Você está na página 1de 12

XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012

DEMOCRATIZAÇÃO DA ESCOLA PÚBLICA: UM OLHAR NA

ATUAÇÃO DO GESTOR

Michele Michelin Granzotto Pedagoga. Pós-graduanda em Gestão da Educação – UNIFRA

Marilene Gabriel Dalla Corte Profª. Adjunta do Departamento de Administração Escolar – CE, Universidade Federal de Santa Maria – UFSM

RESUMO

Este artigo, produzido com base numa pesquisa desenvolvida no trabalho final de graduação do curso de Pedagogia, do Centro Universitário Franciscano – UNIFRA, Santa Maria-RS, objetiva discutir o perfil e a atuação do gestor educacional, tendo como pressuposto básico a efetivação dos princípios de gestão democrática na escola pública. Destaca-se a importância do papel do gestor para que ocorram com qualidade os preceitos da gestão democrático-participativa nos processos educacionais na escola. Assim sendo, optou-se pelo estudo de caso de abordagem qualitativa, em que foi aplicado um questionário com perguntas abertas para gestoras de duas escolas públicas de Santa Maria – RS. Verificou-se que o diretor ocupa papel fundamental na gestão da escola, no sentido de articular ações administrativo-pedagógicas com os demais envolvidos na dinâmica escolar. Se constituir gestor no cenário do trabalho participativo, junto à comunidade escolar, especialmente com tomadas de decisões e responsabilidade coletiva, requer a observância e a consecução dos princípios de gestão colegiada e compartilhada com a comunidade e, portanto, efetivar mecanismos de democratização da escola pública, entre eles a eleição direta para diretores, a construção e a implementação coletiva do projeto político pedagógico da escola, a participação e efetiva atuação dos órgãos colegiados, bem como a implementação compartilhada da autonomia financeira da escola. É extremamente relevante a discussão acerca de questões que permeiam o dia-a-dia das escolas e dos seus gestores, especialmente quanto as suas atribuições e desafios cotidianos, justamente porque estes precisam estar atentos as transformações que a sociedade está vivenciando e que refletem diretamente na gestão da escola.

Palavras-chave: Escola. Gestão Democrática. Gestor

1 INTRODUÇÃO

Este artigo decorre de uma pesquisa desenvolvida junto as Disciplinas Trabalho

Final de Graduação I e II, do Curso de Pedagogia, do Centro Universitário Franciscano

– UNIFRA. Tem por finalidade apresentar contribuições teórico-práticas acerca da

gestão democrática na escola pública, com o foco na atuação do gestor.

Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001782

XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012

2

Foi realizado um estudo de caso de abordagem qualitativa, tendo por base um questionário aplicado a gestoras de duas escolas públicas, uma da esfera estadual e outra da esfera municipal em Santa Maria-RS, conveniadas ao Programa de Bolsa de Iniciação à Docência – PIBID /CAPES/UNIFRA.

A problemática que norteou esta pesquisa pautou-se em “como a atuação do

gestor pode contribuir para a efetivação da democratização da escola pública” e, para

isso, a pesquisa objetivou refletir sobre a atuação do gestor escolar, bem como discutir suas atribuições para a efetivação dos princípios e dos mecanismos de gestão democrática na escola pública de qualidade. Considera-se que a gestão constitui-se uma importante área de atuação do professor no âmbito da educação, necessitando formação sólida ancorada nas políticas educacionais, na estrutura e organização da escola. Para tanto, tendo como pressuposto os princípios e os mecanismos de gestão democrática, torna-se indispensável um novo estilo de gestão, em que o gestor mesmo necessita de conhecimentos apropriados, administrativos quanto pedagógicos, para articular e desenvolver ações educacionais de qualidade na escola, com base na autonomia, na participação, na transparência, na ética e na democracia, tendo como foco a escola pública de qualidade.

A Constituição Federal de 1988 foi a primeira a usar a expressão “gestão

democrática do ensino público” e, mais tarde, este pressuposto foi também apresentado na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) 9.394/96, no Art. 14, que os sistemas de ensino definirão as normas de gestão democrática do ensino público. No Art. 15, a atual LDB propõe que os sistemas de ensino assegurarão às unidades escolares públicas de educação básica que os integram progressivos graus de autonomia pedagógica e administrativa e de gestão financeira observada as normas gerais de direito financeiro. Para tanto, a efetivação da gestão democrática implica a garantia da autonomia dos sistemas de ensino e, por este motivo, a gestão escolar é compreendida como uma maneira de organizar o trabalho administrativo-pedagógico com a finalidade de viabilização de objetivos e metas educacionais da instituição escolar de maneira compartilhada e colegiada. Implica na distribuição de funções e atribuições, na relação interpessoal de trabalho, na partilha do poder e na democratização da tomada de decisões (DOURADO, 2006). Daí decorre a importância deste estudo, uma vez que a função e a atuação do diretor, compreendido “gestor” nos preceitos de gestão democrático-participativa, necessita ser cada vez mais estudada, desvelada e refletida com a finalidade de dar

Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001783

XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012

3

visibilidade e referendar a importância e a responsabilidade do gestor junto à comunidade escolar na consecução da escola pública de qualidade.

2 PRINCÍPIOS E MECANISMOS DE GESTÃO DEMOCRÁTICA

A gestão escolar é orientada por princípios democráticos que para Lück (2010,

linhas orientadoras da ação, que definem uma postura e uma forma de

agir que extrapola a própria ação”. Entre eles, cita-se, à luz da Constituição Federal de 1988 e da LDB nº 9.394/96, a autonomia, a descentralização do poder, a transparência, a participação e a coletividade. Estes princípios democráticos, entre outros, apontam ao gestor escolar alguns caminhos para que se concretize a gestão democrática. Entretanto, na perspectiva da gestão democrático-participativa, é preciso conhecer e trabalhar compartilhadamente as quatro dimensões da autonomia, compreendendo-a como princípio elementar da democratização da escola pública: a política, a financeira, a administrativa e a pedagógica. Estas dimensões necessitam estar

p. 107) são “[

]

nenhuma delas se basta a si mesma para

caracterizar a autonomia da gestão escolar, uma vez que são interdependentes e se reforçam reciprocamente, estando umas a serviço de outras” (LÜCK, 2010, p.104). Só se desenvolve e se pratica a autonomia quando o gestor, junto com a comunidade escolar, consegue articular ações educacionais tendo por base essas quatro dimensões com compromisso e responsabilidade pela sua efetivação e seus resultados. Assim sendo, é preciso que a comunidade escolar esteja subsidiada e ancorada em mecanismos de gestão, os quais se traduzem em linhas norteadoras democráticas

relacionadas e articuladas entre si, já que “[

]

para a conquista e a consolidação da autonomia na escola, entre eles: a construção e a implementação coletiva do projeto político pedagógico, a formação e a atuação de órgãos colegiados, a eleição direta de diretores, a autonomia financeira.

A gestão democrático-participativa requer a participação efetiva de todos nas

tomadas de decisões bem como a responsabilidade e o comprometimento no trabalho

demandado. Para tanto, a importância do projeto político pedagógico da escola em seus pressupostos teórico-metodológicos os quais demandam compromisso coletivo e consciente na sua construção e consecução.

o projeto político-

pedagógico vai além de um simples agrupamento de planos de ensino e de atividades

diversas. [

Ele é construído e vivenciado em todos os momentos, por todos os

Nesta perspectiva, Veiga (2002, p. 12-13) coloca que “[

]

]

Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001784

XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012

4

envolvidos com o processo educativo da escola”. Por meio do projeto político pedagógico, como verdadeiro mecanismo de articulação da gestão colegiada e

compartilhada, a escola estabelece finalidades, metas e ações educacionais que são indispensáveis para a qualidade do ensino. Os órgãos colegiados, como importante mecanismo de gestão democrática, tem

por finalidade “[

pela participação de modo

interativo de pais, professores e funcionários” (LÜCK, 2010, p.66). Tem por incumbência representar a comunidade escolar em suas concepções e necessidades e buscar meios para que os pais participem da vida escolar de seus filhos, no sentido de

proporcionar a oportunidade de envolvimento efetivo no conhecimento da realidade, no planejamento, nas tomadas de decisões e na implementação de práticas educacionais ancoradas no tripé administrativo, financeiro e pedagógico. A eleição direta para a escolha de diretores tem grande influência no processo de

democratização da escola, já que é um mecanismo que potencializa o exercício da cidadania por parte dos alunos, pais, professores e funcionários. A eleição direta tem status de ambigüidade em sua definição, proposição e consecução, pois apesar do formato democrático na maneira de escolher o diretor não se traduz em democracia na concretização das proposições do candidato escolhido. Vários casos se traduzem na intensificação do autoritarismo, na formação de grupos de disputa, no enfraquecimento da organização e da participação da comunidade nas questões norteadoras da escola.

que não é a eleição em si, como evento que

democratiza, mas sim o que ela representaria, como parte de um processo participativo

global

oportunizar um processo pleno de escolha e concretização compartilhada, colegiada e transparente das proposições de campanha, por meio da participação de todos os envolvidos na comunidade escolar. Outro mecanismo de gestão democrática é a autonomia financeira; se concretiza e vem atender às necessidades do cotidiano escolar, justamente, porque não cabe ao diretor definir e realizar sozinho quais são as prioridades e os respectivos encaminhamentos. Este processo requer ocorrer juntamente com os representantes da comunidade escolar, junto aos órgãos colegiados, os quais também são escolhidos pela vontade da maioria para representar seus interesses.

(LÜCK, 2010, p. 77). Para tanto, a eleição de diretores necessita

auxiliar na tomada de decisão em todas as áreas de atuação,

procurando diferentes meios para se alcançar o objetivo [

]

]

É importante destacar “[

[

]”

]

Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001785

XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012

5

A autonomia financeira na escola tem a finalidade de potencializar a gestão democrática de recursos oriundos de verba pública, via programas governamentais, assim como verba originada da arrecadação de promoções realizadas pela comunidade escolar. São recursos que devem ser utilizados para despesas com custeio, atendimento, manutenção e aquisição de material permanente para a escola e sua respectiva comunidade. O papel do gestor está em articular tais ações/investimentos colaborativamente com os órgãos colegiados para que a escola tenha condições de melhor aplicar seus recursos em função de qualificar seus espaços, suas práticas administrativo-pedagógicas, a merenda, o atendimento à comunidade escolar, entre outros aspectos.

3 COMPETÊNCIAS E DESAFIOS POSTOS AO GESTOR ESCOLAR

Considerando os desafios postos ao gestor, no que tange aos preceitos de gestão democrática na escola, percebe-se que o gestor escolar, na atualidade, tem novas

exigências as quais precisa enfrentar e, consequentemente, redimensionar sua prática,

por meio da “[

(PERRENOUD, 1999, p.15). No contexto democrático o

gestor necessita desenvolver competências como princípio fundamental com o objetivo

de integrar diversos saberes e fazeres construídos para o exercício da profissão docente. Perrenoud (1999) destaca a importância de o profissional conhecer suas atribuições, assim como saber trabalhar em equipe; esta última o autor destaca como uma competência elementar ao gestor. Considera a necessidade de o gestor possuir conhecimento e postura adequada para dirigir o trabalho em grupo, conduzir reuniões, administrar e lidar com problemas tanto administrativos quanto pedagógicos.

o processo educacional só se

transforma e se torna mais competente na medida em que seus participantes tenham consciência de que são co-responsáveis pelo seu desenvolvimento e seus resultados”. Assim sendo, no mínimo, todo o trabalho do gestor na escola implica conhecimento e capacidade de mobilizar ações conjuntas e, com isso, a liderança necessita ser construída por meio de gestão compartilhada. Para que estas questões realmente venham a acontecer na escola, de maneira democrática, é preciso mobilização coletiva, com o planejamento ocorrendo de modo participativo e responsável entre todos os envolvidos.

capacidade de mobilizar diversos recursos cognitivos para enfrentar

um tipo de situação [

]

]”

Nesta ótica, Lück (2011, p.76) coloca que “[

]

Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001786

XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012

6

Estas relações necessitam estar subsidiadas pela transparência, que é uma competência que se caracteriza pela capacidade de o gestor divulgar as ações pretendidas e executadas, bem como os resultados, para que os demais membros possam conhecer os encaminhamentos, se conscientizar e participar dos respectivos

processos educacionais. Pela transparência perpassa a mobilidade da comunicação e o repasse das informações, ou seja, é elementar prestar contas das ações administrativo- pedagógicas aos demais envolvidos no processo de democratização da escola. Também, é oportuno ressaltar a visão proativa que o gestor necessita ter, a qual

consiste em uma orientação positiva da capacidade própria de enfrentar desafios,

assumir responsabilidades e criativamente enfrentá-los” (LÜCK, 2010, p. 109). Está

relacionada a saber enfrentar os desafios e assumir responsabilidades, buscar soluções para as dificuldades encontradas, pois quem não tem a iniciativa a transfere e isto anula o conceito de autonomia. Outra competência indispensável ao gestor é a criatividade como sendo a

maneira de buscar alternativas para o trabalho. A criatividade “[

olhar diferente e novo a realidade e buscar nela novas alternativas de trabalho [ ]” (LÜCK, 2010, p. 110). Juntamente com a criatividade apresenta-se a inovação como um desafio ao gestor. A inovação requer ser trabalhada em equipe e o papel do gestor é propor alternativas dinâmicas que envolvam todas as pessoas e que estas se sintam conscientes e comprometidas com o trabalho escolar. Essas competências, entre outras, se efetivarão no momento em que a tomada de decisões nascer de discussões coletivas, com a participação dos envolvidos, de modo que se construam novos processos de organização da gestão escolar e de busca do princípio da autonomia em suas quatro dimensões. Diante ao exposto, sobretudo, é indispensável referendar a formação do gestor escolar, justamente porque se traduz em um grande desafio para os sistemas de ensino. Sabe-se que, ainda, muitos gestores precisam investir na [re]construção de conhecimentos sólidos acerca das políticas educacionais, bem como de processos eficazes e democráticos de gestão escolar. Na Lei de Diretrizes e Bases para a Educação Nacional nº 9.394/96, no artigo 64, ao tratar dos profissionais da educação para atuar na gestão escolar, consta que

implica olhar com

“[

]

]

A formação de profissionais de educação para administração, planejamento, inspeção, supervisão e orientação educacional para a educação básica será feita em cursos de graduação em pedagogia ou em nível de pós-graduação, a

Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001787

XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012

7

critério da instituição de ensino, garantida, nesta formação, a base comum nacional.

Se faz cada vez mais necessário investir em formação inicial quanto continuada,

em especial, em cursos para a capacitação de gestores, já que, de acordo com Lück (2000, p. 29),

] [

serviço, pelo ensaio, sobre como resolver conflitos, [

não se pode esperar mais que os dirigentes escolares aprendam em

como desenvolver

]

trabalho em equipe, [

]

como planejar e implementar o projeto político

pedagógico da escola, [

]

como criar novas alternativas de gestão.

O gestor escolar necessita de uma formação sólida, seja inicial quanto

continuada, ancorada na indissociabilidade teoria e prática, para gerir com competência e compartilhadamente a escola e, portanto, enfrentar os desafios e as demandas advindas

da sociedade e da própria escola numa perspectiva democrático-participativa.

4 METODOLOGIA

Considerando as proposições desta investigação, optou-se por uma pesquisa de campo para que fosse possível analisar o perfil e a atuação do gestor escolar na consecução dos preceitos da gestão democrática. Gil (2009, p, 53) destaca que “[

pesquisador realiza a maior parte do trabalho pessoalmente, pois é enfatizada importância de o pesquisador ter tido ele mesmo uma experiência direta com a situação

de estudo”. Além disso, considera-se a inserção em campo de extrema importância, uma vez que oportuniza ao pesquisador conhecer no contexto prático a problemática pesquisada. Os procedimentos metodológicos adotados percorreram os caminhos da

as Metodologias de

pesquisa qualitativa são [

capazes de incorporar a questão do significado e da

A

intencionalidade como inerentes aos atos, às relações e às estruturas sociais [

abordagem escolhida justifica-se pela temática que envolve a construção e as características do perfil do gestor na realização das atividades escolares.

Para a coleta de dados aplicou-se um questionário com perguntas abertas, pois é um instrumento de coleta de dados constituído por uma série ordenada de

“[

abordagem qualitativa em que Minayo (1993, p. 10) esclarece: “[

o

]

]

]

]”.

]

perguntas, que devem ser respondidas por escrito e sem a presença do entrevistador” (LAKATOS; MARCONI, 1999, p. 100), o que proporcionou ao público alvo possibilidades de expressão sem intervenção da pesquisadora.

Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001788

XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012

8

O lócus de estudo definido esteve relacionado a gestoras de duas escolas

públicas de Santa Maria-RS, nas esferas municipal e estadual, as quais estão agregadas

ao Programa de Bolsa de iniciação à docência do Centro Universitário Franciscano – PIBID/CAPES/UNIFRA, junto ao subprojeto do curso de Pedagogia.

5 RESULTADOS

Essa pesquisa teve o intuito de refletir sobre a atuação do gestor educacional, tendo por base a efetivação da democratização da escola pública. Deste modo, com a

finalidade de verificar as concepções e atuação de duas gestoras de escolas públicas do município de Santa Maria/RS, uma da esfera estadual e outra da esfera municipal, foi aplicado um questionário aberto. As gestoras são identificadas com as letras “E” e “M”.

A gestora “M” com formação em Pedagogia e especialização em Gestão

Educacional, está a vinte e seis anos atuando no magistério, treze deles na gestão de escola; na escola pesquisada está atuando a cinco anos na direção. A gestora “E” tem

formação na modalidade Normal. Está a dezenove anos atuando no magistério e como gestora há três anos; na escola pesquisada está lotada há dez anos.

As gestoras “M” e “E”, ao serem questionadas sobre como acontece a eleição de

diretores, colocaram que ocorre por eleição direta pela comunidade escolar. Lück (2010,

p. 77) destaca que “[

uma proposta de escola, um estilo de gestão e se firmando compromissos coletivos para

levá-los a efeito de forma efetiva”. Assim, a eleição, entendida como um evento que democratiza os processos educacionais na escola, oportuniza a busca por um ideário que venha ao encontro do que todos querem para a escola. No questionamento sobre o que as gestoras entendem por gestão democrática, a gestora “M” sinalizou que “é aquela que possibilita a participação de todos os segmentos da comunidade escolar”; a gestora “E” compartilha desta concepção e

é a qual todos os segmentos da

escola possam ter voz e vez [

complementa ao sinalizar que gestão democrática “[

Verifica-se que as gestoras demonstram conhecer os

ao se promover a eleição de dirigentes estar-se-ia delineando

]

]

]”.

preceitos de gestão democrático-participativa em que todos os envolvidos participam

dos processos e das decisões referentes à escola. Libâneo (2001, p. 98) reforça esta ideia

ao defender que este tipo de gestão “[

comuns assumidos por todos”. Ao serem perguntadas sobre quais são os princípios e mecanismos da gestão

acentua a importância da busca de objetivos

]

Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001789

XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012

9

democrática para a atuação do gestor, a gestora “M” elenca como mecanismos o conselho escolar, a Associação de Pais e Mestres, o Grêmio Estudantil, os Conselhos de Classe; como princípios a participação, a descentralização e o exercício da cidadania. Assim, verifica-se que os mecanismos de gestão democrática apontados pela gestora “M” são órgãos colegiados que, segundo Lück (2010, p. 66)

tem por objetivo auxiliar na tomada de decisão em todas as suas áreas de

atuação, procurando diferentes meios para se alcançar o objetivo de ajudar o estabelecimento de ensino, em todos os seus aspectos, pela participação de modo interativo de pais, professores e funcionários.

] [

é organizar

as atividades da escola incluindo conselho escolar e CPM nas decisões”. Com isso, entende-se que a participação neste espaço é de suma importância para que os pais participem mais da vida de seus filhos na escola e, também, nas tomadas de decisões

para buscar a melhoria da qualidade do ensino. Ao se referir aos princípios da gestão democrática a gestora “E” cita a descentralização. Este princípio de gestão democrática está correlacionado ao que consta na LDB 9.394/96 sobre a participação e as quatro grandes dimensões da autonomia na organização da gestão escolar. Entretanto, verifica- se que ambas as gestoras ao responderem a questão quanto aos mecanismos de gestão, se referem, propriamente dito, aos órgãos colegiados como sendo pilares para a democratização em detrimento aos outros também importantes mecanismos de gestão democrática na escola. As gestoras foram solicitadas a sinalizar quais são os desafios e as competências atribuídas ao gestor escolar hoje. A gestora “M” descreve como desafios a capacidade de articulação da comunidade para a participação; como competência aponta ser um gestor integrador. A gestora “E” relata serem muitos os desafios impostos hoje, tornando difícil o trabalho do mesmo. Outro desafio apontado por ambas as gestoras é a capacidade de fazer com que os pais participem mais da vida escolar de seus filhos e se integrem nas atividades da escola. A gestora “M” defendeu que “o gestor deve ser aberto ao diálogo, saiba ouvir, seja reflexivo e dinâmico”. A gestora “E” colocou que

que se

“deve ser um gestor aberto as mudanças, que possa aceitar críticas [

percebe é que as gestoras apresentam uma visão importante acerca do perfil, dos desafios e atribuições do gestor escolar, porém são genéricas na defesa da reflexão, da dialogicidade e dos saberes que o instrumentalizem a desenvolver suas atividades profissionais na área da gestão.

A gestora “E”, ao responder a este questionamento coloca que “[

]

]”.

O

Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001790

XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012

10

Quando questionadas sobre as atribuições postas ao gestor escolar na atualidade,

muitas atribuições, além da

administrativa, as financeiras e que não tem funcionário na secretaria. Realizamos o preenchimento do formulário bolsa família, da matrícula e de todos os documentos da

secretaria, promovemos a articulação e participação no conselho de classe, organizamos

o PPP [

de suas atribuições, o gestor tem que abarcar outras questões burocráticas e exercer função de secretaria de escola as quais deveriam ser realizadas por funcionários especializados.

várias, inúmeras,

desde a organização pedagógica e também a administrativa”. Esta relaciona os seus deveres ao tripé, administrativo, pedagógico e financeiro, para que a gestão se desenvolva e aconteça de maneira organizada, objetiva e democrática. Outra questão de pesquisa versou sobre como foi realizada a construção do Projeto Político Pedagógico da escola. A gestora “M” respondeu que foi construído

A gestora “E” sinalizou que

“através de muitos encontros com pais, professores, funcionários e alunos”. Portanto, se comprova a construção do PPP coletivamente, tendo por base a participação de todos os segmentos da escola e, por esse motivo, também, necessita dar conta das necessidades desses sujeitos, do perfil e de identidade da comunidade escolar. Segundo Veiga (2002,

p.

reflexão de seu cotidiano” e, portanto, defende-se a grande relevância que tem o PPP para a escola, o qual necessita concretizar as perspectivas da comunidade para ser realmente efetivado com vistas aos pressupostos teórico-práticos da gestão educacional. Na última questão de pesquisa, buscou-se verificar como a gestão articula as ações para que se concretize efetivamente os preceitos de autonomia e participação na escola. A gestora “M” descreve que sente dificuldade em articular ações coletivas:

é preciso entender o projeto político pedagógico da escola como uma

“com a participação coletiva da comunidade escolar [

É possível perceber que a gestão de escola está sobrecarregada, pois além

a gestora “M” declarou que na rede municipal tem “[

]

]”.

A gestora “E” relatou que as atribuições do gestor são “[

]

]”.

33) “[

]

percebo que os professores, assim como eu, fomos e somos resultado de uma educação onde a participação coletiva não tinha importância. Procuramos realizar reuniões com a comunidade escolar, estamos sempre abertos ao diálogo, pedimos sugestões, ouvimos críticas, procuramos envolver a comunidade [

[

]

A gestora coloca que propõe alternativas para que a comunidade participe mais das decisões e atividades da escola, mas é presente a constatação de que, muitas vezes, não há participação necessária e esperada. Certamente, o que diz a gestora com relação

Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001791

XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012

11

a influência da formação fragmentada e com o poder centralizado interfere nas opções e caminhos a serem trilhados na gestão da escola. A gestora “E” relata que a participação e a coletividade acontece por meio de “encontros, reuniões periódicas para que todos os segmentos possam discutir as dificuldades que por ventura possam surgir e, auxiliar o gestor nas decisões importantes da escola”. Estas estratégias são importantes para a escola, sendo que a gestão precisa constantemente priorizar momentos de integração e mobilização dos diferentes segmentos que compõem o contexto escolar, mesmo que em muitos desses momentos não aconteça a plena participação dos envolvidos.

CONCLUSÃO

Esta pesquisa demonstra as múltiplas facetas da organização da escola frente aos desafios que são postos diariamente aos gestores e professores; que tanto o gestor como a comunidade escolar precisam estar atentos, mobilizados, comprometidos e serem conhecedores das suas atribuições tendo por base o paradigma sociocrítico de gestão. Foi possível verificar que o perfil e a boa atuação do gestor, certamente, contribui para a efetivação da gestão democrática de qualidade na escola pública. Também, se defende que o gestor tenha conhecimento e posicionamento acerca dos desafios que lhe são postos diariamente, bem como procure desenvolver e investir nas competências profissionais que são necessárias ao seu trabalho tendo por base a concepção de gestão democrático-participativa. Identificou-se nas respostas das gestoras que os princípios da gestão democrática estão relacionados a como o gestor vai gerir a escola, em seus aspectos administrativos, financeiros e pedagógicos, bem como pelo modo que irá organizar o trabalho tendo por base a compreensão que tem sobre autonomia na gestão escolar. Assim sendo, o gestor ocupa papel fundamental na escola, pois é o articulador de ações administrativo- pedagógicas com os demais envolvidos do processo escolar, bem como tem a responsabilidade de mobilização do trabalho coletivo junto a comunidade escolar. Assim, verificou-se a importância da comunidade estar presente na escola; que os gestores e os professores são os principais potencializadores de estratégias para aproximar e conectar os diferentes segmentos em parcerias e ações compartilhadas da e na escola. Entretanto, a comunidade escolar cada vez mais precisa se apropriar e aproveitar estes espaços de discussão e decisão compartilhada no ideário escolar,

Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001792

XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012

12

assumindo-se protagonista de sua trajetória e história.

A escola, sobretudo, precisa se constituir, de fato e de direito, um espaço público

de cultura viva e, para tanto, os gestores precisam estar atentos as transformações que a

sociedade está vivenciando; que sua formação e postura reflete diretamente no

desenvolvimento das ações administrativo-pedagógicas de qualidade na escola.

REFERÊNCIAS

BRASIL, Ministério da Educação. Constituição da República do Brasil (1998). Brasília DF: Senado Federal, 1988.

Lei n. 9.3494, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, DF: Congresso Nacional, 1996.

DOURADO, Luiz Fernandes. Gestão da educação escolar. Gestão democrática da escola pública: concepções e implicações legais e operacionais. Brasília: Universidade de Brasília, Centro de Educação a Distância, 2006.

GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 4.ed. São Paulo: Atlas,

2009.

LIBÂNEO, José Carlos. Organização e gestão da escola: teoria e prática. Goiânia:

Editora Alternativa, 2001.

LÜCK, Heloísa. Perspectivas da Gestão Escolar e Implicações quanto à Formação de seus Gestores. Em aberto, enfoque: qual é a questão?, nº 72, Brasília, V.17, 11-32, fev./jun, 2000. Disponível em: http://crmariocovas.sp.gov.br/pdf/em_aberto_72.pdf

Concepções e processos democráticos de gestão educacional. Petrópolis, 5. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2010.

Gestão Educacional: uma questão paradigmática. 8. ed. Rio de Janeiro:

Vozes, 2011.

MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Técnicas de pesquisa:

planejamento e execução de pesquisas, amostragens e técnicas de pesquisas, elaboração, análise e interpretação de dados. 4. ed. São Paulo: Atlas, 1999.

MINAYO, Maria Cecília de Souza. O Desafio do conhecimento. Pesquisa qualitativa em saúde. 2. ed. HUCITEC-ABRASCO, 1993.

PERRENOUD, Philippe. Construir as competências desde a escola. Porto Alegre:

Artes Médicas Sul, 1999.

VEIGA, Ilma Passos Alencastro (Org). Projeto político-pedagógico da escola: uma construção possível. 14. ed. São Paulo: Papirus, 2002.

Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001793