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4 • Brasília, quarta-feira, 12 de novembro de 2008 • CORREIO BRAZILIENSE

REFÉNS DO ABANDONO 2

Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press

Exclusão até
nos hospitais
Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press
atendidas no Pro-Paz, 35 delas fi-
ATENDIMENTO MÉDICO caram grávidas em decorrência
A VÍTIMAS DE da violência. O aborto só foi rea-
lizado em 13 casos, já que as ou-
VIOLÊNCIA SEXUAL tras haviam chegado depois das
22 semanas de gestação. Outras
TEM EFEITO LIMITADO. duas meninas encaminharam os
bebês para a adoção. “Em caso
MUITAS VEZES, ELAS de gravidez, o mais normal é que
PROCURAM AJUDA elas cheguem depois do prazo
permitido para o aborto. Nosso
QUANDO A SITUAÇÃO trabalho passa a ser convencê-
las a não rejeitar a gravidez”, la-
É CRÍTICA OU menta Eugênia Fonseca.

IRREVERSÍVEL, COMO Falhas na notificação


O protocolo de atendimento do
APÓS 22 SEMANAS Ministério da Saúde determina
as condições de assistência mé-
DE GRAVIDEZ. dica — com profissionais espe-
SOCORRO DIFICULDADE DE cializados e uma extensa bateria
de exames — para as vítimas de
MÉDICO RECOLHER PROVAS violência sexual. Mas a maioria
dos hospitais não tem equipe ca-
E ENCAMINHAR pacitada para prestar esse nível
de atendimento. E a vítima chega
DENÚNCIAS PIORA num momento de fragilidade tal
que não consegue exigir nada.
A ASSISTÊNCIA Nas cidades pequenas, o proble-
Protocolo de ma é ainda mais grave: as vítimas
atendimento são encaminhadas à capital do
Por lei, as vítimas de silêncio é o maior inimi- estado ou a cidades de maior
violência sexual têm direito
a serem atendidas por
uma enfermeira ou uma
médica caso não se sintam à
vontade com um homem.
Além do tratamento das
O go do tratamento das
crianças e adolescentes
vítimas de violência se-
xual. Quanto maior a demora pa-
ra denunciar os casos, mais gra-
porte para que possam se sub-
meter aos exames necessários.
O cumprimento do protocolo
médico também ajudaria no pro-
cesso de responsabilização do
lesões e do abalo psicológico, ves são as conseqüências deixa- agressor, já que os profissionais
os profissionais de saúde das na alma e no corpo de meni- de saúde comprovariam a vio-
têm que fazer um exame nos e meninas. As vítimas são lência e retirariam do corpo da
físico completo, envolvendo encaminhadas ao tratamento vítima o material necessário para
consulta ginecológica, coleta apenas quando os sinais da vio- constituir as provas judiciais. Na
de amostras para lência já não podem ser escondi- prática, entretanto, há médicos
diagnóstico de infecções dos. Nos hospitais, o abuso e a que até se recusam a emitir o lau-
genitais e coleta de material exploração chegam como pro- do por não ter experiência em
para a identificação do
agressor. Ainda de acordo
blemas de saúde. São barrigas perícia e encaminham as vítimas
com o protocolo, o indesejadas, doenças venéreas, ao IML. "Elas passam por um se-
responsável pelo transtornos mentais. gundo sofrimento, uma segunda
atendimento tem que Clara, 12 anos, serviu sexual- vitimização ao expor o corpo vio-
informar a mulher ou a mente ao padrasto, um homem lado para diferentes profissio-
adolescente sobre o direito de 51 anos, durante doze meses. nais", afirma Graça Gadelha, so-
de tomar contraceptivos de Toda a vizinhança sabia da rela- cióloga e consultora do Progra-
emergência ou de ção entre a menina e o militar ma Partners of the Americas
interromper a gravidez. aposentado, mas ninguém de- (Companheiros da América).
Também deve receitar anti- nunciou o crime à polícia. Sedu- Também há falhas na notifi-
retrovirais que impeçam a
infeção pelo vírus da Aids. A
zida pelo homem que chamava cação da violência na rede de
medicação deve ser dada até de pai, Clara se via no lugar da saúde. Os médicos e enfermeiros
72 horas após o ato sexual mãe. “Ela (a mãe) largou a gente. que constatam uma agressão se-
para ser eficaz. Ele disse para a gente formar xual muitas vezes deixam de dar
uma boa família. Eu aceitei”, o devido encaminhamento ao
conta. Ao chegar ao abrigo Ma- caso, como notificar o conselho
mãe Margarida, de Manaus, a tutelar. “Há profissionais que fi-
menina ainda não entendia que cam com receio de fazer a notifi-
havia sido violentada. cação por acharem que estarão
CLARA, 12 ANOS, GRÁVIDA DE SEIS MESES APÓS SOFRER ABUSO DO PADRASTO DE 51 ANOS EM MANAUS. Apenas quando a gravidez de fazendo uma denúncia e que is-
A VIZINHANÇA SABIA DO CASO, MAS NÃO DENUNCIOU À POLÍCIA. A MENINA MORA EM UM ABRIGO Clara passou a ser visível, o caso so, de certa forma, pode envolvê-
chegou à polícia. O abusador foi los em um procedimento judi-
preso preventivamente. A vítima cial”, explica a coordenadora de
Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press foi mandada ao abrigo da capital Saúde do Adolescente e do Jo-
O teste da Aids do Amazonas. Mas o prazo de vem do Ministério da Saúde, The-
Em agosto, no abrigo vinte e duas semanas de gestação, reza de Lamare.
Dulce Accioly, em que permite o aborto legal, já ha- Em 2006, o governo federal
Belém, Lúcia, 16 anos, via sido ultrapassado. Clara assu- criou o Sistema de Vigilância de
aguardava pelo miu a gravidez indesejada. “Vou Violências e Acidentes ( Viva),
resultado do teste de ter meu filho e cuidar dele, ainda que vai organizar os dados sobre
HIV . Magra, com
não sei como”, reconhece a meni- acidentes, suicídios e violência
feridas nos braços e nas
pernas, chegou ao na, com as mãos sobre a barriga contra a mulher, a criança e o
abrigo tossindo muito. de seis meses. O nascimento do adolescente. O primeiro levanta-
Três meses depois, veio o bebê será a oportunidade para fa- mento do sistema, realizado no
alívio. O exame deu zer o exame de DNA e comprovar ano passado em 84 unidades de
negativo. Outras três a culpa do padrasto. saúde de 37 municípios, mostrou
meninas atendidas na “As vítimas costumam chegar que a agressão sexual é a primei-
Santa Casa, de Belém, aqui quando a situação bateu no ra causa de atendimento a meni-
não tiveram a mesma teto, no insustentável, no indis- nas de 0 a 9 anos. Dos 1.939 regis-
sorte. Receberam testes farçável”, afirma a coordenadora tros de violência contra crianças,
de HIV positivos este
do programa de saúde Pro-Paz 43% eram referentes a abuso ou
ano. Se o atendimento
médico tivesse ocorrido Integrado, Eugênia Fonseca. O exploração sexual. “A implanta-
logo depois da Pro-Paz, como é mais conhecido, ção do Viva vai resolver o proble-
EUGÊNIA FONSECA, COORDENADORA DO PROGRAMA PRO-PAZ INTEGRADO, violência, elas teriam funciona em um anexo do Hos- ma da notificação de violência
EM BELÉM: REFERÊNCIA EM ATENDIMENTO A VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA SEXUAL, tomado o coquetel pital Santa Casa, em Belém. No sexual na rede de saúde”, acredita
É O ÚNICO DISPONÍVEL PARA TODOS OS MUNICÍPIOS PARAENSES anti- retroviral. ano passado, 803 vítimas foram Thereza de Lamare.

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2. Balseiras do Pará aparecem,começam a remar rapidamente para fisgá-los.Se Podcast:
No Rio Tajapurus,uma das maiores estradas fluviais do país, os passageiros da balsa aceitam o programa,elas sobem no Thereza de Lamare fala sobre o
meninas são exploradas sexualmente em troca de galões de barco e deixam seus pequenos casquilhos amarrados no atendimento nos hospitais
óleo combustível.Os clientes são passageiros de balsas de barco grande.A prática existe na região há décadas e
Leia mais na internet:
carga que levam mercadorias entre o Amapá,o Amazonas e o originou uma brincadeira comum.Os meninos costumam Reportagem sobre os problemas
Pará.As "balseirinhas", como são conhecidas,estão sempre zombar um com o outro:“Veja lá,o teu pai é aquele ali que vai nos Institutos de Medicina Legal
em duas.Ficam de prontidão na margem e,quando os barcos na balsa…”

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