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INOVAÇÃO: A ESTRATÉGIA COMPETITIVA REPORTAGEM CRISTINA MONTE
INOVAÇÃO: A ESTRATÉGIA COMPETITIVA
REPORTAGEM
CRISTINA MONTE
A ESTRATÉGIA COMPETITIVA REPORTAGEM CRISTINA MONTE A inovação passou a ser considerada em anos recentes a

A inovação passou a ser considerada em anos recentes a mola do desenvolvimento econômico e tem nas diferentes formas de conhecimento os recursos vitais para sua dinamização e progres- so.

No mundo empresarial nunca se falou tanto em inovação como nos tempos atuais. Algumas justi- ficativas explicam sua disseminação, eis uma: se antes o modelo de produção se baseava sob os moldes da extração dos recursos naturais, hoje, pela constatação da sua finidade é certo que sua sustentação agora é fundamentada em novos in- sumos, matérias-primas, meios e métodos. Portanto, é nesse cenário que a inovação cres- ce - quando ela busca criar oportunidades de ne- gócios sustentáveis -, grosso modo aliando pes- quisa científica tecnológica a novas estratégias e métodos organizacionais e de mercado. Sob a perspectiva comercial, ganha força em virtude de minimizar a concorrência, já que sua

implementação pode representar serviços ou pro- dutos diferenciados por preços competitivos. Um dos maiores problemas relacionados à ino- vação é que não há uma fórmula que sirva de mo- delo e que uma vez implantada defina a empresa como inovadora. Há toda uma análise de gestão e de processos conjunturais que deve ser consi- derada. Ou seja, os processos inovativos devem ser integrados às demais atividades da empresa, conciliando com a estrutura e modelo de negócio. No ambiente externo, há a necessidade de análise macroestrutural, envolvendo fatores que vão desde a disponibilidade de recursos naturais, incentivos financeiros, leis associadas e políticas local e internacional. A constatação da importância da inovação nos negócios não surge no senso comum apenas pela observação de que é necessário mudar, mas sim, pelo embasamento científico, sobretudo, por inter- médio da pesquisa e desenvolvimento (P&D), e de preferência que o resultado se efetive no chão das fábricas e nas práticas de produção e de re-

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lações sociais nos vilarejos longínquos ou nas co- munidades carentes. Os desafios para sua implantação são muitos:

pode ser definida como algo novo para a organi- zação. A palavra inovar, do latim, significa tornar novo, renovar, enquanto inovação traduz-se pelo

INOVAÇÃO REQUISITO PARA A SOBRE-

para o empresário, decidir quando e quanto inves-

ato de inovar.

tir

em inovação não parece uma tarefa fácil, con-

Já o teórico Joseph Schumpeter dizia que a

siderando as nuances e oscilações do mercado globalizado; para o governo, criar uma estrutura operacional e a complementaridade entre os ór- gãos afins, de modo a dispor de recursos e ins-

inovação é o impulso fundamental que coloca e mantém em movimento a engrenagem da econo- mia. O desafio em efetivar um processo inovativo é

trumentos legais, atuando eficientemente, é uma missão que exige esforços; e para o pesquisador, o desafio não é menor, atuar em um ambiente com infra-estrutura necessária e entender o funciona- mento mercadológico do ambiente empresarial, exige muito mais do que conhecimento científico. Portanto, analisar o conceito inovação e sua si- nergia com os ambientes envolvidos merece uma análise que transcende a superficialidade, dada

imenso – não basta ter uma boa idéia, a qual pode ser revertida em oportunidade, e nem mesmo achar que a possível solução para um problema completa um cenário inovador. Até que o produto ou serviço chegue ao consumidor, há uma série de etapas a ser superada, o que exige mais que espírito empreendedor e criatividade. Os obstáculos são muitos: as vezes o proces- so pode ser interrompido pela falta de avanço

a

densidade que o assunto exige, principalmen-

tecnológico associado, pela ausência de financia-

te

em virtude de cada realidade empresarial e do

mento ou até mesmo pela falta de conhecimento

ambiente institucional para a prática da inovação.

sobre a área, entre tantos outros. Portanto, consu-

NADA SE CRIA TUDO SE RENOVA Capaz de adentrar nos mais distintos ramos de atividades, a inovação está presente nos setores químico, telecomunicações, terapêutico até no da moda. Isso comprova que não há limites quando se quer criar ou renovar processos que sejam efi- cazes e monetariamente interessantes. Mas, afi- nal o que é inovação? Consta no Wikipédia algumas definições sobre inovação, como por exemplo a publicada pela Or- ganização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e traduzida pela Financiado- ra de Estudos e Projetos (FINEP): inovação é a implementação de um produto (bem ou serviço) novo ou significativamente melhorado, ou um pro- cesso, ou um novo método de marketing, ou um novo método organizacional nas práticas de negó- cios, na organização do local de trabalho ou nas relações externas. Em outra definição no mesmo site, há a afir- mação: inovação, em seu sentido mais genérico,

mar um processo de inovação não é tão simples quanto pode parecer, porém, a decisão em não implementá-lo pode representar a mortalidade empresarial, principalmente no caso das micros e pequenas empresas que além dos escassos recursos financeiros para a aquisição de tecno- logia, ainda sofrem com a falta de informação.

VIVÊNCIA DAS MPES Exemplificando, no Estado do Acre, são regis- tradas mensalmente, somente na Junta Comercial do Acre, cerca de noventa empresas, no entan- to, a maioria delas pede falência logo após a sua abertura. A afirmação é da reportagem intitulada “Inovação é chave para a sobrevivência de mi- cros e pequenas empresas”, assinada pelo Ser- viço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Acre (Sebrae/AC) e exibida no site da Agência de Notícias do Acre, no dia 14 de janeiro. Observou- se, na matéria, que há algumas falhas em comum entre as que encerram suas atividades precoce-

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mente, destacando-se: a falta de planejamento, de controle financeiro e estoques ou de conheci- mento sobre o mercado em que atuam, seguindo

o padrão do País. Para minimizar esses problemas, o Sebrae/AC está investindo no estímulo à inovação como forma de evitar a mortalidade das empresas acreanas. Dessa forma, dentre outras medidas, realizará um acompanhamento acirrado, por meio de visitas monitoradas, com o objetivo de diagnosticar a si- tuação, elaborar um plano de ação personalizado

e orientar os micros e pequenos empresários atra-

vés de palestras e seminários. Para Célio Luís Picanço de Matos, especialista como Agente de Difusão e Informação Tecnoló- gica e líder da Unidade de Inovação Tecnológica do Sebrae/AM, há diversos impeditivos às MPEs

quando o assunto é inovação. “Os maiores gar- galos das MPEs são a falta de acesso à tecno- logia (informação e serviços); disponibilidade de infra-estrutura tecnológica (interno às empresas

e externo às Instituições de Ciência e Tecnologia

- ICTs); ambiente inadequado (incentivo e legis-

lação); custo e a ausência da cultura inovadora que a maioria não tem; falta de gestão empreen- dedora e de conhecimento sobre programas que financiam capital de risco ou capital semente, por isso não investem em P&D&I e praticamente não fazem parcerias institucional e empresarial; não cooperam entre elas e as ICTs. Tudo isso, em sua maioria, eleva as taxas de mortalidade das MPEs”, declara o líder. Diante da situação exposta, Célio explica a im- portância da inovação: “A inovação, no mínimo, permite a sobrevivência da MPE no mercado glo- balizado. Caso ocorra maior investimento planeja- do por parte dela em tecnologia, aumentará ainda mais sua capacidade de crescimento e faturamen- to”, finaliza o especialista.

BRASIL O PAÍS DO PRESENTE Com as medidas anunciadas pelo governo Lula para áreas estratégicas como a Ciência e a inova-

ção tecnológica no final do ano passado, espera- se que o País salte para o futuro. Dessa forma, o governo federal demonstra a inclinação de priori- zar as áreas, conforme a apresentação do Plano de Ação 2007-2010: Ciência, Tecnologia e Inova- ção para o Desenvolvimento Nacional, que integra

o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC),

ocorrida no dia 20 de novembro de 2007. Para sua

implementação o governo disponibilizará cerca de 41 bilhões de reais para as áreas da Ciência e tecnologia. Na ocasião do lançamento, o ministro da Ci- ência e Tecnologia, Sérgio Rezende, explicou que

o plano tem duas metas: formar recursos huma-

nos qualificados e fazer com que a inovação faça parte da agenda das empresas nacionais. Para isso, o programa está dividido em quatro priorida-

des que norteiam todas as suas ações: expansão

e consolidação do Sistema Nacional de Ciência,

Tecnologia e Inovação; a promoção da inovação tecnológica nas empresas; a pesquisa, o desen- volvimento e inovação em áreas estratégicas e a ciência, tecnologia e inovação para o desenvolvi- mento social. O diferencial do plano consiste na sua articu- lação com os demais ministérios e instituições afins. Esse sim é o maior desafio da implantação do plano, segundo Ivan Rocha Neto, doutor em Eletrônica, assessor de Planejamento da Associa- ção Brasileira das Instituições de Pesquisa Tec-

nológica (ABIPTI) e chanceler da Universidade Corporativa Alberto Pereira de Castro da ABIPTI (UCA). “O governo federal tem feito esforços para investir no desenvolvimento de áreas estratégicas para o País. A questão principal não tem sido o volume de recursos disponíveis, mas se concen- tra na gestão do sistema em pequena dimensão,

e na infra-estrutura física e de pessoal da base

técnica, científica e tecnológica. Em virtude de di-

versos problemas, sobretudo relacionados à falta de cuidados em remover os entraves burocráticos

e legais para o desenvolvimento de projetos de

C&T. Para se ter uma idéia, o Brasil é o quarto País em investimentos per capita (R$/Grupos de

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Pesquisa)”, analisa o assessor da ABIPTI.

inovação tecnológica apenas ao Imposto de Renda

POLÍTICAS PÚBLICAS EM CT&I E SEUS BENEFÍCIOS

sobre o lucro real. Ora, esse regime fiscal é pratica- do quase exclusivamente pelas grandes empresas (6% do total). As demais empresas estão no regime do lucro presumido e não têm direito aos incentivos.

 

A

primeira vez em que o governo federal buscou

Sob competição agressiva de produtos importados,

dar unicidade às políticas públicas de CT&I desen- volvidas pelos estados foi em 1975, quando criou

as empresas terão baixos lucros, ou nenhum, e não poderão recorrer aos incentivos justamente quando

o

Sistema Nacional de Desenvolvimento Científico

mais estiverem precisando investir em inovações

e

Tecnológico. Naquele momento as instituições

tecnológicas competitivas. A Lei de Inovação (Lei

organizaram-se na forma de um sistema nacional. Adiante, seguiram-se os Planos Básicos de Desen- volvimento Científico e Tecnológico, sob a adminis-

10.973/2004), em seu artigo 19, oferece subvenção econômica para projetos de inovação com recursos do FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento

tração do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Somente em 1985, foi criado o Ministério da Ciência e Tecnologia como órgão central do sistema federal de C&T.

Científico e Tecnológico). Para isso foi criada uma Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide, Lei 10.332/2002) que tira recursos das em- presas a pretexto de promover o desenvolvimento

 

A

abertura de mercado, proporcionada pela políti-

tecnológico. Mas em 2006 apenas menos de 10%

ca econômica do governo Collor, na década de 1990, contribuiu para que as empresas aumentassem os

desses recursos e de royalties de concessões rever- teram para essa finalidade”, expõe Neto.

investimentos na área da inovação tecnológica. E, ao final da década, surgiram os fundos seto- riais, que apesar das dificuldades devido ao con- tingenciamento de seus recursos, foi uma política bem-sucedida e, em virtude do controle da inflação

e o conseqüente investimento em inovação efetuado pelas indústrias, empresas e o estado, o governo fe- deral elaborou a Lei de Inovação, tendo sido sancio- nada em dezembro de 2004, sob o número 10.973.

A lei foi criada com o objetivo de melhorar a efi-

ciência do setor produtivo, de forma a capacitá-lo tecnologicamente, por meio de um amplo conjunto de medidas cujo objetivo maior é ampliar e agilizar a transferência do conhecimento gerado no ambiente acadêmico para a sua apropriação pelo setor produ- tivo, estimulando a cultura de inovação e contribuin- do para o desenvolvimento industrial do País, sendo considerada um marco legal. Em relação às políticas públicas do setor, a opi-

nião não é unânime quanto ao estímulo à inovação.

O doutor Ivan Rocha Neto da ABITPI analisa: “As po-

líticas públicas não têm criado um ambiente de real estímulo às inovações tecnológicas. A Lei do Bem (Lei 11.196/2005) restringe o incentivo fiscal para

CAPITAL INTELECTUAL, CIÊNCIA E A IN- DÚSTRIA Segundo estudo apresentado no painel “Políticas de inovação e parcerias público-privadas: o que pre- cisa ser feito”, realizado na cidade de São Paulo em novembro de 2007, e durante o seminário “O Desafio da Inovação no Brasil”, o diretor científico da Funda- ção de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Carlos Henrique de Brito Cruz, mostrou que as universidades brasileiras formam mais dou- tores do que as americanas, sendo que o Estado de São Paulo detém a maior produção científica da América Latina. Brito apontou a Universidade de São Paulo (USP) como a que mais forma doutores, são em média dois mil por ano; em seguida vem a Universidade Esta- dual de Campinas (UNICAMP), com cerca de 870; só então, em terceiro lugar, aparece a Universidade

da Califórnia em Berkeley, com mais de 760; seguida da Universidade do Texas em Austin, com 700; e da Universidade da Califórnia em Los Angeles, com 660 doutores formados.

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Mas, apesar disso apenas 10% dos cientistas brasi- leiros estão atuando na indústria, enquanto na Coréia esse porcentual se aproxima de 80. Outro exemplo vem da Espanha, que mantém quase 60% dos pesquisado- res atuando na indústria. No Brasil, um possível impeditivo dessa transferên- cia de ambiente pode estar relacionado ao receio que o empresário tem das constantes mudanças legais e falta de políticas públicas de longo prazo. Por isso, como forma de estimular a produção cien- tífica e dentro do Plano de Ação apresentado, o presi- dente Luis Inácio Lula da Silva anunciou que concede- rá em março de 2008 um aumento de 20% no valor das bolsas de mestrado e doutorado, além de aumen- tar o número de bolsas concedidas pela Capes e pelo CNPq. O objetivo do governo com a iniciativa é superar o número de bolsas concedidas no País, já que em 2006 foram 65 mil bolsas de estudos oferecidas, e em 2007 o número passou para 95 mil. Segundo informações da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), institui- ção associada à ABIPTI, haverá um acréscimo de 20% nas bolsas de mestrado e doutorado, em relação ao que será pago pelo CNPq e pela Coordenação de Aper- feiçoamento de Pessoal de Nível Superior do Ministério da Educação (Capes). O valor das bolsas também será

ampliado para os pesquisadores que estão cursando fora do Estado do Amazonas. Nesses casos, o aumen-

to será de 30%. Portanto, as bolsas de mestrado serão de 1.356 reais para os pesquisadores que cursarem no Estado do Amazonas e de 1.762 reais para bolsas concedidas em outros Estados. Já as de doutorado serão de 2.008 reais para o Amazonas e 2.610 reais para os pesquisadores que estão em outras unidades da Federação. Os novos valores também vigorarão a partir de março.

É bom que se lembre que a Região Norte conta

com um número ínfimo de doutores, já que no Estado do Amazonas eles somam 650 titulados.

O estímulo incentiva a produção científica e conse-

qüentemente a inovação. São as pesquisas, através do processamento de métodos e viabilizadas tecnica- mente que melhoram a vida das pessoas, das empre- sas e dos países. As revolucionárias descobertas científicas como,

por exemplo, as leis de Newton, o princípio da relati- vidade e a evolução das espécies continuam sendo objetos de estudos, mas, atualmente, os avanços científicos têm proporcionado pesquisas em outras áreas. Conheça os principais ocorridos no campo científico em 2007, segundo a revista Science, pu- blicação mundialmente reconhecida.

a revista Science, pu- blicação mundialmente reconhecida. T&C Amazônia, Ano VI, Número 13, Fevereiro de 2008
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INDUSTRIALIZAÇÃO E A INOVAÇÃO

De acordo com a Pesquisa Industrial de Inovação Tecnológica 2005 (Pintec), do Ins- tituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aproximadamente 33 mil empresas implementaram inovação tecnológica seja em produtos ou seja em processos. Desse total de empresas, cerca de 30 mil são industriais e as restantes são de serviços de alta intensidade tecnológica (telecomunicações, informática e pesquisa e desenvolvimento). O Estado de São Paulo reúne mais de 35%

das empresas industriais inovadoras e, do total do investimento industrial em inovação em todo

o País, mais da metade (55,6%) foi efetuada

pelas empresas paulistas. A referida pesquisa de 2005 aponta um au- mento no número de empresas que passaram

a utilizar a inovação tecnológica em relação à edição passada que considerou os dados de 2003. O número passou de 28.036 para 30.377, um aumento que representa 8,4%, conforme tabela abaixo. Ainda na pesquisa da Pintec 2005, os em-

presários discorreram sobre as dificuldades para realizar a inovação tecnológica em seus negócios. São elas: os elevados custos, ris- cos econômicos excessivos e escassez de fontes de financiamento.

INOVAÇÃO TECNOLÓGICA E DESI- GUALDADE SOCIAL Em artigo publicado no O Estado de São Paulo de 19 de novembro de 2007, José Goldemberg, professor da USP, abordando a questão da energia e as academias de ciência, inicia seu texto recorrendo à História. Cabe-nos a reflexão da possível analogia entre a inovação, a sociedade e as MPEs na atualidade: “Existe uma crença generalizada de que os avanços científicos e tecnológicos dos últimos 200 anos resolveram muitos problemas da humanidade, como a eliminação de doenças, o aumento da vida média das pessoas, e permitiram estender conforto e prosperidade a um terço do gênero humano (cerca de dois bilhões de pessoas), o que não

                   

   

   

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tem precedentes na História. Roma, no seu esplendor, deu aos romanos um excelente nível de vida, mas à custa do trabalho de cerca de 100 milhões de outros seres humanos escravizados. Apenas 1% da população mundial da época se beneficiou dos confortos

da Cidade Imperial”, descreve o professor. Como se vê a proporção de beneficiados com as conquistas tecnológicas vem crescen- do, entretanto, há um fosso - não só social - que impede os micros e pequenos empresários, por exemplo, de desfrutarem da inovação. Por isso, nem todos comungam que o de- senvolvimento econômico traga a premissa da igualdade social. É o caso da professora e coordenadora da Comissão Setorial de Inves- tigação Científica da Universidade da Repú- blica, no Uruguai, Judith Sutz, que afirmou no Seminário Internacional RedeSist “Dez Anos de Sistemas e Arranjos Produtivos e Inovati- vos Locais”, ocorrido em novembro no Rio de Janeiro: “A ordem de prioridades deve ser vis-

ta de modo inverso: o investimento nas ques-

tões sociais leva a uma economia estável, por meio da eliminação das desigualdades e do conseqüente acesso de todos à informação, aos bens culturais e econômicos”. Ela ainda pontuou: “Enquanto as primeiras beneficiariam

a parte mais rica da população, o desenvol-

vimento seria uma forma de tentar alavancar as populações mais pobres, alheias aos pro- cessos de inovações tecnológicas”, afirmou a professora. Uma forma de estimular a inserção social

e articulação de pequenas instituições com o

intuito de impulsionar a inovação e o desen- volvimento parte da Rede Norte de Proprieda- de Intelectual, Biodiversidade e Conhecimen- tos Tradicionais (RNPIBCT), criada em 2003, com a proposta de promover a função social da propriedade intelectual, o uso sustentável dos recursos da biodiversidade e dos meca- nismos diferenciados para a proteção dos co-

nhecimentos tradicionais oriundos da Região Norte. Sua criação ocorreu em virtude do de- senvolvimento da Ciência e Tecnologia nas úl-

timas décadas, o que estimula o crescimento da propriedade intelectual, devido a diversos fatores, entre os quais destacam-se: o rápido avanço científico e tecnológico, a criação de tecnologias de caráter diferenciado em relação àquelas tradicionais, novas formas de agregar valores a produtos e serviços, diferentes pa- drões de inovação entre os países, surgimento de novas formas de proteção ao trabalho inte- lectual e questionamentos sobre os requisitos tradicionais para a concessão da proteção. Entre as instituições integrantes da rede,

a Fucapi participa coordenando a Comissão do Amazonas/Roraima, por meio da colabo- radora Sônia Tapajós, que atua no Núcleo de Propriedade Intelectual e Informação Tecnoló- gica (NUPI/FUCAPI). Ela aponta os desafios da Rede Norte: “Apesar de sua importância estratégica para o desenvolvimento científico

e tecnológico do País, esse assunto ainda é

pouco difundido, principalmente quando fala- mos em Região Norte. A comunidade científica e tecnológica, bem como o empresariado local, ainda conhece pouco sobre as vantagens da utilização do sistema de propriedade intelectu- al, tanto para suas pesquisas quanto seu uso como ferramenta estratégica pela competição no mercado. No entanto, graças à ação do pró- prio governo federal, através do INPI e de seus parceiros regionais, como a Fucapi, SECT-AM, CESUPA, Museu Emílio Goeldi, por exemplo, esse cenário está começando a mudar, haja vista, o número de cursos, treinamentos e eventos realizados ano passado na região, na área de propriedade intelectual”, afirma Sônia. Apesar de o conceito “inovação” ter se tor- nado o motor da economia mundial, é preciso que ele se incorpore às mais diferentes confi- gurações empresariais, de modo a proporcio- nar um crescimento solidário, inserindo outras

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camadas sociais no contexto econômico. Mas isso é um esforço conjunto – como afirmava um dos maiores inventores da História, Thomas Ed- son, toda invenção tem 1% de inspiração e 99% de transpiração, portanto, trabalhar é preciso.

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