Daniel Rossi

Eternidade S/A

São Paulo - 2013

c by Daniel Rossi, 2013

Capa e projeto gráf ico: Renan Silva

Rossi, Daniel Eternidade S/A / Daniel Rossi. - Cordeirópolis/SP, 2013. 50 p. 1. Conto. 2. Fantasia.

CONTATOS Blog: http://www.danielrossi.com.br/ Skynerd: https://skynerd.com.br/perfil/danielrossi Facebook: https://www.facebook.com/daniel.rossi.984 Twitter: https://twitter.com/blogdorossi

sumário
5 7 10 15 19 22 27 31 35 39 43 46

Quebrando a Rotina A Entrevista de Emprego O Primeiro Cliente Santos Pecados Feras na Noite Respostas Fugitivos De Volta do Inferno Declaração de Guerra Campo de Batalha Matilha Pela Eternidade

Capítulo 1

Quebrando a Rotina

O

Nova York, num futuro próximo.

alarme do rádio relógio ecoou pelo acanhado apartamento. De olhos abertos, fitando o teto, Albert Kirkman já estava acordado há tempos. Passara a noite em claro pensando em problemas do trabalho. Este vinha consumindo sua vida nos últimos tempos. Havia se formado em direito em uma boa faculdade, com muito esforço, e com as melhores notas. Era de família muito pobre, porém graças a uma bolsa conseguida por jogar bem basquete no colegial, tinha tido a oportunidade de concluir os estudos. Poderia até ter sido jogador profissional, caso um acidente de carro não tivesse deixado um de seus joelhos comprometido. Mas, apesar de toda a boa formação, a única oportunidade que havia surgido era no escritório de um coreano obeso e calvo chamado Kyong. Este lhe impunha uma rotina de semiescravidão, em troca de um salário de fome. Sonhava em conseguir um emprego melhor, mas a recessão na economia americana naqueles dias não deixava muitas possibilidades. Apesar disso, uma oportunidade havia lhe batido a porta, e esta também era uma das razões da sua insônia. Um velho amigo de escritório que havia prosperado repentinamente em uma firma que havia se estabelecido há alguns meses na cidade, vinda de Chicago, lhe havia passado um cartão misterioso em branco que segundo ele lhe seria muito útil caso ele aceitasse fazer “certas concessões”. Pensou logo em tramoias jurídicas ou corrupção política, mas o conhecido tinha lhe garantido que não se tratava de nada disso. Não que não pensasse nisso, pois a vida que vinha levando o estava impelindo a aceitar praticamente qualquer coisa. Os pais já haviam falecido há algum tempo, e estava realmente por sua conta. Pegou o telefone e ligou para o Sr. Kyong, dizendo que estava doente e que não poderia ir trabalhar naquele dia. Albert desligou o telefone antes que o coreano pudesse terminar a rajada de impropérios contra ele. Não suportava mais sequer ouvir a voz do, se tudo desse certo, futuro ex-chefe. Será que estava se precipitando? As instruções que o amigo havia lhe dado eram no mínimo estranhas, mas a sua vida estava tão monótona e insuportável que qualquer coisa que o retirasse da rotina era bem vinda. Abriu uma gaveta da escrivaninha amontoada de papéis e com um computador velho e pegou o pequeno cartão de visitas branco, sem absolutamente nada escrito. Suspirou, e pensou por um instante se aquilo não seria uma brincadeira do velho Arthur, que era notório por infernizar o Sr. Kyong com pegadinhas. Mas, afinal de contas, não tinha nada a perder. Lembrou-se cuidadosamente das instruções que o colega havia passado. Com uma pequena agulha que usava para costurar de volta os botões de suas surradas camisas, fez 5

Capítulo 1

um pequeno furo na ponta do dedo indicador da mão esquerda. Uma pequena gota de sangue apareceu e ele a derrubou sobre o cartão. A princípio, nada aconteceu. Começou a sentir-se um idiota ainda maior. Teria caído em mais uma pegadinha de Arthur? Mas este sentimento repentinamente desapareceu quando a pequena gota vermelha começou a reagir com o papel do cartão. Formou-se primeiro um borrão avermelhado, que lentamente foi tomando forma para finalmente formar uma sentença.

Estava tão fascinado por aquele cartão que quase caiu da cadeira quando o telefone tocou. Recuperou o fôlego, ajeitou os óculos de aros grossos e recobrou o fôlego para dizer um tímido alô. - Eu gostaria de falar com o Sr. Albert Kirkman. - É ele. – temeu que fosse do escritório avisando que tinha sido demitido. - Olá Sr. Kirkman. Meu nome é Samantha Rogers e eu sou do setor de Recursos Humanos da Eternidade S/A. O seu nome nos foi indicado pelo seu amigo Arthur Sanders para uma vaga no nosso setor de advocacia. O senhor teria um tempo disponível para conversarmos? Estava atônito. Que coincidência maluca era essa? Assim que a palavra se formara pintada com o seu sangue no cartão o telefone tocara e agora estava falando com a própria empresa, que lhe oferecia uma entrevista de emprego. - Sr. Kirkman? – A voz da mulher no telefone o fez voltar à realidade. - Claro… hoje é um bom dia para mim. – as palavras saiam trôpegas de sua boca. - Eu imaginei. – Kirkman estava tão atônito que nem reparou na afirmação estranha. – Nós temos um horário de funcionamento não muito ortodoxo. O que me diria de 9 da noite? - Claro, por mim, tudo bem. – Não raciocinava direito para questionar qualquer bizarrice. Samantha lhe passou o endereço do escritório onde a entrevista seria realizada. Ele o anotou em um pedaço de papel. De repente começava a se sentir bem, como se uma porta lhe havia sido aberta, mesmo que de uma forma extremamente estranha. Olhou pela janela do apartamento e se deu conta que tudo aquilo tinha acontecido em questão de minutos depois que havia se levantado da cama, e ainda eram pouco mais do que 5 da manhã e o sol ainda nem tinha saído direito. Levantava-se sempre bem cedo para conseguir chegar a tempo no trabalho, pois havia que tomar dois ônibus para sair do seu bairro de periferia. - O horário deles é realmente não ortodoxo. Voltou para a cama e dormiu bem como há muito não dormia. 6

Capítulo 2

A Entrevista de Emprego

T

inha limpado os últimos 20 dólares de sua conta bancária para pagar um táxi para o centro da cidade. Não queria arriscar amassar o melhor terno que tinha dentro de um ônibus abarrotado de gente. Nem fazia ideia de como iria embora para casa, pois nem dinheiro para o ônibus havia lhe restado. Poderia pedir emprestado algum para Arthur, se tivesse a sorte de encontrá-lo na empresa. O que importava é que agora estava sentado no elegante saguão do 13º andar de um proeminente edifício comercial, aguardando pela tão esperada entrevista que poderia lhe dar um emprego novo e uma nova perspectiva. Estava ansioso e preocupado em passar uma boa impressão. Levantou-se e perguntou a recepcionista onde era o banheiro. Ela era uma ruiva sensacional que não tirava os olhos dele desde que ele havia chegado. Indicou-lhe uma porta no final de um corredor. Até então não havia percebido como ela o engolia com o olhar. Não que ele não levasse jeito com as mulheres, muito pelo contrário. Era um negro de quase um metro e noventa de altura, porte atlético e olhos verdes que arrancavam suspiros. A cabeça raspada dava um ar de jovialidade aos seus trinta e três anos. Porém, com a vida que vinha levando, tinha deixado de lado até a azaração, pois não lhe sobrava muita coisa do salário para gastar em baladas. Dirigiu-se até o banheiro, onde para sua surpresa não havia espelhos. Percebeu pelas marcas na parede que os mesmos haviam sido arrancados há pouco tempo. Como já estava ali mesmo, passou uma água no rosto e se arrumou o melhor que pode no reflexo de um toalheiro de metal. Voltou pelo corredor e perguntou despretensiosamente para a recepcionista o que havia acontecido com os espelhos. Ela pareceu se divertir muito com a pergunta, como se ele tivesse perguntado alguma coisa absurda. Respondeu que eles haviam sido levados para manutenção. A ruiva começou a lhe dar um frio na espinha, e preferiu calar-se e voltar a sentar-se na poltrona. Ficaria ali por mais alguns minutos saciando os olhares da ruiva, até que o telefone na mesa dela tocou. - A senhorita Rogers vai atendê-lo agora Sr. Kirkman. – Fez uma menção com a cabeça para que ele a acompanhasse. Seguiram por um corredor até uma porta que tinha o nome de Samantha na porta. A ruiva abriu a porta para ele e entrou no escritório mais elegante que já tinha visto na vida. 7

Capítulo 2

Havia estantes com livros enormes, que pareciam ter muitos anos de idade e serem caríssimos. Os móveis eram todos de aparência clássica, e a iluminação indireta da sala dava um ar todo especial ao ambiente. Achou-a até um pouco escura demais, porém muito aconchegante. No fundo do escritório, atrás de uma enorme mesa estava Samantha Rogers, a mulher com que havia conversado ao telefone. Era uma morena extremamente atraente, assim como a recepcionista. Ela lhe estendeu um aperto de mão firme como ele não experimentava há muito tempo. Sentiu a pele sedosa e fria em sua mão. Estava realmente gelado ali, provavelmente por causa do ar condicionado. Ela pediu que se sentasse e ficasse a vontade. Sentiu-se a vontade, mas uma coisa em particular o despertou certa desconfiança. Apesar de toda a postura de executiva em seu tailleur e a maquiagem carregada, vista de perto e com atenção, não aparentava ter mais do que dezesseis ou dezessete anos. Aquilo o intrigou, mas não estava ali para questionar a idade de sua contratante. - O seu currículo é impressionante. – ela começou a conversa. - Eu não me lembro de ter enviado um, na verdade… – absolutamente nunca havia enviado nada para a empresa. O único contato que havia tido havia sido o telefonema misterioso pouco depois de mexer com o “cartão de visitas mágico”. - Pode ficar tranquilo Sr. Kirkman. Nós sabemos tudo sobre você e devo dizer, ficamos muito impressionados. – Ela percebera que ele havia ficado desconfortável. - Deixe-me explicar para o senhor sobre a natureza dos negócios de nossa firma. Nós atendemos um tipo muito restrito de cliente Sr. Kirkman. São pessoas que acumularam fortunas enormes durante as suas… Vidas. – Ela enfatizou estranhamente a palavra vida. - Porém, estes mesmos clientes necessitam, eventualmente, desaparecer. Nosso trabalho é fazer com que seus bens continuem lhes pertencendo, mesmo depois que eles sumam de vista e retornem. Faz parte do nosso trabalho, também, providenciar-lhes novas identidades. Existe também toda a questão logística, mas essa é bem menos interessante… – ela sorriu para ele. Kirkman estava atônito. Com que tipo de gente estaria se envolvendo? Seriam mafiosos? Estava com medo. - Com todo o respeito, Srta. Rogers, mas não me parece que a natureza dos negócios de sua firma seja lícita. – escolheu as palavras com cuidado. Tinha a impressão que a qualquer momento um russo ou italiano entraria na sala com uma arma para matá-lo. A executiva franziu o cenho, porém sem deixar o ar jovial de lado. - Posso lhe garantir que não há nada de ilícito em nossos negócios. Bem, pelo menos não no sentido que o senhor está imaginando. A necessidade de nossos clientes por uma nova identidade nada tem a ver com crimes, de qualquer natureza. Digamos que certo aspecto referente à longevidade de nossos clientes poderia despertar… Como direi… Questionamentos na sociedade. – abriu uma gaveta da enorme mesa de madeira nobre e 8

Capítulo 2

retirou o que parecia ser um álbum de fotos antigas. Ela o colocou sobre a mesa e o empurrou na direção dele. - Talvez isto lhe ajude a entender melhor… Albert pegou o álbum sobre a mesa e o abriu. A princípio, tratava-se apenas de uma xilogravura de uma família que parecia ter vivido na época vitoriana. Porém, quando começou a folhear as outras páginas, começou a perceber o que de fato acontecia. A mesma foto de família se repetia pelo que parecia ser décadas. Às vezes com um membro a menos, às vezes com um membro novo. Porém, praticamente não havia diferenças entre a família vitoriana com uma em uma foto dos anos setenta, por exemplo. A semelhança não era simplesmente de indivíduos da mesma família: eram as mesmas pessoas, vivas durante o que seriam centenas de anos. - Isto é impossível… – balbuciou incrédulo. - Realmente é Sr. Kirkman? – ela o observava com um olhar calmo. Quando ansiava por tirar a sua vida da rotina, nunca havia imaginado uma coisa como aquela. Estava aterrorizado e ao mesmo tempo encantado com tudo aquilo. - Não tenha medo Albert. – Ela o chamou pelo primeiro nome. Parecia ter lido seu pensamento. Ou será que estava deixando transparecer o quanto estava petrificado? Fechou o álbum de fotografias e o colocou lentamente sobre a mesa. Levantou-se e começou a caminhar em direção a porta. Samantha não fez nenhuma menção em impedi-lo, apenas observou. Ele chegou a colocar a mão na maçaneta, mas não conseguiu girá-la. De repente começou a lembrar-se da vida que vinha levando, da solidão e da mesmice, do dinheiro contado e da falta de perspectivas com o futuro. Fechou os olhos e inclinou a cabeça até que ela tocasse a porta. Virou-se e voltou a sentar-se na poltrona em frente à mesa da executiva. - Se eu aceitar trabalhar na sua empresa, eu serei um de vocês, certo? - Uma vez dentro, não haverá como voltar atrás. - Eu… Aceito. – Samantha lhe sorriu. Levantou-se e caminhou lentamente até atrás da poltrona onde Kirkman estava sentado. Apoiou as mãos nos dois ombros de Kirkman, depois desceu a cabeça até perto de sua orelha e sussurrou na voz mais sensual que ele tinha ouvido até então. - Bem vindo, Albert. Samantha cravou os caninos fundo no pescoço de Albert. Ele, porém não sentiu nenhuma dor. Poucos segundos depois já estava inconsciente. Estava contratado.

9

Capítulo 3

O Primeiro Cliente

U

Nova York, alguns meses depois.

rsula, sua secretária, tinha acabado de lhe passar a ligação. Samantha Rogers engoliu em seco, hesitou por um segundo e finalmente pediu para que a ruiva passasse a ligação. O presidente da firma em pessoa estava do outro lado da linha. Ele não ligava com frequência para ela, apenas quando tinha algum assunto importante para tratar. E nesta noite em especial, o assunto importante era Albert Kirkman. - Boa noite Vlad. – A voz de Samantha era confiante, apesar da tensão que percorria o seu corpo. Do outro lado da linha, o presidente da Eternidade S/A começou a interrogá-la sobre o mais novo funcionário da empresa. - Sim senhor. Realmente acho que o potencial dele é muito bom. – O magnata parecia empolgado com o desempenho de Kyrkman nos treinamentos que vinha sendo submetido naqueles meses desde a sua contratação. Queria lhe dar enfim, um primeiro cliente. Porém a sugestão deste cliente em especial pareceu absurda para Samantha. - Senhor, com todo o respeito, acha realmente que é uma boa ideia? – A voz de Samantha se tornou um pouco mais trêmula. Do outro lado da linha, o magnata a persuadiu de uma forma não muito cortês a não questionar as suas ordens. – É claro, senhor. Com certeza. Farei imediatamente. – Ela tropeçava nas palavras agora. Despediu-se o mais rápido que pode. Repousou o telefone no gancho lentamente e se recostou na poltrona. O que seu chefe estava pretendendo, passando aquela missão a um novato como Kyrkman? Ele tinha insistido muito com ela para que os agentes da firma tornassem a vida de Albert miserável, para que ele aceitasse de qualquer forma o convite para entrar para a empresa. E agora aquilo. Para ela, era inédito o todo-poderoso Vladimir Tepesov se interessar por um funcionário assim. Levantou-se, andou até o frigobar em um canto do escritório e tirou uma linda garrafa de cristal com um delicioso tipo “O” que Vlad lhe tinha mandado como presente há algum tempo. Derramou o líquido em um copo e bebeu, olhando pela janela enorme.

Algum lugar no estado de Washington, alguns dias depois.

Albert Kyrkman acordou assustado de seu pesadelo recorrente. Vinha-o tendo constantemente desde que havia sido transformado. Porém, nunca se lembrava do que tinha sonhado, 10

Capítulo 3

apenas acordava com a impressão de que estava morrendo. Seu amigo Arthur, que roncava na cama ao lado dizia que era normal, e que em algum tempo eles deveriam cessar. Pegou o celular no criado mudo para ver as horas. Já era de manhã, deveriam levantar. Apesar de serem vampiros, teriam que cumprir esta missão durante o dia. Era procedimento padrão quando a missão se passava em cidades muito pequenas, para não levantar suspeitas. E ele até preferia assim, pois vinha tendo muita dificuldade em trocar o sono da noite pelo do dia. E, afinal de contas, até os mortos precisam descansar de vez em quando. Levantou-se e cutucou o amigo na cama do lado, que acordou no meio de um ronco engasgado. Arthur Sanders era completamente diferente de Kyrkman. Era um baixinho branquelo e rechonchudo, de cabelos pretos e olhos claros. Era completamente o oposto do que se poderia imaginar de um vampiro clássico. Ele se virou na cama e procurou os óculos no criado mudo. Albert soltou um leve sorriso de deboche e balançou a cabeça. Não entendia por que o amigo continuava a colocar os óculos todo dia de manhã, já que como vampiro tinha a visão melhor do que qualquer ser humano. Dizia que era para ajudar no disfarce. Kyrkman achava graça, mas respeitava o amigo desde os tempos em que trabalhavam no escritório do Sr. Kyong. Apesar do jeito bonachão e de viver pregando peças, era um excelente advogado. Ele se levantou e foi até a sua mala num canto do quarto, de onde tirou um frasco. Virou-se para Albert e fez uma careta: - Eu odeio este negócio. – O pequeno frasco brilhava na sua mão. – Feliz é você, que não precisa tomar este negócio. Por isso a firma está contratando tantos “escurinhos” como você. Kyrkman ficou um pouco ofendido com o comentário deveras racista, mas sabia que não havia maldade. Na verdade, perdoou o amigo completamente quando o ouviu gemendo no banheiro por causa do conteúdo do frasco. Como eles sairiam durante o dia, Arthur precisava tomar um preparado que evitava que sua pele sofresse queimaduras severas por causa do sol. Porém ele provocava algum “desconforto” durante alguns minutos após ser ingerido. Por ser negro, Kyrkman não precisava dele, a não ser que fosse sair durante o dia em algum paraíso tropical. O que não era o caso daquele lugar onde o tempo nublado predominava quase sempre. Ele esperou mais alguns minutos enquanto o amigo estrebuchava no banheiro. Quando este saiu, mais branco do que o costume e com cara que de que havia sido atropelado, acabaram de se arrumar, tomaram um pequeno “lanchinho” que os dois traziam camuflado em garrafas de bebidas especialmente preparadas e partiram. Alguns minutos depois já estavam em uma estreita estrada de terra que se estendia floresta para dentro, alguns quilômetros fora da pequena cidade. Poderiam facilmente chegar ao seu destino simplesmente pulando pelas árvores, porém a discrição era um requisito básico da função deles, e seria ridículo se algum caçador os visse voando por entre os galhos das árvores. Albert estava curioso com aquela situação. 11

Capítulo 3

- Pensei que nossa clientela fosse composta apenas por milionários, não por gente morando em cabanas no meio do nada. - Este é um cliente muito especial. Ele é, ou era, funcionário do governo. – Kyrkman ficou surpreso com a informação. Vampiros sendo mantidos pelo governo era novidade para ele. – Ele já deveria ter sido realocado há algum tempo, mas ele tem fama de ser um pouco “difícil”. Seguiram pela estrada de terra batida por mais alguns minutos, até que avistaram a cabana. Desceram e caminharam até a porta da cabana, e Arthur bateu duas vezes. Antes que pudessem se dar conta, sentiram uma coisa gelada atrás de suas cabeças. O dono da casa, sorrateiramente os haviam emboscado, e agora pistolas estavam encostadas em suas nucas. - Senhor, nós somos advogados da Eternidade S/A e só queremos falar com o senhor. – A voz de Arthur era trêmula. Apesar de um tiro na cabeça não ser capaz de matá-los, eles sabiam que a recuperação era lenta e extremamente dolorosa. Fora que ficavam totalmente vulneráveis neste meio tempo. - Eu sei quem vocês são. – O homem falava rispidamente. - Então o senhor sabe que de nada adiantará puxar o gatilho. – Arthur manteve-se firme. Neste ínterim, uma mulher apareceu à porta. Aparentava já ter uma idade relativamente avançada, e se locomovia com a ajuda de uma bengala. Os óculos escuros denunciavam que ela era cega, ou tinha problemas graves de visão. - James, quem está ai com você? - São dois vendedores de seguros querida. Pode deixar que eu os atendo. – A voz do homem agora era terna. - Ok. Vou me deitar um pouco. – A mulher fechou a porta. Arthur e Albert estavam impressionados com ela. Não era incomum que vampiros simulassem deficiências físicas para incrementar seus disfarces, mas a atuação da mulher era realmente convincente. James, o marido, abaixou as armas. - O que vocês querem? – A rispidez voltara. Arthur o encarou com um ar de seriedade que Albert dificilmente testemunhava. - Está na hora de você e sua família fazerem a transferência James. Já passou da hora. - Mas eu não entrei em contato com vocês… - Sim. Mas não adianta fazer-se de inocente. Você sabe que o Conselho observa a todos nós. Seu tempo já se esgotou. Vocês precisam ser realocados. Vocês colocam em risco a segurança do nosso segredo. – Arthur tentava escolher as palavras com cuidado. James pensou por alguns segundos. - Venham por aqui. Não é seguro falar destes assuntos aqui fora. Caminharam em direção a um pequeno celeiro atrás da cabana. Somente agora Albert conseguira olhar direito para o homem. Ele usava uma roupa de moletom grossa, com o capuz cobrindo-lhe a cabeça. Provavelmente vestia-se assim para se proteger da luz solar. Aparentava ter aproximadamente entre setenta e oitenta anos, mas caminhava com firmeza juvenil. Mas foi 12

Capítulo 3

quando entraram no celeiro que Kyrkman finalmente viu seu verdadeiro rosto. O velho retirou um pequeno amuleto do bolso, levou-o a boca e sussurrou algo. De repente seu rosto mudou, e ele agora tinha a aparência de um homem com pouco mais de trinta anos, idade que provavelmente tinha sido transformado. - Você sabe o quanto eu já sofri pelo Conselho e por este país? – havia rancor em sua voz. – Eu perdi a conta de quantos agentes da KGB me “mataram” durante a Guerra Fria para que eu trouxesse as malditas informações de que eles tanto precisavam. Albert começou lentamente a entender quem aquele homem era. Havia ouvido falar dele em seu treinamento, alguns meses atrás. Ele era um espião americano que fora transformado para cumprir missões militares que não podiam fracassar. Ele havia atuado por todo o leste europeu e até mesmo dentro da própria mãe Rússia. - Eu compreendo senhor. Mas o que nossos contratantes não compreendem é a sua relutância. O senhor não tem nada a perder. Vai ganhar uma vida nova para o senhor e sua mulher. Se o senhor me der a oportunidade de lhe mostrar estes memorandos… – Antes que Arthur pudesse completar a frase, a pistola voltou a encostar-se a sua cabeça, desta vez na sua testa. - Vocês não entendem mesmo não é? Eu vim para este fim de mundo para fugir de todo este tormento. Vocês realmente acham que eu teria me deixado transformar se soubesse dos suplícios que eu teria que passar? – O homem fez uma pausa. Os olhos de Albert estavam arregalados, e pulavam do rosto de Arthur para a mão com a arma. - Eu vim para cá para fugir de tudo isso. Queria me isolar. Mas ai eu conheci Amanda. Eu sabia que não deveria me envolver com ninguém, mas era tão fácil com ela… E eu a amo tanto… – Lágrimas grenás começaram a cair de seus olhos. – A visão dela facilitou as coisas… Por anos ela não percebeu que eu não envelhecia… – Arthur piscou como se de repente tudo se tornasse claro. - Quer dizer que… - Eu nunca a transformei. Eu a amo tanto que simplesmente não tive coragem. Eu não quero esta maldição para ela. Ela é tão inocente… Não faz ideia da existência de gente como nós, advogado. O semblante de Arthur se fechou. Não havia mais traço algum de humor. O drama do exespião era uma novidade para ele. Kyrkman por sua vez começava a sentir-se mal por James, e uma ponta de dúvida havia se instalado em sua alma. Onde havia se metido? Neste momento o homem já havia baixado novamente a arma. O rosto estava rubro com as lágrimas de sangue, e seu semblante não mostrava mais raiva, apenas tristeza. Arthur olhou para o rosto amedrontado de seu amigo novato e viu que ele estava atônito. - Acho que é melhor você esperar lá no carro, Albert. – Prontamente, Albert se levantou e saiu do celeiro. Em seguida, Arthur encarou o ex-espião. Tomou fôlego para continuar a conversa. - Você sabe o que tem que ser feito então… – A voz de Arthur era pausada e baixa. James não respondeu. 13

Capítulo 3

Apenas assentiu com a cabeça. Arthur então abriu a sua pasta e sacou de lá de dentro um pequeno pacote de veludo vermelho. - Eu gostaria de me despedir dela… mas será melhor assim… - Eu lhe garanto que tomarei todas as providências para que ela fique amparada. – Arthur desenrolou o pacote de tecido e retirou uma adaga de prata. Hesitou por um segundo, mas em seguida a entregou para James. Ele não disse nada. Apenas pegou a adaga e a apontou contra o próprio peito. - Obrigado… – a voz de James mal pode ser ouvida. A lâmina entrou fundo em seu peito, e ele soltou um guincho de dor tão alto que nenhum humano foi capaz de ouvir. Albert, que esperava há alguns metros dali se assustou, mas permaneceu imóvel, sentado em um banco que havia próximo de onde haviam parado o carro. De repente tinha se dado conta que toda a farra que vinha vivendo descobrindo suas novas habilidades e participando de um clube tão seleto de criaturas tinha se tornado algum obscuro. Dentro do celeiro, agora não havia mais som algum. James estava no chão, e sua aparência agora era a do velho que ele deveria ser devido a sua idade. Os traços jovens tinham se esvaído assim como a vida em seu corpo. Arthur retirou a adaga do peito dele, e viu o ferimento se fechar imediatamente. Sua morte deveria parecer com a de qualquer outro velho cujo coração inadvertidamente resolveu parar de bater. Guardou-a com cuidado no veludo e a colocou em sua pasta. Caminhou em seguida em direção aonde o amigo Albert o esperava, sentado de costas para ele. Ele se aproximou, e antes que pudesse dizer qualquer coisa, Albert se pronunciou. - Nós não somos simples advogados, não é? Arthur colocou a mão em seu ombro. - Nós nunca fomos.

14

Capítulo 4

Santos Pecados

O

Nova York, algumas semanas depois.

novo apartamento de Albert Kyrkman era completamente diferente da pocilga em que ele vivia alguns meses atrás. Ele estava deitado na cama king size, mas o que lhe chamava atenção agora não era a opulência do imóvel que a firma havia lhe designado. Estava embasbacado mesmo era com a beleza da ruiva dormindo ao seu lado. Ursula, a secretária de sua chefa, estava ali nua ao seu lado, depois de uma noite de luxúria e prazer. Era a primeira vez que ele experimentara o sexo depois de transformado, e sem sombra de dúvida era a experiência mais espetacular que já havia vivido. Basta dizer que o lençol estava todo cheio de respingos de sangue provenientes das loucuras que os dois haviam feito. Levantou-se e foi até a cozinha pegar um pouco de sangue. Estava sedento. Voltou e se encostou ao batente da porta do quarto, de onde ficou bebendo e admirando a beleza nua de Ursula em sua cama. Porém, como um flash, sua mente retornava ao assunto que lhe vinha perturbando há algum tempo. Lembrou-se novamente do caso do espião americano, e de como ele havia se sacrificado para manter a esposa a salvo de sua maldição. Ressentia-se de não ter feito nada, de não ter pensando em alguma solução para aquela situação. Sua hesitação fora encarada de forma diferente pelos seus chefes. Eles acharam que ele não agira como tantos outros novatos em situação parecida porque “ele fazia o que deveria ser feito”. O que era uma grande bobagem. Tinha simplesmente ficado com medo. Seus pensamentos foram interrompidos quando ouviu baterem na porta de seu apartamento. Olhou para o rádio relógio sobre o criado mudo e viu que eram duas e meia da manhã. Voltou pelo corredor e conferiu em um monitor de segurança quem estava à porta. Era seu amigo Arthur. - Hora de trabalhar. – O risonho gorducho vestia um terno que lhe dava um ar de cafetão. - Mas é minha noite de folga… – Albert ficou meio irritado. Não queria a sua noite arruinada. - É coisa rápida, uma pequena ida até o Bronx. A chefia quer que você me acompanhe para se inteirar de alguns assuntos novos… - Albert, quem está ai? – Ursula havia acordado. - Seu filho da mãe, tá comendo a secretária da chefa! – Arthur exultou com a descoberta. Albert encabulado fechou a porta na cara do amigo. - É só o Arthur… Vou ter que acompanhá-lo em uma missão. Pode voltar a se deitar… – Ursula concordou, trocou um beijo cinematográfico com ele e voltou para a cama. O inconveniente Arthur estava batendo à porta novamente. Albert abriu-a rapidamente. Arthur se espremia no vão entre a por15

Capítulo 4

ta e o batente, tentando ver, mesmo que de relance, a estonteante ruiva que passeava nua pelo apartamento. - Me espera lá embaixo! – e bateu novamente a porta. Ele ainda conseguiu ouvir a risada do amigo do lado de fora. Alguns minutos depois, Albert já estava na frente de seu prédio. Deu uma olhada meio nervosa para Arthur, que o ignorou solenemente. - Meu carro está logo ali. Qualquer raiva que Albert estivesse sentido do amigo evaporou na hora que ele viu o reluzente Cadilac 1960 conversível parado alguns metros da entrada do hotel, em uma vaga para idosos. - Pensei que a discrição fosse imperativa para o nosso negócio… – Não conseguia tirar os olhos do carro. Lembrara-se de ter visto carros assim apenas em filmes. Um especialmente, em que o veículo era possuído. O vermelho sangue dele o deixava exatamente igual ao da história de Stephen King em que o filme se baseava. - Do que vale a vida sem estilo, meu amigo. E hoje nossa missão é bem diferente. Não vamos visitar nenhum ermitão em uma cabana na floresta. Vamos até o Bronx conversar com o Padre Sydow. - Um padre?! – Albert estava atônito. - É meu amigo. Entra aí que logo você vai entender. – Arthur balbuciava as palavras agora, pois acendera um enorme charuto. O reluzente Cadilac seguiu deslizando pelas ruas em direção à igreja de São Nicolau de Tolentino. - Nunca imaginei um padre vampiro… – Albert estava curioso sobre o padre. Arthur se divertiu com a ideia de um padre sugador de sangue. - Você é muito ingênuo mesmo não é? Para manter o nosso segredo, precisamos ter aliados não transformados. Eles são mantidos fiéis a nós com um tipo muito especial de magia… - Que tipo de magia? - Dinheiro meu amigo, dinheiro! – Arthur estava especialmente engraçadinho naquela noite. Empurrou para dentro do tape deck do carro uma fita de B. B. King e continuaram os dois pelas ruas de Nova York ao som de “The Other Night Blues”. Alguns minutos depois, estavam em frente da igreja de São Nicolau de Tolentino. Como uma rocha, ela se erguia imponente, em contraste com a vizinhança pobre que a rodeava. Em uma das faces laterais do templo havia uma pequena galeria que abrigava algumas obras da igreja, que iam desde distribuição de sopa para os sem-teto a reuniões dos Alcoólicos Anônimos. Os dois vampiros pararam em frente a uma obra de caridade em particular, que deixou Albert atônito. - Você só pode estar brincando. Um banco de sangue?! - É claro meu amigo. De onde você acha que vem todo o sangue que consumimos? Há algumas centenas de anos 16

Capítulo 4

que os vampiros não caçam mais. É perigoso demais para o nosso segredo. Pessoas com gargantas dilaceradas costumam chamar muito a atenção. Nós temos milhares de pontos de doação remunerada como estes espalhadas por todos os Estados Unidos e pela Europa. Pode-se dizer que até temos um caráter social. – O último comentário foi feito em tom de ironia. Enquanto Arthur falava, Albert via várias pessoas saindo do ponto de doação, todas elas contando algumas notas de dólares. Eram desde mendigos até prostitutas ou pessoas comuns desesperadas por alguns trocados. Alguns estavam tão fracos (bêbados ou drogados, em alguns casos ambos) que acabavam desabando ali mesmo no meio fio. - Ainda bem que não precisamos nos preocupar com doenças, não é Albert. – O comentário de Arthur revirou um pouco mais o estômago de Kyrkman, mas este resolveu permanecer em silêncio, pois o Padre Sydow se aproximava deles. - Deus te abençoe, meu querido Arthur! – O padre vestia uma batina surrada e suja, que lhe dava mais o aspecto de um açougueiro do que um homem santo. Arthur riu da benção jocosa de Sydow e apertou a sua mão. - Como andam as coisas por aqui “vossa santidade”? - Tudo correndo na mais perfeita harmonia. – O padre os levou para dentro, onde se podiam ver várias pessoas sentadas nas poltronas doando sangue. Os dois vampiros pararam e olharam para as saborosas bolsas que subiam e desciam para extrair o líquido precioso. Foram interrompidos, porém, por Sydow que os levou para um escritório no fundo do salão. Lá dentro, uma velha senhora obesa separava uma pilha de trocados, recompensa pelas doações dos maltrapilhos da sala anterior. Sydow fez um gesto com a cabeça e ela os deixou a sós no escritório. Arthur então começou a conversa. - Que falta de educação a minha. Padre, este é Albert Kyrkman, a mais nova aquisição de nossa firma. Ele será o responsável pelos contatos com vossa santidade daqui para frente. - Oh, que bom, Deus lhe abençoe filho. – Albert deu um sorriso amarelo para o padre e lhe apertou a mão. - Bem, como sabe padre, nossa firma está deveras satisfeita com os seus… “trabalhos sociais”. Gostaríamos que aceitasse uma nova contribuição para que eles continuem funcionando com a devida eficiência. Arthur tirou de sua pasta um cheque, nominal à Sebastian M. Sydow e o entregou para o padre. Este abriu um sorriso que beirava a obscenidade. - Como vossa santidade pode ver, o valor é um pouco maior que o de costume. Uma pequena demonstração de como estamos satisfeitos com a sua “obra”. O padre tirou uma garrafa de uísque da gaveta da escrivaninha e bebeu um gole da própria garrafa. Estava efusivo com a gorda “contribuição” oferecida pela Eternidade S/A. - Eu ofereceria um gole para vocês, mas sei que não iriam aceitar. – O padre tirou um lenço imundo de dentro da batina e enxugou o suor da testa rugosa. Os dois vampiros se levantaram e se despediram 17

Capítulo 4

de Sydow. Quando já estavam na calçada, Albert não resistiu a um comentário. - Cara, que figura. - Nem me fale. É um escroto, mas é também um dos nossos melhores colaboradores. O ano passado ele se envolveu em um problema com algumas crianças da escola que a paróquia mantém e tive que intervir para “persuadir” algumas pessoas a retirarem as queixas. Ele é valioso demais para ir para a cadeia, entendeu? Albert estava atônito. Como advogado, estava acostumado a defender causas que nem sempre eram absolutamente corretas, mas nunca num nível tão baixo. Suas dúvidas começaram a aumentar ainda mais. Estava descendo cada vez mais fundo, um degrau de cada vez. - Me lembrei de uma coisa. Depois deste beco mora um “xicano” que contrabandeia uns charutos cubanos excelentes. Vamos dar um pulo até lá. – Albert não disse nada, apenas acompanhou o amigo pelo beco. Estava imerso demais em seus questionamentos. A caminhada dos dois seguia silenciosa pelo beco. Arthur aproveitou para acender mais um de seus fedorentos charutos. A fumaça deles parecia com a mente de Kyrkman, que estava enevoada de dúvidas. Porém sua reflexão foi interrompida por um criminoso que pulou de trás de uma lixeira, e os ameaçava agora com um canivete. - Aí playboys, podem ir passando as carteiras e os relógios. Os dois vampiros se entreolharam, quase rindo. Arthur olhou para o meliante, e balbuciou: - Tem certeza que quer fazer isso garoto? - Eu vou furar vocês, suas bichas. A audição aguçada de Arthur e Albert permitiu aos dois ouvir um pequeno rosnado atrás do assaltante. O rosto deles mudou repentinamente. O ar confiante deu lugar a olhos esbugalhados e de espanto. Não por causa do mexicano com o pequeno canivete, mas pelos dois olhos vermelhos como chamas do inferno que apareceram atrás dele por entre as sombras. O charuto caiu da boca de Arthur. - Tão com medinho agor… – Antes que o assaltante pudesse completar a frase, um golpe, vindo sabe Deus de onde praticamente o cortou ao meio. - São eles… Corre Albert, corre! – Arthur entrou em pânico. A fera enorme pulou ferozmente sobre os dois.

18

Capítulo 5

Feras na Noite

A

rthur rolava no chão do beco agora, atracado com o enorme “homem lobo” que pulara das sombras em cima dos dois amigos. Albert preparava-se para pular sobre os dois para ajudar o amigo, mas este berrou em sua direção. - Pra dentro da igreja, corre, agora! – Albert ouviu as palavras no mesmo momento que viu outro par de olhos vermelhos surgindo na escuridão do beco. Saiu em desabalada carreira pelo beco, derrubando latas de lixo para tentar atrasar a fera que o perseguia. Um pouco a frente viu uma porta lateral que dava acesso ao prédio principal da igreja. Aproveitou a velocidade que vinha correndo e se jogou em direção a ela, arrebentando-a e caindo em um corredor lateral que dava acesso a sacristia da igreja e em seguida ao salão principal. A fera continuava atrás dele, vindo pelo corredor estreito. Quando chegou ao salão principal da igreja, começou a sentir algo que não sentia desde que havia sido transformado: cansaço. O ambiente sagrado da igreja gradualmente lhe retirava os poderes, e sentia os pulmões em fogo pelo extremo esforço que tinha acabado de fazer. Deu-se conta que estava encurralado. A ideia do amigo de entrar na igreja parecia loucura agora, pois estava enfraquecido e encurralado. Correu até a porta principal da igreja, mas esta estava trancada, e ele não tinha forças para arrombá-la. Virou-se, costas encostadas contra as grossas camadas de madeira e aço e vislumbrou a fera parada, olhando para ele. Ela rosnava enraivecidamente, fitando-o com o que parecia ser uma mistura de ódio e ressentimento. Os olhos da fera olharam diretamente para os seus, e ele sentiu a cabeça formigar por um instante. Pensou estar louco, pois começou a ouvir uma voz dentro da sua cabeça. - Seu amigo foi muito inteligente fazendo você vir até aqui. Ele sabe que não pode haver conflito em território sagrado. – A fera estava dentro da sua cabeça agora. Tinha estabelecido um elo psíquico com ele. – Eu realmente não sei o que Tepesov tem planejado, mas não deveria ter deixado a sua peça mais preciosa tão exposta. Subitamente, Albert sentiu como se todas as suas lembranças viessem à tona dentro de sua cabeça. Desde a mais tenra infância até os últimos minutos começaram a passar vertiginosamente pelo seu cérebro, fazendo a cabeça latejar. Instantes depois, o turbilhão de memória terminou tão subitamente quanto começou. Caiu de joelhos, exausto. Levantou os olhos e fitou a criatura, que agora se apoiava apenas nas patas traseiras, dando-lhe ainda mais a aparência monstruosa de um ser meio homem, meio lobo. 19

Capítulo 5

- Não é possível, você não sabe de nada… – A voz dentro da cabeça de Albert parecia desapontada. – Você nem faz ideia do que é a “sanguis renascentis”… A profecia é verdadeira, mas você não a conhece… Um estampido seco ecoou pelo enorme salão da igreja. O elo mental entre o vampiro e o lobisomem foi rompido violentamente quando o peito da fera fora arrebentado por um tiro de escopeta. A fera uivou em agonia, caindo em seguida no chão de mármore da igreja. Albert, assustado, apenas viu o padre Sydow de pé, com a arma na mão, ainda com o cano fumegante. - Malditas bestas, já perdi a conta de quantos cálices de prata tive que derreter para transformar em balas. Albert tentou recuperar o fôlego. Ficou de pé e tentou andar em direção ao padre. Por trás do sacerdote, vindo do corredor por aonde ele mesmo viera, Arthur apareceu, todo rasgado e sangrando, cambaleante. Arthur correu em direção ao amigo para auxiliá-lo. Arthur olhou para ele, a boca ainda sangrando. - Você está bem, garoto? – Arthur cuspia sangue enquanto falava. - Eu? Perto de você eu estou em excelente forma! – Albert estranhou a demasiada preocupação do amigo. Ele estava claramente bem melhor que Arthur, que teria que passar alguns dias em um caixão para se recuperar da surra que tomara do lobisomem. Arthur olhou em seguida para o padre Sydow. - Que “você sabe quem” lhe abençoe Padre! – o padre Sydow lançou-lhe um sorriso sarcástico. - Espero que sua firma se lembre de que caça não é uma das minhas atribuições, quando me enviarem outra “contribuição”. Arthur riu e deu mais uma golfada de sangue no chão da igreja. Despediram-se do padre e foram se encaminhando para o corredor por onde Albert tinha entrado na igreja. Tiveram tempo de ver o padre Sydow jogando um líquido amarelado sobre o corpo do lobisomem. Este começou imediatamente a se decompor, até que alguns segundos depois tinha desaparecido completamente. Voltaram pelo beco, em direção ao carro de Arthur. Kyrkman percebeu que não havia sinal algum do outro lobisomem ou do assaltante. Padre Kyrkman devia ter cuidado deles também. Albert colocou o amigo no banco de trás do carro. Ele olhou para ele e sorriu com a boca toda arrebentada. - Vou manchar o couro… – Desmaiou em seguida. Arthur deu partida no carro e rumava agora rapidamente para a sede da firma para poder colocar o amigo em “recuperação”. Agora com a adrenalina baixando e se sentindo mais forte por estar se distanciando do terreno sagrado da igreja, começou a colocar as ideias no lugar. O incidente com os lobos apenas havia jogado mais trevas sobre a sua já conturbada mente. O que seria a tal “sanguis renascentis”? Por que o lobisomem pensava que ele era tão importante, ou ainda mais,
por que este o considerava a “peça mais preciosa”? O Cadilac vermelho deslizou pelas ruas de Nova York levando o pensativo Kyrkman.

20

Capítulo 5

Algum lugar da Ucrânia, algumas horas depois.

O serviçal veio correndo pelo corredor enorme do castelo. Deteve-se ante a uma imensa porta, apoiou a mão na parede e recobrou o fôlego. Pôs-se em ordem e bateu suavemente duas vezes na porta, entrando no aposento em seguida. O magnífico quarto era decorado como algo da era vitoriana, e possuía uma enorme poltrona, quase um trono, em frente a uma enorme vidraça, de onde o dono do aposento observava o pôr do sol com uma taça na mão. - Os lobos o encontraram senhor. Mas ele está em segurança. O homem na poltrona não esboçou reação. Levou a taça à boca, sorveu um gole e a repousou em uma pequena mesa ao lado. - Temos uma traidora. – A voz era pausada e calma, mas mesmo assim cheia de fúria. - Sim, meu senhor. – O criado se amedrontou quando o homem se levantou. Porém, ele não olhou para o criado, continuou a fitar o sol morrendo entre as montanhas no horizonte. - Teremos que apressar os nossos planos. Traga-o até mim. - Como quiser meu senhor. O criado apressou-se em sair do aposento. Sacara um celular do bolso e já transmitia as ordens de seu senhor para que fossem executadas. Dentro do aposento, Vladimir Tepesov sorriu.

21

Capítulo 6

Respostas

A

rthur repousava agora em um “caixão”, uma estrutura especialmente preparada para recuperar os vampiros de ferimentos adquiridos em batalha. Segundo o vampiro ancião responsável pela sala de recuperação, ele teria que ficar ali por alguns dias. Com o amigo a salvo, Albert resolveu procurar Samantha, para tentar entender o que acontecera naquela noite. Parou na porta do escritório da chefa, que estava sem secretária naquela noite, pois era noite de folga de Ursula, que agora deveria estar repousando no apartamento de Albert. Quando se preparava para abrir a porta, escutou a chefe falando ao telefone. Ela estava alterada, e discutia com alguém que aparentemente a tinha passado ordens com a qual ela não concordava. Albert aguçou sua audição, para que pudesse escutar quem estava do outro lado da linha. - Você não pode ter certeza absoluta que Ursula é a traidora! – Samantha esbravejava. - Ela é a única com poderes capazes de identificá-lo por aí. Você sabe que ela teria uma atração incontrolável pelo renascido. – O interlocutor tinha uma voz nervosa, porém firme. – É claro que ela está sob o domínio dos lupinos e deve ser destruída imediatamente. - Você tem noção que está pedindo para eu eliminar uma das vampiras mais antigas e valiosas da minha equipe. – Samantha tentava argumentar. - Você não está entendendo Samantha. Não estou lhe pedindo nada. Esta é uma ordem direita do senhor Vladimir. E chega de conversa. Transmita a ordem aos executores. E lembre-se, o renascido deve ser enviado a nós o mais rápido possível. – Neste momento, a ligação foi abruptamente cortada, e finalmente Samantha começou a sentir uma presença a sua porta. Moveu-se lentamente até a porta e a abriu rapidamente. Porém, não havia ninguém. Albert corria agora contra o tempo. Os executores, vampiros que eliminavam vampiros rebeldes que colocavam em perigo o segredo milenar das criaturas da noite, deveriam estar agora atrás de Ursula, que repousava tranquilamente no apartamento de Albert. Deixara o Cadilac vermelho para trás, e usava as suas habilidades agora para voar pelos telhados da cidade, na ânsia de chegar logo ao seu destino. Não sabia como faria para enfrentar um executor, pois eles eram conhecidos por serem muito mais poderosos do que vampiros comuns, mas ele tinha uma pequena carta na manga. Chegou ao topo do prédio de apartamentos onde morava apenas alguns minutos mais tarde. Desceu rapidamente pelas escadas até chegar ao seu andar, passou por uma porta e agora corria pelo corredor. Chegou até a porta de seu apartamento. Percebeu que ela estava entreaberta. Engoliu em seco e entrou o mais silenciosamente que seus poderes lhe permitiam. 22

Capítulo 6

Foi aí que viu uma cena aterrorizante. Um enorme vampiro loiro, de mais de dois metros de altura segurava Ursula pelo pescoço, pressionando-a contra uma parede da sala do apartamento. O enorme executor tinha uma adaga de prata com lâmina longa na outra mão, e preparava-se agora para desferir o golpe de misericórdia em Ursula, que aparentemente havia lutado pela vida, a julgar pela bagunça no apartamento. Albert pegou um pequeno objeto no bolso da calça, segurando-o com firmeza entre os dedos. Quando se preparava para usá-lo, o celular em seu bolso tocou. Era Samantha, preocupada com seu paradeiro. O executor virou rapidamente e antes que Albert pudesse fazer qualquer coisa, a lâmina estava agora apontada para ele. O celular parou de tocar. O executor fixou o olhar nos olhos de Albert. Quando este percebeu quem era Albert, falou. - Renascido, nada tenho contra você aqui. Esta execução não lhe diz respeito. - Eu não sei nada sobre esta história de renascido. Só sei que você esta prestes a executar a minha… Amiga. – Ursula pendia pelo pescoço, as mãos tentando livrá-la da poderosa força que a estrangulava. Estava completamente nua. - Ela é uma traidora e deve morrer. – o executor deu-lhe as costas novamente. Iria enterrar a enorme adaga de prata no corpo de Ursula. Albert não hesitou. Com toda a força que tinha, lançou a pequena adaga de prata, que havia recolhido das coisas de Arthur no Cadilac. Ela voou pelo ar em uma velocidade incrível, mas Albert parecia enxergá-la perfeitamente mover-se em direção a base do crânio do executor. Ela entrou por ali, atravessou a cabeça e saiu pelo outro lado em um jorro de sangue, acabando enterrada na parede, a alguns centímetros da cabeça de Ursula. O executor soltou um grunhido engasgado, e então a pressão no pescoço da vampira cedeu. A longa adaga caiu da mão do enorme vampiro, que cedeu e caiu de joelhos, tombando de lado em seguida. Ursula caiu pesadamente para o outro lado, tossindo e levando as mãos ao pescoço, que exibia um hematoma enorme, algo muito raro para vampiros. Tinha estado próxima de encerrar a sua existência. Albert envolveu seu corpo nu em um sobretudo que pegou jogado em seu quarto e com Ursula nos braços, saiu por uma janela que dava para a saída de incêndio. Alguns frenéticos segundos depois estava no topo do prédio. Olhou para a rua lá embaixo e viu que mais executores rodeavam o prédio, e começavam a se mover, talvez intrigados com a demora do companheiro que jazia agora no apartamento. Ursula estava desmaiada, então ele a colocou sobre um dos ombros e saltou para o telhado do prédio ao lado.

23

Capítulo 6

Apartamento de Arthur, alguns minutos depois.

Ursula estava deitada agora na cama do apartamento de Arthur, que estava vazio aquela noite enquanto seu dono recuperava-se em um caixão na sede da Eternidade S/A. Albert sentou-se ao seu lado na cama e pegou delicadamente a sua cabeça e ergueu um pouco. Levou um cálice até a boca dela, e a serviu de um pouco de sangue. Repetiu a ação algumas vezes, até que percebeu que o hematoma no pescoço da vampira começou a diminuir. Suas pálpebras começaram a se mexer e alguns instantes depois, ela começou a recobrar a consciência. Estava muito fraca ainda, mas abriu os olhos. - Albert… Me desculpe… – Sussurrava em uma voz rouca, fitando os olhos de Albert. - Ursula, você precisa me contar o que está acontecendo. – Albert estava confuso, e apesar de estar com pena de Ursula, queria respostas. - Você não entende não é? Não faz ideia de quem você é… – Ursula engoliu com dificuldade novamente, mas o hematoma em seu pescoço estava clareando pouco a pouco. Ela se sentou na cama, percebendo agora que estava vestida apenas com o sobretudo. Estava fraca e sentia frio. - Albert, você não foi contratado apenas por ser um excelente advogado. A Eternidade S/A é apenas uma fachada para operações que vem sendo executadas a centenas de anos. Houve uma época em que os vampiros eram senhores da aristocracia e detinham o poder. Eles queriam escravizar os humanos. Mas este poder foi desafiado pelos lupinos… - Os lobisomens? - Sim… Houve conflitos entre eles durante centenas de anos, maquiadas como as guerras travadas pelos humanos normais. A Guerra dos Cem Anos, Revolução Francesa, Primeira Guerra Mundial… Todas elas foram à verdade pano de fundo para o conflito entre nós e os lobos. E no final, nós perdemos… Os lobos destruíram os dois primordiais… - Quem são eles? – Albert se esforçava para acompanhar toda aquela loucura. - São os primeiros vampiros… Os primeiros a carregar a maldição da imortalidade. Mas um deles na verdade não estava realmente morto. Ele fugiu e criou uma sociedade secreta para nos esconder. - Mas que diabos eu tenho a ver com isso tudo? - Vladimir Tepesov é um dos primordiais. Há uma profecia que conta que o primordial voltaria como um renascido, e sua alma estaria presa no corpo de um humano. Este humano teria que ser transformado voluntariamente, e cumprir alguns passos para que se tornasse capaz de liberar a alma do primordial de volta. - Espere um minuto… – De repente a mente de Albert começou a clarear. 24

Capítulo 6

- Vladimir Tepesov é Vlad Tepes? O Empalador? – A cabeça de Albert rodava, e ele se sentia dentro de um livro de Bram Stocker. - Sim… Ele quer o poder do outro primordial para exterminar os lupinos e escravizar os humanos… E ele sabia que apenas algumas vampiras especiais poderiam… Identificar aquele que portava a alma do outro primordial, por isso ele distribuiu essas vampiras pelas sedes e filiais da Eternidade S/A pelo mundo… - Como assim identificar? - Estes vampiros teriam… Sentimentos especiais pelo renascido… – Albert fitou os olhos de Ursula. Viu que se ela tivesse lágrimas estaria chorando. - E por que você traiu a firma? Por que me traiu? - Você não entende… Para que o primordial volte… Você teria que morrer… Eu… Eu me apaixonei por você Albert… – Havia desespero em sua voz. - Mas os lobos, eles iam me matar! - Albert estava confuso. - Eu fiz um pacto com eles… Disse a eles que você era inocente e que não sabia nada sobre o “sanguis renascentis”. - Albert entendeu que este era o nome da profecia. - O lobo não leu a sua mente? Eles iriam te esconder, e de alguma forma encerrar a existência do primordial, para que ele nunca mais possa voltar. Mas parece que tudo deu errado. – A tristeza no rosto de Ursula cortou o coração de Albert. Ele contou a ela tudo o que tinha acontecido na igreja horas antes. - E quanto a Arthur… Ele sabia de tudo isto? - Ele não faz ideia… Inclusive ele não faz nem o perfil dos “contratados” da firma… Acredito que a contratação dele tenha sido apenas para poder atrair você. Albert ficou alguns minutos em silêncio. Começou a encaixar as peças em sua cabeça. A morte precoce dos pais, a falta de oportunidades mesmo tendo cursado as melhores escolas, a vida que vinha levando antes de ser transformado. De repente, a imagem do quebra-cabeça começou a se formar. Tudo era parte do “plano” para levá-lo a aceitar de livre e espontânea vontade ser transformado. - Não é possível… Tepes já sabia que eu era o escolhido então? - Na verdade havia seis potenciais no mundo todo. Dois na América, um na África e três na Europa. São pessoas que nasceram numa determinada data e horário preciso, calculado pelos astrólogos de Vlad. - Bem, se Arthur não sabe de nada disso, então ele corre perigo. - Você não está pensando em ir até lá, não é? – Ursula segurou o braço de Albert. - Ele me salvou a vida Ursula… – Albert estava de cabeça baixa, pensativo. - Mas é perigoso demais! Eles vão te pegar e levá-lo até Tepes! Por favor, vamos fugir! Sumir deste lugar! - Eu… Não posso deixá-lo para morrer… – Ursula escondeu o rosto com as mãos. Observou enquanto Albert rasgava com as mãos um pequeno embrulho e lhe estendia algumas roupas. - Roubei no caminho para cá… Mais um dos pecados que terei que prestar contas… – Ursula se trocou em 25

Capítulo 6

silêncio. De vez em quando Albert a ouvia soluçar um choro contido. Ele olhava pela janela, vendo o sol nascer. Aquele sol lhe deu uma falsa sensação de segurança. Teriam algum tempo para pensar no que fazer? Foi até o quarto de Arthur e abriu um pequeno compartimento dentro do armário. Uma placa deslizou e mostrou um pequeno arsenal de armas preparadas com munição de prata, letal tanto para vampiros quanto para os lupinos. Ele municiou uma das espingardas com cartuchos de prata e a apoiou sobre o ombro. Nos seis meses que tinha “treinado” antes de entrar em serviço, tinha aprendido a se defender de vários tipos de ameaças. Mas nada como o que parecia lhe aguardar nas próximas horas. Ursula se vestiu e veio em sua direção. Ela parecia não saber direito o que fazer, não sabia se ele a odiava agora. Albert respondeu a questão passando a mão pelo seu rosto e a beijando com ternura. Sentira-se igualmente atraído por ela desde aquele primeiro encontro na antessala de Samantha. Por um momento os dois se desligaram do mundo e ela se aconchegou nele. Mal imaginavam que do lado de fora do apartamento, executores já os havia cercado, e estavam prontos para atacar.

26

Capítulo 7

Fugitivos

U

rsula foi a primeira a perceber a presença dos executores. Era uma vampira experiente nas artes da guerra, e havia lutado inúmeras vezes contra inimigos poderosos antes da Eternidade S/A existir. Percebeu que havia dois inimigos na porta do apartamento, e mais dois agarrados ao edifício a espreita na janela do quarto onde estavam. Mesmo aconchegada nos braços de Albert, seus sentidos aguçados a tinham alertado sobre a presença deles muito antes do que Albert poderia pressentir. Outrora havia sido surpreendida por um deles no apartamento de Albert, pois este tinha a habilidade de assumir outras formas, se disfarçando de seu amado. Mas agora era diferente. A centenária vampira conhecia deliciosos métodos de trucidar seus perseguidores, e não seria surpreendida novamente. Tinha agora uma motivação nova, um sentimento que não experimentara em seus séculos de idade. E também tinha raiva. Muita raiva. Antes que Albert pudesse ter qualquer reação, pegou duas pistolas que ele havia municiado com balas de prata e colocado em cima da cama e partiu em direção a janela. Com um movimento extremamente rápido, enrolou parte do corpo na cortina que pendia e em um segundo já estilhaçava a janela se projetando no vazio, de braços abertos. Albert pode ouvir apenas os dois disparos, que atravessaram cada um a cabeça de um dos executores que estavam do lado de fora do prédio. Os dois executores que estavam esperando para o bote à porta do apartamento entraram abruptamente, alertados pelo barulho vindo do lado de dentro. Mas Ursula completava o pêndulo que havia feito na cortina do apartamento e era lançada agora para o lado de dentro. Ela os recebeu à porta do quarto também com dois tiros certeiros, entre os olhos. Albert assistia tudo de boca aberta, vendo a ruiva que agora retirava um caco de vidro da janela da testa. Como um animal acuado que ganha força para resistir, a vampira guerreira estava de volta. Seus olhos cintilavam como duas esferas coruscantes, o que indicava que seu corpo tinha febre de batalha. Os executores do lado de fora acabavam de atingir o solo lá embaixo. Um deles caiu sobre um carro, e o alarme do carro disparado fazia estardalhaço. - Estes malditos me surpreenderam uma vez. Não vai acontecer de novo. – Ursula deixou o caco que retirara da testa cair no chão. Foi até Albert e o beijou. Ele estava completamente atônito. Ela havia saído de um estado em que parecia frágil e assustada para uma erupção de violência acrobática. - Agora a polícia virá atrás de nós também. – Se referiu aos vampiros mortos na rua lá embaixo. Albert piscou várias vezes rapidamente, como que voltando à realidade. Não falou nada. 27

Capítulo 7

Colocou a espingarda e o restante das armas que estavam no armário secreto de Arthur em uma mochila e junto com Ursula saíram pela mesma vidraça estilhaçada. Ouviam ao longe as sirenes dos carros de polícia que se dirigiam apressados em direção ao pequeno tumulto que os dois vampiros estraçalhados causaram. Na verdade os dois já haviam se tornado dois velhos humanos comuns antes de atingirem o meio-fio. Mas mesmo assim eles, mais os outros dois idosos mortos no aparamento de Arthur chamariam a atenção dos policiais. Albert pensou então como aquilo desmoronaria a vida de Arthur. Mesmo sem querer, o amigo estava envolvido na sua história até o pescoço agora. Será que ele o perdoaria se eles conseguissem resgatá-lo? Albert e Ursula corriam contra o tempo agora. Ele percebeu que os primeiros raios de sol da manhã já começavam a criar algumas manchas na pele alva de Ursula. Não havia como ela o acompanhar agora, a luz do dia. A pele negra de Albert era resistente ao sol fraco daquela manhã de inverno, mas ela só poderia continuar com ele caso tomasse o preparado especial que permitia que os vampiros circulassem ao sol. E não havia como consegui-lo agora. Os dois saltaram rapidamente pelo topo de mais alguns prédios, até que pararam em um que julgaram seguro. Albert arrombou uma porta de serviço que dava acesso as escadas do prédio e Ursula se escondeu na escuridão. Iria precisar de algum tempo ali para recuperar as queimaduras que apesar de pequenas, poderiam se tornar letais caso a exposição direta fosse maior. - Você fica aqui até eu voltar… Tenho que resgatar Arthur. - Mas Albert, como você vai entrar na sede da firma sozinho? É loucura! Espere até a noite e eu te acompanho… - Daí pode ser tarde demais. – Ela tentou argumentar, mas ele a calou com um beijo. Levantou-se e saiu pela porta que arrombara, deixando Ursula dentro da pequena sala, descansando sentada na escadaria. Desceu rapidamente pela escada de incêndio do prédio até a rua. Parou por um segundo, suspirou e pôs-se a caminho da sede da Eternidade S/A. Albert não demorou muito para chegar ao centro da cidade. Do topo de um prédio, via do outro lado da larga avenida o monstro de vidro de aço que erguia em direção ao céu, e que agora servia de sede para a empresa que iria lhe dar uma vida (ou eternidade) melhor. Ficou ali parado, introspectivo por quase duas horas. Fitava as enormes vidraças de vidro e pensava em jeito de entrar no prédio e resgatar Arthur. A missão parecia impossível. O prédio quase não tinha ninguém naquele horário, dado aos hábitos noturnos de seus funcionários. Mas com certeza devia estar cheio de executores esperando por ele. Sabia que eles não o matariam, pois precisavam dele, mas ser capturado naquela altura dos acontecimentos poderia ser um destino pior que a morte. Porém um golpe do destino iria mudar a sua sorte.

28

Capítulo 7

Alguns minutos depois.

O guarda de segurança da recepção do prédio lia tranquilamente o jornal, recostado confortavelmente em sua poltrona quando percebeu alguém em seu balcão. Abaixou o jornal e viu uma cena insólita. Um padre, de batina e tudo, o observava. Atrás dele, uma freira do que ele achou serem quase dois metros de altura, lia furiosamente uma bíblia. - Bom dia meu filho. Eu sou o padre Sydow. Vim entregar uma encomenda para os seus patrões. – O guarda de segurança não disse nada. Teclou alguma coisa em seu computador e viu que realmente havia uma encomenda agendada para ser entregue naquele dia. Ele imprimiu uma folha e pediu para o padre assinar. O padre Sydow fez um rabisco qualquer no papel e o devolveu. - Meu caminhão já está posicionado na doca de sempre, no beco aí atrás. O guarda assentiu com a cabeça e conferiu pelo sistema de câmeras. Teclou mais alguma coisa e um portão de metal começou a se abrir nos fundos do prédio, por onde um funcionário do padre Sydow começara a descarregar engradados disfarçados, cheios de bolsas de sangue. Observando toda aquela cena, dois executores, postados em pontos estratégicos do saguão, começavam a desconfiar da freira enorme acompanhando o padre. Sabiam que por estar envolto em um crucifixo, poderia ser muito bem Albert e eles não o detectariam. Mas sabiam também que ele estaria enfraquecido, e seria uma presa fácil para eles. Eles observaram atentamente quando o padre Sydow foi liberado para entrar no prédio, acompanhado pela freira. Ele iria pegar o elevador para o departamento de “logística”, onde prestaria contas da entrega que viera fazer. Mas os executores começaram a se mover no exato momento que as duas figuras religiosas começaram a caminhar pelo saguão. Em segundos estavam os dois posicionados atrás deles. Eles sorrateiramente se aproximaram, e o primeiro se adiantou e puxou o capuz da freira, para revelar a sua identidade. A tensão tomou conta do ar. Ecoou pelo saguão do prédio um grito de terror digno de filmes antigos de monstro. Os executores, atônitos, fitavam agora o rosto por baixo do capuz: o de uma religiosa alemã de quase setenta anos que acompanhava o padre Sydow por ser também uma das contratadas da firma. A velha histérica se assustou tanto com a ação dos executores que berrava a pleno pulmões, enquanto os executores tentavam acalmá-la dizendo que tudo havia sido um engano. O padre Sydow também questionava, aos berros a ação dos vampiros. O guarda de segurança, que nem era vampiro, apenas trabalhava ali, correu em direção à confusão. Tinha dito a seu chefe que não gostava da presença daqueles dois “seguranças” e sabia que eles acabariam 29

Capítulo 7

arranjando confusão. Talvez se estivesse em sua mesa teria visto, mesmo que sem identificá-lo, Albert Kyrkman, vestido de entregador, entrando pela doca lateral do prédio empurrando um carrinho cheio de engradados. Ele corria freneticamente pelos corredores e escadas agora, tentando chegar ao “mausoléu”, a sala onde os caixões com vampiros feridos ficavam para se recuperarem. Estranhou que não cruzasse com nenhum executor, mas a urgência de sua missão não lhe permitia perder tempo com desconfianças. Alguns minutos alucinantes depois estava à porta de seu destino. Encostou o ouvido nela para tentar ouvir se havia alguma movimentação do outro lado. Nada ouviu. Seus sentidos aguçados também não detectaram nenhuma presença, mas ele sabia que suas habilidades não eram apuradas o suficiente para detectar executores treinados. Mesmo assim, engoliu em seco e girou com cuidado a maçaneta da porta e entrou. O recinto estava completamente escuro, mas subitamente dois holofotes jogaram luz diretamente sobre ele. Ela o cegou por alguns instantes, mas quando a visão lhe retornou, o terror tomou conta de seu coração. Samantha estava de pé, no fundo da sala. Arthur estava acorrentado atrás dela, todo ensanguentado, porém vivo e vigiado por dois executores. - Bem vindo Albert.

30

Capítulo 8

De Volta do Inferno

E

stava seguindo Albert Kyrkman há alguns dias. Em todos estes anos como vampiro, havia percebido que a magia era uma aliada poderosa, assim como o rifle de assalto em suas mãos e as táticas aprendidas em seus inúmeros anos como militar. Ela o ajudou a identificá-lo como o renascido no momento em que colocara os olhos sobre ele. Dalí para frente sabia que sua vida mudaria drasticamente. Havia chegado a hora de por em prática o que vinha planejando há décadas. A Eternidade S/A, ou melhor, seu dono, Vlad Tepes, o tinha alcançado, e neste jogo de gato e rato, não havia mais escapatória. E Vlad devia ter se divertido, sabendo que ele morreria com o conhecimento que o renascido havia sido encontrado. Não havia outra explicação para o fato de ele o ter mandado a sua casa. Ele iria se apoderar do poder do renascido, trazendo calamidade para a humanidade. E não havia nada que ele poderia fazer. Ou melhor, até poderia, mas teria que abandonar tudo e a todos que amava. O que para ele agora, era pior que a morte. Isso o trouxe até ali. Empoleirado no topo de um prédio, observava o renascido olhar por horas para a sede da Eternidade S/A. Sabia que o plano de Kyrkman, se é que ele tinha um, era loucura. Mas sabia também que se ele o tentasse impedir agora, ele não aceitaria lutar a seu lado. Era arriscado demais, mas necessário. Conferiu novamente o TAR-21 municiado com balas de prata. Vestia um uniforme militar completo de cor bem escura, com munição suficiente para começar uma pequena guerra. Era exatamente o que esperava agora, enquanto observava Kyrkman colocando o empregado de padre Sydow para dormir com um golpe na cabeça no beco abaixo e tomando o seu lugar. Ele realmente iria entrar no prédio. Vestiu uma máscara que deixava apenas os olhos a vista e colocou-se na beirada do prédio. Em seguida, simplesmente deixou o corpo cair. Quando estava a apenas alguns metros do chão, rodopiou no ar e aterrissou suavemente. Pegou um pequeno dispositivo de um bolso de seu uniforme militar e o jogou pela porta por onde Kyrkman entrara. O dispositivo cintilou uma luz vermelha que subitamente ficou verde com um pequeno zunido. As câmeras de segurança do prédio simplesmente pararam de funcionar, agora transmitindo apenas uma imagem chuviscada. Com a certeza de que não seria visto, e de que ganhara certa vantagem para o renascido, seguiu Kyrkman pelo corredor. Alguns minutos depois, o observava entrando por uma porta grande que segundo as plantas que tinha memorizado era o mausoléu, local onde os vampiros feridos se recuperavam. Recorrendo a mesma planta, esgueirou-se em um duto de ar de onde 31

Capítulo 8

conseguiria ver o que acontecia dentro da sala sem ser notado. Subiu rapidamente e se posicionou. Viu que Kyrkman estava frente a frente com Samantha, e esta tinha Arthur Sanders como refém, ladeado por dois executores. - Bem vindo Albert. – Os olhos de Samantha brilhavam. – Eu realmente não imaginei que você fosse tão previsível. Mas nada disso precisa terminar mal. É só você se entregar e seu amigo nada sofrerá. - Eu sei muito bem o que vocês querem comigo. – Albert apontava a espingarda para Samantha agora. - E sei também que vocês não podem me matar. Pelo menos não agora. - É uma pena. A sua inútil resistência custará muito caro para a nossa firma. Teremos trabalho por meses para acobertar tudo o que você expôs aos humanos com suas ações sem propósito. - Elas tiveram um propósito sim. Impedir que vocês escravizem a humanidade. - Basta! – Os caninos de Samantha estavam à mostra agora e ela olhou com olhos coruscantes para ele. - Eu tenho que levá-lo vivo, mas isso é uma linha bem tênue Albert. E já que não posso persuadi-lo a juntar-se a nós, acredito que Arthur não tenha mais propósito aqui. – Virou-se para um dos executores. – Matem-no. - Não! – Albert apontou a espingarda, mas não haveria tempo para salvar o amigo. O executor sacou um sabre de prata e colocou-o na altura do pescoço de Arthur. Antes que Albert pudesse ter qualquer reação, escutou o estampido vindo da direita acima de sua cabeça. A cabeça do executor explodiu em uma bola vermelha de sangue e pedaços de carne. Aproveitando a total surpresa que causara, o militar desceu por uma abertura do duto de ventilação no teto. A reação de Samantha e do executor foi instantânea, e em segundos estavam com armas nas mãos. Kyrkman foi empurrado pelo seu herói misterioso para trás de um dos caixões de metal. Antes que seus inimigos pudessem ter qualquer reação, lançou uma flashbang que carregava. Os dois malignos vampiros guincharam raivosos, agora cegos como verdadeiros morcegos. Kyrkman se ergueu e atirou com a espingarda no executor, que voou para trás com o impacto. Ouviram-se mais dois tiros. O misterioso salvador de Albert acertara os dois joelhos de Samantha, que agora gritava ajoelhada no chão. Albert então correu em direção a Arthur. Libertou-o das correntes que o prendiam e passou o braço pelas costas do amigo, de forma que conseguisse carregá-lo. O homem de roupa militar aproximou-se de Samantha, que guinchava de dor, com o sangue vampiro contaminado pelo ferimento feito com bala de prata. A vampira fitou os olhos pelo buraco do capuz que o militar vestia e subitamente o reconheceu. Quis pular em seu pescoço, mas estava fraca demais, prostada de joelho a sua frente. - Isto é por me fazer perder Angela. Retirou um crucifixo de prata de um bolso do uniforme e o segurou com firmeza na mão enluvada. Em seguida segurou a cabeça de Samantha e o forçou contra o rosto dela. A carne do 32

Capítulo 8

rosto da vampira instantaneamente começou a arder em chamas, e ela soltou um pavoroso grito de terror. Alguns momentos depois o grito cessou e o militar soltou o corpo inerte no chão. Encaminhou-se para a porta onde Albert arrastara o amigo. - Tem mais deles vindo. – Albert sentia a presença de mais executores se aproximando. Seu estranho aliado manteve-se calado. Retirou uma granada e a rolou para dentro do mausoléu. Os dois corriam agora pelo corredor. A explosão foi tão forte que parte do teto do andar começou a desabar, o que com certeza retardaria um pouco os executores. Voaram pelas escadas do prédio até chegarem ao topo. Quando estavam para sair por uma porta de serviço, Albert parou. - Não posso sair com ele assim, o sol o matará. Seu misterioso aliado então tirou um pequeno frasco de um bolso da calça e fez que Arthur o bebesse. Ele instantaneamente começou a tossir e tremer e sua pele se tornou gradativamente mais rósea, sinal que a poção de proteção estava fazendo efeito. Saíram finalmente pela porta de serviço apenas para avistar mais três executores os esperando. - Para dentro, rápido. – A voz do militar pareceu estranhamente familiar a Albert. Ele voltou rapidamente pela porta de serviço. Lá dentro, teve que fazer uso da espingarda para acertar dois executores que se adiantaram e os seguiram pelas escadas. Arthur, inconsciente, estava sentado desajeitadamente ao seu lado, protegido por uma coluna de concreto. Do lado de fora, os executores fitavam agora o homem todo vestido de negro. Ele por sua vez jogou o rifle de assalto no chão. Os executores riram com os sabres de prata na mão. O riso cessou rapidamente, porém, quando o militar levou as duas mãos as costas, de onde sacou dois machetes prateados. - Isso vai ser divertido. – sussurrou entre dentes. Por uma fresta na porta, Albert via atônito o misterioso homem partir para cima dos executores, enquanto rechaçava outro executor que tentava chegar a eles pelas escadas. O primeiro tentou acertar o militar com um golpe de sabre apenas para ver seu braço ser amputado em uma ceifada certeira. Emendado no mesmo golpe, num rodopio digno de um artista marcial, o outro machete cortou a perna do segundo executor na altura do joelho. O movimento foi finalizado com os dois enormes facões atravessando o peito do terceiro executor. Entre os gemidos dos executores no chão, ele viu Albert saindo pela porta carregando Arthur. - Estou sem balas. E tem mais deles vindo. O militar se abaixou e colocou um pouco do sangue dos executores em um pequeno frasco. Albert não entendeu porque ele fez aquilo, mas não havia tempo para explicações. Saltaram rapidamente para o topo de um prédio ao lado, de onde viram uma dezena de executores emergirem pela saída de serviço. Eles porém não podiam vê-los. Aguardaram alguns minutos em silêncio. As sirenes da polícia se ouviam lá embaixo. Deviam ter sido alertados por vizinhos 33

Capítulo 8

do prédio assustados com a explosão da granada. Era seguro para eles agora prosseguirem. - Me leve até a sua amiga. Albert continuava tentando lembrar-se de onde conhecia a voz de seu anjo da guarda. Não sabia se podia confiar realmente nele, mas aquela altura dos acontecimentos não tinha mais muita opção. Algum tempo depois encontraram Ursula escondida no topo do prédio onde Albert a tinha deixado, e aguardaram o sol se pôr. Na escuridão, pegaram um carro, um Audi A8 blindado que o militar tinha escondido em um beco da cidade e rumaram para um antigo depósito do pai de Albert, nas docas da cidade. Era o único lugar que havia sobrado para eles naquele momento. Ele o mantinha ainda, mesmo depois de contratado pela Eternidade S/A por motivos sentimentais. O falecido pai comprara o depósito para uma pequena loja de tintas que tentara abrir depois que Albert se formou na faculdade. Ele e a mãe de Albert faleceram logo após em um acidente de carro, e o imóvel comprado foi uma das únicas heranças que recebera, e o único lugar que, talvez, a Eternidade S/A não os procuraria naquele momento. Acomodaram Arthur, que continuava inconsciente em uma cama improvisada com algumas caixas de papelão estendidas no chão. Ele gemeu de dor, abriu os olhos por um momento e sorriu para eles, desmaiando novamente em seguida. Ele precisava desesperadamente de sangue agora. O militar deu a ele uma mistura de sangue de animais com alguns outros compostos curativos, que o manteria vivo por algumas horas, mas não salvaria a sua vida. Fora do caixão, o seu tempo estava extremamente limitado. Albert e Ursula também estavam sedentos, mas a situação de Arthur era a mais urgente. - Eu tenho uma ideia. Se o seu amigo aí puder cuidar de Arthur por um tempo.– Ursula falou. O estranho assentiu com a cabeça. Porém, Albert tinha uma questão a esclarecer. - Acho que antes disso você poderia nos contar quem é você. O estranho então retirou o capuz. A surpresa de Albert foi tamanha que Albert sentiu a cabeça girar. - James McGuiness, ao seu dispor. Tratava-se do mesmo vampiro que Albert e Arthur haviam visto escolher a morte a transformar a esposa em um deles. O “primeiro cliente” de Albert. Renascido do inferno.

34

Capítulo 9

Declaracao de Guerra
j

U

rsula empurrava a maca com certa apreensão. Deitado sobre ela, escondido sob um lençol que lhe cobria da cabeça aos pés, Albert tentava manter-se o mais imóvel possível. Haviam conseguido um uniforme para Ursula colocando para dormir uma incauta enfermeira que saíra para fumar um cigarro no terraço do Mount Sinai Medical Center. Ela agora repousava tranquilamente, só de calcinha e sutiã dentro de um depósito de produtos de limpeza. Era uma japonesa bem menos voluptuosa do que Ursula, e por isso a irresistível ruiva chamava bastante a atenção agora, com as roupas bem justas. Isso lhes deixava em uma situação arriscada. Albert mesmo, debaixo das cobertas, não conseguia tirar a sua imagem da cabeça. Porém, os pensamentos libidinosos desapareceram quando a maca deteve-se. - Tem um faxineiro no fim do corredor. Vou ter que distraí-lo. - Ursula sussurrava. - Cara de sorte! – Gracejou Albert, que recebeu um tranco na maca em desaprovação. Pelo fino tecido, ele observou Ursula caminhar sensualmente em direção ao faxineiro, que parou de varrer e fez uma cara tão engraçada ao ver Ursula se aproximando que Albert teve que conter a risada. Ela trocou duas palavras com ele, e usando o mesmo amuleto usado na enfermeira, colocou-o também para dormir. Guardou o pequeno amuleto, presente de James para facilitar sua missão, de volta no decote generoso e se encaminhou de volta a maca onde Albert estava escondido. Albert então saiu debaixo das cobertas e viu que a maca estava parada bem em frente ao destino dos dois: o banco de sangue. Passaram o crachá roubado da enfermeira no painel eletrônico que controlava o acesso e entraram. - Lembre-se, apenas as bolsas com sangue contaminado. – Albert fazia questão que ninguém fosse prejudicado pelo roubo que perpetrariam. - Eu sei, eu sei. – Ursula lia as papeletas nas portas das geladeiras para identificar o que queriam. Quando encontraram, começaram a carregar o máximo de bolsas que conseguiram na parte debaixo da maca. Antes de saírem, Albert rasgou uma delas com os dentes, bebeu metade e deu metade à Ursula. Estavam famintos. Albert voltou a deitar-se sobre a maca e cobriu-se, novamente da cabeça aos pés com o lençol. Ursula saiu rapidamente da sala empurrando a maca e continuaram pelo corredor. Alguns minutos e dois guardas de segurança postos para dormir depois, conseguiram sair pelos fundos do Hospital. Colocaram o carregamento de sangue no carro de James e seguiram de volta para o esconderijo. 35

j

j

Capítulo 9

- Não vejo a hora de me livrar destas roupas. – Ursula estava incomodada. - Eu posso providenciar isto. – Albert fitou-a com malícia. - Eu vou guardá-la… Quem sabe quando isto tudo acabar. – Ursula respondeu com um sorriso. Alguns minutos depois, já estavam tratando Arthur com o sangue. Estava extremamente fraco, mas tinha uma chance agora. Albert ficou ao seu lado aquela noite toda. O dia já começava a amanhecer quando Albert percebeu que o amigo começava a despertar. Recostou o amigo em uma caixa, para que ele ficasse numa posição entre deitado e sentado. - Como você se sente? – Albert perguntou. - Considerando pelo que passei, acho que me sinto até bem. - Então você deve saber tudo o que está acontecendo. E deve saber que é tudo por minha causa… – Albert tinha a cabeça baixa agora. - É, enquanto estava entre um desmaio e outro no mausoléu posso dizer que me inteirei da situação. Houve um minuto tenso de silêncio entre os dois. Albert olhou nos olhos de Arthur. - Sua vida nunca mais será a mesma… Será que você vai conseguir me perdoar? Arthur abaixou a cabeça por um instante e suspirou. Seu rosto era sério e compenetrado como Albert dificilmente tinha visto antes. Ele então levantou a cabeça e olhou para Albert. - Posso, mas com uma condição. – Albert ficou extremamente tenso com a frase do amigo. - Vou lhe fazer uma pergunta, e você tem que me responder com a máxima sinceridade. Albert engoliu em seco. - Claro, pode falar. - A ruiva ali… – Arthur fez uma menção com a cabeça em direção a Ursula, que os observava de longe. - A cortina combina com o carpete? – Arthur quase não conseguia conter a gargalhada. - Seu tarado miserável! – Os dois amigos se abraçaram. Ursula olhou para os dois e sorriu. Na situação miserável que se encontravam aqueles pequenos momentos de alegria tornavam tolerável continuar lutando. James observava aquilo tudo em silêncio, limpando seu rifle. Arthur se assustou quando o viu. - Eu te vi morrer. Como é possível? - Vlad sabe que eu conheço toda a verdade. E sabia também da minha… Fraqueza… – James deu um longo suspiro. A imagem de Angela, a esposa que recusara transformar em vampira veio a sua cabeça. – Eu me preparei e investiguei o máximo que pude. Um bom soldado tem que escolher a arma certa. Eu escolhi a magia. Ela me permitiu enganar vocês dois aquele dia. Na verdade, nem foi tão difícil. – Olhou para Arthur e sorriu. Ele sorriu um sorriso amarelo de volta. - Que verdade é esta que você está falando? – Albert queria saber. - Todos pensam que a Eternidade S/A é apenas para proteger a nossa segurança. Na verdade, ela foi a forma 36

Capítulo 9

que Vlad encontrou para facilitar o seu trabalho de encontrar o renascido quando ele surgisse. - E parece que funcionou. – Ursula concordou. - Sim. Mas o que todos desconhecessem é o seu real propósito. É necessário o poder dos dois primordiais para que seja colocado em prática o que Vlad pretende. - Por isso ele o quer trazer de volta… – Albert interrompeu. - É preciso do poder dos dois. Não da existência dos dois. – A frase de McGuiness fez Albert engolir em seco. - Ele quer trazer de volta apenas o poder do outro primordial, para que ele seja definitivamente exterminado. Na verdade, no final da Segunda Guerra Mundial, nós havíamos perdido a guerra contra os lupinos. Todos os vampiros mais poderosos foram exterminados pelos lobos, sobrando apenas os dois primordiais. - Sim, eles tiveram que fugir. Mas ninguém nunca me contou o que aconteceu ao outro primordial. - Arhtur interviu. – Na verdade, este é um segredo mais bem guardado do que o nosso. - O que descobri – James continuou. – é que eles fugiram para o lugar onde as forças lupinas teriam menos alcance. Todos os envolvidos do alto escalão sabiam que o Japão seria bombardeado com ogivas nucleares, então não era um lugar onde haveria tropas aliadas. Ou seja, lobos. James seguiu explicando a eles como os vampiros haviam descoberto as cidades que seriam bombardeadas. Contou como Vlad articulou para que a cidade de Kokura, alvo principal de uma das bombas, fosse substituída por Hiroshima, local onde o segundo Primordial estaria escondido. Enquanto isso, Vlad estaria seguro em Tóquio. - Não é o que está escrito nos livros de história, mas foi o que realmente aconteceu. A explosão pulverizou o segundo primordial, mas ela não conseguiu dissipar sua essência. O Conselho então tomou providências para que ela conseguisse voltar da única maneira possível. Atrelada à alma de um ser humano. Eles eram bem mais do que as marionetes de Vlad que são agora. Albert, Ursula e Arthur estavam atônitos. Vlad era pior do que eles imaginavam. - Ele simplesmente não quer dividir o controle sobre os humanos? – Arthur questionou. - Com toda a carnificina na Grande Guerra, tanto o conselho quanto o outro primordial estavam dispostos a um acordo de paz com os lobos. Aceitaríamos não caçar mais os humanos, e os lobos não nos caçariam mais. Mas Vlad nunca aceitou a ideia. – James se serviu de um pouco de sangue de uma das bolsas que Albert e Ursula haviam trazido. - Nossa única opção é fugir então? – Arthur se levantou e aproximou-se mais deles. Recobrava as forças rapidamente agora. - Não poderemos fugir para sempre. – Ursula retrucou. - Não, não podemos. – James ficou em silêncio por alguns segundos, pensativo. - Mas vocês, com exceção de Ursula, não têm condições de enfrentar os executores. Precisamos dar um jeito nisso. Os três lançaram um olhar de interrogação para o espião. Todos sabiam que os executores eram vampiros que passaram por um extremo regime de treinamento, que chegava a durar mais 37

Capítulo 9

de uma década. Como se tornariam guerreiros assim em tão pouco tempo? - Eu sei o que estão pensando. – James devolveu o olhar. – Mas Vlad precisava formar um exército com rapidez. E ele tinha um segredo. Um segredo para tornar um vampiro comum em um executor em questão de minutos. E só era necessário uma coisa. - O que? – Os três falaram quase ao mesmo tempo. - Sangue de um executor. Felizmente enquanto eu os enfrentava no topo da Eternidade S/A, tive a oportunidade de coletar um pouco. - Tirou um pequeno frasco de um dos bolsos da roupa militar e mostrou a eles. Em seguida, pegou dois copos que estavam em um pequeno armário no fundo da sala. Colocou um pouco do sangue dos executores em cada um. De outro bolso, sacou um pequeno livro, de onde leu, sussurrando, algumas palavras. Os dois copos começaram a tremer levemente sobre a mesa, e o líquido deles começou a borbulhar. Pegou então um pequeno frasco com um líquido azul e despejou nos copos. O sangue dentro deles se tornou preto como piche, e o tremor dos copos cessou. - Bebam. – Olhou para Albert e Arthur. Os dois não pareciam estar gostando muito da ideia, mas aproximaram-se e pegaram um copo cada um. - No três? – Arthur riu para Albert. Viraram os copos ao mesmo tempo. Mal tinham acabado de engolir e já se contorciam no chão, como se uma dor agonizante os tivesse tomado conta. Ursula quis socorrê-los, mas James a impediu. Os dois urravam agora, saliva escorrendo de suas bocas. Longos três minutos se passaram, e então finalmente a estranha metamorfose cessou. Os dois recobravam o fôlego lentamente, até que finalmente conseguiram se colocar em pé. Sentiam-se diferentes, mais fortes ainda do que já eram. Sentiam que seus reflexos estavam apurados e que poderiam executar proezas que nunca haviam imaginado antes. - De agora em diante, não há mais volta. – James falou em tom solene. A guerra estava declarada.

38

Capítulo 10

Campo de Batalha

D

ois anos se passaram desde aquela noite no esconderijo em Nova York. Haviam viajado pelos quatro cantos da Terra, da cordilheira do Himalaia às profundezas da floresta amazônica. Procuravam recursos, treinavam e aprendiam tudo o que poderiam. E eventualmente enfrentavam executores. Muitos executores. Vlad Tepes em seu castelo na Ucrânia urrava constantemente pelos corredores, matando sistematicamente serviçais que lhe traziam más notícias. Não entendia como os quatro vampiros escapavam-lhe pelos dedos. Enquanto isto, Albert, Arthur, Ursula e James estavam cada vez mais preparados. O espião tinha contatos espalhados pelo mundo todo, o que lhes garantiram movimentação livre por todos os lugares. Houve mestres de todos os tipos, que ensinaram a Albert e Arthur técnicas de batalha, sejam do manuseio de armas ou magia. Até mesmo Ursula, experimentada guerreira, aprendera alguns truques novos. James também fez o trabalho de inteligência, distribuindo centenas de pistas falsas que faziam com que o inimigo dispersasse suas forças cada vez mais no intuito de capturá-los. E o momento em que estas forças estavam mais espalhadas, pela louca obsessão de seu mestre em encontrar os fugitivos e principalmente o renascido, foi escolhido para dar a sua cartada decisiva. Vlad estava no seu aposento olhando pela enorme janela, pensando em formas de trazer até ele os seus inimigos. Até ele, o vampiro mais poderoso de todos se surpreendeu com a explosão que surgiu no horizonte. Um enorme dique foi posto abaixo pelos quatro vampiros renegados. As águas caudalosas preencheram rapidamente os leitos secos que contornavam a fortaleza de Vlad. Este compreendeu, instantes depois, a intenção de seus inimigos. Porém, já era tarde demais. - Mandem os executores! Mandem todos eles! Eu quero todos eles! – Vlad urrava com ódio. A ousadia dos seus inimigos o tinha surpreendido. Alguns quilômetros dali rodeado por seus três amigos, às margens do novo rio que nascia, James invocava agora um antigo encantamento. Tão antigo que nem mesmo Vlad lembrara mais dele. Porém James era obstinado, e recolhera com um velho monge tibetano a forma perfeita de estabelecer um campo de batalha para eles. A água corrente, em conjunto com a força da magia criara uma barreira que envolvia o castelo, e não permitia que nenhuma criatura amaldiçoada pudesse entrar ou sair. Havia criado uma cela para os inimigos e também para eles mesmos. Tinham chegado ao ponto sem retorno. - Está feito. – James olhou para os amigos e sorriu. 39

Capítulo 10

- Estão vindo. Posso sentir o fedor deles. – Arthur percebia a chegada dos executores, que se embrenhavam na floresta fechada que circundava o castelo a procura deles. Sacaram seus sabres de prata, menos James, que preferia os dois machetes. - Não devem ser mais do que cem, se nossas informações estiverem corretas. Vocês sabem o que fazer. – Albert falou com confiança. Sua voz refletia as mudanças que passara nestes dois anos. Além do sangue de executor agora correndo em suas veias, havia aprendido a ser um guerreiro e, além disso, um estrategista. A floresta estava repleta de armadilhas, e os primeiros executores a se embrenharem nela morreram às vezes decapitados, outras vezes empalados por setas de pratas. Os que escaparam, eram sistematicamente emboscados pelos quatro vampiros. Vlad observava seus asseclas de um terraço do castelo, e cada grito de executor caído o enfurecia cada vez mais. Seus olhos estavam coruscantes de ódio, e sua figura magnífica nas roupas de aparência vitoriana se tornava cada vez mais obscura, enquanto uma névoa de escuridão subia de seus pés e lhe dava uma aparência fantasmagórica. Tentava entender como aquele mero advogado negro do subúrbio de Nova York tinha a audácia de desafiá-lo. O confinara em seu próprio castelo, e seus executores tombavam sistematicamente no tabuleiro de xadrez estabelecido por seus inimigos. Dentro da floresta fechada, eles corriam e rodopiavam entre as árvores, saciando com sangue as lâminas de prata de suas armas. - Tragam Samantha. Agora! – Vlad urrou com um dos seus serviçais. Este saiu correndo pelo corredor que dava acesso ao terraço onde Vlad estava afoito em cumprir a missão lhe dada pelo mestre. Desceu por uma escada de pedra em espiral até um escuro e fétido calabouço. Abriu uma pesada porta de madeira de uma das celas e entrou no aposento. - O mestre a está chamam… - antes que conseguisse terminar a frase, seu corpo foi jogado violentamente contra a parede de pedra. Dentro da cela, uma risada demoníaca foi ouvida, e Samantha saiu da cela. A figura adorável da garota que parecia nova demais para ser uma mulher de negócios havia sumido completamente. Vlad, irado com a sua falha, não permitiu que ela morresse quando James enterrou o crucifixo de prata em seu rosto. Para puni-la, havia a transformado naquilo que um vampiro mais temia: uma lamiae, a forma mais aterradora que uma vampira podia assumir. O corpo delicado e sensual agora era um amontoado de músculos horrendos e inchados, de onde brotavam pústulas e tumores cheios de pus. Os cabelos negros agora eram escassos na cabeça deformada. Possuía apenas um olho, já que o outro fora engolido pela enorme cicatriz em forma de crucifixo. Em contrapartida, uma lamiae era o ser mais poderoso conhecido pelas criaturas da noite, e ela sempre era controlada por um vampiro poderoso. Era uma arma de guerra, que não era mais vista desde que os vampiros tiveram sua derrota decisiva na Segunda Guerra Mundial. Este demônio agora vagava pelas escadarias do castelo, em direção a sua entrada principal. 40

Capítulo 10

Alheios a tudo isso, os quatro vampiros lutavam com os executores na floresta. Ursula havia desistido das armas brancas, e agora atirava com uma espingarda nos poucos executores que ainda resistiam. Avançavam lentamente em direção ao descampado que havia na frente do castelo de Vlad. Este continuava impassível no topo do castelo, observando a tudo. Mais alguns minutos se passaram, e finalmente, incólumes emergiram da floresta ao longe as quatros figuras em roupas militares salpicadas de sangue. Os gritos dos executores haviam cessado, e o que se ouvia agora era apenas o som do rio que havia se formado, ilhando o castelo amaldiçoado. Caminharam para dentro do descampado, até que puderam ver emoldurado pela enorme lua cheia acima de uma das torres do castelo a figura de Vlad. A névoa negra o envolvia completamente agora, e ele possuía um sorriso no rosto. Albert se adiantou alguns passos do grupo e falou tão alto que apenas os vampiros puderam escutar. - Acabou Vlad. Seus executores não poderão entrar e você não poderá sair. - Quem é você para me fazer ameaças, seu meio humano desprezível? Vocês vieram para atender aos seus próprios funerais! E antes do sol nascer o poder que está dentro de você será meu! Albert hesitou por um momento com a confiança de Vlad. Ele estava encurralado em seu castelo, e mesmo assim mantinha a empáfia. Resolveu então lançar um ultimato. - Se entregue agora, ou seremos obrigados a matá-lo! - Me matar? Me matar? Já estamos todos mortos, seu inseto miserável. E em breve todos os humanos servirão apenas para garantir que continuemos assim. Neste momento a visão horrenda de Samantha emergiu do portão principal do castelo. Apesar de sua disforme aparência, os amigos a reconheceram imediatamente. Ursula virou o rosto por um momento e segurou o choro, pois Samantha, apesar de tudo o que havia feito, tinha sido sua amiga. O olho de Samantha que ainda existia em seu rosto olhou diretamente para eles, fitando-os lentamente e finalmente repousando sobre James. A boca destruída e com apenas os caninos balbuciou um grunhido de ódio. - Maldito! Maldito! James percebeu que aquilo era direcionado diretamente para ele, porém não se abalou. Caminhou até o lado de Albert. - Você tem esta criatura, mas nós somos quatro Vlad. Nem ela e nem você serão suficiente para nos deter. Vocês terminarão mortos. - Vocês falam muito de morte. Quem sabe eu não deva mostrar a vocês a verdadeira natureza dela. Vlad então virou-se de costas para ele e abriu os braços. A névoa que o envolvia começou a se mexer, formando um redemoinho em volta dele por alguns segundos. Depois, desceu velozmente pela torre do castelo e se dispersou, cobrindo boa parte do descampado. Então a voz de Vlad se fez ouvida novamente. 41

Capítulo 10

- Levantem-se! James engoliu em seco. Começaram a ouvir sons abafados, como se o solo a frente deles estalasse e se partisse. Momentos depois já podiam ver os primeiros montes de terra se formando e abrindo. Deles surgiam mãos e braços putrefatos, que erguiam em seguidas cadáveres cujas caveiras exibiam olhos com orbitas de uma luz vermelha maligna. Vlad havia invocado um exército de mortos vivos, antigos guerreiros que tombaram a frente daquele castelo, e foram aprisionados em seu solo, aguardando o dia que seu algoz os traria de volta para serví-lo. Albert e James recuaram até onde Ursula e Arthur estavam e sacaram armas. Eles que estavam encurralados agora, e por inimigos muito mais perigosos que executores, pois estes não possuíam fraqueza alguma as suas lâminas e balas de prata. Samantha foi a primeira avançar pelo meio dos zumbis malditos, urrando como uma fera ensandecida em direção a eles. Arthur fraquejou por um momento. - Estamos perdidos… – Sussurrou com pesar. A massa com mais de duzentos mortos vivos avançou furiosamente.

42

Capítulo 11

Matilha

D

uas figuras misteriosas observavam a batalha, incógnitos embrenhados na floresta. Mesmo os quatros poderosos vampiros e os diversos executores que haviam estado ali alguns minutos antes conseguiram perceber a presença deles e dos seus irmãos. Observavam o cerco que se armara, aguardando o seu desfecho sem interferir. A única coisa que se poderia observar deles agora na escuridão era o brilho dos dois pares de olhos vermelhos. - Nós devíamos intervir. – conversavam com suas mentes, sem emitir som algum. - Não sei. A ideia de me aliar a um vampiro ainda não me soa muito bem. – a segunda figura respondeu, também telepaticamente. - A mulher já se aliou a nós no passado. E tudo o que eles fizeram nestes dois anos não deixa sombra de dúvida sobre a intenção deles. - Nisso você tem razão irmão. O fato de terem se encurralado aqui para enfrentar Vlad diz muito sobre eles. - E então, o que me diz? – O primeiro queria uma resposta do irmão. - Vamos esperar mais um pouco. Já fora da floresta, bem a frente de onde as duas figuras misteriosas trocavam pensamentos, os quatro vampiros renegados encaravam o seu destino. Do alto do castelo, Vlad, o único vampiro primordial encarnado invocava seus poderes das trevas para erguer os guerreiros que jaziam no descampado à frente. Dezenas de figuras horrendas e apodrecidas se ergueram de suas covas rasas. Uma mais grotesca ainda, Samantha, transformada por seu mestre em um monstro guerreiro parecia comandar a horda infernal, que partiu em uma carga desenfreada em direção aos quatros amigos. Por mais habilidosos que houvessem se tornado, não seriam páreo para o exército de criaturas amaldiçoadas. Não tinham estratégia nem armadilhas para enfrentar aquilo. Em campo aberto, estavam entregues a própria sorte. Porém, na floresta atrás deles, uma decisão foi tomada. Um uivo, a princípio solitário ecoou pelo vale. Os mortos vivos, liderados por Samantha interromperam a carga, e até mesmo Vlad teve a atenção despertada. Aquele agudo grito animal cessou, porém foi seguido por um coro de dezenas de outros, que foi ganhando força gradualmente até se tornar ensurdecedor. Podia se ver agora as copas das árvores se mexendo, e um som como o de uma tropa avançando foi ouvido. Apenas alguns segundos depois se revelaram as causas de tal estardalhaço. Uma matilha enorme de lobisomens emergiu da floresta, para a surpresa tanto dos quatro amigos quanto dos seus infames inimigos. Os enormes lobos 43

Capítulo 11

avançaram ferozmente, passaram pelos quatro vampiros atônitos e investiram sobre as criaturas demoníacas. Uma batalha sem precedentes se iniciou. Os quatros amigos se engajaram também na batalha, seguindo em direção a Samantha, que rechaçava os ataques lupinos com golpes dos seus poderosos membros. - Temos que pará-la! Deixem os mortos vivos com os lobos. – Albert berrou aos amigos enquanto avançavam. Uma espécie de clareira se abriu no meio do combate, e os lobos, compreendendo a estratégia de Albert e seus amigos, se concentraram nos zumbis. Os quatro estavam agora frente a frente com a lamiae. Ela agora estava mais furiosa ainda, arranhada e sangrando pelos ferimentos infringidos pelos lupinos. Esta aparente fraqueza levou Albert e seus amigos a um erro logo de início: partir para cima da fera com tudo. Ela jogou com um único golpe os quatro a uma distância considerável, e finalmente eles tiveram a noção do poder contido na grotesca criatura. Era muito mais poderosa que um executor, sua pele tinha resistência impressionante até os golpes de armas de prata, que apenas a arranhavam. Perceberam então que teriam que usar de força extraordinária, muito maior do que já haviam empregado contra os inúmeros inimigos que já haviam enfrentado até ali. Circundaram a criatura, agora cautelosos quanto ao próximo passo na batalha. Enquanto isso, a volta deles uma batalha sangrenta entre os lobos e os seres mortos-vivos continuava. Apesar de terem várias baixas, os lobos lentamente iam sobrepujando os cadáveres infernais um a um. Chegaram até mesmo a jogar alguns na água do rio encantado. Os esqueletos, por se tratarem de seres amaldiçoados, rompiam em chamas no momento que seus corpos decrépitos tocavam a água corrente, como se mergulhados em ácido. Alguns lobos também caíram eventualmente na água, mas não se feriam. Albert reparou isso e entendeu o que Ursula havia lhe dito algum tempo atrás: Eles não se tratavam de seres amaldiçoados como os vampiros. Eram mais como animais sagrados presos a corpos de homens. Por isso em todos estes séculos eles estiveram ao lado dos humanos, mesmo que secretamente, contra a dominação que Vlad e seus asseclas queriam impor. Agora os nobres animais lutavam lado a lado com eles, e que aliados formidáveis eles eram. Mas os pensamentos de Albert eram sempre subitamente interrompidos pelas investidas de Samantha. Sabia que Vlad o queria vivo, mas não tinha dúvida que a fera não hesitaria em arrancar a sua cabeça em sua fúria descontrolada. Tentavam agora cercar a criatura por todos os lados, desferindo ataques coordenados que apenas arranhavam a superfície da pele do monstro, o que deixava Samantha apenas mais furiosa. E as armas brancas eram a sua única opção de ataque, pois Ursula tentara acertar um tiro na cabeça do monstro, mas este foi ricocheteado por algum tipo de magia. Tentaram um ataque coordenado, com os quatros avançando ao mesmo tempo, 44

Capítulo 11

apenas para serem rechaçados novamente com poderosos golpes que os jogavam longe. Estavam exaustos da batalha, e lentamente ficando desesperados pela falta de opções para derrotar o oponente terrível. Estavam agora Albert, Ursula e Arthur prostrados de joelhos, tentando recuperar o fôlego, enquanto que James havia sido jogado ainda mais longe pelo golpe. Tinha sido lançado em um monte de quatro corpos putrefatos à direita do monstro, que olhava para eles com o único olho ardendo em ódio. Albert percebeu que James se demorou a levantar. Quando o fez, estava todo desajeitado, com se manipulado como uma marionete. Deveria estar certamente mais enfraquecido que os outros, pois ofegava furiosamente. Albert o viu então pegar uma espada do chão, que nem mesmo era de prata e partir para cima do monstro. Teria enlouquecido? - Não James! Não faça isso! – A voz de Albert quase não lhe saia da boca, e os pulmões queimavam pelo cansaço. Mas o espião pareceu não ouvir. Estava cego por algum tipo de ira descontrolada contra a besta infernal. Correu e saltou sobre ela. Desferiu um golpe pífio com a espada, que nem ao menos chegou a acertar o monstro. Este por sua vez agiu diferente das outras vezes que fora atacado. Ao invés de acertar um golpe no atacante, o aceitou de peito aberto, o recebendo em um abraço mortal. A criatura segurou James com força, girando-o e agora o segurando pela perna esquerda, de ponta-cabeça. Este não possuía nem mais força para se debater. Parecia entregue a mercê da criatura. Os três amigos estavam em pânico, de pé a alguns metros do monstro, tentando achar uma brecha para atacar e libertar o amigo. Mas era tarde demais. Para o horror dos três amigos, a fera lentamente desmembrou James. Primeiro arrancou-lhe o braço direito e parte do braço esquerdo. Revirou-o e arrancou-lhe agora as pernas, de onde um jorro de sangue espirrou até próximo de onde eles estavam. O corpo desmembrado se contorcia em agonia, a cabeça pendendo para os lados em desespero. Não emitia som algum, além de gemidos roucos e abafados de desespero. Mas não por muito tempo. A besta medonha olhou diretamente para os olhos moribundos de James e esboçou um sorriso de escárnio na boca deformada. Pegou uma lâmina de prata caída ao seu lado e finalmente, mais em um ato de vingança do que misericórdia decepou a cabeça do espião. Esta rolou alguns metros à frente e Albert pode ver os olhos revirando em suas órbitas até pararem completamente. Albert olhou para Ursula e Arthur. Viu seus rostos atônitos e as lágrimas que corriam profusamente agora no rosto da amada.

45

Capítulo 12

Pela Eternidade

A

fera ensandecida regozijou-se da hedionda cena do corpo desmembrado de James. Albert e seus amigos observavam a dantesca visão de certa distância, confusos e assustados. A fera deixou então o que sobrara do corpo desabar no chão. O único olho infernal fitou os amigos com ódio. Eles seriam os próximos. Porém, o que ela não reparou foi que no momento em que os restos do torso tocaram o solo, eles e os membros arrancados ganharam uma tênue luminosidade, e o que eram os restos mortais de James se tornaram a ossada de uma das criaturas infernais que haviam brotado das profundezas do descampado onde a batalha tinha lugar. Albert foi o primeiro a ouvir, como se todo o som da batalha se abafasse o som dos passos vindos de trás da criatura. Eram passos apressados, correndo. Eles cessaram e Albert viu o brilho refletido da lua subir em o que pareciam dois relâmpagos que se erguiam por trás de Samantha. Eles ganharam certa altura e começaram a descer, abertos no ar. O golpe foi certeiro. Os dois machetes, um vindo da direita e outro da esquerda acertaram a besta na altura da têmpora. Mas eles não simplesmente feriram: os dois se encontraram no centro da cabeça do monstro. O monstro não emitiu som algum. Simplesmente caiu de joelhos, e a parte de cima da cabeça escorregou lentamente para o lado, até cair e rolar pelo chão. Segundos depois o monstro desabou completamente, eclodindo em chamas logo em seguida. Do meio das chamas os três amigos viram James, tal qual uma fênix renascida das chamas novamente, mesmo sem nunca ter estado realmente morto. Exaurido pelo encantamento feito para enganar Samantha, e mais ainda por ter transferido todas as suas forças para os golpes mortais dos machetes, James caiu desfalecido no chão, atrás do corpo deformado que ardia em chamas. Os amigos correram até ele. Arthur foi o primeiro a chegar, colocando-o em uma posição mais confortável no chão e amparando a sua cabeça. - Você precisa parar de fazer isso! É a segunda vez que te vejo morrer! – Arthur ria, mas tinha os olhos marejados. Albert e Ursula chegaram em seguida, e suspiraram aliviados quando perceberam que apesar de exaurido, o amigo continuava vivo. - Eu sou um espião… Já morri inúmeras vezes… – James sussurrava as palavras através de um meio sorriso. Neste momento, a batalha dos lupinos chegava ao fim. Os últimos mortos-vivos haviam sido jogados nas águas encantadas do riacho criado pelos vampiros renegados. Os animais guerreiros orgulhosos uivaram em uníssono, como se entoassem um cântico de guerra. Porém, 46

Capítulo 12

ao mesmo tempo os quatro sabiam que havia ainda uma última batalha a ser vencida. E que ela teria que ser travada por Albert. Na margem do lado de fora do cerco, centenas de executores chegavam de todas as partes, mas impedidos de entrarem na luta, vagavam de um lado para o outro como animais acuados, apesar deles estarem de fora do cativeiro. Mas não eram eles os inimigos a serem vencidos. Os olhares estavam dirigidos agora à torre do castelo onde ficava o terraço de onde Vlad havia observado toda a batalha. Ele não estava mais lá. Havia se recolhido para a sua câmara particular. Albert se ergueu e começou a caminhar em direção a entrada principal do castelo. Sem olhar para os amigos apenas disse: - Cuidem de James. – Deu mais alguns passos. - Albert! – Ursula correu e abraçou Albert, o beijando com paixão. Depois olharam um para o outro por longos segundos. Nenhuma palavra foi pronunciada. Aqueles olhares faiscantes de paixão diziam tudo o que precisava ser dito. Albert então a segurou pelos braços, como que se tentasse carinhosamente a afastar. Ela tocou o seu rosto uma última vez, virou-se e caminhou, tentando controlar o choro incontrolável. A dor de esta poder ser a última vez que veria o seu amor tomou conta. Albert entrou no castelo e usou seus poderes para se guiar pelos corredores desertos. Eles eram magníficos, como se estivera paralisado no tempo por séculos. Na antessala da câmara principal, onde Vlad se refugiava agora, enormes quadros mostravam as feições garbosas de figuras que Albert estudara tudo o que poderia. Eram membros do conselho dos vampiros, figuras proeminentes entre as criaturas da noite, mas que hoje em dia não passavam de meras marionetes sob o controle unilateral de Vlad. Sem o segundo primordial para equilibrar a balança de poder, Vlad se tornara absoluto, e o conselho, impotente. Mas havia um quadro em especial que chamou a atenção de Albert. Ele retratava um homem que apesar da elegância dos trajes mostrava um rosto longo e triste, com uma aparência de tristeza imensa. Albert conhecia como ninguém aquele homem: ele trazia dentro de si agora a sua essência, a sua alma. - Conde Orlok… – Albert passou os dedos pelo adorno em ouro puro no rodapé do quadro que ostentava o nome do retratado. Num segundo todas as memórias que ele vislumbrara nos pesadelos que tinha logo que fora transformado voltaram a sua cabeça. Estes sonhos mostravam sempre como Orlok havia lutado internamente com Vlad e o Conselho para tornar a convivência de vampiros e homens pacífica. Porém os sonhos de Albert terminavam sempre da mesma forma: a obliteração de Orlok em Hiroshima. Albert despertou do pequeno transe e vislumbrou a enorme porta de madeira que dava acesso a câmara particular de Vlad. Aproximou-se e a abriu cuidadosamente. Vlad estava de costas, em frente a uma enorme vidraça de onde olhava para o campo de batalha, agora silencioso, lá embaixo. - Você é muito atrevido de vir aqui sozinho. Sabe que posso tirar de você o que quero agora. 47

Capítulo 12

A porta atrás de Albert fechou, batendo violentamente nos seus portais. Vlad levou um cálice aos lábios, sorveu um pouco do seu conteúdo e o repousou de volta em um aparador. Virou-se e fitou Albert com desprezo. A aparência de Vlad era magnífica: vestia-se com garbo, com roupas de aparência secular, mas que eram obviamente novas em folha. - Vocês me criaram um grande inconveniente. Todo este… Circo que criaram aqui hoje será inútil quando eu esmagar você como o inseto que você é. - Basta! – Albert ergueu o tom de voz de uma forma que deixou Vlad desconfortável. Como este meio humano poderia ser tão insolente? - Todo este tempo você sempre quis este poder que trago dentro de mim. Pois bem, Vlad. Eu estou aqui para entregá-lo a você! – Albert sacou uma adaga de prata da roupa militar, toda ornamentada. Era magnífica, mas não era mais do que uma faca de caça. - Bastardo insolente! Pensa que eu tenho medo desta patética adaga ritual? Acha que ela terá algum poder contra mim? - Ela não é para você! – Albert virou a adaga contra o próprio peito e a enterrou fundo. - Não! Seu maldito humano! O que você fez? – Vlad lançou-se sobre Albert e os dois rolaram no chão. Quando pararam, Albert olhou nos olhos de Vlad nos últimos segundos de vida que lhe restavam. - Adeus Vlad. Te vejo no inferno! A vida se esvaiu do corpo de Albert, mas seus olhos não se fecharam. Eles assumiram um brilho intenso azulado e o corpo de Albert sofreu um espasmo tão violento que jogou Vlad longe. A boca de Albert se escancarou, e de lá o que parecia a principio ser uma névoa espessa começou a sair em profusão. Ela tomou conta de toda a sala, até que começou a se agrupar em um único lugar. A névoa começou a tomar uma forma fantasmagórica de um homem alto e magro. Quando a forma chegou a sua forma definitiva, seus olhos se abriram e olharam para Vlad, que se erguia da queda. - Vlad… – o sussurro ecoou pela sala. - Orlok seu maldito! O seu poder tinha que ser meu! - Vlad… – o sussurro começou a se repetir, cada vez mais rápido e alto, até se tornar ensurdecedor. A figura fantasma começou a se desfazer e a envolver Vlad, que tentava se desvencilhar, mas em vão. Sua luta desesperada o levou até a enorme vidraça, de onde ele saltou em desespero. Quando atingiu o chão, vários andares abaixo, a figura magnífica de Vlad tinha dado lugar a uma forma cadavérica. Arthur, Ursula e James correram até lá apenas para ver a névoa deixar o corpo morto de Vlad e começar a subir serpenteando pela torre do castelo, até chegar à vidraça estilhaçada. Ela formou um redemoinho no ar, até tomar novamente a forma de Orlok. O espectro aproximou do local onde o corpo de Albert jazia e o observou por longos minutos. Parecia tentar entender o sacrifício que aquele meio-humano havia feito. Um sacrifício que tinha posto fim a batalha que Orlok havia travado durante toda a sua existência física. Ele então estendeu o braço direito, com a 48

Capítulo 12

mão espalmada sobre Albert. Seu corpo lentamente se ergueu no ar até cerca de um metro de altura. A adaga em seu peito começou a se mover lentamente, até ser removida completamente, deixando apenas a ferida exposta. Neste momento Arthur e Ursula chegaram correndo pela antessala. O fantasma olhou para eles atônitos, parados à porta da câmara e esboçou o que parecia um sorriso. O espectro começou então a perder a forma e a entrar no peito de Albert pela ferida aberta. Quando a névoa se dissipou completamente, a ferida no peito de Albert estava completamente fechada, e o corpo que levitava caiu pesadamente no chão. Os amigos correram até ele, e Arthur tentou reanimá-lo sacudindo-o. - Albert! Albert! Fala comigo amigo! Os olhos de Albert, fechados agora, não se abriram. Porém seus lábios se moveram lentamente, e emitiram um pequeno sussurro: - Ursula… - É, ele está vivo mesmo. – Arthur saiu de lado rindo e deixou Ursula o abraçar. Alguns minutos depois estavam de novo na entrada do castelo. Albert amparado por Arthur estava um pouco mais consciente, mas muito fraco. James, que também se recuperava lentamente estava sentado no chão, encostado em uma pedra. Os lobos haviam sumido. - Onde os nossos bichinhos de estimação foram? – Arthur brincou. James olhou para ele com um ar de desaprovação, mas respondeu. - Meu feitiço no rio fraquejou. Eles tiveram que afugentar os executores que estavam do lado de fora do cerco. Mas pode ter certeza que ouviremos falar deles novamente. - Então é isso? É o fim da Eternidade S/A? – Ursula parecia ansiosa. Arthur e James pareciam concordar que sim, mas Albert discordou, para a surpresa deles. - Não. Isto é apenas o começo… Os amigos olharam para ele com semblante de interrogação. - Existem vários aliados de Vlad espalhados por aí… E existem mais ainda vampiros que vão precisar da ajuda da firma para se manter incógnitos e seguros. Este trabalho tem que ser feito. Albert fez uma pausa para recobrar o fôlego. - Eu estou disposto a fazê-lo. O que me dizem… sócios?

49

Interesses relacionados