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Introdução ao Direito Análise da norma jurídica (continuação) 25-10-2013 1
Introdução ao Direito
Análise da norma jurídica (continuação)
25-10-2013
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 Dado o termo restrito que estamos a analisar de norma jurídica, para estarmos perante
 Dado o termo restrito que estamos a analisar de
norma jurídica, para estarmos perante uma
verdadeira norma jurídica esta tem de adquirir certas
características: hipoteticidade, a abstração, a
generalidade e, para alguns autores (Prof. Castro
Mendes), também se inclui neste rol a imperatividade,
a violabilidade e a coercibilidade.
 - A hipoteticidade –
 Isto significa que a norma só se aplica perante a
verificação futura de uma determinada condição – a
concretização da situação descrita na previsão – que
não há a certeza se venha a verificar. A concretização
é
Características da norma jurídica:
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 apenas uma hipótese, juntamente com outra – a não concretização. Daí a norma ser
 apenas uma hipótese, juntamente com outra –
a
não
concretização. Daí a norma ser hipotética.
 A existência desta dupla possibilidade – a verificação e a
não verificação da situação descrita na previsão – é que
torna a norma hipotética.
 A norma jurídica só se aplica, isto é, só são desencadeadas
as consequências referidas na sua estatuição, quando e se
se produzir um facto abrangido pela sua previsão.
 Para mais fácil perceção desta característica, tomemos
como exemplo o n.º 1 do artigo 483.º do Código Civil:
«Aquele que, com dolo ou mera culpa, violar ilicitamente
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 o direito de outrem ou qualquer disposição legal destinada a proteger interesses alheios fica
 o direito de outrem ou qualquer disposição legal
destinada a proteger interesses alheios fica obrigado
a indemnizar o lesado pelos danos resultantes da
violação».
 Ou seja, se alguém, «com dolo ou mera culpa, violar
ilicitamente o direito de outrem ou qualquer
disposição legal destinada a proteger interesses
alheios», então «fica obrigado a indemnizar o lesado
pelos danos resultantes da violação».
 A obrigação de indemnizar referida na estatuição só
surge quando e se se verificar a conduta descrita na
previsão. Daí que se ninguém «violar ilicitamente o
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 direito de outrem ou qualquer disposição legal destinada a proteger interesses alheios», nunca surge
 direito de outrem ou qualquer disposição legal
destinada a proteger interesses alheios», nunca surge
a obrigação de indemnizar: esta norma jurídica não
terá, então, aplicação.
 - Abstração –
 Esta característica respeita ao modo como, na
previsão da norma jurídica, é descrita a conduta que,
a verificar-se, vai desencadear os efeitos jurídicos
determinados na estatuição.
 A verdadeira norma jurídica, no sentido em que aqui
está a ser tomada, descreve as condutas a que se vai
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 aplicar de uma forma não individualizada – é previsto um modelo de conduta a
 aplicar de uma forma não individualizada – é previsto
um modelo de conduta a que se pode subsumir um
número indeterminado de situações que são previstas
de forma não individualizada.
 A norma não pretende regular apenas um ou vários
casos, mas toda uma categoria de situações que são
previstas de forma não individualizada.
 Tomemos novamente em consideração o n.º 1 do
artigo 483.º do Código Civil – esta norma tem a
característica da abstração, é uma norma abstrata,
na medida em que não se aplica apenas a um caso
específico de violação ilícita do direito de outrem ou
de qualquer
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 disposição legal destinada a proteger interesses alheios, e antes se aplica a toda e
 disposição legal destinada a proteger interesses
alheios, e antes se aplica a toda e qualquer
violação ilícita, independentemente da forma
como a mesma se concretizou: engloba um
número indeterminado de situações que se
podem vir a verificar, e que darão origem à
aplicação daquela norma jurídica.
 Mas
se,
por
exemplo,
aquele
artigo
apenas
obrigasse a indemnizar aquele que “partisse,
com uma pedra, o vidro da janela da casa do Sr.
Francisco” deixava de ser uma norma abstrata, e
tornar-se-ia um preceito concreto.
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 - Generalidade –  Esta característica respeita aos destinatários da norma jurídica, isto é,
 - Generalidade –
 Esta característica respeita aos destinatários da norma
jurídica, isto é, às pessoas que, ao praticarem os factos ou
se encontrarem na situação descrita na previsão da norma,
verão produzir-se na sua esfera jurídica os efeitos
delimitados na estatuição daquela.
 A norma é geral quando, no momento da sua criação, se
destina não a pessoas individualmente consideradas, mas
indeterminadas – o que importa é que, no momento da
criação da norma jurídica, se não possa identificar quais
são as pessoas que irão ser por ela abrangidas: a norma
define a que classe de pessoas se vai aplicar. A
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 norma destina-se a uma categoria de pessoas, e não a sujeitos determinados.  A
 norma destina-se a uma categoria de pessoas, e não
a sujeitos determinados.
 A generalidade da norma jurídica não se confunde
com a pluralidade dos seus destinatários – a norma é
plural quando, em cada momento, se pode aplicar a
mais do que uma pessoa.
 A generalidade não implica a pluralidade: a norma
pode ser geral sem ser plural, apenas se podendo
aplicar, em cada momento, a uma pessoa.
 Tomemos como exemplo a alínea b) do artigo 134.º
da Constituição da República Portuguesa. Aí se
estabelece que compete ao Presidente da República,
na prática de
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 atos próprios, «promulgar e mandar publicar as leis, os decretos-leis e os decretos regulamentares,
 atos próprios, «promulgar e mandar publicar as leis,
os decretos-leis e os decretos regulamentares,
assinar as resoluções da Assembleia da República que
aprovem acordos internacionais e os restantes
decretos do governo» - considerando que só pode
haver, de cada vez, um Presidente da República do
Estado Português, conclui-se que a norma só se pode
aplicar, em cada momento, a uma pessoa jurídica, ou
seja, esta norma não é, por conseguinte, plural.
 Consagrará este artigo uma norma geral?
 A resposta é afirmativa. O destinatário da norma é
definido por forma não individualizada – a norma não
se
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 destina ao Presidente da República A ou B, antes se aplicando a uma categoria
 destina ao Presidente da República A ou B, antes se
aplicando a uma categoria de pessoas (o Presidente da
República) independentemente de quem venha a ocupar tal
cargo, ou seja, no momento da sua criação, o destinatário
é
indeterminado.
 A situação em que se encontram as normas que, embora
sendo gerais, apenas podem ter um destinatário de cada
vez, é designada de generalidade vertical ou sucessiva.
 Por outro lado, existem preceitos que, embora à primeira
vista pareçam ter a característica da generalidade, são na
realidade preceitos individuais, independentemente da sua
aplicabilidade simultânea a uma pluralidade de sujeitos – é
a
designada generalidade aparente.
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 Será, por exemplo, o caso do preceito que se destina ao Presidente da República
 Será, por exemplo, o caso do preceito que se destina
ao Presidente da República existente no momento da
sua criação (preceito não plural), aos deputados que
exerçam funções em certo momento (preceito plural),
ou ainda às empresas que desempenhem uma certa
actividade económica, sabendo-se que apenas existe
uma empresa nessa situação (preceito não plural) – A
generalidade destes preceitos é meramente aparente,
está-se em face de preceitos individuais.
 - Imperatividade –
 No sentido de que a regra contém uma estatuição ou
comando, em termos de imposição, claro que isto não
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 significa que, em termos latos, não existam regras não imperativas, mas designadamente permissivas. 
 significa que, em termos latos, não existam regras
não imperativas, mas designadamente permissivas.
 - Violabilidade –
 Por sua natureza a regra é violável, pois os seus
destinatários são livres daí a existência de estatuição,
todavia, note-se que a violabilidade se desenrola no
plano dos factos e não no plano das consequências
jurídicas (aqui a regra é inviolável).
 - Coercibilidade -
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 É a possibilidade do uso da força para impedir e reprimir a violação da
 É a possibilidade do uso da força para impedir e
reprimir a violação da regra ( proteção coativa).
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 Algumas espécies de normas jurídicas:  a) Normas de estatuição material e normas de
 Algumas espécies de normas jurídicas:
 a) Normas de estatuição material e normas de
estatuição jurídica;
 b) Normas imperativas, permissivas, supletivas e
interpretativas;
 c) Normas gerais, especiais e excecionais;
 d) Normas ordenadoras e normas sancionatórias.
Análise de alguns tipos de normas
jurídicas:
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 # Normas de estatuição material e normas de estatuição jurídica #  A contraposição
 # Normas de estatuição material e normas de
estatuição jurídica #
 A contraposição entre estas duas espécies de normas
faz-se consoante o seu tipo de estatuição, ou seja,
consequências implícitas em cada uma delas.
 A estatuição das normas de estatuição material
reporta-se direta e imediatamente a actos da vida
social – é o caso, por exemplo, da alínea b) do artigo
879.º do Código Civil, que impõe ao vendedor a
obrigação de entregar a coisa vendida, ou da alínea
a) do artigo 1038.º do Código Civil, que impõe ao
locatário a obrigação de pagar a renda ou aluguer, e
ainda do
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 artigo 131.º do Código Penal, que proíbe o homicídio.  Já a estatuição das
 artigo 131.º do Código Penal, que proíbe o homicídio.
 Já a estatuição das normas de estatuição jurídica,
pelo contrário, esgota-se no plano jurídico, e só
reflexa ou indiretamente vem a ter consequências na
vida social – é o que sucede, por exemplo, com o
artigo 130.º do Código Civil: «Aquele que perfizer
dezoito anos de idade adquire plena capacidade de
exercício de direitos, ficando habilitado a reger a sua
pessoa e a dispor dos seus bens», ou seja, ao
perfazer essa idade, o menor torna-se maior, o que
de imediato provoca alterações substanciais na sua
capacidade jurídica. A consequência deste facto
(atingir dezoito anos)
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 verifica-se imediata e diretamente no plano jurídico (capacidade jurídica).  É ainda o que
 verifica-se imediata e diretamente no plano jurídico
(capacidade jurídica).
 É ainda o que se passa com o n.º 1 do artigo 256.º
do Código Civil, cuja primeira parte estabelece que «a
declaração negocial extorquida por coacção é
anulável» - a anulabilidade é, como adiante se
explicitará, uma forma de invalidade – a outra é a
nulidade. Este preceito esgota, assim, a sua
estatuição no plano jurídico: estatui uma
consequência jurídica («é anulável») para
determinada situação que se venha a verificar
(«declaração negocial extorquida por coacção»),
sendo que os efeitos que tal estatuição possa
provocar na vida social são meramente reflexos.
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 # Normas imperativas, permissivas, supletivas e interpretativas #  A norma é imperativa quando
 # Normas imperativas, permissivas, supletivas e
interpretativas #
 A norma é imperativa quando a sua estatuição
impõe determinada conduta, a qual, por haver de ser
obrigatoriamente seguida, constitui um dever –
Quando a conduta imposta se traduz numa acção, a
norma é precetiva. Quando, pelo contrário, se traduz
numa omissão, a norma é proibitiva.
 Como exemplos de normas precetivas temos o n.º 1
do artigo 1323.º do Código Civil «aquele que
encontrar animal ou outra coisa móvel perdida e
souber a quem pertence deve restituir o animal ou a
coisa a seu dono, ou avisar este do achado»; ou o n.º
1 do artigo 1878.º
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 do Código Civil «compete aos pais, no interesse dos filhos, velar pela segurança e
 do Código Civil «compete aos pais, no interesse dos
filhos, velar pela segurança e saúde destes, prover o
seu sustento, dirigir a sua educação, representá-los,
ainda que nascituros, e administrar os seus bens».
 Como exemplos de normas proibitivas temos o artigo
8.º, n.º 1, do Código Civil «o tribunal não pode
abster-se de julgar, invocando a falta ou obscuridade
da lei ou alegando dúvida insanável acerca dos factos
em litígio»; e o n.º 1 do artigo 1360.º do Código Civil
«o proprietário que no seu prédio levantar edifício ou
outra construção não pode abrir nela janelas ou
portas que deitem directamente sobre o prédio
vizinho sem deixar entre este e cada uma das obras o
intervalo de metro e meio».
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 A norma permissiva, como o próprio nome indica, estatui uma permissão, uma faculdade, uma
 A norma permissiva, como o próprio nome indica,
estatui uma permissão, uma faculdade, uma
possibilidade jurídica de acção ou resultado –
Exemplos desta situação temos o n.º 1 do artigo 44.º
da Constituição da República Portuguesa «a todos os
cidadãos é garantido o direito de se deslocarem e
fixarem livremente em qualquer parte do território
nacional»; ou o n.º 1 do artigo 405.º do Código Civil
«dentro dos limites da lei, as partes têm a faculdade
de fixar livremente o conteúdo dos contratos,
celebrar contratos diferentes dos previstos neste
código ou incluir nestes as cláusulas que lhes
aprouver».
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 A norma é supletiva quando só se aplica se as partes não afastarem a
 A norma é supletiva quando só se aplica se as partes não
afastarem a sua aplicação. Trata-se de uma norma
destinada a regular negócios jurídicos, mas que tem a
particularidade de a sua aplicação poder ser afastada por
mera vontade da parte ou partes na celebração do negócio
a cuja regulação se destina.
 Permite-se, assim, que as partes de um negócio jurídico,
ao abrigo do princípio da autonomia da vontade, em
especial na sua vertente da liberdade contratual
estabelecida pelo artigo 405.º, n.º 1, do Código Civil,
possa, estabelecer nos negócios jurídicos por si celebrados
uma regulação distinta da prevista na lei que é, deste
modo, afastada, não se chegando a aplicar
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 àquela situação concreta – note-se que se a norma supletiva não for afastada pelas
 àquela situação concreta – note-se que se a
norma supletiva não for afastada pelas partes,
ela vigora de uma forma imperativa.
 Como exemplos desta situação temos o artigo
878.º do Código Civil «na falta de convenção em
contrário, as despesas do contrato e outras
acessórias ficam a cargo do comprador»; ou o
artigo 1166.º do Código Civil «havendo dois ou
mais mandatários com o dever de agirem
conjuntamente, responderá cada um deles pelos
seus actos, se outro regime não tiver sido
convencionado».
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 A regra interpretativa é aquela que vem esclarecer o sentido e alcance de outra
 A regra interpretativa é aquela que vem esclarecer
o sentido e alcance de outra qualquer disposição com
valor jurídico: lei ou negócio jurídico – neste sentido,
existem regras interpretativas da lei e regras
interpretativas do negócio jurídico.
 Como exemplos de regras interpretativas da lei
salientam-se as definições legais (artigos 349.º,
363.º e 1022.º, entre outros, todos do Código Civil)
ou enunciações legais de categorias compreendidas
num preceito ( cfr. artigos 1.º e 1363.º, n.º 1, do
Código Civil); As normas interpretativas de negócio
jurídico são, na maior parte dos casos,
simultaneamente supletivas (cfr. artigos 2262.º e
2263 do Código Civil).
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 # Normas gerais, especiais e excecionais #  Esta distinção resulta de uma análise
 # Normas gerais, especiais e excecionais #
 Esta distinção resulta de uma análise relativa, e está
ligada ao âmbito das respetivas previsões. Assim, a
norma jurídica não é, por si só, geral, especial ou
excecional, tal atributo resulta do seu relacionamento
com outra – Dir-se-á, pois, que a norma X, por
exemplo, é especial em relação à norma Y que, por
sua vez, é geral. Ou que a norma Z é excecional por
referência à mesma norma Y.
 A norma especial é aquela cujo domínio de
aplicação se traduz por um conceito que é espécie em
relação ao conceito mais extenso que define o campo
de aplicação da norma geral e que figura como seu
género.
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 O carácter especial da norma pode resultar de uma das seguintes situações: do território
 O carácter especial da norma pode resultar de uma
das seguintes situações: do território a que se aplica
(especialidade territorial), surgindo assim normas
gerais e locais, consoante vigorem em todo ou
apenas em alguma porção do território nacional; dos
seus destinatários (especialidade pessoal), é o que
sucede por exemplo com as normas de Direito
Comercial que regulam a actividade de uma classe de
indivíduos, os comerciantes; e da matéria que
regulam (especialidade material), por um lado a
norma especial derroga a norma geral e, por outro
lado, a sistematização dos diplomas legislativos com
alguma extensão, nomeadamente o Código Civil,
assenta na relação de
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 especialidade material existente entre as suas normas.  Uma norma diz-se excecional em relação
 especialidade material existente entre as suas
normas.
 Uma norma diz-se excecional em relação a outra,
considerada geral, quando o seu regime é, sob os
mesmos pressupostos, distinto ou oposto ao que esta
última estabelece – as normas em causa, a geral e a
excecional, estabelecem regimes distintos, de tal
modo que o regime da hipótese excecional se resolve
na aplicação da norma excepcional, com exclusão do
regime fixado para as demais hipóteses do mesmo
género pela norma geral.
 A caracterização da norma como excepcional, tem
grande importância prática, veja-se o artigo 11.º do
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 Código Civil «as normas excecionais não comportam aplicação analógica, mas admitem interpretação
 Código Civil «as normas excecionais não comportam
aplicação analógica, mas admitem interpretação
extensiva».
 As normas gerais, como o próprio nome indica, são
susceptíveis de serem aplicadas em todas as
situações e a todos os sujeitos, desde que se
enquadrem na sua previsão.
 # Normas ordenadoras e normas sancionatórias
#
 Uma norma sancionatória decorre do efeito jurídico
constante da estatuição de uma norma, que só atuará
em caso de violação de uma norma pré-existente -
que
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 será a norma ordenadora (descreve comportamentos ou atos admissíveis e não admissíveis).  Como
 será a norma ordenadora (descreve comportamentos ou
atos admissíveis e não admissíveis).
 Como exemplo de uma norma ordenadora temos o n.º 1
do artigo 24.º da Constituição da República Portuguesa «a
vida humana é inviolável». Como uma das correspetivas
normas sancionatórias temos o artigo 131.º do Código
Penal «quem matar outra pessoa é punido com pena de
prisão de 8 a 16 anos» - Como facilmente se pode
constatar, a previsão desta última norma («quem matar
outra pessoa») traduz a violação da primeira; e é na sua
estatuição («é punido com pena de prisão de 8 a 16 anos»)
que está consagrada a sanção para aquele que matar
outrem.
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