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Grupo de Estudos de Qabalah Autor: Rav Jaim D. Zukerwar (http://www.halel.org) Tradução: Frater Goya (Anderson

Grupo de Estudos de Qabalah

Autor:Rav Jaim D. Zukerwar (http://www.halel.org) Tradução: Frater Goya (Anderson Rosa)

Aula 11 – A Estrutura Incorpórea O Espaço Espiritual da Alma

VONTADE, TEMPO E ESPAÇO

“Disse Rabi Chaniná bem Acashiá: Quis o Cadósh Barúchu Hú aperfeiçoar Israel e para isso lhe deu abundância de Torá e de Mitsvót”. - mishná Macót 3,16 Aqui cabe perguntar: a que aperfeiçoamento se referiu o Sábio Rabi?

As leis gerais que regem todas os estratos da realidade e da vida são a manifestação da Força Criadora dentro do espaço e do tempo, ou seja, a Vontade do Cadósh Barúch Hú. O trabalho espiritual do homem consiste em elevar sua vontade e desejo à Sua fonte, o Infinito/Ein-Sof, recipiente da plenitude de SUA LUZ.

A Kabalá possui uma nomenclatura muito precisa que designa as graduações da manifestação entre vontade e desejo.

“Quando o homem pensa, não está mais do articulando e dando forma mental à sua vontade e seu desejo”. - I.L. Ashlag.

De acordo com a percepção judaica da realidade, o pensamento não é causa, e sim uma consequência. O ato de pensar é o resultado de como intelectualizamos e percebemos nossa vontade e nosso desejo. A função do pensamento consiste em discernir se nosso desejo é egoísta ou altruísta, prevendo assim a consequência de nossos atos.

O QUE O HOMEM DESEJA?

Todos desejam receber a plenitude, denominada kabalisticamente como Luz/Or. Cada pessoa percebe essa Luz/Or de forma particular: riqueza, saúde, e amor são exemplos dessas formas. E esses nomes são nada mais que formas das nossas limitações a essa percepção de plenitude da Luz. São características temporais e espaciais, materiais e densas de como percebemos esta Luz/Or. A recepção desta plenitude da Luz, de completitude, é a força primária que move todos os processos da Criação. Cada um o intelectualiza dentro da sua mente e/ou emoções, transformando-o (o desejo) em algo intelectual ou emocional.

A Torá nos ensina que a mitsvá mais importante é amar ao próximo como a nós mesmos. Essa mitsvá nos indica que, até que o homem transforme o desejo de receber em desejo de dar, ele não conseguirá entender o seu próximo, a vida, nem tampouco conseguirá conhecer o objetivo para o qual este mundo foi criado.

A vontade e o desejo estão além da vontade e do tempo. A comprovação mais contundente disso é que, quando desejo realmente algo, gero o tempo e o espaço para consegui-lo. Sempre temos tempo para o que realmente desejamos

A sabedoria da Kabalá dirige-se ao interior do homem, ao nosso desejo e vontade de receber a Plenitude Infinita (Kabalá=recepção).

Os conceitos superior-elevação referem-se à medida do refinamento do desejo, enquanto pelo contrário, os conceitos inferior-declínio são medidas de densificação do mesmo.

«A vontade e o prazer estão acima do pensamento, a emoção e os instintos, sendo eles a força motora que move aos homens. »

O Néfesh, o Ruja e a Neshamá são somente três aspectos gerais da totalidade da realidade, de acordo com a tradição da Kabalá. O Néfesh contém, por sua vez, diferentes aspectos, já que os instintos possuem também sua parte emocional e mental. O mesmo sucede-se com o Rúaj e a Neshamá.O “mapa espiritual da realidade” representa uma das formas através da qual a Kabalá nos transmite os diferentes aspectos que conformam ao homem e à Criação. Devemos entender que a realidade e a vida são dinâmicas e estão acima de esquemas e termos. O Estudo preliminar da Kabalá se baseia no conhecimento do significado da terminologia para concordar posteriormente com a dita realidade.

Da mesma forma que um músico lê uma partitura, ou um cientista decifra uma fórmula, assim também o iniciado interpreta o sentido correto dos textos quando conhece o significado completo de cada um dos termos da linguagem da Kabalá.

Néfesh, Rúaj e Neshamá, são os aspectos da alma que estão dentro do âmbito do tempo e do espaço, já que os instintos, as emoções e os pensamentos se sucedem temporal e espacialmente.

Há outros aspectos da alma, em hebraico Jaiá e Iejidá, os quais estão acima da influência do tempo e do espaço, e se relacionam com os aspectos mais interiores da alma como são o desejo, a vontade e o prazer.

A vontade e o prazer estão acima do pensamento, a emoção e os instintos, sendo eles a força motora que move aos homens. O pensamento, discerne entre os diferentes aspectos da nossa vontade, para lograr apreender o completo, a plenitude que se expande desde a Essência do Criador/Atzmút.

ATSMUT

A Essência

EIN-SOF

O Infinito

OR EIN-SOF A Luz do Infinito

TSIMTSÚM Concentração do desejo de receber a Luz do Infinito

NESHAMÁ

Alma

TEMPO-

ESPAÇO

OLAMOT Mundos-graus de ocultamento da Luz

ADAM

KADMON

ATSILUT

OROT Luzes-Graus de revelação da Luz da Alma

IECHIDÁ

CHAIÁ

BRIÁ

IETSIRÁ

ASSIÁ

NESHAMÁ

RUACH

NÉFESH

A Estrutura Incorpórea - O Espaço Espiritual da Alma

«Os filhos entendem a seus pais quando eles mesmos se transformam em pais. O homem começa a entender o Criador quando ele mesmo se transforma em criador, quer dizer, quando dá. »

Observamos em nosso “mapa”, que a raiz da alma está no Infinito/Ein-Sof, como nos é transmitido pela sabedoria da Kabalá:

Antes da Criação, a plenitude da Luz Infinita preenche toda a realidade não havendo espaço para que o vazio nem a necessidade se manifeste (“Etz Jaím”).

A nível de nossa percepção diríamos que a plenitude satisfaz todos nossos pensamentos, emoções e desejos, de modo que não reste nenhum outro aspecto da realidade que possa surgir e atrair nossa

atenção. Antes que surja qualquer desejo ou vontade, a plenitude da Luz Infinita oprime-a, tal como acontece com o feto no ventre materno que recebe alimento e calor antes de desejá-lo. Estaríamos plenos, sem consciência do desejo, já que antes de que surja qualquer desejo, a plenitude o preenche. É como a história do príncipe que vive no palácio

de

seu pai, o rei. Ao príncipe, nada falta. Tudo do rei é seu, mas ele não é

o

rei. Logo, e continuando com o texto do “Etz Jaím”, surge o

tzimtzúm/contração do desejo de receber a plenitude da Luz Infinita.

O príncipe deseja igualar-se a seu pai, o rei, mas para isso deverá deixar o palácio e criar seu próprio reino. Como consequência da contração do desejo de receber/tzimtzúm, a plenitude da Luz Infinita se oculta deixando um vazio dela mesma.

Isso acontece dado que não há imposição no terreno espiritual, por tanto o tzimtzúm permite que surja o livre arbítrio e possamos optar pela Luz – o bem – por nossa vontade, não por imposição.

Nosso príncipe sai do palácio e surge o desejo e a consciência de tudo

o que possuía dentro do reino. Agora o príncipe começa a compreender

a seu pai, já que diante da carência toma consciência do valor de tudo o

que possuía, e da grande responsabilidade que implica ser rei. Como resultado do ocultamento do pleno aparece o desejo. O desejo estava incluído no estado anterior, mas não tinha a possibilidade de manifestar- se, já que a plenitude infinita oprimia o desejo sem deixar-lhe espaço para que se manifestasse. O príncipe no palácio tinha desejos, mas o rei saciava todas as suas necessidades e o príncipe não tinha consciência do que possuía. Ao deixar o palácio surge no príncipe o desejo de voltar a possuir o que já era seu, somente que agora é por sua própria necessidade e não porque seu pai lhe deu.

O estado de Infinito/Ein-Sof inclui a Luz (plenitude) e o desejo de receber a Luz em equilíbrio, mas como a Luz preenche o desejo, por conseguinte não o percebemos. Isso é análogo ao verdadeiro amor que unifica sem deixar espaço para que outro sentimento o extinga.

Após o tzimtzúm/contração do desejo de receber, aparecem os dois estados em forma independente: a Luz – plenitude, e o desejo de receber a Luz. Depois de que o príncipe deixa o palácio, surge a nostalgia de sua vida anterior. Essa nostalgia é a que move ao príncipe a querer recuperar dita realidade. O espaço criado pelo desejo, a nostalgia da Neshamá de recuperar o estado de plenitude / Ein-Sof, é a Criação. A Criação é o processo gradual que aproxima o desejo até a plenitude da Luz até ficarmos novamente como no estado de Infinito/Ein-Sof, prévio ao tzimtzúm.

Qual é a finalidade de voltar a realizar o que já existia antes da Criação? Como vimos: “Anteriormente à Criação, a Luz do Infinito preenche a realidade”. Este processo é necessário para a vontade e desejo da Neshamá, sendo que a Luz, na plenitude, não possui absolutamente nenhuma mudança nem movimento. A luz é completa em si mesma. Por outro lado, ao perder a plenitude da Luz, o desejo da Neshamá deve conseguir reconstruir o estado de Infinito por sua própria necessidade, e não receber a Luz por imposição como acontece antes da Criação.

Um exemplo claro para entender ditos conceitos é a relação entre pais e filhos. Quando o filho forma uma família e deixa a casa dos pais, aprende a ser independente e auto-suficiente como sempre quiseram seus pais, passando a ser esta sua própria necessidade e não, como era anteriormente, apenas o desejo de seus pais.

“Por isso deixará o varão a seu pai e sua mãe e se unirá a sua mulher e serão uma só carne”. (Gênesis 2:24)

Os filhos entendem a seus pais quando os mesmos se transformam em pais. O homem começa a entender o Criador quando ele mesmo se transforma em criador, quer dizer, quando dá. O desejo da alma toma consciência da Luz quando a necessita por sua própria vontade e consciência, e não por imposição. A independência do desejo com respeito à Luz gera novos espaços espirituais indicados em nosso “mapa” pelos 3 mundos: Briá, Ietzirá e Asiá, que indicam os diferentes graus de recepção da Luz Infinita. Os extratos da alma, também denominados da Luz, assinalam os graus de aproximação do desejo para a Luz. Na linguagem da Kabalá, o desejo é denominado kli e a Luz, Or.

Os 5 graus da Luz/Or e os 5 mundos/olamót que recebem dita Luz estão situados em nosso “mapa” um de frente para o outro, indicando assim a relação direta de cada grau da Luz/Or com seu respectivo espaço e mundo.

O tempo e o espaço apenas se manifestam a partir dos 3 mundos inferiores

Briá, Ietzirá y Asiá. Isso acontece já que os 2 extratos superiores da alma – a vontade (Jaiá) e o prazer (Iejidá) – se encontram acima da influência temporal e espacial. Isso se deve ao fato da vontade e do prazer da alma não dependerem de mudanças uma vez que são permanentes. A alma somente deseja unificar- se à plenitude da Luz como o amor que unifica ao homem e à mulher para criar

e darem de si mesmos. Mas quando a vontade e o prazer se revestem de

pensamentos, sentimentos e ações, começa o movimento após a plenitude da Luz nos 3 mundos inferiores, Asiá, Ietzirá y Briá. Isso produz movimento a nível humano, gerando assim tempo e espaço.

A Kabalá e o Judaísmo em geral, através do estudo da Tora e a aplicação das

mitzvót, se baseiam no desenvolvimento de todos esses aspectos orientados para o objetivo fundamental: guiar o desejo, a vontade e o prazer do homem para o bem coletivo.

"AMARÁS A TEU PRÓXIMO COMO A TI MESMO"

Fontes:

Zukerwar, Chaim David, As 3 Dimensões da Kabalá – Essência, Infinito e Alma, Ed. Sefer, 1997, São Paulo