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A Importância do Médico Veterinário na Saúde Pública

Autor: Cícero Cleiton Fiuza de Menezes


Médico Veterinário, formado pela Faculdade de Medicina Veterinária da
Universidade Estadual do Ceará - UECE
RESUMO

Devido ao seu amplo leque de competências, o Médico Veterinário


é, hoje, um dos profissionais mais importantes do Brasil e do mundo. Seus
conhecimentos o capacitam a planejar e executar medidas de prevenção e
controle de enfermidades, ajudando a manter os níveis de saúde da população
elevados. Além disto, sua formação básica em ciências biomédicas, com
conhecimentos nas áreas de epidemiologia e saneamento ambiental, o torna apto
a desenvolver atividades que antes eram comuns apenas a outros profissionais
das equipes de saúde coletiva. O objetivo deste trabalho é relatar a importância
do Médico Veterinário na Saúde Pública e analisar alguns fatores que têm
contribuído, direta ou indiretamente, para que este profissional ocupe novos
espaços dentro deste campo. No decorrer da história, o Médico Veterinário vem
ocupando espaço na Saúde Pública. Em 1946, a OMS criou a Saúde Pública
Veterinária, designando algumas atribuições para este profissional: controle de
zoonoses, higiene dos alimentos e os trabalhos de laboratório, de biologia e as
atividades experimentais. Desde então, o Médico Veterinário tem demonstrado
sua capacidade e competência para atuar nas equipes de Vigilâncias
Epidemiológica, Sanitária e Ambiental. No Brasil, este espaço vem sendo
ocupado gradativamente nos diferentes níveis de gestão (federal, estadual e
municipal). Grande parte da população ainda desconhece a importância da
atuação deste profissional como promotor da saúde humana, sendo a clínica
médica veterinária e inspeção sanitária dos matadouros as atividades mais
conhecidas desenvolvidas por este profissional. Outro aspecto importante a ser
mencionado é o fato de que a maioria dos cursos de Medicina Veterinária
brasileiros não possui uma estrutura favorável ao desenvolvimento de atividades
práticas relativas à Saúde Pública, o que dificulta a ocupação de novos espaços
nessa área de atuação na maioria dos países em desenvolvimento. Muitos
desafios surgem a cada dia para este profissional e torna-se cada vez mais
necessária a consolidação das posições conquistadas pelo Médico Veterinário na
Saúde Pública, bem como a conquista de outros, principalmente, nas equipes de
Vigilância Epidemiológica e Ambiental. Os cursos de Medicina Veterinária
necessitam aprimorar o conteúdo teórico das disciplinas de Saúde Pública, bem
como proporcionar oportunidades para a realização de atividades práticas, com o
intuito de preparar melhor o profissional para este mercado de trabalho
emergente.

1. INTRODUÇÃO

A Medicina Veterinária pode ser considerada uma profissão jovem no


Brasil, tendo sido criada em 1918. Desde então, o Médico Veterinário vem
ganhando destaque em diversos setores da sociedade. Devido ao seu amplo leque
de competências, que vai desde a prevenção e cura das afecções de diversas
espécies animais, produção e inspeção de alimentos, defesa sanitária animal,
saúde pública, ensino técnico e superior, pesquisa, extensão rural até a
preservação ambiental e ecológica, a Medicina Veterinária é, hoje, uma das
profissões mais importantes do Brasil e do mundo (FLOSI, 2004).

As clínicas médica e cirúrgica de pequenos e grandes animais são áreas de


atuação exclusiva do Médico Veterinário (Lei nº. 5.517/1968), sendo as mais
associadas a este profissional e fazendo com que grande parte da sociedade o
considere apenas como o “médico dos bichos” (FLOSI, 2004). Esta idéia vem
sofrendo modificações lentas à medida que novos profissionais ganham destaque
na atuação em outras áreas que a Medicina Veterinária abrange.
O Médico Veterinário exerce um papel de grande relevância na área de
produção animal, principalmente em países com fortes características
agropecuárias, como o Brasil. Neste contexto, seus conhecimentos de clínica
médica veterinária, associados aos de nutrição, manejo de pastagens,
administração, higiene e inspeção de alimentos de origem animal, permitem que
ele atue não só na produção de proteína animal para o abastecimento do mercado
interno e externo, mas também no planejamento e execução das atividades
relacionadas à defesa sanitária animal.

Nas últimas décadas, este profissional também começou a ocupar


seu espaço nas áreas relacionadas à Saúde Pública. Seus conhecimentos
específicos o capacitam a manter os níveis de saúde elevados, à medida que
orienta a população humana quanto aos princípios básicos de saúde e
proporciona melhores condições ambientais (BRITES NETO, 2003). Observando
este fato, a Organização Mundial de Saúde (OMS) criou em 1946 a Saúde
Pública Veterinária, definindo novas áreas de atuação para a Medicina
Veterinária, sendo as principais atribuições: o controle de zoonoses, higiene dos
alimentos e os trabalhos de laboratório, de biologia e as atividades experimentais.

Dentro da estrutura profissional multidisciplinar da Saúde Pública, não há


dúvidas da importância do Médico Veterinário como promotor da saúde humana,
sendo esta amplamente reconhecida e divulgada pela OMS, que tem solicitado,
insistentemente, aos países membros, a participação deste nas equipes de
administração, planificação e coordenação de programas de saúde (BRITES
NETO, 2003).

Embora a importância da atuação do Médico Veterinário no contexto da


Saúde Pública seja facilmente demonstrada pela simples observação das
atribuições designadas a estes profissionais, ainda faz-se necessário discutir o seu
desempenho profissional nesta área, bem como reavaliar as grades curriculares
dos cursos de Medicina Veterinária brasileiros.

Portanto, este trabalho teve como objetivo relatar a importância da


participação do Médico Veterinário na Saúde Pública e analisar alguns fatores
que têm contribuído, direta ou indiretamente, para que este profissional ocupe
novos espaços dentro desta área.

2. REVISÃO DE LITERATURA
2.1. SAÚDE PÚBLICA E MEDICINA VETERINÁRIA: HISTÓRICO

2.1.1 – Introdução

A expressão Saúde Pública Veterinária, utilizada pela primeira vez


em uma reunião de especialistas em Saúde Pública da OMS, em 1946, designou
o marco conceitual e a estrutura de implementação das atividades de Saúde
Pública que aplicam os conhecimentos e os recursos da Medicina Veterinária. O
Médico Veterinário tem seus princípios de base fortemente alicerçados nas
ciências biológicas e sociais, podendo vincular a agricultura, a saúde animal, a
educação, o ambiente e a própria saúde humana para proteger e melhorar a saúde
da população como um todo (ARÁMBULO,1991).

Assim, a OMS definiu, em 1975, duas áreas distintas de atuação


para os Médicos Veterinários: A primeira relacionada às atividades que dizem
respeito exclusivamente a este profissional; e a outra envolvendo as atividades
que podem ser desempenhadas não só por veterinários, mas também por médicos
e demais profissionais do setor (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1975).
Os objetivos da Saúde Pública Veterinária são alcançados quando o Médico
Veterinário utiliza os seus conhecimentos para promover à saúde humana. Sendo
assim, este profissional pode desempenhar diversas funções na Saúde Pública
(WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1975). Por estudar as ciências básicas, o
Médico Veterinário está apto a desenvolver atividades relacionadas à
epidemiologia, ou aos laboratórios de pesquisa e instituições especializadas na
preparação e controle de produtos biológicos e de medicamentos. Da mesma
forma, os estudos em ecologia permitem que este profissional atue nos
programas de controle ambiental, em saneamento e na preservação da fauna
(BRITES NETO, 2003).

O Médico Veterinário desenvolve um trabalho ímpar dentro da equipe de


Saúde Pública, devido aos seus conhecimentos de medidas gerais de controle e
profilaxia de doenças que afetam os seres humanos, principalmente as
transmitidas por animais – zoonoses. (BÖGEL, 1992). Ainda, por ser uma
profissão de natureza cruzada, a Medicina Veterinária proporciona uma grande
interação entre as demais profissões, abrangendo duas vertentes ao mesmo
tempo: promoção da saúde dos seres humanos e dos animais (WORLD HEALTH
ORGANIZATION, 1975).

2.1.2 – Histórico da Saúde Pública Veterinária

A prática veterinária voltada para a promoção da saúde animal é


bastante antiga. Alguns escritos que relatam a história das civilizações da
Suméria, Egito e Grécia já citam a atuação de curandeiros de animais. As
técnicas para o tratamento médico, cirúrgico e obstétrico individual dos animais
começaram a ser aperfeiçoadas ainda nesta época e tornaram-se cada vez mais
requisitadas, persistindo mesmo após o surgimento da civilização urbana
(SCHWABE, 1984).

Com o início da aglomeração das moradias e a criação de algumas cidades


com condições precárias de higiene, houve um aumento do número de
enfermidades que acometiam os animais. Para tentar amenizar a situação, duas
estratégias de controle destas doenças foram descobertas e começaram a ser
aplicadas em nível local: o emprego da quarentena (segregação dos animais
doentes dos sadios) e o sacrifício de animais enfermos. Isto ocorreu mesmo antes
da teoria do contágio ter sido estudada. Essas práticas continuam sendo utilizadas
até os dias atuais (SCHWABE, 1984).

O primeiro século da era cristã marca outro ponto de importância histórica


da Medicina Veterinária, quando seus conhecimentos curativos tornaram-se
indispensáveis. Com o inicio do processo de expansão das nações, os esforços
para controlar as doenças dos animais aumentaram consideravelmente, pois o
cavalo assumia um papel de grande importância dentro do contexto militar,
sendo imprescindível que este estivesse fisicamente apto para as batalhas. Assim,
foram criadas estruturas organizadas de pessoas que tinham o conhecimento
necessário para curar os animais dos exércitos (SCHWABE, 1984).

Durante a Idade Média e o Renascimento, os serviços veterinários


limitaram-se a aplicação das habilidades de reconhecer sinais de doenças
específicas e ao desenvolvimento e aperfeiçoamento de novas técnicas de
diagnóstico, algumas delas conhecidas até então (ARAMBULO, 1991). Nesta
época,não havia planejamento urbano e os habitantes conservavam hábitos
campestres. Assim, as casas eram construídas sob os muros de proteção das
cidades e os animais, como porcos, gansos e patos, eram criados dentro das
moradias ou nas proximidades destas, causando incômodo pelo acúmulo de
excrementos. Neste contexto, as cidades começaram a criar uma série de
regulamentos para tentar amenizar e até solucionar este problema, estes incluíam
a obrigatoriedade da criação de instalações próprias para os animais e a
construção de matadouros municipais. Estas medidas continuam sendo exigidas
até os dias atuais pelos orgãos de Vigilância Sanitária (ROSEN, 1994).

No início do século XVIII, um grande número de doenças


transmissíveis a animais estava espalhando-se por toda a Europa. A preocupação
com a provável dizimação de seus rebanhos fez com que a necessidade da
criação de uma escola exclusiva para o estudo da Medicina Veterinária fosse
reconhecida, sendo esta, em 1762, separada da escola de Medicina Humana,
dando início a uma nova fase da Saúde Pública Veterinária (HATSCHBACH,
2004).

Os primeiros centros organizados de tratamento veterinário foram


estabelecidos, inicialmente, como parte das escolas de veterinária e, mais tarde,
como serviços separados. Devido ao grande reconhecimento que os líderes
militares deram a primeira escola de Medicina Veterinária, a maioria dos
primeiros veterinários foram oficiais militares (SCHWABE, 1984).

Na segunda metade do século XVIII, surgiram dois novos


movimentos relacionados à Saúde Pública Veterinária. Um deles direcionado
para o combate das epidemias que estavam atingindo o gado, naquela época; e o
outro voltado para a redução dos riscos que o abate indiscriminado de animais,
para comercialização, trazia para a saúde humana (SCHWABE, 1984).
No início no século XIX, Robert von Ostertag, na Alemanha, e Daniel E.
Salmon, nos Estados Unidos da América, deram início ao que se conhece
atualmente como sistema de proteção dos alimentos, dando origem a participação
do Médico Veterinário no contexto atual da Saúde Pública (ORGANIZACIÓN
PANAMERICA DE LA SALUD, 1975).

Entretanto, a importância científica da Medicina Veterinária para a


sociedade humana só foi reconhecida publicamente com a eleição do Médico
Veterinário francês Henri Bouley para presidência da Academia francesa de
Medicina Humana e da Academia de Ciências de Paris, em 1885
(HATSCHBACH, 2004).

Neste período, duas outras medidas de prevenção e controle das


enfermidades dos animais começaram a ser utilizadas com maior freqüência: a
higiene e inspeção do abate de animais. O controle sanitário começou a incluir,
em seus programas de supervisão, os locais de produção de animais e os
matadouros, devido ao fato de que algumas enfermidades humanas foram
associadas ao consumo de alimentos de origem animal contaminados. Essas
ações foram a base das atividades direcionadas à Saúde Pública Veterinária que
vieram a seguir (SCHWABE, 1984).

Sendo observado que uma das principais falhas dos programas


desenvolvidos pelos Médicos Veterinários para o controle de enfermidades não
estavam em suas deficiências técnicas e sim nos problemas de comunicação com
o público, algumas medidas voltadas para educação em saúde dos proprietários
de animais foram implantadas (SCHWABE, 1984).
Uma nova fase da Saúde Pública Veterinária foi inaugurada com as
observações e experimentos sobre o anthrax por Delafond – diretor da Escola de
Veterinária de Alfort (segunda escola de veterinária fundada no mundo) – e pelos
conhecidos trabalhos de Pasteur, Chauveau, Koch e Salmon. Esses nomes e
alguns outros conduziram à “revolução microbiológica”, período em que a
compreensão das formas de contágio forneceu uma base para a abordagem
diferente das formas de investigação e identificação dos agentes etiológicos das
doenças. Nesta época, foram iniciados programas de ações governamentais para
o combate das infecções dos animais de fazenda, havendo um grande sucesso no
controle de doenças e abrindo a possibilidade para o desenvolvimento do sistema
de criação intensiva de animais (SCHWABE, 1984).

A associação dos novos conhecimentos dos mecanismos de transmissão das


doenças infecciosas com o desenvolvimento da microbiologia, impulsionados
pelo aumento do comércio internacional, gerou um novo instrumento para o
controle destas enfermidades: a criação das equipes de Vigilância. No início,
estas tinham como única função observar os contatos de pacientes atingidos por
doenças graves e transmissíveis, como cólera, varíola e peste. Seu propósito era
detectar os primeiros sintomas destas moléstias para que fosse feito o isolamento
rápido e eficaz das pessoas acometidas (WALDMAN, 1998).

Ao mesmo tempo, foi introduzida uma outra medida de prevenção e


controle destas enfermidades, que consistia na aplicação de ações populacionais
como a imunização e a terapia em larga escala. Além disto, alguns
procedimentos relacionados ao meio ambiente, como o controle de vetores,
começaram a ser aplicados. Muitas dessas medidas, que foram visualizadas e
praticadas primeiramente por Médicos Veterinários, foram extrapoladas e se
mostraram bem sucedidas no controle de outras doenças relacionadas à Saúde
Pública. Com isto, outros procedimentos já conhecidos, como a quarentena,
sacrifício de animais reagentes e desinfecção local começaram a ter seu uso
sistematizado (SCHWABE, 1984).

O controle de vetores surgiu como uma medida profilática sem


precedentes, sendo o resultado dos estudos epidemiológicos de Salmon,
Kilborne, Smith e Curtice, que demonstraram a transmissão do microrganismo
causador da febre do gado - piroplasmose bovina ou babesiose, no Texas, por
meio de artrópodes (SCHWABE, 1984).

Embora a França já contasse com a participação de Médicos


Veterinários em seus Conselhos de Saúde estaduais, desde 1848, e a Nova
Zelândia já tivesse um destes profissionais dirigindo seu Departamento Nacional
de Saúde Pública desde 1900 (HATSCHBACH, 2004), só na história mais
recente (1944) tem-se o início da contratação de Médicos Veterinários, como
consultores na área de Saúde Pública, pela Organização Panamericana de Saúde.
(VIANNA PAIM & CAVALCANTE DE QUEIROZ, 1970).

Também verifica-se a presença deste profissional na história da Saúde


Pública dos Estados Unidos da América, quando um Médico Veterinário foi
contratado para exercer a função de “Conselheiro Veterinário” no Conselho de
Saúde da cidade de Nova York, entre os anos de 1873 e 1901, e ainda durante a
primeira Guerra Mundial, quando vários Médicos Veterinários foram contratados
pelo Departamento Norte Americano de Saúde Pública para atuarem na área de
sanidade ambiental (OSBURN, 1996).

Em 1946, a conferência de estruturação da Organização Mundial de Saúde


recomendou a criação de uma seção de Saúde Veterinária, sendo esta
estabelecida em 1949 (VIANNA PAIM & CAVALCANTE DE QUEIROZ,
1970).

O surgimento da teoria sobre os agentes etiológicos das doenças foi


muito produtivo para a Saúde Pública Veterinária. No entanto, observou-se que
seria necessária uma abordagem mais ampla do problema, uma vez que outros
fatores intervinham no aparecimento das enfermidades (SCHWABE, 1984).

Neste período, originou-se uma crise na Saúde Pública Veterinária,


com algumas das seguintes verificações:
1. As campanhas efetuadas contra as enfermidades reduziam as mesmas,
mas não produziam sua completa eliminação;
2. O custo para o controle destas enfermidades era muito elevado;
3. Os conhecimentos existentes para o controle de algumas doenças eram
insuficientes;
4. A criação intensiva gerou uma certa incapacidade em lidar com novas
situações práticas (SCHWABE, 1984).

Como resultado dessa crise, os estudos em epidemiologia


começaram a ser aprofundados e, considerando que para cada doença era
necessária uma análise detalhada dos fatores relacionados à sua ocorrência, a
epidemiologia começou a ser inserida na prática da Saúde Pública Veterinária,
revelando-se como uma excelente estratégia para o controle de enfermidade.
Muitos profissionais de Medicina Veterinária se tornaram conscientes da sua
aptidão para trabalhar em Saúde Pública nesta fase, iniciando-se nos anos 60 do
século passado e continua até os dias atuais (SCHWABE, 1984).
A entrada de Médicos Veterinários no campo de prevenção e
controle das doenças transmissíveis a humanos e nos serviços de Saúde Pública
em geral foi possível não só pelo reconhecimento de que estes possuem
conhecimentos e habilidades em medicina populacional, mas também pela
importância que as zoonoses têm no campo das doenças transmissíveis, chegando
a totalizar 80% destas em humanos. As habilidades e atribuições próprias de sua
profissão que os veterinários levam para a Saúde Pública fazem com que exista
um elo de ligação entre a saúde humana e os demais fatores que a cercam
(ORGANIZACIÓN PANAMERICANA DE LA SALUD, 1975).

Nas décadas de 1970 e 1980, verifica-se que uma das preocupações


predominantes da Saúde Pública Veterinária começa a ser o risco gerado pela
poluição química ao ambiente e aos alimentos, como resultado da utilização
indiscriminada de pesticidas, resíduos animais e outras substâncias tóxicas. As
zoonoses emergentes e re-emergentes também têm adquirido significância global
nas últimas décadas. Como exemplo, pode-se citar os problemas relacionados ao
Ebola, às Hantaviroses, a gripe do frango, e a vários outros agentes zoonóticos
que requerem o trabalho conjunto de médicos, veterinários e biólogos (WORLD
HEALTH ORGANIZATION, 2002).

Ao lado desses problemas estão as novas tendências na prática de produção,


o desmatamento que gera interferências das populações de animais silvestres no
contexto urbano (carreando doenças, como a raiva), as mudanças demográficas, a
mobilidade das populações, a urbanização e a globalização da indústria de
alimentos. Essas alterações devem ser acompanhadas pelo aumento das práticas
de vigilância epidemiológica e pelo desenvolvimento de novas estratégias para o
controle e prevenção de doenças. Isto vem se tornando um desafio cada vez
maior para os Médicos Veterinários que atuam em Saúde Pública (WORLD
HEALTH ORGANIZATION, 2002).

2.2. ÁREAS DE ATUAÇÃO DO MÉDICO VETERINÁRIO NA


SAÚDE PÚBLICA

Existem dois períodos distintos da participação do Médico Veterinário em


Saúde Pública. O primeiro deles, estendendo-se desde o final do século XIX ao
início do século XX, teve a higiene de alimentos como alicerce e permitiu que
alguns poucos veterinários assumissem posições administrativas nos programas
de Saúde Pública em vários países. Nesta época, criou-se certa estabilidade na
participação do Médico Veterinário em Saúde Pública, que durou até a Segunda
Guerra Mundial (SCHWABE, 1984).

O outro período de atuação do Médico Veterinário, como promotor


da saúde coletiva, caracterizou-se pelo trabalho direcionado à população. Com o
uso dos novos conhecimentos de epidemiologia, começou a atuar no
desenvolvimento de programas de controle de zoonoses nas células de Saúde
Pública. Desde então, os Médicos Veterinários começaram a desempenhar
diversas atividades nas áreas técnicas e administrativas da Saúde Pública
(SCHWABE, 1984). Este período estende-se até os dias atuais.

Atualmente, as principais atribuições do Médico Veterinário na


Saúde Pública são:
a. Diagnóstico, controle e vigilância em zoonoses; sendo esta a de maior
destaque.
b. Estudos comparativos da epidemiologia de enfermidades não
infecciosas dos animais em relação aos seres humanos;
c. Intercâmbio de informações entre a pesquisa médica veterinária e a
pesquisa médica humana;
d. Estudo sobre substâncias tóxicas e venenos provenientes dos animais
considerados peçonhentos;
e. Inspeção de alimentos e vigilância sanitária; atuando em algumas
áreas que são exclusivas de sua profissão.
f. Estudo de problemas de saúde relacionados às indústrias de produção
de alimentos de origem animal, incluindo o destino adequado de dejetos;
g. Supervisão da criação de animais de experimentação;
h. Estabelecimento de interligação e cooperação entre as organizações de
Saúde Pública e Veterinária com outras unidades relacionadas com animais;
i. Consulta técnica sobre assuntos de Saúde Humana relativos aos
animais (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2002).

Além das atividades relacionadas à sua profissão, como as citadas acima, a


ampla formação básica do Médico Veterinário em ciências biomédicas o torna
apto para desenvolver outras funções na Saúde Pública que são comuns também
aos médicos e a outros membros da equipe, a saber:
a. Epidemiologia em geral; incluindo doenças que não estão
relacionadas diretamente aos animais.
b. Laboratório de Saúde Pública;
c. Produção e controle de produtos biológicos;
d. Proteção dos alimentos em geral;
e. Avaliação e controle de medicamentos em geral; sendo esta uma das
funções da Vigilância Sanitária.
f. Vigilância Ambiental; incluindo saneamento básico.
g. Pesquisa de Saúde Pública (PFUETZENREITER, 2003).
A formação conferida aos profissionais de Medicina Veterinária
permite que estes também desempenhem atividades mais abrangentes, como a
administração, o planejamento e a coordenação de programas de Saúde Pública
em nível nacional, estadual ou municipal (BRITES NETO, 2003).

Em 2002, um Comitê de Especialistas em Saúde Pública Veterinária


da OMS reconheceu que algumas áreas emergentes de atuação do Médico
Veterinário em Saúde Pública podem trazer contribuições significativas para a
saúde das populações, como:
a. Vigilância Epidemiológica e controle de doenças comunicáveis não
zoonóticas;
b. Análise de aspectos sociais, comportamentais e mentais de relação
entre seres humanos e animais;
c. Prevenção e estudo epidemiológico de doenças não infecciosas, como
hipertensão e diabetes (incluindo a orientação de estilos de vida saudáveis);
d. Análise e avaliação dos serviços e programas utilizados na Saúde
Pública;

Com base no que foi relatado a respeito da atuação do Médico


Veterinário na Saúde Pública, três áreas de destaque serão abordadas com maior
ênfase: Vigilâncias Epidemiológica, Sanitária e Ambiental.

2.2.1 – O Médico Veterinário na Vigilância Epidemiológica

O primeiro conceito de “vigilância” surgiu no final da Idade Média,


associando este termo às práticas de isolamento e quarentena de pessoas e
animais acometidos por doenças transmissíveis, ou que pudessem vir a
desenvolvê-las, como uma prática de defesa das pessoas sadias. Este conceito foi
consolidando-se nos séculos XVII e XVIII, a medida que o comércio era
fortalecido e os centros urbanos proliferavam-se (WALDMAN, 1998).

No entanto, o termo “Vigilância” só foi oficialmente utilizado na


Saúde Pública durante uma epidemia de poliomielite que atingiu algumas regiões
dos Estados Unidos da América no ano de 1955. Alguns anos mais tarde,
precisamente em 1964, ele ganha, pela primeira vez, a associação do termo
“epidemiológica”, em um artigo publicado por Karel Raska. Esta designação foi
amplamente reconhecida por vários países após a criação da Unidade de
Vigilância Epidemiológica da Divisão de Doenças Transmissíveis da
Organização Mundial Saúde (WALDMAN, 1998).

Atualmente, alguns países separaram estes dois termos, considerando que


“vigilância” designa apenas uma parte das ações desenvolvidas pela
epidemiologia. Recentemente, o termo “Vigilância Epidemiológica” foi
substituído por “Vigilância em Saúde Pública”. Este último vem sendo utilizado
em todas as publicações sobre o assunto, desde os anos 90. É importante ressaltar
que a simples mudança do termo não implicou na alteração de suas atribuições
originais (WALDMAN, 1998). Mesmo assim, o termo “Vigilância
Epidemiológica” ainda é utilizado no Brasil e será citado aqui para designar as
ações da Epidemiologia como um todo.

A lei n°. 8080 de 1990, define Vigilância Epidemiológica como “um


conjunto de ações que proporcionam o conhecimento, a detecção ou prevenção
de qualquer mudança nos fatores determinantes e condicionais de saúde
individual ou coletiva, com a finalidade de recomendar ou adotar as medidas de
prevenção e controle das doenças ou agravos” (lei nº. 8080/90). Além disso,
consiste em um importante instrumento para o planejamento, a organização e a
operacionalização dos serviços de saúde, bem como para a normatização de
atividades técnicas correlatas (BRASIL, 2002).

Todos os níveis do sistema de saúde têm algum vínculo com a


Vigilância Epidemiológica. As principais atribuições desta área são: coleta de
dados, seguida de processamento, análise e interpretação dos mesmos;
recomendação das medidas de controle apropriadas; promoção, avaliação da
eficácia e efetividade das medidas adotadas; divulgação de informações
pertinentes a cada situação (BRASIL, 2002).

Com o fortalecimento da Vigilância Epidemiológica em nível local,


sendo um dos mais importantes instrumentos de atuação no controle de
enfermidades, e com a descentralização do sistema de saúde no Brasil, passando
a responsabilidade de contratação dos técnicos especializados aos níveis estadual
e municipal (BRASIL, 2002), a capacitação de profissionais de Saúde para
atuarem nesta área tornou-se imprescindível. Dentro desta realidade, está inserido
o Médico Veterinário, que vem ocupando um lugar de destaque na Vigilância
Epidemiológica, principalmente no que se refere ao controle de zoonoses
(WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2002).

É importante destacar ainda que, na Vigilância Epidemiológica, a


integração não só dos diferentes níveis, como das diversas instituições e de todos
os profissionais envolvidos com o problema, é de vital importância (WORLD
HEALTH ORGANIZATION, 2002).

De forma geral, a Vigilância Epidemiológica consiste na coleta,


análise e disseminação sistemática de informações. Sendo assim, os Médicos
Veterinários, mesmo não ligados oficialmente aos orgãos públicos, são parceiros
essenciais para a promoção da saúde humana. Estes profissionais são monitores,
por natureza, das alterações na sanidade animal que podem colocar em risco a
população, principalmente, se tratando de doenças emergentes ou re-emergentes.
Além disto, a obtenção de dados vindos de clínicas e laboratórios veterinários é
imprescindível para uma boa escolha e execução das medidas que serão adotadas
(WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2002).

A vigilância e controle das doenças infecciosas e o


acompanhamento das não infecciosas é uma função multidisciplinar que pode ser
desempenhada por qualquer profissional da área da saúde (WORLD HEALTH
ORGANIZATION, 2002). No Brasil, o sistema de Vigilância Epidemiológica
vem sofrendo mudanças desde 1998. Novos sistemas de informação estão sendo
desenvolvidos e aperfeiçoados para uma melhor atuação dos orgãos responsáveis
pela promoção da saúde em nível municipal, estadual e nacional (BRASIL,
2002). O Médico Veterinário está apto a ocupar esta posição, utilizando seus
conhecimentos de epidemiologia para administrar e supervisionar as atividades
realizadas, rotineiramente, nos três níveis de vigilância (WORLD HEALTH
ORGANIZATION, 2002).

Devido ao seu amplo conhecimento sobre as zoonoses e suas


principais manifestações clínicas em animais, o Médico Veterinário está apto a
aplicar, de forma eficaz, as medidas de controle necessárias para contê-las antes
que cheguem ao homem. Este fato faz com que este profissional tenha um papel
singular e insubstituível no campo da Vigilância Epidemiológica, estando
preparado para investigar, coletar os dados e analisá-los de forma rápida,
associando, em alguns casos, seus conhecimentos de epidemiologia e clínica
médica veterinária (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2002).
2.2.1.1 – Controle de Zoonoses

Zoonose é uma palavra originária do grego que significa doença


animal (“zoon” - animal, “nosos” - doenças). Ela foi introduzida na literatura
médica pelo Médico Alemão Rudolf Wirchow, no século passado XIX, para
representar as doenças de animais que podem ser transmitidas ao homem.
Embora o termo não expresse bem este significado, ficou consagrado pelo uso,
passando a ser, naturalmente, utilizado na Medicina Veterinária e na Saúde
Pública (ORGANIZACION MUNDIAL DE LA SALUD, 1975).

O referido termo foi questionado, desde a sua primeira utilização,


pelo seu amplo significado. Somente em 1966, durante a realização do “3°
Encontro de Peritos em Zoonoses da Organização Mundial de Saúde (OMS)”,
conseguiu-se chegar a um consenso, e as zoonoses foram definidas como: “as
doenças e infecções naturalmente transmissíveis entre os hospedeiros
vertebrados e o homem” (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1975).

Atualmente, as zoonoses constituem os riscos mais freqüentes e


mais temíveis a que a humanidade está exposta, englobando mais de 250 doenças
(SCHWABE, 1984). Das trinta e cinco doenças de notificação compulsória em
todo o território brasileiro, dezesseis fazem parte do grupo das zoonoses, segundo
o Guia de Vigilância Epidemiológica da Fundação Nacional de Saúde do Brasil,
conforme listadas abaixo (BRASIL 2002):
1. Botulismo
2. Carbúnculo ou “antraz”
3. Dengue
4. Doença de Chagas (casos agudos)
5. Esquistossomose (em área não endêmica)
6. Febre Amarela
7. Febre Maculosa
8. Hantaviroses
9. Hepatite B
10. Leishmaniose Tegumentar Americana
11. Leishmaniose Visceral
12. Leptospirose
13. Malária (em área não endêmica)
14. Peste
15. Raiva Humana
16. Tuberculose

Além disto, duas das seis doenças em que a notificação dos casos é
exigida universalmente pertencem a este grupo: a Peste e a Febre Amarela.
Ambas ocorrem no Brasil (ACHA & SZYFRES, 1986).

Um grande número de doenças emergentes e re-emergentes são


transmitidas diretamente de animais para os homens. Em alguns casos, os
animais atuam como hospedeiros intermediários ou acidentais, disseminando a
enfermidade pelo contato direto com humanos, como acontece no caso da raiva
humana. Em outros casos, a transmissão ocorre através de vetores, ou seja,
dependem de um animal invertebrado que transfira, de forma ativa, um agente
etiológico de uma fonte de infecção a um novo susceptível. Como exemplo,
destaca-se a dengue, febre amarela, malária, leishmaniose e doença de Chagas
(WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2002).

À medida que o conhecimento científico avança, algumas doenças


continuam a enquadrar-se no conceito didático de zoonoses. As estatísticas
mundiais nos dão conta da grande importância destas enfermidades, seus agravos
não se prendem somente aos aspectos sociais ou aos danos provocados à
economia de alguns países, especialmente os em desenvolvimento, onde a
incidência é muito expressiva. Algumas destas doenças podem provocar
incapacidade física e/ou mental em indivíduos que ainda estão em idade
produtiva. Sendo assim, o aspecto econômico também deve ser considerado na
análise deste assunto (MIRANDA, 2002).

Os arbovirus são considerados os principais causadores de


problemas em Saúde Pública no Brasil (VERONESI, 2002), incluindo-se aqui os
vírus da dengue e da febre amarela. A OMS estima que, a cada ano, um número
expressivo de pessoas se infecte com o vírus da dengue em mais de 100 países,
variando entre 50 e 100 milhões de indivíduos infectados. Esta doença é
responsável por cerca de 550 mil internamentos hospitalares e por pelo menos 20
mil mortes, anualmente (BATISTA et al. 2004).

Outras zoonoses de menor expressão, como a brucelose, também


devem ser consideradas importantes dentro do contexto da Saúde Pública. Ainda
que não sejam responsáveis por epidemias, estas enfermidades colocam em risco
a saúde dos trabalhadores braçais que são responsáveis pelo manejo dos
rebanhos. No Brasil, foi relatado um caso de brucelose, por Brucella canis,em
um adolescente de 14 anos. A informação da ocorrência de zooerastia levou a
suspeita da possível fonte de infecção ter sido uma cadela da raça Doberman,
adulta, com quatro anos, positiva à sorologia para Brucella canis (CORTÊZ et al,
1998).

O Médico Veterinário há muito tempo é responsável pelo controle e


profilaxia das doenças dos animais. Este profissional vem tentando erradicar
estas enfermidades, ao longo dos últimos anos, através da adoção de medidas de
vigilância, bem como do desenvolvimento de vacinas eficazes para os animais.
Embora outras profissões e alguns órgãos públicos responsáveis pela promoção
da saúde das populações, nos países em desenvolvimento, vejam o Médico
Veterinário como um mero técnico, este profissional tem demonstrado sua
competência para estar à frente dos programas de controle e erradicação das
zoonoses que causam maiores prejuízos à saúde e à economia nos países
desenvolvidos (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2002).

A OMS reconhece amplamente a atuação do Médico Veterinário


nas equipes de Saúde Pública, enfatizando que os conhecimentos de biologia e
epidemiologia das zoonoses que este profissional possui são de vital importância
para o planejamento, execução e avaliação de qualquer programa de prevenção,
controle ou erradicação que venha a ser adotado (WORLD HEALTH
ORGANIZATION, 2002). Para que a aplicação destes métodos seja bem
sucedida, é de suma importância o conhecimento de prevalência de cada uma
destas enfermidades. Dentro deste contexto, o Médico Veterinário atua na
realização de inquéritos epidemiológicos minuciosos, utilizando tanto os
registros de Saúde Pública quanto os de saúde animal, recolhidos nas clínicas
veterinárias, propriedades rurais, indústrias de laticínios, matadouros públicos e
Centros de Controle de Zoonoses (CCZ’s) (BENENSON, 1986).

Os CCZ’s são instituições municipais, com estrutura física


específica, que estão vinculadas a algum órgão de Saúde Pública, principalmente
às Secretarias de Saúde Municipais. Os CCZ’s têm como objetivo principal o
desenvolvimento de serviços relacionados aos programas de controle de
zoonoses, de doenças transmitidas por vetores e de agravos por animais
peçonhentos (ROXO et al. 1990).
A diversidade de ações desenvolvidas em um CCZ requer a atuação
de uma equipe multidisciplinar, por envolver temas de diversas áreas, como
Medicina, Medicina Veterinária, Biologia, Estatística, Educação, Informação e
Comunicação e Assistência Social. Além disto, sua equipe de apoio deve conter
técnicos de agropecuária, de laboratório e de necropsias (BENENSON, 1986).

O gerenciamento de um CCZ é estabelecido em lei específica, sendo


esta função exercida por um profissional de nível superior, preferencialmente,
um Médico Veterinário. Este profissional também deve ser o responsável técnico
pelo estabelecimento, uma vez que possui as prerrogativas necessárias para
ocupar este cargo. O controle de zoonoses e de doenças transmitidas por vetores
é de competência legal dos municípios, por disposição constitucional, e deve
constar nas Leis Orgânicas Municipais, nos Capítulos relativos à Proteção e
Prevenção à Saúde (ROXO et al. 1990).

2.2.3 – Atuação do Médico Veterinário em Vigilância Sanitária

O Ministério da Saúde define Vigilância Sanitária como “um


conjunto de ações capaz de eliminar, diminuir ou prevenir riscos a saúde e de
intervir nos problemas sanitários decorrentes do meio ambiente, da produção e
circulação de bens e da prestação de serviços de interesse da saúde, abrangendo o
controle de bens de consumo que, direta ou indiretamente se relacionam com a
saúde, compreendidas todas as etapas e processos” (GERMANO, 2001).

As doenças carênciais, infecciosas e parasitárias, bem como as


transmitidas pela contaminação da água, solo, alimentos, insetos e vetores
constituem uma grande causa de morte da população, principalmente em se
tratando de países subdesenvolvidos. Sendo assim, o controle higiênico sanitário
e tecnológico destas possíveis fontes de infecção em massa representa um
assunto de segurança nacional pela importância do comércio de alimentos no
mundo globalizado. Neste contexto, as medidas adotadas pela Vigilância
Sanitária irão interagir com as questões de natureza social, econômica, política e
de Saúde Pública (MIRANDA, 2002).

Para se ter uma idéia do impacto econômico causado por estas


enfermidades, pode-se citar que, somente nos Estados Unidos da América, 76
milhões de pessoas adoecem todos os anos devido ao consumo de água ou de
alimentos contaminados. Destes, pelo menos 323 mil necessitam de internamento
hospitalar e, em média, 5200 morrem em decorrência da doença. Outro fato
alarmante é existência de mais de 200 enfermidades de etiologia conhecida e
com sintomatologia variada que podem ser transmitidas através da água ou de
alimentos contaminados, estando estas relacionadas a vírus, bactérias,
protozoários, fungos, parasitas, toxinas, metais e príons (MEAD et al., 1999).
Além disto, é constatado que mais de 95% dos casos de salmonelose humana são
de origem alimentar, sendo os alimentos de origem animal os veículos mais
importantes para a transmissão desta enfermidade (JACKSON et al.1991).

Entre 1995 e 2001, 5300 surtos de Enfermidades Transmitidas por


Alimentos (ETA’S) foram confirmados na América Latina, acometendo 175 mil
pessoas, com 274 mortes. Estes dados ainda podem estar defasados e não
refletirem a realidade, uma vez que ocorre subnotificação freqüente de casos,
devido a precariedade dos sistemas de Vigilância em saúde nestes países
(FRANCO et al. 2003).
Estas enfermidades têm sido foco de discussões nos últimos anos,
em todo o mundo. Existe uma grande preocupação a respeito do
desenvolvimento de estratégias que permitam o seu controle e,
conseqüentemente, proporcionem a colocação de produtos sem risco para o
consumo humano no mercado. O sistema intensivo de criação de animais, entre
outros fatores existentes, em vários países em desenvolvimento, tem contribuído
para o aumento exponencial destas doenças e dificultado o trabalho por parte das
autoridades de Saúde Pública (MOTARJEMI & KÄFERSTEIN, 1999).

Dentro desta realidade é inquestionável e imprescindível a presença


do Médico Veterinário atuando em todos os setores referentes a obtenção de
alimentos próprios para o consumo humano, independentemente de sua origem
ser animal ou vegetal. Este profissional está qualificado para exercer o cargo de
guardião da saúde humana através do controle da água e dos alimentos
consumidos pelas pessoas (FRANCO et al., 2003).

A Vigilância Sanitária foi uma das primeiras áreas de atuação do


Médico Veterinário em Saúde Pública. Muitos profissionais continuam atuando
nesta área até hoje, como veterinários sanitaristas. A importância do papel do
Médico Veterinário como vigilante sanitário foi reconhecida com a promulgação
da lei nº. 1.283, de 18/12/50, que estabelece a obrigatoriedade da fiscalização sob
o ponto de vista industrial e sanitário, de todos os produtos de origem animal,
comestíveis, preparados, transformados, manipulados, recebidos,
acondicionados, depositados e em trânsito no Brasil (MIRANDA, 2002).

Para se produzir um alimento em quantidade suficiente, que atenda


às exigências pra exportação e garanta que o mesmo seja seguro ao consumidor,
é necessária a ação conjunta de produtores, Médicos Veterinários e pessoas
envolvidas no abate (RHO et al., 2001). Apesar dos grandes progressos
científicos no campo da Saúde Pública com vista à proteção do homem contra
enfermidades transmissíveis de natureza infecciosa e parasitária, bem como, os
esforços para erradicá-las, a realidade é que essas patologias continuam
figurando com elevada prevalência em várias espécies animais das quais depende
o homem para sua alimentação e nutrição (MIRANDA, 2002).

Devido ao fato de que o Brasil é um país de fortes tendências


agropecuárias, alguns entraves devem ser objetivo de planejamento e ações para
sua solução, dentre eles: a existência de abates clandestinos - sem inspeção
sanitária e sem pagamento de impostos, o contraste entre frigoríficos que se
modernizam e os que se mantêm absolutos, ocorrência de epizootias, que são
fatores que interferem na consolidação do setor de carnes e derivados no
mercado interno e externo (MIRANDA, 2002).

Por sua vez, a Lei nº. 5.517, de 23/10/68, regulamentada pelo


Decreto nº. 64.704, de 17/06/69, dispõe sobre o exercício da profissão de Médico
Veterinário, atribuindo a este profissional, o exercício liberal ou empregatício,
em caráter privativo: “a inspeção e fiscalização sob o ponto de vista sanitário,
higiênico e tecnológico dos matadouros, frigoríficos, fábricas de conservas de
carne e de pescado, fábricas de banha e gorduras em que se empregam produtos
de origem animal, usinas e fábricas de laticínio, entrepostos de carne, leite, peixe,
ovos, mel, cera e demais derivados da indústria pecuária, e de todos os produtos
de origem animal nos locais de produção, manipulação, armazenagem e
comercialização”. Sendo assim, a inspeção sanitária de produtos de origem
animal é uma prática da Vigilância Sanitária que se inclui nas atividades
privativas do Médico Veterinário e não pode ser delegada a outro profissional
(MIRANDA, 2002).

2.2.4 – Atuação do Médico Veterinário na Vigilância Ambiental


A OMS define saúde como um estado completo de bem-estar físico,
mental e social, e não apenas ausência de doença. Dentro deste contexto, temos
que a saúde do individuo ou de toda a população é influenciada por várias
situações que a cercam. Não só as doenças, propriamente ditas, devem ser
levadas em consideração, mas outros fatores que vão desde o estilo de vida das
pessoas até o ambiente em que elas estão inseridas (ORGANIZAÇÃO
PANAMERICANA DE SAÚDE, 2003).

O impacto ambiental que o desenvolvimento econômico vem


causando nas últimas décadas tem contribuído para diminuição proporcional da
qualidade de vida da população, uma vez que tem desencadeado condições
favoráveis ao aumento de doenças que afetam o ser humano (FRANCO NETO,
CARNEIRO, 2002). Como prova deste fato, temos o aumento de artrópodes,
dentro das cidades, em conseqüência do desmatamento nos arredores dos grandes
centros urbanos (GOMES, 2002). A diminuição da qualidade da água de
consumo para a população, provocada pela inexistência de sistemas de
saneamento eficientes, também pode ser citada aqui como uma causa do aumento
de doenças infecto-contagiosas, entre elas, as que promovem a síndrome
diarréica (FRANCO NETO, CARNEIRO, 2002).

A Vigilância Epidemiológica vem contribuindo, nos últimos anos,


para demonstrar a relação íntima que existe entre o meio ambiente e os agravos à
saúde (BRASIL, 2002). Sendo assim, as atividades de Vigilância Ambiental
estiveram inseridas no quadro de ações desenvolvidas pela equipe de Vigilância
Epidemiológica até a criação de um setor próprio dentro do Ministério da Saúde,
o Sistema Nacional de Vigilância Ambiental em Saúde (SINVAS) (BRASIL,
2004), tendo as suas atribuições definidas para os três níveis de gestão
(municipal, estadual e nacional) do Sistema Único de Saúde (SUS), considerando
as ações de controle para fatores de risco biológico (vetores, hospedeiros,
reservatórios e animais peçonhentos) e não biológicos (BRASIL, 2001).

Vigilância Ambiental em Saúde é definida pelo Ministério da Saúde


como “um conjunto de ações que proporcionam o conhecimento e a detecção de
qualquer mudança nos fatores determinantes e condicionantes do ambiente que
interferem na saúde humana, com a finalidade de identificar as medidas de
prevenção e controle de fatores de risco e das doenças ou outros agravos à
saúde, relacionados ao ambiente e às atividades produtivas” (BRASIL, 2004).

A interdisciplinariedade dentro da equipe de Vigilância Ambiental é


fundamental para o desenvolvimento dos trabalhos. Estudos feitos para avaliação
dos riscos ambientais podem ser interpretados de diferentes maneiras por
profissionais das diversas áreas, uma vez que a percepção de todos os fatores
envolvidos na situação está na dependência dos conhecimentos daquele que a
analisa. Como exemplo, temos um estudo realizado sobre o impacto que as
emissões atmosféricas de mercúrio metálico estariam causando sobre a
população residente, e não ocupacionalmente exposta, no município de Poconé,
Mato Grosso. Os resultados desta avaliação estariam fortemente prejudicados se
não contassem com os conhecimentos de meteorologistas, geoquímicos,
nutricionistas, dentistas e veterinários, entre outros profissionais, que analisaram
todos os riscos, desde a contaminação do solo onde as reservas se encontram até
a qualidade da água e dos peixes que estão sendo consumidos. Os diversos
profissionais que atuam na promoção da saúde têm conhecimentos específicos
que são indispensáveis na resolução de alguns problemas, principalmente quando
nos referimos às variáveis epidemiológicas que podem estar associadas a
algumas enfermidades (BRASIL, 2002).
A utilização de agrotóxicos de forma indiscriminada e mal orientada
por parte de produtores rurais também tem originado sérios riscos a saúde
humana e dos animais. Os profissionais envolvidos nas equipes de Vigilância
Ambiental devem estar cientes do perigo que este material químico representa,
quais seus efeitos e que medidas de prevenção e controle devem ser utilizadas
com a finalidade de diminuir os riscos causados pela exposição ao produto e pelo
seu lançamento no meio ambiente (FIORI, 2004).

O Medico Veterinário tem conhecimentos gerais sobre as ciências


do ambiente, aprendidos em seus estudos de ecologia. No entanto, para ocupar
seu espaço dentro da Vigilância Ambiental, este profissional deve dominar outros
assuntos relativos ao meio ambiente, como as relações ambiente-enfermidade, as
interferências das atividades agropecuárias sobre o ambiente e os modelos de
avaliação de estudos de impacto ambiental. Além disto, deve conhecer a
tecnologia básica para a proteção e saneamento ambiental (TORRES, 2003).
O conhecimento das condições ambientais, locais ou regionais e das
atividades socioeconômicas é de extrema importância para a escolha das medidas
adequadas de prevenção e eliminação dos riscos gerados pelos agravos
desencadeados pela interferência do homem no meio ambiente (MACIEL et al.
1998). Assim, o trabalho interdisciplinar e a inter-setorialização dos grupos que
planejam, executam e avaliam estudos e programas de Saúde Pública abrem
oportunidades para a presença do Médico Veterinário no segmento da Vigilância
Ambiental, principalmente se tratando da avaliação dos impactos ambientais
sobre a saúde da população. Dentro deste contexto, o Médico Veterinário tem
somado seus conhecimentos aos de outros profissionais e desempenhado um
papel de grande importância no que se refere ao controle da saúde em situações
relacionadas ao meio ambiente (CIFUENTES, 1992).
2.3. ENSINO DA DISCIPLINA SAÚDE PÚBLICA NOS CURSOS DE
MEDICINA VETERINÁRIA NO BRASIL

O reaparecimento de enfermidades consideradas erradicadas em


alguns lugares, o surgimento de novas doenças relacionadas ao meio ambiente e
a produção de alimentos a nível mundial constituem alguns dos grandes desafios
que todos os países têm enfrentado nos últimos anos. Dentro deste contexto, o
Médico Veterinário tem um papel fundamental tanto na prevenção e controle das
doenças transmissíveis aos homens em decorrência de um desequilíbrio
ambiental quanto nas de potencial impacto no comércio internacional de
produtos de origem animal (MODOLO, 2004).

A formação acadêmica do Médico Veterinário engloba o estudo de


várias atividades que podem vir a ser desenvolvidas por este profissional. Um
estudo realizado, recentemente, nas oito Instituições mais antigas de Ensino
Superior de Medicina Veterinária no Brasil demonstrou que a maioria dos
conhecimentos passados nestes cursos é referente à prática da clínica veterinária,
estando as áreas de zootecnia e produção animal em segundo lugar. Este trabalho
também revelou que os assuntos concernentes a Medicina Veterinária Preventiva
e Saúde Pública ocupam um espaço bem pequeno dentro da grade curricular de
todas estas instituições (PFUETZENREITER & ZYLBERSZTAJN, 2004).

Este estudo citado anteriormente destacou o fato de que as


disciplinas que abordam os conteúdos relacionados à higiene, inspeção e
tecnologia de alimentos ganham destaque sobre as disciplinas que abordam os
conteúdos relativos a epidemiologia, zoonoses, educação em saúde,
administração e planejamento em programas de saúde coletiva dentro das grades
curriculares dos cursos de Medicina Veterinária no Brasil (PFUETZENREITER
& ZYLBERSZTAJN, 2004 ).

Esta baixa representatividade de conteúdos teóricos e práticos da


Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Pública dentro da carga horária dos
cursos indica que o ensino nas Faculdades de Medicina Veterinária ainda não foi
readaptado a este emergente mercado de trabalho (PFUETZENREITER &
ZYLBERSZTAJN, 2004), ainda que a importância do Médico Veterinário na
Saúde Pública tenha sido reconhecida pela OMS desde 1975 (WORLD
HEALTH ORGANIZATION, 2002).
Além disto, existe um outro grande problema relacionado ao ensino
dos conhecimentos referentes à Saúde Pública nos cursos de Medicina
Veterinária no Brasil, a falta de capacitação do corpo docente. A grande maioria
dos professores desta área possui pouca ou nenhuma experiência prática nos
serviços de saúde coletiva, passando aos estudantes apenas informações teóricas,
aprendidas através do estudo e não da vivência profissional, e que não estão
direcionadas a solução de problemas reais que poderão surgir como um desafio
aos futuros Médicos Veterinários (ARRUDA, 2004).

A maioria dos cursos de Medicina Veterinária brasileiros não possui


uma estrutura favorável ao desenvolvimento de atividades práticas relacionadas
às áreas de atuação do Médico Veterinário em Saúde Pública. Devido a quase
não existência de parcerias com os orgãos públicos responsáveis pelos serviços
de saúde, como as Secretarias de Saúde Estaduais e Municipais, o aprendizado
torna-se muito teórico. Este problema não ocorre em relação a clínica médica e
cirúrgica e a produção animal, pois nestas áreas o estudante pode acompanhar de
perto o desempenho profissional dos professores, uma vez que as clínicas e os
setores zootécnicos encontram-se dentro da próprio campus universitário (LIMA
JÚNIOR, 2001).

Outros fatores associados ao ensino, como o número reduzido de


aulas práticas, o número elevado de alunos por turma - que, em algumas
Instituições, chega a 40 ou 50 alunos, a existência de um único professor para a
disciplina e o fato dos serviços de Saúde Pública serem realizados por orgãos que
estão no ambiente externo da Universidade, têm feito com que alguns estudantes
acabem desestimulando-se e não considerando a Saúde Pública como um futuro
campo de atuação profissional (LIMA JÚNIOR, 2001; PFUETZENREITER &
ZYLBERSZTAJN, 2004).

O principal foco das disciplinas referentes à Saúde Pública deve ser


o estudo da coletividade, englobando a análise das populações e a importância
dos problemas relacionados ao meio ambiente em que vivem. Os estudantes
devem ser apresentados a conteúdos essenciais às diferentes áreas de atuação do
Médico Veterinário em Saúde Pública, principalmente os relacionados às
Vigilâncias Epidemiológica, Ambiental e Sanitária. As zoonoses e outros agravos
de relevância não devem ser discutidos como entidades separadas, e sim como o
resultado do tipo de agrupamento adotado pela população, da infra-estrutura
presente na mesma e das interações existentes entre os indivíduos inseridos nela
e em outros agrupamentos (LIMA JÚNOR, 2001).
A ampliação do papel desenvolvido pelo Médico Veterinário na
Saúde Pública está condicionada ao aumento de informações concernentes a este
assunto nas grades curriculares dos cursos superiores (PFUETZENREITER &
ZYLBERSZTAJN, 2004), incluindo a legislação em vigor, e a uma maior
capacitação do corpo docente destas Instituições de Ensino Superior (LIMA
JÚNIOR, 2001).
Por entender esta dificuldade enfrentada pelos profissionais recém-
formados, a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) reestruturou,
há alguns anos, as atividades de ensino referente às áreas de atuação do Médico
Veterinário em Saúde Pública. Este curso firmou uma parceria com o Centro de
Vigilância Ambiental da prefeitura de Recife - PE, tornando possível não só a
visita freqüente de estudantes a esta instituição, mas também a participação
destes nos diferentes programas desenvolvidos por ela (LIMA JÚNIOR, 2001).

Na UFRPE, os estudantes da disciplina de Saúde Pública recebem


orientação dos profissionais responsáveis pelos programas de promoção da saúde
coletiva e podem fazer suas próprias avaliações, confrontando as medidas
utilizadas por estes com a realidade local. No Centro de Vigilância Ambiental de
Recife, eles mantêm contato não só com os serviços de Saúde Pública, mas com
o pessoal responsável pela escolha das medidas que estão sendo adotadas. Uma
vez que estes profissionais que atuam na área transmitem seus conhecimentos
teóricos somados a suas experiências bem sucedidas ou não, o aprendizado
destes estudantes torna-se mais efetivo (LIMA JÚNIOR, 2001).

Atualmente, algumas prefeituras de Pernambuco estão oferecendo


estágios, inclusive remunerados, nos serviços de Vigilância Sanitária aos
estudantes da UFRPE. Como resultado desta parceria, o interesse dos estudantes
da UFRPE pela Saúde Pública aumentou e hoje, em Recife, aproximadamente
50% dos profissionais de nível superior que atuam nos serviços de Vigilância
Sanitária são graduados em Medicina Veterinária (LIMA JÚNIOR, 2001).

3. DISCUSSÃO
Desde que foram estabelecidos os padrões de convivência coletiva,
o homem tem lutado contra as enfermidades que põem em risco a saúde dos seus
animais. No entanto, muitas das doenças que dizimaram seus rebanhos também
foram responsáveis pela morte de milhares de pessoas. A Medicina Veterinária
surge, em primeira instância, como uma promotora da saúde dos animais,
tentando diminuir prejuízos causados pelas moléstias que os atingiam. No
entanto, com o passar do tempo e o surgimento dos serviços de Saúde Pública,
seus conhecimentos de medicina veterinária preventiva começaram a ser
utilizados também para a promoção da saúde humana.

O Médico Veterinário foi, inicialmente, inserido nas equipes de


Saúde Pública por estar apto a obter um diagnóstico seguro, estabelecer um
tratamento eficaz e controlar as doenças dos animais antes que estas viessem a
ser transmitidas aos homens. Além disto, outras habilidades aprendidas durante a
sua formação acadêmica e que se tornaram privativas da sua profissão, como a
higiene e inspeção de matadouros, frigoríficos e indústrias de produtos de origem
animal, solidificaram a participação deste profissional na Vigilância Sanitária,
sendo este o primeiro campo de trabalho da Saúde Pública a abrir espaço para a
sua atuação.

Nas últimas décadas, novos desafios têm surgido para a Saúde


Pública; muitos destes vieram como resultado do sistema de globalização
mundial, que tem intensificado o tráfego de pessoas, alimentos e bens de
consumo entre os diferentes países. Algumas enfermidades romperam as
barreiras de proteção territoriais e estabeleceram-se em lugares onde antes não
existiam. Dentro desta realidade, os profissionais da saúde vêm tentando
responder a estes desafios com eficácia, debelando as fontes de contaminação e
impedindo a proliferação das enfermidades em suas áreas de responsabilidade.
Neste contexto, torna-se cada vez mais necessária a consolidação
das posições conquistadas pelos Médicos Veterinários na Saúde Pública, bem
como a conquista de novos espaços, principalmente dentro das equipes de
Vigilância Epidemiológica e Ambiental.

O fato de grande parte da população ainda desconhecer a


importância da participação do Médico Veterinário na Saúde Pública tem sido
uma barreira enfrentada para a devida ocupação destes espaços. As atividades
que este profissional desenvolve são, muitas vezes, divulgadas de forma limitada,
atribuindo a estes apenas a prática da clínica médica veterinária e a inspeção
sanitária dos matadouros.

A OMS tem ressaltado a importância da participação do Médico


Veterinário no planejamento e avaliação das medidas preventivas e de controle
adotadas pelas equipes de Saúde Pública (WORLD HEALTH
ORGANIZATION, 2002). A investigação e descoberta do foco das doenças, o
conhecimento dos meios de transmissão, o levantamento epidemiológico dos
casos, a detecção de animais transmissores, a investigação sobre a presença de
vetores, são atividades de grande importância que podem ser desenvolvidas com
grande eficácia por este profissional. Somente através da obtenção de dados
seguros sobre a enfermidade pode-se analisar bem a situação e estabelecer as
ações de prevenção e controle adequadas a cada situação.

Nos países em desenvolvimento, incluindo o Brasil, o trabalho do


Médico Veterinário ainda limita-se a prevenção das zoonoses endêmicas
(Leishmaniose, Raiva, Leptospirose, Dengue, Febre Amarela, Malária, Peste,
entre outras), emergentes e re-emergentes, além de atuar na inspeção e controle
dos locais de abate e comercialização de produtos de origem animal. Em países
desenvolvidos, este profissional já vem utilizando seus conhecimentos de
biologia, ecologia, medidas gerais de profilaxia, medicina veterinária preventiva,
administração, entre outros, para desempenhar várias funções nas diferentes áreas
da Saúde Pública, inclusive coordenando as equipes de vigilância.

A abertura deste novo campo de trabalho já começa a despertar


interesse em algumas Instituições de Ensino Superior no Brasil. Anualmente,
Mais de 9.300 vagas são oferecidas nos cursos de Medicina Veterinária
brasileiros, dando uma idéia da quantidade de profissionais que estão entrando no
mercado de trabalho a cada semestre. A maioria destes profissionais está
despreparada para desenvolver uma outra função, que não a de sanitarista, nos
orgãos e instituições que promovem a Saúde Pública em nosso país (SANTOS et
al, 2004).

Isto tem ocorrido como resultado da pouca ênfase que os cursos


superiores têm dado ao ensino teórico e prático dos conteúdos relacionados às
diferentes áreas de atuação do Médico Veterinário na Saúde Pública. No Brasil, a
maioria dos profissionais que estão trabalhando nesta área adquiriu o
conhecimento necessário para desenvolver suas atividades através de estágios
extracurriculares ou do Estágio Supervisionado Obrigatório que realizaram antes
da conclusão do seu curso. Além disto, o número de Médicos Veterinários que
têm buscado cursos de especialização em Saúde Pública após a graduação tem
aumentado consideravelmente nos últimos anos.

O século XXI promete várias mudanças na estrutura organizacional


dos sistemas de saúde. A OMS estima que a população mundial dobre de
tamanho nos próximos 10 anos, e que mais de 50% desta viva em áreas urbanas.
Além disto, é esperado que o aumento da temperatura global provoque novas
mudanças climáticas que continuarão a causar problemas as equipes de Saúde
Pública em todo o planeta (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2002).
Assim, é imprescindível que os profissionais responsáveis pela promoção da
saúde coletiva estejam cada vez mais preparados para enfrentar estes novos
desafios. Neste contexto, estão englobados os Médicos Veterinários.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho favoreceu uma maior percepção da importância


da participação do Médico Veterinário nas equipes de Saúde Pública,
historicamente e na atualidade, bem como a necessidade urgente da reavaliação
das grades curriculares das instituições de ensino superior de Medicina
Veterinária, incluindo conhecimentos aprofundados e práticos nas áreas de
ciências ambientais, epidemiologia, ecologia, saneamento ambiental, medicina
veterinária preventiva e saúde pública, para que os profissionais possam ser
incorporados e oferecer sua contribuição a esses setores na Saúde Pública.

Muitos desafios surgem a cada dia para o Médico Veterinário. Uma


vez que a sua atuação como promotor da saúde coletiva ainda não foi
completamente reconhecida por grande parte da população dos países em
desenvolvimento, este profissional tem perdido espaços de atuação dentro da
Saúde Pública. Em contra partida a este fato, Médicos Veterinários que tem
demonstrado sua competência para desenvolver atividades, que antes já eram
desenvolvidas por outros profissionais da saúde, têm aberto novos espaços de
atuação na Saúde Pública para uma geração futura. São necessários vontade
política e desempenho dos Médicos Veterinários para que o conceito de Saúde
Pública seja realmente entendido e absorvido pela população.
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Por Cleiton Fiuza