Eis aqui que o nosso Mestre Buda, ponhamos como caso imaginá- rio, encarna séculos mais tarde noutra parte do mundo sendo Allan Kardec, e define o Espiritismo, criando a Doutrina Espírita. Agora somos espíritas e, como tal, adoptamos a mesma postura, não aceita- mos nada que Allan Kardec não deixou nas suas obras continuamos tão cegos como quando éramos partidários da doutrina budista em exclusivo. Se mais tarde lhe tocasse encarnar noutro mestre e criasse outra corrente espiritual, porque os homens estivessem preparados para um novo ensinamento, que sucederia então? Se Allan Kardec, na sua nova encarnação e sob uma nova perso- nalidade, através da qual ninguém o vai reconhecer, lhe tocar criar uma nova versão do Espiritismo, bastante diferente com respeito à anterior, à antiga, actualizada no tempo e com o desenvolvimento alcançado pelas mediunidades, tais conhecimentos seriam plenamente

aceites pelos espiritistas ortodoxos sendo provenientes de um descon- hecido? Seriam conceitos distintos aos codificados há um século e

meio?

A resposta é bastante evidente ante o fanatismo e o dogmatismo adoptados por alguns hoje em dia. Crendo que ser fiel ao Espiritismo radica em ser o mais conservador possível e aferrar-se com néscia obs- tinação a livros e manuais, e não à fonte principal do conhecimento: o próprio espírito do qual se nutriu o nosso irmão Kardec. Ou acaso um livro pode fazer-se por si mesmo? Que acontece quando há um manancial do qual brota água pura? Enquanto corre água da nascente o rio é transparente, cristalino, puro. Contudo, a água é sempre nova, nunca é a mesma. Podemos engarra- fá-la, como se faz com os conhecimentos impressos num livro, mas

então com o passar do tempo perde a sua pureza e é uma água de menor qualidade, água engarrafada. Se a água estancar e não correr corrompe-se, apodrece; porque a água, do mesmo modo que o conhecimento espiritual, necessita, para que não se corrompa, de estar em contínuo movimento, regenerando- se, actualizando-se. O mundo sempre teve mananciais de conhecimento e sabedoria, conceitos espirituais como a Aura, que esteve como ensinamento em mais de 100 culturas diferentes desde há mais de 4.000 anos; ou a Reencarnação, na qual já acreditavam os egípcios há mais de 5.000 anos; ou o Periespírito, um corpo espiritual do qual os Vedas, desde há 4.000 anos, tinham melhor conceito do que hoje se tem. No entanto, temos hoje a mesma concepção da Aura que há 4.000 anos? Não, porque evoluímos. Cremos da mesma maneira que os egípcios na Reencarnação? No, porque evoluímos. Vemos o Peries- pírito hoje da mesma forma que os Vedas? No, porque evoluímos. Aqui vem ao caso uma entrevista importante de Ramatis, publica- da na sua obra A Vida Humana e o Espírito Imortal, onde comenta tex- tualmente em defesa da louvável fidelidade aos postulados essenciais e originais de Kardec, com relação à abertura do conhecimento, do livre pensamento e contra o dogmatismo:

“Os católicos podem tornar-se espíritas; contudo, os que não che- gam a libertar-se dos estigmas do fanatismo religioso, que os escravi- zava anteriormente, apenas mudam de nome ou rótulo religioso; mantêm-se, porém, sob a mesma frequência espiritual e obstinação de então. Impossibilitados de assimilar rapidamente o conceito de

“Universalismo” da doutrina espírita, sublimam, então, as suas velhas idiossincrasias, substituindo os sacerdotes pelos médiuns, ao infalível

Papa, pelo que “Kardec não disse

as imagens de santos, pelos líde-

res espíritas consagrados nos centros e federações, os nomes dos gran- des santos, pelos dos “irmãos iluminados”, a água benta, pela fluidifi- cada, as rezas, pelas orações extensas, as bênçãos, pelos passes, o sermão sacerdotal, pela oratória eloquente dos médiuns e directores, etc.”. “Em vez de aplicar a liberdade espiritual ensinada por Allan Kardec, esses adeptos espíritas cultivam a velha condição católica,

”,

diferenciando-se apenas pelas substituições consideradas não dogmá- ticas no seio do Espiritismo”. “O ex-católico rotulado de espírita, frustrado contra o ambiente religioso que lhe serviu anteriormente, chega a enfurecer-se contra aquilo que passa a julgar como infantil e primário”. “Nesse arrasamento do ambiente católico, os novos espíritas quei- mam os ídolos abandonados, mas passam a adorar os novos ídolos na figura dos líderes espíritas consagrados do momento”. A nossa história é construída por todos nós um pouco no esforço pessoal de cada dia. Mas acima de nós, os grandes homens e mulheres de todos os tem- pos escreveram os seus nomes com maiúsculas nessa mesma história. Celebridades de todas as épocas e de todos os âmbitos da vida deixa-

ram as suas pegadas na arte, na literatura, no cinema, na ciência, na

E no entan-

música, na dança, na política, na sociedade, na religião

to, muitos deles foram e são homens e mulheres homossexuais. Religiosos de profunda espiritualidade, inspirados filósofos, ilus-

tres pintores, célebres artistas de renome, cientistas, sublimes bailari-

nunca foram

nas, grandes músicos, geniais artistas e letrados

seres indignos aos olhos de Deus, anormais ou equivocados na sua forma de sentir-se, e no entanto a história pô-los no pedestal mais alto, na cúspide do reconhecimento humano e mundial. Neles se assentou o nosso saber e conhecimento actual. E nem por

isso são distintos ou diferentes. Eu diria inclusive que a sua orientação sexual lhes deu uma distinção pessoal, muito difícil de poder entender por uma mente obtusa e sexista. Talvez nenhum de nós poderá comparar-se com eles pelo seu

E no

saber, destreza, habilidade, arte, genialidade, espiritualidade entanto em sua esfera interna eram homossexuais.

Francisco de Assis, Fray Luis de Granada, Óscar Wilde, Greta Garbo, Frederico Garcia Lorca, Tchaikovski, Nijinsky, Nureyev, Char-

les Darwin, Sófocles, Aquiles, Miguel Ângelo

Recordemos uma data triste, como a de tantas que infelizmente marca o calendário da história do terror humano. O dia 27 de Outubro de 1553, em que o médico espanhol Miguel Servet, era queimado vivo pela Inquisição numa colina de Genebra, por defender certas teses

que

A lista não teria fim.

muito avançadas em seu tempo e que sem dúvida, anos depois, foram declaradas como inquestionáveis verdades. Um amigo de Servet disse por ocasião da sua morte: “Matar um homem não é defender uma doutrina; é matar um homem”. Hoje, graças a Deus, não se mata ao homem, senão que se mata a própria doutrina; porque a atitude inquisidora de conservar o que o

tempo converte em fuligem, se manterá enquanto exista essa mentali- dade curta e míope nos seres humanos. Para este protótipo de menta-

lidade, Jesus dizia: “Quem tem ouvidos para ouvir

Resumindo, o Conhecimento Espiritual leva-nos a respeitar pro- fundamente tudo o que a vida expressa como manifestação justa das Leis de Deus. Que dúvida nos resta que os homens criaram outras leis na Terra, que possuem uma grande falta de justiça e de amor para que essas mesmas leis sejam consideradas como parte positiva do seu pro- gresso. Porém, não há nada mais capaz de deter a evolução da vida como as opiniões desfavoráveis e ignorantes; ou as posturas dogmáticas, conservadoras ou extremistas, que precisarão de muitas vidas de expiação para ressarcir o quanto ocultam de verdade com a sua sem razão imposta pela força. Recordemos que Deus é amor antes de tudo, e nesse mesmo amor

se manifesta a vida e o progresso espiritual que temos de alcançar nela.

O que devemos de ter bem claro acima de tudo é que a sexualida-

de não é algo pecaminoso, nem que nos deva provocar vergonha, nem que é aberrante, nem que devamos suprimi-la para alcançar o nosso aperfeiçoamento espiritual. A chave está no uso que façamos dela,

para determinar a sua acção positiva ou negativa sobre a nossa vida.

O objectivo fundamental da sexualidade é alcançar o sentido do

amor na sua expressão mais pura, que é a raiz de toda a virtude huma- na e, por conseguinte, espiritual. Se formamos julgamentos, meramente pelo que nos sugerem as

aparências, despreciaremos o valor oculto transcendente que se escon- de por detrás dos diferentes comportamentos sexuais. O importante, na verdade, não são os recipientes, senão os conteúdos. Os recipientes

são temporais, efémeros, mortais

rem esquecidos, mas os conteúdos, as essências são eternas, infinitas,

Um dia desaparecerão para fica-

que ouça”.

perpétuas e percorrem os séculos e os milénios sem reparar no espaço nem no tempo.

A sexualidade é um dos princípios vitais por onde os humanos

começam a formar uma ideia do conceito do amor, do mesmo modo

que a criação da Família Humana o é para a formação futura da Família Universal.

A estrofe de uma canção, de uma famosa fábula infantil sobre a

beleza e a aparência, diz assim: “

ao coração. Tão real como o sol que nos dá calor, não há maior ver-

dade, que a beleza está no interior ”

de julgar, tens que chegar até

antes

Capítulo IX

BISSEXUALIDADE

“Todo o mundo tem um lado masculino e outro feminino, embora a maioria reprima uma das partes”.

Sigmund Freud

O bservadas já as possíveis causas da conduta ou comporta-

mento sexual, vejamos agora como enfocar essas distintas

expressões com as quais nós, seres humanos, estabelece-

mos, reflectimos e manifestamos a nossa forma particular

de viver, sentir e praticar a sexualidade. Aproximemo-nos sem dogmatismos nem opiniões extremistas a este particular de viver a sexualidade: a bissexualidade. Por bissexuais entendemos todas aquelas pessoas que têm relações com outras do sexo contrário, mas também, ou simultaneamente, podem tê-las com pessoas do seu mesmo sexo. Quer dizer que o bis- sexual actua como heterossexual e como homossexual. Um personagem muito conhecido, de entre os milhares que se poderiam citar através da história, é o rei Luis XV de França, apelida- do com o cognome de Rei Sol, do qual se dizia que era “o marido de todas as mulheres e a mulher de todos os maridos”. A bissexualidade tem uma perspectiva clara desde o aspecto que nos transmite o conhecimento espiritual, quando entendemos que o sentimento de atracção sobre o sexo oposto é compartilhado, ao mesmo tempo, pelo interesse sexual que se desperta sobre o mesmo sexo. As causas de tal não têm porque entender-se necessariamente como aberrações sexuais, anti-naturais ou viciosas. Por vezes as cau- sas devem-se a que a sensibilidade do espírito encarnado, que não esqueçamos foi muitas vezes mulher e homem, se manifeste indistin- tamente para um e para outro sexo. Entre uma e outra encarnação produz-se no Astral uma mudança

na nossa orientação sexual, segundo vá ser a matéria que vamos ani- mar feminina ou masculina. No nosso periespírito, que é o corpo dos sentidos no Astral, ficou

gravado o impulso sexual das vidas anteriores. Quando se vai reen- carnar num corpo com outro sexo é necessário, então, ajustar o nosso novo sentido sexual, para que tenha êxito o destino que na vida huma- na vamos desempenhar. Por exemplo: no caso de termos vivido na nossa última existência num corpo masculino, deveríamos de encarnar em outro corpo femi- nino (para passar pela prova da maternidade, onde por meio da mesma nos é necessário saldar uma dívida kármica para com os nossos futu- ros filhos). Se não se invertesse a nossa tendência sexual no Astral não poderíamos igualar o que interiormente sentimos com o que exterior- mente nos corresponde sentir; quer dizer, sentiríamos mais ou menos como um homem no corpo de uma mulher ou vice-versa. Embora estas situações se dêem nos casos da homossexualidade, não implica em absoluto que a homossexualidade seja um impedi- mento para o progresso e para a evolução espiritual do ser humano, visto que qualquer faceta ou aspecto dentro da sexualidade tem gran- des e poderosas razões kármicas. Umas necessárias e outras que pode- ríamos classificar como “problemas ou desvios”, que têm um ponto de arranque ou raiz onde se iniciam os conflitos e transtornos psíquicos da pessoa.

Tendências de um passado

Apesar das nossas vidas passadas serem um mistério, todo o mundo nasce com uma série de instintos, inclinações e tendências internas e pessoais, herdadas desse passado que se oculta no incons- ciente. Contudo, milhares de pessoas em todo o mundo têm a capaci- dade para recordar algo das suas vidas anteriores. Estas pessoas que recordam certos rasgos de algumas das suas reencarnações chegaram a tornar-se sensíveis à parte da informação que contém retida na sua Memória Interna, a que está guardada no periespírito, como um grande arquivo onde está escrita toda a nossa história humana e espiritual. Se numa medida ou noutra (não só estas pessoas, senão qualquer de nós) nos vemos empurrados e vinculados às tendências que traze- mos de outras vidas (como podem ser os gostos, as manias, as fobias, as virtudes, os defeitos, etc.) o impulso e a inclinação sexual e, evi-

dentemente, o comportamento e a conduta que se desprende dela, tam- bém procedem dos nossas habituais mudanças encarnatórias do passa- do.

Isto explicaria a tendência, por exemplo, do travestismo; quer dizer, aqueles homens que sentem a necessidade de vestir-se com rou- pas femininas. Ou também a virtuosidade que manifestam as crianças desde uma tenra idade, quando ainda não podem desenvolver essa capacidade, e muito menos quando não se lhes ensinou ou não tiveram uma experiência previa onde leccionar-se, como foi o caso do famoso Amadeus Mozart. Outro exemplo seria uma fobia ou medo que nos traumatiza e que não foi criado por nenhuma circunstância desta vida, ou uma doença congénita com a qual se nasceu, etc.

Reencarnação e conduta sexual

A bissexualidade é um karma extensivo actualmente. Para qual-

quer mente que ignore e desconheça o conhecimento espiritual, e mais concretamente a Lei Divina da Reencarnação, e também para aquelas

mentes fechadas a todo o entendimento livre de preconceitos, é fácil pensar que este tipo de comportamentos ou condutas sexuais são uma confusão do ser humano, da sua própria identidade sexual ou da pró- pria natureza. Inclusive há quem a considere o resultado de uma mal- formação, quem sabe se de tipo genético

O certo e verdade é que quanto mais o ser humano ignora sobre o

conhecimento do mundo espiritual, mais ignorante é ante a verdadei- ra realidade da vida. Os seres humanos progridem desta forma, dando autênticas paula- das de cego. E até que não passemos por certas circunstâncias na nossa existência não as poderemos compreender, e muito menos respeitá-las.

Essa é uma das funções das Leis Divinas da Reencarnação e do Karma: fazer-nos sentir o que tanto maltratamos com a indiferença, com a marginalização, com o desprezo, a repulsa e o repúdio social.

Essa é a maneira que a vida tem de ensinar-nos a compreender, recti- ficar e de tornar-nos sábios.

O conhecimento espiritual que se recebe, no dia a dia, através do

Espiritismo Cristão, é uma ciência actualizada que estuda e oferece

respostas na psicologia e fisiologia dos fenómenos da vida sexual

humana. Revela-nos incógnitas mais profundas de todo o conjunto de comportamentos, impulsos e condutas que buscam os seres humanos para a obtenção do prazer e do gozo sexual. O fenómeno e o acto da reprodução não é simplesmente um mero acto reprodutivo, senão a sublimidade mais alta do amor de uma mãe e de um pai. E do progresso, já que com ele se saldam débitos kármi- cos com outros seres que formarão parte da sua família humana. Acertada descrição de Sebastião de Arauco sobre a sexualidade no ser humano, no seu livro Três Enfoques sobre a Reencarnação:

“O Espírito, em si mesmo, como ser espiritual, é assexual, não tem sexo. Cada alma conserva a sua característica sexual intrínseca. Continua sentindo-se como homem ou como mulher segundo o que tenha sido; com os mesmos gostos e tendências, já que a alma não muda com o simples trânsito para a vida espiritual”. “O sexo na reencarnação está submetido à necessidade de pro- gresso espiritual do ser reencarnante, e geralmente se efectua no mes- mo sexo durante um número de vezes não pré-fixado, quando tal é necessário, para um maior progresso do espírito e de acordo com o programa a realizar ou destino em cada nova vida”. “Como espírito tem que passar por todas as experiências a fim de adquirir a sabedoria que o mundo possa oferecer-lhe, até que chega um momento de sua vida imortal, que necessita ensaiar, que necessita viver a vida do sexo oposto”. “Então se efectua a mudança, no plano Astral, mediante a ajuda de guias espirituais superiores. Naturalmente que, o psiquismo da nova personalidade sofre, em grau maior ou menor, a mudança de sexo quando este se efectua; segundo seja também o seu grau de evolução”. “Daí que, presenciemos com alguma frequência, certos casos de mulheres com atitudes varonis e homens com atitudes femininas, para além de outras anomalias, tais como aversão ao sexo oposto, atracção aos do mesmo sexo e outras mais ” “A energia do sexo é de origem psíquica. E essa energia psicoge- nética, gera cargas magnéticas de atracção para o sexo oposto, em relação ao grau de energia própria; a qual é necessário controlar”.

Expressão da sexualidade

É imprescindível compreender que a sexualidade se encontra den-

tro de uma necessidade natural necessária para o progresso humano. Já referimos que cada ser humano expressa tal sexualidade de uma

forma ou de outra, ainda que as normas da sociedade se manifestem contra. Cada ser é um mundo e nem todos sentimos e pensamos da mesma forma. A personalidade humana sofre certos problemas de adaptação a determinadas circunstâncias com as que se enfrenta. Torna-se verda- deiramente difícil sentir de forma contrária à tendência geral do mundo, sendo algo muito doloroso para muitos ao serem motivo de marginalização e repúdio pela maioria.

É a partir daí que se formam muitos conflitos traumáticos nos seres

humanos e onde a Psicologia é incapaz com frequência de encontrar solução para esses conflitos pessoais. Isso dá-se porque não vê para

além do momento de nascimento, quando já a nossa embarcação, que é o espírito, vem com diferentes cargas recolhidas em outros portos estrangeiros, quer dizer, em outras vidas. Por isso, o respeito e o apoio para com todos é fundamental e indispensável, exercendo-o e manifestando-o sem condição alguma. Nunca sabemos como vai ser o nosso destino. Talvez sejamos nós mesmos algum dia os protagonistas dos mesmos episódios aos que hoje se enfrentam as pessoas cuja sexualidade está relacionada com estes temas que estamos abordando.

Capítulo X

HERMAFRODITISMO E TRANSEXUALISMO

“Nenhum de nós é um homem ou uma mulher cem por cento”.

Carl Gustav Jung

H ermafroditismo é um termo usado para designar aquelas pessoas que possuem as características anatómicas, bioló- gicas e orgânicas, em seu corpo, de ambos os sexos simul- taneamente, masculino e feminino. No trânsito da vida

humana à espiritual e a sua posterior volta a ela, numa nova existên- cia, já vimos antes que podem haver certas sequelas, psíquicas umas e orgânicas outras, que se vão manifestar no futuro corpo humano.

Dívidas de um passado que se cumprem no presente

“Um menino de 8 anos nasceu com nove cicatrizes distribuídas por várias parte do seu corpo. Um médico dedicado a estes casos de reen- carnação, começou a investigar o assunto. Buscou entre as comissarias da polícia para indagar se anos atrás se havia cometido algum homicí- dio com nove disparos ou facadas, até que lhe informaram acerca de um homem de 35 anos, chamado Mustafá, morto por nove disparos de pistola. As cicatrizes do falecido e as da criança coincidiam exacta- mente de uma forma assombrosa”. “O médico conseguiu aceder a toda a informação arquivada do caso e levar o menino ao lar onde residiam os filhos e a mãe do fale- cido Mustafá. Submeteram a criança a uma observação dos parentes e este não só reconheceu de imediato a mãe, entre outras muitas mulhe- res, assim como aos filhos, senão que lhes deu certas provas da auten- ticidade da sua identidade anterior”. Perguntemo-nos então se aceitamos que, de uma existência a outra, as sequelas que nos ficam sejam tão evidentes como para ficar o nosso corpo marcado e assinalado, não poderia suceder também o mesmo com algo mais profundo que reside no ser humano, como é a inclinação sexual, as suas emoções, desejos, sensações e pensamentos?

Hermafrodita e transexual

O hermafrodita é uma modificação biológica de origem espiritual involuntária do espírito ao encarnar, quer dizer, kármica. É uma modi- ficação involuntária porque nasce na formação do seu corpo, dentro do seu programa kármico a desempenhar na Terra. Ainda que não podamos descartar que por um acto voluntário algum espírito, com faculdade para poder decidir sobre a sua futura encarnação e sob autorização e orientação dos seus Mentores espiri- tuais, decida passar voluntariamente por este tipo de provas com todas as suas consequências. Igualmente, o transexual veste-se, comporta-se e sente como o sexo contrário ao que anatómica e biológicamente pertence. Estas pes- soas rechaçam a sua constituição física real e sentem que estão ocu- pando um corpo que não lhes pertence, errado, do sexo oposto. Por vezes o Hermafroditismo dá passagem à supremacia de um dos sexos, que ao diferenciar-se faz desaparecer o outro. Podemos observar o fenómeno desde o mesmo instante do nascimento ou tam- bém no transcurso dos primeiros anos de vida quando se produz uma mudança de forma na sua sexualidade, como vos digo, completamen- te natural e espontânea. Este foi o caso muito comentado pelos meios de comunicação, de duas irmãs de 14 anos no Iraque, que sem saber como, começaram a atrofiar-se-lhes as partes sexuais femininas, para surgirem umas mas- culinas, ante a atónita opinião de médicos e peritos. De meninas a homens com maturidade suficiente para cumprir as funções reprodu- toras como homens. Porém, em muitos casos, apesar de possuírem ambas condições fisiológicas, a masculina e a feminina, existe com frequência uma pre- dominação marcada para um sexo determinado. É o caso de mulheres que, por exemplo, desenvolvem um belo rosto e uma anatomia muito masculina, ou homens que através de um câmbio hormonal da sua matéria se lhes desenvolvem peitos e um aspecto geral muito afemi- nado. Por outro lado, o caso de pessoas que sendo homossexuais, her- mafroditas e transexuais passam pela sala de operações, para que a cirurgia lhes converta em algo que não são nem nasceram.

A técnica cirúrgica, tanto como os avanços extraordinários da

medicina, são um bem precioso, adquirido pelo esforço humano e dis- postos por Deus para o bem estar da humanidade. A mutilação e defor- mação de um corpo nascido com um sexo determinado para dar uma beleza corporal desejada, ou convertê-lo no sexo oposto por conflitos internos (geralmente falta de autoestima e de auto aceitação). Porém, quem se submete a estas intervenções talvez não saiba que com isso não soluciona as suas contas espirituais e kármicas nem muito menos o seu progresso espiritual. Atribuir ao capricho da natureza possuir um sexo distinto ao que se sente, culpar a Deus por isso, ou estar em constante desconformi- dade com o que a vida nos deu nesse sentido, é não aprender que, pre- cisamente por isso, é uma prova dada a esse espírito para a sua evo- lução no mundo físico. Se esteve encarnado sucessivas vidas num sexo concreto e na existência actual lhe é necessário mudar a sua sexualidade, é normal que existam alguns desajustes, já que a natureza humana e a natureza

espiritual precisam de sucessivas vidas para ir-se corrigindo ou amol- dando uma à outra. São muito distintas entre si e ambas lutam tenaz- mente pela grande desigualdade existente entre elas.

A utilização de hormonas para desenvolver órgãos femininos ou

masculinos, a mudança de sexo por meio da cirurgia moderna, o implante de certas substâncias para dar uma imagem afeminada, a amputação ou atrofia de membros ou partes do corpo, ou a mudança de vestuário, não transformam em absoluto o compromisso kármico

do seu progresso espiritual contraído ao encarnar por esse espírito. Como diz o ditado: “O hábito não faz o monge”.

Já o dizia o profeta: “O homem fará na Terra o que Deus não criou

no Céu”. Eis aqui um bom exemplo disso.

Origem e consequências da conduta transexual e hermafrodita

O problema no transexual e no hermafrodita encontra-se, como o de muitos outros casos, no seu interior. Existe uma inconformidade ao aceitar-se entre a desigualdade de quanto interiormente sente ao que exteriormente é. E eis aqui a pugna que nestes casos acaba num trata- mento hormonal perfilando o corpo para um sexo determinado, ou

com uma operação de mudança de sexo.

O transexual que decide submeter-se a uma operação de mudança

de sexo é devido a que se sente internamente distinto ao seu corpo, e

com frequência se surpreende quando se sente fora de lugar, encerra- do num corpo distinto que contradiz o que o seu interior percebe. Alguns testemunhos analisados de transexuais antes e depois da operação, são muito significativos. Observam que antes da interven- ção cirúrgica padeciam depressões, traumas de todo o tipo, problemas em suas relações sexuais, etc. No entanto, depois da mudança de sexo se sentiam felizes, como liberados, encontrando uma estabilidade que eles buscavam já que a relação interior-exterior estava agora de acordo e afim uma com a ou- tra.

Isto, embora possa supor resolver o conflito até certo ponto, não é

uma solução presente, nem tão pouco futura; mas antes uma acção que terá uma reacção posterior. Todas as nossas acções semeiam destinos para o nosso futuro. Neste caso será um problema no porvir. Nascer com um sexo determinado, à margem do que no interior possa sentir, tem o seu por quê, a sua razão, um motivo, uma causa embora a pessoa não chegue ou possa compreender.

O facto de que a cirurgia sirva para iludir e finalmente modelar um

corpo humano rompendo assim a natureza kármica dos humanos, é tanto como pensar que a avestruz soluciona o problema que tem ante

ela ocultando a cabeça debaixo da terra, quando o problema continua sendo o mesmo e estando no mesmo lugar.

É obvio, que isto dá-nos a imagem de que o homem continua cego

ante a realidade espiritual observando só o que vê com os olhos físi- cos, mesmo que se esconda o problema a solucionar, este se encontra-

rá sempre aí até que o aceite e o resolva mas de outra forma distinta à actual. É um karma certamente duro e difícil. Este tipo de manifes- tações kármicas encontramo-las, mais ou menos similares, naqueles casos de pessoas que manifestam um repúdio ou um inconformismo para com o seu aspecto.

A Lei kármica obriga-os a ser, numa próxima existência, aquilo

que tanto odiaram para que experimentem esse mesmo repúdio que eles fomentaram, desta vez, em sua própria carne. São os marginali-

zados de hoje que no passado foram criadores de posturas racistas e marginais. Um caso muito claro disso o vemos neste famoso cantor norte americano de cor, que renega a sua própria condição de raça, tentando tornar-se branco, por meio de operações e do branqueamento da sua pele. Que o ser humano se rebele contra o seu próprio destino não lhe soluciona os seus problemas e dívidas que contraiu no passado, senão pelo contrário, a aceitação neste caso é a melhor conselheira, mas começando por aceitar-se a si mesmo, tal como é, tal como nasceu por uma causa que ainda que não se saiba ou não se compreenda dentro do nosso entender como humanos, existe nesse outro mundo que o homem tanto desconhece: o mundo espiritual.

Capítulo XI

A CASTIDADE

“Muitos santos e santas foram ardentes até ao último mo- mento, e isso não é prejudicial antes pelo contrário. Aque- les que sabem utilizar a energia sexual são mais ricos e pri- vilegiados, porque esta energia é uma bênção”.

Mikhael Aivanhov

D entro do apaixonante tema da sexualidade o conhecimento espiritual não pode deixar passar um aspecto muito impor- tante, que o ser humano criou em torno da vida, especial- mente no aspecto religioso, e que geralmente lhe produz e

lhe suscita tremendos problemas, traumas e complexos; referimo-nos

à castidade e ao celibato. Castidade e celibato parecem ser sinónimos e ter a mesma finali- dade; mas tal como se compreendem e se expressam na vida dos humanos, é imprescindível observá-los por separado.

Uma definição de castidade

A castidade é uma continência voluntária, uma repressão de todo

o acto sexual que, alguns homens ou mulheres, se empenham obstina-

damente em praticar contra a sua própria natureza humana, contra os seus naturais impulsos, as suas necessárias inclinações e tendências sexuais e biológicas, com o suposto benefício de alcançar, segundo eles, um maior aperfeiçoamento ou elevação espiritual. Como se o facto de ser puro estribasse em permanecer cego, manco e insensível ante os estímulos naturais da vida. Segundo a Igreja Católica, a castidade é vista como uma virtude exercida por quem se abstém de todo o gozo sexual. No entanto, a castidade parece não estar bem vista pelo clero, dado que práticamente nenhum dos seus membros se exime de ter algum tipo de prática sexual. E nem por isso qualquer sacerdote ou monja perde a opção de alcançar uma maior virtude, como qualquer mortal, neste nosso mundo. Salta à vista os números tão peculiares que nos demonstram que a castidade está de muito más relações com a Igreja, com o seu néscio

motivo de formar religiosos reprimidos sexualmente, com as graves consequências que a nível psicológico se produzem. Pepe Rodríguez, um reconhecido jornalista e investigador da rea- lidade actual, é autor de uma obra intitulada A vida sexual do Clero onde analisa em profundidade este apaixonante tema ressaltando os seguintes dados: 95% do clero actual tem desafogos pessoais íntimos, 60% mantém relações sexuais e uns 26% abusa de menores. Creio importante ressaltar esta realidade desconcertante, visto que, como é lógico pensar, estas regras impostas que não se sentem ou não se está preparado ou capacitado para poder seguir na vida, fazem fra- cassar o ser humano produzindo-lhe o conseguinte transtorno e pre- juízo. Isto deve-se também ao desconhecimento que se tem sobre a natu- reza humana e a realidade espiritual, e que se manifesta nestas postu- ras que buscam a continuidade do dogma imposto e irracional, antes que ir ao encontro da Natureza, do significado da vida e das suas mani- festações Divinas.

Duas interpretações de castidade

Da castidade poderíamos subtrair duas interpretações, totalmente distintas. Por um lado podemos observar que o ser humano, como é natural, deve tentar a todo o custo dominar os seus próprios instintos, naturais, para ir ao encontro de uma maior fortaleza interior e ser dono e senhor absoluto das suas emoções, pensamentos e impulsos internos. Tentar dominá-los não implica forçosamente ter que reprimi-los quando ainda são necessários para a vida humana em muitos aspectos. A nenhum de nós nos ocorreria matar, roubar ou cometer algum outro acto criminoso e, no entanto, séculos atrás, nos quais todos nós alguma vez também estivemos fora da lei, nos vimos na necessidade kármica de sofrer, para nosso progresso, longas vidas nas que a nossa necessidade essencial foi domar essas tendências, submeter tais refle- xos, suprimir esses instintos para um melhor aperfeiçoamento do nosso ser e da sua futura posição espiritual no Astral. Por outro lado, a natureza sexual dos humanos precisa ser utiliza- da sempre na medida em que o nosso interior o exija de uma forma,

como vos disse anteriormente, natural e não forçada nem coarctada. Com certeza no futuro das novas gerações que povoem a Terra, a maneira de ver e aplicar o sexo ou qualquer outro aspecto da sexuali- dade, será totalmente contrário ao que hoje em dia se observa e se pra- tica. Porém, este facto comum que se manifesta com fidelidade no avanço das humanidades para estados de espiritualidade e de pureza cada vez mais elevados, produz-se porque os seus novos moradores são seres cujo poder interno de autocontrole e de renúncia, juntamen- te com o conceito que trazem consigo sobre a sexualidade e a repro- dução da sua espécie desde um ponto de vista muito mais espiritual, lhes fará formar um novo e distinto modelo de relações íntimas e por conseguinte também de procriação. Assim, pouco a pouco, com o passar do tempo, nós também temos ido anulando certos instintos muito primitivos e animalizados, que são, claro, próprios deste planeta, evidentemente, pelo seu baixo e ainda precário grau de evolução. Contudo, o impulso sexual visto desde a perspectiva da castidade, não se torna um bom método para alcançar, no homem actual, maiores conquistas e realizações no âmbi- to interno e espiritual. Embora seja evidente que o ingresso na Terra de seres que iniciam as sua primeiras experiências terrenas e por tanto mais atrasados, nos oferecem o triste espectáculo que se manifesta em episódios que ron- dam à volta da violência, da crueldade, do crime ou de qualquer acto contra as Leis Divinas e do Amor expressado por Deus, nosso Pai.

A castidade e a ciência do conhecimento espiritual

Compete a todo o iniciado na ciência do conhecimento espiritual, dominar instintos que se encontram nele e que o incitam a viver cer- tos problemas dentro da sexualidade, que seriam facilmente solucio- náveis se na verdade encontrasse a razão pela qual se criam esses pro- blemas. Este é o caso de muitas pessoas nas quais se desperta interiormen- te uma parte espiritual de si mesmos, e então pensam que a sexualida- de e a espiritualidade estão em desacordo, optando por prescindir das suas relações íntimas apesar de sentirem essa necessidade, reduzindo

a sua prática e frequência; com o qual não apenas estão ocasionando

futuras causas psicológicas e fisiológicas neles mesmos, que depen- derão dos casos, como afectam as relações com segundas pessoas que não compreendem tal atitude e que interiormente têm também as suas necessidades. Como segundo e importantíssimo passo é necessário encontrar os

significados, as respostas, os sinais de identidade que a própria sexua- lidade encerra. É mais fácil enfrentar um problema quando se sabe e se conhece, do que quando uma pessoa se enfrenta com algo descon- hecido, como um inimigo com o qual se luta na obscuridade e por con- seguinte em desvantagem. Mas de maneira alguma, se beneficia a natureza do ser humano, sempre que a pessoa o sinta de uma forma natural, quando se o repri- me ou se trava, e inclusive no pior dos casos, quando se o força a ser privado de uma necessidade fisiológica, que é produtora de estabilida- de, criadora de bem estar e harmonia quando é praticada na sublimi- dade que ela encerra. Bem, deixemos claro este sentido da abstinência para não dar lugar

a más interpretações. “Sempre que a pessoa não o sinta de uma forma natural” compreendereis esta expressão perfeitamente observando o carácter da sexualidade humana quando atravessa as distintas idades ou épocas pela que se cruza nesta existência. Por exemplo, na infância

é nula, na adolescência se desperta, na juventude inicia com força a

sua actividade, na maturidade se estabiliza e na velhice começa o sen- tido natural de sua extinção. Eis aqui que certas pessoas com uma grande força interna perdem de forma normal —volto a insistir— o seu interesse sexual em qual- quer época de actividade sexual. É normal que este facto suceda tam- bém em pessoas que desenvolvem uma grande actividade mental ou em circunstâncias da vida, pelo trabalho, o esgotamento, por proble- mas e conflitos internos da pessoa, pela formação do carácter, pelo ambiente social, religioso, etc. Na Índia os ascetas, eremitas e ermitãos que abandonam o mundo e seus prazeres, tentam buscar a pureza da vida com a renúncia do seu próprio instinto natural e humano. Aí se pratica o chamado Brah-macharya que é a prática da abstinência abso- luta. Um celibato usual na vida estudantil da Índia.

A mente e sua influência na sexualidade

Contudo, a parte onde devemos adentrar-nos para trabalhar na tal renuncia e abnegação não é o corpo, que é inteiramente neutro, im-

parcial para os nossos sentidos, senão no nosso interior, na parte que nos determina o que devemos sentir, de que forma, em que intensida- de, quantidade ou qualidade; refiro-me à nossa mente.

A mente possui mais vida e força que a nossa matéria. Na mente

está a castidade ou a luxúria, o poder ou a debilidade, a fraqueza ou a fortaleza. Nela nos protegemos ou somos completamente vulneráveis aos nossos inimigos, na mente é onde encontramos, a ciência certa, a

porta que nos conecta da mesma maneira com as forças do Bem que por amor nos protegem. Portanto, observemos agora o elemento principal para poder tra-

balhar dentro de cada ser humano: o autocontrole. Uma mente controlada é uma ferramenta de progresso, que faz com que o nosso espírito evolua dando grandes e importantes passos, adquirindo transcendentes realizações, superando dia a dia os porme- nores e as dificuldades que encontramos na nossa existência.

A nossa concepção da castidade não deve ser a de prescindir das

nossas necessidades internas e humanas.

É importante remarcar que sempre que a sexualidade nos impul-

sione a cumprir necessidades internas e humanas, e não depravações, vícios e imoralidades não serão práticas contra o desenvolvimento espiritual. Mas se, pelo contrário, provocam algum tipo de prejuízo contra outros ou contra nós mesmos, se degradam os valores morais da pes- soa, se são descontrolados, então há motivos justificados mais que suficientes para tomar sérias medidas no assunto com o fim de domi-

ná-los.

A sexualidade pode ser tanto uma vexação como um acto sublime

no acto de amar e ser amado, mas tal compreensão e concepção de ambos os sentidos, tão contrários e extremistas um do outro, se encon- tram sem dúvida na nossa mente, na forma de observá-la, de senti-la e evidentemente de manifesta-la na nossa vida.

A renúncia sexual, uma questão interna

Gautama Buda, Gandhi, Francisco de Assis, o Apóstolo Paulo ou o próprio Jesus adquiriram um dos valores mais difíceis de alcançar pelos humanos; a renuncia. Buda sendo príncipe abandonou tudo para entregar-se a uma vida austera e humilde para com os necessitados, por sua vez Francisco de Assis foi nobre e abandonou tudo para ajudar as pessoas mais humil- des do seu povo. Todavia, tal prodígio é impossível poder realizar-se se interior- mente o ser não se encontrar capacitado nem preparado para tal. Da mesma maneira ocorre a nível do que todos interiormente sen- timos em matéria da sexualidade. Uma pessoa não pode renunciar ao que não está qualificado internamente para fazê-lo. Fixemo-nos por exemplo na alimentação. Muitos sabemos que a ingestão de carne animal é prejudicial e implica um grave compro- misso espiritual, no entanto os que deixam de comer carne de animais conseguem-no de formas distintas. Tanto podem fazê-lo de repente ou necessitam ir pouco a pouco abandonando-a. A primeira é fruto da aceitação interna que experimentou em outras vidas, nas que o ser lutou e venceu acrescentando a sua força de vontade e, portanto, não encontra uma extrema dificuldade para enfrentar-se com tal, tendo já essa predisposição interna. A segunda é antes uma necessidade, visto que ao organismo dos que necessitam desta renuncia lhes é difícil assimilar a mudança, e por isso sofrem certas moléstias e transtornos que não são de maneira nen- huma prejudiciais e que passam em pouco tempo. Obviamente poderíeis aplicar o mesmo exemplo com referência ao tabaco, ao álcool, às drogas, etc. Eis aqui que podemos aplicar este exemplo da mesma maneira à castidade. Ser casto não é em absoluto sinónimo de ser mais puro, como tão pouco se torna um elemento imprescindível para adquirir uma maior pureza. O desejo e o prazer sexual são um impulso interno, uma sensação humana e a sua manifestação ou expressão no ser huma- no depende de vários factores, como por exemplo. • Da necessidade própria de cada ser humano.

• Da necessidade particular de cada momento da vida.

• De uma circunstância kármica determinada que dê origem a en-

fermidades ou transtornos sexuais como a frigidez, a impotência, etc. Por isso não devemos reprimir esse instinto sexual que de maneira na- tural surge do nosso interior já que pode provocar transtornos a nível físico e espiritual.

Capítulo XII

O CELIBATO

“O repúdio não é uma solução ao problema da sexualida- de, por que o repúdio não é outra coisa senão negar-se a dar à energia sexual a sua saída habitual”.

Mikhael Aivanhov

Q uando a Igreja fala do celibato intencionalmente esquece aquilo que se encontra na sagrada escritura que diz:

“Crescei e multiplicai-vos”. Um dos princípios do catolicis- mo diz assim: “O estado de graça não destrói a natureza,

senão que a desenvolve para o seu aperfeiçoamento”.

Se isto é o que sustem a teologia que o sacerdócio predica, como se pode conceber que proíbam ao religioso a relação sexual, com o dogma do celibato, como acto de amor entre os humanos para adqui- rir a graça? Por dogma de fé? Esse é o abracadabra mágico da Igreja, que a tudo responde quando, melhor dizendo, se desnuda ante a evidente verdade de Deus frente às tantas incoerências irracionais que promul- ga.

Nem desde o ponto de vista médico, nem psicológico, nem reli-

gioso, nem sequer humano e muito menos desde o enfoque espiritual,

é concebível a proibição taxante de que um homem ou uma mulher

pratiquem qualquer acto ou relação sexual, ou tomem parte do matri- mónio. O celibato, é um acto contra a própria natureza humana e espi- ritual, e finalmente de Deus. Na cerimónia do matrimónio diz-se : “o que Deus une no Céu que

o homem não o separe”. Então, se o matrimónio é algo que Deus une

em seu seio, porque se há de proibir? A experiência de ser marido, ou compartilhar uma relação estável, e

a de ser pai é tão enriquecedora que, por si só, é razão suficiente como para considerar o celibato institucionalizado como uma aberração. Sobretudo observando como o celibato não é respeitado em absoluto e só serve para fomentar aberrações sexuais e psíquicas num tanto por cento muito elevado de religiosos, tanto em homens como em mulheres.

Quantas vezes a própria história tem posto a nu a verdade como durante a famosa Semana Trágica de Barcelona, durante a qual as pes- soas se revoltaram esvaziando todos os conventos, mosteiros e igrejas da cidade de fetos e crianças assassinadas em abortos ou depois de te- rem nascido, enterrados nos muros para ocultar a vergonha de padres e freiras que mantinham constantemente relações sexuais. Uma coisa é que cada homem necessite mais ou menos com inten- sidade do sexo, com maior ou menor regularidade, até inclusive que pratique, devido à sua situação desportiva, profissional, laboral ou por conselho médico, certos “jejuns sexuais temporários”, e outra muito distinta é proibir ou mutilar uma função e um sentimento tão belo que Deus criou, como o de amar-se ainda que seja física e carnalmente. No fim de contas, somos ainda físicos e carnais, e por conseguinte não de pedra. Além disso, como se diz: “Nem só de pão vive o homem”.

Origem do celibato

Vejamos na história como a Igreja Romana nem sempre determi- nou que os seus religiosos fossem celibatários. O celibato foi imposto com suma severidade, como qualquer outro dogma do Catolicismo, no Concílio de Trento, aí pelo século XVI. Mas nem todos os clérigos foram tão cegos e tão ignorantes ante a sua própria natureza humana. No ano 325, durante o Concílio de Ni- ceia, tratou-se de impor o celibato no clero. Um dos bispos assistente ao referido Concílio, levantou-se indignado contrariando a proposta. Graças a esta oposição, registradas nas denominadas Constituições Apostólicas do século IV, decidiu-se o seguinte: “Se algum sacerdote, bispo ou qualquer outro membro da Igreja se abstiver do matrimónio, por desprezo, e não pelo exercício da prática espiritual, mostra-se inconsciente do facto de que Deus fez todas as coisas sumamente boas, e criou o homem varão e a mulher. Em sua blasfémia, tal cléri- go condena a criação. Por conseguinte que seja corrigido e expulso da Igreja”.

O cio orgânico e biológico

Todos os seres vivos passam por ciclos ou etapas de incitação à

reprodução natural da sua espécie. As plantas através da polinização ou os animais com o cio, que é um período do ciclo biológico anual, durante o qual aumenta o seu apetite sexual para procriar. Os humanos também estão submetidos a uma espécie de cio orgâ- nico e biológico. De maneira nenhuma é um cio como o dos animais, que começa e acaba pela duração de um tempo determinado. Nos humanos, o apetite sexual pode ser constante ou anular-se por com- pleto, devido a diversas causas, ou pelo próprio esforço interno que, no menor número de casos, o leve a sobrepor-se sobre as suas neces- sidades sexuais. Este cio biológico ao que me refiro é uma constante emissão de emoções e sensações cuja causa é a sua natureza instintiva que, com distinção de outros seres vivos, sim pode tentar dominar e controlar o seu instinto, para que, por um lado, não perca as rédeas da sua vonta- de e por outro, dar-lhe um sentido e significado muito especial, uma orientação espiritual. Eis aí o progresso interno do seu espírito e uma das grandes e importantes diferenças alcançadas com respeito ao reino animal.

O problema do celibato

O ser humano pode decidir, pode criar problemas, transtornos ou

enfermidades psicológicas ou patológicas em seu organismo que o levem à destruição da pessoa, da sua dignidade, da sua integridade, da sua matéria e inclusive à própria morte. Pelo contrário pode também sublimar o sentido da sexualidade à volta da imagem de Deus, já que o Criador a instituíu em todos nós como parte do ser humano e, por essa razão, é-nos necessário encon-

trar, na sua prática ou na concepção que se tenha dela, um significado sublime e belo.

O problema da sexualidade, com referência ao celibato, reside em

que devemos focalizá-la com os nossos pontos de vista internos, os da

nossa natureza espiritual, não com a natureza humana, que terá sem-

pre que satisfazer os seus instintos mais primitivos em vez de tentar corrigi-los. A finalidade, neste propósito, é alcançar um sentido menos animal e mais espiritual.

A maravilhosa sensação de amar-se, no campo da sexualidade, é

também amar algo que foi criado dentro de cada ser humano para unir- se numa aliança subtil e de compromisso. Por isso, despreciar a sexualidade para sermos mais puros na nossa espiritualidade é uma quimera infantil e um erro gravíssimo. Jesus dizia: “A verdade se aperfeiçoa passo a passo, à medida que o espírito caminha na presença do porvir, pelo abandono dos instintos materiais e pela pureza dos desejos”.

O verdadeiro sentido da castidade e do celibato

A castidade e o celibato são produtos do ser humano no seu gran-

de desconhecimento do efeito que estes produzem no seu âmbito inter- no. A natureza do ser humano foi criada para encontrar nela os mais

belos significados com os que encontrar a autêntica sabedoria de Deus. Se reprimimos alguma parte de nós que seja sempre a que se encontre no mais negativo, não pelo contrário, o que serve em todo o momento como veículo entre a harmonia interna e externa, quer dizer, entre o que sentimos e manifestamos na vida. Tudo na vida tem o seu porquê, a sua razão, a sua causa de existir. Não sentimos por casualidade, não brota do ser humano todo esse compendio de sentimentos e emoções por acaso, senão porque é parte da própria vida.

A orientação que lhe dermos é a que nos vai sublimar ou embru-

tecer, mas suprimi-la é perder essa oportunidade de conhece-la.

O ser humano não pode fazer ouvidos surdos ao que a gritos clama

dentro de si. Se escutasse com o ouvido interno do seu espírito ouvi- ria uma linguagem distinta que lhe oferece soluções, respostas, resul-

tados, contestações aos enigmas mais inexplicáveis que se podem con- ceber.

O próprio espírito de cada um decifra qualquer incógnita por difí-

cil que esta nos pareça se certamente encontrarmos o caminho interno que nos conduza até ele. Se a finalidade da vida humana é alcançar a pureza pensemos que necessário é ao ser humano converter por es- forço a baixeza interna das suas debilidades sexuais, emancipar-se daquelas dependências terríveis das paixões inferiores para elevar-se e ascender a uma bela atmosfera de espiritualidade. Convém, portanto, meditar em profundidade sobre o conhecimen-

to espiritual que recebemos vendo nela, como único fim, o meio ade- quado para alcançar a elevação do nosso espírito. Disse-nos Jesus:

“A Verdade se aperfeiçoa passo a passo, na medida em que o espí- rito caminha na presença do porvir, pelo abandono dos instintos mate- riais e pela pureza dos desejos”. Essa mesma verdade e essa mesma pureza é necessária alcançar para chegar até o mais recôndito de cada ser e para contemplar a mara- vilhosa imagem de Deus que se reflecte nele.

Capítulo XIII

A MASTURBAÇÃO

“A masturbação deve considerar-se uma actividade sexual genuína que não é incompatível de modo algum com uma sexualidade madura”.

Elena F. L. Ochoa

U ma prática muito comum e de suma importância a tratar no amplo campo da sexualidade, é a masturbação. Uma prática que produziu inumeráveis traumas e complexos, porque não se a entendeu ou não se a praticou correcta-

mente, para não citar a enorme e controversa polémica arrastada durante séculos na cultura católica. Quando a religião determinou ou sentenciou proibições nestes assuntos da sexualidade. Com respeito à masturbação, o espiritismo Cristão adopta a mes- ma lógica e sensatez empregada até agora para enfrentar os diferen- tes pontos que completam o tema da sexualidade. Como exemplo, eis aqui uma opinião oferecida por um ser desencarnado, Ramatis, atra- vés da mediunidade do Irmão Pedro, a respeito da masturbação, desde um enfoque espiritual:

Pergunta: A masturbação como necessidade fisiológica, não fecha portas ao progresso do espírito? Ramatis: “A masturbação não fecha portas, pois como bem dizes, é uma necessidade fisiológica. Mas particularizo: como necessidade, nada mais. Se durante esse acto houvessem pensamentos aberrantes, de paixões baixas, e onde poderia haver implicada outra pessoa, esses pensamentos poderiam causar-lhe dano. Mas se, como dizes, é uma necessidade fisiológica, não fecha porta alguma. Podes estar certo, que por ser eu o que sou não posso enganar-te”.

A força da mente

Como podemos apreciar, os problemas dentro de qualquer prática sexual, residem sempre num factor capaz de condicionar as experiên- cias sexuais de forma positiva ou negativa: a mente humana. A nossa mente joga um papel vital e importantíssimo em qualquer

experiência sexual, como em qualquer outro âmbito da vida. Por meio dela, o ser humano é capaz de condicionar-se ou liberar-se por com- pleto, desfrutar ou sofrer, segundo a sua planificação mental e a sua forma de enfrentar as experiências e os seus sentimentos.

O problema mental na masturbação —para defini-lo deste modo,

não porque seja uma deficiência ou transtorno mental— encontra-se exclusivamente no enfoque dado a esta prática por cada pessoa. Não podemos esquecer nunca que a masturbação depende do estímulo mental gerado por meio de pensamentos eróticos e sensações sen-

suais, enfocando o estímulo sexual para diversos conceitos: pessoas, actos, sensações, recordações, etc.

O problema, quando existe, advém no justo momento em que a

intenção mental se focaliza unicamente em actos, pensamentos ou indivíduos, cuja vinculação mental, pode representar um risco. Não

esqueçamos o poder inato e imenso da mente humana, capaz dos mais proveitosos resultados ou dos mais abjectos conflitos e estados.

A transmissão do pensamento afecta de um ponto ou outro, tanto

ao emissor como ao receptor; quer dizer, tanto a quem pensa como à pessoa que aparece no seu pensamento. Daí a necessidade de velar, cuidadosamente, por tudo quanto é gerado na mente por meio da ima- ginação. Quando o pensamento, neste caso sobre uma pessoa, se vincula aos sentimentos e desejos produzidos durante o acto masturbatório, adquirem uma força extraordinária intensificando o desejo sobre tal dita pessoa. Muitas vezes, ao não conseguir os favores sexuais desse indivíduo, produz-se uma acumulação de ansiedade que origina dis- tintos estados de angústia, desesperação e tensão. Outro perigo é que esse pensamento se efectua com uma constan- te insistência. Tal insistência com o tempo pode subjugar a vontade do indivíduo e fazê-lo tropeçar na sua conduta na vida.

Os efeitos da lei de afinidade

Além disso é necessário não esquecer uma Lei importante que sempre entra em jogo em qualquer aspecto circundante à vida mental do ser humano: a Lei de Correspondência Vibratória ou Lei de Afini- dade.

Segundo esta Lei, os iguais ou afins se atraem vinculando-se entre si. Os seres desencarnados têm capacidade suficiente para ler literal- mente todos aqueles sentimentos e criações mentais engendrados nas fantasias eróticas dos seres humanos. Para além de perceberem as nossas emoções, impulsos e desejos. Deste modo produz-se uma vin- culação entre desencarnados e encarnados dependendo das suas pró- prias emanações internas, tanto no âmbito mental como emocional. Dessas alianças surgem, posteriormente, situações e quadros trá- gicos, porque estas companhias espirituais chegam a destroçar os esquemas morais e éticos dos que se deixam levar pelas suas debili- dades carnais. Portanto, é preciso cuidar com especial interesse a nossa saúde e estabilidade mental, tanto a humana como a espiritual, evitando os pensamentos degradantes de tipo sexual gerados pela nossa mente em algum momento da vida. Desta estabilidade dependem muitos outros factores da vida quotidiana.

A prática do onanismo: boa ou má?

Por outro lado, existe o caso de pessoas com uma dependência ex- clusiva a certos estímulos dentro da masturbação, aos quais se aferra- ram durante longo tempo. A reincidência e insistência marcada para este tipo de estímulos, pode criar, se o indivíduo manifesta ser frágil ante esse tipo de situações, uma inclinação que pode converter-se, com o tempo, num hábito pernicioso ou, pior ainda, numa dependên- cia ou transtorno coarctador da vontade do sujeito. Nestes casos, nem a masturbação, nem nenhuma outra prática se- xual deve empregar-se para alimentar este tipo de condicionamentos e dependências. Mas num sentido natural e normal a masturbação, também cha- mada onanismo, não deixa de ser uma prática lícita e necessária na medida em que cada pessoa a necessite. Desde um ponto de vista humano, psicológico e fisiológico, realizar esta prática proporciona bem estar e equilíbrio. E esta não é apenas uma opinião oferecida desde o ponto de vista espírita, senão também partilhada por médicos, psicólogos, terapeutas ou psiquiatras. A masturbação não deixa de ser uma via de escape de numerosas

tensões acumuladas quotidianamente, e um regulador das funções para as quais foram concebidos os órgãos reprodutores. Claro está que tudo levado a um extremo ocasiona problemas. E nesse sentido a masturbação pode converter-se por si só num meio para produzir prazer ou uma satisfação sexual plena. Ora bem, usar por si só esta prática, como único meio de chegar a uma plenitude sexual, pode desviar gravemente a importância da relação sexual. Muitas pessoas não encontram o clímax adequado nas suas relações de casal, pelo que buscam na masturbação, preencher esse vazio de prazer em vez de encontrar outra solução e ter uma vida sexual satisfatória nas suas relações de casal.

A Igreja ante a masturbação

As tradições religiosas costumam tratar com especial atenção o sexo; pela capacidade de influência que tem sobre a conduta dos indi- víduos, e porque faz parte da vida familiar e da função procriativa.

A religião, em especial a Católica, no ocidente, criou um mito,

fora de toda a lógica, em torno da sexualidade e mais concretamente em torno da masturbação.

A Igreja Católica, até não há muito tempo, não só se manifestava

contra, senão que até condenava com despotismo esta prática, incul- cando nos adolescentes uma moral baseada na frustração, no medo e na ofuscação sexual. Os jovens deveriam reprimir a efervescência dos seus instintos, e chegar a praticar a masturbação era cair no pecado e na condenação. Os sacerdotes decretavam e submetiam duros castigos e repri- mendas, aos que se masturbavam, tildando-a de acto pecaminoso. Recomendavam abstinência ante os impulsos naturais do corpo. Muitas pessoas, em épocas anteriores recorriam a diversos métodos para iludir aquelas tentações como por exemplo, o flagelo ou a abs- tinência, com isto o único que conseguiam era torturar, não só o corpo, mas também a mente.

O Clero proibia todo o acto sexual que não fosse praticado com o

objectivo de conceber filhos, e assegurava veementemente que a mas-

turbação podia deixar as pessoas cegas, coxas, imbecis e mudas. Deste modo cresceram gerações inteiras sumidas na repressão

sexual e na desinformação total do seu próprio corpo e sexualidade. Chegando inclusive a traumatizar-se neste aspecto e a repudiar qual- quer circunstância relacionada com o sexo. Algum dia poderemos comprovar que as necessidades do ser hu- mano, com respeito à sua sexualidade, são algo mais naturais e sub- tis do que como se concebem em cada época: numas cheias de peca- do e noutras como a chave da libertinagem sem controle.

Capítulo XIV

A PROSTITUIÇÃO

“Na antiga Grécia e Mesopotâmia fazia parte das tarefas do templo, e todas as mulheres participavam nela antes do matrimónio como um tipo de ritual religioso”.

Carmelo Vázquez

C hama-se à prostituição “a profissão mais velha do mundo”.

Todas as culturas e civilizações que conhecemos, até as

mais antigas, conheceram a sua existência. Mulheres caídas

em desgraça ou luxuosas cortesãs, influentes nas decisões

do estado, todas formaram e formam parte de profissionais cujas ferra-

mentas são o seu próprio corpo, a sua cara e vestidos; cujo serviço é prestar o corpo para que outros se gozem dele. A própria existência da prostituição sem dúvida fala-nos da manei- ra que a humanidade tem de entender a sexualidade, tingida de egoís- mo e ancorada no mais primitivo instinto. Sem dúvida que a existência da prostituição gera toda uma série de problemas sociais e económicos de profundo entalhe nas sociedades e de muito difícil solução dado à mentalidade imperante. Prostituir-se representa em si mesmo um acto degradante, baixo e decadente, seja por extrema necessidade como por ofício ou por sim- ples vício e prazer. Claro que não pode ter a mesma responsabilidade uma adolescente asiática ou africana, que exerce a prostituição obri- gada por seu pai ou pelo proxeneta a quem o progenitor a vendeu, que uma prostituta de luxo nas ruas de Paris com um lucro mensal de mui- tos zeros. Não é o mesmo prostituir-se para ganhar a vida, que desfru- tar exercendo-a ou como meio para conseguir certos favores ou bene- fícios. Em geral a prostituição não está constituída exclusivamente por mulheres e homens de baixa condição social, económica, cultural nas que se estabelece o género humano. Milhares de pessoas, com um grau de inteligência, cultura e posição social considerável, se prostituem como meio de vida para alcançar, entre outros fins, um status econó- mico consideravelmente alto.

O sentido da prostituição

Há quem pense que a prostituição tem cumprido um papel deter- minado na vida de toda a sociedade. Criaram-se, ou pelo menos assim foi em certas épocas, uma série de mitos, lendas ou tradições antoló- gicas e lendárias à volta dela. Os soldados que iam para o serviço militar nos períodos de gue- rras, os moços entrados na idade de perder a virgindade e converter-se em homens, os círculos carcerários, os imigrantes, os pós-guerras, os

deslizes de certo sector da aristocracia ou da alta sociedade, as meni- nas de companhia de certas personalidades estrangeiras que visitam outro país por distintas razões, as concubinas que davam certo prestí- gio a reis e governantes, o turismo sexual, o drama das moças prosti-

tuídas em zonas de extrema miséria

vulgarmente, tem, no género humano, diferentes justificações. Há quem afirme que a prostituição cumpre um papel terapêutico, talvez como um tira-medos ou tira-complexos para quem aprende a saltar pela primeira vez, quer dizer, para quem tem a sua primeira relação sexual.

Já que ir às putas, como se diz

Os efeitos da prostituição

A pessoa que se prostitui degrada-se a si mesma, tanto o seu corpo como a sua própria condição social. Os efeitos que pode ter a sua prá- tica são muito variados e dependem de diversos factores: as causas pelas quais se prostitui, os fins que deseja conseguir, as condições humanas, sociais, higiénico-sanitárias nas que se realiza, etc. As relações sexuais, via prostituição, não costumam aportar o componente, que é absolutamente mais importante em toda a prática sexual: o afecto, a emotividade, o amor. Desde que o acto sexual se converta numa sucessão de desafogos e descargas do instinto no ser humano, se igualará ao acto de pro- criação dos animais, que não compreendem mais além da pura neces- sidade de atalhar o cio instintivo que, sem a necessária razão da cons- ciência, os leva a copular sem nada mais. Não obstante, o ser humano possui essa consciência, e deve exercê-la se deseja todo o valioso conteúdo espiritual que leva dentro de si mesmo.

O porquê da prostituição

O Espiritismo Cristão não condena a prostituição ainda que seja

uma prática imoral, senão que tenta compreender cada caso isolada- mente e com isso chegar a descobrir seguramente a trágica história de

quem teve que recorrer a este tipo de situações na vida como ultimo recurso para poder sobreviver, aos que foram obrigados a degradar-se desde a mais tenra juventude. Muitas pessoas condenam superficialmente qualquer expressão ou comportamento no campo sexual que se aparta daquilo que conside-

ram como lícito. Mas, por detrás de cada vida, existem razões descon- hecidas capazes de fazer-nos ver até onde chega a tragédia de um ser humano e as suas necessidades por sobreviver.

A droga, as dívidas, o levar por diante os filhos, a fome ou a sub-

missão pela força, são situações extremas e desculpáveis em compa- ração com aqueles que utilizam a prostituição como meio de criar for- tuna ou sentir prazer. Com certeza muitos de nós poderemos pensar que existem outros meios, outros caminhos para sair por diante de todas as situações difí- ceis, mas aqueles que caem ocasionalmente na prostituição por estas causas de extrema necessidade, requerem a nossa compreensão e ajuda. Em caso algum o repúdio ou a marginalização os ajuda no terrível trago de ter que vender favores sexuais para seguir em frente. Como cristãos, a nossa visão de tudo quanto degrada o ser huma- no é sem dúvida, distinto. Jesus condenava unicamente aos que, com premeditação e inteligência, cometiam abusos contra os mais fracos. Increpava os sacerdotes mas protegia as mulheres da má vida dizendo: “aquele que esteja livre de pecado que atire a primeira pedra”. E esse exemplo nos fará compreender que é mais proveitoso condenar o delito e ajudar aos que o infringem. Quem somos nós para determinar sentenças nem muito menos para afastar-nos de todo o sen- timento de caridade para com os mais necessitados. Jesus aproximou-se de muitos necessitados porque eram os margi- nalizados de uma sociedade hipócrita, vazia e cheia de corrupção. Deveríamos, antes de marginalizar e condenar aos que exercem a pros- tituição, condenar as condições que a produzem e aos que a fomentam

e se aproveitam dela: a injustiça social e a miséria, cada dia mais pro- funda; a impossibilidade de amar de muitos seres humanos; o poder do forte e a exploração do mais fraco; a falta infinita de compreensão e

entendimento entre as pessoas; e tantas outras condições, que nos des- cobrem as grandes lacunas da evolução moral, espiritual e religiosa da humanidade. Tenhamos, pois, uma visão plena de clemência para com aqueles que necessitam ser compreendidos e não aplicar-lhes o peso de uma lei, de uma justiça cega, àqueles cujos direitos deve proteger. Somente

a Deus corresponde exercer o sagrado exercício da justiça.

Capítulo XV

PORNOGRAFIA, FEITICISMO, EROTISMO E SENSUALIDADE

“O amor, a sensualidade e o carinho são tão importantes, ou às vezes mais, que o próprio sexo”.

José Ribas

Pornografia e feiticismo

A pornografia e o feiticismo são outros dois aspectos importantes

sobre os quais deambulam muitas situações problemáticas na sexuali- dade. De entrada, a pornografia e tudo quanto lhe é coadjuvante na nossa sociedade actual, como exploração, negócio, perda de certos valores humanos, denegrição da figura da mulher ou do homem, obscenidade, etc., é repudiado dentro de qualquer enfoque espiritual. No entanto, e ainda que possa parecer um tanto paradóxico afirmar

isto, certo carácter pornográfico (ou pelo menos uma pornografia pes- soal, particular e íntima do casal, que não siga os padrões de dene- grição, vício, negócio, etc.), poderia não ter este sentido negativo. Dentro da vida sexual de um casal podem dar-se um sem-número de situações. Como assinalei anteriormente, amar-se é um jogo no qual os dois estabelecem as regras.

A moral sexual implicada neste jogo é aquela estabelecida pelos

que se amam, não pela sociedade nem por nenhum estatuto religioso. Criar um carácter ou um ambiente pornográfico não é minima- mente empregar a pornografia como meio para estimular-se. A porno- grafia faz alusão a tudo aquilo cujo carácter é obsceno, lascivo e pouco decente, quer seja no cinema, na literatura, etc. Mas tudo quanto é atribuído ao pornográfico se poderá julgar sob este mesmo carácter? Tanto no cinema como na literatura ou nos meios de comunicação, apreciamos por vezes um sentido diferente quanto ao facto de mostrar, representar ou narrar tanto o acto sexual como a desnudez do corpo. Se não buscássemos um termo médio, veríamos que um simples desnudo, plasmado numa cena natural de uma película, narrado numa

novela ou representado numa pintura, seria pornográfico e, portanto, obsceno, lascivo e pouco decente. Todos os grandes artistas, pintores, escultores, gravadores, etc., e as próprias culturas que os ampararam como Roma ou Grécia, berços dos maiores princípios políticos, sociológicos e culturais, seriam colossais fomentadores do pornográfico, já que a sua arte está cheia de desnudos.

O erotismo e a sensualidade

A pornografia, vista desde esta perspectiva, pode manifestar-se neste termo médio, sempre e quando se represente como um acto natu- ral de mostrar o corpo, como a sua sensualidade, ou o facto de inter- pretar certas cenas eróticas, desde que não degradem a imagem do sexo, da identidade pessoal de quem se mostra nem se efectuem con- tra a vontade de quem se exibe. Talvez este termo médio possa ser o erotismo. Segundo o seu sig- nificado o erotismo é o amor sensual, e o carácter que excita o amor sensual. Também se lhe atribui um terceiro significado: exaltação do amor físico na arte. É curioso como ao erotismo se lhe aplica um conceito muito mais próximo do afecto humano que ao sexo puramente carnal: o amor sen- sual. E algo ainda mais significativo, implica a arte neste significado. Muitas pessoas necessitadas de terem um modelo de referência, por não possuírem informação, experiência, etc., num momento deter- minado da sua vida, superaram certos traumas ou se ilustraram de um modo mais gráfico e explícito graças às imagens eróticas e pornográ- ficas. Ainda que não esqueçamos, hoje em dia, existe todo um extenso mundo aberto e generoso com respeito à sexualidade, pessoas com uma formação adequada em psicologia e sexologia, para poder tratar dos problemas ou da desinformação com respeito a tudo o relativo à sexualidade, pelo que se torna inviável o facto de instruir-se unica- mente por esta via. Instituições de planeamento familiar, informação a partir da esco- la, profissionais da sexologia, meios de comunicação dedicados a divulgar estes temas desde um ponto de vista sério e pedagógico,

médicos, psicólogos, terapeutas, literatura, revistas especializadas, internet, etc. Não obstante, converter a pornografia e o erotismo num negócio, marginar a quem representa tais cenas, converter o sexo num acto puramente mecânico, visceral, instintivo e de desafogo, carente de sentimentos, entre outras muitas razões, tal como tão frequentemente

se interpreta a nível geral hoje em dia, poderia claramente definir-se como algo muito negativo e degradante humana e espiritualmente.

O sensual é tudo o que é relacionado com os sentidos. Aplica-se

aos gostos e deleites dos sentidos, às coisas que os incitam ou satisfa- zem e às pessoas afeiçoadas a eles. Também é tudo aquilo pertencen- te ou relativo ao desejo sexual. Sob esta terminologia, o dicionário da Real Academia Espanhola, define o vocábulo sensual. Assim é porque no ser humano existe uma conotação inata para a sensualidade. Ninguém deve escandalizar-se com esta afirmação. Movemo-nos por impulsos, criamos sensações, ambicionamos dese- jos, buscamos prazer, temos todo um sistema sensitivo e os nossos cinco sentidos se aplicam com desmedida generosidade e constância ao longo de toda a nossa sexualidade. Contudo, os seres humanos têm ido deformando este sentido sob aparências sinistras e deformadas de toda a extraordinária vida inter- na, que possui debaixo das múltiplas capas de preconceitos que se foram incrustando ao longo do tempo.

O feiticismo

O feiticismo é também uma prática propiciadora de certas situa-

ções nefastas quando é levado a um extremo.

Consiste em fixar a atenção sexual numa parte do corpo, num acto em concreto ou num objecto, com o fim de buscar a excitação sexual.

O ser humano é feiticista por natureza. Mas este âmbito feiticista

levado com normalidade é incapaz de produzir dependências nem des- vios sexuais. A lengerie, a roupa ajustada, o perfume, a dança erótica, vocabulário lascivo, o sensualismo, etc., são feitiços habituais incapa- zes de prejudicar, senão antes pelo contrário, de estimular as relações sexuais sempre e quando se interpretem adequadamente, sem cair na

grosseria, na vulgaridade ou, pior ainda, na dependência. Dos muitos aspectos que se conjugam no sexo alguns têm muito que ver com esta faceta, como a fantasia, a criatividade, a imaginação, etc.

A pornografia, o sensualismo e o erotismo podem converter-se perfeitamente num feitiço, e de facto com frequência acontece. O pro- blema é quando, como no caso da masturbação ou outras práticas, o feiticismo se converte no único meio capaz de proporcionar o prazer e gerar a ânsia do desejo sexual. É então quando o feiticismo se torna num perigoso e preocupante desvio sexual, e em alguns casos num grave problema de muito com- plexa solução.

PARTE III

ESPIRITUALIDADE E SEXUALIDADE

Capítulo XVI

A SEXUALIDADE FRENTE AO CONHECIMENTO ESPIRITUAL

"O amor é mais o deus das sensações que dos sentimentos".

Ninon de Lenclos

A aventura do progresso humano e da evolução espiritual está rodeada de inumeráveis fenómenos, factos e circunstâncias que frequentemente são difíceis de interpretar, com maior visão do que quotidianamente o fazemos. É necessário,

precisamente, ir mais além, com um tema que é tão espinhoso quanto

complicado, e delicado ao mesmo tempo de interpretar desde esse prisma mais profundo que o mero ponto de vista humano; quer dizer, desde uma visão completamente espiritual. Na realidade, a autêntica essência criativa do ser humano não se encontra aqui, no sexual, mas sim muito mais longe, no mundo espiritual. Mas, tudo o que o Grande Criador, deixou no ser humano foi a semente do seu Fruto Celestial, para que ali onde fosse semeada germina-se, como a obra de um pequeno criador. Ao fim e ao cabo, um dos fundamentos nos quais se sustém a vida humana é precisamente a sexualidade. Sem ela:

• Não se reproduziria a nossa espécie.

• Não existiria como válvula de escape para uma infinidade de fac- tores psíquicos e físicos nos seres humanos.

• Não haveria vínculo afectivo para muitas pessoas que assim o ne- cessitam.

• Não seria um factor de harmonia e de união nos matrimónios.

Embora quando mal interpretado na vida possa resultar ao contrário;

uma causa de discórdia e desavenças.

O sexo e a sua relação com a Espiritualidade

Para falar de sexo e tentar relacioná-lo ou uni-lo com a espirituali- dade é-nos imprescindível derrubar, indubitavelmente, certos tabus que tanto têm oprimido a humanidade ao longo da história já que o sexo é algo que em nenhum caso se pode nem se deve entravar, se é

que estes sentimentos não saem do seu caudal natural e corrente. Começarei por salientar algo que é de suma importância e que tal- vez, à primeira vista, possa parecer, para alguns uma atrocidade ou algo excêntrico. É o facto de que o sexo esteja intimamente relaciona- do com a espiritualidade. A sexualidade, bem entendida e compreendida no seu aspecto pro- fundo e transcendental, é já em si mesma a própria espiritualidade. O sexo, jamais deve ser catalogado, única e exclusivamente, como um conjunto de comportamentos e impulsos que busquem a obtenção de prazer sexual. Nem tão pouco como um simples fenómeno reproduti- vo, porque se assim fosse se estaria rebaixando a profunda espirituali- dade que o ser humano possui à altura dos nossos irmãos inferiores, os animais. Eis aqui onde se encontra a grande diferença entre animal e humano. Alguns chegaram ao ponto mais álgido da sexualidade em relação à maioria dos seres humanos e outras espécies menos desenvolvidas que evoluem na Natureza. E mais ainda, alguns começaram já a compreen- der e pôr em prática o aspecto espiritual que a sexualidade encerra. Embora, e também é certo, que nem todos os que buscam sabem realmente o que é que desejam encontrar nela. E não é menos certo também que outros tentam encontrar na sexualidade um sentido dema- siado místico e sobrenatural que para nada corresponde à verdadeira realidade com que Deus, nosso Pai, a forjou em todos os seus filhos. Esta maneira de entender o sexo levou a negar e até a anular a pró- pria natureza do corpo humano, em permanente conflito com a tendên- cia religiosa ou transcendente. No fim verificaram que as suas forças, ilusões e impulsos na vida haviam desaparecido. Nem por isso também a sexualidade pode ou deve representar, para os seres humanos, uma emoção ou sentimento pura e exclusiva- mente erótico, sensual ou lascivo; porque ainda que estas sensações cheguem a interagir durante os momentos de união sexual (e que como humanos são de todo naturais e necessário senti-las), o ser humano nunca deve deter-se em exclusivo nas sensações de prazer, de gozo ou satisfação sexual, senão também buscar outros significados, outros objectivos que a sexualidade lhe possa oferecer para a conquista da espiritualidade.

Talvez pareçam insólitas estas palavras: “buscar outros significa- dos e objectivos que a sexualidade possa oferecer para a conquista da espiritualidade”. Mas depois de tantos anos de ignorância para com as coisas mais elementares da vida, e que representam às vezes as mais transcendentes na espiritualidade, hoje não se deve sentir pudor algum se falarmos abertamente, e não com a boca semi-fechada, sobre o mundo maravilhoso da sexualidade.

Para uma definição da sexualidade

A sexualidade é o meio mais belo pelo qual os seres humanos se unem para produzir a continuidade da vida e identificar-se com Deus, Seu Criador. A sexualidade é um todo sinfónico de amor, quando o sentimento que o ampara vibra em uníssono com Deus. Há cinco séculos atrás, falar disto teria constituído morte segura na fogueira. E da mesma maneira que desde há 500 anos fomos pondo de parte certos aspectos da sexualidade e fomos alcançando outros, é per- feitamente aceitável considerar que o ser humano se encontre na actualidade capacitado para ir ainda muito mais longe, buscando ou- tras novas realidades que lhe proporcionem luz, conhecimento e sabe- doria. Tudo na vida humana serve e foi criado para manter-se de forma equilibrada, estável e proporcionada em cada ser, sem carências nem excessos. E o mais importante ainda, o que Deus criou e formou no ser humano nunca pode ser algo sujo nem indigno dele. Na verdade foi e é o próprio ser humano quem tornou indigno e sujo algo tão sublime e belo como a sua própria sexualidade. Certo é que existe uma grande confusão a respeito de como se deve sentir e viver o sexo na vida de uma pessoa que aspira a elevados objectivos e metas dentro da espiritualidade. Há quem pense que o sexo e a espiritualidade são conceitos que estão completamente em desacordo e, portanto, não são em absoluto compatíveis com um ideal sublime e espiritual. Por conseguinte, actuam despreciando algo que possuem os seres humanos, precisa- mente para ser modelado com um fim inteiramente sublime e espiri- tual.

O verdadeiro sentido da sexualidade

A sexualidade deve ser concebida como uma autêntica essência

criativa no ser humano. Criar uma vida, ser o promotor de uma nova existência, é algo muito importante para qualquer mortal, e fazê-lo

amando outra pessoa significa que uma parte de Deus se manifesta também nesse acto, quando se sente também amor, que embora físico está envolto de sentimentos nobres e puros. Mas não só se cria uma vida nesse acto, senão que na união entre duas pessoas também se criam outros vínculos muito importantes para as relações humanas,

como os sentimentos, as emoções, o carinho, o afecto, o amor, a ter- nura, a paixão, o desejo

A sexualidade não tem uma conotação puramente procriadora ou

prazenteira; porque é fonte inesgotável de sentimentos de união, de

vínculo estreito, de partilha, de respeito; em definitivo, de amor.

A sexualidade não deve ajustar-se ao homem mas sim o homem à

sua sexualidade. Para entender melhor esta frase porei um exemplo:

Havia uma vez um jovem casal que tinha um sério problema. Havia pouco tempo que tinham contraído matrimónio e não sabiam como solucionar nem resolver um dilema com o qual muitos casais, precisamente se encontram. O jovem marido era muito impetuoso e impulsivo, enquanto que a

sua mulher, que também era inexperiente no assunto, era pelo contrá- rio extremamente parcimoniosa e muito pouco ardente. Assim que nunca chegavam a estar em concordância um com o outro, nem a man- ter uma relação satisfatória para ambos.

O caso é que decidiram, de comum acordo, consultar um sábio

sobre este assunto que lhes deu uma salomónica resolução:

“Meus jovens amigos —disse-lhes o sábio— o amor que desfru- tais, embora físico, é um belíssimo apoio com o qual buscar e encon- trar um significado íntimo e generoso para saber e conhecer quem é o Criador de vossas vidas” “Para solucionar o vosso problema devereis pensar, que o amor humano é sempre semelhante a um delicado pássaro, que tendes acol- hido entre as vossas mãos. Se pressionais com demasiada paixão, para torná-lo vosso, correis o perigo de comprimi-lo em excesso e asfixiá-

lo. E se, pelo contrário, não o segurardes o suficiente pode ser que per- deis o controle e ele se vos escape das mãos”. “Por conseguinte, tereis que saber que o amor humano é algo que possui vida própria. É uma força da Natureza muito poderosa e que por detrás dela se oculta uma força Espiritual ainda maior que esta últi- ma, que Deus criou para a formação e a consecução da vida e da união afectiva de todos os seres”. “Por este motivo deveis ter bem presente que nem se deve asfixiar por egoísmo humano, nem deixar que se escape por falta de atenção, ou de interesse”. Com efeito, a sexualidade oferece na vida humana muitas e varia- das vertentes para a humanidade. Desejo que estas reflexões possam dar uma maior profundidade ao conceito da sexualidade.

Capítulo XVII

A MENTE NA SEXUALIDADE

“A harmonia do gesto é a harmonia do cérebro, e a har- ”

monia do cérebro é a harmonia interior

P. Chauchard

C ontinuando com o tema da sexualidade como essência cria- tiva do ser humano, vamos tentar aprofundar na importân- cia da mente no comportamento sexual de todo o ser huma- no. Tudo o relacionado com a vida sexual é de vital impor-

tância para o bom desenvolvimento interno, já que é necessário bus-

car, a todo o custo, o equilíbrio necessário para não sermos vítimas de conflitos internos como acontece sobretudo durante a inexperiência da juventude. Embora nem todos os problemas neste aspecto sejam precisamen-

te por falta de entendimento, já que a sexualidade está ligada a um ele-

mento importante que é a mente. A mente de toda a pessoa deve estar em realidade fortalecida e clarificada nesta parte essencial da sua vida íntima e pessoal, já que forma parte de toda a sua vida interna, a que conecta com todo o transcendente que existe no seu Ser Espiritual.

Daí a grande necessidade de buscar, não só na sexualidade, senão em todos os terrenos e aspectos da vida humana o equilíbrio, a sensa- tez e a prudência entre os dois planos, ou seja, entre a sua vida exte- rior, a física e a sua vida interior, a espiritual. Para isso terá que sobrepor-se aos abusos desmedidos tanto quan- to às carências, ou a certas renuncias desnecessárias que trunquem o normal funcionamento que regula o equilíbrio natural do organismo. Isto é um problema dificilmente assimilável para quem não recebeu uma informação correcta e adequada acerca do funcionamento da sua própria sexualidade. É aqui que nos deparamos com um sério problema que tanto mal cria continuamente nesta sociedade: por um lado a falta de informação e mais ainda a falta de uma informação adequada, correcta e positiva.

E por outro, a péssima informação que muitos adquiriram através de

costumes negativos e deficientes. Imaginemos por um momento que uns órgãos, tão importantes para a depuração do sangue e para a segre- gação de urina, como são os rins, deixassem radicalmente de funcio- nar. Ou também, que sucederia se o nosso coração parasse ou, pelo contrário, funcionasse aceleradamente? Os elementos que foram criados no corpo humano, pela mente infinita de Deus, foram estruturados para a sua regular e constante função, na vida de todo o ser humano e não para deixá-los em desuso ou para exceder-se num abuso desmedido. Todo o físico tem as suas limitações e, ao mesmo tempo, também possui uns pontos intermédios, que alcançando-os, se chega à harmo- nia, ao equilíbrio ou à estabilidade que por sua vez geram tranquilida- de, paz e serenidade. Por conseguinte, e como cada ser humano necessita em maior ou menor grau de uma vida sexual correcta, é impossível dar números ou quantidades, nem percentagens, no dia a dia, para a sua prática, já que isto vai em função, da necessidade racional e não da necessidade im- posta. A prática sexual mobiliza no organismo toda uma série de apli- cações essenciais para o bom funcionamento do corpo. De facto as suas repercussões prolongam-se também aos corpos espirituais; por- que o Ser Espiritual, que todo o ser humano possui em seu interior, recebe constantemente tudo o que nutre a sua matéria, que sofre ou desfruta. É uma simbiose e correspondência total entre ambos os pla- nos, tanto para o positivo como para o negativo. Entre todas as substâncias que compõem o organismo físico, o esperma humano é o elemento que inclui uma energia especial que não se encontra em nenhum outro líquido nem substância do organismo. Somente o sangue possui uma força e vigor similar que propor- ciona uma vitalidade excepcional, quer dizer, a vida. Esta força vital contida no sangue é a que aparece representada naquelas fábulas que se criaram antigamente, onde os vampiros necessitavam extrair o san- gue de suas vítimas com o fim de adquirir a eterna juventude. Pois bem, esta eterna juventude também se encontra numa sustân- cia tão importante como o é o esperma masculino, gerador da vida junto do óvulo feminino.

A influência da mente no comportamento sexual

É preciso ter bem claro que, na realidade, a mente é uma grande estimuladora da actividade sexual, proporcionando impulsos e sensa- ções que favorecem o acto sexual ou, pelo contrário, o inibem por completo. Mas como na vida há que ser precavido e sobretudo prudente, não deixando que qualquer pensamento insistente tome as rédeas da von-

tade de cada um, já que se assim fosse entraria num grave problema, que é o da obsessão.

A sexualidade é necessário entendê-la e sobretudo vivê-la como

um maravilhoso momento que une e vincula com outra pessoa, pois é criadora de múltiplos sentimentos e fomenta extraordinárias emoções que regulam o estado emotivo dos humanos.

O celibato e a castidade

A energia sexual pode ser um poderoso aliado para o ser humano

ou pelo contrário um devastador inimigo, capaz de aniquilar e dimi- nuir perigosamente, todas as suas forças. Contudo, a energia sexual bem utilizada tende a sublimar a mente quando o pensamento se exer- cita e se fortalece nos valores contidos dentro da alta espiritualidade. Alguns religiosos mal-interpretam o celibato, quer dizer, a abs- tenção voluntária de todo o contacto sexual, porque crêem que se pode conseguir a pureza afastando-se de todo o sexual. E no entanto, inter- namente continuam mantendo pensamentos e sentimentos obscenos precisamente, pela dura repressão de conter o impulso natural do ser humano para a procriação. Consoante o ditado popular de “não há nada mais cego que aquele que não quer ver” é muito difícil que qual- quer religioso veja que dogmatizar a sua vida de maneira irracional seja mais proveitoso que buscar a espiritualidade por vias mais natu- rais ou normais. Os que bem conhecem a Jesus sabem que ele, antes que religioso, foi um grande espiritualista. E ainda mais do que isso foi humano; ou seja um homem como qualquer de nós, que teve como qualquer mor- tal as suas necessidades fisiológicas, apesar dos esforços que fez a Igreja para ocultá-lo.

E não é por nos querermos comparar com Jesus, senão antes pelo contrário. Ele não tendo a obrigação de encarnar num corpo físico, por ser já um ser muito evoluído, quis voluntariamente abandonar a sua vida subtil e sublime de espírito livre já das suas ligações com a carne, para rebaixar-se a uma matéria que tanto o faria sofrer, e demonstrar dessa maneira que uma pessoa pode ser humana, mas ao mesmo tempo ter a belíssima esperança que algum dia chegará a ser uma Alma Grande como Ele o é. Há que saber distinguir onde se encontra o bom e o mau em todos os aspectos humanos e espirituais. A isso chamamos sabedoria e prudência. Por isso não é o mesmo a espiritualidade religiosa que a religiosa espiritualidade. Isto não é um simples jogo de palavras, mas antes uma profunda reflexão. A religiosa espiritualidade é a que insistentemente buscam as dis- tintas religiões que se estabeleceram no mundo, umas mais dogmáti- cas que outras. Mas no fim de contas todas têm como base, escrituras sagradas, a vida e milagres de algum profeta, uma revelação apocalíp- tica, etc. Pelo contrário, a espiritualidade religiosa está totalmente baseada, não num dogma ou numa ideologia mais ou menos profunda, mas sim numa filosofia de vida interior que alcança e que supera qualquer motivação que o ser humano tenha feito externamente. Até aos nossos dias e como nos tempos de Moisés, os humanos necessitaram ter ído- los de cartão e pedra para crer, de forma palpável para os seus senti- dos físicos, encontraram assim uma religiosa espiritualidade, quer dizer, que os seres humanos necessitaram tocar e ver para crer no divi- no.

Daí a necessidade, por parte do Alto, de mandar tantos enviados e profetas, que deixaram os seus nomes e suas vidas na história. Contudo, os mais evoluídos no campo da fé, superaram essa religiosa espiritualidade para buscar a autêntica espiritualidade religiosa. O que não é o mesmo: levaram à prática a filosofia de vida que se vive dentro da espiritualidade para encontrar a autêntica Religião. Porque esta é a essência da pedagogia espiritual: buscar e encon- trar os significados e as essências de Deus, e manifestá-las com o tes- temunho das acções diárias da vida. Alguns religiosos que se abstêm

de toda a prática sexual têm o selo inconfundível da frustração e da amargura, porque sentem como a sua natureza interior os impulsiona para a procriação contra os seus próprios preceitos religiosos; como aquele famoso “crescei e multiplicai-vos” ou “não é bom que o ho- mem esteja só”. O verdadeiro espiritualista religioso compreende o significado da sexualidade e utiliza-a para o seu bem estar interno e para o progresso de seu espírito. Se crêem que o celibato forçoso é uma alternativa positiva e eficaz para anular o instinto animal do ser humano, isso é o mesmo que pen- sar que se não pusermos uma cenoura em frente do focinho de um asno, este não sentirá vontade de comê-la; antes pelo contrário, mesmo que não a veja, longe de sentir-se saciado sentirá cada vez mais ansie- dade pelo que não tem e deseja.

A natureza do ser humano

Assim é a natureza do ser humano, tão instintiva como pode ser a de um asno, somente que o animal que vive escondido em cada mor- tal tem rédeas e arreios para poder ser dirigido através da mente, da força de vontade, da consciência ou da inteligência. O problema para chegar a dominar completamente esta teimosa e obstinada besta estri- ba em aprender as artes da equitação, mas não da equitação animal senão da equitação espiritual como bem sabeis. Ao largo da minha vida encontrei-me sempre com todo o tipo de pessoas com diferentes opiniões e sensações dentro da sexualidade. Uns eram extremamente impetuosos e passionais até tal ponto que perderam a razão, outros, exactamente ao contrário, apáticos e indiferentes ante qualquer estí- mulo. Uns e outros não compreenderam o verdadeiro sentido espiritual que existe, certamente, na sua vida sexual; já que encontrar esse ver- dadeiro sentido espiritual é alcançar uma estabilidade e harmonia que precisamente nestes últimos brilha pela sua ausência.

As enfermidades, a sua origem e influencia no ser humano

Muitas das enfermidades ou transtornos que encontramos na sexualidade são precisamente de origem psíquica e mental. As enfer-

midades sexuais foram criadas pela mente desviada e imprudente do ser humano, algo que seria impossível fazer entender a qualquer estu- dioso da ciência médica. A força infinita e criativa de Deus jamais engendra bactérias nem gérmens nocivos que destruam a vida huma- na, senão que é outra a origem destes microorganismos. É o estado mental e emocional dos humanos que cria e difunde estes monstros microscópicos, e daí se derivaram todas aquelas enfermidades próprias da falta de conhecimento espiritual, como a sífilis, a gonorreia, a infer- tilidade, a frigidez, anorgasmia, a impotência ou como nestas últimas décadas o está fazendo a Sida, entre muitas outras. Cada micróbio e cada gérmen é criado segundo o padrão mental de cada sensação ou de cada pensamento, ajustado também às necessida- des kármicas, expiatórias e regeneradoras de cada ser, de cada tempo e de cada mundo. Assim é como se origina e se estabelece uma enfer- midade específica no sistema de vida humano e que chega a atacar, não somente o corpo humano, senão que degenera também toda a deli- cada estrutura de certos corpos subtis do Ser Espiritual, como o Peries- pírito ou o Duplo Etérico. Do mesmo modo ocorre em cada época da história, onde as enfermidades desaparecem, outras novas surgem e muitas outras se modificam, como está ocorrendo na actualidade com as patologias de muitas afecções, sem explicação possível para a me- dicina oficial. Um exemplo do que acabo de expor sucedeu quando os conquis- tadores europeus invadiram terras férteis da América, contaminando os nativos daquelas paragens com muitas das suas próprias doenças. Os indígenas mantinham um equilíbrio natural com a sexualidade, que para muitos representava um acto sagrado dentro das suas crenças ancestrais. Entre estas gentes sãs nunca existiram as enfermidades sexuais que tanto devastaram o mundo civilizado do ocidente, apesar de não seguirem métodos higiénicos como os modernos dos nossos dias; porque a sua verdadeira higiene não era a do corpo senão a do espírito.

A sexualidade em mundos mais evoluídos

Vivemos ensimesmados na nossa cultura, sem outra perspectiva do que o nosso dia a dia e os nossos assuntos humanos quotidianos. Se

ultrapassasse-mos as fronteiras do nosso mundo poderíamos observar que estes fundamentos aqui tratados não são simplesmente uma filo- sofia, senão antes uma forma de vida que fomenta a liberação dos mundos kármicos dolorosos. Em outros planetas muito mais avança- dos que a Terra, os afectos espirituais e fraternos se sobrepõem, nota- velmente, aos físicos, com sentidos e práticas sexuais muito comuns na Terra. Nesses planetas mais evoluídos que o nosso, as relações pessoais com fins íntimos não são como as do nosso mundo: de um exagerado sentimentalismo, em que o homem e a mulher intercambiam juramen- tos ardentes nos que frequentemente chegam a confundir o amor car- nal e o amor espiritual. Nestes mundos superiores produz-se uma rea- lidade ao inverso: os cônjuges vivem conscientes da pura noção do verdadeiro amor, que provém da realidade espiritual e da responsabi- lidade de que o lar é o exercício e o início da universalização entre almas. As suas humanidades são profundas conhecedoras das Leis Espiri- tuais que regem os mecanismos da concepção. Consideram o inter- câmbio sexual como uma sagrada ocasião criadora, e não como uma sensação física, própria dos mundos inferiores. Do mesmo modo que estas humanidades evoluíram no seu comportamento sexual, o fará também o nosso planeta Terra, por isso devemos procurar um equilí- brio e harmonia nos nossos pensamentos para que estes nos conduzam para o desenvolvimento interno de todas as nossas qualidades divinas. Busquemos sempre a reflexão em todos os conceitos novos que che- guem até nós como é o novo conceito de sexualidade unido à espiri- tualidade que aqui se apresenta.

Capítulo XVIII

OS MECANISMOS DA ESTIMULAÇÃO SEXUAL

“As respostas sexuais são o resultado dos estímulos que se empreguem no meio cultural que a rodeie”.

Carmelo Vázquez

O nosso corpo é uma complexa e inteligente maquinaria

desenhada por Deus e que em nenhuma das nossas inume-

ráveis existências deixará de surpreender-nos se formos

capazes de descobrir os seus muitos mistérios que estão

ainda por resolver. Pode parecer que a estimulação sexual seja uma questão puramen- te mental; contudo, este processo é muito mais complexo do que pare- ce.

Vamos fazer uma ligeira revisão sobre dois tipos de estímulos sexuais e como se produz a mecânica de tal estimulação.

Tipos de estímulos

Poderíamos considerar os estímulos como impulsos capazes de incitar, provocar e instigar os sentidos humanos, excitando e activan- do os numerosos mecanismos que se põem em marcha dentro da esti- mulação sexual. Estes estímulos podemos dividi-los e classificá-los em três gran- des grupos:

Os estímulos de origem espiritual, de origem físico e os de origem mental.

Os estímulos de origem espiritual Os estímulos de origem espiritual são os produzidos por seres do baixo Astral, cujos instintos degradantes ainda se encontram arraiga- dos à libido descontrolada, que cultivaram enquanto permaneceram encarnados ou que desenvolveram uma vez produzida a desencar- nação. Este tipo de estímulos geram, por sua vez, impulsos mentais que

são traduzidos segundo o padrão sexual de cada indivíduo. Os seres do baixo Astral produzem estímulos que chegam à mente

e de aí viajam ao cérebro, convertendo-se em sensações físicas. Estes estímulos podem inclusive converter-se em agressões sexuais, como os que apareciam nas películas baseadas em factos reais, O Ente e O Exorcista. Os sucubas e incubas, entidades com falta de evolução produzem todo o tipo de sensações eróticas e estimulantes no sexual atormen-

tando as suas vítimas. Produzem inclusive pesadelos e sonhos eróticos

e também as chamadas ejaculações nocturnas, perdas seminais duran-

te o sonho acompanhadas por vezes de impulsos orgásmicos. Devo assinalar que os sonhos eróticos, assim como as ejaculações nocturnas, nem sempre têm uma causa espiritual. Existem outras mui- tas circunstâncias capazes de produzi-las, alheias a qualquer impli- cação de ordem espiritual, como por exemplo a alimentação, certas recordações e vivências, o stress, a própria estimulação mental do sujeito, uma pertinaz continência, etc.

Os estímulos de origem físico São aqueles produzidos tanto pelos nossos órgãos reprodutores como por todas as zonas erógenas e sensoriais do organismo. Não esqueçamos que o corpo humano é um corpo sensitivo, recep- tivo a numerosos impulsos e estímulos de todo o tipo. Os sistemas ner- vosos, assim como os cinco sentidos, são elementos captadores destes estímulos convertendo-os em sensações e impulsos. Dentro desta classificação é possível especificar a origem e a natu- reza dos estímulos físicos. Estes podem ter duas origens bem distintas: endógena e exógena.

Estímulo endógeno O estímulo endógeno, como o seu próprio nome indica, produz-se

a nível interno, quer dizer, desde dentro do indivíduo. Em primeiro lugar produz-se uma estimulação gerada no cérebro que baixa pela espinha dorsal até activar os plexos da zona genital. Uma vez ali os órgãos reprodutores se activam recebendo, deste modo, a ordem de pôr-se em funcionamento. Toda uma cadeia de

funções biológicas e sensações se activam reagindo como todo o mundo já experimentou alguma vez em sua vida.

Estímulo exógeno O estímulo exógeno, pelo contrário, actua de modo totalmente inverso. O estímulo é gerado desde o exterior, daí o seu nome de exó- geno (externo). Assim a estimulação sexual inverte o processo indo desde a zona sexual incitada até ao cérebro, utilizando as mesmas vias:

o sistema nervoso. Apesar das direcções serem distintas o resultado é idêntico nos dois casos.

Os estímulos de origem mental Estes estímulos são aqueles originados pela mente. São compostos por dois grupos distintos: por um lado todo o tipo de desejos, impul- sos, sensações mentais, que têm que ver com as experiências vividas neste campo, as recordações e saudades com relação a estas situações ou pessoas, etc. E por outro lado o facto natural nascido desde a parte mais instintiva do ser humano que nos impulsiona a sentir um desejo, necessidade ou atracção sexual que em todo o caso passa pelo tamis da razão, isto é, pela mente. Como é lógico estes dois grupos de estí- mulos se encontram completamente vinculados entre si. Tudo isso se expressa por meio da fantasia e por sua vez da expressão sexual nas relações humanas. Do mesmo modo os estímu- los mentais promovem uma consciência espiritual da necessidade sexual nos seres humanos. Esta necessidade espiritual gera um impul- so para a procriação, quer seja pela força do Karma ou pela opção voluntária dos seres humanos para formar uma família.

O acto sexual e as suas repercussões físicas e espirituais

Tudo quanto experimentamos na vida tem uma série de reper- cussões em todos os planos da existência. O acto sexual não é simplesmente uma acção mecânica e fisiológi- ca. Comporta outros aspectos internos do ser humano que lhe afectam para bem ou para mal. Estas repercussões dependem da natureza de suas intenções, convertendo esses actos em algo positivo ou negativo.

As consequências do acto sexual no ser humano poderíamos cla- ramente defini-las em duas ordens bem distintas: uma espiritual e outra fisiológico-humano. Quanto às repercussões fisiológicas e humanas tornam-se claras e evidentes. Têm-se escrito incontáveis tratados sobre sexualidade que ajuda o ser humano a levar uma vida sexual sã, estável e satisfatória. Os efeitos do acto sexual sobre todos os aspectos humanos, men- tais e espirituais são numerosos: desde um relaxamento muscular, pas- sando por uma descarga de tensão, ansiedade e stress do sistema ner- voso, para terminar num maior aumento de certas hormonas, como por exemplo as endorfinas, capazes de melhorar a qualidade de vida e pro- duzir todo o tipo de consequências benéficas.Também produz um equilíbrio psicológico, mental e emocional. As repercussões espirituais comportam outro tipo de efeitos que vão desde o aspecto mental até ao vasto e complexo campo das emoções afectivas. Durante o acto sexual se liberam numerosas cargas emocionais, assim como sentimentos reprimidos e por sua vez produz- se uma importante liberação cerebral de princípios mentais que che- gam a congestionar a mente e produzir com o tempo tensões, angustia e ansiedade. Claro está que o acto sexual não é a única via capaz de conduzir a esta liberação da mente ou distensão das cargas emocionais. Existem numerosas pessoas que não têm uma vida sexual contínua e no entan- to vivem estáveis tanto emocional como mentalmente. Enquanto se desfruta de uma vida sexual sã, estes são os efeitos benéficos, mas isso não significa que, como já comentei, que seja o único caminho para ter estabilidade emocional. Isto é também aplicá- vel à ideia errónea de que a estabilidade emocional se consegue quan- do se encontra cônjuge. Precisamente pode suceder exactamente ao contrário, que ao encontrar cônjuge surja a instabilidade emocional. Esta equivocação estriba no mau conceito que o próprio ser huma- no tem de si mesmo. Cada ser foi criado por Deus com qualidades que lhe permitam ser auto-suficientes em todas as circunstâncias nos mun- dos físicos. As carências, dependências e insuficiências manifestadas na humanidade não são mais que o produto da sua falta de maturação espiritual e do encerramento da sua mente a uma realidade maior, mais

profunda e transcendente da vida.

Efeitos da carência ou excesso nas relações sexuais

Quando levamos a um extremo qualquer aspecto da vida humana, quer seja por insuficiência ou por excesso, inevitavelmente é necessá- rio falar de problemas e no pior dos casos de transtornos, que com o tempo se convertem em disfunções e acabam por produzir graves enfermidades. Muitas delas de complexa solução, porque não esque- çamos que, com respeito ao âmbito sexual, entra em jogo não só a parte fisiológica do ser humano senão, do mesmo modo, outros aspec-

tos mais intrincados, como são a sua mente e o seu espírito. Por exem- plo, a anorgasmia, (incapacidade de chegar ao orgasmo na mulher) ou

a impotência (o mesmo no homem), são duas das muitas disfunções