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UAB – UNIVERSIDADE ABERTA DO BRASIL FUESPI – FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ NEAD - NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA LICENCIATURA PLENA EM LETRAS PORTUGUÊS

INTRODUÇÃO À LINGUÍSTICA

Iveuta de Abreu Lopes Nize da Rocha Santos Paraguassu Martins Raimundo Isídio de Sousa

FUESPI

2011

L8641i

Lopes, Iveuta de Abreu. Introdução à Linguística / Iveuta de Abreu Lopes, Nize da

Rocha Santos Paraguassu Martins, Raimundo Isídio de Sousa.

– Teresina: UAB/FUESPI/NEAD, 2011.

129 p. (Licenciatura Plena em Letras Português modalidade

a distância)

ISBN: 978-85-61946-26-5

1. Linguística – concepções e estudo da linguagem. 2. Linguística – escolas linguísticas no século XX. I. Iveuta de Abreu Lopes. II. Nize da Rocha Santos Paraguassu Martins. III. Raimundo Isídio de Sousa. IV. Título.

CDD: 410

Presidente da República Dilma Vana Rousseff

Vice-presidente da República Michel Miguel Elias Temer Lulia

Ministro da Educação Fernando Haddad

Secretário de Educação a Distância Carlos Eduardo Bielschowsky

Diretor de Educação a Distância CAPES/MEC Celso José da Costa

Governador do Piauí Wilson Nunes Martins

Secretário Estadual de Educação e Cultura do Piauí Átila de Freitas Lira

Reitor da FUESPI – Fundação Universidade Estadual do Piauí Carlos Alberto Pereira da Silva

Vice-reitor da FUESPI Nouga Cardoso Batista

Pró-reitor de Ensino de Graduação – PREG Marcelo de Sousa Neto

Coordenadora da UAB-FUESPI Márcia Percília Moura Parente

Coordenador Adjunto da UAB-FUESPI Raimundo Isídio de Sousa

Pró-reitor de Pesquisa e Pós-graduação – PROP Isânio Vasconcelos de Mesquita

Pró-reitora de Extensão, Assuntos Estudantis e Comunitários – PREX Francisca Lúcia de Lima

Pró-reitor de Administração e Recursos Humanos – PRAD Acelino Vieira de Oliveira

Pró-reitor de Planejamento e Finanças – PROPLAN Raimundo da Paz Sobrinho

Coordenadora do curso de Licenciatura Plena em Letras Espanhol – EAD Margareth Torres de Alencar Costa

Edição UAB - FNDE - CAPES FUESPI/NEAD

Diretora do NEAD Márcia Percília Moura Parente

Diretor Adjunto Raimundo Isídio de Sousa

Coordenadora do Curso de Licenciatura Plena em Letras – Português Alima do Nascimento Silva

Coordenador de Tutoria Omar Mario Albornoz

Coordenadora de Produção de Material Didático Cândida Helena de Alencar Andrade

Autores do Livro Elias Maurício da Silva Rodrigues Silvana da Silva Ribeiro

Revisão Teresinha de Jesus Ferreira

Diagramação Luiz Paulo de Araújo Freitas

Capa Luiz Paulo de Araújo Freitas Fonte da imagem:

UAB/FUESPI/NEAD

Campus Poeta Torquato Neto (Pirajá), NEAD, Rua João Cabral, 2231, bairro Pirajá, Teresina (PI). CEP: 64002-150, Telefones: (86) 3213-5471 / 3213-1182

Web: ead.uespi.br E-mail:eaduespi@hotmail.com

MATERIAL PARA FINS EDUCACIONAIS DISTRIBUIÇÃO GRATUITA AOS CURSISTAS UAB/FUESPI

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO UNIDADE 1

11

1 A LINGUAGEM: NATUREZA, CARACTERÍSTICAS E FUNÇÕES

15

1. 1 O QUE É LINGUAGEM?

15

1. 2 A COMUNICAÇÃO

17

1. 3 FUNÇÕES DA LINGUAGEM

19

RESUMINDO

25

LEITURA COMPLEMENTAR

27

ATIVIDADES DE APRENDIZAGEM

30

UNIDADE 2

2 ESTUDOS DA LINGUAGEM: ESTÁGIOS DE DESENVOLVIMENTO E

PERSPECTIVAS

35

2.

1 DAANTIGUIDADE AO SÉCULO XIX

36

2.2 A LINGUÍSTICA COMPARADA

42

2.3 AS CONTRIBUIÇÕES DE HUMBOLT E WHITNEY

47

RESUMINDO

49

LEITURA COMPLEMENTAR

52

ATIVIDADES DE APRENDIZAGEM

66

UNIDADE 3

3

A LINGUÍSTICA: CIÊNCIA DA LINGUAGEM

71

3.1 REFLEXÕES SOBRE CIÊNCIA

71

3.2 A LINGUÍSTICA E SEU OBJETO DE ESTUDO

75

3.3 LINGUÍSTICA E GRAMÁTICA

79

RESUMINDO

82

LEITURA COMPLEMENTAR

84

ATIVIDADES DE APRENDIZAGEM

99

UNIDADE 4 4 AS ESCOLAS LINGUÍSTICAS NO SÉCULO XX: UMA VISÃO

INTRODUTÓRIA

103

4.1OS ESTRUTURALISMOS LINGUÍSTICOS

103

4.2 A LINGUÍSTICA FORMAL

110

4.3 AS ESCOLAS FUNCIONALISTAS

113

RESUMINDO

118

LEITURA COMPLEMENTAR

119

ATIVIDADES DE APRENDIZAGEM

124

REFERÊNCIAS

125

FUESPI/NEAD Letras Português

INTRODUÇÃO

No contexto dos estudos linguísticos, contamos hoje, no Brasil, com uma produção bastante vasta e diversificada, tanto no que diz respeito à dimensão teórica quanto aos resultados de pesquisas realizadas na área. Por que, então, estaríamos trazendo mais um texto sobre Linguística, mais especificamente, sobre introdução à Linguística? A justificativa para tanto é muito clara e plausível. Trata-se de atender a um modelo de Programa de Educação muito específico - a modalidade a distância - e a uma clientela de estudantes que, por isso, necessita de uma atenção também particular. Para atender a esse aspecto, elaboramos este livro com o objetivo de, numa linguagem científica, mas bastante acessível e didática, trazer aos estudantes de Letras-Português, na modalidade a distância, uma introdução aos estudos linguísticos. O nosso propósito, na elaboração deste material, é fazer com que os estudantes aos quais se destina tenham um primeiro contato com esse campo de estudo e, assim, preparem-se para leituras futuras, mais ousadas e aprofundadas. Tentamos fazer um breve percurso dos estudos da linguagem, desde os seus primeiros momentos, que remontam à Antiguidade Clássica, época em que as abordagens filosóficas eram preponderantes até os nossos dias, quando vislumbramos um terreno fértil em pesquisas, reflexões e conjunção de esforços acerca dos estudos sobre a linguagem humana, vista como uma ação, como interação, atualizada em práticas sociais. O livro encontra-se organizado em quatro Unidades, cada uma delas se inicia com os objetivos que desejamos alcançar; após, seguem-se os conteúdos e se encerra com algumas atividades que, certamente, auxiliarão na consolidação da aprendizagem. Na primeira Unidade, discutimos especificamente sobre linguagem, apontamos sua definição, suas características e suas funções na comunicação humana.

Na segunda Unidade, apresentamos um panorama dos estágios de desenvolvimento dos estudos da linguagem: da Antiguidade, com suas

abordagens de cunho filosófico, às perspectivas que favoreceram e prepararam

o terreno para que a Linguística se constituísse como uma ciência autônoma. Na terceira Unidade, dividida em três seções, tratamos do estatuto

da Linguística, enquanto ciência da linguagem. Inicialmente, discutimos como as próprias noções de ciência e de método científico evoluíram, especialmente, a partir do início do século XX; em seguida, mostramos a constituição do objeto de estudo da Linguística – a língua –, considerando-o em todas as suas manifestações; além disso, apresentamos a caracterização da Linguística confrontada aos estudos normativos da língua, constituídos na gramática normativa. Finalmente, na quarta Unidade, apresentamos a consolidação da Linguística como um vasto campo de investigação e conhecimento científico, iniciado com Ferdinand de Saussure, no início do século XX. Enfocamos as três escolas que orientam os estudos linguísticos: começando pelo estruturalismo, passando pelas escolas formais, como a proposta por Noam Chomsky, e finalizando com as escolas funcionalistas, que estão centradas exclusivamente no uso. Desejamos que este livro seja, para cada um daqueles que dele se utilizar, uma fonte de valiosos conhecimentos e que, também, seja uma ponte

e uma abertura para tantos outras leituras.

Iveuta de Abreu Lopes Nize da Rocha Santos Paraguassu Martins Raimundo Isídio de Sousa

UNIDADE 1

A LINGUAGEM: NATUREZA, CARACTERÍSTICAS E FUNÇÕES

OBJETIVOS

1. Caracterizar a linguagem.

2. Definir comunicação e apontar seus elementos.

3. Identificar as funções da linguagem.

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1 A LINGUAGEM: NATUREZA, CARACTERÍSTICAS E FUNÇÕES

“Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo” Ludwig Wittgenstein

1.1 O QUE É LINGUAGEM?

O termo linguagem é empregado em vários sentidos. Entretanto, o mais conhecido é o de que a linguagem é todo e qualquer meio utilizado para estabelecer comunicação. A linguagem pode ser classificada em dois tipos:

linguagem verbal e linguagem não verbal. A linguagem verbal é o meio de comunicação, próprio da espécie humana, que utiliza línguas naturais para transmitir uma mensagem. A linguagem não-verbal é o meio de comunicação que utiliza outros meios que não línguas naturais para transmitir uma mensagem, como por exemplo, imagens, movimentos, odores etc. Como este livro é uma introdução à Linguística, ciência que estuda a linguagem verbal humana, iremos, de agora em diante, nos restringir ao estudo desse tipo de linguagem. Com o desenvolvimento dos estudos lingüísticos, foram surgindo várias

definições de linguagem verbal, próximas em alguns pontos e diversas no que diz respeito à ênfase dada aos vários recortes feitos por diferentes autores. Em uma tentativa de apresentar uma visão geral e imparcial em relação a essas definições, ater-nos-emos, por hora, apenas à caracterização da linguagem verbal como uma capacidade eminentemente humana. André Martinet (1978) defende que a linguagem é duplamente articulada, Isso significa que suas unidades podem ser segmentadas. Para o autor, a linguagem articula-se em dois planos: o dos morfemas e o dos fonemas.

O

plano dos morfemas representa a primeira articulação, é dotado de sentido

e

de matéria fônica. O verbo “amava” pode ser segmentado nos seguintes

morfemas: {am-} radical; {-a} morfema que indica que o verbo é de 1ª

Introdução à Linguística

conjugação e {-va} desinência modo temporal. O plano dos fonemas representa a segunda articulação, é dotado apenas de matéria fônica. O radical do verbo “amava”, {am-}, pode articular-se nos fonemas /a/ e /m/. A esse respeito, Câmara Júnior (1981, p. 16) afirma:

A articulação da linguagem decorre da divisibilidade: a enunciação

vocal humana é articulada, porque se presta a uma divisão sistemática, por meio da qual chegamos a elementos sônicos significativos. E por outro lado, esses elementos existem, porque juntos a sua significação permanente assegura a sua

individualizada nítida e nos faz reconhecê-los, sempre idênticos a

si mesmos nas mais variadas circunstâncias.

Petter (2005, p.16), comparando o sistema de comunicação das abelhas com o sistema de comunicação humano, contrapõe as características da linguagem não-verbal utilizada pelas abelhas com as da linguagem verbal humana, como segue:

a) a mensagem (da abelha) se traduz pela dança exclusivamente, sem intervenção de

um aparelho vocal, condição essencial para a linguagem;

b) a mensagem da abelha não provoca uma resposta, mas apenas uma conduta, o

que significa que não há diálogo;

c) a comunicação se refere a um dado objetivo, fruto da experiência. A abelha não

constrói uma mensagem a partir de outra mensagem. A linguagem humana caracteriza-

se por oferecer um substituto à experiência, apto a ser transmitido infinitamente no tempo e no espaço;

d) o conteúdo da mensagem é único – o alimento, a única variação possível refere-se

à distância e à direção; o conteúdo da linguagem humana é ilimitado; e

e) a mensagem das abelhas não se deixa analisar, decompor em elementos menores.

Desse modo, podemos afirmar, sinteticamente, que a linguagem verbal se caracteriza como eminentemente humana por ser:

a) Transmitida por meio de um aparelho vocal;

b) Empregada como meio de interação entre os sujeitos;

c) Transmitida infinitamente no tempo e no espaço;

d) Apresenta conteúdo ilimitado;

e) É perfeitamente analisável;

f) É duplamente articulada.

1.2 A COMUNICAÇÃO

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A comunicação é o ato de se transmitir uma mensagem. A atividade comunicativa está presente na vida de todos os animais. Como aponta Borba (2005), os animais se comunicam seja por necessidades de sobrevivência seja por imperativos biológicos, como, por exemplo, a preservação da espécie. Entretanto, é na espécie humana que a comunicação atinge o seu mais alto grau de desenvolvimento, dado que o homem é um ser social e, como tal, necessita exprimir emoções, trocar idéias e experiências. O ato comunicativo é dinâmico e, nessa dinâmica, estão envolvidos

vários elementos. Entre os linguistas, são várias as propostas que especificam os elementos envolvidos na comunicação, mas a mais difundida é, sem dúvida,

a do linguista Roman Jakobson (2007). Segundo o autor, a comunicação é um processo em que um remetente envia uma mensagem a um destinatário que compartilha de um mesmo contexto, por meio de um canal, utilizando um código comum a ambos. O esquema que segue nos permite visualizar, sem muitos detalhes, os elementos da comunicação propostos por Jakobson (2007):

os elementos da comunicação propostos por Jakobson (2007): Observando o esquema, não é difícil perceber que

Observando o esquema, não é difícil perceber que cada um desses elementos exerce um papel essencial no processo de comunicação. O

remetente é quem envia a mensagem, e o destinatário é a quem se destina

a mensagem. A mensagem é a informação que o remetente deseja transmitir

Introdução à Linguística

ao destinatário. O contexto é o assunto a que se refere a mensagem. O contato é o canal, meio físico utilizado para transmitir a mensagem e o código é o sistema de sinais ou signos convencionais utilizado pelo remetente na transmissão da mensagem. Imaginemos, agora, a seguinte situação comunicativa em que a mensagem é transmitida e entendida pelo destinatário: “Um estudante ao telefone convidando um colega de faculdade para ir ao cinema assistir ao filme “Crepúsculo”, no próximo domingo. Nessa situação, o estudante configura-se como o remetente, o colega de faculdade como o destinatário, o convite para ir ao cinema como a mensagem, o filme “Crepúsculo” como o contexto, o telefone como o canal e a língua portuguesa como o código. Entretanto, se houver qualquer problema com um dos elementos da comunicação, podendo prejudicar ou invalidar a percepção ideal da mensagem, chamaremos esse problema de ruído. Assim, se a situação comunicativa acima sofrer interferência devido à ocorrência de “linha cruzada”, caracterizaremos esse problema como um ruído. Nesse caso, houve interferência no canal da comunicação. No entanto, vale ressaltar que há diversas situações, envolvendo outros elementos da comunicação, em que pode ocorrer ruído. Até aqui as informações apresentadas versam sobre um modelo de teoria da comunicação que trata apenas da transmissão da mensagem do remetente para o destinatário, sem se preocupar com a reciprocidade característica da comunicação humana, isto é, com a possibilidade de o destinatário tornar-se remetente e de realimentar a comunicação. A partir dos anos de 1950, nos Estados Unidos, surgiu um modelo de teoria da comunicação que tratava a linguagem não só como meio de comunicação, mas também como meio de interação social. Barros (2005) explica que, para esse novo modelo, a comunicação passou a ser pensada não mais como um fenômeno linear em que importam apenas os efeitos da comunicação sobre o destinatário, mas como um fenômeno circular, em que

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também importam os efeitos que a reação do destinatário produz sobre o remetente. Entre os linguistas, o russo Mikhail Bakhtin destacou-se como o pioneiro nos estudos do diálogo entre os interlocutores. Segundo esse autor, a interação entre os sujeitos é o princípio fundamental da linguagem. O esquema que segue nos permite visualizar a interação entre os sujeitos segundo esse novo modelo de teoria da comunicação.

segundo esse novo modelo de teoria da comunicação. Nesse esquema, diferentemente do outro, o remetente

Nesse esquema, diferentemente do outro, o remetente seleciona um código apropriado para formular uma mensagem compreensível para os seus destinatários e o destinatário interpreta e responde a mensagem por meio do seu pensamento ou por meio de um novo enunciado. É, portanto, a interação do destinatário com o remetente que torna esse modelo diferente e mais completo.

1.3 FUNÇÕES DA LINGUAGEM

Entendida como meio de comunicação, a linguagem verbal humana presta-se a várias funções. Jakobson estipulou seis funções cada uma centrada em um dos elementos acima citados. Observemos então:

a) Função referencial. É quando a linguagem é utilizada com a finalidade de transmitir uma informação. Nesse caso, é carregada de objetividade e realidade. Está centrada no contexto já que reflete uma

Introdução à Linguística

preocupação em transmitir objetivamente uma informação. Elaborada em 3ª pessoa, utiliza, principalmente, frases declarativas e estratégias argumentativas. Um exemplo de linguagem utilizada com essa função é a empregada nos jornais e revistas. O texto abaixo, por apresentar uma linguagem em 3ª pessoa, carregada de frases declarativas e objetivas, veiculando informações sobre O 2º Festival Nacional de Teatro – Pontos de Cultura – Troféu Ací Campelo, é predominantemente caracterizado como referencial.

“O 2º Festival Nacional de Teatro – Pontos de Cultura – Troféu Ací Campelo, será

realizado pelo Pontão de Cultura “Cultura Viva ao Alcance de Todos” juntamente

com Grupo Escândalo Legalizado de Teatro. O evento atrai Pontos de Culturas de

todo o país, o mesmo acontecerá no período de 25 a 29 de outubro de 2011.”

(Disponível em http://www.180graus.com/cultura/2o-festival-nacional-de-teatro-

atrai-pontos-de-cultura-de-todo-brasil-433182.html)

b) Função emotiva. É quando a linguagem é usada com a finalidade de exprimir sentimentos e opiniões. Nesse caso, é carregada de subjetividade e emoção. Está centrada no emissor já que é a sua emoção que está sendo considerada na mensagem. Elaborada em 1ª pessoa, emprega frases exclamativas e recursos como pausas, hesitações e interjeições. Um exemplo desse tipo de função está em uma situação em que um indivíduo, ao falar, morde, sem querer, a língua e diz: “Ai!”. O texto que segue ilustra um outro exemplo de linguagem com função emotiva:

Luís Fernando Veríssimo: Eu não escrevo exatamente “para” jovens. Sei que adolescentes leem o que eu escrevo, mas não são o meu “público alvo”. Na verdade meu público alvo sou eu mesmo. Procuro me satisfazer e espero que o leitor, de qualquer idade, compartilhe do meu gosto. Mas temos bons autores para o público jovem.” (COELHO, 2009).

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O texto acima é um trecho de uma entrevista concedida por Fernando Veríssimo ao jornalista André Coelho. Emprega a 1ª pessoa (Eu não escrevo ;

Procuro me satisfazer

o público que lê a sua obra, o que produz efeitos de subjetividade, próprios da

função emotiva.

c) Função conativa ou apelativa. É quando a linguagem é utilizada

com a finalidade de persuadir o receptor. A linguagem é elaborada em 2ª pessoa, com o uso de frases imperativas, modalizadores deônticos (dever) e estruturas de pergunta e resposta. Está centrada no receptor, visto que visa convencê-lo a algo. Um exemplo de linguagem utilizada com essa função é a empregada nas propagandas. A frase abaixo ilustra essa função:

e apresenta a opinião de Fernando Veríssimo sobre

)

“Dê ao seu bebê algo que você não teve na infância. Um bumbum seco.” (fraldas Johnson’s) ‘Não beba só uma, bebavárias.” (Cerveja Bavária)

Nos textos acima, empregam-se a 2ª pessoa e o imperativo (dê e não beba, respectivamente) para produzir os efeitos de persuasão próprios da linguagem com função apelativa.

d) Função Fática. É quando a linguagem tem a finalidade de manter

a comunicação. Empregam-se frases curtas, interrogativas e de fácil compreensão. Está centrada no canal visto que visa testar a todo instante o

contato comunicativo entre os interlocutores. Um exemplo de linguagem utilizada com essa função é a linguagem empregada nas ligações telefônicas.

A música transcrita abaixo ilustra bem função:

Sinal Fechado Paulinho da Viola Composição: Paulinho da Viola

Olá, como vai ?

Introdução à Linguística

Eu vou indo e você, tudo bem ? Tudo bem eu vou indo correndo

Pegar meu lugar no futuro, e você ? Tudo bem, eu vou indo em busca De um sono tranquilo, quem sabe

Quanto tempo

pois é

Quanto tempo

Me perdoe a pressa

É a alma dos nossos negócios

Oh! Não tem de quê Eu também só ando a cem

Quando é que você telefona ? Precisamos nos ver por aí Pra semana, prometo talvez nos vejamos Quem sabe ?

Quanto tempo

Tanta coisa que eu tinha a dizer Mas eu sumi na poeira das ruas Eu também tenho algo a dizer Mas me foge a lembrança Por favor, telefone, eu preciso Beber alguma coisa, rapidamente Pra semana

O sinal

Eu espero você Vai abrir Por favor, não esqueça, Adeus

pois é

(pois é

quanto tempo

)

(http://letras.terra.com.br/paulinho-da-viola/48064/)

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O texto acima, poema musicado de Paulinho da Viola, constitui-se em um diálogo em que os interlocutores, a todo instante, testam o canal da comunicação por meio de frases interrogativas curtas, tornando o texto predominantemente fático. e) Função metalinguística. É a função da linguagem que tem a finalidade de explicar o código linguístico. Está centrada no código, visto que emprega a linguagem para falar da própria linguagem. Alinguagem empregada

é carregada de definições, explicações e conceituações. Os verbetes do dicionário

são exemplos dessa função da linguagem. Observemos, como ilustração, o significado da palavra “texto”, conforme expresso no dicionário Michaelis on-line:

tex.to (ês) sm (lat textu) 1 As próprias palavras de um autor, de que consta algum livro ou escrito. 2 Palavras que se citam para provar qualquer doutrina. 3 Passagem da Escritura que forma o assunto de um sermão. 4 Art Gráf A parte principal de um periódico ou livro, que contém a exposição da matéria. 5 Em propaganda, parte escrita de um anúncio, exceto o título. sm pl Coleções do direito romano ou canônico. T. de abertura: anúncio a ser lido no início de um programa de rádio. T. de chamada: texto de poucas palavras (5 a 20) com que se anuncia um programa de rádio. T. de encerramento: anúncio destinado ao final do programa radiofônico. T. de fluxo, Inform: texto que, ao ser inserido no formato de uma página num sistema de editoração eletrônica, preenche todos os espaços ao redor das figuras, e entre as margens. (http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/ index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=texto).

f) Função poética. É a função da linguagem que tem a finalidade de valorizar a mensagem, sua forma e seu conteúdo. Está centrada na mensagem, visto que é predominantemente conotativa. Nesse caso, a linguagem é carregada de valor artístico e musicalidade, havendo muita recorrência de

figuras de linguagem. Podemos pensar, como exemplo desse tipo de função, as poesias e textos literários. Entretanto, como aponta Petter, (2005), a função emotiva também pode ser encontrada em textos publicitários e na fala do dia

a dia, embora nesses casos esteja muitas vezes subordinada a outras funções da linguagem. Observemos o soneto “Único bem”, de Da Costa e Silva:

Introdução à Linguística

Lutei, sonhei, sofri, desde criança, Nesta inquietude, nesta vã tortura De quem jamais consegue o que procura E, se consegue, perde quando alcança.

Já nem me resta ao menos a esperança, Para a ilusão da glória e da ventura; Nem a fé, ante a dúvida, perdura, Desde que o amor, num túmulo descansa.

Tanto alcancei, quanto perdi, de sorte Que, em suprema renúncia, a alma vencida Não devera aspirar senão à morte.

Mas, como a sorte me foi tão funesta, Aprendi muito mais a amar a vida, Porque é o único bem que ainda me resta.

(http://www.revista.agulha.nom.br/dcosta16p.html)

No poema acima, podemos notar que há uma preocupação formal na transmissão da mensagem. O poema é um soneto, os versos apresentam rimas e a linguagem é conotativa. A presença desses recursos demonstra preocupação com o efeito estético da mensagem, o que caracteriza esse poema como um bom exemplo de linguagem utilizada com função poética. Ao estipular as funções da linguagem, Jakobson chamou a atenção para o fato de que, embora para efeito de análise possamos distinguir essas seis funções, na prática elas não são exclusivas. Ou seja, uma mesma mensagem pode apresentar mais de uma função. Desse modo, segundo o autor, o que vai definir a função que caracteriza a mensagem é a predominância de uma sobre a outra. Vejamos, agora, o poema de Fernando Pessoa:

Hoje de Manhã

Hoje de manhã saí muito cedo, Por ter acordado ainda mais cedo

E não ter nada que quisesse fazer

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Não sabia por caminho tomar Mas o vento soprava forte, varria para um lado,

E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.

Assim tem sido sempre a minha vida, e assim quero que possa ser sempre — Vou onde o vento me leva e não me Sinto pensar. (Fernando Pessoa)

(http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/pe000003.pdf)

Nesse poema, podemos identificar duas funções da linguagem: a função emotiva e a função poética. No entanto, a função emotiva é a que

predomina. No poema, o uso da primeira pessoa e a exposição de sentimentos

e emoções causando efeito de subjetividade justificam essa predominância, na medida em que esses fatos sobressaem em relação ao cuidado com a forma de elaboração da mensagem, próprio da linguagem poética.

1.1 LINGUAGEM

RESUMINDO

• É todo e qualquer meio utilizado de comunicação. Pode ser classificada em:

Introdução à Linguística

a) Linguagem verbal: meio de comunicação próprio da espécie humana que utiliza as línguas naturais para transmitir uma mensagem.

b) Linguagem não-verbal: meio de comunicação que utiliza outros

que não as línguas naturais para transmitir uma mensagem, como símbolos,

gestos, movimentos etc.

1.2 COMUNICAÇÃO

• É o ato de se transmitir uma mensagem por meio de uma linguagem.

Segundo Roman Jakobson (2007) são seis os elementos da comunicação:

remetente, destinatário, contexto, mensagem, canal e código.

• Com o desenvolvimento dos estudos sobre a linguagem como meio

de interação, proposto por Mikhail Bakhtin, o destinatário passou a ser não só

receptor da mensagem, mas passou a interpretar e a responde a mensagem por meio do seu pensamento ou por meio de um novo enunciado.

1.3 FUNÇÕES DA LINGUAGEM

• A linguagem verbal humana pode apresentar várias funções.

Jakobson, com base nos elementos da comunicação, estipulou seis funções cada uma centrada em um desses elementos.

a) Contexto – função referencial;

b) Remetente – função emotiva;

c) Contato – função fática;

d) Mensagem – função poética;

e) Destinatário – função conativa ou apelativa;

f) Código – função metalinguística.

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LEITURA COMPLEMENTAR

Com o objetivo de oferecer ao leitor mais informações acerca da sociedade e do sistema de comunicação das abelhas, indicamos a leitura do artigo abaixo:.

Na sociedade da colmeia há rainha, operárias e zangões Cynthia Santos*

colmeia há rainha, operárias e zangões Cynthia Santos* Nas colmeias, as abelhas se dividem em castas:

Nas colmeias, as abelhas se dividem em castas: rainha, operárias e zangões

As abelhas são insetos sociais. Os indivíduos que vivem nas colmeias se dividem em três castas: rainha, operárias e zangões. Quando pensamos em rainhas, pensamos em alguém com muito poder, que diz a todo mundo o tempo todo o que fazer, certo? Bem, isso não acontece com as abelhas. Na sociedade das abelhas não há um posto central de comando. O poder é disseminado através da colmeia e as decisões diárias são tomadas consensualmente através de estímulos químicos, visuais, auditivos e táteis. A incrível cooperação observada entre as abelhas de uma colmeia é explicada pelo compartilhamento de 75% de seus genes. Para você ter uma ideia, na espécie humana, irmãos de uma mesma família compartilham 50% de seus genes.

Introdução à Linguística

A maioria das abelhas de uma colmeia é formada por fêmeas: 1 rainha

e cerca de 5.000 a 100.000 operárias. Os machos - os zangões - são encontrados em um numero máximo de 400 indivíduos. A rainha As funções exercidas pela rainha são a postura de ovos e a manutenção da ordem social na colmeia. Segundo o especialista da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, Gene E. Robinson, "apesar

de a rainha não dizer a todos o que fazer, ela faz as coisas funcionarem, apenas por estar presente". Na verdade, a rainha atinge seu objetivo de manter a ordem social através da liberação de substâncias químicas chamadas feromônios. Essas substâncias informam os outros membros da colmeia de que existe uma rainha presente e em atividade, além de inibirem a produção de outras rainhas.

A rainha é quase duas vezes maior do que as operárias e é a única

fêmea fértil da colmeia, com um sistema reprodutivo bastante desenvolvido. Ela coloca cerca de 2.500 ovos por dia! Os ovos fertilizados produzem operárias e rainhas. O que determina se o ovo formará uma rainha ou uma operária é o alimento oferecido à larva originada do próprio ovo. As larvas que se alimentam exclusivamente de geléia real se desenvolvem em rainhas. As que se alimentam de geléia de operária, contendo menos açúcar do que a geléia real, mais mel e pólen, transformam-se em operárias. Além da alimentação, o local onde é criada influencia o desenvolvimento da larva. Um alvéolo maior, chamado de realeira, é usado para o desenvolvimento da rainha. Ovos não fertilizados se desenvolvem em zangões. Operárias e zangões As operárias realizam todo o trabalho para a manutenção da colmeia, desde a faxina até a defesa da colmeia. Elas limpam os alvéolos da colmeia e as abelhas recém-nascidas, coletam néctar e pólen das flores, cuidam da alimentação das larvas, produzem cera para produção dos favos, elaboram o

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mel através da desidratação do néctar, produzem a geléia real, defendem a colmeia dos inimigos. Os machos da colmeia têm como única função fecundar a rainha durante o vôo nupcial. Eles são maiores e mais fortes do que as operárias e não possuem ferrão. Seus olhos, mais desenvolvidos do que os olhos das operárias, e suas antenas, com maior capacidade olfativa, os tornam mais eficientes na localização das rainhas durante o vôo nupcial. Se você está pensando que vida boa têm esses zangões, pois não precisam trabalhar mesmo sendo mais fortes e maiores, não fazem nada na colmeia a não ser fecundar a rainha, espere até ler isso: durante o acasalamento, o órgão genital do zangão fica preso no corpo da rainha e ele acaba morrendo!! Companheiras de colmeia sobre uma fonte rica em néctar ou pólen encontrada nas proximidades da colmeia, ela inicia uma dança circular. Esse tipo de dança indica que a fonte de alimento encontra-se próxima, a menos de 100 metros da colmeia, mas não indica qual direção a tomar. No entanto, o cheiro específico do pólen grudado no corpo da abelha que dançou para suas companheiras as informa sobre a planta visitada. Assim, elas podem procurar pela planta perto da colmeia. Já quando a fonte de alimento encontra-se a mais de 100 metros de distância da colmeia, as abelhas utilizam-se de outro tipo de dança, a "dança do requebrado". Isso mesmo, a abelha requebra para informar a direção e a distância entre a colmeia e a fonte de alimento. A distância é ensinada pela abelha dançarina através do número de vibrações (requebrados) realizadas e pela intensidade do som emitido durante a dança. Quanto menor a distância entre a colmeia e a fonte, maior o numero de vibrações. A direção é informada pela relação da posição da dançarina com a posição do sol. Disponível em: http://educacao.uol.com.br/ciencias/abelhas-2-na- sociedade-da-colmeia-ha-rainha-operarias-e-zangoes.jhtm

Introdução à Linguística

ATIVIDADES DE APRENDIZAGEM

1. Estabeleça a distinção entre linguagem verbal e não-verbal e cite alguns

exemplos.

2. Simule uma situação comunicativa identificando todos os elementos

envolvidos nesse processo.

3. Qual a contribuição das ideias de Bakhtin para a teoria da comunicação?

4. Identifique a função da linguagem predominante nos textos abaixo e aponte

as pistas que conduziram a sua resposta.

a) b) “Morreu na noite de domingo (19), no Rio de Janeiro, aos 90 anos,
a)
b)
“Morreu na noite de domingo (19), no Rio de Janeiro, aos 90 anos, o químico

naturalizado brasileiro Otto Richard Gottlieb, conhecido internacionalmente por seus trabalhos sobre produtos naturais e metabolismo de plantas. Ele foi um dos primeiros grandes cientistas a chamar atenção para a sustentabilidade e a preservação de florestas, ainda na década de 1960.”

(Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/932761-quimico-que-chegou-mais-

perto-do-nobel-no-pais-morre-aos-90.shtml)

c)

O mundo é grande

O

mundo é grande e cabe

nesta janela sobre o mar.

O mar é grande e cabe

na cama e no colchão de amar.

O amor é grande e cabe

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no breve espaço de beijar. (Carlos Drummond de Andrade)

(http://www.revista.agulha.nom.br/drumm3.html#omundo)

5. Comente a partir da frase abaixo a importância do contexto, segundo a teoria das funções da linguagem, para a compreensão da mensagem.

“Não ponha a mão na massa, use o telefone”

UNIDADE 2

ESTÁGIOS DE DESENVOLVIMENTO E PERSPECTIVAS

OBJETIVOS

1. Resgatar o percurso histórico e os vários estágios de desenvolvimento da

linguagem, ressaltando-se as concepções sobre ela.

2. Identificar as contribuições dos filósofos gregos, dos gramáticos greco-latinos

e dos neogramáticos para o estudo da linguagem.

3. Descrever as categorias gramaticais sistematizadas pelos estoicos.

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2 ESTUDOS DA LINGUAGEM: ESTÁGIOS DE DESENVOLVIMENTO E PERSPECTIVAS

Hermógenes - Sócrates, o nosso Crátilo sustenta que cada coisa tem por natureza um nome apropriado que não se trata da denominação que alguns homens convencionaram dar-lhes, com designá-las por determinadas vozes de sua língua, mas que, por natureza, têm sentido certo, sempre o mesmo, tanto entre os Helenos como entre os bárbaros em geral. Platão. Diálogos – Teeteto e Crátilo, 1988, p.102

Hermógenes - Por minha parte, Sócrates, já conversei várias vezes

a esse respeito tanto com ele como com outras pessoas, sem

que chegasse a convencer-me de que a justeza dos nomes se baseia em outra coisa que não seja convenção e acordo. Para mim, seja qual for o nome que se dê a uma determinada coisa, esse é o seu nome certo; e mais: se substituirmos esse nome por

outro, vindo a cair em desuso o primitivo, o novo nome não é menos

Nenhum nome é dado por natureza a

qualquer coisa, mas pela lei e o costume dos que se habituaram

certo que o primeiro. (

)

a chamá-la dessa maneira. Platão. Diálogos – Teeteto e Crátilo, 1988, p.103

A linguagem, como já enfocamos na Unidade I, é um meio de comunicação próprio do homem em sociedade. É inconcebível o homem sem linguagem e vice-versa. Ela representa um conjunto de signos (verbais e não- verbais) de um código, um sistema extremamente complexo. Segundo Kristeva (2007, p. 16),

Em primeiro lugar, e vista do exterior, a linguagem reveste-se de um carácter material diversificado cujos aspectos e relações temos de conhecer: a linguagem é uma cadeia de sons articulados, mas também uma rede de marcas escritas (uma escrita), ou um jogo de gestos (uma gestualidade).

Os estudos da linguagem passaram, ao longo dos tempos, por diferentes estágios, desenvolvendo-se de acordo com o pensamento dominante da época. Neste capítulo, iremos refletir sobre eles, numa perspectiva de evolução, considerando as diferentes bases epistemológicas que particularizam o campo da ciência da linguagem como objeto de estudo.

Introdução à Linguística

A tradição dos estudos da linguagem teve como foco a lógica, a retórica, a poética e o bom uso da linguagem. Pela primeira vez, foi a Linguística comparativa e histórica que tratou a linguagem como objeto sistematizado de estudo, tendo-a em si mesma e por si mesma, conforme veremos mais adiante. Neste capítulo, abordaremos a linguagem na Antiguidade, passando pela Idade Média e pela Renascença, até a Modernidade (século XIX), enfocando-se

a Linguística comparada e as contribuições de Humboldt e Whitney.

2.1 DA ANTIGUIDADE AO SÉCULO XIX

Na antiguidade, destacaram-se duas tradições acerca dos estudos da linguagem: a oriental e a ocidental. A primeira foi representada pelos trabalhos desenvolvidos pelos hindus, povos que estudaram a língua por motivos religiosos. O hinduísmo visava à preservação dos escritos, dos textos sagrados (os hinos, por exemplo) ao longo dos tempos, como forma de não sofrer modificação ao serem proferidos, cantados durante os ritos. Os textos foram reunidos no Veda, o primeiro dos quatro livros do Hinduísmo. A concepção de linguagem dos hindus estava diretamente relacionada

à prática religiosa. O homem era visto como “processo infinito de diferenciação cósmica”, e a linguagem ocupava ponto de honra. A sua ciência, a gramática, chamava-se ciência suprema-purificante de todas as ciências, a via real isenta de desvios, e que visava realizar o supremo objeto do homem (KRISTEVA, 2007, p. 94). Para os hindus, a reflexão linguística dependia diretamente da concepção religiosa de que eram testemunhos os textos sagrados, que tratavam grande parte da linguagem e da significação. Os elementos da língua obtinham um valor simbólico, e a gramática era um instrumento que “purificava” o homem. Os estudos mais antigos remontam o século IV aC. Entre os gramáticos, destacou-se Pãnini (há quatro séculos antes da nossa era), que estudou a gramática do sânscrito, “língua dita perfeita” e língua sagrada dos

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GLOSSÁRIO Sutras É um conjunto de ensinamentos. “Na literatura hindu, os Sutras – diferentemente dos Vedas, os textos sagrados propriamente ditos – são algo como “tratados educacionais”. Existem deles sobre guerra, arquitetura e gramática. Não se filosofava independentemente da religião, mas nem por isso a função do filósofo se confundia com a do sacerdote.

(http://guiadoestudante.abril.com.br/estudar/

historia/kama-sutra-concavo-convexo-

435808.shtml)

hindus. Foi esse gramático que introduziu a noção de gramática como norma e regra de pronúncia e escrita do Sânscrito Védico para impedir o falar vulgar dos procráticos. A gramática de Pãnini era um livro composto de 4000 sutras ou máximas. Segunda Kristeva, as formulações desse gramático mostram a organização da língua sânscrita do ponto de vista fonológico e morfológico. Os gramáticos hindus dedicaram-se

ao estudo do valor e do emprego das palavras

e fizeram excelentes transcrições fonéticas, que foram descobertas pelos

sábios ocidentais nos fins do século XVII, o que serviu como ponto de partida

para a criação da gramática comparada, que será discutida na seção 2.2. Quanto à contribuição dos hindus para a teoria da significação, Kristeva (2007, p. 100) acentua que:

A linguística indiana aproxima-se daquilo a que chamamos actualmente uma teoria da enunciação. Admite cmo elementos indispensáveis para a produção do sentido a função do sujeito falante, do destinatário, da situação locutória, a posição espácio- temporal do sujeito, etc.

E, referindo-se a Bhartrhari, acrescenta: “O sentido das falas distingue- se segundo o contexto verbal, o contexto de situação, o fim visado, a conveniência, segundo o espaço e o tempo, e não a forma das falas” (p. 100). Percebemos que a linguagem para os hindus não tem uma concepção fechada no objeto na língua, mas esboça a significação como princípio da relação entre o sujeito e o seu exterior. A segunda, a tradição ocidental, por outro lado, teve como referência

a cultura grega, que, mais tarde, influenciou os romanos. Os gregos trilharam caminhos no sentido de descobrir a natureza da linguagem humana. Eram um

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povo que se preocupava em estudar a própria língua nas perspectivas estética (estilo) e filosófica. Os gregos não nos legaram informações importantes sobre os falares das populações com as quais tiveram contato. Aprenderam línguas estrangeiras, mas os conhecimentos transmitidos pelos intérpretes se perderam. Os helenos consideravam com desprezo as línguas que não o grego. Para eles, apenas o grego era importante, e as demais línguas eram tidas como bárbaras (tal denominação era pejorativa). A perspectiva filosófica foi ponto de partida para o pensamento linguístico moderno. Para os gregos, o problema essencial era definir as relações entre a noção e a palavra que a designa. Platão problematiza o caráter da origem da linguagem: convencional ou natural? Em outras palavras, os nomes dados às coisas nascem de um contrato social ou resultam da natureza das coisas? A partir dessa questão, surgiram duas escolas opostas: os analogistas e os anomalistas. Os primeiros defendiam o caráter convencional; já os segundos, a expressão natural da linguagem. Em relação a essa abordagem, dizemos que não se trata da capacidade de o homem criar a linguagem, mas da relação natural entre a língua e os seus objetos. Os primeiros pensadores gregos defendiam que a palavra era a encarnação das coisas (BORBA, 2005). Platão é um dos filósofos que estudaram a relação entre a origem do nome das coisas e o conceito que ele designa: os nomes eram naturais (escolhidos por algum deus ou por força da natureza) ou convencionais ou puramente remetidos à história? “O Primeiríssimo texto ocidental sobre a linguagem, o Crátilo de Platão, trata especificamente desta questão.” (WEEDWOOD, 2002, p. 24). Segundo Weedwood (2002, p. 25),

Platão (c. 429-347 a.C.) consagrou um de seus diálogos, o Crátilo, a este problema. Dos três interlocutores que ela retrata, Crátilo sustenta que a língua espelha exatamente o mundo; Hermógenes defende a posição contrária, a de que a língua é arbitrária, ressaltando tanto os pontos fortes quanto as fraquezas dos

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argumentos dos outros dois e levando-os, por fim, a uma solução conciliatória. A afirmação de inicial de Hermógenes de que os nomes são inteiramente arbitrários e podem ser impostos à vontade é refutada por Sócrates, que assinala que as palavras são ferramentas: assim como uma lançadeira defeituosa não pode ser usada para tecer, também as palavras precisam ter propriedades que as tornem apropriadas ao uso.

Aristóteles (382-322 a.C.), discípulo de Platão, analisou a linguagem numa outra abordagem: a da constituição da gramática numa perspectiva descritiva. Por exemplo, separou as categorias gramaticais: substância, relação, lugar, tempo, estado etc. Também defendeu a oposição entre língua (enérgeia) e discurso (érgon). A primeira ou é uma expressão ou é uma obra sem intencionalidade; já a segunda representa os procedimentos utilizados para obtermos a argumentação, a persuasão, tendo como referentes o raciocínio e/ou a razão – podemos dizer que se trata da lógica aristotélica. Os estoicos nos legaram sistematizações da língua, conforme

vejamos:

a) Nome – significava qualidade, estado, relação, substância.

Classificação: nomes próprios e comuns; b) Verbo – é incompleto quando não há sujeito. É a categoria que exprime quatro tempos: presente contínuo, presente realizado, passado contínuo e passado realizado;

c) Conjunções;

d) Pronomes relativos e artigo;

e) Número, gênero, voz, modo e caso (que compreendiam as

derivações e as flexões verbais). (KRISTEVA, 2007, 122) Para os estoicos, a linguagem se origina naturalmente na alma dos homens e a palavra expressa a coisa conforme a natureza dela, suscitando, do mesmo modo, no ouvinte, uma impressão conforme a dita natureza (BORBA, 2005). Após o período clássico da filosofia grega, os estudos acerca do desenvolvimento da linguagem tiveram mais impulso nos trabalhos dos filósofos

Introdução à Linguística

e dos gramáticos. Entre os gramáticos, destacaram-se os gregos Dionísio de Trácia e Apolónio Díscolo e os latinos Donato, Prisciano e Varrão.

a) Dionísio de Trácia (170-90 a.C) - era o mais conhecido professor

de gramática tradicional grega, escreveu a primeira gramática do Ocidente (Téchné Grammatiké) e a concebia como uma arte, um “saber empírico da linguagem dos poetas e dos prosadores”. (KRISTEVA, 2007, 123). Desenvolveu estudos mais voltados à fonética e à fonologia. Na fonética, ele

apresentou uma teoria das letras e das sílabas; já na morfologia, estudou oito partes do discurso: o verbo, o nome, o particípio, o artigo, o pronome, a preposição, o advérbio e a conjunção. Desenvolveu a primeira gramática grega, que tinha dois propósitos: explicar a língua dos clássicos e proteger o grego contra possível “corrupção”, “erros” por parte dos “ignorantes”.

b) Apolónio Díscolo (século II d.C) - elaborou a primeira sintaxe, tendo

como referência a língua grega.

c) Donato (350 d.C) – Uma obra típica, a Ars maior, era dividida em

três livros: o primeiro trata de vox (voz, som, substância fônica); litterae (o som da letra, letra); sílaba, pé métrico; acentos e pontuação; o segundo, das partes do discurso (nome, pronome, advérbio, interjeição, particípio, conjunção, preposição e verbo) e o terceiro, dos barbarismos (erros na forma das palavras), solecismos (erro de colocação dos pronomes oblíquos) e várias figuras da retórica (WEEDWOOD, 2002, p. 38).

d) Prisciano - autor que procedeu a uma descrição quase completa

do latim (e ainda útil), reforçada com um amplo número de citações ilustrativas de autores literários (WEEDWOOD, 2002, p. 42). Segundo Kristeva (2007, p.

133),

se a morfologia é completada pela sintaxe e a sintaxe não faz mais do que acrescentar-se à morfologia, este conjunto só se

[

]

mantém na medida em que está submetido à lógica [

de Prisciano tornou-se o modelo de todos os gramáticos da Idade

Média.

] A gramática

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e) Varrão (século I a.C) - sistematizou a gramática como estudo da linguagem. Para o autor, a gramática era "a base de qualquer ciência", como se fosse "clamar a verdade". Desenvolveu estudos no campo semântico (relação das palavras com as coisas), morfológico (palavras variáveis e invariáveis, as flexões) e sintático (relação entre as palavras). Organizou a primeira gramática latina, e estabeleceu as diferenças entre flexão e derivação. Os estudos da linguagem pelos latinos foram desenvolvidos principalmente em Roma e tinham a preocupação em estabelecer certa universalidade dos aspectos lógicos da língua grega, considerando que a confluência das línguas estrangeiras era abundante, motivada pelas "tomadas" territoriais dos romanos. A Idade Média (476 - 1473 d.C) foi marcada por estudos que estabeleciam que as línguas possuíam estruturas idênticas e universais, mas, no final desse período, novos idiomas surgiram, motivados pela transação dos navegadores mercantis e pelo trabalho de tradução dos livros sagrados, mesmo que o latim se mantivesse ainda firme no Ocidente. Esse período também foi marcado pelos estudos sobre o discurso, na perspectiva da filosofia da linguagem. A língua dominante na Idade Média foi o Latim, que estava presente nas liturgias religiosas e nas escrituras sagradas. Ele era considerado como língua universal da erudição, uma vez que os autores clássicos eram a referência para a gramática. Em 1660, os franceses Antoine Arnauld e Claude Lancelot, lançam a Grammaire Générale et raisonnée de Port Royal (Gramática Geral e Racional de Port Royal). Essa gramática tem sido conhecida como uma gramática filosófica, geral, universal e especulativa, cujos estudos estavam fundamentados na lógica, na razão. Pela primeira vez, observou-se a distinção entre língua (com as características: lógica, racional, perfeita) e discurso (nos quais são observados defeitos, do ponto de vista da lógica. O discurso é considerado como prática). Os pensadores de Port Royal eram ligados ao ideário da Revolução Francesa e defendiam que a gramática tradicional “servia aos

Introdução à Linguística

interesses do Estado e à manutenção da dominação, na medida em que era um dos instrumentos, para controlar a linguagem dos dominados e impor a visão do dominante” (PAIS, 2011, p. 4).

A Gramática Geral e Racional de Port Royal representa “o primeiro

estudo a demonstrar a linguagem fundamentada na razão e no pensamento

racional, influências do Iluminismo europeu” (www.ricardomoraleida.com). Preocupa-se em mostrar que há diferenças estruturais entre os idiomas, embora os princípios de análise das línguas fossem universais. Os signos servem para exprimir o pensamento do homem, ou seja, a linguagem era concebida como imagem do pensamento.

A gramática de língua portuguesa que mais evidenciou os princípios

da Gramática de Port Royal foi a Gramática filosófica da língua portuguesa, escrita em 1803 por Jerônimo Soares Barbosa e publicada em 1822. Pelo que apresentamos, verificamos que a relação pensamento/ linguagem foi ponto basilar nos estudos gramaticais de Port Royal, tendo perdurado seus princípios por muito tempo até o século XIX, quando tivemos uma mudança no interesse dos estudiosos: a referência para as línguas vivas e o estudo comparativo dos modos de falar. Nesse sentido, construía-se a concepção de que as línguas, como organismos vivos, modificam-se com e no tempo. Segundo Orlandi (2007, p. 13), “a contribuição talvez mais interessante dessas gramáticas gerais para a Linguística foi justamente a de estabelecer princípios que não se prendiam à descrição de uma língua particular mas pensar a linguagem em sua generalidade”. Noutra perspectiva, no entanto, surgiram pensamentos diversos, tais como o da gramática comparada sobre a qual discutiremos a seguir.

2.2 A LINGUÍSTICA COMPARADA

A Gramática ou a Linguística Histórico-Comparada, como preferem

alguns autores, trouxe um rompimento com a filosofia clássica, que priorizava

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GLOSSÁRIO

É o estudo descritivo da língua ao longo da história, tendo como base as mudanças sofridas nos termos, nas significações e nas relações entre os termos. Segundo Saussure, é tudo que diz respeito às evoluções. (Veja Seção 4.1).

“a boa linguagem e a boa literatura”, pois a tônica dos estudos voltou-se para a diacronia da língua e para o fato de as línguas modificarem-se com o tempo. Mesmo a gramática comparada tendo seu auge no século XIX, ela se desenvolveu a partir do

século XVII. No contexto da gramática comparada, o estudo da língua volta-se para

a comparação entre as línguas no intuito de “deduzir princípios gerais de

evolução histórica das suas unidades lexicais, gramaticais e sonoras” (SILVA, 2011, p. 6). As relações de parentesco do latim, das línguas germânicas, eslavas e célticas eram estabelecidas com as línguas faladas na antiga Índia. Os indoeuropeístas propuseram um método de estudo denominado histórico- comparado, tendo como referência a língua-mãe e não a língua ideal (ORLANDI, 2007). No século XIX, Franz Bopp (1791-1867), Rasmus Rask (1787-1832), August Schleicher (1821-1868) e Jacob Grimm (1785-1863) marcaram o desenvolvimento dos estudos da linguagem, sendo o primeiro deles a figura mais representativa, por ter legado, em 1816, o nascimento da Linguística Histórica. Franz Bopp – reuniu as provas indiscutíveis do parentesco entre as línguas e fundou a gramática comparada das línguas indoeuropeias (sânscrito, persa, grego, latim, lituano, gótico e alemão) considerando que elas apresentavam semelhanças com o sânscrito; daí dizermos que elas pertencem

à mesma família. Rasmus Rask – demonstrou, com mais rigor do que Bopp, a identidade original das línguas germânicas, do grego, latim, báltico e eslavo; Jacob Grimm – introduziu em Linguística a noção de perspectiva histórica. Dedicou-se ao estudo dos dialetos germânicos e publicou pesquisas pormenorizadas sobre a história fonética dos falares germânicos. Foi na Lei

Introdução à Linguística

de Grimm, primeiro modelo das leis fonéticas, que se apoiou a Linguística Histórica.

August Schleicher – era botânico e amava as plantas, gostava de opor o linguista ao filólogo, comparando o primeiro ao naturalista, que abarca, no seu estudo, o conjunto dos organismos vegetais; enquanto o filólogo assemelha-se ao jardineiro, que só se preocupa com as espécies estimáveis pelo seu uso prático ou pelo valor estético. Ele considera as línguas como organismos vivos, uma criação, uma existência fora dos indivíduos, porque, independentemente da vontade humana, nascem, crescem e se desenvolvem segundo as regras determinadas e depois envelhecem e morrem, o que manifesta então uma série de fenômenos que englobamos na palavra VIDA. Alguns teóricos chamam essa concepção de língua como Mito da Independência. Você pode pensar no porquê desse mito? Será que as línguas não são intercambiáveis? Mesmo o latim não sendo uma língua falada atualmente, mas utilizada em momentos específicos de liturgia, havendo muitos escritos, podemos dizer que ela “morreu”? Será que essa língua não legou a gramática para outras línguas? Observemos a estrutura

GLOSSÁRIO

Sincronia – estudo de um determinado estado de língua, em função da sua estrutura, sem a perspectiva histórica. É oposto à diacronia. Podemos dizer que é um recorte temporal na língua para estudarmos determinados processos linguísticos. (veja seção 4.1)

Alomorfia – modificação de uma forma ou elemento linguístico sem a alteração do significado. Ex. Temos o prefixo de negação IN em “infeliz”, e a forma variante I em “ilegal”, “ilícito”. Dessa forma, dizemos que ocorreu o processo da alomorfia no prefixo IN.

mórfica da palavra lei em latim: Lex, legis = lei (radical latino = leg-) Como podemos, então, explicar o adjetivo derivado de lei “legal”? Seria “LEI + AL”? Com certeza, não. Temos aí uma retomada ao radical latino, embora alguns estudiosos da morfologia de cunho sincronista chamem esse processo de alomorfia.

 

Segundo Orlandi (2007, p. 14),

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a grande contribuição das gramáticas comparadas foi evidenciar

que as mudanças são regulares, têm uma direção. Não são caóticas, como se pensava. Podemos observar essa direção, essa regularidade da mudança se tomamos, por exemplo, hoje, um tipo de uso como o que se dá em ‘sordado’ por ‘soldado’. Nessa posição, vemos que há possibilidade de mudança, de ‘l’ em ‘r’, mas nunca temos um ‘l’ se transformando em ‘p’, por exemplo.

] [

Já Kristeva (2007) resume:

Um traço positivo, apesar de tudo: como aumenta o número das línguas aprendidas, as gramáticas tornam-se polilinguísticas; confronta-se o inglês, o francês, o alemão, o italiano, e os quadros impostos pelo latim ficam cada vez mais desacreditados [ ] Regularização, sistematização, descoberta de lei de modo a que a língua francesa possa atingir a perfeição dos falares clássicos, eis o tom dos debates do século.

Vemos, na concepção dessas duas autoras, que o estudo da regularidade e sistematicidade dos fenômenos linguísticos foi a tônica da Gramática de Port Royal, não com o intuito de tentar explicar cientificamente as mudanças e variações dos falares, mas, como acrescenta Kristeva para “adaptar as propriedades de uma língua moderna, o francês, à velha máquina latina, baseada no par nome-verbo: é preciso inserir nela os artigos, as preposições, os auxiliares, etc.” (p. 164). Nessa época, a arte de bem falar torna-se moda na França. Percebemos que a roupagem da língua “moderna” é fundada nas estruturas da língua de origem, não havendo significativas alterações. Como exemplo, vejamos, a seguir, o estudo de palavras cognatas pelo método histórico-comparativo, tendo como base a protolíngua (língua-mãe).

Latim

Francês

Italiano

Espanhol

Português

Caballus

cheval

cavallo

caballo

cavalo

Oto

huit

Otto

ocho

oito

Vemos que o /b/ em “caballus” (latim) muda-se para /v/ no francês, no

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italiano e no português; /us/ em “caballus” (latim) transforma-se em /o/ no italiano, no Espanhol e no Português. Já em “oto” (latim), observamos uma ditongação no francês /ui/ e no português /oi/; o /t/ foi dobrado no italiano e modificado para /ch/ no Espanhol. Nessa perspectiva de análise, notamos que há semelhanças significativas entre as palavras da protolíngua e as palavras das línguas dela derivadas. Outro ponto de destaque na gramática comparada, são os seus princípios. Os comparativistas postulavam que gramática é a arte de falar, e falar é explicar os pensamentos através dos signos que os homens inventaram com esse objetivo. Kristeva (2007, p. 169) destaca que, nessa gramática, há duas espécies de palavras:

1ª – nomes, artigo, pronomes, particípios, preposições e advérbios e 2ª – verbos, conjuntos e interjeições. As partes do discurso são os signos, que são os objetos do pensamento e que pertencem à primeira espécie; já a matéria do nosso pensamento está representada pelas palavras da segunda. Quanto à sintaxe, a Gramática de Port Royal tem como base o par nome/verbo, que representa a relação respectiva sujeito/predicado. Esses dois termos, nessa relação, formam um juízo denominado proposição. Além disso, houve também o estudo da sintaxe de concordância. A partir dos anos 1870, a Gramática Comparada tomou um novo rumo. Abandonaram-se as concepções românticas sobre a pureza da língua primitiva e renunciou-se à análise genética das formas gramaticais, sendo reconhecido que o objetivo não consistia em confrontar as línguas atestadas com um sistema original ideal.

2.2.1 Os neogramáticos

Os neogramáticos opuseram-se à concepção schleicheriana da linguagem, e passaram a considerar a língua como um produto coletivo dos

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grupos humanos. O método positivo, que aplicaram com rigor, pode ser ilustrado pela proclamação das leis fonéticas. As obras dessa época revelam talvez elaboração excessiva, mas nem por isso deixam de ser fecundas e preciosas. Os pesquisadores estudaram os fatos com precisão e um rigor até então desconhecidos e estabeleceram cuidadosamente o quadro das evoluções, elaborando uma doutrina sólida e coerente. Adotaram o ponto de vista segundo o qual a Linguística, na medida em que é científica e explicativa, tem que ser necessariamente histórica. Outros nomes, no entanto, surgiram nesse cenário: Wilhelm Von Humboldt e William Dwight Whitney, cujas contribuições apresentamos a seguir.

2.3 AS CONTRIBUIÇÕES DE HUMBOLDT E WHITNEY

Segundo Wedwood (2002, p. 107), “um dos linguistas mais originais, senão o de influência mais marcante, em todo o século XIX foi o erudito e diplomata alemão Wilhelm Von Humboldt (1767-1835)”. (grifos nossos) Como já dissemos, o interesse maior dos neogramáticos concentrou- se nos estudos históricos, entretanto, os de Humboldt não eram exclusivamente esses, pois ele deu ênfase ao vínculo entre línguas nacionais e caráter nacional. Foi mais original ao identificar o caráter interno e externo da língua. Para o autor, o primeiro aspecto seria “o padrão, ou estrutura, de gramática e significado que é imposto sobre essa matéria bruta e que diferencia uma língua da outra”; o segundo “seria a matéria bruta (os sons) com base na qual as diferentes línguas são moldadas.” (WEEDWOOD, 2007, p. 108) Esse linguista concebia a língua como algo dinâmico, não como um conjunto de enunciados e frases prontos produzidos pelos falantes. Como todo sistema, a língua seria regida por princípios ou regras subjacentes que orientariam os falantes a produzir os enunciados, ou seja, os falantes não produziriam enunciados de forma aleatória. Com efeito, não temos uma quantidade finita de enunciados, mas um conjunto infinito.

Introdução à Linguística

Ele influenciou Ferdinand de Saussure, criador da Linguística Moderna, por ter diferenciado as formas interna e externa da língua, e Noam Chomsky, o pai do gerativismo, por ter retomado essa distinção, ao elaborar as noções básicas da gramática gerativa. Esses autores serão tratados na Unidade IV. Os estudos de Humboldt contemplaram mudanças fonéticas, sintáticas e semânticas. As primeiras, sob os preceitos da Linguística diacrônica, identificaram elementos de transformação nos sistemas fonéticos das línguas. Voltando ao quadro da página 45, temos huit e oito: /ui/ modificou-se para /oi/ . As mudanças sintáticas provocaram uma distinção gramatical de uso. Por exemplo, no Português, substituímos às vezes o presente do subjuntivo pelo presente do indicativo, quando dizemos: “aquelas pessoas querem que eu faço o que eles querem”. Já as mudanças semânticas decorrem do uso pelos falantes diante das transformações econômico-sociais, por exemplo. A palavra “tratante” designava uma pessoa que firmava um compromisso e o cumpria, mas sabemos atualmente que uma pessoa tratante é aquela que se compromete e não honra a “palavra”. William Dwight Whitney (1827-1894) foi estudioso do sânscrito (antiga língua indiana), lexicógrafo, professor dessa língua e da Linguística comparativa. Escreveu “Uma gramática Sânscrita” em 1879 e “O estudo da linguagem” em 1867. Seus estudos consideravam a língua como uma instituição social e os conceitos desenvolvidos buscavam “soluções práticas para o aprendizado das línguas” (MILANI, 2011, p.1). Acreditamos nisso, pelo fato de ele ser professor de imigrantes e indígenas e teria que alfabetizá-los em língua inglesa. Dessa forma, podemos dizer que ele se preocupou com as questões didáticas no sentido de melhorar o ato de ensinar língua. Ele é considerado um neogramático, estudou as obras dos autores comparativistas e, especialmente, as de Humboldt. Seus estudos tiveram repercussão na segunda metade do século XIX. Entre as suas perspectivas de estudo, defendia que a língua é mutável e está em constante formação e transformação. Essas modificações ocorrem

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sem que os usuários percebam os processos conscientemente. Elas ocorrem tendo em vista o princípio da regularidade, sobre o qual Whitney apud Milani (2011, p.6) apresenta três grupos de possibilidades de mudança nas línguas:

1º Alteração dos velhos elementos da linguagem; mudança nas palavras, que se conservaram como substância da expressão, e mudança de duas maneiras: primeiro, mudança do som articulado; em seguida, mudança de significação: as duas, como veremos, podem se produzir juntas ou separadamente. 2º Destruição dos velhos elementos da linguagem; desaparecimento do que estava em uso e isso de duas maneiras também: então, perda de palavras inteiras; em seguida, perda das formas gramaticais e das distinções. 3º Produção de elementos novos; adição aos velhos elementos de uma língua ao lado de nomes novos ou novas formas; expansão externa de recursos da expressão (grifos nossos).

Pelo que percebemos, Whitney preocupou-se com a classificação das mudanças nas línguas, sistematizando-as nos grupos que enquadrariam todas as modificações. Também podemos observar, a partir da citação acima, que Whitney concebia a língua como uma instituição social concreta, capaz de ser transmitida de geração a geração; por outro lado, a Linguística Contemporânea concebe que, embora a língua seja transmitida, ela está em constante movimento, transformações. Até aqui, vimos que a preocupação em se estudar a linguagem não é recente. Remonta à antiguidade, passando por diferentes abordagens, como a perspectiva filosófica, a histórico-comparada e a dos neogramáticos, ainda não consideradas científicas. Na Unidade a seguir, veremos como a linguagem passou a ser estudada numa perspectiva científica, surgindo, então, a Linguística.

RESUMINDO

A linguagem é um fenômeno intrínseco ao homem que o caracteriza como ser social. Os estudos sobre a linguagem humana foram e são foco ao

Introdução à Linguística

longo da história da humanidade: desde a antiguidade aos dias atuais. Vejamos algumas características dela ao longo da história. 1) Na Antiguidade:

Os hindus: desenvolveram estudos a partir dos textos religiosos que foram reunidos no livro Veda;

Os gregos: representantes maiores da tradição ocidental.

Discutiram a respeito da natureza da linguagem, tentando responder se ela é

convencional ou natural, o que representou o surgimento de duas escolas opostas: os analogistas e os anomalistas. Entre os filósofos, destacamos Aristóteles e Platão; entre os gramáticos gregos – Dionísio de Trácia e Apolónio Díscolo e entre os gramáticos latinos – Donato, Prisciano e Varrão. 2) Na Idade Média:

• Os estudos da linguagem foram marcados pela perspectiva de que

as línguas possuíam estruturas idênticas e universais.

• Língua dominante: o Latim

• Gramática Geral e Racional de Port Royal (1660) – primeiro estudo

que mostrou a linguagem fundamentada na razão e no pensamento. A ideia

maior era de que a linguagem é imagem e expressão do pensamento. 3) No Século XIX:

Gramáticas comparadas: romperam com a tradição greco-

filosófica e voltaram-se para o estudo diacrônico das línguas. Objetivaram-se

deduzir princípios gerais de evolução histórica das unidades lexicais, gramaticais e sonoras. Os estudos sobre a linguagem foram marcados pelos autores: Franz Bopp, Rasmus Rask, Schleicher e Jacob Grimm.

Os neogramáticos (1870): eram chamados os autores que

desenvolveram as gramáticas comparadas. O novo rumo do estudo da linguagem é conceber a língua como um produto coletivo dos grupos humanos, na perspectiva histórico-comparativa.

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3.1 As contribuições de Humboldt e Whitney

a) Humboldt

• Concebia a língua como algo dinâmico, um sistema regido por

princípios ou regras subjacentes que orientam os falantes a produzirem os enunciados;

• A língua teria uma forma “interna” (estrutura de gramática e

significado) e “externa” (sons);

• Seus estudos contemplaram as mudanças fonéticas, sintáticas e

semânticas.

• Influenciou: Saussure – distinção entre forma interna e externa e

Chomsky – enfatiza essa distinção novamente, transformando-a em uma das noções básicas da gramática gerativa

b) Whitney

• concebia a língua como uma instituição social, e os conceitos

desenvolvidos buscavam “soluções práticas para o aprendizado das línguas”, uma vez que era professor de nativos de imigrantes e indígenas e teria que alfabetizá-los em língua inglesa. • Apresentou três grupos de mudança nas línguas:

- Alteração dos velhos elementos da linguagem; mudança nas palavras, que se conservaram como substância da expressão, e mudança de duas maneiras: : primeiro, mudança do som articulado; em seguida, mudança de significação: as duas podem produzir-se juntas ou separadamente; - Destruição dos velhos elementos da linguagem; desaparecimento do que estava em uso e isso de duas maneiras também e - Produção de elementos novos; adição aos velhos elementos de uma língua ao lado de nomes novos ou novas formas; expansão externa de recursos da expressão.

Introdução à Linguística

LEITURA COMPLEMENTAR

Para aprofundar mais seus conhecimentos sobre os estudos da linguagem, vamos ler o artigo a seguir, que aborda uma dimensão histórica, social e filosófica da linguagem, reportando-se à concepção platônica “segundo a qual a linguagem conduz a alguma coisa que não ela mesma e, portanto, o discurso pode dizer ou não dizer a verdade.” Este artigo tem como referência um diálogo de Platão, chamado Crátilo. Para compreender melhor, vamos à leitura.

HISTÓRIA SOCIAL DA LINGUAGEM José Gaspar de Oliveira Nascimento (Univ. de Sorocaba)

INTRODUÇÃO

Embora possa parecer simples, a expressão história social da linguagem implica, na verdade, vários pressupostos que devem ser desenvolvidos. Assim, as pesquisas que envolvem a história da linguagem exigem o concurso de trabalhos sociológicos, históricos e, sem dúvida, linguísticos. Por essa razão há de se distinguir, inicialmente, linguística histórica de história da língua. Para Lyons (1972: 1), a Linguística se define como o estudo científico da língua. Entenda-se por estudo científico da língua como sendo a investigação dela

por meio de observações controladas e verificáveis empiricamente e com referência

a uma teoria geral da sua estrutura. A Linguística, como qualquer outra ciência, constrói sobre o passado; e assim o faz não somente desafiando e refutando doutrinas tradicionais, mas também desenvolvendo-as e reformulando-as. Para a compreensão dos princípios e hipóteses que regem a Linguística,

o conhecimento da História da Linguística, que não se confunde com linguística

histórica, pode oferecer sua contribuição. Uma coisa é estudar a história de uma ciência, recuperando suas origens e seu desenvolvimento no tempo – é o que se

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faz na História da Linguística. Outra coisa é estudar as mudanças que ocorrem nas línguas humanas à medida que o tempo passa, atividade específica da linguística histórica.

O interesse de uma história social da linguagem está, entre outras coisas,

em constituir uma abordagem necessariamente interdisciplinar. Para tanto um dos

contributos relevantes é a sociolinguística. Assim, a entrada dos conceitos e métodos

da sociolinguística para o campo habitualmente ocupado pela linguística tem vantagens

mútuas: a sociolinguística procura, e encontra, nos estados passados de uma língua,

os dados que podem validar ou invalidar as hipóteses que formulou para explicar uma

mudança atualmente em curso; e a linguística histórica tem a possibilidade, que até

aqui lhe escapava, de ver processarem-se perante os seus olhos mudanças análogas

àquelas que se deram no passado, e que apenas podia conjecturar. Por outro lado, a história da língua designa uma disciplina, ou um modo de abordar os fenômenos evolutivos da língua, que tanto pode ser considerada parte integrante da linguística histórica, como da história propriamente dita. O objeto da história da língua é uma língua em particular, na sua existência definida temporal

e espacialmente, o que significa que os fatos linguísticos devem ser

permanentemente correlacionados com fatos históricos, que os condicionaram.

O objetivo deste trabalho é apresentar uma leitura da história social da

linguagem focalizando uma concepção platônica segundo a qual a linguagem conduz a alguma coisa que não ela mesma e, portanto, o discurso pode dizer ou não dizer a verdade.

O corpus é um dos diálogos de Platão: Crátilo.

Justifica-se a escolha de Crátilo, visto que aí está a linguagem posta em questão. Platão examina a adequação do que se diz com a a coisa dita, o que, por si, é um marco fundamental para as reflexões sobre a linguagem. Estabelecendo as bases do raciocínio moderno, os gregos forneceram também os princípios fundamentais segundo os quais a linguagem foi pensada até nossos dias. Afinal, durante muitos séculos, os princípios aperfeiçoados pelos gregos conduziram as teorias e as sistematizações linguísticas na Europa.

Introdução à Linguística

Além dos aspectos especificamente linguísticos, é mister incluir, neste estudo, outros, tais como sociolinguísticos, históricos e filosóficos. Caracteriza-se aí a multi e a transdisciplinaridade tão comuns nos estudos atuais das ciências sociais e, por que não dizer, das chamadas ciências duras (hard sciences).

É verdade que os sociólogos dos anos setenta entendiam que as ciências

duras não poderiam ser estudadas socialmente, já que a sociologia e a história trabalhavam com aspectos institucionais da ciência, não com o núcleo do

conhecimento. Diziam eles que isso cabia aos filósofos. Shappin (1982), questionando

o caso do cientista que se deixa levar por razões não-científicas (ideológicas, por

exemplo), é um mau cientista. Já, para Kuhn (1962), as ciências duras não são críticas,

são dogmáticas. Questiona-se: a prática científica não é uma prática social? Hoje, os sociólogos consideram que há interferência do social no trabalho científico. Se na história social da ciência, a partir de 1930, na Inglaterra, identifica- se uma história externalista, que contempla os fatores externos como influenciadores do fazer cientítico – ideologia e ciência entrecruzam-se -, na história social da linguagem essa dualidade entre externo e interno está presente.

CRÁTILO A filosofia e a linguagem

O diálogo Crátilo é o texto básico da filosofia helênica sobre a linguagem.

Nele encontram-se grandes questões linguísticas e filosóficas. A filosofia grega

inicia-se precisamente com o conhecimento de que a palavra é apenas nome e, por isso, não representa o verdadeiro ser. A questão é a seguinte: qual é a relação entre a palavra e a coisa? Crátilo – o filósofo – procura resolver este problema, mas o diálogo não chega a uma conclusão a respeito da aporia da diferença entre a linguagem e a realidade. Mas esta falta de solução no diálogo Crátilo não é uma deficiência. A ausência de uma resposta explícita decorre das dificuldades naturais que o paradigma racional de Platão encontra ao investigar

a realidade empírica.

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Hoje, uma das questões básicas é a da linguagem. Ricoeur, em Da Interpretação, assevera que a linguagem é um dos problemas fundamentais da filosofia contemporânea. Habermas poderia dar igual testemunho. Aliás, nos últimos cinquenta anos diversas vertentes das ciências têm versado sobre a linguagem: a fonologia e as teorias linguísticas, os problemas da comunicação e a cibernética, as matemáticas modernas e a informática, os computadores e suas linguagens, os problemas de tradução das linguagens e a busca de compatibilidade entre linguagens-máquina, os problemas de memorização e os bancos de dados Como se pode observar, a pesquisa da linguagem é multi, inter e transdisciplinar: linguística, semântica, pragmática, semiótica, histórica, sociolinguística, psicológica, antropológica, etc. A própria filosofia, que se manifesta nos estudos da linguagem em Crátilo, revela múltiplos enfoques: lógico, histórico, linguístico, ontológico, epistemológico, ético. Na verdade, vivemos um momento de valorização temática da linguagem. Eis por que o objetivo deste trabalho procura examinar, desde o surgimento da filosofia, este problema e suas consequências. Especialmente em Crátilo, na relação nome-conhecimento-coisa. Não são propriamente respostas que se deve buscar na leitura do diálogo platônico. Quem procura uma resposta às questões de Sócrates e de seus interlocutores não a encontra. O filósofo se põe em condições de igualdade com seus interlocutores, Ele não se considera um mestre (Só sei que nada sei), apenas alguém que ajuda descobrir a verdade que está dentro de cada um. Crátilo possui uma certa força que o conserva sempre atual. O caráter retórico, dialético e a oralidade fazem parte do debate, da investigação que leva o diálogo à inconclusão e a Sócrates confessar sua ignorância, cujo ensinamento não é doutrinal, mas uma lição de método, segundo Koyré(1984):

Ensina-nos o uso e o valor das definições precisas, de conceitos empregados na discussão e a impossibilidade de os chegarmos a possuir sem proceder, previamente, a uma revisão crítica das noções tradicionais, das concepções ‘vulgares’, recebidas e incorporadas na linguagem.

Introdução à Linguística

A leitura de Crátilo exige a participação do leitor à semelhança de uma

obra literária, pois o pensamento de Platão só se dá de modo fragmentário: tudo é proposto em estado de pergunta e resposta. Afinal, para Platão, a filosofia não é

acessível a todos, embora o diálogo Crátilo, entre os demais, tenha sido escrito para o público leigo.

Crátilo: estrutura

A obra Crátilo tem o nome do primeiro mestre de Platão. Segundo

Aristóteles, Platão foi provavelmente discípulo de Crátilo, um radical seguidor de Heráclito, tão radical que exagerava e adulterava o heraclitismo. Se para Heráclito era impossível entrar duas vezes num mesmo rio, para Crátilo isso não se podia fazer sequer uma vez. Aliás, Crátilo acabou persuadindo-se de que não devia dizer nada e, por isso, contentava-se em mover o dedo. Do silêncio de Crátilo e do seu sentido filosófico encontram-se, como prova, no diálogo de Platão que tem o seu nome.

Até Crátilo pouco fala, apenas um quinto do diálogo; no restante, fazem-no falar. Contudo, é este Crátilo o interlocutor de Sócrates, o que, por essa razão, dá nome ao diálogo, que trata sobre a justeza dos nomes e não sobre essa figura histórica a respeito da qual pouco se sabe. Crátilo parece ter vindo a lume depois de Eutidemos e estar próximo a Parmênides e Teeteto, outros diálogos de Platão. Assim, provavelmente, foi escrito entre os anos 380 e 367 a. C. Pode ser dividido em duas partes:

a) a primeira, a mais longa, é a conversação entre Sócrates e Hermógenes;

b) a segunda, entre Sócrates e Crátilo.

As conclusões da primeira parte são revistas na segunda, pois, o diálogo, conduzido especialmente por Sócrates, gira em torno da correção ou da exatidão dos nomes; nesse sentido, sem caráter conclusivo, são expostas duas teses:

a) a convencionalista, defendida por Hermógenes, que apresenta a justeza

ou correção dos nomes como sendo uma mera convenção e acordo;

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b) a naturalista, defendida por Crátilo, que admite haver uma correção dos nomes por natureza atribuídos a cada um dos seres.

A obra começa de imediato com Hermógenes expondo a Sócrates, com a

permissão de Crátilo, as duas posições sobre a natureza do nome – nomoV / fusiV – e,

ainda na primeira parte, apresenta uma longa exposição etimológica ligada a alguns

problemas da filosofia de Platão. Exposição interessante, pois pode ser de interesse histórico em relação ao desenvolvimento da fonética, da semântica e da sociolinguística. Hermógenes conclui pelo convencionalismo na existência dos nomes.

A dificuldade, porém, continua na segunda parte, em que Crátilo defende

seu ponto de vista naturalista. Os nomes parecem possuir, contrariamente à opinião

de Hermógenes, uma certa justeza natural, e também, contra Crátilo, parece que nem todos os nomes são exatos por natureza. Eles podem ser inexatos, e o uso e

a convenção podem ter uma parte importante na sua formação. Se Crátilo nada conclui, qual o objetivo de Platão? Se a obra for levada em conta dentro do conjunto das obras de Platão, poder-se-á obter uma resposta. As questões sobre o convencionalismo ou

naturalismo do nome – nomoV / fusiV – têm , sem dúvida, importância didática e servem para apontar a existência de diversos adversários de Platão. Hermógenes

é um filósofo jovem e pouco conhecido, por isso, é pouco provável que Platão

deseje criticá-lo. Por outro lado, a tese de Crátilo não é aceita nas conclusões do diálogo. Também não são aceitos os ensinamentos de Heráclito e de Demócrito. E, finalmente, a tese do homem-medida de todas as coisas, de Protágoras, é diversas vezes refutada. Fica a questão: o diálogo trata de um problema de linguagem ou de conhecimento? É possível que a exposição da teoria da justeza dos nomes seja um elemento de apoio dialético à conhecida Teoria das Formas, observável no estudo etimológico do diálogo ao mostrar que não é o nome que deve ser interrogado, mas as próprias coisas. Ora, é a partir das coisas que nasce o conhecimento, e não pode existir conhecimento quando tudo está em contínua mudança. O conhecimento exige permanência.

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Conclui-se que Crátilo é um diálogo aberto (atinge diversos objetivos) e é também um diálogo coerente com o sistema geral da filosofia de Platão: pode procurar nele um esboço de uma filosofia da linguagem e uma parte de uma filosofia, na qual a linguagem é um elemento filosófico ao lado de outros.

A verdade em crátilo

A dialética está sempre presente na filosofia de Platão. Sua argumentação

não segue os padrões da lógica formal criada por Aristóteles, que investiga a força ou sentido de certas palavras, sempre a partir de modelos de proposições ou enunciados. No diálogo de Platão percebe-se uma força argumentativa, uma preocupação com a verdade que o distingue dos sofistas. A dialética do perguntar

e do responder defende-se de raciocínios falsos, dos sofismas, prestando atenção

não só às palavras, mas principalmente ao problema ou à realidade em debate. Para Platão, o verdadeiro e o falso têm como critério a correspondência do enunciados e dos nomes com as coisas. Isso vale para a leitura de Crátilo. Após a colocação das teses de Crátilo e Hermógenes sobre a justeza ou correção dos nomes, e tendo se iniciado o diálogo entre Sócrates e Hermógenes, o que chama a atenção do leitor é o tipo de argumentação de Sócrates, que mostra que há um discurso verdadeiro – logoV alhqhV – que diz as coisas como são, e um falso – yeudhV – que diz como as coisas não são. A questão é dupla: primeiro, a verdade ou a mentira é uma relação entre a linguagem e a coisa; segundo, a proposição para ser verdadeira precisa ser verdadeira no todo e nas partes. Isto significa que discurso verdadeiro é igual a nome verdadeiro, e falso a nome falso. Assim, a verdade é o nome, e a falsidade é

o não-nome, isto é, o som sem significação. Outro argumento de Sócrates refere-se à essência fixa que as coisas possuem, independente do sujeito. Ela é por natureza – fusiV . Isso vale também para os atos. Platão descobre que dizer é um ato, mas não vê no ato de fala as possibilidades que Austin, Chomsky e outros filósofos e linguistas atuais chamam a atenção.

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O ato de dizer tem a finalidade intrínseca de dizer as coisas. A função do dizer consiste em atribuir a cada coisa sua natureza. Nomear as coisas é possível graças ao instrumento que é o nome e à ação de nomear, de usar este instrumento.

A finalidade do dizer (ou nomear) consiste no ensinar e no distinguir a essência

das coisas. Em Crátilo, a argumentação de Sócrates parte do seguinte: há proposições verdadeiras e falsas e as proposições são compostas de nomes. Assim, as partes de uma proposição verdadeira devem ser verdadeiras. A seguir, Sócrates desloca a questão da verdade e da mentira relacionada

à proposição para o exame da função da linguagem. O objetivo do nome é ser

instrumento do falante para um determinado fim. Ao formador de nomes – nomoqethV , o nomoteta, o legislador – cabe configurá-los com sílabas e letras, com sons, naturalmente adequados à coisa que nomeia. Ao dialético, porém, compete distinguir e julgar se uma linguagem está bem ou não. Mas, qual a função da linguagem? É a de simplesmente nomear esta ou aquela entidade ou uma maneira de nomear coisas diferentes? Platão esclarece ao dizer que um nome é correto quando quem o atribui expressa a relação entre a natureza da coisa e a forma do nome em letras e sílabas. Não importam as sílabas e as letras usadas desde que a propriedade do objeto seja reproduzida. Assim sendo, a questão da verdade da exatidão do nome torna-se o problema da verdade, do conhecimento e do significado da linguagem. É nesta última que Platão procura o meio eficaz e verdadeiro para dizer a essência das coisas.

O sujeito da linguagem

Em relação ao problema da justeza, da correção dos nomes, a tese de Crátilo parece predominar no diálogo, diálogo que surpreendentemente se ocupa

do início até o fim com a questão da linguagem. Na primeira parte Sócrates defende a tese de Crátilo contra a tese convencionalista de Hermógenes. Na segunda parte Sócrates solicita a Crátilo que a defenda.

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Crátilo é uma das peças da filosofia de Platão, um de seus momentos. Os problemas nele colocados tendem a ser esclarecidos em outras obras de Platão: Sofista, Parmênides, Teeteto, pois o fato de reduzir a linguagem à questão do nome, e mais exatamente, o logo, o enunciado, o discurso, à simples frase, e esta ao nome, e o nome à sílaba, e a sílaba à letra, prejudica a argumentação e a análise do problema. É por isso que o estudo completo da questão da linguagem, em Platão, exige a leitura de outros diálogos. Crátilo, porém, é um momento privilegiado. Crátilo e Hermógenes têm uma posição clara sobre a justeza natural e sobre o acordo e convenção dos nomes. Mas qual é a posição de Platão? No início do diálogo, Sócrates esclarece o objetivo da discussão, que consiste em saber a verdade sobre a exatidão dos nomes. Para Platão, esta verdade, através de Sócrates, não tem um objetivo meramente gramatical ou linguístico. A tese de Platão visa à articulação entre a linguagem e o conhecimento: a linguagem é modalidade de formação ou articulação do próprio conhecimento. A propósito, NEVES (1987:

54) completa:

Na primeira parte do diálogo, contra a afirmação de Hermógenes de que o nome justo é aquele que se atribui a cada coisa, distinguem-se dois aspectos: a) a relação entre a justeza do nome e a natureza da coisa; b) o sujeito que atribui o nome.

Dê-se atenção ao segundo aspecto. Segundo Hermógenes, o nome que atribui a cada coisa é o nome de cada coisa. E, conforme ele, tanto os indivíduos – eu e tu – como os cidadãos podem atribuir nome. O aspecto fundamental do problema está na

O conhecimento é, assim, anterior e superior à imagem e ao logos, que é a expressão linguística dessa imagem. O denominar é posterior ao conhecer, pois há uma maneira de conhecer as coisas sem os nomes, por meio das próprias coisas e da relação entre elas. A linguagem já supõe a existência das coisas, de uma

essência inteligível e imutável, verdadeira e sempre idêntica a si

As palavras são apenas sinais que representam as

ideias e as coisas.

mesma. (

)

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figura do nomoteta ou legislador. Tal figura simbólica vem associada à do dialético, do gramático ou filósofo, aquele que sabe perguntar e responder e cumpre o papel de juiz em relação à atividade do legislador. É necessário dizer se os nomes são exatos ou não, se são verdadeiros ou falsos. O dialético interpreta e dirige o legislador em relação ao uso dos nomes, ao uso da linguagem. O nomear do legislador consiste em formar com sons e letras o nome por natureza apropriado, desde que siga a exigência de uma mesma forma.

Enfim, a descoberta de que a linguagem tem um sujeito, um legislador e um dialético, permite deslocar a questão da convenção para o contexto da linguagem. Embora Platão não tenha tido consciência de que a linguagem, contextualmente, pode ter uma multiplicidade de usos, a leitura de Crátilo pode ser feita nesta perspectiva.

Abordagem etimológica em crátilo

No estudo das etimologias, em Crátilo, observa-se uma certa ordem. Inicia- se com nomes homéricos, depois os nomes divinos e, por último, os nomes primitivos. Curioso: com as etimologias, tanto se defende a tese naturalista de Crátilo, como também se mostra a impossibilidade de explicar a origem dos nomes primitivos. Platão descobre que os nomes sofrem mudanças com o passar do tempo. Sob o ponto de vista linguístico-semântico, essas mudanças oferecem algumas curiosidades. Aparecem, por exemplo, embrionariamente, preocupações fonéticas, como a distinção entre a letra e o som. Os sons são, em Crátilo, o material com o qual o nomoteta (= o legislador) institui os nomes. Os sons variam de cultura para cultura, embora predomine sempre a ideia de que existe uma língua correta. No diálogo, Sócrates procura estudar as letras, a começar pelas vogais, para depois classificar por espécies as que carecem de som e ruído e as que, não sendo vogais, mudas também não são. Essa confusão socrática (= platônica) entre som

Introdução à Linguística

e letra corresponde à distinção entre vogais e consoantes. Sem dúvida, esta abordagem sobre fonética é surpreendentemente positiva. Ainda, nesses exercícios etimológicos, Crátilo oferece algumas noções de sociolinguística, quando o texto menciona as diferenças sociais e regionais relativamente à variação linguística. Outro aspecto interessante é a diferença de fala do homem e da mulher. Para Platão, as mulheres conservam com maior justeza a antiga linguagem – são, lingüisticamente, conservadoras. Tal registro não passou despercebido por aqueles que estudam as origens dos estudos gramaticais e linguísticos. Cícero, por exemplo, em De Oratore III, 12, dizia que melhor do que os homens, as mulheres guardam o acento antigo, porque elas variam pouco de conversação e se mantêm fiéis ao que aprenderam na infância:

facilius enim mulieres incorruptam antiquitatem conservant, quod multorum sermonis expertes ea tenent semper quae prima dixerunt.

E não faltam exemplos mais recentes. Meringer (1923: 83), referindo-se às mulheres, diz:

ellas más bien son las propias conservadoras del idioma, como también com la mayor fidelidad conservan la antigua tradición, la costumbre, el traje, aun cuando el hombre haya abandonado ya todas estas realidades.

E mais. Sever Pop, in Révue de Linguistique Romane, IX, 47a. 107,

assevera

le patois des femmes est presque toujours plus conservateur que celui des hommes de la même localité, ceux-ci étant plus souvent obligés de prendre contact avec des gens de la ville e surtout avec les autorités.

Outro aspecto interessante registrado por Sócrates, em Crátilo: o empréstimo das palavras:

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Tenho para mim que os Helenos, principalmente os que moram entre os bárbaros receberam destes muitos nomes (409e).

Exemplifica-se com a palavra pyr – pur :

Não é fácil pô-la em relação com a língua helênica, além de ser um fato que os Frígios empregavam esse mesmo termo, com ligeira modificação (410 a).

Observa-se, a partir do exemplo dado, que Platão tem uma certa consciência etimológica. Aliás, a origem estrangeira das palavras é perfeitamente explicada, hoje, pelo parentesco do grego com o sânscrito. Finalmente, do exame da etimologia, além das contribuições linguístico- semânticas – primitivas, é verdade -, fica a questão da imitação da própria natureza da coisa, feita por meio da voz, de cada coisa que se imita e nomeia.

A escrita

Platão fala da escrita, mas não emprega o conceito de texto, menos ainda de textualidade, conceitos, hoje, em voga, principalmente nos estudos semânticos da linguagem, em particular pela Análise do Discurso e pela Linguística Textual. Realmente, nem toda a escrita é texto. Um conjunto de frases ou uma simples seqüência linguística não identifica o texto e não oferece uma textualidade. São necessárias outras qualidades, como a coerência, a organização lógica e estética. Para Guimarães (1995: 77) são necessários dois funcionamentos próprios da textualidade: coesão e consistência:

A coesão diz respeito às relações que reenviam a interpretação de uma forma à outra, numa seqüência do texto. A consistência diz respeito às relações que reenviam a interpretação de uma forma ao acontecimento enunciativo.

É da essência do texto não se bastar a si mesmo, apesar de sua autonomia linguística. Há uma produção e uma recepção do texto que perpassa a organização

Introdução à Linguística

de seus elementos, pois todo texto resulta de um processo dialético ou simplesmente dialógico. Fávero (1993: 7), a propósito, afirma:

O texto consiste, então, em qualquer passagem falada ou escrita

que forma um todo significativo independente de sua extensão.

Trata-se, pois, de um contínuo contextual caracterizado pelos fatores da textualidade: contextualização, coesão, coerência, intencionalidade, informatividade, aceitabilidade, situacionalidade

e intertextualidade.

Hoje, ensina-se a tipologia textual, mas ainda não se reflete suficientemente sobre a questão da verdade. Será que os textos escritos, em tão grande quantidade, nos jornais e livros, não são simulacros, veículos da ideologia, e não da verdade? Sem dúvida, a determinação ideológica revela-se, em toda a sua plenitude, no componente semântico do discurso subjacente ao texto. A Análise do Discurso procura desfazer a ilusão idealista de que o homem é senhor absoluto de seu discurso. Ele é, antes, servo da palavra, uma vez que temas, figuras, valores, juízos provêm das visões de mundo existentes nas formações social, ideológica e discursiva do homem deste final de século. Platão não pensava assim. Censura os discursos que não nascem do próprio espírito do autor, que não verdadeiros escritos da alma, tendo como tema

o justo, o belo, o bom. Paradoxalmente, sabe-se que o próprio filósofo não escreveu

o mais importante de sua doutrina por considerar a escrita instrumento insuficiente para realizar esta finalidade.

CONCLUSÃO

O diálogo Crátilo só pode ser entendido quando situado na obra de Platão

e no contexto da filosofia grega. Desta maneira, os objetivos do diálogo parecem

adquirir sentido. Assim, os argumentos de Sócrates contra Hermógenes e Crátilo ganham certa coerência. Assim também a figura do nomoteta (= o legislador) e do dialético, do conceito do nome como meio de conhecimento das coisas, a partir da Teoria das Formas, pode ser compreendida.

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Por outro lado, a questão do nome, no Crátilo, traça o percurso de uma concepção da linguagem em Platão. Se ele concebe a linguagem como um meio, um instrumento sensível incapaz de traduzir o mundo inteligível das Formas e do Bem, por outro lado, a insuficiência da linguagem e da escrita é atenuada através da articulação da retórica com a dialética, e através do diálogo, pois, o diálogo, como forma expressiva e comunicativa, possui uma forte dimensão metafórica, ambígua, dramática, que exige da linguagem uma constante recriação linguística. A circularidade do diálogo atenua a fixidez da linguagem. Afirmou-se acima (p. 12) que o homem é servo da palavra, uma vez que temas, figuras, valores, juízos provêm de sua visão de mundo condicionada à formação social, ideológica, discursiva. Em outras palavras: na perspectiva da história das ciências sociais não há linguagem neutra, não há discurso neutro. E no que diz respeito às ciências duras, pode-se dizer que a ciência é

neutra?

Entre os estudiosos da história da ciência (década de 60/70), alguns admitiam um discurso que assegurava que o cientista, dentro do laboratório, pode ser neutro. Seu trabalho, que consiste em produzir conhecimento, por ser objetivo, estaria isento de influências externas. Mas será possível deixar de fora o social, quando se entra num laboratório? Na verdade, assim como a linguagem das ciências sociais é perpassada pela ideologia, assim também as ciências naturais, segundo os estudos mais recentes, não estão dissociadas do contexto social, haja vista, por exemplo, a presença de ideologias racistas em certas produções científicas. Do exposto se conclui que a linguagem, como manifestação de ideias, seja das ciências sociais, seja das ciências naturais, não é neutra. Conclui-se também que o diálogo de Platão – Crátilo -, como escrito básico do pensamento grego sobre a linguagem, revela questões linguísticas e filosóficas que desafiam a investigação científica até os dias de hoje.

Introdução à Linguística

BIBLIOGRAFIA

BURKE, P. & PORTER, R. História Social da Linguagem. Trad. De Álvaro Hattnher. São Paulo: UNESP, 1997. FÁVERO, L.L. Coesão e Coerência Textuais. São Paulo: Ática, 1993. GUIMARÃES, E. Os Limites do Sentido. Campinas: Pontes, 1995. HAVELOCK, E. A. A Revolução da Escrita na Grécia e suas conseqüências naturais. Trad. De José Ordep Serra. São Paulo: UNESP, 1996.

KOYRÉ, A. Introdução à Leitura de Platão. Lisboa: Editorial Presença, 1984. KUHN, T. S. The Structure of Scientific Revolutions. Chicago: Univ. Chicago Press,

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LYONS, J. Introdução à Linguística Teórica. Trad. De Rosa V. M. Silva e Hélio Pimentel. São Paulo: Nacional, 2005.

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PAVIANI, J. Escrita e Linguagem em Platão. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1993. SHAPIN, S. “The Politics of Observation: Cerebral Anatomy and Social Interests in

the Edimburgh Phrenology Disputes.” In, H. M. COLLINS. Sociology of Scientific Knowledge – A Source Book, 1982, p. 103-150.

ATIVIDADES DE APRENDIZAGEM

Como forma de rever e consolidar seus conhecimentos acerca dos conteúdos dessa Unidade, desenvolva os seguintes tópicos de atividades:

1) Construa um texto, apresentando e discutindo as diversas concepções de linguagem que esta Unidade traz. 2) Pesquise, numa gramática normativa de língua portuguesa, alguns conceitos e concepções que retratam o pensamento filosófico greco-romano

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acerca de categorias linguísticas, como por exemplo, a noção de sujeito, predicado, substantivo, verbo, advérbio etc.

UNIDADE 3

A LINGUÍSTICA: CIÊNCIA DA LINGUAGEM

OBJETIVOS

1. Reconhecer os critérios que conferem à Linguística o status de ciência.

2. Identificar o conceito e o objeto da Linguística enquanto ciência da

linguagem.

3. Estabelecer a diferença entre Linguística e gramática.

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3 A LINGUÍSTICA: CIÊNCIA DA LINGUAGEM

A verdadeira substância da língua não é constituída por um sistema abstrato de formas linguísticas nem pela enunciação monológica isolada, nem pelo ato psicofisiológico de sua produção, mas pelo fenômeno social da interação verbal, realizada através da enunciação ou das enunciações. A interação verbal constitui assim a realidade fundamental da língua. (BAKHTIN, 2004, p. 123)

A citação acima traduz um dos conceitos mais atuais de língua, nos

nossos dias, e nos leva à reflexão do que hoje representa esse fenômeno no contexto das discussões científicas. Embora a língua sempre tenha sido objeto de discussão entre os estudiosos, em todos os tempos, nem sempre os estudos envolvendo questões linguísticas foram considerados científicos. Vamos, neste espaço, situar a Linguística enquanto ciência da linguagem mas, em primeiro lugar, discutiremos a ideia de ciência, no contexto do pensamento da filosofia moderna.

3.1 REFLEXÕES SOBRE CIÊNCIA

Vejamos, inicialmente, o que está posto nos manuais de Linguística e nas discussões e reflexões em torno da definição de Linguística enquanto ciência da linguagem.

O que é Linguística, afinal?

A resposta a essa pergunta é, invariavelmente: Linguística é o estudo científico da linguagem. Essa resposta sugere que nem todos os estudos da linguagem podem ser considerados científicos, pois, para que esses estudos possam estar incluídos entre aqueles ditos científicos, devem submeter-se a alguns critérios de cientificidade, indispensáveis. Considerar a Linguística uma ciência sugere reflexões acerca do próprio conceito de ciência e acerca dos critérios que conferem a uma área de conhecimento o status de ciência. Nesse sentido, temos que levar em conta o objeto de estudo da Linguística e a própria noção

Introdução à Linguística

de lingua(gem). Em outros termos, necessitamos refletir sobre o que é ciência,

o que é linguagem e qual o objeto de estudo da Linguística, para podermos

ter segurança quanto à compreensão do que vem a ser a ciência da linguagem. Vejamos, então, alguns aspectos pontuais dessa discussão, indispensáveis para que se compreenda como os estudos da língua passaram

a ser considerados científicos. As noções de ciência e de método científico, embora tenham suscitado discussões e posicionamentos até controversos, ao longo dos tempos, evoluíram consideravelmente desde o início do século XX. Essa evolução deve-se, em parte, à compreensão de que a ciência é um processo sempre em construção, buscando, a todo instante, renovar-se e reavaliar-se

continuamente sem jamais ser vista como pronta, acabada e definitiva. Uma forma de compreender a maneira como se pensa a ciência hoje

e as controvérsias envolvidas nesse pensamento, necessária se faz uma rápida incursão em torno das três grandes correntes da filosofia moderna, espaço principal do pensamento acerca da constituição da ciência: o racionalismo cartesiano, o empirismo inglês e o idealismo alemão. Ressalte-se, ainda, o positivismo, tributária do empirismo.

A corrente de pensamento filosófico conhecida como racionalismo

cartesiano teve o seu início com René Descartes. Predominou no século XVII

e concentrou-se em provar a existência de Deus e em discutir as questões

relacionadas ao tema. Enfatizou a questão do conhecimento e indagou sobre

o papel da mente na aquisição do conhecimento, notadamente buscando

respostas sobre a origem, a essência e o alcance das ideias por meio das

quais o conhecimento se constitui. Para Descartes, as ideias seriam caracterizadas como sendo adventícias, fictícias e inatas.

O empirismo inglês, que teve Bacon como precursor, Locke como

seu fundador e David Hume como um dos seus continuadores, floresceu no

século XVIII. Ainda no seu início, seguiu o pensamento racionalista e focalizou

a questão do conhecimento, mas se opôs àquele pensamento à medida que

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negou a existência das ideias inatas. Ao se desenvolver, foi-se distanciando da influência cartesiana, negando a existência das ideias abstratas. Em relação ao conhecimento, Hume estabeleceu a diferença entre ideias e impressões, considerando que aquelas são representações mentais, independentes de vivência sensorial e estas são percepções reais, vivências sensoriais. Chegou

a pôr em dúvida a própria substância espiritual. Nesse contexto filosófico, o empirismo reduziu o conhecimento às percepções e vivências reais do indivíduo. A experiência seria, pois, a única fonte válida de conhecimento.

No início do século XIX, surgiu um novo pensamento que orientaria as ideias filosóficas modernas, o idealismo alemão. Iniciado por Kant, e seguido por Hegel, teve como característica principal a ideia de que o conhecimento estaria a serviço da lei moral, ou seja, defendia o pensamento de que o saber levaria o homem a aperfeiçoar-se moralmente. Dentre os grandes temas discutidos no contexto do idealismo alemão, temos: a razão e a liberdade; a autonomia do indivíduo e a organização racional da sociedade e do Estado; e

o sentido da História. Ainda na primeira metade do século XIX, surgiu uma reação às preocupações metafísicas das ideias que sedimentavam o racionalismo cartesiano e o idealismo alemão: seria o positivismo de August Comte. Essa

corrente deu ênfase à experimentação, opondo-se à especulação. Era um período em que as ciências experimentais floresciam, mas prevalecia, ainda,

a especulação racionalista. Entretanto, pretendia-se uma filosofia que se

propusesse a formular um corpo ordenado de doutrinas gerais, comuns às diversas ciências particulares, identificado a partir dos resultados alcançados pelos diferentes ramos do conhecimento. Para Comte, todo estudo científico deveria ser ao mesmo tempo racional e empírico já que o intelecto humano escolhe os dados, reelabora-os e os analisa a partir de uma hipótese particular. Pode-se considerar que o positivismo adota o ponto de vista do empirismo radical, uma vez que considera que à ciência cabe observar e analisar os dados da realidade sem, no entanto, fazer indagações do tipo transcendental

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ou metafísico e sem considerar entidades que não são físicas. Neste sentido,

o positivismo admite que o método científico é indutivo, é fortemente empirista

e utiliza-se da verificação para validar às suas análises. Nos nossos dias, põe-se em dúvida o próprio conceito de método científico, como sendo válido para todas as ciências. O grande questionamento

é se as disciplinas que estudam o comportamento humano, por exemplo,

poderiam ser tratadas a partir dos mesmos métodos e conceitos das ciências físicas. Diante disso, atualmente, tende-se a aceitar a multiplicidade de métodos de investigação científica, sendo tais métodos variáveis de ciência para ciência. Rejeita-se, dessa forma, a unificação de um método científico. Assim sendo, pergunta-se: Que características fundamentais atribuem cientificidade ao estudo linguístico? Embora não haja consenso a esse respeito, algumas exigências como

a comprovação empírica, a ausência de preconceitos e o caráter explicativo e explícito constituem algumas das características exigidas aos estudos científicos da linguagem. Chamamos a atenção para o fato de que, para a Linguística, o caráter empírico diz respeito apenas ao fato de o linguista lidar com dados suscetíveis de serem comprovados empiricamente, ou seja, pelos dados da língua. Diante dessas reflexões, na próxima seção trataremos da constituição desse campo de conhecimento, no que se refere a sua concepção, definição e objeto de estudo. Para concluir esta seção, apresentamos o ponto de vista do linguista brasileiro, Prof. Dr. Francisco Gomes de Matos, sobre a seguinte indagação:

A Linguística é uma ciência?

Sim! Não há dúvida, No momento em que a linguística tem um objeto de estudo próprio, uma metodologia, um método de estudos rigorosos que podem ser de natureza qualitativa e quantitativa, ela reúne as condições ou pré-condições para poder ser considerada ciência. A linguística atende a critérios de cientificidade, tais como:

sistematicidade (do conhecimento linguístico), objetividade, relevância (teórica e aplicativa), parcimônia (descritivo-explicativa). Como tal, possui uma terminologia própria, objeto de estudo

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especializado por terminólogos. Quer dizer: a linguística é um conjunto de saberes sistemáticos do qual têm resultado modelos diversos, uma infinidade de modelos, alguns até testados, modelos emergentes que estão a serviço das mais diversas áreas das humanidades em geral. (XAVIER e CORTEZ (Orgs.), 2003, p. 93-94).

3.2 A LINGUÍSTICA E SEU OBJETO DE ESTUDO

2003, p. 93-94). 3.2 A LINGUÍSTICA E SEU OBJETO DE ESTUDO Assinalamos, acima, algumas características dos

Assinalamos, acima, algumas características dos estudos da linguagem que contribuíram para que esse campo de conhecimento viesse a ser considerado uma ciência. Uma delas diz respeito ao caráter empírico das investigações sobre a linguagem. Nesse ponto, chamamos a atenção para o fato de que, para a Linguística, o caráter empírico diz respeito apenas à ideia de o linguista lidar com dados suscetíveis de serem comprovados empiricamente, ou seja, pelos dados da língua. Outro ponto diz respeito à ausência de preconceito nas investigações linguísticas, mostrando um posicionamento oposto àquele adotado pela gramática normativa, segundo o qual existem variedades linguísticas melhores que outras, o que revela julgamento de valor. Já o caráter explicativo da Linguística, uma outra característica apontada, diz respeito à exigência de verificação empírica. Nas investigações sobre a linguagem, parte-se de dados sobre a língua, formulam-se hipóteses teóricas a partir deles. As hipóteses devem ser empiricamente comprovadas,

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daí resultará a validade científica dessas hipóteses. Caso as hipóteses iniciais não sejam confirmadas, haverá uma reformulação dessas hipóteses até que se chegue a uma hipótese que alcance todos os fenômenos sob análise. Finalmente, o caráter explícito da Linguística, por seu turno, refere-se

à exigência de definição clara, precisa e pormenorizada dos pressupostos teóricos que orientam as análises. Também devem ser explícitos os termos e conceitos utilizados na argumentação que se apresenta ao realizar um estudo científico da linguagem. Considerando o que apresentamos até aqui em termos de reflexão do que vem a ser considerado ciência, vamos retomar o conceito inicial de Linguística: estudo científico da linguagem. Vamos, agora, trazer alguns esclarecimentos acerca do objeto de estudo da Linguística: a linguagem. No seu Curso de Linguística Geral, Ferdinand de Saussure, o criador da Linguística moderna, considera, nas páginas iniciais deste livro, que “A matéria da Linguística é constituída inicialmente por todas as manifestações da linguagem humana” (p. 13) e no fechamento deste mesmo livro assinala, textualmente, que a “Linguística tem por único e verdadeiro objeto a língua considerada em si mesma e por si mesma.” (p. 271). Para refletir um pouco sobre as considerações saussurianas acerca do objeto de estudo da Linguística, é interessante que olhemos, rapidamente, as fases que antecederam a constituição e consolidação desse objeto, quais sejam:

a fase dos estudos gramaticais (relativos à gramática normativa), a fase dos

estudos filológicos e a fase dos estudos comparativistas (Veja Unidade III). A gramática normativa diz respeito aos estudos da língua que remontam ao século V a. C. Conforme Lyons (1979), esses estudos gramaticais eram, para os gregos, uma parte da sua indagação sobre a natureza do mundo que os cercava e, assim sendo, seria parte da Filosofia. Considera-se que esses estudos são desprovidos de qualquer critério científico e estão interessados apenas em formular regras que identificam as formas corretas e as formas incorretas da língua (retomaremos esta discussão na seção 3.3).

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A segunda fase, dedicada aos estudos filológicos, ocupou-se em

comparar textos de diferentes épocas e de identificar as peculiaridades linguísticas dos autores e de épocas específicas. Considera-se que esses estudos filológicos foram importantes para a constituição da Linguística histórica. A terceira fase, reconhecida como a fase dos estudos comparativistas, foi implementada quando se descobriu que as línguas podiam ser comparadas entre si. Foram reconhecidas semelhanças entre as línguas, especialmente no que se refere ao vocabulário e à estrutura gramatical. Nesse contexto de pesquisas e estudos, argumentou-se em favor do que passou a ser

considerado de parentesco linguístico, equivalendo-se a dizer que duas línguas são aparentadas se elas evoluíram de alguma língua precedente comum, o chamado protótipo comum – por exemplo: muitas das línguas da Europa pertencem à chamada família das línguas indoeuropeias. De acordo com esses estudos, as línguas mudam no tempo e, assim, podem-se relacionar grupos de línguas porque elas têm uma demonstrável origem comum, é possível reconstruir, por comparações e inferências, vários aspectos desses estágios anteriores.

A escola comparativa, apesar de abrir uma nova frente de estudos,

diferente daquelas anteriores, ainda não constituiu a verdadeira ciência da linguagem porque não teve a preocupação de identificar o seu objeto de estudo nem a natureza dele, condição indispensável para que um campo de estudo constitua-se como ciência. Isso se deve ao fato de que as investigações comparativistas limitavam-se às línguas indoeuropeias e não determinou a que levavam as comparações estabelecidas entre as línguas, nem explicitou o significado das analogias descobertas. Considerou-se, então, que a comparação é importante para a reconstituição histórica mas, por si só, não leva a grandes conclusões. Neste ponto, retomemos o foco inicial da nossa discussão: o objeto de estudo da Linguística, já apresentado acima, segundo o pensamento de

Introdução à Linguística

Ferdinand de Saussure (2008, p. 271) de que a “Linguística tem por único e verdadeiro objeto a língua considerada em si mesma e por si mesma.” O objeto de estudo da Linguística seria, então, a língua, considerada em todas as suas manifestações. Saussure, neste sentido, partindo do ponto de vista da linguagem como fenômeno unitário, estabelece a dicotomia língua e fala, assinalando que a língua é um sistema de valores que se opõem uns aos outros e que o sistema está depositado como produto social na mente dos falantes (CABRAL, 1988), é o objeto de estudo da ciência que ora inaugura. A fala seria, então, um ato individual sujeito à interferência de fatores extralinguísticos. Tomemos, neste espaço, as palavras de Saussure, explicitadas no

Curso.

Qualquer que seja o lado por que se aborda a questão, em nenhuma parte se nos oferece integral o objeto da Linguística. Sempre encontramos o dilema: ou nos aplicamos a um lado apenas de cada problema e nos arriscamos a não perceber as dualidades assinaladas acima, ou, se estudarmos a linguagem sob vários aspectos ao mesmo tempo, o objeto da Linguística nos parecerá como um aglomerado confuso de coisas heteróclitas, sem liame entre si. ( ) Há, segundo nos parece, uma solução para todas essas dificuldades: é necessário colocar-se primeiramente no terreno da língua e torná-la como uma norma de todas as outras manifestações da linguagem. De fato, entre tantas dualidades, somente a língua parece suscetível duma definição autônoma e fornece um ponto de apoio satisfatório par o espírito.

Mas o que é língua? Para nós, ela não se confunde com a linguagem;

é somente uma parte determinada, essencial dela, indubitavelmente. É, ao mesmo tempo, um produto social da faculdade de linguagem

e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo

social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos. Tomada em seu todo, a linguagem é multiforme e heteróclita; a

cavaleiro de diferentes domínios, ao mesmo tempo física, fisiológica

e psíquica, ela pertence além disso ao domínio individual e ao domínio social; (

(

a língua constitui algo adquirido e convencional, ( (SAUSSURE, p. 16-17)

)

).

Dessa forma, a língua constituiu-se como o objeto de estudo da Linguística.

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Para que a nova maneira de estudar a língua se constituísse numa ciência, seria necessário, ainda, estabelecer um método de estudo. O método estabelecido para a proposta descritiva saussuriana foi aquele reconhecido como método indutivo.

A Linguística, pois, constituiu-se como ciência, com o seu objeto e o

seu método de investigação. Significa que temos uma forma de estudar a língua bastante diferenciada da tradição dita normativa, aquela que prescreve as regras do bem falar e, principalmente, do bem escrever. Na próxima seção, este será o foco da nossa discussão.

3.3 LINGUÍSTICA E GRAMÁTICA

Tomando-se o termo gramática, ocorre-nos, inicialmente, a ideia de que esse termo refere-se, conforme assinala Possenti (1996, p. 64), a “um conjunto de regras”, que “devem ser seguidas” ou que “são seguidas”. Supostamente, esse conjunto de regras traçaria um retrato da estrutura e do funcionamento da língua. Em primeiro lugar, devemos esclarecer um pouco a noção de regras. Quando falamos em regras, ou estamos nos referindo à prescrição,

àquilo que regula coercitivamente, ou estamos falando daquilo que é regular ou que se faz regularmente. Nisso, repousa a diferença fundamental entre as ideias de gramática, no seu sentido normativo, e linguística.

A gramática dita normativa, entendida como a “arte de falar e escrever

corretamente”, teve sua origem na Antiguidade e mantém-se até os nossos dias, com muito vigor, de forma a tentar regular essa arte de falar e, principalmente, de escrever bem. É uma das abordagens de estudo da língua, dita não científica por sua própria natureza coercitiva.

De forma mais detalhada, Travaglia (1996) considera que, quando nos referimos à gramática, estamos, necessariamente, nos reportando ao termo em uma das seguintes concepções:

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1. “conjunto sistemático de normas para bem falar e escrever, estabelecidas por especialistas, com base no uso da língua consagrado por

bons escritores” e “dizer que alguém sabe gramática significa dizer que esse alguém conhece essas normas e as domina tanto nocionalmente quanto operacionalmente” (FRANCHI, 1991:48).

2. “um sistema de noções mediante as quais se descrevem os fatos

de uma língua, permitindo associar a cada expressão dessa língua uma

descrição estrutural e estabelecer suas regras de uso, de modo a separar o que é gramatical do que não é gramatical” (FRANCHI, 1991: 52-53).

3. “saber linguístico que o falante de uma língua desenvolve dentro de

certos limites impostos pela sua própria dotação genética humana, em condições apropriadas de natureza social e antropológica” (FRANCHI, 1991, p. 54).

As três concepções de gramática apresentadas detêm em si sentidos específicos centrados em diferentes pontos de interesse.

A primeira delas, concebida como “gramática tradicional”, de tradição

secular, considera que a língua é apenas a variedade padrão (culta), sendo as demais, formas de puros desvios e “erros”. A gramática, assim concebida, trata somente da descrição da norma culta da língua que é baseada no uso consagrado de bons escritores, não levando em conta as peculiaridades da linguagem oral. Tem caráter eminentemente prescritivo.

A segunda concepção de gramática apresentada trata da descrição

da estrutura e funcionamento da língua, observando, assim, sua forma e função. Essa gramática, por ser descritiva, vê as regras que os falantes seguem quando elaboram seus enunciados e considera gramatical tudo o que preenche os critérios de funcionamento da língua no âmbito de uma variedade linguística específica. As abordagens que fundamentam essa concepção de estudo são as teorias estruturalistas da linguagem, que privilegiam a descrição do oral, e a teoria gerativo-transformacional, que lida com enunciados ideais. Essas correntes, apesar de guardarem profundas diferenças nas suas essências,

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em comum têm o fato de proporem uma homogeneidade no sistema linguístico. Abstraem a língua do seu contexto e trabalham com um sistema formal abstrato que regula o uso que se tem em cada variedade. A terceira concepção de gramática apresentada considera a língua não do ponto de vista normativo, nem do ponto de vista descritivo, mas como um conjunto de variedades da qual a sociedade se utiliza, levando em conta o que é adequado para cada situação específica de interação comunicativa. A gramática seria, então, um conjunto de regras que o falante aprendeu e das quais se utiliza em diferentes circunstâncias. Essa seria a gramática internalizada (TRAVAGLIA, 1996), segundo a qual não há erro linguístico, mas observação do que é adequado de acordo com as diferentes situações de interação comunicativa, por não atender às normas sociais de uso da língua, ou por não ser adequado o uso de um determinado recurso linguístico para se atingir um objetivo específico. Segundo a concepção de gramática como forma de interação, o que regula e afeta o uso da linguagem é o contexto sócio-histórico-ideológico, sendo essa a gramática que constitui a competência comunicativa (HYMES, 1980) do falante, o que lhe permite elaborar seus enunciados e decidir por sua gramaticalidade no sentido da gramática descritiva. Dessa forma, temos, acima, três concepções de gramática. A primeira delas, conforme ressaltado, diz respeito a uma concepção de gramática no sentido normativo, indubitavelmente. Seria aquela versão que não agrega os critérios de cientificidade, mas tem um valor sociocultural inestimável, dada a sua importância enquanto variedade padrão culta da língua. As duas últimas concepções apresentadas, por sua vez, inscrevem-se entre os estudos linguísticos considerados científicos. Esses estudos, se não têm a pretensão de normatizar a forma de falar das pessoas, tal como se propõe a primeira, qual é, então, a sua utilidade? No contexto das discussões acerca da Linguística, especialmente sobre a utilidade desse campo de conhecimento, muitos estudiosos brasileiros

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têm marcado suas posições de forma bastante esclarecedora. Nesse sentido, vejamos o que nos diz um dos maiores linguistas brasileiros de todos os tempos, o Prof. Dr. Luiz Antonio Marcuschi, ao ser indagado da seguinte forma:

Para que serve a Linguística?

Uma coisa eu sei: com a linguística você não fica rico, mas sem ela seu povo é mais pobre. A questão do “para que” serve a linguística depende sempre de que estudos linguísticos nós estamos falando. Mas eu tenho a impressão de que a linguística serve basicamente para fazer com que se compreenda de que forma nós somos seres humanos. Ou seja, como nós interagimos, como chegamos a nos entender, como conseguimos construir e dar a entender este mundo que nós construímos, como a realidade é sentida e reproduzida para as pessoas. (

(XAVIER e CORTEZ (Orgs.), 2003, p. 137)

A Linguística como ciência, neste século de existência, numa tentativa de verificar como conseguimos construir e dar a entender este mundo que nós construímos, como a realidade é sentida e reproduzida para as pessoas, tem atraído o interesse de muitos estudiosos e se diversificado nos seus pontos de observação do fenômeno linguístico, traduzido em vertentes que o contemplam desde o ponto de vista mais estrutural, mais formal possível, até o ponto de vista do seu uso, mais funcional. O capítulo que segue tratará, exatamente, dessa expansão e diversificação de interesses da Linguística, evidenciados nas diferentes maneiras de abordar a língua, em correntes que revelam interesses também muito diversificados acerca do seu objeto.

RESUMINDO

Neste capítulo, dividido em três seções, tratamos, basicamente, do estatuto da Linguística enquanto ciência da linguagem. Inicialmente, vimos que a noção do que vem a ser língua, nas palavras de Bakhtin, hoje está bastante avançada já que é tida essencialmente como uma forma de interação entre os homens.

1. Reflexões sobre ciência

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• As noções sobre ciência e método científico evoluíram,

especialmente, a partir do início do século XX, desde que se chegou à compreensão de que a ciência é um processo sempre em construção.

• Uma forma de compreendermos a maneira de se pensar a ciência

hoje é fazendo-se uma rápida incursão em torno das três grandes correntes da filosofia moderna: o racionalismo cartesiano, o empirismo inglês, o idealismo alemão e o positivismo; • A Linguística, enquanto ciência da linguagem, é traduzida nas palavras do Prof. Dr. Francisco Gomes de Matos.

2. A Linguística e seu objeto de estudo

• Caracterização da Linguística como ciência.

• Segundo o pensamento de Ferdinand de Saussure, a “Linguística

tem por único e verdadeiro objeto a língua considerada em si mesma e por si mesma.” (p.271).

• O objeto de estudo da Linguística seria, então, a língua, considerada em todas as suas manifestações.

• Saussure, partindo do ponto de vista da linguagem como fenômeno

unitário, estabelece a dicotomia língua e fala, assinalando a língua, sistema

de valores que se opõem uns aos outros e que está depositado como produto social na mente dos falantes (Cabral, 1988).

• O método estabelecido para a proposta descritiva saussureana foi

o

método indutivo. A Linguística constituiu-se como ciência, com o seu objeto

e

o seu método de investigação. Significa que temos uma forma de estudar a

língua bastante diferenciada da tradição dita normativa, aquela que prescreve as regras do bem falar e, principalmente, do bem escrever.

3. Linguística e gramática

• As três concepções de gramática detêm em si sentidos específicos centrados em diferentes pontos de interesse:

Introdução à Linguística

• Noção de “gramática tradicional” - considera que a língua é apenas

a variedade padrão (culta). As demais manifestações linguísticas seriam

desvios e “erros”. A gramática, assim concebida, trata somente da descrição da norma culta da língua que é baseada no uso consagrado de bons escritores.

• Noção de gramática descritiva - focaliza a descrição da estrutura e

funcionamento da língua, observando sua forma e função. Leva em conta as regras que os falantes seguem quando elaboram seus enunciados e considera gramatical tudo o que preenche os critérios de funcionamento da língua no âmbito de uma variedade linguística específica.

• Noção de gramática como forma de interação - considera a língua

não do ponto de vista normativo, nem do ponto de vista descritivo, mas como um conjunto de variedades da qual a sociedade se utiliza, levando em conta o que é adequado para cada situação específica de interação comunicativa. A gramática seria um conjunto de regras que o falante aprendeu e das quais se utiliza em diferentes circunstâncias.

LEITURA COMPLEMENTAR

Uma compreensão mais aprofundada a respeito dos fenômenos sobre os quais a linguística volta os seus interesses merece uma reflexão sobre a própria maneira de se compreender essa ciência, de que maneira ela se constituiu, a sua abrangência, aonde pretende chegar. Tomando essa trilha, insistimos na leitura cuja referência é tomada várias vezes neste capítulo e nos revela um norte bastante esclarecedor a respeito das questões aqui tratadas. O livro do qual falamos é:

XAVIER, Antonio Carlos; CORTEZ, Suzana, Orgs. (2003). Conversas com linguistas. São Paulo: Parábola Editorial. ISBN: 85-88456-07-9. 200p. Além dessa leitura que, certamente, será muito proveitosa, sugerimos, também, a leitura do texto abaixo, relativo a uma palestra proferida pela Profa. Sônia Bastos Borba Costa, da Universidade Federal da Bahia, sobre as

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entrevistas de grandes linguistas brasileiros, apresentadas no livro referido. O texto da Profa. Sônia é esclarecedor, também, quanto aos rumos da linguística

A LINGUÍSTICA E OS ESTUDOS DE LINGUAGEM RUMO AO SÉCULO

XXI[1]

Sônia Bastos Borba Costa PROHPOR / DLV / IL / UFBA

Inicialmente quero registrar o prazer de estar aqui, conhecendo o DELL da UESB, oportunidade de que ainda não tinha desfrutado.Confesso que o tema proposto pela coordenação desta Semana de Letras me surpreendeu, pelo menos senti-me inibida diante da sua amplitude. Socorri-me, então, de um livro que nos chegou em março de 2003, Conversas com Linguistas: virtudes e controvérsias da Linguística (Xavier e Cortez (orgs.) São Paulo: Parábola), coletânea de entrevistas, de perguntas idênticas, com dezoito linguistas brasileiros, e cuja última questão é precisamente: Quais os desafios para a Linguística no século XXI? Para começar a nossa reflexão, acho que primeiramente se coloca a questão de definir o que são os estudos linguísticos. Afinal, embora estes tempos chamados pós-modernos estimulem e clamem pela necessidade de interdisciplinaridade, nossos cursos de Letras costumam distinguir estudos linguísticos de estudos literários, o que, portanto, afasta dos estudos linguísticos a literatura das várias línguas, tal como faz a CAPES, que denomina a nossa área de Letras e Linguística. Mesmo que nos atenhamos a essa distinção (o que não vejo como taxativo), fatalmente nos perguntamos e nos perguntam: O que é a Linguística? Para Eleonora Albano (Xavier e Cortez, op. cit: 30), a Linguística é

um discurso científico que nasceu na virada do século XX, a partir de outros discursos que já havia por aí, que falavam sobre linguagem e que realmente eram muito heterogêneos. E Saussure teve o papel

Introdução à Linguística

de peneirar e de saber puxar um fio lógico: vamos separar isso aqui de tal forma que a gente consiga mapear um certo recorte com métodos claros e possa fazer distinções.

Para Margarida Salomão (id., ibid: 188-9), a Linguística é

esse campo discursivo que trata da linguagem de uma forma não

normativa e que procura entendê-lo sob o aspecto social, sob o

Eu diria para

um aluno da graduação que é o estudo da linguagem que procura ser científico, mas definitivamente não normativo.

aspecto cognitivo e sob o aspecto gramatical.[

].

Quanto à pergunta, que não consta da citada entrevista, O que são os estudos linguísticos, fico com a resposta bem-humorada de Ataliba Castilho e a sua sempre lembrada fábula do elefante (id.ibid.p.55):

Bom, quando eu dou aula na graduação, costumo dizer para os alunos: se você quer entender o que é linguística e o que é o seu objeto, você precisa pensar um pouco na fábula dos três cegos apalpando o elefante. Cada um apalpava um pedaço do elefante e definia o elefante por aquele pedaço. Então, o que pegava a perna

do elefante, dizia: “o elefante é assim um cilindro muito duro, rígido,

é um animal com formato de cilindro e que é estático, parece que

esse animal não se mexe e é um animal que ocupa posição vertical no espaço”. O outro, que mexia lá na tromba, naturalmente discordava, não só quanto à disposição no espaço, quanto à rigidez no tato, tanto quanto à falta de mobilidade. Imagino até que algum desses cegos, tocando em outros lugares, concebeu a ideia da categoria vazia.

As primeiras autoras citadas vêem a Linguística como ciência, mas esse não é ponto pacificamente estabelecido. Uma das perguntas da referida entrevista, A Linguística é ciência?, propiciou reflexões variadas. Bernadete Abaurre (Xavier e Cortez, op. cit:16-17) afirma:

eu me sinto mais confortável com uma definição de linguística que

a toma como um amplo campo de estudos sobre a linguagem.

Esses estudos estão relacionados aos seus mais variados

aspectos: ao seu modo de estruturar-se, de evoluir, aos seus usos,

à maneira como ela é aprendida, à maneira como se relaciona

Assim, para determinadas

com o social, e assim por diante” [

]

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investigações linguísticas, você tem certos objetos claramente

constituídos e a exigência de um rigor, de uma sistematicidade na elaboração de teorias, no teste de teorias, procedimentos que

costumam definir as investigações ditas “científicas”[

acho que se possam reduzir todos os estudos que se fazem da linguagem a uma perspectiva científica, no sentido estrito do termo [ ]

] Porém não

Ataliba Castilho (id.,ibid.,p. 56) diz:

se você está entendendo por ciência a capacidade de problematizar as coisas, fazer perguntas, identificar um objeto de preocupações, criar hipótesee prévias sobre esse objeto e verificar nos dados se essas suas hipóteses encontram guarida, e se depois você reformula suas hipóteses numa dialética constante entre teoria e empiria, até o momento em que você vê certa estabilidade nos seus achados, escrevendo ou falando sobre sua descoberta, bem, então você estará fazendo ciência e a ligüística é uma ciência.

Carlos Alberto Faraco (id.,ibid.,p.67) lembra que

alguns, ao fazerem linguística, se acreditam operando com um objeto matemático, outros com um objeto biológico, outros ainda com um objeto sócio-histórico. Só isso mostra a complexidade do nosso objeto e, ao mesmo tempo, certos embates epistemológicos que atravessam os estudos linguísticos.

Luiz Antonio Marcuschi (id.,ibid.,p.137) diz:

Acho que ciência é todo tipo de investigação em que se produz algum tipo de conhecimento. Eu estou convencido de que o próprio da ciência é investigar e não explicar. A explicação é um dos seus feitos e não sua essência.

Para João Wanderley Geraldi (id., ibid., p. 82),

Reconhecer os recortes, necessários no fazer científico, é não fechar-se como uma disciplina orgulhosa dos próprios procedimentos, pois os resíduos deixados pelo recorte devem alertar para as parcialidades e inverdades das descobertas.

Introdução à Linguística

Sírio Possenti (id.,ibid.,p.167) acha que “há aspectos, pedaços da linguística que são científicos, são ciência”. Mas esclarece que, para ele, isso não significa uma vantagem, já que prefere pensar como Michel Foucault que, quando lhe perguntaram se o marxismo é uma ciência, ele disse, entre outras coisas: “o marxismo e a psicanálise são muito importantas para ser ciência”. Kanavillil Rajagopalan, ou simplesmente o colega Raja, afirma (id.,ibid., p.179): “Prefiro abdicar do título de cientista para poder pensar a linguagem livremente”. Não custa lembrar que esse nosso mesmo Raja, segundo Borges Neto (p. 44), definiu a linguística como “uma paixão pela linguagem”. Como defendem Dascal e Borges Neto (1991: 45), cada área do conhecimento pode ser “recortada” por vários objetos teóricos, não há um “objeto natural”, “prontinho” para uso científico. Por isso é que, no meu entender, muitas vezes a história de uma ciência não apresenta sucessão linear, progressiva, que levaria pouco a pouco à completude. A imagem seria, preferencialmente, a de um mosaico em formação, cujos componentes são, necessariamente, complementares, mas sujeitos a superposições, lacunas e substituições parciais. E Rodolfo Ilari (Xavier e Cortez, op. cit.:103-4) alerta para a provisoriedade do conhecimento científico:

quando se começa a fazer uma ciência, os conceitos de base são muito obscuros. E a partir desses conceitos obscuros, que são um grande mistério, uma coisa bonita da humanidade é que você cria coisas surpreendentemente claras. Chega até um ponto em que você vai encontrar de novo obscuridade, porque a explicação é incapaz de dar conta dos detalhes. Então, a ciência é uma clareza prensada entre duas obscuridades. Agora, se você pensar no que foi a história da ciência no passado, é impressionante o tanto de crenças que a humanidade jogou fora, porque de repente pareceram apenas superstições. Tudo aquilo era científico até prova em contrário, no sentido de que representava o conhecimento controlado de uma certa época. Às vezes até funcionava, mas ficou provado que não funcionava pelas razões alegadas. Então, nós temos que ser humildes em relação às ciências que temos hoje, porque possivelmente nos acostumamos a dizer um monte de besteiras, que por acaso funcionam.

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Ao meu ver, atribuindo-se ou não caráter científico aos estudos sobre a(s) língua(s) desde a Antigüidade, certamente não se pode negar esse estatuto aos estudos desenvolvidos durante o século XIX, pois detentores dos requisitos que se costumam exigir para reconhecer a cientificidade de uma área do conhecimento:

objeto e metodologia definidos, formulação de hipóteses, procedimentos explícitos de testagem, conclusões passíveis de fundamentar o avanço da pretendida ciência. Como afirmam Dascal e Borges Neto (1991:33), no século XIX, “ao invés de se estudar a linguagem para ‘fazer filosofia’ ou para ‘fazer crítica literária’, como nos séculos anteriores, passa-se a estudar a linguagem pensando-se um ‘fazer ciência’. Talvez pudéssemos adotar a postura de que as investigações, os novos questionamentos produzem resultados, talvez provisórios, mas que, na sua vigência, configuram saberes, dos quais o saber sobre a linguagem humana, sobretudo sobre as línguas naturais, que, apenas por economia de referência significativa, estamos chamando Linguística. Durante toda a primeira metade do século XX, a aplicação às línguas do conceito de estrutura, legado de Saussure, produziu muitos trabalhos, mas, naturalmente, muitos recortes, e fatalmente a descoberta de pontos árduos ou impossíveis de dar conta por esse modelo. Assim, o estruturalismo saussuriano acumulou “excluídos” e entreabriu vertentes que não podia explorar. Essa acumulação, provavelmente, levou o seu modelo à crise e a segunda metade do século XX explodiu em “novas teorias” ou, ao menos, novas abordagens para o estudo da língua. As vertentes foram muitas, não hegemônicas, a maior parte motivada pelo resgate de um ou alguns dos “excluídos”, o que produziu a atenção também sobre trabalhos de cunho funcionalista, que já se desenvolviam. Preocupados com a contextualização da língua na interação social, que, segundo esse ponto de vista, gera as estruturas, privilegiam o discurso e a semântica, esta em abordagens mais amplas que aquelas propostas pelo estruturalismo. Assim, o sujeito, a historicidade, a interação na comunicação humana, a dinamicidade avultam em muitas tendências, o que aponta, entre outras coisas, para uma mais possível

Introdução à Linguística

interdisciplinaridade. Não só a langue, mas o discurso (mais que a parole); quando não a subjetividade, a pessoalidade (o sujeito, mesmo que não como agente, mas

como operacionalizador); a questão do significado/sentido; as circunstâncias da efetivação do falar; as seleções de formas linguísticas historicamente consolidadas;

o diálogo como elemento constituinte da língua. Além disso, a chamada revolução chomskiana trouxe à tona a questão do aparato genético humano, contestando as teorias de aquisição da linguagem de modelo behaviorista e apelando para uma

interface linguística/biologia, não mais nos moldes deterministas do século XIX, mas voltada para o estudo do cérebro e da mente. Enfim, os interessados no fenômeno das línguas começaram o século

XX com a utopia do recorte objetivo, da documentação empírica, do isolamento do

objeto para observações sistemáticas, etc

suas limitações. Estamos adentrando o século XXI com a utopia da multi/ interdisciplinaridade que, na verdade, começou na Linguística por volta da década de 70 do século XX, quando os linguistas se deram conta dos excluídos que a sua

jornada como pretensa ciência “dura” havia colecionado, e começou a se tornar evidente a necessidade de diálogo, por um lado, com as chamadas ciências da natureza (a Neurobiologia, a Genética, a Lógica simbólica, por exemplo), e, por outro lado, com as ciências do homem (a Antropologia, a Sociologia, a História, a

Filosofia da linguagem, as ciências da informação e da comunicação), além da grande vertente das ciências da mente, sem dúvida propício lugar para o encontro entre os dois “tipos” de saber. Pense-se na riqueza da interdisciplinaridade entre a Linguística e a Psicanálise (por exemplo, o conceito de sujeito, as reflexões sobre

o processo de enunciação); a Filosofia da linguagem (por exemplo, as relações

com o conceito de verdade e de motivação); os estudos do cérebro (por exemplo,

a afasia, a aquisição de língua por deficientes auditivos e portadores da síndrome

de Down, as línguas de sinais); os estudos para o processamento das línguas

naturais nos computadores, ou, mais amplamente, os estudos sobre inteligência artificial. Aliás, como diz Marcuschi (Xavier e Cortez,op. cit.,p.139),

O avançar do século evidenciou as

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a interdisciplinaridade, que em outras áreas é complicada e precisa

ser pensada, na linguística tem que ser até barrada, porque ela é muito natural, ela é muito espontânea. A interação com muita facilidadde com todas as áreas é um ponto forte e fraco ao mesmo tempo que a linguística oferece.

Assim, a interdisciplinaridade, apanágio da pós-modernidade, modo de pensar o mundo que adentra o século XXI, não apresenta, a rigor, qualquer tipo de dificuldade para o interessado no saber sobre as línguas naturais. A Linguística está, em decorrência do seu próprio objeto de cogitação, perfeitamente disponível, mais que para a interdisciplinaridade, para a transdisciplinaridade, entendida essa como a possibilidade de se conseguirem resultados, não nos limites de cada área, mas exatamente ali, na interseção – resultados conjuntos, a partir de reflexões conjugadas. A esse respeito, Sírio Possenti (Xavier e Cortez, op.cit., p.172) foi muito feliz ao afirmar sobre a inserção da Linguística na Pós-modernidade:

não tem afetado as pesquisas

linguísticas naquilo que se poderia chamar de núcleo duro [

há, eu acho, teorias sintáticas e fonológicas e morfológicas afetadas por posições ditas pós-modernas. Agora questões como leitura,

compreensão, interpretação, [

ideias da pós-modernidade, afetam determinados campos de

a

pragmática, as várias teorias sobre o discurso, os vários modos de abordagem do texto literário, a questão do sentido, se é intrínseco

pesquisa cujo núcleo é de certa forma a linguagem. [

aí a pós-modernidade, ou algumas

] não

a questão da pós-modernidade [

]

]

]

ou se não é intrínseco, se é o leitor que leva o sentido ao texto, se

o texto tem alguma relevância no sentido. Essas questões estão

prenhes desse modo de ver as coisas que é meio característico da pós-modernidade.

Talvez possamos tirar dessas reflexões uma conclusão: seja ciência, rigorosamente falando, ou, modestamente, um saber, provisório como todos, há muito o que se fazer no âmbito dos estudos linguísticos . Quem sabe uma boa proposta para termos um rumo, um horizonte daqui pra frente seja: tentar visualizar os verdadeiros e efetivos lugares que as várias vertentes dos estudos linguísticos ocuparam no decorrer do século XX, tentando, se possível, conciliar as propostas das várias teorias ou dos vários programas de

Introdução à Linguística

pesquisa, como quer Kato (1997:276), quando vê as várias “teorias” linguísticas do século XX como estágios de um único programa de investigação, mais do que

“diferentes –ismos”. Seria uma tentativa de visualizar uma espécie de teoria global, já que, segundo Dillinger (1991: 405), falta à Linguística uma desejável “teoria global do objeto de estudo – que serve simplesmente para ligar ou estruturar as teorias

‘regionais’[

metateórica”. E, sobretudo, como propõe Bernadete Abaurre (XAVIER e CORTEZ. op. cit., p.22):

conferindo àquela ciência o que chamamos de coerência

]

seria interessante que conseguíssemos nos desarmar um pouco com relação a teorias que não são aquelas que nós abraçamos,

ou com relação a questões sobre linguagem que não são aquelas

que nós preferimos investigar. Assim, se nos colocarmos como

questão maior uma compreensão mais ampla da linguagem enquanto atividade humana, vamos ver que pressupostos podem conviver.

Também Borges Neto (id.,ibid., p.50):

é preciso que os linguistas sejam mais tolerantes uns com os outros. Acho que esse é um desafio sério. E é um desafio tão mais sério na medida em que é preciso tolerar o que o outro diz, compreender o que o outro diz, aceitar o que o outro diz, mas

criticar o que o outro diz, porque uma área de conhecimento qualquer só vai se desenvolver coletivamente na medida em que todos os pontos de vista forem debatidos, em que todos os pontos de vista

forem criticados [

Enfim, acho que um dos desafios do século

XXI para a linguística é esse desafio da tolerância e da tolerância

crítica.

]

Esse tipo de abordagem do nosso objeto de estudo, que configura uma complementaridade, para nós desejável e necessária, e que vem sendo praticada pelos mais produtivos linguistas brasileiros, só pode enriquecer em muito o conhecimento do nosso árduo mas fascinante objeto científico. Talvez essa posssa ser uma das grandes contribuições desse país multicultural ao mundo científico, nesse período inter-secular, ameaçado não só pela ótica reducionista da chamada

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“globalização”, como pelo incremento da mentalidade competitiva no pior sentido, que só vê valor no hegemônico, necessariamente avesso à alteridade. Trazendo o foco para mais perto, para aqueles que se dedicam aos estudos linguísticos na Bahia, há muito de instigante e de necessário a fazer. Como resultado das respostas contidas no livro em que me baseei e de outras, coletadas em conversa com colegas lá no meu Instituto, listo algumas das tarefas já iniciadas e por iniciar, que parecem importantes e promissoras para o futuro próximo da Linguística, permitindo-me aplicar essas propostas ao português e ao panorama brasileiros, seguindo, também de perto, a análise e as sugestões de Castilho (2001):

1 Aprofundamento no âmbito da descrição sincrônica – Já dispomos

no Brasil de muitos acervos, como o do PEUL (Programa de Estudos sobre o Uso da Língua - RJ); o do NURC (SSA, RE, RJ, SP, POA); o do VARSUL (Região sul), alguns já disponíveis ou em processo de disponibilização pela internet. Dispomos também de vários atlas linguísticos, inclusive, em curso e a todo vapor, o ALIB, que, informo a título de motivação, já realizou 124 dos 1100 inquéritos previstos; o projeto Vestígios de falares crioulos; o projeto PEPP (Projeto de Estudo do Português Popular de Salvador); o PEPLP (Projeto de Estudo e Pesquisa da Literatura Popular), que dispõe de grande acervo de contos populares, romances tradicionais, brincadeiras infantis, cantigas, parlendas e trava-línguas. Impossível seria listar os trabalhos de análise que têm utilizado esses acervos;

2 Aprofundamento no âmbito da descrição diacrônica – Além de trabalhos esparsos sobre o português europeu e sobre o português brasileiro, há os projetos desenvolvidos pelo grupo de pesquisa a que pertenço, o PROHPOR e pelo PHPB;

3 Abordagem da língua falada – Ataliba Castilho (Xavier e Cortez,

op.cit., p.60-1) lembra que as análises de língua falada tem demonstrado que

Introdução à Linguística

a gramática do oral é muito mais complexa, muito mais rica do

Ora, no começo dos anos

1960, se achava que a língua falada não dispunha de uma sintaxe!

] [

materiais do projeto NURC, muita gente vinha conversar comigo para dizer: “vocês não perceberam, mas vocês andaram pegando informantes que são afásicos, que têm evidentes problemas de linguagem, ficavam se repetindo, cortavam toda a sentença”. Tratava- se evidentemente de um desconhecimento da língua falada.

Quando foram publicadas as primeiras transcrições dos

que a gramática da língua escrita [

]

Neste tópico é importante lembrar o Projeto “Gramática do Português Falado”, que trabalhou sobre o acervo do NURC.

4 Abordagem e aplicação aos corpora e às descrições do PB dos

conceitos de discurso, texto, conversação – A proposta seria, seguindo o que

propõe Koch (id, ibid: 129):

ver como é que esse sistema de cada língua se insere nas práticas sociais e se modifica através de prática sociais, como é que aparecem esses novos gêneros, como é que a linguagem vai ser usada nesses novos gêneros, que tipo de expressão linguística vai ser a mais adequada e inclusive que alterações, em termos da pópria interação, vão acontecer em função dessas alterações.

5 Contribuições para o ensino de língua portuguesa – Como lembra José Luiz Fiorin (id.,ibid.: 75),

a linguística tem um papel de educar para a democracia, educar

para a cidadania. [

existe um respeito à diferença, um respeito à diversidade. Ora, a linguística, ao mostrar que a língua é heterogênea, que a língua é diversa, que a língua é plural, é, de certa forma, uma maneira de educar para a tolerância e isso é educar para a democracia.

A democracia é um sistema político em que

]

Rodolfo Ilari (id.,ibid.: 109), por sua vez, também afirma

No Brasil, a escola tem sido muito discriminatória. Caberia a ela mostrar aos alunos que a língua portuguesa tem variedades, que essas variedades exprimem grupos diferentes, que discriminar a língua das pessoas é, na realidade, discriminar as pessoas, e assim por diante

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Ataliba Castilho (2001:277) lembra o quanto a pesquisa acadêmica vem produzindo bibliografia nesse sentido e cita muitos trabalhos, dos quais vou destacar aquele desenvolvido pelo Centro de Alfabetização e Leitura da Universidade Federal de Minas Gerais, fundado por Magda Soares. Uma das consequências do trabalho de linguistas brasileiros é a incorporação da língua falada nas práticas de ensino, preconizada pela MEC, através dos Parâmetros Curriculares Nacionais

6 Abordagem das comunidades bilíngües e das minorias linguísticas

– É importante o reconhecimento e a definição de políticas linguísticas para as

comunidades bilíngües existentes no território nacional, atentando-se para as características decorrentes do contato linguístico e as estratégias de educação em língua oficial nacional. Quanto às línguas indígenas, além dos trabalhos no sentido da sua descrição e preservação, destaca-se a defesa e a implementação da educação bilíngüe e um novo papel para o lingüista, que concorre para a construção de uma consciência identitária alternativa à que se costuma chamar nacional (CASTILHO, 2001:282).

7 Atitudes do Estado brasileiro em relação às línguas estrangeiras

O governo brasileiro se encarregou de propiciar o ensino de línguas estrangeiras

na escola pública até a década de 1970, mas de lá para cá o que tem ocorrido é a progressiva transferência desse encargo à iniciativa privada, o que tem enfraquecido a demanda por qualificação nessas línguas nos cursos de Letras, desestimulando

o desenvolvimento de métodos de ensino e da pesquisa, que não tem podido beneficiar-se dos avanços da Linguística.

8 Elaboração de obras de referência – Dicionários e glossários, atuais

ou de outras sincronias, monolíngües ou bilíngües; gramáticas descritivas; uma

história mais abrangente da língua portuguesa e do português brasileiro: sem esquecer as inestimáveis contribuições com que já contamos, esta é uma lacuna da qual nós, pesquisadores e professores, muito nos ressentimos.

Introdução à Linguística

9 Incremento das abordagens cognitivistas – Ataliba Castilho (Xavier e Cortez, op. cit.:61) entende que

a perspectiva realmente mais suculenta é a da exploração das

categorias cognitivas, do modo como elas se gramaticalizam na

] Puxar a linguística

do estudo dos produtos para o estudo dos processos de criação

dos produtos me parece o grande lance que poderá atrair novos

pesquisadores. [

claro que a semantização é outro, a discursivização e a lexicalização serão igualmente outros tantos processos.

A gramaticalização é apenas um deles, mas

língua, e do modo como elas aparecem ali.[

]

Mary Kato (id.,ibid.:115), a esse respeito, questiona:

] [

criança acontece em paralelo a seu desenvolvimento cognitivo. Ou um depende do outro? Hoje existe toda uma controvérsia sobre isso. A cognição limita a língua ou a língua limita a cognição?

você pode se perguntar se o desenvolvimento linguístico da

Luiz Antonio Marcuschi (id.,ibid.: 140) também questiona:

como se dá conta das formas de pensar? Pensando os aspectos

cognitivos ligados a processos de interação que são fundamentais. Eles precisam ser melhor entendidos. No meu entender, a agenda

] [

cognitiva vai ser muito importante. [

]

um cognitivismo social.

10 Interface da Linguística com a computação – Fiorin (id.,ibid.:76)

entende que, na agenda linguística do século XXI, um ponto importantíssimo é essa interface que, para avançar, vai ter de investir na pesquisa do que é e do

como se constitui a faculdade da linguagem humana, inclusive para permitir a produção de softwares para facilitar o próprio trabalho de pesquisa.

11 Constituição de bancos de dados sincrônicos e diacrônicos – Hoje já dispomos, no mundo e também no Brasil, de alguns bancos de dados de grande porte, que inclusive permitem comparações mais precisas, porque são constituídos a partir dos mesmos princípios teóricos, como ocorre com o acervo da linguística gerativista (Kato, in Xavier e Cortez, op. cit.:119-120). Kato lembra

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ainda o banco de dados da história do português a partir do século XVII, denominado Tycho Brahe, organizado por Charlotte Galves, informatizado e etiquetado para determinadas abordagens. Lembro também o banco de dados do português escrito “Usos do Português” (UNESP-Araraquara). Uma equipe do PROHPOR vem também se empenhando em constituir um banco de textos do português arcaico e moderno.

12

Assessoria ao Estado no que se refere às questões de ordem

linguística – Castilho (2001:280) lembra que

o Estado vez ou outra decide gerir a língua oficial por meio de leis,

e aqui temos desde as “leis que quase pegam”, como as dos acordos ortográficos, até as “leis que não pegam de jeito algum”, como aquelas que pretendem defender a pureza do idioma pátrio

O fato é que, por descaso dos governantes para com os linguistas ou por incúria dos próprios linguistas, não se tem cuidado, no Brasil, de uma atuação “interventiva”, como qualifica Margarida Salomão (Xavier e Cortez, op. cit., p.192), frente à sociedade e ao Estado brasileiro. Salomão esclarece:

E acho que o outro grande ponto pragmático e político é fazer com

que essa reflexão, sobre a qual eu estava falando, possa transbordar

para áreas interventivas na sociedade brasileira, que é uma sociedade que aborda a vergonha insuportável do grau de desigualdade que há dentro dela. E aquilo que sabemos sobre a linguagem, o fato de a linguagem ser uma condição universal de todo ser humano, pode levar para que nós consigamos conceber políticas diminuidoras dessa desigualdade.

13 Atenção às possibilidades que se abrem com o Mercosul – Castilho (2001:283) alerta para a oportunidade que representa para os profissionais de Letras a criação do Mercosul, que fez crescer a demanda pelo ensino do português e do espanhol na América Latina e no Brasil, respectivamente. Isso toca a questão do ensino do português para estrangeiros, área de grande interesse, e que já conta com centros operosos no Brasil, inclusive no nosso Instituto, com o o PROPEP (Programa de Pesquisa, Ensino e Extensão de Português).

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14 Interface com os estudos literários – Embora os cursos de Letras abranjam as duas áreas, tem sido mais frequente a interface com áreas mais distanciadas, como a Medicina, do que com a Literatura. Ora, sendo a literatura a abordagem artística do material básico das línguas, objeto da Linguística, todas as reflexões feitas nessa área só podem beneficiar a amplitude de compreensão da abordagem literária. Estou certa de que não consegui abordar todas as áreas em que a atuação

dos linguistas é possível e desejável. Mas é hora de finalizar e, como último ponto, trago um tema difícil de ser abordado, que me parece necessário e urgente. Creio que precisamos assumir nosso lugar de indivíduos que refletem sobre a linguagem, sobre as línguas e, em particular, sobre a língua portuguesa, nos meios de comunicação. Precisamos democratizar, “traduzir” nosso saber para os receptores da sociedade em geral, simplificando sem banalizar, difundindo sem vulgarizar, mas assumindo nosso papel social, que tem de se ampliar para além dos limites das salas de aula, dos centros de pesquisa e estudo. Precisamos assumir nosso espaço, que está sendo ocupado pelos representantes dos chamados consultórios gramaticais, partidários do “casamento da gramatiquice com o purismo”, como qualifica Castilho (2001:276), ocupado pelos sacerdotes da doutrina gramatical, pelos gurus da auto-ajuda, em termos de uso linguístico. Precisamos desmistificar

a impressão de que somos contra o domínio, pelo povo brasileiro, da norma

prestigiada, convencendo nossos interlocutores de que a catequese nesse sentido

é falaciosa, porque não é possível adquirir-se a norma preconizada, não só pela

inadequação dos meios de “ensino’ ou “treinamento”, mas porque essa norma preconizada é assistemática, desestruturada, uma colcha de retalhos, que costura modelos do português europeu, atuais e anacrônicos, com modelos advindos de usos literários pertencentes a outras sincronias, etc. E não é só isso. Os que cultivam outras áreas do saber são, por responsabilidade nossa, muito ignorantes do que fazemos. Precisamos acertar o tom, falar também a língua da mídia para mostrar a nossa verdadeira cara, para tornar a linguística atraente. Como afirma Salomão (Xavier e Cortez, op. cit.:191)

“a linguística tem o defeito de ser muito autocentrada”.

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Assim, acho que nos falta um tanto de arrojo, sem medo de “dizer bobagem”. pois, como diz Ilari (id.,ibid.:109)

Nossa linguística é suficientemente rica para poder permitir-se o luxo de uma certa dose de bobagem. Tudo bem. Se você pegar as grandes disciplinas que se desenvolveram no passado, a botânica,

a zoologia, deve ter tido muita bobagem também

O tempo dirá.

Muito obrigada pela sua atenção.

(Disponível em: http://www.prohpor.ufba.br/alinguis.html)

ATIVIDADES DE APRENDIZAGEM

1. Releia o item 3.1 e identifique os pontos em que as três correntes de

pensamento acerca de ciência são divergentes.

2. Considere a resposta do Prof. Dr. Francisco Gomes de Matos, sobre a

indagação: A Linguística é uma ciência?, apresentada na primeira seção. Em seguida, elabore uma lista dos argumentos dos quais o Professor lança mão para justificar a inclusão da Linguística no rol das disciplinas que desfrutam o status de ciência.

3. Considere as três concepções de gramática apresentadas e elabore um

texto no qual você comente essas concepções à luz dos depoimentos de Abaurre e de Borges Neto, conforme abaixo. E, sobretudo, como propõe Bernadete Abaurre (XAVIER e CORTEZ. op. cit., p.22):

seria interessante que conseguíssemos nos desarmar um pouco

com relação a teorias que não são aquelas que nós abraçamos, ou com relação a questões sobre linguagem que não são aquelas que nós preferimos investigar. Assim, se nos colocarmos como questão maior uma compreensão mais ampla da linguagem enquanto atividade humana, vamos ver que pressupostos podem conviver.

] [

Introdução à Linguística

Também Borges Neto (id.,ibid., p.50):

é preciso que os linguistas sejam mais tolerantes uns com os

outros. Acho que esse é um desafio sério. E é um desafio tão mais

sério na medida em que é preciso tolerar o que o outro diz, compreender o que o outro diz, aceitar o que o outro diz, mas

criticar o que o outro diz, porque uma área de conhecimento qualquer só vai se desenvolver coletivamente na medida em que todos os pontos de vista forem debatidos, em que todos os pontos de vista

Enfim, acho que um dos desafios do século

forem criticados [

XXI para a linguística é esse desafio da tolerância e da tolerância crítica.

] [

]

UNIDADE 4

AS ESCOLAS LINGUÍSTICAS NO SÉCULO XX:

UMA VISÃO INTRODUTÓRIA

OBJETIVO

1. Identificar o conjunto de abordagens teórico-metodológicas que constituem o vasto campo da Linguística.

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4 AS ESCOLAS LINGUÍSTICAS NO SÉCULO XX: UMA VISÃO INTRODUTÓRIA

A língua é um sistema extremamente complexo. A teoria linguística tenta reduzir esta imensa complexidade a proporções controláveis pela construção de um sistema de níveis linguísticos, cada um dos quais possuindo um certo aparato descritivo para a caracterização da estrutura linguística. (CHOMSKY, 1955c, p. 63)

Com o desenvolvimento dos estudos linguísticos, foram surgindo várias definições de linguagem humana, próximas em alguns pontos e diversas no que diz respeito à ênfase dada aos recortes feitos à luz de diferentes abordagens. Essas definições orientam três teorias gerais da linguagem e de análise linguística que serão apresentadas a seguir.

4.1OS ESTRUTURALISMOS LINGUÍSTICOS

O estruturalismo linguístico surgiu em oposição à Linguística histórica

e

comparativa do século XIX. Para a afirmação dessa teoria, foi fundamental

o

pensamento de Ferdinand Saussure, linguista genebrino que teve suas ideias

publicadas três anos após sua morte no livro Curso de Linguística Geral, em

1916. Esse livro não foi escrito por Saussure, mas por dois de seus alunos, Charles Bally e Albert Sechehaya, que se valeram de algumas anotações de aulas feitas entre os anos letivos 1907 e 1911. Não se sabe ao certo se o Curso de Linguística Geral expressa o verdadeiro pensamento de Saussure, mas, mesmo assim, não há como negar a importância das ideias nele expostas para o desenvolvimento dos estudos linguísticos.

A proposta de Saussure, de maneira resumida, pode ser representada

por quatro dicotomias básicas: língua versus fala, sincronia versus diacronia, paradigma versus sintagma e significante versus significado. Segundo Cunha et al. (2008, p. 16), “o termo dicotomia designa a divisão lógica de um conceito em dois, de modo que se obtenha um par opositivo”. Para Carvalho (2003, p. 26),

Introdução à Linguística

O grande mérito de Saussure está em seu caráter metodológico,

um prolongamento de sua personalidade perfeccionista. Era preciso em primeiro lugar por ordem nos estudos linguísticos. Para poder

criar e postular suas teorias com perfeição científica, impunha-se- lhe, antes, um trabalho metodológico preliminar. Os linguistas até então tratavam de coisas diferentes com nomes iguais e vice-versa.

A ausência de uma terminologia adequada, precisa e objetiva de

alcance universal (e sabemos desde os gregos que só há ciência do universal) instrumento de trabalho imprescindível a qualquer ciência digna do nome, tolhia-lhe a expressão das ideias.

Assim, podemos afirmar que as dicotomias saussurianas representam

o pilar da Linguística estrutural ao mesmo tempo em que fundamentam a Linguística moderna. A seguir, vamos comentar cada uma delas.

Língua versus fala A dicotomia língua versus fala é a oposição proposta por Saussure que determina o objeto de estudo da Linguística. Para Saussure, a linguagem é um fenômeno que apresenta duas faces:

a língua e a fala. A língua é a parte social da linguagem, que não pode ser

modificada pelo sujeito falante, pois obedece às leis do contrato social estabelecidas pelos membros de uma comunidade. A fala, por sua vez, é a parte individual da linguagem, que resulta das combinações feitas entre o sujeito falante e a língua. A língua e a fala, para o autor, são duas faces que se

correspondem, e uma não vale senão pela outra. Saussure situou a língua como objeto de estudo da Linguística. Isso porque é, na língua, conhecimento comum a todos, e não na fala, conhecimento específico de cada um, que se encontra a verdadeira essência da atividade comunicativa (CUNHA et al. 2008). Assim, nesse contexto, a língua define-se como um sistema de signos que obedece a certos princípios de funcionamento e a fala como a utilização prática e concreta da língua por um determinado falante. Ao ser definido seu objeto de estudo, a Linguística firmou-se como ciência, e a língua passou a ser analisada por si mesma e em si mesma, desconsiderando qualquer relação com a sociedade, com a cultura, com a

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literatura ou com qualquer outro fator não relacionado com a organização estrutural do sistema linguístico.

Sincronia versus diacronia Essa dicotomia relaciona-se com o método de investigação adotado por Saussure em suas pesquisas. Para Saussure, os fatos linguísticos podem ser investigados sob dois pontos de vista: o sincrônico e o diacrônico. O ponto de visto sincrônico

descreve os fatos linguísticos em um dado momento e lugar. Sua característica básica é a simultaneidade dos fatos, por isso diz-se que esse ponto de vista prende-se a um estado de língua. O ponto de vista diacrônico descreve os fatos linguísticos no decorrer do tempo. Não se trata aqui de descobrir como

a língua funciona através do tempo, mas de descrever estados sucessivos,

compará-los e verificar como a língua chegou a ser o que é e quais são os traços básicos de sua evolução.

A análise da variação entre o uso de ‘a gente’ e ‘nós’ no português,

falado atualmente em Teresina, é um exemplo de estudo de caráter sincrônico, já que o termo ‘variação’ implica a consistência de duas ou mais formas em uma mesma época. Por outro lado, a análise da trajetória da mudança delere

> to delete > deletar do latim ao inglês ao português, caracteriza-se como

uma abordagem diacrônica. Apesar de apontar essas duas diferenças, Saussure prioriza o ponto de vista sincrônico. Para o autor, o linguista deve estudar o funcionamento da língua observando como se configuram as relações internas entre seus elementos em um determinado momento do tempo. Segundo Borba (2005, p.69), uma descrição sincrônica é mais fácil do que uma descrição diacrônica, pois “enquanto a análise de fatos atuais pode ser testada por meio de falantes nativos, a de estágios mais distantes no tempo depende do grau de confiança que se tem na documentação disponível.” Entretanto, apesar disso e da especificidade de cada ponto de

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vista, os dois não devem ser considerados independentes um do outro, visto que o próprio Saussure adverte (2008, p. 16) "A cada instante a linguagem implica ao mesmo tempo um sistema estabelecido e uma evolução: a cada instante ela é uma instituição atual e um produto do passado".

Significante versus significado Essa dicotomia fundamenta o conceito de signo linguístico. Para Saussure, o signo é a união de um conceito e uma imagem acústica.

Ao conceito, Saussure denominou significado, à imagem acústica, significante.

O conceito não deve ser confundido com a realidade que ele designa

nem o significante deve ser confundido com o som material, pois, se assim fosse, a língua seria entendida como uma nomenclatura, em que cada palavra se refere a uma coisa e, como afirma Pietroforte (2005), essa concepção está completamente errada. Para Pietroforte (2005), a língua é um sistema de signos em que, de essencial, só existe a união entre a impressão psíquica do som e a realidade que ela designa, ou seja, entre o significante e o significado, podendo o significante ser entendido como o veículo do significado. Saussure caracteriza o signo linguístico como arbitrário e linear. É

arbitrário porque não é motivado, ou seja, não há nenhuma relação necessária que motive a união do significante com o significado. No signo “amar”, por exemplo, nada há na imagem acústica representada pela sequência de vogais e consoantes /amah/ que leve a uma relação direta com o conceito de amar.

A arbitrariedade do signo linguístico pode ser mais bem compreendida

quando observamos a diversidade das línguas. Costa (2008, p. 120) explica que “cada língua apresenta um modo particular de expressar os conceitos:

ninguém discute, por exemplo, se “livro” ou “book” se aproximam mais ou menos do conceito apresentado anteriormente. No entanto, vale ressaltar que, essa arbitrariedade não significa dizer que o significado depende da livre escolha

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do falante, pois como já foi visto, anteriormente, a língua é social e, como tal, obedece às leis estabelecidas pelos membros da comunidade. O signo é linear porque uma vez produzido, dispõe-se um depois do outro numa sucessão temporal e espacial, fato que se justifica pela impossibilidade de dois signos não poderem ser emitidos ao mesmo tempo.

Relação paradigmática versus relação sintagmática Essa dicotomia define a forma como os elementos se relacionam no sistema linguístico. Para Saussure, as relações entre os elementos linguísticos podem ser de dois tipos: paradigmática e sintagmática. A relação sintagmática baseia- se no caráter linear do significante que exclui a possibilidade de pronunciar dois elementos ao mesmo tempo. Quando dizemos, por exemplo, “Eu gosto de estudar” os signos linguísticos são apresentados em linha no tempo, um após o outro. Essa combinação de signos que fazemos quando falamos é chamada de sintagma. Na cadeia sintagmática, um termo passa a ser compreendido em virtude do contraste que estabelece com outro. Nela, os elementos não se combinam de maneira aleatória, mas obedecem a um padrão definido pelo sistema. Por exemplo, no português, é possível a combinação “o livro”, mas não é possível a combinação “livro o”. Por outro lado, a relação paradigmática baseia-se em um conjunto de unidades suscetíveis de aparecer em um mesmo contexto. Na sentença “Eu gosto de estudar”, por exemplo, se optarmos por outro significado há vários signos linguísticos que podem figurar no lugar do signo ‘eu’ no enunciado, como ‘João’, ‘ele’, ‘tu’ etc. Como não é difícil de perceber, nessa cadeia, diferentemente da cadeia sintagmática, os termos se opõem, pois um exclui o outro, pois as relações caracterizam-se pela associação entre um termo que está presente no enunciado com outros que estão ausentes. As relações sintagmáticas e paradigmáticas apesar de apresentarem características específicas, a presença de uma não exclui a presença da outra,

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muito pelo contrário, elas ocorrem concomitantemente. No enunciado “Eu gosto de estudar” ao mesmo tempo em que o signo ‘eu’ encontra-se em relação sintagmática com ‘gosto’, ‘de’ e ‘estudar’, também mantém relação sintagmática com ‘ele’, ‘você’, ‘João’ etc. São duas as vertentes estruturalistas que influenciam a Linguística moderna: o Estruturalismo europeu e o Estruturalismo norte- americano. A primeira privilegia diferentes aspectos das ideias de Saussure e a segunda privilegia as ideias do norte-americano Leonard Bloomfield desenvolvidas sob o rótulo de Distribucionalismo ou Linguística Distribucional.

O Estruturalismo europeu desenvolveu-se na Europa durante a

primeira metade do século XX e dele derivaram três importantes grupos de estudos linguísticos: a Escola de Genebra, a Escola de Praga e a Escola de Copenhague.

A Escola de Genebra e a Escola de Praga focalizaram os estudos

sobre as língua em seu aspecto funcional, no sentido em que elas são utilizadas como meio de comunicação. Por outro lado, a Escola de Copenhague focalizou

a língua em seu aspecto formal, reduzindo o aspecto funcional a um plano

secundário (COSTA 2008). A Escola de Praga teve como seus principais representantes Roman Jakobson, Nikolai Troubetzkoy e Wilhem Mathesius. Esses estudiosos diferenciaram a Fonética da Fonologia, pois, até então, as duas nomenclaturas

se referiam a uma mesma ciência. Assim, a fonologia passou a ser entendida como a ciência que estuda as funções linguísticas dos sons e a fonética passou

a ser entendida como a ciência que estuda a produção e as características

dos sons da fala. A Escola de Copenhague, por sua vez, teve como principais representantes Luis Hjelmslev e Viggo Bröndal, que propuseram a Glossemática, escola de linguística que, ao estudar a forma e a estrutura das línguas, aplicou exaustivamente a tese de Saussure de que as línguas se constituem como sistemas de oposições.

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O Distribucionalismo desenvolveu-se nos Estados Unidos entre as décadas de 1920 e 1950. Essa vertente representa, de maneira independente, uma proposta semelhante à de Saussure no que diz respeito à maneira com que ele define a língua e divergente no que diz respeito ao seu caráter mecanicista. Segundo a Linguística distribucional, para que se possa estudar

uma língua, faz-se necessária a constituição de um corpus para, a partir dele, elaborar-se um inventário em que se possam determinar as unidades elementares em cada nível de análise e as classes que agrupam tais unidades. Leonard Bloomfield, uma das figuras mais representativas do estruturalismo americano, desenvolveu uma linguística essencialmente formal. Priorizou as análises fonológicas, morfológicas e sintáticas das línguas e deixou, em segundo plano, a análise semântica. No Brasil, o estruturalismo desenvolveu-se, durante os anos 1960. Nesse período, destacaram-se os trabalhos de Mattoso Câmara Jr. Segundo Ilari (2004), por volta de 1970, o

estruturalismo já era, no Brasil, a orientação mais importante nos estudos da linguagem. Essa teoria serviu, nesse momento, para criar um novo tipo de pesquisador, o linguista, em face do gramático e do filólogo. No Brasil, o estruturalismo se

difundiu por meio de dois focos: um localizado no Rio de Janeiro e outro, em São Paulo. No Rio de Janeiro, os trabalhos que se destacaram foram os do linguista Joaquim Mattoso Câmara Jr., que se declarou até o fim da vida um discípulo do estruturalismo de Praga. Seu livro Princípios de Linguística Geral (1941), foi o primeiro manual de Linguística publicado na América do sul e teve importância decisiva para a afirmação da Linguística no Brasil como disciplina autônoma (ILARI, 2008).

GLOSSÁRIO

Gramático: interessa-se pela sitematização da língua segundo a variedade padrão. Filólogo: interessa-se no estudo das fases antigas da língua.

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4.2 A LINGUÍSTICA FORMAL

Segundo Pires de Oliveira (2004), o termo formal implica, na Linguística contemporânea, várias linhas de pensamento. Formal pode ser entendido

como equivalente a científico, formal pode ser sinônimo de autonomia e formal pode remeter a cálculo.

A primeira tendência relaciona-se ao fato de que toda teoria linguística

tem a obrigação de ser formalizável. Esse pensamento é que situa a Linguística como ciência. A Linguística, independentemente de sua opção teórica, submete-se a uma série de procedimentos que garantem a possibilidade de sua teoria ser corroborada ou refutada, como, por exemplo, a utilização de uma linguagem técnica ou formal, para garantir a precisão das informações. Essa posição determina a primeira acepção do termo formal.

A segunda tendência relaciona-se às crenças quanto à linguagem

humana: a sintaxe das línguas é um sistema autônomo ou a sintaxe é resultado

dos usos e funções da língua? A primeira concepção é defendida pelo programa teórico gerativista e a segunda pelo programa funcionalista. O gerativismo defende que a sintaxe é como se fosse uma máquina que gera sentenças bem formadas, com modo de operar característico. O

funcionalismo, por outro lado, defende que a sintaxe resulta dos usos e funções

a que a língua serve. Os primeiros, portanto, por serem mais “mecanicistas”

são comumente considerados pela literatura de formalistas. O que determina

a segunda acepção do termo formal.

A diferença entre esses dois programas tem sido tratada como uma

questão antagônica que determina dois extremos de análise linguística: o

formalista e o funcionalista. No entanto, Pires de Oliveira (2004, p. 229) ressalta

que:

] [

formal a tese de autonomia da sintaxe - não precisa necessariamente excluir os funcionalistas. Há, pois, um espaço

a segunda acepção do termo formal – aquela que equipara

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para um trabalho conjunto entre gerativistas e funcionalistas sem que nenhum dos dois tenha que abandonar sua “metafísica.

A terceira tendência relaciona-se ao fato de que as línguas naturais

são cálculos. Nessa tendência, Aristóteles, ao criar o silogismo, talvez tenha

sido o primeiro formalista a mostrar que o raciocínio linguístico pode ser interpretado como um cálculo de forma:

Vejamos o exemplo:

(A)

Todos os homens são mortais

(B)

Sócrates é homem

(C)

Logo, Sócrates é mortal.

O silogismo de Aristóteles define-se como o conjunto de três termos,

no qual o último, a conclusão, contém uma verdade a que se chega através dos outros dois, isto é, se (A) e (B) forem verdadeiras, então

a conclusão (C) se segue necessariamente. Segundo Pires de Oliveira (2004), usamos o tempo

inteiro raciocínios inferenciais, por isso, podemos dizer que calculamos quando falamos. A autora aponta duas posições teóricas sobre cálculo nas línguas: a de que cálculo é específico à linguagem humana e a de que cálculo

é o mesmo que linguagens formais e linguagens naturais.

A primeira é a posição adotada pelos gerativistas e a segunda, pela gramática categorial. Essa última é que determina a terceira acepção do termo formal.

GLOSSÁRIO

A Gramática Categorial é um conjunto de teorias de investigação linguística de base lexicalista, que seguindo essencialmente o pensamento de Richard Montague, prever que as línguas naturais podem ser entendidas formalmente e representativamente tal qual as linguagens artificiais, de forma a possibilitar análises combinatórias e composicionais sintático- semânticas das estruturas sentenciais.

A partir dessa discussão, podemos afirmar que não

é pertinente restringir o termo formalismo aos gerativistas, pois como aponta Pires de Oliveira (2004, p. 229):

Gerativistas são formalistas porque utilizam uma metalinguagem técnica quase lógica (formal na primeira acepção), porque privilegiam a forma gramatical como autônoma (formal na segunda acepção) e

Introdução à Linguística

porque admitem que as línguas naturais são cálculos (terceira acepção). Mas, há, como já dissemos, formalistas que não estão de acordo com o gerativismo com relação à forma como se dá a relação entre sintaxe e semântica , negando portanto, a segunda acepção de formal.

Entre as teorias formalistas, não há como negar a importância das contribuições da teoria gerativa para a Linguística. A seguir, aprofundaremos nossos estudos acerca dessa teoria.

A teoria Gerativa Essa teoria linguística teve início nos Estados Unidos no final da década de 1950, a partir dos trabalhos do linguista norte-americano Noam Chomsky, professor do Instituto de Tecnologia de Massachussets, MIT. Chomsky publicou seu primeiro livro “Estruturas Sintáticas”, em 1957. Motivado pelo fato de que um indivíduo utiliza a linguagem de maneira criativa, isto é, a todo o momento ele constrói frases novas e inéditas, Chomsky defendeu a ideia de que a linguagem humana resulta de uma capacidade genética específica da espécie humana localizada na mente/cérebro a qual ele denomina de faculdade da linguagem. Partindo dessa concepção, Chomsky definiu que o papel do gerativista é construir um modelo teórico capaz de descrever e explicar a natureza e o funcionamento dessa faculdade da linguagem. Mas, como acreditar na existência da faculdade da linguagem diante da existência de tantas línguas no mundo? Para dar conta dessa aparente contradição, Chomsky precisou ainda mais o objeto de estudo da teoria gerativa distinguindo competência de desempenho. A competência linguística é a capacidade que o falante tem de produzir as sentenças de sua língua. O desempenho linguístico corresponde ao comportamento linguístico que resulta da competência linguística e de fatores não linguísticos (PETTER, 2005). Por exemplo, se você, em vez de dizer “O cachorro saiu”, você acaba dizendo “O cachorro taiu”, você cometeu

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um erro de execução, de desempenho, o que não significa dizer que você não tem competência linguística. Chomsky elegeu a competência como objeto de estudo do gerativismo, passando o gerativista a ter o papel de descrever e explicar a competência linguística do falante. Com o desenvolvimento da teoria gerativista, no início dos anos 1980, a ideia da competência linguística cede lugar à hipótese da Gramática Universal (GU). Segundo Mioto et al. (2005), a GU é o estágio inicial de um falante que está adquirindo uma língua. Assim, com a introdução dessa nova noção, a tarefa do linguista passou a ser descrever e explicar o funcionamento da GU.

De forma bem resumida, o gerativismo caracteriza-se pelo estudo das propriedades internas à língua, tais como a natureza dos constituintes e a relação que se estabelece entre eles, sem se voltar para as relações entre a língua e o seu contexto de uso tal concebem as abordagens funcionalistas.

4.3 AS ESCOLAS FUNCIONALISTAS

Embora frequentemente contrastado ao estruturalismo, o funcionalismo surgiu como um movimento particular dentro do estruturalismo. Os primeiros trabalhos de análise funcionalista foram desenvolvidos pelos membros da Escola de Praga, que se originou no Círculo Linguístico de Praga, fundado em 1926 pelo linguista tcheco Vilém Mathesius. Concebendo a linguagem como meio de comunicação e interação social, o funcionalismo é uma teoria linguística que tem como objeto de estudo o uso interativo da língua. Em outras palavras, a teoria funcionalista analisa a língua, procurando explicar suas regularidades, nos diferentes contextos comunicativos. Vejamos um exemplo que reflete um fenômeno comum no dia- a-dia do teresinense:

(1) Tchau, tô chegando! (2) Tchau, tô indo!

Introdução à Linguística

Que tipo de análise daria conta de explicar por que o teresinense utiliza com mais frequência a sentença (1) do que (2)? Ambas as sentenças relacionam-se a uma situação comunicativa de despedida. Ocorre que, em Teresina, a sentença (1) é mais utilizada pelo simples fato de que o teresinense, ao empregar “tô chegando”, prefere enfatizar o destino, o que não é comum entre a maioria dos falantes que, ao empregar, na mesma situação, a sentença (2), dá mais ênfase à origem. Esse exemplo mostra como se processa uma análise de cunho funcionalista. Os enunciados e os textos são analisados considerando a função que eles desempenham em situações efetivas de comunicação. Para os funcionalistas, como bem acentua Cunha (2008, p. 158), “a língua não constitui um conhecimento autônomo, independente do comportamento social, ao contrário, reflete uma adaptação, pelo falante, às diferentes situações comunicativas.” Essa proposta, portanto, opõe o funcionalismo às abordagens estruturalistas e gerativistas que não se interessam pela atuação de fenômenos externos à estrutura das línguas. Quanto ao processo de aquisição da linguagem, os funcionalistas defendem que a linguagem faz parte do desenvolvimento cognitivo da criança, assim como qualquer outro tipo de aprendizagem. A criança constrói a gramática de sua língua, com base nos dados linguísticos aos quais ela é exposta em situações de interação com os membros de sua comunidade de fala. Os estudos funcionalistas classificam-se em dois grupos: o funcionalismo europeu e o funcionalismo americano. O primeiro estuda as funções que a linguagem pode desempenhar nas situações comunicativas, focalizando a organização interna do sistema linguístico. Foi com os estudos fonológicos, desenvolvidos na Escola de Praga, que esse modelo obteve maior projeção. Entre seus principais representantes, destacam-se os russos Nikolaj Trubetzkoy e Roman Jakobson. O segundo estuda as funções que a linguagem pode desempenhar nas situações comunicativas focalizando os aspectos cognitivos relacionados

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à comunicação. Entre os representantes dessa tendência, destacaram-se os linguistas: Franz Boas, Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf. Segundo Cunha

(2008), o texto pioneiro no desenvolvimento das ideias dessa tendência é “The Origins of Syntax in Discourse” publicado em 1976 por Gillian Sankoff e Penelope Brown. Nesse texto, as autoras

fornecem evidências das motivações discursivas geradoras das estruturas sintáticas do tok pisin, língua de origem pidgin de Papua- Nova Guiné, ilha ao norte da Austrália.

No Brasil, os estudos funcionalistas ganharam impulso a partir da década de 1980. Segundo Cunha (2008), o texto pioneiro foi “Perspectiva funcional da frase portuguesa” publicado em 1987, pelo linguista brasileiro Rodolfo Ilari, que trata do dinamismo comunicativo em termos de tema e rema, na linha dos estudos da Escola de Praga. De lá para cá, foram surgindo vários grupos de pesquisa nessa área. Entre eles destacam-se o Projeto de Estudo do Uso (Peul) da Língua da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que focaliza a variação linguística sob a perspectiva da função discursiva das variantes selecionadas, e o Grupo de Estudos Discurso & Gramática sediado em várias universidades, que focaliza o estudo dos processos de gramaticalização. A teoria funcionalista possui vários temas relevantes, dentre eles, os mais representativos para essa fase introdutória dos estudos linguísticos são:

informatividade e gramaticalização.

GLOSSÁRIO Pidgin é uma língua que surge para suprir uma necessidade extrema de barreira à comunicação.

Informatividade Focaliza o conhecimento que os interlocutores compartilham ou supõem que compartilham na interação verbal que se manifesta por meio do status informacional dos referentes nominais na situação comunicativa. Um referente pode ser novo, dado, disponível ou inferível. É novo quando é introduzido pela primeira vez no discurso. É dado ou velho, se já tiver ocorrido no texto. É

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disponível se em um dado contexto o referente é único e está na mente de ouvinte. É inferível quando é identificado por meio de outras referências dadas. Vejamos um exemplo de cada caso, respectivamente, nas situações hipotéticas abaixo:

(3) Quando chegou na descida da ladeira do Uruguai o carro atropelou um ciclista que atravessou a sua frente. (4) O professor adiou a prova porque os alunos disseram que ainda (os alunos) tinham muitas dúvidas sobre o conteúdo. (5) Eu fui a Pedro II com uma amiga que nunca tinha ido ao Festival de Inverno. (6) Quando ele viu o táxi passar, começou a gritar, gritar chamando o motorista, mas ele não ouvia Em (3) ‘carro’ e ‘ciclista’ são referentes novos porque no texto não encontramos nenhuma referência a essas expressões feitas anteriormente. Em (4) ‘alunos’ não aparece porque se trata de uma referência dado, mencionada anteriormente. Em (5) Pedro II é uma referência disponível que o ouvinte já conhece. E, finalmente em (6), apesar de ‘motorista’ ser uma referência que não foi mencionada antes e como táxi implica a existência de um motorista, não é problema para o ouvinte recuperar a referência e entender

a mensagem. Nesse caso, há, pois de uma referência inferível.

Gramaticalização É o processo pelo qual itens lexicais e construções sintáticas em

determinados contextos passam a assumir funções gramaticais diferentes das que originalmente assumem. A esse processo, pode associar-se outro que determina alterações fonéticas na expressão original. Uma vez gramaticalizados, esses termos continuam sujeitos a desenvolver novas funções gramaticais. Vejamos alguns exemplos de gramaticalização!

em “Quer chova, quer faça sol,

estarei lá”, constitui um exemplo de gramaticalização do item lexical “querer”.

A conjunção e o advérbio “embora” empregados respectivamente em “Ria,

A conjunção alternativa “quer

quer”,

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embora quisesse chorar” e “Eu vou embora à 22h”, constituem outro exemplo de gramaticalização. Tal expressão originou-se da construção sintática “em boa hora”.

A partir dos estudos funcionalistas, originaram-se vários outros estudos,

entre os quais vale destacar: a Sociolinguística, a Análise do Discurso e a

Linguística textual.

A Sociolinguística é o estudo da língua em seu uso real considerando

os aspetos resultantes da relação entre a língua e a sociedade. Seu principal objetivo é investigar quais são os principais fatores que motivam a variação linguística e qual o papel de cada um deles na configuração do quadro que se apresenta variável. Desenvolveu-se na década de 60 nos Estados Unidos sob a liderança do linguista William Labov. A Análise do Discurso é uma abordagem linguística que tem como objeto de estudo o discurso. Seu principal objetivo é estudar as condições de produção de sentido de um anunciado, considerando o quadro das instituições em que o discurso é produzido; os embates históricos e sociais e o espaço próprio em que cada discurso configura para si. Desenvolveu-se, na década de 60, na França, sob a liderança de Michel Pêcheux.

A linguística Textual é a abordagem linguística que tem como objeto de

estudo o texto. Seu principal objetivo é entender os aspectos relacionados à produção, recepção e interpretação do texto, considerando suas condições de uso. Desenvolveu-se, na década de 60, na Europa, mais especificamente, na Alemanha. Diante do exposto, vale ressaltar que tais teorias não analisam objetos de estudo diferentes, apenas elegem fenômenos diferentes de um mesmo objeto: a linguagem verbal humana. Portanto, é importante que fique claro que, embora um tanto distintos os enfoques, a escolha de uma não implica a rejeição da outra. Uma aborda a língua como sistema (estruturalismo); a outra, como capacidade inata do falante (gerativismo) e, por fim, as outras abordagens estudam a língua em seu contexto de uso (teorias funcionalistas).

Introdução à Linguística

RESUMINDO

Com o desenvolvimento dos estudos lingüísticos, foram surgindo várias definições de linguagem humana que orientam três teorias gerais da linguagem e de análise linguística, a saber:

1.

ESTRUTURALISMO

Teoria herdeira das ideias do linguista genebrino Ferdinando

Saussure;

• Tem como seu objeto de estudo a língua em oposição a fala;

• A língua é entendida como um sistema, um conjunto de unidades em que cada unidade tem um valor funcional;

• Seu principal objetivo é descrever a língua em si mesma e por si

mesma.

2. GERATIVISMO

• Teoria herdeira das ideias do linguista norte-americano Noan

Chomsky;

• Tem como objeto de estudo a competência linguística em oposição ao desempenho;

• A competência linguística do falante é entendida como uma capacidade inata da espécie humana;

• Seu principal objetivo é a construção de um mecanismo

computacional capaz de reproduzir o conhecimento linguístico de um falante.

3. FUNCIONALISMO

• É herdeira das ideias de Roman Jakobson;

• Seu objeto de estudo é a língua em usos;

• A língua é entendida como meio de comunicação e interação social;

• Seu objetivo é descrever a língua como um requisito pragmático de

interação verbal. Tais teorias não analisam objetos de estudo diferentes, apenas elegem fenômenos diferentes de um mesmo objeto: a linguagem verbal humana.

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LEITURA COMPLEMENTAR

Para que possamos consolidar um pouco mais algumas das questões relativas aos conteúdos apresentados neste capítulo, recomendamos a leitura de uma resenha do livro Conversas com linguistas: virtudes e controvérsias da linguística, elaborada pelo Prof. Adail Ubirajara Sobral, publicada na revista D.E.L.T.A.

DELTA: Documentação de Estudos em Linguística Teórica Aplicada Print version ISSN 0102-4450 DELTA vol.19 no.2 São Paulo 2003

Resenhado por/by: Adail Ubirajara Sobral LAEL/PUC-SP – Doutorando adails@terra.com.br Palavras-chave: Linguistas brasileiros; Abordagens. Key-words: Brazilian linguista; Approaches.

XAVIER, Antonio Carlos; CORTEZ, Suzana, Orgs. (2003). Conversas com linguistas. São Paulo: Parábola Editorial. ISBN: 85-88456-07-9. 200p. As virtudes e controvérsias da linguística, subtítulo de Conversas com linguistas, saíram finalmente dos muros acadêmicos. O livro apresenta entrevistas feitas pelos organizadores com alguns dos principais estudiosos da linguagem do país, todos com mais de 20 anos de experiência acadêmica. Essa primeira amostra traz de estudiosos da semântica formal a analistas de discurso, de profissionais que se ocupam dos aspectos cognitivos a teóricos do texto, de semioticistas greimasianos a chomskyanos, de linguistas da paz a estudiosos bakhtinianos, de estudiosos da fonética a pesquisadores da área da pragmática, de estudiosos dos usos do português a praticantes da análise da conversação, entre outros. A primeira contribuição do livro reside em mostrar, como o pretendiam os autores, a

diversidade e a maturidade da reflexão e da prática dos estudos da linguagem

Introdução à Linguística

no Brasil. Não faltam às respostas questionamentos acerca da própria adequação das designações "linguista" e "linguística", bem como a ideia, louvável em todos os aspectos, de que definir esse campo de estudos depende do ponto de vista que se assume para fazê-lo. Devem-se mencionar ainda as excelentes discussões acerca do que é "servir para alguma coisa" quando se trata de ciência, e as interessantes reações sobre as relações da linguística com a pós-modernidade, essa expressão- valise tão em voga em nossos dias. Precede cada depoimento um minicurrículo de cada entrevistado. Os 18 entrevistados, que trabalham em diversos estados brasileiros (com grande concentração em São Paulo), são apresentados em ordem alfabética de sobrenomes. São eles: Maria Bernadete M. Abaurre; Eleonora C. Albano; José Borges Neto; Ataliba de Castilho; Carlos Alberto Faraco; José Luiz Fiorin; João Wanderley Geraldi; Francisco C. Gomes de Matos; Rodolfo llari; Mary Kato; Ingedore G. Villaça Koch; Luiz Antonio Marcuschi; Maria Cecília Mollica; Diana Luz P. de Barros; Sírio Possenti; Kanavilill Rajagopalan; Margarida Salomão e Carlos Vogt, este último igualmente autor do Prefácio. As perguntas feitas abarcam um largo espectro de questões relevantes para a compreensão dos do estudos linguísticos. São elas: "Que é língua? Qual a relação entre língua, linguagem e sociedade? Há vínculos necessários entre língua, pensamento e cultura? Linguagem tem sujeito? Que é linguística? Linguística é ciência? Para que serve a linguística? Linguística teria algum compromisso necessário com a educação? Como a linguística se insere na pós- modernidade? Quais os desafios para a linguística no século XXI?" As respostas oferecem um quadro amplo e profundo que vai por certo servir para balizar os estudos linguísticos e dar início a um amplo diálogo intradisciplinar e interdisciplinar que vários entrevistados apontaram como desafio para a linguística no século XXI. A pergunta sobre o que é língua fez grande parte dos entrevistados remeter à distinção entre língua e linguagem, em alguns casos mantida e em outros contestada, havendo ainda alusões à distinção saussuriana entre língua e fala, o que traz relevantes informações acerca das concepções que circulam no meio acadêmico especializado. A língua é definida das mais diversas maneiras. São

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arroladas aqui, resumidamente, essas várias definições, que se acham detalhadas no livro, porque a leitura do livro revela que elas nortearam a reflexão acerca dos outros temas propostos: língua é atividade, trabalho; gesto que é parte integrante de muitas outras atividades humanas; abreviação para designar os idioletos, que, esses sim, seriam objetos empíricos; um fenômeno multissistêmico gerido por um dispositivo sociocognitivo; complexidade estruturada, estruturante e estruturável; condensação de um homem historicamente situado; instrumento e produto do trabalho; sistema de comunicação intra/interpessoal e intra/intercultural; um tipo de competência que nós temos; um fenômeno a um só tempo biológico e produzido num contexto; simultaneamente um sistema e uma prática social; domínio público de construção simbólica e interativa do mundo; sistema organizado de relações entre

processamento verbal e significado necessariamente presente em ações sociointeracionais; um fenômeno desdobrado nos domínios língua e fala, entendidos como integrados em vez de dicotômicos; ao mesmo tempo sistema formal e objeto de inscrição social e subjetiva; algo que a gente cria e molda à medida que se vai falando, um abstrato a posteriori; produção da capacidade da linguagem, uma produção histórica socialmente demarcada que envolve herança histórica, herança biológica e história pessoal, não só como condição, mas como demarcação da expressão; um fenômeno social por excelência que envolve um aspecto estrutural e as condições político-sociais

e econômicas da constituição de um fenômeno de comunicação como língua. O que une essas várias definições, em meio à aparente diversidade, é o reconhecimento da complexidade do objeto da linguística. Nenhuma das definições deixa de levar em conta, ainda que os desenvolvimentos variem, aspectos formais

e não formais, domínios da repetibilidade e da irrepetibilidade, elementos sociais e pessoais, cognitivos e interacionais, biológicos e políticos, etc. Vê-se que a linguística é, como disse um dos entrevistados, essencialmente pós-moderna, se

por isso se entender que o campo se desenvolve num ambiente de indefinição e fluidez com relação ao seu próprio objeto. Ainda que alguns tenham defendido

a

linguística como ciência de uma maneira que a aproxima da concepção clássica

e

mesmo positivista de ciência, outros como ciência num sentido não clássico e

Introdução à Linguística

outros ainda como uma reflexão que não tem porque impor a si um estatuto de cientificidade do tipo que por muito tempo foi dominante na epistemologia tradicional, todos reconhecem ter ela hoje objetos delimitados, mesmo que não definidos no sentido formal tradicional; metodologias reconhecíveis e reproduzíveis e outras características que fazem dela uma espécie de estudo a um só tempo experimental e hermenêutico, descritivo e interpretativo, sem pretensões de explicar os fenômenos no sentido estrito de "explicar". Se há questionamentos acerca do próprio estatuto de cientificidade das ciências paradigmáticas, como a física, sente-se a falta de uma descrição que a diferencie das ciências não-humanas naquilo que ela compartilha com as outras ciências humanas: o fato de não envolver sujeitos que estudam e objetos de estudo, mas sujeitos que estudam e sujeitos estudados. Falta também um questionamento mais aprofundado dos pilares da epistemologia tradicional, o sujeito desprendido cartesiano, o sujeito idealmente pronto, ser livre e racional, bem como a ideia, decorrente dessa concepção de sujeito, da sociedade como agregado de sujeitos atomizados em vez de constituída pelas interações entre esses sujeitos, que ao mesmo tempo nela encontram as bases de sua subjetivação/socialização, sendo, portanto mediadores de sua constituição simbólica. Não que esses aspectos não tenham sido abordados direta ou indiretamente por vários entrevistados quando de suas respostas, por exemplo, à questão da existência de um sujeito da linguagem (ou da língua, como sugeriram alguns), nem que não tenha havido reflexões que envolveram a questão da epistemologia; a falta em questão é da aplicação mais sistemática desses elementos ao problema da cientificidade dos estudos da linguagem, o que parece indicar que, embora os linguistas comecem a questionar o modelo epistemológico vindo das ciências ditas exatas, ainda não atingiram esse campo as intensas discussões travadas em outros campos do conhecimento quanto à validade de uma concepção de cientificidade positivista que concebe o pesquisador como alguém capaz de transcender sua própria condição e vê-la a partir de um ciberespaço científico, de uma virtualidade a-histórica e a-social.

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No tocante ao sujeito, verifica-se haver certa oscilação nas respostas entre

o sujeito da língua/da linguagem tomado em seu aspecto formal e o sujeito da

língua/da linguagem tomado em seu aspecto de atividade. Isso não se deve às diferenças de pressupostos dos entrevistados, mas ao reconhecimento da própria complexidade do objeto da linguística, um sistema ciberneticamente aberto, ou

seja, sujeito a influências de outros sistemas e que igualmente influencia esses sistemas com que interage. É contudo, motivo de satisfação ver que as reflexões desses profissionais caminham na direção de um monismo conceitual e prático na linha de Espinoza e de Vygotsky, dado que reconhecem, tomadas em conjunto,

a imbricação entre os aspectos psico-fisiológicos e sócio-históricos do fenômeno

da linguagem verbal. Outro importante aspecto é a refutação do utilitarismo mercadológico como critério de determinação da validade e da importância dos estudos linguisticos; vê-se aí uma grande maturidade, pois essa recusa em momento algum envolve uma separação entre estudos puros e estudos aplicados, mas a defesa do empreendimento linguístico como valioso por contribuir para a compreensão dos seres humanos, a par da plena aceitação de que estudos voltados para fins mais práticos têm o mesmo valor que os estudos que não estão especificamente voltados para isso. Por outro lado, há a defesa da ética da pesquisa como valor fundamental; os entrevistados revelam plena consciência de sua responsabilidad