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Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo

Faculdade de Arquitetura e urbanismo

Estudo de |re|urbanização do córrego Antonico, na favela de Paraisópolis, em São Paulo

Trabalho final de graduação

Aluno: José Carlos de Medeiros Magliano Filho | Prof. Dr. Eduardo Sampaio Nardelli

Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo

Faculdade de Arquitetura e urbanismo

ESTUDO DE |RE|URBANIZAÇÃO DO CÓRREGO ANTONICO, NA FAVELA DE PARAISÓPOLIS, EM SÃO PAULO

Monografia apresentada como Trabalho Final de Graduação à Universidade Presbiteriana

Mackenzie de São Paulo, como exigência para a Conclusão do curso de Graduação em Arquitetura e Urbanismo, sob a orientação do Prof. Dr. Eduardo Sampaio Nardelli.

Trabalho final de graduação

Aluno: José Carlos de Medeiros Magliano Filho | Prof. Dr. Eduardo Sampaio Nardelli

Agradecimentos

Imagem:'Favela'Paraisópolis'campo de futebol Fonte: caderno urbanístico da PMSP

Agradeço primeiramente a Deus por sempre me guiar na direção correta dentre as tantas lutas que vivi. E aos a meus pais, José Carlos e Edna Magliano, e a minha irmã, Michelle Magliano, que desde meus primeiros passos me auxiliaram, sempre ao meu lado para que eu pudesse me tornar quem sou hoje. Podendo eu, ao lado de outros, pôr em prática tudo aquilo que aprendi com eles. Agradeço a meus amigos, em especial, à turma 405, que fizeram o tempo passar como em um piscar de olhos, visto a maravilhosa companhia que me proporcionaram. Rachel Lopes Fernandes Fonseca amiga, companheira e namorada , a melhor pessoa que pude ter o prazer de conviver na vida, eu sei que você estará sempre me iluminando, esteja onde estiver. Lutou ao meu lado, durante noites em claro, a cada conquista ajudando em grande parte e nunca me deixou desistir. Aos professores, principa- mente aqueles que incentivam, acre- ditam e nos inspiram a continuar estudando arquitetura e urbanismo.

Dedicatória

Imagem:'Favela'Paraisópolis'campo de futebol Fonte: caderno urbanístico da PMSP

A políticas, ideias, organizações e pessoas que acreditam na interação entre a cidade formal com a cidade informal .

Hoje [2011] um terço de moradores de cidades vive em favelas, em 2050 metade da população

mundial viverá em favelas.

Do livro “Vivendo na cidade sem fim”, escrito por 36 estudiosos de urbanismo e publicado pela

editora Phaidon, de Londres.

Imagem:'imagens'da'favela'Paraisópolis,'2010'

acervo'pessoal

Resumo _______________________________________

A

dissertação

objetiva

fazer

um

estudo

estrutural

sobre

a

possibilidade de

reurbanização de favelas, tomando por base a proposta de reurbanização que saiu vencedora em um concurso da Prefeitura de São Paulo. Trata-se da proposta do grupo MMBB.

A ideia não é apenas tentar verificar a validade do projeto que venceu o concurso, mas verificar a aplicabilidade do modelo a uma realidade existente, que é a da favela de Paraisópolis, na cidade de São Paulo, que concentrava no início de 2011 um contingente de mais de 80.000 pessoas avalia-se que a cidade tenha mais de 1.000.000 de pessoas, em 2011, morando em favelas.

Com esse objetivo, as propostas do grupo MMBB serão analisadas, assim como o estudo vencedor do concurso. Também o trabalho analisará as condições de vida nas favelas em geral e a situação atual da grande favela de Paraisópolis, que é vista como uma comunidade pelos moradores.

Nossa abordagem será analítico-dedutiva, tentando demonstrar a viabilidade de aplicação de alguns conceitos propostos pelo grupo à realidade de uma das maiores favelas da cidade de São Paulo. Fotos, croquis, estudos arquitetônicos e as análises sobre algumas questões estruturais serão apontadas.

Dada a extensão do tema, não pretende o trabalho esgotar todos os aspectos referentes às condições de vida na favela, tampouco analisar todos os aspectos urbanísticos do projeto, se adaptado à favela de Paraisópolis. Apresentará o trabalho um material sobre alguns aspectos que poderão ser suscetíveis de urbanização.

Palavras-chave: Urbanismo; favelas; metrópoles; reurbanização; São Paulo.

SUMÁRIO

Introdução

8

  • 1. A problemática da favelização do mundo

28

  • 1.1. Considerações gerais

 

30

  • 1.2. Cidades muito populosas

33

  • 1.3. Urbanização de favelas: níveis de entendimento de tecidos urbanos problemáticos

34

  • 1.3.1 Nível sociocultural

 

34

  • 1.3.2 Nível político-econômico

39

  • 1.3.3 Nível ambiental

43

  • 2. Evolução sócio-histórica das cidades brasileiras

44

  • 2.1. Da casa grande à senzala

 

48

  • 2.2. O capitalismo tardio e o reflexo no desenho urbano das grandes cidades

52

  • 2.3. A favelização no Brasil: ocorrência e estabelecimento das favelas

54

3. Contextualização sócio-histórica de problemas urbanos na cidade de São Paulo

58

  • 3.1. O desenho urbano da cidade: evolução

59

  • 3.2. Favelas paulistanas: síntese histórica

61

  • 3.3. Níveis de entendimento de tecidos urbanos problemáticos na cidade de São Paulo

62

  • 3.3.1 Nível sociocultural

 

63

34.3.2 Nível político-econômico

66

  • 3.3.3 Nível ambiental

69

  • 4. Intervenção em favelas

73

4.1. Tipologia e parâmetros de intervenção em favelas

74

4.2. Exemplos de programas de intervenção em favelas

74

4.2.1. Programa Favela Bairro: uma proposta para o Rio de

75

Janeiro.

  • 5. A intervenção urbana em favelas da cidade de São Paulo

78

5.1. Considerações gerais sobre o tecido urbano problemático da cidade

78

  • 5.1. Experiências de intervenção em favelas paulistanas.

80

5.1.1.

Experiências no governo paulistano atual

81

(2012)

5.1.1.1.

Exemplo: programa Cantinho do

86

 

Céu.

  • 6. Local de estudo: a favela de Paraisópolis

106

  • 6.1. Constituição histórica da favela de Paraisópolis

106

  • 6.2. Divisão em setores na favela de Paraisópolis

107

  • 6.3. Projetos de reurbanização na favela de Paraisópolis

108

  • 6.4. A escolha do local (Paraisópolis)

118

  • 6.5. Área de intervenção e sítio escolhido

119

7.

Estratégias Projetuais

129

  • 7.1. Da escolha do local com relação às estratégias projetuais

129

  • 7.2. Diagnóstico: enquadramento de Paraisópolis numa tipologia de favelas

131

  • 7.3. Hidrografia de Paraisópolis: diagnóstico

134

  • 7.4. Intervenções urbanas viabilizadas e viáveis para Paraisópolis

141

  • 7.5. Projetos de intervenção no Córrego Antonico e outros benefícios

146

  • 7.5.1. Habitação

151

  • 7.5.2. Graus de urbanização com vistas a integrar a favela

152

  • 7.5.3. Transformação do problema em soluções

152

  • 7.5.4. Creche

155

  • 7.5.5. Posto de saúde

155

  • 7.5.6. Centro de (re)integração social como consolidação de espaço informal

156

  • 8. Conclusão

157

  • 9. Referências bibliográficas

163

Introdução

1

I ntrodução 1 Imag em:'P etec a,'2003' Bronze 75'x'13'x'23,5'cm Sandr a'Guinle

Imagem:'Peteca,'2003'

Bronze

75'x'13'x'23,5'cm

Sandra'Guinle

INTRODUÇÃO

A busca do tema desta dissertação que é a conexão ente a cidade considerada formal e a cidade que é tida como informal iniciou-se, embora não conscientemente, em 2009, quando, nos meus estudos de urbanismo, interessei-me por projetos de grupos de arquitetos que tratavam do tema de reurbanização de determinados espaços em megalópoles. A partir da ideia de ressignificar um espaço urbano, para manter as pessoas que ali residem mais conscientes de sua melhor condição de uso do que as difíceis condições em que vivem, sem mínimas condições estruturais e muitas vezes expondo suas vidas a riscos de contraírem doenças e até de terem suas moradias precárias sendo arrastadas em enchentes, essa foi a ideia que me pareceu o mais importante dos conceitos a serem explorados num possível trabalho de pesquisa em Arquitetura e Urbanismo.

Um tecido problemático da grande metrópole que é São Paulo é, sem dúvida, a favela de Paraisópolis, que hoje é, efetivamente, um bairro surgido a partir de um núcleo de moradores, que era a comunidade que deu origem à favela, posteriormente considerada um bairro de São Paulo.

A maioria das construções ali existentes apresenta graves problemas estruturais e convive com córregos não canalizados, entre outras precariedades que, num processo de reurbanização, precisam ser bem estudados.

A justificativa do interesse pelo tema está, justamente, na possibilidade de se conseguir, na prática, a redução significativa das diferenças entre a cidade formal e a cidade informal. Isso será tornado realidade quando, ao longo do tempo, a percepção dos limites entre uma e outra deixe de existir. O meio para se atingir tal objetivo, segundo a proposta que faremos nesta pesquisa, a partir da abordagem de um grupo de arquitetos urbanistas, é a de remodelagem de várias construções, das quais são exemplos a reconstrução de casas, a adaptação de espaços de circulação precária para a criação de parques e algumas outras conexões, tudo dentro de uma visão ecológica diferenciada, que fará com que a cidade informal seja absorvida pela cidade formal e ganhe uma verdadeira valorização, por meio de uma melhor qualidade de vida a seus moradores. Portanto, a possibilidade de inserção das pessoas numa vida urbanizada mais digna, ou seja, a conquista de um espaço planejado para usufruto da cidadania, é a maior justificativa de nosso interesse pelo tema.

8

Nosso objetivo pessoal para o direcionamento da carreira, após a conclusão do curso, é o Planejamento Urbano, área que muito nos interessa, já que, na condução de trabalhos escolares a disciplina PLANURB (Planejamento Urbano) foi a que mais trouxe entusiasmo.

Também justificamos nossa escolha porque vemos que o aluno de arquitetura carrega uma divida como cidadão, porque, ao perceber a divisão entre a cidade informal e a cidade formal, deve, a partir dessa percepção, sentir-se impulsionado a intervir e contribuir para a redução das barreiras que separam uma da outra. Acreditamos, pois, que pensar uma proposta de intervenção para mudar a realidade através de estudos, pesquisas e reflexões é uma das tarefas de quem, como nós, almeja trabalhar com planejamento urbano.

Considerando as grandes questões da cidade de São Paulo, enxergamos que as grandes cidades podem ainda redesenhar seus tecidos urbanos, isso também se pode dizer principalmente de São Paulo, onde nós, todos os que aqui convivemos e especialmente os planejadores urbanos (ou quem pretenda ainda ser um), temos a oportunidade de aplicar a concessão urbanística, com a aprovação do Estatuto da Cidade e a partir do PDE (Plano Diretor Estratégico) e, com isso, podemos intervir em tecidos problemáticos.

Só nos resta concluir que, fazendo o liame entre a importância da reflexão sobre um tecido problemático da cidade, nosso interesse pelo tema com a perspectiva do planejamento urbano e com o uso de institutos legais e estratégicos adequados, este trabalho é plenamente justificável do ponto de vista metodológico.

O problema central que orientou, portanto, a pesquisa foi a questão do urbanismo informal, que é o modo de desenvolvimento dominante nas cidades de maior crescimento do mundo.

Lícia do Prado Valladares (2005, p. 20) mostra a seguinte realidade:

A favela representa mais de 3% da população brasileira. No município de São Paulo, próximo de 11% da população reside neste tipo de assentamento; no Rio de Janeiro, alcança, no ano 2000, 18,7% da população da cidade.

9

Do livro Vivendo na cidade sem fim, escrito por 36 estudiosos de urbanismo e publicado pela editora Phaidon, de Londres (2011, p. 25) extraímos a seguinte constatação: “Hoje [2011] um terço de moradores de cidades vive em favelas; em 2050, metade da população mundial viverá em favelas.”.

Esses dados, assim considerados darão ensejo a que ninguém se orgulhe em um futuro muito próximo de vivermos (mal) em megalópoles completamente inadequadas do ponto de vista da urbanização do espaço de suas moradias. O urbanista Nagamma Shilpiria, propósito da cidade de Mumbai, na Índia, hoje já se assombra com o fenômeno, ao perguntar retoricamente (no mesmo Vivendo na cidade sem fim, p. 30): “Se contarmos sobre nossas casas às pessoas, alguém vai acreditar em nós?”.

O urbanismo informal é o modo de desenvolvimento dominante nas cidades de maior crescimento do mundo. Vivemos em uma época em que mais de 30% da nossa população urbana mundial vive em favelas, como assegura o livro acima citado. Conforme pesquisa realizada em Havard University Graduate School of Design, projeta-se que a metade do nosso crescimento urbano futuro será informal, elevando os atuais 1(um) bilhão de moradores de favela para 2(dois) bilhões até 2030. Apesar desses fatos, a maioria dos arquitetos não trabalha e não sabe como trabalhar nessas áreas. A arquitetura contemporânea, na educação, terá fracassado se não se preparar a próxima geração de arquitetos para o desafio do urbanismo informal.

Com o mundo em uma grande recessão, o urbanismo informal provavelmente irá se expandir ainda mais rápido do que o previsto.

Por mais que esses novos projetos públicos façam para melhorar a vida cívica da favela, pode-se observar que ainda há muito que se fazer para melhorar os problemas ambientais da favela e da metrópole como um todo.

Como na cidade formal, a infraestrutura implantada na cidade informal transporta problemas locais para áreas remotas a água superficial poluída é encanada e muitas vezes direcionada sem tratamento para corpos hídricos distantes, provocando mais inundações e problemas em outras partes da cidade; o esgoto é bombeado por longas distâncias para estações de tratamento afastadas; o lixo é transportado para aterros longínquos.

Concomitantemente, São Paulo passou a não ter mais espaço para o que em informática se chama de infraestrutura remota, ou seja, uma administração de problemas com

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monitoramento à distância, e a exportação de problemas já não é mais uma solução viável. A metrópole começou lentamente a perceber que, em seu vasto território de 8.000 km², o

“distante” é aqui, o remoto está bem à porta de alguém e o “outro lugar” será o quintal de

outrem.

As grandes cidades brasileiras (como São Paulo) recebem diariamente milhões de pessoas entre moradores e transeuntes; a economia e a produção aceleram-se, e o crescimento dessas cidades torna-se, então, inevitável. Reflexos disso são as edificações que passaram a brotar no meio urbano de uma forma cada vez mais agressiva e marcante, o crescimento desordenado em meio a periferias e favelas e a mudança do traçado de ruas e avenidas. Em meio a essa intensa movimentação e transformação, as construções antigas, espalhadas pelo espaço urbano, são esmagadas no crescimento das cidades contemporâneas, ficando sujeitas ao abandono e à degradação. Essa degradação, por sua vez, não atinge apenas o objeto arquitetônico em questão, mas também o entorno em que está inserido.

O caso de São Paulo é bastante emblemático do ponto de vista do contraste entre o velho e o novo. Muitos são os imóveis tombados espalhados pela cidade que sofrem com o abandono e com o descaso. Parece que o próprio ato de tombar já condena o patrimônio à destruição, uma vez que a impossibilidade do dono do imóvel usá-lo a seu bem entender e a falta de recursos do governo em mantê-lo impedem que o imóvel se mantenha em bom estado. E não é só isso: o mercado imobiliário com a intensa sede em lucrar com qualquer coisa demole exemplares de nossa arquitetura.

Embora aparentemente desconexas com a problemática aqui analisada, pode-se perguntar sobre a reurbanização das favelas e questões como essas de imóveis tombados, desvalorizados ao lado de um mercado imobiliário cada vez mais especulador.

Cremos ser a pesquisa plenamente justificável porque tentará se aproximar dessa problemática da reurbanização em um ambiente socioeconômico de desconhecimento das precárias condições de vida em favelas, ao lado de forte empenho capitalista em forjar a especulação imobiliária, algo que é profundamente desinteressado de manutenção de estruturas urbanas históricas, por exemplo, ou que usa as estruturas segundo seus interesses, seja ela uma habitação periférica precária, um imóvel tombado pelo patrimônio histórico.

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Dadas estas circunstâncias, é de se perguntar: A urbanização das favelas deve sempre incluir a importação de todos os problemas da cidade formal? Essa pode até vir a ser a hipótese central do trabalho, especialmente a partir do estudo direcionado que propomos a seguir. Ela realiza a conexão entre a preocupação com imóveis tombados, especulação e outras questões problemáticas da cidade gigantesca que parece crescer sem planejamento organizado. Em busca da cidade formal, qual será o melhor caminho para a cidade informal? Eis aí também uma pergunta a merecer pesquisa, dentro da extensa e complexa problemática desse tecido também problemático que é a favela.

O estudo da favela de Paraisópolis, ou do bairro que surgiu a partir dessa favela, é o foco de nossa pesquisa. A título de ilustração, apresentamos a seguir alguns aspectos interessantes e curiosos sobre a ambiência desse complexo local que abriga por volta de 80.000 pessoas ali residindo e exercendo, na medida da sua organização precária, sua vida cotidiana na metrópole agitada que é São Paulo.

Questões de ordem estritamente humanística podem ser apresentadas em primeiro plano, já que qualquer intervenção na realidade arquitetônica e urbana diz respeito principalmente às pessoas. Assim sendo, uma das constatações mais elementares é a de que os assentamentos informais existem e não podem ser negados pelo poder público tampouco pelos demais cidadãos que não habitam nele. Para as pessoas que lá convivem, os problemas são muito semelhantes aos de qualquer cidadão da metrópole e deles decorrem as mesmas preocupações com trânsito, saúde, emprego, serviços apropriados de qualquer cidadão de São Paulo.

Apesar de não parecer óbvia a todos, as comunidades, em geral, funcionam assim:

buscam organizar-se em função das demandas da grande cidade, do grande entorno que ajuda a compor a vida social em qualquer lugar onde se viva. Essa contextualização humana, portanto, é algo que deve ser tido em conta, especialmente porque arquitetos, em geral, têm uma compreensão distante dessas habitações precárias, por não terem familiaridade com essas situações de precariedade de vida, especialmente em suas experiências pessoais. O contato com essa realidade humana da vida na favela pode e certamente vai enriquecer a experiência pessoal de quem se debruçar para estudá-la, porque descobertas instigantes certamente advirão desse contato, algo que pode permitir melhor endereçar as conclusões decorrentes dos estudos

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e prover de melhores condições de vida as populações que habitam a favela, a partir de propostas potencialmente realizáveis.

Uma segunda ordem de questões diz respeito às possibilidades técnicas de intervenção.

Ao nos aproximarmos dessa realidade informal da cidade, constatamos uma decorrência da pouca familiaridade dos arquitetos com a realidade informal das habitações precárias na cidade grande de que falamos dois parágrafos atrás: os assentamentos informais são enigmas do ponto de vista arquitetônico, daí fica difícil saber como se sustentam as estruturas que deram origem a todas as construções ali existentes, tampouco qual o valor que se pode atribuir a essas estruturas e construções.

Tais enigmáticos assentamentos incorporam-se à cidade e formam um tecido urbano contemporâneo, assim sendo, podem suportar uma completa reforma ou reforço do possível ambiente construído em qualquer cidade moderna. Isso poderia significar obras radicais devido às condições existentes irregulares, levando a novos tipos de urbanização.

As questões mais diretamente ligadas ao meio ambiente talvez preocupem, quando se aventa a hipótese de obras radicais, mas, devido à falta de tecnologias modernas incorporadas às estruturas existentes nesses assentamentos, algumas soluções sustentáveis as quais, obviamente, pensam a questão ambiental, em sua essência, de forma responsável podem vir a ser implantadas com alguma abordagem menos onerosa. Em outras palavras: a população ali existente pode ser receptiva a um modelo que associe desenvolvimento com preservação ambiental, por meio de soluções econômicas, já que tem expectativa por soluções criativas, de baixo custo e duradouras, não prejudiciais ao meio ambiente em uma expressão: que lhe garantam a existência simples e prática. A solução ecológica e economicamente viável não será tecnicamente impossível ao contrário disso, será, por suposto, potencialmente assegurada.

Várias são as mudanças físicas projetáveis quando se pensa em reurbanizar um tecido urbano problemático como uma grande favela. Mas, há também mudanças econômicas que poderiam ser promovidas ou estimuladas.

Algumas ideias vindas de outras cidades (como um projeto pensado para Paris, conforme exporemos mais adiante) podem incorporar essas comunidades ao mundo digamos regular da cidade, ao torná-las economicamente ativas e dar às pessoas novas

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possibilidades de diariamente.

percepção

visual do

espaço que

as circunda

e

que

elas

frequentam

A modelagem de novas atividades econômicas surge como uma alternativa mais compreensível e que deve ser usada para conquistar esse objetivo de ativação econômica e estímulo a novas percepções visuais.

A base para tal mudança começa com uma profunda alteração nas políticas sociais, ideia em que os modernistas acreditavam. O urbanismo e a arquitetura podem acompanhar as políticas sociais. O de que precisamos são macropolíticas, não só uma política isolada.

Não é incomum se ouvir de jovens que moram em distritos distantes que, ao procurarem determinados empregos e obterem a possibilidade da vaga, por terem chegado às últimas entrevistas, por exemplo, acabam sendo recusados exatamente porque moram em distritos distantes.

Ideias muito pouco aprofundadas ocorrem aos planejadores e arquitetos, como a que foi promovida em Bilbao, com o museu Guggenheim: todos achavam, sobretudo no mundo político, que seria suficiente colocar um museu para melhorar a região. E isso não se mostrou verdadeiro, principalmente porque não há sempre o dinheiro para transformar tudo, já que os problemas são bem mais complexos do que o poder econômico supõe.

Um exemplo dessa solução passo a passo foi a questão da moradia na cidade de Antuérpia, na Bélgica, onde havia, numa determinada ocasião, um grande contingente de jovens que queriam morar no centro ou em locais muito próximos ao centro da cidade. Essa demanda fez com que organizassem suas moradias para adaptá-las a suas necessidades. Obviamente, o movimento do centro da cidade, com a chegada de jovens e famílias atraídas pela ativação econômica do centro, aumentou. A necessidade da também organização de quem queria morar no centro, assim como os jovens fizeram, começou a ser pensada e posta em prática, pois a mentalidade de quem vinha era de que, se os jovens conseguiram pôr em prática sua organização, as novas famílias também poderiam fazê-lo.

A possibilidade de abordar a questão do tecido problemático da grande cidade pode ser encarada, a partir de um projeto de reurbanização, como uma oportunidade de aproveitar concepções artísticas a partir de ideias surgidas no próprio seio da comunidade existente num tecido urbano problemático. No caso de Paraisópolis, algo não convencional, evidentemente

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surgido como excepcional ao contexto que não é o da cidade formal, foi a solução encontrada pelo senhor Estêvão Silva da Conceição com a sua “Casa de Pedra” (foto abaixo).

surgido como excepcional ao contexto que não é o da cidade formal, foi a solução encontrada

A fama do morador de Paraisópolis ultrapassou os limites da favela e do Brasil depois que passou a ter sua casa comparada com a obra do arquiteto catalão Antoni Gaudí.

O “Guia Fique em São Paulo”, edição de 2007, da Publifolha, assim descreve (na página 123) a atração turística que denomina “Casa de Paraisópolis”:

R. Herbert Spence, 38, Paraisópolis (acesso pela r. Jeremy Bentham). (11) 3773- 7135. Sáb. dom. e feriados 9h-17h (agendar). (contribuição).

A casa do faxineiro baiano Estevão Silva da Conceição é uma jóia criativa em plena favela. Dada a falta de espaço, Estêvao fez em 1985 uym jardim suspenso na entrada da casa. Usando um trançado de ferro reforçado com cimento, ergueu uma estrutura emaranhada: em cada intersecção, pendurou um vaso de planta. Na parte superior do jardim, pôs vasos com temperos e verduras. O passo seguinte foi revestir a estrutura com mosaicos de cacos de cerâmica, conchas, tampinhas e pedras recolhidas por ele. Vem sendo comparado ao gênio catalão Antonio Gaudí, autor de obras como o Parc Cüell e a Catedral da Sagrada Família, em Barcelona. A casa de Estêvão pode nos lembrar o fundo do mar e castelos de areia.

Além de curiosos, a casa costuma receber a visita de estudantes de arquitetura.

O bairro do Morumbi, onde se localiza Paraisópolis, também tem curiosamente outra

atração de “turismo social”, que é a Favela Monte Azul (no mesmo guia, na edição de 2007,

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aparece descrita na página 124), esta incorporada como ponto de visitação interessante a partir

da Associação Comunitária Monte Azul (ACOMA). No “site” da Associação, na Internet

(http://www.monteazul.org.br/institucional_quemsomos.php), está exposta uma das práticas que orienta o ideal de Ute Craemer, a pedagoga alemão que criou a Associação, a partir das ideias da Antroposofia (que fundamenta a pedagogia Waldorf, de Rudolf Steiner). Transcrevemos a essência dessa prática na favela Monte Azul:

De forma natural, como concretização de suas convicções, o ideal da educadora Ute ganhava forma: criar uma ponte entre realidades sociais diferentes, como um caminho possível para melhorar o mundo. 1

Com o aproveitamento dessas iniciativas artísticas e culturais (a ACOMA promove espetáculos de dança, teatro, tem oficinas de reciclagem de papel, entre outras iniciativas) poder-se-iam prover os moradores dessas comunidades dos mesmos benefícios da cidade formal, adaptados às necessidades dessas comunidades e sem explorá-las. Por meio da construção de conexões físicas entre a cidade formal e a informal, a qual é separada por grandes avenidas e uma cultura existente de separação das favelas brasileiras com relação ao restante da cidade tida como formal, ou seja, com a ruptura do isolamento, surgem perspectivas de transformação da realidade precária dessas comunidades.

Segundo Bernardo Secchi, tal isolamento é similar ao que é visto na periferia de Paris,

onde os moradores também ficam isolados da cidade “central”.

Transcrevemos abaixo notícia sobre Bernardo Secchi referente à questão das favelas:

As favelas se tornaram um fenômeno tão onipresente que é impossível acabar com elas.

“Não temos tempo, meios nem dinheiro para fazer isso”, disse à Folha o italiano

Bernardo Secchi, 75, um dos urbanistas mais renomados do mundo.

Secchi é um dos dez urbanistas convidados pelo presidente francês Nicolas Sarkozy para pensar a Paris de 2030. Fez também planos para Madri, Roma e Londres.

A ideia de acabar com as favelas foi uma ilusão modernista, segundo ele. “Temos de partir da cidade que existia antes da modernidade, quando as cidades eram mais diversificadas”, explicou numa conferência em São Paulo para 450 pessoas. A convite da Prefeitura de São Paulo, Secchi visitou a favela de Paraisópolis, alvo de um plano de urbanização e de construção de moradias que envolveu sete arquitetos. Elogiou o projeto,

1 Disponível em: <http://www.monteazul.org.br/institucional_quemsomos.php>, acesso em 29/11/2011.

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mas criticou os prédios públicos (pela falta de “majestade”, qualidade essencial a esse tipo

de construção).

Outro problema de Paraisópolis e das favelas brasileiras, segundo ele, é similar aos encontrados na periferia de Paris: elas ficam isoladas da cidade. (transcrito do jornal “Folha de São Paulo, de 29 de abril de 2010). 2

Ainda considerando a delimitação, identificamos a seguir o objeto projetual, que é o processo de reurbanização do bairro de Paraisópolis.

A reformulação das moradias baseia-se em residências com visões ecológicas inovadoras, como, por exemplo, utilizar-se uma parte do espaço em que as famílias vivem (possivelmente os telhados estruturados) para captação da água das chuvas, solução que se integra a um sistema climático que permita o cultivo de hortas hidropônicas. O envolvimento da comunidade nesse tipo de solução é fundamental, daí o treinamento e o desenvolvimento de técnicas tornam-se ferramentas decisivas para o sucesso de qualquer empreendimento desse tipo, que pode até vir a gerar um pequeno comércio, algo que colaborará certamente para diminuir as barreiras formais entre a favela e a cidade que a isola. Assim como essa solução, o projeto que estudaremos busca desvendar valiosos espaços públicos que se espreitam em vielas, telhados, esquinas, corredores e fachadas e que estão, pela falta de ideias de reurbanização sustentável, inutilizados. É necessário olhar cuidadosamente para a conexão de um programa de reurbanização com cada viela existente em Paraisópolis, a fim de se descobrirem novas possibilidades de espaço. A tarefa de preencher esses espaços desocupados com atividade, vida e propósito requer um novo estímulo: conectar espaços, introduzindo um sistema de conexão infraestrutural interligado, pela simples reabilitação de superfícies com a ocupação dos vazios existentes e a reabilitação de cada casa de acordo com um plano de interligação. Parques podem ocupar antigas áreas de risco, prevenindo invasões futuras. Remover moradia das áreas de deslizamento de terra não é medida suficiente para resolver a questão da legalidade, pois as pressões que conduziram os moradores a essas áreas irão trazê-los de volta. Com os parques, a comunidade ganha preciosos espaços abertos e simultaneamente evita calamidades futuras.

2

Folha

de

São

Paulo,

de

29

de

abril

de

2010.

Reproduzido

no

blog

Zanguizarreio

em:

<http://zanguizarreio.wordpress.com/>, acesso em 29 de maio de 2011.

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Uma outra medida interessante é a introdução de áreas verdes, que podem abrandar o escoamento superficial e estabilizar o solo. Concluindo: este projeto se restringe a desenvolver infraestrutura na cidade informal através de conexões que visam ligar a cidade formal e a informal pela ocupação dos vazios existentes na cidade informal e a utilização de um modelo de reconstrução habitacional sustentável; ambas as medidas serão interligadas a uma rede de centralidades urbanas, constituída por parques, hospital de grande porte, campos de futebol, escola técnica. Em suma:

na cidade informal criam-se novas conexões com a cidade formal. Se pensarmos no dimensionamento, ou seja, na abrangência do projeto, vemos que ele pode ser implantado em todo o tecido problemático, por meio de uma medida que traga mais equilíbrio ao meio ambiente: fazendo o tecido verde incorporar-se às grandes glebas problemáticas, até tornar-se majoritário. Temos consciência de que não se está a elaborar um projeto mágico para essa área problemática, mas temos, sim, a pretensão clara de colaborar com um fator de mudança que possa transformar a cidade toda. O corpus da pesquisa apresenta-se, pois, como sendo o bairro de Paraisópolis, cujo fator desencadeador da existência foi a favela Paraisópolis. O local do projeto será, então, a favela de Paraisópolis, situada nas proximidades da Avenida Giovanni Gronchi e da Avenida Manuel Antônio Pinto.

Apresentamos abaixo algumas referências arquitetônicas e urbanísticas, como forma de oferecer uma visão inicial do projeto.

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Essa parte de Paraisópolis é um exemplo da divisão entre a cidade formal e a informal.

Essa parte de Paraisópolis é um exemplo da divisão entre a cidade formal e a informal. A urbanização pode fazer sumir a linha divisória clara na imagem (o muro do condomínio de luxo, junto ao qual já estão erguidas moradias precárias).

A principal tarefa analítica deste trabalho será a avaliação de projetos de urbanização. Ideias são abaixo apresentadas a título de sugestão de viabilidade de eventuais projetos.

A primeira dessas ideias é a produção local no Grotão. Ela é essencialmente uma proposta de um sistema de infraestrutura para a agricultura, a qual cresce e atua como estratégia amplamente descentralizada que promove a integração total do sistema por meio de um grande número de interconexões na comunidade. A malha criada por essas interconexões atua na distribuição das cargas de infraestrutura de modo que, se uma conexão falhar, a carga pode ser assimilada por outra conexão.

A sintaxe tectônica-material e o processo de crescimento vegetativo seguem o caráter informal da organização da favela.

Uma proposta de agricultura sustentável é apresentada por Mitchel Joachim e se chama

“hortas suspensas”, solução que não se vê em nenhum lugar do Primeiro Mundo –

obviamente, não há também no chamado Terceiro Mundo.

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Um projeto como esse terá garantia de funcionalidade se abranger todos os níveis possíveis social, segurança, educação, redução da pobreza – e criar uma “argamassa” entre os elementos da rede social.

O sistema conecta diretamente os dados dos mapas do município de São Paulo a um modelo espacial em terceira dimensão que otimiza a intensidade e distribuição das conexões (links) das redes de infraestrutura. Os caminhos de conexão baseiam-se nos atributos das casas existentes, visando à implantação de serviços públicos nas moradias sem água encanada nem esgoto, bem como à solução de problemas decorrentes da declividade, da densidade e da drenagem do terreno.

Um projeto como esse terá garantia de funcionalidade se abranger todos os níveis possíveis – social,

Um modelo de “hortas suspensas”, de Mitchell Joachim

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A ideia de plantio hidropônico 25
A ideia de plantio hidropônico 25

A ideia de plantio hidropônico

25

O presente trabalho visa a dar uma contribuição (que estimamos que possa ter uma dimensão social apreciável) aos estudos de Planejamento Urbano, especialmente quanto a tecidos problemáticos das grandes cidades.

Vemos grande relevância social na questão de inclusão de populações à margem da cidade formal – não apenas no sentido mais espacial da noção de “marginalidade” (pois normalmente se encontram em localidades periféricas das grandes cidades), mas principalmente pela separação social com respeito ao restante da cidade, a começar pelo entorno.

No Brasil, especialmente na maior cidade, que é São Paulo, uma grande concentração urbana não formal, como é o caso de Paraisópolis, merece toda a atenção de planejadores.

A questão da formalização, na busca por não se promover a repetição de erros da cidade formalmente constituída, é uma proposta que serve como objetivo geral ao menos tentar encaminhar respostas para a questão de se é possível não repetir determinados erros de política de urbanização e planejamento urbano no processo de populações terem seus espaços de convivência diária (moradias) remodelados para ingresso no mundo formal da cidade.

A questão é vital e determinará muito do futuro de nossa vida nas grandes cidades.

Neste trabalho, cujo foco é a preocupação com projetos de reurbanização de espaços da favela de Paraisópolis, em São Paulo, o objetivo específico é analisar projetos e criticamente propor algumas soluções viáveis para uma nova dinâmica do bairro de Paraisópolis que respeite os atuais moradores desse tecido problemático e de seu entorno, em consonância com a lei e com a sustentabilidade ambiental.

Como em qualquer trabalho acadêmico, ainda que a proposta de trabalhos que tenham como foco o Planejamento Urbano haja preocupações de implantação, para tentar verificar a maior quantidade possível de aspectos envolvidos na realidade estudada, não haverá possibilidade de que este trabalho esgote completamente o assunto. Nossa proposta é refletir sobre projetos para Paraisópolis. A intenção inicial será verificar o projeto vencedor de um concurso de revitalização de favelas em São Paulo, proposto pela empresa MMBB. Já há uma realidade proposta pela iniciativa pública para o bairro em questão. Entendemos que é nossa função não opinar, mas verificar a viabilidade da solução geral apresentada por esse grupo, com argumentos críticos e até acréscimos vindos de outras contribuições sobre o tema. Assim

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é que o objetivo específico será ampliado para um projeto que parta das soluções não apenas do MMBB, mas de tudo o que pudermos elencar de possibilidades para aquela região da cidade de São Paulo.

Por se tratar de questão relevante para o futuro da cidade, vemos como um exercício de cidadania a proposta deste trabalho. Acreditamos que uma das funções do arquiteto que se preocupa com planejamento urbano deva ter é a de colaborar tecnicamente para a viabilização de soluções urbanas aceitáveis. É o que pretenderemos fazer.

Nesse sentido, trataremos inicialmente de buscar entender o problema da favelização no mundo, para depois entender a mesma questão na realidade brasileira, para em seguida especificamente tratar do problema na cidade de São Paulo. Nossa abordagem partirá, pois, de uma visão geral para um universo particularizado. Dentro da cidade de São Paulo, procuraremos desvendar o fenômeno Paraisópolis e traçar propostas para um trecho problemático daquela localidade, que é o córrego Antonico. Ao longo do trabalho poder-se-á constatar que a escolha por esse córrego decorreu de ser ele um dos trechos em que as condições de habitabilidade estão mais prejudicadas em Paraisópolis e, portanto, é um trecho que requer grande atenção por parte de quem esteja preocupado com a melhoria da ocupação das áreas em seu entorno sem os problemas que hoje lá acontecem e de que trataremos no decorrer do trabalho.

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1. A PROBLEMÁTICA DA FAVELIZAÇÃO DO MUNDO

A palavra “favela” originou-se no português do Brasil. Em Portugal, a área que no Brasil se chama favela chama-se bairro de lata; em Angola, o termo utilizado é musseque. Seja qual for o termo, a favela é definida pela agência das Nações Unidas UN-HABITAT United Nations Agency For Human Settlements [ou Agência das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos] como uma área degradada de uma determinada cidade caracterizada por moradias precárias, falta de infraestrutura e sem regularização fundiária. O termo inglês é slum, designativo também de cortiços, bairros pobres ou ruas sujas.

A situação de favelização no mundo, segundo o UN-HABITAT, é grave. Veja-se o exemplo da cidade de Mumbai, na Índia. Dos praticamente 16 milhões de habitantes da cidade, 8 milhões e oitocentos mil vivem em favelas, ou 55% da cidade. Essa cifra repete-se para o país todo, conforme se vê no quadro estatístico divulgado no site da UN-HABITAT na Internet, reproduzido abaixo:

Urbanisation

Total Population:1025m

Urban population:28%

Slum to urban population: 55%

Annual population growth rates:

Urban: 3%

Slum: 2%

(2001 estimates)

Fonte: Site da UN-HABITA na Internet, endereço:

<http://www.unhabitat.org/categories.asp?catid=46>, acesso em 27/04/2012.

Pela estatística, enquanto o crescimento urbano é de 3%, o das favelas é de 2%. Se a Índia possui 1 bilhão e 25 milhões de habitantes, dos quais 287 milhões vivem em áreas urbanas, deduz-se, pela estatística acima mencionada, que 157.850.000 pessoas vivem em favelas na Índia, ou cerca de 82,75% da atual população brasileira (segundo o Censo do IBGE de 2010, calculada em 190.755.800 pessoas).

Segundo o Relatório das Metas para o Desenvolvimento do Milênio The Millenium Development Goas Report de 2007, da Organização das Nações Unidas, a porcentagem da população urbana que vive em favelas diminuiu de 47% para 37% cento no mundo em desenvolvimento, no período entre 1990 e 2005 (figura abaixo).

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População urbana que vive na condição de favelada, 1990, 2001 e 2005 em porcentagens. Fonte: UNITED

População urbana que vive na condição de favelada, 1990, 2001 e 2005 em porcentagens. Fonte:

UNITED NATIONS THE MILLENNIUM DEVELOPMENT GOALS REPORT 2007, disponível em < http://www.un.org/millenniumgoals/pdf/mdg2007.pdf>, acesso em

27/04/2012.

Essas estatísticas, entretanto, não continuam otimistas após 2005, pois, devido ao crescimento populacional e ao aumento das populações urbanas, o número das pessoas que moram em favelas continua crescendo no mundo. Um estudo de Mike Davis dá conta de que um bilhão de pessoas no mundo, hoje, vivem em favelas 3 , e esse número provavelmente irá crescer para 2 bilhões em 2030, dados do próprio Relatório Millennium Development Goal, das Nações Unidas, mesmo o relatório Estado das Cidades do Mundo 2010-2011: Unindo o

3 Davis, M. Planeta favela, trad. de Beatriz Medina, p. 15.

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Urbano Dividido”, divulgado pela UN-HABITAT em 2010, ter apontado que 227 milhões de pessoas deixaram de viver em favelas na década de 2000.

Urbano Dividido ”, divulgado pela UN -HABITAT em 2010, ter apontado que 227 milhões de pessoas

Favela Dharavi, em Mumbai, Índia, considerada uma das maiores do mundo: apesar

de distribuir-se em apenas 6% da área da cidade, concentra 55% da população de

Mumbai. Ela foi palco do filme indiano de sucesso “Slumdog millionaire” [traduzido em português do Brasil como “quem quer ser um milionário?” – mas cuja tradução mais precisa seria “Milionário cão de favela”]

A partir da comparação entre esses números gigantescos, passaremos a tecer algumas considerações sobre a questão ampla da favelização.

  • 1.1 Considerações gerais

Mike Davis utiliza o termo “shack” para designar uma habitação precária. A tradução para o português seria algo como “cabana”, “choça” ou “barraco”. O relatório de 2007 já citado da UN-HABITAT caracteriza “slum” uma área que combina, em certa medida, as seguintes características:

-falta de acesso à água potável;

-falta de acesso a saneamento e outras infraestruturas;

-má qualidade estrutural de habitação;

-superlotação;

- status de residencial inseguro.

No relatório "The Challenge of Slums: Global Report on Human Settlements 2003" ["O desafio das favelas: Relatório Global sobre assentamentos humanos 2003"] da UN-

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HABITAT, “slum” é temo que tem sido tradicionalmente utilizado em referência a áreas de

habitação que já foram respeitáveis e que se deterioraram quando os habitantes originais mudaram-se para novas e melhores partes das cidades, porém também é aplicado aos vastos assentamentos informais que se podem encontrar nas cidades do mundo subdesenvolvido e em desenvolvimento.

A associação do termo “slum” ou qualquer termo que se relacione a habitações precárias favelas, cortiços, shacks à pobreza parece ser imediata. Uma questão muito debatida é da carga pejorativa do termo, especialmente entrevista pelos moradores dessas áreas. Em Motala Heights, região de Pinetown, na África do Sul, um protesto contra a desocupação da área em 24 de fevereiro de 2008 opôs a massa de moradores das habitações precárias que teriam que desocupar a área a partir de uma solicitação de um vereador local para que fizessem isso contra os representantes dos proprietários ricos em busca de lucros e especulação sobre as terras ocupadas pelos pobres. As ameaças de despejo, com intimidação armada, já vinham de 2006. Um site na Internet, de um dos representantes dos moradores, Abahlali Base Mjondolo 4 , mostra a gravidade dos conflitos, que são desencadeados não apenas na África do Sul, mas em praticamente todas as áreas de favelas do mundo, simplesmente a partir da caracterização da área como “slum” ou de favela. A simples menção do termo traz a associação, nos moradores, a ordem despejo.

O uso de força e intimidação armada feito pelas autoridades governamentais aliadas a interesses de ricos não é novidade do século XX. O documentário “Como surgiram as grandes cidades: Desconstruindo Paris”, da Discovery Channel, mostra como era a situação no final do século XVIII em Paris. Reproduzimos o início do terceiro capítulo 5 :

Em 1785, a população de Paris chegou a 600.000 pessoas morando em cortiços no centro da cidade. A pobreza gerou descontentamento e revolução. As casas viviam cheias, a pobreza era geral. Instalações sanitárias praticamente não existiam e doenças estavam em toda parte. A expectativa de vida era de 40 anos. A morte estava em cada esquina.

A situação era a mesma relatada quanto às características das favelas de hoje, talvez um pouco pior porque não havia acesso sequer à água potável e não se conheciam os avanços de

  • 4 <http://abahlali.org/node>, acessado em 27/04/2012.

  • 5 Discovery Channel, “Como surgiram as grandes cidades: Desconstruindo Paris”, Londres: Discovery Channel,

2010, trecho 24min:27s a 27min:47s.

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prevenção e cura de doenças transmissíveis por micro-organismos.

As condições de higiene só pioraram. Em 1832 e em 1848 duas epidemias de cólera devastaram Paris: a primeira matara 20 mil pessoas, a segunda, 19 mil. As casas amontoadas em ruas estreitas e vielas lúgubres, sistemas de esgoto a céu aberto, higiene comprometida, ar puro inexistente, luz do sol insuficiente, tudo isso colaborava para outras doenças como o tétano e o tifo.

Em 1853, o então regente da França, Napoleão III, nomeou George-Eugêne Haussmann, ou o Barão de Haussmann, para ser prefeito do departamento do Sena. As reformas urbanas em Paris, já imaginadas por Napoleão Bonaparte, o tio do então regente, iriam ser finalmente postas em prática. Além de tentar controlar a insalubridade quase completa, outro fator contribuiu para seu início: a necessidade de debelar revoltas, já que de 1827 a 1849 por oito vezes barricadas foram erguidas na cidade.

Com carta branca do imperador, Haussmann impôs uma mudança radical em Paris. Reproduz-se a seguir trecho de uma súmula histórica do trabalho de Haussmann, publicada no Portal Terra da Internet 6 :

Com brigadas de operários treinados em demolição, com muita pólvora à disposição e coragem para fazer as incontáveis desapropriações, tendo o poder do imperador às suas costas, o destemido prefeito rasgou o ventre da antiga capital em todas as direções. O antigo casario foi posto abaixo e, em seu lugar, surgiram os amplos bulevares todos com novas construções padronizadas, apoiadas por serviços de esgoto, gás encanado e abastecimento de água tratada fornecida por 600 quilômetros de aquedutos.

No lugar das cento e vinte mil habitações destruídas por Haussmann surgiram outras 320 mil modernas, em 300 quilômetros de novas vias que foram sendo construídas nos vinte anos seguintes, cuja altura padrão não ultrapassava os seis andares.

Além disto, abriu espaços para os parques públicos (Bois de Boulonne e de Vencenes, além dos parques Monceau e Montsouris) como tratou de fazer com que os trens vindos do interior desembarcassem dentro da cidade (Gare Lyon, Gare du Nord, erguidas entre 1855 e 1865).

O que chama a atenção na súmula não é o trabalho urbanístico, mas os métodos de confrontação entre classes. Da mesma forma como na Paris do século XIX, os guetos da África do Sul também sofrem com esse tipo de confronto. O mesmo acontece em várias partes

6 “A Paris de Haussmann, o artista da destruição”. Portal Terra, Notícias Terra, Educação: História. Disponível em: <http://noticias.terra.com.br/educacao/historia/noticias/0,,OI4677883-EI12887,00-A+Paris+de+Haussma nn+o+artista+da+destruicao.html>, acesso em 27/04/2012.

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do mundo. Aparentemente, a ideia de morar em favela, que é resultante de vários fatores geradores de pobreza, é um fator de enfrentamento entre as classes sociais mais abastadas e as de menor condição econômica.

1.2 Cidades muito populosas

Luiz Gonzaga de Sousa liga o problema da favelização ao crescimento exacerbado das cidades. Sobre esse problema, assim se manifesta Luiz Gonzaga de Sousa 7 :

O mundo inteiro tem presenciado um crescimento exacerbado de suas cidades e, em especial, das capitais dos Estados, de cada nação, tendo em vista ser onde fluem mais recursos distribuídos em empregos para todas qualificações. Isto ocorre porque o mundo, nestes últimos anos, tem crescido assustadoramente, com grandes concentrações nas capitais dos Estados e nas grandes cidades interioranas, porque os desejos pessoais foram incitados e todo mundo quis ter vida melhor. Frente a isto, inicia-se, de imediato, a busca de implementar as satisfações pessoais nos lugares mais promissores, contudo, sem as devidas qualificações de trabalho para as novas descobertas que se acabam de fazer. É desta forma que surge a inchação das cidades e implementa-se uma situação sem controle pelas autoridades maiores em dar condições de vida para os novos inquilinos que buscam a sobrevivência sobre todas as coisas e é neste clima que surgem as favelas.

O problema das favelas está ligado com os superpovoamentos e, em especial, a migração campo/cidade. A história carrega em seus ombros uma lista vasta de exemplos riquíssimos de aprendizado e sofrimento. Na época de Sir Thomas Robert MALTHUS (1798), a superpopulação constituía um problema de uma gravidade assustadora. Basta ler o seu livro sobre população que vai se encontrar a preocupação e a terapia recomendada para tal problema. MALTHUS (1792) fez um extenso estudo sobre a evolução da população de alguns países de sua época e constatou que havia uma desproporcionalidade entre o crescimento populacional e a produção que efetivamente estava sendo gerada. Isto geraria falta de produtos e, condicionado pelo poder oligopolístico, originaria as crises e, consequentemente, a miséria e a pobreza.

O aumento da população não depende apenas do número maior de nascimentos do que de óbitos (crescimento vegetativo), mas também da migração. O artigo de Luiz Gonzaga de Sousa trata também desse aspecto do crescimento da população:

A migração é uma fuga da miséria do campo, pois, a ilusão de um salário mínimo constitui a esperança de uma vida menos ruim do que viver na exploração incessante dos

7 “Favela: bolsões de miséria”. “Economia, política e sociedade”, portal Eumed.net. Disponível em:

<http://www.eumed.net/libros/2006a/lgs-eps/4a.htm>, acesso em 27/04/2012.

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latifúndios. A fuga do homem do campo para a cidade é mais uma frustração que brota e cresce. Esperançoso de uma vida melhor, depara com um mundo totalmente adverso de seus ideais e começa a inchar a cidade. Ao chegar na cidade, onde vai morar? Não existe lugar. Caminha aos arrabaldes dos bairros e se junta aos pedintes que ali se encontram. É neste momento que se origina a favela. A favela é um conglomerado de casas pobres que abrigam os rejeitados da comunidade formal e os fugitivos do campo.

Com as favelas, a população aumenta incontrolavelmente. Sendo mais exato, a população pobre de uma maneira geral, não tem controle de sua prole e as famílias são numerosas. Mas, é nas favelas que, com essa população excessiva, os problemas são maiores, pois a falta de conscientização é completa. É nesta faixa populacional que a marginalização abunda em diversos aspectos, na prostituição, no roubo e na vadiagem. As famílias de renda inferior, quer sejam faveladas, ou não, são quem paga todas as anomalias de uma sociedade injusta e exploradora do suor alheio. Não se venha dizer que a favela é uma terapia natural. Pode-se afirmar, isto, sim, que a favela é um resultado do capital monopolístico de um mundo selvagem.

Sem considerar a complexa questão da criminalidade, porque não se pode atribuir vincular obrigatoriamente criminalidade a habitações precárias, temos que entender mais complexamente a noção de exploração contida no sistema injusto que se afirma no capitalismo desenfreado, como aponta o trecho de Luiz Gonzaga de Sousa acima transcrito. Essa ideia será mais trabalhada quando tratarmos da evolução sócio-histórica das cidades brasileiras.

1.3 Urbanização

de

favelas:

níveis

tecidos urbanos problemáticos

de

entendimento

de

Para o entendimento da complexa questão das favelas, não apenas da caracterização do que seja uma favela, mas também de sua constituição na vida de uma cidade, devem-se observar alguns níveis, que são interligados e coocorrentes, embora a abordagem aqui seja feita de maneira separada, apenas para que a exposição resulte mais didática. Pensamos em três níveis complexos: sociocultural, político-econômico e ambiental.

1.3.1 Nível sociocultural

De um artigo de Marcelo Baumann Burgos de 2005, que traz uma reflexão sobre as favelas no Rio de Janeiro 8 , extraímos algumas noções do nível de entendimento sociocultural que se deve ter com relação às favelas.

8 “Cidade, territórios e cidadania”, Dados, - Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, vol. 48, nr. 1, 2005, p. 189- 222, disponível em <http://www.scielo.br/pdf/dados/v48n1/a07v48n1.pdf>, acesso em 27/04/2012.

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De uma perspectiva sociológica, a categoria “favela” não traduz apenas uma

determinada forma de aglomerado habitacional, mais que isso, exprime uma configuração ecológica particular, definida segundo um padrão específico de relacionamento com a cidade. Um aglomerado habitacional transforma-se em “favela” à medida que desenvolve um microssistema sociocultural próprio, organizado a partir de uma identidade territorial, fonte de um complexo de instituições locais que estabelecem interações particularizadas com

as instituições da cidade. Historicamente, a categoria “favela” foi consagrada para nomear

a forma de habitação popular construída nas encostas do Rio de Janeiro, ainda no final do século XIX, por uma população majoritariamente composta de ex-escravos que antes

viviam nos cortiços existentes em áreas do entorno do centro da cidade. (p. 190).

Ao citar o fato de que gradativamente o termo favela foi ganhando múltiplas conotações negativas, que funcionam até hoje como antônimos de cidade e de tudo que a ela modernamente se atribui, como urbanidade, higiene, ética do trabalho, progresso e civilidade, Burgos abre uma nota de rodapé e explica muito sumariamente a origem do termo “favela”:

Originalmente, a palavra favela foi utilizada como apelido do Morro da Providência, que começou a ser ocupado para moradia por ex-combatentes da Guerra de Canudos, que teriam trazido da campanha um legume chamado favela, muito comum em Canudos.

Essa atribuição de sentido pejorativo ao substantivo “favela”, que parte da

desconsideração da chamada cidade formal à ocupação irregular de terrenos, inicialmente nos morros, vai-se ampliando para a noção verbal, que é a do verbo “favelizar”, que carrega a associação com o indivíduo construído pela socialização num espaço marcado pela ausência dos referenciais da cidade, que é o favelado. A favela, seria, no entendimento sociocultural da classe dominante, uma ausência da cidade dentro da própria cidade, algo profundamente deslocado de sua essência moderna, entendidamente do ponto de vista sociocultural.

A favela é irregular, não apenas porque as residências não possuam registro escriturado em cartório da propriedade de terrenos e habitações nele erguidas, mas principalmente porque ela destoa das características que, desde Haussmann na Paris do século XIX, são associadas pela burguesia nascente como inerentes a uma cidade: urbanidade, higiene, ética do trabalho, progresso e civilidade.

Associa-se

a

noção de favela

socioculturalmente à de falta de

urbanidade ou à

precariedade em sua conformação. Vejamos um texto sobre a noção de urbanidade 9 :

9 AFONSO, D., “Urbanidade”, 30/11/2007,

catálogo 2006 da exposição coletiva Pollen, Seminário sobre

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1. A urbanidade é a virtude presente naquele que habita a urbe. Nos dicionários aparece como: «delicadeza requintada, observação das boas maneiras no relacionamento com os outros, acompanhadas geralmente de finura e elegância na linguagem, distinção no porte, nas atitudes». Deve-se entender esta acepção de urbanidade à luz de uma ancestral oposição entre a cidade e a ruralidade, entre a cidade e a barbárie. As qualidades inerentes a esta virtude evoluíram para qualidades essencialmente sociais, em que a ética e a política foram eclipsadas por uma espécie de esteticismo social com um certo sabor a dandismo, muito apropriado à ecologia dos salões. Em todo o caso, a urbanidade marcaria a diferença entre o homem educado, culto e iniciado no complexo código de praxes sociais e o restante da humanidade, não necessariamente rural, mas seguramente menos sofisticada e cultivada.

2. Nos tempos que correm, a urbanidade entendida nestes termos poderá ser um anacronismo pelo simples motivo que, de uma maneira ou de outra, todos nós somos urbanos: uns, a maioria, porque residem nas cidades ou nas suas periferias; outros, a minoria, porque, apesar de residirem no espaço rural, não possuem qualquer marca de distinção relevante que os demarque do resto. O êxodo rural, a concentração dos centros de decisão política bem como dos polos econômicos nas cidades, a industrialização da agricultura e a turistificação da paisagem, são algumas das causas que levaram à decadência deste espaço, que hoje em dia é mais tido como uma extensão do espaço urbano (reserva agrícola e reserva ecológica) do que uma realidade social e cultural específica. É na cidade que encontramos a nossa humanidade atual, é aí que se jogam as decisões essenciais da nossa história, onde por nós são assumidas e onde de novo são questionadas.

Portanto, de acordo com o texto, os valores tidos como urbanos são questionáveis. Em termos de vivência cultural urbana, os favelados têm o mesmo tipo de ambiência dos que não moram em favelas. A diferença é que muitos foram expulsos do campo ou não conseguiram alcançar as oportunidades de uma habitação com mais equipamentos do que os que não moram em favelas ou em tecidos urbanos problemáticos.

A questão a ser apresentada é a da higiene. Um dos itens problemáticos em alguns aglomerados urbanos é a questão da falta de esgoto. Anterior a isso e o que o precede é a do local designado para os excrementos diários das pessoas, ou, em termos mais simples, as instalações sanitárias, os banheiros. No texto de Luiz Gonzaga de Sousa, do qual transcrevemos alguns trechos acima, há uma passagem em que ele aponta a falta de “privadas” em favelas de sua cidade:

Em uma pesquisa feita nestas favelas, constatou-se que a maioria das casas não tem privada. As necessidades individuais são feitas ao céu aberto e, vale salientar, esses são

)

locais em que as crianças brincam inocentemente. (

...

As casas são pequenas, em sua maioria com um quarto e não têm cozinha, com os

trabalhos de higiene feitos no quintal. A maioria destes imóveis não tem banheiro e nem

privada, caracterizando-se 68.1% no primeiro caso e 68.6% no segundo.

Mas, sem tratar especificamente do destino dado aos excrementos, também a sujeira é preocupante, como se vê neste outro trecho do artigo de Luiz Gonzaga de Sousa:

Nestas favelas, a situação é de miséria absoluta, tanto financeira, como educacional.

Não se imagina que existem seres humanos vivendo naquele ambiente. É uma mistura

inconfundível entre animais domésticos e seres humanos e, além do mais, a sujeira toma

conta dos meninos que se lambuzam na terra suja.

A diferença entre quem não vive no ambiente de favela ou de cortiço é a possibilidade de ter acesso a equipamentos de higiene e que consequentemente levem a menos riscos à saúde. O saneamento oferecido pelo Estado a locais que têm rede de esgoto e a configuração nas casas de ambientes para higiene, como banheiros e privadas, com as exigências legais oficiais para que isso ocorra, obviamente não estão presentes em ambientes residenciais informais como favelas e cortiços. Há, no entanto, graus de envolvimento com esse problema, porque há também níveis de degradação de estruturas habitacionais, segundo o que entende a sociedade burguesa como necessidade de aposentos em uma casa, porque há algumas estruturas em que há tratamento de esgotos e até favelas com casas de alvenaria em que há banheiros com encanamento que já prevê o destino de dejetos mais adequado do que soluções menos higiênicas.

Outra questão que envolve a questão da saúde pública e que está diretamente ligada à invasão de terrenos inadequados por pessoas em condição de miséria é a da proximidade com córregos e áreas de risco, como encostas de montanhas ou até lixões. Embora na própria cidade formal haja problemas de ocupação irregular e desrespeito a normas técnicas para construção, nas favelas esse problema é tão grave que chega a ameaçar a integridade física das famílias que ali residem. A contaminação por agentes infecciosos, principalmente em época de chuvas intensas, é recorrente em áreas próximas a córregos não canalizados. A proximidade com encostas e lixões provoca, em época de chuvas fortes, o desabamento e até o soterramento de quantidades enormes de casas precárias construídas sem condições mínimas de adequação ao solo. Tudo isso é uma questão que vai além da higiene. A análise sociocultural possível para esses casos é a da visão da miséria extrema localizada, paradoxalmente, em

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centros bastante desenvolvidos ou que apresentam alguma esperança para a saída da miséria.

Outro item a ser analisado no nível sociocultural é o da ética do trabalho. A informalidade nas relações não é apenas o único problema associado à população favelada. Talvez a causa para essa informalidade, que se assenta no desrespeito que o capital promove contra o trabalhador, se relacione com a diferença na ética do trabalho conforme se configura nos ambientes informais, como o da favela, e no do mundo formal, estabelecido com base em leis trabalhistas, que muitas vezes também não são observadas. O artigo de Luiz Gonzaga de Sousa assim exprime sumariamente a visão do capital sobre a massa de trabalhadores informais das favelas:

Observa-se também, na pesquisa, que a maioria dos habitantes dessas favelas tem uma

renda muito aquém do salário mínimo, com uma maioria que não tem grau de instrução

nenhuma e a miséria caminha abertamente.

Contudo, foi com o crescimento das cidades que surgiram as favelas e com elas

acompanharam a pobreza absoluta, a somar-se com as já existentes, pois, agregadamente,

dão o suporte necessário para sustentar o poderio do capitalismo monopolista dos dias de

hoje. A formação das favelas, ou das populações pobres, contribuiu para aquilo que Karl

MARX (1867) denominou de exército industrial de reservas, para criar uma mão de

obra excedente e, desta forma, gerar uma competição intertrabalhadores e conseguir

explorar os serviços humanos a um preço de miséria. E isto aconteceu facilmente com a

"Revolução Industrial" no século XVIII, que fez surgir o desemprego tecnológico. O

processo de concentração industrial foi rápido, e os monopólios tomaram conta do mundo

capitalista de hoje; consequentemente, pobreza em massa dos tempos hodiernos.

A questão sociocultural está, pois, do ponto de vista da ética do trabalho, assentada na exploração econômica. E, se a exploração fica enraizada no dia a dia dos trabalhadores, com o conformismo de morar em habitações precárias, forma-se uma cultura do explorado que se institui ao lado da cultura do explorador.

Os aspectos socioculturais do progresso

e

da civilidade são

os

últimos a

serem

analisados. Aparentemente uma das noções do progresso é o da formalização. Mas, como aponta Burgos, no artigo anteriormente citado, isso é ilusório (p. 189-190):

Ato contínuo, também se incorpora ao vocabulário corrente o verbo “favelizar”, e com

isso o substantivo favela se vai emancipando de sua conotação original, presa à descrição do

espaço, assumindo um significado transcendente, que remete a uma dimensão cultural e

psicológica, a um tipo de subjetividade particular, a do “favelado”, homem construído pela

socialização em um espaço marcado pela ausência dos referenciais da cidade. Daí que

conjuntos habitacionais e loteamentos irregulares dois dos principais espaços de habitação

popular das cidades brasileiras , embora com um padrão mais formal de ocupação do

solo, também possam “favelizar-se”, isto é, assumir características socioculturais

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semelhantes àquelas encontradas nos espaços típicos das favelas, do que é sintoma a

existência dos tradicionais “donos do lugar”, e mesmo de gangues de traficantes de drogas e

de armas em muitos desses aglomerados habitacionais.

A polissemia da palavra favela indica um processo de favelização generalizado, não

apenas no Rio de Janeiro, mas nas grandes cidades brasileiras de modo geral, sobretudo

nas duas últimas décadas, com o crescimento exponencial dos aglomerados habitacionais

populares informais, nas áreas centrais e também nas suas periferias. Disseminam-se pelas

cidades, inclusive em bairros de seus subúrbios tradicionais, características que

historicamente singularizam a favela enquanto configuração ecológica, a saber: sua vocação

para o desenvolvimento de organizações socioculturais fortemente enraizadas na vida local,

às quais não faltam elementos de uma ordem jurídica singular, com a existência de

autoridades informais locais, validadas por identidades coletivas territoriais, que também

servem de base para a negociação política de acesso a bens públicos da cidade.

Contraditoriamente à dita sociedade formal, a favela, à qual se incorpora o conceito de favelização, no sentido cultural, procura o progresso sob a configuração de acesso a bens públicos da cidade, ainda que sob forma de informalidade do poder, consubstanciado nas

autoridades informais locais, por exemplo, que são os “donos do lugar”, conforme a expressão

do estudo de Burgos.

Deduz-se, pelas reflexões dos estudiosos cujos artigos foram em parte transcritos acima, que a ambientação cultural das favelas, em virtude do processo de favelização de grandes áreas nos centros urbanos, até mesmo, em alguns casos, na maioria das habitações como se viu em Mumbai, por exemplo, apesar de apenas 6% do tecido urbano conterem favelas, cerca de 60% dos habitantes da cidade residem nessas habitações precárias , pelo processo de favelização, instala-se como força cultural vigente, determinando, mesmo, os rumos de vida, ainda que sob forma paralela e informal à vida considerada regular da cidade.

Tal numerosa inserção sociocultural, portanto, não pode ser ignorada, se não for por outros motivos, simplesmente pelo enorme contingente humano que habita esse tecido urbano.

1.3.2 Nível político-econômico

Muito se discute sobre a extensão do que seria político ou até sobre os conceitos do

termo “política”. Não enveredaremos, aqui, pelas formulações teóricas que se relacionam com

o governo e com o poder político constituído numa sociedade formalmente organizada, pois temos como objeto algo que está menos enquadrado na formalização da sociedade, que é o tecido urbano problemático. Isso não faz dele algo que não se possa tratar segundo análises de

39

condutas políticas de seus habitantes. Ao contrário, há, sim, um nível político, que é intimamente relacionado ao econômico, que estabelece e coordena as muitas ações mesmo em ambientes urbanos considerados informais, como as favelas, por exemplo.

Teremos que pensar na política vinculada à economia em termos de interesses coletivos que se estabelecem nos ambientes, em possíveis confrontos com outros diferentes interesses, tanto no próprio ambiente informal quanto fora dele. Em resumo: um jogo de interesses relacionados a bens, dinheiro, propriedade material.

Se em muitos casos os terrenos ocupados não são áreas utilizadas pelo poder público, alguns terrenos são até condenados e estão em área de risco de desabamentos, também há espaços particulares que não são sequer aproveitados pelos proprietários, que poderiam estar sujeitos à desapropriação para fins sociais, em atenção ao uso social da propriedade, conforme preconiza a Constituição brasileira, por que há tanto conflito de interesses entre os habitantes de muitas favelas e as pessoas em seu entorno ou os poderes públicos e as forças que defendem com o rigor da lei os proprietários?

O aspecto legal não deve certamente ser o único apontado, porque há algo além dele

que alguns analistas muito precisamente identificam. No artigo “Da favela ao bairro: entre

urbanidade rarefeita e segregação”, a pesquisadora Tales Lobosco, da Universidade Federal da Bahia 10 , aponta uma questão de mercado importante e até alguns contextos econômicos não tão desfavoráveis aos moradores da favela:

A especificidade do fenômeno favela, vista como um modo peculiar de materialização

no espaço urbano, sua “identidade”, expressa pelo estatuto de ilegalidade e percebida como

locus privilegiado da pobreza, são questionados por autores como Valladares (2005),

Lago (2003) e Valladares e Preteceille (2000), através da afirmação da pujança

econômica de seus mercados, da heterogeneidade social,econômica e espacial identificada em

seu interior e também através das profundas distinções existentes entre os diversos

territórios reunidos sob o nome favela. Os dados de acesso à infraestrutura urbana, renda e

escolaridade posicionam as favelas entre os setores com os piores índices, entretanto, em uma

análise mais detalhada, percebemos níveis semelhantes de tais indicadores identificados em

regiões periféricas da cidade formal e, paralelamente, algumas favelas, principalmente as

situadas na Zona Sul carioca, apresentam regiões com padrões mais elevados, se situando

muito próximos ou iguais à média da cidade formal.

10 Disponível no Portal Scribd, endereço: <http://pt.scribd.com/doc/87742173/Tales-Lobosco-Da-Favela-ao- Bairro-Entre-Urbanidade-Rarefeita-e-Segregacao>, acesso em 29/04/2012.

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A questão da condição econômica, vista pelo que a autora chama de “padrões”, os quais são revelados por índices como acesso à infraestrutura urbana, renda e escolaridade, aliados à potencialidade de inserção no mercado, tudo isso torna a condição de favelado impossível de ser analisada sob uma ótica simplista. Há a informalidade, constatada por questões legais, principalmente, mas isso não explica satisfatoriamente a complexidade político-econômica da condição de favelado. Novamente se deve pensar em termos mais amplos, não apenas em realidades aparentes.

O conceito de favelas e cortiços, a partir de um estudo sobre a cidade informal no século XXI 11 , pode mostrar um pouco das condições em que a maioria dos estudos sobre habitações precárias nas cidades revela:

Cortiços: moradia coletiva multifamiliar, constituída por uma ou mais edificações em

um mesmo lote urbano, subdividida em vários cômodos alugados, subalugados ou cedidos a

qualquer título. Várias funções são exercidas no mesmo cômodo; uso comum dos espaços

não edificados e instalações sanitárias; circulação e infraestrutura precárias e, em geral,

superlotação de pessoas (Lei Moura, 10.298/91).

Favelas: núcleos habitacionais precários, com moradias autoconstruídas, formadas a

partir da ocupação de terrenos públicos ou particulares. Estão associadas a problemas da

posse da terra, a elevados índices de precariedade ou à ausência de infraestrutura urbana e

serviços públicos e população com baixos índices de renda.

Aqui, questão da baixa renda fica mais explicitada, mas em ambos salta à vista a prioritária questão a ser sanada, que é a da precariedade da ocupação dos espaços urbanos, especialmente quanto a questões de saúde pública, já que há insuficiência ou falta completa de serviços urbanos públicos e infraestrutura adequada. A superlotação e o uso comum de espaços edificados e instalações sanitárias leva também a graves questões de saúde pública.

Já a questão do mercado não é apontada nos conceitos, mas ela comparece de uma forma que poucos analistas admitem, mas que foi percebida pelo artigo de Tales Lobosco, do qual transcrevemos um trecho mais acima. Uma reportagem do jornal Folha de São Paulo, de 26 de novembro de 2011, mostra a valorização dos terrenos em Paraisópolis. Ela tem o título de “Empresas pagam preços de Jardins em Paraisópolis”. A reportagem é de Carolina Matos 12 .

11 “A cidade informal no século XXI”, catálogo de exposição sobre Paraisópolis no Museu da Casa Brasileira, curadoria de Marisa Barda, 2ª. ed., IABR (International Architecture Biennale Rotterdam) / Secretaria de

Habitação da Prefeitura de São Paulo / Museu da Casa Brasileira / Governo do Estado de São Paulo, 2010, p.26-

27.

12 MATOS, Carolina. “Empresas pagam preços de Jardins em Paraisópolis”, Folha de São Paulo¸26/11/2011, p. B

13-14.

41

O início da reportagem revela uma situação econômica Lobosco:

que

referenda o texto

de

Tales

Locação do m² comercial no centro da comunidade alcança valor da Oscar Freire, endereço nobre de SP

TIM, Vivo e Santander chegam até o início de 2012; nos últimos 18 meses, 20

companhias procuraram a região.

Nas ruas estreitas e movimentadas do centro comercial de Paraisópolis, comunidade de

100 mil habitantes na zona sul de São Paulo, a variedade é grande. Caminhando poucos

metros, é possível encontrar Casas Bahia, Bradesco e Banco do Brasil ao lado de lojas

locais, como a Gisele Presentes e o Sacolão Farias. E já há espaço reservado para TIM,

Vivo e Santander.

Com tanto interesse no potencial de consumo local cerca de 20 empresas procuraram

a União de Moradores nos últimos 18 meses para se instalar , ficou mais caro montar

ponto nos endereços mais cobiçados.

A Folha apurou que, hoje, o aluguel do m² no centro comercial de Paraisópolis chega

a custar R$ 125 por mês. Na região da Oscar Freire (Jardins), onde estão várias lojas de

grife, o valor mínimo de locação está em R$ 100 por m², podendo alcançar R$ 220,

segundo levantamento da imobiliária Herzog. O preço em Paraisópolis também é superior

praticados nas avenidas Interlagos (R$ 75 o m²), Brás Leme (R$ 90) e Radial Leste (R$

85).

“Até pouco tempo, o que abria na comunidade era comércio local, tirando exceções

como Casas Bahia [loja que chegou em 2008]“, diz Gilson Rodrigues, presidente da

União dos Moradores e do Comércio da comunidade. “Agora, o poder de compra cresceu e

passamos por um grande processo de urbanização, o que favorece a entrada de empresas

maiores.”.

O entendimento político-econômico, portanto, é derivado da atenção dinâmica que o mercado dá a qualquer núcleo urbano, formal ou não, ao lado da questão do abandono pelas políticas públicas, da complicada questão dos riscos envolvidos em morar em áreas com infraestrutura precária e de todas as derivações que desse complexo decorrem criminalidade, proximidade a bairros luxuosos, organização interna dos moradores, etc. A condição de habitante de um tecido urbano problemático deve ser, pois, estudada especificamente de acordo com o local analisado. Qualquer generalização é, portanto, simplificadora. Talvez a real uniformização possível seja a dos riscos envolvidos na habitação, não apenas os de segurança física (entendida amplamente, desde a ocupação de encostas até a convivência com o tráfico de drogas e a violência a ele normalmente associada), mas os notados quanto à saúde das pessoas (devido às condições sanitárias inadequadas, entre outras coisas, ou a proximidade a focos de doenças, dada a vizinhança a córregos não canalizados, por exemplo).

42

1.3.3 Nível ambiental

Não se pode admitir que meio ambiente é o que o homem faz da Natureza. Não há

como desprezar a presença do homem, já que o fator civilizatório é que permeia e espécie e esse fator deve ser considerado como o determinante nas análises. Ocorre, porém, que condições naturais mínimas devem ser observadas. Nesse sentido, no nível ambiental de entendimento dos tecidos urbanos problemáticos surge a questão da adequação das edificações ao solo e obviamente do custo que envolve uma adaptação do homem à natureza ou da

vontade de que possa ter o homem de “domesticar” a natureza.

Não é possível sequer sugerir que o homem deva viver longe da água, porque a vida é

praticamente derivada da água. O primeiro grande problema da civilização foi administrar as fontes de água, tanto para o consumo humano como líquido potável como para as mais diversas funções, mesmo as indiretas como a do conforto térmico. Apenas para nos aproximarmos do objeto específico deste trabalho, podemos exemplificar a questão complexa do meio ambiente e da ocupação do solo urbano pelo homem com a questão dos córregos. A aproximação do homem a córregos não canalizados ou tratados inadequadamente em decorrência dessa aproximação pode resultar em graves problemas aos vizinhos desavisados, como enchentes que destroem as habitações, a proliferação de insetos e roedores que trazem doenças aos humanos, ou o uso dos córregos como descarga de esgoto e lixo, algo que pode comprometer a própria potabilidade da água. Algum tipo de solução urbanística é necessário em casos em que as análises técnicas conduzam à inequívoca conclusão de que algumas áreas são prioridade em termos de saúde pública ou para que riscos de mortes sejam anulados ou maximamente reduzidos. Mas a solução não deve apenas ser universalmente a eliminação do córrego, por exemplo. Nossa proposta pretende desvendar algumas soluções diferentes do simples aterramento ou canalização que oculte o córrego transformado em esgoto, práticas comuns alegadamente solucionadoras do risco que pode significar um córrego. Acreditamos que não é pura e simplesmente “secando” a cidade que se obtenha uma saída para a aproximação do homem com as fontes de água. Alguma convivência melhor do que a ocupação irracional das margens de córregos e rios, como aconteceu com São Paulo, desde sua fundação praticamente, pode significar, na prática, saídas mais criativas e mais econômicas, além de promoverem uma harmonização do homem com o meio ambiente mais saudável e com um grau de intervenção na natureza menos daninho à própria natureza e ao homem.

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Evolução

sócio-histórica

das cidades

brasileiras

2

Evolução sócio-histórica das cidades brasileiras 2 Imagem: Telefone de Lata, 2003 Bronze 75'x'13'x'23,5'cm Sandr a'Guinle

Imagem: Telefone de Lata, 2003 Bronze

75'x'13'x'23,5'cm

Sandra'Guinle

2. EVOLUÇÃO SÓCIO-HISTÓRICA DAS CIDADES BRASILEIRAS

Embora a pretensão colonizadora dos europeus que oficialmente fixaram-se nas terras que depois viriam a ser o Brasil fosse de exportação de produtos rurais, a fixação de núcleos urbanos mostrou que a essência da colonização brasileira era o empreendimento urbano, possivelmente como forma de as cidades serem centros de civilização da Colônia por parte da Metrópole, que no Brasil difundiam os costumes e hábitos de Portugal. A primeira estratégia de fixação foi a fundação por Martim Afonso de Sousa de duas vilas: São Vicente, no litoral, em 1532, e a vila do Piratininga, nove léguas mais para o sertão. Um passo importante no sentido da formação de cidades deu-se com o regime de capitanias hereditárias. A formação das Capitanias Hereditárias deveu-se ao fato de Portugal não ter capacidade para arcar com os custos da ação colonizadora. O regime foi o de concessão de capitanias a fim de que a colonização não acabasse em mãos de outros povos. Foi, de certa forma, o primeiro grande contrato de risco que existiu em terras brasileiras. Ele consistiu em conceder a soldados e marinheiros da África e do Oriente, a altos funcionários do Reino e a fidalgos da Casa Real que se dispusessem a correr os riscos de uma empresa difícil a posse de terras a partir de doações feitas pela Coroa e sob o risco de terem que submeter até a combates para defendê-las. O propósito não foi reavivar o sistema feudal, mas, como bem observa Hélio Vianna 13 , a caracterização econômica das capitanias encaixava-se no modo de produção capitalista. Os direitos de posse eram cedidos pelo rei aos donatários, mais os direitos de ministrar justiça, distribuir terras de sesmaria, arrecadar dízimos e fundar povoações. Os deveres eram o de trazer povoamento e estimular que aqui se desenvolvessem populações para ocupar o extenso litoral brasileiro, a fim de evitar o contrabando nos portos e praias. Mas, apesar de não se igualar ao sistema feudal, para facilitar a sucessão nas capitanias, os titulares foram dispensados do cumprimento da lei que mais obstruiu o desenvolvimento do feudalismo em Portugal, que era a chamada Lei Mental, instrumento jurídico promulgado em 1434 com o objetivo de defender o patrimônio da Coroa, já que obrigava que as terras doadas ou a doar só fossem transmitidas ao filho varão primogênito e proibindo de serem elas divididas. O rei poderia

13 VIANNA, Helio. História do Brasil: Período colonial, Monarquia e República, 12. ed., rev. e atual. São Paulo:

Melhoramentos, 1975, p. 64-66.

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reaver terras e acabou por centralizar o poder, diferentemente do que ocorreria num sistema feudal típico, em que os senhores feudais tinham em cada feudo uma autonomia de comando. Sem a Lei Mental, teoricamente a coroa dava mais liberdade para a divisão de terras e permitia uma sucessão a outros descendentes e colaterais, o que diminuía a influência do rei e talvez até favorecesse um regime próximo ao feudal. Entretanto, isso não ocorreu porque o sistema montada era o de uma organização capitalista, com liberdade de cada donatário de exportar para o Reino, mais direitos preferenciais contra concorrência estrangeira, possibilidade de aproveitar o pau-brasil dentro do próprio país, comunicação livre entre as capitanias e entrada livre de mantimentos, armas e munição. As capitanias foram obra do século XVI, a primeira delas foi Fernando de Noronha, em 1504. Mais 14 foram criadas entre 1534 a 1536, situadas ao longo do litoral que vai do maranhão a Santa Catarina. Até o final do século XVI, mais três foram criadas. O resultado mais visível das capitanias foi a fundação de povoações com o início de vários cultivos, ainda que precários. Isso contribuiu para que o estabelecimento de estrangeiros em zonas anteriormente abandonadas não ocorresse. Duas capitanias, em particular, progrediram: Pernambuco e São Vicente. A concessão de sesmarias trouxe mais povoamento, em virtude da atração pela posse de terras e possibilidade de explorá-las. A atividade econômica das capitanias, ainda que restrita à exploração do pau-brasil e aos engenhos de cana- de-açúcar, foi o primeiro embrião de indústria que conhecemos no Brasil. Como o sistema vigorou no país durante dois séculos e meio, até sua extinção pelo Marquês de Pombal, pode- se dizer que ele foi a base sobre a qual se assentou a colonização portuguesa no Brasil. A constituição de sesmarias e a fundação de vilas e posteriormente cidades faziam parte da estratégia portuguesa para a colonização, que não era apenas de exploração predatória, mas que buscava também fixar o colono nas novas terras e defender o território conquistado. O domínio econômico e militar, portanto, foi obtido a partir da urbanização. As vilas mais importantes fundadas nas capitanias (18) do século XVI foram:

Conceição (na Capitania de Itamaracá); Igaraçu e Olinda (na Capitania de Pernambuco); São Jorge dos Ilhéus (Capitania dos Ilhéus); Porto Seguro (Capitania de Porto Seguro); Espírito Santo e Nossa Senhora da Vitória (Capitania do Espírito Santo); São Vicente (anterior à fundação da Capitania), Todos os Santos (ou Porto dos Santos, depois Santos), Santo André da Borda do Campo (cujos habitantes foram transferidos para São Paulo do Campo de Piratininga) e Nossa Senhora da Conceição de Itanhaém (todas Capitania de São Vicente)

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A primeira cidade real brasileira foi Salvador, instituída por Tomé de Sousa em 1549 para sedo do governo. Em seguida, as cidades reais foram São Sebastião do Rio de Janeiro (fundada em 1565), Filipeia de Nossa Senhora das Neves, depois Paraíba, hoje João Pessoa (fundada em 1590) e Natal, no Rio Grande do Norte (fundada em 1611). A ideia de município, que era a base da urbe, veio já com as Ordenações Manuelinas (que vigoraram de 1514 a 1603), transplantadas de Portugal para o Brasil, que previam a constituição de instituições semelhantes a Câmaras Municipais com Vereadores. As capitanias foram criadas pelo rei Dom João III com o poder de criar vilas, que se encarregariam da eleição ou nomeação de representantes, com a outorga a esses de insígnias e direitos, os quais eram expressos nos forais, que eram documentos contendo normas para a povoação. As municipalidades, no Brasil, ganharam mais importância a partir do século XVII. As complexas incursões no território brasileiro pelas entradas e bandeiras, com seus vários ciclos econômicos (ciclo do apresamento de indígenas; ciclo do ouro de aluvião; ciclos de povoamento litorâneo e interno; ciclo do sertanismo de contrato e grande ciclo do ouro) movimentaram o país e provocaram a fundação de muitas cidades. A prática do comércio acompanhou a atividade agrícola e a atividade administrativa nas cidades coloniais. As primeiras cidades foram fundadas junto ao mar justamente para servirem como entrepostos nos portos para a exportação de mercadorias para Portugal. A colonização espanhola fez suas cidades com divisões em quarteirões retos e uniformes. A dinâmica da colonização portuguesa proporcionou um crescimento desordenado às cidades brasileiras, que se fizeram mais de acordo com o relevo do que atendendo a planos geométricos, numa conformação que se pode dizer mais naturalista do desenho urbano, como foi o caso das cidades de Olinda, Salvador e Rio de Janeiro. O poder religioso da Igreja Católica, o poder político da Câmara, o poder militar das fortificações e o poder dos agentes organizadores do comércio, principalmente nos portos, tentava regular as cidades. Com o comércio como atividade central, as cidades não tinham indústria tampouco comunicação por imprensa. Importavam-se escravos e exportavam-se mercadorias para Portugal. Poucas ruas das cidades coloniais brasileiras eram calçadas e iluminadas, ou seja, a estrutura urbana sobre a qual se assentavam era rudimentar. A iluminação, por exemplo, era feita com lampiões cujo combustível era o óleo de baleia. Sem esgotos, os dejetos eram

transportados pelos escravos em toneis para serem despejados em cursos d’água próximos à

residência dos senhores ou no mar. As condições de higiene eram péssimas e, devido a isso,

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frequentemente ocorriam febres e endemias. Sem nenhum tipo de transporte público, as locomoções das famílias ricas eram feitas em carruagens ou liteiras. A presença das mulheres dos colonos se dava apenas nas cerimônias religiosas da Igreja, sempre com véu à cabeça. A maior parte do serviço urbano era feito por escravos. Ao contrário do trabalho escravo rural, o trabalho dos escravos nas cidades não era feito exclusivamente sem remuneração em dinheiro, já que havia trabalhadores negros que recebiam por serviços, como carregadores, sapateiros, alfaiates, barbeiros, ferreiros, estivadores, costureiras, vendedores de doces. Eles ficavam relativamente livres nas cidades e deviam pagar uma parte do ganho com sua atividade comercial ao seu senhor. Havia o controle senhorial relativamente distante, porque os escravos a ganho permaneciam a maior parte do tempo na rua. Os mecanismos de controle, inclusive chibatadas e prisões, eram efetuados pelas autoridades, que exerciam nas cidades o papel dos feitores das fazendas. A transição para o trabalho efetivamente assalariado deu-se, nas cidades, com o aluguel de escravos, mesmo de crianças e adolescentes. A principal ocupação dos escravos de aluguel eram os serviços domésticos 14 . O capitalismo como proposta acumuladora e com a vertente da colonização estabelece-se no Brasil com a colonização portuguesa, portanto. A proposta de defender a terra conquista, expandir a fé católica e traduzir a economia em um modelo de exploração rural, não deixou de ter comércio e alguma indústria de base rural já estabelecida (como a indústria caracterizada pelos prósperos engenhos de Pernambuco, por exemplo, e o extrativismo mineral em Minas Gerais, como outro exemplo). Uma periodização da economia brasileira que é diferente da normalmente formulada por historiadores (Brasil Colônia, Brasil Império e República) é a que justifica a formação da vida econômica contemporânea a partir da evolução do próprio sistema capitalista de exploração colonial inicialmente implantado por Portugal em terras brasileiras. Ela fala inicialmente da economia colonial que, como vimos, é assentada mais no modo capitalista do que num sistema feudal e tem por base as capitanias, já com propostas de urbanização , que vai de 1532 (início efetivo da colonização, pela fundação da primeira vila em São Vicente) até 1808, com a chegada de Dom João VI; depois teremos o período que João Manoel Cardoso de

14 PINHEIRO, Maria Cristina Luz. O trabalho de crianças escravas na cidade de Salvador 1850-1888, Afro-Ásia, 32 (2005), Salvador (BA): Universidade Federal da Bahia, p. 159-183, disponível em <http://www.afroasia.ufba.br/pdf/afroasia32_pp159_183_CriancasEscravas.pdf>, acesso em 7/5/20112.

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Mello 15 , o autor dessa periodização alternativa, chama de economia mercantil-escravista nacional, e que vai até 1888, que é o ano da promulgação da Lei Áurea. O terceiro período histórico da evolução do capitalismo no Brasil seria o período de 1888 em diante, o qual é dividido pelo autor em três fases, conforme veremos a seguir. Ele o chama de economia exportadora capitalista-retardatária, daí advém o nome do livro (Capitalismo tardio). A primeira fase do último período vai de 1888 a 1933, chamada de nascimento e consolidação da grande indústria; a segunda vai de 1933 a 1955, chamada de industrialização restringida; e a última é a da industrialização gerada, a partir de 1955. Embora essa interpretação diminua, na visão de alguns críticos, a importância da Revolução de 1930, cabe ressaltar a ideia de associar indústria e exportação a partir do final da escravidão no Brasil como uma vertente a ser explorada principalmente nas nascentes cidades industrializadas.

2.1 Da casa grande à senzala

Antes, porém, de tratarmos da evolução completa da cidade colonial até a cidade industrializada e chegarmos às megalópoles brasileiras, temos que entender um pouco da constituição das classes sociais e a repercussão disso na constituição do tecido urbano brasileiro, especialmente a formação de grandes conjuntos habitacionais precários. Não há dúvida de que um marco divisório na constituição da vida brasileira republicana foi a Abolição da Escravidão no Brasil. O grande definidor do trabalho e o gerador da riqueza colonial portuguesa no Brasil foi o trabalho escravo. Sérgio Buarque de Hollanda já faz notar em Raízes do Brasil 16 que a economia colonial no Brasil era fundada no trabalho escravo, na monocultura e na grande propriedade, sendo que a agricultura era bastante predatória e calcada em métodos de exploração rudimentar da terra, sem nenhum progresso com relação às precárias técnicas praticadas pelos indígenas: com derrubadas e queimadas, sem uso de arado, sem fixação à terra, com abandono de terras, apenas determinada pela exploração fácil de aventureiros que se dedicavam mais à conquista de riqueza fácil, não obtida pelo trabalho sistemático. A vocação pelo dinheiro fácil também marcou nossa economia colonial urbana. A

  • 15 MELLO, João Manoel Cardoso de. Capitalismo tardio. São Paulo: Brasiliense, 1982, p. 176 e ss.

  • 16 HOLLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil, 9. ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1976, p. 21-24.

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fixação em uma profissão, nas cidades, não era algo comum, marca de um espírito comercial que repetia a não fixação à terra das fazendas. Como diz Sérgio Buarque de Hollanda, “poucos indivíduos sabiam dedicar-se a vida inteira a um só mister sem se deixarem atrair por outro negócio aparentemente lucrativo” 17 . O autor ainda observa que raros ainda eram os casos em que um ofício era transmitido a outra geração da mesma família, somente em casos em que havia uma estratificação social mais estável. Não havia constituição de um verdadeiro artesanato, devido a essa ampla mobilidade de atividades profissionais. A existência de escravos remunerados, que trabalhavam mediante licenças obtidas, era uma das maneiras de os que tinham mais recursos direcionarem a mão de obra para trabalhos mais humildes. Pode-se já perceber, por essas análises de Sérgio Buarque de Hollanda, que a formação da mão de obra do Brasil manteve-se durante muito tempo fundada na escravidão e na desorganização de uma sociedade estratificada para a constituição de categorias médias. Assim, os que conseguiram o ganho fácil e enriqueceram formaram uma casta que se encaminhou para uma nobreza colonial praticamente aristocrática no campo e pré-burguesa nas cidades enquanto os demais habitantes da Colônia eram serviçais e escravos, com a atividade majoritária no campo dedicada às atividades de manutenção das fazendas, nas quais se incluía uma agricultura precária, e a atividade majoritária na cidade voltada ao comércio sem fixação em uma atividade e sem organização em categorias de interesse. A industrialização era precaríssima, não havia nada que dimensionasse a vida colonial para algum progresso como o que se viu no século XX. Segundo as análises de Gilberto Freyre, a estrutura social que emergiu desde 1532, quando da primeira vila fundada no Brasil, em diante foi toda baseada no modelo econômico da exportação, algo que foi incrementado pela monarquia brasileira, a partir da vinda de Dom João VI ao Brasil. O centro produtor rural em que se fixava a produção brasileira, predominantemente assentada na monocultura, foi a Casa-Grande, que era um centro também sociopolítico. Se a catequização forçada dos jesuítas não conseguiu doutrinar completamente os indígenas para a servidão na lavoura, já que muitas eram as fugas para a floresta, o trabalho escravo foi o que imperou no Brasil durante muitos séculos, uma vez que ela se iniciou com os engenhos de cana-de-açúcar, já na primeira metade do século XVI. A habitação em que o abrasileiramento dos negros era feito chamava-se senzala, que era um tipo de alojamento, construída dentro da unidade de produção (engenho, ou mina de

17 Ob. Cit., p. 28.

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ouro, ou fazenda de café). A senzala era uma simples construção semelhante a um galpão médio ou grande para onde os escravos se dirigiam à noite. Em muitos casos, os escravos eram acorrentados nas senzalas, a fim de que não fugissem. A senzala era uma habitação que reproduzia na arquitetura a condição miserável de vida oferecida aos escravos: ela era rústica, abafada (com pouquíssimas janelas) e muito desconfortável. A madeira e o barro eram os materiais utilizados nessas simples construções, que não possuíam divisórias. O chão não tinha revestimento. Como não havia camas, os escravos tinham que dormir no chão duro de terra batida ou apenas sobre uma forração de palha. Os castigos físicos, comuns na escravidão, eram feitos no pelourinho, instrumento de castigo que ficava no pátio em frente das senzalas. A coisificação desumanizante que era oferecida como condição ao trabalho escravo era espelhada na arquitetura paupérrima e moldada segundo a superexploração que o trabalho escravo representava. A foto abaixo mostra um prédio de senzala típico de fazendas brasileiras. A arquitetura lembra mais a de um estábulo. A seguinte ilustração é um desenho de uma casa-grande.

ouro, ou fazenda de café). A senzala era uma simples construção semelhante a um galpão médio

Fonte: Infoescola.com

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Fonte: Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, ilustração entre as páginas LXXX e LXXXI da introdução. À direita da casa-grande (no centro) estão as senzalas, que, embora sem nenhum conforto e higiene, estavam integradas ao prédio da casa-grande.

A arquitetura sofisticada dessas fazendas já demonstra uma pré-estrutura urbana. A decadência desse tipo de estrutura levou muitos trabalhadores para as cidades, assim como a mínima classe média formada por alguns profissionais liberais. O modelo social de enorme distância social entre os donos de fazendas e os escravos foi o que se reproduziu posteriormente nas cidades. A praticamente inexistência de categorias médias apontava para um modelo de superexploração do trabalhador. As moradias populares estabeleciam-se em lugares menos salubres e longe dos centros de atividade econômica. As cidades estabelecem-se com um centro para a vida dos ricos e com periferias em que habitavam os trabalhadores. Segundo Eunice Ribeiro Durham 18 ,

A população pobre está em toda a parte nas grandes cidades. Habita cortiços e casas

de cômodos, apropria-se das zonas deterioradas e subsiste como enclaves nos interstícios dos

bairros mais ricos. Mas há um lugar onde se concentra, um espaço que lhe é próprio e onde

se constitui a expressão mais clara de seu modo de vida. É a chamada periferia. A

"periferia" é formada pelos bairros mais distantes, mais pobres, menos servidos por

transporte e serviços públicos.

Nas cidades, além da precariedade dos recursos, a periferia tem a desvantagem com relação à senzala de ser distante dos serviços e não ter atendimento por transportes públicos adequados.

  • 2.2 O capitalismo tardio e o reflexo no desenho urbano das grandes cidades

Neste trabalho, nosso objetivo é aproximarmo-nos o máximo da visão de tecidos urbanos problemáticos nas grandes cidades. Como escolhemos um núcleo habitacional na cidade de São Paulo, voltaremos nossas lentes para essa realidade específica, que é a cidade de São Paulo. Como disse Eunice Durham, nas grandes cidades, como São Paulo, a miséria está

18 DURHAM, Eunice Ribeiro. A sociedade vista da periferia. Revista Brasileira de Ciências Sociais, nr. 1, São Paulo; Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, jun.-1986, p. 87. Disponível em:

<http://www.anpocs.org.br/portal/publicacoes/rbcs_00_01/rbcs01_07.htm>, acesso em 9/5/2012.

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em toda parte. E, para tentar explicar melhor a origem da miséria na cidade de São Paulo, buscamos alguns subsídios na obra Capitalismo tardio, de João Manuel Cardoso de Mello 19 . Vejamos um trecho:

Nesta perspectiva, as economias periféricas, enquanto dependentes, são meros

prolongamentos do espaço econômico das economias centrais e não poderiam considerar-se

como economias nacionais. Mais ainda na medida em que continuassem a crescer

para fora, as economias latino-americanas continuariam condenadas à miséria. Pois

qualquer esforço que fizessem para superá-la seria frutado. Não é esse o significado

profundo da tendência à deterioração dos termos de troca? Dependência e pobreza eram,

pois, duas faces de uma mesma moeda: a “situação periférica” (p.20-21). [destaques em

negrito do original].

O autor mostra, portanto, que, neste contexto, nas duas ultimas décadas do século XIX, surge na economia paulista uma nova etapa do processo de desenvolvimento latino-americano, a economia primário-exportadora. A economia mercantil-escravista cafeeira nacional é obra do capital mercantil nacional, que se vira formado, por assim dizer, nos poros da colônia, mas ganhara notável impulso com a queda do monopólio de comércio metropolitano e com o surgimento embrionário do sistema monetário nacional, como consequência da vinda para o Brasil da Família Real. O café, planta perene que tem um longo período de maturação, exige considerável emprego de mão de obra, que se alonga por quase todo o ano. Neste contexto, o trabalho escravo era muito mais barato que o do trabalhador livre,o gerou um deslocamento de escravos da mineração e outras regiões para regiões produtoras de café, inclusive São Paulo. Em 1830, o Brasil se torna o primeiro produtor mundial. Estava, portanto , estabelecido no Brasil uma economia nacional. O desenvolvimento da economia cafeeira estava condicionado a três condições fundamentais: 1) à disponibilidade de trabalho escravo a preços lucrativos; 2) à existência de terras em que a produção pudesse ser rentável e 3) às condições de realização, relativamente autônomas, porque dependem, também, do comportamento das economias importadores. Entretanto, vamos nos concentrar na primeira, que era a disponibilidade de trabalho escravo a preços lucrativos. Uma vez esgotado o “reservatório” representado pelos “restos” da economia mineira, o tráfico internacional surgiu naturalmente como fonte de abastecimento de mão de obra barata. No entanto, o setor fornecedor externo desapareceu em 1850, após o tratado de 1826 em que o Brasil se obrigava a interromper o tráfico no prazo de 3 anos e após

19 MELLO, João Manuel Cardoso. Capitalismo tardio. São Paulo: Brasiliense, 1998.

53

a lei de 28’12 que declarava livres os africanos aqui chegados daí por diante, ambas disposições

que não vingaram, mas que, com a imposição com ameaças pela Inglaterra após o Bill Aberdeen (em 1845), acabaram por levar o jovem Estado brasileiro a ceder. Durante a fase de expansão deste ciclo, que se prolonga até 1874, as plantações se multiplicaram. A perspectiva da abolição representava a liquidação do ativo escravo. Uma solução apresentada era a imigração por meio de núcleos de colonização. Os imigrantes, cuja passagem para São Paulo era paga, eram tão pobres que não podiam comprar sua própria terra nem abrir pequenos negócios. Em 1881, o Estado de São Paulo passa a financiar 50% da passagem, mas a demanda por trabalhadores era alta, a situação estava se tornando crítica. A solução foi dada pelo governo de São Paulo, que, em 1885, decide financiar totalmente os gastos com a imigração e cria a Sociedade Promotora de Imigração, dirigida pelo Visconde de Parnaíba. Recebemos entre 1885 e 1888 perto de 260.000 imigrantes italianos. Em 1888 extingue-se a escravidão. Com a crise da economia cafeeira, inicia-se o processo da industrialização restringida. Cardoso de Mello assim resume como se formou a capacidade para a indústria a partir do modelo exportador cafeeiro:

Em suma, o próprio complexo exportador cafeeiro engendrou a capital-dinheiro

disponível para a transformação em capital industrial e criou as condições necessárias:

parcela de força de trabalho disponível ao capital industrial e uma capacidade para importar

capaz de garantir a compra de consumo, indispensáveis a reprodução da força de trabalho

industrial. (Capitalismo tardio, p. 147)

  • 2.3 A favelização no Brasil: ocorrência e estabelecimento das favelas

A urbanização não planejada, em face também da atratividade da cidade que nascia sob o signo da industrialização também nascente no Brasil, provocou uma aceleração do crescimento urbano nas primeiras décadas do século XX. A miséria de vários migrantes, aliada à necessidade de estabelecer-se em algum local, deram origem às ocupações em terrenos com poucas condições infraestruturais, daí nasceram as primeiras favelas. Como vimos anteriormente, a primeira favela surgiu a partir de ex-combatentes da Guerra de Canudos que foram trazidos, pela nascente República, da Bahia ao Rio de Janeiro, que era a capital do país. Como a ausência de uma política de assentamento pelo Estado

54

brasileiro fez-se notar desde esse início, a tendência à eclosão de novas “favelas”, termo que passou a ser utilizado no Brasil para designar o tipo de moradia precária que se estabelecia em grandes cidades, não tardaria a acontecer. Para esclarecer a ocupação em localidades não bem estruturadas urbanisticamente, Bernardo Secchi 20 revela um pouco das condicionantes do crescimento das cidades:

Porém, na grande cidade moderna lugar por excelência de uma divisão do trabalho

na qual, a partir do século dezenove, o progresso tecnológico e a melhoria das condições

materiais das populações residentes parecem estar ligados ao crescimento econômico a

organização espacial surge atrasada em relação à organização dos lugares de produção ou

de trocas. Elucidar, definir, separar e afastar, interligar e sincronizar lugares e ritmos de

vida metropolitana por meio de um sistema racional de regras de utilização do solo e de um

sistema de infraestruturas, também racional, parece, para toda a primeira metade do

século, até os anos sessentas, o modo de dominar a angústia que acompanha o crescimento

metropolitano ..

Inevitavelmente associados à concentração urbana, são os intensos fluxos

migratórios que, a partir do século dezenove, obviamente a alimentaram. Inteiras partes do

continente europeu continuaram a ser, durante mais de três quartos do século vinte, a

fonte4 onde procurar a força de trabalho e população. A transferência da população da

zona rural para a cidade, da agricultura para a indústria, do Sul para o Norte, do

mundo e das tradições rurais para o mundo e a cultura urbana, deu origem a novas

exigências e a novas demandas radicais, ao mesmo tempo que determinou importantes

mudanças nas relações entre as diversas cidades e as diversas regiões do continente e do

planeta, modificando a organização hierárquica e os ritmos de crescimento.

O autor, ao se referir à transferência de população do Sul para o Norte, usa um exemplo de transferência de populações do Sul da Europa para os Estados Unidos da América, mas houve também transferência de europeus para o Brasil e o que nos interessa, para a realidade brasileira, não é exatamente a questão de mudança de hemisfério, mas o fenômeno da transferência em si de populações. A cidade não comportou, pela visão desse autor, o grande afluxo de pessoas. Ela não pôde organizar-se segundo o que ele chamou de “sistema racional de regras”. A informalidade surge, então, dessa falta de regulamentação de várias porções do tecido urbano. A favela é o exemplo brasileiro desse tipo de espaço não regulamentado. Mike Davis aponta, em seu livro Planeta favela 21 , algumas denominações para habitações semelhantes às favelas brasileiras: as gecekondus de Istambul (Turquia); as desakotas de Accra

  • 20 SECCHI, Bernardo. A cidade do século vinte., trad. Marisa Barda. São Paulo: Perspectiva, 2009, p. 39-40.

  • 21 São Paulo: Boitempo, 2006.

55

(Gana), os barrios de Caracas (Venezuela). Estes são alguns dos nomes locais para as aproximadamente 200 mil favelas existentes no planeta. Originou-se provavelmente no Rio de Janeiro a designação “comunidade” para substituir o termo “favela”, considerado pejorativo na percepção dos moradores da cidade. É o que

indica o artigo “Favela, bairro ou comunidade? Quando uma política urbana torna-se uma política de significados”, de Letícia de Luna Freire 22 , professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro:

Apesar de sua grande contribuição econômica, política e cultural para a cidade, as

favelas do Rio de Janeiro são, desde seu surgimento, na passagem para o século XX,

percebidas como espaços indesejáveis. Se, por um lado, elas vêm sendo cada vez menos

percebidas como problema eminentemente sanitário ou moral, por outro aparecem hoje com

frequência na mídia como o foco transmissor da violência e da criminalidade ..

A persistência dessa representação negativa das favelas e seus habitantes remete a sua

história como objeto de diferentes modalidades de controle, seja por parte do poder público,

seja por parte de instituições sociais, como a Igreja Católica. Diversos estudos realizados

desde a década de 1970 por pesquisadores brasileiros e estrangeiros (PERLMAN,

1977; VALLADARES, 1978, 2005; LEEDS & LEEDS, 1978; VALLA,

1986; BURGOS, 1998; SILVA, 2005, entre outros) permitem-nos reconstituir esse

percurso, evidenciando as representações que regeram (e regem) as intervenções do Estado

sobre esses espaços. Não obstante as diferentes perspectivas, todos esses trabalhos têm em

comum o fato de apontar que a descoberta da favela pelo poder público como um

“problema” surgiu muito mais do incômodo que esses aglomerados urbanos causavam à

urbanidade do que de uma postulação de seus habitantes ou de uma vontade política de

universalizar o acesso a direitos básicos de cidadania.

Deve-se, pois, ponderar, que a ideia de tecido urbano problemático, contida em vários estudos, pode estar mais no desconforto dos outros habitantes da cidade à exceção dos que moram em favelas do que propriamente na necessidade de alteração de rumos que os próprios favelados queiram dar à sua condição de habitabilidade. Mas, se pensarmos na falta de saneamento em alguns pontos da cidade, algo que não é exclusividade das favelas, temos que verificar que não há lógica em querer viver tão próximo de risco de doenças, algo que decorre da falta de saneamento, como ocorre, por exemplo, com populações que vivem nas proximidades de córregos não canalizados, evidentes focos de doenças. E também não é aceitável pela própria população que habita áreas com risco de desabamento que elas acreditem, cem por cento do tempo, que não existe nenhuma ameaça de

22 FREIRE, Letícia de Luna. Favela, bairro ou comunidade? Quando uma política urbana torna-se uma política de significados. Dilemas Revista de estudos de conflitos e controle social, Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana (Necvu) do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) do IFCS/UFRJ, nr. 2, v.5, p. 95-96 (114).

56

que suas casas sejam soterradas por um desabamento em uma chuva muito forte. Apesar de haver o incômodo perceptível por quem não mora nas favelas ou nas comunidades carentes, também existe a percepção pelos próprios moradores de áreas menos estruturadas de que a falta de condições adequadas de moradia deva ser algo tratado e minimizado por iniciativa de órgãos públicos ou por alguma solução particular. As intervenções, seja por qual motivo existam ou vindas de uma iniciativa pública ou privada, devem acontecer se houver a pretensão de melhorar as condições de habitabilidade.

57

Contextualização

sócio-histórica de problemas urbanos na cidade de

São Paulo

3

Contextualização sócio-histórica de problemas urbanos na cidade de São Paulo 3 Imagem: Sombrinha, 2003 Bronze 75'x'13'x'23,5'cm

Imagem: Sombrinha, 2003 Bronze

75'x'13'x'23,5'cm

Sandra'Guinle

3. CONTEXTUALIZAÇÃO SÓCIO-HISTÓRICA DE PROBLEMAS URBANOS NA CIDADE DE SÃO PAULO

O próprio progresso da cidade de São Paulo trouxe-lhe os incômodos de uma superpopulação que não encontrava moradia adequada, nem sequer moradia. Nabil Bonduki acrescenta outro motivo para que a população operária que se estabelecia na cidade de São Paulo na primeira metade do século XX fosse obrigada a procurar terrenos para construir suas casas para moradia em bairros periféricos: a crise dos alugueis, que ele chama com o nome de crise na indústria rentista:

O progresso da cidade

Avenidas, arranha-céus, automóveis, indústria, desenvolvimento, trânsito,

metropolização. A São Paulo dos anos 40s e 50s vive a euforia de um progresso marcado

por símbolos urbanos.

A crise da habitação

A outra face do progresso: crise de abastecimento, de moradia, de transporte. A Lei

do Inquilinato visava defender o locatário, mas gerou uma forte crise, pois quem era

despejado não tinha para onde ir. Favelas e, principalmente, a periferia foram o destino

dos sem-casa e dos migrantes que buscavam a metrópole.

O surgimento da favela em São Paulo

Consequência dos despejos, da forte urbanização e da falta de alternativas

habitacionais, os primeiros núcleos de favelas em São Paulo surgiram na década de 40.

Foram uma manifestação da alteração do processo de produção da moradia, mas, como

alternativa de autoempreendimento da moradia, cederam lugar, em São Paulo, para os

loteamentos de periferia, pois foram fortemente estigmatizadas e combatidas numa cidade

que se orgulhava de seu progresso. No Rio e em Salvador, entretanto, prevaleceu a invasão

de terra, embora o loteamento de periferia também tenha sido importante 23 .

Não é exagerado afirmar, portanto, que a crise de moradia foi gerada pelo próprio processo de capitalismo (que Cardoso de Mello considera como retardatário) imposto pela cidade em crescimento a seu próprio desordenado e não adequadamente infraestruturado urbanismo. As próprias pessoas tomavam para si o empreendimento da casa própria e não contavam com o apoio de técnicos nem do Estado. As políticas eram a favor da expansão da cidade e, para isso, era necessária a colaboração de muita mão de obra, mas não havia preocupação em alocar adequadamente toda a massa de trabalhadores. A lógica ainda mais perversa do que a mentalidade escravocrata determinava que devesse haver distância entre as classes mais abastadas das classes trabalhadoras. O espaço demarcado da cidade que progredia

23 BONDUKI, Nabil. Origens da habitação social no Brasil: arquitetura moderna, lei do inquilinato e difusão da casa própria. 5. ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2011, p. 266-270.

58

era circunscrito para as elites, enquanto a massa trabalhadora deveria sacrificar-se a locomover- se em transporte público precário e a encontrar uma solução por sua conta para a casa própria ou para a moradia precária.

  • 3.1 O desenho urbano da cidade: evolução

Um marco da evolução da cidade de São Paulo para uma praticamente megalópole foram as reformas urbanísticas de Prestes Maia na década de 1930. E A leste do centro: territórios do urbanismo, Regina Maria Prosperi Meyer e Marta Dora Grostein 24 refazem analiticamente em 2010 o percurso urbano do Centro de São Paulo. Elas iniciam o percurso analítico com uma

constatação sobre o que chamam “coração da cidade”:

De forma ampla, as transformações vividas pelas cidades em todo o mundo, que foram

vivenciando seus processos de industrialização e metropolização, causaram grande

impacto na organização do coração da cidade. Em inúmeros casos, precisamos de certo

esforço de percepção para reconhecer os atributos funcionais, espaciais e simbólicos existentes

nesses espaços primordiais e únicos denominados coração da cidade.

A escolha de O coração da cidade: por uma vida mais humana da comunidadecomo

tema de reflexão e proposição do VIII CIAM [Congresso de Arquitetura Moderna, de

1951, na Inglaterra] revelou a preocupação de garantir a vida comunitária no interior das

cidades e elegeu o Centro como lugar privilegiado para esse aspecto da vida urbana.

As autoras avaliam que o crescimento urbano e o avanço do processo de “metropolização” fizeram com que os centros das cidades já consolidadas perdessem suas antigas atribuições, ou seja, não se destinavam mais a múltiplas funções moradia, comércio, lazer , mas apenas ao trabalho (região estritamente comercial). O ritmo de crescimento nas cinco primeiras décadas do século XX em São Paulo determinou uma descentralização de atividades e uma distribuição pela periferia das populações emergentes. Segundo as autoras 25 ,

A imensa expansão periférica gerou uma metrópole que, em um período de 70 anos,

viu sua área urbana passar de 180 quilômetros quadrados (1930) para 1.874

quilômetros quadrados (2001). Esse enorme crescimento tem sido alvo de análises que

apontam para o seu caráter comprometedor. Tal ritmo de crescimento está associado à

profunda desorganização espacial que o acompanhou. Fato ostentado com orgulho na

década de 1950, mostra-se hoje uma herança complexa e, sobretudo, um legado de elevado

custo social e econômico.

  • 24 MEYER, R. M. P. e GROSTEIN, M. D., A leste do centro: territórios do urbanismo. São Paulo: Imprensa Oficial do estado de São Paulo, 2010, p. 19-20.

  • 25 Ob. Cit., p. 20-21.

59

Ainda segundo as autoras, a organização do Centro oscilou entre guardar os traços da cidade colonial e responder às necessidades de transformação impostas pelo dinamismo da metrópole em cada uma de suas etapas, as quais podem corresponder à teoria formulada por Cardoso de Mello quando trata do capitalismo tardio: de 1888 a 1933; de 1933 a 1955; e a partir de 1955. A expansão do centro, a partir do traçado feito pelo engenheiro Francisco prestes Maia em 1930, ocorreu por meio de um grande número de obras públicas projetadas e executadas sem uma visão global e cuidadosa de sua inserção e sem que a repercussão no Centro fosse considerada. Um dos grandes problemas que foi, pelo que constatam as autoras, definidor dessas transformações mal engendradas, foi o rápido crescimento da cidade: em 1886, São Paulo era uma vila de 47.697 habitantes; em 1900, apenas 14 anos após, já contava com 239.820 habitantes, número que mais do que duplicou em 1920 (a cidade chegou a 579.033 moradores). Em 1930, o município alcançou seu primeiro milhão de habitantes, e, em 1950, duplicou sua população, alcançando 2.198.000, todos vivendo em uma área urbanizada de aproximadamente 420 quilômetros quadrados. Para suportar todo esse crescimento aceleração, fazia-se necessária uma série de modificações, tanto no Centro quanto em outras regiões da cidade, para atender à diversificação de funções que acompanhava o próprio processo de urbanização e o desenvolvimento econômico e social da cidade, em 1950 já uma metrópole. As autoras detalham todas as ampliações viárias feitas no Centro, desde 1911, algo que não é exatamente o propósito deste nosso trabalho. Apenas cabe dizer a esse respeito que todo o congestionamento decorrente da incursão de pessoas ao Centro trouxe a necessidade de ampliação de obras viárias de ligação do Centro com os bairros. O traçado urbano foi mudando sensivelmente. O Centro, com o passar do tempo e as novas configurações da industrialização na cidade (que se direcionou para polos entre 50 e 100 quilômetros dos limites do município), foi sendo esvaziado em suas funções, devido ao deslocamento gradual de atividades intrinsecamente centrais para novos polos de investimento. Atualmente, tenta-se evitar que o Centro de São Paulo, ou a hoje conhecida como Área central, assuma a forma de esvaziamento urbano. O que importa destacar para os fins deste trabalho é que a reorganização constante do Centro, que se transformou em área predominantemente de serviços, com prevalência para atividades diurnas, transformou-o em

60

região especulativa e que progressivamente afastou moradores. A implantação de núcleos de residências nas periferias da cidade, sem a devida infraestrutura de urbanização, caracteriza o que vários autores chamam de tecido urbano problemático em São Paulo.

  • 3.2 Favelas paulistanas: síntese histórica

A professora Suzana Pasternak mostra, por meio da produção de textos sobre favela em São Paulo, uma cronologia atribuída à autora Lícia do Prado Valladares, de um estudo sobre favelas de 2005, cujos períodos reproduzimos abaixo 26 :

1º.) dos anos 40s até os anos 60s, quando aparentemente surgiram as favelas na

cidade, com textos apenas estatísticos da Divisão de Documentação da Prefeitura de São

Paulo. Favelas eram “doença” da cidade e favelados, grupo marginal, a remover;

2º.) anos 70s início da expansão das favelas em São Paulo e propostas de

intervenção com alojamentos provisórios, pela extinta Secretaria do Bem estar Social do

Município de São Paulo (SEBES); em pleno período autoritário, a política municipal

paulistana não se resumia às remoções;

3º.) anos 1980s urbanização de favelas por programas estaduais, como PROLUZ

e PROÁGUA, municipais (PROFAVELA) e do BNH (PROMORAR);

4º.) meados dos anos 80s até 1988 retorno das remoções e instalação de construção

de moradias populares com parcerias privadas (operações interligadas);

5º.) anos 90s urbanização de favelas por políticas municipais.

O esquema cronológico acima transcrito mostra, além de uma razoável síntese da evolução da favela na cidade de São Paulo, também o tratamento dado pelo Estado a essa questão. O mais inquietante é ter que reproduzir a pergunta, que é o nome de um artigo, feita por um jornal de São Paulo, no final de 2011: “Por que São Paulo ainda tem 2.627 favelas?” 27 . Antes de responder, já podemos constatar que, se, desde 1940 até 2000, com os programas governamentais, ainda não se resolveu o problema de moradias com infraestrutura deficiente, não houve ainda nenhuma ação pública efetiva que desse conta do problema. A matéria do jornal “O Estado de São Paulo” mostra que São Paulo tinha no final de 2011 (situação que não se alterou até agora, meados de 2012) 994.926 famílias vivendo em situação de risco, em áreas precárias ou em terrenos irregulares. O número de pessoas estimado como de moradores dessas áreas está entre 3 a 4 milhões, que perfaz uma população

  • 26 PASTERNAK, Suzana. São Paulo e suas favelas. Pós. Revista do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo. São Paulo: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP), n. 19, jun. 2006. Disponível em <http://www.revistasusp.sibi.usp.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1518- 95542006000100012&lng=pt&nrm=iso> acesso em 21 set. 2011.

  • 27 BRANCATELLI, Rodrigo. Por que SP ainda tem 2.627 favelas?, O Estado de São Paulo, 28-nov.-2011, Caderno Cidades/Metrópole, C8.

61

bem maior do que a de Salvador, Belo Horizonte ou Brasília e significa que quase um terço dos paulistanos tem residência atualmente em favelas, loteamentos irregulares, cortiços, conjuntos irregulares e outros assentamentos informais. O artigo só poderia constatar o que também se constata pela ineficiência das políticas públicas: até agora a relação da sociedade com as favelas foi controversa e mal resolvida. O artigo aponta que 60% das favelas ocupam terrenos que seriam destinados a praças e parques públicos obviamente, eles não foram estabelecidos porque a informalidade chegou antes do que a iniciativa pública de construir esses locais que deveriam ser públicos. Há algumas soluções que foram atingidas e que estão sendo implementadas o artigo constata isso. Algumas apontadas: locais antes vulneráveis estão sendo urbanizados; terrenos foram regularizados; há movimentos para a habitação popular. O grande entrave e que poderia ser uma das respostas para o grande número ainda de favelas na cidade é o custo: cerca de R$ 58 bilhões ao longo dos próximos 14 anos seriam necessários para zerar o déficit habitacional na cidade. Os gráficos do artigo mostram alguns números atuais: 389.112 famílias moram em favelas e ocupam 24 quilômetros quadrados, ou 1,6% do município. Há 160.358 famílias em loteamentos inapropriados (em áreas de mananciais, principalmente), ocupando 92,6 quilômetros quadrados, ou 6,14% da área do município. Além desses, há 127.084 famílias morando em cortiços, 25% a mais do que há sete anos, quando levantamento semelhante foi feito. E, finalmente, há 318.372 famílias vivendo em áreas irregulares (95% são loteamentos clandestinos que até têm infraestrutura, mas não são oficializados pela Prefeitura) estão 318.372 famílias. Ao tratarmos das possíveis soluções para essas ocupações com submoradias, voltaremos a esse artigo.

3.3

Níveis

de

entendimento

de

tecidos

urbanos

problemáticos na cidade de São Paulo

Se partirmos do artigo do jornal “O Estado de São Paulo”, veremos que há no tecido

urbano da cidade de São Paulo, vários segmentos que se podem considerar de ocupação irregular: favelas, loteamentos irregulares, cortiços e áreas irregulares. Se considerarmos que praticamente um terço dos moradores estão nessa “cidade informal”, deve-se atentar para a

62

importância desse enorme contingente para a condução da vida da cidade. Daí que os mesmos níveis de entendimento geral da questão das favelas no mundo devem ser observados para a cidade de São Paulo: o nível sociocultural, o nível político-econômico e o nível ambiental. Como já dissemos nas análises mais gerais, eles são interligados, nós apenas os separamos para fins didáticos da própria análise.

3.3.1 Nível sociocultural

Nabil Bonduki, no seu trabalho já anteriormente citado, transcreve a letra de dois sambas de um dos cantores da cidade, o letrista e compositor popular conhecido pelo pseudônimo de Adoniran Barbosa (cujo nome verdadeiro era João Rubinato). Transcrevemos abaixo as duas letras e mostramos um pouco da vinculação sociocultural dos habitantes de tecidos urbanos problemáticos da cidade com a própria vida da cidade:

Saudosa maloca

Si o senhor não "tá" lembrado Dá licença de "contá" Que aqui onde agora está Esse "edifício arto" Era uma casa veia Um palacete assombradado Foi aqui seu moço Que eu, Mato Grosso e o Joca Construímo nossa maloca Mais, um dia Nóis nem pode se alembrá Veio os homi c'as ferramentas O dono mandô derrubá Peguemo todas nossas coisas E fumos pro meio da rua Aprecia a demolição Que tristeza que nóis sentia Cada táuba que caía Duía no coração Mato Grosso quis gritá Mas em cima eu falei:

Os homis tá cá razão Nós arranja outro lugar Só se conformemo quando o Joca falou:

"Deus dá o frio conforme o cobertor" E hoje nóis pega a páia nas grama do jardim

63

E prá esquecê nóis cantemos assim:

Saudosa maloca, maloca querida, Dim dim donde nóis passemos os dias feliz de nossas vidas Saudosa maloca,maloca querida, Dim dim donde nóis passemo os dias feliz de nossas vidas.

(Fonte: Martins, M. Lúcia Refinetti. São Paulo, metrópole é isso tudo 1920 a 1980. Dissertação de mestrado apresentada à FAU-USP, São Paulo: mimeo, 1982, transcrita à página 272 do livro Origens da habitação social no Brasil: arquitetura moderna, lei do inquilinato e difusão da casa própria, de Nabil Bonduki, São Paulo: Estação Liberdade, 2011).

A palavra cultura tem suas origens na cultura da terra, na agricultura. Tem sua vinculação, pois, à raiz formada com o solo pelos homens. No caso dos sem-casa, numa sociedade urbanizada, distante da terra, a condição de vínculo deveria ser com a moradia, ponto de partida para o trabalho e a fixação na cidade que é construída pelos seus moradores, aqueles que fazem a cultura, não os nômades, os turistas que saboreiam de passagem qualquer lugar, sem se fixar, sem promover cultura. Parece contradição afirmar a cultura pela inexistência, mas é o que incrivelmente se faz

cotidianamente com as ocupações nas áreas urbanas. A resistência das populações forma tantos valores que se arraigam, apesar da inexistência de um solo fixo em que se assentarem ou fazerem para si e suas famílias algo mais duradouro do que o tempo até a próxima demolição. A canção “Saudosa maloca”, de 1954, do saudoso intérprete da cidade conhecido como Adoniran Barbosa mostra também de passagem um lado religioso, que é uma das marcas da

população pobre: “Deus dá o frio conforme o cobertor”. Não por acaso é um provérbio, que é

uma marca da chamada cultura oral popular, muito firmemente marcada como traço cultural das populações mais carentes. A outra canção transcrita é “Abrigo de vagabundos”, de 1958:

Eu arranjei o meu dinheiro Trabalhando o ano inteiro Numa cerâmica Fabricando potes e lá no alto da Mooca Eu comprei um lindo lote dez de frente e dez de fundos Construí minha maloca Me disseram que sem planta Não se pode construir Mas quem trabalha tudo pode conseguir

João Saracura que é fiscal da Prefeitura

64

Foi um grande amigo, arranjou tudo pra mim Por onde andará Joca e Matogrosso Aqueles dois amigos Que não quis me acompanhar Andarão jogados na avenida São João Ou vendo o sol quadrado na detenção

Minha maloca, a mais linda que eu já vi Hoje está legalizada ninguém pode demolir Minha maloca a mais linda deste mundo Ofereço aos vagabundos Que não têm onde dormir

(Fonte: Martins, M. Lúcia Refinetti. São Paulo, metrópole é isso tudo 1920 a 1980. Dissertação de mestrado apresentada à FAU-USP, São Paulo: mimeo, 1982, transcrita à página 273 do livro Origens da habitação social no Brasil: arquitetura moderna, lei do inquilinato e difusão da casa própria, de Nabil Bonduki, São Paulo: Estação Liberdade, 2011).

A questão da legalidade da construção é mostrada como uma saída para evitar a

demolição. Mas os amigos não tiveram o mesmo destino. Nota-se o “arranjo” necessário junto ao poder público (na letra da canção representado pelo fiscal da Prefeitura) para que fosse possível a legalização. Quando o compositor diz que oferece aos vagabundos que não têm onde dormir sua

preciosa maloca, “a mais linda deste mundo”, ele está tentando mostrar uma situação diversa

da individualização proposta pelo mundo capitalista: um sentido de solidariedade que

sobrevive no imaginário e que talvez até nas “comunidades” carentes já esteja cedendo à

especulação. De qualquer forma, é preciso dimensionar esse entendimento sociocultural como uma resistência, até na linguagem (obviamente com Adoniran estabelece-se um pouco do nível coloquial do imigrante italiano vindo do interior e envolvendo-se num mundo urbano aceleradamente em mudança). Tudo isso molda uma cultura também dos excluídos, um

mundo de resistência, que hoje tem vertentes mais americanizadas, como hip hop, funk e outras derivações regionais, que ajudam a compor aquilo que a própria autora da dissertação de

mestrado de onde se extraíram as letras das canções confirmou: “São Paulo, metrópole é tudo isso”.

A própria casa do senhor Estevan, que lembra obras do arquiteto catalão Gaudí, é mais um exemplo da diversidade cultural possível que é encontradiça nas favelas.

65

3.3.2 Nível político-econômico

Na segunda canção de Adoniran Barbosa transcrita acima, o letrista fala de seu trabalho que ajudou a construir a maloca e justifica seu progresso devido ao trabalho. Os amigos, que não seguiram o mesmo caminho, ou ficaram jogados no asfalto ou presos. O nível de marginalização é aqui apenas associado de maneira simples à não ocupação como reserva de mão de obra industrial. O habitante do tecido problemático é visto como trabalhador ou como alguém que não teve a sorte no trabalho e acabou marginalizado. Na essência, pela própria informalidade inicial, a população excluída e que habita em tecidos problemáticos é essencialmente marginalizada pelos poderes públicos. Mas ela é composta de eleitores e cidadãos que pagam impostos, contribuem com seu trabalho e talento para a construção da cidade e, mesmo marginalizados, compõem um contingente de pessoas que devem merecer a reflexão e o trabalho dos órgãos públicos a fim de que sejam incluídos como seres produtivos, pensantes e contribuintes que, ainda que potencialmente, possam ser. Afinal de contas, um contingente de aproximadamente 4 milhões de pessoas não é absolutamente desprezível. No trabalho “São Paulo e suas favelas” 28 , a pesquisadora Suzana Pasternak apresenta alguns mitos sobre o espaço favelado. A ideia de barracos de madeira, das primeiras construções em favelas especialmente desde a origem, no Rio de Janeiro , já não é a predominante nas favelas, pois a construção a partir de 2000 passa a ser de alvenaria, muitas vezes um sobrado. A maioria das casas, talvez devido as programas governamentais, é servida por energia elétrica (mais de 99%), água potável (próximo de 98%) e coleta de lixo (mais de 80% das unidades). Ainda persiste o barraco de madeira, mas não é predominante como ocorria até 1987 (quando cerca de metade das unidades ainda era de madeira). Mas, como assinalou o pesquisador Luiz Gonzaga de Sousa para as favelas da Paraíba, o ponto crítico é o da infraestrutura quanto ao destino dado aos dejetos domésticos, pois apenas 51% das casas possuem ligação com rede pública de esgotos. Na cidade toda, o percentual de ligação era de 84% em 1991 e 87% em 2000. Isso significa que ainda persiste a ideia de não inclusão quanto a esse item fundamental. Já que até para os domicílios mais requintados, o banheiro é um item de conforto, a falta de destino adequado aos dejetos domésticos permite deduzir que esse item valorizado de conforto não está presente na maioria

28 Ob. Cit., p. 192-195.

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ainda das casas em tecidos urbanos problemáticos. A ocupação, que em 1973 era predominantemente em imóveis de cômodo único, mostra que pouco mais de 1% dos domicílios, apenas, são assim, e4 o curioso é que 84% possuem mais de dois cômodos. A superpopulação em ambientes pequenos (o que a autora chama de congestionamento) é cada vez melhor, pois o número de pessoas por cômodo diminuiu quase três vezes desde 1973, quando havia o predomínio de casas com cômodo único. A ocupação de mais de duas pessoas por dormitório diminuiu de 35% em 1991 para 19% em 2000. As formas de capitalização encontradas na sociedade geral estão também nos tecidos problemáticos: há quem proponha estruturas paralelas (a autora chama-as de formais e coloca o termo “formais” entre aspas) de comercialização de unidades habitacionais, sobretudo nas favelas maiores de São Paulo. Ela relata um trabalho justamente sobre Paraisópolis, do ano de 2000, na época contando com mais de 40 mil pessoas, que apontava 110 ofertas para a venda de imóveis, ou 1,2% dos domicílios da favela. Já em 1990 surgia a primeira imobiliária na favela; em 2000, já havia 3 em funcionamento. O preço das unidades à venda é homogêneo nas diversas favelas, ou seja, reproduz-se um esquema de prospecção de mercado. Uma casa de quatro cômodos custa entre 12 e 15 mil reais, ou preço de venda próximo a R$ 250,00 por metro quadrado útil. A empresa EMBRAESP apontava o preço médio da área útil de um domicílio, em bairros populares de São Paulo, em torno de R$ 967,00 (ou oito salários mínimos em 1998). O preço da favela representava cerca de 25% dos lançamentos em bairros populares por volta do ano 2000. Até a terra é comercializada muitas vezes. Os lotes são reservados nas invasões e posteriormente comercializados. Os esquemas econômicos capitalistas reproduzem-se. O poder de venda é estimado politicamente pela organização que determinou quem primeiro chegou ao local invadido. O primeiro posseiro é o detentor do direito de, inclusive, reservar o lote ocupado. Cresce a especulação, algo constatado pelo fato de que em 1987 apenas 4% dos entrevistados pelos estudos transcritos pela pesquisadora Pasternak terem desembolsado dinheiro pelos lotes, mas em 1993 (apenas 4 anos depois) já 14% o fizeram. Os agentes imobiliários do mercado de terra e casas na favela assemelham-se aos do mercado formal. Ele é, mesmo, uma extensão do mercado formal, talvez um submercado com características próprias. Um depoimento da primeira dona de imobiliária em Paraisópolis dá conta de que sua imobiliária funciona como uma imobiliária normal, com corretores, estrutura

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de divulgação, administração de imóveis, além da compra, venda e locação de diversos tipos de imóveis. Uma curiosa constatação, a partir de dados dos censos de 1991 e 2000 é que a proporção de domicílios com água encanada é maior nas favelas do que nas moradias do anel periférico. Os esforços de assimilação da última década do século XX fizeram, no entanto, com que diminuísse sensivelmente (menos do que 1%) o número de domicílios em favelas sem energia elétrica. A questão da assimilação, no entanto, como vimos pelas “incorporações” de hábitos capitalistas ao cotidiano político-econômico das favelas, não é apenas de vida de comunidade solidária, mas reproduz muito dos esquemas capitalistas da cidade formal. Infelizmente, porém, apesar dessa “capitalização” de mentalidade, não há ainda infraestrutura adequada para destino adequado de dejetos domésticos, o que significa que ainda é arriscado, do ponto de vista das condições de saúde, viver em áreas do chamado tecido problemático de São Paulo. A complicada questão político-econômica diz respeito também à visão dos ocupantes do tecido problemático pelos demais moradores da cidade. Segundo o estudo de Pasternak, há no imaginário popular a visão preconceituoso do favelado como negro, nordestino, desocupado e marginal. Dados estatísticos mostram que a população de negros e pardos é maior na população favela (53%) do que na população geral (29%), dados de 1991. Se a maioria é de fato de nordestinos (70% dos favelados migrantes vieram do Nordeste), esse número não é de migrações recentes: os que migraram mais recentemente não foram para favelas, na sua primeira tentativa de morar em São Paulo, mas para casas alugadas ou de parentes. A impossibilidade de continuarem pagando aluguel ou de permanecerem em casas de parente condicionaram a ida para a favela. Quanto ao nível de emprego, a proporção de empregados com emprego formal (carteira assinada) é semelhante nas favelas e na população geral. Portanto, o favelado não é um desocupado, como aponta o imaginário popular. O que o favelado é, segundo a conclusão de Pasternak, é um trabalhador pobre: em 1993, predominavam, na favela e fora dela, os empregos terciários. A renda medida da população favelada acima de 10 anos de idade era de dois salários mínimos, enquanto a da população geral era de 4,5 salários mínimos, no ano de 1991. Em São Paulo, a população favelada, segundo esses dados, é mais pobre do que a média do município. Já no anel periférico, a renda média é de 3,34 salários mínimos. Os favelados, portanto, formam ainda o contingente mais pobre da cidade, embora a renda média na favela

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tenha aumentado nas últimas décadas. Não se pode dizer também que favela é abrigo de miseráveis exclusivamente, porque muitas famílias deixaram de morar em casas alugadas anteriormente e passaram a usufruir do

tipo de moradia oferecido na favela. A autora aponta o processo de decadência (que ela chama

de “downgrading process”) de setores da baixa classe média como causador da transferência de

pessoas dessa camada social para a favela, ampliando o espectro social ou o perfil do morador

da favela. A realidade, segundo a autora, torna-se, portanto, mais complexa e intrincada do que a formulação preconceituosa de que favela é lar de miseráveis exclusivamente. Já o consumo de bens é impressionante entre favelados, já que a favela parece ter sido invadida por bens industrializados. Fogão, rádio e geladeira, tidos pela autora como básicos, ganharam a companhia, como presença maciça, da televisão em cores. Há mais televisões nas favelas de São Paulo que no Brasil como um todo, assim como aparelhos reprodutores de vídeo. Não são raros aparelhos de som, máquinas de lavar, micro-ondas e microcomputadores. De tudo isso, a autora conclui que os favelados não são um enclave separado do resto da cidade. Eles compõem e incorporam-se ao mundo econômico da cidade, como consumidores de produtos industriais novos e usados e como consumidores de serviços. Eles adquirem móveis produtos, mesmo os mais populares, o que alimenta a oferta por parte dos fornecedores desses bens, assim como a dos revendedores de materiais de construção. O poder aquisitivo é mais reduzido, mas está integrado à vida urbana. O que se vê, portanto, é algo muito complexo e, diferentemente do que especula o imaginário popular, bastante heterogêneo quanto à conformação político-econômica, dentro das favelas 29 .

3.3.3 Nível ambiental

Como já esboçamos para a análise geral dos níveis de entendimento de tecidos problemáticos, reiteramos que nossa proposta pretende desvendar algumas soluções diferentes

29 Não é objetivo deste trabalho aprofundar a questão político-econômica nas favelas de São Paulo do ponto de vista de como são vistos seus habitantes por quem não mora em favelas, mas é recomendável nesse sentido o

artigo O desgosto da “mistura” com prostitutas e favelados: mudanças e paradoxos no campo dos direitos

humanos, de Ana Paula Galdeano, Dilemas Revista de estudos de conflitos e controle social, Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana (Necvu) do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) do IFCS/UFRJ, nr. 2, v.5, p. 127-156, na qual a autora aprofunda a questão a partir de reflexões favelas encravadas em bairros nobres de São Paulo.

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do simples aterramento ou canalização que oculte o córrego após transformá-lo em rede de esgoto, prática que comumente se faz para tentar sanar o risco que pode significar um córrego. A questão do ambiente relacionada às grandes cidades é mais complexa do que a solução de canalizar ou não um córrego. O arquiteto italiano Renzo Piano, em conversa com o jornalista Renzo Cassigoli 30 , expõe algumas ideias sobre sustentabilidade que ilustram um pouco a complexidade da questão ambiental aplicada às grandes cidades:

Pergunta: O crescimento não pode ser infinito. Foi isso que o fez pensar numa “arquitetura sustentável”?

Foi essa ideia de crescimento sem limites que fez nossas cidades explodirem e

construírem as piores periferias, feitas de muros, mas as estruturas nas quais uma

sociedade se organiza e vive. É assim que se chega a refletir sobre uma "arquitetura

sustentável". No segundo pós-guerra e até os anos 1960, as cidades explodiram roubando

espaço ao campo e aos povoados vizinhos, dando vida a uma espécie de conurbação

contínua. Por fim, hoje, depois de tantos pecados começamos a entender que o crescimento

só pode ser sustentável. E então, por exemplo, começamos a pensar desde os anos 1980s

sobre como estávamos construindo e a refletir sobre o fato de que, em vez de fazê-las

explodir, deveríamos buscar meios de fazer essas cidades implodirem, deveríamos tentar

reabsorver os vazios urbanos provocados pelo processo de desindustrialização; deveríamos

tentar recuperar aqueles "buracos negros" criados pelas áreas industriais que se iam

liberando à medida que a cidade, ao crescer, tornava necessário o deslocamento das

atividades produtivas. De resto, o que era Potsdamer Platz senão o "buraco negro" de

Berlim? Tratava-se de enfrentar um processo complexo, gerando uma preocupação com os

centros históricos. Em suma, tomávamos consciência da necessidade de recuperar as áreas

que ficaram enredadas no crescimento desmedido das cidades. Isso talvez queira dizer que a

cidade começa a regenerar-se, começa a cicatrizar suas feridas? Certamente, mas os tempos

infelizmente são longos e não é certo que o êxito seja garantido. Será necessário secundar o

processo evitando repetir os erros já cometidos. Fundamental será a lição das cidades

antigas, que foram capazes de se estender e de se adequar, sobrevivendo assim durante

séculos até chegarem a nós. Será preciso estar muito atento sobre por que nosso século fez

degenerarem as cidades, esta grande invenção do homem. Ele poluiu seus valores positivos,

alterou a mistura das funções que está em sua base; a própria sociabilidade, que é seu

caráter distintivo; e por fim, também, a qualidade arquitetônica. A qualidade do que é

construído, herança de um tempo que passou e hoje sobrevive com esforço, sufocada e

desnaturada em nossos centros urbanos. Em suma, em vez de continuar fazendo-as

explodir, deveríamos, ao contrário, completar o tecido da cidade. E esta já é uma ideia

mais interessante e aceitável do que o conceito de um "crescimento" sem fim: a ideia

"crescimento sustentável", por meio do qual as periferias podem se transformar em cidades.

É esta a nossa verdadeira e grande aposta para os próximos cinquenta anos.

A ideia de ocupar o tecido da cidade e transformar as periferias em cidades pode ser aplicada à revisão urbanística de São Paulo, principalmente com relação à reurbanização de favelas ou de todo o tecido problemático da cidade. A questão de sustentabilidade diz

30 PIANO, Renzo. A responsabilidade do arquiteto: conversas com Renzo Cassigoli. São Paulo: BEi Comunicação, 2011, p. 38-39.

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respeito, sem dúvida, ao ambiente, mas não entendido apenas como reserva de recursos naturais, mas também como depositário do elemento humano nele se insurgindo com a

tecnologia. Quanto à questão específica do trabalho, que é a do estudo de um córrego em uma área problemática do tecido urbano de São Paulo, temos que encarar a questão tecnológica como ponto de partida. Nesse sentido, vale a observação de Saide Kathouni 31 , em A cidade das águas: “A tecnologia como subproduto social (decisões tecnológicas), aplicada aos recursos hídricos e associada ao confronto/conflito no tempo entre o cidadão e as águas, foi transformadora da paisagem paulistana”.

Sem querer ampliar demasiadamente a questão, pode-se unir a preocupação de Kathouni com a de Renzo Piano de que é preciso estudar a condução humana da natureza na cidade. O que é ser sustentável? É transformar a paisagem com o dessecamento de cursos de água? Possivelmente, essa solução tecnológica, que não é pacífica (porque, como diz ela, é associada a confronto e conflito entre o cidadão e as águas), deve determinar alguns rumos. No seu livro, Kathouni mostra várias alterações nos cursos do rio Tietê, Pinheiros e Tamanduateí, o dessecamento de vários rios que antes existiam na paisagem paulistana, assim como alterações de cursos diversos, sob várias alegações, sendo a principal delas a de debelar epidemias que seriam decorrentes do não tratamento das águas. Ela entrevê também interesses no controle do fornecimento de água potável e principalmente a cobrança por esse serviço pelo poder público ou por entidades privadas como motivo para as intervenções. A reinvenção da cidade, conforme a ideia de responsabilidade do arquiteto na questão da sustentabilidade, proposta por Piano, e a diminuição dos conflitos entre homem e água, na cidade de São Paulo, certamente se relacionam a populações que vivem à beira de cursos de água não tratados e diz respeito diretamente a quem, na maioria, não tem nem destino adequado a seus dejetos domésticos, como os 51% de favelados na cidade de São Paulo que constam no censo de 2000 sem tratamento adequado para dejetos domésticos em seus lares. O entendimento da questão ambiental deve necessariamente utilizar dados históricos, ancorar-se na complexa demanda por saneamento e obtenção de água potável, que são indicadores de conforto urbano e que são fatores que mostram a intervenção humana (obviamente complexa) no ambiente, não apenas um uso contínuo e não sustentável dos recursos. A tecnologia deve servir à reinvenção da cidade sustentável, a partir também de um diálogo mais consistente do cidadão paulistano com a água. Na especificidade do tratamento

31 KATHOUNI, Saide. Cidade das águas. São Paulo: RiMA, 2004, p. 91.

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que daremos como proposta ao Córrego Antonico, exporemos algumas soluções que preservem o curso de água (não o dessecando, como é prática habitual na cidade de São Paulo, demonstrada pelo estudo de Kathouni) e possam demonstrar, quanto a esse item, uma reinvenção sustentável da cidade, com a ocupação do tecido urbano de maneira responsável.

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Intervenção em

favelas

4

Intervenção em favelas 4

4. INTERVENÇÃO EM FAVELAS

No polêmico e volumoso livro S, M, L, XL (abreviação, em inglês, de Small, Medium, Large e Extalarge pequeno, médio, grande e extragrande, em português), o inventivo arquiteto Rem Koolhaas reitera sua intensa produção artística marcada pela experimentação constante. Essa experimentação é maximamente apregoada no livro para uso nas intervenções urbanas. O início do livro começa com um provocativo “Foreplay”, que, numa tradução simples significaria “Preliminares”, mas não são preliminares quaisquer, são os estímulos

preliminares de uma relação sexual. A seguir, o primeiro capítulo (se é que assim se pode

chamar a sequência de ideias do autor) chama-se “Êxodo, ou os prisioneiros voluntários da arquitetura”. No prólogo desse capítulo, Koolhaas, que neste livro recebeu a colaboração de Bruce Mau 32 , conta uma história que possivelmente tem aspectos de verdade:

Certa vez, uma cidade foi dividida em duas partes.

Uma parte tornou-se a Metade Boa, a outra parte a Metade Ruim.

Os habitantes da Metade Ruim começaram a afluir para a parte boa da cidade

dividida, rapidamente inchando na direção de um êxodo urbano.

Se se tivesse permitido continuar esta situação para sempre, a população da Metade

Boa teria dobrado, enquanto a Metade Ruim teria sido transformada em uma cidade

fantasma.

Após todas as tentativas para interromper essa migração indesejável terem falhado,

as autoridades da parte ruim fizeram um uso desesperado e selvagem da arquitetura: eles

construíram um muro ao redor da parte boa da cidade, tornando-a completamente

inacessível para seus súditos.

O Muro foi uma obra-prima.

Originalmente não mais do que algumas cordas patéticas de arame farpado

abruptamente caíram sobre a linha imaginária da fronteira, seus efeitos psicológicos e

simbólicos eram infinitamente mais poderosos do que sua aparência física.

A Metade Boa, agora vislumbrada apenas sobre o proibitivo obstáculo de uma

distância agonizante, tornou-se ainda mais irresistível.

Os presos, deixados para trás na sombria Metade Ruim, tornaram-se obcecados

com os vãos planos de fuga. A desesperança reinava soberana ao lado errado do Muro.

Como tantas vezes antes nesta história da humanidade, a arquitetura foi o

instrumento culpado pelo desespero. [nossa tradução].

A arquitetura tem que ser inclusiva, segundo a visão de Koolhaas, não exclusiva. E libertar-se dos muros, ou seja, deve ser integradora. No caso das habitações precárias de favelas, o sentido integrador e inclusivo deve nortear as intervenções.

32 KOOLHAAS, Rem e MAU, Bruce. S, M, L, XL. Köln: Benedikt Taschen, 1997, p.5.

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4.1. Tipologia e parâmetros de intervenção em favelas

A proposta de intervenção em favelas tem uma clássica propositura em uma tipologia feita por Laura de Mello Machado Bueno 33 que identifica três tipos principais de políticas de intervenção: erradicação (remoção ou desfavelamento), reurbanização e urbanização. A diferença entre urbanização e reurbanização, para a autora, seria: na urbanização, haveria a aceitação da favela como fenômeno urbano, o que levaria que se mantivessem as características do parcelamento de solo e das habitações, enquanto a reurbanização traria apenas a aceitação da favela como fenômeno urbano, mas não seriam aceitas a forma nem a tipologia urbanística e habitacional que a favela revelasse, o que significaria a necessidade de demolição da favela e à reconstituição de tudo no mesmo lugar, apenas com um padrão urbanístico e arquitetônico semelhante à linguagem dominante é o caso, por exemplo, em favelas suscetíveis a maré e com problemas de inundação. A erradicação foi abandonada pela maioria dos governos brasileiros a partir de 1980 e só foi adotada quando não é possível consolidá-la, como acontece nos casos de localização junto a redes de alta tensão ou sobre aterro sanitário. Embora a política predominante seja a baseada na segurança, como nos dois exemplos citados, houve também remoções gigantes, como a da favela das Águas Espraiadas pelo governo do Estado de São Paulo em 1990, para atender a interesses do mercado imobiliário 34 . Paraisópolis praticamente já é um bairro da cidade de São Paulo. Não é de todo descartada a hipótese de remoção de alguns pontos, mas não há a hipótese de erradicação completa. Ocorrerá uma ideia de desfavelamento, que já é gradual, com a urbanização e reurbanização de partes da favela. Veremos isso mais especificamente mais adiante.

4.2. Exemplos de programas de intervenção em favelas

Analisaremos brevemente alguns programas de intervenção em favelas, mais particularmente um exemplo do Rio de Janeiro, para, em seguida, tratar de um exemplo notável em São Paulo.

  • 33 BUENO, L. M. de M. Projeto e favela: metodologia para projetos de urbanização de favela. 2000. Tese de Doutorado - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, São Paulo.

  • 34 Cf. DENALDI, Rosana. Políticas de urbanização de favelas: evolução e impasses. 2003. Tese de Doutorado Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, São Paulo, p. 50.

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4.2.1. Programa Favela-Bairro: uma proposta para o Rio de Janeiro.

A Prefeitura do Rio de Janeiro desenvolve desde 1993 o Projeto Favela-Bairro, com receitas do BID [Banco Interamericano de Desenvolvimento]. Algumas novidades na empreitada desse projeto foram: a participação da iniciativa privada e a participação nas licitações de pequenas e médias empreiteiras. Uma das propostas era a da urbanização integrada. Um dos melhores retrospectos analíticos do projeto Favela-Bairro é apresentado por Laura de Mello Machado Bueno 35 . Transcrevemos um trecho que expõe sumariamente o projeto:

O Programa Favela-Bairro consolida a Urbanização Integrada como a principal

política para as favelas cariocas, incorporando ações concretas de ampliação das

oportunidades de melhoria das condições socioeconômicas das favelas, através dos

programas de geração de renda e emprego e de construção de equipamentos sociais dentro

das favelas, que no Rio de Janeiro apresentam dimensões diferenciadas.

O planejamento geral é divide a ação entre Favela-Bairro para favelas entre 500 e

2500 domicílios, sendo algumas em encosta; o Bairrinho, para favelas menores também

iniciado, e projetos especiais para os complexos.

As favelas escolhidas para o concurso foram representativos da diversidade carioca,

como encostas íngremes, como Escondinho, ou áreas de baixada como Fernão Cardim.

Entretanto as obras se iniciaram pelas situações geotécnicas, financeiras e sociais mais

fáceis, já que as encostas exigem mais remoções, como mostra a figura abaixo.

O Programa tem grande amplitude (em 1998 estavam em obras 53 favelas) e, ao

mesmo tempo, grande diversidade projetiva, decorrente da relação entre as equipes de

projeto, empreiteiras e, sobretudo, os líderes comunitários.

As obras do Favela-Bairro são contratadas com empresas de médio porte. Muitas

vezes elas têm dificuldades financeiras devido a imprevistos na obra, muitas vezes causados

por obra mal feita, mau uso, ou mesmo conflitos com marginais.

35 Ob. Cit., p. 94-96.

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Situação anterior e projeto para o Escondidinho (1999) Complementando as informações, a autora mostra um exemplo
Situação anterior e projeto para o Escondidinho (1999) Complementando as informações, a autora mostra um exemplo

Situação anterior e projeto para o Escondidinho (1999)

Complementando as informações, a autora mostra um exemplo de integração:

O Programa Favela-Bairro incorpora em seus projetos equipamentos públicos, áreas

verdes e de esportes. No caso da Comunidade Ladeira dos Funcionários e São Sebastião,

a terra para os equipamentos foi conseguida com os proprietários (todos estatais) do

entorno, sem remoções. Em alguns locais também são feitas unidades que podem ser

alugadas como pontos comerciais, inclusive para comerciantes de fora da área, visando

também uma integração do bairro à favela. (

)

...

O Programa Favela-Bairro apresenta um componente diferenciado que é a

implementação do POUSO Posto de Orientação Urbanística e Social. Essa ação busca

enfrentar o principal "calcanhar de Aquiles" dos programas de urbanização de favelas,

que é a ocupação dos espaços de uso público dentro da favela, com obras de ampliação ou

construção de novas casas, e da deterioração das obras (figura abaixo). Com o

desenvolvimento das obras do Favela-Bairro, está sendo possível executar uma planta

cadastral da comunidade, definindo-se as áreas onde passam as redes de infraestrutura, os

terrenos com equipamentos executados ou a eles destinados. A presença diária de um

funcionário da Prefeitura serve para encaminhar as reclamações quanto ao funcionamento

das redes, mau uso dos moradores e possibilita paralisar reformas das casas que

comprometam as áreas de uso público.

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Escadas embargadas pelo POUSO, Ladeira dos Funcionários, 1999 Ações complementares também são apontadas como formas de

Escadas embargadas pelo POUSO, Ladeira dos Funcionários, 1999

Ações complementares também são apontadas como formas de integração. É o caso da coleta de lixo diferenciada para as áreas de favela. O Gari Comunitário, um projeto complementar, promove a coleta do lixo de maior porte, como móveis velhos e entulhos; e a coleta do sistema público, seja porta a porta nas ruas acessíveis, seja nos pontos de transbordo, com contêineres modernos, dotados de rodas e tampa (figura abaixo) demonstraram ser acertada a decisão da Prefeitura em parceria com a COMLURB na coleta de lixo domiciliar nas favelas, já que se verificou que a densidade habitacional das favelas é mais alta do que o restante das áreas habitacionais da cidade do Rio de Janeiro. No caso da região integrada ao projeto Favela-Bairro que é a Ladeira dos Funcionários, os pontos de depósito de lixo para a coleta são limpos duas vezes ao dia, o que acabou com o lixo espalhado e a presença de vetores de doença.

Escadas embargadas pelo POUSO, Ladeira dos Funcionários, 1999 Ações complementares também são apontadas como formas de
Escadas embargadas pelo POUSO, Ladeira dos Funcionários, 1999 Ações complementares também são apontadas como formas de

A coleta de lixo duas vezes ao dia na Ladeira dos Funcionários (1999).

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Intervenção urbana

em favelas da cidade de São Paulo

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Imagem:'Pulando'corda,'2003' Bronze 80'x'24'x'20'cm Sandra'Guinle
Imagem:'Pulando'corda,'2003'
Bronze
80'x'24'x'20'cm
Sandra'Guinle

5. A INTERVENÇÃO URBANA EM FAVELAS DA CIDADE DE SÃO PAULO

Passaremos agora a tecer considerações sobre o tecido urbano problemático da cidade de São Paulo com o exemplo de experiências de intervenção, particularmente um caso atual (de 2012).

5.1 Considerações gerais sobre o tecido urbano problemático da cidade

A ideia de remoção não foi descartada, como vimos no caso especulativo da remoção da favela das Águas Espraiadas até hoje geradora de polêmicas inclusive sobre os valores estratosféricos envolvidos nas desapropriações por parte de órgãos públicos, principalmente quanto a esquemas de superfaturamento , mas o que interessa verificar são os outros dois tipos de intervenção: a urbanização e a reurbanização, especialmente esta última. Um marco na construção de moradias populares foi dado pelo Instituto de Pensões e Aposentadorias (IAP) de São Paulo, com atuação entre 1942 e 1964. Os conjuntos habitacionais construídos pelo IAP tinham como diretrizes que as residências deveriam ser mínimas, de modo que o custo da produção se enquadrasse nos salários dos trabalhadores, e produzidas em série. Mas, apesar de baratas, as habitações não poderiam perder a qualidade, a habitabilidade, o conforto e a higiene. Com a absorção dos IAPs pelo INSS e a criação do BNH (Banco Nacional de Habitação) em 1964, os projetos passaram a ser comandados pelo banco oficial e perderam muito em qualidade arquitetônica. A atuação do BNH deu-se de 1964 a 1986, coincidindo com o regime autoritário. A COHAB Companhia Metropolitana de Habitação atuou com um número bastante grande de construção de moradias de 1986 a 1993, sendo que de 1993 a 1996 houve a construção de unidades em locais de favela. Ainda não se retornou à mesma valorização arquitetônica do projeto como no tempo dos IAPs. Uma volta tímida dos projetos que valorizam a arquitetura deu-se em 2003 e perdurou até 2011. Um dos exemplos foi um projeto do arquiteto Ruy Ohtake para a favela de Heliópolis.

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A construção de novas moradias é uma das saídas para a população que vive no

chamado tecido urbano problemático de São Paulo. Segundo o artigo do jornal “O Estado de São Paulo”, de 28 de novembro de 2011 (citado anteriormente), há hoje 277.969 unidades

populares em conjuntos habitacionais na cidade. Estimam as autoridades que, até 2015, esse número deva subir para 371.934, considerando os prédios já planejados. Isso representará moradia para 1,4 milhão de pessoas, ou 12% da população. Restarão pelo menos 1,8 milhão de pessoas ainda vivendo em favelas e habitações precárias. Ainda segundo o mesmo artigo do mesmo jornal, uma outra forma de minimizar o problema habitacional, com o intuito de zerar o déficit habitacional na cidade, é a reforma de prédios antigos, especialmente os localizados no centro da cidade e que estejam ociosos. Só no centro, a Prefeitura prete4nde reformar 53 edifícios ociosos em imóveis de utilidade pública. A expectativa é a da criação de 2.500 unidades habitacionais a partir dessas reformas. Um dos exemplos dados pelo artigo é o Hotel Cambridge, que terá rearranjo em seus corredores para abrigar até 115 unidades habitacionais, com 38 metros quadrados cada uma. O Programa de Regularização Fundiária da Prefeitura pretende atender até o fim de 2012 cerca de 23.000 famílias em 108 assentamentos. Isso amenizaria o problema dos lotes ocupados irregularmente. Busca-se a legalização da posse, com o ingresso desses lotes no registro de móveis, levará a formalidade a essa porção de tecido urbano problemático. Uma das alterações no Plano Diretor decretada pelo prefeito atual, Gilberto Kassab, é a que possibilita a construção de conjuntos populares verticais no entorno das represas Billings e do Guarapiranga. A medida, que é controversa, prevê a urbanização de 45 favelas, a remoção de quase 4.000 famílias e a realocação de outras 1.300 nos próprios núcleos vizinhos das represas. O grande problema, ainda sem solução, é que essas remoções aliadas às que são previstas para dar espaço à construção de avenidas, túneis ou linhas de Metrô (são previstas remoções até 104 de 12.000 imóveis) levam a uma realocação das populações faveladas (mais da metade dos 12.000 imóveis a serem desapropriados) para outras favelas, já que a indenização, que é a única compensação pela perda do terreno, já que as famílias não têm a propriedade legal dele, é insuficiente para a aquisição de um novo imóvel. A especulação imobiliária decorrente das obras viárias talvez até com a construção de conjuntos populares é mais um fator para colaborar com o movimento das famílias de favelados a ocuparem outras favelas, quase um problema sem fim. A medida que mais se aproxima dos propósitos deste trabalho é a reurbanização de

79

favelas. O Programa de Urbanização de Favelas, iniciado na gestão Luísa Erundina, em 1999, prevê atualmente que 85.000 novas famílias devam ser atendidas. As melhorias urbanas propostas nas favelas preveem que elas se transformem em bairros, com ruas nivelas e pavimentadas, córregos canalizados, redes de água e esgoto implantadas, coleta de lixo implantada, serviços de postos de saúde, etc. Esses vários direcionamentos propõem-se a dar conta de minimizar a péssima qualidade de habitação de moradias no tecido urbano problemático. A construção de novas moradias é ainda a forma mais abrangente porque se direciona aos quatro grandes conjuntos de áreas problemáticas: favelas, loteamentos irregulares, áreas inadequadas para ocupação e cortiços. Para as áreas irregulares, a regularização fundiária é também outra medida importante. Os loteamentos inadequados terão alguma minimização do problema com a verticalização no entorno das represas como uma medida complementar. A reforma de prédios antigos atende, como outra medida, obviamente à população que vive em cortiços. E a reurbanização de favelas é obviamente específica para as favelas.

5.2 Experiências de intervenção em favelas paulistanas

Em 2010 a Secretaria Municipal de Habitação, por meio da Superintendência de Habitação Popular, publicou um apanhado de algumas experiências de intervenção em favelas paulistanas, sob o nome de São Paulo projetos de urbanização de favelas, em edição bilíngue (português e inglês o título traduzido para o inglês foi São Paulo Architecture Experiment 36 ), que em 124 páginas mostra intervenções em Paraisópolis, Pirajussara, Heliópolis, São Francisco, Moinho, Glicério, Córrego da Mina, São Domingos, Eucaliptos, Boulevard da Paz, Cocaia / Nova Grajaú e Vargem Grande. Não é nossa intenção esmiuçar todos esses projetos, apenas tratar de um segmento de Paraisópolis, que é o objeto do trabalho. Vale destacar do trabalho da Secretaria Municipal de Habitação o artigo final, assinado por Alfredo Brillembourg e Hubert Klumpner, sob o título

“Rumo a uma nova responsabilidade social na arquitetura”. O artigo tem início com uma citação emblemática de Michael Carrington, de 1962: “A favela não é apenas uma área de edificações decrépitas. É um fato social”.

A visão, que coincide com as reflexões de Piano de arquitetura sustentável e que tem

36 BILLEMBOURG, Alfredo et alii (org.). São Paulo projetos de urbanização de favelas / São Paulo Architecture Experiment, São Paulo: Superintendência de Habitação Popular da Secretaria Municipal de Habitação, 2010.

80

aval de outros arquitetos, já começa afirmando que mais de 1 bilhão de pessoas vive hoje em favelas nas megacidades do mundo. Isso representa praticamente um quarto dos habitantes do planeta. O livro resulta de conjuntos de ferramentas desenvolvidos por dois importantes institutos: o SPAE (São Paulo Architeture Experiment) e o S.L.U.M. Lab (Sustainable Living Urban Model Laboratory). A ideia central das ferramentas desses institutos é capacitar as pessoas que vivem nos assentamentos precários das cidades emergentes do hemisfério sul e promover o desenvolvimento sustentável nas favelas. Esses institutos são coordenados pela Universidade de Columbia, Estados Unidos, e mantêm parceria com a Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo. A mudança de mentalidade, que atende à responsabilidade pregada como atitude a ser adotada pelos arquitetos, por Renzo Piano na obra anteriormente citada, é a de conectar o planejamento que

os autores do artigo chamam de “de cima para baixo” com as iniciativas de baixo para cima. A

ideia é promover a urbanização de 15 áreas carentes de São Paulo (no livro estão informações sobre as 12 áreas acima citadas). Os autores dizem que os projetos procuram reduzir o descompasso entre um projeto e

seu impacto social. A arquitetura passa a ter, na visão desses projetos, um objetivo além do puramente “artístico”, porque busca criar construções mais eficientes, produzidas localmente com artefatos industriais, disponibilizados em um “kit” de peças. Eles pretendem, assim, dar

um suporte para viabilizar arquiteturas de solução imediata, adaptadas às constantes mudanças da cidade grande e que necessitam de soluções urgentes. A cidade informal latino-americana foi o foco das preocupações do livro, por vários motivos (entre os quais está também a realização dos Jogos Olímpicos de 2016 numa cidade latino-americana). O desafio foi proposto, resta saber se o futuro aprovará as propostas implantadas.

  • 5.1.1. Experiências no governo paulistano atual (2012)

Em 2012, o governo municipal de São Paulo fez uma projeção de metas para atendimento de famílias em áreas carentes. O Programa de Urbanização de Favelas tem como meta atender a 85.000 famílias em 2012. Na Internet é possível constatar até 2012 o que já foi realizado 37 .

37 Informação disponível em <http://www.agenda2012.com.br/cidade-direitos/metas/17/85000-novas-familias- no-Programa-de-Urbanizacao-de-Favelas/>, acesso em 12/05/2012.

81

Ação SUBPREF. CIDADE TIRADENTES DISTRITO CIDADE TIRADENTES C. H. Inácio Monteiro / Jd. das Hortênsias -
Ação SUBPREF. CIDADE TIRADENTES DISTRITO CIDADE TIRADENTES C. H. Inácio Monteiro / Jd. das Hortênsias -
Ação
SUBPREF. CIDADE TIRADENTES
DISTRITO CIDADE TIRADENTES
C. H. Inácio Monteiro / Jd. das Hortênsias
- 528 famílias
jun-
10
SUBPREF. ITAIM PAULISTA
DISTRITO VILA CURUÇÁ
jun-
Jardim Nazaré - 1.081 famílias
10
SUBPREF. SÃO MATEUS
DISTRITO SÃO MATEUS
jun-
Vergueirinho - 1.007 famílias
10
out-
Dois de Maio - 700 famílias
09
dez-
Dois de Maio (fase 2) - 700 famílias
12
Dois de Maio/ Cinco de Julho -
canalização do córrego - 880 famílias
dez-
12
set-
Vila União - 403 famílias
09
dez-
Cinco De Julho - 180 famílias
12
dez-
Nove de Julho - 350 famílias
12
dez-
C H Vitotoma Mastrorozza - 40 famílias
12
DISTRITO SÃO RAFAEL
DEFINIÇÃO DE ÁREA
PROJETO
EDITAL
LICITAÇÃO
CONTRATAÇÃO
OBRA (ATÉ 25%)
OBRA (ATÉ 50%)
OBRA (ATÉ 75%)
OBRA (ATÉ 100%)
META ATINGIDA

82

dez- São Francisco Global - 15.000 famílias 12 SUBPREF. VILA PRUDENTE/SAPOPEMBA DISTRITO SAPOPEMBA dez- Tolstói e
dez-
São Francisco Global - 15.000 famílias
12
SUBPREF. VILA
PRUDENTE/SAPOPEMBA
DISTRITO SAPOPEMBA
dez-
Tolstói e União - 100 famílias
12
dez-
Tolstói II - 16 famílias
12
SUBPREF. CASA
VERDE/CACHOEIRINHA
DISTRITO CASA VERDE
dez-
Sampaio Correa / Lidiane - 820 famílias
12
DISTRITO LIMÃO
dez-
Gabi - 55 famílias
12
SUBPREF. FREGUESIA/BRASILÂNDIA
DISTRITO BRASILÂNDIA
jul-
Jardim Damasceno - 533 famílias
10
Jardim Guarani / Boa Esperança - 1.002
famílias
dez-
12
dez-
Tiro ao Pombo - 592 famílias
12
SUBPREF. PERUS
DISTRITO PERUS
Recanto dos Humildes / Recanto Paraíso
- 6.370 famílias
out-
09
dez-
Córrego da Mina - 255 famílias
12
dez-
Areião Perus - 90 famílias
12
Bamburral/ Árvore de São Tomás/
Esperança- 529 famílias
dez-
12
SUBPREF. PIRITUBA
DISTRITO JARAGUÁ

83

dez- Carina Ari - 25 famílias 12 dez- C. H. City Jaraguá - 240 famílias 10
dez-
Carina Ari - 25 famílias
12
dez-
C.
H. City Jaraguá - 240 famílias
10
SUBPREF. BUTANTÃ
DISTRITO MORUMBI
dez-
Real Parque - 1.249 famílias
12
DISTRITO RIO PEQUENO
dez-
Córrego Água Podre - 170 famílias
12
dez-
Sapé (I, II, III e IV) - 2.427 famílias
12
dez-
Esmeralda - 6 famílias
12
SUBPREF. LAPA
DISTRITO JAGUARÉ
Diogo Pires / Barão de Antonina - 500
famílias
dez-
12
jun-
Nova Jaguaré - 4500 famílias
12
DISTRITO VILA LEOPOLDINA
dez-
C.
H. Ponte dos Remédios - 546 famílias
12
SUBPREF. PINHEIROS
DISTRITO ITAIM BIBI
dez-
Jardim Edite - 252 famílias
12
SUBPREF. CAMPO LIMPO
DISTRITO CAMPO LIMPO
jul-
Jardim Olinda - 1819 famílias
10
DISTRITO CAPÃO REDONDO
fev-
Jardim Irene II - 244 famílias
10
nov-
Jardim das Rosas - 609 famílias
11

84

dez- Parque Fernanda I - 1.011 famílias 10 DISTRITO VILA ANDRADE Paraisópolis - 17.159 famílias Jardim
dez-
Parque Fernanda I - 1.011 famílias
10
DISTRITO VILA ANDRADE
Paraisópolis - 17.159 famílias
Jardim Colombo - 3.244 famílias
Porto Seguro - 612 famílias
SUBPREF. IPIRANGA
DISTRITO CURSINO
dez-
Nova Imigrantes - 170 famílias
12
DISTRITO IPIRANGA
dez-
C.
H. Heliópolis Gleba H - 900 famílias
12
DISTRITO SACOMÃ
ago-
Heliópolis Gleba A - 1.541 famílias
09
dez-
Heliópolis Gleba K - 12.850 famílias
12
ago-
Heliópolis Gleba N - 1.504 famílias
09
dez-
Jardim Celeste V - 172 famílias
11
dez-
C.H. Heliópolis Gleba G - 424 famílias
12
dez-
Jardim Climax - 102 famílias
12
dez-
Jardim Clímax II - 13 famílias
12
SUBPREF. JABAQUARA
DISTRITO JABAQUARA
dez-
Cidade Azul - 320 famílias
12
set-
C.
H. Corruíras - 244 famílias
12
SUBPREF. M'BOI MIRIM
DISTRITO JARDIM ÂNGELA

85

dez- Chácara São Judas - 83 famílias 12 DISTRITO JARDIM SÃO LUÍS dez- Jardim Thomas I
dez-
Chácara São Judas - 83 famílias
12
DISTRITO JARDIM SÃO LUÍS
dez-
Jardim Thomas I e II - 173 famílias
12
SUBPREF. SANTO AMARO
DISTRITO CAMPO BELO
jul-
C.
H. Iguaçu - 20 famílias
12
jul-
C.
H. Gutemberg - 20 famílias
12
dez-
C.
H. Estevão Baião - 300 famílias
12

Fonte: Agenda 2012 Programa de Metas da Cidade de São Paulo item 17 Secretaria Municiapal de Habitação ´- portal da Prefeitura da Cidade de São Paulo (www.prefeitura.sp.gov.br).

Por essa agenda da Prefeitura, vê-se que Paraisópolis, por exemplo, está contemplado entre as obras em andamento já no estágio de atingir os 50% do projeto concluído.

  • 5.1.1.1. Exemplo: programa Cantinho do Céu.

A SEHAB (Secretaria Municipal de Habitação) de São Paulo fez uma parceria com o Estúdio de Investigação da Harvard Graduate School of Design para uma intervenção na favela Cantinho do Céu, que conta com 30.000 habitantes (ou 2% da população favelada de São Paulo) e está localizada na zona sul da cidade. Do trabalho resultou o relatório Operações táticas na cidade informal: o caso do Cantinho do Céu / Tactical operations in the informal city: the case of Cantinho do Céu 38 , do qual reproduzimos algumas partes para ilustrar essa intervenção. O primeiro capítulo chama-se “O Desafio”. O título é, para quem conhece a região, praticamente óbvio porque se trata de uma favela que está encravada em uma área de mananciais, como se pode observar pelas fotos abaixo:

A justificativa para a escolha dessa favela consta no relatório à página 36:

38 WERTHMANN, Christian (ed.). Operações táticas na cidade informal: o caso do Cantinho do Céu / Tactical operations in the informal city: the case of Cantinho do Céu. São Paulo: SEHAB / Harvard Graduate School of Design, 2009.

86

O estudo de caso foi escolhido porque é um dos exemplos mais marcantes de condições ambientais e de infraestruturas complexas em São Paulo. A favela do Cantinho do Céu, no extremo sul da metrópole, foi grilada ilegalmente por agentes imobiliários, em uma zona de preservação ambiental, que desbastaram uma grande área de mata atlântica intacta, bem próxima ao maior reservatório de água em São Paulo. Nesse caso, os interesses da cidade na manutenção de água potável são diametralmente opostos aos interesses dos moradores do Cantinho do Céu, que precisam de um lugar para viver e gostariam de permanecer nas casas que eles construíram. Esses dois usos conflitantes poderão ser conciliados? O Cantinho do Céu pode crescer como uma comunidade saudável, perto de um lago biologicamente intacto?

O reservatório de água citado é a Represa Billings, às margens das quais se ergue a

favela.

O estudo foi feito por uma equipe multidisciplinar composta por 18 especialistas, 13 estudantes e sob a orientação de um paisagista, um arquiteto e um engenheiro ambiental. O processo para o início da intervenção foi longo: 14 semanas de intensa negociação, visitas ao local, debates, consultas, para culminar em 13 operações táticas, justamente as

descritas no relatório, as quais poderiam iniciar o que eles chamaram de “reação em cadeia de melhorias” (p.38).

Um trecho do relatório demonstra a preocupação em tratar questões delicadas sob uma ótica multidisciplinar abrangente:

No Cantinho, a comunidade irá embarcar em um projeto de construção plurianual, no

qual ruas serão pavimentadas e os domicílios ligados à energia elétrica, à água potável e à

coleta de esgoto. As moradias em situação de risco localizadas nas encostas propensas à

erosão serão demolidas e as famílias reassentadas em moradias que substituirão as antigas.

Também são reservados recursos para o desenvolvimento de um espaço recreativo às

margens da represa.

O projeto de urbanização está agora no seu segundo ano de obras e enfrenta muitos

problemas. De uma perspectiva ambiental, a ocupação e a urbanização da bacia Billings

foi uma tragédia. Vastas áreas de mata atlântica na bacia foram perdidas, e o efeito de

purificação da mata diminuiu. Os assentamentos irregulares contaminaram tanto a represa

que sua utilidade se tornou quase nula. Para a Secretaria do Meio Ambiente de São

Paulo, o Cantinho do Céu é o símbolo mais evidente dessa degradação. Se a decisão sobre

o destino dessa cidade informal fosse deixada para os ambientalistas, o Cantinho do Céu

seria destruído e substituído por mudas da floresta tropical.

Em contraste, a missão da Secretaria Municipal de Habitação é proporcionar moradia

digna para os dez milhões de habitantes da cidade. O seu objetivo final é transformar o

Cantinho do Céu em um bairro habitável. Essas duas agendas discrepantes estão em rota

de colisão, com os moradores do Cantinho do Céu apanhados no meio. Além disso, a

legislação obsoleta, escrita para uma bacia não ocupada, cria sérios obstáculos para a

melhoria da urbanização existente no Cantinho. A Secretaria Municipal de Habitação

anda em uma linha tênue entre o desenvolvimento urbano, o respeito às leis e a proteção

dos mananciais.

87

O Cantinho é extremamente denso e urbanizado. A densidade populacional da favela é atualmente de 190 pessoas por hectare, duas vezes e meia mais densa do que a cidade de São Paulo, que tem 70 pessoas por hectare, e quase duas vezes mais densa que Nova York, com 100 pessoas por hectare. Os objetivos do projeto de reurbanização proposto pela Secretaria Municipal de Habitação incluem:

•minimizar a demolição de casas e a remoção dos moradores; •priorizar o reassentamento de famílias que vivem em áreas de risco geotécnico; construir novas unidades habitacionais; •instalar ampla rede de coleta de esgotos e de água pluvial; •incrementar o acesso dos moradores aos serviços de saúde, educação e emprego; •aumentar o número de áreas de lazer e melhorar a qualidade das mesmas. O maior desafio do projeto da SEHAB é, concomitantemente a proporcionar a melhoria das condições de vida dos moradores da favela, trabalhar para preservar a integridade das bacias Guarapiranga e Billings. É preciso que a Secretaria encontre formas de flexibilizar o atendimento à lei ambiental vigente, que exige uma área de proteção de 50 metros entre a área urbanizada e a represa, enquanto busca responder às necessidades de todos os habitantes da favela, inclusive daqueles que vivem dentro da faixa não edificante de 50 metros. A Secretaria Municipal de Habitação desenvolveu um plano demarcando uma fronteira de desenvolvimento, que visa conciliar interesses opostos, o que exige a remoção de 2.000 domicílios e o reassentamento de aproximadamente 6.000 moradores. Esses moradores irão então escolher se desejam transferir-se para um apartamento em um conjunto habitacional construído pela prefeitura, aceitar verbas que lhes permitam comprar casas em outra parte da cidade ou deslocar-se para outras casas no Cantinho, que serão compradas para eles. Essa escolha pode ser difícil para muitas famílias, e muitos moradores demonstram uma grande ansiedade sobre a expectativa de serem removidos de suas casas. Sumariamente, descrevemos as 13 táticas. A primeira delas é a de conexão com a cidade, por meio de um corredor de transporte público (desenho abaixo).

88

89

89

A integração com os serviços urbanos dos quais a população do Cantinho do Céu é hoje desprovida é o maior mérito dessa tática. A Tática 2 chama-se “Criando empregos”. Ela surge da ideia de o enterramento de linhas aéreas de transmissão de energia elétrica (figura abaixo), o que propiciaria a incorporação de 40 hectares de terra para expansão urbana. Os empregos surgiriam em torno dessa transformação das atuais linhas aéreas em espaço urbano utilizável, sobre o qual se ergueriam, como destaca o texto do relator, várias estruturas (p. 87):

A integração com os serviços urbanos dos quais a população do Cantinho do Céu é hoje

Área de passagem de linhas e torres aéreas de transmissão de energia elétrica, de interesse para o projeto de reurbanização da favela Cantinho do Céu

O corredor poderia ser uma artéria urbana com poder de desencadear o desenvolvimento econômico do núcleo Cantinho do Céu / Gaivota. Atividades culturais, comércio, produção, habitação e educação podem acontecer no espaço esculpido pelo corredor de energia, e mesmo grandes eventos especiais, como uma exposição internacional ou Jogos Olímpicos, poderiam se encaixar dentro do novo arquétipo.

90

A figura abaixo apresenta a proposta que se encaixa na tática 2.

A figura abaixo apresenta a proposta que se encaixa na tática 2. 91

91

A terceira tática chama-se “Iniciando intercâmbios”. A ideia assenta-se no fato de que, apesar de ter um nível de vida melhor do que a da maioria das favelas de São Paulo, ainda a Cantinho do Céu carrega o estigma de lugar de criminalidade. A tática consiste em buscar transformar a favela num lugar convidativo. Uma das propostas é a criação de um parque recreativo em torno da represa para atrair turistas.

A terceira tática chama- se “Iniciando intercâmbios”. A ideia assenta -se no fato de que, apesar

92

A tática 4 é “Aproveitando a poluição”. A proteção à água é o impulsionador da ideia. Como a comunidade é uma das poucas a ter uma relação íntima com a água, é preciso despertar o sentimento de que proteger o manancial é algo benéfico para a própria comunidade. Os efeitos da situação atual de água pluvial poluída, vazamentos de redes de esgoto e despejo não monitorado e ilegal de esgoto na represa deverão ser controlados e suavizados, por meio de amortecimento, coleta e limpeza de água pluvial.

A tática 4 é “Aproveitando a poluição” . A proteção à água é o impulsionador da

93

A tática 5 chama-se “Promovendo a recreação”. Com essa tática, os objetivos são:

revitalizar a economia local pela melhoria da zona comercial existente, proporcionar espaço de lazer na área onde as casas serão removidas; e fornecer equipamentos públicos, bem como um sistema de capacitação profissional para a comunidade. Uma imagem das melhorias, aqui reproduzida como exemplo, exibe algumas das melhorias:

A tática 5 chama- se “Promovendo a recreação” . Com essa tática, os objetivos são: revitalizar

Jardins, quadras de esporte, piscinas, em equilíbrio com calçadões, praça e áreas verdes, inclusive uma reserva florestal.

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A tática 6, “Conduzindo os fluxos

de materiais”, é uma tentativa

de manejar os

resíduos gerados nas favelas e reintegrá-los ao tecido social, econômico e paisagístico da cidade.

Um

dos destinos dos resíduos urbanos é

servir

como adubo orgânico para uma

agricultura urbana a ser cultivada em platôs (figura abaixo de representação em corte).

A tática 6, “Conduzindo os fluxos de materiais”, é uma tentativa de manejar os resíduos gerados

A tática 7, “Limpando a água”, busca tirar proveito do sistema atual de bacias

hidrográficas, onde a maior parte do escoamento superficial se acumula em uma série de vales.

Muitas ruas da favela possuem inclinações longitudinais que estabelecem um sistema de valo de drenagem linear, que coletará a água pluvial, estimular a infiltração e filtrar os sedimentos. Veja-se o ciclo pluviométrico e a aplicação do sistema na figura abaixo:

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96

96

A tática 8, “Discutindo o direito”, não trata da luta pelo direito de ocupar os

loteamentos, mas propõe um sistema de calçadões (figuras abaixo) na orla que minimize a necessidade de reassentamento, resolva os problemas de esgoto e crie uma margem habitável que possa ser legalmente ocupada com recreação, comércio e habitação. A extensão para mais de um píer recreativo é um avanço sobre a água que se apresenta como solução agradável e bela.

A tática 8, “Discutindo o direito”, não trata da luta pelo direito de ocupar os loteamentos,
A tática 8, “Discutindo o direito”, não trata da luta pelo direito de ocupar os loteamentos,

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A tática 9, “Reduzindo o estigma” , não diz respeito à redução da violência, mas à

A tática 9, “Reduzindo o estigma”, não diz respeito à redução da violência, mas à capacidade que a própria favela (ou ex-favela) teria de auxiliar a promover a limpeza da represa Billings, para onde é bombeada toda a água pluvial poluída da cidade. Um exemplo da planta de desenvolvimento do projeto que é objeto dessa tática está na foto abaixo, que mostra alguns componentes da limpeza:

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Após o tratamento e limpeza da água, será possível à comunidade usufruir de um lago que

Após o tratamento e limpeza da água, será possível à comunidade usufruir de um lago que será criado para servir como recreação de praia. A tática 10, “Construindo moradias”, encaixa-se na solução apontada pelos estudos de prefeitura e que consta no artigo do jornal “O Estado de São Paulo” mencionado

anteriormente como sendo a mais abrangente para o tecido urbano problemático da cidade. A moradia adequada, com condição digna de ocupação, consistirá de conjuntos de apartamentos com cinco andares e 20 unidades, capaz de acomodar, de maneira flexível, diferentes tamanhos e necessidades familiares. O corredor atual de linhas de transmissão seria um ótimo terreno para permitir o desenvolvimento futuro dessas moradias. A tática 11, “Construindo nódulos urbanos”, busca a interação de moradia, praça pública e escola, para criar um espaço público aberto, integrado e agradável. Um núcleo central será proposto como espaço versátil para que os moradores possam se reunir e utilizá-lo para diversas finalidades. O prédio central será uma escola (a figura abaixo mostra a perspectiva do prédio com vista facilitada para o reservatório).

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A tática 12, “Aumentando a biomassa”, trata do estabelecimento de vegetação nessa área informal da cidade,

A tática 12, “Aumentando a biomassa”, trata do estabelecimento de vegetação nessa

área informal da cidade, tarefa bem mais complexa do que a de estabelecer vegetação na cidade formal, com todas as restrições existentes nesta. Os empecilhos para o plantio de árvores bem sucedido são de natureza econômica, física e social. O autor da tática assevera que árvores jovens são muitas vezes vandalizadas, removidas ou negligenciadas. Para evitar limitações econômicas, a fim de ser possível o estabelecimento de extensas plantações de árvores, a proposta para a favela Cantinho do Céu é que uma porção da terra existente no corredor da linha de transmissão de energia elétrica seja convertida, de pasto não utilizado atualmente, para um viveiro de mudas de árvores, numa

faixa de 3,5 hectares. O objeto do viveiro é possibilitar a substituição de árvores (foto abaixo).

100

Finalmente, a tática 13, “Promovendo espaços públicos”, mostra que, mesmo em áreas densas e sem praticamente

Finalmente, a tática 13, “Promovendo espaços públicos”, mostra que, mesmo em áreas

densas e sem praticamente áreas em que se possam implantar áreas públicas, como a favela Cantinho do Céu, há a necessidade de espaços abertos para descanso e lazer. Lotes marginais, áreas geotecnicamente difíceis para estabelecimento de moradias e espaços não utilizados prestam-se bem, na favela, para que surjam esses espaços públicos.

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Elementos multifuncionais (figura abaixo) podem ser implantados nos lugares não utilizados como espaços públicos flexíveis. 102

Elementos multifuncionais (figura abaixo) podem ser implantados nos lugares não utilizados como espaços públicos flexíveis.

102

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103

A ideia de conexão com a cidade é a que norteou todas as táticas. O direito à cidadania é de todos. No caso da favela distante dos centros mais providos de serviços, há a necessidade de incremento de transporte público, não apenas pelos meios convencionais (por vias para automóveis), mas o próprio uso da represa, em táxis aquáticos (como é a proposta do grupo de Harvard que assessorou a Prefeitura de São Paulo no estudo da favela Cantinho do Céu), que é uma das várias soluções criativas propostas. O espaço da favela, para não ser mais local de estigma ligado à violência e à criminalidade, deve ser aproximado da cidade formal. Talvez a assessoria de equipes especializadas não precise deixar o próprio contingente de pessoas que moram nas favelas ter que se lamentar ou viver eternamente de esperança, como na letra do Rap da Felicidade, abaixo transcrita:

Rap da Felicidade

Cidinho e Doca

Refrão

Eu só quero é ser feliz, Andar tranquilamente Na favela onde eu nasci, É ... E poder me orgulhar E ter a consciência (de) que o pobre tem o seu lugar. (repete)

Minha cara autoridade, já não sei o que fazer, Com tanta violência eu fico com medo de viver, Pois moro na favela, é, sou muito desrespeitado, A tristeza e a alegria que caminham lado a lado. Eu faço uma oração para uma santa protetora, Mas sou interrompido a tiros de metralhadora. Enquanto os ricos moram numa casa grande e bela, O pobre é humilhado e esculachado na favela. Já não aquento mais essa onda de violência, Só peço, autoridades, um pouco mais de competência.

Vamos lá,

Vamos lá.

(Refrão)

Diversão, hoje em dia, não podemos nem pensar, Pois até lá no baile eles vem nós humilhar.

104

Ficar lá na praça, que era tudo tão normal, Agora virou moda a violência no local. Pessoas inocentes que não têm nada a ver Estão perdendo hoje o seu direito de viver. Nunca vi cartão-postal em que se destaque uma favela, Só vejo paisagem muito linda e muito bela. Quem vai pro exterior da favela sente saudade, O gringo vem aqui e não conhece a realidade, Vai pra zona sul pra conhecer água de coco, E pobre na favela vive passando sufoco. Trocaram a presidência, há uma nova esperança, Sofri na tempestade, agora eu quero a bonança. O povo tem a força, só precisa descobrir:

Se lá eles não fazem nada, faremos tudo daqui.

(refrão)

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Local de estudo:

A favela de Paraisópolis 6

bronze 30'x'37'x'15'cm Sandra'Guinle
bronze
30'x'37'x'15'cm
Sandra'Guinle

6.

LOCAL DE ESTUDO: A FAVELA DE PARAISÓPOLIS

Passaremos agora a tratar especificamente da favela de Paraisópolis, hoje praticamente já um bairro incorporado à cidade. Daremos atenção à história e à conformação física da favela, para depois iniciarmos a análise do sítio escolhido.

6.1. Constituição histórica da favela de Paraisópolis

O portal da Prefeitura Municipal de São Paulo na Internet, na página dedicada à origem da favela de Paraisópolis, exibe um pouco de sua história. Permitimos a longa transcrição, que resume apropriadamente a formação dessa área na cidade 39 .

Para entender a história de Paraisópolis é preciso voltar bastante no

tempo, mais precisamente para o ano de 1921. A área em que hoje está

situada a favela fazia parte da Fazenda do Morumbi, que foi parcelada em

2.200 lotes pela União Mútua Companhia Construtora e Crédito Popular

S.A. A infraestrutura do loteamento não foi completamente implantada e

muitos dos que adquiriram esses lotes nunca tomaram posse efetiva, nem

pagaram os tributos devidos.

Ou seja, como foi verificado diversas vezes na história de São Paulo,

empreendimentos públicos ou privados que não tiveram sua

implementação concluída, acabaram tornando-se regiões ermas,

abandonadas. Dessa forma, tornaram-se um convite para a ocupação

informal.

Esse processo começou por volta de 1950, protagonizado principalmente

por famílias japonesas (posseiros) que a transformaram em pequenas

chácaras, além de atuarem como grileiros. Os anos 60 vão encontrar essa

região com roças e gado bovino. Havia poucas casas e alguns bares, porém

com a implantação de bairros de alto padrão como o Morumbi, os

cemitérios Gethsemani e Morumbi, e a abertura de vias de acesso, como a

Avenida Giovanni Gronchi, a região passou a ser objeto de grande

valorização, despertando o interesse econômico.

Nessa mesma década, foi elaborado o primeiro Plano de

Desenvolvimento Integrado de Santo Amaro, que propunha a declaração da

área como utilidade pública, visando uma posterior urbanização. Porém,

tudo ficou no papel, e em 1970, já começavam a surgir os primeiros barracos

de madeira, ocasião em que iniciou-se a ocupação do Jardim Colombo e

Porto Seguro, vizinhas a Paraisópolis.

Ainda nos anos 1970, ficou definido pelo poder público que a ocupação

ficaria restrita à habitação unifamiliar e de uso misto, criando condições para

39 Página da Secretaria Municipal de Habitação no portal da Prefeitura Municipal de São Paulo na Internet. Disponível em:

<http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/habitacao/paraisopolis/historia/index.php?p=4385>,

acesso em 12/05/2012.

106

implantação de um plano especial de ocupação a ser elaborado em 5 anos.

Novamente as ações não se concretizaram e entre 1974 e 1980

intensificou-se o processo de ocupação da região. O crescimento do

processo migratório acelerou-se ainda mais a partir de 1980. Entre as

diversas causas, a facilidade de emprego pelo crescimento acentuado dessa

região, principalmente com a demanda crescente de mão de obra para a

construção civil.

No final dos anos 90, verificou-se mais um aumento populacional devido

principalmente à migração de moradores de favelas próximas extintas pela

Prefeitura, ocasião em que são adensadas as áreas do Grotão e Grotinho na

Favela Paraisópolis.

Hoje, o Complexo Paraisópolis é considerado a segunda maior favela da

cidade de São Paulo, com 55.590 pessoas e 20.832 imóveis, além de uma

rede de instituições civis que atuam em projetos sociais na favela.

Por duas vezes no texto, há a menção de intenções de planos governamentais que não resultaram em realizações. Questões de ordem econômica, como a atratividade pelos empregos do entorno e o descaso das autoridades constituídas da cidade formal consolidaram esse grande povoamento informal.

  • 6.2. Divisão em setores na favela de Paraisópolis

Será ainda a página da SEHAB no portal da Prefeitura na Internet a nos fornecer subsídios para a visualização dos setores da favela de Paraisópolis. Eles estão claramente delineados na foto legendada abaixo (extraída do portal):

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São já sete núcleos informalmente dispostos espacialmente no que já se pode chamar de Complexo (como

São já sete núcleos informalmente dispostos espacialmente no que já se pode chamar de Complexo (como a própria SEHAB define no texto de sua página na Internet acima transcrita): Grotinho, Grotão, Antonico, Centro, Brejo, Jardim Colombo e Porto Seguro.

  • 6.3. Projetos de reurbanização na favela de Paraisópolis

A visualização de projetos de reurbanização na favela (ou Complexo) Paraisópolis dá uma dimensão clara de como era a ocupação antes e depois das intervenções.

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GROTINHO

Antes

GROTINHO Antes Depois 109

Depois

GROTINHO Antes Depois 109

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Antes

Antes Depois Do primeiro par de fotos, pode-se deduzir que houve uma substituição das construções precárias

Depois

Antes Depois Do primeiro par de fotos, pode-se deduzir que houve uma substituição das construções precárias

Do primeiro par de fotos, pode-se deduzir que houve uma substituição das construções precárias de alvenaria aglomeradas para uma verticalização que integra os prédios e traz muito mais funcionalidade e beleza arquitetônica à área que sofreu intervenção. Do segundo par de fotos, pode-se enxergar a criação de um espaço de lazer comunitário em um terreno não utilizado anteriormente, com a função de praça de descanso (com bancos e até uma cabine para vigilância) e uma quadra para prática de esportes.

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Jardim Colombo Antes

Jardim Colombo Antes Depois 111

Depois

Jardim Colombo Antes Depois 111

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Antes

Antes Depois A reurbanização dessas duas áreas do Jardim Colombo revelam a intervenção relacionada a áreas

Depois

Antes Depois A reurbanização dessas duas áreas do Jardim Colombo revelam a intervenção relacionada a áreas

A reurbanização dessas duas áreas do Jardim Colombo revelam a intervenção relacionada a áreas com risco de desabamento. Construções para contenção são vistas nos dois pares de fotos, sendo que na segunda houve uma reestruturação completa, com arruamento, rede de água e esgoto, linhas de transmissão de energia elétrica e embelezamento das novas moradias num padrão arquitetônico que promove um maior diálogo e inserção dessa área na cidade formal.

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Córrego Brejo

Antes

Córrego Brejo Antes Depois A revisão urbana do córrego não foi de opção pela dessecagem, mas

Depois

A revisão urbana do córrego não
A revisão urbana
do córrego não

foi

de

opção pela dessecagem, mas por uma

disciplinarização do escoamento das águas, com a manutenção de boa parte da vegetação e

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tratamento visualmente mais bonito das pontes, com a integração a uma via de circulação de automóveis (na segunda foto à direita). A solução foi bastante integradora e estabelece maior conforto aos usuários.

Antonico

Antes

tratamento visualmente mais bonito das pontes, com a integração a uma via de circulação de automóveis

Depois

tratamento visualmente mais bonito das pontes, com a integração a uma via de circulação de automóveis

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Antes

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Antes

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Antes

Antes Depois Na área do Antonico, há quatro pares de fotos. Nos dois primeiros, ocorreu a

Depois

Antes Depois Na área do Antonico, há quatro pares de fotos. Nos dois primeiros, ocorreu a

Na área do Antonico, há quatro pares de fotos. Nos dois primeiros, ocorreu a criação de uma praça pública de lazer a partir do aproveitamento de um espaço ocioso. Em seguida, a pavimentação com guias e sarjetas disciplinou a via que anteriormente era de terra batida as construções ao largo da via foram mantidas. No terceiro conjunto de fotos, veem-se alterações no traçado da rua, um muro construído com a remoção de algumas moradias e uma sinalização na via carroçável, além do plantio de árvores (melhorias infraestruturais e no padrão visual). No último conjunto, nota-se a remoção de barracos com desocupação da calçada ocupada

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irregularmente, o plantio de árvores, o capeamento, com guias, sarjetas e calçada na via carroçável, que foi redesenhada para propiciar melhor fluxo de automóveis e pessoas (à direita, algumas casas tiveram sua configuração alterada). Pelas fotos, notam-se algumas intervenções bem realizadas e que demonstram que o trabalho da Prefeitura tem sido constante e está efetivamente promovendo, dentro de metas traçadas pela SEHAB, uma revitalização de áreas em favelas densas, como as que se apresentam no Complexo Paraisópolis.

  • 6.4. A escolha do local (Paraisópolis)

Talvez a favela de Paraisópolis, ou o Complexo de favelas que a prefeitura nomeia como Paraisópolis, que hoje é praticamente um bairro que se incorpora à cidade formal, pode ser um exemplo de conjunto de habitações precárias ou em locais inadequados para uma moradia digna que está modificando essa situação de precariedade em busca de uma integração com a cidade formal. Os desafios são imensos, mas há muitos trabalhos comunitários e de apoio de entidades até do exterior para tornar a mudança para uma condição de integração possível. Paraisópolis, talvez pelos interesses dominantes no momento no Brasil a realização de uma Copa do Mundo em 1914 e de uma Olimpíada em 1916 , tem sido alvo da atenção dos governantes da cidade e do Estado de São Paulo. Ela pode ser um palco vivo para experimentação urbanística de valor, como as propostas de intervenção do grupo de Harvard. No sentido de aprendizado de intervenções urbanas, é uma enorme oportunidade para especialistas em urbanismo. A escolha recaiu, portanto, nessa área que se pode considerar privilegiada para quem tem interesse em construir e reconstruir funcionalidades urbanas, ou seja, para arquitetos urbanistas. Vários são os desafios, múltiplos os interesses, grandes as demandas. Integrar, preservar, adaptar, embelezar, satisfazer necessidades: todas são ações urgentes e que demandam a criatividade artística de arquitetos, o planejamento de urbanistas e a visão de futuro necessária a ambos. É de apreciar a organização comunitária do bairro de Paraisópolis, que conta até com um organizado portal na Internet, o “paraisopolis.org”. Lá questões importantes para o bairro são discutidas, como o monotrilho (linha 17 Ouro do Metrô), e é revelada um pouco mais a organização do bairro, como o Conselho Gestor de Paraisópolis que está sendo eleito ou o

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Conselho da Unidade Básica de Saúde 3 que está sendo escolhido. Alguns projetos sociais e movimentos organizados comparecem à eleição e demonstram um pouco mais da organização dos moradores. Alguns desses projetos e movimentos são: o Projeto Chance, A União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis, a Associação das Mulheres de Paraisópolis, o Instituto Escola do Povo, a Associação dos Catadores Reciclando Esperança e a Central Única de Favelas (CUFA). Além dessas organizações, há a Associação Crescer Sempre, a Biblioteca BECEI Biblioteca Escola Crescer Educação Infantil , com mais de 12.000 livros e acesso à Internet (por apenas R$ 1,00 por mês de taxa de manutenção) e possivelmente alguma outra surpresa com que se depara o visitante. E, por falar em visitante, com essa organização e com esse espírito de mudança, Paraisópolis é também objeto de visitação turística, como já expusemos quando tratamos no início deste trabalho da Casa de Paraisópolis, como é hoje conhecida a casa do Sr. Estêvão Silva da Conceição. Sim, estamos diante de um bairro progressista e de trabalhadores. Se a reurbanização

vier para auxiliar a quebrar o estigma que está inclusive na letra da música “Rap da felicidade”

de que favela é lugar de marginal e de violência ou se colaborar para que haja uma moradia digna para todos como também diz o refrão da mesma música, pensar projetos de melhoria já é um empreendimento que vale a pena.

  • 6.5. Área de intervenção e sítio escolhido

No trabalho A Cidade informal no século XXI, da Secretaria Municipal de Habitação da Prefeitura Municipal de São Paulo, mostra-se que as intervenções que atenderiam ao anseio, por exemplo, da pesquisadora Saide Kathouni (autora do livro Cidade das águas, anteriormente citado) de reconciliação do homem com as águas. O projeto que aparece no texto da SEHAB é do grupo MMBB Arquitetura paulista e interação com a cidade, formado por Fernando de Mello Franco, Marta Moreira e Milton Braga, grupo que ganhou o 1º. Lugar na Bienal de Roterdã (Holanda) em 2007. O ponto de partida é o Córrego Antonico, que atravessa a favela (fotos abaixo do trabalho do MMBB).

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O projeto mais ambicioso de todos os que foram implantados em Paraísópolis é exatamente este do

O projeto mais ambicioso de todos os que foram implantados em Paraísópolis é exatamente este do MMBB, de cuja elaboração participou o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, vencedor do Prêmio Pritzker, o mais importante da arquitetura mundial, em 2006. Ele prevê a despoluição do Córrego Antonico, para que ele possa correr a céu aberto ao lado de um passeio. Haverá uma praça e um prédio de sete andares. Uma ciclovia de 3 km ligará a favela à futura estação do Metrô, no Morumbi. As fotos abaixo ilustram um pouco da ideia (todas extraídas do livro A cidade informal no século XXI, publicação da SEHAB).

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As duas últimas fotos são particularmente interessantes porque demonstram a possibilidade de convívio harmônico com as

As duas últimas fotos são particularmente interessantes porque demonstram a possibilidade de convívio harmônico com as águas. Na foto da esquerda, vê-se o curso do pequeno córrego fluindo ao lado de uma vegetação e ladeado por construções que aproveitam o espaço já existente com novas funções (típico projeto de reurbanização). A cheia é controlada, como se vê na segunda foto, não havendo possibilidade de futuras invasões do terreno próximo a ele, que está sendo resguardado pelo próprio desnível da área imediatamente em volta do córrego e pelas construções que já se instalaram e não permitem a instalação de qualquer tipo de estrutura que se configure risco. A convivência é, realmente, harmônica e embelezadora do antigo córrego a céu aberto e gerador de riscos. Na visão atual, a de praia urbana, há inúmeras possibilidades de ressignificação do espaço público pela própria população. O prédio à esquerda, por exemplo, é um prédio público multifuncional, instalado numa praça em terreno aberto que pode acolher as pessoas para atividades ao ar livre determinadas por elas mesmas. A tônica dos projetos da SEHAB para Paraisópolis foi acolher ideias dos próprios moradores e estabelecer uma arquitetura participativa, de viés antiautoritário. A democratização dos espaços como forma de fazer urbanismo é também o diferencial para esse tipo de projeto para o Córrego Antonico. Ainda sobre o controle de cheias, os desenhos abaixo mostram o esquema de distribuição de fluxos, com dispositivos do tipo bueiro para promover o escoamento em época de chuvas:

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Reproduzimos o trecho final da parte correspondente ao Córrego Antonico do livro A cidade informal no

Reproduzimos o trecho final da parte correspondente ao Córrego Antonico do livro A cidade informal no século XXI (p. 148):

O projeto do canal, não mais visto como produção de um artefato técnico, deixa-o

aberto a inúmeras possibilidades de ressignificação por parte da população. O intuito é

promover a construção do domínio público. A estratégia é associar os espaços livres aos usos

que a cultura da praia urbana nos evoca, pois reconhecemos que, na praia, as formas

espontâneas de negociação do uso do espaço tornam a coexistência ativa e desejável.

  • 6.6. A legislação vigente e sua aplicabilidade nas intervenções em Paraisópolis

O Plano Diretor de Desenvolvimento Estratégico (PDE), aprovado pela Lei Municipal nº 13.430, de 13 de setembro de 2002, que fixou novas as diretrizes gerais relativas a respeito do uso e ocupação do solo, determinou algumas atualizações para o zoneamento da cidade de São Paulo. O PDE determinou a elaboração de Planos Regionais para cada uma das 31 Subprefeituras e simultaneamente de um zoneamento condizente com as diretrizes por ele estabelecidas. A SEMPLA, acompanhada pelas Secretarias das Subprefeituras, do Transporte e da Habitação, conduziu o processo de elaboração dos Planos de molde a adequar cada vez mais a realidade local a uma perspectiva de futuro, abrindo o caminho para um detalhamento ainda maior, através de projetos de bairros e melhorias na paisagem urbana.

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A complexidade do tecido urbanístico da metrópole gigantesca que é São Paulo redundou num zoneamento tratado de forma complexa e que pudesse dar conta da ocupação mista que existe na maioria das regiões da cidade. Conforme suas características básicas, as zonas criadas são classificadas em tipologias Zona Exclusivamente Residencial (ZER) ou Zona Mista (ZM), por exemplo , enquanto os graus de adensamento determinam os tipos Zona Mista de Baixa Densidade (ZM-1) ou Zona Exclusivamente Residencial de Média Densidade (ZER-2), entre outros. As 53 tipologias do zoneamento anterior, subdivididas em 76 tipos de zonas de uso, caíram para 15 tipologias subdivididas em 25 tipos de zonas de uso. Essas tipologias de zonas, por sua vez, compõem três grandes grupos: macrozonas de proteção ambiental, macrozonas de estruturação e qualificação urbana, e um terceiro, o das zonas especiais, que podem ocorrer em todo o território do município. No que diz respeito às favelas, as 19 Zonas então existentes na lei anterior (de 1972) foram reduzidas para cinco categorias: proteção ambiental, mista, estritamente residencial, industrial/residencial mista e as Zeis (zonas Especiais de Interesse Social, para regularização de favelas, loteamentos clandestinos e outros tipos de habitação inadequada), nas quais se enquadra a área de Paraisópolis. As Zonas de usos especiais compreendem áreas públicas, áreas livres estrategicamente localizadas, áreas rurais e corredores situados em transições do zoneamento. As diversas glebas situadas nesta zona são passíveis de legislação específica para o uso e a ocupação do solo. Estão situados neste zoneamento o Parque do Ibirapuera, o Aeroporto de Congonhas, a Invernada da Polícia Militar, Cidade Universitária da USP, a área do Center Norte, o Horto Florestal de São Paulo, a Fazenda do Carmo, o Parque do Estado e a favela de Paraisópolis. A Lei Municipal 13.885, de 25 de agosto de 2004, estabelece normas complementares ao Plano Diretor Estratégico, institui os Planos Regionais Estratégicos das Subprefeituras, dispõe sobre o parcelamento, disciplina e ordena o Uso e Ocupação do Solo do Município de São Paulo. O art. 2º. desta lei define algumas expressões. No inciso XIV, Paraisópolis é assim citada:

XIV. Certidão de Outorga Onerosa de Potencial Construtivo Adicional - Certidão

emitida pelo Executivo Municipal com valor de face expresso em reais, visando à execução

de programas habitacionais de interesse social e de urbanização das favelas de Heliópolis e

Paraisópolis, localizadas, respectivamente, nas Áreas de Intervenção Urbana de Ipiranga-

Heliópolis e de Vila Andrade-Paraisópolis;

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Portanto, de acordo com a legislação municipal vigente, Paraisópolis é uma zona especial de interesse social e uma área de intervenção urbana da Vila Andrade-Paraisópolis. No capítulo II, art. 23, novamente Paraisópolis é citada.

Capítulo II

Da Certidão de Outorga Onerosa de Potencial Construtivo Adicional

Art. 23. O Poder Executivo poderá emitir Certidões de Outorga Onerosa de

Potencial Construtivo Adicional, com valor de face expresso em reais, visando à execução

de programas habitacionais de interesse social e de urbanização das favelas de Heliópolis e

Paraisópolis, localizadas, respectivamente, nas Áreas de Intervenção Urbana de Ipiranga-

Heliópolis e de Vila Andrade-Paraisópolis.

§ 1º - As Certidões de que trata este artigo, desvinculadas de lote ou lotes, somente

poderão ser emitidas para a remuneração direta da empresa ou consórcio de empresas, que

tenha recebido atribuição para a execução dos programas referidos no "caput" deste artigo,

inclusive mediante concessão urbanística.

§ 2º - A entrega das Certidões de Outorga Onerosa de Potencial Construtivo

Adicional poderá ser feita antecipadamente à execução dos programas a que se refere o

"caput", mediante a constituição de garantias pela empresa ou consórcio de empresas que

tenha recebido a delegação mencionada no §1º supra, cabendo ao Poder Executivo

estabelecer, por decreto, os termos e condições para entrega antecipada das Certidões de

Outorga Onerosa de Potencial Construtivo Adicional e para a constituição das respectivas

garantias.

§ 3º - As certidões serão emitidas em valor equivalente ao d os programas a que se

refere o "caput", subrogando-se o titular das certidões em todos os direitos e deveres a elas

inerentes, assumindo todos os riscos e benefícios eventualmente advindos da futura

negociação.

§ 4º - Uma vez emitidas e transferidas à empresa ou consórcio de empresas as

Certidões de Outorga Onerosa de Potencial Construtivo Adicional, estas serão livremente

negociáveis, aplicando-se, no que couber, as normas relativas à negociação de títulos no

mercado financeiro e de capitais.

§ 5º - As Certidões de que trata este artigo poderão ser utilizadas no pagamento da

outorga onerosa de potencial construtivo adicional, nos termos dos artigos 213 e 215 do

Plano Diretor Estratégico, adotando-se o valor do metro quadrado do terreno fixado na

Planta Genérica de Valores do ano de emissão da Certidão de Outorga Onerosa de

Potencial Construtivo Adicional como valor "vt", no cálculo do benefício econômico "B",

na fórmula prevista no art. 22 desta lei. § 6º - As Certidões serão convertidas em metros

quadrados de área construída adicional somente no momento da aprovação do projeto de

edificação, ressalvado o exposto no art. 215 do Plano Diretor Estratégico, respeitadas as

áreas passíveis de receber potencial construtivo adicional e os limites dos estoques previstos

nesta lei, sendo vedada sua utilização nas áreas de Operação Urbana Consorciada.

As Certidões de Outorga Onerosa de Potencial Construtivo Adicional estão em consonância com o artigo 210 do PDE:

Art. 210 - Áreas Passíveis de Outorga Onerosa de Potencial Construtivo Adicional

são aquelas onde o direito de construir poderá ser exercido acima do permitido pela

aplicação do Coeficiente de Aproveitamento Básico e até o limite estabelecido pelo uso do

Coeficiente de Aproveitamento Máximo, mediante contrapartida financeira.

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Parágrafo único - A Outorga Onerosa de Potencial Construtivo Adicional poderá ser

aplicada na regularização de edificações na forma que for estabelecida pelas leis específicas.

E essas certidões também estão de acordo com o Estatuto da Cidade, em seus artigos 26 e 31, que preveem que os recursos provenientes da adoção da outorga onerosa do direito de construir e de alteração de uso deverão ser aplicados na construção de unidades habitacionais, incluindo-se a execução de programas e projetos de interesse social, regularização e reserva fundiárias, implantação de equipamentos comunitários, criação e proteção de áreas verdes ou de interesse histórico, cultural ou paisagístico. Paraisópolis enquadra-se nos programas e projetos de interesse social. A efetivação dessas leis que se propõem a dar um ordenamento mais adequado e legal às áreas das duas maiores favelas de São Paulo citadas nominalmente nas duas leis municipais que dizem respeito à ocupação do solo na cidade traduz a tentativa de aproximação do tecido urbano problemático (ou cidade informal, como querem alguns autores) ao conjunto urbanizado e formalizado da cidade. A aplicabilidade em Paraisópolis da legislação é evidente. Os projetos encabeçados por esse grupo de Harvard tem o apoio da SEHAB e traduzem na prática os textos legais.

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Estratégias Projetuais

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Estratégias Projetuais 7 56'x'25'x'25'cm Sandra'Guinle

56'x'25'x'25'cm

Sandra'Guinle

7.

Estratégias Projetuais

Este capítulo tratará das formulações estratégicas do projeto. Pensaremos inicialmente no local em termos estratégicos, verificaremos o enquadramento de Paraisópolis numa tipologia possivelmente descrita para favelas, abordaremos aspectos como a hidrologia, verificaremos algumas intervenções já havidas e algumas viáveis e, dentre os projetos existentes, verificaremos as condições de habitabilidade, a integração, os equipamentos públicos e os espaços informais.

7.1. Da escolha do local com relação às estratégias projetuais

Estratégia, segundo Henry Mintzberg, trata-se da forma de pensar no futuro, integrada no processo decisório, com base em um procedimento formalizado e articulador de resultados. Para Mintzberg o conceito é muito aberto. Ele compara a formulação de estratégias ao trabalho do artesão que molda suas peças com barro e argila. A ideia de Mintzberg é que o artesão não pensa em um produto final antes de começar o trabalho. Talvez até pense, mas ao girar a roda de oleiro, a peça vai tomando outras formas, novos padrões emergem, experiências anteriores influenciam o ato, e o produto final resultante é algo jamais imaginado pelo artista. E é com essa metáfora que Mintzberg estabelece o conceito de “estratégias emergentes”. Ao contrário do que reza o senso comum de que a estratégia é algo estritamente pensado, deliberado, planejado , Mintzberg mostra que muitas estratégias surgem no meio do percurso, sem um exercício prévio de formulação. Para ele, estratégia é, ao mesmo tempo, plano para o futuro e padrões do passado, além de ser algo bastante envolvido com as respostas ao ambiente que se consolidam em um padrão. Adaptando esse conceito da teoria da administração à arquitetura, principalmente às intervenções que propomos neste trabalho, pode-se pensar que as propostas democratizantes do grupo MMBB e dos estudantes e pesquisadores de Harvard, com o apoio da SEHAB e que foram apresentadas a Paraisópolis enquadram-se perfeitamente na ideia dinâmica de estratégia. O arquiteto pensa o projeto junto com a comunidade, que é quem pode estabelecer alguns padrões, inclusive estéticos, para a moldura flexível da conformação espacial que quer para o local onde vive. Obviamente, a condição digamos mais técnica do especialista dá contornos reais a ideias, conduzindo as soluções em moldes mais precisos e com materiais que garantam a

129

realização dos projetos coletivos e com a durabilidade esperada e a segurança necessárias a que os projetos não se transformem em realidades inviáveis. A habitabilidade, que é indicada pelo conforto e condição de uso adequado e que atenda às necessidades das pessoas, sem atentar contra a legislação e o meio ambiente, é condição vital para a condução estratégica do projeto e este não é exceção. Nossas estratégias projetuais coadunam-se com esse padrão democratizante apresentado à comunidade de Paraisópolis e absorvem muito da qualidade estética e técnica que são exigidos pela formulação de reurbanizar, não de remover a favela que se transforma em bairro. O programa Favela-Bairro do Rio de Janeiro é, nesse sentido, inspirador do projeto,

ainda que não sejam exatamente iguais as conformações físicas das áreas de favela no Rio de Janeiro e em São Paulo. O que pode assemelhar as propostas das duas maiores cidades do Brasil é a necessidade de integrar comunidades carentes ao conjunto formal da cidade, além de reduzir riscos e proporcionar melhor qualidade de vida, sem grandes deslocamentos e com a redução máxima da estigmatização social. O Córrego Antonico, que corre a céu aberto pelo centro da favela de Paraisópolis, requer tratamento que proponha um diálogo dos moradores com a água, numa pacificação de relações conforme propõe a estudiosa Saide Kathouni. O ideal de responsabilidade social do arquiteto, proposto por Renzo Piano, com o conceito de arquitetura sustentável, também deve ser pensado. Para isso não é cabível pensar-se em dessecagem do córrego, como muito ocorreu

na cidade (o livro de Kathouni mostra detalhadamente o percurso histórico de “secagem” da cidade e grandes problemas de distribuição de água ao longo da construção da metrópole). Integrar, revitalizar, reurbanizar são propostas estratégicas. A inclusão depende da participação ativa dos órgãos governamentais, que muito se omitiram, até mesmo na formulação de legislação específica (os debates sobre a reformulação do plano diretor até sua efetivação levaram cerca de 30 anos). O panorama de descaso do Estado deve ser alterado, ou só produziremos mais precariedade de habitações. Se há metas para zerar o déficit habitacional, com uma condição de habitabilidade garantida aos cidadãos da cidade (não a uma parcela, mas

a todos eles), devemos nos empenhar em, primeiro ter estratégias flexíveis (ou as “estratégias emergentes” de que fala Mintzberg), depois em dar continuidade a programas eficientes de

controle da ocupação e uso do solo urbano. Até agora procuramos demonstrar que há soluções viáveis, segundo esses conceitos mais atuais e democratizantes de estabelecimento de pessoas em áreas urbanas, mesmo

130

algumas consideradas problemáticas. As mudanças são viáveis e podem dialogar, sem dificuldade, com o meio ambiente e integrar-se à cidade formal.

7.2. Diagnóstico: enquadramento de Paraisópolis numa tipologia de favelas

Dois pesquisadores do Centro de Estudos da Metrópole 40 , Camila Saraiva e Eduardo Marques, buscaram uma tipologia das favelas de São Paulo. Seu estudo, sob o título “A

dinâmica social das favelas da região metropolitana de São Paulo” 41 mostra que Paraisópolis é uma exceção nas favelas da cidade. As datas para aferição de dados são as dos Censos de 1991 e 2000. Para se chegar a uma tipologia, vários foram os indicadores: infraestrutura (domicílios com água, domicílios com esgotamento, domicílios com coleta de lixo), escolaridade (porcentagem de analfabetos e de chefes de domicílio com 0 a 3 anos de estudo), rendimento (faixas de renda de zero a 3 salários mínimos; 3 a 5; 5 a 10; e 10 a 20 salários mínimos), duas faixas etárias limites (pessoas de zero a 14 anos; pessoas com 65 anos ou mais). Também houve comparação com municípios vizinhos e com o entorno mais próximo das favelas. A conclusão inicial foi a de uma razoável variabilidade das situações nas favelas, com uma heterogeneidade oculta a complicar ainda mais as análises, porque no interior de um mesmo distrito favelas diferentes

40 O Centro de Estudos da Metrópole é uma instituição financiada pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), pelo CNPq (Centro Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e pelo Ministério da Ciência e Tecnologia por meio de um novo modelo de organização da investigação científica implementado nos Cepids (Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão) e nos INCTs (Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia). Desde sua criação, o CEM desenvolve, através de uma equipe multidisciplinar de pesquisadores, estudos avançados sobre temas relacionados às transformações sociais, econômicas e políticas das metrópoles contemporâneas, dando ênfase ao caso brasileiro. Os estudos feitos visam contribuir para os debates nacional e internacional sobre desigualdades sociais e espaciais e, para tal, abrangem comparações entre contextos urbanos e metropolitanos de diferentes regiões do Brasil e de outros países. A produção científica do Centro parte de várias tradições disciplinares para estudar os processos de transformação sócio-espaciais em curso em metrópoles, em especial brasileiras. Além disso, a partir das pesquisas, tem o compromisso de transferir esse conhecimento sob a forma de novas tecnologias, indicadores ou metodologias , de modo a torná-lo acessível tanto às diversas esferas de governo subsidiando políticas públicas como à sociedade civil, permitindo que tenham acesso privilegiado aos novos resultados das pesquisas das Ciências Humanas no campo de estudos da metrópole. (do portal do CEM Centro de Estudos da Metrópole na Internet: < http://www.centrodametropole.org.br>, acesso em 13/05/2012. 41 MARQUES, Eduardo e SARAIVA, Camila - A dinâmica social das favelas da região metropolitana de São Paulo Seminário sobre estrutura social e segregação espacial São Paulo, Rio de Janeiro e Paris, São Paulo - SP, 2004, p. 1-26. Disponível no portal CEM em: < http://www.centrodametropole.org.br/v1/pdf/favelas_edu.pdf>, acesso em 13/05/2012.

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podem ter conteúdos diversos. Os tipos, segundo o critério classificador dos autores, foram determinados por seus conteúdos sociais. Foram analisadas favelas de São Paulo e de municípios vizinhos (Barueri, Carapicuíba, Diadema, Embu, Ferraz de Vasconcelos,

Guarulhos, O resultado da análise sugere a existência de cinco tipos de favelas, conforme a tabela a seguir (extraída do estudo de Saraiva e Marques, p. 16:

Tabela: Características dos tipos de favelas - 2000

Grupo

N° de

Características das favelas

casos

1

564

Piores condições sociais e de infraestrutura. A renda do chefe é a mais baixa de

todos os grupos (230 reais)

2

829

A infraestrutura desse grupo já é um pouco melhor, apesar de ser o grupo com

os piores índices de esgotamento. As condições sociais são levemente

melhores.

3

728

Ótima infraestrutura, mas condições sociais ainda precárias.

4

727

Infraestrutura e condições sociais são boas.

5

131

Melhores condições sociais e de infraestrutura. A renda do chefe é a maior de

todos os grupos (600 reais).

Fonte: CEM.

Ao analisar favelas da Zona Central e Sudoeste de São Paulo e Zona Sul na fronteira com o Município de Diadema, a partir de dados sociais do Censo de 2000, os autores constataram que Paraisópolis é uma exceção:

A mais importante exceção fica por conta da favela Paraisópolis. Trata-se, entretanto,

de um caso verdadeiramente discrepante. Embora seja uma das maiores favelas da cidade,

se situa em área de propriedade particular, e tem ocupação em grande parte regular,

visto se tratar da ocupação de uma área previamente loteada. Além disso, a inserção da

favela em um bairro de classe alta o Morumbi (no distrito de Vila Andrade) impacta

significativamente os conteúdos sociais presentes na favela, como é discutido no Capítulo 8

(p. 19, nota de rodapé 18).

Um dos entraves encontrados pela Prefeitura para a execução de obras de infraestrutura na favela de Paraisópolis foi justamente o fato de ela ocupar uma área de propriedade particular. A exceção de Paraisópolis não ocorre por estar ela no centro expandido, mas por estar em área bastante valorizada pela especulação imobiliária como ocorreu no centro expandido. A localização para as favelas de São Paulo nas regiões periféricas, portanto longe do centro expandido ou de áreas igualmente valorizadas pela especulação imobiliária (que não é exclusiva, não apenas pela exceção de Paraisópolis, mas é majoritária) mostra que a realidade

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de Paraisópolis é identificada por uma situação excepcional justamente por não haver praticamente favelas extensas em áreas mais valorizadas da cidade, o que indica uma distribuição segregada do espaço da cidade. Paraisópolis é, portanto, talvez uma honrosa exceção. Na Capital, a incidência dos grupos (segundo a tipologia de Saraiva e Marques) é:

Tipo

porcentagem

 
  • 1 14,9%

 
  • 2 25,8%

 
  • 3 30,8%

 
  • 4 21,7%

 
  • 5 6,7%

A precariedade ainda domina as favelas de São Paulo, portanto. Paraisópolis, pela sua excepcionalidade (estar em região de alta especulação imobiliária, com entorno de população situada nas classes altas), a tendência à melhoria nos índices sociais leva-a a situar-se entre os tipos 4 e 5 da tipologia proposta por Saraiva e Marques. Os projetos sociais implantados em Paraisópolis podem justificar, talvez pela sensibilidade de institutos ligados às camadas mais altas da população, que têm residência no entorno da favela, alguns indicadores sociais surpreendentes. O artigo “Projeto social e mortalidade infantil: o caso Paraisópolis”, de Alberto Hideki Kanamura 42 , médico do Hospital Albert Einstein, mostra uma conclusão que identifica o apoio de iniciativas sociais como fator de melhoria nos conteúdos sociais em Paraisópolis. O resumo do artigo mostra alguns números:

Resumo

Objetivo: Avaliar o impacto do Programa Einstein na Comunidade Paraisópolis

por meio da evolução do coeficiente de mortalidade infantil como indicador sintetizador da

qualidade de vida de uma comunidade. Métodos: O estudo foi realizado na

Comunidade de Paraisópolis, localizada no distrito de Vila Andrade, da subprefeitura de

Campo Limpo do Município de São Paulo. Para comparação dos dados do coeficiente de

mortalidade infantil da Comunidade de Paraisópolis com os de outros distritos selecionados

do Município de São Paulo, foi utilizado como fonte os dados de mortalidade infantil do

Município no período de 2000 a 2007. Os dados da Comunidade de Paraisópolis foram

42 KANAMURA, Alberto Hideki. Projeto social e mortalidade infantil: o caso Paraisópolis, Revista Einstein. 2009:7, p.163-9, Instituto Israelita de Responsabilidade Social da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein SBIBAE, São Paulo (SP), Brasil, disponível em <http://apps.einstein.br/revista/arquivos/PDF/1256- Einsteinv7n2p163-9.pdf>, acesso em 13/05/2012.

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ainda cruzados com os de outros distritos selecionados por meio de indicadores sociais,

obtidos pelo Sistema Estadual de Análise de Dados (SEADE). Resultados: No

período de 2000 a 2007, o coeficiente de mortalidade infantil de Vila Andrade passou de

18,1 mortes por 1.000 nascidos vivos para 8,2/1.000 nativivos, enquanto que para o

município passou de 15,8/1.000 para 12,2/1.000 nativivos. No ranking do coeficiente

de mortalidade infantil, Vila Andrade evoluiu do 77º para o 22º lugar. Verificou-se

ainda, no período do estudo, uma expansão de oferta de serviços de saúde no Campo

Limpo, da ordem de 74% para procedimentos ambulatoriais e 71% para concentração de

consultas de primeira vez. Conclusões:A evolução do coeficiente de mortalidade infantil

da Vila Andrade é positivamente uma exceção e os fatores não comuns ao conjunto do

município podem ter influenciado para o acontecimento. A hipótese de que a maior

efetividade dos serviços médicos, e que uma variação positiva na renda naquela comunidade

tenha impulsionado tal resultado, é factível, permitindo creditar ao projeto social do

Hospital Israelita Albert Einstein uma parcela dessa conquista.

A situação de Paraisópolis, por todos os indicadores sociais, por sua localização e pela organização que a envolve, inclusive a existência de uma biblioteca de mais de 12.000 volumes, originada de uma iniciativa de um morador da comunidade, mostra-se como caso de uma dimensão muito mais complexa do que o tecido urbano problemático normalmente encontradiço na Capital e nos municípios da área metropolitana. A melhor convivência entre classes favorece a melhoria dos conteúdos sociais em áreas problemáticas, como se vê por esse