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Revista Portuguesa de História t. XXXI, Vol.

I(1996)

CARACTERÍSTICAS DA CULTURA PORTUGUESA: ALGUNS ASPECTOS E SUA INTERPRETAÇÃO*
JOSÉ M. AMADO MENDES

(Universidade

de Coimbra)

1. Noções de Cultura Até cerca de meados do século XX, era frequente identificar "cultura" com as conquistas do espírito, ao longo dos tempos, ao invés de "civilização", mais ligada ao progresso material . Porém, nas últimas décadas, graças à evolução, entre outros, dos estudos históricos, antropológicos e sociológicos, tem vindo a reforçar-se a ideia de que não basta falar de cultura, em geral, dada a existência de diversos tipos de cultura. Daí o facto de hoje se usarem frequentemente expressões como: cultura erudita e cultura popular, cultura de elites e cultura de massas, cultura literária, filosófica ou cultura científica ou técnico-científica; cultura material e cultura empresarial; culturas nacionais e culturas regionais, etc. Assim,
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* O texto que ora se publica, ampliado e anotado, serviu de base a uma conferência proferida na "Faculty of Education-Kyoto University" (Japão), no dia 23 de Fevereiro de 1996. Perspectiva ainda patente em T. S. Eliot, Notes towards the definition of culture, Londres, Faber & Faber, 1948 (reed., 1961).
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c) a experiência do homem no processo de produção e. Jorge Dias. Homo . a partir de Cícero. mas sim de uma cultura do «grosso da população» . cultura do espírito —. Joel Serrão (dir. «Cultura (conceito etnológico)». A. 21. Richard Bucaille e Jean-Marie Pezes. Dicionário de História de Portugal. vol. começou a ter grande divulgação o conceito de cultura material. Sob o ponto de vista etnológico. pois. literatura oral. não de uma cultura de elite. d) por último. 767. 3 4 5 2 . das pessoas e das coisas do processo de produção e de reprodução da vida material das sociedades no curso dos diversos estádios de desenvolvimento desses elementos».48 José M. ou seja. 31. atitudes. Em sentido absoluto. visando uma auto-transformação. Trata-se. A. p. Lisboa. Idem. 2 3 Por último. crenças mágicas e religiosas que caracterizam qualquer sociedade e constituem o seu património social» . a que podemos chamar o processo de humanização do homem» . três noções diferentes de cultura. 1963. b) o objecto do trabalho. Jorge Dias. por si e sobre si. I. Iniciativas Editoriais. 16. a partir dos anos 20 do nosso século.Cultura material. consoante a perspectiva que se adoptar. Amado Mendes podem dar-se várias definições de cultura. sabedoria. ou seja. «Cultura material». danças. a utilização dos produtos materiais . Jorge Dias definiu cultura como «sistema de ideias. vol. Estes são assim constituídos: a) os meios de trabalho. p. Enciclopédia Einaudi. o processo de evolução do espírito humano. Esta tem por objecto a história dos «elementos. filosófico e pedagógico-que. a título de exemplo. Vejamos. p. p. pode definir-se como «a acção que o homem exerce de si. 4 5 A. 1989. idem. Imprensa Nacional-Casa da Moeda.). técnicas. aparece como cultura animi. 768. padrões de comportamento. música.Domesticação . equipamento material. as riquezas naturais.

C. introdução. História da Filosofia portuguesa. ed. debateu-se a seguinte temática: «Existe uma cultura portuguesa?» . entre si. Em contrapartida.. 1988.Características da Cultura Portuguesa 49 Atendendo à similitude de diversos tipos de cultura. 1969. terei igualmente presente os outros tipos de cultura. The Two Cultures and a Second Look. Existe uma cultura portuguesa?. An expanded version of the Two Cultures and the Scientific Revolution. a cultura científica é realmente uma cultura. Augusto Santos Silva e Vítor Oliveira Jorge. não suscita dúvidas a existência de. 1993. Fixação do texto. linguística e artística—. enquanto alguns autores se têm batido pela existência de uma filosofia portuguesa (como José Marinho e Lopes Praça) . literária. ou mesmo um folclore português. P. 6 2. não só no sentido intelectual como antropológico» . procurando estudá-la e divulgá-la. uma literatura ou uma arte portuguesas. Edições Afrontamento. Lopes Praça. por exemplo. Guimarães Editores. notou a existência de duas culturas: científica e humanística. outros têm-na pura e simplesmente negado. 3 . Referindo-se à primeira. Snow. e à distinção que os opõe aos tipos de um outro grupo. notas e bibliografia por Pinharanda Gomes. 7 8 s . nos quais se integram alguns dos elementos a focar. Na caracterização da cultura portuguesa. reportar-me-ei essencialmente à cultura em termos genéricos—filosófica. Por sua vez. Cambridge University Press. que procurarei fazer seguidamente. Lisboa. para já não falar de outros 7 8 6 C P . na sua conhecida obra sobre o assunto. por se tratar da perspectiva adoptada pela maioria dos autores que têm focado o assunto. Porém. Snow. relacionada com as Humanidades. Porto. Cultura(s) Portuguesa(s)? Numa mesa-redonda realizada na cidade do Porto em 1992. afirma: «De facto.

do inglês). S. de facto. uma cultura portuguesa? Obviamente que responderei afirmativamente. 9 . p. com um substrato cultural de grande amplitude e cariz nacional. poderemos referir os seguintes tipos: erudita e popular. Eliot. desde logo. 1991. além dos aspectos genéricos e comuns. empresarial e operária. 21). coincidem formas de cultura mais circunscritas. Amado Mendes domínios da realidade histórica portuguesa. de todo o tipo. se ainda persistirem dúvidas. em mais de oito séculos. op. António Sérgio e Raul Proença a Joaquim de Carvalho. desde Jaime Cortesão. p. Todavia. Sobre as diversas culturas-ou o "pluralismo cultural"-. efectivamente. Mas. de um grupo ou classe e de toda uma sociedade (T. regiões e organizações/instituições —.. elas dissipar-se-ão após uma análise cuidada das obras de alguns dos mais eminentes historiadores da cultura portuguesa. as múltiplas realizações. pela respectiva língua. desejarmos analisar outros mais específicos—por estratos socioprofissionais. 319-326. levadas a cabo pelo povo português. a começar. Lisboa.50 José M. S. urbana e rural. Eliot distingue três sentidos (ou níveis) de uma cultura: individual. 9 T. de Jorge Dias e António José Saraiva a José Sebastião da Silva Dias. chegaremos à conclusão de que. voltando à questão incial. para me referir apenas aos já falecidos. existirá. Entre outras. Mesmo se. Para comprovar a asserção. que poderemos designar também culturas portuguesas. "Biblioteca de Filosofia Contemporânea". defendendo que há. bem assim. ver ainda Paul Feyerabend. 70. cit. não só uma cultura portuguesa como culturas portuguesas. Adeus à razão (trad. basta estudar-se a História de Portugal e. de âmbito nacional. Ed.

Identificação de um País. A formação de Portugal. do chamado "legado pré-nacional". Instituto de Cultura e Língua Portuguesa/ Ministério da Educação. pois. isto é a diferenciação do regnum (kingdom) como unidade política definida por um poder monárquico sobre um território limitado e os seus habitantes. Orlando Ribeiro. cujos traços fundamentais foram já devidamente salientados por Orlando Ribeiro . as quais permaneceram. Lisboa. 25-42. romanos.1. na obra intitulada Identificação de um País. com a crise —política e socioeconómica— de 1383-85. ainda poderá remontar a alguns séculos atrás. p. Esta resultava da transposição da noção de soberania senhorial para o âmbito e as dimensões do reino» . até à actualidade. Estampa. como nação. a consciência nacional acabaria por se tornar suficientemente sólida. 211.Características da Cultura Portuguesa 51 3. Afonso III). árabes. 1985. remonta ao século XII. sob uma perspectiva político-cultural. Por sua vez. sendo por isso um dos países mais antigos do Mundo. Trata-se. 11 10 . Ed. vol. Identidade nacional e História Portugal. 1987. 10 Com a conquista definitiva do "reino" do Algarve. "bárbaros". II: Composição. praticamente sem alterações. Portugal vê definidas as suas fronteiras. lusitanos. passando a ser partilhada por todas as camadas sociais. Elementos Caracterizadores da Cultura Portuguesa 3. em 1249 (reinado de D. etc). p. «a noção de identidade nacional. parece precoce e suficientemente clara desde a primeira metade do século XIII. Acrescente-se que a receptividade da cultura portuguesa 11 José Mattoso. habitaram a Península Ibérica (celtas. Como sublinhou José Mattoso. de longa data. se considerarmos o legado deixado pelos povos que. Esta longa história.

52 José M. 5. 13 14 15 12 . 12 Dada esta riquíssima e prolongada vivência histórica. António Manuel Hespanha. José Mattoso e João Medina. 93-94. Corroborando as palavras do autor. francesa. A cultura em Portugal. Lisboa. Daí que já se tenham identificado. Qualquer que seja a época. comparável à das grandes literaturas europeias e certamente não inferior à espanhola» . Penélope. 9-25. pelo que. Teoria e História. tenha contribuído para um certo culto "historicista" em Portugal. pp. como fontes ou matrizes da nossa cultura. «Trajectória da cultura portuguesa». p. não menos surpreendente é o facto de. Como salientou um dos mais notáveis historiadores da nossa cultura António José Saraiva—. António José Saraiva. pode acrescentar-se que esse interesse e gosto pela história não diminuíram em nossos dias. inglesa e alemã . em trabalho recente. se focava exactamente «a emergência da História» . não só terem aparecido novas revistas de História. Amado Mendes à influência de outras culturas tem sido uma constante. em que medida é que isso se reflecte na cultura portuguesa? É bem possível que tal esteja na origem de uma considerável receptividade à História Pátria por parte dos Portugueses e. 1991. Livraria Bertrand. italiana. encontramos entre nós uma historiografia abundante e de excelente qualidade. Joel Serrão e Oliveira Marques. livro I: Introdução geral à cultura portuguesa. «A emergência da História». inclusive. a partir de 1977. p. Ed. ao longo da história. tendo-se uma delas (dirigida por José Matto13 14 15 Carlos Eduardo de Soveral. ultimamente. Lisboa. por: José Hermano Saraiva. nº. Por outro lado. respectivamente. castelhana. Ao ritmo da Europa. catalã. Uma da autoria de Joaquim Veríssimo Serrão e as restantes dirigidas. 1962. as seguintes: galega. «com o desinteresse pela filosofia contrasta em Portugal o interesse pela história. Verbo. como se terem publicado. 1981. cinco Histórias de Portugal — uma das quais ainda por concluir—. 273-274.

Provavelmente o mesmo se passará com outros povos — isto é. mas as derrotas mil8 História de Portugal. p.. que o próprio autor citado (A. o papel fulcral que as Descobertas marítimas e a Expansão têm desempenhado na História de Portugal. para explicar o gosto e o interesse pela História. insuspeito — o seguinte: «Toda a história de Portugal gira em torno dos descobrimentos marítimos e da expansão dos séculos XV e XVI.. José Saraiva. uma procura da idade de ouro no passado — . por vezes. p. cit. op.sobretudo em épocas de maior controlo ideológico. de saudosismo» . 94. Lisboa. Tudo o que aconteceu antes não foi mais do que uma preparação para esses grandes empreendimentos. se registaram determinados fracassos. Lisboa. a propósito. Círculo de Leitores e Presença. como durante o Estado Novo (1926-1974) . dirigida por José Mattoso. Tudo o que aconteceu depois foram — -e são ainda (1974) —consequências desses grandes empreendimentos» .tenha estudado essencialmente as épocas e os factos gloriosos. Acrescente-se. da parte dos Portugueses: «Outra explicação para esta importância da historiografia seria um contemplativismo passadista. Joaquim Barradas de Carvalho. Livros Horizonte. Lembre-se. afinal.Características da Cultura Portuguesa 53 so) transformado num autêntico "best-seller". por conseguinte. A propósito.u m a forma. 1992-1994. notou Joaquim Barradas de Carvalho . A. 1974. 43. A Europa ou o Atlântico? (Uma perspectiva histórica). eds. compreender-se-ia que certa historiografia— . l6 17 Neste último caso. Rumo de Portugal. todavia. 8 vols.historiador de perspectiva marxista e. "esquecendo" aqueles em que. José Saraiva) formula uma outra hipótese. 17 18 16 . o procurar esquecer-se o que não agrada —. uma vez que já se terão vendido cerca de 100 000 exemplares .

a mitologia tem acompanhado o Homem praticamente desde as suas origens. o "Prometeu Agrilhoado" da mitologia grega representaria a luta titânica da Humanidade pelo progresso e desenvolvimento tecnológico-científico. ao Sebastianismo (subsequente ao desaparecimento de D. o mito do Sebastianismo — tão presente na literatura e na história portuguesas20 21 Recordem-se. Amado Mendes litares. 1987. o certo é que ele desempenha um importante papel na cultura de um povo. em 1578). ainda hoje não totalmente desvanecido. Uma polémica oitocentista. Independente do fundo histórico que o mito possa ter. Por exemplo. como já sucedia na Grécia Antiga e também noutras civilizações. apenas a título de exemplo. quando é confundido com a própria realidade. à Maria da Fonte (1846) e ao próprio "mito imperial". Alcácer Quibir (4 de Agosto de 1578) e La Lys (9 de Abril de 1918). São diversos os mitos que se podem detectar na cultura e na história portuguesas. Lisboa. o mito pode também revelar-se contraproducente. Ana Isabel Carvalhão Buescu. A evolução do Sebastianismo. Neste sentido. O mito pode ter uma função cultural relevante. ajudando-nos a compreender e a explicar os anseios e os problemas que têm preocupado os homens.2. Estes vêm desde a fundação da nacionalidade (com o milagre de Ourique.54 José M. Lisboa. Todavia. em 1139 ) . Sebastião em Alcácer Quibir. Instituto Nacional de Investigação Científica. sofridas por Portugal ao longo da História. João Lúcio de Azevedo. Livraria Clássica 20 21 19 . raramente são recordadas pela historiografia e pela própria memória colectiva dos Portugueses . 19 3. Mitos e realidade Como é revelado pela literatura da especialidade. O Milagre de Ourique e a História de Portugal de Alexandre Herculano.

José Sebastião da Silva Dias e Vitorino Magalhães Godinho. 1918. o contributo da cultura e da prática portuguesas não deve ser esquecido. De forma análoga. por vezes. . Joel Serrão. 1973.Características da Cultura Portuguesa 55 . Do Sebastianismo ao Socialismo em Portugal. afectividade e imaginação Embora tal raramente seja reconhecido em obras sobre a história da ciência. publicadas no estrangeiro. quando se estudam os alvores da ciência moderna. acabaria por vir um "D. em autênticos mitos. com experiências tão ricas e diversificadas dos nautas portugueses. como foi evidenciado pela investigação histórica de.1926 ou mesmo 1974) se transformaram. em momentos de crise nacional. não se terá acreditado em um novo mito. Razão. Livros Horizonte. da literatura de viagens e da própria cartografia. com poderes suficientes para resolver a situação de dificuldade em que o País se encontrava. com a adesão de Portugal à Comunidade Europeia/União Europeia. os estudos de Jaime Cortesão. Joaquim Barradas de Carvalho. dado que as expectativas. o ambiente proporcionado pelos Descobrimentos portugueses foi decisivo para o arranque da cultura científica moderna. ultrapassaram as reais possibilidades do que os revolucionários e o próprio País podiam satisfazer. Sebastião" qualquer. E mais recentemente (1986). Com efeito. Lisboa.1910. Com efeito. também as esperanças depositadas em certas revoluções (1820. pelo menos para certas camadas da população portuguesa.contribuiu para difundir a expectativa segundo a qual.3. ao esperar-se daquela a solução para muitos dos problemas que têm afectado o País? 3. difunde-se uma mentalidade Editora. entre outros.

assim. veio a permitir o espectacular desenvolvimento científico. p. 147. J. juízo de relação em vez de juízo de ser ou substância». Foram. Não será necessário lembrar a chegada dos Portugueses ao Japão em meados do século XVI (1543). não foram os únicos a exportar os novos valores culturais. 1976. S. op. Barradas de Carvalho.. o qual foi assim caracterizado por Silva Dias: «A essência da nova óptica intelectual pode resumir-se nesta série de primazias: investigação da causalidade física em vez de investigação das causas metafísicas. a correlação da teoria e da prática. Este. a confiança no poder da vontade humana e da razão crítica» . os pioneiros. o gosto de observar e de experimentar. estudo do fenómeno em vez do estudo da coisa em si.56 José M. Entravam nessa seiva ingredientes fundamentais da "inteligência científica revolucionária": a descrença da ciência livresca e da epistemologia escolástica. Coimbra. Amado Mendes baseada no "experiencialismo" — ou seja. logo seguido da Espanha. E prossegue o autor: «Ora a energia espiritual subjacente a tais preferências parece-nos indissociável da seiva que brotava da própria acção de portugueses e espanhóis para lá da orla marítima e terrestre do "universo" tradicional. na experiência. 37. contudo. da Silva Dias. como é sobejamente conhecido. p. como é bem sabido e ainda hoje recordado. 23 22 Como é sabido. como fundamento da ciência nos últimos séculos e pedra de toque do método experimental. o que constitui como que um primeiro degrau para o "experimentalismo". para fomentar o novo ambiente cultural então criado. 23 22 . observação em vez de disputa. cit. introduzindo naquele país a arma J. Portugal. 1973. Universidade de Coimbra. no "know-how". Livraria Almedina. Portugal contribuiu. Os Descobrimentos e a problemática cultural do século XVI. Maria Tereza Fraga. na prática —. Humanismo e experimentalismo na cultura do século XVI.

24 Não obstante este contributo português. O segredo de Hegel ou o equivoco da dialéctica. ed.. a partir dessa altura. op. Oliveira Martins e Alberto Sampaio) ..Características da Cultura Portuguesa 57 de fogo. Entra-se. muito importante e que viria a ter consequências decisivas na história e na própria cultura nipónicas. inovação. Heterodoxia. tradição esta que por meados do século XVI a decadência e a Inquisição haviam de fazer abortar. Ramalho Ortigão. embora reconhecendo "todos os riscos de cómodas agrupações e sistematizações". com quarenta e oito nomes (António Machado Pires. Eduardo Lourenço. I: Europa ou o diálogo que nos falta da permanência no mundo do espirito. 1949): «A inquietação universal que transformou o Japão. como está transformando a China e a índia ([estávamos em 1949]. p. 31. duma Europa onde a própria contemplação dos seus místicos se define ainda como acção» . na altura. p. a partir de então o cientismo não teve grande êxito em Portugal. 2ª. notou Barradas de Carvalho: 25 «Julgamos ser possível surpreender por estas épocas (séculos XV-XVI) uma tradição racionalista no pensamento português. J. entre vários outros.. como escreveu um dia António Sérgio» . elaborou um quadro da geração de 70. cit. Portugal foi uma promessa não cumprida. Este contributo prestado pela Europa ao Oriente — depois seguido. Machado Pires. 1992. Barradas de Carvalho. I (Coimbra. 1949. é a marca da Europa no Mundo. 37. Lisboa.. 44-45). A. A propósito. num período de relativa decadência. p. A ideia de decadência na geração de 70. no século XV e inícios do XVI. Antero de Quental. 26 Eduardo Lourenço. cujo estudo veio a constituir como que uma obsessão para a famosa "geração de 70" (da qual fizeram parte. por um permanente intercâmbio entre Oriente e Ocidente — já foi assim sublinhado por um dos nossos ensaístas mais notáveis. a que poderemos chamar experiencialismo do Renascimento. 25 26 24 . Coimbra. até hoje. na sua obra Heterodoxia.. Vega.

A ética protestante e o espirito do capitalismo (trad. 29 Sobre a fértil imaginação. Max Weber. 1995. Por exemplo. Recorro de novo à apreciação de Eduardo Lourenço — desta vez no seu notável e conhecido ensaio O labirinto da saudade-. Outros factores. pp. um dos elementos característicos da cultura portuguesa. 33-43. 3ª. 27 28 Deve no entanto reconhecer-se que. Lisboa. Ponta Delgada. em países do Norte da Europa — constituído um travão ao desenvolvimento do capitalismo em Portugal? Esta perspectiva foi intuída por Antero de Quental e Alberto Sampaio. no entanto. oriundos da literatura. Universidade dos Açores. mais importante do que o espírito científico e a própria racionalidade foi o papel desempenhado na cultura portuguesa pela afectividade e a imaginação. Congresso Anteriano Internacional. p. p. «Antero e Causas da Decadência dos Povos Peninsulares: entre Weber e Marx». Presença. etc. Outubro. Lisboa. estando de acordo com a tese posteriormente defendida por Max Weber. 14-18. 1983. numa forma de repetição do conformismo social. a cultura que nele ou através dele se converteu não só num obstáculo. Amado Mendes. poderiam igualmente ser invocados. terá uma certa mentalidade católica . 1988.ao invés da calvinista. podiam ainda mencionar-se diversos testemunhos. 28 29 27 . Actas. José M. do alemão).58 José M. Dom Quixote. ed. Eduardo Lourenço. Onésimo Teotónio Almeida. João III). onde se pode ler: «O verdadeiro mediador. Cfr. mas a imaginação» . do teatro. instituída em Portugal por 1536 (reinado de D. 1991. Guimarães. Ed. O labirinto da saudade. na segunda metade do século X I X . das artes plásticas.. 1993. 373-374. 52. tem sido salientado por numerosos autores. o autêntico motor dessa metamorfose [no sentido de uma revolução cultural] é menos o intelecto. na sua conhecida obra A ética protestante e o espírito do capitalismo . Amado Mendes O papel negativo da Inquisição. Alberto Sampaio e a história económica.

Afonso Botelho. amoroso e bondoso. comemorativa do Dia de Camões. Atlântida.Características da Cultura Portuguesa 59 Atestam-na alguns momentos altos da nossa produção literária. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Discurso proferido no Gabinete Português de Leitura. Joaquim de Carvalho. Coimbra. 1990. este define-se em função de três componentes fundamentais: 1) constância multissecular. Lisboa. Da Saudade ao Saudosismo. na obra intitulada precisamente Da Saudade ao Saudosismo (1990): 31 «A saudade participa da essência da história de Portugal e muitas das suas decisões capitais nela se inspiraram ou a ela se sujeitaram. O essencial sobre os elementos fundamentais da cultura portuguesa. como sejam os do século XVI. «outra constante da cultura portuguesa é o profundo sentimento humano. Instituto de Cultura c Língua Portuguesa ( Ministério da Educação). 1953. Compleição do patriotismo português. Como sublinhou acertadamente o etnólogo Jorge Dias. "Biblioteca Breve". que vem dos tempos pré-históricos. sublinha Afonso Botelho. E 32 Jorge Dias. é tão fundamental na cultura portuguesa que Joaquim de Carvalho o integra na caracterização do patriotismo português. relacionado com a imaginação e a sensibilidade. do Rio de Janeiro. ou mesmo nas últimas décadas do nosso século. Acerca desta. Para o Português o coração é a medida de todas as coisas» . na sessão de 10 de Junho de 1953. que assenta no temperamento afectivo. p. a saudade. 1995. Este último aspecto leva-nos a considerar mais um elemento importante da cultura portuguesa. radicada em condições étnicas peninsulares» . ou seja. dos anos 1830 até finais do século passado. 3) tendência saudosista . 2) substrato afectivo. Lisboa. série "Pensamento e Ciência". pelo que não se estranha que a tendência dos que estudam a sua natureza vá no sentido de lhe reconhecer autonomia ontológica. 31 32 30 . 11. 30 O que se acaba de focar. Para o autor.

p. a Saudade era considerada quasi como filosofia ou religião nacional» (op. É um estar em dois tempos e em dois sítios ao mesmo tempo.«(. Lisboa. segundo António José Saraiva: «O sentimento chamado saudade caracteriza-se pela sua duplicidade contraditória: é uma dor da ausência e um comprazimento da presença. enquanto que a reflexão sobre ela é ainda pouco sistemática e fundamentalmente problemática» . Joaquim de Carvalho e a Antonio José Saraiva. Amado Mendes acrescenta o autor. Secção (Ciências Filosóficas e Teológicas). pela memória. Carolina Michaèlis de Vasconcelos.. 87-88. dos estudos sobre o assunto.. De qualquer forma. no território Entre Douro e Minho e na Galiza . revista e aumentada. a Carolina Michaèlis de Vasconcelos .Seara Nova Annuario do Brasil. b) a sua origem é muito antiga. devidos. cit. cit. Do ponto de vista da actividade. Porto. Lisboa. apesar de não existir vocábulo correspondente em certas línguas (como o inglês ou o francês). que também pode ser interpretado como uma recusa de escolher: é um não querer assumir plenamente o presente e o não querer reconhecer o passado como pretérito. 6ª.. op. 33 Mesmo assim. entre outros. 1950. p. 28. 1922. c) surgiu no Noroeste peninsular. Problemática da saudade. noutro local do mesmo trabalho: «A saudade é quase um lugar comum na sensibilidade portuguesa.60 José M.. 34 a 35 33 . idem. Rio de Janeiro. Joaquim de Carvalho. pois já aparece no cancioneiro dos séculos XIII e XV. António José Saraiva. 36). é um A. Segundo a autora. se é possível usar imagens mecânicas em matéria de tanta subtileza qualitativa.. infere-se: a) que se trata de um sentimento. 2 . Renascença Portuguesa . p. Botelho. ed. 34 35 Vejamos o que de essencial distingue o referido elemento da cultura portuguesa. A saudade portuguesa.) já em fins do século XVI. Sep. por certo não exclusivamente português. é um acelerador combinado com um travão simultâneo. das Actas do XIII Congresso Luso-Espanhol para o Progresso das Ciências.

conhecido por amoroso. entre as mais nações. revista e anotada por Edgar Prestage.. o próprio fado. Lisboa. Anno 1420. doce-amargo. Lisboa.. I. Coimbra. a que alguns chamam "canção nacional". e por isso tão sutil. Imprensa da Universidade. Coimbra. José Saraiva. p. Na Côrte da Saudade. 38 A. deixando-nos indistinta a dor da satisfação. e como nosso natural he. e não deve ter contribuído pouco para que a personalidade portuguesa apareça a observadores estrangeiros como desnorteante e paradoxal» . que equivocamente se experimenta. «Descobrimento da Ilha da Madeira. Guilherme de Faria. mesclado. 1922. 1944. 88. pouco próprio à acção. Por seu turno. como em seu natural centro [. de ahi vem.]. porque de ambas essas causas tem seu princípio. e esta foy sem falta a razão porque entre nós habitassem. fora do mercado. 224. já D. que donde se acha muito amor e ausencia larga. Francisco Manuel de Melo havia salientado. Francisco Manuel de Melo. Saudade minha (poesias escolhidas). Recordo apenas alguns exemplos: António Sardinha. 37 38 36 5 . e nossas dilatadas viagens ocasionão as maiores ausencias. 1931. as saudades sejão mais certas. He a saudade huma mimosa paixão da alma. mais certas em nós que em outra gente do mundo. Epanaphora amorosa terceira». 1929. He hum mal que se esgota e hum bem que se padece» . Sonetos de Toledo. na conhecida Epanaphora Amorosa III: «Florece entre os Portugueses a saudade por duas causas. "LUMEN"—Empresa Internacional Editora. António Corrêa d'Oliveira. está bastante ligado à saudade e ao respectivo sentimento de saudosismo . D. Amor e ausencia são os pays da saudade. A cultura em Portugal.Características da Cultura Portuguesa 61 sentimento complexo. a saudade constitui também tema recorrente na poesia lírica portuguesa. Como é do conhecimento geral. ed. p. 3ª. Epanáforas de vária história portuguesa. 36 37 Como é sabido. ed. Saudade nossa..

12 . pp. Le bourgeois. Contribution à l'histoire morale et iittelectuelle de l'homme économique moderne. Lisboa. os escravos. parte dele até recentemente (1975). Obras completas. o certo é que os Portugueses não beneficiaram substancialmente do grande império que possuíram.4. ed. tal como este foi caracterizado por Werner Sombart? Independentemente das respostas a dar à questão formulada. relativamente à produção ou à fixação. isto é. 40 41 a 39 . Défice de espírito capitalista? Reflectir-se-ão os aspectos focados também no comportamento da sociedade portuguesa. para iniciativas arrojadas e rentáveis. Todavia nunca aqui se formou um pólo capitalista». espírito capitalista. A. que é o vinho do Porto.62 José M. o açúcar do Brasil. Payot. 1926. o ouro de Minas. 100. p. idem. Mas os nossos homens do Werner Sombart. ambição. «As duas principais actividades económicas. Lisboa foi um dos centros comerciais do comércio intercontinental. 1985. com que resultados? Já foi salientado. Amado Mendes 3. Mesmo assim. acerca deste aspecto: 39 40 41 «Os Portugueses são os iniciadores do mercado mundial em grande escala e nele participaram sucessivamente com as especiarias do Oriente. António Sérgio. Terá havido um certo bloqueio por parte de «fidalgos e clérigos parasitários». José Saraiva. E acrescenta o mesmo autor: «O trabalho dos nossos camponeses produziu uma mercadoria de alta qualidade. espírito de lucro e de iniciativa. no que concerne à dinâmica económica? Ter-lhe-ão escasseado racionalidade. Pelo menos houve uma nítida preferência pela distribuição. Breve interpretação da História de Portugal. A política da fixação e a politica do transporte». como sugere António José Saraiva? .. Livraria Sá da Costa Editora. 27-30. etc. Paris. pelo comércio —a que António Sérgio chamou "política do transporte" —. o café do Brasil e de Angola.

e as marcas comerciais são inglesas» . com os reinos vizinhos peninsulares. idem. Durante os primeiros séculos da nacionalidade (séculos XII-XIV). 205-219. 43 44 42 . estabeleceram-se contactos comerciais com países do Norte da Europa. 42 4. que nela se fixaram. Este pode ser perspectivado como tendo sido um primeiro passo para a formação da macrocultura da "aldeia global". História dos Descobrimentos Portugueses. Jaime Cortesão. remontam a 17 de Fevereiro de 1294.Características da Cultura Portuguesa 63 negócio não souberam comercializá-lo. III. de Portugal com a Inglaterra. um significativo legado pré-nacional. vejamos a articulação da cultura portuguesa com outras culturas. daqueles. Assim. Lisboa. Circulo de Leitores. como bem notou Orlando Ribeiro . 25-42. por vezes conflituosas. op. p. em que o Mundo se transformou. p.cit.. Por exemplo. José Saraiva. Por último. Uma Cultura com Vocação Universalista Jaime Cortesão. desde o período pré-nacional. os contactos culturais com outros povos foram uma constante na História de Portugal. Ribeiro. O povo português herdou. vol. reinado 43 44 A. neste final do século XX. a Península Ibérica recebeu a influência de vários povos. o início das relações políticas e diplomáticas. além das relações. p. uma primeira fase — desde a Pré-História até ao século VIII -. 99-100. Numa breve síntese pode dizer-se que. a propósito das consequências da expansão ultramarina. 1979. O. salientou o papel dos Portugueses na construção do "humanismo universalista" .

o próprio carácter expansivo da cultura portuguesa deve-se também à localização do País. 3. O sobressalto modernizador». hoje União 48 António Álvaro Dória... Inicia-se então o período áureo da História de Portugal. José Mattoso. Eduardo Lourenço. Metade da população activa deixou o pais. p. António Barreto (org. vol. 1996. p. Por sua vez.). a lembrança da acção expansionista e imperial passou a constituir «o núcleo da imagem de Portugal» . p. Aliás. «Dez anos. na opinião de José Mattoso. 1960-1995. Lisboa. O essencial. 46 45 Resolvida a crise de 1383-85 e estabelecidas relações de boa vizinhança com Castela (1411). Dinis . Portugal inicia a sua expansão. só numa década (1964-1974). junto ao m a r . o qual.. «Portugal "exportou" para a Europa mais de 1.). Iniciativas Editoriais. foi um factor extraordinariamente positivo. p.64 José M. o equivalente a metade da população activa em 1970» . a localização do País. Os Portugueses começam a espalhar-se pelos quatro continentes.». 15-16.. à beira do mar.. Durante 500 anos.08. iniciada no século XVII (no Oriente) e continuada com a independência do Brasil (1822). Dicionário de História de Portugal. Saíram de Portugal entre três e quatro milhões — um terço da população actual -. em termos de memória histórica. O labirinto da saudade. com a tomada de Ceuta (1415). «Inglaterra. como notou Eduardo Lourenço. nova expansão de Portugueses e da cultura portuguesa se verifica. de 21. 17. 41 e 72. A situação social em Portugal. Lisboa. aquela descobriu um novo destino: a Europa do Mercado Comum. Relações de Portugal com a. ou seja. Após o ciclo da emigração para o Brasil (até cerca de 1930). p. Graça Franco. II. dos anos 60 do século passado até à década de 70 do nosso século. passou a ocupar um lugar privilegiado. Amado Mendes de D.1996. Joel Serrão (dir.. 47 Com a queda do império. Público. Para o efeito. Instituto de Ciências Sociais. 1965.). agora já não através de marinheiros mas de emigrantes.5 milhão de portugueses (.. 544. 46 47 48 45 .

ao mesmo tempo que muitos Portugueses também viajam. provavelmente. intelectuais. técnicos e empresários. muitos já da segunda geração e que. criado a partir do Renascimento e com o contributo decisivo dos Portugueses e de outros povos europeus. o que deve constituir um dos objectivos prioritários de todas as nações. estamos simultaneamente a trabalhar para a manutenção da paz e do entendimento entre os povos. não mais regressarão ao País. milhões de Portugueses. na sequência da Revolução do 25 de Abril de 1974. que gostaríamos de ver reforçado e continuado. foram colónias portuguesas: o Brasil (país independente desde 1822 e os Países Africanos de expressão portuguesa. o "humanismo universalista". Todos os anos Portugal recebe milhões de estrangeiros — entre os quais se contam centenas de estudantes -. continua a dar os seus frutos. os permanentes contactos com países que. hoje. não só através dos emigrantes tradicionais — frequentemente de parcos recursos. outrora. a cultura portuguesa continua a "misturar-se" e a cooperar com outras culturas. ao intensificarmos contactos culturais. Além do mais. Podemos dizer que. Recordem-se. Actualmente. nomeadamente de Kyoto (Kyoto University e Kyoto University of Foreign Studies). Um dos exemplos desses contactos encontra-se precisamente no intercâmbio que temos vindo a efectuar com Universidades Japonesas. em Portugal). professores. Aqui trabalham e estudam. económicos e culturais —.Características da Cultura Portuguesa 65 Europeia. mas também de cientistas. . independentes desde 1975. não obstante as condições terem mudado radicalmente. a título definitivo. estudantes. inclusive. comerciantes e industriais.