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ANTONIO MACHADO Na corrida contra os emergentes, Brasil pode ser exceção, e é isso que
ANTONIO MACHADO Na corrida contra os emergentes, Brasil pode ser exceção, e é isso que

ANTONIO MACHADO

Na corrida contra os emergentes, Brasil pode ser exceção, e é isso que alertam os investidores

País exibe as causas que geram a aversão ao risco, mas é dos poucos com mercado de massa, indústria variada e autossuficiente em quase todos os insumos

29/1/2014 - 02:15 - Antonio Machado

Os movimentos do dinheiro volátil pelo mundo estão castigando as economias emergentes, ao depreciar suas moedas em relação ao dólar e precipitar aumentos de juros contra as sequelas inflacionárias.

Assim fizeram a Índia, a Turquia e a Indonésia, países emergentes elencados nos mercados internacionais como bolas da vez, ao lado de Brasil e África do Sul. Não contam Argentina e Venezuela, tratados como economias arrasadas pelas decisões de seus próprios governos, e não pelo deslocamento tectônico da economia mundial.

Só que as coisas não são tão simples. Os emergentes nunca tiveram muitos traços em comum, afora grandes desequilíbrios econômicos e sociais e a expectativa de que repetissem o crescimento acelerado exibido pela China desde 1978. O hot money se move por percepções, parte devido ao viés simplificador dos economistas de mercado para dar marca a suas estratégias de investimento. É o caso do acrônimo dos BRIC, cunhado por um ex-estrategista do Banco Goldman Sachs.

É a expectativa disseminada em torno dos emergentes desde a grande crise que se abateu sobre EUA e Europa que talvez estivesse elevada demais e sofre agora um ajuste corretivo. Nem todos eles, a rigor, são “emergentes” - a imagem criada para distinguir os países pobres entre os em desenvolvimento e os com fortes prognósticos de estarem a caminho da liga principal da economia global em poucas décadas.

A intensa valorização das commodities entre 2003 e 2012, infladas pela meteórica ascensão da industrialização da China - que usufruiu como nenhum outro país a enorme liquidez e juros baixos nos EUA do governo Clinton em diante -, é a fonte da expansão também rápida de economias produtoras de matérias primas e alimentos, como o Brasil.

Vem dai a tese, agora desmontada, do descolamento do crescimento dos países emergentes em relação às economias avançadas, assim como a debacle do crédito nos EUA humilhou os economistas que falavam da “grande moderação”. Ou seja: os déficits dos EUA financiados pelas reservas da China neutralizariam as periódicas crises de acumulação de capitais. Tal distorção continua, prenunciando-se como principal fator de um eventual conflito geoeconômico entre EUA e China.

A China é que preocupa

Fato é que sem tal pano de fundo todas as economias emergentes são iguais, não haveria exceções – caso do Brasil, certamente da Índia, do México e de algumas

outras. A China se desgarrou dos emergentes, virou potência, embora tenha graves problemas políticos e sociais a resolver. O novo governo de Xi Jinping assumiu com este propósito.

E é isso, mais que a diminuição gradativa da liquidez criada pelo Federal Reserve

para impulsionar a economia dos EUA, que explica, provavelmente, as dúvidas sobre o desempenho futuro de países cuja sorte está atrelada em boa parte ao crescimento chinês, e não só: políticas domésticas criaram desequilíbrios fiscais e cambiais. E, ai sim, a sucção de dólares errantes pelo esperado aumento de juros dos EUA pode quebrar a perna de países com déficit externo e grande dependência da exportação de commodities para a China.

Alertas sem altruísmo

O Brasil, em princípio, apresenta as causas que geram a aversão ao risco que varre

os mercados de dinheiro no mundo: alto déficit em contas correntes (3,66% do PIB em 2013), déficit fiscal recorrente (ao redor de 3%) - apesar de carga tributária recorde entre países emergentes (36% do PIB) e a menor taxa de investimento, 19%, e de poupança, 16% -, inflação resistente (5,91% em 12 meses).

Mas há nuanças: é dos poucos, como a Índia, com enorme mercado de consumo a desbravar, além de apresentar uma base industrial variada e ser autossuficiente em quase todos os insumos, mesmo petróleo em médio prazo, o que nenhum outro emergente dispõe.

É isso que leva tanta gente influente mundo afora, como a presidente Dilma conferiu

no fórum de Davos, a cobrar reformas que sacudam a economia. Não o fazem por altruísmo. A economia brasileira é que é uma oportunidade rara a desperdiçar, como tem sido, em termos, nas últimas décadas.

Cultura de desperdícios

Desperdícios estão onde menos se espera. Dilma, por exemplo, foi a Davos “vender” o país aos investidores, apresentando as concessões, entre outras possibilidades, como filé mignon hoje no mundo. Só que se alguém se interessou não terá como atendê-la, já que falta papel para aplicar, razão de nenhum fundo de direitos creditórios sobre a receita futura dos projetos de infraestrutura ter decolado.

O governo oscila entre o intervencionismo, provocado pela ânsia de realizar alguma

coisa, e a obsessão pelos resultados que agradem ao mercado, mesmo quando não os têm, causa da “contabilidade criativa” dos números fiscais, que está mais para grosseria que ao iluminismo sugerido pela metáfora. O ano eleitoral e sinais de que China e EUA estão a caminho de grandes transformações aguçam tais percepções.

As mudanças necessárias

Então, é assim: o mercado distingue Brasil da Argentina, que vai a passos rápidos outra vez para o buraco, põe a economia brasileira alguns degraus acima dos emergentes, mas, por isso, tem sido mais exigente. A rigor, um superávit primário sem maquilagem, algo como 2% do PIB, nível que evita o aumento relativo da dívida pública, é um fator de desempenho cobrado e que Dilma anunciou que vai fazer.

Mas não é a transformação necessária.

Ela está no que faz o gasto fiscal crescer acima da arrecadação, sobretudo o custeio do Estado, subsídios ao setor privado e políticas sociais, desidratando toda a capacidade de o governo investir em infraestrutura e em serviços à sociedade, além de estar sempre atrás de mais receita e se forçar a se endividar. Outra transformação é a que leve a indústria a não só produzir, e hoje depender de importações, mas a se

integrar de modo a reter no país parte dos ganhos de inovação e poder desenvolvê-la também.

No atacado das reformas, estas são as que importam.