PROJETO APLICADO IV

INSTITUTO POLITÉCNICO – Centro Universitário UNA

Fossa Biodegradável: Solução Descentralizada para Tratamento de Efluentes Domésticos em Zonas Rurais
CURSO: Engenharia Civil Professora PA: Fabiana Lúcia Costa Santos Andréia Rocha, Bruno Valadares, Frederico Guimarães, Giovanna Alves, Júlio César, Láisa Martins, Marcella Leite, Stener Marcelo.

Resumo: Como alternativa sustentável e descentralizada para tratamento de
efluentes domésticos, o presente estudo apresenta a Fossa Biodigestora. Um sistema de baixo custo, de fácil implantação e comprovadamente eficiente. Além de substituir sistemas de esgoto a céu aberto, fossas negras e até mesmo as fossas sépticas, a Fossa Biodigestora possibilita a utilização do efluente gerado pelas residências como adubo orgânico, minimizando assim, o custo de aquisição destes insumos. Palavras chaves: Fossa Biodigestora; tratamento de efluentes; saneamento.

1 - Introdução
Devido ao crescimento demográfico urbano e rural, e consequentemente a falta de planejamento da administração pública, o esgotamento sanitário apresenta grande precariedade e muitas vezes ausência em municípios brasileiros. Segundo dados de uma pesquisa realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que 71,8% dos municípios não possuíam, em 2011, uma política municipal de saneamento básico. A estatística corresponde a 3.995 cidades que não respeitam a Lei Nacional de Saneamento Básico, aprovada em 2007. O esgotamento sanitário, dentre outros, é o serviço público de pior qualidade no Brasil, apresentando a menor taxa de acesso, menor crescimento de acesso e a pior qualidade dentre outros serviços de saneamento básico (FGV, 2007). Os efluentes sanitários quando não são devidamente coletados, transportados e tratados, podem gerar grandes danos ambientais, tais como: poluição ou contaminação na captação de água para o abastecimento humano, poluição de rios, lagos, lagoas e aquíferos.

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A falta de acesso ao serviço de coleta de esgoto, que muitas vezes é negligenciado pela administração pública ou por falta de conhecimento da população, é comum, em zonas rurais ou zonas agrícolas, o uso de fossas rudimentares (fossas “negras”, poço, buraco, etc.), que contaminam o lençol subterrâneo e consequentemente, os poços de água próximos a estas regiões. Segundo NOVAES et al (2002), como alternativa sustentável e descentralizada de tratamento de efluentes domésticos, o presente estudo apresenta a fossa biodigestora. Um sistema de baixo custo, de fácil implantação e comprovadamente eficiente. Além de substituir o sistema de esgoto a céu aberto, fossas negras e até mesmo as fossas sépticas, a fossa biodigestora possibilita a utilização do efluente gerado pelas residências como adubo orgânico, minimizando assim, o custo de aquisição destes insumos. Diversos países utilizam processo da biodigestão de resíduos orgânicos, inclusive para a produção de gás metano, adubo orgânico ou para tratamento dos próprios resíduos. O processo realizado pela Fossa Biodigestora consiste em um tratamento biológico do esgoto por ação de digestão fermentativa, utilizando-se esterco bovino, baseando-se no sistema de biodigestão de resíduos orgânicos, através da sua composição anaeróbica por bactérias. Desta forma, os resíduos, desinfetados, evitam a proliferação de doenças por meio da água poluída pelo esgoto doméstico.

2 – Referencial Teórico
Os esgotos domésticos contêm aproximadamente 99,9% de água e 0,1% de sólidos (CHERNICHARO, 1997). Na zona rural, o problema da disposição inadequada do esgoto doméstico é grave, pois estas localidades não dispõe infraestrutura para tratamento. Uma alternativa que atende esse problema é a construção de fossa biodigestora. A fossa biodigestora é um sistema de tratamento de esgoto, normalmente utilizado por áreas ou comunidades menores, rurais, ou urbanas que não possuem rede de esgoto sanitário. (ÁVILA, 2005) O sistema de tratamento é primário, simples e possui baixo custo. Seu funcionamento ocorre na ausência de oxigênio, ou seja, num ambiente anaeróbio, com a atividade dos

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microorganismos para o decréscimo da matéria orgânica e formando o biogás (SAAE, 2006). Os sistemas anaeróbios são apropriados como primeira etapa, e eventualmente a única, no tratamento de efluentes com elevadas concentrações de matéria orgânica, como é o caso daqueles gerados pela agroindústria. Uma satisfatória remoção de DBO (demanda bioquímica de oxigênio) ocorre sem o gasto de energia elétrica, e com a utilização de reduzidas áreas de implantação (VON SPERLING, 1998). O tratamento de resíduos pela fermentação anaeróbia tem sido empregado para a estabilização da matéria orgânica presente nos resíduos. Esta tecnologia é limitada face à produção de gás metano pelas bactérias metanogênicas, cuja velocidade de crescimento é muito lenta, a qual se reflete no tempo longo de retenção de sólidos e de retenção hidráulica que exigem grandes tanques de fermentação. Outro aspecto a considerar é que o efluente da digestão anaeróbia (biodigestores) possui ainda uma alta concentração de matéria orgânica solúvel ou insolúvel que requer tratamento antes de ser descartado (OLIVEIRA, 1993). Os processos de tratamento de resíduos pela fermentação anaeróbia, levando-se em consideração as características do digestor podem ser divididos em quatro categorias: digestores convencionais, digestores de fluxo descendente, digestores de fluxo ascendente e reator anaeróbio compartimentado (OLIVEIRA, 1993; VON SPERLING, 1998). Filtros biológicos são unidades de tratamento de esgoto no qual se desenvolvem microorganismos, pois é composto por tanques que possuem leito de pedras. Podem ser usados como um dos principais métodos, apesar de ser mais apropriado como posterior ao tratamento (ÁVILA, 2005). A evolução do processo necessita apenas do confinamento do esgoto e dos microorganismos (provenientes de mistura, ou inoculação, de fezes bovinas) em um espaço com condições favoráveis às reações bioquímicas inerentes à fermentação natural. Normalmente os sólidos em suspensão, fixos e voláteis, são removidos da massa líquida, afluente à ETE (estação de tratamento de esgoto) e processados em unidades apropriadas denominadas digestores ou biodigestores. A digestão anaeróbia do lodo, tornando-o estável, realizada com as seguintes finalidades: estabilizar total ou parcialmente as substâncias instáveis, matéria orgânica, presente nos lodos frescos;
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reduzir o volume do lodo através dos fenômenos de liquefação, gaseificação e adensamento; destruir ou reduzir a níveis aceitáveis os microorganismos patogênicos; dotar o lodo de características favoráveis à redução de umidade, através dos processos de separação sólido-líquido; permitir a sua utilização, quando estabilizado convenientemente, como fonte de húmus ou condicionador de solo para fins agrícolas ou de recuperação de solos degradados; a eficiência da digestão costuma ser medida através de um indicador de redução de sólidos voláteis, sendo a redução de 50% de volume o valor usual almejado. Em digestores aquecidos e com tempo de detenção da ordem de 20 dias, esta eficiência pode chegar a 60%. Outros parâmetros muito importantes são a redução da concentração de organismos patogênicos e estabilização de substâncias prejudiciais presentes no esgoto. De

acordo com a resolução nº20 do CONAMA, de 18/06/1986, para águas classe 2, utilizadas em irrigação, a concentração de coliformes fecais não deve exceder o limite de 1000/100 mL. O alcance desses valores está em geral condicionado às condições de projeto das unidades tais como: carga aplicada, tempo de detenção, homogeneização, facilidade de adensamento, número de estágios, temperatura, e evidentemente, também às condições e critérios de operação. Em relação ao número de estágios, a digestão anaeróbia pode ser processada em um único estágio ou em dois estágios em série, sendo os digestores denominados respectivamente primário e secundário. O esgoto produzido nas fossas biodegradáveis é tratado com a utilização de esterco de animais ruminantes, capaz de transformar o efluente produzido livre de germes patogênicos e eliminar os odores desagradáveis. Desta forma, o efluente pode ser utilizado no preparo do solo e adubação, devido a sua capacidade fertilizante, onde apresenta efeito comparável a adubação química, a um custo praticamente nulo (FAUSTINO, 2007). Considerando um país de clima tropical, a reciclagem de esgotos para a agricultura apresenta vários aspectos positivos, pois o solo fica mais exposto as atividades intempéricas, proporcionando a mineralização da matéria orgânica rapidamente. Esta mineralização, disponibiliza para o solo uma grande quantidade de nutrientes,
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contribuindo com a elevação do pH e a redução da acidez. O pH do solo é uma propriedade química essencial, pois determina em que forma os elementos químicos estarão nas soluções que percolam o solo (FAUSTINO, 2007). Os resíduos de esgoto gerados após o tratamento são constituídos de uma quantidade considerável de matéria orgânica nos horizontes superficiais do solo. Esse tipo de matéria desempenha o papel de definir certos atributos ao solo, determinando algumas propriedades físicas, químicas, físico-quimicas e biológicas, condicionando a dinâmica de soluções do solo, afetando o funcionamento morfológico do solo, aumentando a fertilidade por conter nutrientes essenciais às plantas (FAUSTINO, 2007). Além da fertilização ao solo, a reutilização de efluentes proporciona a redução ou mesmo a eliminação da poluição dos meios hídricos por estes efluentes, uma vez que serão tratados e aproveitados para o adubo na agricultura e não apenas descartados em mananciais ou lençol d’água (FAUSTINO, 2007).

3 – Materiais e Método
As informações sobre a execução e dimensionamento do sistema da fossa biodigestora foi obtida através de uma cartilha da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), em parceria com o Banco Brasil. O local das caixas coletoras deve apresentar as seguintes características: ser seco; ficar um pouco abaixo do nível do sanitário, no mínimo, 40 cm; distante de cursos de água ou do lençol freático; preferencialmente, têm que ser instaladas perto do sanitário e próximo de janela das casas; as tampas das caixas devem ficar expostas ao sol para facilitar o processo de biodigestão. A localização próxima de janela ajuda no controle da manutenção das fossas pelos moradores. Os equipamentos devem receber cuidados mínimos, odor é indicação de algo errado no processo biodigestor. Para a coleta do biofertilizante pelo registro, o sistema deve apresentar desnível de 50 cm do topo da primeira caixa ao pé da última caixa. Não havendo desnível, a coleta deve ser feita com balde, pela tampa da última caixa. As caixas coletoras devem apresentar forma arredondada. Devem ser de fibra de vidro ou de manilha de concreto, uma vez que tais materiais são mais resistentes à altas temperaturas e possuem maior durabilidade. Elas devem ser conectadas
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exclusivamente ao esgoto do vaso sanitário. Deve-se ter o máximo de cuidado, porém, com as tampas das caixas coletoras de fibra de vidro. Em geral, são frágeis e correm o risco de serem danificadas com o manuseio inadequado ou em consequência de quedas e acidentes. Nunca devem ser compradas e usadas caixas produzidas com plástico, pois esse material não permite o emprego de cola de silicone nas conexões. Também não devem ser de amianto, por ser produto poluente. Tanto as caixas de concreto, quanto as de fibra de vidro devem apresentar as seguintes perfurações: as duas primeiras caixas devem conter um furo de entrada e um furo de saída, ambos no topo, cada um com 100 mm de diâmetro; a última caixa deve conter o furo de entrada no topo e o furo de saída na base, sendo que esse último deve apresentar diâmetro de 50 mm; esse último furo não deve ser feito quando não houver o desnível do terreno. Nesse caso, o biofertilizante será retirado pela tampa com o uso de balde ou outro utensílio. No caso de ausência dessas perfurações nas caixas coletoras de fibra de vidro, faça os furos utilizando uma serra copo de 100 mm. As caixas são enterradas e vedadas para assegurar a manutenção de alta temperatura no interior, as tampas ficam expostas. A colocação das caixas deve obedecer aos seguintes critérios: a distância mínima entre as caixas deve ser de 50 centímetros; as bordas superiores das caixas devem ficar no mínimo 5 cm acima do nível do solo. O solo deve ser bem socado na beirada das caixas para impedir o acúmulo de água da chuva, porque isso pode refrescar o interior das caixas e prejudicar o processo de biodigestão dos dejetos humanos.

4 – Resultados
A Fossa Biodigestora é dimensionada em função de um consumo médio calculado conforme o número de pessoas, tendo como base as tabelas da NBR 7229. No anexo, tabela 1, retirada da cartilha da Embrapa sobre dimensionamento do sistema de Fossa Biodigestora. Tal dimensionamento foi calculado tomando como base uma residência habitada por uma família composta por cinco pessoas que despejam 50 litros de descarga por dia, utilizando três caixas de mil litros. Caso haja mais pessoas, a sugestão é colocar mais uma caixa, entre a segunda e a terceira caixa. Depois de pronta a estrutura, para iniciar o processo, deve ser despejada, uma vez por mês, a mistura de 10 litros de água e 10 litros de esterco fresco de bovino ou de outro animal ruminante, a exemplo de cabras e ovelhas. Pela válvula de retenção, a mistura
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irá seguir para a primeira caixa, onde fermenta e destrói cerca de 70% dos micróbios e vermes existentes nos dejetos. Os outros 30% são eliminados na segunda caixa. Em consequência, é liberado um gás metano. Por isso, são instaladas nesta e na segunda caixa válvulas de escape (suspiros) para evitar a explosão do gás metano acumulado no interior delas. Abaixo, na figura 1, é demonstrado o esquema de funcionamento do sistema de Fossa Biodigestora.

Figura 1 – Fossa biodigestora

5– Conclusão
Esse modelo de fossa pode ser indicado na substituição de fossas negras em zonas rurais, onde não há tratamento dos efluentes domésticos, principal responsável pela contaminação do lençol freático. O sistema apresenta eficiência na biodigestāo dos excrementos humanos e consequentemente a eliminação dos agentes patogênicos causadores de doenças. A reutilização do efluente tratado demonstrou uma fonte de nutrientes com grande potencial para adubar o solo. O sistema de tratamento é primário, simples e possui baixo custo.

6 – Referências Bibliográficas
ÁVILA, R. O. de. Avaliação do desempenho de sistemas tanque séptico-filtro anaeróbico com diferentes tipos de meio suporte. Rio de Janeiro: UFRJ, 2005.

BARROS, R. T. de V. Elementos de Gestāo de Resíduos Sólidos. Belo Horizonte: Tessitura, 2012.

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BRASIL. EMBRAPA. Fossa Séptica Biodigestora. São Carlos, 2001. Acesso: 12/03/2013. Disponível em:

<http://www.fbb.org.br/data/files/BD/A2/39/CB/4205A31009818793BD983EA8/Cartilha %20Fossas%20Septicas%20Biodigestoras.pdf>. CHERNICHARO, C. A. de L. Princípios do tratamento Biológico de águas Residuárias: Reatores Anaeróbios. Belo Horizonte: UFMG, 1997. FAUSTINO, A. S. Estudo físico-químico do efluente produzido por fossa séptica biodigestor e o impacto do seu uso no solo. São Carlos, SP. UFSCar, 2007, 121f.

FGV. Trata Brasil: Saneamento e Sáude. Rio de Janeiro, 2007. Acesso em 27/03/13. Disponível em: <http://www.cps.fgv.br/ibrecps/CPS_infra/texto.pdf>. JORDÃO, E.P.; PESSOA, C.A. Tratamento de esgotos domésticos. 6ª Edição, Rio de Janeiro, ABES, 2011.

NOVAES, A., P., SIMÕES, M. L., MARTIN NETO, et al. Utilização de uma fossa Séptica Biodigestora para melhoria do saneamento rural e desenvolvimento da agricultura orgânica. São Carlos, SP: Embrapa Instrumentação Agropecuária, 2002. OLIVEIRA, P. V. A. de. Manual de manejo e utilização de dejetos suínos. Concórdia: EMBRAPA-CNPSA, 1993.

SAAE – Serviço Autônomo de Água e Esgoto. Sistema de tratamento de esgoto. Aracruz, 2006. VON SPERLING, M. Tratamento e destinação de efluentes líquidos da agroindústria. Brasília: ABEAS; Viçosa: UFV, Departamento de Engenharia Agrícola, 1998.

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ANEXOS

Tabela 1 – Materiais e Ferramentas para produção da Fossa Biodigestora

Fonte: EMBRAPA. Fossa Séptica Biodigestora, 2001.
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