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A última do Papagaio.

Um britânico descobriu que sua namorada tinha um amante graças às


indiscrições de seu papagaio. Chris Taylor, de 30 anos, um programador de
computadores de Leeds, contou que, a cada vez que o telefone celular de sua
namorada, Suzy Collins, tocava, Ziggy, o papagaio, dizia: "Oi, Gary". A
princípio, ele pensou que Ziggy, emérito imitador, havia aprendido a frase
pela TV. Suzy negava conhecer algum Gary, e Taylor não suspeitou de nada
nem mesmo quando o pássaro começou a imitar o barulho de beijos ao
escutar a palavra "Gary" no rádio ou na TV. Uma noite em que Taylor e Suzy
beijavam-se no sofá, o pássaro disse, numa voz idêntica à da moça: "Eu te
amo, Gary". Suzy confessou então que estava tendo um caso com um ex-
colega chamado Gary. À mídia, ela declarou que a relação com Taylor não ia
bem: "Ele passava mais tempo falando com o papagaio do que comigo". Taylor
acabou vendendo Ziggy para uma loja de animais de estimação. Isso porque o
programador de computadores não conseguiu desprogramar o papagaio do
hábito de dizer, imitando sua ex-namorada, o nome do sujeito que foi o pivô
do fim do romance.
Folha Online, 17 de janeiro de 2006
Ah, Ziggy, Ziggy. Viu o que você foi fazer? Como muitas pessoas, Ziggy, você
repete bem aquilo que ouve, mas você não pensa no que diz. Ali estava você,
com o Taylor, um dono exemplar, um dono que lhe adorava, tanto que
preferia falar com você a falar com a namorada, Suzy. Ela, aliás, se queixava
disso, e lá pelas tantas começou a ter um caso com um ex-colega. Sim,
tratava-se de infidelidade, coisa condenável, mas de alguma maneira o
arranjo funcionava; em termos de bigamia, a Suzy saía-se bem. Só que ela não
contava com a sua indiscrição, Ziggy.
Você logo aprendeu o nome do namorado secreto dela. Coisa que aliás não
deve ter sido difícil: "Gary", isto é fácil de pronunciar. E é também um nome
comum, tanto que o Taylor pensou que você estava repetindo o que ouvia na
televisão. Mas aí você foi mais longe, Ziggy. Você aprendeu também a imitar o
som de beijos, e, beijando, você dizia, imitando a voz da Suzy: "Eu te amo,
Gary". Mesmo um cara desligado como o Taylor acabaria se dando conta de
que algo estava acontecendo. Lá pelas tantas ele rompeu com a moça.
Apesar disso, você continuava falando no Gary e na Suzy. Você praticamente
obrigou o pobre Taylor a vender você para uma loja de bichos de estimação
(duvido que a esta altura você ainda se enquadrasse, ao menos para ele, na
categoria de bichos de estimação). Quer dizer: o Taylor acabou sozinho. Foi a
sua última bobagem, Ziggy. A última do papagaio.
Uma pergunta se impõe, Ziggy: por que é que você fez isso? Você queria
alertar o Taylor? Você queria debochar dele? Ou será que você estava
apaixonado pela Suzy e queria se exibir para ela?
Mistério, Ziggy. Mistério. Temos de confessar: a alma dos papagaios continua
sendo, para nós, humanos, território desconhecido. Se houvesse um
psicanalista de aves, talvez o enigma fosse decifrado. Difícil, porém: você
ficaria repetindo todas as interpretações do terapeuta.
Mas a gente pode dar um conselho a você, Ziggy. Se você puder fugir da
gaiola, atravesse o Atlântico voando e venha para o Brasil. Aqui você se
transformará num personagem de anedota. Ninguém levará você a sério. O
que será melhor para você e para todo mundo.
Folha de São Paulo (São Paulo) 23/1/2006

A ópera dos camundongos


Camundongo pode cantar, afirma estudo. Os camundongos machos se põem a
vocalizar quando as fêmeas estão presentes. Emitem melodias relativamente
complexas, que parecem variar de indivíduo para indivíduo. Folha Ciência, 1º
de novembro de 2005
Tão logo constatou-se a surpreendente habilidade dos roedores, foi
organizada - mediante a colaboração de cientistas e músicos - uma espécie de
companhia lírica, formada só de ratos de laboratório. E o espetáculo que
apresentam tem feito sucesso no mundo inteiro. O mesmo sucesso que faziam
Mickey e Minnie nos velhos tempos.
Trata-se de uma ópera em três atos. Depois da abertura, surge no pequeno
palco o personagem principal, o jovem Pancrácio, vivido por um elegante
camundongo branco. Pancrácio entoa a bela ária "Por um Pedaço de Queijo".
O título, aliás, é um pouco enganador; pensamos que o jovem está atrás do
alimento classicamente preferido pela rataria, mas o que em verdade ele nos
diz é que "...Não há queijo, por maior que seja seu calórico valor/ que possa
ser comparado/ às delícias do amor". Pancrácio está apaixonado por Lucinda,
uma linda e meiga ratinha. Que corresponde por inteiro à sua paixão: do
balcão do palácio, ela responde com a canção "O Focinho do Meu Amado É a
Imagem da Beleza".
Este romance, porém, encontra um obstáculo. Dom Ratone, o tirânico pai de
Lucinda, não gosta de Pancrácio, que é de origem humilde. Quer que a filha
case com alguém da mais alta estirpe murina; para isto, contudo, é preciso
acabar com a paixão dos jovens. Dom Ratone chama seus asseclas e
determina-lhes que espalhem ratoeiras ao redor do palácio, para assim
capturar aquele que considera como intruso. O feitiço vira contra o feiticeiro.
Inadvertidamente o próprio Dom Ratone cai em uma das armadilhas. Ali corre
risco de vida, porque os camponeses da região estão determinados a
exterminá-lo: Dom Ratone é um conhecido assaltante de celeiros. Um homem
o avista e corre em direção à ratoeira para liquidar o bicho -mas no último
momento Pancrácio aparece e consegue salvar o pai de sua amada.
Arrependido, Dom Ratone concede-lhe a mão (ou a pata, melhor dizendo) de
sua filha e a ópera termina com o belo coral "Como É Belo o Amor dos
Camundongos".
Como foi dito, o espetáculo tem atraído enorme público. Mas há um
problema: cada vez que aparece um gato na platéia a companhia lírica inteira
desaparece do palco. E aí o jeito é devolver os ingressos para o público.
Folha de São Paulo (São Paulo) 07/11/2005

Monkey Business
Pinturas de macaco alcançam R$ 61 mil. Três quadros feitos pelo chimpanzé
Congo foram arrematados em leilão pelo norte- americano Howard Hong.
Mundo, 22.06.2005
Ao saber da compra feita por Hong (Hong! Só Hong! Nem era o King Kong!),
ele teve um ataque de fúria. Há anos pintava, há anos dedicava-se
integralmente à arte -e não conseguia vender quadro algum, ainda que seus
quadros fossem (como os de Congo, aliás) fortemente abstratos. É o fim da
arte, disse à mulher:
- Até um chimpanzé vende quadros. Os verdadeiros artistas não contam, não
têm vez. Para os macacos, dinheiro. Para os pintores como eu, uma banana.
Banana podre, ainda por cima.
Mas aquilo acabou dando-lhe uma idéia. Porque também tinha um macaco em
casa. Não um chimpanzé, para o qual não haveria espaço; seu macaco era um
mico chamado Cafuá, um macaquinho pequeno e muito esperto, que chamava
a atenção dos raros visitantes do ateliê. Na verdade, era muito mais
conhecido como o dono do Cafuá do que como artista. Por que não tirar
proveito disso? Por que não repetir o caso Congo?
Procurou um jornalista conhecido e contou uma história. Disse que, no dia
anterior, ao chegar em casa, encontrara o mico macaqueando o dono: pincel
e paleta nas mãos, pintava um quadro. Um quadro abstrato, naturalmente,
mas que nada ficava a dever às obras do Congo. O jornalista, sem assunto,
resolveu fazer uma matéria a respeito, com fotos de Cafuá e do quadro.
No dia seguinte choveram telefonemas no ateliê. Muitas pessoas, que sabiam
da história do chimpanzé Congo, e acreditando num bom investimento,
queriam comprar o quadro. Que foi vendido por uma boa quantia.
A partir daí ele não teve mãos a medir. Qualquer quadro que Cafuá
supostamente pintasse tinha comprador. Mais que isso, uma galeria
especializada organizou, em parceria com uma cadeia de pet shops, uma
grande exposição chamada "Arte Macaca", que até foi levada a Miami, onde
recebeu o título, mais conveniente, segundo o empresário americano que se
encarregou da operação, de "Monkey Business", negócio de macaco.
O artista poderia ter mantido esta situação durante muito tempo, não fosse
uma infeliz idéia que, numa tarde, lhe ocorreu. Resolveu dar pincel e tinta a
Cafuá para ver se o macaco sabia mesmo pintar. Sem vacilar, o mico correu
para uma tela e ali, em questão de horas, retratou seu dono ao estilo
renascentista, com uma perícia e uma sensibilidade que deixariam Leonardo
da Vinci boquiaberto.
O artista agora vive um grande dilema. Se mostrar o quadro, ninguém
acreditará que a obra é de Cafuá. E se não o mostrar privará o mundo de um
grande talento.
Poderia, claro, assumir ele próprio a autoria das obras; mas isso não seria
justo para com o talentoso mico. E, de qualquer jeito, ninguém lhe daria
importância -como importância alguma lhe haviam dado no passado. Só lhe
resta alimentar Cafuá com as melhores bananas que encontra no super. E
pedir-lhe desculpas diariamente.
Folha de São Paulo (São Paulo) 27/06/2005

A mão no metrô
Metrô: Pesquisa aponta que 66% dos passageiros acham muito ruim ou ruim a
prevenção contra as investidas nos vagões. As queixas femininas mais comuns
envolvem as "encoxadas" e a "mão-boba". Folha Cotidiano, 05.09.2005
Assim que o metrô chegou ela preparou-se para incomodação. Porque o vagão
estava cheio, completamente lotado, e ela já sabia o que a esperava tão logo
embarcasse: sem demora, algum homem, ou vários homens, encostariam
nela, tentando tirar proveito da situação. Mulher ainda jovem, bonita, estava
sujeita a essas situações, que a deixavam indignada. Mas, como outras
usuárias na mesma situação, resignava-se. Era, achava, o preço que tinha de
pagar por ser pobre, por não ter carro, como outras colegas de escritório.
Pensou em não entrar, em esperar outro metrô mais vazio. Mas já era tarde, e
ela precisava ir para casa. Num impulso, entrou, e imediatamente viu-se na
clássica posição de sardinha em lata, imprensada entre corpos, vários deles
masculinos. Só faltava a mão.
Que não tardou a se fazer presente. Aos poucos, suavemente, ela sentiu a
pressão de dedos sobre seu corpo.
Mas, surpreendentemente, aquilo não a enojou, não a alarmou. Porque era
diferente, o contato daquela mão. Não se tratava de uma "mão-boba"; não
havia malícia naqueles dedos, não havia safadeza. Para começar, eles
estavam em lugar neutro, não nas nádegas, não nas coxas, mas nas costas, as
costas que ela tinha doloridas depois de um dia de árduo trabalho. E a mão
não estava em busca de prazer, de sacanagem; estava simplesmente pousada,
quieta. Como se dissesse estou em busca de contato humano, é só isso que eu
quero.
Ela poderia olhar ao redor, tentar descobrir quem, daqueles homens e
mulheres à sua volta, estava a tocá-la. Mas não queria fazer isso. A verdade é
que a gentil mão não a incomodava. Pelo contrário, fazia com que lembrasse
uma passagem na infância, o dia em que o pai a levara à escola pela primeira
vez. Tinham também ido de metrô; ela estava assustada, chorosa. O pai então
colocara-lhe a mão nas costas, como a ampará-la, dizendo qualquer coisa do
tipo "não chore, a escola é boa, você vai gostar". E ela se acalmara, não tanto
por causa das palavras, mas pelo contato da mão paterna. E era a mesma
sensação que tinha agora: a sensação de amparo, de conforto.
Estava chegando, precisava descer. Como se houvesse percebido, a mão,
discretamente, retirou-se de seu dorso. A porta se abriu e ela saiu do vagão.
Ainda teve a tentação de olhar para trás, mas resistiu. Não queria associar
nenhum dos rostos que ali estavam com a mão que a tocara. Queria, isto sim,
guardar a lembrança dessa mão como uma entidade misteriosa que, de algum
modo, a fizera viver uma estranha e perturbadora aventura.
Folha de São Paulo (São Paulo) 12/09/2005

Continente e conteúdo
Uma frase pronunciada pelo presidente Lula durante um jantar na embaixada
do Brasil em Tóquio quase provocou outra tensão diplomática entre Brasil e
Argentina. O principal jornal do país vizinho, o "Clarín", reproduziu
informações da coluna do jornalista Fernando Rodrigues, na Folha, de que o
presidente brasileiro disse a interlocutores que "temos de ter saco para aturar
a Argentina". A frase, entretanto, foi traduzida pelo diário como "hay que
tener bolas para bancar a los argentinos", o que pode ser interpretado não no
sentido que tem a expressão em português, de ter paciência, mas sim algo
parecido com "temos de ser machos para agüentar os argentinos". Folha
Brasil, 31.05.2005
Como atesta qualquer tratado de embriologia, os testículos nascem em um
recôndito lugar do abdome, mais precisamente junto aos rins. Ali poderiam
ficar, desempenhando tranqüilamente sua função de gerar os
espermatozóides que darão continuidade à espécie. Mas, por alguma razão, os
testículos (e nisso, como no resto, embora sendo dois estão sempre de
acordo) não se resignam com tal posição anatômica, por eles considerada
incompatível com a dignidade de órgãos que, afinal, representam a
masculinidade. Junto aos rins, junto às tripas? Jamais. De modo que trataram
de migrar. Num movimento tipo invasões bárbaras, começaram a descer
abdome abaixo. Queriam mais luz. Queriam visibilidade, queriam exposição.
Queriam criar uma imagem própria, porque, como se sabe, imagem é tudo.
Para desagradável surpresa de ambos, contudo, não ficaram à mostra como
acontece com os seios. Foram dar, literalmente, num "cul-de-sac", num fundo
de saco, e, pior ainda, num engelhado saco de pele conhecido como escroto,
palavra de óbvia conotação pejorativa.
A fúria de ambos foi enorme, e eles a despejaram no alvo mais próximo e
mais inerme, exatamente o tal saco escrotal. Você é um saco, diziam sem
cessar, você não passa de um medíocre desmancha-prazeres. O pobre escroto
nada respondia. Estava acostumado a um papel subsidiário na anatomia;
apenas obtinha algum consolo quando o seu dono -mas só quando não tinha o
que fazer -coçava-o distraidamente (e nisso, ao contrário do que diziam os
testículos, parecia obter certa satisfação).
De dentro do seu modesto invólucro, os testículos continuam se gabando:
somos muito machos, repetem a todo instante, não temos paciência com os
perdedores. E prometem que um dia virão à luz, proclamando ao mundo seu
poder hegemônico sobre o continente.
Haja saco para aturar esses caras, pensa o escroto. Pensa, apenas. Saco,
como se sabe, não fala.
Folha de São Paulo (São Paulo) 06/06/2005

Prato raro
Uma trufa branca foi vendida por 95 mil euros (R$ 240 mil) em um leilão na
Itália. A trufa branca é um tipo de cogumelo raro que cresce abaixo da
superfície e é muito valorizada por gourmets do mundo inteiro. Foi adquirida
pelo telefone por um comprador em Hong Kong. Folha Online, 14 de novembro
de 2005
Depois de insistentes pedidos, o comprador da trufa finalmente concordou em
saborear a iguaria em público. O salão de um refinado restaurante foi locado
especialmente para isso; no dia, diante de convidados especiais e de
jornalistas, o homem tomou assento, sozinho, à mesa onde faria a tão
esperada refeição.
Antes que esta fosse servida, colocou-se à disposição da mídia para perguntas.
Estas vieram em rápida sucessão, e a todas o anfitrião respondia gentilmente;
finalmente, um repórter mais contestador perguntou-lhe como se sentia
depois de ter gasto na trufa uma quantia que poderia sustentar várias famílias
por um longo período, na África ou na América do Sul.
Outro talvez se irritasse com a questão, mas o homem, um conhecido
milionário, apenas sorriu. Disse que um prato famoso equivale a uma obra de
arte. Se outros podem pagar fortunas por quadros ou esculturas, argumentou,
eu também posso gastar o dinheiro, que afinal é meu, numa lendária trufa
branca. O repórter quis prosseguir no debate, mas o mestre-de-cerimônias
anunciou que a bandeja estava sendo trazida e que a histórica refeição teria
início. Outras perguntas ficariam para o final.
Um garçom de luvas brancas trouxe uma travessa de prata. Ali estava a
famosa trufa, uma espécie de massa branca, informe. Antes de começar a
refeição, o milionário fez um pequeno discurso. Contou que era filho de gente
muito pobre e que, com muito trabalho e persistência, tinha conseguido subir
na vida. A trufa que estava diante dele era o símbolo de seu triunfo. Nunca
tinha comido aquilo, mas sempre ouvira dizer que as trufas estavam para a
culinária como os diamantes para as pedras preciosas. Aquele prato era,
portanto, o ápice de seu triunfo, que agora seria presenciado por todos.
Educadamente, perguntou se alguém estava servido. Todos agradeceram e
ele, diante das lentes dos fotógrafos e dos cinegrafistas, empunhou o garfo e
a faca, ambos de prata. Cortou um pequeno pedaço da trufa, levou-o à boca e
por uns segundos mastigou-o concentradamente, todos ao redor observando-o
com ansiedade.
E aí o inesperado: o homem fez uma careta e cuspiu no prato os restos de
trufa.
- Que coisa ruim! -gemeu. - Nunca provei comida pior em toda minha vida!
Voltou-se para o garçom:
- Faz favor, traz um cachorro-quente e um refrigerante diet.
E antes que o homem se afastasse para atender ao pedido, completou:
- O cachorro com bastante mostarda.

Fim de jornada
1. No elevador
Já tem mais de 16 mil membros uma comunidade do Orkut chamada "Eu tenho
medo do mesmo". A plaquinha que ilustra a página explica do que se trata:
"Antes de entrar no elevador verifique se o mesmo encontra-se parado neste
andar." Folha Ilustrada (Monica Bergamo), 17.mai.2005
Não sei como vocês imaginam a morte, mas uma possibilidade é esta:
Um homem vai tomar o elevador. É um homem de meia idade, obeso,
fumante, sedentário, hipertenso, e portanto sujeito a riscos; de fato está
saindo de um consultório médico, onde foi por causa de dores no peito e onde
recebeu sérias advertências. Mas o homem não tem medo do coração; ele tem
medo é do elevador, pois foi assim que seu pai morreu, caindo no poço de um
elevador que não se encontrava parado no andar. Isto, claro, não acontece
com o elevador que ele toma; o mesmo certamente encontra-se parado
naquele andar.
Tão logo entra, porém, uma sensação de estranheza apossa-se dele. Não
reconhece a cabine onde está; não é a mesma na qual subiu. Mais: como se
tivesse vontade própria, o elevador começa a subir. Ele quer detê-lo, procura
o painel dos botões, mas não há botões, não há painel. Nem porta existe
mais. É uma espécie de caixa, agora nota, forrada de veludo vermelho. Como
se fosse um caixão? É. Como se fosse um caixão.
A dor volta, intensa, avassaladora. O elevador sobe, sobe. Ele deveria estar
muito angustiado, mas não está; sente-se resignado.
O que tinha de fazer, fez: certificou-se de que o mesmo estava parado no
andar. Agora é ver o que acontece. Há certo consolo nisto: pelo menos vai
encontrar o Grande Ascensorista. O único que decide quando o mesmo já não
é mais o mesmo.
2. Na marcha
Sem-terra: fim da marcha separa casais de namorados. Folha Brasil,
19.mai.2005
Eles se conheceram durante a marcha. Ele, de Minas Gerais, ela de
Pernambuco, foi um caso de amor à primeira vista. Daí em diante não se
separaram mais: durante o dia, marchavam juntos, de mãos dadas. As noites,
na precária barraca, eram de intensa paixão. Os outros sem-terra os miravam
com admiração, com afeto, e até com alguma inveja: quem diria que amor
assim ainda existe, comentavam.
Mas tudo chega ao seu fim, inclusive as marchas. Cada vez estavam mais
próximos de Brasília, onde faria a demonstração final mas de onde cada um
teria de voltar para sua terra.
Para ela esta separação era apenas transitória. Filha de um lendário líder
camponês, herdara do pai uma confiança inabalável num mundo melhor, um
mundo baseado no ideal e também nos sentimentos mais puros, como aquele
que os unia. De modo que era otimista: haveriam de se encontrar na próxima
marcha, e na seguinte, e na seguinte. Um dia o sonho da reforma agrária se
realizaria; receberiam um pedaço de terra, onde construiriam uma casinha e
onde, casados, seriam felizes para sempre.
Já ele não tinha tanta certeza disso. Achava que casamento não era nenhuma
garantia; os seus próprios pais tinham se separado depois de muita briga. De
modo que uma dúvida agora o assaltava: valia a pena trocar a paixão surgida
durante a marcha pela rotina de um casamento insípido?
Decidiu que isso era mau negócio. Portanto, na próxima marcha não estaria
presente. Veria os sem-terra na tevê do bar que freqüentava. Talvez avistasse
sua amada. Talvez derramasse até uma furtiva lágrima

Em defesa da barba
Alemanha realiza encontro internacional de barbudos. Barbudos com visual
exótico se reuniram em Berlim, na Alemanha, para participar do Campeonato
Mundial de Barbas e Bigodes. Os pêlos faciais são bastante apreciados por
alemães, tanto que o país tem a Federação Nacional dos Clubes de Barba, que
reúne diversos grupos deste tipo. Em 1996, por exemplo, foi criado o Clube da
Barba de Berlim, que tem como lema a frase "deixe a barba crescer". Este
grupo tem 22 membros que se encontram uma vez por mês para discutir as
melhores formas de cuidar de suas barbas e de organizar eventos. Folha
Online, 1º de outubro de 2005.
Eles eram considerados por todos o casal ideal. Nunca brigavam, viviam na
maior harmonia, estavam sempre rindo um para o outro e trocando carícias.
Mas aí tudo mudou.De repente, ele resolveu deixar crescer a barba. Por que
tomou essa decisão não estava bem claro. Parece que tinha encontrado o
retrato de um bisavô, muito parecido com ele, e que usava uma bela barba
negra. O exemplo o encorajou, e lá pelas tantas ele estava virando barbudo
também. Não se tratava de um discreto cavanhaque, ou de uma bem
cultivada barba. Não, era uma barba de patriarca, de eremita, uma barba
longuíssima, que lhe chegava ao peito.
Muita gente estranhou. Os amigos, naturalmente, e também o diretor da loja
de departamentos onde era chefe de seção: aquilo espantava os fregueses.
Mas ninguém reclamou mais do que a esposa. Para começar, ela não gostava
de homens barbudos; depois, queixava-se, era uma coisa desagradável, que
lhe irritava a pele do rosto. Chegou a ameaçá-lo com uma greve de sexo se o
marido não fosse ao barbeiro raspar a face.
Escusado dizer que nem as críticas nem as ameaças o convenceram. Estava
simplesmente encantado com a barba, cuidava dela, penteava-a
cuidadosamente; porque, segundo dizia, agora sim, tinha descoberto a sua
verdadeira personalidade. E foi então que leu no jornal sobre o Campeonato
Mundial de Barbas e Bigodes, a se realizar na Alemanha. De imediato, decidiu
participar. Não tinha dúvidas de que sua barba seria a vencedora e que ele
traria para o Brasil um grande título. Já sabia até que tipo de penteado faria,
dando aos pêlos o formato de lanças guerreiras. Coisa para entusiasmar o júri.
Quando a esposa soube desse plano, ficou por conta. Já não bastava o vexame
que ele dava na cidade, precisava ir para o exterior? Discutiram longamente,
mas ele não quis nem saber: iria e pronto; já estava até com a passagem
comprada.
Vendo que não conseguiria convencê-lo, ela partiu para a ação. Na noite antes
da partida colocou um comprimido para dormir na comida dele, e enquanto o
marido estava ferrado no sono, cortou-lhe a barba.
Mas ele foi assim mesmo. Com uma barba postiça, que era uma cópia exata de
sua barba verdadeira. Não ganhou prêmio algum, mas voltou contente: pelo
menos tinha reafirmado, perante o mundo e a mulher, o direito à barba.

A guerra dos narizes


Um "nariz eletrônico" desenvolvido por cientistas da Universidade de
Manchester (Reino Unido) pode controlar remotamente o mau cheiro em
depósitos de lixo. "Atualmente, não há nenhum outro acessório sensível o
bastante para monitorar a concentração de cheiros e gases nestes locais.
Geralmente, eles são analisados por voluntários que inalam amostras de ar",
afirma o comunicado da universidade.
Folha Online, 10 de janeiro de 2005
Ele ficou simplesmente mortificado quando soube que a prefeitura da cidade
ia adquirir o nariz eletrônico desenvolvido na Universidade de Manchester.
Não que fosse contra a inovação tecnológica; mas é que, em matéria de nariz,
ele desempenhava uma função importante. Tinha, desde criança, um olfato
notável; onde outros não sentiam cheiro algum, ele era capaz de identificar o
tipo de odor e, mais tarde, depois que se graduou na universidade, até a
substância, ou substâncias, responsáveis pelo referido odor. A partir daí
começou a ser chamado como perito; sempre que alguém se queixava de mau
cheiro nas vizinhanças, era ele quem dava o veredicto final. Agora, porém,
derrotava-o o progresso científico; com o nariz eletrônico, a sua atuação
tornava-se desnecessária.
Uma decisão que não aceitaria passivamente, sem lutar. Conseguiu uma
audiência com o próprio prefeito. Lembrou que sua fama já tinha ultrapassado
as fronteiras do município, do Estado e do próprio país, e que era candidato
até a figurar no "Livro dos Recordes" como a pessoa de olfato mais sensível na
face da Terra. O prefeito reconhecia tudo isso, mas, dizia, a avaliação que ele
fazia sempre seria de caráter subjetivo, sujeita a contestação judicial. Com o
nariz eletrônico, imperaria a neutralidade científica. Ele então se dispôs a
fazer um teste: se o nariz eletrônico detectasse melhor uma substância
escolhida em segredo no laboratório da prefeitura, renunciaria à reivindicação
de manter o cargo, aliás honorífico, mas do qual tinha muito orgulho.
O teste foi marcado para daí a três dias. Quando ele acordou, na manhã
decisiva, teve um choque; sem saber como, sem nenhum sintoma prévio,
tinha contraído um resfriado que o deixava de nariz entupido, com o olfato
reduzido a praticamente zero. E agora? O que fazer? Se pedisse um
adiamento, achariam que estava com medo de competir. Resolveu, pois,
enfrentar o desafio.
A prova foi realizada no auditório da prefeitura, cheio de gente: a mídia
estava toda ali. Um químico trouxe o frasco com a substância de teste. Que
foi submetida primeiro ao nariz eletrônico.
Nada. O aparelho não acusou nada. O técnico responsável disse que um chip
importante tinha queimado e que a troca tardaria umas duas semanas. Aí
colocaram o frasco diante do nariz do desafiante. Gás metano, disse ele, sem
hesitar, e, em meio a aplausos de todos, o prefeito proclamou-o vencedor.
É claro que ele não tinha sentido cheiro algum. Mas há algum tempo vinha
namorando a química-chefe do laboratório. Que naturalmente lhe passou o
segredo. O cheiro do amor chega a qualquer lugar.

Desistindo de Natal
Segundo pesquisa do instituto Ipsos, encomendada pela Associação Comercial
de São Paulo, 32% dos consumidores não pretendem fazer compras neste
Natal. Folha Dinheiro, 9 de dezembro de 2005
"Prezado Papai Noel: há uma semana eu lhe mandei uma carta com a lista dos
meus pedidos para o Natal. Agora estou mandando esta outra carta para dizer
que mudei de idéia. Não vou querer nada. Ontem o papai nos avisou que não
tem dinheiro para as compras do fim de ano. Papai está desempregado há
mais de um ano. A gente mora numa cidade pequena do interior, muito
pobre. No Natal passado, o prefeito anunciou que tinha um presente para a
população: uma grande fábrica viria se instalar aqui, dando emprego para
muitas pessoas. Meu pai ficou animado. Ele é um homem trabalhador, sabe
fazer muitas coisas e achou que com isso o nosso problema estaria resolvido.
Agora, porém, o prefeito teve de dizer que a fábrica não vem mais. Não
entendo dessas coisas, mas parece que a situação está difícil.
Portanto, Papai Noel, peço-lhe desculpas se o senhor já encomendou as
coisas, mas infelizmente vou ter de desistir. Para começar, não quero aquela
bonita árvore de Natal de que lhe falei -até mandei um desenho, lembra?
Nada de pinheirinho, nada de luzinhas, nada de bolinhas coloridas. A verdade,
Papai Noel, é que essas coisas só gastam espaço e, como disse a mamãe,
gastam muita luz.
E nada de ceia de Natal, Papai Noel. Nada de peru. Como eu lhe disse, nunca
comi peru na minha vida, mas acho que não vai me fazer falta. Se tivesse
peru, eu comeria tanto que decerto passaria mal. Portanto, nada de peru.
Aliás, se a gente tiver comida na mesa, já será uma grande coisa.
Nada de presentes, Papai Noel. Não quero mais aquela bicicleta com a qual
sonho há tanto tempo. Bicicletas custam caro. E além disso é uma coisa
perigosa. O cara pode cair, pode ser atropelado por um carro... Nada de
bicicleta.
Nada de DVD, Papai Noel. Afinal, a gente já tem uma TV (verdade que de
momento ela está estragada e não temos dinheiro para mandar consertar),
mas DVD não é coisa tão urgente assim.
Também quero desistir da roupa nova que lhe pedi e dos sapatos. A minha
roupa velha ainda está muito boa, e a mamãe vai fazer os remendos nos
rasgões. E sapato sempre pode dar problema: às vezes ficam apertados, às
vezes caem do pé... Prefiro continuar com meus tênis e o meu chinelo de
dedo.
Ou seja: nada de Natal, Papai Noel. Para mim, nada de Natal. Agora, se o
senhor for mesmo bonzinho e quiser nos dar algum presente, arranje um
emprego para o meu pai. Ele ficará muito grato e nós também. Desejo ao
senhor um Feliz Natal e um próspero Ano Novo."
Folha de São Paulo (São Paulo) 19/12/2005

Os dilemas da Fortuna
Uma americana de 55 anos ganhou duas vezes na loteria no espaço de cinco
meses no Estado da Pensilvânia -uma coincidência cuja chance de acontecer é
de 1 em 419 milhões. Donna Goeppert ganhou US$ 1 milhão (R$ 2,43 milhões)
em cada vez que foi premiada pela loteria da Pensilvânia. Folha Online,
16.06.2005
Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas a chance de
acertar duas vezes na loteria não deve ser muito maior. Quando isso
aconteceu, ela ficou simplesmente estarrecida, mesmo porque não era uma
pessoa particularmente afortunada: ao contrário, ela e o marido levavam uma
vida modesta, no interior, lutando com dificuldades. Agora, porém, tudo
mudava: 1 milhão de dólares, e mais 1 milhão de dólares -duas vezes
milionária ela podia pensar em se aposentar, em deixar de trabalhar, em
passar o resto de seus dias gozando a vida.Não era o que pensava o marido.
Logo depois da notícia do prêmio ele ficara muito contente. Em seguida,
porém, começou a se mostrar inquieto. Homem dado a certas especulações
esotéricas, acreditava que aquilo não era acaso, mas sim um desígnio do
Destino. Há um recado aí, repetia constantemente à mulher. Um claro
recado, para ele: a mulher deveria apostar de novo. Quem tinha ganhado duas
vezes seguramente ganharia uma terceira vez. Mais: ele passou a acreditar
que a mulher, para quem aliás nunca dera muito bola, era uma criatura
especial. Aquele tom meio esverdeado de sua pele, aqueles olhos
esbugalhados, os cabelos que - por causa do curioso penteado - pareciam duas
antenas, aquilo não apontaria para uma certa origem misteriosa? Não seria ela
uma alienígena, uma Supermulher, deixada ainda bebê na maternidade do
lugarejo, em lugar de outra menina qualquer? Ela deveria jogar na loteria,
sim. Jogaria e ganharia. Mesmo porque, como ele deixava claro, não se
tratava só de dinheiro. Ganhando três vezes na loteria ela deixaria de ser
apenas uma pessoa de sorte, passaria a ser uma mulher abençoada,
prodigiosa. E aí mil possibilidades surgiriam: ela poderia, por exemplo, dar
início a uma nova seita (para a qual ele já tinha até um nome: a Falange dos
Afortunados). Poderia fornecer franchising para videntes e adivinhos. Poderia
começar uma carreira política, chegando, sem dúvida, à Presidência da
República: quem deixaria de votar numa mulher capaz de prever o resultado
de qualquer guerra?
Os argumentos do marido deixavam-na apreensiva. Por ela, nunca mais
chegaria sequer perto de uma lotérica. Mas sabe que ele ainda dá as cartas.
Não escapará, portanto: um dia terá de apostar de novo. Se isso for realmente
inevitável, sabe o que fazer: usará seus 2 milhões de dólares para comprar
bilhetes de loteria. Um deles forçosamente terá de ser premiado. O Destino
não pode ser tão ruim assim.
Folha de São Paulo (São Paulo) 20/06/2005

O juiz no divã
A maioria dos juízes precisa de tratamento psicológico. A Federação Paulista
de Futebol encomendou ao Incor estudo inédito e de resultado revelador: 58%
dos árbitros de São Paulo apresentam algum problema, sobretudo por
estresse. Folha Esporte, 5 de março de 2006.Tudo começou quando ele notou
que, ao entrar em campo, ele ficava trêmulo, suava abundantemente, tinha a
impressão de que ia desmaiar. Isto é dos nervos, disse a mulher, que entendia
dessas coisas. E era verdade. Juiz de futebol há mais de 20 anos, ele
enfrentara numerosos conflitos e até agressões. Sempre se saíra bem.
Agora, porém, a situação mudara e comprometia até o seu trabalho. Tinha,
portanto, de tomar alguma providência. Recomendaram-lhe psicanálise.
Lembrou-se de um vizinho que, depois de exercer o magistério, tornara-se
analista, meio que por conta própria. Foi procurá-lo e começou o tratamento.
Melhorou, mas mesmo assim, cada vez que entrava em campo era aquele
pavor. Acabou por decidir: só apitaria uma partida acompanhado por seu
terapeuta. Que, embora relutante, concordou em aceitar a proposta.
Convencer a federação foi igualmente difícil, mas, considerando que se
tratava de um juiz veterano e dedicado, resolveram abrir uma exceção. Mais
confortado, ele se sentiu preparado para enfrentar o desafio. Que ocorreria
no domingo seguinte e não seria pequeno: tratava-se de uma partida entre
dois times importantes, clássicos rivais.
Tudo correu bem, até que, aos 40 minutos do segundo tempo, ele apitou um
pênalti. Duvidoso, na verdade, até para ele: achava que tinha visto o zagueiro
fazer falta no centroavante adversário, mas o time inteiro protestava em altos
brados contra o que consideravam uma injustiça. Sentindo o estresse crescer
de maneira perigosa, interrompeu o jogo e mandou chamar o analista. Um
divã foi colocado na pequena área e de imediato teve início a sessão: ele
queixando-se do zagueiro, um homem brutal. Sim, disse o analista, mas há um
detalhe que você não está levando em consideração. Qual, perguntou o juiz
intrigado.
Ele tem o mesmo nome de seu pai.
Era verdade, como o juiz constatou, surpreso. O analista prosseguiu: eu acho
que no fundo você está agredindo o homem com quem você sempre teve um
conflito.
O juiz quis saber a causa de tal conflito. O analista respondeu que isso
demandaria uma longa investigação, de anos, talvez.
Anos? Dificilmente a partida poderia ser suspensa por tanto tempo. O juiz
manteve o pênalti. Ouviu as ofensas habituais, mas resignou-se. Um dia ele
entenderia e aceitaria, aquelas coisas. E aí poderia trilar o apito final, dando
por encerrado o tratamento.
Folha de São Paulo (São Paulo) 13/03/2006

O segundo dia do novo ano


2 de janeiro de 2006 (data que figura na Folha e em vários outros jornais no
dia de hoje).
Até o Juízo Final, os dias continuarão se sucedendo, o amanhecer seguindo-se
à noite. Portanto, se hoje não for dia 2 de janeiro de 2006, desconsidere a
epígrafe aí em cima e prepare-se para colocar nos braços da Grande Balança
os seus pecados e suas virtudes. Mas, se como quase todos esperam, o
calendário seguiu seu curso, chegamos ao segundo dia do ano.
Que é, como se sabe, muito diferente do primeiro dia do ano, tão diferente
como é a segunda-feira do domingo. Esta coincidência, aliás, torna 2006
particularmente interessante. E, como dizem os chineses, Deus nos livre dos
anos interessantes. Os chineses devem saber das coisas; afinal, não é por nada
que crescem 9% ao ano.
O primeiro dia do ano é um clímax. Aquela festança, as taças de champanhe
se elevando no ar, a alegria esfuziante, os beijos apaixonados. O segundo dia
é um anticlímax: dia de voltar ao trabalho, dia de enfrentar a realidade:
salários baixos, juros altos, ameaça de desemprego, CPIs. O primeiro dia do
ano é ficção, e ficção hollywoodiana: tudo dá certo, o amor é belo, o final é
feliz. O segundo dia é a realidade: as manchetes de jornais anunciando os
acidentes, as violências. O primeiro dia do ano nos dá presentes; o segundo,
cobra a conta.
O segundo dia do ano lembra uma clássica historinha. Trata-se de um rapaz
solteiro que voltou de uma festa completamente bêbado. Quando acorda,
deitado numa cama que não é a sua, num apartamento que não é o seu, leva
um tremendo susto: deitada a seu lado está uma moça, profundamente
adormecida. Uma moça bonita, até - só que ele não sabe de quem se trata.
Durante alguns minutos ele hesita: será que deve se mandar, sair
disfarçadamente? Mas isso não seria delicado, nem justo. Além disso, ele é
dos que acreditam nos desígnios do Destino. De modo que desperta a jovem e
pergunta-lhe o que aconteceu. Surpresa, ela diz que se conheceram numa
festa, na noite anterior, que se apaixonaram instantaneamente e que vão
casar justamente neste dia que começa. E aí está a questão: será que foi este
o melhor desfecho para a festa? Ou teria sido melhor para ele acordar na sua
estreita cama de solitário?
Dúvida semelhante apossa-se de muitos de nós no dia 2 de janeiro. Ainda bem
que existe um dia 3, não é mesmo? Ainda bem.
Folha de São Paulo (São Paulo) 2/1/2006

A traição dos confetes


Nem só de confete e serpentina é feito o Carnaval. Para quem quer aproveitar
o primeiro feriado prolongado do ano, mas não está nem um pouco
interessado em enfrentar multidões, calor, barulho e ambientes geralmente
embalados a muita bebida alcoólica e pouca moderação, o melhor mesmo é se
manter bem longe da folia.
Folha Equilíbrio, 9 de fevereiro de 2006
Longe da folia: este era o lema de dona Francelina. Ela era dessas pessoas que
detestam Carnaval, por causa da zoeira, da confusão e, claro, da imoralidade.
Muito religiosa, dona Francelina desaprovava o relaxamento de costumes que
acompanha o chamado tríduo momesco, uma época de vício e de pecado. Se
pudesse, sairia da cidade, iria para a serra, para um spa, ou mesmo para a
pacata cidadezinha do interior em que nascera. Mas não podia, por uma
simples razão: ela e o marido, Ernesto, eram muito pobres. Ele, auxiliar de
escritório, ela, costureira, mal ganhavam para se sustentar, e isso que não
tinham filhos. O jeito, portanto, era ficar na capital e agüentar o barulho, que
não era pouco.
Diferente da esposa, seu Ernesto era um carnavalesco nato. Desde criança
participara em bailes infantis, sempre fantasiado; adorava desfiles, gostava
de sambar. Mas não podia fazê-lo, claro, por causa da mulher. Ela jamais o
admitiria. De modo que seu Ernesto carregou esta frustração por muitos anos.
Até que a própria Francelina, por assim dizer, resolveu o problema.
Ela se queixava de que não podia dormir nas noites de Carnaval, por causa do
barulho, e assim começou a tomar soporíferos. Caía num sono profundo, tão
profundo que o marido tinha de sacudi-la por muito tempo até que acordasse.
E isso lhe deu uma idéia: começou a aproveitar a oportunidade para sair de
mansinho e ir a um salão não muito distante, onde caía no samba. Quando
voltava para casa, tomava todas as precauções para que a esposa de nada
desconfiasse: banhava-se, botava o pijama, deitava-se, fingia-se
profundamente adormecido.
Isso poderia ter durado muito tempo, não fosse o fato de Ernesto enxergar
mal. E como enxergava mal, não viu dois confetes em sua camisa. Mas dona
Francelina, que tinha boa visão, viu os tais confetes e perguntou a respeito. O
marido explicou que aquilo nada tinha a ver com bailes, que uns garotos lhe
tinham jogado confetes na rua quando voltava para casa.
Não se sabe se dona Francelina acreditou ou não. O fato é que Ernesto está
disposto a ir a um baile de Carnaval -mas realizado em um salão onde não se
use confetes. Que, como se sabe, têm uma natural vocação para a traição.
Folha de São Paulo (São Paulo) 27/2/2006

Falemos de feios famosos


Em época de Copa do Mundo, só se fala em futebol, visto inclusive pelos
aspectos mais inusitados. Entrem, por exemplo, no site
www.uglyfootballers.com e vocês encontrarão uma seleção dos jogadores
mais feios do mundo. Ali estão, por exemplo, Carlos Valderrama, da
Colômbia, e Diego Maradona, da Argentina. O Brasil está representado por
dois craques: Sócrates (que nisto equivale a seu homônimo filósofo; ver mais
adiante) e Ronaldo Nazário. Agora, a pergunta: mesmo que Maradona e
Ronaldo sejam feios (e muitas mulheres discordarão disso) será que o detalhe
tem importância?
***
Provavelmente não. "As muito feias que me perdoem/ mas a beleza é
fundamental", proclamou Vinicius de Moraes, que, no entanto, não escreveu
nenhum poema dedicado aos feios, ou aos muito feios. Homem,
aparentemente, não precisa ser bonito, homem, continua este raciocínio que
não deixa de ter um componente machista, compensa uma aparência
desagradável com inteligência, com energia, com iniciativa. De qualquer
modo, porém, a história registra alguns personagens que ficaram conhecidos
pela feiúra. O primeiro deles é o filósofo Sócrates. "Conhece-te a ti mesmo",
dizia ele, mas isto certamente não incluía olhar-se no espelho, o que, no caso
desse homem, certamente não seria uma coisa muito agradável. Um outro
filósofo, este contemporâneo, que também ficou conhecido pela feiúra, foi
Jean-Paul Sartre. Isto não impediu que ele conquistasse Simone de Beauvoir e
várias outras fãs do existencialismo.
Na ficção, e sobretudo na ficção francesa, aparecem alguns personagens que
se celebrizaram pela aparência desagradável. O primeiro deles é,
naturalmente, o corcunda de Notre Dame. Quando a história de Quasímodo foi
transposta para a tela pela primeira vez, vivida pelo grande ator Charles
Laughton, foi necessária uma verdadeira façanha de maquiagem para mostrar
a estranha figura. Mais fácil foi encenar Cyrano de Bergerac, de Edmond
Rostand, vivido por Gerard Depardieu. É que a feiúra de Cyrano estava no
descomunal nariz, e nariz postiço, para o cinema, nunca foi problema.
***
A peça de Rostand, escrita em 1897, baseava-se num personagem real,
Savinien Cyrano de Bergerac, dramaturgo francês do século 17, que chegou
até a ser imitado pelo famoso Molière. Os retratos da época mostram-no como
um homem simpático, sorridente. O nariz é grande, mas não resta dúvida de
que foi a imaginação de Rostand que o fez crescer até o nível do grotesco. E é
exatamente este nariz que condiciona o destino do Cyrano personagem; para
compensar a feiúra, ele se torna um poeta famoso pela agressividade dos
versos, e, principalmente, um espadachim temível. Ele está convencido de
que nenhum mulher o desejará. Isto não impede qus se apaixone por sua bela
prima, Roxane, que, no entanto, se sente atraída pelo belo Christian de
Neuvillette. Generosamente, Cyrano trata de aproximar os dois, inclusive
escrevendo cartas de amor que Christian assina. Ao longo da peça, e do filme,
Cyrano cresce como personagem e no fim estamos todos torcendo por ele.
Feiúra ou não, pouco importa; ao menos neste caso, e também no caso de
Ronaldo, a beleza não é fundamental. O importante é jogar com maestria. O
importante é viver intensamente.
Zero Hora (Porto Alegre) 02/07/2006

TORPEDOS.

A polícia do Rio de Janeiro prendeu quatro estudantes que tentavam fraudar o


vestibular de medicina da Universidade Gama Filho. Uma quadrilha teria cobrado
entre R$ 10 mil e R$ 15 mil pela transmissão do gabarito do exame por meio de
mensagens de texto.
Folha Cotidiano, 31 de janeiro de 2006
Apesar do fracasso dos quatro vestibulandos que haviam tentado fraudar a prova
mediante mensagens pelo celular, ela decidiu fazer a mesma coisa. Em primeiro
lugar, porque morava numa cidade muito menor que o Rio, na qual as medidas de
segurança não eram tão rigorosas. Depois, não recorreria a quadrilha nenhuma, coisa
que, segundo imaginava, tornava a operação vulnerável. Em terceiro lugar, não tinha
outra opção: não sabia quase nada, e era certo que seria reprovada. Por último,
havia uma coincidência favorável: estava com o antebraço esquerdo engessado. Nada
preocupante, e na verdade ela até poderia ter tirado o gesso, mas não o fizera e
agora contava com um ótimo esconderijo para o celular. Quem mandaria o gabarito?
O namorado, claro. Rapaz inteligente (já estava cursando a faculdade), ele só teria
de perguntar as questões para alguém que tivesse terminado a prova e enviar o
gabarito por torpedo. Quando ela fez a proposta ao rapaz, ele pareceu-lhe um tanto
relutante, incomodado mesmo. E no dia do vestibular ela descobriu por quê.
Quarenta minutos depois de iniciada a prova, ela recebeu o tão esperado torpedo.
Para sua surpresa, não continha o gabarito, e sim uma mensagem: "Sinto muito, mas
não posso continuar namorando uma pessoa tão desonesta. Considere terminada a
nossa relação. PS: boa sorte no vestibular". Com o que ela foi obrigada a concluir: tão
importante quanto o torpedo é aquele que dispara o torpedo.
2. O torpedo na literatura
Escritor transforma torpedos em gênero literário. Depois de tentar em vão moderar a
paixão de seus compatriotas pelos celulares, o escritor francês Phil Marso, 43, se
rendeu a essa onda e decidiu propor que as mensagens enviadas por esses aparelhos
virem um gênero literário.
Folha Online, 30 de janeiro de 2006
Durante anos ele tentou, em vão, divulgar seus trabalhos literários. Procurou
editoras, ofereceu-os a jornais e revistas. Nada. Ninguém queria saber de seus
contos, e até aconselhavam-no a tentar outra coisa. Mas ele teimava. Tinha certeza
de que um dia seria reconhecido como escritor, e baseava-se no exemplo de autores
cujo talento não fora reconhecido em vida. Se pudesse, publicaria um livro por conta
própria, vendendo-o depois em entradas de museus, de teatros. Mas, simples
empregado de uma pequena loja, não tinha dinheiro para isso.
Foi então que leu sobre Phil Marso, o escritor francês que havia lançado a ficção
como mensagem de celular. Aquilo deixou-o entusiasmado: era exatamente a solução
que procurava. Seus contos - na verdade minicontos, alguns não passavam de uma
frase - tinham o tamanho ideal para se transformarem em torpedos. E nada impedia
que os leitores, entusiasmados, repassassem as mensagens literárias, que acabariam
chegando a um grande crítico ou a um grande editor. Quando então o caminho do
sucesso estaria aberto para ele.
Preparou cinco textos, que lhe pareciam os melhores. E aí chegou o grande dia, o dia
em que o mundo tomaria conhecimento de seu talento. Apanhou o celular, respirou
fundo...
Infelizmente, o aparelho estava sem bateria. Os torpedos não foram disparados. Foi
dormir, convencido de que o Destino, e os celulares, não queriam que ele se
transformasse em escritor.
Folha de São Paulo (São Paulo) 20/2/2006

Vivendo nas alturas


Passar dias em cima de uma árvore. Comer, dormir, realizar todas as
atividades, e necessidades, da vida cotidiana, sem colocar os pés no chão.
Ilustrada, 2 de abril de 2006
Contestadora era ela, e desde criança. Brigava por qualquer coisa, o que não
era de admirar: menina mimada, filha de pais ricos, não estava acostumada a
ver seus desejos contrariados. E assim chegou aos 20 anos, uma garota
irritadiça, ainda que muito bonita e inteligente. Àquela altura, todos os
professores, amigos, parentes estavam de acordo que ela estava precisando
de limites. A gota d'água foi o caso que começou a ter com um conhecido
traficante de drogas. O pai, próspero e culto empresário, deu-se conta de que
aquele era o momento de dar o basta. Mesmo assim, procurou fazê-lo com
habilidade. Na conversa que teve com a jovem, recorreu a uma frase lapidar e
cuidadosamente ensaiada: "Você sempre viveu no ar. Agora está na hora de
colocar os pés no chão".
Assim que ela ouviu essas palavras, decidiu que faria exatamente o contrário.
Nunca mais poria os pés no chão. Romperia com o traficante, sim, mesmo
porque o cara era muito chato, mas não faria qualquer concessão aos pais.
Assim, anunciou que estava indo embora de casa.
E foi. Tomou o rumo da região amazônica. O seu plano era viver na floresta,
mas não no solo: construiria uma casa numa árvore e ali viveria para sempre.
Alimentos? Os frutos das árvores ao redor, ovos de pássaro, pequenos répteis.
Água, a da chuva. Os pais, naturalmente, ficaram desesperados. Mas, com a
ajuda de investigadores particulares, conseguiram refazer a trajetória dela. E
acabaram por descobrir o lugar em que vivia, na mata amazônica.
A conselho dos próprios investigadores, foram sozinhos até lá. Caminhando
pela selva, chegaram à árvore. E ali estava, entre os galhos, a pequena
cabana. Chamaram pela jovem. Ela apareceu e não se mostrou surpresa;
aparentemente, até esperava aquela visita. Do chão, pai e mãe lhe dirigiam
apelos angustiados: desce daí, minha filha, volta com a gente para casa.
Para isso, ela tinha uma resposta preparada: Só desço - disse - se vocês
subirem.
O que era absolutamente impossível. Não havia qualquer escada, nem mesmo
cordas, nada que os ajudasse. Eles imploraram e imploraram. Por fim
desistiram e foram para o precário hotel da cidadezinha próxima. No dia
seguinte voltaram, e esta rotina tem se repetido: pedem que a filha desça,
ela insiste para que eles subam. O impasse está criado, mas isso não é o pior.
O pior é o grande macaco que eles acreditam ter visto diante da cabana.
Pode, claro, ser um bicho de estimação. Mas e se ele é o substituto do
namorado traficante?
Folha de S. Paulo (São Paulo) 10/04/2006

Vivendo nas alturas

Passar dias em cima de uma árvore. Comer, dormir, realizar todas as


atividades, e necessidades, da vida cotidiana, sem colocar os pés no chão.
Ilustrada, 2 de abril de 2006
Contestadora era ela, e desde criança. Brigava por qualquer coisa, o que não
era de admirar: menina mimada, filha de pais ricos, não estava acostumada a
ver seus desejos contrariados. E assim chegou aos 20 anos, uma garota
irritadiça, ainda que muito bonita e inteligente. Àquela altura, todos os
professores, amigos, parentes estavam de acordo que ela estava precisando
de limites. A gota d'água foi o caso que começou a ter com um conhecido
traficante de drogas. O pai, próspero e culto empresário, deu-se conta de que
aquele era o momento de dar o basta. Mesmo assim, procurou fazê-lo com
habilidade. Na conversa que teve com a jovem, recorreu a uma frase lapidar e
cuidadosamente ensaiada: "Você sempre viveu no ar. Agora está na hora de
colocar os pés no chão".
Assim que ela ouviu essas palavras, decidiu que faria exatamente o contrário.
Nunca mais poria os pés no chão. Romperia com o traficante, sim, mesmo
porque o cara era muito chato, mas não faria qualquer concessão aos pais.
Assim, anunciou que estava indo embora de casa.
E foi. Tomou o rumo da região amazônica. O seu plano era viver na floresta,
mas não no solo: construiria uma casa numa árvore e ali viveria para sempre.
Alimentos? Os frutos das árvores ao redor, ovos de pássaro, pequenos répteis.
Água, a da chuva. Os pais, naturalmente, ficaram desesperados. Mas, com a
ajuda de investigadores particulares, conseguiram refazer a trajetória dela. E
acabaram por descobrir o lugar em que vivia, na mata amazônica.
A conselho dos próprios investigadores, foram sozinhos até lá. Caminhando
pela selva, chegaram à árvore. E ali estava, entre os galhos, a pequena
cabana. Chamaram pela jovem. Ela apareceu e não se mostrou surpresa;
aparentemente, até esperava aquela visita. Do chão, pai e mãe lhe dirigiam
apelos angustiados: desce daí, minha filha, volta com a gente para casa.
Para isso, ela tinha uma resposta preparada: Só desço - disse - se vocês
subirem.
O que era absolutamente impossível. Não havia qualquer escada, nem mesmo
cordas, nada que os ajudasse. Eles imploraram e imploraram. Por fim
desistiram e foram para o precário hotel da cidadezinha próxima. No dia
seguinte voltaram, e esta rotina tem se repetido: pedem que a filha desça,
ela insiste para que eles subam. O impasse está criado, mas isso não é o pior.
O pior é o grande macaco que eles acreditam ter visto diante da cabana.
Pode, claro, ser um bicho de estimação. Mas e se ele é o substituto do
namorado traficante?
Folha de S. Paulo (São Paulo) 10/04/2006

Guerrilha capilar
A Polícia Federal (PF) apreendeu 250 kg de cabelos que entraram no Brasil
ilegalmente em um hotel em Curitiba, na manhã deste domingo. O material
havia sido trazido da Índia. Três pessoas foram presas. O contrabando foi
descoberto por acaso: agentes da Polícia Federal estavam hospedados no
mesmo hotel e suspeitaram quando a carga era descarregada de uma
caminhonete. De acordo com a PF, todas as mechas de cabelo eram pretas e
tinham entre 40 e 70 centímetros de comprimento. A carga seria revendida
para salões de beleza.
Folha Online, 13 de março de 2006.
A Polícia Federal recolheu os 250 kg de cabelo a um depósito com o que o
caso poderia ser encerrado. A não ser, como disse o vigia do lugar, que
piolhos tentassem roubar a exótica mercadoria. O comentário se revelou
profético: naquela mesma noite o lugar foi assaltado, e não por piolhos, mas
por um bando de homens armados. Imobilizaram o vigia, transportaram os
cabelos para uma van e se foram, não sem deixar um bilhete: "Esta é mais
uma ação da Frente de Libertação dos Calvos. Lutamos contra a má
distribuição de cabelos no mundo. Lutamos contra a propaganda enganosa dos
xampus. Lutamos contra a excessiva valorização das bastas cabeleiras. Basta!
De agora em diante o mundo sentirá a força de nossa justa ira".
A intenção da misteriosa Frente de Libertação dos Calvos (FLC) era usar os
cabelos confiscados para confeccionar perucas, que seriam distribuídas,
gratuitamente, a milhares de carecas. Mas, tão logo se reuniram, sob a
presidência de um líder mascarado que se identificava apenas como Sansão,
os problemas começaram a emergir. Constatou-se que, em primeiro lugar, os
cabelos não eram nacionais - procediam da Índia. Além disto, eram todos
escuros.
Isto provocou revolta na área mais radical do movimento. Os extremistas
protestavam contra o fato de os cabelos serem procedentes da Índia e serem
todos de cor preta, o que significaria a marginalização dos loiros, dos ruivos e
dos grisalhos - um duro golpe na diversidade cultural que é a base mesmo da
emancipação dos oprimidos. De sua parte, o setor mais moderado ponderava
que, afinal, a Índia era, como o Brasil, um país emergente e que, portanto, os
cabelos não traduziriam nenhum tipo de dominação imperialista. E o uso de
perucas pretas por todos os membros da Frente poderia ser um símbolo de
coerência ideológica e de disciplina revolucionária.
A discussão evoluiu rapidamente para a briga, e lá pelas tantas os adversários
estavam atirando mechas de cabelos uns nos outros. Quando terminou a
pancadaria, não dava para aproveitar mais nada da preciosa carga de cabelos.
O cartaz com a divisa criada por Sansão, "Calvos unidos jamais serão
vencidos", jazia rasgado no chão. Antes que as forças da lei e da ordem
aparecessem, foram todos embora. Desiludidos, mas com uma esperança: a
de que, no futuro, a Polícia Federal apreenda uma carga de tônicos capilares,
desses que fazem crescer cabelo quase que por milagre.
Folha de São Paulo (São Paulo) 20/03/2006

As provas da conspiração
Rato Jerry é pró-judeu, conclui especialista do Ministério da Educação do Irã.
Para Hassan Bolkhari, especialista em comunicação de massa, o desenho
animado Tom e Jerry é uma conspiração para favorecer a imagem dos ratos -
apelido pejorativo associado aos judeus. Folha Mundo, 25 de fevereiro de
2006.
Confrontado com a esmagadora evidência de sua culpa, Jerry, o rato, não
teve outro remédio senão admitir a verdade: sim, disse ele, eu não passo de
um agente secreto a serviço de uma conspiração criada para melhorar a
imagem judaica no mundo. Soluçando, disse que relutara muito antes de
aceitar a proposta, mas que esta se tornara irrecusável quando lhe foi feita
uma inesperada oferta: pelo resto de sua vida teria queijo na quantidade que
quisesse.Ah, sim, e poderia escolher a variedade: brie, camembert, cream
cheese, feta, gorgonzola, gruyère, mussarela, pecorino, provolone, roquefort,
qualquer uma destas variedades estaria à sua disposição (acompanhada ou não
de bolachinhas e torradas), bastando apenas que ele telefonasse e dissesse
sua senha. Encontraria o queijo em certa secreta despensa, que aliás serviria
de base de operações para outros ratos famosos envolvidos na conspiração. E
que eram muitos: por exemplo, o camundongo Mickey e sua namorada,
Minnie: como Jerry, figuras simpáticas, amáveis. Mas devidamente cooptadas.
Mas as revelações não ficaram por aí. Descobriu-se que Tom, o próprio Tom, o
gato valoroso que perseguira Jerry em tantos desenhos animados, também
estava sob o controle dos mentores da conspiração, coisa que demandara
várias providências. Capturado, Tom fora submetido a uma lavagem cerebral,
da qual saíra com característicos de autômato. Nos desenhos animados, ele
poderia continuar correndo atrás de Jerry, mas sem jamais alcançá-lo. Com
isso, estaria confirmando a superioridade dos ratos (e do grupo que eles
metaforicamente representam). Tom seria vigiado de perto pelo enorme cão
que existia na casa e que também era parte da conspiração.
Enfim, a revelação chocou muita gente. Mas ela deve servir de alerta. Será
que outras figuras dos desenhos animados não estão envolvidas na
conspiração? Será que o Pato Donald não está nessa? Ou a Branca de Neve? Ou
o Bob Esponja? O inimigo é insidioso e está por toda a parte. É melhor,
portanto, não ir ao cinema, não assistir à TV, não ler livros, revistas ou
jornais. Ah, sim, e não esqueçam de olhar debaixo da cama: será que o Jerry
não está ali, escondido, à espera do momento propício para atacar?
Folha de São Paulo (São Paulo) 06/03/2006

Para mais ou para menos


Hoje, 45% dos brasileiros votariam em Serra no segundo turno e 41% em Lula,
no limite do empate técnico -a margem de erro é de dois pontos percentuais
para mais ou para menos.Folha Brasil, 23 de outubro de 2005
O estatístico acordou e, como sempre o fazia, espiou pela a janela. Céu
nublado. Deveria levar o guarda-chuva? Com base em sua experiência
pregressa, avaliou a possibilidade de chuva em 38%, com uma margem de erro
de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. Decidiu não levar o
guarda-chuva, mesmo porque já havia esquecido três ou quatro no escritório.
A mulher dormia ainda e ele decidiu não acordá-la; professora universitária,
ela tinha ficado até a meia-noite corrigindo trabalhos. Merecia o descanso. E
de repente uma pergunta lhe ocorreu: será que ainda se amavam? Qual era a
possibilidade de que isso acontecesse depois de 15 anos, três meses e oito
dias de casamento, depois de dois filhos, um com 13 anos, seis meses e sete
dias, outro com dez anos, dois meses e 20 dias? Poderia arriscar uma cifra,
mas decidiu não fazê-lo, mesmo porque estava atrasado. Engoliu rapidamente
o café (frio: cerca de 32 graus, concluiu, e não costumava errar: sua chance
de acertar a temperatura dos líquidos era de cerca de 91%, com uma margem
de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos). Desceu para a
garagem do prédio e entrou no carro, um velho Gol. O motor não quis pegar e
por um momento ele temeu que o automóvel o deixasse na mão. Mas as
chances de que isso acontecesse eram de apenas 12%, com uma margem de
erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos, e logo ele estava no
trânsito, congestionado como sempre. Estimou a sua chance de chegar no
horário em 72%, com uma margem de erro de dois pontos percentuais para
mais ou para menos. De fato, às nove em ponto estava sentando na sua mesa.
Tinha várias pesquisas para examinar naquele dia. As chances de uma marca
de sabão ser preferida em relação a outra, as chances de um candidato a
presidência de empresa ser eleito em relação a outro. Um trabalho a que
estava habituado e que em geral transcorria com facilidade; as chances de
concluir a análise de uma pesquisa em duas horas e 38 minutos eram de 83%,
com uma margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para
menos. O fato, porém, é que uma pergunta o atormentava: será que ainda
amava a esposa? Na semana anterior a empresa havia admitido uma nova
estatística, moça simpática e linda que fizera balançar o seu coração.
Naquele momento o telefone tocou. Era a mulher: só queria dizer que o
amava. E ele, jubiloso, concluiu que também a amava. As chances eram de
100%. Com uma margem de erro de dois pontos percentuais para mais, só para
mais.
Folha de São Paulo (São Paulo) 31/10/2005

O seqüestro das galinhas


Grupo armado rouba galinhas em Ituverava. Seis homens encapuzados,
armados com um revólver, roubaram todas as 50 galinhas do sítio Serra Azul.
Folha Cotidiano, 4 de fevereiro de 2006
No passado, a expressão "ladrão de galinhas" designava um transgressor
humilde, freqüentemente esfaimado, que invadia galinheiros roubando aves
para comer. Não mais. O progresso chegou também a esta área, e hoje o
roubo de galinhas é uma operação em larga escala, levada a cabo por grupos
organizados e armados, que não temem sequer a gripe aviária.A pergunta que
cabe é: por que tanto esforço para roubar galinhas, mesmo em número
elevado? A galinha não é exatamente uma raridade culinária, como o caviar
ou as trufas. É verdade que pobre só come galinha quando está doente,
segundo o antigo ditado, mas à exceção daqueles que estão colocados muito
em baixo na pirâmide social, a maioria da população consegue saborear uma
coxinha de vez em quando.
Talvez se trate de outra coisa. Talvez se trate de seqüestros. Galinhas muito
prezadas por seus donos, por serem de estimação ou de rara qualidade,
seriam alvo tentador para seqüestradores. E aí começariam os bilhetes. Um
deles, viria acompanhado de um ovo: "Por enquanto suas galinhas ainda estão
vivas e botando ovos. Mas se vocês querem evitar que elas se transformem em
fricassê, mandem de imediato a quantia pedida, etc.etc."
Como evitar os seqüestros de galinhas? A medida mais óbvia é reforçar a
segurança nos galinheiros. Mas isto talvez não seja suficiente. No sítio em
questão, o caseiro foi até feito refém pelos assaltantes. Não, a solução
melhor, mais eficaz, será treinar as galinhas para a auto-defesas. Tão logo o
galinheiro seja invadido, elas correrão para suas posições, e ao comando do
galo de plantão, precipitar-se-ão sobre os invasores, agredindo-os a bicadas.
Talvez os seqüestradores reajam; talvez uma ou outra heróica ave, mártir da
resistência, seja baleada; mas por fim os fora-da-lei terão de bater em
retirada. E o galinheiro será o que sempre foi, o reduto em que aves há
milênios domesticadas, esperam a hora para, felizes, nutrirem a humanidade.
Folha de São Paulo (São Paulo) 13/2/2006

Anjos fumantes
Mulher tenta abrir porta de avião durante vôo para fumar. Uma francesa
admitiu em um tribunal da Austrália ter tentado abrir a porta de um avião em
pleno vôo para fumar um cigarro do lado de fora. A mulher de 34 anos, que
tem medo de voar de avião, havia bebido álcool e tomado remédio para
dormir antes do vôo entre Hong Kong e Brisbane, na Austrália. Foi vista
andando em direção à porta do avião da Cathay Pacific com um cigarro e um
isqueiro na mão. Começou a tentar abrir a saída de emergência quando foi
impedida por uma aeromoça. Folha Online, 21 de novembro de 2005
Ao juiz ela contou que era fumante há muito tempo, desde criança. E
fumante contumaz, dessas que não podem ficar sem cigarro mais de uma hora
ou duas, sob pena de se sentirem mal. Principalmente num vôo -se havia coisa
da qual tinha medo, era viajar de avião. Mas fumar em aeronaves não é
permitido. Como resolver o problema?
Optou por dormir, com a esperança de que, ao acordar, já tivesse chegado ao
destino -e aí a primeira coisa que faria era acender o seu cigarro. De fato,
chegou a conciliar o sono, mas duas horas depois acordou, trêmula, com uma
vontade irresistível de fumar. Olhou ao redor: todo mundo dormindo. E se
acendesse disfarçadamente um cigarro? Movida por um impulso incontrolável,
sacou o maço do bolso. Nesse momento, e sem querer, espiou pela janela. E
aí viu aquela cena incrível.
A noite estava belíssima. Céu claro, com poucas e redondas nuvens. Numa
delas, iluminada pela lua esplêndida, estavam sentados quatro anjos. Ela
arregalou os olhos. Anjos? Sim, eram anjos. Não anjinhos rechonchudos,
querubins; não, anjos adultos, dois deles com barba. Vestiam alvas túnicas,
calçavam sandálias. E os quatro estavam fumando.
Ah, que inveja ela sentiu. Os quatro fumando, sem nenhum problema. Mais:
os quatro abanando-lhe amistosamente. Num impulso, ela mostrou-lhes o
maço de cigarros e o isqueiro, como que a dizer: eu aqui também posso
fumar. Mas então um dos anjos ergueu um cartaz que dizia: "De acordo com a
disposição das autoridades, o fumo é proibido em aeronaves". Com o que ela
se deu conta: eles só podiam fumar porque estavam ao ar livre, porque não
estavam transformando pessoa alguma em fumante passivo. Que inveja dos
quatro anjos. Que inveja. Foi tamanha a inveja que ela, num impulso,
levantou-se e dirigiu-se à saída de emergência situada ali perto. Era uma coisa
complicada de abrir, aquela porta, mas ela já estava quase conseguindo
quando foi impedida pela aeromoça. Que, nervosa, lhe perguntou o que
estava fazendo.
Vou dar uma saidinha para fumar com os anjos, ela ia dizer, mas, nesse
momento, espiando pela janela, viu que não havia anjo algum sobre a nuvem.
Deu-se conta de que ninguém acreditaria em sua história. Anjos aparecendo
para uma passageira? Na classe econômica? Ninguém acreditaria.
Folha de São Paulo (São Paulo) 05/12/2005

Roda dos expostos


"Roda dos expostos" recebia bebês rejeitados até o final dos anos 40. Feitas de
madeira, eram geralmente um cilindro oco que girava em torno de seu próprio
eixo e tinha uma portinha voltada para a rua. Sem ser identificada, a mãe
deixava seu bebê e rodava o cilindro 180 graus, o que fazia a porta ficar
voltada para o interior do prédio, onde alguém recolhia a criança rejeitada.
Em São Paulo, bastava a campainha soar no meio da noite para as freiras da
Santa Casa terem a certeza de que mais uma criança acabava de ser
rejeitada.
Folha Cotidiano, 2 de fevereiro de 2006
Ele foi provavelmente um dos últimos bebês colocados na roda dos expostos, o
que aconteceu há exatamente 65 anos. Mas a vida compensou-o devidamente.
Entregue a uma família de classe média alta, gente sensível e carinhosa, teve
uma infância feliz, com os irmãos, com brinquedos, com livros. Estudou,
entrou na universidade, formou-se em medicina, tornou-se um neurocirurgião
famoso, respeitado no país e no exterior. Os pais adotivos faleceram quando
ele tinha 40 anos. Pouco antes de morrer, a mãe revelou-lhe a história da
roda dos expostos. Chorou muito, mas não por ter sido abandonado; chorou
pelos pais, a quem amava profundamente.
A verdade, porém, é que a revelação abalou-o. Fez psicoterapia por algum
tempo, acabou deixando, e por fim achou sua própria maneira de lidar com
esse trauma da infância: mandou construir uma roda dos expostos. Não é uma
roda pequena, para bebês; é algo grande, onde ele, homem robusto, cabe
facilmente. E a partir daí imaginou uma espécie de ritual.
Todos os anos, no dia de seu aniversário, a porta da luxuosa mansão em que
mora é aberta, e, no vão, os empregados colocam a grande roda dos expostos.
Ele entra ali. A roda gira, uma campainha soa, e logo ele se vê dentro de sua
casa, onde a família, uma grande família, esposa, filhos, filhas, netos,
recebe-o entre abraços e exclamações de júbilo. Cantam o "parabéns a você",
a roda é retirada e a festa tem início, agora com a presença de amigos e
familiares.
Nos primeiros anos as pessoas achavam estranho este costume. Depois,
deram-se conta de que aquilo correspondia a uma necessidade emocional e
aceitaram-no. Até o cumprimentam pela idéia, simbólica e generosa.
O que não lhe perguntam, e nem ele fala a respeito, é em que pensa no
momento que a roda está girando, transportando-o do exterior para o
interior, do abandono para o acolhimento. Dura poucos segundos, este
intervalo, e nem há tempo para refletir muito. Mas é então, certamente, que
ele descobre os segredos de sua vida.
Folha de São Paulo (São Paulo) 6/2/2006

O carro com paixão


Garagem na sala. Pode até parecer loucura, mas alguns motoristas cobiçam
tanto um veículo que, quando conseguem comprá-lo, colocam-no dentro de
casa. Classificados/Veículos, 6 de novembro de 2005
A paixonado por carros ele era, e desde criança. Sabia tudo sobre automóveis
antigos. O Ford modelo A? Dizia em que ano havia sido projetado, quantos
automóveis haviam sido vendidos na primeira leva. O Oldsmobile Ninety-Eigth
1957? Descrevia a grade do motor, o painel, o estofamento. O Chevrolet 1937?
Sabia até a potência do motor e onde, exatamente, ficava o botão do
arranque.
Se pudesse, ele se tornaria colecionador. Compraria lendários modelos,
levaria para sua casa, montaria uma exposição permanente. Mas isso não
podia fazer. Em primeiro lugar, porque não tinha dinheiro. Auxiliar de
escritório, mal ganhava para sustentar a si próprio e à mulher. Em segundo
lugar, não tinha espaço para tais carrões: morava numa casinha de subúrbio,
sem garagem, sem quintal.
Mas aí o destino interveio. Através de um amigo ficou sabendo do falecimento
de um famoso colecionador - cuja esposa, que detestava a paixão do marido,
estava se desembaraçando dos carros por preços relativamente acessíveis.
Esperançoso, foi até lá. Mas chegou tarde: todos os antigos modelos haviam
sido comprados. Com exceção de uma enorme limusine, daquelas usadas em
Nova York para transportar celebridades e que ninguém comprara,
exatamente por causa do tamanho.
- Sabe de uma coisa? - disse a senhora. - Se você quiser, pode levar esse
trambolho de graça. Já estou farta dessa coisa.
Quase sem acreditar no que ouvia, ele entrou na limusine e deu a partida. A
mulher abanou para ele e entrou na casa, aliás um palacete. Tripulando o
carrão (e chamando a atenção de todo mundo) foi para casa.
A mulher se desesperou. Onde colocariam aquilo? Dentro de casa, disse ele.
Naquele fim de semana demoliu a parede da frente, introduziu a limusine no
recesso do lar e tornou a edificar a parede. Mas o veículo era tão grande que
tiveram de retirar todos os móveis da sala-quarto, inclusive a cama. O que
não seria um problema: ele deu o jeito de transformar a limusine em quarto e
em sala. A esposa, que nunca reclamava de nada, aceitou o arranjo. E, assim,
realizaram um sonho dele: moravam num automóvel, aliás com bastante
conforto.
Poderiam ter sido felizes para todo o sempre, se não fosse o mecânico que ele
chamou para consertar um pequeno defeito no carro. A mulher se apaixonou
pelo homem, aliás muito bonito, e fugiu com ele.
O colecionador viu os dois saindo, ela de mala na mão. Pensou em ir atrás
deles, na limusine. Mas para isso teria de usar o carrão para demolir a parede
da frente. E ele jamais arranharia uma pintura tão bem conservada.
Folha de São Paulo (São Paulo) 14/11/2005

Como vencer o jogo da corrupção


Corrupção na política vira jogo. Empresário lança "Escândalo!", que traz
parlamentares como personagens. É um jogo recheado de fraudes e
chantagens. Brasil, 15.09.2005
Um novo jogo está sendo lançado no país e, ao que tudo indica, logo terá
muitos aficcionados. Não é fácil de disputar, mas está na ordem do dia. Aqui
vão algumas dicas para aqueles que estão interessados. Veja como vencer o
jogo da corrupção:
1. Posicione-se adequadamente na estrutura política. Para dirigir o tráfico de
influências, é imprescindível estar por cima. Quanto maior a altura, maior o
tombo? Talvez. Mas também quanto maior a altura, maiores as oportunidades.
2. Descoberto, negue. Negue com veemência, com convicção, com
indignação, se possível. Fale em armação, fale em provas forjadas, fale até
em conspiração. Descreva-se como vítima, como perseguido, como mártir.
3. Aperfeiçoe sua cara-de-pau. Você deve ter completo e absoluto domínio
sobre seus músculos faciais. É preciso, por exemplo, olhar fixamente para a
câmera de TV. Não pisque. Qualquer bater de pálpebras pode ser uma
evidência contra você.
4. Crie suspense. Anuncie que você tem um documento secreto, sensacional
-mas que só vai exibi-lo no momento adequado. Enquanto todos ficam
aguardando o momento adequado, você aproveita o tempo para ganhar fôlego
e pensar em algum outro truque.
5. Não confie em ninguém. A corrupção não gera amigos, gera sócios -e é uma
sociedade transitória, pronta para ser desmanchada quando as tramóias vêm à
luz.
6. Se nada mais der certo, parta para a solução extrema: defenda a
corrupção. Isto mesmo: defenda a corrupção. Você dirá que para tanto é
preciso uma boa dose de cinismo, mas às vezes o cinismo é a única alternativa
que resta a quem está contra a parede. Sustente que a corrupção não passa
da continuação dos negócios por outros meios, que é o único recurso contra a
pesada burocracia estatal, que tantos problemas tem causado à economia.
Descreva a corrupção como uma espécie de lubrificante social, criado
exatamente para facilitar as coisas àqueles que têm o senso de oportunidade.
Retorne ao argumento do "rouba mas faz", evocando políticos que
enriqueceram ilicitamente mas que não deixavam de ser grandes
empreendedores. Descreva a propina e a comissão como retribuição informal
de serviços prestados, muitas vezes por pessoas cujos salários não estão à
altura de seu talento e de sua esperteza. Pondere que no orçamento de uma
obra que custa, digamos, R$ 100 milhões, 1 milhão a mais ou a menos não fará
muita diferença; o importante é que a obra seja realizada (e inaugurada).
Enfim, tenha convicção. E confie no inesperado. É um elemento sempre
presente no jogo da corrupção.
Folha de São Paulo (São Paulo) 19/09/2005

Quero meu peso de volta


Justiça manda empresa indenizar funcionária chamada de "gordinha". O nome
do trabalhador está incorporado ao seu patrimônio moral e, por isso, ele não
pode ser chamado pelo chefe por um apelido pejorativo, segundo o
entendimento dos juízes da 2ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª
Região (São Paulo). Os juízes condenaram a empresa Control Tower Assessoria
Empresarial Ltda. a pagar indenização de R$ 8.000 a uma ex-empregada
chamada de "gordinha" pelo diretor da empresa. Folha Online, 29 de agosto de
2005.
"Senhor juiz: estou entrando na Justiça porque li a notícia sobre a funcionária
que foi indenizada porque o diretor da empresa chamou-a de "gordinha". É
que comigo aconteceu a mesma coisa, senhor juiz. Há cerca de dois anos fui
contratada para trabalhar numa empresa aqui na capital. Parecia um bom
emprego e eu estava muito animada. Entreguei-me às minhas tarefas, que não
eram poucas, com a melhor das boas vontades. Devo dizer que sempre fui
uma funcionária dedicada e nessa empresa pretendia ser mais dedicada ainda.
Infelizmente, senhor juiz, meu propósito foi frustrado. E foi frustrado por
ninguém menos que o diretor da empresa, a pessoa que supostamente deveria
me dar apoio. Lá pelas tantas ele começou a me chamar de "gordinha". Sei,
este é um termo comum, e pode ser até carinhoso; eu tinha um namorado que
só me chamava assim. Mas no caso desse diretor era diferente. Ele queria me
ofender. Fazia comparações: dizia que eu era gorda como uma baleia, gorda
como um elefante. Que no ônibus eu deveria ser um transtorno para a pessoa
sentada a meu lado. E que se eu continuasse engordando acabaria pesando
uma tonelada.
Senhor juiz, devo lhe dizer que reconheço: sou gordinha, mesmo. Tenho um
1,60 m e peso 75 quilos. Mas sempre fui gordinha. Desde criança. Na minha
família -pai, mãe, cinco irmãos- todos eram magros. A única rechonchuda era
eu. E eles me adoravam por causa disso. Todos me chamavam de "minha
fofinha". Eu me sentia orgulhosa, eu me sentia amada. Por isso nunca dei
importância quando outras pessoas chamavam a atenção para meu peso.
Mas diretor é diretor, senhor juiz. Diretor tem autoridade. Tanto aquele
homem falou que acabou me incomodando. Já não podia me concentrar no
trabalho, saía-me mal nas tarefas que ele me delegava. As brigas entre nós
aumentaram e acabei pedindo demissão. Agora vejo que fui precipitada,
senhor juiz. Deveria ter feito como a moça da notícia. Deveria ter entrado na
Justiça e pedido uma indenização.
Porque aquele homem me prejudicou, senhor juiz. Aquele homem me
prejudicou muito.
Desde que saí da empresa simplesmente perdi o apetite. Eu, que antes
devorava um generoso prato de macarronada com a maior facilidade, agora
tenho de fazer força para engolir um simples chá com torradas. Estou
perdendo peso rapidamente e já sou considerada magra pelas minhas amigas.
Uma delas até acha que eu estou sofrendo de anorexia nervosa. Se continuar
assim, vou virar um palito.
E isso não é justo, senhor juiz. Eu sofri uma perda tanto na minha auto-estima
quando na minha auto-imagem. Por isso estou acionando a empresa, senhor
juiz, porque quero meu peso de volta. Ou então quero uma indenização. E
que deve ser, se o senhor me permite a sugestão, proporcional à perda que
tive: tantos quilos, tantos reais. Espero que meus argumentos pesem na
balança da Justiça."
Folha de São Paulo (São Paulo) 05/09/2005

Personal
Terceirizar a vida privada. A lógica do mercado atinge a vida íntima: há um
"personal" para praticamente qualquer atividade cotidiana. Folha Equilíbrio,
18.08. 2005
Ela já ouvira falar de "personal trainer", o professor de ginástica que atende
individualmente. Também já ouvira falar de "personal dancer", "personal
dieter", "personal shopper" (este, alguém que se encarrega de fazer compras).
Mas ficou absolutamente fascinada quando uma amiga lhe falou do "personal
husband", o marido personalizado. Era uma coisa da qual, a propósito, estava
precisando: o marido, alto executivo de uma grande corporação, viajava
muito; e, mesmo quando estava em casa, as relações entre ambos -depois de
tantos anos de matrimônio- eram no máximo formais. Ela se entediava,
passava longos períodos de tempo sozinha: os filhos, já adultos, moravam em
outra cidade.
Cautelosamente, falou do assunto ao esposo; disse que gostaria de ter
companhia, mas a companhia de uma pessoa que fizesse isso em caráter
estritamente profissional. O homem, naquele momento absorto na leitura do
jornal, não deu muita importância à solicitação. Vá em frente, disse. Ela foi
em frente. Entrou em contato com a empresa que fornecia os profissionais e
assim recebeu seu marido personalizado.
Era um homem de meia-idade, alto, elegante, bonito. E muito culto; no
passado, tinha sido professor universitário, trabalho que deixara por causa dos
baixos salários. Agora dedicava-se por completo a exercer a condição marital.
A primeira coisa que fez, logo depois de se apresentar, foi entregar o contrato
de prestação de serviços, minuciosamente descritos. Serviços que, entre
parênteses, ele fazia questão de prestar com a maior competência e boa
vontade, como ela constatou nas semanas que se seguiram. O "personal
husband" vinha todos os dias; saíam para passear, para almoçar, iam ao
teatro. Conversavam muito. Era um grande papo, ele, um homem versado
numa imensa variedade de assuntos.
E ah, sim, sexo. Isso não estava previsto no contrato; como dissera a amiga,
"personal husband" não era a mesma coisa que amante, mesmo porque
amantes fazem exigências emocionais, amantes têm ciúmes -coisas
absolutamente incompatíveis com uma relação essencialmente profissional.
Se ela quisesse, claro, ele poderia prover isso também, mediante um
acréscimo no pagamento. Mas ela não queria; pretendia apenas a companhia
que o marido verdadeiro não lhe dava, e isso o homem provia muito bem.
A verdade, porém, é que ela se sentia curiosa: quem seria, afinal, aquele
estranho personagem? Teria família, mulher, filhos? Ele nunca falava sobre si
próprio (não estava no contrato), de modo que, para descobrir alguma coisa a
respeito, ela resolveu segui-lo. Uma noite, quando ele saiu da casa em seu
modesto carro, ela tomou um táxi e foi atrás. Andaram muito tempo,
chegaram até um bairro distante. Diante de uma casa pequena, modesta, ele
estacionou e entrou.
Do táxi, ela podia vê-lo, no living, ao lado da esposa, os dois diante da tevê.
Não falavam. A mulher, um tipo comum, parecia resignada com sua condição -
como ela própria estivera durante muito tempo.
Lá pelas tantas ele se levantou, saiu da sala; estava na hora de dormir,
decerto, o dia seguinte seria de trabalho. A esposa ficou sentada, diante da
tevê agora desligada, o olhar perdido.
Sem dúvida estava pensando num "personal husband".
Folha de São Paulo (São Paulo) 22/08/2005

Desempenho
"Reality show" testa performances sexuais. Dezenove pessoas têm suas
performances sexuais testadas em busca de um prêmio de cerca de R$ 610
mil. Dos participantes, três homens são casados. Folha Online, 05.06.2005
Quando ela chegou em casa, às 10h da noite, o marido não estava. O que nela
não despertou nenhuma suspeita; sabia que estava trabalhando. O emprego,
modesto, exigia longas horas, uma obrigação que ele cumpria sem reclamar e
que ela também tinha de aceitar. Mas nessa noite a ausência do cônjuge era
até providencial. Ela queria assistir a um novo programa de TV e queria fazê-
lo sozinha. Porque o novo programa, um "reality show", tinha como mote o
desempenho sexual. Os anúncios garantiam que os pares fariam proezas
incríveis na cama, animados pela perspectiva de um polpudo prêmio.
Era justamente isso que faltava ao casamento deles. Em matéria de sexo, o
esposo era absolutamente rotineiro: papai-mamãe, e estamos conversados.
Inovações, aventuras? Nem pensar. Para isso ela só podia contar com a
imaginação e, agora, com o "reality show".
Que não a decepcionou. De fato, em matéria de desempenho, os casais
enfiariam o Kama Sutra no bolso do colete, se estivessem de colete, claro. As
mais incríveis posições, as mais audazes manobras. Ela chegava a gemer de
desejo.
Havia um homem que era especialmente bom e que a direção do programa
identificava apenas como o Senhor X -ele fizera questão do anonimato.
Apresentava-se de máscara e com uma espécie de capa, mas isso em nada
atrapalhava o seu desempenho, ao contrário: o cara era soberbo. E
compreensivelmente não se identificava: seria perseguido por mulheres até na
rua.
De repente ela deu um salto na cadeira. A câmera mostrava agora o Senhor X
de costas, e em seu dorso ela via algo que conhecia muito bem: uma cicatriz
de curioso formato. A cicatriz que resultara da drenagem de um abscesso na
infância. Ela reconhecia a cicatriz, reconhecia as costas, reconhecia o
homem: era seu marido.
Esperou-o chegar e nem se deu ao trabalho de fazer perguntas: começou logo
a puteá-lo de cima a baixo. O argumento final reservara para o fim:
- Se pelo menos você guardasse um décimo dessas habilidades para mim! Mas
não, nem isso mereço!
Ele ouvia em silêncio, impassível. Finalmente ela se calou, ofegante, e ele
então começou a falar. Disse que sim, que aceitara participar do "reality
show", como aliás participava em muitas coisas desse gênero: dali tiraria o
dinheiro para ajudar nas despesas da casa. Uma pausa e aí veio a revelação
surpreendente:
- Mas a grande aventura eu vivo em casa. Com você.
Ela não podia acreditar no que estava ouvindo: grande aventura, com ela? De
que jeito? E ele então explicou: para ele, posições arrojadas, manobras
inusitadas, tudo isso era rotina, coisa que lhe cansava e lhe dava dor na
coluna. O que realmente lhe era gratificante, que o comovia até as lágrimas,
era o papai-mamãe com a mulher. Uma grande, emocionante aventura.
Ela não sabe se este argumento é sincero ou não, verdadeiro ou não. Mas tem
de reconhecer: foi, no mínimo, uma hábil manobra, um audaz
posicionamento. Desempenho para esposa alguma botar defeito.

Folha de São Paulo (São Paulo) 13/06/2005

A Maior Mulher do Mundo


Maior calcinha do mundo ajuda a divulgar feira de lingerie. A Fevest (Feira de
Lingerie de Nova Friburgo) decidiu chamar a atenção dos consumidores com
uma lingerie nada discreta: uma calcinha gigante de 12 metros de largura por
9,5 metros de altura. Ela foi pendurada no centro de Nova Friburgo para
divulgar o trabalho do pólo de moda íntima da região. Folha Online,
10.08.2005
Na rodinha de bar, a foto da calcinha gigante fez o maior sucesso. Isso é o
sonho de qualquer fetichista, dizia um dos amigos, e outro perguntava:
- Vocês já pensaram quantos dólares dá para levar numa calcinha dessas? Esta
vai ser a calcinha do "mensalão"!
Só Márcio mantinha-se em silêncio. Porque a calcinha mobilizava nele uma
fantasia que o acompanhava desde a infância.
A Maior Mulher do Mundo.
Só a Maior Mulher do Mundo poderia usar uma calcinha daquelas. E que
mulherão seria a Maior Mulher do Mundo! Suas dimensões explodiriam todos os
padrões convencionais de beleza feminina. Para começar, seu corpo não seria
apenas um corpo, seria um território que ele exploraria vagarosamente, com
o deslumbramento de um astronauta chegando a um planeta desconhecido (e
belíssimo). Percorreria o vale entre as coxas, caminharia pela enorme planície
do ventre, chegaria aos seios suaves -colinas que ele escalaria até chegar ao
ápice tão desejado, os delicados mamilos.
A Maior Mulher do Mundo seria uma grande amante, uma fêmea estuante de
desejo. Com esta fêmea ele faria amor, entregando-se por completo ao ato,
transformando-se, graças à sua pequena estatura (sim, Márcio era baixinho),
no equivalente humano de um "dildo", de um objeto fálico, de um vibrador
animado, não por pilhas comuns, mas por seu incontido desejo. Muito
aplicado, faria com que ela chegasse ao orgasmo repetidamente, cada
orgasmo equivalendo a um tremor de terra de sete e meio graus na escala
Richter. A Maior Mulher do Mundo retribuiria sua paixão; não apenas o amaria,
como o protegeria, brincaria com ele como se fosse um bonequinho. Aninhado
em sua basta cabeleira, ele parafrasearia Napoleão chegando ao cume da
pirâmide do Egito: "Do alto desta Mulher, séculos de paixão vos contemplam".
Os amigos notaram o arrebatamento dele, debocharam: bem que você
gostaria de estar dentro daquela calcinha, Márcio. Ele respondeu com um
sorriso amarelo, levantou-se, e foi para casa.
Onde encontrou sua mulher. Que não era a Maior Mulher do Mundo: tinha um
metro e sessenta de altura. Mas era gordinha, comia bastante, e naquele
momento estava fazendo exatamente isso, traçando um enorme prato de
arroz, feijão e carne gordurosa.
- Isso mesmo -ele disse-, continue comendo desse jeito. Sabe o que você vai
virar daqui a alguns tempos? Sabe? Você vai virar a maior mulher do mundo.
Isso mesmo: a maior mulher do mundo.
E, tendo-se vingado da vida que não realizava seus sonhos, foi para o quarto
dormir.
Folha de São Paulo (São Paulo) 15/08/2005

Casa de boneca
"Casa de boneca" abriga morador de rua. Os abrigos, de cerca de um metro e
meio de altura, foram construídos por entidade assistencial de São Paulo.
FOLHA Cotidiano, 02.08.2005
O luxuoso automóvel passou pelo local em regular velocidade, mas isso não
impediu que a menina, sentada no banco traseiro, avistasse as duas pequenas
casas azuis, com pouco mais de um metro e meio de altura. Curiosa, ordenou
ao motorista que parasse, mas este não obedeceu:
- Seu pai mandou que eu levasse a senhorita para casa -disse, respeitoso, mas
firme e é isso que vou fazer.
Ela entrou furiosa na luxuosa mansão e imediatamente foi dizendo aos pais:
quero aquela casinha de boneca que vi lá perto do shopping.
O pai tentou dizer a ela que aquilo não era casinha de boneca, que casinha de
boneca a gente compra em lojas de brinquedos e que, ademais, ela já tinha
duas casinhas de boneca; mas foi inútil. A menina, mimada como sempre,
insistia: queria aquela de boneca e nenhuma outra. O pai, suspirando, tomou
o carro e foi até lá. No caminho, comprou uma pequena casa pré-fabricada,
desmontável; com uma boa argumentação, conseguiu convencer o morador da
casinha, um homem de seus cinqüenta anos, a fazer a troca, que aliás seria
vantajosa.
Voltou para casa, trazendo a casinha azul. Mas aquilo não deixou a menina
satisfeita. Ela queria o boneco.
- Que boneco? -perguntou o pai, surpreso.
- O boneco grande que estava dentro da casinha -replicou ela. - Pensa que não
vi? Tinha, sim, um boneco aí dentro. Quero a casinha com o boneco.
O pai disse que não era um boneco, que era um homem de verdade. O que
não serviu de argumento:
- Então quero o homem. Quero que ele fique morando aqui.
O pai ia dizer que aquilo era um absurdo, mas a filha simplesmente não
admitia ser contrariada. Atirou-se no chão, chorando e gritando. Chorou e
gritou tanto que ele não teve outra alternativa: tomou o carro e voltou para o
local. Felizmente o homem ainda estava ali, terminando de montar a pequena
casa pré-fabricada. Não foi muito difícil convencê-lo a fazer a mudança:
ganharia um salário para não fazer nada, só ficar à vista da menina quando
esta o quisesse.
A casinha azul foi instalada junto à piscina. O homem passa ali os dias,
sentado à porta. De vez em quando varre o jardim e recolhe as folhas que
caem na piscina. Não é obrigação dele. Mas precisa fazer alguma coisa, para
se convencer que não virou um simples habitante de casa de boneca.
Folha de São Paulo (São Paulo) 08/08/2005

Guerra nas Estrelas


Homem fantasiado de Darth Vader assalta cinema. Um homem com a máscara
do vilão do filme "Star Wars" assaltou uma sala de cinema em uma cidade
norte-americana. A polícia de Springfield (Illinois) informou que ele entrou no
cinema, empurrou um funcionário e depois fugiu levando o dinheiro da
bilheteria.
Folha Online, 24.05.2005
Muito tempo atrás em uma galáxia muito, muito longínqua... (da
apresentação do filme "Star Wars", de George Lucas)
Ele era fã de "Guerra nas Estrelas". Fã só, não; ele era fanático por "Guerra
nas Estrelas". Já tinha visto cada um dos filmes da série pelo menos umas 20
vezes. Sabia de cor a biografia do diretor George Lucas, colecionava fotos dos
personagens, tinha games sensacionais, mostrando tanques Wookies lutando
contra hordas de guerreiros Gungan. E por último, mas não menos importante,
tinha as roupas dos principais personagens, Obi-Wan Kenobi, Palpatine e,
claro, Darth Vader. Passava o dia em casa entretido com essas coisas.
O que até seria compreensível se fosse criança. Não era. Tinha 32 anos,
estava casado há cinco e com um filho pequeno. Quem sustentava a casa era
sua mulher, que, para isso, precisava manter dois empregos. Mulher
reservada, trabalhava muito, sem se queixar. Um dia, porém, explodiu: foi
quando ele usou o pouco dinheiro que restava do orçamento doméstico para
comprar um sabre de luz. Você é um irresponsável, ela gritava:
- Mal temos o que vestir e o que comer e você gasta dinheiro nestas bobagens!
Você não tem jeito, mesmo!
Sabre de luz na mão, ele ouvia, ressentido. Aquela mulher não o
compreendia, não se dava conta de que "Guerra nas Estrelas" era a coisa mais
importante na vida dele. Chegou a pensar em ir embora. Só não o fez por duas
razões. Primeiro, porque não tinha para onde ir. Segundo, porque acabou
dando-se conta de que a mulher não deixava de ter razão. De que lhe
adiantava ganhar a guerra nas estrelas, se estava perdendo a guerra que,
como marido e pai, deveria travar aqui na Terra? "Guerra nas Estrelas"
deixara-o transtornado, estragara sua vida.
Precisava fazer alguma coisa. E aí lhe ocorreu assaltar um cinema. Com o que
mataria dois coelhos com uma só cajadada (ou golpe de sabre de luz). Em
primeiro lugar, estaria se vingando daquela diabólica arte que, no escuro das
salas de projeção, corrompia corações e mentes. Ao mesmo tempo, arranjaria
uma grana que, considerando as multidões atraídas pelo sucesso do filme, não
deveria ser pouca.
Só que, para proceder ao assalto, precisaria estar disfarçado. Disfarçado
como? Enquanto buscava uma resposta, seu olhar caiu sobre a fantasia de
Darth Vader. Ali estava a resposta. Como Darth Vader assaltaria o cinema. E,
depois do assalto ao cinema, outros se seguiriam. A mulher não se queixaria
mais da falta de dinheiro. E ele poderia viver em paz, sonhando com o dia em
que, numa nave espacial, seguiria viagem para uma galáxia muito, muito
longínqüa.
Folha de São Paulo (São Paulo) 30/05/2005

Os noivos
Nelson Rodrigues

Quando Salviano começou a namorar Edila, o pai o chamou:

— Senta, meu filho, senta. Vamos bater um papo.

Ele obedeceu:

— Pronto, papai.

O velho levantou-se. Andou de um lado para outro e senta de novo:

— Quero saber, de ti, o seguinte: esse teu namoro é coisa séria? Pra
casar?

Vermelho, respondeu:

— Minhas intenções são boas.

O outro esfrega as mãos.

— Ótimo! Edila é uma moça direita, moça de família. E o que eu não


quero para minha filha, não desejo para a filha dos outros. Agora,
meu filho, vou te dar um conselho.
Salviano espera. Apesar de adulto, de homem-feito, considerava o
pai uma espécie de Bíblia. O velho, que estava sentado, ergue-se;
põe a mão no ombro do filho:

— O grande golpe de um namorado, sabe qual é? No duro? — E baixa


a voz: — É não tocar na pequena, não tomar certas liberdades,
percebeu?
Assombro de Salviano: "Mas, como? Liberdades, como?".

E o pai:

— Por exemplo: o beijo! Se você beija sua namorada a torto e a


direito, o que é que acontece? Você enjoa, meu filho. Batata: enjoa!
E quando chega o casamento, nem a mulher oferece novidades para
o homem, nem o homem para a mulher. A lua-de-mel vai-se por
água abaixo. Compreende?

Abismado de tanta sabedoria, admitiu:

— Compreendi.

A SOMBRA PATERNA

Na tarde seguinte, quando se encontrou com a menina, tratou de


resumir a conversa da véspera. Terminou, com um verdadeiro grito
de alma:

— Muito bacana, o meu pai! Tu não achas?

Edila, também numa impressão profunda, conveio: "Acho”.

— Concordas?

Foi positiva:

— Concordo.

Pouco antes de se despedir, Salviano batia no peito:

— Dizem que ninguém é infalível. Pois eu vou te dizer negócio: meu


pai é infalível, percebeu? Infalível, no duro

O BEIJO

Nesse dia, coincidiu que a mãe de Edila também a doutrinasse sobre


as possibilidades ameaçadoras de qualquer namoro. E insistiu, com
muito empenho, sobre um ponto que considerava importantíssimo:

— Cuidado com o beijo na boca! O perigo é o beijo na boca!

A garota, espantada,protestou

— Ora, mamãe!

E a velha:

— Ora o quê? É isso mesmo! Sem beijo não há nada, está ,.tudo
muito bem. OK. E com beijo pode acontecer o diabo. Você é muito
menina e talvez não perceba certas coisas. Mas pode ficar certa: tudo
que acontece de ruim, entre um homem e uma mulher, começa num
beijo!

O IDÍLIO

Foi um namoro tranqüilo, macio, sem impaciências, arrebatamentos.


Sob a inspiração paterna, ele planificou o romance, de alto a baixo,
sem descurar de nenhum detalhe. Antes de mais nada, houve o
seguinte acordo:

— Eu não toco em ti até o dia do casamento.

Edila pergunta:

— E nem me beija?

Enfiou as duas mãos nos bolsos:

— Nem te beijo. OK?

Encarou-o, serena:

— OK.

Dir-se-ia que este assentimento o surpreendeu. Insinua:

— Ou será que você vai sentir falta?

— De quê?

E Salviano, lambendo os beiços:

— Digo falta de beijos e, enfim, de carinho.


Sorriu, segura de si:

— Não. Estou cem por cento com teu pai. Acho que teu pai está com
a razão.

Salviano não sabe o que dizer. Edila continua, com o seu jeito
tranqüilo:

— Sabe que essas coisas não me interessam muito? Eu acho que não
sou como as outras. Sou diferente. Vejo minhas amigas dizerem que
beijo é isso, aquilo e aquilo outro. Fico boba! E te digo mais: eu
tenho, até, uma certa repugnância. Olha como eu estou arrepiada,
olha, só de falar nesse assunto!

O VELHO

Desde menino, Salviano se habituara a prestar contas quase diárias


ao pai, de suas idéias, sentimentos e atos. O velho, que se chamava
Notário, ouvia e dava os conselhos que cada caso comportava.
Durante todo o namoro com Edila, seu Notário esteve, sempre, a par
das reações do filho e da futura nora. Salviano, ao terminar as
confidências, queria saber: "Que tal, papai?". Seu Notário apanhava
um cigarro, acendia-o e dava seu parecer, com uma clarividência que
intimidava o rapaz:

— Já vi que essa menina tem o temperamento de uma esposa cem


por cento. A esposa deve ser, mal comparando, e sob certos
aspectos, um paralelepípedo. Essas mulheres que dão muita
importância à matéria não devem casar. A esposa, quanto mais fria,
mais acomodada, melhor!

Salviano retransmitia, tanto quanto possível, para a namorada, as


reflexões paternas. Edila suspirava: "Teu pai é uma simpatia!". De
vez em quando, o rapaz queria esquecer as lições que recebia em
casa. Com uma salivação intensa, o olhar rutilante, tentava enlaçar a
pequena. Edila, porém, era irredutível; imobilizava-o:

— Quieto!

Ele recuava:

— Tens razão!

CATÁSTROFE

Um dia, porém, o dr. Borborema, que era médico de Edila e família,


vai procurar Salviano no emprego. Conversam no corredor. O
velhinho foi sumário: "Sua noiva acaba de sair do meu consultório.
Para encurtar conversa: ela vai ser mãe!". Salviano recua, sem
entender:

— Mãe?!...

E o outro, balançando a cabeça: "Por que é que vocês não


esperaram, carambolas? Custava esperar?". Salviano travou-lhe o
braço, rilhava os dentes: "De quantos meses?". Resposta: "Três". Dr.
Borborema já se despedia: "O negócio, agora, já sabe: é apressar o
casamento. Casar antes que dê na vista". Petrificado, deixou o
médico ir. No corredor do emprego, apertava a cabeça entre as
mãos: "Não é possível! Não pode ser!". Meia hora depois,
desembarcava e invadia, alucinado, a casa do pai. Arremessou-se nos
braços de seu Notário, aos soluços.

— Edila está nessas e nessas condições, meu pai! — E, num soluço


mais,fundo, completa: — E não fui eu! Juro que não fui eu!

MISERICÓRDIA

Foi uma conversa que se alongou por toda uma noite. No seu
desespero inicial, ele berrava: "Cínica! Cínica!". E soluçava: "Nunca
teve um beijo meu, que sou seu noivo, e vai ter o filho do outro!". O
pai, porém, conseguiu, após poucos, aplacá-lo. Sustentou a tese de
que todos nós, afinal de contas, somos falíveis e, particularmente, as
mulheres: "Elas são de vidro", afirmava. Alta madrugada, o pobre-
diabo pergunta: "E eu? Devo fazer o quê?". Justiça se lhe faça - o
velho foi magnífico: "Perdoar. Perdoa, meu filho, perdoa!". Quis
protestar: "Ela merece um tiro!". Mais que depressa, seu Notário
atalha:
— Ela, não, nunca! Ele, sim! Ele merece!

— Quem?

Baixa a voz: "O pai da criança! Esse filho não caiu do céu, de pára-
quedas! Há um culpado". Pausa. Os dois se entreolham. Seu Notário
segura o filho pelos dois braços:

— Antes de ti, Edila teve um namorado. Deve ter sido ele. Se fosse
comigo, eu matava o cara que...

Ergue-se, transfigurado, quase eufórico: "Tem razão, meu pai! O


senhor sempre tem razão!".
O INOCENTE

Pôde, assim; desviar da noiva o seu ódio De manhã, passou pela casa
de Edila. Com apavorante serenidade, em voz baixa, pediu o nome do
culpado. Diante dele, a garota torcia e destorcia as mãos: "Não digo!
Tudo, menos isso!". Ele sugeria, desesperado: "Foi o Pimenta?". O
Pimenta era o antigo namorado de Edila. Ela dizia: "Não sei, não
sei!". Salviano saiu dali certo. Procurou o outro, que conhecia de
nome e de vista. Antes que o Pimenta pudesse esboçar um gesto,
matou-o, com três tiros, à queima-roupa. E fez mais. Vendo um
homem, um semelhante, agonizar aos seus pés, com um olhar de
espanto intolerável, ele virou a arma contra si mesmo e estourou os
miolos. Mais tarde, desembaraçado o corpo, foi instalada a câmara-
ardente na casa paterna. Alta madrugada, havia, na sala, três ou
quatro pessoas, além da noiva e de seu Notário. Em dado momento,
o velho bate no ombro de Edila e a chama para o corredor. E, lá, ele,
sem uma palavra, aperta entre as mãos o rosto da pequena e a beija
na boca, com loucura, gana. Quando se desprendem, seu Notário,
respirando forte, baixa a voz:

— Foi melhor assim. Ninguém desconfia. Ótimo.

Voltaram para a sala e continuaram o velório.


O Pediatra
Nelson Rodrigues

Saiu do telefone e anunciou para todo o escritório:


— Topou! Topou!
Foi envolvido, cercado por três ou quatro companheiros. O Meireles
cutuca:
— Batata?
Menezes abre o colarinho: — "Batatíssima!". Outro insiste:
— Vale? Justifica?
Fez um escândalo:
— Se vale? Se justifica? Ó rapaz! É a melhor mulher do Rio de
Janeiro! Casada e te digo mais: séria pra chuchu!
Alguém insinuou: — "Séria e trai o marido?". Então, o Menezes
improvisou um comício em defesa da bem-amada:
— Rapaz! Gosta de mim, entende? De mais a mais, escuta: o marido
é uma fera! O marido é uma besta!
Ao lado, o Meireles, impressionado, rosna:
— Você dá sorte com mulher! Como você nunca vi! — E repetia,
ralado de inveja: — Você tem uma estrela miserável!

O AMOR IMORTAL

Há três ou quatro semanas que o Menezes falava num novo amor


imortal. Contava, para os companheiros embasbacados: — "Mulher
de um pediatra, mas olha: — um colosso! ". Queriam saber: — "Topa
ou não topa?". Esfregava as mãos, radiante:
— Estou dando em cima, salivando. Está indo.
Todas as manhãs, quando o Menezes pisava no escritório, os
companheiros o recebiam com a pergunta: — "E a cara?". Tirando o
paletó, feliz da vida, respondia:
— Está quase. Ontem, falamos no telefone quatro horas! Os colegas
pasmavam para esse desperdício: - "Isso não é mais cantada, é ...E o
vento levou". Meireles sustentava o princípio que nem a Ava Gardner,
nem a Cleópatra justificam quatro horas de telefone. Menezes
protestava:
— Essa vale! Vale, sim senhor! Perfeitamente, vale! E, além disso,
nunca fez isso! É de uma fidelidade mórbida! Compreendeu? Doentia!
E ele, que tinha filhos naturais em vários bairros do Rio de Janeiro,
abandonara todos os outros casos e dava plena e total exclusividade
à esposa do pediatra. Abria o coração no escritório:
— Sempre tive a tara da mulher séria! Só acho graça em mulher
séria!
Finalmente, após quarenta e cinco dias de telefonemas desvairados,
eis que a moça capitula. Toda a firma exulta. E o Menezes, passando
o lenço no suor da testa, admitia: — "Custou, puxa vida! Nunca uma
mulher me resistiu tanto!". E, súbito, o Menezes bate na testa:
— É mesmo! Está faltando um detalhe! O apartamento! Agarra o
Meireles pelo braço: — "Tu emprestas o teu?". O outro tem um
repelão pânico:
— Você é besta, rapaz! Minha mãe mora lá! Sossega o periquito!
Mas o Menezes era teimoso. Argumenta:
— Escuta, escuta! Deixa eu falar. A moça é séria. Séria pra burro.
Nunca vi tanta virtude na minha vida. E eu não posso levar para uma
baiúca. Tem que ser,olha: — apartamento residencial e familiar. É um
favor de mãe pra filho caçula.
O outro reagia: — "E minha mãe? Mora lá, rapaz!". Durante umas
duas horas, pediu por tudo:
— Só essa vez. Faz o seguinte: — manda a tua mãe dar uma volta.
Eu passo lá duas horas no máximo!
Tanto insistiu que, finalmente, o amigo bufa:
— Vá lá! Mas escuta: — pela primeira e última vez! Aperta a mão do
companheiro:
— És uma mãe!

DECISÃO

Pouco depois, Menezes ligava para o ser amado: — Arranjei um


apartamento genial.
Do outro lado, aflita, ela queria saber tudinho: "Mas é como, hein?".
Febril de desejo, deu todas as explicações: — "Um edifício
residencial, na rua Voluntários. Inclusive, mora lá a mãe de um
amigo. Do apartamento, ouve-se a algazarra das crianças". Ela, que
se chamava Ieda, suspira:
— Tenho medo! Tenho medo!
Ficou tudo combinado para o dia seguinte, às quatro da tarde. No
escritório, perguntaram:
— E o pediatra?
Menezes chegou a tomar um susto. De tanto desejar a mulher,
esquecera completamente o marido. E havia qualquer coisa de
pungente, de tocante, na especialidade do traído, do enganado. Fosse
médico de nariz e garganta, ou simplesmente de clínica geral, ou
tisiólogo, vá lá. Mas pediatra! O próprio Menezes pensava: —
"Enquanto o desgraçado trata de criancinhas, é passado pra trás!". E,
por um momento, ele teve remorso de fazer aquele papel com um
pediatra. Na manhã seguinte, com a conivência de todo o escritório,
não foi ao trabalho. Os colegas fizeram apenas uma exigência: — que
ele contasse tudo, todas as reações da moça. Ele queria se
concentrar para a tarde de amor. Tomou, como diria mais tarde,
textualmente, "um banho de Cleópatra". A mãe, que era uma santa,
emprestou-lhe o perfume. Cerca do meio-dia, já pronto e de branco,
cheiroso como um bebê, liga para o Meireles:
— Como é? Combinaste tudo com a velha?
— Combinei. Mamãe vai passar a tarde em Realengo. Menezes trata
de almoçar. "Preciso me alimentar bem", era o que pensava. Comeu
e reforçou o almoço com uma gemada. Antes de sair de casa, ligou
para Ieda:
— Meu amor, escuta. Vou pra lá. E ela:
— Já?
Explica:
— Tenho que chegar primeiro. E olha: vou deixar a porta apenas
encostada. Você chega e empurra. Não precisa bater. Basta
empurrar.
Geme: — "Estou nervosíssima!".
E ele, com o coração aos pinotes:
— Um beijo bem molhado nesta boquinha.
— Pra ti também.

ESPANTO

Às três e meia, ele estava no apartamento, fumando um cigarro atrás


do outro. Às quatro, estava junto à porta, esperando. Ieda só
apareceu às quatro e meia. Ela põe a bolsa em cima da mesa e vai
explicando:
— Demorei porque meu marido se atrasou.
Menezes não entende: — "Teu marido?", e ela:
— Ele veio me trazer e se atrasou. Meu filho, vamos que eu não
posso ficar mais de meia hora. Meu marido está lá embaixo,
esperando.
Assombrado, puxa a pequena: — "Escuta aqui. Teu marido? Que
negócio é esse? Está lá embaixo! Diz pra mim: — teu marido sabe?".
Ela começou:
— Desabotoa aqui nas costas. Meu marido sabe, sim. Desabotoa.
Sabe, claro.
Desatinado, apertava a cabeça entre as mãos: — "Não é possível!
Não pode ser! Ou é piada tua?". Já impaciente, Ieda teve de levá-lo
até a janela. Ele olha e vê, embaixo, obeso e careca, o pediatra.
Desesperado, Menezes gagueja: — "Quer dizer que...". E, continua:
"Olha aqui. Acho melhor a gente desistir. Melhor, entende? Não
convém. Assim não quero".
Então, aquela moça bonita, de seio farto, estende a mão:
— Dois mil cruzeiros. É quanto cobra o meu marido. Meu marido é
quem trata dos preços. Dois mil cruzeiros.
Menezes desatou a chorar.