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EDITORIAL

A Igreja em Discipulado Missionário


SUMÁRIO
JULHO/AGOSTO 2008/06

O
tema “A Igreja em discipulado missionário” e o lema:
“América com Cristo: escuta, aprende e anuncia” motivam
o 3º Congresso Missionário Americano e 8º Congresso
Missionário Latino-Americano (CAM 3 – Comla 8) a ser
realizado em Quito, Equador, de 12 a 17 de agosto. O
Brasil participa com 230 representantes e a imprensa
missionária. O Instrumento de Trabalho do Congresso evidencia o
essencial na ação da Igreja: “A Missão é para o Reino de Deus e
1 - Família: o patrimônio maior.
para a humanidade inteira e seu futuro. Como a Igreja, a Missão é Foto: iStockphoto
convocada dentre toda a humanidade e posta para toda ela; está
marcada indelevelmente de universalidade ...” (n.189). A temática 2 - Irmã Inês Regina de Lima.
encontra-se organizada em três eixos: Discipulado, Pentecostes Foto: Jaime C. Patias

e Evangelização.
Em preparação para o CAM 3 – Comla 8 o Brasil realizou, no mês
de maio, em Aparecida, o seu 2º Congresso Missionário Nacional.  Mural-----------------------------------------------------04
As conclusões, desafios e perspectivas decorrentes do Congresso Curso CESEP e Romaria das Águas
sugerem uma Missão que convida a Igreja a buscar profundidade e  OPINIÃO--------------------------------------------------05
extensão em sua ação evangelizadora. a) As Olimpíadas da discórdia
Patrick Gomes Silva
A Igreja é convocada, primeiro, a “aumen-
tar o espaço de sua tenda” (Is 54, 2) e a  África----------------------------------------------------06
tornar-se “morada de povos irmãos e casa A importância da Etiópia para a África
Michael Mutinda
dos pobres” (DA 8), “instrumento da íntima
união com Deus e da unidade de todo o  PRÓ-VOCAÇÕES----------------------------------------07
gênero humano (LG 1), “fermento” do Reino Muitas certezas...
Rosa Clara Franzoi
de Deus. b) Conseqüentemente, é preciso,
“fincar as estacas com profundidade” para  VOLTA AO MUNDO-------------------------------------08
Notícias do Mundo
firmar e alargar a tenda (Is 54, 2-3). O tema Adital / Fides
da conversão antes de ser dirigido aos
destinatários da Missão, é apontado agora  ESPIRITUALIDADE----------------------------------------10
Em busca do sentido da vida
como caminho para a própria Igreja. O conteúdo dessa conversão Domingos de Oliveira Forte
consiste na volta à essência do Evangelho.
A Missão assumida hoje em torno do eixo fundamental de  TESTEMUNHO-------------------------------------------12
Este é o meu lugar
extensão e profundidade, na escuta da realidade, no seguimento Inês Regina de Lima
de Jesus e no anúncio do Reino, concretiza-se em cinco âmbitos
 FÉ E POLÍTICA -------------------------------------------14
articulados entre si: Qual Legislativo?
1. A formação dos discípulos missionários: Missão é fundamen- Humberto Dantas
talmente “fazer discípulos” (cf. Mt 28,19) e fazer discípulos significa
 FORMAÇÃO MISSIONÁRIA----------------------------15
fazer com que muitos se tornem praticantes da Palavra. 2º Congresso Missionário Nacional - Conclusões
2. A formação da comunidade missionária, sujeito da Missão. Estevão Raschietti
A comunhão de vida estabelecida mediante relações fraternas  Juventude missionária ----------------------------19
constitui a origem, o caminho e a meta da Missão. Criatividade para Cristo
3. A perspectiva da Missão continental é um convite dirigido Patrick Gomes Silva
às Igrejas particulares da América Latina para que não limitem a  DESTAQUE DO MÊS -----------------------------------20
fraternidade somente a seus membros, mas se abram a círculos O patrimônio mais importante
sempre maiores e se coloquem em estado permanente de Missão Joaquim Justino Carreira
(DA 213).  AÇÃO SOCIAL ------------------------------------------22
4. O quarto âmbito é a Missão Ad Gentes, a Missão aos po- Tráfico de pessoas: uma afronta aos direitos humanos
vos. Desafios como o mundo urbano, a juventude, os fenômenos Arlindo Pereira Dias
sociais novos, os movimentos e grupos étnicos, as migrações, os  infância missionária ------------------------------24
areópagos das comunicações, da cultura, da política, da economia, Ei! Eu "tô" falando com você!
Roseane de Araújo Silva
dizem respeito diretamente à Missão Ad Gentes.
5. Enfim, a dimensão universal da Missão está estreitamente  ENTREVISTA MOZART NORONHA-------------------26
ligada à Missão Ad Gentes, mas é necessário distingui-la. A paixão Fé e política na prática ecumênica
Jaime Carlos Patias
pelo mundo, própria da vocação cristã, se expressa no sentir e no
vibrar profundamente pela humanidade inteira e pela criação, e em  ATUALIDADE----------------------------------------------28
ser capaz de realizar gestos de solidariedade e de partilha com os Raposa Serra do Sol: um lugar de direito
Marina Silva
outros povos, enviando missionários e missionárias além-fronteiras.
Queremos ser uma Igreja comunidade discípula de Jesus, guiada  volta ao brasil---------------------------------------30
Cimi / CNBB / CNBB Sul 3 / Fides
pelo Espírito e missionária para a humanidade. 

- Jul/Ago 2008 3
Mural do Leitor
Ano XXXV - Nº 06 Jul/Ago 2008 Curso Latino-Americano de Formação Pastoral
Diretor: Jaime Carlos Patias A cidade como desafio para as igrejas, os tilha da realidade dos diferentes países,
movimentos sociais e as políticas públicas. as noites culturais e os momentos de
Editor: Maria Emerenciana Raia Este é o tema do Curso Latino-Americano celebração propiciam um espaço único de
de Formação Pastoral que se realiza de 3 convivência internacional e de intercâmbio
Equipe de Redação: Patrick Gomes de agosto a 27 de setembro de 2008 no rico e estimulante.
Silva, Rosa Clara Franzoi, Júlio César Centro Ecumênico de Serviços à Evan- Cidade e a conquista da cidadania; o fenô-
Caldeira, Michael Mutinda e Corrado gelização e Educação Popular (CESEP), meno religioso na cidade; Bíblia e teologia
em São Paulo. Focado na segregação da cidade; pastoral urbana; espiritualidade
Dalmonego
urbana, evangelização e cidadania, o e evangelização com estágios e práticas
curso destina-se a leigos, leigas, religiosos, são algumas das unidades temáticas a
Colaboradores: José Tolfo, Vitor
religiosas, sacerdotes, pas- serem desenvolvidas com a
Hugo Gerhard, Lírio Girardi, Luiz
tores, pastoras e líderes de assessoria de Clóvis Pinto de
Balsan, Roseane de Araújo Silva, Hum-
ONGs que atuam nos meios Castro, Daniel Godoy, Dirce
berto Dantas, Luiz Carlos Emer, Dirceu
populares, nas pastorais e Pontes, Fernando Altemeyer,
Benincá e Ricardo Castro
movimentos sociais. Ivo Lesbaupin, João Batista
A metodologia combina a Libânio, José Oscar Beozzo,
Agências: Adital, Adista, CIMI,
partilha das práticas sociais Júlio Renato Lancelotti, Lúcia
CNBB, Fides, IPS, MISNA, Radioagência e pastorais dos seus partici- Maria Bógus e Luiz Eduardo
Notícias do Planalto e Vaticano pantes, vindos de diferentes Wanderley e a coordenação de
países da América Latina e Cremildo Volanin. O CESEP
Diagramação e Arte: Cleber P. Pires do Caribe, com instrumentos teóricos dispõe de um número limitado de bolsas
para melhor compreensão da realidade e para hospedagem e alimentação destina-
Jornalista responsável: ­atuação nos locais onde vivem e trabalham. das a apoiar a participação de pessoas
Maria Emerenciana Raia (MTB 17532) Partindo da contribuição das ciências so- com menos recursos. Interessados em
ciais, o programa oferece aprofundamento bolsas devem especificar por escrito os
Administração: Eugênio Butti bíblico e teológico, além de contatos com motivos de sua solicitação.
pastorais sociais, ONGs e iniciativas das As inscrições podem ser efetuadas pelo
Sociedade responsável: igrejas cristãs e movimentos populares site: www.cesep.org.br
Instituto Missões Consolata frente à segregação urbana e à tarefa E-mail: formacaopastoral@cesep.org.br
(CNPJ 60.915.477/0001-29) missionária e pastoral das igrejas. A par- Tel.: (11) 3105-1680

Impressão: Edições Loyola


Fone: (11) 6914.1922 São Paulo realiza
Colaboração anual: R$ 45,00
10ª Romaria da Terra e das Águas
BRADESCO - AG: 545-2 CC: 38163-2 Com o tema “Trabalhadores, Trabalhadoras! Seco) e Ribeirão Preto. A Romaria da Terra
Instituto Missões Consolata Terra Livre, Água de Todos e Povo Sobera- e das Águas quer marcar a história de fé
(a publicação anual de Missões é de 10 números) no!” o estado de São Paulo realiza, no dia da humanidade e mostrar a organização
3 de agosto a sua 10ª Romaria da Terra de um povo inconformado, desde o povo
Missões é produzida pelos e das Águas. Organizado pela Comissão da Bíblia. De escravo no Egito, o Povo
Missionários e Missionárias da Consolata Pastoral da Terra - CPT, juntamente com de Deus se põe a caminho rumo “a uma
Fone: (11) 2256.7599 - São Paulo/SP entidades, associações, movimentos e terra fértil e espaçosa onde corre o leite e
(11) 2231.0500 - São Paulo/SP pastorais sociais, o evento pretende reunir o mel, a Terra da Libertação (Ex 3, vvv8)”.
(95) 3224.4109 - Boa Vista/RR cerca de 6.000 pessoas, dentre as quais li- Os homens e mulheres de hoje, herdeiros
deranças religiosas e políticas de São Paulo. desta promessa, querem reivindicar seu
Membro da PREMLA (Federação de Imprensa A concentração dos romeiros acontece no direito à terra e à água e denunciar os
Missionária Latino-Americana) e da UCBC Centro de Formação Santa Fé, km 25 da grandes latifúndios da região e de todo o
(União Cristã Brasileira de Comunicação Social) Via Anhanguera, às 8h00, quando começa país, a concentração da terra nas mãos de
a caminhada rumo à Comuna da Terra Irmã poucos, o que gera multidões de excluídos
Redação Alberta. Dom José Benedito Simão, bispo
da Região Episcopal Brasilândia, fará a
e marginalizados. A Romaria quer fazer
valer a promessa de Jesus quando diz:
Rua Dom Domingos de Silos, 110
02526-030 - São Paulo abertura do evento. As edições anteriores “Eu vim para que todos e todas tenham
Fone/Fax: (11) 2256.8820 da Romaria aconteceram nas seguintes vida, e a tenham em abundância!”.
Site: www.revistamissoes.org.br regiões do estado de São Paulo: Promis- Informações: Comissão Pastoral da Terra
E-mail: redacao@revistamissoes.org.br são, Guarapiara, Andradina, Porto Feliz, - CPT. Tel.: (11) 2721-0231
Iaras, Rosana, Registro (Quilombo Morro E-mail: andrelinavieira@ig.com.br

4 Jul/Ago 2008 -
As Olimpíadas
Divulgação

OPINIÃO
da discórdia
Os XXIX Jogos Olímpicos na China colocam
em evidência o conflito com o Tibete.
A questão do Tibete
Esta região dos Himalaias conhecida como “o teto do mundo”
e governada durante séculos alternadamente pelos imperadores
chineses e mongóis e pelos Dalais Lamas, está integrada à
República Popular da China desde 1950. A Região Autônoma
do Tibete corresponde, contudo, apenas à metade do território
do Tibete histórico. As zonas restantes foram integradas em
outras províncias chinesas.
Dalai Lama, líder espiritual tibetano e Nobel da Paz em 1989.
A larga maioria (93%) da população é tibetana, apesar
da forte migração de chineses han, sobretudo para a capital,
Lassa. Com uma grande extensão - 1,2 milhões de quilômetros
de Patrick Gomes Silva
quadrados - o Tibete tem apenas 2,6 milhões de habitantes (a
China conta com um bilhão e 300 milhões). Pequim garante

C
que tem ajudado no desenvolvimento econômico da Região.
om a cerimônia de abertura marcada para acontecer Números oficiais de 2003 garantem que o PIB é 28 vezes
às 20h08 do dia 8 de agosto de 2008 (o número oito superior ao de 1978. Os tibetanos acusam os han de ter uma
tem significado de prosperidade na cultura chinesa) influência desproporcionada em relação ao seu número e de
e prolongando-se até o dia 24 do mesmo mês, os serem os principais beneficiários do desenvolvimento, enquanto
Jogos Olímpicos serão a XXIX Olimpíada da era ameaçam a identidade cultural da região. A abertura da linha
moderna. Sede do midiático evento será a China. de trem entre Golmud e Lassa veio intensificar a chegada dos
Beijing (Pequim) terá durante esse tempo os olhares do mundo han ao Tibete, que depende em grande parte da agricultura.
voltados em sua direção. O governo quer aproveitar do evento As florestas e, sobretudo, as pastagens ocupam grande parte
para mostrar o enorme crescimento econômico conseguido (uma do território. Com um subsolo rico em minerais, a falta de uma
média de 10% ao ano desde o final dos anos 70), apesar das rede de transporte tem dificultado a sua exploração. O turismo
limitadas liberdades políticas existentes. contribui em parte com o orçamento.
O percurso da chama olímpica faz parte da tradição na
preparação dos Jogos, um ato que “sintoniza” o mundo para Religião no Tibete
o evento. Porém, desta vez, a chama até Pequim passou por O budismo chegou à Região no século VII e tornou-se reli-
um caminho sinuoso. O percurso, que deveria ser de euforia, gião de Estado. É de tal forma importante que o líder espiritual
virou de protesto. Os tibetanos, aproveitando-se dos olhares tibetano, o Dalai Lama, é também o seu líder político. Tenzin
voltados para a China, resolveram “recordar” a todos o conflito Gyatso é o 14º Dalai Lama. O líder espiritual tibetano foi forçado
com o país, desencadeando uma inesperada revolta no dia 14 ao exílio pelas forças chinesas em 1959. Refugiado na Índia,
de março em Lassa, capital do Tibete. O resultado foram vários em Dharamsala, foi aí que estabeleceu um governo eleito pelos
mortos, sem que as partes concordassem com os números, tibetanos no exílio.
uns falavam em cerca de 20, outros em 150. Mas o objetivo foi
atingido. Os dias do percurso da chama olímpica não poderiam O Dalai Lama e a independência
ter sido mais difíceis e embaraçosos. Por toda parte onde a O líder espiritual tibetano e Nobel da Paz em 1989 é apolo-
chama foi passando, foram-se sucedendo os protestos em favor gista de uma autonomia alargada. O Dalai Lama tem mantido
da causa do Tibete, que desde 1950 está integrado na República um contato intermitente e indireto com o regime comunista de
Popular da China. Alguns protestos conseguiram mesmo o feito Pequim. A tensão entre Pequim e Lassa foi reforçada pelo fato
de apagá-la, obrigando a organização a encontrar maneiras de discordarem sobre a identidade do Panchen Lama, a segunda
alternativas para efetuar o percurso, como aconteceu em Paris, figura mais importante para os tibetanos. O Dalai Lama acusa os
Londres e Los Angeles. Associado ao problema do Tibete, surgiu chineses de terem feito desaparecer o menino que ele acredita
um movimento em favor do boicote aos Jogos Olímpicos, que, ser a reencarnação do Panchen Lama e de o substituir por uma
no entanto, parece não ter conseguido muitos adeptos. Alguns criança que eles escolheram. 
líderes mundiais desejando mostrar desagrado com a situação,
mas sem querer desafiar a China, poderão faltar à cerimônia de Patrick Gomes Silva, imc, membro da equipe de formação do Centro Missionário José Allamano,
abertura do dia 8 de agosto em Pequim. SP, com informações da revista Fátima Missionária.

- Jul/Ago 2008 5
A importância da
Etiópia para a África

Dawit Daniel
O país é sede da União Africana, em sua
capital se encontra a Comissão Econômica
para a África e estão instaladas mais de 70
representações diplomáticas.
de Michael Mutinda

C
onhecer um país e aquilo que nele acontece nos
possibilita amar o seu povo. Sem viajar fisicamente,
vamos conhecer a Etiópia, um país de raça negra,
com mais de 80 etnias, cada uma com língua própria, Mercado em Shashemane, Etiópia.
cultura, costumes e tradições. A Etiópia situa-se no
corno de África e faz fronteira ao norte e nordeste com Economia e religião
a Eritréia, a leste com o Djibuti e Somália, ao sul com o Quênia Aproximadamente 80% da população sobrevive da agricultura.
e a oeste e sudoeste com o Sudão. O país tem um planalto As exportações principais do setor são: café, sementes oleagi-
central de grande altitude, que vai dos 1.800 aos 3.000 metros nosas, leguminosas (feijão), flores, cana de açúcar e forragem
acima do nível do mar, com algumas montanhas que atingem para animais, além de cereais. O setor industrial é incipiente.
os 4.620m. Vários rios atravessam o planalto – como o Nilo Azul A Etiópia tem uma cultura predominantemente marcada pelas
que nasce no lago Tana. Em Adis Abeba, cidade cuja altitude religiões professadas pelos seus vários povos, um local onde se
varia entre os 2.200 e 2.600 m, a temperatura máxima é de 26º cruzaram tendências religiosas judaicas, cristãs e muçulmanas.
C e a mínima 4º C. O clima é relativamente seco, com duas Podemos calcular uma porcentagem simples das religiões no
estações chuvosas. país: muçulmanos, 45%, ortodoxos, 40%, protestantes, 10% e
outras religiões, dentre elas a católica romana, 5%.
Origem do nome A República Federal Democrática da Etiópia foi proclamada
“Etiópia” é palavra grega que significa o ‘país dos caras em 1995. O sistema de governo baseia-se na repartição do poder
queimados’. Desde aproximadamente o século IV a.C., os gre- entre nove regiões administrativas, delimitadas segundo critérios
gos chamavam de Etiópia todos os países com população de étnicos, e um parlamento forte, integrado por uma Câmara e pelo
raça negra, indistintamente. O país moderno foi criado no final Senado. Os representantes do povo são eleitos por voto popular
do século XIX pela rápida expansão territorial promovida pelos direto, enquanto que os senadores são designados pelas regiões
reis de Abissínia, com o apoio militar das potências coloniais administrativas. A Constituição, promulgada em agosto de 1995,
européias. Esse apoio, principalmente de Portugal, foi decisivo formalizou o atual sistema de “federalismo étnico”, concedendo,
desde o século XVI para evitar a invasão muçulmana da região. em teoria, ampla autonomia às regiões administrativas.
Nenhum dos países da Europa, além da Itália, tentou colonizar a Em 1887, o padre José Allamano encontrou-se na Itália
Etiópia, pois, à época, era uma das regiões mais pobres e menos com o cardeal Massaia, expulso definitivamente da Etiópia.
atrativas, por sua topografia de difícil acesso. A Itália, sendo um Naquela ocasião, Allamano manifestou-lhe seu ardente desejo
dos últimos países a entrar na era do colonialismo, ficou com de ser missionário. O fundador dos missionários e missionárias
o que ainda estava disponível. Tentou invadir a Abissínia pela da Consolata desejava mandar missionários para a Etiópia,
Erítreia em 1896 mas, não conseguiu. No início do século 20, a especialmente para o povo Omoro. A razão de tanta preferência
Abissínia foi reconhecida como o reino independente da Etiópia era para continuar o trabalho apostólico do capuchinho cardeal
e foi convidada para a Conferência de Berlim, na qual os países Massaia, que Allamano admirava muito. O desejo foi realizado
colonialistas decidiram a partilha da África. somente em 1913. Em 1941 com o término da tentativa de
Logo depois da Primeira Guerra Mundial, a Abissínia, na for- colonização italiana na Etiópia, os missionários da Consolata
ma de império etíope governada pelo imperador Haile Selassié, também foram expulsos do país. Em 1970 voltaram, assumindo
integrou a liga das nações, e perdeu a sua independência entre algumas missões. Hoje se encontram na arquidiocese de Adis
1936 e 1941, quando o exército de Benito Mussolini a invadiu Abeba, em Meki e Nekente. 
dando início à segunda guerra ítalo-etíope. Entre 1987 e 1991
o estado etíope foi uma república comunista com o nome de Michael Mutinda, seminarista imc, tanzaniano,
República Democrática Popular da Etiópia. estudando teologia no ITESP, Ipiranga, São Paulo.

6 Jul/Ago 2008 -
Muitas certezas...

pró-vocações
de Rosa Clara Franzoi Tudo bem! Tudo legal! Tudo jóia!

Divulgação
vida humana é uma mescla de luz e sombra, bem
e mal, força e fraqueza. Nenhuma novidade nisto.
Acontece, porém, que mesmo inconscientemente,
quando alguém nos pergunta como estamos, faze-
mos prontamente um gesto com o polegar direito e
respondemos: “tudo bem! tudo legal! tudo jóia!”. Não
é assim? Entretanto, sabemos perfeitamente que nem sempre
tudo está bem. O psicólogo Roberto Shinyashiki explica o
porquê desse modo de agir do ser humano: “estamos vivendo
numa sociedade de muitas certezas e poucas dúvidas”. E isto
é ruim, sobretudo para quem começa a estruturar a própria
personalidade, formar a própria consciência e construir o próprio
futuro. Por que é ruim? Porque a pessoa acaba por confundir
positivo com negativo e vice-versa.

Importância das dúvidas O equilíbrio é sempre o melhor caminho


Não parece ser verdadeira esta afirmação, mas é muito Conta uma lenda que um rei vivia num luxuoso palácio. Um
bom ter dúvidas. Quem nunca tem dúvidas, não evolui. Se dia começou a se perguntar: “será que toda essa opulência não
tudo está bem, por que mudar? Em time bom não se mexe. está me afastando do povo?” Consultou os seus sábios, mas
Os questionamentos, as dúvidas constituem o primeiro passo eles, não querendo perder seus privilégios, acharam aquilo
em direção ao novo, à mudança. “Eu fico muito feliz quando um absurdo. Como suas dúvidas persistissem, ele procurou
consigo criar dúvidas na mente dos meus pacientes”, é o que resolvê-las por conta própria. Deixou o manto real, vestiu roupas
diz o psicoterapeuta Milton Erickson. É quando alguém começa comuns e abandonou o palácio. No meio do povo contava com
a ter dúvidas que, com certeza, as mudanças se realizam. O orgulho a todos a façanha que havia feito. Ficava repetindo a
que aconteceria se um dia o presidente dos Estados Unidos mesma história todos os dias. As pessoas que a princípio o
questionasse se a estratégia da guerra está contribuindo para tinham admirado, aos poucos começaram a aborrecê-lo. Ele,
a paz do mundo? Ou, se um terrorista perguntasse se é justo como era uma pessoa inteligente e atenta, percebeu o erro em
ele destruir tantas vidas, quando muitos lutam desesperada- que tinha caído. Deu meia volta e retornou ao seu palácio.
mente para viver? Ou ainda, se os corruptos parassem para Esta lenda quer mostrar que não precisamos jogar tudo
pensar se o dinheiro que desviam e roubam, contribui para fora – ou oito ou oitenta. O que precisamos fazer é procurar
a sua felicidade? Se eles fossem corretos, com toda certeza responder às dúvidas com equilíbrio, porque é o caminho
alguma coisa começaria a mudar. As perguntas sinceras que mais acertado. Aquele rei teve a dúvida, mas não soube usar
nascem das dúvidas, dos questionamentos, devem levar a uma o equilíbrio. Ele apenas mudou de lugar físico, material, mas,
transformação firme e corajosa. sua cabeça continuou ligada à situação luxuosa do palácio. Ele
demonstrou isso, não se cansando de contar a todos sua virtude
e sua coragem. Conclusão: se antes ele estava apegado ao
Quer ser um missionário/a? palácio em que morava, depois continuou apegado ao palácio
que havia deixado. 
Irmãs Missionárias da Consolata - Ir. Dinalva Moratelli
Av. Parada Pinto, 3002 - Mandaqui Para refletir:
02611-001 - São Paulo - SP Querendo, continue a reflexão lendo o texto de Jo 21, 15-19 e
Tel. (11) 2231-0500 - E-mail: rebra@uol.com.br tente responder:
1. O apóstolo Pedro, ao ser perguntado por Jesus se o amava,
Centro Missionário “José Allamano” - padre Patrick Gomes Silva o que respondeu?
Rua Itá, 381 - Pedra Branca
02636-030 - São Paulo - SP 2. E quando Pedro começou a duvidar das suas certezas, como
Tel. (11) 2232-2383 - E-mail: secretariamissao@imconsolata.org.br respondeu?
3. Quando alguém põe em dúvida o que dizemos ou fazemos,
Missionários da Consolata - padre César Avellaneda temos nós a sabedoria de analisar nossas certezas? Pode
Rua da Igreja, 70-A - CXP 3253 ser que algo deva ser mudado...
69072-970 - Manaus - AM
Tel. (92) 3624-3044 - E-mail: amimc@ibest.com.br Rosa Clara Franzoi, MC, é animadora vocacional.

- Jul/Ago 2008 7
anti-retrovirais. Ao mesmo tempo, recordam a posição
da Igreja para prevenir a difusão do vírus HIV: vida
sexual responsável, abstinência para os não-casados,
fidelidade matrimonial.

Equador
CAM 3 – Comla 8
As relíquias de Santa Teresinha do Menino Jesus,
doutora da Igreja e Padroeira Universal das Missões,
chegaram a Guayaquil no dia 23 de junho. A iniciativa
está incluída nas atividades prévias para a celebração
do 3º Congresso Missionário Americano - CAM 3 e 8º
Congresso Missionário Latino-Americano - Comla 8,
que será realizado de 12 a 17 de agosto em Quito.
Entre os objetivos propostos pela Comissão organi-
zadora do CAM 3 para esta visita das relíquias, estão:
China divulgar sua vida e de suas obras em todos os cantos
Acolhida espiritual nas Olimpíadas do Equador; incentivar e formar discípulos no âmbito
Dom Giuseppe Li Shan, arcebispo de Pequim, missionário e promover a sua devoção. A peregrina-
VOLTA AO MUNDO

convocou uma reunião no dia 12 de junho em pre- ção das relíquias de Santa Teresinha no país está
paração às Olimpíadas, que serão realizadas em em sintonia com o tema do Congresso Missionário:
agosto. Dom Li solicitou a todos os párocos, religiosas “América com Cristo, escuta, aprende e anuncia”. As
e leigos que se mobilizem para oferecer as melhores Pontifícias Obras Missionárias elaboraram diversos
iniciativas pastorais e de evangelização aos chineses materiais, entre os quais um opúsculo sobre sua vida,
e aos estrangeiros: “cada paróquia deve colocar à vários manifestos, folhetos, o Rosário missionário e
disposição leigos competentes para a recepção e para a autobiografia “História de uma alma”.
atender às solicitações de católicos e não-católicos,
que queiram entrar na igreja ou participar de um América Latina
serviço religioso”. A arquidiocese já pôs à disposição Mulheres migrantes
16 sacerdotes, além de religiosas e leigos, a serviço Com o objetivo de sensibilizar a cidadania e os
da Vila Olímpica. Serão oferecidas missas em inglês, governos do mundo sobre os direitos humanos dos
francês e italiano para todos os hóspedes. Os sacer- migrantes, a Liga da Federação Internacional dos
dotes estrangeiros poderão celebrar no próprio idioma Direitos Humanos (FIDH, da sigla em inglês), lançará
nas igrejas de Pequim. em 2009 uma campanha internacional, na qual as
mulheres serão o foco. “A campanha internacional
Moçambique terá como foco esta problemática porque as mulheres
Fortes sinais de esperança migrantes constituem uma dupla prioridade, já que
“Apoiamos e encorajamos aqueles que se empe- constituem a metade da população migrante, migram
nham pela paz, e que trabalham para que todos os cada vez mais, sofrem as mesmas adversidades que
moçambicanos tenham vida, e vida em abundância” os homens, mas são violadas sexualmente e subme-
afirmam os bispos de Moçambique em mensagem tidas a maus-tratos” , informou Souhayr Belhassen,
sobre a vida social do país. Analisando a situação, presidente da FIDH. De acordo com a Comissão
os bispos falam “da existência de numerosos sinais Econômica para a América Latina e o Caribe (Ce-
de esperança, como resultado de escolhas efetuadas pal), na fronteira sul do México, cerca de 70% das
pelos responsáveis pela gestão dos negócios públicos migrantes são vítimas de violência, 60% sofrem algum
em favor de todos. Portanto, acolhemos com fervor tipo de abuso sexual que chega até a violação. No
as escolhas do governo de Moçambique para lutar entanto, a fronteira mexicana com os Estados Unidos
contra a pobreza, que é ainda uma realidade forte e é considerada pela Comissão um dos lugares mais
dolorosa no nosso país”. Os bispos também acolhem “a perigosos para as mulheres, porque são vítimas de
promoção da auto-estima nacional, como uma impor- violência sexual, prostituição forçada, tráfico de mulhe-
tante condição para que os moçambicanos assumam res e feminicídio. Os migrantes no mundo são cerca
a consciência de que são os primeiros agentes de de 191 milhões, 3% da população do planeta, dos
desenvolvimento, os responsáveis pelo seu destino, quais 95 milhões são mulheres, disse Patrick Taran,
e mesmo quando devem aceitar a ajuda e a colabo- da Organização Internacional do Trabalho, durante
ração dos outros, isso não tira a responsabilidade o Seminário Internacional “Os direitos humanos das
de cada um na construção do bem comum”. Entre pessoas migrantes nas Américas” , que foi realizado,
os protagonistas desse renascimento moçambicano na Cidade do México, de 16 a 18 de junho. Vilma
estão as mulheres: “constatamos que no nosso país Núñez, vice-presidente da FIDH, disse que, nos dias
há mulheres empenhadas em diferentes tarefas e de hoje, “há uma feminização da migração por conta
frentes e, de fato, Moçambique destaca-se pela maior própria, as mulheres não migram só acompanhando
participação das mulheres em algumas atividades de os filhos, ou o companheiro, cada vez mais aumenta
decisão e de gestão do bem comum”. É particular- o número das que migram por decisão própria”. 
mente dramática a difusão da AIDS no país. Os bispos
exortam o governo a fornecer assistência adequada
aos doentes e iniciar a produção de medicamentos Fonte: Adital, Fides.
8 Jul/Ago 2008 -
INTENÇÃO MISSIONÁRIA
Julho: Para que a Jornada

Jaime C. Patias
Mundial da Juventude que
se realiza em Sydney,
Austrália, acenda nos jovens
o fogo do amor divino e os
transforme em semeadores
de esperança para uma nova
humanidade.

de Vitor Hugo Gerhard

Juventude encontra-se com o papa Bento XVI em Aparecida, SP.

O
menor dos continentes se tornará, em breve, uma
imensa antena parabólica capaz de emitir e receber
sinais vitais para milhões de jovens que irão se co- Agosto: Para que se promova e alimente a
nectar com ele. É a Jornada Mundial da Juventude,
em mais uma de suas edições. Certamente João
resposta de todo o povo de Deus à vocação
Paulo II irá sorrir mais uma vez para esta juventude reunida, comum à santidade e à missão, com um atento
e fará sorrir a Bento XVI, o atual papa.
O fogo do amor divino já está aceso no coração da ju- discernimento dos carismas e um constante
ventude. Se assim não fosse, eles já seriam velhos em corpos
ainda pouco gastos. No mundo ocidental, somos uma imensa empenho de formação espiritual e cultural.
maioria de cristãos. De cada quatro habitantes, três professam
a mesma fé. O amor divino já está presente no mundo. Quem
sabe, em vez de uma forte labareda, em muitos corações esteja Tenho repetido insistentemente uma de minhas crenças mais
ardendo apenas uma tênue chama que não pode e não deve profundas. Acredito que a humanidade como um todo e cada
ser apagada. Uma das tarefas desta Jornada é exatamente uma das pessoas em particular, espera de nós, cristãos, um
esta, a de fazer arder os corações, assim como aos discípulos testemunho eloqüente: neste mundo dilacerado por discórdias,
de Emaús. Alimentar esta chama é condição indispensável se que sejamos capazes de testemunhar, por um estilo de vida,
quisermos que os jovens de hoje se tornem grandes e positivos por palavras e ações, que é possível viver a partir de Deus e
líderes dos dias vindouros. em comunhão com Ele.
Um dos grandes homens da Igreja no Brasil (dom Hélder A humanidade não espera de nós que sejamos compe-
Câmara) dizia que uma das marcas do cristão é que ele é tentes. Devemos sê-lo, mas esta não é a nossa originalidade.
capaz de “esperar contra toda esperança”. A esperança é uma A humanidade não espera de nós que sejamos brilhantes em
das virtudes teologais; é também uma palavra bíblica, pois se tudo o que fazemos e dizemos. Devemos tentar sê-lo, mas isto
encontra desde os textos mais remotos da revelação cristã; também não é o que nos distingue dos demais. O que de fato
esperança é uma palavra antropológica, incrustada no tecido se espera, é que os cristãos (de modo particular os cristãos
das culturas e presente na linguagem coloquial. Pedir aos jovens católicos) vivam de tal maneira que se veja neles o mundo dos
para que se tornem semeadores da esperança pode parecer valores, a vida alicerçada nas convicções, as atitudes orientadas
uma redundância, pois, se eles não fossem possuidores dela, pelo discernimento, as palavras pronunciadas com a certeza
não entrariam na vida com tanto fragor. de quem vive a partir de dentro de si mesmo, de alguém que
Parece que este último ponto da intenção missionária é o esconde algo de precioso nos porões da existência.
mais delicado e urgente. Muitos de nós temos a impressão que O fato de sermos diferentes uns dos outros não é defeito,
a humanidade perdeu alguns dos seus pontos de referência mas complementariedade. O fato de pensarmos e agirmos de
que nortearam as gerações recentes, mas que, por causa de modos diversos não é fragilidade, muito pelo contrário, é na
uma aceleração quase dramática dos acontecimentos nesta soma das nossas diferenças que se encontra a nossa força e
virada de milênio, a própria humanidade se viu perdida e atolada a capacidade de superação das inúmeras situações de risco
em terrenos de areia movediça. Muitos foram tragados, outros pelas quais passamos. Buscar isso individual e coletivamente
ainda estão emperrados e tantos pedem socorro. Retomar as é tarefa urgente e necessária nos nossos dias. 
rédeas da história e recolocar a humanidade como seu centro
é tarefa urgente e necessária. Vitor Hugo Gerhard é sacerdote e coordenador de pastoral da Diocese de Novo Hamburgo, RS.

- Jul/Ago 2008 9
espiritualidade

Em busca do
sentido da vida
de Domingos de Oliveira Forte

José Roberto Garcia


Q
uem pode afirmar “fui eu que
pedi para nascer?” Quem não
concordará que nos encon-
tramos diante de algo que
nos supera? Só alguém com
insanidade mental é que po-
derá levantar o dedo e dizer
“eu sou o princípio” ou “fui eu que pedi
para vir ao mundo”.
Existe, poderíamos dizer com São
Tomás de Aquino, um motor imóvel, um
motor primeiro, um ponto de partida: o
motor que nos transportou do não-ser à
existência. Sem mais rodeios, está claro
que é Deus quem nos chama à vida, é o
ponto de partida. Nós não nos geramos
sozinhos: a vida é dom, é presente gratuito!
E então, quando me conscientizo de que
sou um ser humano, acredito que não
preciso fazer mais nada?

Eis a questão
O que Deus quer que eu seja? Qual
é a vocação fundamental da minha exis-
tência? Quando Ele me desenhou, o
que desejou para mim? Com certeza,
tornar-me sua imagem não deformada
(Gn 1, 27). Deus desejou que eu fosse sua
imagem e semelhança. Fantástico! Mais:
todos somos chamados “desde antes da
criação do mundo” (Ef 1,4) a participar da
própria vida divina, até à eternidade. Eis
aqui a questão que preside o sentido da
vida: como fazer para me tornar imagem
e semelhança de Deus? Se formos bus-
car a resposta em certos espiritualismos
frustrantes do tipo “devo corresponder a
Deus”, ou “devo fazer de tudo para agra-
dar a Deus”, não encontraremos nunca
o que buscamos.

O absurdo
A história de Caim (Gn 4) lembra-nos
que é (im)possível viver sem ser imagem
semelhante de Deus. Como se faz? As
palavras “irmão” e “Abel” aparecem sete
vezes no texto; o número sete na Bíblia Marcha pela Paz 2006, Monte Santo, BA.

10 Jul/Ago 2008 -
Gabriel Iiriti
Reconhecer-nos imagem e
semelhança de Deus e confiar
a Ele nossa vida é um bom
caminho para entender o que
devemos fazer neste mundo.

Participantes do 2º Congresso Missionário Nacional, Aparecida, SP.

indica a totalidade, o que significa que de bom para descobrir nas pessoas que das? Desapontamentos? Incapacidades?
nós também fazemos parte não só da lhe querem bem... mesmo que tenham Sonhos inacabados? Relações interrom-
história de Caim e Abel, como somos mil defeitos, mesmo que apresentem a pidas? Quanta angústia!...
da família. Deus dons mais belos que os seus (vv.
Na história de cada um existe uma 4-5). Decida você quem quer deixar entrar, Como trato das feridas?
fraternidade negada (v.9), relações cor- o sentido que quer dar à sua vida. Para Posso resignar-me, fazer-me indife-
tadas e complicadas: no relacionamento esta empresa, a graça de Deus (só) basta rente, descartando toda a relação que
familiar, entre amigos, namorados, marido (2Cor 12, 6-10). não me cai bem. Convivo fraternalmente
e mulher, pais e filhos... A criação é respei- “Onde está o seu irmão?” Mesmo com o medo e a preguiça, enfim, não
tada quando se reconhece a fraternidade, que nos esqueçamos, Deus não. Volta assumo nada com empenho, mato as
que, freqüentemente, se revela incômoda, sempre. Semelhante é a pergunta feita razões. Mas... sem razões não se vive.
talvez porque traz à tona algum aspecto a Adão (Gn 3, 9). Terrestre, onde você Resignação “tanto não será nunca como
em mim desapontador, ou, então, que não está?... por que se esconde? Por que antes”. Enfim, quantas coisas belas eu
corresponde ao que espero da vida. se considera incapaz de uma amizade perco pelas quais valeria a pena tentar,
que lhe foi oferecida? Que distância está arriscar, viver.
Não estou sozinho... abrindo entre você e seu irmão, o seu Posso também dar uma de super-
“Pouca coisa” é o significado do nome amigo, o seu marido, a sua mulher, os homem que combate para mudar a socie-
Abel, o mesmo que “sopro”, “vazio”, seus filhos, o pobre? É difícil acolher e dade, ou seja, fugir do Evangelho porque
“nada”. Abel não diz uma só palavra. aceitar a alteridade, contudo se você não insuficiente. Deus é um meio moribundo,
Para sua vida ter sentido, consistência aceita o seu próximo, o reduz a nada; um coitadinho de Abel.
e importância, é preciso que Caim o antes ou depois, também você se sentirá E por que não tratar minhas feridas
reconheça como irmão. Sou eu que dou assim e buscará preencher o seu vazio com o bálsamo da fé? Medicamento que
consistência à vida do outro, assim como com o vazio do sucesso, da ambição, da me dá razões para me levantar e buscar
é o outro que dá consistência à minha. realização pessoal. Sim, todas coisas sempre... O bom samaritano passa por
Toda vocação do outro depende de mim, muito belas, mas secundárias, diante da mim, não falha a estrada, aproxima-se
do meu reconhecimento. Se não o reco- vocação fundamental: buscar ser imagem para que as minhas feridas sejam sara-
nheço, o outro passa a ser Abel, pouca semelhante de Deus. das. Leva-me, estou fazendo a viagem
coisa, sopro, nada. arriscando a vida, descobrindo o fascínio
Esta abertura à vida e ao próximo Sem o outro, sou nada de viajar com Ele. Encontro e viajo com
está ameaçada (v.7) pelo inimigo, que A negação da relação com o outro me Deus, quando encontro e viajo com o
quer entrar para convencer-me que basta fecha a Deus. Por isso me sinto só, sem outro. Minhas feridas só serão curadas
olhar para mim mesmo. Ele quer que eu diálogo com Ele, rezo sem ter respostas quando me aperceber da sua presença ao
seja egocêntrico: “Eu sou... eu faço... eu esperando consegui-las amanhã (quem meu lado. Você pode aliviar suas feridas
decido... eu creio que não estou à altura sabe?). Sem o outro, sou nada, fico cabis- e angústias, olhando-as frontalmente e
(... de fazer aquilo que não me apetece, baixo. Porém, Deus, não cessa nunca de compreendendo-as. Confiá-las a Jesus
claro!)... eu não sinto necessidade de me amar, mesmo se mato o meu irmão. quer dizer: “vende tudo, depois vem e
você”... e o outro, que importância tem? Deus defende Caim (“será vingado sete segue-me” (Mc 10, 21). André vai buscar o
Será que aquilo que o próximo sente por vezes”). Mantém-o sempre aberto à vida, seu irmão e o conduz até Jesus (Jo 1, 42).
mim não conta? convidando-o a levantar a cabeça e a A fraternidade leva a Jesus, eu também
colocar-se em busca do irmão perdido. sou levado, conduzido. Ou encontro uma
Sê fraterno Quantas belas palavras foram ditas?!... pessoa que me conduza ou serei Abel,
Acolhe a vida! As novas realidades Mas, relacionar-se com o outro não é só pouca coisa, sopro, vazio, nada... sem
passam diante da porta da sua casa, alegria, o outro que busco e tento amar sentido. 
você pode decidir a quem deixar entrar. me fere, me desilude. Faz-me ver, como
Abra os olhos e escorrace a serpente, que refletido em um espelho, as minhas Domingos de Oliveira Forte, imc, animador missionário e
feche a porta a ela, não àquilo que há rachaduras. Que faço com minhas feri- formador no Propedêutico IMC, em Jaguarari, BA.

- Jul/Ago 2008 11
Este é
testemunho

o meu lugar
Um chamado, uma resposta, uma missão.
Fotos: Jaime C. Patias

de Inês Regina de Lima Palavra de Jesus na catequese, visitando várias profissões e vocações, inclusive
e curando doentes, enfim, fazendo o bem as sacerdotais, religiosas e missionárias.

N
e consolando as pessoas. Senti dentro Lembro que não pensei duas vezes e
asci no estado do Paraná, de mim uma forte vontade de ser como respondi que queria ser missionária. Os
em Apucarana. Minha família elas. Eu era apenas uma adolescente de coordenadores recolheram as fichas.
se transferiu para Iracema, 12, 13 anos. Aos 15 estava coordenando Mal sabia eu que a minha iria parar nas
um povoado do município de o grupo juvenil da comunidade. mãos das missionárias da Consolata de
Formosa d’Oeste, comunida- Cafelândia. Pouco tempo depois, elas
de da paróquia de Jesuítas,
no mesmo estado. Lá vivi e recebi as
A vida missionária é me escreveram uma carta para saber
se realmente eu estava pensando em
bases da fé cristã e ousaria dizer que
lá também não só conheci, mas senti a
uma aventura que me conhecer melhor a vocação missionária.
Se assim fosse, elas viriam fazer-me
vocação missionária, graças a duas ca-
tequistas que em todos os encontros nos
fascina. Partilhar a fé entre uma visita. Fiquei super emocionada e
lhes respondi que sim. Porém, havia um
convidavam a rezar por aqueles e aquelas
que estavam em lugares difíceis, muitas
raças, línguas, estilos de pequeno problema: os meus pais - eles
não estavam muito de acordo. Diziam:
vezes até perseguidos e perseguidas
por anunciarem o Evangelho de Jesus,
vida diferentes é muito “É, a gente cria os filhos e quando eles
começam a ajudar nos abandonam”.
ajudando os irmãos e irmãs mais pobres
e abandonados. De onde elas tiravam
enriquecedor. Agradeço a Aquilo doía no meu coração. Porém, eu
estava certa que o que eu iria fazer não era
tanta informação, eu não sei. O que sei é
que isto entrou no meu imaginário e de lá
Deus por tantas graças. abandono. Por outro lado, como fazê-los
entender? Continuamente tentavam me
nunca saiu; ficou gravado na minha mente dissuadir, dizendo que aquela era uma
e mais ainda no meu coração. Até que As mediações de Deus idéia passageira. Além disso, naquela
um dia, num dos encontros paroquiais, Num encontrão de jovens, organizado altura, como toda adolescente, eu já
vieram à nossa capela alguns missio- pela paróquia, veio nos falar o padre Jordão tinha o meu pretendente e gostava dele.
nários para falar das missões. Eles nos Pessati, da Consolata. Ele contou-nos Mas, no fundo, o amor que fazia o meu
mostraram um filme sobre o seu trabalho. muitas coisas da vida missionária e no coração bater mais forte, já era Jesus e
Aí a minha imaginação viu a realidade. final do encontro entregou-nos uma ficha a missão. Mesmo se aparentemente a
Foi a primeira vez que eu vi como era a com uma pergunta: “jovem, o que você vida transcorresse normal, todos sabiam
vida de uma missionária anunciando a quer ser no futuro?” A ficha mostrava da minha decisão.

12 Jul/Ago 2008 -
O encontro tão esperado
E o dia chegou. Duas missionárias
da Consolata vieram até nossa casa.
Elas explicaram, a mim e aos meus pais,
como deveria proceder para iniciar a
minha formação religiosa missionária.
Claro, eu entendia a preocupação dos
dois. Vivíamos na roça e a situação
econômica era difícil; de modo que eles
pediram às irmãs seis meses para en-
caminhar as coisas. Estávamos no mês
de julho. Então, todos pusemo-nos a nos
preparar. Eles, a parte referente ao que
eu deveria levar, e eu, como faria para
dizer ao meu namorado, que “outro” me
havia roubado o coração... E, além dis-
so, devia preparar-me para retornar aos
estudos. Nesse período de decisão e já
de acompanhamento vocacional, outro
filme muito me ajudou: “Mãos Vazias”,
Bairro Carapita, Caracas, Venezuela.
que mostrava vários carismas. Aquela
exposição confirmou mais ainda que o aprendido no tempo de catequese, que os Além-fronteiras
Senhor estava mesmo me chamando missionários partem; e eu também parti. Em maio de 1996 parti para a Ve-
para a vida missionária. “Este é o meu Fui à Itália, onde cursei Missiologia na nezuela com seus destacados rincões
lugar”, disse a mim mesma. Faculdade Urbaniana e fiz especialização indígenas. Já são 12 anos que ali estou
em Teologia Pastoral na Faculdade Ca- trabalhando. Oito anos vividos entre os
Deixar tudo miliana. Aproveitei de lindas experiências indígenas das etnias Wayüu, Ye’cuanas
Não foi fácil a separação da família, de férias em Campos Juvenis. Naquela - Sánema e Warao. Atualmente, me en-
do grupo de catequese e dos jovens. Era época, eu não pensava que aquilo já contro em Carapita, uma grande favela
o dia 17 de fevereiro do 1977. Em Cafe- estaria me preparando para o meu futuro na periferia de Caracas, ou seja, um
lândia, cidadezinha perto de Cascavel, campo de missão. Fui transferida para morro onde o amontoado de casas se
encontrei a minha segunda casa e com Portugal, trabalho de Animação Missio- confunde com o amontoado de pes­
as missionárias da Consolata a minha nária Vocacional (AMV). Foram cinco soas em busca de sobrevivência. Junto
família. Logo em seguida fui transferida anos de intensa atividade com jovens, com mais duas irmãs orientamos todo o
para São Paulo, onde terminei meus es- numa maravilhosa ação em conjunto trabalho pastoral da capela dedicada a
tudos e também a minha formação. Vivi com os padres da Consolata e outras Nossa Senhora Consolata. Dois dias por
minha primeira experiência missionária em nove Congregações, todas animadas semana trabalho na secretaria do COMINA
Niquelândia, estado de Goiás. Eu havia pelo mesmo espírito da Missão. - Conselho Missionário Nacional e nos
demais dias da semana continuo na AMV,
em conjunto com os missionários
Josiah K'okal

da Consolata.
No aniversário dos meus 25
anos de Vida Religiosa, vim para o
Brasil, para em Pedreiras, interior
de São Paulo, celebrar. Sinto-me
muito feliz e realizada por estar
colaborando na construção do Rei-
no de Deus. Não digo que a vida
missionária seja fácil; mas, mesmo
assim, é uma aventura que me
fascina. Partilhar a fé entre raças,
línguas, estilos de vidas diferentes
é muito enriquecedor e gratificante.
Agradeço muito a Deus por tanta
graça e sigo em frente procurando
ser fiel ao meu lema, que é o de
São Paulo: “fiz-me tudo para todos,
para ganhar o maior número para
Cristo. Tudo faço pelo Evangelho,
para dele me tornar participante”
(1Cor 9, 19.23). 

Inês Regina de Lima é missionária da Consolata


Crianças do povo Warao, Einikina, Delta da Venezuela. na Venezuela.

- Jul/Ago 2008 13
fé e política

Jaime C. Patias
Qual Legislativo?
O que o Legislativo brasileiro teria para nos oferecer, se
acabássemos com as medidas provisórias?

de Humberto Dantas exemplo, vereadores são especialistas em homenagens, datas

E
comemorativas, batismos de ruas e submissão ao Executivo.
Assim, a descrença é plena e o reconhecimento é mínimo. Para
m outras ocasiões já discutimos a importância fun- completarmos este cenário, temos dois grandes problemas: o
damental do Poder Legislativo. A filosofia política lhe sistema proporcional de escolha afasta o cidadão da percepção
empresta o rótulo de o mais democrático e essencial acerca de quem o representa. Ele não é capaz de entender
dos Poderes, na clássica tripartição que envolve ainda que partidos são maiores que as pessoas, mesmo porque a
o Executivo e o Judiciário. Mas, por questões históricas esquizofrenia da escolha pessoal, somada ao cálculo coletivo,
e distorções aberrantes, costumamos depositar espe- inviabiliza tal condição. E o que fazer? Reforma política? Não
ranças incondicionais em nosso presidente, nos governadores necessariamente, mas precisamos explicar como as “coisas
e prefeitos, deixando de lado nossos legisladores. Essas figuras funcionam”. Em curso de política a pré-candidatos a vereador
são essenciais no funcionamento da democracia. Têm um poder em cidade de porte médio da Grande São Paulo a constatação:
significativamente maior do que a confiança e a atenção que sequer esses cidadãos conhecem o sistema político brasileiro.
a sociedade brasileira lhes concede. Têm, inclusive, um poder Que dirá o que chamamos de eleitor mediano?
infinitamente superior à submissão eterna ao Poder Executivo. A segunda grande crítica diz respeito às atitudes que os
A crítica ao fato de que as medidas provisórias – instrumento legisladores tomam contra a própria imagem. Se o Legislativo,
super legislativo do presidente da República – atrapalham o como dizem os congressistas, é minimizado pelo Executivo, o que
Congresso Nacional é descabida quando analisamos que nas fazem para torná-lo grandioso aos olhos da opinião pública? Em
cidades e nos estados que não possuem tal ferramenta, prefeitos época de campanha municipal os deputados desaparecem dos
e governadores têm o Legislativo nas mãos. Deitam e rolam corredores da “Casa do Povo” em nome de projetos pessoais. E
em suas proposições e “compram”, muitas vezes, deputados em plena festa junina, nosso Legislativo nacional decreta recesso
e vereadores com recursos para emendas paroquiais que os branco em nome da tradição. Que tradição? A mesma que faz
transformam em “mini-executores”. com que pesquisas de credibilidade popular coloquem as Casas
que fazem as leis em pífias posições junto ao povo. Chegamos
Cultura política ao perigo de ouvir afirmações de importantes líderes e formado-
A falta de cultura política no Brasil é responsável por tal res de opinião sobre o aspecto dispensável do Legislativo. Se
resultado. Pois bem. Mas mesmo assim, em nome de uma tal moda pega, voltaremos às trevas do autoritarismo, onde um
sobrevivência teatral, o Senado e a Câmara têm feito de tudo grupo se perpetuará no poder. Àqueles que acreditam que estou
para afirmar que o Congresso se enfraquece diante do abuso exagerando, tratem de abrir os olhos, e fortaleçam um Poder que
das medidas provisórias. A pergunta que fica, nesse caso, é mais parece um cabide de interesses pessoais. 
uma só: o que o Legislativo brasileiro teria para nos oferecer,
se acabássemos com as medidas provisórias? Qual seria sua Humberto Dantas é cientista político, professor do Centro Universitário São Camilo. Co-autor do
reação e seu comportamento se não fosse “provocado” pelo livro Introdução à Política Brasileira, Paulus, 2007.
Executivo? Desconfio que nada seria feito. Nas cidades, por e-mail: hdantas@usp.br

14 Jul/Ago 2008 -
FORMAÇÃO mISSIONÁRIA

Rumo ao CAM 3 - Comla 8

Aumente
o espaço de sua tenda
de Estevão Raschietti
2º Congresso Missionário Nacional: conclusões,

"A
umente o espaço de
sua tenda, ligeiro es-
desafios e perspectivas.
tenda a lona, estique

Gabriel Iiriti
as cordas, finque as
estacas, porque você
vai se estender para a
direita e para a esquerda, seus filhos
herdarão nações e povoarão cidades
desabitadas” (Is 54, 2-3).
Nessas palavras de Isaías podemos
encontrar uma imagem-síntese do 2º
Congresso Missionário Nacional (2º
CMN), realizado em Aparecida de 1
a 4 de maio de 2008. O evento, que
reuniu cerca de 600 pessoas de todo
Brasil, aconteceu no mesmo auditório
que hospedou a V Conferência Geral
do Episcopado Latino-Americano e
Caribenho. Houve uma profunda in-
teração entre as duas convocações:
naquela ocasião os bispos trataram da
missão no continente; desta vez essa
mesma missão estendeu-se para o
Símbolos que acompanharam o 2º CMN.
mundo inteiro.
Os versos do profeta expressam muro em torno da cidade e dentro de nova concepção de si mesma numa
bem essa perspectiva. São palavras seus corações, reforçando de maneira nova relação com a história e com o
cheias de esperança. A libertação do narcisista sua identidade cultural e seus mundo: a consciência de fazer parte
cativeiro faz surgir a expectativa de um laços de aliança com Javé. Também a da história da humanidade como Povo
novo tempo e de uma nova cidade redi- Igreja na América Latina corre o mesmo de Deus.
mida, onde reinam soberanas a justiça, risco diante da “desordem generalizada O texto-base do 3º Congresso
a fraternidade e a paz entre os povos. que se propaga por novas turbulências Americano Missionário - 8º Congresso
O espaço da tenda é demasiadamente sociais e políticas, pela difusão de uma Missionário Latino-Americano (CAM 3
doméstico. É preciso ampliá-lo para que cultura distante e hostil à tradição cristã – Comla 8) a ser realizado em Quito,
se torne espaço aberto a todos. e pela emergência de variadas ofertas Equador, de 12 a 17 de agosto, nos
religiosas que tratam de responder, à sua impeliu a redescobrir o valor funda-
Extensão e profundidade maneira, à sede de Deus que nossos mental dessa perspectiva conciliar: “A
A missão convida a Igreja a buscar povos manifestam” (DA 10). A tentação missão é para o Reino de Deus e para a
profundidade e extensão em sua ação à introversão e a uma ação exclusiva- humanidade inteira e seu futuro. Como
evangelizadora. Antes de mais nada, mente de reconquista, é grande. a Igreja, a missão é convocada dentre
porém, como sugere o poema de Isaías, A missão, porém, convida hoje a toda a humanidade e posta para toda
precisa ouvir o chamado a se estender, percorrer outros caminhos. Os muros ela; está marcada indelevelmente de
a transbordar os limites, a ir ao encontro e as fronteiras impedem a visão e a universalidade....” (189).
do pobre e do outro e não se fechar. ação. O Concílio Vaticano II derrubou Entretemo-nos a refletir sobre esse
Infelizmente, os exilados de Israel não esses muros inaugurando um novo horizonte universal, fazendo memória do
ouviram a voz do profeta e ergueram um tempo no qual a Igreja adquiriu uma legado da Constituição Pastoral Gau-

- Jul/Ago 2008 15
necessariamente e conseqüentemente
Cecília Soares de Paiva

a buscar profundidade em nossa ação


missionária, em nossa vivência de fé e
em nossa identidade cristã. É preciso,
portanto, “fincar fundo as estacas”
para que a tenda se sustente. Em sua
abertura ao mundo, o Concílio Vaticano
II perguntou quem é a Igreja e qual é
sua missão no meio da humanidade.
Daí nasce a Constituição Dogmática
Lumen Gentium, que aprofunda a na-
tureza da comunidade cristã que se
fundamenta no mistério trinitário, que
se expressa como Povo de Deus, que
é constituída de vários ministérios, que
é chamada à santidade e que tem uma
índole escatológica.
Da mesma maneira, a Conferência
de Aparecida, diante dos desafios do
mundo globalizado questiona quem
somos nós, quem são os discípulos
missionários e qual é nossa missão
no mundo. Conseqüentemente, o tema
da conversão antes de ser dirigido aos
outros, é apontado como caminho. O
conteúdo dessa conversão: “recomeçar
a partir de Cristo em todos os âmbitos
Celebração durante o 2º CMN. da missão”.

dium et Spes, procurando ver e sentir o Por isso que o olhar do Congresso quis Re-encantamento pelo
mundo todo com os olhos e o coração orientar especificamente sua atenção Evangelho
cheios de compaixão de Deus. para os desafios mundiais da missão, Essas palavras apontam na reali-
além de nossas fronteiras, “aumentar dade para um re-encantamento pelo
Universalidade versus o espaço de nossa tenda”. Evangelho (DA 139). Redescobrir a
globalização Palavra “como fonte de evangeliza-
Os romeiros missionários que foram Ir além das fronteiras ção” (DA 248), a pessoa de Jesus “tal
a Aparecida, como delegados de suas A escuta dessas realidades abriu como os Evangelhos nos transmitem”,
Igrejas locais, trouxeram as alegrias nossos horizontes, tocou nossos cora- assumindo imediatamente seu segui-
e as esperanças, as tristezas e as ções e nos deu chaves de leituras para mento e participando de sua missão
angústias de suas regiões. Por outro reinterpretar também nossa realidade ao mesmo tempo em que nos vincula
lado, apareceram desafios que apontam contextual. Descobrimos que essas a Ele como amigos e irmãos (cf. DA
como causa direta a perversidade da fronteiras missionárias antes de serem 144). Nesse sentido a Missão, essên-
globalização, num país e num continente “geográficas”, são profundamente hu- cia divina – como evidenciamos há
em que se agravam, de norte a sul, no manas. Fizemos uma singela e intensa cinco anos, em Belo Horizonte, no 1º
campo e na cidade, as condições de experiência de humanidade, de “cidada- Congresso Missionário Nacional –, é a
pobreza e de exclusão, de violência e nia mundial” e de “catolicidade cristã”. verdadeira identidade do cristão e não
de injustiça, de agressão aos povos Entendemos que a missão não pode seu prolongamento.
indígenas e de depredação da natureza, se restringir de forma alguma ao con- Na América Latina, encontramos o
de desrespeito à vida e da crise de seu tinente latino-americano: ergueríamos desdobramento dessa essência mis-
sentido (cf. DA 37). muros exclusivistas que impediriam de sionária na caminhada de nossas
A globalização em si nada tem a anunciar nossa fraternidade, “dando de comunidades a partir da Conferência
ver com o Evangelho. Se de um lado nossa pobreza” (Puebla 368), de nos de Medellín, realizada há 40 anos.
“manifesta a aspiração do gênero hu- converter com o testemunho dos outros Fazer memória desse evento históri-
mano à unidade” (DA 60), por outro, a e de aprender com tantas verdades e co, que mudou os rumos da ação da
ideologia neoliberal que alimenta suas sabedorias. Igreja em todo o continente significa
redes planetárias não gera unidade, mas “Aumente o espaço de sua tenda”: retomar marcas profundas da genuína
processos desumanos de fragmentação. esse é o grande segredo da missiona- identidade da Igreja, o próprio DNA
O anúncio e a perspectiva do Reino riedade. Fincar as estacas de nossa da missionariedade da Igreja latino-
impelem para uma universalidade subs- identidade missionária. Esse apelo a americana, resgatado com fidelida-
tancialmente outra, profundamente hu- “aumentar o espaço da tenda, estenden- de e esperança pela Conferência de
mana, para um “outro mundo possível”. do as lonas e esticando as cordas”, leva Aparecida.

16 Jul/Ago 2008 -
FORMAÇÃO mISSIONÁRIA

Medellín fundamenta com exatidão te “fazer discípulos” (cf. Mt 28,19), e exigida pelo Documento de Aparecida
como há de proceder a partir da Amé- fazer discípulos significa fazer com (cf. DA 365-372), é preciso iniciar pro-
rica Latina “uma missão Ad Gentes que muitos se tornem praticantes da fundos e participativos processos de
como missão para a humanidade”: uma Palavra, caminho de salvação para mudança, que envolvam o maior número
missão a partir dos pobres. Também o todos, e se reconheçam como irmãs de pessoas a partir da base.
sentido da salvação que anunciamos e irmãos, filhos do mesmo Pai, uns
na missão adquire, a partir dos pobres, com os outros. Missão continental
um significado biblicamente original. O Em vários momentos, sobretudo, Na preparação da Conferência
tema da libertação retorna a brilhar de nos mutirões de reflexão, foi retomada de Aparecida, essa perspectiva dava
maneira expressiva no Documento de a dimensão do “encontro pessoal com mostras de que se tornaria o assunto
Aparecida (DA 359). Cristo”, expressão central no Documento mais importante do evento, o que não
de Aparecida. Mas é preciso levar esse aconteceu. Também o 2º CMN não
Desafios e perspectivas encontro a um compromisso concreto. tratou diretamente dessa questão. O
Todo o resgate da reflexão e da Uma das expressões que mais saiu nos projeto de uma missão continental
memória missionária latino-americana, plenários é: “eu vou, eu me ofereço deveria assumir, a princípio, o que já
a partir do Concílio Vaticano II, pelos à missão”. Só o encontro com Jesus foi chamado de “nova evangelização
rumos das Conferências de Medellín Cristo pode não resolver muita coisa entre os cristãos culturais” (cf. RM 33,
até Aparecida, mas também com a con- se esse encontro não leva logo a uma SD 24) e “re-evangelização entre os
tribuição dos Congressos Missionários adesão plena: abraçar a missão. não-praticantes” (RM 33, 37), “diante
Latino-Americanos e Nacionais, torna-se do significativo número de católicos
valiosa ferramenta para apontar desa- Formação da que estão abandonando a Igreja para
fios e perspectivas para a caminhada comunidade missionária entrar em outros grupos religiosos”
de nossas Igrejas. A missão assumida A vida em fraternidade é a dimensão (DA 100 f).
hoje em torno desse eixo fundamental existencial do discipulado missioná- Hoje vivemos em um mundo plural,
de extensão – profundidade (nessa rio. A comunhão de vida estabelecida que exige o respeito ao outro, que é
ordem), na escuta da realidade, no mediante relações fraternas constitui diferente de nós. Somos uma igreja
seguimento de Jesus e no anúncio do a origem, o caminho e a meta da mis- dentre outras igrejas. O cristianismo
Reino, concretiza-se em cinco âmbitos são, pois é o altar da fraternidade o é uma religião entre outras religiões.
de atuação evangelizadora articulados lugar mais apropriado para celebrar a Precisamos urgentemente chegar a um
entre si. paternidade de Deus (cf. Mt 5, 23-24). ato de reconhecimento dos batizados de
Já o 1º CMN evidenciava esse aspecto outras tradições cristãs. Esses batizados
Formação dos discípulos como um salto qualitativo para uma são chamados a se tornar discípulos
missionários missão no século XXI. missionários como nós e junto a nós
O primeiro âmbito da missão indi- O 2º CMN retornou com força essa atuar numa missão ecumênica.
cado por Aparecida na V Conferência exigência. Daí a necessidade de valori- Por esses e outros motivos, a missão
e, insistentemente, no 2º CMN, é a zar as CEBs (cf. RMi 51), a pastoral de por sua natureza não é continental, mas
formação dos discípulos missionários. conjunto, de repensar a paróquia como universal e sem fronteiras. Melhor seria
Esse âmbito diz respeito aos sujeitos “comunidade de comunidades”. Para para todos nós transformar esse plano
e ao mesmo tempo à finalidade da que haja uma paróquia missionária, nos de missão continental em um projeto
missão. Missão é fundamentalmen- moldes de uma “conversão pastoral” de “animação missionária continental”,
dirigido às Igrejas para que convertam
seus corações, abram os horizontes e
Jaime C. Patias

se coloquem em estado permanente


de missão (cf. DA 213).

Missão Ad Gentes
O debate sobre a missão Ad Gen-
tes intensificou-se muito nas últimas
décadas, ao ponto que não é mais
possível referir-se a ela somente em
termos de territórios e de primeiríssima
evangelização (RMi 31-40). Desafios
como o mundo urbano, a juventude, os
fenômenos sociais novos, as migrações,
os areópagos das comunicações, da
cultura, da política, da economia, fa-
zem parte do nosso cotidiano, estão
debaixo dos nossos olhos, estamos
mergulhados neles e dizem respeito
diretamente à missão Ad Gentes: uma
Mutirão sobre migração como caminho para a evangelização. missão no meio dos pobres e dos ou-

- Jul/Ago 2008 17
FORMAÇÃO mISSIONÁRIA

do Vaticano II porque “leva em conta

Geraldo Martins
a situação do pluralismo religioso e
da diáspora crescente da Igreja no
mundo de hoje”. Contudo, percebe-
se que a estrutura centralizadora de
nossas Igrejas não favorece a vivência
dessa dimensão universal da missão.
Esta dimensão sugere também que a
missão da Igreja tem que ir além de
uma missão para a humanidade, para
tornar-se uma missão planetária, para
toda criação. O compromisso com o
meio ambiente e com o cuidado pela
mãe terra, em particular pela Amazônia,
é urgente e prioritário (DA 474).

Conclusão
Os Congressos Missionários Na-
cionais (CMNs) foram realizados até
agora em lugares altamente significa-
tivos para a memória e a caminhada
Missionárias e missionários africanos animam a assembléia do 2º CMN, Aparecida, SP. de nossa Igreja: o primeiro, em Belo
Horizonte, nos remeteu à celebração
tros – especialmente os que não crêem no Brasil é chamada a encontrar moti- do 5º Congresso Missionário Latino-
em Deus –, que nos torna hóspedes vos e perspectivas para se lançar com Americano (Comla 5), de 18 a 23 de
na casa deles. generosidade além de suas fronteiras julho de 1995; o segundo, em Aparecida,
Diante de tantas situações é pre- institucionais e confessionais, numa à V Conferência Geral do Episcopado
ciso, entre outras coisas, reforçar a missão para a humanidade. Latino-Americano. Pensados e reali-
itinerância e presença da Igreja em zados em preparação aos Congressos
situações sócio-geográficas onde o Dimensão universal da Americanos Missionários (CAM) iminen-
Evangelho não é reconhecido, incentivar Missão tes, os CMNs não deixam de traçar um
práticas ecumênicas comuns para que Contudo, o conceito de Ad Gentes percurso próprio e original de reflexão
todos tenham vida (missão comum em no Documento de Aparecida, como na e de compromisso missionário, que re-
presídios, nos hospitais, nas escolas, maioria dos documentos do magistério, percorre em quatro etapas o caminho
na recuperação dos dependentes de está ainda amarrado a uma visão ex- dos discípulos de Emaús: caminho,
drogas e nas missões populares), “fo- clusivamente de “missão universal” (cf. encontro, partilha e envio.
mentar a pastoral da acolhida aos que DA 548). Longe de representar algo de Em Belo Horizonte redescobriu-
chegam à cidade e aos que já vivem ultrapassado, essa visão talvez aponte se o fundamento trinitário da missão.
nela, passando de um passivo esperar para um outro âmbito e um outro com- Em Aparecida, sentiu-se perpassar, a
a um ativo buscar e chegar aos que promisso indeclinável que é a dimensão partir das celebrações e em todos os
estão longe com novas estratégias” (DA universal da missão. Essa dimensão momentos dos trabalhos, a presença
517i), criar equipes missionárias que é estreitamente ligada à missão Ad de Nossa Senhora, mãe dos pobres
se ocupem em conhecer e atender a Gentes, mas é necessário distingui-la e dos povos. Aparecida mostrou um
realidade do migrante, de modo espe- para que não “se torne numa realidade avanço significativo na consciência
cial as novas realidades da mobilidade diluída na missão global de todo o Povo e na prática missionária da Igreja no
humana, articular um trabalho de con- de Deus, ficando desse modo descurada Brasil. É um avanço perceptível volta-
junto entre Pastoral da Comunicação ou esquecida” (RMi 34). do Ad Gentes e além-fronteiras, fruto
e Conselhos Missionários em todos os O 2º CMN deu um destaque espe- de um trabalho intenso de animação
níveis, para criar nos comunicadores cial para essa perspectiva missionária, missionária incentivado pelo vigor e
uma consciência missionária e capa- pois sem ela se desvirtua completa- inspiração do padre Jorge Paleari e do
citar os missionários na comunicação, mente o ser discípulo missionário. A dom Franco Masserdotti, que deram a
favorecer o conhecimento das culturas paixão pelo mundo, própria da vocação vida nessa labuta. É preciso não perder
indígenas e afro-brasileiras, a fim de cristã, se expressa no sentir e no vi- esse tesouro e articular insistentemen-
que haja uma inculturação nas ativi- brar profundamente pela humanidade te e qualitativamente, os Conselhos
dades, na catequese e na pastoral inteira. Hoje essa perspectiva pode Missionários nas paróquias, dioceses
missionária. ser pensada em termos de missão e regiões do Brasil. 
Já o 1º CMN quis reafirmar, com Inter Gentes, uma missão entre povos
muita convicção, com as palavras de e continentes, entre Igrejas locais e Estevão Raschiett é missionário xaveriano, coordenador
João Paulo II, que a missão Ad Gentes Igreja universal, vivida no intercâmbio da Assessoria do 2º CMN. Mestre em Teologia Dogmática,
“ainda hoje representa o maior desafio de dons entre comunidades solidárias. assessor do Comina e membro da equipe do Centro Cultural
para a Igreja” (RM 40). Também a Igreja Essa visão corresponde ao espírito Guido Conforti de Curitiba, PR.

18 Jul/Ago 2008 -
Roteiro de Encontro
Tema do mês: Criatividade para Cristo Criatividade para
Cristo
a) Acolhida
b) Invocação do Espírito Santo
c) Dinâmica
d) Apresentação do tema, É urgente encontrar
questionamentos e debate
e) Compromisso mensal
f ) Oração conclusiva
novas maneiras de
anunciar Jesus.

José Roberto Garcia


de Patrick Gomes Silva

N
uma das últimas viagens que fiz de avião, na habitual
espera até chegar o momento de decolar, aproveitei
para folhear uma revista daquelas que colocam nas
poltronas falando sobre atraentes destinos turísticos,
inalcançáveis para a maioria de nós. Enquanto folheava
a publicação, me chamou a atenção uma expressão
que estava no editorial, que dizia mais ou menos assim: “somos
uma empresa nova, com capacidade criativa típica da juventude
e capaz de olhar para as dificuldades de maneira diferente...”.
Parei naquela expressão e fiquei pensando se não estava ali
uma possível resposta para algo que parece estar faltando em
nossa Igreja: a criatividade. Eu me pergunto se estamos usando Jovens apresentam peça teatral em Monte Santo, BA.
corretamente a imaginação no serviço das pastorais, de modo
especial no campo da juventude. É fácil queixar-se que eles estão difícil de vender, porque muitas vezes é totalmente inútil, mas
se afastando da Igreja; denunciar que a linguagem da Igreja é que a publicidade, de uma forma criativa, nos faz entender que
distante para eles. Porém, será que nós, jovens, estamos sendo é necessário, ou melhor, é indispensável!
criativos nas nossas propostas ou estamos nos acomodando na Ora, nós temos um “produto” de qualidade inestimável, de
lei do mínimo esforço, incapazes de colocar a nossa criatividade necessidade absoluta: Jesus Cristo. Talvez estejamos apre-
a serviço da fé? sentando-o de uma forma pouco atrativa, pouco convincente,
Quando cheguei ao Brasil, alguns anos atrás, uma coisa me usando pouco a nossa criatividade e a nossa imaginação. Os
surpreendeu positivamente nas pessoas: a enorme criatividade primeiros cristãos souberam ultrapassar as dificuldades que
que possuíam. Via gente que desafiada por enormes problemas, enfrentavam, souberam encontrar uma linguagem capaz de se
encontrava soluções criativas. Criatividade é o que não falta ao fazer entender pelo mundo da época, cunharam expressões,
nosso povo. Ora, esta mesma criatividade deveria ser colocada “cristianizaram” festas pagãs etc. Não lhes faltou criatividade
a serviço da evangelização. A coragem de inventar coisas novas, para tornar Jesus conhecido. Não estaríamos falhando nesse
de falar de outro jeito, de trilhar novos caminhos. ponto? Talvez não estejamos colocando a nossa criatividade a
serviço do anúncio de Jesus. Estamos demasiados presos em
O exemplo de Paulo esquemas que em outras épocas deram resultado, mas que
O apóstolo Paulo pode nos servir de exemplo de criatividade hoje parecem não funcionar mais. É urgente encontrar novas
na sua pregação, quando afirma na primeira carta aos coríntios: maneiras de anunciar Jesus. Este é um desafio para nós jovens,
“Fiz-me fraco com os fracos, a fim de ganhar os fracos. Fiz-me nas nossas pastorais. Se quisermos que os jovens do mundo de
tudo para todos, a fim de salvar a todos” (9, 20). Ou seja, Paulo hoje escutem a mensagem de Jesus, precisamos apresentá-la
fez-se tudo para todos, para alcançar simpatia e assim conseguir de forma atraente, usando toda a nossa criatividade. Aqui fica o
anunciar a Boa Nova ao maior número possível de pessoas. Não desafio: usar a nossa imaginação para testemunhar e anunciar
será este um exemplo a imitar? Jesus Cristo! 
Outra questão que sempre me surpreende é a publicidade.
Sei que pode parecer estranho, mas basta pensar na criativi- Patrick Gomes Silva, imc, membro da equipe de formação do Centro Missionário José Allamano,
dade que aí é exercitada; basta pensar naquele produto que é SP.

Para refletir:
1. Você usa de criatividade na sua pastoral? Quais as dificuldades encon-
tradas?
Proposta:
2. O que você acha que é possível fazer para atrair os jovens? Ser Criativo
- Jul/Ago 2008 19
Destaque do mês

O patrimônio
mais importante
Família: nada impele tanto a amar como saber que se é amado.

Jaime C. Patias
Família de peregrinos no Santuário Nacional de Aparecida, SP.

de Joaquim Justino Carreira de e abertura à vida. É uma realidade que no sacramento do Matrimônio significa a
deve ser refletida, aprofundada, ajudada, união entre Cristo e a Igreja e na graça
defendida e principalmente praticada, pois de Cristo encontra purificação, alimento e

Q
todos nascemos pequeninos e precisamos plenitude. Na epístola de São Paulo aos
uando falamos sobre família ser bem cuidados para sobreviver física, Efésios 5, 23-33, lemos: “Deus é família
vêm à mente das pessoas as psicológica, cultural e espiritualmente. e não solidão. Na comunhão da Trindade,
mais diversas e até contradi- nossas famílias têm sua origem, seu modelo
tórias e confusas experiências A revelação cristã perfeito, sua motivação mais bela e o seu
e concepções. Para muitos é Uma família se forma através do amor último destino”.
coisa do passado, para outros conjugal que é a doação recíproca entre um A família é uma realidade primária
é desejo incontido, situação traumatizante homem e uma mulher. Os esposos através da vida pessoal, da vida social, da vida
ou maravilhosa para tantos. O certo é que a do sacramento do Matrimônio prometem espiritual e da vida da Igreja. A realidade
vida familiar é a mais marcante experiência livremente amor mútuo, fiel e exclusivo até familiar passa por muitas dificuldades, pois
da vida humana que deixa repercussões à morte. O amor é fecundo e deve estar é a base e o alvo de muitos interesses
importantíssimas para todos. Ela está aberto à vida e à educação dos filhos. O contraditórios. Como comunidade ela é
fundamentada na comunhão conjugal fiel e amor dos esposos cristãos assemelha-se fruto do que cada um colocar em comum,
indissolúvel, verdadeiro caminho de santida- ao amor da Santíssima Trindade. Assumido porém, acaba sendo o lugar onde todos

20 Jul/Ago 2008 -
querem sugar, oferecendo pouco ou nada A família no
para a sua edificação e estabilidade. Além
das dificuldades pessoais existem outras Documento de Aparecida
que a família enfrenta e que são originadas

A
de causas que ultrapassam a boa von-
tade das pessoas. Existem dificuldades família constitui um dos mais Ações da Pastoral Familiar (DA 437)
econômicas, sociais, religiosas, pessoais, importantes tesouros dos povos
psicológicas, entre outras. E as causas latino-americanos. Ela é o lugar 1. Comprometer de maneira integral e
dos problemas devem ser identificadas, onde a vida humana é concebida, orgânica as pastorais, movimentos e
iluminadas pela Palavra de Deus e pela acolhida, respeitada, escola da fé, lugar de associações matrimoniais e familiares
doutrina da Igreja, dando a elas uma transmissão dos valores humanos, cívicos e – em favor das famílias.
resposta vigorosa através de uma ação éticos. Dos 554 parágrafos do Documento, 2. Promover as famílias evangelizadas
catequética educativa, incisiva e constante 73 abordam a realidade familiar, sua impor- e evangelizadoras.
que incentive o ideal cristão. tância e necessidade de evangelizá-la e 3. Renovar a preparação remota e próxi-
Faz-se necessário e urgente incentivar descobrir as causas geradoras dos males ma para o matrimônio com itinerários
as instituições públicas a promoverem que a afetam e a buscar as soluções que os de fé.
mais a vida matrimonial fundamentada superem. Entre as dificuldades a enfrentar 4. Promover diálogo com os governantes
no matrimônio e proteger a maternidade encontramos a decadência da estrutura em favor de políticas públicas em favor
e o valor insubstituível da mulher no lar. familiar, a violência, as injustiças e a perda da vida, do matrimônio e da família.
Dar condições aos pais de sustentarem a da qualidade de vida. Devemos implantar 5. Promover a educação integral dos
família e incentivarem os casais a viverem e incentivar em todas as paróquias e co- membros da família. Especialmente
o amor mútuo que se prolonga no amor munidades uma Pastoral Familiar vigorosa, os que estão em situações difíceis,
aos filhos. Nada impele tanto a amar firme e conseqüente. incluindo o amor e a sexualidade.
como saber que se é amado. A família 6. Centros diocesanos e paroquiais com
é mais que outra realidade qualquer, o Objetivos da Pastoral Familiar: pastoral que dê atenção integral à
ambiente em que o ser humano é amado 1. Viver, crescer na fé e aperfeiçoar-se família, especialmente os que estão
por si mesmo e aprende a viver “o dom como comunidade de pessoas. em situações difíceis: mães adoles-
sincero de si”. 2. Ser “Santuário da Vida”. centes e solteiras, viúvos e viúvas,
3. Ser “célula primeira e vital na socie- pessoas da terceira idade, crianças
Situações especiais dade”. abandonadas, etc.
É urgente refletir e colocar em prática 4. Ser “Igreja doméstica” e “Igreja Mis- 7. Acompanhamento para a paternidade
o conjunto do ensinamento espiritual, sionária”. e maternidade responsáveis.
moral e social da doutrina católica. A 5. Ser lugar de discernimento vocacional. 8. Estudar as causas das crises fa-
grande maioria dos nossos batizados miliares e encará-las em todos os
não é evangelizada, vive as práticas A família é: fatores.
religiosas quando interessa. 60% das * O ninho onde a vida é acolhida, amada 9. Formar os agentes da Pastoral Familiar:
famílias na América Latina estão em e respeitada desde a concepção até doutrinal, pedagógica e permanente-
“situações especiais”, ou seja, separados, ao seu fim natural. mente.
segunda, terceira uniões (e somos o * A primeira escola das virtudes huma- 10. Acompanhar os casais em situação ir-
continente mais católico). A mentalida- nas, sociais e cristãs. regular, com prudência, amor compas-
de atual forma o avesso das verdades * É um laboratório do amor, portal da sivo e cuidado, não podem participar
básicas e essenciais da vida humana, fé, lugar das vocações e carismas. da comunhão. Estimular mediações
da sexualidade (egocêntrica), dos filhos * É pilar da Evangelização e lugar da interdisciplinares e preparar bem os
(satisfação pessoal, patrimonial), da união contínua transmissão da fé. agentes.
matrimonial (provisória), do desrespeito * É comunhão de pessoas em que reina 11. Orientar as situações de nulidade e
à vida (cultura de morte). o amor gratuito, desinteressado e gene- que os Tribunais sejam acessíveis,
Dúvidas ou erros no campo matrimo- roso – lugar onde se aprende a amar. atuação rápida e correta.
nial e familiar implicam grave obscurecer- * A família tem uma função e ministério 12. Promover as adoções dos meninos
se da verdade. Afirmou o papa João Paulo que lhe é próprio, como família cristã. e meninas órfãos.
II, aos bispos do Brasil na visita ad limina * A Igreja e o Estado se sustentam na 13. Casas de acolhida para meninas e
de 2002: “quando na família desaparecem família. adolescentes grávidas, mães solteiras,
o amor, a fidelidade ou a generosidade * Afamília tem como identidade ser escola lares incompletos.
perante os filhos, ela desfigura-se e as de amor, comunhão estável de amor 14. A Palavra de Deus nos pede atenção
conseqüências desastrosas não tardam entre o homem e a mulher, fundada especial para viúvas nas situações de
a aparecer”. Para os adultos, a solidão. no matrimônio e aberta à vida. desamparo e solidão.
Para os filhos, o desamparo, e para todos
a vida torna-se território inóspito. Falo
agora às forças da pastoral diocesana:
nunca deixem de atender os casais em e da família. Não tenhamos medo dos o próximo. Como discípulos missionários
dificuldade, animando-os para que sejam riscos. Não existe uma situação difícil devemos trabalhar apara que a família
fiéis à sua vocação no serviço à vida e à que não possa ser enfrentada de modo assuma o seu ser e sua missão na so-
plena humanidade do homem e da mu- adequado, quando se cultiva uma vida ciedade e na Igreja. 
lher, fundamentos da civilização do amor. cristã coerente. Maior que o mal que opera
Sejamos testemunhas e executores do no mundo, é a eficácia do Sacramento Joaquim Justino Carreira é bispo axiliar de São Paulo, Região
projeto de Deus em prol da vida humana da Reconciliação, caminho para Deus e Episcopal Santana.

- Jul/Ago 2008 21
Promover
a Vida

Jaime C. Patias
O
Instituto Missões Consolata,
Projetos Sociais - IMC - MC

fundado em 1901, pelo Bem-


aventurado José Allamano, em
Turim, Itália, tem por finalidade
a Evangelização e promoção
humana através de projetos
sociais. Padres, irmãos e leigos missionários
trabalham em 22 países de quatro continentes,
privilegiando situações humanas menos favore-
cidas. No Brasil, desenvolvem projetos com a
colaboração de amigos e benfeitores nos estados
de São Paulo, Paraná, Bahia, Amazonas, Roraima Crianças da Creche Jd. Peri.
e Distrito Federal.

José Roberto Garcia


Creche Padre Bernardo Gora
Obra social do Instituto Missões Consolata,
localizada no bairro Jardim Peri, Zona Norte de
São Paulo atende 100 crianças de 3 a 5 anos. A
Paróquia Nossa Senhora da Penha administrada
pelos missionários, no mesmo bairro, mantém
outras três creches que atendem juntas cerca de
350 crianças, contribuindo para a sua educação
e formação.

Água para o semi-árido


do Nordeste
Os projetos de captação, canalização e distri-
buição da água para as populações do semi-árido
na Bahia realizam o sonho de milhares de famílias,
nos municípios de Jaguarari e Monte Santo. O
objetivo é solucionar o histórico problema da
falta de água na região através de poços, cons- Cisterna em Muquem, Monte Santo, BA.

Patrick Silva
trução de reservatórios, cisternas e canalização
da água até as casas. Três mil famílias já foram
beneficiadas, porém, outras dez mil ainda não
foram atendidas.

Casas de Apoio
aos portadores do vírus HIV
Quando o vírus HIV começou a se difundir
entre os brasileiros, em 1990 surgiu em São
Paulo o Lar Betania, uma das primeiras casas de
apoio para as pessoas portadoras. Hoje as Obras
Sociais Padre Costanzo Dalbesio da Paróquia
Nossa Senhora de Fátima, no bairro do Imirim,
São Paulo, conta com outras três casas abrigando
20 pessoas entre crianças, adolescentes e jovens.
Cada unidade tem a capacidade para acolher 12
pessoas. Essa obra é uma contribuição para re-
inserir os moradores, com todos os seus direitos
e deveres, na sociedade. Lar Betania.

22 Jul/Ago 2008 -
Tráfico de pessoas:
uma afronta aos direitos humanos!

Arquivo Verbitas
Padre Arlindo entrevista irmã Bernadete Sangma.

de Arlindo Pereira Dias Entre os casos citados pela conferencista está o de um


senhor chinês de nome Ngun Chai que vendeu a sua filha de
13 anos para a prostituição, ao preço de uma televisão e ain-

C
da manifestou sentir pena de não a ter vendido por um preço
erca de 50 pessoas de 20 diferentes nacionalidades melhor. Outro caso é o da menina Berta, originária da vila de
participaram no dia 17 de junho de uma conferên- Sapele, um estado que faz fronteira com Edo, na Nigéria. Um
cia sobre o tráfico de pessoas no mundo, na Casa conhecido contatou-a perguntando-lhe se queria trabalhar com
Geral dos Missionários do Verbo Divino, em Roma. a sua irmã num salão de beleza na Alemanha. Em vez disso,
Em 2006, o Capítulo Geral dos Verbitas, que reuniu Berta encontrou-se na Itália onde lhe deram roupas provocantes
160 pessoas, assumiu como resolução “a ampliação e a obrigaram a ir para a estrada.
das informações sobre o tráfico de pessoas e a busca de co- Quando falamos das estatísticas, a constatação se torna
laboração com outros organismos para liberar o mundo deste ainda mais escandalosa. Todos os anos, entre 800 mil e dois
terrível flagelo”. A conferencista foi a indiana e irmã salesiana milhões de pessoas são apanhadas no círculo do tráfico. A
Bernadete Sangma. Desde 1999 ela coordena o trabalho de maior parte das vítimas vem da Ásia. Em um ano, cerca de 225
promoção da mulher a partir de seu Instituto. A congregação mil mulheres são traficadas do Sudeste da Ásia e cerca de 150
conta com comunidades de assistência às mulheres vítimas mil da Ásia do Sul. A ex-União Soviética é já considerada uma
do tráfico na Itália e na Albânia. A religiosa define como missão das maiores fontes de tráfico: as mulheres envolvidas para a
do grupo “espalhar informação para que o conhecimento gere exploração sexual são cerca de 100 mil. Todos os anos entre
medidas de prevenção”. Trata-se de um projeto conjunto entre 200 mil e 500 mil mulheres são traficadas da América Latina para
a USG e UISG (União de Superioras e Superiores Gerais) e a os Estados Unidos e a Europa. Milan Bubak, coordenador da
OIM – Organização Internacional para a Migração. Dimensão de Justiça e Paz dos Verbitas comenta que um dos
O filipino Antonio Pernia, Superior-Geral dos Verbitas, comentou motivos da propagação deste flagelo é a “falta de informação e
que até o momento o grupo de religiosas está envolvido nesta a ingenuidade das pessoas que crêem em falsas promessas”.
missão, mas não conta com colaboração da parte masculina. Ele recorda ainda que o tráfico “não está relacionado apenas
Para ele, a importância da conferência está na oportunidade de ao comércio sexual, mas também a outros tipos de abuso,
“um problema tão grande ser conhecido pelas comunidades, como escravidão no trabalho e até mesmo o assassinato para
especialmente do ramo masculino. Embora seja uma respon- comercialização de órgãos”. 
sabilidade de todos, a questão sensibiliza mais as mulheres e
menos os homens. Por isso existe a necessidade que sejamos Arlindo Pereira Dias é missionário do Verbo Divino. Membro do Conselho Geral da Congregação,
mais informados do problema”, concluiu. vive em Roma desde setembro de 2006.

- Jul/Ago 2008 23
Ei! Eu 'tô' falando com você!
“Rompe as barreiras da divisão, [...] para a grande e feliz caminhada”. Zé Vicente
Infância
Missionária
de Roseane de Araújo Silva

Q
uando a gente pensa no diálogo entre duas ou mais
pessoas, imagina facilmente uma troca de idéias, um
“bate-boca”, mas nem sempre é assim. No dia-a-dia
de algumas crianças e adolescentes não é fácil manter
um diálogo, por uma simples razão: nasceram surdas.
E como é possível manter a comunicação entre pes-
soas com linguagens diferentes? Como ocorre uma
conversa entre uma pessoa surda e outra ouvinte? Se você não
faz idéia, muitas outras pessoas também não entendem e acabam
reforçando o preconceito e o distanciamento. Não queremos dizer
aqui que não seja possível esse diálogo, pelo contrário, ele acontece
através da linguagem de sinais. A criança ou adolescente surda

Sugestão para o grupo


Acolhida (preparar o ambiente com os símbolos missionários
e ilustrações com linguagem de sinais).
D E U S
Motivação (objetivo): refletir com o grupo a realidade das aprende no convívio com seus familiares ou com outros surdos
crianças surdas, sua forma de comunicação e como são evan- esta linguagem, a língua materna dos surdos. Em nosso país,
gelizadas em nossa paróquia. ela é conhecida como LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais, isso
Oração espontânea (rezar lembrando os padroeiros da IM). porque em cada país existe uma língua de sinais difundida entre
Partilha dos compromissos semanais.
surdos e ouvintes.
Leitura da Palavra de Deus (sugestões para os quatro en-
contros):
Segundo o último censo do IBGE, no ano de 2000, existiam no
Realidade Missionária: Marcos 1, 16-20. Jesus convida cada Brasil mais de cinco milhões de pessoas com problemas relacio-
um de nós a se comprometer, chamando-nos pelo nosso próprio nados à surdez. Destas, cerca de 520 mil têm entre 0 e 17 anos,
nome. O compromisso com Jesus nos leva a convidar outras ou seja, são crianças e adolescentes surdos. Nos últimos anos,
crianças e adolescentes a se tornarem amigos Dele também. dados oficiais pontuam um êxito da quase totalidade do Ensino
Existe em nossa paróquia algum trabalho com crianças e ado- Fundamental, porém, de acordo com o Censo Escolar do MEC,
lescentes surdos? Organizar com o grupo um cartaz com dados
apenas 3,6% dos surdos ou deficientes auditivos matriculados
sobre a cultura surda e a Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS.
Expor no mural da comunidade ou da paróquia. nas escolas brasileiras concluem o Ensino Médio. Estes dados
Espiritualidade Missionária: Marcos 9, 33-37. Em uma socie- só reforçam a necessidade de um olhar diferenciado para estas
dade que prega a competição e o consumo, onde o ter é mais pessoas desde a mais tenra idade, e políticas públicas que asse-
valorizado que o ser, somos convidados por Jesus a ser aqueles gurem o acesso e a permanência nos bancos escolares.
que servem as crianças e adolescentes, tornando-as amigas
dEle. O próprio Jesus nos afirma quem quer ser o primeiro, Um sinal de graça!
deverá ser o último, sendo aquele que serve a todos.
Deus Pai nos tornou missionários e nos desafia a teste-
Compromisso missionário: Marcos 10, 13-16. O Reino de Deus
pertence a todos e por essa razão defendemos a vida, como munhar esse chamado diariamente, principalmente junto às
nos ensinou Jesus. Nosso sacrifício desse mês será feito pelas nossas crianças e adolescentes. Jesus nos pede também que
crianças que sofrem com a guerra em seus países, perdendo cuidemos para que o nosso testemunho seja sempre verda-
suas famílias e sofrendo mutilações graves e irreversíveis. deiro, reforçado com as nossas obras (Jo 5, 36-39). Algumas
Vida de Grupo: Marcos 6, 27-32. Jesus nos convida a amar paróquias brasileiras desenvolvem um trabalho com as pessoas
incondicionalmente todas as pessoas, sejam elas amigas surdas, sejam elas crianças, adolescentes ou adultos. Falo
ou não, com gratuidade. Na sociedade em que vivemos, os
aqui da Pastoral dos Surdos. Esta Pastoral atua na catequese,
relacionamentos nos exigem troca de interesses, poder e
prestígio. O Evangelho nos convida a superar esta forma, por ensina a linguagem de sinais para interpretar as celebrações,
relações afetivas, à semelhança de Jesus. Organizar uma visita além do trabalho social voltado aos surdos de um modo geral.
a uma escola que atenda crianças surdas (ou uma paróquia É um direito das pessoas surdas, por essa razão convidamos
com Pastoral dos Surdos) conversar com seus professores, aos missionários e missionárias da IAM a conhecerem esta
buscando informações sobre LIBRAS, a primeira língua dos linguagem e levarem esta dimensão missionária a todos, sem
surdos (Informar-se, ainda, da existência de grupos de IAM preconceitos e sem barreiras, sendo sinal do amor generoso
com crianças ou adolescentes surdos).
de Deus em nossas comunidades e paróquias. De todas as
Momento de agradecimento (fazer preces de agradecimento
a partir do tema e da reflexão do Evangelho). crianças do mundo – sempre amigas! 
Canto e despedida.
Roseane de Araújo Silva é missionária leiga e pedagoga da Rede Pública do Paraná.

24 Jul/Ago 2008 -
- Jul/Ago 2008 25
Fé e Política
Entrevista

na prática ecumênica
"Desde cedo aprendi
que as barreiras que nos
separam não alcançam o
céu". A trajetória do pastor
ecumênico.
políticos de países da América Latina,
especialmente do Brasil. Hoje é pároco
na Paróquia Luterana Bom Samaritano,
bairro de Ipanema, zona sul do Rio de
Janeiro, uma comunidade inicialmente de
descendentes alemães. Trabalha também,
com as comunidades do Pavão, Pavãozi-
nho e Cantagalo. Sua Paróquia abriga há
29 anos o Centro Social Bom Samaritano
que atende cerca de 100 crianças e suas
famílias.

Pastor Noronha, de onde vem essa


sua sensibilidade social e ecumênica?
Venho duma família presbiteriana
nordestina e minha casa sempre cultivou
uma comunhão com irmãos católicos. Pedi
posteriormente transferência para a Igreja
Luterana. No tempo de seminário, em Re-
cife conheci Marcelo Barros, militante do
movimento Ação Justiça e Paz onde dom
Hélder Câmara era pioneiro. Na década
de 60, dom Hélder criou o ITER – Instituto
de Teologia do Recife que formou grandes
lideranças cristãs preocupadas com a política.
Na minha participação ecumênica sempre
procurei vincular a fé e a política. Militei como
Texto e fotos de Jaime Carlos Patias Católica do Rio de Janeiro. Professor de simpatizante do movimento Ação Popular.

S
Ciência Política e Teoria Geral do Estado, O nosso envolvimento político teve como
orriso manso, barba grisalha e Filosofia e Ética. Fez estudos em Genebra, conseqüência a perseguição. Alguns foram
olhar sereno. Enquanto provi- Suíça, no Centro Ecumênico do Conse- presos e outros tiveram de deixar o país. Eu
dencio o frango assado, no outro lho Mundial de Igrejas, onde foi aluno de tive meu exílio por três anos. Primeiramente
lado da rua ele já vai pedindo a teólogos como Yves Congar e Jürgen na Suíça e depois em Portugal. De volta
farinha e uma geladinha. Mesa Moltmann. Na condição de exilado, em do exílio vim morar no Rio de Janeiro. Na
posta à sombra da árvore que 1975 da Suíça transfere-se para Portugal, caminhada ecumênica conheci o bispo dom
abriga a freguesia do bar numa esquina logo após a queda da ditadura (1974). Lá Adriano Hipólito e diversos padres da Baixada
em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense. visita o Centro Ecumênico para exilados Fluminense. Conheci também dom Waldyr
O almoço é com o pastor luterano Mo- de Angola, Moçambique, Guiné Bissau e Calheiro, bispo de Volta Redonda que, em
zart Noronha, bacharelado em Teologia e Cabo Verde, que fugiram das guerras pela Rezende, cedeu a Igreja Nossa Senhora
Direito, licenciado em Filosofia e mestre independência daqueles países africanos. do Rosário, para realização de cultos da
em Teologia pela Pontifícia Universidade Ao mesmo tempo, convivia com exilados Igreja Luterana. A Igreja Luterana, desde a

26 Jul/Ago 2008 -
"Como Povo de Deus
devemos ficar atentos,
porque o projeto capitalista
neoliberal é diabólico".

Mozart Noronha com Leonardo Boff durante o 6º Encontro Nacional de Fé e Política, Nova Iguaçu, RJ.

sua origem, tem uma vocação ecumênica. Durante os anos da ditadura, ca- pessoas que saibam ler a realidade em
Matinho Lutero (1483-1546), nunca quis sair tólicos e luteranos reagiram de forma nível de graduação e pós-graduação aberta
da Igreja Católica. Era contrário à formação diferente? para todos.
de uma nova Igreja e não queria que esta Durante a ditadura, nas igrejas his-
tivesse o seu nome. Na verdade ele idea- tóricas, foi surgindo uma nova forma de Qual a sua avaliação do Movimento
lizava um grande movimento reformador ecumenismo. Um ecumenismo de base. Fé e Política?
dentro da Igreja Católica. Diversos pastores, padres e leigos passaram Reunir em um fim de semana cerca
a se encontrar e discutir sobre os pontos de 5.000 pessoas, de todos os estados
A Igreja Evangélica Luterana no críticos que o país atravessava. Nascia um do Brasil, parece um milagre. É isto é o
Brasil está mais ligada aos imigrantes ecumenismo voltado para a defesa dos que vimos no 6º Encontro realizado em
alemães? Direitos Humanos. Um ecumenismo sem Nova Iguaçu, em novembro de 2007. É
No início de sua história, a Igreja proselitismo e com testemunho profético. notória a dimensão celebrativa da fé e o
Evangélica de Confissão Luterana no seu desdobramento na vida política. É um
Brasil - IECLB foi formada pelos imigrantes Nas nossas Igrejas temos dificulda- movimento que articula a dimensão da
alemães. Eram pessoas que buscavam des para desenvolver uma catequese espiritualidade com a vida política. É um
melhores condições de vida em terras que não seja somente para receber movimento humanista, pluralista, apartidário
brasileiras. Era uma Igreja bastante conser- benefícios, mas que inspire a vivência e, principalmente, ecumênico. Embora a
vadora e de colônia. No tempo de Getúlio da fé. Como a IECLB lida com isso? maioria seja católica eu me sinto muito
Vargas, (1937- 45) pastores alemães foram Assim como a Igreja Católica, a Igreja acolhido. É o povo de Deus unido para
perseguidos e expulsos do país. Também Luterana não é um todo monolítico. Existem denunciar o projeto capitalista neoliberal.
os imigrantes italianos sofreram repressão. divergências no seu interior. Uma maioria Devemos ficar atentos, porque esse projeto
Até que, vai surgindo dentro do protestan- não participa da vida das comunidades. é diabólico: num momento aparece disfar-
tismo brasileiro, uma nova experiência de É necessário o desenvolvimento de uma çado de democracia, noutro age através
fé. O primeiro movimento foi a Conferência catequese visando um projeto de evan- de ditaduras ferrenhas. O movimento Fé
do Nordeste, em 1962, que teve como gelização, no sentido de anunciar a Boa e Política vai lançando as sementes na
tema “Cristo e o processo revolucionário Nova, numa visão ecumênica. Tendo, em vinha do Senhor . A colheita virá no tempo
brasileiro”. Embora a Igreja Católica não primeiro lugar, uma preocupação com as certo. Dizia Martinho Lutero: “Ora como se
estivesse presente, alguns líderes políticos necessidades básicas do ser humano tudo dependesse de Deus e labora como
e intelectuais católicos participaram. Não em sua totalidade. Nós temos uma Es- se tudo dependesse de ti”. 
havia muito espaço para o ecumenismo, cola Superior de Teologia - EST em São
até que chegou o Concílio Vaticano II Leopoldo, RS, que tem por objetivo não Jaime Carlos Patias, imc, é diretor da revista Missões
(1962-1965) e as portas se abrem. somente formar pastores, mas teólogos, e mestre em Comunicação.

- Jul/Ago 2008 27
Raposa Serra do Sol
Atualidade

Um lugar de direito
Arquivo CIR

O caso Raposa Serra do Sol


A diferença está, em primeiro lugar,
em aceitar a interpelação ética a que
me referi, sem tentar lhe dar respostas
banais e evasivas. A falsa polêmica em
torno da demarcação da reserva indíge-
na Raposa Serra do Sol, em Roraima,
resume a radicalidade exigida por essa
interpelação.
Como ministra do Meio Ambiente en-
frentei, ao lado dos Ministérios da Justiça e
do Desenvolvimento Agrário, uma si­tuação
no Pará em que um grande grileiro apossou-
se de cinco milhões de hectares na Terra
do Meio. Conseguimos criar nessa área a
maior estação ecológica do país, com três
milhões e 800 mil hectares. Vi a Polícia
Federal implodir 86 pistas clandestinas
Festa da homologação, 2005.
usadas para tráfico de drogas e roubo
de madeira. E nunca ninguém disse que
A decisão do Superior Tribunal Federal sobre a reserva aquele grileiro era ameaça à soberania
nacional. Mas os 18 mil índios de Rorai-
indígena em Roraima pode condicionar o futuro do país. ma são assim considerados por alguns
e muitas vezes tratados como se fossem
mais estrangeiros do que os estrangeiros,
Marina Silva Sobre o futuro, temos a chance de projetá- porque sequer são reconhecidos como

F
lo. Isso implica dizer o que vamos fazer seres humanos em pé de igualdade com
az parte desse espaço uma inter- com nossa biodiversidade, porque temos os demais.
pelação ética da qual não podem 20% das espécies vivas do planeta; com Um exemplo: o mundo ocidental tem
fugir nem os países desenvolvidos nossos recursos hídricos, porque temos em Jerusalém um ponto de referência do
nem os em desenvolvimento, 11% da água doce disponível, 80% dos sagrado para inúmeras religiões de matriz
entre eles o Brasil. A Amazônia, quais na Amazônia; com a maior floresta judaico-cristã. Ficaríamos chocados se
com sua incomparável floresta tro- tropical e com a maior diversidade cultural alguém quisesse destruí-la e a defendería-
pical, sua biodiversidade e sua diversidade do mundo. O Brasil ainda tem cerca de mos como algo que é constituinte essencial
social, talvez seja o maior símbolo dessa 220 povos indígenas que falam mais de de nossa cosmovisão. No entanto, em
interpelação. Para os países desenvolvi- 200 línguas. relação à cosmovisão dos índios, acha-se
dos, a pergunta que se faz é sobre seu Essa é uma poderosa interpelação pouco relevante considerarem o Monte
passado. Destruíram sua biodiversidade, porque permite escolhas e, portanto, exige Roraima o lugar da origem do mundo.
arrasaram os povos originários dos lugares que estejamos à altura da oportunidade Pode parecer para quem acompanha
conquistados e provocaram, a partir da de optar. A discussão é de caráter civili- o caso da Raposa Serra do Sol, que
revolução industrial, alterações ambientais zatório, não se esgota em circunstâncias a criação da reserva indígena foi um
tão extensas que levaram à atual crise ou polêmicas pontuais. O Brasil é uma procedimento autoritário e injusto, que
ambiental global, em cujo centro estão potência ambiental e humana e não pode desconsiderou direitos dos não-índios.
as mudanças climáticas. se conformar em querer, séculos depois, Não é verdade. A legislação brasileira
Embora pareça paradoxal, nossa a mesma trajetória que fez dos países define detalhadamente critérios para de-
situação é bem melhor porque somos desenvolvidos, ricos, porém com graves marcação. O contraditório é garantido por
questionados sobre o futuro. Quando desequilíbrios ambientais. Nossa meta decreto, exigindo que sejam anexados,
somos perguntados sobre o passado, deve ser: desenvolvidos, porém por meio ouvidos e examinados os argumentos
estamos diante do quase irremediável. de caminhos diferentes. contrários. Manifestam-se proprietários

28 Jul/Ago 2008 -
de terra, grileiros, associações, sindicatos autuou a fazenda Depósito, do prefeito de território brasileiro, como diziam à época
de trabalhadores ou patronais, prefeituras, Pacaraima, Paulo César Quartiero, por ter os opositores da homologação.
órgãos públicos estaduais e federais, aterrado duas lagoas e nascentes, além Estamos perto da decisão do Supremo
apresentando tudo o que considerem de margens de rios, e por ter desmatado Tribunal Federal sobre a demarcação
relevante. Por isso, a demarcação física áreas destinadas à preservação perma- contínua de Raposa Serra do Sol. Será
das áreas leva, em geral, muitos anos, o nente e à reserva natural legal. um grande desafio para a instituição e para
que elimina quaisquer possibilidades de Em 1992, quando foi homologada a todo o país, num momento que o mestre
açodamento. reserva Yanomami, seis vezes maior do Boaventura de Souza Santos chama de
Roraima tem cerca de 400 mil habi- que a Raposa Serra do Sol, houve muito bifurcação histórica. Diz ele que as decisões
tantes num território de cerca de 225 mil estardalhaço, alimentado pela acusação de do STF condicionarão decisivamente o
quilômetros quadrados. A população rural que isso representaria ameaça à soberania futuro do país, para o bem ou para o mal.
não chega a 90 mil pessoas, das quais 46 nacional e grave risco de internacionali- Que esta decisão seja parte da resposta
mil são indígenas, ou seja, 52% do total, zação da Amazônia. Passados 16 anos, que devemos dar à interpelação ética
ocupando 47% das terras. Raposa Serra a reserva abriga 15 mil índios em área sobre nosso futuro.
do Sol ocupa 7,7% da área do Estado e de fronteira e não se tem notícia de que
abriga 19 mil índios. Por outro lado, seis tenham causado qualquer dano à nossa Marina Silva é professora de História, senadora pelo PT do
rizicultores ocupam 14 mil hectares em soberania e muito menos que pretendam Acre e ex-ministra do Meio Ambiente. Texto originalmente
terras da União. Em maio último, o Ibama ser uma "nação indígena" separada do publicado no Terra Magazine.

Resistir até o último índio!

Júlio César Caldeira


A
firmações como “as terras in-
dígenas representam um ris-
co à soberania nacional”, “é
muita terra para pouco índio”,
ou ainda, “os povos indígenas
são um entrave para o desen-
volvimento”, vindas de vários segmentos
da sociedade, revelam o grau de desinfor-
mação sobre a questão indígena. Esta foi
a tônica de dois Seminários promovidos
por organismos da Igreja Católica, com o Auditório das Paulinas durante Seminário sobre Raposa Serra do Sol.
apoio da arquidiocese de São Paulo, CIMI
(Conselho Indigenista Missionário), CRB padre Paulo Suess, assessor do Conselho que o Supremo Tribunal Federal suspen-
(Conferência dos Religiosos do Brasil), Indigenista Missionário – CIMI. desse a sua saída. Os índios possuem
COMIRE Sul 1 (Conselho Missionário Re- No primeiro Seminário, dom Odilo hoje cerca de 50.000 cabeças de gado
gional), Comissão Justiça e Paz e revista disse que a Igreja fez uma opção pelos em todo o Estado de Roraima. Eles têm
Missões. O primeiro evento realizou-se povos indígenas e continua apoiando sua responsabilidade e querem o direito de
no dia 29 de maio, com o tema “Terra causa. Padre Lírio Girardi apresentou um viver na terra que lhes pertence. São ha-
Livre: Raposa Serra do Sol – Resistir até histórico da atuação da Igreja junto aos bitantes ancestrais e totalizam hoje 19.078
o último índio”, no auditório das Irmãs indígenas de Roraima, já que morou e pessoas, em 194 comunidades dos povos
Paulinas, no bairro de Vila Mariana em trabalhou naquela região durante 27 anos, Macuxi, Taurepang, Patamona, Ingaricó e
São Paulo e contou com a participação e a doutora Lúcia Helena apresentou um Wapichana. Acreditam na lei, no Estado e
de mais de 150 pessoas. O Seminário panorama da violência praticada no Brasil no governo, com uma convicção que faria
contou com a presença de Dionito José contra os povos indígenas, destacando qualquer um dos presentes ao Seminário
de Souza, coordenador do Conselho Indí- que a resistência na RSS é legítima e enrubescer de vergonha. Dionito afirmou
gena de Roraima – CIR, dom Odilo Pedro deve continuar sendo pautada pela área que os índios sabem trabalhar, têm escolas e
Scherer, cardeal arcebispo de São Paulo, contínua. Dionito era a voz mais esperada estão organizados. São originários da terra,
padre Lírio Girardi, superior provincial para ser ouvida. Veio a São Paulo apre- produzem milho, mandioca, arroz, feijão.
do Instituto Missões Consolata e Lúcia sentar o outro lado da questão da invasão Não vão morrer de fome se os arrozeiros
Helena Rangel, antropóloga, assessora da RSS, já que a grande mídia, alinhada saírem da área. Não serão obrigados a
do CIMI, e professora da Pontifícia Uni- com os poderosos, descreve os indígenas sair da terra, já que esta lhes pertence. A
versidade Católica (PUC-SP). O segundo como “vilões” da história. Com relação à reivindicação dos povos indígenas expressa
evento aconteceu no Instituto São Paulo RSS, o coordenador do CIR lembrou que na fala de Dionito é apenas uma: “assim
de Estudos Superiores – ITESP, com o em 15 de abril de 2005, a homologação como vocês querem respeito, nós também
tema: “Raposa Serra do Sol: um desafio assinada pelo presidente Lula foi em queremos respeito e igualdade – somos
à Teologia”. Com exceção de dom Odilo, área contínua. A maioria dos invasores todos brasileiros!” 
os demais participaram do Seminário no foi retirada, permanecendo apenas 6, que
ITESP que teve ainda a presença do teólogo provocaram atos de violência fazendo com Maria Emerenciana Raia, editora da revista Missões.

- Jul/Ago 2008 29
Brasília – DF havia assinado um despacho encaminhando o projeto
A Missão Continental no Brasil no dia 18 de abril. Lula assinou o despacho número
“Nós queremos ouvir os regionais, as dioceses, 226 durante uma reunião com lideranças indígenas,
sobre as experiências missionárias que se fazem no um dia depois do encerramento do Acampamento Terra
país”, disse o bispo de Ponta Grossa e presidente da Livre 2008. Os povos indígenas do país reivindicam a
Comissão Episcopal para a Missão Continental no criação do Conselho Nacional de Política Indigenista
Brasil, dom Sérgio Arthur Braschi, ao falar sobre os com caráter deliberativo, pois, nesta instância, eles
trabalhos a serem desenvolvidos pela Comissão no poderão discutir e incidir sobre a política indigenista
decorrer dos próximos anos. A Comissão se reuniu, brasileira. O projeto de lei que propõe criar o Conselho
pela segunda vez, na sede da Conferência Nacional foi elaborado pelos integrantes da Comissão Nacional
dos Bispos do Brasil (CNBB), em Brasília, no dia 3 de Política Indigenista (CNPI).
de junho. O primeiro encontro ocorreu durante a 46ª
Assembléia dos bispos, em Itaici, em abril. “Queremos CNBB intensifica trabalho de combate
caminhar para uma profunda conversão pastoral, no à corrupção eleitoral
sentido de uma Igreja mais presente no mundo, que “É chegado o momento de começarmos com toda
vai ao encontro das pessoas afastadas, necessitadas, ênfase a coleta das assinaturas. Seria fundamental
carentes. Estamos procurando ver com mais clareza que, em cada paróquia ou comunidade houvesse um
como prestar este serviço às dioceses e regionais local claro e amplamente divulgado para essa tarefa”.
do Brasil”, explicou dom Sérgio. Entre as propostas O pedido é do secretário-geral da CNBB, dom Dimas
VOLTA AO BRASIL

definidas neste segundo encontro da Comissão está Lara Barbosa, que solicitou a todos os bispos o efeti-
a publicação pelas Edições CNBB, em português, do vo apoio no trabalho de coleta das assinaturas para
livro A Missão Continental para uma Igreja Missionária, aprovação do novo projeto de lei de iniciativa popular
elaborado pelo Conselho Episcopal Latino-Americano lançado pelo Movimento de Combate à Corrupção
e Caribenho. Conforme dom Sérgio, a Comissão irá Eleitoral – MCCE, durante a Assembléia da CNBB
elaborar e publicar também um subsídio sobre a Mis- no mês de abril. O projeto de lei do MCCE propõe a
são Continental no Brasil, destinado aos regionais e inelegibilidade de candidatos “que forem condenados
dioceses. A Missão Continental é um projeto que foi em primeira ou última instância ou tiverem contra si
assumido na V Conferência do Episcopado Latino- denúncia recebida por órgão judicial colegiado pela
Americano e será lançada no dia 17 de agosto, no prática de crime”, e de parlamentares que, para fugir
encerramento do 3º Congresso Missionário Americano da cassação, renunciem ao mandato. Houve uma
e do 8º Congresso Missionário Latino-Americano modificação no texto do projeto em relação ao que
(CAM 3 - Comla 8). foi lançado na Assembléia dos bispos. A íntegra do
projeto encontra-se no site http://www.lei9840.org.br/
Pelo fim do trabalho escravo projetodelei.htm
A CNBB avaliou favoravelmente as iniciativas
propostas pelo Congresso Nacional em relação à Porto Alegre - RS
proposta de reforma constitucional (PEC 438/2001) Missionário para Moçambique
que visa eliminar o trabalho em forma de escravidão. O Conselho Missionário Regional Sul 3 da CNBB
A norma começou a ser debatida no Congresso em vai estimular na Igreja do Rio Grande do Sul o apoio
2001. Há quatro anos, porém, o processo está pa- à ação missionária. A meta é envolver todas as dio-
ralisado. Nas áreas rurais do Brasil, o trabalho em ceses nessa ação, inserindo nos planos diocesanos
condições desumanas ou degradantes representa um o compromisso missionário. A definição foi tomada na
fenômeno habitual. Somente no ano de 2007, foram reunião do COMIRE realizada no dia 19 de junho, na
registradas pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) sede regional da CNBB. Participaram representantes
265 ocorrências de trabalho escravo em todo o país, do serviço missionário de dez dioceses gaúchas,
envolvendo 8.653 trabalhadores. Destes o Ministério com a presença do bispo responsável pelo serviço,
do Trabalho resgatou, em suas ações de fiscalização, dom Jaime Kohl. Uma das novidades apresentadas
5.974 trabalhadores. Desde o ano de 1995, quando na reunião foi o reforço ao projeto missionário em
foi instituído o Grupo Móvel, até o final de 2007, Moçambique. No dia 18 de agosto segue para aquela
foram libertadas 26.951 pessoas. Nesse período, a frente missionária o padre Maurício Jardim. Ligado à
CPT registrou denúncias envolvendo mais de 50 mil arquidiocese de Porto Alegre ele trabalhou vários anos
trabalhadores ‘aprisionados por promessas’, obriga- na assessoria da Pastoral da Juventude. Conforme
dos a trabalhar em fazendas, carvoarias e canaviais, o Coordenador do Setor Missionário, padre Camilo
tratados pior que animais e impedidos de romper a Pauletti, esta é uma oportunidade de revigoramento do
relação com o empregador. Segundo os bispos, a projeto e revela o compromisso do Rio Grande do Sul
aprovação da PEC 438/2001 é um imperativo ético com a ação missionária em todo o mundo: "os bispos
e moral da consciência cidadã e, para os cristãos, assinaram a renovação do projeto com a diocese de
uma exigência de coerência com os ensinamentos Nampula, e agora concretizamos a ampliação da
do Evangelho de Jesus. equipe". Nos dias 20 e 21 de setembro será realizado
um encontro missionário de todo o Rio Grande do Sul
Conselho para indígenas para atualizar as equipes diocesanas sobre as novas
Após pressão de entidades indígenas e indigenistas, orientações para este serviço de evangelização. 
o texto do projeto de lei que trata do Conselho Nacional
de Política Indigenista foi encaminhado ao Congresso
Nacional, no dia 12 de junho. O presidente da República Fontes: Cimi, CNBB, CNBB Sul 3, Fides.
30 Jul/Ago 2008 -
Hoje, mais do que nunca precisamos comunicar para informar os cidadãos na
sua capacidade de refletir e entender a realidade.
Quando falamos de comunicação na Igreja não devemos pensar apenas nos
meios. Entendemos de maneira especial o processo de comunicação nos
espaços de reflexão para as comunidades, as pastorais, os grupos, os movi-
mentos, nas diversas iniciativas que criam interação entre pessoas movidas
pelos valores do Evangelho.
A revista MISSÕES, editada pelos missionários e missionárias da Consolata no
Brasil, é um meio de informação e formação que visa contribuir com a construção
de um mundo mais justo e solidário através de subsídios pastorais, espirituais,
sociais e culturais. Seu público alvo são as lideranças e os cidadãos em geral,
as famílias, os jovens e os agentes de pastoral das comunidades cristãs. Neste
sentido, MISSÕES apresenta matérias sobre:

• Atualidade da sociedade e movimentos sociais


• Espiritualidade e temas pastorais
• Articulação de projetos sociais e ambientais
• Estudos sobre os desafios para a missão da Igreja
• Subsídios para uma pastoral missionária
• Testemunhos de vida e de experiência
• Reflexões para a juventude
• Trabalhos didáticos para as crianças, e muito mais.

Com isso, a revista MISSÕES deseja ajudar os seus leitores a


olhar para fora do próprio mundo, além das próprias fronteiras
eclesiais, culturais e geográficas.
A solidariedade em vista do bem comum é fruto da participação
de todos. Faça parte desse projeto!


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