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Os plátan

também
se abatem
REPORTAGEM

Vivemos num país que não gosta de árvores? En-


quanto os incêndios florestais são quase uma ins-
tituição nacional, nas cidades, outras ameaças
cercam o património arbóreo. Colaborar ¬
com uma associação ambientalista ou escrever
num blog são duas maneiras possíveis de defen-
der as nossas árvores. Para começar,podemos ¬
tratá-las pelo nome próprio.
TEXTO Carla Maia de Almeida ¬ FOTOGRAFIA Luciana Cristovam (Lisboa) Cláudio Capone (Porto)

54 » noticiasmagazine 30.ABR.2006
nos

55 » noticiasmagazine 00.MÊS.2006
À esquerda,
salgueiro-chorão
no Campo de
Santana.

À direita,
em cima: cipreste
centenário no
Jardim do
Principe Real.
Em baixo: plátano
com trinta
metros de altura
no Hospital
Pulido Valente,
ao Lumiar. Na
página seguinte,
em grande plano,
cedro-do-hima-
laia no Campo
de Santana
(Lisboa).

E ste Verão vão faltar


sombras no jardim
central de Pinhal No-
vo. Uma fúria serra-
dora abateu-se sobre os plátanos, deixando-
-os irreconhecíveis, uns troncos com meia
dúzia de ramos em forma de garra, ou me-
nos do que isso. Talvez ficassem bem nos ce-
to ao ar livre, gigantesco, a abarrotar de auto-
móveis, é nestes parques de cimento que a
maioria dos «avôs Júlios» e família prefere
passar uma tarde soalheira de Primavera.
Porque, bem vistas as coisas, para que ser-
ve uma árvore? Para ocupar lugares de esta-
cionamento, para perder ramos que danifi-
cam os carros, para levantar passeios com as
origem do abate de árvores no espaço públi-
co. Se não o abate, outras medidas drásticas,
como sucedeu no Pinhal Novo [ver caixa na
página 57].
Para a dirigente da SPA, a ideia não é criar
aqui uma outra espécie de vaca sagrada: «Se
uma árvore incomoda, é preciso ver se o
problema é real ou se não são as tais “pres-
nários assombrados de Tim Burton, mas a raízes, para produzir folhas que entopem as sões de particulares”. Se é real, então é me-
vida é outra coisa, quem sabe. As poucas pes- caleiras das casas, para criar hostilidades en- lhor perceber o que se passa e fazer qualquer
soas que, num domingo à tarde, gozam o sol tre vizinhos, para tirar a vista para a rua, pa- coisa; por exemplo, substituí-la por outra.
ainda cerimonioso da Primavera, procuram ra provocar alergias várias, para abrigar pás- A verdade é que se planta muito mal, por
os cantos mais abrigados por arbustos, alen- saros que largam dejectos incómodos na ca- norma. Plantam-se árvores desadequadas
tando conversas espaçadas, enquanto os beça dos desprevenidos… e ficamos por ao lugar que vão ocupar, ou mal formadas
bancos de pedra permanecem vazios, inós- aqui. No que respeita às árvores, é grande o desde o início, ou usando técnicas erradas.»
pitos, como tudo o resto. rol das contrariedades apontadas pelo ho-
O pinheiro manso, símbolo da vila, é ago- nesto cidadão, quantas vezes eleito em de- Essas malditas rolagens
ra a árvore que governa o recinto, onde ca- mocracia. Como diria Ana Júlia Francisco, O cargo de técnica da Divisão de Jardins da
bem também a igreja, o coreto, o parque in- parece que «as árvores só são boas quando Câmara Municipal de Lisboa permite a
fantil e, cruzada a rua, a estação de caminho- não estão à nossa porta». Ana Júlia Francisco lidar de perto com a
-de-ferro. É uma das saídas possíveis. Este Presidente da direcção da Sociedade Por- realidade, mas, porque o emprego é absor-
Verão, quando o jardim se transformar nu- tuguesa de Arboricultura (SPA), associação vente, o tempo que sobra para as iniciati-
ma eira de calor, vão ser muitos os desertores fundada no Porto e vocacionada para a pro- vas da SPA é pouco. O caso das rolagens no
do Pinhal Novo, sôfregos por um vento de tecção do património arbóreo das zonas ur- jardim do Pinhal Novo foi apenas um dos
praia ou pelo fresco artificial dos centros co- banas, Ana Júlia Francisco acha que, em que lhe escaparam das mãos, até porque,
merciais, agora pomposamente chamados Portugal, «há aqueles que querem muito as «quando soube, já era um facto consuma-
de fóruns. Visto da estrada, o anúncio, quase árvores e aqueles que não as querem de to- do». As rolagens, essas podas radicais que
comovedor, diz que é no Fórum Montijo que do». Os segundos são, em regra, responsá- deixam as árvores enfraquecidas e comple-
«o avô Júlio vai passar as tardes de domingo veis pelas chamadas «pressões de particula- tamente descaracterizadas, não são um
com a neta». Os jardins estão fora de moda, res», esse saco azul de reclamações onde ca- problema de agora. «Vem da tradição de
não há dúvida. A avaliar pelo estacionamen- be quase tudo. Muitas vezes, estão na podar as árvores de fruto, uma prática co-

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mum. Mas parece-me que nestes últimos
anos as situações são cada vez mais graves,
Cortar árvores melhora o ambiente?
mesmo chocantes», acusa. A princípio, alguém sugeriu resistência», desenvolvimento, emitindo
Um livro que permanece como referên- que tinha sido por causa da acrescentando que uma muitos ramos, o que é feito
cia na questão de pensar a função da árvore, gripe das aves (sem ramos, intervenção idêntica tinha à custa da perda das suas
também na sua relação com aspectos cultu- não há ninhos…). Mas não. sido feita há três anos. reservas. Mas já está
rais, ecológicos e paisagísticos, é A Árvore em A vereação do Ambiente e Opinião diferente tem Ana completamente descarac-
Portugal, de Gonçalo Ribeiro Telles e Fran- Infra-Estruturas da Câmara Júlia Francisco, presidente terizada. Ainda por cima,
cisco Caldeira Cabral. Reeditado pela Assí- de Palmela fez saber à nm, da direcção da Sociedade são ramos perigosos,
rio & Alvim em 1993, foi publicado pela pri- através dos seus serviços Portuguesa de porque são desestrutu-
meira vez em 1960, e já então contestava a de comunicação, que as Arboricultura, para quem as rados e partem-se
prática das rolagens. Leia-se, na página 163: rolagens no jardim de Pinhal rolagens «são uma espécie facilmente. Não é verdade
«O maior elogio que se pode fazer a um po- Novo foram uma resposta de morte lenta». Explica: que rolar as árvores as
dador de árvores ornamentais é que não se às reclamações da popula- «Inicialmente, a árvore vai torna mais fortes, pelo
perceba que a árvore foi podada. A forma na- ção, desagradada com ter um grande contrário.»
tural da árvore é perfeita e portanto não é «problemas de alergias»
AUGUSTO FERREIRA
necessário corrigi-la no sentido estético alegadamente provocados
nem fisiológico.» pelos plátanos. Acreditam
A noção de que uma árvore possa ser uma que estas não
entidade viva e perfeita é algo difícil de en- reaparecerão nos próximos
tender, quando na balança pesam argumen- dois anos, «dado que se
tos medidos noutra escala de valores. É ver- controlou a causa».
dade que árvores e jardins ajudam a vender Manifestando «plena cons-
apartamentos, mesmo se os prometidos «es- ciência e conhecimento
paços verdes» acabam por ficar só pelo car- técnico sobre a
taz publicitário… Mas, paradoxalmente, e a agressividade das
avaliar pelo cinzentismo crescente dos nos- rolagens», consideram que
sos aglomerados urbanos (o que não é o mes- os plátanos não ficam por
mo que dizer «cidades» e «vilas»), plantar ár- isso ameaçados, «dada a
vores e cuidar bem delas não compensa o in- sua dimensão e conhecida
vestimento. É mais fácil cortar a direito.

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Política e palpites
Ana Júlia Francisco diz que «um dos proble- Árvores ao abrigo da lei
mas dos municípios mais pequenos é não te- O que são árvores de inte- cinquenta metros, sob pena responder. É feita uma ava-
rem pessoal com conhecimentos técnicos resse público? de multa. Têm um estatuto liação e, se os critérios fo-
adequados para tratar do arvoredo». Outras São árvores classificadas de protecção idêntico ao do rem preenchidos, a(s) árvo-
vezes, são os «interesses políticos maiores» que se distinguem pelo por- património construído. re(s) passa(m) a integrar a
que se sobrepõem. A afirmação é secundada te, estrutura, idade ou rari- Quem pode propor a classificação de interesse
por Maria Domingas Araújo, engenheira dade, bem como pela rele- classificação? público. A decisão é publica-
agrónoma e vice-presidente da Sociedade vância histórica e/ou cultu- Qualquer cidadão ou entida- da no Diário da República.
Portuguesa de Arboricultura [NR: cessou o ral. Podem ser árvores de pode apresentar uma Quantas árvores classifi-
mandato recentemente, sendo substituída isoladas, maciços, bosque- proposta fundamentada à cadas há em Portugal?
por Isabel Lufinha e Rui Afonso]: «Neste tes ou alamedas. Direcção-Geral dos Recur- Cerca de 360. Entre estas, a
momento já há muitos técnicos que têm es- Como estão protegidas? sos Florestais (DGRF) ou à árvore mais alta da Europa,
ses conhecimentos, mas as suas opiniões Pelo Decreto-Lei n.º 28468, respectiva delegação regio- um eucalipto centenário que
não são tidas como importantes. E as deci- de 15 de Fevereiro de 1938, nal, sem custos associados. atinge 75 metros de altura.
sões sobre as árvores são políticas, quando que condiciona qualquer Como decorre o processo? Encontra-se na Mata de Vale
não deviam ser.» intervenção (incluindo Após a recepção do pedido, a de Canas, freguesia de
A meio do percurso pedestre pelo Parque corte ou poda) num raio de DGRF tem trinta dias para Torres do Mondego, Coimbra.
Biológico de Gaia, onde a SPA tem a sua sede
e apoio logístico, Maria Domingas lamenta
que, em relação às árvores, desde o jardineiro res na cidade não precisam de ser podadas. que não sabemos os nomes das constelações.
ao vereador, «toda a gente dê palpites, o que é Precisam, às vezes, de ser conduzidas. Nós Nas cidades, a vida corre demasiado rápida
péssimo». Admitindo que há «uma persegui- também não andamos sempre a cortar o ca- para que cultivemos o luxo de distinguir um
ção ao elemento árvore», contesta o conceito belo…» Definitivamente, acha que «a falta de plátano de uma tília, ou um cedro de um pi-
prevalecente, herdado da agricultura: «Uma conhecimento» é o maior problema do nosso nheiro – e, de resto, as constelações já quase
árvore de fruto dura pouco tempo e nesse património arbóreo. «É importante as pes- não se percebem, num céu baço de tanta luz
tempo quer-se que ela produza muito. Ora, na soas perceberem o que se passa à volta delas artificial. Haverá sempre quem diga isto e
cidade, a árvore tem um papel completamen- para respeitarem o que têm», conclui. haverá sempre quem faça o contrário disto,
te diferente! Queremos é que ela dure muitos talvez por acreditar que «as coisas, quando
anos e com muita qualidade, e para isso temos Árvores na blogosfera não são anónimas, suscitam outro interesse
de lhe dar condições.» Por exemplo, «não «Há, decerto, pessoas felizes que sabem o e, sobretudo, outro carinho».
pondo plátanos em passeios de dois metros», nome das árvores», diz um verso de Cecília Maria Carvalho, professora de Matemáti-
condenando-os a um encarceramento ingló- Meireles. Desatentos, apressados, ocupados, ca na Faculdade de Ciências da Universida-
rio; ou acabando de vez com a prática desne- referimo-nos às árvores como «árvores», da de do Porto, é uma das dinamizadoras do
cessária das podas, radicais ou não. «As árvo- mesma forma que dizemos «estrelas» por- Dias com Árvores (http://dias-com-arvo-

À esquerda,
tulipeiro
na Praça
Pedro Nunes.
À direita,
Jardim do
Passeio Alegre;
araucária
e alinhamento
de plátanos
no Jardim da
Cordoaria
(Porto).
res.blogspot.com), um blog para quem se in- A bela e o monstro
teressa afectivamente por árvores, flores, Muito mais do que o oxigénio A realidade nem sempre é a cores e, ao fim de
jardins e essas coisas que o «avô Júlio» se tem «Na cidade, algum tempo, sentiram a necessidade de pôr
esquecido de mostrar à neta. Os outros dois a árvore em link um irmão gémeo do blog, tão descon-
elementos são Paulo Araújo, também mate- comporta-se solado como o nome que lhe deram: Dias sem
mático, e Manuela Ramos, professora de de maneira Árvores. «É um arquivo de coisas tristes», ex-
Português do ensino básico, que teve a ideia diferente do plica Paulo Araújo, o mais cáustico dos três:
de criar o blog, em Julho de 2004. Uniu-os a que na floresta.» «Para que o álbum de horrores não contami-
autoria do livro À Sombra de Árvores com His- nasse o nosso blog, separámo-lo e pusemo-lo
ANA JÚLIA FRANCISCO
tória (edição da associação ambientalista (SOCIEDADE
num compartimento à parte. Há limites para
Campo Aberto) e, é claro, as afinidades electi- PORTUGUESA DE a campanha cívica. A partir de um certo pon-
vaspróprias de uma amizade. Não por acaso, ARBORICULTURA) to, quando se constata que a influência dos
começaram o blog com os metrosíderos da blogs e até de livros de pessoas autorizadas é
foz do Douro, árvores da Nova Zelândia que, «As árvores são boas porque nos praticamente nula, é melhor largar o tema ou
por cá, escolhem essa altura do ano para re- dão oxigénio», aprende-se cedo na então arrumá-lo num canto.» Sentada do la-
velarem as esplêndidas flores vermelhas. escola. Mas a função de uma árvore na do da janela, Manuela Ramos desvia o olhar
Desde então, o blog tem sido uma espécie cidade ultrapassa essa verdade óbvia. das árvores de Serralves, onde a conversa de-
de noticiário para os amantes das árvores. Além da redução da poluição atmosfé- corre, e lembra o caso recente da Avenida da
Porque não há só esses «seres bizarros de rica, as árvores influenciam a Boavista, onde as tílias foram sacrificadas pa-
apartamentos» de que fala Maria Carvalho, qualidade da água e do solo; por ra que o Desfile de Carros Antigos, promovi-
vivendo «entre a casa, a garagem e o traba- exemplo, interceptando a precipitação do pela Câmara Municipal do Porto, possa de-
lho», desconfiados do que se passa lá fora. e regulando o seu escoamento. correr em todo o seu esplendor, uma vez por
Comentários, fotografias, conselhos de jar- Além disso, diminuem os níveis de ano. Apenas um exemplo entre muitos.
dinagem, excertos de textos, citações e ver- ruído, reduzem a velocidade do vento Os leitores indignam-se e contribuem pa-
sos como os de Cecília Meireles aparecem no e suavizam as temperaturas – que ra alimentar o monstro. Chegam ao blog si-
blog a um ritmo diário, sem falta de assunto, nas cidades tendem a ser mais ele- tuações mais distantes, como a dos majesto-
movidos pelo suceder das estações. O Inver- vadas –, filtrando a radiação solar e di- sos plátanos de São Martinho do Porto, con-
no lembra que o Porto é a cidade das camé- minuindo os reflexos à superfície. Qua- celho de Alcobaça, abatidos para dar lugar a
lias, o Verão regressa com os jacarandás em se instintivamente, tendemos a procu- um jardim (por enquanto em obras…); ou dos
flor. Os posts têm títulos como «Gota de chu- rar jardins e ruas com árvores, carvalhos centenários sumariamente poda-
va em ramo de lódão», «A magnólia do dia», talvez porque, além do valor estético, dos em Beijós, distrito de Viseu. E fala-se
«Impressões de um passeio», «A palmeira é em lugares arborizados que percebe- também das «requalificações» que não têm
que canta» ou «As mirtáceas acordaram». mos o que significa isso da poupado partes emblemáticas da cidade. De-
A provar-se a possibilidade de um telejornal «qualidade de vida». pois do Jardim da Cordoaria, Leões e Parada
feliz, talvez as notícias começassem assim. Leitão, endurecidos por febre granítica des-
frentam outro tipo de agressões e têm poucos
direitos. Além da classificação de interesse
público [ver caixa na página 58],a legislação ac-
tual protege apenas algumas espécies, como
o sobreiro, a azinheira e o azevinho. «Era pre-
ciso uma regulamentação a nível nacional,
que definisse regras básicas em termos de
protecção e plantação das árvores», advoga a
presidente da SPA: «Depois, seria ajustada a
nível local, já que cada município tem as suas
características – geográficas, climáticas, cul-
turais, etc.» E conclui: «Faria sentido que a Di-
recção-Geral dos Recursos Florestais tivesse
uma área dedicada à arboricultura urbana.»
Mas não tem. Ainda. Por enquanto, a maior
salvaguarda das árvores é a lei que as classifi-
ca como sendo de interesse público, apesar de
datada de 1938. António Campos Andrada,
As árvores do Porto responsável pela Divisão de Protecção e Con-
servação Florestal da DGRF, reconhece que a
A primeira edição, de 2004, esgotou em pouco tempo, mas uma lei é «omissa e confusa», adiantando à nm que
segunda versão, revista e acrescentada, está a aguardar se está a trabalhar no sentido de «criar legis-
impressão. Autores: Paulo V. Araújo, Maria P. de Carvalho e lação mais completa», em conjunto com di-
Manuela D. L. Ramos, a equipa do blog Dias Com Árvores. Muitas versas associações ambientalistas. E será pa-
fotografias, textos bem fundamentados e fichas de apresenta- ra quando? «Ainda não sabemos.»
ção; as mesmas que estiveram na origem da proposta de clas- Entretanto, as árvores hão-de manter o
sificação de «árvores de interesse público». Lá estão as seu estado interessante, e certas ruas e certos
magnólias do Jardim de São Lázaro, as araucárias do Palácio de lugares hão-de surgir, como sempre, incon-
Cristal, os plátanos da Cordoaria, o tulipeiro da Casa Tait e fundíveis. O jacarandá do Largo do Viriato,
muitas outras que fazem os dias dos portuenses e não só. no Porto, que faz parar o trânsito quando se
veste de lilás. O velho cipreste do Jardim do
Príncipe Real, em Lisboa, com mais de vinte
metros de diâmetro de copa. A oliveira de
de as obras do Porto 2001, é o Jardim do Mar- agora se semeou ali um relvado muito boni- São Tiago, no concelho de Tavira, nascida
quês que desaparece sob os avanços do me- to, vai cair, mais tarde ou mais cedo.» Em vez antes de Cristo. A alameda de plátanos de
tro. Quais serão os próximos? Arca d’Água? da obsessão com os relvados, «que requerem Ponte de Lima, a melhor sombra junto ao rio.
São Lázaro? A aterosclerose da pedra polida muita mão-de-obra, muita água e muitos O cedro colossal do Hotel Grão Vasco, em Vi-
progrediu para o coração da cidade, com a tratamentos», defende o conceito de «jar- seu… Árvores com história, à espera de quem
Avenida dos Aliados/Praça da Liberdade dins sustentáveis», a começar «pela escolha se interesse por saber.
irreversivelmente modificadas, apesar de de espécies adequadas, geograficamente e «As árvores do Porto precisam que as pes-
contestação pública, e o caso merece um link em termos de localização urbana». Maus soas mudem de perspectiva», diz Maria Car-
à parte no blog . exemplos não lhe faltam, desde os novos plá- valho. «E de Portugal!», acrescenta Manuela
tanos da Avenida da Boavista até às malogra- Ramos: «É preciso que as pessoas apreciem
Presentes envenenados das oliveiras que há algum tempo vegetaram o que têm, para que se torne inevitável fazer
Lembrando que a escola dos jardins român- na rotunda do Castelo do Queijo, até sucum- mais parques e jardins.» Para já, vão conti-
ticos do Porto vem do século XIX, Paulo birem aos rigores do clima atlântico. nuar a fazer crescer o Dias com Árvores, não
Araújo lamenta que haja «uma gestão preci- O mal está generalizado: muita urbaniza- com espírito de Cruzadas, mas, simplesmen-
pitada e uma ênfase na cosmética urbana, ção, poucas árvores. Não só na Grande Lis- te, com espírito e curiosidade. «Não sabemos
em lugar da valorização dos espaços e da boa e no Grande Porto, onde as áreas subur- assim tanto de árvores, mas vamos apren-
manutenção daquilo que já existe.» Opinião banas parecem concorrer com a aridez da dendo. Só nos faz bem estudarmos as coisas»,
semelhante ser-nos-ia dada pela presidente Lua… Cidades de dimensão média, como dizem. O investimento é pessoal e afectivo,
da SPA, Ana Júlia Francisco: «A moda destes Braga, Portalegre ou Caldas da Rainha, vê- não estão preocupados em aumentar as au-
últimos anos tem sido as requalificações, o em o seu espaço de construção aumentar diências; e talvez por isso não quiseram ser
que muitas vezes significa alterar completa- sem que um número proporcional de árvo- fotografados para esta reportagem.
mente um jardim, a sua história e o seu pas- res sejam plantadas e mais parques ou jar- Desde há cerca de um ano, os metrosíde-
sado, causando danos no arvoredo existen- dins sejam criados. Não há «municípios ver- ros do Passeio Alegre e da Avenida Montevi-
te ou mesmo eliminando-o. E para quê? Às des»; e os poucos em que o património arbó- deu, com que inauguraram o blog, ganharam
vezes, para se fazer outro jardim!» reo tem sido cuidado (seriam citados por o estatuto de interesse público. A proposta
Maria Domingas não é contra as requalifi- várias vozes os casos de Guimarães e Ponte foi deles. Uma das muitas que levaram à Di-
cações nem contra o essencial do famoso de Lima) não são suficientes para fazer es- recção-Geral dos Recursos Florestais. No
POLIS (Programa de Requalificação Urba- quecer a cinzenta maioria. Porto, durante décadas, contaram-se pelos
na e Valorização Ambiental das Cidades). dedos de uma mão as árvores classificadas.
Mas afirma que este é «um presente envene- Um estado interessante Em 2005, passaram de quatro para 242. Sim,
nado», por causa das intervenções à volta das Longe dos incêndios que têm devastado vas- leu bem: de quatro para 242. Mérito de três
árvores : «Uma árvore que esteve trinta anos tas zonas florestais, mas demasiado expostas bloggers que preferem dar todo o protago-
sem ser regada e depois passa a sê-lo, porque à negligência humana, as árvores urbanas en- nismo às árvores.«

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