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PRIMEIROS SOCORROS PARA PICADAS DE OFÍDIOS

Há de ser levado em conta que os protocolos estão sempre sendo revistos e atualizados, por isso é obrigatório que o socorrista recicle a cada dois anos seu curso. As certificadoras internacionais, já prevendo o aperfeiçoamento dos protocolos, emitem credenciais válidas para este período.

Os protocolos mais utilizados são o Protocolo AHA e o WMS. Há 2 tipos de "primeiros socorros", usando o exemplo da picada de cobra, o primeiro sendo aquele onde o paciente foi picado em área rural/urbana (menos de uma hora até a prestação de socorro), e a segunda, chamada em inglês de Wilderness First Aid e sem tradução oficial para o Brasil, onde o paciente é picado em áreas remotas e localizações inóspitas (mais de uma hora para o socorro).

O protocolo AHA (American Heart Association) é o protocolo padrão de Atendimento Pré- Hospitalar no mundo. O protocolo WMS (Wilderness Medical Society), como o próprio nome diz, define técnicas e procedimentos de APH para áreas remotas e selvagens. Ambos estão em constantes atualizações e são escritos por médicos e outros profissionais da área de saúde de renome internacional.

PROTOCOLO AHA (área urbana):

Não faça nada. NÃO chupe. NÃO corte. NÃO use torniquete. NÃO levante o local ferido acima do coração do paciente. Apenas acalme o paciente, remova anéis, pulseiras e relógio, limpe e trate o ferimento (local da picada), e mantenha o paciente CALMO, deitado e hidratado (é claro que o paciente deve ser removido para atendimento médico especializado, porém sendo carregado). Não há necessidade de levar o animal para identificação no hospital/local de atendimento.

PROTOCOLO WMS (áreas remotas) Apesar da crença comum, a morte causada por picada de uma cobra venenosa é extremamente rara. O índice de morte entre os pacientes socorridos por picadas de cobras é de apenas 0,6%. De acordo com os institutos Butantan e Vital Brazil cerca de 80% dos ataques atingem as partes do corpo localizadas abaixo do joelho. Do total dos 12 mil ataques anuais, 9.136 foram por cobras sendo que destas, 330 eram peçonhentas, 300 são picadas de jararaca. Os casos de morte ocorrem normalmente porque a vítima era muito jovem, muito velho, ou já sofreu anteriormente de uma condição médica grave. Ainda assim, uma picada de cobra venenosa não deve ser menosprezada, já que a lesão ainda pode alterar significativamente a vida da pessoa, principalmente pela potencial amputação de uma extremidade dos membros.

Há duas famílias principais de cobras venenosas, as víboras (jararaca, cascavel, e surucucu) e a Elapidae (cobra-coral). As víboras matam suas presas usando uma hemotoxina que destrói os glóbulos vermelhos do sangue, interferindo com a coagulação e causando danos aos tecidos em geral — sendo o efeito de pré-digerir sua presa (ou a mão que acabou de ser mordida). Por outro lado, a Elapidae mata suas presas usando uma neurotoxina que interfere com as atividades elétricas dos nervos da presa, ou seja, a capacidade de respiração ou de uso de músculos.

Independente de qual o tipo de picada, as ações iniciais de primeiros socorros são as mesmas:

Assegure que a cena esteja segura.

Trate qualquer sanguamento.

Limpe o ferimento para evitar infecção.

Mantenha o paciente calmo e estável para reduzir os efeitos do veneno.

A partir daí, a continuidade do tratamento deve adequar-se para víbora ou elapida.

PICADA DE VÍBORA (jararacas, cascavéis, e surucucus) O tratamento definitivo para uma picada de víbora é o antídoto (soro), então você vai precisar ir ou levar o seu paciente a um hospital o mais depressa possível. Nesse meio tempo:

Continue a acalmar e tranquilizar o seu paciente ou a si mesmo.

Remover imediatamente todos os anéis, relógio, pulseiras, ou qualquer outra coisa que possa interferir com a circulação (ou seja, agir como um torniquete) se ocorrer inchaço (o que é provável).

Se a mordida é em uma extremidade, como uma mão ou braço, imobilizar e mantê- lo no nível do coração (para ajudar a retardar a propagação do veneno). Recomenda-se usar uma tala (para mantê-lo em linha reta) mas evitar colocá-lo em uma tipóia, pois é importante não concentrar o veneno no membro causando mais danos aos tecidos.

Limpar com cuidado o local da picada para ajudar a minimizar a infecção, e aplicar um curativo estéril ou limpo.

Mantenha o paciente aquecido e hidratado.

Se tiver um marcador ou caneta, desenhar uma linha em torno da circunferência da extremidade ao lado do inchaço em volta da picada, e escrever o horário ao lado da linha ; repetir a cada 15 minutos - Isto ajuda a medir e monitorar a propagação do inchaço .

Evacuar o seu paciente carregando-o, ou vá buscar ajuda; ou se o paciente estiver estável e o resgate for demorar, caminhar com o paciente fazendo pausas frequentes.

As seguintes técnicas, apesar da crença geral, nunca devem ser usadas:

NÃO corte e nem chupe o local da picada. NÃO aplique torniquete. NÃO aplique gelo ou mergulhe a picada em água gelada. NÃO dê álcool ao paciente.

Não há qualquer necessidade de capturar, matar ou até mesmo fotografar a cobra! Fazer isso só coloca você ou seu paciente em risco de uma segunda mordida, e, mais importante, atrasa o tratamento médico inicial. Além disso, o soro usado no hospital geralmente é o mesmo para todas as víboras.

Por que não usar um torniquete? O torniquete nunca deve ser usado em uma picada de cobra, porque não só restringe o fluxo de sangue para a extremidade, como também concentra o veneno na extremidade, o que só vai causar ainda mais danos aos tecidos.

Devo usar um kit de picada de cobra (aquele extrator de veneno)? O uso de um kit de cobra é controverso. Enquanto usar um dispositivo de sucção para remover o veneno de uma picada pode parecer lógico (como os fabricantes destes kits afirmam), as pesquisas realizadas não mostram qualquer benefício. O consenso médico é, então, que os kits de picada de cobra não devem ser usados.

PICADA ELAPIDAE

A picada de uma Elapidae (ou seja, a cobra-coral) é geralmente menos frequente.

Enquanto 98% das picadas de cobra venenosa são causados por jararacas, apenas cerca de 1% são causados pelas cobras-corais. Isso porque sua boca pequena e curta, e os dentes fixos tornam extremamente difícil para ela morder qualquer coisa em um ser humano, exceto um dedo do pé ou da mão, ou uma dobra de pele — e, mesmo assim, a cobra-coral deve continuar a morder e mastigar antes poder injetar seu veneno. Ainda assim, a cobra-coral não deve ser subestimada porque seu veneno é geralmente mais tóxico do que o de uma víbora.

Assim, um bom primeiro passo no fornecimento de tratamento é imediatamente agarrar e retirar a cobra agressora antes que ela possa causar mais prejuízos.

Se a picada for em uma extremidade, em seguida, aplicar uma bandagem de pressão

(não confundir com um torniquete), uma técnica que é muito semelhante ao envolvimento

de um entorse no tornozelo. Enrole uma bandagem elástica em torno do membro afetado,

iniciando no local da picada, e usando aproximadamente o mesmo grau de pressão como

se fosse enrolar um tornozelo torcido, continue a envolver com firmeza até a extremidade.

Isso ajuda a reduzir a propagação da neurotoxina para o resto do corpo através da corrente linfática. Para certificar-se de que a bandagem não está muito apertada, você deve ser conseguir deslizar um ou dois dedos sob a bandagem, e você deve ser capaz de sentir um pulso normal na extremidade inferior.

Saiba que os hospitais geralmente não usam soro em caso de picadas de cobras-corais. Em vez disso, eles simplesmente monitoram o paciente e prestam cuidados de apoio, como o uso de respirador, quando necessário.

Reação alérgica

Independente se for picada de uma víbora ou de cobra-coral, também é possível que o paciente venha a sofrer uma reação alérgica a qualquer momento, antes de chegar ao hospital. Assim, é importante então, monitorar o paciente e estar preparado para tratar também a reação alérgica, conforme necessário.

EXÉRCITO BRASILEIRO Cabe ainda destacar, que nas instruções provisórias de guerra na selva, na seção de generalidades do tratamento de picadas de cobras, afirma-se que “O tratamento médico realizado até seis horas após o acidente com ofídios, normalmente, não deixa sequelas e não é fatal em seres humanos (exceto nos debilitados e nos que possuem pequeno peso corporal, como as crianças). Se a inoculação da peçonha ocorrer em local muito vascularizado (região interna da coxa e braço) os riscos serão maiores, pois os efeitos serão mais precoces”.

Texto traduzido e organizado por Marcelo Mallmann