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Formação para missionários jovens

N
o mundo contemporâneo, em vertiginosa transfor- evangelização e promoção humana, provenientes de várias
mação, a Missão está cada vez mais exigente e realidades, vieram em busca de “respostas para as novas
desafiadora. Momentos de reflexão são necessários situações e desafios que estão enfrentando na Missão”.
e importantes. Pensando nisso, os missionários da Sob orientação e assessoria, eles estão tendo a oportuni-
Consolata programaram um curso de formação e dade – através do estudo, aprofundamento, reflexão, partilha
atualização permanente para missionários jovens, no de experiências e oração – de ampliar seus conhecimentos e
Centro de Animação José Allamano (CAM), situado na Região adquirir uma visão mais ampla do mundo, da história e da Igreja.
Norte de São Paulo. Essa oportunidade será de muita valia para eles, para a Igreja
O curso começou em agosto e terminará em outubro. Par- missionária à qual pertencem e para a sociedade onde estão
ticipam dele 20 padres, de sete nacionalidades, que trabalham desenvolvendo seus trabalhos.
em 11 países de quatro continentes: Europa, África, Américas
e Ásia. Estes jovens missionários, engajados no trabalho de Ir. Rosa Clara Franzoi, animadora vocacional.
Arquivo CAM Allamano
EDITORIAL
SUMÁRIO
Isto não Vale! setembro 2007/07

O
s conceitos de neoliberalismo e Estado mínimo estão
intimamente ligados, já que o sistema daquele incentiva
a iniciativa privada e reduz o controle deste. A prática da
privatização dos serviços públicos e a exploração dos
recursos naturais é uma característica do neoliberalismo.
No Brasil, as privatizações em cadeia ocorridas nos
últimos tempos devem ser entendidas num contexto mais amplo
1 - Partipantes do Fórum Social
de crise estrutural da economia capitalista, que contabiliza várias Mundial, Porto Alegre, 2005.
“décadas perdidas”, cujas conseqüências são visíveis. As riquezas
de muitos países africanos como, por exemplo, a extração do gás 2 - Celebração durante a
natural em Moçambique enriquece uma minoria e engorda compa- V Conferência, Aparecida, SP.
Fotos: Jaime C. Patias
nhias privadas estrangeiras. Enquanto isso, o povo da região que
deveria usufruir da extração desses bens, deve contentar-se com
a lenha e o carvão para preparar seus alimentos consumidos no
escuro ou à luz de velas.  MURAL DO LEITOR--------------------------------------04
Diante desse quadro, não é de se estranhar que resistências Cartas
e alternativas de novos atores sociais e novas práticas surjam um  OPINIÃO--------------------------------------------------05
pouco por toda parte do mundo globalizado. Nisso, talvez o maior Aprendizagem para a vida
Marcelo Krokoscz
exemplo hoje seja a Bolívia que elegeu em 2005, Evo Morales Ayma,
o primeiro índio presidente de um país. Com 62% de população indí-  PRÓ-VOCAÇÕES----------------------------------------07
gena, a Bolívia é um dos países Todo problema tem solução
Rosa Clara Franzoi
Divulgação

da América Latina mais ricos em


recursos naturais e um dos mais  VOLTA AO MUNDO-------------------------------------08
pobres economicamente. Este Notícias do Mundo
CNBB / Fides / POM
contraste, que caracteriza mui-
tos outros países do Hemisfério  ESPIRITUALIDADE----------------------------------------10
Os gritos de ontem e de hoje
Sul, bastaria para fazer um juízo Patrick Gomes Silva
sobre o “modelo de desenvolvi-
mento” que o colonialismo e o  TESTEMUNHO-------------------------------------------12
Pronto para tudo
capitalismo impuseram à grande Ivo Lazzarotto
maioria da população do mundo
nos últimos cinco séculos. É importante notar que são os excluídos  FÉ E POLÍTICA -------------------------------------------14
Aplausos à democracia
dos excluídos, os povos indígenas, os protagonistas de um novo Humberto Dantas
processo de mudança na forma de administrar os recursos naturais.
 FORMAÇÃO MISSIONÁRIA----------------------------15
Algo interessante está acontecendo. Nas últimas décadas o impe- Discípulos e discípulas para a Missão
rialismo norte-americano concentrou seus interesses nas jazidas Ramón Cazallas Serrano
petrolíferas do Oriente Médio, voltando as costas para a América
 Juventude missionária ----------------------------19
Latina. Aproveitando-se dessa oportunidade, países da região estão Campo Missionário Jovem
hoje liderando as reivindicações por um novo modelo de Estado em Patrick Gomes Silva
contraposição àquele construído pelo capitalismo.  DESTAQUE DO MÊS -----------------------------------20
No Brasil, a Companhia Vale do Rio Doce é a maior produtora Isto não Vale!
de minério de ferro do mundo com jazidas suficientes para 400 Rosilene Wansetto
anos. Na onda de privatizações do governo FHC, a Vale, até então  ATUALIDADE----------------------------------------------22
estatal, com um patrimônio de 92 bilhões de reais, em 1997 foi Formação Missionária para Seminaristas
privatizada por apenas 3,3 bilhões de reais. O valor real da Vale Alessandro H. Coelho e Devair Araújo da Fonseca
era mais de 10 bilhões de reais e o leilão foi ilegal. Esse tipo de  INFÂNCIA MISSIONÁRIA-------------------------------24
negócio é uma forma de transferir para alguns setores decisivos Basta de trabalho infantil!
da produção nacional, o patrimônio de todo o povo brasileiro. Com Roseane de Araújo Silva
o objetivo de exigir a soberania da Nação sobre o que pertence a  a turma do biblincando ------------------------25
todos, o lema do 13º Grito dos/as Excluídos/as 2007 é: “Isso não Mês da Bíblia
COMDEUS
Vale! Queremos participação no destino da Nação”, juntamente
com o Plebiscito Nacional sobre a Companhia Vale do Rio Doce a  ENTREVISTA DOM JOSÉ SONG----------------------26
realizar-se durante a Semana da Pátria. Além do uso de métodos Um bispo chinês na Amazônia
Jaime Carlos Patias
ilegais, as privatizações dos serviços públicos e o uso dos recursos
naturais contribuem para a concentração de renda e poder nas mãos  AMAZÔNIA-----------------------------------------------28
de grupos financeiros e acionistas estrangeiros. É surpreendente Animados pela fé e certos da vitória
Francisco Andrade de Lima
notar que não se veja uma relação entre tal política e o aumento da
criminalidade, da desigualdade social, da corrupção e do racismo:  volta ao brasil---------------------------------------30
Notícias do Brasil
novos rostos dos excluídos.  CIMI / CNBB / Notícias do Planalto / POM

- Setembro 2007 3
Mural do Leitor
Ano XXXIV - Nº 07 Setembro 2007 Revista Missões
Sou leitor e admirador de Missões.
Diretor: Jaime Carlos Patias Uma revista pode ser definida como uma
publicação periódica, em que se divul-
Editor: Maria Emerenciana Raia gam artigos, reportagens sobre diversos
assuntos, trabalhos já apresentados em dia, alguém me apresentou uma revista
livros ou em outros meios de comunica- missionária. Levei para casa e comecei a
Equipe de Redação: José Tolfo,
ção. Missões, porém, é uma revista que ler. Gostei tanto que logo fiz a assinatura.
Ramón Cazallas, Patrick Gomes Silva e
desde o seu surgimento, continua tendo Atualmente, sou Ministro Extraordinário
Rosa Clara Franzoi
um propósito determinado: tornar conhe- da Eucaristia, contribuo na catequese
cidas as mais variadas mensagens na quando solicitado e estou me engajando
Colaboradores: Vitor Hugo Gerhard,
área missionária, visando despertar nos num trabalho missionário da paróquia.
Lírio Girardi, Luiz Balsan, Joaquim F.
corações das pessoas a chama da missão, Nestes dias eu estava pensando o
Gonçalves, Roseane de Araújo Silva, razão de ser de quem lhe está à frente. quanto essa revista me ajudou no cresci-
Humberto Dantas, Luiz Carlos Emer, Essa publicação caminha, certamente, mento da minha consciência missionária.
Camilo Solano em conjunto com as demais iniciativas No decorrer desse tempo, ela já mudou
missionárias da Igreja e dos dois Institu- várias vezes de estilo, de diretor, e eu con-
Agências: Adital, Adista, CIMI, tos da Consolata, radicados em dezenas tinuo firme, não só na leitura, mas também
CNBB, Dom Hélder, IPS, MISNA, de países, em quatro continentes. Eles na sua divulgação, porque o que é bom,
Pulsar, Vaticano sabem que as palavras voam, mas os a gente precisa espalhar. Estou falando
escritos perpetuam a mensagem. Mis- com conhecimento de causa, pois são 20
Diagramação e Arte: Cleber P. Pires sões é uma revista que não se conforma anos que conheço Missões. Minha primeira
em ficar descansando nas prateleiras de assinatura foi feita em maio de 1987. Só
Jornalista responsável: uma biblioteca. Ela quer ser porta-voz de tenho que agradecer a Deus e pedir que
Maria Emerenciana Raia (MTB 17532) milhares de anunciadores da Boa Nova ele continue abençoando todos os que
que utilizam este meio, aparentemente colaboram para que a revista se torne
Administração: Eugênio Butti mudo, mas, extremamente eloqüente, sempre mais divulgadora da Missão.
para penetrar no seio das famílias. Seu
Sociedade responsável: conteúdo interroga e questiona. Ela também Robinson Lourenço da Silva
Instituto Missões Consolata chama a atenção por sua apresentação Paróquia Santa Margarida, Curitiba, PR.
(CNPJ 60.915.477/0001-29) gráfica por sua diagramação artística, por
seu alegre multicolorido; mas, especial- Sinto-me orgulhoso de fazer parte desta
Impressão: Edições Loyola mente, por seu conteúdo, rico e variado, família Consolata e de ver que cada vez
Fone: (11) 6914.1922 atual e convincente. Ela se apresenta crescem mais as iniciativas missionárias.
com um rosto multicultural e planetário, Desde janeiro estou no Noviciado em
Colaboração anual: R$ 40,00 característico de todo missionário, de toda Buenos Aires, Argentina, com outros dez
BRADESCO - AG: 545-2 CC: 38163-2 missionária. Para mim, este é um trabalho noviços do Brasil, Argentina, Colômbia e
Instituto Missões Consolata de perseverança e de teimosia, digno do Venezuela. Escrevo para parabenizar a
(a publicação anual de Missões é de 10 números) mais sincero louvor. Parabéns à equipe vocês pelo excelente trabalho, seja pela
de redação e colaboradores. revista, seja pelo site. Estando em outro
país, acompanho muito do que acontece
Missões é produzida pelos
Dario Paterno no Brasil e em “outras partes” através
Missionários e Missionárias da Consolata
Paróquia Nossa Senhora Consolata, Jardim São Bento, SP. destes meios. Quando chega a revista,
Fone: (11) 6256.7599 - São Paulo/SP
procuro ler “de cabo a rabo”. Realmente as
(11) 6231.0500 - São Paulo/SP
Quando o Senhor me chamou a con- matérias são muito boas como instrumento
(95) 3224.4109 - Boa Vista/RR
tribuir com um pouco do meu tempo e de formação humana e missionária. As
minha capacidade na catequese da minha novas páginas “Juventude Missionária”
Membro da PREMLA (Federação de Imprensa comunidade, prontamente eu disse sim. e “Passatempo” complementam o ótimo
Missionária Latino-Americana) e da UCBC Nunca havia participado ativamente de trabalho que fazem. Gostaria de testemu-
(União Cristã Brasileira de Comunicação Social) nenhuma pastoral. Pensei que falar de nhar que, em especial, nos ajudou muito o
Jesus para as crianças não seria tão difícil; material publicado sobre a V Conferência
Redação mas depois de ter iniciado, fui perceben- do CELAM. Usamos muitas informações
Rua Dom Domingos de Silos, 110 do que a minha bagagem era pouca; eu no Noviciado e alguns artigos, traduzi para
02526-030 - São Paulo precisava de bem mais conhecimentos, e enviar a outras pessoas. Continuem firmes
Fone/Fax: (11) 6256.8820 sai à procura. Participei de vários cursos anunciando “a Missão no plural”.
Site: www.revistamissoes.org.br de formação oferecidos pela paróquia
E-mail: redacao@revistamissoes.org.br e pela diocese; mas sentia que estava Júlio Caldeira
me faltando alguma coisa a mais. Um Noviciado IMC, Buenos Aires, Argentina.

4 Setembro 2007 -
Aprendizagem

OPINIÃO
para a vida

Arquivo Colégio Consolata


Proposta educativa
diferenciada de José Allamano
é colocada em prática em
colégio de São Paulo.

Alunos do Colégio Consolata, Imirim, SP.

de Marcelo Krokoscz anúncio da Boa Nova (evangelion), tendo como especificidade


a ação missionária. Enquanto a abordagem dos intelectuais

Q
resulta em sistemas pedagógicos orientados para o ensino, o
uando a escola foi instituída pela burguesia no século enfoque de José Allamano privilegia a importância da formação
XVI, manteve a incumbência de educar, isto é, de nos processos educativos.
promover o processo de desenvolvimento integral Trata-se de duas características educacionais importantes
do infante, de sua capacidade física, intelectual e e complementares, que vêm sendo adotadas na proposta do
moral, visando a formação do caráter e da perso- Colégio Consolata, em São Paulo, há 58 anos. A proposta do
nalidade social. Além disso, a escola assumiu como Colégio promove a construção de processos de ensino e apren-
papel, o ensino, isto é, a transmissão do conhecimento adquirido dizagem baseada na concepção pedagógica de desenvolvimento
e acumulado pela humanidade, com o objetivo de formar o ho- de habilidades e competências; e ao mesmo tempo, cultiva a
mem culto capaz de brilhar nas cortes aristocráticas. A partir da formação de valores para a vida, através de atividades que
Revolução Industrial (séc. XVIII), a escola passou a ter também promovem a comunhão e estimulam a missionariedade, como:
a função de instruir tecnicamente seus alunos para atuarem cooperação humana, estímulo à participação social, consciência
no mercado da nascente era capitalista. Podemos destacar a de cidadania e preservação da dignidade da pessoa. São carac-
partir daí, as três principais atividades educativas: Formação, terísticas fundamentadas pedagogicamente em teóricos como
Ensino e Instrução, que em geral, nos programas escolares, Philippe Perrenoud e nas diretrizes nacionais, enriquecidas com
são desenvolvidas através de processos atitudinais (formação), a especificidade dos aspectos formativos de José Allamano.
conceituais (ensino) e procedimentais (instrução). Em suma, como diz a professora Mônica B. Mazzo, coor-
denadora pedagógica, “o Colégio Consolata, procura em sua
Identidade própria e diferenciada proposta, desenvolver uma aprendizagem que faça sentido
Embora o Bem-aventurado José Allamano, fundador da para a vida, estando adequada aos quatro pilares da educação
Obra Missionária da Consolata, nunca tenha elaborado um instituídos pela UNESCO como o grande desafio da educação
modelo pedagógico como os que foram concebidos por pensa- para o século XXI: Conhecer, Fazer, Conviver e Ser”. No traba-
dores como Piaget, Montessori e Paulo Freire, por exemplo, é lho do Consolata, desenvolvem-se o conhecer e o fazer, com o
possível identificar em seus escritos uma grande contribuição respaldo técnico dos sistemas pedagógicos disponíveis; mas o
educacional. Os teóricos citados e muitos outros desenvolve- conviver e o ser são promovidos com base no modelo educativo
ram modelos pedagógicos a partir de pesquisas e reflexões allamaniano; o que faz com que o Colégio tenha uma identidade
acadêmicas sobre o processo de ensino e aprendizagem. Na própria e diferenciada. 
reflexão destes pensadores, destaca-se uma natureza epistê-
mica, ou seja, uma preocupação orientada para os processos Marcelo Krokoscz é mestre em Educação, licenciado em Filosofia e Pedagogia, bacharel em
de conhecimento. Diferentemente, o interesse de Allamano é o Teologia e educador do Colégio Consolata, São Paulo.

- Setembro 2007 5
A profecia na Vida Religiosa
E
ntre os dias 16 e 20 de julho, cerca de 500 religiosos morte, ressurreição e ascensão se traduzem para a VRC como
e religiosas do Brasil, representando 50 mil membros, mística e testemunho que propagam ao mundo palavras de
participaram da XXI Assembléia Geral da Conferência vida e de esperança.
dos Religiosos do Brasil (CRB), realizada no Liceu As cinco prioridades elegem pontos de grande importância
Coração de Jesus,Campos Elíseos, São Paulo. Tendo nos dias de hoje, mostrando o compromisso da VRC:
como tema “Vida Religiosa e espaços em transforma- 1. Reafirmar o compromisso da Vida Religiosa Consagrada
ção”, os participantes refletiram sobre diversas questões como: no serviço à vida diante das grandes questões sociais e ambien-
a “Vida Religiosa inserida em meios populares e novos espaços tais, e fortalecer a inserção nos meios populares e em novos
de presença solidária” e a “Missão profética da vida consagrada espaços de solidariedade e cidadania;
face aos espaços em transformação”. A Assembléia teve vários 2. Cultivar uma espiritualidade encarnada e profética, cen-
assessores, entre eles, o jesuíta Inácio Neutzling e frei Luiz trada na Palavra de Deus e na mística do discipulado, aberta à
Carlos Susin, que apresentaram um painel sobre a dimensão diversidade cultural, religiosa e de gênero;
sociocultural e os desafios da vida religiosa na atualidade. O 3. Dinamizar a formação inicial e continuada diante da mu-
padre Oscar Beozzo falou sobre a conjuntura eclesial e mostrou dança de época, de forma integral, humanizante e geradora de
os dados da distribuição dos espaços da Igreja no século XX. novas relações;
Beozzo falou sobre o crescimento do cristianismo na África e 4. Ampliar as alianças intercongregacionais, as redes de
ressaltou a necessidade de se buscar novas formas de ecle- parcerias, na formação e na missão, e intensificar a partilha dos
sialidade. Ir. Vera Ivanise Bombonatto, FSP, apresentou a Vida carismas com leigos e leigas.
Consagrada no documento de Aparecida. 5. Buscar novas formas de aproximação e presença junto
Nos estudos e debates sobre o tema da Assembléia, ficou à juventude.
nítida a preocupação sobre os desafios das grandes mudanças Estas prioridades merecerão um estudo cuidadoso que
atuais à Vida Religiosa Consagrada (VRC), bem como se reafir- desdobre o alcance de seus desafios. E devem gerar projetos
mou a decidida escolha pelo seguimento de Jesus na fidelidade específicos que vão integrar o planejamento de ação deste
evangélica que leva à missão profética. Constatou-se igualmente triênio.
a necessidade de prosseguir em busca da compreensão sobre o Na tarde do dia 18 de julho, a Assembléia elegeu a nova
alcance das mudanças socioculturais e sobre as exigências da presidência para os próximos três anos:
VRC nesses novos
Presidente
Arquivo CRB

tempos. Estes da-


dos foram sintetiza- Ir. Máriam Ambrósio, da Congregação da Divina Providên-
dos de algum modo cia. Máriam atualmente é assessora da Comissão Episcopal
na formulação Pastoral para a Ação Missionária e Cooperação Inter-Eclesial
“Vida Religiosa e da CNBB.
espaços em trans-
formação”; tendo Diretoria
como lema as ins- Pe. João Geraldo Kolling, SJ
piradoras palavras Ir. Maria Augusta Oliveira, SMR
de Êxodo 14, 15: Ir. Paulo Petry, FSC
“Diga a esta gera- Ir. Maria do Desterro R. Santos, FCIR
ção: avance!” Ir. Célia Aparecida Bahú, CP
Com base Ir. Lauro F. Hochscheidt, FMS
em experiências Ir. Lourdes Oro, SDS
anteriores, a As- Ir. Dayse Darce
sembléia acolheu Pe. José Carlos Lima, SDV
a proposta de for- Ir. Vilma Moreira, FI
mular o plano trie-
nal de modo mais Conselho Superior
sucinto: com um Frei José Rodrigues de Araújo
Irmãs Máriam Ambrósio e Maris Bolzan. horizonte que assi- Ir. Isaura Raimundo Lima, MC
nale alguns pontos Ir. Luiza Belli
norteadores da trajetória espiritual da VRC hoje; e com a escolha Ir. Rosiane Scola, IIC
de prioridades que expressem onde somar forças nesse triênio. Ir. Rosalba Perotti, FMA
Ficou claro que as prioridades assumidas se desdobrarão em Frei Moacir Casagrande, OFMCap
planejamentos e projetos específicos; e que de modo algum Pe. Roberto Jaramilo, SJ
anulam importantes iniciativas já em curso.
Conselho Fiscal
Plano Trienal 2007-2010 Pe. Ademar Tramontin, RCJ
No horizonte assumido pela Assembléia destaca-se a Ir. Eloísa Helena de Resende, CDP
Palavra de Deus que conforta e anima a VRC a caminhar Ir. Maria da Conceição Ferreira, RSA
adiante, em um mundo em transformação, seguindo Jesus Pe. Marco Biaggi, SDB
e Dele aprendendo. O mistério da Sua encarnação, paixão e Ir. Jesumina B. de Toledo, FSCJ

6 Setembro 2007 -
Todo problema

pró-vocações
tem solução
De todas as derrotas, a mais desastrosa é o desânimo.

ou por boa parte da vida? Aqui está o segredo: a diferença, não


está nos problemas em si, mas na maneira certa de encará-los e
de lidar com eles. Veja, se os agredirmos com raiva e agitação,
tratando-os como inimigos, pode apostar que a derrota será certa.
Divulgação

Mas, se ao contrário, olharmos com objetividade e calma para eles,


tentando entendê-los mais a fundo, e com esforço, criatividade e
perseverança procurarmos descobrir as possíveis saídas, com
certeza seremos vencedores. Quem tem “pavio curto”, além de não
encontrar solução alguma, acabará se complicando ainda mais.

Nossos melhores amigos?


Sim, porque são eles mesmos, que nos desacomodam, nos
estimulam e nos obrigam a procurar alternativas para nos livrarmos
deles. É uma constatação: muitas das dificuldades e contratempos
de Rosa Clara Franzoi
que aparecem em nosso caminho são inerentes à nossa natureza
humana, frágil e limitada; porém, boa parte deles são criados por

T
nós mesmos e, o que é pior, chegamos a culpar todo mundo, até
odo problema tem solução. É isso mesmo? Quantos o próprio Deus, pelos nossos fracassos. Os velhos e tão conhe-
problemas ficam por aí e acabam desaparecendo, inso- cidos ditos populares, hoje ainda são válidos: “Ajuda-te que Deus
lúveis. Portanto, à primeira vista, a afirmação é um tanto te ajudará”, e, “Deus ajuda quem cedo madruga”. Daí, que nunca
duvidosa. Mas, veja que quem a escreveu foi um entendido devemos entregar os pontos, até não termos esgotado todas as
no assunto. No seu livro “O sucesso - você pode mudar tentativas de solução. Tentar, tentar e outra vez tentar, persistir na
a sua vida”, o Dr. Lair Ribeiro, médico especializado no procura, porque “ninguém é derrotado antes de depor as armas”.
campo da neurolinguística, afirma: “Todo problema traz embutida a
solução”. E diz mais: “Os problemas são nossos melhores amigos”. Persistência e vontade de vencer
Até custa acreditar. Mas, vamos tentar entender como é que isso Conta uma lenda, que um cavalo de estimação caiu num poço. O
funciona. Muitas pessoas passam a vida reclamando que tudo é seu dono, após ter esgotado todos os meios para salvá-lo, chamou
difícil, que ninguém as compreende; vivem chateadas, chegam a alguns homens e pediu que enchessem o poço de terra, sacrificando
cair no desânimo, na depressão. E os culpados são sempre os “pro- assim o animal. E o trabalho começou. Porém, a cada pá de terra
ble-mas...” Mas, podemos perguntar: Como se explica o fato, que que jogavam sobre suas costas, o cavalo, instintivamente a sacudia
alguns, com problemas semelhantes ou até idênticos, conseguem e ela caía. À medida em que a terra ia aumentando, ele levantava
dar a volta por cima e outros ficam reféns, arrastando-os por toda as patas e a terra lhe servia de suporte. Não obstante a posição
incômoda e os ferimentos que o faziam sofrer, o cavalo continuava
a repetir, sem parar, o movimento de sacudir a terra; e enquanto
Quer ser um missionário/a? o poço ia se enchendo, o cavalo ia subindo, até chegar ao topo,
libertando-se da horrível prisão, para a alegria de seu dono e de
Irmãs Missionárias da Consolata - Ir. Dinalva Moratelli todos os que acompanharam sua luta pela vitória.
Av. Parada Pinto, 3002 - Mandaqui É apenas uma história; mas, a lição que nos deixa é que, sem
02611-001 - São Paulo - SP perseverança, persistência e garra não chegaremos a solucionar
Tel. (11) 6231-0500 - E-mail: rebra@uol.com.br os problemas que nos atingem.
Diante de tudo o que é motivo de contrariedade que faz sofrer,
Centro Missionário “José Allamano” - Pe. José Tolfo respire fundo e diga a si mesmo: eu, que sou um ser inteligente e
Rua Itá, 381 - Pedra Branca
02636-030 - São Paulo - SP livre, não posso ficar refém desta ou daquela situação; irei procurar
Tel. (11) 6232-2383 - E-mail: secretariamissao@imconsolata.org.br me libertar o quanto antes. Além disso, não deixe de pôr em ação
a fé. Jesus, falando do poder dela e da oração disse: “Quem pede,
Missionários da Consolata - Pe. César Avellaneda recebe; quem busca, acha e a quem bate, ser-lhe-á aberta a porta”
Rua da Igreja, 70-A - CXP 3253 (cfr Mt 7, 7-8). 
69072-970 - Manaus - AM
Tel. (92) 624-3044 - E-mail: amimc@ibest.com.br
Rosa Clara Franzoi é missionária e animadora vocacional.

- Setembro 2007 7
Latina e Caribe. Do Brasil participaram: dom Sérgio
Arthur Braschi, bispo de Ponta Grossa, PR, Membro da
Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Missionária e
Cooperação Intereclesial da CNBB; padre Daniel Lagni,
Diretor Nacional das Pontifícias Obras Missionárias
(POM) do Brasil; padre Estevão Raschietti, xaveriano,
de Curitiba, PR, Assessor Teológico e Missiológico
do Conselho Missionário Nacional (COMINA) e das
POM do Brasil.

República Democrática do Congo


Reintegração de crianças ex-soldados
Na República Democrática do Congo, onde atuam
diversos grupos armados, o problema da reintegra-
ção dos ex-combatentes na sociedade civil é muito
profundo. A paróquia de Bunyuka, no Leste do país,
lançou um programa de recuperação social e profis-
Cuba sional de jovens ex-combatentes. Segundo declarou
Nova presidência do CELAM o pároco, padre Jérôme Saytabu “os jovens foram
VOLTA AO MUNDO

O arcebispo de Aparecida, SP, dom Raymundo seqüestrados nos campos e sofreram humilhações
Damasceno Assis, é o novo presidente do CELAM gratuitas. Percebemos o sofrimento destas crianças e
-Conselho Episcopal Latino-Americano. Ex-secretá- decidimos ajudá-las”. A paróquia conseguiu reintegrar
rio-geral da entidade, dom Raymundo foi eleito na na comunidade local uma centena de ex-combatentes
31ª Assembléia Ordinária do Conselho realizada dia Mai Mai (a milícia local). Agora, é a vez de cerca de
10 de julho, em Havana. Ele substituirá no cargo, o 50 jovens congoleses que foram alistados à força por
cardeal Francisco Javier Errázuriz Ossa, arcebispo um movimento de guerrilha ugandense (Nalu), que
de Santiago do Chile. O último brasileiro a presidir o atua ao longo da fronteira entre Uganda e a Repú-
CELAM foi dom Aloísio Lorscheider, entre 1976 e 1979. blica Democrática do Congo. Durante uma operação
Na mesma Assembléia foram eleitos dom Baltazar do Exército congolês conduzida no ano passado, os
Enrique Cardozo, arcebispo de Mérida, Venezuela, jovens conseguiram escapar de seus seqüestradores
como primeiro vice-presidente e dom Andrés Stanov- e retornar às suas aldeias, tendo sido acolhidos com
nik, bispo de Reconquista, Argentina, como segundo indiferença. Graças ao empenho da paróquia, estes
vice-presidente. Uma das primeiras missões da nova jovens freqüentaram um curso de alfabetização, para
diretoria, cujo mandato vai de 2007 a 2011, será dar prosseguir seus estudos profissionais. Um trabalho
os encaminhamentos finais ao Documento da V Con- nem sempre fácil para os voluntários que assistem
ferência do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, aos jovens na reintegração social.
realizada em Aparecida.
Filipinas
Equador Estudantes cristãos e muçulmanos
Simpósio prepara o CAM3-COMLA8 Aescola estadual no centro da cidade de Malaybalay,
Realizou-se de 30 de julho a 3 de agosto, em na ilha de Mindanao, é a maior escola primária da capital
Quito, o 2° Simpósio Internacional de Missiologia, com da província de Bukidnon. Dos seus 2.900 estudantes,
o tema geral Antropologia e Pastoral da Missão. O 120 pertencem a famílias cristãs e o restante a famílias
objetivo foi de “aprofundar a Antropologia e a Pastoral muçulmanas. Uma professora, Sahra Khabla, defende
da Missão, para dar uma contribuição à apresentação que para as crianças, sejam muçulmanas ou cristãs,
do 3° Congresso Missionário Americano-8° Congresso é de importância vital aprender os valores de ambas
Missionário Latino-Americano (CAM 3-Comla 8, de 12 as religiões. Um outro professor, que é o marido de
a 17 de agosto de 2008, na capital equatoriana)”. Khabla, Esmail Datu, reitera o mesmo pensamento e
Durante os três dias de trabalhos aprofundaram- as vantagens do programa para uma educação mais
se os temas: Nosso Discipulado Missionário Hoje na completa. Ele acrescenta que tal ensinamento ajuda
Comunidade Local, com a conferência sobre Antropo- os estudantes a adquirir um melhor conhecimento de
logia Missionária, do professor Lucas Cerciño, Bolívia, suas diferenças, para que possam aprender a viver
questionando “o que deve a Igreja assumir da reali- em paz entre si, respeitando-se reciprocamente. Min-
dade antropológica atual”; Levados pelo Espírito nos danao é uma região de maioria muçulmana. A Frente
Encontramos em Missão, com a conferência sobre as Islâmica de Libertação Moro, um grupo separatista,
Perspectivas Missionárias da V Conferência, proferida está em guerra com as tropas do governo há quatro
por padre Paulo Suess, Brasil, visando aprofundar sobre décadas para obter a autonomia da região. No decorrer
“o que propõe a Igreja, discípula e missionária, a partir dos anos, a guerra fez milhares de vítimas. Enquanto
de Aparecida”; Nossa Igreja de Hoje: a partir de uma isso, os chefes islâmicos e os líderes da Igreja Católica
Identidade Discípula e Missionária, com a conferência estão fazendo de tudo para promover a paz na área.
sobre Pastoral Missionária a partir da Comunidade Nas Filipinas, o ensinamento dos valores islâmicos é
Local, do padre Estevão Raschietti, Brasil, suscitando inserido somente em escolas islâmicas ou nos institutos
questionamentos sobre “como podemos realizar a privados muçulmanos. 
Missão, a partir de nossas Igrejas particulares”.
Foram 120 participantes de 16 países da América Fontes: CNBB, Fides, POM.
8 Setembro 2007 -
INTENÇÃO MISSIONÁRIA
A fim de que, aderindo com alegria a Cristo,
todos os missionários e missionárias saibam
ultrapassar as dificuldades que encontram
na vida de cada dia.
de Vitor Hugo Gerhard

E
m 1824 chegaram os primeiros grupos de imigrantes
alemães no Vale do Rio dos Sinos, Rio Grande do Sul.
Vieram de navio a vapor, numa longa viagem de cinco
semanas, atravessando os mares, passando pelo porto Pintura de Ernest Zeuner retrata a chegada dos imigrantes alemães em S. Leopoldo, RS.
do Rio Grande, subindo a Lagoa dos Patos e chegando pos de “férias” para rever os parentes. Em sua grande maioria,
finalmente ao Porto dos Casais, antigo nome de Porto Alegre. vinham para viver e para morrer nestas terras de adoção. Vinham
Dali subiam o Rio dos Sinos até chegarem na atual São Leopol- para gastar o resto de seus dias nas terras de missão.
do. 50 anos depois foi a vez dos italianos fazerem um percurso Hoje os tempos são outros e os recursos também. Já não se
semelhante, subindo até a atual cidade de Caxias do Sul e fala em missão com a mesma radicalidade de antes. As propostas
região serrana. Tudo isso sem estradas, sem energia elétrica, e as ofertas são mais promissoras. Já se pode falar instantane-
sem telefone, sem celular, sem internet, sem carros com tração amente com os lugares de origem, mandar fotos, conversar em
nas quatro rodas, enfim, nas condições que os tempos de então tempo real através dos modernos meios eletrônicos e até voltar
ofereciam. E com eles vieram os missionários, para atender às rapidamente em caso de morte, ou mesmo para tratamentos de
comunidades em suas necessidades religiosas, sociais, edu- saúde e dentários. Agora é preciso dizer algo novo, pois o sobre-
cacionais e sanitárias. dito já é velho. E a novidade consiste no fato de, independente
Uma irmã Franciscana da Penitência e Caridade Cristã nos das condições de outrora ou de hoje, a alegria do missionário e
contava que, naqueles tempos, vieram da Europa grupos de da missionária está ligada, de maneira visceral à radicalidade
freiras para trabalhar nos leprosários do sul do Brasil e que, da opção por Cristo, e não necessariamente à dureza da vida
antes de saírem de sua terra, deveriam assinar um termo de ou ao acesso aos meios. O essencial está no configurar-se ao
compromisso que, uma vez estando entre os leprosos, lá per- Senhor da missão e quanto mais formos capazes disso, mais
maneceriam até a morte, para evitar possíveis contaminações seremos capazes também de irradiar esta alegria própria de
na população em geral. quem encontrou um grande amor. 
Estes missionários e missionárias vinham para estas terras
sem a menor possibilidade de retornar, ainda que fosse em tem- Vitor Hugo Gerhard é sacerdote e coordenador de pastoral da Diocese de Novo Hamburgo, RS.

Sucessor de Allamano celebra jubileu sacerdotal

P
adre Aquiléo Fiorentini, superior geral dos missionários Senhora de Fátima de Três de Maio, RS, no

Jaime C. Patias
da Consolata, em rápida visita ao Brasil, celebrou seu ano de 1965, passando por Erechim, RS, para
Jubileu de Prata de ordenação sacerdotal. As comemora- completar o curso científico; sucessivamente
ções iniciaram-se no dia 22 de julho com uma missa em cursou Filosofia em São Paulo. Após o ano de
ação de graças na paróquia Nossa Senhora Consolata, Jardim noviciado, em 1978, iniciou o curso de Teologia
São Bento, em São Paulo e um almoço de confraternização. A na Universidade Urbaniana em Roma. No dia
celebração principal ocorreu no dia 29 de julho, na Comunidade 10 de julho de 1982 foi ordenado sacerdote na
São Brás, em Tucunduva, RS, sua terra natal, onde vive a maior Igreja Matriz de Três de Maio. Regressou a Roma
parte de seus familiares. A missa contou com a presença de dom para completar os estudos de especialização
Estanislau Amadeu Kreutz, bispo emérito de Santo Ângelo, RS, em Missiologia e em 1983 partiu para Moçam-
padres, religiosas e grande número de fiéis amigos. Durante a bique, África, onde trabalhou nas Missões de
homilia Padre Aquiléo destacou o dom do sacerdócio como graça Vilankulos, Mapinhane e Maimelane, ao mesmo
de Deus a serviço da Igreja missionária. Na ocasião foi realizado tempo. No ano de 1987 regressou ao Brasil para trabalhar na
um encontro com os amigos, antigos alunos do seminário da formação de novos missionários em Cascavel e Curitiba. Em
Consolata residentes naquela região do Rio Grande do Sul. 1995 voltou a Roma onde se especializou em Psicologia. No X
Vários familiares de missionários e missionárias da Consolata Capítulo Geral, realizado no Quênia em 1999, foi escolhido como
da região participaram dos festejos preparados com carinho pela Conselheiro Geral do Instituto dos Missionários da Consolata.
família Fiorentini e a comunidade. Durante o XI Capítulo Geral, realizado em São Paulo, em 2005,
Padre Aquiléo nasceu em São Brás, município de Tucun- foi eleito Superior Geral, tornando-se o oitavo sucessor do fun-
duva, aos 11 de fevereiro de 1952, décimo filho de Guilherme e dador, o Bem-aventurado José Allamano, primeiro brasileiro a
de Rosália Fiorentini (falecidos). Ingressou no seminário Nossa ocupar este cargo. 

- Setembro 2007 9
Os gritos
espiritualidade

de ontem e de hoje
A Bíblia nos relata que Deus
sempre está atento aos
clamores do povo.

de Patrick Gomes Silva

S
ete de Setembro é o dia da pátria,
o Dia da Independência é o orgulho
da nação. Porém, talvez nem todos
saibam que, de uns anos para cá,
nesta mesma data comemora-se
o “Grito dos Excluídos”. O que
significa isso? “O Grito é uma grande
manifestação popular para denunciar todas
as situações de exclusão e assinalar as
possíveis saídas e alternativas. Antes de
tudo, é uma dor secular e sufocada que
se levanta do chão. Dor que se transfor-
ma em protesto, cria asas e se lança no
ar”, conforme seus organizadores. Este
ano, o Grito terá como tema: “Isto não
Vale. Queremos participar nos destinos
da nação”. Todos nós estamos certos
que em nossa sociedade ainda existem
muitas situações que continuam gritando,
clamando, pedindo atenção para que todos
se sintam independentes e orgulhosos do
país em que vivemos.

Os clamores na Bíblia
Perante certas situações com que so-
mos confrontados nos vem espontâneo um
grito, um clamor, que pode ser de alegria
ou tristeza (pedido de auxílio). A Sagrada
Escritura não é indiferente a esta expe­
riência humana. A linguagem do grito, do
clamor não é uma linguagem estranha na
Bíblia. Pelo contrário, uma rápida leitura nos
mostra como é uma linguagem recorrente
e cheia de significado. Um dos textos mais
impressionantes é o do livro do Êxodo 2,
23: “Aconteceu, depois de muitos dias, Encontro diocesano das CEBs, novembro, 2005, São José dos Campos, SP.

10 Setembro 2007 -
que morrendo o rei do Egito, os filhos de
Israel suspiraram por causa da servidão,
Deus que escute o seu clamor (1Reis 8,
28). Mas é, sobretudo, nos Salmos que
Ser missionário é escutar
e clamaram; e o seu clamor subiu a Deus
por causa de sua servidão”. A opressão a
esta linguagem adquire um significado
todo especial. Sendo orações, algumas
os gritos dos aflitos e estar
que o povo de Israel fora sujeito durante
sua permanência no Egito tornara-se in-
bem pessoais, apresentam os gritos e
os clamores do povo. Como na oração
ao seu lado.
suportável, não dava mais para agüentar da manhã do Salmo 5: “Atende à voz do
aquela situação. Perante este drama, o meu clamor, Rei meu e Deus meu, pois a periência que não é possível suportar
povo de Israel grita e clama a Deus. ti orarei” (Sl 5, 2). São vários os Salmos mais e, portanto, se pede auxílio a Deus
Pedidos de auxílio ao Senhor estão que repetem este pedido para que Deus para que venha remediar essa situação.
presentes em muitos outros textos. Salo- escute o clamor do povo (Sl 17, 1; 18, 6; Confrontado com os gritos do seu povo, a
mão em sua oração reza: “Volve-te, pois, 34, 15, entre outros). Bíblia nos relata que este Deus não per-
para a oração de teu servo, e para a sua Até agora vimos como na Sagrada manece indiferente ao sofrimento humano,
súplica, ó Senhor meu Deus, para ouvi- Escritura encontramos a linguagem do pelo contrário, os gritos e os clamores
res o clamor e a oração que o teu servo grito/clamor presente em vários textos, do povo chegam até Ele e são ouvidos.
hoje faz diante de ti”. Salomão suplica a vimos como este grito vem de uma ex- Novamente o texto do Êxodo demonstra
ser precioso: “Tenho visto atentamente a
aflição do meu povo, que está no Egito,

Jaime C. Patias
e tenho ouvido o seu clamor por causa
dos seus exatores, porque conheci as
suas dores. E agora, eis que o clamor dos
filhos de Israel é vindo a mim, e também
tenho visto como os egípcios os oprimem”
(Ex 3, 7-8). Estamos perante um texto
impressionante. Deus escutou o grito, viu
a aflição. Deus não permanece indiferen-
te! O clamor chegou até Deus, e agora?
Agora é tempo de ação, Deus envia um
libertador ao seu povo para que a situação
seja mudada radicalmente. Também no
primeiro livro de Samuel encontramos a
mesma situação. Deus escuta o clamor
do seu povo oprimido: “... porque o seu
clamor chegou a mim” (1Sam 9, 16).

Deus lembra do seu povo


Na Bíblia encontramos também a pro-
messa de que Deus sempre escutará o
grito do seu povo: “... não se esquece do
clamor dos aflitos” (Sl 9, 12). O Salmo 145
é mais evidente: “Ele cumprirá o desejo dos
que o temem; ouvirá o seu clamor, e os
salvará” (Sl 145, 19). Estamos perante um
Deus que verdadeiramente não permanece
indiferente, mas um Deus que escuta e se
coloca em movimento para que a situação
possa ser mudada e assim cesse o grito do
aflito. Vivemos hoje confrontados com tantos
que gritam. Gritam por dignidade, direitos,
trabalho, justiça e oportunidades. Perante
tais gritos não podemos ficar indiferentes,
o texto de Provérbios nos adverte: “O que
tapa o seu ouvido ao clamor do pobre, ele
mesmo também clamará e não será ouvido”
(Prov 21, 13). Ser missionário é escutar os
gritos dos aflitos e estar ao seu lado na luta
por um mundo mais justo para todos. No
dia Sete de Setembro, à luz da Palavra
de Deus, participemos nos destinos da
nossa nação com o Grito dos Excluídos e
ouvidos atentos aos clamores de milhões
de brasileiros e brasileiras. 

Patrick Gomes Silva é missionário e membro da equipe de forma-


ção do Centro de Animação Missionária José Allamano, SP.

- Setembro 2007 11
Pronto
testemunho

Gaúcho, 58 anos, descendente


de italianos, frei Ivo Lazzarotto
hoje é pároco em Rio do Oeste,
em Santa Catarina, na Paróquia

para tudo
Nossa Senhora Consolata.
Incansável, com sua moto leva
alegria, consolo e ajuda em
todas as direções.

de Ivo Lazzarotto seminário. Lembro-me que fui chorando, me chamou a atenção sua simplicidade

V
mas, contente, porque também meu outro e maneira de se relacionar com o mundo
enho de uma família nume- irmão – Mário – decidiu ir comigo. e o Criador. Gostava de ficar ouvindo a
rosa e de tradição católica. A leitura que papai fazia nas horas do seu
oração em conjunto, a missa Decisão aos nove anos descanso. Aquele aprendizado me man-
dominical e o exemplo dos pais A vida que levavam os freis no semi- tinha ligado e me empolgava. Até que um
e da vizinhança envolveram- nário, o seu exemplo, seu jeito de vestir, dia, com nove anos, disse convencido: eu
me desde a infância, numa a amizade e a atenção deles para com a serei franciscano, e ponto final.
certa espiritualidade que foi alimentando nossa família, foram elementos que tive-
a minha tênue vocação à vida religiosa ram peso na minha decisão. Na verdade, Não fui chamado por ser
e sacerdotal. A isto, soma-se também o desde bem pequeno, eu tinha a idéia de bonzinho
fato de um dos meus irmãos – Alfredo um dia ser padre. Porém, eu queria ser Decisão tomada, lá fui eu para o
– ter entrado no seminário. Sua alegria e padre passionista, porque sabia um pouco seminário Santo Antônio, em Almirante
entusiasmo por estar seguindo o chamado sobre a vida de São Paulo da Cruz, o Tamandaré, no Paraná. Mas, não me
do Mestre Jesus foram calando no meu fundador. Meu pai, assíduo leitor da vida dei bem. Tudo era muito difícil para mim:
coração e aos poucos, fiquei com vontade dos santos, ia semeando em nós ideais de a saudade da família, as dificuldades no
de responder, eu também, a esse chamado. vida. Até que um dia, caiu-lhe nas mãos a estudo, as intrigas com os colegas, as
Eu era muito criança, mas queria ir para o biografia de São Francisco de Assis. Logo desobediências ao regime causaram a
minha expulsão. Isto aconteceu em 1962.
E agora? Terminei o antigo curso primário
Fotos: Arquivo Pessoal

e larguei o estudo. Comecei a pensar que


o meu futuro, preocupação de todo ado-
lescente, seria casar cedo e ter família. O
tempo passava. Um domingo, eu fui com
a namorada numa festa de inauguração,
onde haveria tarde dançante. A festa rolava
com muita música e descontração. Convidei
a garota para dançar. Ela recusou. Pensei
de oferecer-lhe um refrigerante e saí para
buscá-lo. Ao voltar, vi a moça dançando
com outro. A decepção foi muito dolorida.
Imaginem que direção tomou a garrafa que
eu trazia na mão! Errei o alvo. Vi o rapaz
vindo em minha direção, desfechando um
tremendo soco no meu nariz. Enquanto
tentava estancar o sangue e me recuperar
daquela humilhação, ouvi o toque do sino
da capela, anunciando a hora da missa.
Decidi ir para a igreja chorar as mágoas.
Frei Francisco presidiu a celebração.
Eu, no último banco, escondido atrás de
todos, remoía a minha raiva. Quando o frei
Frei Ivo (centro), com sua mãe e irmão, frei Alberto, em sua primeira missa, 16 de julho de 1978. começou a falar, parecia que as todas as

12 Setembro 2007 -
motivação e animação.
A vida e a ação de Je-
sus me impulsionam a
avançar sempre mais
- e nesta nova situação
- pretendo continuar me
dedicando intensamen-
te ao Projeto de Deus,
servindo esse povo, e
em obediência à ordem
do meu provincial que
me diz: “Vá devagar,
frei Ivo”.

A grande
motivação:
Jesus Cristo
O que motiva a
minha vida e o meu
trabalho no zelo apos-
tólico e missionário é o
testemunho do próprio
Jesus, o missionário
do Pai, apresentado
exaustivamente nos
Evangelhos. Jesus
não parava. De manhã
estava numa cidade,
a tarde encontrava-se
numa outra e à noite
Frei Ivo comemorando 20 anos de sacerdócio, 19 de julho de 1998. rezava. Grande homem
esse Jesus! Quase não tinha tempo para
palavras dele vinham na minha direção.
Tive vontade de escapar da igreja, mas
"O contra-testemunho ético, descansar, dedicando-o todo à missão.
Assim impulsiono o meu trabalho, com
agüentei firme até o fim. moral e político torna-se o uma diferença: eu não passo a noite toda
em oração, como ele fazia...
Aquela bendita homilia responsável pela desordem Graças a Deus, a colaboração das
No seu sermão, frei Francisco acentuou lideranças da comunidade ameniza o meu
a grande necessidade de pessoas para social que nos circunda". trabalho. Saber descentralizar e delegar
o anúncio do Evangelho; a necessidade responsabilidades na pastoral é a arte mais
de um maior número de sacerdotes. Que o curso de Teologia, pude cursar Ciên- importante. Ser pároco hoje é estar preso
drama! Voltaram à minha mente todos cias Contábeis. Aos 9 de julho de 1978 a inúmeras exigências, especialmente
aqueles pensamentos sublimes que eu tornei-me sacerdote, iniciando assim um no campo administrativo. Ou a gente se
tinha no coração ao entrar no seminário, novo casamento que perdura até hoje, na organiza, ou tudo vai enfraquecendo.
e me senti um covarde. Voltei para casa fidelidade, na dedicação, com entusiasmo No mundo globalizado em que vivemos,
e procurei minha mãe. Ela estava orde- e alegria. Se hoje eu tivesse que reco- tratar bem as pessoas é fundamental; do
nhando as vacas, no currral. Fui até ela meçar, faria tudo de novo, dispensando, contrário, seremos descartados como se
e disse: "Mãe, eu quero ser padre". Ela porém, o “bofetão” daquela fatídica tarde descarta qualquer mercadoria. O mundo
me olhou seriamente, passou a mão no de domingo. está imbuído desta cultura: descarta-se
meu rosto e disse: “Vá lá, vá lá, palhaço!” o que não dá lucro, o que não agrada, o
Aquele sonoro palhaço me arrasou. Era Vá devagar! que não dá prazer, mesmo em se tratando
mais um fora! Naquele momento, esqueci Foram várias experiências como sa- de religião: Igreja, espiritualidade, sacra-
todas aquelas palavras de incentivo que cerdote: pároco, membro do Conselho mentos... Neste contexto, o contra-teste-
ouvi na igreja e o propósito feito. Tantas de Presbíteros, membro da Equipe do munho ético, moral e político torna-se o
coisas me haviam acontecido, todas de- Conselho Econômico Diocesano, diretor e responsável pela desordem social que nos
pondo contra mim. Mas, o fato está, que presidente da Santa Casa de Misericórdia, circunda e que gera o medo e a violência.
um mês depois, eu estava novamente diretor presidente de uma rádio e também Tudo isso vai prevalecendo contra a Igreja
no seminário. membro da Equipe Missionária dos Freis e contra todos os que querem viver e lutar
Capuchinhos do Paraná e Santa Catarina. pela justiça e serem construtores da paz.
Recomeçar Porém, nada melhor do que viver neste Por isso, sigo em frente, com um renovado
Retomei os estudos. Estava um tanto cantinho do mundo, chamado Rio do Oes- ardor missionário e cheio de confiança,
atrasado. Cursei o antigo ginásio com 17 te. Hoje, com 58 anos, após uma cirurgia pronto para o que der e vier. 
anos. Foi bastante difícil me readaptar aos cardíaca, vislumbro um novo renascer.
estudos. Mas, agora eu estava decidido a Agora, será preciso um replanejamento Ivo Lazzarotto é frade Capuchinho, pároco da Paróquia Nossa
enfrentar tudo. Antes mesmo de terminar das atividades; porém, eu sinto a mesma Senhora Consolata em Rio do Oeste, SC.

- Setembro 2007 13
Aplausos
fé e política

Um dos maiores valores de uma


democracia é a liberdade de expressão.
à democracia
de Humberto Dantas Certo ou errado?
Para agravar o cenário, o acidente da TAM em Congonhas

U
levou às ruas milhares de pessoas insatisfeitas com o aparente
ma sociedade democrática permite que seus indiví- descaso do governo federal em relação à crise da aviação que
duos, dentro de um determinado conjunto de regras, dura quase um ano. Diante das manifestações, alguns defen-
se posicionem frente a diferentes temas. Manifestos sores do governo bradaram: “são apenas setores da classe
são excelentes termômetros para governos, empresas média, insatisfeitos com o mais popular de todos os presidentes
e sociedades. Testemunhamos, ou participamos em desse país”. Que seja. Mas, em nosso cenário democrático, a
1984, do mais amplo movimento
popular brasileiro: as Diretas Já. A sociedade

Ricardo Stuckert_PR
saiu às ruas e foi derrotada em seu desejo de
retomar a liberdade de escolher o presidente
da República. Ouvia-se nas ruas o grito: um,
dois, três, quatro, cinco mil, queremos eleger o
presidente do Brasil. O direito viria apenas em
1989, mas registramos um basta aos 20 anos
de autoritarismo.

Manifestações
Pois bem, nas últimas décadas a política
brasileira tem motivado manifestações. É certo
que sem o ritmo e a eficácia dos tormentos de
nossos vizinhos argentinos, mas reconheçamos
que com relevância. O evento mais marcante
ocorreu em 1992, quando milhões de estudantes
foram às ruas pedir o impeachment de Fernando
Collor de Mello, que caiu por razões que trans-
cenderam, em muito, ao desejo popular.
Ao longo do período em que fomos go-
vernados por Fernando Henrique Cardoso
assistimos manifestações duras contra uma
série de decisões polêmicas – da privatização
de empresas à ajuda aos bancos falidos. Em O presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cerimônia de abertura dos Jogos Pan-Americanos Rio-2007.
São Paulo, assim como em várias cidades do
país, muros amanheciam pintados com o famoso: “FORA FHC”. classe média também pode ter voz. Assim como tinha direito de
Manifestantes de esquerda assumiam publicamente a autoria da se manifestar o sujeito que se sentia afetado pelas decisões de
“arte”. Fernando Henrique terminou seu governo e não conseguiu Fernando Henrique Cardoso.
eleger seu sucessor. José Serra foi ao segundo turno contra Luiz Não existe certo ou errado em um ambiente democrático
Inácio Lula da Silva e terminou derrotado. onde os sujeitos desejam manifestar seus descontentamentos
O mesmo Luiz Inácio que derrotou o PSDB de FHC seria reeleito dentro de certos limites. O atual presidente da República, homem
presidente. E na abertura dos Jogos Pan-Americanos, em julho, que comandou manifestos fundamentais para a retomada da
em pleno estádio do Maracanã, recebeu vaias desconcertantes democracia no país, não pode demonstrar insatisfação e descon-
em cada uma das seis vezes que seu nome foi citado. Parte da trole. Manifestações, como dito no início, são termômetros dos
sociedade se transtornou, acreditando que tal atitude representou sentimentos de parcelas da sociedade. E se grupos vaiam Luiz
falta de respeito. Outros afirmaram que as vaias simbolizaram o Inácio, certamente outros tantos guardam motivos de sobra para
sentimento de parcelas da sociedade pouco contentes com os aplaudi-lo. Foi assim com FHC, é assim com Lula e será assim
rumos da política. Quem está correto? Os dois posicionamentos. com seu sucessor, independentemente de quem seja. E viva a
Setores do Maracanã vaiaram o presidente porque algo lhes liberdade de expressão, que nos faz acreditar em lampejos de
incomoda. E, principalmente, porque nosso país dá mostras de nossa frágil democracia. Participe aplaudindo ou vaiando! 
que as pessoas acreditam no espírito democrático e na liberda-
de de sairmos às ruas para manifestarmos alegrias e tristezas, Humberto Dantas é cientista político, professor do Centro Universitário São Camilo e coordenador
afeições e desgastes. de Cursos de Formação Política na Região Episcopal Lapa e na Diocese de Osasco, SP.

14 Setembro 2007 -
FORMAÇÃO mISSIONÁRIA

A Conferência de Aparecida

Discípulos e discípulas
para a Missão
Quais as conseqüências das decisões tomadas na Conferência de
Aparecida para a Igreja na América Latina e Caribe?
de Ramón Cazallas Serrano

C
omeçamos a refletir nestas
páginas sobre os temas do-
minantes na V Conferência
do Episcopado Latino-Ame-
ricano e Caribenho mais co-
nhecida como “Aparecida”.
Assim a chamaremos daqui para frente.
Queremos ajudar os cristãos a entrar
no espírito desta grande Assembléia e
não limitar-nos ao que ficou impresso no
Documento Final. Algumas vezes men-
cionaremos o texto como foi aprovado,
outras o iluminaremos com reflexão
própria ou citações de pessoas que
vivem em diferentes contextos.

O discipulado na história
Na Antiguidade não existiam co-
légios ou universidades, nem profes-
sores e alunos. Para o entendimento
da Filosofia e da Religião, existiam os
mestres e seus discípulos. Pensemos
nas escolas filosóficas do mundo he-
lenista: havia aquelas que dependiam
dos mestres, assim os socráticos e
platônicos dependiam de Sócrates e
Platão. Eles não eram professores,
mas, mestres. Não era só o saber pelo dos que se reuniam ao redor de outras
Jaime C. Patias

saber, os mestres transmitiam um jeito pessoas que procuravam a sabedoria


de viver e agir que tinham um grande como iluminação de toda a sua existên-
influxo em seus discípulos, que nunca cia. Os meios pedagógicos não eram
eram chamados de alunos. Imitavam os livros, mas, sim a atenção mental e
seu mestre para chegar à gnose, ao as posturas ou atitudes corporais para
conhecimento, que certamente exigia chegar à plena iluminação e ao domínio
comportamentos de vida idênticos aos total de si mesmo. Imitavam o mestre
de quem ensinava. em todas as formas de vida.
Assim, nas milenárias religiões do Mais próximo do cristianismo encon-
Oriente existiam as escolas de espiri­ tramos o judaísmo com suas diversas
Participantes da V Conferência em Aparecida, SP. tualidade dirigidas por homens ilumina- escolas rabínicas, segundo o enfoque

- Setembro 2007 15
ma a segui-lo, ou seja, convoca pessoas
Fotos: Jaime C. Patias

além dos apóstolos, e podemos pensar


que a convocação se tornava um re-
quisito para que alguém fosse citado
como um dos seus discípulos. Ele pedia
uma relação pessoal mais completa do
que aquela dos rabinos.

Jesus e os discípulos
Os discípulos deviam estar dis-
postos a abandonar pai e mãe, filho e
filha, a tomar a sua cruz e a dar a vida
no seguimento de Jesus (Mt 10, 37ss;
Lc 14, 26ss). Como o seu Mestre, os
discípulos deveriam abandonar suas
casas, ficando sem ter onde repousar a
cabeça. Não deviam permanecer nem
mesmo para cuidar de um velho pai ou
para resolver assuntos domésticos (Mt
8, 19ss; Lc 9, 57ss). Além destas dife-
renças, existem outras, se comparadas
com outros movimentos religiosos:
Dom Erwin Kräutler, bispo da Prelazia de Xingu, PA. não podiam ter esperança de obter
que davam à Lei. Rabi era o mestre, e Jesus encontrou também os simpa- promoção, pois, deviam ser discípulos
os que seguiam sua interpretação eram tizantes. Além dos pobres e, muitas durante toda a vida. Os discípulos de
chamados discípulos. Os rabinos ou vezes entre eles, Jesus tinha amigos, Jesus não se limitavam a transmitir o
doutores da Lei reuniam em torno de si homens e mulheres, pertencentes ao que o Mestre havia dito, palavra por
muitos discípulos, aos quais transmitiam que podemos chamar de classe média palavra, mas, a ser “testemunhas” da
a sua doutrina. Esses discípulos, por da época, que continuavam vivendo vida e dos fatos que Jesus realizou,
seu turno, podiam tornar-se rabinos e nas casas e campos por onde ele anunciar o Reino e fazer com que
continuar a tradição que tinham rece- passava anunciando o Reino e curando esta realidade se tornasse possível.
bido. Os profetas formavam também os doentes. Ao mes-
escolas sem se darem conta, pois mo tempo que tinha
havia pessoas que viviam seus ensina- “amigos das casas”
mentos e interpretavam as escrituras. Jesus tinha discípu-
Lembremos os fariseus, os essênios los ou seguidores,
e outros movimentos contemporâneos que deixavam casas
a Jesus. O último profeta do Antigo e posses para cami-
Testamento foi João Batista. Homem nhar com Ele, anun-
que se retirara ao deserto, também ele ciando e pregando
se torna mestre de muitos discípulos, a chegada do Reino
alguns deles serão, depois, discípulos de Deus. Eram se-
de Jesus. A pregação e o estilo de vida guidores em sentido
de João vão entusiasmar homens e estrito, pessoas que
mulheres do seu tempo. assumiam um tipo de
itinerância messiâni-
Discipulado no Evangelho ca, caminhando pelos
O termo discípulo se repete cerca povoados e aldeias da
de 250 vezes no Novo Testamento. Em Galiléia, proclamando
grande parte, refere-se aos discípulos e acelerando a che-
de Jesus. Ele acolheu no seu “movi- gada do Reino. Jesus
mento” e vinculou no seu Reino todos caminhava assim, ro-
os que quiseram escutá-lo e segui-lo, deado de colaborado-
sem se importar com normas especiais res, homens e mulhe-
de pureza e de conhecimento, como res, que assumiam e
faziam outros grupos do seu tempo, desenvolviam o seu
como os essênios e fariseus. Jesus movimento, numa
logo encontrou pobres que foram os perspectiva de segui-
primeiros destinatários da sua pregação. mento e de entrega
Para eles viveu e por eles quis iniciar total ao Reino. Com
o seu “movimento”. No seu caminhar freqüência Jesus cha- Celebração na Tenda da Vida Consagrada durante a V Conferência.

16 Setembro 2007 -
FORMAÇÃO mISSIONÁRIA

a Missão. Todas estas expressões são


equivalentes a dizer que o cristão deve
ser discípulo antes de empreender a
Missão. Deve estar próximo de Jesus
para conhecer seu projeto, fazê-lo
próprio para depois transmiti-lo. “Os
chamou para estar com Ele e depois
enviá-los a pregar”.
A Conferência de Aparecida, nas
suas linhas gerais para a Igreja que
está na América Latina e no Caribe,
quer que todos os cristãos sejam dis-
cípulos missionários de Jesus Cristo.
O batismo é a fonte desta tarefa e a
finalidade é para que todos tenham vida
em Jesus Cristo. “A grande tarefa de
custodiar e alimentar a fé do povo de
Deus, e lembrar a todos os fiéis deste
Santuário de Aparecida, SP.
continente que em virtude do seu ba-
Os discípulos transmitindo a Paixão, viado parece, à primeira vista, que são tismo, são chamados a ser discípulos
Morte e Ressurreição de Jesus, são coisas excludentes, no entanto estão e missionários de Jesus Cristo”.
mais testemunhas do que veículos das claramente interligadas. Eles devem
tradições e leis verbais. Este Mestre vai aprender a estar de tal modo com Ele Discípulos na América
dar a vida pelos seus discípulos e vai que estão com Ele mesmo quando vão O encontro pessoal e comunitário
exigir que eles também dêem a vida com Jesus Cristo suscita discípulos e
pela causa do Reino. Em nenhuma A Missão no interior da Igreja missionários. Não depende tanto de
religião vai existir esta comunhão entre grandes programas e estruturas, mas,
Mestre e discípulos, de dar a vida reci-
é necessária. Mas existe uma de homens e mulheres que se tornam
procamente e a contínua presença até multidão de pessoas e culturas protagonistas de vida nova para uma
o fim dos tempos. “Os que se sentiram América Latina que querem reconhe-
atraídos pela sabedoria das suas pala- que nunca escutaram o primeiro cer com a luz e a força do Espírito. O
vras, pela bondade do seu tratamento anúncio de Jesus. encontro com Jesus na sua intensidade
e pelo poder dos seus milagres, pelo e radicalidade é o mesmo em todas
assombro inusitado que despertava para os confins do mundo. Estar com as pessoas. Mas as circunstâncias
sua pessoa chegaram a ser discípulos Ele leva em si como tal a dinâmica religiosas, sociais e psicológicas são
de Jesus” (Aparecida, n.21). da missão, porque todo ser de Jesus diferentes nas diversas culturas. A
Podemos aplicar também aos dis- é já a missão”. (Bento XVI, Jesus de pessoa está imersa num mundo que
cípulos aquilo que Marcos fala dos Nazaré. Editora Planeta. São Paulo pode condicionar o seu encontro e dar
Apóstolos: “Ele fez Doze, que chamou 2007, páginas 155-156). certas características próprias dessas
apóstolos, para estarem com Ele e para Este binômio Discípulo-Missionário culturas. Não é igual o encontro do
os enviar...” (3,14). Bento XVI explica está muito presente na espiritualidade rico e do pobre, do índio e do escra-
este texto: “eles devem estar com Ele cristã, sobretudo nos fundadores de vo, do homem e da mulher. Existem
para O conhecerem; para alcançarem Congregações Missionárias. Encontra- mediações para esse encontro com
aquele conhecimento a que a “gente” mos expressões como estas: “Primeiro Cristo dependendo dos ambientes, das
não podia captar, que apenas de fora Deus, depois os homens”, “Enche o teu culturas e de outros elementos. Certas
O via e O tinha por um profeta, por coração e depois reparte”; “Contempla circunstâncias em vez de produzir um
um grande da história das religiões, o sol para depois poder iluminar”. O encontro, podem ter um efeito contrário,
mas que não podia entender a sua fundador dos missionários da Conso- ou seja, um desencontro.
unicidade. Os Doze devem estar com lata, o Bem-aventurado José Allamano Aparecida nos indica pistas e meios
Ele, para que conheçam Jesus na sua repetia com freqüência aos discípulos para favorecer um encontro “típico” do
unidade com o Pai e assim possam ser e discípulas: “Antes santos, depois povo latino-americano com a pessoa
testemunhas do seu mistério... Eles missionários”. No fundo é a mesma de Jesus Cristo; antes de mais nada,
devem chegar do mais exterior até a expressão utilizada por João Paulo II os rostos de todas aquelas pessoas
íntima comunhão com Jesus, poderia na Encíclica “A Missão do Redentor”: que nos lembram o rosto sofredor de
se dizer. Mas, ao mesmo tempo eles “O verdadeiro missionário é o santo”. Jesus e através deles podemos ter
estão lá para serem enviados por Je- E Bento XVI fala no seu livro “que todo um encontro com o rosto de Cristo
sus, precisamente “apóstolos”, para ser de Jesus é já Missão”. Poderíamos que nos lançará à Missão de consolar,
levar a Sua mensagem ao mundo: em dizer que na tradição bíblica e espiritual promover, libertar.
primeiro lugar às ovelhas perdidas da primeiro temos que cuidar o “ser” e A Conferência nos diz: “Isto nos
casa de Israel, e depois “até os confins depois o “fazer”. Ser discípulos para deveria levar a contemplar os rostos
da terra”. Estar com Jesus e ser en- ser enviados. Ser missionários e fazer daqueles que sofrem. Entre eles estão

- Setembro 2007 17
FORMAÇÃO mISSIONÁRIA

sentirem excluídos e irmãs vai nascer um envio para que o


Jaime C. Patias

do sistema produ- cristão não fique de braços cruzados. “A


tivo, se vêem mui- resposta ao seu chamado exige entrar
tas vezes rejeitados na dinâmica do Bom Samaritano (cf.
pelas suas famílias Lc 10, 29-37), que nos dá o imperativo
como pessoas in- de fazer-nos próximos, especialmente
cômodas e inúteis. com quem sofre, e gera uma sociedade
Dói-nos, finalmente, sem excluídos seguindo a prática de
a si­tuação inumana Jesus que come com os publicanos e
em que vive a grande pecadores (cf. Lc 5, 29-32) que acolhe
maioria dos presos, os pequenos e as crianças (cf. Mc 10,
que também precisa 13-16), que cura os leprosos (cf. Mc 1,
da nossa presença 40-45) que perdoa e liberta a mulher
solidária e da nos- pecadora (cf. Lc 7, 36-49; Jo 8, 1-11),
sa ajuda fraterna. que fala com a Samaritana (cf. Jo 4,
Uma globalização 1-26)” (Aparecida, n.150).
sem solidariedade O discípulo de Jesus deve assumir
afeta negativamente a centralidade do Mandamento do Amor
os setores mais po- se quer configurar-se com seu Senhor.
bres. Já não se trata É um mandamento Dele e novo. E não
simplesmente do fe- existem outras leis e normas que possam
nômeno da explora- turvar este Mandamento, porque se ele
ção e opressão, mas for turvado pelas leis humanas, a Mis-
sim de algo novo: são que dele nascerá já não será a de
a exclusão social. Jesus, mas, a Missão de uma instituição.
Com ela fica afeta- Nem todo missionário é discípulo e nem
da em sua mesma todo discípulo é missionário. A Amé-
raiz a pertença à rica Latina pelas suas características
sociedade na qual próprias está pedindo um discipulado
se vive, pois já não com certas especificidades do homem
se está nela abaixo, e da mulher latino-americanos:
Padre Ramón Cazallas e dom Itamar Vian, arcebispo de Feira de Santana, BA. na periferia ou sem  Discípulas e discípulos que nas-
as comunidades indígenas e afrodes- poder, mas se está completamente fora. ceram da Missão;
cendentes, que em muitas ocasiões não Os excluídos não são somente “explo-  Discípulas e discípulos pobres que
são tratadas com dignidade e igualdade rados” mas “restantes” e “descartáveis” contemplam Jesus pobre nos rostos
de condições; muitas mulheres que são (Aparecida, n.65). de tantos pobres;
excluídas, em razão de seu sexo, raça Perante esta situação que vive o  Discípulos e discípulas chamados
ou situação socioeconômica; jovens nosso continente não podemos ficar para anunciar a Boa Notícia aos
que recebem uma educação de baixa indiferentes, somos os discípulos e pobres;
qualidade e não têm oportunidades seguidores daquele que é o “Caminho  Discípulos e discípulas cheios de
de progredir nos seus estudos nem de a Verdade e a Vida”. Em todas as situa- esperança, que vivem o Evangelho
entrar no mercado do trabalho para se ções enumeradas anteriormente temos com a alegria dos pobres;
desenvolver e constituir uma família; que nos perguntar: como podemos ser  Discípulos e discípulas para dar
muitos pobres, desempregados, migran- discípulos Daquele que veio dar a vida vida e abrir tantos horizontes ao
tes, sem-teto, camponeses sem-terra, por suas ovelhas? Como não viver na povo pobre, sem condenações,
que buscam sobreviver na economia compaixão, na solidariedade e na liber- sem anátemas;
informal; meninos e meninas vítimas da  Discípulos e discípulas que gritam
prostituição infantil unida muitas vezes O Evangelho exige um coração com suas vidas que Jesus é o
ao turismo sexual; também as crianças Senhor das suas vidas e das suas
vítimas do aborto. Milhões de pessoas universal, aberto a todas as histórias;
e famílias vivem na miséria e até pas- culturas e disponível  Discípulos e discípulas chamados
sam fome. Preocupam-nos também os à Missão universal Ad Gentes,
que dependem da droga, as pessoas para testemunhar Jesus Cristo nas testemunhando o seu amor fora
com deficiência, os que vivem com o
vírus do HIV e que sofrem a solidão
diversas realidades. das suas próprias fronteiras.
O Discipulado da América Latina
e se vêem excluídos da convivência tação de todas essas pessoas que são para o mundo será o tema do próximo
social e familiar. Não esqueçamos os a imagem viva de Cristo? O que faria artigo. 
seqüestrados e os que são vítimas da o Mestre nestas situações? De todas
violência, do terrorismo, dos conflitos estas perguntas naturalmente nasce Ramón Cazallas Serrano é missionário, mestre em Teologia
armados e da insegurança cidadã. a Missão porque da contemplação do Dogmática e diretor do Centro Missionário “José Allamano”
Também os anciãos, que além de se rosto de Cristo nos rostos dos irmãos em São Paulo, SP.

18 Setembro 2007 -
Campo Missionário

Jovem de Patrick Gomes Silva


Experiência nas férias
proporciona vivência de
solidariedade e fé a jovens
paulistanos e cariocas.

Arquivo CAM Allamano


O
Centro Missionário José Allamano (CAM), situado
no bairro da Pedra Branca, Zona Norte da cidade
de São Paulo promoveu pela primeira vez a expe­
riência do Campo Missionário Jovem, durante o mês
de julho. A finalidade do evento foi proporcionar a
alguns jovens a possibilidade de passar as férias
de maneira diferente da habitual. A proposta de se organizar o
Campo nasceu tímida e receosa, com muitas dificuldades. No
entanto, marcou-se a data: de 18 a 22 de julho. Convites foram
enviados a grupos de jovens de algumas paróquias para embar-
carem nesta aventura. O resultado? Surpreendente! 28 jovens se
inscreveram para a primeira edição, provenientes de São Paulo
e do Rio de Janeiro. De São Paulo participaram as paróquias
Nossa Senhora de Fátima (Imirim), Santa Paulina (Heliópolis) Participantes do Campo Missionário Jovem.
e comunidade São Marcos (Pedra Branca). Participou também
um jovem de São Bernardo do Campo, SP. Do Rio, jovens da caminhada ainda não tinha chegado ao fim: o destino final era
paróquia Nossa Senhora Consolata. o lago das Carpas.
À tarde, refletiram sobre a vida de três pessoas: Chico Mendes,
Atividades estruturadas irmã Dorothy Stang e dom Luiz Flávio Cappio. Divididos em três
A maioria afirmou que era a primeira vez que saía de casa grupos, cada um deles estudou sobre a vida e o trabalho de um
para participar de uma atividade do gênero. Notava-se alguma para apresentar aos outros dois. Em pouco tempo e com muita
incerteza sobre o que os esperava nos dias do encontro. O Cam- criatividade, os três grupos prepararam a sua apresentação. Essa
po Missionário foi estruturado com base em oração, formação, atividade proporcionou a todos um conhecimento profundo da
pastoral e lazer. Os dois primeiros dias foram marcados pelas importância das três personagens na defesa da natureza.
atividades pastorais. Os jovens foram organizados em 3 grupos Depois da caminhada de regresso, ainda encontraram forças
para trabalhar nas proximidades do Centro, no Jardim Peri: um para rezar o terço, andando ao redor do Centro Missionário,
foi animar as crianças do Centro Comunitário de Nossa Senho- causando espanto aos vizinhos que ficavam admirados ao ver
ra Aparecida, outro foi visitar os idosos acolhidos pelas irmãs tantos jovens rezando. Foram dias que deixaram marcas pro-
Missionárias da Caridade, de Madre Teresa e o terceiro grupo fundas em todos os participantes.
foi visitar alguns doentes da Paróquia Nossa Senhora da Penha O domingo, 22, foi reservado para a preparação e celebração
e da Comunidade São Marcos. Foram momentos de solidarie- da Eucaristia. Os três grupos das pastorais dos dias anteriores
dade. Ao regressar das visitas havia a partilha da experiência, ficaram encarregados de preparar diferentes partes da missa.
quando todos se enriqueciam com a possibilidade de sair de Também aqui não faltou criatividade e participação. A celebração
si mesmo e poder se doar mais aos outros. Os momentos de foi muito alegre e bem vivida. Na avaliação do Campo Missionário,
oração foram profundos e bem participados, mostrando que os todos foram unânimes em considerá-lo como uma experiência
jovens também sabem rezar. Não faltou a emoção. Sábado, 21 diferente e inesquecível. Ficou o desejo de repetir a atividade
de julho, foi reservado ao passeio ecológico. O destino: Núcleo e proporcionar a outros jovens a mesma sensação. Depois do
da Pedra Grande do Parque Estadual da Cantareira na Zona almoço festivo, foi o momento difícil da despedida. Muitos não
Norte de São Paulo. Logo depois da oração da manhã, todos conseguiram conter as lágrimas e trocaram os endereços de
prepararam o almoço, dividiram as sacolas e saíram a pé rumo e-mails, MSN e Orkut. Com certeza, todos os que participaram
ao Parque. Esperava-os uma caminhada de cerca de cinco serão mais discípulos e missionários em suas paróquias. 
quilômetros. Apesar da fadiga na subida, ficaram deslumbrados
com o espetáculo que se pode observar da Pedra Grande. Apro- Patrick Gomes Silva é missionário, membro da equipe de formação do Centro de Animação
veitaram para tirar fotos, respirar ar fresco e descansar, pois a Missionária José Allamano, SP.

- Setembro 2007 19
Isto não Vale!
Destaque do mês

Queremos participação
no destino da Nação
de Rosilene Wansetto o debate sobre a efetiva participação nos ocorrido há dez anos, de forma fraudulenta.
destinos da Nação. O Grito tem contribuído Acreditamos que os plebiscitos populares

N
nessa luta desde o seu início, juntamente – 2000 sobre a Dívida Externa e 2002
os dias atuais percebe-se com com outros inúmeros movimentos sociais e sobre a ALCA e Alcântara - têm sido um
mais urgência a necessidade populares, organizações e campanhas que exercício, uma pedagogia, uma alterna-
de aprimorar a democracia assumem essa bandeira da participação tiva de diálogo com o povo sobre temas
representativa e favorecer a e da democracia direta. complexos, mas de extrema importância
democracia participativa, atra- O Grito dos Excluídos está contribuin- para a sociedade. O povo brasileiro tem
vés dos diversos mecanismos do, dando força, articulando em conjunto o direito de participar e decidir os rumos
que a Constituição Brasileira nos fornece, com outras tantas forças sociais mais um da Nação e de suas riquezas.
dentre eles, a participação por meio de
referendos, plebiscitos e conselhos. A O Grito dos Excluídos e o Por que o Plebiscito?
participação popular é uma conquista e A pedagogia do diálogo terá espaço
um patrimônio precioso da sociedade. Plebiscito Popular sobre a neste ano com o Plebiscito Popular sobre
Este é um forte debate alimentado pelo
Grito dos Excluídos. O Grito encontra-se Companhia Vale do Rio Doce a CVRD, com o objetivo de discutir a
privatização da Companhia Vale do Rio
em sua 13ª edição, este ano com o lema:
“Isto não Vale! Queremos participação no
marcam a Semana da Pátria. Doce, leiloada para o capital privado em
1997, pelo então presidente Fernando
destino da Nação”, como parte de toda a Plebiscito Popular, neste ano de 2007 Henrique Cardoso. Por que este Plebis-
sua construção, isto é, privilegiando o pro- sobre a anulação do leilão de privatização cito? Porque se faz necessário discutir
tagonismo dos excluídos, e proporcionando da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), com o povo o leilão imoral praticado pelo

Daniel Mkado

Grito dos Excluidos 2006, caminhada rumo ao Museu do Ipiranga, SP.

20 Setembro 2007 -
governo. Na época, o patrimônio pessoas podem buscar o comitê
da Vale era estimado em 92 estadual, ou podem ainda orga-
bilhões de reais, sendo que foi nizar comitês locais, realizando
entregue no leilão pelo valor de debates nos mais deferentes locais
R$ 3,3 bilhões. O Brasil é uma das – escolas, sindicatos, paróquias,
maiores potências econômicas comunidades, pastorais, igrejas,
e a Vale do Rio Doce é a maior associações, organizando urnas
produtora de minério de ferro do e coletando votos. O Plebiscito
mundo, com jazidas suficientes ocorrerá na Semana da Pátria,
para 400 anos. Em 1995, a Vale num casamento com o Grito dos Ex­
possuía 13 bilhões de toneladas cluídos que vem de vários anos.
de minério de ferro em reservas. O Grito dos Excluídos impul-
Na avaliação realizada na época siona o processo de formação,
para a venda foram declaradas articulação e realização do Ple-
somente três bilhões de tone- biscito entre os dias 1º e 7 de
ladas. Compõem o complexo setembro. O Sete de Setembro
da CVRD duas ferrovias, nove tem um forte simbolismo, quando
portos, empresas de alumínio o povo sai às ruas para gritar por
e celulose espalhadas em 140 mais participação, por respeito aos
cidades, dez estados e 11 países. direitos dos trabalhadores. Nas
Antes de sua privatização, 15 mais de 1500 cidades que reali-
mil funcionários trabalhavam na zaram o Grito no ano de 2006, e
Vale e o faturamento era de seis que sairão às ruas novamente este
bilhões de reais por ano. O Estado ano, o povo grita por dignidade,
brasileiro tinha plenas condições ética, soberania, prioridade para
de gerir essa grande empresa. políticas sociais e o fim do superávit
Foi sob o seu comando que ela primário; por uma auditoria das
tornou-se a maior exportadora de dívidas, por um projeto popular
ferro do mundo, com a maior frota de Brasil que de fato priorize o
granelera. Já era na época uma povo e não mais o capital. Um
empresa extremamente lucrativa, ponto forte nesse processo de
e o lucro permanecia para o construção do Grito tem sido os
Estado. Hoje o lucro vai para o pré-gritos, que acontecem como
capital privado e o Brasil só fica parte do processo de formação,
com o recolhimento dos impostos. povo brasileiro. O território brasileiro não capacitação e preparação.
pode ser privatizado, negociado, vendido, Na Semana da Pátria, com o Grito dos
Irregularidades é uma questão de soberania e defesa Excluídos sairemos todos às ruas para
A avaliação de venda da CVRD foi nacional. gritar que Vale defender uma empresa
feita por um consórcio de empresas do que respeite o meio ambiente, os povos
qual participava o Banco Bradesco, hoje
um dos maiores acionistas da Vale. A Lei O povo brasileiro tem o direito e a riqueza do território, que não deve ser
explorado de modo indiscriminado. Uma
de Licitação no Brasil proíbe que a em-
presa que participa da avaliação, participe
de participar das manifestações empresa que respeite a soberania do povo,
do país e do território. Uma Vale que coloque
também da compra, do arremate. E foi o e decidir os rumos da nação e as riquezas do país a serviço de um projeto
que aconteceu no caso da privatização da para o Brasil, respeite as terras dos povos
CVRD, o Bradesco empresa que avaliou, de suas riquezas. indígenas, tradicionais e quilombolas. Vale
participou também da compra. pensar um novo modelo de gestão das em-
Diante dos fatos, tanto da avaliação O plebiscito popular, como instrumento presas estatais, com políticas que integrem
do patrimônio que foi muito abaixo do que pedagógico de diálogo com o povo, quer a classe trabalhadora, e na apropriação e
a empresa possuía, ou mesmo no caso debater estes e outros tantos elementos distribuição dos resultados. Vale construir
da participação do Bradesco, podemos relacionados a essa privatização, e prin- uma verdadeira democracia através da
deduzir o quão foi fraudulento o ato. Pode- cipalmente conscientizar a população que participação direta do povo nas decisões
mos afirmar que a privatização não valeu! decisões tão relevantes ao país devem dos rumos da Nação. Vale restituir a Vale
Encontra-se sobre julgamento. Existem ser tomadas pelo povo; ele precisa ser ao patrimônio nacional.
107 ações populares que questionam o consultado. E o Plebiscito pode ser um Fica o convite para todos se somarem
edital, a nulidade do leilão, e o preço de instrumento na construção de um projeto a esse grande mutirão em defesa do pa-
venda, dentre outros. Todas estas ações para o Brasil com participação popular. trimônio do povo brasileiro, e gritar pela
ainda estão em julgamento. Em 2005, o nulidade do leilão e pela reestatização da
Supremo Tribunal Federal reconheceu Como participar CVRD. A Vale é do povo brasileiro! Vamos
a nulidade do leilão, isso nos dá fôlego Como participar do Plebiscito Popular? Gritar no Sete de Setembro no Grito dos
para continuarmos lutando em favor e em A Campanha pela Nulidade do leilão da Vale Excluídos - A Vale é nossa! 
defesa da soberania de nossas riquezas. (informações: www.avaleenossa.org.br ou
A Vale se identifica com a soberania, tel. (11) 3105.9702) é um processo aberto Rosilene Wansetto é socióloga, mestranda pela PUC/SP, membro
ela não poderia ter sido privatizada e para que as pessoas possam participar, da coordenação do Jubileu Sul/Brasil e da coordenação do Grito
negociada sem uma ampla consulta ao engajar-se e contribuir na realização. As dos Excluídos.

- Setembro 2007 21
Formação Missionária
Atualidade

para seminaristas
“O que vimos e ouvimos nós vos anunciamos, para que estejais em comunhão conosco.
Nós vos escrevemos estas coisas para que a nossa alegria seja completa”. (1 Jo 1, 3-4)
de Alessandro Henrique Coelho e Devair Araújo da Fonseca

E
ntres os dias 8 e 14 de julho

Fotos: Jaime C. Patias


de 2007, realizou-se na cidade
de Franca, interior do estado
de São Paulo, o Primeiro Curso
de Formação Missionária para
Seminaristas do Sul 1 da CNBB.
A idéia desse evento nasceu de uma ini-
ciativa dos seminaristas que participaram
em 2006 do curso promovido pelo CCM
(Centro de Cultura Missionária) em Bra-
sília. Esse curso motivou o pedido de um
organismo que incentivasse a formação
missionária nos seminários diocesanos.
O pedido foi acolhido com grande entu-
siasmo pela OSIB Sul 1 e pelo COMIRE
Sul 1(Conselho Missionário Regional).
A OSIB (Organização dos Seminários
e Institutos do Brasil) ficou encarregada
da preparação e organização do evento, Seminaristas participantes do encontro.
enquanto o COMIRE se responsabilizou Ramón Cazallas Serrano, IMC, falou sobre se encontravam em missão visitando as
pelos temas e assessores. a Espiritualidade Missionária (Discípulos casas e sendo sinal visível da Igreja que
e Missionários, Teologia do discipulado, vai ao encontro do seu povo.
Programação Maria, Modelo de discípulo); no dia seguinte Participaram do encontro 35 semina-
Na segunda-feira, dia 8, o padre Elviro Maria Aparecida Gomes, Renata Claudia ristas, vindos de 20 dioceses, número bas-
Pinheiro da Silva Junior, da Arquidiocese Barbosa Ferreira e Robson Luiz Ferreira, tante expressivo. Além disso, participaram
de Ribeirão Preto, desenvolveu o tema membros do COMIRE Sul 1, apresentaram também duas Congregações religiosas e
“Teologia da Missão”; na terça-feira, padre o tema “Organização e Articulação da uma comunidade de vida.
Dimensão Missionária da Igreja no Brasil”; Esse primeiro curso de formação des-
no dia 11, padre Sérgio Bradanini, PIMI, pertou uma profunda integração nos semi-
Dioceses e instituições apresentou o tema “Missão Ad Gentes: naristas participantes, e essa integração
representadas no curso a responsabilidade missionária da Igreja gerou também uma carta de intenções que
Aparecida, Barretos, Bragança
particular e na sexta-feira foi a vez de pede a criação do COMISE (Comissão
Paulista, Campinas, Campo Limpo,
Caraguatatuba, Catanduva, Franca, padre Jaime Carlos Patias, IMC, refletir Missionária nos Seminários).
Itapetininga, Itapeva, Jaboticabal, Lo- sobre “Comunicação e Missão (Leitura
rena, Mogi das Cruzes, Ribeirão Preto, missionária e MCS a serviço da missão). Testemunho missionário
Santo André, São João da Boa Vista, O encontro contou ainda com a assessoria No final do encontro os participantes
São José do Rio Preto, São José dos padres Mauro José Ramos (Diocese enviaram uma carta aos bispos, padres e
dos Campos, São Miguel Paulista e de Caraguatatuba), Alessandro Henrique formadores do Regional Sul 1 da CNBB,
Taubaté.
Comunidade “Mar Adentro”, Con-
Coelho (OSIB Sul 1) e Devair Araújo da na qual afirmaram:
gregação dos Padres do Sagrado Fonseca (OSIB Sul 1). Entre as atividades (...) É com muita alegria e espírito
Coração de Jesus (Dehonianos) e a merece destaque a visita à cidade de de fé e amor que queremos partilhar as
Ordem dos Mínimos de São Francisco Rifaina, SP, para um encontro com os alegrias e esperanças de estarmos neste
de Paula. seminaristas da Diocese de Franca, que forte processo de discernimento vocacio-

22 Setembro 2007 -
nal tendo em vista o ministério presbiteral às realidades da Igreja nacional, conti- Próximos passos
e podermos contemplar em unidade e nental e universal que clamam por vida e Um outro ponto importante foi a propos-
comunhão a realidade urgente da missão dignidade, elementos que só se edificam ta de já estabelecer para o próximo ano a
no Brasil e no mundo, cumprindo assim o através do anúncio e encontro com Jesus data do segundo Curso de formação para
mandato de Cristo e crendo em sua pre- Cristo vivo. Comprometidos com a causa a segunda semana de julho. Também a
sença constante nesta jornada: “Ide, pois, do Evangelho estamos dispostos a apren- parceria OSIB e COMISE, no Sul 1 ficou
fazer discípulos entre todas as nações, e der com a Igreja, querido povo de Deus, bastante solidificada, juntamente com a
batizai-os em nome do Pai, do Filho e do a crescermos no ardor missionário, no colaboração do Centro Cultural Missionário
Espírito Santo. Ensinai-lhes a observar serviço e na fidelidade, na solidariedade de Brasília. Foi significativo perceber a
tudo o que vos tenho ordenado. Eis que e fraternidade, através da escuta atenta abertura e espírito missionário nos jovens
estou convosco todos os dias até o fim dos da Palavra, celebrando e vivendo o dom seminaristas, sentindo-se interpelados a
tempos” (Mt 28, 20). da Eucaristia, autênticas fontes do nosso assumir com ardor os novos desafios da
Queremos sempre mais “avançar para crescimento. Igreja atual. Vislumbramos neste Curso
águas mais profundas” (Lc 5, 4), tendo os Diante disso propomos a criação em específico para seminaristas a possibili-
olhos fixos na pessoa e atitude de Jesus, o nosso regional do COMISE (Conselho dade de formar padres com consciência,
missionário do Pai, que ao assumir nossa Missionário dos Seminários), fomentando já coração e olhar missionários.
condição humana se fez servo e obediente em nosso processo formativo a dimensão Com este novo ímpeto eclesial, a
até a morte de cruz (cf. Fl 2, 5-8), para missionária da Igreja e, conseqüentemente, abertura dos seminaristas e a grande
que os homens tivessem vida abundante abrindo espaços para dilatarmos nossos convocação da Conferência de Aparecida,
(cf Jo 10, 10). horizontes sobre as urgências da evange- podemos vislumbrar um novo tempo na
A realidade do mundo de hoje faz lização nos diversos territórios. Este seria Igreja, onde assumiremos verdadeira-
com que nos sensibilizemos diante do um organismo que visa compreender em mente o nosso batismo, como discípu-
fato de que muitos de nossos irmãos todos os ambientes formativos uma nova los chamados à missão e à santidade.
e irmãs ainda não ouviram falar de Je- maneira de estímulo aos formandos e Realmente estamos vivendo o tempo da
sus Cristo, estando impossibilitados de também articulação de grupos de ação Missão! 
realizar um encontro pessoal com Ele, missionária entre as casas. O desejo
o que nos deixa reflexivos sobre o que brota justamente da contextualização de Alessandro Henrique Coelho é sacerdote, formador do Propedêu-
podemos realizar para contribuir com a realidades como a Amazônia, a situação tico da Diocese de Caraguatatuba e membro da OSIB Sul 1.
ação evangelizadora. Ao mesmo tempo, da Igreja no Nordeste, a falta de evange- Devair Araújo da Fonseca é sacerdote, reitor do Seminário Maior
somos conscientes da importância do lização em países africanos e asiáticos da Diocese de Franca e membro da OSIB Sul 1.
processo formativo que cada um está e a evasão de católicos cada vez mais
realizando nos Seminários Diocesanos, crescente, bem como a realidade de
nos Institutos, Comunidades, Congrega- nossas Igrejas locais, lembrando que Seminaristas da Missão
Meninos cheios de Deus!
ções e Ordens Religiosas, processo este “o motivo dessa atividade missionária
Homens cheios de querer ser...
que contempla as diversas dimensões está na vontade de Deus, que quer que Plenos da vontade primeira:
necessárias para que com protagonismo todos os homens sejam salvos e tenham “Ser tudo para todos”
e verdadeira liberdade possamos ser um o conhecimento da verdade” (cf. AG 7). Pretensos a imitar o irmão mais velho:
dia, pela divina graça, pastores conforme Na unidade da fé lembramos que acolher Jesus Cristo!
o coração de Deus (cf Jr 3, 15). também é evangelizar, grande semente de
Porém sabemos que amando e ser- transformação deste sonho em realidade. Meninos cheios de Esperança!
A serviço da vontade divina.
vindo coerentemente os aspectos con- Agradecemos por muitos de nós já estar-
Corações que tocam o céu,
templados neste período fundamental, mos envolvidos em atividades de âmbito Alma que toca o chão.
devemos abrir nossas mentes e corações missionário nos sub-regionais. (...) Filiação que se percebe ao longe:
São a cara do Pai!

Meninos cheios de Batismo!


Seminaristas para um mundo novo.
Transbordantes de juventude missionária.
Repetem o canto mariano:
“Minha alma engrandece o Senhor
e meu espírito exulta em Deus, meu Salvador!”

Meninos cheios de Vocação!


Em tudo se parecem com a Mãe.
No SIM, carregam o Espírito Santo,
Grávidos de um cotidiano servir.
Revestem-se de plena realidade,
Habitam um constante existir.

Meninos cheios de Evangelho!


Evangelho cheio de Paz,
Paz de um Deus cheio de meninos...
de meninos cheios de Missão!

Pe Mauro José Ramos


Reitor do Seminário Diocesano Beato José de Anchieta,
Caraguatatuba, SP.
Momento de descontração durante encontro de Formação Missionária.

- Setembro 2007 23
Basta de trabalho infantil!
“Tá relampiano, cadê nenêm? Tá

Divulgação
Infância
Missionária
vendendo drops no sinal pra alguém!”
(Lenine/Paulinho Moska)

de Roseane de Araújo Silva

E
sta canção nos chama a atenção para uma realidade que
infelizmente não tem diminuído em nosso país. Segundo
dados do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate
à Fome (MDS) há cerca de 2 milhões e 700 mil crianças
expostas às condições ilegais de trabalho no Brasil, muito
embora a ampliação de políticas sociais de distribuição de
renda tenha a intenção de erradicar esta prática. Há muitos
posicionamentos favoráveis ou não ao trabalho infantil. Não me
refiro aqui à aprendizagem junto aos pais (por exemplo, a ordenha
das criações ou cultivo da horta), mas quando o trabalho da criança
passa a ser visto como complemento de renda da família pelo
aumento da produção, em contato com o grande mercado, como
é o caso das plantações de café na África ou na área de sisal na
Ásia. O trabalho infantil é um problema bastante sério, não só no
Brasil e América Latina, mas também em outros continentes; vale

Sugestão para o grupo


Acolhida. ressaltar que é na agricultura que encontramos a grande maioria
Motivação (objetivo): vamos trazer ao conhecimento das (70%) das crianças trabalhadoras em todo o mundo.
crianças do grupo a realidade das muitas crianças impedidas
de viver como tal, porque são colocadas no trabalho ainda
Existem atividades que podem ser consideradas como trabalho
pequenas. de criança e não trabalho infantil porque são disciplinadoras, não
Oração: Ó Deus Pai Todo-Poderoso olhai as crianças e ado- as expõem a riscos e não comprometem sua freqüência escolar,
lescentes brasileiros que sofrem, no campo e na cidade, sendo nem o seu lazer. O trabalho infantil impede a criança de viver
obrigadas a trabalhar sem exercer o direito de ir à escola. como criança, de brincar, se divertir e principalmente de freqüentar
Abençoai também o trabalho dos missionários e missionárias integralmente uma sala de aula, tendo acesso ao conhecimento
no enfrentamento desta dura realidade. escolar, ao universo da leitura e da escrita, imprescindíveis à
Partilha dos compromissos semanais.
Leitura da Palavra de Deus: Lucas 8, 16-18. Ouvir e pôr em
vida em qualquer idade. Qualquer empecilho ao acesso nesta
prática. fase, poderá significar um futuro sem êxito para estas crianças
Compromissos missionários: A missão a que somos cha- e adolescentes.
mados nos coloca a caminho do próximo e o próprio Jesus a Jesus também foi criança e viveu as dificuldades culturais do
compara como uma lâmpada acesa que precisa estar em um seu tempo, o que difere e muito da realidade que vivemos hoje.
lugar visível, para iluminar a todas e todos. Jesus nos con- Teve a chance de aprender junto aos doutores da Lei na sinagoga
vida a ser missionárias e missionários principalmente agindo
em Jerusalém (Lc 2, 41-51) e colocar na vida os ensinamentos
em favor do próximo, daqueles e daquelas que ainda não O
conhecem. A partir da nossa ação missionária, cresce em nós
que aprendera com os seus pais e comunidade. Esta realidade
a compreensão de agir a cada dia mais próximos de fazer ainda é para nós um grande desafio, porque muitos pequeninos
a vontade de Deus Pai em nossa vida e junto às crianças e não conseguem sequer freqüentar a escola. O 6º Mandamento
adolescentes da nossa comunidade. Convidemos para a próxima da Criança Missionária lembra que todos devem “manter-se bem
reunião um representante do Conselho Tutelar do nosso bairro informados sobre os acontecimentos que envolvem as pessoas
ou da nossa comunidade rural para falar do que é realizado em dos continentes”, com o compromisso de denunciar tudo o que
nossa cidade para combater o trabalho infantil. Depois desta
impede as nossas crianças e adolescentes de terem vida plena e
conversa, organizar para o mural da capela as informações
sobre o trabalho infantil no Brasil e em nosso estado. assim repetir como Jesus: “Deixem as crianças virem a mim. Não
Momento de agradecimento ao Deus Criador pela ação dos lhes proíbam, porque o Reino de Deus pertence a elas” (Mc 10,
missionários e missionárias junto às crianças e adolescentes 14). Busquemos fazer a diferença junto aos nossos pequeninos!
trabalhadores nos cinco continentes, fortalecendo a esperança De todas as crianças do mundo – sempre amigas! 
destes pequeninos.
Canto e despedida. Roseane de Araújo Silva é missionária leiga e pedagoga da Rede Pública do Paraná.

24 Setembro 2007 -
- Setembro 2007 25
Um bispo chinês
Entrevista

na Amazônia
Um dia também a China abrirá seus portões
para uma liberdade ampla e irrestrita.
de Jaime Carlos Patias

Fotos: Arquivo Pessoal


S
ão Gabriel da Cachoeira, no
Amazonas, não é um município
comum. Está cercado pela flo-
resta e inserido na maior bacia
de águas escuras do mundo. É
o mais indígena dos municípios
brasileiros, habitado por 22 etnias em mais
de 550 comunidades. Situado próximo
às fronteiras da Colômbia e Venezuela,
possui o terceiro maior território do país
com mais de 109.000 Km2 de área. Pela
sua importância geopolítica, conta com a
presença crescente de militares. O mais
interessante é que a diocese de São Gabriel
da Cachoeira tem à frente um bispo chinês:
dom José Song Suí Wan, SDB.
Dom Song cursou o Ensino Médio no
Seminário Salesiano de Hong Kong, de
1955 a 1959. No Brasil, licenciou-se em
Filosofia em Lorena, SP (1962-1966), es- 1941, era bem mais simples. Em 1949 a escrevia artigos na revista da universidade
pecializou-se e fez o Mestrado em Filosofia minha família abandonou a terra natal e sobre o comunismo, suas ameaças, erros
pela Universidade Pontifícia Salesiana partiu para a misteriosa cidade de Hong e perigos. Com isso, entrou na “lista ne-
de Roma (1968-1971). É licenciado em Kong, que significa, “porto perfumado”. gra”. Eu tinha nove anos, mas já entendia
Letras e fala com fluência chinês e outros Eu falava só o dialeto de Xangai e fiquei alguma coisa. Soube que um belo dia, o
dialetos, português, inglês, italiano, espa- mudo, pois o povo falava contonês, dialeto reitor da universidade, padre Germain,
nhol, latim, grego, francês e alemão. Entre que tive que aprender para me comunicar. advertiu o meu pai: “Senhor Song, o co-
outras atividades como padre salesiano, Na escola, estudava ainda a língua oficial, munismo está chegando e você está em
em Lorena, Cruzeiro, Lavrinhas, Campi- o mandarim. Desde pequeno já era meio perigo também. Fuja enquanto há tempo”.
nas e Araras, SP, foi professor de inglês, “linguarudo”. Nove anos depois, meu pai Naquela noite meu pai, antes da oração e
português, italiano, música, pedagogia, resolveu vir para o Brasil. Tive que aprender do Rosário que recitávamos todas os dias,
filosofia e teologia. Ordenou-se bispo no a língua portuguesa. Quarenta e cinco disse a todos nós (mamãe, duas irmãs e
dia 27 de abril de 2002, em Araras. anos depois o Espírito Santo cochilou e três irmãos): “o comunismo está vindo
me ordenei bispo. Vim parar no Rio Negro, e vamos sair de Xangai. Começamos a
Dom Song, o senhor nasceu na a diocese mais indígena do Brasil com 22 novena a Nossa Senhora para pedir o
China. Como foi parar na diocese mais línguas diferentes! passaporte. Não será fácil, mas vamos
indígena do Brasil? tentar”. O primeiro milagre aconteceu: o
Uma vez eu estava entrando na igre- Por que sua família deixou a China? passaporte saiu no nono dia.
ja matriz de Araras. Um menino me viu A perseguição aos cristãos e a busca
paramentado e assustado me perguntou: de liberdade foram os motivos principais. Como é a diocese de São Gabriel
“Você é índio?” “Sim, sou da tribo Xangai”, Nossa família sempre foi católica, com mais da Cachoeira?
respondi. Nasci em Xangai, hoje conside- de cinco gerações. Meu pai lecionava na É considerada “a mais confortável
rada uma das cidades mais modernas do Universidade Aurora de Xangai, dirigida diocese do Brasil” devido ao número
mundo. Mas quando nasci, nos longínquos pelos jesuítas. Como bom católico, ele de padres por habitante: 18 para pouco

26 Setembro 2007 -
mais de 60.000. Tem uma área de apro-
ximadamente 300.000 km2, (tamanho
da Itália, menos a Sardenha). É maior do
que todo o estado de São Paulo. 97% da
população são povos indígenas. Os 18
padres são salesianos, missionários do
Sagrado Coração (MSC), missionários
xaverianos e diocesanos, entre os quais,
quatro indígenas. Apesar das distâncias
o clero se quer muito bem. Temos ainda
55 Irmãs Salesianas (FMA) e cinco Ir-
mãs Catequistas franciscanas. Aquelas
se dedicam à saúde e promoção social,
estas se dedicam à saúde, catequese e
formação de futuras irmãs.

As distâncias criam dificuldades


na assistência pastoral?
Entre as dez paróquias e as centenas
de comunidades rurais, a principal via é
fluvial. Os padres não têm carro, mas pos- Dom José Song toca escaleta para um grupo de crianças.
suem barco ou voadeira (motor de popa); o
combustível é o mais caro do Brasil (mais nas portas, casa por casa. Converso e o orgulho tem sido prejudicial para a
de R$ 3,00 o litro). A distância entre as ouço os anseios do povo. Ofereço uma resolução de certas questões delicadas.
paróquias também assusta. Para chegar pequena Bíblia, um Rosário, uma estampa Desde 1949 não vejo mais a minha terra,
à paróquia mais próxima levo cinco horas, de Nossa Senhora e um folheto de oração. mas todos os dias eu rezo e ofereço
à mais distante, cinco dias. Mas apesar Dou benção às casas, aos doentes, aos sacrifício pela sua reabertura. Creio fir-
das dificuldades financeiras e materiais, velhinhos e umas balinhas às crianças. memente que um dia, após muito diálogo
levamos uma vida muito saudável e alegre. Nestes cinco anos (2002-2007) visitei e oração, as muralhas também cairão.
Cada vez que saio para as visitas pastorais, 5.500 famílias. Acredita? Que aconteça este “negócio da China”.
tenho a impressão de estar fazendo um Sou salesiano e por isso gosto de Nossa Senhora, a Rainha da China, vai
“piedoso piquenique”. Levo sanduíche, música (repare meu nome: Song, em conseguir este milagre.
refrigerante, bolachas, colete salva-vida inglês: canção) e dedico-me à mágica.
(não sei nadar), balas para as crianças e Tenho uma escaleta (pianinho portátil) que O senhor tem contato com cristãos na
mágicas para todos. é presente de estimação de minha mãe. Às China, tem estado por lá ultimamente?
vezes sinto vergonha, porque a mala de Eu sou ex-aluno salesiano da Tang
A diocese recebe ajuda de igrejas- paramentos de bispo é bem menor do que King Pó School de Hong Kong. Em 2002,
irmãs no Brasil ou além-fronteiras? a que contém os instrumentos musicais e quando era ainda um bispo quase zero
Por enquanto não. Contudo, este ano, os apetrechos de mágica. Dom Bosco que quilômetro, a minha escola completou 50
por causa da Campanha da Fraternidade me perdoe, aliás, foi ele quem me ensinou anos de fundação. E eu, “ilustre hóspede” fui
sobre a Amazônia, estamos recebendo estes “truques”. O papa Bento XVI faz apelo convidado para os festejos. Naturalmente
muitas visitas e algumas doações. Mas a à renovação e nos estimula para ter novo pagaram minhas passagens, ida e volta.
alegria será grande quando recebermos a ardor, novos métodos e nova linguagem. E assim pude rever e reviver a minha
oferta da diocese de Paranaguá, PR, que De fato, está na hora de nos renovarmos querida Hong Kong. Mas o meu sonho
nos doou o padre Osvaldo Cobianchi por e apresentar às pessoas, uma Igreja mais ainda é um dia pisar o solo de minha terra
um tempo. A CF 2007 fez um bem imenso alegre e atraente. A sociedade espera natal, “tribo Xangai”.
no sentido de conscientização. Creio que contemplar um rosto divino na pessoa e
esta Campanha não foi essencialmente um rosto humano de Deus. Como o senhor vê a evolução nas
ecológica, de defesa da natureza ou pre- relações entre a Santa Sé e o governo
servação da flora e da fauna. Foi uma Qual a importância da carta que o de Pequim?
Campanha missionária. Ficou claro que papa Bento XVI escreveu aos católicos Muitas vicissitudes aconteceram. Não
o missionário não é apenas aquele padre da China? faltaram momentos de constrangimentos,
velhinho, de barba branca, no meio da Realmente se trata de uma questão mas também houve sinalizações de es-
floresta amazônica remando sua canoa. fácil e difícil. Fácil, porque entre a Igreja peranças. O muro de Berlim não caiu?
Todos os cristãos são missionários e Católica Patriótica Chinesa e a Igreja Então, a muralha (não literalmente) da
discípulos de Cristo. Católica Universal não há divergências China também abrirá seus portões para
doutrinais. Difícil, porque se trata de uma uma liberdade ampla e irrestrita. A China,
Qual é a característica do seu mi- questão pessoal, disciplinar. Nisso, Jesus, a maior população do mundo, ainda abrirá
nistério episcopal? o Mestre nos dá uma boa dica quando diz: seus braços dando boas vindas a todos.
Sempre acredito na força, valor e “quero misericórdia e não sacrifício”. Então Este dia virá? Sim, um dia. Talvez eu não
necessidade do contato pessoal. Por isso, usemos de misericórdia, compreensão e veja, mas muita gente jovem ainda vai me
desde o início das minhas atividades epis- perdão. Jesus disse ainda: “aprendei de dar razão. 
copais tomei como uma das prioridades mim que sou manso e humilde”. Então
as visitas domiciliares. Aos sábados ou usemos a mansidão e a humildade. A Jaime Carlos Patias é missionário, mestre em Comunicação e
domingos pego uma rua e vou batendo história da Igreja tem demonstrado que diretor da revista Missões.

- Setembro 2007 27
Animados pela fé
amazônia

e certos da vitória
Encontro das Comunidades Eclesiais de Base em Tefé, no Amazonas
reafirma importância deste movimento.

de Francisco Andrade de Lima deste dia, três grupos foram formados para debaterem sobre a
Amazônia – Sustentabilidade ambiental e econômica, a Missão

E
das Comunidades Eclesiais de Base e Dízimo – Auto-susten-
ntre os dias 22 e 25 de julho, realizou-se a II Assem- tação, discussão que ocupou também o dia 24. Na manhã do
bléia das Comunidades Eclesiais de Base da Prelazia dia 25, os grupos elaboraram propostas para os três assuntos,
de Tefé, Amazonas. Este encontro ocorreu depois de que foram apresentadas à tarde do mesmo dia para todos os
19 anos da primeira Assembléia e teve como tema: participantes.
“CEBs - memória e prospectiva” e como lema: “Cami- A Assembléia foi encerrada com uma caminhada e um
nhemos na mesma direção”. 721 representantes das ato em frente à CEAM (Companhia de Energia do Amazonas)
comunidades da Prelazia, vindos de todas as paróquias (São – devido aos problemas com o fornecimento de energia elétrica
Benedito – Itamarati; Nossa Senhora da Imaculada Concei- enfrentados pela cidade de Tefé. Todos sentiram de perto a falta
ção – Carauari; Nossa Senhora de Fátima – Juruá; São José de luz, sendo necessário providenciar geradores para os locais
– Jutaí; Nossa Senhora de Guadalupe – Fonte Boa; Nossa do encontro, evitando que os trabalhos fossem interrompidos
Senhora Aparecida – Japurá; Nossa Senhora da Imaculada ou prejudicados. A caminhada foi encerrada na Praça de Santa
Conceição – Maraã; Divino Espírito Santo – Uarini; São Joa- Teresa - local onde havia sido iniciada a Assembléia - com a
quim – Alvarães; Divino Espírito Santo – Missão; Bom Jesus celebração de envio dos participantes e uma noite cultural com
– Tefé; Santo Antônio – Tefé e Santa Teresa D’Ávila – Tefé) apresentações folclóricas e artísticas. Foi um momento de
compareceram. animação e encontro das comunidades. Estiveram presentes
Na primeira noite, dia 22, houve a celebração de abertura representantes da diocese de São José dos Campos, São
na praça da Catedral de Santa Teresa. No dia seguinte pela Paulo, e houve a assessoria de dom Mauricio Grotto, bispo de
manhã, reflexão sobre a conjuntura atual da sociedade. Na tarde Assis, São Paulo.

Bettine

Assembléia reafirma a importância das CEBs para a Igreja da Amazônia.

28 Setembro 2007 -
Carta de intenções vimentos sociais. Com relação às CEBs, reafirmamos como
A carta elaborada no final da Assembléia resumiu o desejo Igreja, o compromisso de continuar o fortalecimento das co-
dos participantes: “Estes quatro dias foram momentos de munidades em sua organização, assim como a capacitação
partilha, de conhecimento mútuo, de fraternidade, de recor- das suas lideranças.
dação da caminhada das comunidades, de fortalecimento das Sobre o Dízimo, somos desafiados a continuar a “caminhar
nossas convicções, de estudo, reflexão e de espiritualidade. com as próprias pernas”. Para tanto se faz necessário conscien-
Também esteve muito presente nessa memória a caminhada tizar as famílias, formar equipes, prestar contas regularmente
da preservação do meio ambiente, da educação popular e e partilhar experiências. “Animados pela fé e bem certos da
da organização social e política das comunidades. A partir vitória”, tomamos a firme decisão de continuar a caminhar na
da memória e da conjuntura, no campo da sustentabilidade, mesma direção. Que Santa Teresa, Padroeira da Prelazia de
assumimos como compromisso a preservação do meio am- Tefé, interceda por nós”. 
biente, a educação ambiental, a cobrança das autoridades
constituídas para implementarem políticas públicas, sendo Francisco Andrade de Lima é secretário da Prelazia de Tefé, membro da equipe de Coordenação
que isto, queremos fazer em parceria com instituições e mo- Geral da Assembléia das CEBs.

Mutirão de Comunicação
Compromisso permanente da Igreja
Assessoria de Imprensa da CNBB Helena, referindo-se ao jor-

Roberto Preczevski
nal produzido pela RCR e

O
transmitido em rede por
5º Muticom (Mutirão Brasileiro de Comunicação) cerca de 200 emissoras.
realizou-se de 15 a 20 de julho em Belém, PA, O presidente da Unda/
com seminários, conferências, oficinas, grupos de Brasil, Antônio Celso Pinelli,
trabalho e debates. associou o conteúdo do
No encerramento do evento, dom Orani João Mutirão à bagagem que
Tempesta, arcebispo de Belém, afirmou que o cada participante levou do
Mutirão é um compromisso permanente da Igreja. “Damos por evento. “A bagagem de
concluído o tempo do Mutirão, mas não dos frutos”, concluiu o vocês está pesada não só
arcebispo, anunciando já a realização do 6º Muticom em Porto de brindes e lembranças
Alegre, no ano de 2009. Em seguida, ele fez a entrega do símbolo do Pará, mas de conheci-
do Mutirão a Dorgival Cruz, de Santa Cruz do Sul, RS, que o mentos aqui adquiridos”,
encaminhará para a arquidiocese de Porto Alegre. avaliou.
A cerimônia de encerramento foi transmitida ao vivo pela TV O diretor de comunica-
Nazaré, e começou com um videoclipe, produzido pela própria ção da Fundação Nazaré
emissora apresentando uma síntese do que foi o Mutirão. e responsável pela orga-
Durante o Muticom, Orlanda Rodrigues, secretária-executiva nização do Muticom, João
do Norte 2 da CNBB - Pará e Amapá -, apresentou o projeto Bosco Gomes, iniciou seu Participantes do 5º Muticom.
Cidades Solidárias a ser desenvolvido pela Comissão Regional de discurso de conclusão do Mutirão, agradecendo a Deus pela
Evangelização da Amazônia. O projeto visa aproximar a cultura realização do evento. “Aprendi, no Evangelho de São João,
do povo amazônico com as culturas das demais regiões do país. que sem Deus a gente não pode fazer nada. Entreguei a Deus
“Nosso projeto tem o objetivo de ser instrumento de integração a organização do Mutirão”, explicou Gomes ao descrever os
entre as cidades do Sul, Sudeste, Centro e Nordeste com as desafios e as dificuldades, uma vez que teve pouco menos de
cidades da Amazônia”, explicou a secretária. “Convidamos o quatro meses para preparar o evento. “O 5º Mutirão Brasileiro de
Brasil a pensar a Amazônia a partir da Amazônia”, completou. Comunicação foi mais uma proeza de Deus”, concluiu Gomes,
Francisco Moraes, presidente da União Cristã Brasileira de aplaudido de pé pela assembléia.
Comunicação Social (UCBC), ressaltou que a riqueza do Mutirão Outro ovacionado pelos participantes foi o arcebispo emérito
foi reunir, em Belém, as diferentes culturas vindas de todo o da Arquidiocese de Belém, dom Vicente Zico, ao ser chamado
país manifestadas na presença dos comunicadores presentes para se pronunciar. “Acompanhei com alegria a realização desse
ao evento. “A nossa fé é a razão da nossa ação comunicadora Mutirão e me associo aos que vivem a alegria desse momento”,
e comunicativa”, ressaltou Moraes. afirmou. Para ele, a comunicação da Igreja e a Amazônia são
“O Mutirão circulou pelo Brasil, de maneira silenciosa, atra- as duas riquezas do Mutirão. 
vés de nossas rádios aqui presentes”, afirmou a presidente da
Rede Católica de Rádio (RCR), irmã Helena Corazza. “A rede Assessoria de imprensa da CNBB. Publicado no Informativo
de notícias procura trabalhar cristamente a notícia”, explicou Regional Sul 1 da CNBB, n.156, agosto de 2007.

- Setembro 2007 29
Brasília no mercado interno e com uma legislação que permite
Campanha Missionária 2007 a compra ilimitada de terras por empresas nacionais
O material para a Campanha Missionária 2007 prepa- com capital estrangeiro, o território brasileiro tem pas-
rado pelas Pontifícias Obras Missionárias (POM) já está sado para as mãos de investidores de outros países.
sendo enviado a todas as dioceses do De acordo com o Incra, os interesses
Brasil. São 130 mil cartazes; 50 mil cópias são diversificados. Parte deles vislumbra
da Mensagem do Papa Bento XVI para grandes oportunidades com projetos de
o Dia Mundial das Missões; 12 milhões produção do agrocombustível, com desta-
de santinhos com a Oração Missionária que para o megainvestidor estadunidense
2007; 10,6 milhões de panfletos com George Soros. Outra parte se dedica à
Oração dos Fiéis para os domingos de compra de áreas da floresta amazônica,
outubro; 100 mil exemplares do livrinho normalmente feita por empresas que po-
Deus Ama sem Fronteiras: da Amazônia luem seus países, que em contrapartida,
para o Mundo, com cinco Celebrações estariam supostamente preservando a
Missionárias; 12,5 milhões de envelopes maior floresta do mundo. Há ainda os
para contribuição pessoal, a ser coletada especuladores, cujo intuito é adquirir imó-
no Dia Mundial das Missões. Espera-se veis rurais com vistas a sua valorização
que todo este material seja devidamente no médio e longo prazo. O presidente do
distribuído e aproveitado, para que os Incra, Rolf Hackbart, destaca as perigosas
VOLTA AO BRASIL

frutos sejam abundantes. O subsídio, conseqüências deste processo: “a primeira:


enviado com antecedência às dioceses, deverá ser tende a aumentar o preço da terra e dificulta ao Incra
reenviado e distribuído às paróquias e comunidades. adquiri-la para fazer reforma agrária. Segunda: tende
O objetivo é preparar uma boa animação missionária a concentrar a propriedade da terra, porque sempre
para o mês de outubro e uma generosa coleta no Dia são compras de grandes áreas. Terceira: tende a não
Mundial das Missões (domingo, 21). O Material da Cam- preservar o meio ambiente devido ao cultivo de mono-
panha Missionária 2007 para download já se encontra culturas”. De acordo com o presidente do Incra, a ação
à disposição no site das POM: www.pom.org.br Mais destas empresas tem elevado os preços da terra e já
informações pelo telefone (61) 3340.4494. chama atenção em toda a região Centro-Oeste, em São
Paulo, no oeste baiano e no Triângulo Mineiro. Hackbart
Pastorais da Mobilidade Humana afirma que o Incra apresentará ao presidente Lula uma
De 16 a 18 de julho estiveram reunidos na Casa de proposta de medida provisória que imponha limites por
Retiro Assunção, em Brasília, bispos, coordenadores região às aquisições.
nacionais e representantes das Pastorais da Mobilidade
Humana:Apostolado do Mar, Pastoral Rodoviária, Pastoral Luziânia – GO
das Migrações, Pastoral dos Refugiados, Pastoral dos Assembléia marca os 35 anos do CIMI
Nômades, Pastoral do Turismo e Pastoral Nipo-Brasileira. A Assembléia que comemorou os 35 anos do
Participaram ainda representantes das congregações Conselho Missionário Indigenista (CIMI) aprovou um
dos missionários e missionárias Scalabrinianas no Brasil documento em que os participantes criticam “a nefas-
que têm por carisma o trabalho junto aos migrantes e ta política macroeconômica neoliberal a serviço das
refugiados. O Encontro foi enriquecido com a presença grandes corporações transnacionais”, classificam o
de dom José Edson Santana Oliveira (Eunápolis-BA), Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) como
responsável pela Pastoral dos Nômades, dom Alexandre “um projeto onde as dimensões humana, social e de
Rufinoni (Porto Alegre-RS), dom Antônio Possamai (Ji- futuro estão ausentes”. O documento condena também
Paraná-RO) e dom Murilo Krieger (Florianópolis-SC), o agronegócio, alerta para o avanço do desmatamento
responsável pela Pastoral do Turismo, e pelo grupo que ameaça pelo menos “60 povos que se encontram
da Pastoral da Juventude de Planaltina que fez a ani- em situação de isolamento” e afirma que as políticas
mação nos três dias de encontro. O tema central foi a indigenistas do governo “têm se revelado incapazes de
V Conferência: “Discípulos e Missionários no mundo assegurar os direitos indígenas”. A XVII Assembléia do
da Mobilidade Humana. A Conferência de Aparecida: CIMI, reunida de 30 de julho a 3 de agosto, discutiu a
desafios e perspectivas”. No primeiro dia, foi feita a situação de sustentabilidade dos povos indígenas, os
memória do I Encontro das Pastorais da Mobilidade problemas enfrentados e as possíveis alternativas. O
(2005) e da Reunião Ampliada (2006), resgatando-se tema "Economias e territórios Indígenas: tradição, nova
o histórico da caminhada conjunta dessas pastorais realidade e utopia" foi estudado em vários painéis que
e os passos significativos dados nesses dois anos. À reuniram teólogos, antropólogos e lideranças ligadas à
luz de reflexões e partilhas, os participantes discutiram defesa da causa indígena. O secretário-geral da CNBB,
linhas de ação pastoral a serem assumidas pelo con- dom Dimas Lara Barbosa, visitou os participantes da
junto das pastorais da Mobilidade Humana. Alegrou os Assembléia no dia 31. A Assembléia elegeu o bispo da
participantes a fraterna presença de dom Dimas Lara, Prelazia do Xingu, PA, dom Erwin Kräuter, presidente
secretário-geral da CNBB. do CIMI, confirmando-o no cargo que ocupava há um
ano substituindo dom Franco Masserdotti, falecido em
Estrangeiros compram terras setembro de 2006. Para a vice-presidência foi eleito
O investimento massivo de grupos estrangeiros na Roberto Liebgott e Éden Magalhães foi reeleito como
compra de terras brasileiras tem preocupado o Instituto secretário-executivo. 
Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Com
o aumento da confiança dos investidores internacionais Fontes: CIMI, CNBB, Notícias do Planalto, POM.
30 Setembro 2007 -
Centro Missionário ATENDEMOS:
Congregações e grupos
José Allamano religiosos, movimentos,
paróquias, empresas,
Casa de Retiros e Encontros associações e outros.

Atividades do mês de SETEMBRO Atividades do mês de outubro Atividades do mês de novembro


Dias 28 a 30: Encontro Vocacional IMC-MC Dias 26 a 28: Escola Missionária Dias 9 a 11: Encontro Vocacional IMC
Dia 30: Encontro de Jovens Dia 28: Encontro de Jovens Dia 25: Encontro de Jovens

PARA MAIS INFORMAÇÕES:


Rua Itá, 381 - Pedra Branca - 02636-030 - São Paulo - SP
Tel.: (11) 6232-2383 - E-mail: secretariamissao@imconsolata.org.br
www.centromissionario.org.br

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02 a 09 assinaturas R$ 35,00 cada assinatura Nos meses de Jan/Fev e Jul/Ago a edição é
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