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Símbolos

Brígida Carla Malandrino

A palavra símbolo, em si mesma, não apresenta grandes variações, provém do termo grego
symbolon, derivado do verbo sym-ballein, que significa “lançar com, pôr junto com juntar”.
Há algumas derivações como “comparar, trocar, encontrar-se, explicar”. A etimologia da
palavra nos ensina que o símbolo implica, primeiramente, em uma dualidade e como
conseqüência disto uma unificação, já que o símbolo junta duas coisas, formando uma só.
O símbolo sempre é constituído por duas partes: o simbolizante e o simbolizado. O símbolo
sempre designa conjuntamente o simbolizante e o simbolizado, exprimindo uma totalidade
que passou por experiências de ruptura e agora é uma realidade reconstituída.
O simbolizado é o pedaço a reconstituir, é a parte ausente, impossível de se perceber. Esse
pedaço vai ser o domínio predileto do simbolismo: o invisível, o imperceptível, o
inobservável, o inexprimível; em suma, o não-sensível em todas as suas formas (o
inconsciente, o metafísico, o sobrenatural e o surreal). O simbolizante é a parte visível, o
pedaço presente acessível à nossa experiência imediata, a partir do qual a intuição tende a
reconstituir a realidade total.
Apesar de tudo isso, é importante ressaltar que o símbolo é uma criação total, que ele não se
situa nem no simbolizante nem no simbolizado. Um símbolo, por menos universal que seja,
só pode brotar das camadas mais profundas do ser humano, nas quais se acumulam e se
enraízam as recordações e os gestos mais marcantes que misturam a nossa biografia interior e,
por isso, têm sempre a função de transcender os opostos.
O símbolo é a manifestação indireta do arquétipo tornando-o constatável, já que esse nunca
pode se manifestar diretamente, pois é um elemento estrutural numinoso da psique com certa
autonomia e energia psíquica aglomerada específica. Sendo assim, as relações, as situações e
as idéias mais abstratas de natureza arquetípica são traduzidas pela alma na forma de
processos retratáveis ou de eventos expressos em imagens. Quanto mais universal for a
camada da alma de onde brota o símbolo.
Se por um lado, algo ser ou não um símbolo depende do ponto de vista de quem o contempla,
havendo a possibilidade de perceber que um determinado fato é mais do que sua aparência
concreta. Porém, há outros produtos cujo caráter simbólico não depende do ponto de vista
consciente, mas se revela a partir de si mesmo em seu efeito simbólico sobre quem o
contempla, não teria sentido algum se não tivessem um sentido simbólico.
O símbolo sempre oculta um sentido invisível e mais profundo do que o seu sentido objetivo e
visível, portanto nunca é casualmente solucionável, compreensível ou determinado
anteriormente, tendo um caráter duplo e bipolar. Sua bipolaridade é dada pelo fato do símbolo
ter a qualidade de unificar os pares opostos, por exemplo, o consciente e o inconsciente.
Sendo assim, o símbolo é formado pelo sentido, elemento do consciente reconhecedor e
formativo e a imagem como matéria prima do inconsciente coletivo, a união das duas partes
faz com que o primeiro dê significado e forma ao segundo. Apesar disto eles não figuram algo
diferente deles, mas expressam o seu próprio sentido e o representam.
Um símbolo vivo e carregado de sentido nunca pode ser criado a partir de relações
conhecidas, já que pertencem a dois níveis diferentes de realidade, ou seja, a imagem de um
conteúdo transcendente de consciência, real, com a qual é necessária uma comunicação.
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Como unificador de antagonismos, o símbolo sempre solicita a totalidade do humano,


afetando o homem por inteiro. Conforme colocado por Von Franz, um símbolo só é vivo, pois
é a melhor expressão de algo e se encontra carregado de sentido. Cabe aqui uma diferenciação
entre “símbolo vivo” e “símbolo extinto”: no primeiro caso o símbolo encontra-se carregado
de sentido, a forma e a imagem estão unidas nele e sua relação com o inconsciente permanece
ativa e plena de sentido ele tem um efeito que promove e cria a vida; já no segundo, é apenas
um signo externo, já tendo perdido o seu sentido, pois houve um despedaçamento, uma
dissociação entre consciente e inconsciente, ou seja, nada do inefável, misterioso e numinoso
vibra dentro do símbolo, seus conteúdos são apenas reflexos formais dos conteúdos
arquetípicos, invólucros vazios de arquétipos. Segundo Jacobi:

O símbolo é, então, uma espécie de instância mediadora entre a incompatibilidade do


consciente com o inconsciente, um autêntico mediador entre o oculto e o revelado.
Pertence à esfera intermediária da realidade sutil, que só se pode expressar, de modo
suficiente, através do símbolo.1

À função de união de pares opostos, Jung nomeou de função transcendente ou religiosidade,


já que através da criação dos símbolos cria-se uma passagem de um lado para o outro, gera-se
uma comunicação entre consciente e inconsciente.
A religiosidade é entendida por Jung como uma disposição humana, uma dimensão natural e
legítima, sendo a expressão da necessidade do homem de vivenciar um aspecto mais
universal, intemporal e coletivo da mente inconsciente. É o movimento energético da libido
em direção da camada mais profunda da psique, o inconsciente coletivo, capacitando o
indivíduo a se elevar acima de seus problemas pessoais e a se relacionar com a dimensão
indestrutível e primordial de seu próprio ser psíquico.
É um processo psíquico constante e evolutivo no desenvolvimento da personalidade psíquica,
já que pode exprimir uma tentativa do indivíduo de integrar os aspectos conscientes e
inconscientes da psique em situações de mudança de vida e de alimentar o equilíbrio psíquico,
não apenas para o presente, mas também visando a passagem por atribulações da experiência
subseqüente. É, portanto, fundamental, natural e terapêutico, no qual o indivíduo busca o
auto-conhecimento, a auto-regulação e a auto-realização. O numinoso pode ser a propriedade
de um objeto visível ou a força de uma presença invisível, que produzem uma modificação
especial na consciência. Em última instância, a religiosidade designa a atitude particular de
uma consciência transformada pela experiência do numinoso.
A função religiosa ou transcendente pode ser definida como um estado, resultante da união de
conteúdos conscientes e inconscientes, ou seja, do contato do ego com os arquétipos do
inconsciente coletivo, gerando uma experiência numinosa que arrebata a consciência do ego.
Tendo este poder, a função religiosa acaba por auxiliar no desenvolvimento do indivíduo e na
ampliação da consciência, já que é um elemento fundamental na síntese psicológica dos
opostos, representando a dimensão criativa na resolução do conflito psíquico e, portanto,
estando associada ao processo de transformação da personalidade.
Cabe lembrar, por fim, que os símbolos são mutáveis através dos tempos; seu sentido e sua
decifração são alterados na medida em que há modificações nos reconhecimentos e
experiências de cada um; com isso o conteúdo desse sentido e a forma do próprio símbolo são
postas em novas relações e transformados de maneira correspondente. Portanto, cada homem

1
Jolande JACOBI, Complexo, Arquétipo e Símbolo, p. 90.
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e cada época têm a obrigação de traduzir o símbolo para a linguagem atual, munindo-o com
uma nova roupagem, para que a essência e o significado dele possam permanecer.

Bibliografia
JACOBI, Jolande. Complexo, Arquétipo, Símbolo na Psicologia de C. G. Jung. 10a ed. São
Paulo: Cultrix, 1995.
JUNG, Carl Gustav. Natureza da Psique. 4a ed. Petrópolis: Vozes, 1998, Obras Completas,
volume VIII/2.
________________. Psicologia e Religião. 6a ed. Petrópolis: Vozes, 1999, Obras Completas,
volume XI/1.
KAST, Verena. A dinâmica dos símbolos: fundamentos da psicoterapia junguiana. São Paulo:
Edições Loyola, 1997.