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08/12/13

“BRASILEMCONTRAREFORMA–DESESTRUTURAÇÃODOESTADOEPERDADEDIREITOS”

BRASILEMCONTRAREFORMA–DESESTRUTURAÇÃODOESTADOEPERDADE

DIREITOS”.

Autora: Elaine Rossetti Behring.

Ed.Cortez.SP,2003.

BRASIL EM CONTRA REFORMA – DESESTRUTURAÇÃO DO ESTADO E PERDA DE DIREITOS”.

Autora: Elaine Rossetti Behring.

Ed. Cortez. SP, 2003.

Capítulo 3: Brasil: entre o futuro e o passado, o presente dilacerado

Capítulo 4: a Contra Reforma do Estado brasileiro: projeto e processo

Capítulo 5: Ilustrações particulares da Contra Reforma

08/12/13

“BRASILEMCONTRAREFORMA–DESESTRUTURAÇÃODOESTADOEPERDADEDIREITOS”

Capítulo 3 Brasil: entre o futuro e o passado, o presente dilacerado

1. Crise econômica e o processo de democratização no Brasil dos anos 1980

A autora caracteriza algumas precondições econômicas, políticas, sociais e culturais que delinearam o contexto da formulação e implementação do Plano Real a partir de 1994 (FHC), e a hegemonia do projeto neoliberal no Brasil, com seu conjunto de contra reformas.

Aosublinharofenômenodapassagemdaditaduraparaademocraciabrasileira, BehringcitaFernandesquedenominou-otransiçãoconservadorasem ousadiae turbulências.

Aadesãobrasileiraàsorientaçõesconservadorasestevebastantecondicionada,por

umlado,aoprocessodetransiçãodemocráticaeàresistênciaaodesmontedeuma

estruturaprodutivaconstruídanoBrasilnoperíodosubstitutivodeimportações.Segundo

Fiori,houveumaadesãotardianoBrasilaoneoliberalismo.

Aimplementaçãodasreformasorientadasparaomercado,emquepeseapressão

pelasuauniversalizaçãonochamadoterceiromundo,emespecialapósacrisedadívida,

deparou-secomascondiçõesinternasdecadapaís,determinandoritmoseescolhas.

Como o Brasil adentra os anos 80?

Acompreensãodoproblemadorecrudescimentodoendividamentoexternoesuas

conseqüências,apartirde1979,écrucialpararesponderaestapergunta.Éapartirdeste

momentoqueseaprofundamasdificuldadesparaformulaçãodepolíticaseconômicasde impactonosinvestimentosenaredistribuiçãoderendanoconjuntodaAméricaLatina.Para

KuanskieBranford(1987)localiza-senoprocessodoendividamentoasprincipais

decorrênciasdareorientaçãodapolíticaeconômicanorteamericanaembuscada

hegemoniadodólar,eoiníciodaspressõescujosresultadosderrubaramapossibilidade

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derupturacomaheteronomiacontidanodesenvolvimentismo,este,porsuavez,fundadona

substituiçãodeimportações(políticadejurosflutuantesaoinvésdejurosfixos).

Comosjurosflutuantes,adívidanãopôde(enãopode )serredimida,sendoalémde mecanismodeextraçãoderenda,tambémdedominaçãopolítica.Aopacidadederegimes militares,financiadoseestimuladospelosEUAnaAméricaLatina,permitiuacondição institucionalparataisacordos,quefavoreciamaaliançaentreasoligarquiasexportadorase ocapitalfinanceirointernacional.

SegundoToussaint(1998)houveumainversãoexplosivadatransferênciadedivisas

emprazosmuitocurtos,masquefoiacompanhadatambémdaquedadasexportaçõesde matériasprimas;ocorreuumverdadeiroestrangulamentodaeconomialatinoamericana,

comumcrescimentomédiodoPIBdecercade2,3%entre1981e1985.

Houvepaíses(BolíviaeCostaRica),emqueadívidapassouasermaiorqueoPIB.

Oconstrangimentodoendividamentogerouumaquedanataxadeinversão,em

especialdoinvestimentodosetorpúblico,aolongode16anos(de26%em1974,para

15/16%em1989),dificultandooquedesignacomoaçãodeumEstadoestruturantee,

ainda,oingressodopaísna3ªRevoluçãoIndustrial(Cano,1994:26e42).

Amaiorpartedadívidaexternafoicontraídapelosetorprivado,porpressõesdoFMI– o“feitor”dadívida–,houvenaseqüênciaumacrescenteeimpressionantesocializaçãoda

mesma.NoBrasil,70%dadívidatornou-seestatal.Ofenômenodaestatizaçãode2/3da

dívidaémuitoimportanteparacompreenderacrisedoEstadonoBrasileoquantoé

ideológicasua“satanização”(Cano,1994).ParaCano,desdeentão,ogastopúblicopassa

aserestruturalmentedesequilibrado.

Dessafeita,Behringassinalaqueascaracterísticasregionaispreexistentesàcriseda

dívidaforamexacerbadasnocontextodosanos80,àsaber:

empobrecimentogeneralizadodaAméricaLatina,especialmentenoseupaísmais

rico,oBrasil;

acrisedosserviçossociaispúblicos;

rico,oBrasil; acrisedosserviçossociaispúblicos; odesemprego; ainformalizaçãodaeconomia;

odesemprego;

ainformalizaçãodaeconomia;

ofavorecimentodaproduçãoparaexportaçãoemdetrimentodasnecessidades

internas.

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A maior dívida da América Latina, a brasileira, cresce vertiginosamente a partir de uma articulação exemplar entre a burguesia nacional, o Estado e o capital estrangeiro, que fundou o “milagre brasileiro” (quando a economia, sob a ditadura militar cresceu entre 1968/1973, a média de 11,2%).

Esse“milagre”foisustentadoapartirdealgunsprocessos:

umêxodoruraldegrandesproporções,concentrandoforçadetrabalhobaratano

espaçourbano,quefoiabsorvidapelaconstruçãocivilepelaindústriamanufatureira

debensduráveis;

ooferecimentodefacilidadesparaempréstimosprivadosajurosflutuantes,mesmo,

muitasvezes,semgarantiasdeinvestimentoprodutivo.

Osgovernosdemocráticosnãoforamcapazesderompercomasubmissão,

estabelecendoacordosqueexpressavamamaisabsolutacapitulação,eriscosparaa

soberania.

Apósacrisedadívida,diantedapossibilidadedecolapsofinanceirointernacional, impõe-seodiscursodanecessidadedosajustesedosplanosdeestabilizaçãoemtodaa região.Tratou-se,naverdade,departedeumajusteglobal,reordenandoasrelaçõesentre ocentroeaperiferiadomundodocapital.Houveumaespéciedecoordenaçãoda reestruturaçãoindustrialefinanceiranospaísescentrais,cujocustofoipagoduramentepela

periferia(TavareseFiori,1993).

Deumpontodevistaeconômico,têm-se,naentradadosanos90,umpaísderrotado

pelainflação–a“durapedagogiadainflação”aqueserefereOliveira(1998:173)eque

seráofermentoparaapossibilidadehistóricadahegemonianeoliberal;paralisadopelo

baixoníveldeinvestimentoprivadoepúblico;semsoluçãoconsistenteparaoproblemado

endividamento;ecomumasituaçãosocialgravíssima.Tem-seamisturaexplosivaque

delineiaumasituaçãodecriseprofunda.

Em1989,apartirdaderrotadacoalizãocomprometidacomosavançosdemocráticos

preconizadosnaConstituiçãode1988,aagendapolítico-econômicapassaaassumiro

perfildesejadopelasagênciasmultilaterais:reformasliberais,orientadasparaomercado.

VelascoeCruzidentificou,jánoiníciodadécadade80,doisdiscursosediagnósticos

paraumasaídadacrise,contemplandoaformulaçãodeumapolíticaindustrial:oneoliberal eodesenvolvimentista,esteúltimodecorrentedaarticulaçãoentresegmentosdeindústrias eeconomistascríticos,aexemplodeBelluzoeCardosodeMelo,queserãoassessoresde

DilsonFunaro,na1ªfaseda“NovaRepública”.

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OColégioeleitoralfoiasaídainstitucionalparaassegurarocontroleconservadorda

redemocratização,numaespéciedecontrarevolução,seéobservadooaspectonoqualas

elitesnoBrasilsempretiveramumaprofundaunidadepolítica:conteraemancipaçãodos

trabalhadores.

OestudodeVelascoeCruzéimportanteporquemostra,apartirdeumângulo específico,comoseoperouamudançadementalidades,bemcomoasdificuldadesdo

processodedemocratização.Apartirde1987,odiscursogovernamentalsobrepolítica

industrialvolta-separa“advogaraadoçãodemedidasconseqüentesparaatrairocapital estrangeiro,desregulamentaraatividadeeconômicaefacilitaraadoçãodetecnologias

novas”(1997:79).

Naconstituiçãode1988haviaclaramenteaênfasenapriorizaçãodeumapolítica

industrial.Essapolíticasugeridaem88previafortessubsídiosdoEstadoeinstrumentos

indutoreseestruturantes.Apolíticapropostaem1988foirecebidacomcautelapelo

empresariadoefoiduramentecriticadapeloseconomistasliberais,porque,segundoeles,

mantinhaaindaultrapassadasilusõesdirigidas.

Omovimentooperárioepopularera,naquelecontextoumingredientepolíticodecisivo dahistóriarecentedopaís,queultrapassouocontroledaselites.Suapresençaeação

interferiramnaagendapolíticaaolongodosanos1980epautaramalgunseixosna

Constituinte,aexemplode:

reafirmaçãodeumavontadenacionaledasoberania,comrejeiçãodasingerências

doFMI;

direitostrabalhistas;doFMI; reformaagrária.

reformaagrária.doFMI; direitostrabalhistas;

Dessafeita,todososmovimentosdatransiçãodemocráticaaolongodadécada

serãotensionadosporessapresençaincômodaparaasclassesdominantesbrasileiras.O

textoconstitucionalrefletiuadisputadehegemonia,contemplandoavançosemalguns

aspectos,aexemplodosdireitossociais,humanosepolíticos,peloquemereceua

caracterizaçãodeConstituiçãocidadã,deUlissesGuimarães.

NaboasíntesedeNogueira(1998),observa-sequeaolongodosanos1980as

dificuldadesdoEstadobrasileiroadquiriramtransparênciaemalgunsaspectos:suaintensa

centralizaçãoadministrativa;suashipertrofiasedistorçãoorganizacional,pormeiodo

empreguismo,sobreposiçãodefunçõesecompetênciasefeudalização;suaineficiênciana

prestaçãodeserviçosenagestão;suaprivatizaçãoexpressanavulnerabilidadeaos

interessesdosgrandesgruposeconômicosenaestruturadebenefíciosesubsídiosfiscais;

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seudéficitdecontroledemocrático,diantedopoderdostecnocratase,dentrodisso,o

reforçodoExecutivoemdetrimentodosdemaispoderes.

Aorientaçãoneoliberalencontrousolofértil,aindaquesuaintroduçãomaisintensa tenhasidoretardadapelosprocessosdelineados,econsolida-secomodoutrinadosanos

1990.Talambientepolítico,econômicoeculturalfoireforçadotambémpeloquesepassou

aconhecercomoConsensodeWashington,comseureceituáriodemedidasdeajuste.

OConsensodeWashingtonestabelece-seapartirdeumSemináriorealizadonaquela

cidade,entre14e16dejaneirode1993,paradiscussãodeumtextodoeconomistaJohn

Willianson,equereuniuexecutivosdegoverno,dosbancosmultilaterais,empresáriose acadêmicosdeonzepaíses.Aliforamdiscutidosospassospolíticosnecessáriospara implementaçãodeprogramasdeestabilizaçãoque,deacordocomaótimasíntesedeFiori

(1994:2)passariapor3fases:

“Aprimeiraconsagradaàestabilizaçãomacroeconômica,tendocomoprioridade

absolutaumsuperávitfiscalprimárioenvolvendoinvariavelmentearevisãodasrelações

fiscaisintergovernamentaiseareestruturaçãodossistemasdeprevidênciapública;a

segunda,dedicadaaoqueoBancoMundialvemchamandode“reformasestruturais”:

liberaçãofinanceiraecomercial,desregulamentaçãodosmercados,eprivatizaçãodas

empresasestatais;eaterceiraetapa,definidocomoadaretomadadosinvestimentosedo

crescimentoeconômico.

2. O passaporte brasileiro para a mundialização: a ofensiva neoliberal dos anos 1990

O desfecho do pleito eleitoral de 1989, etapa tão esperada do processo de democratização, e mais um momento do embate entre os projetos societários antagônicos, favoreceu, por uma diferença pequena de votos, a candidatura à presidência que defendia explicitamente as “reformas” orientadas para o mercado, que implicariam um forte enxugamento do Estado, como saída para a crise econômica e social brasileira.

ApromessadeFernandoCollordeMellofoiadeheroicamentederrotarainflação

comum“únicotiro”,aoladodemedidasgeraisdeorientaçãoclaramenteneoliberal,em

sintoniacomaculturaeconômicamonetaristaquevinhaganhandoterrenodesdeofinaldo

governoSarney.

Suaintervenção(deCollor)demaiorfôlegoelargoprazofoiaimplementação

aceleradadaestratégianeoliberalnopaís,pormeiodaschamadasreformasestruturais,na

verdadeoiníciodacontrareformaneoliberalnopaís.

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Apolíticaindustrial,fundadanaaberturacomercial,programasdequalidadeindustrial

edecapacitaçãotecnológicaefacilidadesparaingressodoscapitaisexternos,nosentido

defomentaracompetitividadeinternacional,foiumelementocentraledeefeitoduradouro

dessaestratégia.

Assim,apolíticaeconômicanosdoisanosdegovernoCollorpautou-seporuma

adequaçãodestrutivaaoreordenamentomundial.Nãohouvequalqueraçãomaisousada

emrelaçãoaoproblemadoendividamento,semoqueéimpensávelumaperspectivade

investimentoedecrescimento,somandoelementosaoprocessodedesarticulação

progressivadopadrãodedesenvolvimentodaeconomiabrasileira,emespecialda

capacidadedosetorpúblico.

FernandoCollordeMellooptouporumaestratégiapolíticamediática,cujodiscurso massificadovoltava-separaosindivíduosatomizados,evitandoossegmentosorganizados. Assim,dirigia-seaos“descamisados”.Noqueserefereàenormeexpectativademocrática quantoaoenfrentamentodasrefraçõesdramáticasdaquestãosocialnopaís,seupouco tempodegovernopautou-senoclássicoclientelismo,comoodemonstraramoescândalo dassubvençõessociaiseaperformancedaprimeiradamaàfrentedaLegiãoBrasileirade Assistência(LBA).Deve-serecordarqueCollordeMellovetouaregulamentaçãodaLei orgânicadaAssistênciaSocial,demonstrandopoucadisposiçãodeimplementaroconceito deseguridadesocialpreconizadopelaConstituição.Talambientepolíticoarticuladoà aberturacomercialeàreestruturaçãoprodutiva,geradoresdedesemprego,teveimpactos

sobreaespinhadorsaldosmovimentossociaisdosanos1980,nosentidadasua

desmobilização.Tantoqueserãoosestudantes,“caraspintadas”,quetomarãoainiciativa

dasruas,peloimpeachment.Essefoiummovimentoimportante,masqueestevelongede

possuiradensidadeeocomponenteoperárioepopulardalutapelaseleiçõesdiretas,de

1984.

OcurtoperíododeItamarserápalcodeavançoslimitados,noqueserefereà

legislaçãocomplementaràConstituiçãode1988,aexemplodaLOAS.Masserátambémo

momentodearticulaçãodacoalizãoconservadoradepoderconstituídaemtornode FernandoHenriqueCardoso,entãoàfrentedoMinistériodaFazenda,ondefoiformuladoo planodeestabilizaçãoprotagonizadopelanovamoeda:oreal.FernandoHenriqueCardoso tinhacredenciaisdalutademocráticaevinhadonúcleoeconômicodopaís,colocando-se comooarticuladoreintelectualorgânicodacontrareformaedahegemoniaburguesano

Brasilcontemporâneo(Oliveira,1998:176-7),apósumperíodorelativamentelargode

perigosafragmentação,dequefezparteomedodeumaderrotaeleitoralparaaesquerda,

em1989.

O Plano Real e a recomposição burguesa no Brasil

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Qual foi a lógica do Plano Real, razões do seu impacto e, dependendo do ângulo de interpretação, de seu sucesso?

OPlanoRealpromoveu,poucosmesesantesdaeleiçãoumaverdadeirachantagem

eleitoral:ousevotavanocandidatodoPlanoouestavaemriscoaestabilidadedamoeda,

promovendo-seavoltadainflação,acirandafinanceiraeaescaladadepreços.

Osbrasileiros,traumatizadoscomumainflaçãode50%aomês(junho94)e

esgotadoscomaincapacidadedeplanejarsuavidacotidiana,votaramnamoedaena

promessadeque,comaestabilidade,viriamocrescimentoediasmelhores(opovo

brasileirotinhaetem,anecessidadedaesperança).Dessafeita,foipossíveluma

rearticulaçãodasforçasdocapitalnoBrasil,comoháalgumtemponãosevia.

Fiorisinalizaqueo“PlanoRealnãofoiconcebidoparaelegerFHC;FHCéquefoi

concebidoparaviabilizarnoBrasil,acoalizãodepodercapazdedarsustentaçãoe

permanênciaaoprogramadeestabilizaçãodoFMI,eaviabilidadepolíticaaoquefaltaser

feitodasreformaspreconizadaspeloBancoMundial”.

Asobrevalorizaçãodocâmbio,alémdedestruiraautoridademonetárianacional,

exigiuacaptaçãopermanentederecursosnoexteriorparaequilibrarabalançade

pagamentos.OsimpactosdessaengenhariadecurtoprazodoPlanoRealtêmsido:

obloqueiodequalquerpossibilidadededesconcentraçãoderenda;

umadesproporçãoentreaacumulaçãoespeculativaeabaseprodutivareal,cujo

custorecaisobreoEstadonaformadecrisefiscalecompressãodosgastospúblicos

emserviçosessenciais;

alienaçãoedesnacionalização(Gonçalves,1999;Paulani,1998;Teixeira,2000)do

patrimôniopúblicoconstituídonosúltimos50anos,umremanejamentopatrimonialde

grandesproporçõesecomfortesconseqüênciaspolíticas;

inibiçãodocréditoeinadimplênciadosdevedores;

mudançadoperfildoinvestimentodasindústrias,quetendeaseremreduçãode custosemanutenção,masnãoemampliaçãodabase,emvirtudedosriscos.Para

Tavares(1999),aindiscriminadaaberturacomercialeasobrevalorizaçãodocâmbio

sãoexcessosqueimpuseramumacamisadeforçaobsessiva,demodoquea

expansãodaproduçãoedademandainternatornam-seameaçasàestabilização,em

vezdemetasdesejáveis.

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ConformeTeixeira:“oresultadodaconjugaçãodeummovimentodereestruturação perversaedefensivacompolíticasmacroeconômicasquefreiamodinamismodaeconomia sópodiaserodesempregoestrutural,comencolhimentodosempregosnosetorformal,em

particularnaindústria,ondeocorreuenormedestruiçãodepostosdetrabalho”(2000:19).

Registrou-seumaumentodeprodutividadedaindústria,masestafoiaprodutividadedos sobreviventes.Aperdadepostosdetrabalho,porsuavez,nãofoicompensadapelosetor deserviçosemuitomenossetorpúblico,jogandomilhõesdepessoasnainformalidadee

aténocrimeorganizado,emnítidoavançonadécadade90.

Algunselementosdapolíticamacroeconômicaem execuçãosãofortemente geradorasdedesemprego.Apolíticadealtastaxasdejurosfavoreceaquedado investimentoprodutivo,comgrandedeslocamentodecapitaisparaaespeculação financeira.Alémdisso,emaisgrave,favoreceutambémoendividamentodeempresas, muitasdasquaisvêmfechandosuasportaspornãoconseguirpagarosempréstimos assumidos,emespecialaspequenasemédiasempresas–setornãomonopolistae intensivoem Forçadetrabalhomenosqualificada–que,nofinalde1977,se

responsabilizavamporcercade41%dosempregos(Sebrae,1997).

Apolíticaabruptadeaberturacomercialacirrouacompetitividadeepressionoua

indústrianacionalparaamodernização,direcionando-aparaomercadoexterno.Aqui

assistimosàintroduçãodetecnologiaspoupadorasdemãodeobraeàprecarizaçãodo

trabalho.

Poroutrolado,aprópria“reforma”doEstadotambémtemsidogeradorade

desemprego,pormeiodemecanismoscomoosprogramasdedemissãovoluntáriaea

instituiçãodasorganizaçõessociaiseagênciasexecutivas,cujarelaçãotrabalhistanãose

pautapelaestabilidade.

OataqueàSeguridadeSocialpassoutambémpelapolíticadeaberturaeconômica,

noquedizrespeitoabaixaro“custoBrasil”,deumaforçadetrabalhoqueédasmais

baratasdomundo–emtermosdesaláriosindiretos/diretossociais,paraqueasunidades

produtivastransnacionaisseinstalemnopaíscommaisfacilidade.

Umoutroaspectoéoimpactodamaneiradecompensarosetorexportadornacional

dosprejuízosoriundosdaaberturacomercial,comojáfoisinalizado:darisençãodeICMSe

dascontribuiçõessociaisparaessessegmentos.Essapolíticabaixouareceitadeestados

emunicípios,comimplicaçõesamplasparaosrecursosdapolíticasocial.

Apolítica,portanto,écortar,devariadasformas,recursosdaáreasocial,nesses

temposdecrisefiscaledeintensadisputapelofundopúblico.

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MárcioPochmann(jornaldoDIAP)jáchamavaaatençãosobreosefeitosda macroeconomiadoPlanoRealsobreoemprego.Suaspesquisasdemonstravamqueo Brasilviviaapiorcrisedosúltimoscemanos.DaimplantaçãodoPlanoRealatéagostode

1998,foramextintos764,1milpostosdetrabalhoformal.Oautorpreviaumfinaldedécada

de1990marcadopormaioragravamentodascondiçõessociais,commaioresíndicesde

violênciaurbana,desagregaçãofamiliar,instabilidadeeprecariedadedarenda.

Aspolíticasdegeraçãodeempregotêm passadopelaflexibilizaçãoe desregulamentaçãodoscontratos,apartirdeiniciativascomoainstituiçãodocontrato parcialdetrabalho.

OeconomistaMarceloNeri,doInstitutodeEstudosdotrabalhoedasociedade

(INEST)realizoupesquisasobrearelaçãoentreadesvalorizaçãodorealapartirde1999,a

inflaçãoeoconsumodospobres(oglobo,28/03/99).AaberturairresponsáveldeCollor,

aprofundadaporCardoso,introduziuacompetitividadenaindústriaalimentícia,quenão teveoefeitodebaixarospreços,diferentedaexpectativagovernamental,masdenivelá-los porcima.Aíestálocalizadoomaiorconsumodasfamíliasdebaixarenda,eainflação

tendeuasermaiorparaessasfamílias,apartirde1999,oquecorroboraahipótesede

perdadosganhossociaisdoPlanoReal.

Capítulo 4:

processo

A Contra Reforma do Estado Brasileiro – projeto e

1.

A

expressão

Pereira

intelectual:

o

projeto

“social-liberal”

em

Bresser

ParaBresserPereira,oBrasileaAméricaLatinaforamatingidosporumaduracrise

fiscalnosanos1980,acirradapelacrisedadívidaexternaepelaspráticasdepopulismo

econômico 1 .Essecontextovaiexigir,deformaimperiosa,adisciplinafiscal,aprivatização ealiberalizaçãocomercial.

BressernotatambémocarátercíclicoemutáveldaintervençãodoEstado,ouseja, apósoEstadoMínimo,oEstadosocial-burocráticoeorevivalneoliberal,caminhar-se-ia paraumaexperiênciasocialliberal,pragmáticaesocialdemocrata.Estemodelo,segundo Bresser,nãopretendeatingiroEstadoquemantémsuasresponsabilidadesnaáreasocial, acreditandonomercado,daqualcontrataarealizaçãodeserviços,inclusivenaprópriaárea

social(1996:14).

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AscausasdacriseestãolocalizadasnoEstadodesenvolvimentista,noEstado comunistaenoWelfareState,cujasexperiências–ameuvertãodísparesparaserem inseridasnumamesmalógica–subavaliaramacapacidadealocativadomercado,“um mecanismomaravilhoso”,quedeveterumpapelpositivonacoordenaçãodaeconomia

(1996).

AoEstadocabeumpapelcoordenadorsuplementar.Seacriseselocalizana insolvênciafiscaldoEstado,noexcessoderegulaçãoenarigidezeineficiênciadoserviço público,háquereformaroEstado,tendoem vistarecuperaragovernabilidade (legitimidade)eacapacidadefinanceiraeadministrativadegovernar.

OlugardapolíticasocialnoEstadosocialliberalédeslocado:osserviçosdesaúdee

educação,dentreoutros,serãocontratadoseexecutadospororganizaçõespúblicasnão

estataiscompetitivas.

Bressercriticaaesquerdatradicionalporsemanterpresaaonacional-

desenvolvimentismopopulista,quevemincorrendonosseguintes“equívocos”:

orientarodesenvolvimentoparaomercadointerno;

protegeraindústrianacional;

incrementarodesenvolvimentotecnológicocomoelementocomplementarda

substituiçãodeimportações;

justificarodéficitpúblico,quandohácapacidadeociosaedesemprego,rejeitando

qualquerajustefiscal;

interpretarastaxasdejuroscomoconspiraçãodosbancosedaespeculação;

dizerqueaumentodesalárionãoaumentaainflaçãoequeoaumentodosalárioreal

éredistributivonumaeconomiacomaltaconcentraçãoderenda;

afirmarqueasempresasestataissãoeficientesmasnãosãorentáveis,porqueseus

preçossãoartificialmentedeprimidos;

e,porfim,o“equívocomaior”–defenderqueacoordenaçãoeconômicapeloEstado

tendeasermaiseficientedoquepelomercado.

2. A expressão institucional: o Plano Diretor da Reforma do Estado

(PDRE/MARE-MinistériodaAdministraçãoedaReformadoEstado)

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As proposições do PDRE elaborado pelo MARE e aprovado em setembro de 1995 na Câmara da Reforma do Estado. Na apresentação do documento, FHC reitera os argumentos de que a crise brasileira da última década foi uma crise do Estado, que se desviou de suas funções básicas, do que decorre a deterioração dos serviços públicos, mais o agravamento da crise fiscal e da inflação. Trata-se, para ele, de fortalecer a ação reguladora do Estado numa economia de mercado, especialmente os serviços básicos e de cunho social. o Estado brasileiro é caracterizado como rígido, lento, ineficiente e sem memória administrativa. A “reforma” passaria por transferir para o setor privado atividades que podem ser controladas pelo mercado, a exemplo das empresas estatais. Outra forma é a descentralização para o “setor público não estatal”, de serviços que não envolvem o exercício do poder de Estado, mas devem, para os autores, ser subsidiados por ele, como: educação, saúde, cultura e pesquisa científica.

Trata-sedaproduçãodeserviçoscompetitivosounãoexclusivosdoEstado,

estabelecendo-separceriascomasociedadeparaofinanciamentoecontrolesocialdessa

execução.OEstadoreduzaprestaçãodiretadeserviçosmantendo-secomoreguladore

provedor.Reforça-seagovernançapormeiodatransiçãodeumtiporígidoeineficientede

administraçãopúblicaparaaadministraçãogerencial,flexíveleeficiente.

AReformadistinguequatrosetoresnoEstado:oNúcleo Estratégico queformula políticaspúblicas,legislaecontrolasuaexecução,compostopelostrêspoderes;oSetor de Atividades Exclusivas,ondesãoprestadosserviçosquesóoEstadopoderealizar,a exemplodaprevidênciabásica,educaçãobásica,segurançaeoutros;o Setor de Serviços não-Exclusivos,ondeoEstadoatuasimultaneamentecomoutrasorganizações públicasnãoestataiseprivadas,comoasuniversidades,hospitais,centrosdepesquisase museus;eoSetor de Bens e Serviços para o Mercado,aexemplodeempresasnão assumidaspelocapitalprivado.Aessessetorescorrespondemformasdepropriedade:

estatalparaosdoisprimeiros;públicanãoestatalparaoterceiro;nocasodoúltimo,a

propriedadeestatalnãoédesejável;masdeveexistirregulamentaçãoefiscalizaçãorígidas,

aexemplo,supõe-se,decompanhiasdeluz,gáseágua.SobreaadministraçãonoNúcleo

Estratégicopropõe-seummixentreadministraçãoburocráticaegerencial.Nosdemais,a

administraçãogerencial.

4. Uma crítica à concepção da “Reforma” do Estado

A autora passa a sistematizar os elementos que considera para uma reflexão crítica sobre o projeto hegemônico nos últimos 8 anos.

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1º)AexplicaçãodacrisecontemporâneacomocrisedooulocalizadanoEstado.

Aíestãoindicadassuascausasesuassaídas,oqueexpressaumavisãounilaterale

monocausaldacrisecontemporânea,metodologicamenteincorretaequeempobreceo

debate.

A perspectiva crítica de análise sustentada pelo marxismo considera que as mudanças em curso passam por uma reação do capital ao ciclo depressivo aberto no início dos anos 70 (Mandel, 1982 e Harvey, 1993), que pressiona por uma refuncionalização do Estado, a qual corresponde a transformação no mundo do trabalho e da produção, da circulação e da regulação.

Astentativasderetomadadetaxasdelucronosníveisdos“anosdeouro”docapital

(pós-guerra)ocorremhojeportrêseixosquesearticulamvisceralmente:

areestruturaçãoprodutiva–quefragilizaaresistênciadostrabalhadoresao

aviltamentodesuascondiçõesdetrabalhoedevida,facilitandoarealizaçãodesuper

lucros;

amundialização–umarearticulaçãodomercadomundial,comredefiniçãoda

especializaçãodospaísesefortepresençadocapitalfinanceiro;

neoliberalismo,esteúltimorepresentandoasreformasliberalizantes,orientadaspara

omercado(Behring,1998).Oquecombinaaumaforteofensivaintelectualemoral,

comoobjetivodecriaroambientepropícioàimplementaçãodessasproposições,

diluindoaspossíveisresistências.

A“reformadoEstado”,talcomoestásendoconduzida,éaversãobrasileiradeuma estratégiade inserção passiva (Fiori,2000:37)e a qualquer custo nadinâmica internacionalerepresentauma escolha político-econômica,nãocaminhonaturaldiante dosimperativoseconômicos.Umaescolha,bemaoestilodeconduçãodasclasses dominantesbrasileirasaolongodahistória.

Em relação a questão da privatização brasileira, tem-se a entrega do patrimônio público ao capital estrangeiro, bem como a não obrigatoriedade de as empresas privatizadas comprarem insumos no Brasil, o que levou ao desmonte de parcela do parque industrial nacional e a uma enorme remessa de dinheiro para o exterior, ao desemprego e ao desequilíbrio da balança comercial.

ParaOliveira,essemovimentomostraoquantoéprecisomuitoEstadoparacriarum

mercadolivre:aexigênciadeumEstadoforteparaaconduçãodoajustedirecionadoà

expansãodomercado.

08/12/13

“BRASILEMCONTRAREFORMA–DESESTRUTURAÇÃODOESTADOEPERDADEDIREITOS”

AndreaseKorezmin(1998)apontam odiscursoda“reforma”comoum

conservadorismodisfarçado.Em1990oBrasilrecorreuaoFMI,eoacordonãogarantiuo

ajustenascontaspúblicas,estandovoltadosobretudoparaaregularidadedopagamento

doscredores.

EstudosdoINESC(InstitutodeEstudosSócio-Econômicos)apontam:

queabuscadametadosuperávitprimárioprevistonoacordode1999levouauma “brutalcontençãodegastos”emtodasasáreas,comexceçãodopagamentodoserviçoda dívidaedepessoal.Osgastoseminvestimentoseatividades-finsforamextremamente limitados;eprogramassociaiseambientaisderelevânciaforamparalisados.Oestudo alertaparaabaixíssimaexecuçãoorçamentárianosprogramasvoltadosparacriançase adolescentesemsituaçãoderiscoeanãoimplementaçãodoEstatutodaCriançaedo Adolescente,“pelafaltadeaplicaçãoderecursospúblicos”.Ogovernobrasileiroalcançou

umsuperávitprimáriode3,13%doPIB,maiorqueametadoFMI,queerade2,5%doPIB,

masaocustodeinvestimentopoucoepenalizargravementeaáreasocial:aquelaque

deveriaserpriorizadaapartirdoajusteedoenxugamentodoEstado.

Outroaspectodedestaquena“reforma”doEstadoéoProgramadePublicização, queseexpressanacriaçãodasagênciasexecutivasedasorganizaçõessociais,emais recentementenaregulamentaçãodoterceirosetor.Estaúltimaestabeleceumtermode parceriacomONG’seinstituiçõesfilantrópicasparaaimplementaçãodaspolíticas.Aessa novaarquiteturainstitucionalnaáreasocialsecombinaaindaoserviçovoluntário,oqual desprofissionalizaaintervençãonessasáreas,remetendo-asaomundodasolidariedade

(Gusmão,1998),darealizaçãodobemcomumpelosindivíduos,porintermédiodeum

trabalhovoluntárionãoremunerado.Ofortalecimentodessesetorpúbliconãoestatalcomo

viadeimplementaçãodepolíticasocial,nocontextodeumacrisefiscalqueéaprofundada

pelacriseeconômicaemcurso,encerraalgunsproblemasecontradições.

AautorasublinhaqueastransformaçõesnoEstadobrasileirosãofundamentaisnuma

agendaquesepropõesuperarumEstadoprivatizado,voltá-loparaacoisapública,e

especialmenteimprimirmaioreficiênciaasuasações.Oresgateda“dívidasocial”como

partedaspreocupaçõesestáobviamenteassociadoàcapacidadedoEstadobrasileirode

implementarpolíticaspúblicas.

Háumafortetendênciadedesresponsabilizaçãopelapolíticasocial–emnomeda qualsefariaa“reforma”–acompanhadapelodesprezopelopadrãoconstitucionalde seguridadesocial.otrinômiodoneoliberalismoparaaspolíticassociais–privatização,

focalizaçãoedescentralização(Draibe,1993)–tendeuaseexpandirpormeiodo

“ProgramadePublicização”.

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“BRASILEMCONTRAREFORMA–DESESTRUTURAÇÃODOESTADOEPERDADEDIREITOS”

Capítulo 5: Ilustrações particulares da Contra Reforma

AContraReformadoEstadobrasileiroconcretiza-seemalgunsaspectos,àsaber:

perdadasoberania Þ

perdadasoberaniaÞ comaprofundamentodaheteronomiaedavulnerabilidade externa;

noreforçodeliberadodaincapacidadedoEstadoparaimpulsionarumapolítica

econômicaquetenhaemperspectivaaretomadadoempregoedocrescimento,em

funçãodadestruiçãodosseusmecanismosdeintervenção;

naparcavontadepolíticaeeconômicaderealizarumaaçãoefetivasobrea

iniquidadesocial,nosentidodesuareversão,condiçãoparaumasociabilidade

democrática.

Aautorasublinhaqueatémesmoosmecanismosmaiselementaresdademocracia

burguesa,aexemplodaindependênciaedoequilíbrioentreospoderesrepublicanos,nãoé

considerado.

Obs. Beth da Luz: VideoexcessodeMedidasprovisórias–MPencaminhadaà CâmaradosDeputadospeloExecutivo–sejanogovernodeFHCoudeLula.

1. A Flexibilização das Relações de Trabalho

Umpressupostoclássicoesempreimportanteparaumesforçoderetomadadas

taxasdelucroéasubsunção/exploraçãodotrabalhopelocapital,nosentidodaextraçãoda

maisvalia,sejamaisvaliarelativanosécXX,sejanaretomadadasformasmaisbárbaras

daextraçãodamaisvaliaabsoluta.

Umelementofundamentalparagerarascondiçõespolíticaseideológicasparaa

extraçãodesuperlucrostemsidoodiscursoeasestratégiasparaaretomadada

competitividade,oquesóseriapossívelapartirdeumaquedadoscustosdosfatoresde

produção.Dentreestes,coloca-seemquestão,o“custo”dotrabalhoemtodosos

quadrantesdomundo.

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Diantedessaquestão,arespostaparaareduçãodecustos,pormeiodaflexibilização

dasrelaçõescontratuaisdetrabalho,retirando-seoEstadodaregulaçãodestasrelações,

inclusivenoqueserefereàquestãodeproteçãosocial,comareduçãodosencargos

sociais.

Umpressupostoparaaimplementaçãodemedidasdenaturezaclaramente regressivaparaostrabalhadoresseriaimprimirderrotaspolíticasaoseumovimento organizado(comoMargarethThatcherfeznaInglaterra).Dessafeita,tambémoperam estratégiasdepassivização dostrabalhadores,comoobjetivodedestruirsuaidentidade declasse.Comoexemplo,asituaçãodedesempregoéexplicadapelaausênciade qualificaçãodostrabalhadores–eatépormávontade,inaptidãooupreguiça(Mattoso,

1999),fenômenodaresponsabilizaçãodostrabalhadorespelacriseenãoporuma

condiçãoestruturaldocapitalismonoqualnãoháempregoparatodos.

ParaMattoso,“setoresdostrabalhadores,pressionadosporessaformapredatóriade

reestruturação,pelocrescentedesemprego,pelaprecarizaçãodascondiçõesdetrabalho,

tambémdesfocaramsuaaçãoecolocaram-senadefensiva”.

Mattosoconcluiqueoprojetodeflexibilizaçãodogoverno–queviriaaentraremvigor

apartirde1988,comorespostaaomaisduroperíododedestruiçãodepostosdetrabalho

–nãoapontaparaaformalizaçãodoemprego,masparareduçãodoscustosdedemissão,

jábaixosnopaís.

Mattosodenunciaumaelitedomésticaantinacional,cujasopçõesparalisarame

desarticularamaspossibilidadesdaeconomiabrasileira,oqueresultounoaprofundamento

dodesemprego.

AFolhadeSãoPaulode27/10/2001trouxeumareportagemnocalordoscustos

sobreoprojeto5483/01,quealteraoartigo618daCLT(ConsolidaçãodasLeis

Trabalhistas),prevendoqueonegociadoentrepatrõesetrabalhadorespasseaprevalecer

sobreolegislado,ouseja,abasemínimadedireitosconsolidadanaCLTpodeser

negociadae,portanto,nãoassegurada.Esteprojeto,propostonofinaldogovernoFHCé

umgolpefatalsobreostrabalhadores.

Estáaí,portanto,umadefesacontundentedaflexibilizaçãocomoelementoda

“reforma”doEstado,nosentidoderetirar“entraves”paraamodernizaçãoea

competitividadedaindustriabrasileiraapartirdocustotrabalho,bemcomocontribuirpara

atrairinvestimentosestrangeirosprodutivosparaopaís,jáquetalretiradaimplicaa

diminuiçãodosencargossobreasempresas.

OpresidentedaCUT,JoãoAntônioFelício,veioàpúblicomanifestar-searespeito

daspropostasmaisrecentesdemudançasnaCLT.Felíciosublinhaquedesdeaadoçãodo

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realforamintroduzidasmodificaçõesamplasnalegislaçãotrabalhista,aexemplode:

trabalhoportempodeterminado;

suspensãotemporáriadocontratodetrabalho;

flexibilizaçãodotrabalhoatempoparcial;

bancodehoras,dentreoutras.

Eleconcluiquehouveumaquedadaparticipaçãodossaláriosemcomparaçãocom oslucros,narendanacional.Peloexposto,Felícioconcluique“ficaevidentequea desregulamentaçãodotrabalhonãoéocaminhoparapreservaroempregoecriar

condiçõesderetomadadocrescimento”(FolhadeSãoPaulo,27/10/2001).

AcartadeconjunturadaFundaçãodeEconomiaeEstatísticadoRioGrandedoSul

destacouoproblemadodesempregoemnovembrode1999.

“Afraçãodosempregoscomcarteiranototaldaocupaçãocaiude53,8%nosegundo

trimestrede1991para44,6%emsetembrode1999.Essasituaçãocaracterizatambémà

desproteçãodotrabalhonopaís,jáqueainformalidadesignificaonãoacessoà previdência,anãosernacondiçãodaautonomia,oquesignificaumacontribuiçãoaltapara

osbaixossalários,de20%.

Contudo,seoEstadoseretiradedeterminadasfunçõescomaflexibilização,o mesmonãopareceocorrercomaqualificação,viapelaqualaposta-senocombateao desemprego,mascujaeficáciaosnúmeroscontestamcomveemência.Noentanto,o

FundodeAmparoaoTrabalhador(FAT)possuiumpatrimônioacumuladode30bilhõesde

reais(Amaral,2001:41),maiorqueodapolíticadesaúde.Porestaviasãofinanciadosos

programasdequalificaçãoerequalificaçãoprofissional,aexemplodoPlanoNacionalde

QualificaçãodoTrabalhador(PLANFOR),queatingiucercade12milhõesdetrabalhadores

desdequefoiimplantadoem1995,segundoinformaçõesdeMinistériodoTrabalho,além

dosegurodesemprego,aoqualostrabalhadorestêmrecorridomenos,oquerevelao

acirramentodaprecariedade.

Amaral(2001)relacionaoinvestimentonaqualificaçãocomoumaestratégiade

passivizaçãopormeiodopatrocíniodoconsenso,paraasseguraracolaboraçãode

classes.NãoéàtoaqueareaçãosindicalàsmudançasdaCLTesteveaquémda

radicalidaderequeridapelasituação.

SegundoMendonça,diretortécnicodoDIEESEdesde19890,“ninguémécontra

investiremrequalificaçãoprofissional,masissonãoéumapanacéia( )arequalificação profissionaltemquesercolocadaemseudevidolugar.Elamodifica,namargem,aoferta

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detrabalho,masnãoexpandeademanda.Nãoéumapolíticaativa”(In:BenjamimeElias,

2000).

Osaspectosarroladosacimarevelamumelementoculturaldefundonasociedade

brasileiradesdeostemposdaescravidão,apesardetantosanosdeassalariamento:o

desprezopelosquevivemdotrabalho.

2. As privatizações e a relação com o capital estrangeiro

“adesnacionalizaçãolevouoBrasildevoltaaopassado.Voltouaser

umarepubliquetadependente.Oucolônia?“(AloysioBiondi,2000:26).

Aautorasublinhaqueasprivatizaçõesforamesãoumaestratégiadecisivaà

submissãodoBrasilàlógicamundialdocapital;articuladaasintervençõesnoplanofiscal,

favorecemsegmentosdeterminadosdocapitalnacionalemfortearticulaçãocoma

especulaçãofinanceirainternacional.

Gonçalves(1999)constataqueaparticipaçãodocapitalestrangeironaprodução

brasileirapassoude10%noiníciodosanos1990,para15a18%nasegundametadeda

década,destacando-seaísuaorientaçãoparaserviçosdeutilidadepública.

Contudo,aoadotarestapolítica,ogovernojogouopaísnumaarmadilhadramática,já quetaisserviçosnãosomaramparaoequilíbriodobalançodepagamentos,especialmente porquenãosãoexportáveis.Aocontrário,atendênciaéadequeasempresasdeserviços –privatizadasedesnacionalizadas–passemaimportarequipamentosepeças, alimentandoodesequilíbrionabalançacomercialeavulnerabilidadeaoschoquesexternos. Alémdisso,considerandoquepartedaeconomiapassaasercontroladapornão residentes,oEstadoNacionalperdesuamargemdemanobranadefiniçãodepolíticase estratégias.Esteselementosdelineiamumpadrãodeintervençãoestatalpautadopela atratividadeepelainserçãopassivanoprocessodemundialização,colocandoopaísnuma

trajetóriadeinstabilidadeecrise(1999:18).

OBrasiléumpaíscujahistóriaémarcadaporumapresençaprofundadocapital internacionaldesdeoperíodocolonial.Oinvestimentoexternodiretoencontrousempreum

ambientepropicioeliberalnopaís,tornando-seoBrasil,em1970,o6ºpaísmais

desnacionalizadodomundo.

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Entre1995e1998,houvecercade1500processosdeaquisiçãoefusão,coma

participaçãomajoritáriadocapitalestrangeiroem 59% deles,atingindomais profundamenteosseguintessetores:mineração,materialeletrônico,elétricoede comunicações,autopeçaseprodutosalimentíciosdiversos,mascomdestaqueparaos laticínios,bancos,seguros,energiaelétrica,supermercadosemeiosdecomunicação.

Sobreasprivatizações,ogovernobrasileiroempreendeuumdosprogramas“mais ambiciososdomundo”;omaisdestrutivodomundo,considerandoqualquerparâmetrode projetonacional,poder-se-iadizertambém.Umprogramaquefezcresceraparticipaçãodo

capitalestrangeironoconjuntodasmaioresempresasde36%em1997para42%em

1998.Atenção:numperíododeumano!

Talprocessocombinou-seàfragilizaçãoeatéextinçãodesegmentosdaindustria

nacional,etambémaumaforteconcentraçãodecapitalnoquesebeneficiaramdo

processo.

Paulanirefere-seaosprocessosdeprivatizaçãocomoadançadoscapitaisemsua fecundacaracterizaçãodaprivatizaçãobrasileiracomoumareestruturaçãopatrimonialde grandesproporções,naqualtem-seo“fortalecimentodedeterminadosgrupos,a desnacionalizaçãoeoaumentodograudeconcentraçãoe,portanto,dopoderde

monopólioemquasetodosossetores”(1998:45).

BragaePratesalertamqueaprivatizaçãoeinternacionalizaçãodosistemabancário

foramumaescolhaenãoumainexorabilidade.Osautoreslembramqueospaíses

desenvolvidosnãopermitiramtamanhaparticipaçãoestrangeiranosetorbancário.

3. A Condição da Seguridade Social Pública no Brasil

a

universalistas e redistributivos de proteção social vê-se fortemente tensionada:

Do

ponto de

vista

da lógica

do

capitalismo contemporâneo,

configuração de

padrões

pelasestratégiasdeextraçãodesuperlucros,comaflexibilizaçãodasrelaçõesde

trabalho;

pelasupercapitalização–comaprivatizaçãoexplícitaouinduzidadesetoresde

utilidadepública,ondeseincluemastendênciasdecontraçãodosencargossociaise

previdenciários;

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e,especialmente,pelodesprezoburguêsparacomopactosocialdosanosde

crescimento,agoranocontextodaestagnação,configurandoumambiente:ideológico

individualista,consumistaehedonistaaoextremo.

“Apolíticaeconômicaproduzmortoseferidos,eapolíticasocialéumafrágil ambulânciaquevairecolhendoosmortoseferidosqueapolíticaeconômicavai

continuamenteproduzindo”(Kliksberg,1995).

Aspossibilidadespreventivaseatéeventualmenteredistributivastornam-semais

limitadas,prevalecendootrinômioarticuladodoideárioneoliberalparaaspolíticassociais,

qualseja:aprivatização,afocalizaçãoeadescentralização,aquicompreendidacomo

merorepassederesponsabilidadesparaentesdafederaçãoouparainstituiçõesprivadas

enovasmodalidadesjurídico-institucionaiscorrelatas,queconfiguramosetorpúbliconão

estatal,componentefundamentaldoProgramadePublicização.

Oconjuntodedireitosduramenteconquistadosnotextoconstitucionalforam,deuma maneirageral,submetidosàlógicadoajustefiscal,permanecendo–maisumavez–uma

fortedefasagementredireitoerealidade(SalamaeValier,1997:110).

Assim, não há consumo coletivo ou direitos sociais, mas uma articulação entre assistencialismo focalizado e mercado livre, este último voltado para o cidadão consumidor (Mota, 1995).

BehringcitaMotaqueafirmaquea“tendênciaédeprivatizarosprogramasde previdênciaesaúdeeampliarosprogramasassistenciais,emsincroniacomasmudanças nomundodotrabalhoecomaspropostasderedirecionamentodaintervençãosocialdo

Estado”(1995:122).

Ospobreseindigentes,transformadosemdadobruto,lamentáveleinevitávelda

naturezapelaficçãoregressivadomercadoautoregulável(Teles,1998:108).Tambémsão

abordadosporprogramasdecombateàpobrezaemergenciais,residuaisetemporários,

comoqueterminamsendoineficazes(SalamaeValier,1997:116-8).Estaorientaçãoé

reforçadapelasagênciasmultilaterais,aexemplodoBancoMundial,queprevêemredesde segurançaoudeproteçãosocialparaasvítimasdoajusteinevitável,introduzindo,inclusive, cláusulassociaisnosacordosdeempréstimosaoterceiromundo,comofezoFMIcomo

Brasilem1999.

UmoutrofenômenochamadoporYasbek(1993)derefilantropizaçãodaassistência

(terceirosetor,voluntariado)éreveladordeumverdadeiroretrocessohistóricopoisas pequenassoluções ad hoc edo“reinadodominimalismo”estãolevandoauma

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“descentralizaçãodestrutiva”eaoreforçodosesquemastradicionaisdepoder,comoas

práticasdeclientelismoefavor.

SegundoTelles,oPCS(ProgramaComunidadeSolidária–governoFHC)contribui

paraadesintegraçãodopadrãodeseguridade,preparandooterrenoparaumaredefinição

conservadoradosprogramassociais,deperfilseletivoefocalizado,edissociadodas

instânciasdemocráticasdeparticipação.

PordentrodoPCS–espaçoprivilegiadodeformulaçãododiscursodoterceirosetor,

edalegislaçãoqueconsolidaoPDRE-MARE,acercadochamadosetorpúbliconãoestatal

–esoboimpulsododiscursoedificantedasolidariedadeedaparceriacomasociedade

civil,impõe-seumaredefiniçãoconservadoradarelaçãoEstado-sociedade.

Nasaúde,avançouadiscussãoemontagemdaagênciaexecutiva(ANS–Agência

NacionaldeSaúde)eatransformaçãodasunidadesemorganizaçõessociais,emque

pesemascríticasdogrupodetrabalho(GT)criadopeloConselhoNacionaldeSaúdepara

analisarapropostadoGovernoFederal.

Outracríticaéquantoaautonomiaparafazercomprassemlicitaçãoeparadefinir

planosdecargos;issogerariariscosparaamoralidadeadministrativa,numpaísqueestá

longedesuperarpráticaspatrimonialistaseclientelistas.

Dopontodevistadousuário,podehaversegmentaçãodosmesmos,jáqueas

instituiçõespodemacelerarconvênioscomosplanosprivados,criandodificuldadesparaa

implementaçãodosprincípiosconstitucionaisdauniversalização,daintegralidadeeda

equidade.

Naassistência–valefrisar,aassistêncianãoexistecomopolíticapúblicade

seguridadenoPDRE-MARE.Aostermosdeparceria(OSCIP)econtratosdegestão(OS),

areformaatropelaoConselhoNacionaldeAssistênciasocial(CNAS)aoproporo

credenciamentodaquelasentidadesprivadascomfinspúblicos(terceirosetor)noMinistério

daJustiça,oque“facilitariaedesburocratizaria”oprocesso.

Aprevidênciasocial–Umanovadinâmicainstitucional/tecnocráticaextinguiuprojetos

encaminhadosanteriormente,aexemplodosqueeramconduzidospeloServiçoSocial,e

criounovos,comooProgramadeEstabilidadeSocial,maisumavezdecunhofiscal,ou

seja,comoobjetivodeatrairostrabalhadoresautônomos,nosentidodeampliarabase

contributivadaprevidência.

Ouseja,oquesealteraéamodalidadederespostaàquestãosocial,agoraajustada aosimperativosdadinâmicapassiva deinserçãoeconômicanocapitalismo contemporâneo,masapartirdevetoresculturaisepolíticosmarcantesnahistóriabrasileira.

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1. Os Direitos Sociais: perda ou restrição?

A ‘Reforma” da Previdência social foi e é, considerando que em alguns aspectos para o projeto neoliberal, permanece inconclusa.

AtravésdaMP(Medidaprovisória)1729de3/12/98edeumalegislação

complementarampla,queculminanalei9876de26/11/99(maisconhecidacomo“Leido

Fatorprevidenciário).Emtodooprocessoprevaleceualógicafiscaleosargumentos

demográfico–asperspectivasdeenvelhecimentodapopulaçãoeseuimpactosobrea

previdência–combinadosaoimpulsoàprevidênciacomplementar,consolidandoa

dualidadeentreumaprevidênciapobreparaospobres,aquicontribuintes,euma

previdênciacomplementarparaosque“podempagar”.

Criou-seumaespéciedeprêmiopelapermanêncianomercadodetrabalho,coma

aplicaçãodofatorprevidenciário,numaespéciederevanchetecnocráticacontraaderrota

queogovernosofreunaquestãodaidademínima.Issoimplicaconseqüênciasparaa

conformaçãodomercadodetrabalho,poisagravaadificuldadedeabsorçãodenovas

pessoasnomercadodetrabalho,numaconjunturadeempregoescasso.

Pratachamaaatençãoparaofatodequeaquelesquecontribuíramduranteanospara

aprevidênciaedeixaramdefazê-lo,porqueforamempurradosparaainformalidadeouo

desemprego,encontram-sesemnenhumacobertura,atéporqueodireitoaobenefício

assistencialtemcritériosdeacessomuitorestritivosassociadosàcapacidadeparao

trabalhoeasegmentosespecíficos.Antesda“reforma”,estescidadãoseseus

dependentespossuíamalgunsdireitos,queforamcancelados.

Emrelaçãoàassistência,valelembrarqueaLOASjánasceusobotacãodoajuste fiscal,cujamaiorexpressãofoiadefiniçãodocortederendade¼dosaláriomínimoper

capitadeumafamíliainteira,paraumportadordedeficiênciaouidosocommaisde70

anos,pertencenteaestafamília,fazervalerseudireitodeacessoaoBPC.

Nocampodesaúde,oconceitodeuniversalizaçãoexcludenteconfirma-sepormeio

dadualização:umsistemapobreparaospobreseumpadrãodequalidademaiorparaos

quepodempagarpelosserviçosmaiscorriqueiros.Aprivatizaçãoinduzidanestapolítica,

pormeiodeestímuloaosplanosdesaúdeeaosconvênios,tendeatorná-laumproblema

dedireitodeconsumidorenãoumproblemadedireitosocialparaparcelasignificativados

brasileiros.

08/12/13

“BRASILEMCONTRAREFORMA–DESESTRUTURAÇÃODOESTADOEPERDADEDIREITOS”

Apartirdoselementoslevantadosacercadarelaçãoentrefinanciamentoda

seguridadesocialeajustefiscal,épossívelconcluirqueexisteumafortecapacidade

extrativadoEstadoBrasileiro,porémquenãoestávoltadaparaumaintervenção

estruturanteeparaosinvestimentossociais,masparaalimentaraeliterentistafinanceira.

Numadireção,osinvestimentossociaisnãosão,evidentemente,ascausasdacrise,

comoinsistiamemafirmarosdiscursosneoliberaismaisdogmático.Odéficitpúbliconão

estálocalizadoneles,embora,comoseviu,tenhamsidoconstruídasumacortinadefumaça

ideológicaealgumasartimanhasparaforjarejustificaresteargumento.

O que existiu ao longo desses últimos anos, na verdade, foi um crescimento vegetativo e insuficiente do investimento do Estado em políticas públicas fundamentais – com o que o governo procurou assentar seu compromisso com o social – enquanto a crise fiscal é aprofundada por custos com um setor parasitário.

Asociedadetemdadorecursosparaalémdasuacapacidade,sobretudoos

trabalhadores,jáqueosistematributáriobrasileiroestáespecialmentefundadono

consumo.

Enquantoisso,adireçãodesuaaplicaçãopelogovernofoigeradoradomais

profundodéficitpúblicovividopeloBrasilemtodaasuahistória.

1 Populismoeconômico,numadefiniçãosumária,caracterizar-se-iaporpolíticasmacroeconômicasna AméricaLatinaquemantêmoativismodoEstadonodesenvolvimento,bemcomoacenamparaa redistribuiçãoderendanocurtoprazo,massemsustentaçãonolongoprazo,aexemplodoPlanoCruzado.