Você está na página 1de 1

ALEGORIA ALEGORIA - Sucesso de metforas e/ou comparaes atravs das quais realidades abstractas so concretizadas.

Por meio desta figura, uma realidade abstracta, e por isso de mais difcil apreenso, substituda por, ou comparada com, uma realidade mais concreta e, portanto, mais compreensvel. Por esse motivo, a alegoria uma figura de estilo com uma dimenso textual invulgarmente extensa; por vezes abrange a totalidade de uma obra literria: o que acontece, por exemplo, no Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente. Nesse auto vicentino, a passagem da vida terrena vida depois da morte alegoricamente representada pela passagem de um rio, para a qual esto disponveis duas barcas, a barca do paraso e a barca do inferno. As almas so metaforicamente representadas por passageiros; o interrogatrio a que so submetidas representa o julgamento das almas subsequente morte; o destino de cada uma das barcas prefigura a salvao ou a condenao eternas. Embarcar numa ou noutra depende do comportamento das almas na vida terrena, e esse comportamento determina, portanto, o destino das almas depois da morte. Releia agora a alegoria da rvore utilizada pelo P. Antnio Vieira num dos seus sermes. (...) Uma rvore tem razes, tem troncos, tem ramos, tem folhas, tem varas, tem flores, tem frutos. Assim h-de ser o sermo; h-de ter razes fortes e slidas, porque h-de ser fundado no Evangelho; h-de ter um tronco porque h-de ter um s assunto e tratar uma s matria; deste tronco ho-de nascer diversos ramos, que so diversos discursos, mas nascidos da mesma matria e continuados nela; estes ramos no ho-de ser secos, seno cobertos de folhas, porque os discursos ho-de ser vestidos e ornados de palavras. H-de ter esta rvore varas, que so a represso dos vcios; h-de ter flores, que so as sentenas; e por remate de tudo isto, h-de ter frutos, que o fruto e o fim a que se hde ordenar o sermo (...). P. Antnio Vieira Este excerto bem elucidativo da natureza da alegoria. Para mostrar de forma mais expressiva como deve ser o sermo, o autor compara-o, nos seus diversos elementos, com uma rvore e as suas partes constituintes. Comea por estabelecer uma comparao genrica entre o sermo e a rvore: "Uma rvore tem razes, tem troncos, tem ramos, tem folhas, tem varas, tem flores, tem frutos. Assim h-de ser o sermo (...)". Um confronto do tipo "O sermo como uma rvore" no alcanaria a expressividade que Vieira pretende. E, ao desdobrar a rvore nos seus constituintes (razes, troncos, ramos...), abre o caminho alegoria, estabelecendo o paralelo entre cada deles e os elementos do sermo: [o sermo] "h-de ter razes (...); h-de ter um tronco (...); deste tronco ho-de nascer diversos ramos (...). O valor expressivo da alegoria resulta, principalmente, do facto de tornar mais perceptveis certas caractersticas das realidades abstractas, relacionando-as com outras, concretas. Neste caso, a natureza do discurso oratrio (sermo) torna-se mais visvel pela comparao com uma realidade concreta, de todos conhecida, a rvore.

Você também pode gostar