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5.

Imunidades e/ouprerrogativas funcionais


Imunidade se refere a uma espécie de prerrogativa funcional concedida a determinadas
autoridades ou pessoas que exercem função estatal de relevância internacional, mesmo
transitoriamente, cargo ou missão pública.

De outro lado, é de se advertir que imunidade não se confunde com impunidade, que
por sua vez significa inércia, carência de ação estatal, prevaricação da administração
pública, dos órgãos de segurança e/ou jurisdicionais. A falta voluntária de investigação
policial, não processamento, não aplicação de pena e/ou não execução de pena. Em
outras palavras, impunidade caracteriza também a tráfico de influência política, abuso e
arbítrio de poder, discricionariedade e privilégio indevido.

Trata-se da lei penal em relação ás pessoas, onde, para alguns, apresenta um certo
choque com a regra geral do princípio da isonomia ou da igualdade de tratamento
perante a lei e os tribunais (leia-se juízos de 1º ou de 2ª instância e demais órgãos,
instituições e Poderes Públicos), em nome de prerrogativas funcionais, onde outros vão
mais além e consideram tais prerrogativas e imunidades como privilégios e até
impunidades.

O princípio da igualdade da lei penal encontra-se previsto na Constituição Federal (arts.


5º "caput" e inc. I CF) e nos documentos internacionais de Direitos Humanos
(Declaração Universal dos Direitos Humanos, ONU/1948; Pacto Internacional dos
Direitos Civis e Políticos, ONU/1966; Convenção Americana sobre Direitos Humanos,
OEA/1969; e Convenção Internacional para Eliminação de Todas as Formas de
Discriminação Racial, ONU/1965).

- imunidade diplomática

A Carta das Nações Unidas, aprovada em 1945, estabelece os princípios da


autodeterminação dos povos, objetivando estabelecer e desenvolver relações amistosas
entre as nações para o fortalecimento da paz universal, garantindo-se a jurisdição e a
independência do Estado, a soberania de suas leis, ante o princípio universal da
igualdade.

Por sua vez, a Carta da Organização dos Estados Americanos (OEA), expressa que
"Todo Estado americano tem o dever de respeitar os direitos dos demais Estados de
acordo com o direito internacional (art. 11). A jurisdição do Estado nos limites
inviolável de seu território, com respeito e a observância fiel dos tratados (arts. 16, 18 e
21)".

A Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas (18 de abril de 1961, aprovada


pelo Decreto Legislativo nº 103, de 1964, ratificada em 23.2.65, e promulgada pelo
Dec. 56.435/65, de 24.4.65), expressa no art. 31 § 1º: "O agente diplomático gozará de
imunidade de jurisdição penal do Estado acreditado. Gozará também de imunidade de
jurisdição civil e administrativa..."

"Art. 1º: Para os efeitos da presente Convenção:


a) "Chefe de Missão" é a pessoa encarregada pelo Estado acreditante de agir nessa
qualidade;
b) "Membros da Missão" são o Chefe da Missão e os membros do pessoal da Missão;
c) "Membros do Pessoal da Missão" são os membros do pessoal diplomático, do pessoal
administrativo e técnico e do pessoal de serviço da Missão;
d) "Membros do Pessoal Diplomático" são os membros do pessoal da Missão que
tiverem a qualidade de diplomata;
e) "Agente Diplomático" é o Chefe da Missão ou um membro do pessoal diplomático da
Missão;
f) "Membros do Pessoal Administrativo e Técnico" são os membros do pessoal da
Missão empregados no serviço administrativo e técnico da Missão;

g) "Membros do Pessoal de Serviço" são os membros do pessoal da Missão empregados


no serviço doméstico da Missão;
h) "Criado particular" é a pessoa do serviço doméstico de um membro da Missão que
não seja empregado do Estado acreditante;
i) "Locais da Missão" sãos os edifícios, ou parte dos edifícios, e terrenos anexos, seja
quem for o seu proprietário, utilizados para as finalidades da Missão, inclusive a
residência do Chefe da Missão.

Art. 22
1. Os locais da Missão são invioláveis. Os Agentes do Estado acreditado não poderão
neles penetrar sem consentimento do Chefe da Missão.
2. O Estado acreditado tem a obrigação especial de adotar todas as medidas apropriadas
para proteger os locais da Missão contra qualquer intrusão ou dano e evitar perturbações
á tranqüilidade da Missão ou ofensas á sua dignidade.
3. Os locais da Missão, seu mobiliário e demais bens neles situados, assim com os
meios de transporte da Missão, não poderão ser objetivo de busca, requisição, embargo
ou medida de execução.

Art. 29

A pessoa do agente diplomático é inviolável. Não poderá ser objeto de nenhuma forma
de detenção ou prisão. O Estado acreditado trata-lo-á com o devido respeito e adotará
todas as medidas adequadas para impedir qualquer ofensa á sua pessoa, liberdade ou
dignidade.

1. A residência particular do agente diplomático goza da mesma inviolabilidade e


proteção que os locais da missão.
2. Seus documentos, sua correspondência e, ...seus bens gozarão igualmente de
inviolabilidade.
3. O Agente diplomático gozará de imunidade de jurisdição penal do Estado acreditado

Art. 37

Os membros da família de um agente diplomático que com ele vivam gozam dos
privilégios e imunidades, desde que não sejam nacionais do Estado acreditado. O
pessoal administrativo e técnico gozarão dos privilégios e imunidades; e aos criados
particulares, na medida reconhecida pelo Estado acreditado.

Ademais Convenção de Viena sobre Relações Consulares (24 de abril de 1963,


aprovada pelo Decreto Legislativo nº 6, de 1967, ratificada em 20.4.67, e promulgada
pelo Decreto nº 61.078/67, de 10.6.67), no art. 43 estabelece: "atos realizados no
exercício das funções consulares", quedam imunes.

São invioláveis os locais (repartições: consulado, vice-consulado ou agência consular,


edifícios, etc.) e arquivos consulares (papeis, documentos, etc.), onde quer que se
encontrem, exceto em caso de incêndio ou outro sinistro que exija medidas de proteção
imediata, poderá se entrar nos locais consulares com a permissão do chefe da repartição
consular.

Os funcionários consulares não estão sujeitos á jurisdição das autoridades judiciárias e


administrativas do Estado receptor; ademais, não poderão ser presos preventivamente,
excepcionalmente, em caso de crime grave, senão em decorrência de sentença judiciária
definitiva.

Os membros de uma repartição consular poderão ser chamados a depor, na hipótese de


recusa, nenhuma medida coercitiva ou qualquer outra sanção ser-lhe-á aplicada.

Quanto as repartições consulares dirigidas por funcionários consulares honorários, e as


imunidades e garantias estão previstas no Capítulo III, da Convenção de Viena sobre
Relações Consulares, existindo algumas restrições e diferenciações quanto a aplicação
das regras destinadas aos funcionários consulares de carreira.

De outro lado, temos ainda Regulamento de Viena (1815) sobre a hierarquia dos agentes
diplomáticos, e a Convenção sobre Privilégios e Imunidades das Nações Unidas.

A imunidade diplomática exclui a jurisdição penal estatal, onde os diplomatas


estrangeiros exercem suas funções, razão pela qual o Chefe do Executivo entrega
credenciais para que estas pessoas - autoridades que representam um Estado - exerçam
suas funções na maior plenitude, sem qualquer intromissão dos órgãos do Estado
concedente. Trata-se de prerrogativa de função "ratione personae" ao nível de Direito
Internacional Penal.

Há que fazer uma importante ressalva, os embaixadores, os ministros, os cônsules,


funcionários e familiares, não ficam impunes as ações de processamento e julgamento
da Justiça, são todos responsabilizados penalmente pela lei do País de suas próprias
nacionalidades. Se os familiares ou servidores da representação diplomática que forem
nacionais do País onde ocorreu o delito e onde exercem suas funções, serão julgados
pela Justiça do seu respectivo Estado, da sua nacionalidade, não havendo portanto, nesta
hipótese a abrangência da regra geral.

A título de analogia, citamos o conceito de assemelhados segundo o Código Penal


Militar:
Art. 12 "O militar da reserva ou reformado, empregado na administração militar,
equipara-se ao militar em situação de atividade, para efeito da aplicação da lei penal
militar"
Art. 13 "O militar da reserva, ou reformado, conserva as responsabilidades e
prerrogativas do posto ou graduação, para o efeito da aplicação da lei penal militar,
quando pratica ou contra ele é praticado crime militar".
Art. 21 "Considera-se assemelhado o servidor, efetivo ou não, dos Ministros da
Marinha, do Exército ou da Aeronáutica, submetido a preceito de disciplina militar, em
virtude de lei ou regulamento".
Art. 22 "é considerado militar, para efeito da aplicação deste Código, qualquer pessoa
que, em tempo de paz ou de guerra, seja incorporada ás forças armadas, para nelas
servir em posto, graduação, ou sujeição á disciplina militar".
Art. 23 "Equipara-se ao comandante, para o efeito da aplicação da lei penal militar, toda
autoridade com função de direção".
Art. 24 O militar que, em virtude da função, exerce autoridade sobre outro de igual
posto ou graduação, considera-se superior, para efeito da aplicação da lei penal militar".

Também a título de exemplo ou de comparação, o art. 327 do Código Penal equipara


todas as pessoas que transitoriamente, com vencimento ou não, exercem qualquer tipo
de função no serviço da administração estatal, equipara-se a funcionário público, para
efeito de aplicação da lei penal interna.

- imunidade parlamentar

é preciso fazer menção as espécies de imunidades previstas na Carta Magna e na


legislação infraconstitucional, de ordem material (direito penal, isto é quanto aos
delitos) e formal (direito processual penal).

Não se confunde imunidade material ou formal com prerrogativa de função, esta se


refere ao foro, órgãos ou local de julgamento, qual o juízo natural - competente -; já a
imunidade diz respeito ao delito e forma de seu processamento. Também não se
confunde com o direito á prisão especial (art. 295 CPP) (ver Maia Neto, Cândido
Furtado: in Direitos Humanos do Preso, ed. Forense, Rio de Janeiro, 1998, pg. 141 e
segts).

Destina-se aos representantes do Congresso Nacional e das Assembléias Legislativas


dos Estados (Senadores da República, Deputados federais e estaduais), em nome da
independência do Poder Legislativo e de seus membros eleitos pelo povo em sufrágio
livre e universal, em prol da garantia do desempenho das atividades legislativas dos
parlamentares.

Exceto os vereadores, na qualidade de parlamentares municipais não possuem


assegurado legalmente a imunidade formal, isto é, foro especial para julgamento

STF: "Vereador. Imunidade parlamentar. Proteção ás manifestações que tenham relação


com o exercício do mandato. Comprovação do nexo. Preservação da inviolabilidade
constitucional. Inteligência do art. 29, VIII da CF".
Conflito de lei federal e lei municipal. O processo e o procedimento penal são de alçada
da lei federal.

Foro de julgamento (competência art. 69 VIII e 84 CPP)


Lei nº 1079/1950 crimes de responsabilidade

- imunidade judiciária

Para os profissionais do direito (magistrados, membros do Ministério Público, e


advogados), visando assegurar a liberdade de opinião, o livre exercício profissional e as
prerrogativas inerentes aos cargos jurisdicionais, em defesa do direito pleiteado em
juízo e das partes litigantes.

Art. 92 usque 126 CF c.c. Lei Complementar nº 35/79 - Magistratura


Art. 127 usque 130 CF c.c Lei Nac. Ministério Público ( lei nº 8625/93 e Complementar
nº 75/93)
Art. 131 usque 135 CF c.c Lei da Advocacia (lei nº 8.909/94)

- imunidade eleitoral

Para o exercício da cidadania, amplo e irrestrito, sem distinção de qualquer natureza, em


asseguramento aos direitos civis e políticos da sociedade, bem como das garantias
fundamentais individuais, especialmente do direito ao voto, em eleições livres e
democráticas.

O Código Eleitoral (Lei nº 4.737/65) e as normas complementares para as eleições,


dentre elas a Lei nº 9.504/97, estabelecem todas as hipóteses legais, quanto ás regras aos
pleitos eleitorais, procedimentos próprios e apurações das infrações; bem como a
proibição de ser executada ordem judicial de prisão, exceto em flagrante delito, devendo
esta, se a lei admitir, ser "in continenti" concedida a liberdade provisória, sem ou com
prestação de fiança.

Isto tudo visa garantir e assegurar plenamente aos cidadãos o direito sagrado do
exercício do voto.