A DIFERENÇA ENTRE O GIRAR, O CLICAR E O DESLIZAR.

Antigamente, poucas coisas fazíamos funcionar usando apenas um dedo ou dois: apertar o botão da campainha ou o botão de chamar o elevador é um bom exemplo. Também podemos incluir aí fazer funcionar o gravador de rolo ou de fita K-7, “tirar“ uma foto ou discar um número de telefone. Isso sem falar do trabalhoso ato de escrever com as velhas Olivetti ou Remington (coisa que algumas pessoas conseguiam fazer usando apenas e tão somente dois dedos). Ah, e com um dedo também se pedia silêncio! Mas isso, quase sempre, era acompanhado de um sonoro Psssssssiiiu!!... Como sabemos, o que é relativo aos dedos dizemos “digitais” (do latim dígitus) e o que é relativo ás mãos dizemos “manuais”. Com os dedos podemos fazer movimentos específicos e únicos, como o ato de premir botões com suavidade; girar um compasso ou pinçar pequenas coisas, como um grão ou um fio de cabelo. Mãos e dedos, ferramentas delicadas com as quais o Homem conquistou a Terra e transform(ou)a o mundo. Bem, é claro que por detrás de toda conquista humana está a inteligência, o cérebro. E o cérebro quer tudo ao alcance das mãos, porque isso é muito cômodo e ele pode se dedicar a outras tarefas. Eis, pois, a razão de os telefones celulares se tornarem o gadget mais presente em nosso dia a dia. Tamanha é a dependência que o homem moderno tem do celular que alguns sequer conseguem trabalhar ou resolver suas maiores necessidades sem esse bendito aparelhinho, que vai muito além de um telefone sem fio 1.

O telefone sem fio do cientista Leonid Ivanovich Kupriyanovich, apresentado na década de 1950*

O fato é que, em nosso cotidiano como cidadãos da “sociedade da informação”, como indivíduos de uma comunidade mundializada e cada vez mais afetada pela chamada “revolução tecnológica”, nos encontramos cercado pelas tecnologias digitais com predominância para as tecnologias da informação e comunicação, da qual o celular é o expoente. A esse respeito a ONU informa que “dos 7 bilhões de habitantes do

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O telefone sem fio foi idealizado pelo padre brasileiro Landell de Moura, que patenteou sua invenção em 1904, nos EUA. Sim, isso mesmo! O telefone sem fio é invenção antiga. E não é norte-americana, não. É de brasileiro, e sinta orgulho disso. Contudo o celular não é a evolução desse telefone. O que é um telefone senão um aparelho que transmite a distância (tele) o som da voz (fone) e permite a troc a simultânea de informações entre emissor e receptor? Os modernos telefones celulares fazem muito, muito mais que isso...

*Foto: http://culturaproletaria.wordpress.com/2014/01/26/el-telefono-movil-mas-comunista-de-lo-que-usted-imagina

mundo, 6 bi têm celulares, mas 2,5 bi não têm banheiros” 2, e a União Internacional de Telecomunicações – UTI nos diz que “há mais de 100 países com penetração da telefonia móvel superior a 100% – e em sete a densidade já ultrapassa os 200%” 3. Em breve haverá mais celular em operação no planeta que indivíduos... A sociedade digital em botão A modernidade começa com a hegemonia ou onipresença dos botões, coisa que, como se sabe, aconteceu no século XX com o advento do capitalismo e a exaltação ao consumismo. Também já vimos que é cada vez maior o número de usuários da telefonia celular; isso sem falar do crescimento das vendas de computador pessoal (desktop, notebook, laptop, tablet, ultrabook). E não esqueçamos da TV, presente em 95,1% dos domicílios brasileiros4 e dos aparelhos de som e vídeo, dos micro system e consoles de videogames. Mesmo em lares mais humildes é comum encontrar alguns deles, todos com seu próprio controle remoto, um dispositivo cheio de funções que ativamos pelo premir de botões. Paralelamente, também cresce o número de usuários de cartões de crédito, que no Brasil já é cerca de 80% da população economicamente ativa, e outros tipos de cartões magnéticos, que todos sabem necessitam que seu possuidor digite uma senha para poder utilizá-lo. Então é por isso, porque tudo começa e termina no simples clicar de um dedo sobre um botãozinho, que dizemos estar vivendo numa sociedade digital? A resposta é NÃO. Estamos numa sociedade digital porque toda informação real, seja ela discreta como símbolos (números e letras, por exemplo), ou contínua como sons e imagens, é convertida na forma numérica binária, e assim armazenada, transmitida, compartilhada. E isso só se tornou possível com a Tecnologia da Informação e Comunicação-TIC baseada em rede e incorporada a uma estrutura de sincronicidade5. Foi ela, a sincronicidade, que tornou realidade o vaticínio de Marshal McLuhan nos idos de 1960: o mundo está se tornando uma imensa aldeia global. As TIC fizeram surgir uma nova cultura e uma nova estrutura, que Pierre Lévy denominou de “cibercultura” e “ciberespaço” (LÉVY, 1999), e promoveram alterações na dinâmica das relações do homem moderno, reconfigurando sua cosmovisão, sua maneira de ser e estar no mundo, sua percepção de tempo e espaço. Estamos vivendo num momento de transformações e adaptações característico de todo processo de transição. De fato, o impacto dessa nova cultura atingiu a todos, adultos, idosos, jovens e crianças, contudo de forma diferenciada; porém com maior efeito sobre os mais velhos, os idosos, que na nova sociedade são chamados de “migrantes digitais” , enquanto que os jovens e crianças são denominados “nativos digitais”.

2 http://www.onu.org.br/onu-dos-7-bilhoes-de-habitantes-do-mundo-6-bi-tem-celulares-mas-25-bi-nao-tem-banheiros/ 3 http://convergenciadigital.uol.com.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=32605&sid=8#.Uvd-TvldV8E 4 Fonte: Censo 2010. IBGE 5 O conceito de sincronicidade aqui não é o mesmo formulado por K. G. Jung. Refere-se ao fluxo simultâneo de dados entre os dois sujeitos ou dispositivos, os quais vão transformando esses dados em informação durante o processo. É o antônimo de assíncrono, ou seja, não simultâneo, como na comunicação por carta, por exemplo.

Do binário ao quântico Antigamente as leis da física newtoniana estabeleciam a verdade do sistema, e o pensamento considerava a matéria dimensionada, definida como uma partícula. No passado o pensamento cartesiano era o modelo para o método científico. Então veio a nova física e nos apresentou o estado quântico, onde a realidade não é mais uma via com uma direção e dois sentidos, como uma estrada de duas mãos, mas de infinitas possibilidades. A realidade atual exige que nosso cérebro construa ou compreenda interrelações que antes não existiam, abandonando a certeza em detrimento das possibilidades. Deve deixar de se comportar como partícula para ser como onda. Assim, a nova cultura se ergue sobre um princípio novo e revolucionário, o princípio da incerteza ou da indeterminação. Tais conceitos tendem a abolir o estado binário (reducionista, compartimentalizador, limitador) então vigente, desestabilizando, dessa maneira, o pensamento dos antigos. Por outro lado, nesse novo cenário as crianças e jovens são os mais contemplados, visto que essas mudanças afetaram a maneia como se relacionam entre si, com o mundo e com a própria família. Diante das novas tecnologias digitais, a mente dos mais velhos parece sofrer um delay que não acontece na dos jovens e crianças. Já dissemos que as TIC, garantindo informação e conhecimento a qualquer hora e em qualquer lugar, transformou a maneira como nos relacionamos social, política, profissional, cultural e economicamente. A compreensão que o Homem tem de si mesmo, do mundo e de sua história nele sofreu um considerável abalo, ou talvez possamos dizer upgrade. Eis que chegamos ao ponto de mutação, desenhado por Capra nos anos 1980. As gentes nascidas na década de 1940/50, e que hoje estão na terceira idade, costumam dizer que na sua época as coisas eram mais fáceis. E eram! Talvez em razão do que pincelamos acima; talvez seus cérebros adotassem parâmetros, digamos, mais duros6 e, por conseguinte, mais condizente com a tecnologia do estado dicotômico ou binário (o tal das duas escolhas), e por isso mesmo mais simples. Mas a realidade do mundo moderno não é mais a realidade de nossos avós, concreta e definida pela certeza de duas direções (sim/não; é/não é ...). Isto posto, podemos compreender que a mente dessa nova geração tende a trabalhar com parâmetros por assim dizer mais suaves, o que lhes confere habilidades e competências para lidar, de maneira eficiente, com as tecnologias de sua época. Estamos num mundo real convivendo com um mundo virtual7, ou é o contrário? Já mostramos que no passado nossa compreensão de mundo era baseada na lógica aristotélica “Se/Então”: cogito ergo sun; se vejo, logo existe; se sinto, logo é real.... Então, conforme já exposto, nosso pensamento era binário e a tecnologia daqueles tempos também, porquanto reflexo de nossa forma de pensar. Em outras palavras, as coisas antigamente se resumiam a dois estados distintos: ligado ou desligado; sim ou não; certo ou errado; bom ou ruim; tudo ou nada; luz ou escuridão... O girar, o clicar e o deslizar

6 Talvez possa entender melhor esse conceito no tópico a seguir. 7 É virtual toda entidade “desterritorializada”, capaz de gerar diversas manifestações concretas em diferentes momentos e locais determinados, sem, contudo, estar ela mesma presa a um lugar ou tempo em particular. (Lévy, op.cit., p. 47).

Nessa perspectiva é possível dizer que a tecnologia do século passado era linear e polarizada, isto é, a ação do sujeito sobre os objetos tecnológicos obedecia a uma sequência lógica, e acontecia invariavelmente entre dois polos. Por exemplo, os aparelhos tecnológicos do passado que usavam energia elétrica funcionavam com relés, disjuntores, chaves, válvulas e potenciômetros. Concorda que tais dispositivos, pelo que acabamos de expor, podem ser considerados binários? Então, tomemos como ilustração uma ação simples do cotidiano da maioria da população mundial: ligar o rádio. A gente ligava o aparelho girando um botão até ouvir um “clic” (como pode ver, já tínhamos o clicar naquela época), que indicava o estado de ligado/desligado. E a TV, então? Trocar de canal era uma operação ruidosa, barulhenta, que exigia algum esforço para girar o seletor de canais, que parecia imitar o pipocar de uma metralhadora. O surgimento do controle remoto foi comemorado como a carta de alforria que é dada a um escravo. Na tecnologia do passado era preciso vencer uma inércia inicial, por conta disso os aparelhos antigos precisavam “esquentar”, eram lentos e consumiam mais energia.. Hoje podemos ligar um rádio, uma televisão, um telefone e mesmo outros aparelhos e dispositivos apenas clicando sobre um botão ou deslizando a ponta do dedo sobre um determinado local, e até dando uma ordem de voz. Seguindo nosso raciocínio, considere o girar uma ação linear, isto é, que se processa sempre em duas direções, a horizontal ou vertical, e em dois sentidos: da esquerda para a direita ou vice-versa. Percebe que o ato de girar é gradual enquanto o clicar é imediato? Por conseguinte, girar é uma ação mais lenta e que exige um pouco mais de esforço que o simples clicar e o deslizar, que é são maneiras atuais de se ligar a maioria dos equipamentos digitais. Em contrapartida, o clicar exige conhecimento, seleção, precisão, exatidão. É uma ação aplicada num único e determinado ponto por vez. Podemos mesmo dizer que clicar é uma ação tópica, por seu turno o deslizar está mais para algo que acontece no plano espacial, posto que sua ação está delimitada, circunscrita, a uma área do espaço, como por exemplo a tela touchscreen de um celular, de um computador ou de uma televisão. Usando de uma analogia quântica, podemos afirmar que o deslizar está para a onda assim como o clicar está para a partícula, e descreve o comportamento tecnológico do futuro: suavidade, graça, leveza, silêncio. Por isso eu costumo dizer que somos do tempo do girar vivendo na época do clicar, e já nos encaminhamos para outro tempo, o do deslizar. Podemos apresentar um exemplo desses três estágios da tecnologia digital com o telefone. Os telefones antigos eram compostos de duas partes; uma por onde se falava e ouvia, e a outra onde ficava o dispositivo de discagem, composto de um disco giratório 8 com 10 orifícios correspondendo aos dígitos de 0 a 9. Para fazer uma ligação levava-se a parte com o microfone à boca e o autofalante ao ouvido e esperava-se o sinal de linha. Depois era preciso discar o número desejado, o que se fazia girando com o dedo o disco com os números. Hoje, com o celular, basta clicar suavemente sobre uma telinha para falar com outro telefone. Existe coisa mais fácil e simples? Simples? Nem tanto. Os aparelhos celulares atuais são cada vez mais complexos e completos, tipo all-in-one. Há telefones com reconhecimento de voz, de rosto e de movimento; com relógio e despertador, com calendário e agenda de compromissos, com
8 A partir de 1960 surgiram telefones com teclas alfanuméricas no lugar do disco.

acesso a internet, tradutores de idiomas, sistema de navegação GPS, mapas de cidades com estradas e serviços, TV digital, rádio FM, câmera fotográfica de alta resolução, projetor e jogos. Com ele você pode gravar vídeos com áudio, checar seus e-mails, trocar mensagens de texto ou voz, tirar e compartilhar suas fotos, armazenar suas músicas ou filmes favoritos, acompanhar a novela na TV, pagar contas, ligar e desligar aparelhos, abrir portas, fazer seu checkup e os cambaus. Saber usá-los exige habilidades e competências que a geração atual parece já nascer sabendo. Hoje é comum observarmos uma criança com menos de dois anos pegar um celular e passar o dedinho sobre a telinha para ativá-lo. Ela SABE que deve deslizar o dedo naquela superfície, daquela maneira, naquela determinada direção. Elas têm o mundo na ponta dos dedos. Essa é a diferença que, por enquanto, separa a sociedade em duas categorias: os imigrantes digitais e os nativos digitais 9. O fato é que ambos convivem no mesmo espaço e tempo, mas não na mesma realidade.

Referências CAPRA. Fritjof. O Ponto de Mutação. Cultrix, 1989. LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo. Editora 34, 1999.

Sites consultados 1 - http://www.onu.org.br/ (acessado em 10/02/2014) 2 - http://convergenciadigital.uol.com.br/ (acessado em 10/02/2014)

9 Termos criados em 2001 por Marc Prensky, um educador, escritor e pesquisador americano de 66 anos.

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