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Retratos do poder imperial no Brasil
Mônica Rugai Bastos

Resumo
Este artigo trata das representações do poder contidas na produção iconográfica do período imperial brasileiro, principalmente durante o governo de Dom Pedro II. Relaciona os conteúdos representados aos períodos políticos pelos quais passava a monarquia, buscando mostrar que representações pictóricas ou fotográficas têm função social.

Abstract
This paper analyses iconography representation about the Brazilian imperial period, especially during the second one. It will try to prove that the representations have direct connection to monarchy political and state issues and have social functions.

Palavras-chaves: Monarquia, Brasil, Iconografia, Império, Dom Pedro II.

Keywords: Monarchy, Brazil, Iconography, Dom Pedro II.

Este artigo traz algumas reflexões acerca da questão da representação do poder no período de 1808 a 1889 no Brasil. Pela extensão do período e pela quantidade produzida de imagens, há ainda muito a estudar. No entanto, já existem alguns aspectos a serem salientados. A construção de repertório simbólico, relacionado à política e ao exercício do poder, para uma população boa parte analfabeta, era fundamental. Há mudanças nas ênfases dadas nos retratos. Este panorama procura marcar os períodos de exercício do poder e relacioná-los às imagens produzidas. O Brasil foi, dos países americanos a se tornarem independentes das metrópoles, o único a permanecer monárquico. No México houve uma tentativa de fazê-lo, mas o primo-irmão de Dom Pedro foi fuzilado depois de dois anos no poder. Só por aqui, ao que parece, a nobreza conseguiu, ao modificar tudo, fazer com que tudo permanecesse da mesma forma1. Para tanto, foi necessária a criação de uma nova maneira de representar o poder. Novos símbolos que mostrassem as diferenças, não muito claras à primeira vista, entre Dom João, que representava Portugal e o passado colonial, e Dom Pedro, que representava o Brasil e o futuro como grande e próspera nação. Não bastavam palavras e ações políticas, pois a maior parte da população desconhecia as letras, e, portanto, precisava de imagens. Mais que isso: monarquias são simbolizadas por imagens que traduzem rituais do passado, tradições que justificam a existência do poder transmitido pelo nascimento. Assim, a monarquia no Brasil viu-se em situação ambígua – entre o passado e o futuro;

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uma vez que não se trata da coroa portuguesa. Pedro. Colocou no cetro a esfera celeste. Trata-se da tradição estabelecida com a morte de Dom Sebastião na África. Os mantos são completamente diferentes. resoluto. dentre eles. um semblante apático. À sua volta o imperador manteve um círculo reduzido de nobres. Nesse sentido. pintores. símbolo dos Habsburgo desde Carlos V. tem um semblante sério e resoluto. Havia uma série de desconfianças mútuas entre brasileiros e portugueses. por isso mesmo. estrelas de oito pontas e folhas e frutos da palmeira em um fundo verde. tem um olhar distante. A continuidade foi percebida não apenas nas imagens. não. João mandou fazer novas jóias ao chegar ao Brasil. enquanto que o pai. mas nem tanto. percebe-se que algo mudou. Dom Pedro teve problemas para implementar seu governo. representa os mesmos valores. A esfera e a cruz são idênticas às da coroa de D. Debret é um dos artistas que realizou retratos de D. no entanto. Ele passou a ser visto como 43 . Ao mostrar os símbolos de cada monarquia. A coroa tem a mesma esfera com abóbada celeste que anteriormente simbolizava o Brasil no Reino Unido. O que há de mais marcante é o fato de que Dom Pedro ostenta sua coroa. Os símbolos de poder. D. calça botas de montaria. enaltecem símbolos nacionais diversos. mas. O outro é bem mais velho. Portanto. No entanto. mas de resto os símbolos usados são muito parecidos. Um é jovem. não poderia ser escondida. recriar rituais. Cria-se uma lenda na qual o rei teria sido levado aos céus com a coroa na cabeça. monarcas portugueses não usavam a coroa na imagem posterior à coroação por costume. no entanto. foram incorporadas folhas de palma. A continuidade da casa dinástica. consegue-se perceber o que existe de passado naquele momento histórico. O artista apresenta um jovem imperador. no entanto. mas na forma de governar do defensor perpétuo e primeiro imperador do Brasil. voltando para Lisboa com a coroa que era sua por direito2. símbolo da colônia. os dois se distinguem ainda mais. que substituiu o governo português. Debret tentou apresentar o novo momento do Brasil.FA C O M . mas mais sutil do que se desejava. As pinturas apresentam as semelhanças físicas dos rostos dos Bragança. Um mantel feito de plumas de tucano cobre a abertura do manto. ao mesmo tempo. A Casa de Bragança permaneceu. e ressuscitaria. João e D. O cetro de D. A coroa é outra. buscar imagens que representassem. e o escudo que simboliza o Algarve. escultores. Talvez seja esse o aspecto que concretize em imagem a mudança. Pedro é encimado por um dragão que é o símbolo da Casa de Bragança. muitos portugueses. as semelhanças param por aí. Dom Pedro I ostenta a sua.n º 1 9 . É encimada por uma cruz. que simboliza o Brasil.1 º s e m e s t r e d e 2 0 0 8 entre o velho e o novo. altivo. Nas imagens há continuidade de símbolos. Os bordados são feitos em fios dourados. Dom João. o cetro e a coroa mostram certa continuidade. Isso começou a minar a confiança estabelecida entre a nação e seu rei. a esfera celeste. olha para o retratista. D. foi muito pouco. Na coroa de D. é inegável a permanência dos Bragança. que ainda tinha a flor-de-lis. Pedro é um soldado. tradição e modernidade. No entanto. em veludo vermelho bordado com os emblemas dos três reinos unidos: a torre que simboliza Portugal. Houve disfarce. Também incorporou a esfera na sua coroa. o manto é um poncho das planícies gaúchas com as cores da bandeira . Completamente diferente do manto real de seu pai. inovar tradições. e a forma é diferente. Pedro. em destaque. Houve ruptura. mas quem a ostenta vem do mesmo lugar. Quando trajando os símbolos da monarquia. o forro é verde. João no Brasil. caricaturistas e fotógrafos se empenharam para conseguir dar ao antigo uma nova roupagem. Precisou.

que pretendia “livrar o Brasil da conjura recolonizadora e absolutista do imperador”3. Às províncias também foi negado o direito de organizar forças armadas próprias. Em obra de Félix Émile Taunay. O resultado da conclamação foi a Confederação do Equador. Dom Pedro dissolveu a assembléia. mas republicano. portanto. Como não houve acordo com os deputados constituintes. o moderador.FA C O M . até que o sucessor. Mais um golpe. que governariam o país. Dom Pedro II. O menino-rei Dom Pedro II foi representado. que permitiria sua intervenção nas decisões tomadas à sua revelia pelo Legislativo. alguns opositores mais liberais começaram a pregar a constituição de um Império liberal. entre eles. restou-lhe a dissolução da assembléia. segundo alguns especialistas. Paraíba. Mas isso. como sendo resultado de influência direta dos nobres portugueses que cercavam o imperador.n º 1 9 . Quando Dom Pedro I partiu para Portugal em 1831. pudesse assumir o trono. Afinal. como futuro imperador. Alguns conflitos iniciaram-se no período da formação da Assembléia Constituinte. provocaram uma séria crise na relação entre Dom Pedro I e a nação brasileira. as imagens do menino correspondiam ao que se esperava de um futuro imperador. As disputas internas desta natureza. além da submissão dos governos provinciais ao poder central localizado no Rio de Janeiro. a constituição pretendida por Dom Pedro foi outorgada. de mais liberdade e autonomia nas províncias. apesar das constantes revoltas em relação à centralização das decisões. frei Caneca. escolheu-se um grupo de três regentes. língua e identidades. já aparece como co- 44 .1 º s e m e s t r e d e 2 0 0 8 alguém cujo governo tendia à autocracia e cujos interesses divergiam dos interesses “nacionais”. Do receio de que se restabelecesse o governo autocrático. um movimento separatista. Os conflitos apenas se acirraram a partir de então. contendo o poder moderador. de certa forma. ocorrida em 1828. A Confederação do Equador foi fortemente combatida por tropas imperiais e derrotada em 1824. O imperador pretendia ver aprovado um quarto poder. Não se tratava de. As posições liberais de alguns deputados não eram favoráveis à instituição de poder amplo ao monarca. dependia da subordinação dos governos provinciais ao governo central. Desde muito cedo. Piauí e Pará e formar um governo republicano e federativo. A independência Cisplatina representou uma ameaça à imagem criada de unificação de interesses. ano em que seus líderes foram presos e executados. Este ato foi entendido por alguns críticos do governo. o Brasil manteve-se unificado em termos territoriais. Além de manter-se monárquico após a independência. desde muito jovem. ele não era nascido no Brasil. com 12 anos. As influências das idéias iluministas – fomentadoras da Revolução Francesa e de movimentos de independência nas Américas – eram grandes. de 1837. na relação entre Dom Pedro e a nação. Rio Grande do Norte. a intransigência de Dom Pedro foi parcialmente responsável pela manutenção do imenso território unido. desguarnecendo o restante do litoral. Rumores de que a Marinha portuguesa pretendia aproximar-se do Rio de Janeiro para tomar novamente a antiga colônia obrigaram Dom Pedro a requisitar sua esquadra de volta ao Rio de Janeiro. Por isso. Também negou aos nascidos no Brasil precedência em relação aos portugueses e outros estrangeiros no preenchimento dos cargos públicos. além da independência da Cisplatina. Além disso. Em 1823. reunindo comerciantes e proprietários de terras de Pernambuco que pretendiam unir-se a outras províncias como Ceará.

o céu do Brasil. era necessário estabelecer novamente a força do governo monárquico e as representações buscaram isso. com a condecoração da Ordem do Cruzeiro. ou seja. eram retratos de Estado4. os mantos de gala do imperador foram incorporando outros elementos da terra. O que poderia ser visto como continuísmo. a monarquia e suas instituições. cacau. são um pouco diferentes. com fardamento de gala. Aliás. Utilizando as pedras da antiga coroa do pai. apesar de jovem. folhas e frutos do café. Não chegava aos pés de coroas como a inglesa ou a francesa. Vários dos símbolos usados foram os mesmos: cetro. Isso é interessante. 45 . Posteriormente. o imperador seria responsável e competente. Atrás dele. São poucas as pinturas e gravuras que mostram um rapaz de catorze anos. sob o aspecto político. Logo após a coroação.n º 1 9 . O imperador era a representação máxima do país. com a mesma fita vermelha usada anteriormente por Dom João VI e por Dom Pedro I. Há grande semelhança com a mãe. A diferença mais marcante pode-se dizer que está no rosto do menino: em nada lembra os rostos dos Bragança. É importante salientar que as representações têm uma função social. significavam atraso. E. como o avô. o mantel de plumas de tucano. Várias foram as manifestações de adeptos durante o período imperial. Muitas manifestações ainda demonstravam desagrados a respeito da manutenção do regime monárquico. Todas as representações de Dom Pedro II reforçam essa idéia. compenetrado.FA C O M . e o Tosão de Ouro. O ainda não emancipado Pedro simbolizava mais o passado que o futuro. porque. pode ser percebido como reconhecimento do misticismo do povo brasileiro. a então idade do imperador. criada em 1822 por seu pai. inclusive a escravidão. capaz de exercer de maneira condigna o poder de que fora investido. portanto. na ocasião de sua coroação. forçosamente. a associação da figura do imperador aos produtos brasileiros foi extremamente utilizada nas representações. inicialmente. com farda militar de gala. e entre outras coisas. aparecia cercado das outras representações simbólicas que significavam Brasil para os súditos e para as demais nações. A coroa foi modificada. com o símbolo de Pedro II (PII) encimado pelo dragão que simboliza a dinastia dos Bragança. Dom Pedro II é representado ora usando a coroa na cabeça. maior e mais larga. Já Dom Pedro I compôs sua imagem como militar. isso permitiria a manutenção da integridade territorial. principalmente naquelas que iam para o exterior. Para vários jornalistas e políticos da época. Já as representações de dois anos depois. Nesse caso. O imperador do povo A estabilidade esperada não ocorreu após a coroação. ressaltam símbolos monárquicos e todo ritual que existia relacionado ao exercício do poder. Dom Pedro II teve uma jóia mais exuberante. Dom João foi retratado pouquíssimas vezes com uniforme completo de gala. Diferentemente do pai. A monarquia seria preservada. mais alto e encorpado do que realmente era.1 º s e m e s t r e d e 2 0 0 8 mandante das Forças Armadas. ora deixando-a repousada em uma almofada. o que. manto. mas era mais ostensiva. Dona Leopoldina. como tinham sido representados anteriormente seu pai e seu avô. A coroação já o mostra em trajes de gala. As representações reforçavam a idéia de que. O retrato pintado por Taunay mostra um menino muito sério. além das folhas de palmeira. o sebastianismo era muito difundido no Brasil. A maioria delas representa um jovem de aproximadamente 18 anos. pedia essa caracterização mais constantemente. folhas de tabaco. especificamente. do ponto de vista cultural. que mostram um imperador sério. o trono vermelho.

com uniformes de guerra. Mais que se mostrar relacionado a esses símbolos. sobre pontes de ferro. as representações buscam reforçar a imagem de governante responsável. viajava pelo Brasil e pelo mundo usando meios de transporte modernos como trens. mas depois estabeleceram bom relacionamento. novos agregados. O imperador mostra-se cercado por trens. mostra Dona Teresa Cristina na Capela Real Palatina de Nápoles. entre elas a fotografia. sério e integro. O imperador forja imagem que o aproxima dos cidadãos. depois reunidos.1 º s e m e s t r e d e 2 0 0 8 Nos primeiros anos de governo. como que diminuindo a importância da monarquia. mas começam a aparecer representações que mostram a família imperial.FA C O M . ao novo. referindo-se ao casacão usado pelo imperador –. às revoluções científicas e técnicas conquistadas no século XIX. era necessário arranjar uma noiva para o imperador. as representações do imperador continuam a mostrá-lo como símbolo da nação. As imagens trazem o imperador em situações cotidianas. essas imagens mostram a família imperial em momentos de suposta intimidade. fazia parte das sociedades científicas brasileiras. a passagem do tempo para si. Ao mesmo tempo. barcos a vapor. ao progresso. em nada lembravam a moça que chegou ao Brasil. O casamento imperial foi mais um momento de ênfase dos rituais de perpetuação da monarquia: as representações mostram os dois em trajes de gala. ela perpetuava-se. Registrou regularmente suas atividades e as mudanças operadas na família real: genros. Freqüentava exposições universais. Era um entusiasta das novas invenções. Facilitadas pela introdução do daguerreótipo e depois da fotografia como linguagens que permitiam a representação. que durou até a morte da imperatriz. As representações da imperatriz recebidas por Dom Pedro. vestindo jaquetão – termo cunhado pelos jornalistas da época. primeiramente separados. correspondia-se com cientistas e realizava traduções de línguas pouco estudadas. No sentido de reforçar a seriedade. mostram o imperador rodeado de símbolos de intelectualidade. conversava por telefone. A partir da Guerra do Paraguai (1864). O jovem imperador estranhou a noiva. realizado por procuração. sempre empunhando livros em retratos. No entanto. A partir de então. netos.n º 1 9 . segurando um livro. Segundo Lilia Schwarcz Dom Pedro* 46 . Foi ferrenho defensor e seu usuário. cada vez mais. Nas imagens que o representavam o imperador também buscava associar-se. Preocupava-se em mostrar-se como grande leitor. essas representações vão ficando cada vez mais constantes. o imperador interessava-se por eles. ao que parece. para a imperatriz e as princesas. o imperador suavi- zava alguns rituais. A representação do casamento. barcos a vapor.

Isso evidenciava o interesse do monarca pela história. cercado de livros. Mas. a não ser em cerimônias de casamento. criou o Prêmio Viagem (1845). instituiu prêmios para os melhores trabalhos apresentados na versão brasileira do instituto.FA C O M . quanto quadros mais elaborados. Depois de 1849. então membro do Institut Historique francês.1 º s e m e s t r e d e 2 0 0 8 (1998). principalmente o imperador. “adepto a novas vogas científicas”. fundado entre outros por Debret. Chegou a proclamar uma frase célebre nos salões do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro: “A ciência sou eu”. encomendava trabalhos dos artistas mais consagrados: bustos. era “o monarca inventor”. não se tinha implementado. Assim. foi criado o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). nesse espírito de reconhecimento da memória local. Instituída ainda no período de Dom Pedro I. também teve interferência direta no funcionamento da Academia de Belas-Artes. Aparente- 47 .n º 1 9 . Nas fotografias o monarca sempre aparece com roupas mais casuais. Ao menos na medida do possível. a família real. Cerca de 75% das verbas eram estatais. ou no cenário da Guerra do Paraguai. Lilia Schwarcz afirma que se tratava de um projeto mais amplo de consolidar a monarquia e constituir cultura local. tudo isso possibilitou a manutenção de vários artistas. O Estado subvencionava as atiTeresa Cristina** vidades do IHGB. em 1838. Os trajes de gala eram raramente exibidos. Os auxílios do Estado e privados. o instituto seria o local para debates entre intelectuais e membros da elite literária carioca. É interessante reparar que vasta iconografia foi sendo produzida desde a instalação de Dom Pedro II no poder. Tanto fotografias. usando poncho. Seus estudos tornaram-se importante referência intelectual. em roupas de gala. A paramentação de gala foi substituída pela do monarca cidadão. pela literatura. o imperador não só participava financeiramente da instituição. 1998). Inspirado no Institut Historique francês. Dom Pedro. festas da corte e abertura e encerramento do ano de trabalhos da Assembléia. ajudaram a criar período de estabilidade para a instituição (SCHWARCZ. bolsas. dados pelo monarca. O imperador instituiu política de distribuição de prêmios. 1998). como muitas vezes comparecia aos trabalhos. A partir de 1844. que mostravam o monarca e a família em situações cotidianas. retratos e gravuras foram elaborados durante o reinado de Dom Pedro. principalmente a partir da década de 50 do século XIX. completamente independente. Dom Pedro II participava de alguns eventos no instituto e foi convidado para tornar-se “protetor” da instituição. de forma muito mais regular do que freqüentava as sessões da Câmara (SCHWARCZ. Além da política oficial de incentivo às artes.

n º 1 9 . as representações são essencialmente muito parecidas. tomou parte nas mostras brasileiras para ajudar a selecionar os expositores que foram para a mostra internacional. Não havia retorno financeiro. E a burguesia acumulava. a arrecadação ficava em torno de um quarto do dinheiro investido. e eram eles que ditavam as novas regras de civilização. mas isso não era fato. pelas inovações tecnológicas. pelo contrário: segundo Lilia Schwarcz. Tanto era assim que se dedicava. os códigos burgueses. Também na tentativa de substituir a idéia de monarca dos trópicos. fazendo-se representar pelo nativo da terra. decadente. A exuberância do reino dos trópicos ainda é temática. Dom Pedro investiu pessoalmente na confecção do estande brasileiro. 1998. à imagem de alguém cujos interesses e gastos direcionavam-se para o patrocínio das artes e das ciências. Muitas eram as dificuldades dos empreendedores no país. que não ostentava. comedida quase como a burguesia. Assim. era essa imagem que o monarca queria passar no exterior: civilizada. a novidade. apesar de aparentemente diferentes. um exame mais apurado mostra que. logo era parcimoniosa com gastos em roupas.1 º s e m e s t r e d e 2 0 0 8 mente o monarca aproximava-se da classe que simbolizava. Sua conclusão é de que o Império investia em propaganda e em visibilidade. cada vez mais. Mostram um homem de letras. Também entregou os prêmios aos produtores agraciados no Brasil. Era um homem de seu tempo: interessava-se pelas artes. mesmo que muitas vezes rodeado por negros e brancos. O indígena ainda aparece como o símbolo do povo da nação.397). muito embora Dom Pedro II tenha sido representado em meio a livros e instrumentos científicos. ou seja. na segunda etapa da busca por imagens. O Barão de Mauá talvez seja o exemplo mais conhecido. com interesses que o situavam como “civilizado”. a burguesia.FA C O M . Entretanto. Dom Pedro procurava participar de exposições universais. No entanto. com pessoas de índole “pacífica. o monarca associava-se. O monarca participou pessoalmente da Exposição Universal organizada em 1876 na Filadélfia. Inicialmente fez parte de processo no qual se distanciava do poder colonial. As representações mostram uma monarquia austera. As fotografias trazem representações mais informais do imperador. pelo “progresso” científico. A partir de 1862. Segundo Lilia Schwarcz. Mas exibia-se como uma potência agrícola. a tecnologia. pelas letras. É importante lembrar que a monarquia no Brasil associou-se à imagem do indígena. então. o Brasil foi presença constante. As representações brasileiras aproximam a monarquia da burguesia. trazia uma mensagem ambígua: o indígena era visto como o elemento exótico das Américas pelos europeus. Ficava claro que o país não podia competir do ponto de vista científico ou tecnológico em relação às outras nações participantes. As representações da monarquia eram importantes peças na composição da idéia de que o país passava por um período completamente diferente do anterior. à concessão de registros de patentes. principalmente se comparada à participação de outros países da América do Sul. a participação brasileira nas exposições universais tinha o propósito de relacionar o Brasil com as “nações civilizadas”. Retirar a imagem de “reino distante e selvagem” e instaurar definitivamente o país entre as nações ci- 48 . pessoalmente. Na primeira participação. A participação brasileira nessas feiras de invenções e tecnologia foi bastante considerável. alguém de seu tempo e não como o representante de uma instituição envelhecida. As exposições nacionais já eram patrocinadas pelo governo imperial. Segundo Lilia Schwarcz. Luxo era raro. inteligente e laboriosa” (SCHWARCZ. p. a terceira exposição universal. O próprio monarca as organizava. Mostram-no como alguém muito próximo do cidadão comum.

para formar músicos e difundir o canto lírico. A produção artística. financiou a vinda de Orville Derby e Charles Hartt para que dirigissem a Comissão Geológica do Império. A criação e o uso das instituições culturais. O fato de ser uma monarquia escravocrata. Coletaram exemplares das províncias do Norte do país. que recolheu 500 mil amostras. o Brasil foi a única monarquia a participar da festa. Criou. Em 1864. o monarca criou novas instituições que tinham o propósito de financiar a formação de artistas e cientistas. Por isso. tropical e mestiça impedia isso. realizada em 1859. principalmente. Mais que isso. que em 1850 recebeu seu nome. mesmo sem considerar critérios de mérito artístico ou intelectual. Ali também distribuiu bolsas de estudo para fomentar o desenvolvimento do estudo geológico no país.n º 1 9 . principalmente na feira de 1889. Financiou a primeira Comissão Científica do Império. do país. No plano interno. Em 1876. a Academia de Música e a Ópera Nacional. A imagem de Dom Pedro era de um monarca excêntrico. Financiou estudos de médicos brasileiros. Auguste Daubrée. Por isso. Também patrocinou a edição de dicionários e gramáticas de línguas indígenas. revelam a preocupação política com o setor. Foi-lhe dada a primeira concessão para exploração do minério. distante e mestiço. Nas várias participações brasileiras nessas feiras o que se ressaltou foram os aspectos exóticos e agrários do país. Ouro Preto. Dom Pedro foi aconselhado a participar para exibirse como “a mais republicana das monarquias” ou uma nação progressista. nunca seus aspectos “modernos”. mas sem muita ênfase. principalmente a pictórica. em 1857. também chamada de Comissão das Borboletas. era 49 .FA C O M . MG e a mineralogia. foi indicado por seu colega da Academia de Ciências de Paris. cujo primeiro diretor. representava a imagem que a monarquia queria passar de si mesma e. Essa imagem tinha menor repercussão interna que externa. de um país tropical. realizada em Paris e parte das comemorações dos cem anos da Revolução Francesa. Isso porque se percebeu que a feira seria mais do que uma exaltação da modernidade. convidou Thomas Sargent para explorar petróleo por aqui. Henri Claude Gorceix. fundou a Escola de Minas de Ouro Preto. Outros de seus interesses eram a geologia Escola de Minas. por conseguinte. uma celebração às nações republicanas: uma festa contra as monarquias. a monarquia vislumbrou as possibilidades de criação de uma ambientação que modificasse a imagem do Brasil. Esse aspecto foi ressaltado. mas.1 º s e m e s t r e d e 2 0 0 8 vilizadas e modernas. como um projeto para inserir o Brasil dentre as “nações civilizadas”. além de apoiar o hospício.

que afirma que em determinado momento os retratos começam a ressaltar o caráter público do exercício do poder. Tais representações com simbologia ostensiva da monarquia ficavam cada vez mais raras. Peter. apesar de buscar representações de modernidade. BOURDIEU. A cultura brasileira: introdução ao estudo da cultura no Brasil. Enrico. Alfredo. J. Notas Trata-se de idéia presente em livro de Giuseppe di Lampedusa. 1957. O processo de “civilização” moderno imprimiu novo contexto político. esferas celestes e serpes. Luís da Câmara. a imagem do monarca cidadão foi quase totalmente incorporada nas representações do imperador. 1989.FA C O M . Embora o processo no Brasil tenha sido mais lento. Fernando de. CALÓGERAS. citado no Dicionário do Brasil Imperial. 2006. Ainda assim. Formação Histórica do Brasil. Retrato e sociedade na arte italiana: Ensaios de história social da arte. 2 Sobre a lenda de Dom Sebastião ver o Dicionário do Folclore Brasileiro. a monarquia brasileira associada à escravidão e ao exercício do poder hereditário tinha seus dias contados. na abertura da Assembléia Geral. o abandono de instituições políticas e sociais antiquadas e a possibilidade de inserção junto às nações mais desenvolvidas do mundo. a não-transitoriedade do poder. no trono. Atrás do monarca.n º 1 9 . econômico e social para todas as nações modernas. Cultura popular na Idade Moderna. Infelizmente. mas recoberta por rendas da gola sobre a murça de papos de tucano. 4 No sentido estabelecido por Castelnuovo. Dialética da colonização. as ações culturais tinham um objetivo claro: busca de legitimidade e prestígio no exterior. Mais que isso. 50 . Assim. Aparecem ali todos os símbolos da monarquia: o cetro encimado pela serpe ou dragão. São Paulo: Companhia Editora Nacional. símbolo dos Bragança.1 º s e m e s t r e d e 2 0 0 8 direcionada aos demais países e governantes mais que aos súditos. ostentando a coroa. a serpe vigia a reunião. BURKE. Nela o imperador aparece com traje completo de gala. não ostentava. Gattopardo. BOSI. de 1872. O poder simbólico. que era comedida com gastos “supérfluos”. CASTELNUOVO. estrelas. O monarca em trajes próximos aos do cidadão comum mostrava que a monarquia não se exibia. 1989. a monarquia passou a representar o atraso. Dicionário do folclore brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras. Há a pintura de Pedro Américo. aos livros e aos artefatos modernos. organizado por Ronaldo Vainfas. 3 A interpretação está presente em Evaldo Cabral de Mello. Os interesses do imperador direcionavam-se às artes e ciências. As representações imperiais buscavam relacionar o governo de Dom Pedro II ao moderno. mais forte do que a busca por essa associação era a percepção da distância que o governo monárquico do Brasil encontrava-se da nova ordem política e social mundial. O espírito da acumulação e do rompimento com símbolos do passado estava se disseminando no mundo desde as revoluções Americana. impôs normas e princípios gerais que deveriam ser seguidos. 1 Referência Bibliográficas AZEVEDO. s/d. de Câmara Cascudo. Rio de Janeiro: Ediouro. pela tecnologia e pela ciência. 1944. o manto real bordado com folhas de palmeira. São Paulo: Companhia das Letras. a impossibilidade de acumular. ao novo. CASCUDO. o encaminhamento para a modernidade. No entanto. Francesa e Industrial. São Paulo: Companhia das Letras. que eram simbolizados pela burguesia. A república trazia a esperança de mudança. São Paulo/Rio de Janeiro / Recife/ Bahia/ Pará/ Porto Alegre: Companhia Editora Nacional. sob pena de exclusão do “mundo moderno”. Pandiá. Pierre. A ordem do cruzeiro pendurada ao peito. tais mudanças ficaram mais nas representações do que ocorreram de fato. A partir de 1870. Lisboa/ Rio de Janeiro: Difel/ Editora Bertrand Brasil. 1992.

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