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A ABELHA SINALAGMÁTICA E HIPERBÓLICA:

O PERIÓDICO MINEIRO ABELHA DO ITACULUMY (1824-1825)

Introdução

Wlamir Silva

Abelha que o mel fabricas Do licor das lindas flores Sobre as asas leva exemplos Aonde houver traidores

(Abelha do Itaculumy (AI), Ouro Preto: 29/12/1824)

No simbolismo político ocidental, a Abelha representa “o senhor da ordem e da prosperidade, rei ou imperador, não menos que o ardor bélico e a coragem. Lembra os heróis civilizadores, que estabelecem a harmonia mediante a sabedoria e a espada” (CHEVALIER, 1986: 42). A denominação do periódico Abelha do Itaculumy, criado em 1824 na capital da província de Minas Gerais, Ouro Preto, foi coerente com a proposta editorial levada a termo por um ano e meio. O Abelha foi uma folha dedicada a exaltar e apoiar o primeiro imperador brasileiro, doutrinária e simbolicamente, como esteio fundamental do novo corpo político.

O Abelha do Itaculumy

O Abelha do Itaculumy foi o segundo periódico da província de Minas Gerais, impresso na Oficina Patrícia de Barbosa e Cia., num contexto de pioneirismo e dificuldades materiais e financeiras e técnicas rudimentares (MOREIRA, 2011: 166-167) 1 . O periódico podia ser subscrito ou adquirido avulso na tipografia, ou nas lojas do Coronel Nicolao Soares do Couto e do Capitão João de Deos Magalhães Gomes. No alvorecer do Primeiro Reinado na província de Minas, o Abelha fez as vezes de diário oficial, publicando leis, decretos, resoluções e instruções provinciais, o que lhe garantiria algum subsídio, e órgão civilizador e político (ALMEIDA, 2008: 49-50; SILVA, 2011: 91-92) 2 . Não são conhecidos os seus

Doutor em História Social, professor associado da Universidade Federal de São João del-Rei. Este trabalho teve o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG). 1 O primeiro periódico da Província foi o Compilador Mineiro, publicado de 22 de outubro de 1823 a 9 de janeiro de 1824. 2 Soares do Couto e Magalhães Gomes posteriormente envolvidos na Sedição de 1833, em Ouro Preto, ver SILVA (2009: capítulo 7).

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redatores. Interagindo com correspondentes e notícias de diversas localidades mineiras e de outras partes, tinha um circuito de comunicação que ultrapassava a capital e se integrava no contexto mais amplo da formação do Estado e da nação incipientes. O Abelha do Itaculumy sucedeu ao Compilador Mineiro, também editado na Oficina Patrícia de Barbosa e Cia, que circulou no ano de 1823. Rodrigo Fialho vê uma continuidade entre os dois periódicos, já Raphael de Almeida sugere uma transição entre o desaparecimento do Compilador Mineiro e o surgimento do Abelha do Itaculumy. Para Almeida, “um reflexo do estreitamento (ou ao menos a retração) dos canais de participação política, entre o fechamento da Assembleia Legislativa, em fins de 1823, e a abertura da primeira Legislatura, em 1826” (ALMEIDA, 2008: 132-133).

O último exemplar disponível do Compilador, de 19 de novembro de 1823, não traz notícia ou opinião sobre o fechamento da assembleia Constituinte em 12 de novembro. A notícia teria surgido em dezembro, mas não se conhecem seus termos. Claus Rodarte sugere que o fato teve influência sobre o desgosto do redator, e a extinção do Compilador, visto que além de motivos de saúde o periodista se refere também a “outras circunstâncias”.

Rodarte chama a atenção para uma correspondência ao Abelha, em nove de agosto de 1824, na qual o cognominado Amigo da exatidão acusa o redator do Compilador de posições incompatíveis com a moderação e a imparcialidade e de falta de confiança no governo provincial, o que reforça a tese de descontinuidade entre ele e o Abelha, no qual o missivista era assíduo e declarava, por contraste, confiança. Na mesma missiva, o Amigo da exatidão alude também ao fato de, em fins de 1823, o redator ter se recusado a colaboração de um “ex

de acordo com suas opiniões” em troca de assinaturas, o que teria

colaborado em sua extinção (RODARTE, 2011: 57) 3 .

Secretário Deputado [

]

Sensibilizamo-nos com as observações de Claus Rodarte e somos simpáticos à hipótese de Almeida de uma transição. Somamos a isso, fundamentalmente, a disputa pelo sentido político da Capital e da Província num desdobramento do processo político oriundo da Independência e do projeto pedrino, face às contradições do caráter político do imperador e do Liberalismo imperial. Num cotejamento entre o Compilador e o Abelha, nos é evidente que,

3 O autor baseia-se em CAMPOS e LOBO (1922: 1-4). Rodarte se refere a uma nova fase do Compilador Mineiro, citando os números do Abelha do Itaculumy de 9/7 e 9/8/1824 . Em nove de julho é anunciado um Compilador Mineiro Extraordinário, em nove de agosto há uma correspondência do cognominado Amigo da exatidão, que cita “frequentes arguições do Compilador Mineiro contra o ex Governo Provisório” e ainda a “que talvez estreiteza daquele periódico não permita a publicação da íntegra da minha carta, e do documento a que me refiro”, enviando a carta, destinada ao redator do Compilador, não conhecemos, no entanto, acervo de quaisquer destes periódicos.

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se compartilhavam de um impreciso Liberalismo moderado 4 , é evidente a diferença em termos doutrinários e simbólicos: o Abelha comparecia como o campeão pedrino muito mais que o seu antecessor.

Influxos da Independência em Minas

O processo de Independência brasileiro sob a forma monárquica teve como uma de

suas dimensões a relação entre a Corte do Rio de Janeiro e as províncias. A constituição de

uma base política no Centro-Sul foi móvel do projeto autonomista liderado pelo príncipe D. Pedro e fiadora do poder em seu Reinado. No seio deste alicerce regional destacou-se a

província de Minas Gerais, de cuja visita o Príncipe sairia fortalecido para a liderança da ruptura com Portugal e a instauração de um Estado autônomo sob sua governança.

A adesão mineira não foi imediata, mas entremeada de negociação e disputa, que

envolveram articulações de viés liberal e distinções e mercês típicas do Antigo Regime. Uma ambiguidade que expõe o caráter tenso e incerto das escolhas e as variantes de habitus e cultura política dos agentes sociais em cena. Portanto, ainda a instalação do poder monárquico

envolveu conflitos acerca da forma e dos limites do contrato social estabelecido. De modo que

o Primeiro Reinado Brasileiro envolveu a disputa pela hegemonia e o embate de pedagogias políticas em desdobramento das tensões anteriores (SILVA, 2006).

A imprensa mineira

A imprensa periódica foi um significativo meio de disputa e construção de consensos

desde o movimento da Independência às definições do novo Estado e Nação. No que tange ao processo em curso, como ingrediente dos acontecimentos, e como fonte, também de forma a permitir o vislumbre das idéias e sentimentos da sociedade de então. A peroração doutrinária

e conjuntural dos redatores, inclusas as suas dimensões simbólicas, as interações narrativas e epistolares com a sociedade e o público, e as muitas entrelinhas, a fazem agente e reflexo refrato da sociedade (SILVA, 2006b). Em Minas Gerais a imprensa periódica se manifestou em Ouro Preto, no Compilador Mineiro, em fins de 1823, no Abelha do Itaculumy, de princípio de 1824 a meados de 1825,

4 Rodarte cita elementos de cunho mais contundente no Liberalismo do Compilador, e mesmo a reprodução de um artigo do Sentinela da Liberdade de Cipriano Barata, não nos parece que essas divergências sejam de fundo, mas de ênfase, e ainda não estavam tão claros os limites dos “liberalismos” de então (RODARTE, 2011: 57).

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no Companheiro do Conselho, de 1825, no Diário do Conselho, de 1825, e no O Patriota Mineiro, de 1825. Destacou-se então o Abelha do Itaculumy, por sua constância e regularidade de publicação, três vezes por semana, por um ano e meio, e por ter sido, por excelência, o porta-voz do projeto pedrino, talvez não por acidente o único periódico a circular na Província no conturbado ano de 1824 5 .

Sinalogmática e hiperbólica

Mais que um periódico de teor vagamente liberal e moderado, ou ministerial, o Abelha foi um veículo peculiar do projeto pedrino. Fato significativo ademais pelos embates que envolveram a adesão da província de Minas à liderança de D. Pedro. Das vozes renitentes de uma junta de governo com um projeto autonomista, acusado mesmo de republicano, que se pretendia equidistante das pretensões metropolitanas e da direção do Príncipe português. A conquista do apoio mineiro ao projeto pedrino se deveu a uma complexa interação de relações familiares, concessões de mercês com laivos de Antigo Regime e carisma dinástico, e um espectro de tendências liberais com exigências mais ou menos radicais de direitos, representação e autonomia, que incluíra mesmo alguns exaltamentos (SILVA, 2006). De modo que o Primeiro Reinado implicou a realização da hegemonia pedrina no novo contexto de poder estabelecido e das tensões do contrato social firmado, que revelariam tendências autoritárias de D. Pedro I, cujo paradigma seria o fechamento violento da Assembléia Constituinte em novembro de 1923, e acarretaria num paulatino divórcio entre o Imperador e a sociedade. Não seria acidental que o fechamento da Assembleia Constituinte se constituísse em marco do nascimento do novo periódico e, provavelmente, da extinção de outro.

Numa correspondência dirigida ao Abelha em outubro de 1824, o missivista, mantido no anonimato, defendia a utilidade do fechamento da Constituinte e assinalava o Pacto Synallogmatico 6 entre o Imperador e “nós” de fundação da Monarquia Constitucional brasileira, da qual, “por natureza e essência das coisas”, o monarca seria Defensor e Moderador. Usando uma metáfora comercial, campo no qual, afinal, o termo se naturalizaria, pela qual a constituição oferecida pelo Imperador poupava o tempo e os riscos da “cooperação simultânea”.

5 O Compilador Mineiro cessa em 9 de janeiro de 1824 (CARVALHO, 1994: 57; ALMEIDA, 2008: 23). 6 Um pacto sinalogmático, ou sinalagmático, é o de mutualidade e reciprocidade. O termo foi popularizado por Proudhon, em busca do Estado mínimo, e acolhido pelo Direito (FERNANDES, 2012).

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Listando exemplos históricos, europeus e estadunidense, o missivista conclui pelo valor da ação de um só homem, de Luís XVI a Benjamin Franklin: “Um só grande Homem nos teria dado uma Constituição; uma multidão de pessoas de mérito deu-nos uma Revolução:

a força moral apenas revolucionária a França; a força física desorganizou ambos os mundos”. Prega, então: “Brasileiros, a mediania, balisada à direita e à esquerda pela razão, é o caminho seguro, e o excesso de liberdade precipita nos abismos da anarquia, para a qual vos querem embair os Campeões furiosos do Liberalismo” (AI: 11 e 25/10/1824). Se o elogio da moderação foi um elemento da pedagogia do Abelha, esta só pode ser compreendida em sua peculiaridade pelo centralidade atribuída ao monarca. Que se completaria pela circularidade promovida entre o periódico e a sociedade do reconhecimento simbólico do Imperador como herói e esteio do Estado. Assim, na folha subsequente ao elogio do “homem”, o periódico mineiro reverberava os festejos pela aclamação de D. Pedro como imperador (AI, 11 e 13/10/1824). Noutro sentido, a moderação do Abelha se define, já em seu primeiro número em contraponto ao germen da anarquia anunciado pela “agradável impetuosidade dos nordestes”, que lembravam aos “geralistas” de se ocuparem dos “grandes objetos”: “Independência, Imperador Constitucional, e integridade do Império”. O Abelha situa-se entre o ouropel do Liberalismo exaltado e as servis condescencências, mas tem sua origem logo atada à defesa do fechamento da Assembleia Constituinte – “a bem da nação” –, ao elogio da Carta outorgada e às desabertas louvaminhas ao Imperador: o “César Pedro”, o “Grande Pedro”, e publicava o projeto de constituição (AI: 12, 14, 16,19 e 30/1/1824). O contraponto do Norte era, também, balizado pelos atos do Imperador. Parte da construção ideológica do Abelha consistiu nos primeiros passos da da mineiridade. Numa inflexão coeva, e não apenas uma construção a posteriori (AI:) 7 . O patriotismo mineiro seria, portanto um constructo identitário, que se apoiava nas peculiaridades da economia de abastecimento e sua configuração social:

] de todas as

convulsões populares: em Minas (cuja população deve subir a 800 $ almas, e destas mais de três quartas partes

livres) quase todos são proprietários; quase todos possuem um pedaço de terreno, que cultivam” (AI: 23/1/1824 e

1º/9/1824) 8 .

se não há casas de uma opulência considerável, também não há pobreza real, origem primária [

os mineiros sem precisão de objetos estranhos para a sua comodidade, e mesmo luxo, só terão dependência da beira-mar para levarem o seu supérfluo (AI: 30/7/1824).

7 Ver ALMEIDA, op. cit., p. 139. 8 Em 21/7/1824, a noção de “propriedades [

]

melhor repartidas” é estendida às províncias do Sul.

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A difusão da propriedade, a pobreza mitigada e a frugalidade eram bom terreno para o patriotismo e a construção da índole dos habitantes industriosos de Minas (AI: 23/1/1824) completar-se-ia no contraponto com as províncias do Norte (AI: 21/71824). Num movimento circular, o patriotismo mineiro reverberava na imprensa pedrina da Corte e retornava à páginas do Abelha:

Os Mineiros tem muito mais viveza no espírito e (como diz o sábio botanista S. Hilaire que bem os conhece) o juízo muito reto, para que seja possível aos Demagogos fazer-lhes engolir as patranhas com que estão há tanto tempo fartando aos papa-moscas e cabeças esquentadas das Províncias do Norte (AI, 14/6/1824, Da Estrella).

Aquelas, como Pernambuco, eram iludidas por demagogos (AI, 12 e 14/7/1824). A oposição Norte/ Sul foi mesmo oficial, como mostra o Abelha, implicando a separação provisória da Comarca do Rio São Francisco da província de Pernambuco e sua incorporação à de Minas, com o fito de evitar o espraiamento da Confederação do Equador pela região e como prova de confiança na Província e do caráter mineiro (AI, 2/8/1824). A Comarca ficaria sob o controle mineiro até 1827, quando passaria à jurisdição baiana (BERNARDES,

2006:112).

Não foi por acidente que a redação do Abelha animou-se a contrapor ao ameaçador signo republicano uma invectiva de maior escopo às revoluções da América do Sul – México, Peru, Chile – que “se deixaram arrastar por teorias e por partidos” (AI: 2/8/1824). Em contraponto à América espanhola, que conhecera a “desorganização da sociedade civil” (AI:

13/9/1824) dividida nas “pretensões opostas das famílias mais influentes” (AI: 15/9/1824), afirmava-se a maior adaptação da Monarquia à América meridional, realizada pela “Revolução brasílica”, ao invés das “desgraças das Américas espanholas”. As “novidades teóricas” resultaram em “Governos Oligárquicos ou Republicanos”, na “perigosa estrada das revoluções” (AI: 20/9/1824). É significativo que o Abelha tenha mesmo publicado o projeto de Manoel de Carvalho, ou seja, da Confederação do Equador, como referente para a crítica ao federalismo (AI: 21, 26 e 31/1 e 2 e 7/2/1825), num enfrentamento que remetia às questões levantadas nas lides da Independência. No âmbito da moderação liberal se evidencia no Abelha o cuidado para com a figura do monarca. Como bem observa Luciano Moreira, o periódico repudiava a soberania popular, pela qual dar-se-ia “uma confusão dos poderes legislativo e executivo”, uma vez que “o Povo sendo Soberano a Lei é obra da vontade geral; o Povo, sendo Príncipe, cada ato do poder executivo é também da vontade geral, e também uma Lei”. De tal forma, o Povo/ Príncipe

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“devora e absorve o Soberano”, degenerando o Estado na “Populaça [que] nestes tempos modernos parece só desejar a Democracia; e [que] que destruiu os Governos mais Democráticos da Antiguidade”. A solução dada foi a de “que todos os Poderes são delegações da Nação”, e a “Nação” só poderia ser una, não se fracionando em províncias, comarcas ou distritos (MOREIRA, 2001: 211-212; AI, 3/9/1824 e 17/1/1825), se representada no monarca. A centralidade do monarca reduzia, como observava Emília Viotti da Costa, “a

liberdade à ordem, a vontade geral do povo à soberania da nação, entendida às vezes como a reunião dos súditos e do soberano, no qual este é a cabeça e a nação o corpo” (COSTA, 1985:

74). Trabalhando para o “engendramento da soberania na persona de D. Pedro I” em detrimento da moderna soberania popular e no sentido de uma “soberania imperial” (SOUZA, 1999: 169, 198-199 e 272). Nessa perspectiva, a preeminência pedrina é o evidente cerne da

se constitui o Ídolo do Povo” (AI: 31/3/1824), o

“César Pedro”, o “Grande Pedro” (AI, 19/1/1824), e a Carta outorgada, referida como a Constituição Liberal, era o coroamento do Contrato Social Brasileiro. Pacto estabelecido entre o Povo – Cidadãos honrados, Pais de família pacificos e amigos de uma sábia e bem entendida liberdade – e o Jovem Herói D. Pedro. Como o Pacto Fundamental oferecido à

Nação pelo Monarca (AI: 21/4/1824). Um discurso do Capelão Francisco de Assis Pereira ao Regimento de Cavalaria da 2ª Linha de Ouro Preto, por ocasião do aniversário do Imperador, reproduzida pelo Abelha,

avançava na caracterização da relação com o Imperador, tecendo loas aos feitos militares do herói brasileiro: “Pedro, o Grande, a quem devemos amor, fidelidade e vassalagem”. No mesmo sentido perorava o letrado José de Sá Bitencourt, na Câmara de Caeté, festejando o Grande Pedro – maior que o da Rússia, pois despreza o despotismo – e destacando a “marcha

desprezando o orgulho dos seus maiores, o absolutismo dos

por conhecer a igualdade com que a Natureza dotou a todos os

homens”. Marcha da qual destacava o ter “dado uma tão liberal Constituição”. Para Bitencourt, a razão faria jus ao Imperador (AI: 29/10/1824). E o elemento racional justificativo da prevalência do Imperador, calculados os custos e os benefícios, seria brandido pelo missivista cognominado O Philopatrico, que observa a “razoável marcha da nossa bem entendida liberdade”, uma “liberdade racionável”, em contraponto aos “zangões da Sociedade [em oposição à Abelha-Rainha], de cujas ocas cabeças em tumulto correm as surdas tramóias da inveja, calúnias, atrocidades, perjúrios, traições, e parricídios, os atentados da ambição e sanguinolentas explosões fascinar os povos” (AI: 8/11/1824).

das suas heróicas operações [

seus antepassados [

pedagogia do Abelha: “[o] Monarca [

]

]

]

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O Abelha ligava-se ao aulicismo da Corte do Rio de Janeiro do Diário do Governo, do Estrela Brasileira, financiado pelo próprio Imperador e de viés legitimista, e absolutista, do Spectador e do Diário Fluminense (SODRÉ, 1966). A par do Estrela, apoiou o projeto de Constituição enviado pelo Imperador para a apreciação das câmaras municipais (AI:

14/1/1824) 9 , e seguiu em defesa dos elementos que se iam constituindo na cidadela política do Imperador desde os primeiros ataques às suas tendências autoritárias, da Guerra Cisplatina à ação das comissões militares, as quais “vão até as raízes do cancro devorador” (AI:

23/3/1825) 10 . Informando por meio dos artigos de ofício as medidas pedrinas e os fastos do Norte, o Abelha fazia também circular as manifestações das câmaras, âmbito político escolhido pelo Imperador em busca de legitimidade. Repercutindo os juramentos à Carta outorgada (AI: 2, 26 e 28/4/1824). Mas sinalogmática do Abelha não bastaria, ou ainda, não se resumiria, a elementos doutrinários e racionais. Além das referências ilustradas, com Bentham, Montesquieu e outros, boa parte da pedagogia pedrina do periódico estaria na construção da imagem do jovem Imperador. O peso simbólico do herói feito imperador implicaria numa miríade de elementos. A religião da qual o Imperador seria Delegado e credor de veneração 11 , as honras militares que faziam jus ao soberano de ações fundadoras e a ligação com as províncias do Centro-Sul. Um intenso crisol simbólico estender-se-ia pelas páginas do Abelha, em versos, hinos e imagens retóricas, em interação com a sociedade. As comemorações da aclamação do Imperador em doze de outubro de 1824 reuniriam exemplarmente tais ingredientes. A espetacular apresentação de uma representação pictórica “do Nosso ídolo, O Imperador Constitucional” era acompanhada de versos não menos elegíacos:

Pelo Império, por Ti, em Dom Celeste, Foi no Brasil com glória acrescentada À famosa Legenda que lhe Deste == Independência ou Morte, == Pedro ou nada.

Época sem par, Dia eternizado, É Esta, é Este o Povo Brasileiro! Viu hoje a luz, e foi hoje Aclamado Pedro no Império, e Corações Primeiro.

9 O Estrela, reverberado pelo Abelha, fazia mesmo críticas a concessões do projeto, como a pequena renda exigida pelo critério censitário, uma vez que o mesmo deveria “representar particularmente a grande propriedade”, o veto apenas suspensivo pelo Imperador e a reunião conjunta entre as câmaras temporária e vitalícia, que diminuía o Senado face ao número de deputados (AI, 19/1/1824). 10 Reproduzindo o Spectador. 11 Para a importância da religião no Abelha, ver SILVA (2011: 90-93). Para o autor as menções, traduções e textos seriam característicos de periódicos redigidos por párocos, sugerindo que o padre Viegas de Menezes fosse um dos seus redatores.

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O dom celeste do direito divino temperado com a legenda heróica identificava o herói ao povo e o fazia “Primeiro” no edifício político do Império e nos corações do povo. Mas os festejos iriam mais longe. Autoridades travestidas de índios representariam com grande impacto visual o amor ao Imperador:

Um índio (o Sr. Francisco de sales de Oliveira e Castro, Oficial de Fazenda) riquissimamente vestido de sedas bordadas de Ouro e Prata, adornado de um Soberbo Cocar guarnecido de jóias, bem como o Cinto, simbolizando o generoso Povo de Minas, recitou um elegante Elogio; findo o qual redobraram-se os Vivas, e de um dos Camarotes duas Senhoras, alternando, entoaram o novo Hino Patriótico que transcrevemos.

Oh Dia de Glória, Que Pedro nos deste! Foi mimo Celeste, Que Pátria nos deu, Mineiros! À Pátria Votemos valor; Votemos à Pedro Respeito e amor. Firmeza, constancia

À Pátria se deve

À

Pedro que rege,

Fiel adesão.

Fiel adesão.

Mineiros &c.

O Trono, o Império

Do Grande Brasil, Da História o Boril

Gravado já tem.

Mineiros &c.

Mil graças ao céu,

A Pedro Louvores;

Os lusos furores Calcados serão.

Como narra o Abelha, exemplares do hino corriam os camarotes e eram lançados das varandas. A peça a seguir trazia um séquito de índios, representados por militares, funcionários e letrados. Alguns como “personagens americanos” – como o Inca-Ataliba. O imperador Inca Ataliba, ou Atahualpa, imperador Inca que enfrentou Pizarro. É interessante observar que D. Pedro escolhera o nome de Gatimozim, o último imperador Azteca, ao entrar na maçonaria, em 1822 (LIMA, 1997: 109). Os atores vestiam-se à “peruviana”, rica e caricaturalmente, inclusive com “jaquetas e meias de seda inteiriças, tintas e de cor de carne para figurarem meio-nus”. Um deles, o oficial de fazenda Mello Franco, representou o religioso Bartolomeu de Las Casas, outro, o sargento-mor ajudante de ordens do Governo das

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Armas Gomes Freire de Andrada, “um espanhol honrado e bravo, ferido porém no íntimo d’alma dos encantos de uma Donzela virtuosa”, também ricamente trajado.

É curioso que o Abelha tenha publicado contantemente notícias sobre os botocudos,

índios “nacionais”, e os esforços de sua civilização, a ponto do Diretor de Índios Guido Thomaz Marliére ter se desculpado pela “indigestão” de “tantas notícias de índios”, e os índios representados sejam da América Espanhola. Invertendo assim a repulsa às instáveis plagas espanholas e se rendendo à tradição portuguesa que representara havia três décadas os

sublevados mineiros como um índio de joelhos Seguiram-se um pantomimo e uma valsa até o princípio da madrugada. Tudo com grande atração para o público, destacado o brilhantismo do projeto, em “dar lições de vivo Patriotismo, e da mais fiel adesão ao Imperador”. Na fecha da narrativa os redatores desculpam-se pelo que eventualmente lhes tenha escapado, mas afirmam que decerto nãos os

taxariam de “hiperbólicos” (AI: 13/10/1824). De fato, o receio dos redatores se justificava, pois hiperbólica era toda a trama de ações exposta e alimentada pelo periódico pedrino, pois a hipérbole completava e contituía o pacto sinalogmático. Se os festejos eram instituintes da nova sociedade, como aponta Simone Chamon (CHAMON, 2002: 106). As páginas do Abelha somavam – e dela desdobravam? – à sinalagmática hiperbólica um espaço de mobilização armada sob a direção imperial, divulgando e exaltando iniciativas militares, recrutamento, voluntariado e promovendo, ao longo de todo o período, subscrições para o sustento de tropas (AI: 30/6 e 2/7/1824) 13 : “Quando o Imperador chama às Armas todos os brasileiros, qualquer omissão, qualquer negligência, e ainda medo são crimes

capitais

patriotismo mineiro, como se observa na nota sobre Bernarda Canuta da Silveira, do Serro

O Imperador é o modelo”. O voluntariado era uma expressão da semente do

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[

]

Frio, que oferecera dois filhos para a Guerra da Independência, na associação entre o soldado, o patriota e o cidadão (AI: 6/9/1824).

O denodo militar seria também mote para a identidade mineira, o que repetir-se-ia em

inúmeras proclamações às tropas. Dirigindo-se à tropa que marchava para a Comarca do rio São Francisco, fronteira belicosa com o Norte, o coronel Jacinto Pinto Teixeira conclamava:

“Marchemos e mostremos ao mundo inteiro que os Mineiros sempre briosos, e sempre fiéis não dão pasto aos Monstros da Discórdia, e que o procuram esmagar em qualquer parte que ele ouse ameaçar a Segurança do Império” (AI: 3/11/1824).

12 Dos “Autos da Devassa”, citado em DAVIS (1993: 199-200). 13 . Ver, a exemplo, as representações no AI (11/8/1824), proclamações militares, como as do Rio Doce e de Sabará (AI: 18/8/1824), e notícias da organização de tropas (AI : 30/8/1824).

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Já em setembro de 1825, por razão da expedição mineira à Comarca da Jacobina, Bahia, a redação pontificava: “os mineiros não promovem desordens, acomodam-nas, e ”

(AI: 9/5/1825). E a

dissipam-nas, em qualquer parte onde pode chegar a sua influência; urgência do combate à anarquia remete à urgência do poder imperial:

Molesto é o peso do Cetro! Quanto custa a um soberano, Pai e Amigo de Seus Súditos não poder acudir

] Uma

Revolução na Sociedade é um cancro no corpo humano: suas raízes estão de maneira encravada nas

com a velocidade do raio ao profresso do veneno, que corrói o germen da prosperidade social![

artérias, que a existência corre perigo

E ainda em suas páginas também se fizeram os esforços de orientar o voto nas eleições gerais de 1824, caracterizando o protótipo do candidato ideal, como intentava um missivista anônimo (AI: 21/4/1824) 14 , o mesmo cabalando em favor de indivíduos considerados alinhados com as necessidades da pátria (AI: primeira quinzena 6/1824). Buscando ao redor da persona monárquica a representação adequada ao pacto firmado pela Carta outorgada.

Conclusões

Segundo os redatores, o Abelha raramente publicava mais de cem exemplares. Seu público era de um por cento da população de Ouro Preto (AI: 8/11/1824) 15 . No entanto, somando-se as práticas da oralidade que multiplicavam a leitura e as interações com ações públicas, como proclamações a tropas e festejos, sua influência nos parece considerável. Também porque o periódico serviu como vetor de sociabilidade e tanto as eleições como a mobilização armada e a garantia da ordem social exigiam a penetração da pedagogia pedrina 16 . O poder simbólico monárquico também colaborava com tal intento, sendo reverberado com afinco. Não há dúvida de que o Abelha se situava no campo da monarquia e da moderação e seria, como comum à imprensa da época, promotora das luzes, da instrução, do bem geral e da prosperidade pública do patriotismo (ALMEIDA, 2008: 66 e 136-139; SILVA, 2011: 93-103; RODARTE, 2010: 62-63; AI: 8/11/1824). Não se pode negar também que fosse uma folha liberal (MOREIRA, 2006: 98; ARAÚJO, 2008: 21) No entanto, uma consideração mais

14 Ver também AI: 8/3 e 19/1 e 21/4/1824.

15 Numa população estimada entre oito e nove mil habitantes em Ouro Preto.

16 É certo que a adesão ao Imperador tinha também móveis de distinção, em busca de reconhecimento póstero e de honras e mercês , mas isso não elimina nem contradiz a atuação doutrinária desses atores políticos ( AI: 11/2 e

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certeira do significado daquele periódico é o da disputa por sentidos num nuançado espectro liberal e nos efetivos consentimentos identitários. Seguindo a pista do anônimo missivista, que bem pode ser uma artimanha dos redatores, o Abelha do Itaculumy foi um agente imerso na tensão sinalogmática (RUIZ, 2012) do alvorecer do Estado Imperial, nos tênues e móveis termos da relação entre povo, nação e Imperador. E, no quadro daquela tensão, pendeu inequivocamente para a preeminência imperial, esgrimindo elementos doutrinários e construindo uma hipérbole simbólica.

Fontes primárias

Abelha do Itaculumy, Ouro Preto (1823-1824).

Compilador Mineiro, Ouro Preto (1823).

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