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gressivo da historia; ¢ iv} a existéncia de padrées éticos universeis, paradigms pés-moderno — cuja identificacio ainda é imprecisa ¢ incipiente — prestigia a fragmentagao e a diferenga, mostrando- se, sob esse prisma, incompativel com a idéia de que certos paré- ‘metros morais de conduta possam limitar a liberdade das pessoas na esfera privada. Dessa forma, 0 alegado risco que a eficécia imediata cos direi- tos representa para a tutela da liberdade privada e para a autono- mia do direito civil insere-se, em verdade, no problema mais amplo © complexo que diz respeito a saber até que ponto a constituigio pode determinar © modo pelo qual os individuos devem conduzir suas vidas. Este probleme, por sua vez, esta ligado & prépriacrise do paradigma moderno. Nao hi, aqui, a pretensio de responder em que medida a crise da modernidade deverd repercutir nos didlogos jurfdicos sobre os direitos fundamentais, Mas a complexidade que decorre do emba- te de paradigmas e concepgées néo pode ser ignorada pela dogma- tica e pela jurisdigio constitucional, cujo desafio maior consiste, precisamente, em articular solugGes que levem em conta os fatores dialéticos que emergem dessa crise. Como averbou Canotilho: "O problema que se pe a qualquer jurista colocado no meio destes, dois mundos € 0 de saber como resolver em termos juridicamente rigorosos e constitucionalmente ndo-capitulacionistas as questBes da ponderacio de direitos e bens que jé ndo tem s6 dois pratos, antes digitaliza em termos reais e interesses miltiplos e miltiplos interesses.""”? S Tas relaqe’s priranac autonemia privada x dines te daynents Ibidem, 192 : ‘A Vinculagao dos Particulares aos Direitos Fundamentais no Direito Comparado e no Brasil Daniel Sarmento ‘Sumario: Introdugio. I. A negasio da eficicia dos direitos funda- rrentais nas relages privadase a douttina da “state acion"; Il, A teoria da eficécia indireta e mediata dos direitos fundamentais na cesfera privada; III. A teoria da eficécia direta e imediata dos di- reitos fundamentais na esfera privada; IV. Teoria dos deveres de protesio ea eficécia horizontal do direitos fundamentais; V. Teo- ras alternativas; VI. Situando 0 problema no quadro constitucio- nal brasileiro: consideracées preliminares; VII. A posicéo da dou- trina e da jurisprudéncia brasileiras; VIII. Formas de incidéncia dos direitos fundamentais nas relagées privadas; IX. Eficécia ho- rizontal, desigualdade fitica e autonomia privada: parimetros para a ponderacio de interesses. Conclusio, Introdugéo De acordo com doutrina liberal classica, 0s direitos fundamen- | tais limitar-se-iam 4 regéncia das relagdes publicas, que unham o Estado como um dos seus pdlos. Tais direitos eram vistos como limites ao exerctcio do poder estatal, que, portanto, no se projeta- vam no cenirio das relagdes jurfdico-privadas. Todavia, dita con- cepsio, tributdria que era do individuslismo possessivo que carac- terizava o constitucionalismo liberal-burgués, revela-se hoje pro- fundamente anacrénica. De fato, parece indiscutivel que se a ‘opressio ¢ a violéncia contra a pessoa provém néo apenas do Esta- 193 do, mas de uma multiplicidade de atores privados, presentes em esferas como 0 mercado, a famfli a sociedade civil e a empresa, a incidéncia dos direitos fundamentais na esfera das relagdes entre pacticulares se Torna um imperative Incontornavel. — = "Sem embargo, Firmada esta premissa, € preciso avancat, para verificar a forma como se dé esta incidéncia’. Na verdade, nao seria ,correto simplesmente transplantar 0 particular para a posigdo de / sujelto passivo do direito fundamental, equiparando o seu regime | juridico a0 dos Poderes Piblicos, pois o individuo,,diversamente do Estado, ¢ titular de direitos fundamentai, e estd investido pela propria Constituigdo em um poder de autodeterminacdo dos seus interesses privados*. E foi exatamente por isso que se criou toda a celeuma em torno da chamada eficacia horizontal dos direitos oes | fundamentals ou ses, da projeéo destes diets para cages 0S ost” 4 entre particulares, situados numa relagdo de hipotética igualdade SoS 3 jardin —— O ponto nodal da questo consiste na busca de uma formula de compatibilizagao entre, de um lado, uma tutela efetiva dos direitos Fundamentas, neste Cenirio em que as age TEasaeles Questo! {Para ALEXY, Rober, so baicamente duss as questes que devep ser ‘equcionadas a propsito da ncdencia dos direitos fandamentis nas duces privadas: 0 “como’e o "em que medida’. Pars 0 Professor de Kiel," (.) ution acerca de como ls normas isfundamentalesinflyen en la reatin iudadana/ciudadano, se tata de un problema de construccion, La cuastOn cerca de an que media lo hacen foal um problema mate, es dec, wt problema de colisin. (Teoria de lr derechos hndamentals.Trausan de Eee evo Garin Valdes Mad Centr de Exuion Constr 1853, 9, 2 Segundo BILBAO UBILOS, Juan Mati, autor de La efcaca de los derechor fardameniles frente a patealares, Madr: Cenaro de Estudos Conttacona Jes, 1997, — provavelment o estado mais completo sabre o oss tema, existe hoje um consenso, mesmo entre or ls radial defensores on teona a sfc zontal inet din dros fundamental no sentido de ue forma de incidéaciadestes direitos nio pode ser ual po ex pareulsts © podees piblios, em ano dos dferensasontallgicasente ambos (p, 278) NO mesmo sentido, SARLET, Ingo Wollgng “Direltosfundamentas eet pre vader algumas consieraées em tora da vinclago dos particulars so diets fundamentais. I: SARLET, Ingo Wolfgang (oe). Consttuigdo Conese, Porto Alegre: Livara do Advogado, 2000, . 117 194 yém de todos 0s lados, ¢, do outro, a salva autonomia | Seth ds pes umn As posses po ana | ‘Epecto tenderio a defender uma ehcécis mais ampla dos direitos fundamentais entre os particulares, enquanto as que conferem um peso maior ao segundo aspecto acabario se alinhando as teses que mitigam de forma mais marcante esta incidéncia. Outro componente importante desta controvérsia concerne & relagio entre os Poderes Legislativo e Judiciério na concretizagio | dos direitos fundamentais: As posicdes favoraveis a um maior ati- vismo judicial endossam as teses que advogam uma aplicagao mais ampla e direta dos direitos humanos na esfera privada, enquanto | os defensores de um papel mais recatado para o Judiciério ten- | dem a afinar-se com as correntes que minimizam as possibilidades | de aplicagio direta dos direitos fundamentais nas relagées particu- lares. O debate sobre tal questdo desenvolveu-se, inicialmente, na Alemanha, logo apés o advento da Lei Fundamental de Bonn, onde foram gestadas as teorias da eficacia direta ou imediata dos direitos fandamentais entre terceiros, e a teoria da eficécia indireta ou me- diata destes direitos, cujos contornos serdo adiante expostos. Foi também no cenério germénico que se delineou posteriormente ‘uma corrente que tentava explicar a penetracio dos direitos funda- mentais no ambito privado através da teoria dos deveres de prote- io aos direitos fundamentais, que afirma que o Estado deve nao apenas abster-se de violar tais direitos, tendo também de proteger seus titulares diante de lesdes ¢ ameacas provindas de terceiros. A discussao contagiou a doutrina de outros pafses do sistema roma- no-germénico, como Espanha e Portugal, onde as mesmas teorias foram e ainda sio exaustivamente debatidas, tanto na academia como nos tribunais. Surgiram, ademais, posi¢des intermedirias doutrinas alternativas, mas todas acaba se batendo sempre em torno das mesmas quest6es: Como e com que intensidade incidem 0s direitos fundamentais nas relag6es travadas entre particulares? Qual a protecio constitucional que merece, neste contexto, a au- tonomia privada? Que papel cabe ao Estado na protecio dos direi- tos fundamentais diante de agress6es e ameacas vindas de particu- lares? A quem compete precipuamente a tutela dos direitos huma- nos nas relacées privadas, ao Legislative ou ao Judiciério? Como 195 compatibilizar a extensio dos direitos humanos & esfera privada ‘coma seguranca ¢ a previstbilidade necessérias a0 trficojuridico? Sem embargo, nos Estades Unidos a questo se insere dentro de moldura bem distinta, Li, firmou-se o entendimento de que as normas constitucionais vinculam apenas o Estado, ressalvada ape- nas a 13* Emenda que proibiu a escravidao. A discussio esté em saber em que casos a conduta de um particular pode ser de alguma forma imputada ao Estado, pois s6 através desta imputagio € pos- sivel obrigar este particular a respeitar aos direitos fundamentais. consagrados pela Constituigio. De qualquer forma, 0 presente estudo teréfinslidade de expor as principais teorias sobre a incidéncia dos direitos fundamentais nas relagSes entre particulares e destacar a aceitagéo que tiveram no Direito Comparado, em pafses como Alemanha, Austria, Fran- ca, Espanha, Portugal, Ita, Sufga, Estados Unidos, Canadé, Ar- gentina e Africa do Sul. Em seguida, nossa intengao € analisar 2 questo sob a ética do ordenamento constitucional brasileiro, com as suas especificidades, para estabelecer os pardmetros de vincule- io dos particulares aos direitos fundamentals em nosso pats. Nes- te trabalho, limitar-nos-emos a0 estudo dos direitos fundamentais individuais, nao examinando a problemitica concernente @ inci- déncia nas relagées privadas dos direitos sociais ndo-trabalhistage politicos e difusos, que envolve uma série de especificidades. Por outro lado, nosso tema suscita uma strie de quest6es core relatas, como a concernente & chamada constitucionalizagao do Di- reito Civil, a relacionada & evolugdo da relacéo entre sociedade e Estado, ¢ entre 0 espaco pablico e o privado na contemporaneida- de, 2 ligada 20 significado e aos limites da protecio constitucio- nal conferida & autonomia privada. Todavia, considerando os li mites de espaco deste trabalho, Fugiremos destas discussbes para~ lelas, pedindo vénia para remeter o leitor para outra obra nossa, em que 0 presente tema é estudado de forma mais completa e apro- fundada’. 3 SARMENTO, Daniel. Direitos Fundamentais e Relagdes Privadas. Rio de Janeiro: Limen Juris, 203. 196 1. A negagio da eficdcia dos direitos fundamentais nas relagSes 1das € a doutrina da “state action” (Coma se destacou acima, no panorama romano-germinico 6 hoje praticamente consensual aideiade que os direitos fundamen- tais penetram nas relasGes privadas, subsistindo dividas apenas em “Felagao a Forma e & extensio desta incidéncia. ‘Sem embargo, na Alemanha, logo apés 0 surgimento da teoria da eficdcia horizontal dos diceitos findamentais, esbogou-se contra tla uma forte reacao, que teve & frente autores como Mangolde* e Forsthof®, e que se baseava numa visio do liberalismo clissico, para afirmar que os direitos fundamentais representavam exclusi- vvamente direitos de defesa em face do Estado. Dentre os argumen- tos Invocados por esta corrente, destacavam-se a tradigio histérica liberal dentro da qual se cristalizaram os direitos fundamentais, 0 texto constitucional alemio, que prevé expressamente apenas a vinculagao dos poderes pablicos aos direitos fundamentais no seu art. 1.3%, bem como a vontade histérica do constituinte, pois nfo se dliscutiu, durante a elaboragio da Lei Fundamental alema, a vincu- lacdo dos atores privados aos direitos fundamentais, j4 que as aten- <6es estavam voltadas para a protecéo contra o Estado, sté pela proximidade da experiéncia nazista, Ademais, alegava-se também Tue a eficcia hortoneal fulminaria a autonosi trivia, des ‘ruiria a identidade do Direito Privado, que ficaria absorvido pelo ‘i derimsnto de TeBsadordemsertio i Ernst Forsthoff chegou a afirmar que a teoria da eficévia hor zontal operaria a dissolucéo da Constituigdo, a0 rebaixé-la dle nor- ima a mera ordem de valores, e evar a0 abandon dos mévodos cldssicos da hermenéutica juridica no Direito Constitucional, dos uais ele era um ardoroso defensor, com efeitos devastadores para 4 Cf. JULIO ESTRADA, Alexei. La effcacia de los derecis fundamentales ‘entre particulares. Bogota: Universidad Externado de Colombia, 201%), ». 98 5 C£.BILBAO UBILLOS, Juan Maria La eficacia..., cit, p. 278. 5H, no referido texte consttucional, apenas um diseita fundar-ntal com cfiicia horizontal expressamente determinadx a liberdade de associ, i sin cal, prevista no art 9,3, que tem de ser respeitada pelos empregador privados 197