PSICOTERAPIA BREVE DE ORIENTAÇÃO PSICANALÍTICA

Eduardo Alberto Braier

PSICOTERAPIA BREVE DE ORIENTAÇÃO PSICANALÍTICA .

Tradução IPEPLAN

Martins Fontes
São Paulo 2008

Esta obra foi publicada originalmente em espanhol com o titulo PSICOTER APIA BREVE DE ORIENTACIÓN PS/CO ANALÍTICA por Ediciones Nueva Visiõn, Buenos Aires, rm I9&4. Copyright © Ediciones Nueva Vision SAIC, Buenos Aifes. 1984 Copyright © 1986. Livraria Martins Fontes Editora Ltda.. São Paulo, paia a presente edição I* edição 1986 4* edição -TO Coordenação da tradução Mana Risoleta de Oliveira Marcondes Revisão da tradução Maria Esteia Heider Cavalheiro Revisões gráficas Eloisa da Silva Aragão Ivete Batista diu Santos IHnarte Zorzanelh da Silva Produção gráfica Geraldo Alves Pagirmçáo/Fotolitos Studio 3 Desenvolvimento Editorial Dados Internacionais de Catalogação na Puhlicaçao (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP. Brasil) lírnicr, Eduardo Alberto Psiwterapia breve de orientação psican.il itica / Eduardo Alberto Britiet : iraduçAn IPEPLAN. - S3o Paulo : Martins Fontes. 2008. (Psicologia c pedagogia) Titulo original: Psicoterapia breve de orienlación psicoanalítica. Bibliografia. ISBN *J7K-85-336-2407'8 I INicnntilisc 2. Psicoterapia breve I. Titulo. II. Série. 07 UHM ____________________________________ CDD-618.8917 Indices para catálogo sistemático: I Psicanálise : Medicina 618.8917

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Resenha histórico-bibliográfica 9 A psicoterapia breve na A rgentina 12 Referências bibliográficas 13 3. Introdução 3 Referências bibliográficas 7 2.Indice | Prefácio à edição brasileira XV por Maurício Knobel Prefácio 1 1. Fundamentos teóricos 15 Introdução 15 Pelos caminhos da psicanálise 16 A psicoterapia individual breve de orientação psicanalitica Os fins terapêuticos 18 A temporalidade 21 A técnica 21 Resultados e mecanismos terapêuticos 49 Referências bibliográficas 56 .

TÉCNICA 4.vo» sobn' afocalização e a atenção do terapeuta 95 t i*-nu7j/í>\ psiioterapêuticos verbais 99 <ieneralidades 99 . Entrevistas preliminares 63 Introdução 63 0 estabelecimento da relação terapêutica 63 A história clínica 65 Avaliação diagnostica e prognostica 65 Avaliação diagnostica 65 » Papel do psicodiagnóstico 69 Avaliação prognostica 70 A devolução diagnóstico-prognóstica 71 Contrato sobre as metas terapêuticas e a duração do tratamento 73 Explicitação do método de trabalho. Planejamento do tratamento 79 Referências bibliográficas 81 6. Fixação das demais normas contratuais 76 Referências bibliográficas 77 5. O tratamento 83 Introdução 83 A relação paciente-terapeuta no tratamento breve 84 1Ima regra básica defuncionamento em psicoterapia breve de orientação psicanalitica 89 O emprego constante do método da associação livre ("regrafundamental ”da psicanálise) nos tratamentos breves 90 Adoção de uma regra básica defuncionamento para psicoterapias breves 93 t lso operativo do método da associação livre nos tratamentos breves 93 ( 'onformação definitiva de uma regra de funi ionamen to para psicoterapias breves 95 I í/ i-/ <v.

A respeito do término do tratamento em psicoterapia breve 165 Introdução 165 Reações causadas no paciente pela separação 166 Reações causadas no terapeuta pela separação 170 Aspectos técnicos 171 .prática e investigação em psicoterapias breves 149 Introdução 149 A dificuldade de adaptação ao enquadramento da psicoterapia breve 151 'Psicoterapiabreve 'versus'psicanálise” 151 Na intimidade da relação terapeuta-paciente 152 Dificuldades ante o término do tratamento psicoterapêutico breve 159 Dificuldades na avaliação dos resultados obtidos em psicoterapia breve 159 Desprestígio da psicoterapia breve enquanto indicação terapêutica 160 Outras dificuldades do terapeuta ante as terapias breves Conclusões 162 Referências bibliográficas 163 9. Dificuldades do terapeuta para a formação . Uma sessão de psicoterapia breve 129 A sessão 136 * Comentários sobre a sessão 141 Referências bibliográficas 148 8.As interpretações na psicoterapia breve de orientação psicanalitica 100 Outras intervenções verbais 117 Sobre as sessões 118 Outros recursos terapêuticos 119 O emprego depsicofármacos 120 A participação defamiliares e/ou pessoas próximas do paciente no tratamento 121 Referências bibliográficas 125 7.

Conclusões 174 Referências bibliográficas 175 10. Alguns problemas técnicos característicos e riscos em psicoterapia breve 177 Referências bibliográficas 182 11. Indicações da psicoterapia breve 207 Referências bibliográficas 211 13. Aprofundamento nofoco 229 Motivos da consulta 230 Dados biográficos de interesse 231 Avaliação diagnostica 232 . Dos tratamentos breves 213 Exemplificação do método psicoterapêutico de objetivos limitados 213 Dados biográficos de interesse (resumo) 214 Avaliação diagnostica 215 A hipótese psicodinámica inicial 216 As metas terapêuticas 219 Prognóstico 220 Planificação do tratamento 220 Evolução durante o tratamento 223 Avaliação dos resultados terapêuticos 225 Considerações finais 228 O caso da jovem que vomitava às segundas-feiras. A avaliação dos resultados terapêuticos em psicoterapia breve 185 Introdução 185 Um método de avaliação 186 A avaliação imediata 187 Alternativas do paciente ao terminar o tratamento 194 A avaliação mediata 196 Problemas na avaliação dos resultados terapêuticos 200 Referências bibliográficas 204 12.

Hipótesepsicodinâmica inicial. Formação de terapeutas em psicoterapia breve 251 Introdução 251 Aprendizagem teórica 252 < Treinamento psicoterapêutico 253 Supervisão clínica 254 Algumas condições necessárias para um terapeuta em psicoterapias breves 254 Referências bibliográficas 263 Notas 265 . Conflitivafocal 232 Metas terapêuticas 233 Prognóstico 233 Planificação do tratamento 234 Evolução durante o tratamento 235 Avaliação dos resultados terapêuticos 241 Consideraçõesfinais 245 Referências bibliográficas 249 14.

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.” Sigmund Freud. Os caminhos da terapia psicanalitica (1919).“Defrontamo-nos então com o trabalho de adaptar nossa técnica às novas condições.

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que recebeu a formação rigorosa do Instituto de Psicanálise da Associação Psicanalítica Argentina. . através do próprio exercício clínico. É também sentir que estamos contribuin­ do para o esforço atual para tomar a psicoterapia acessível a uma ampla camada da população que necessita desta modalidade de atendimento. os que conseguem associar o rigor da prática psicanalítica a uma consciência social e comunitária. sem te­ rem acesso a uma técnica complexa. Braier é um psicanalista argentino. a precisão dos conceitos. Conhece e reconhece a Psicoterapia Breve e resolve elaborar. a elaboração cuidadosa das técnicas ao longo desses anos bem como a organização e clareza com que são agora apresentados. uma teoria da técnica para a sua prática. Como participante das investigações sobre psicoterapias bre­ ves do Colégio Acta.Prefácio à edição brasileira í Apresentar ao leitor a edição brasileira do livro de Braier é uma honra e um prazer. São poucos. de 1967. posso constatar o amadurecimento das idéias. Braier procurou oferecer uma contribuição concreta para aqueles que buscam ajuda para os problemas emocionais. infelizmente. demorada e elitista. mas na confrontação do dia-a-dia com o paciente que procura ajuda nos hospitais e centros de saúde. E isso não apenas no devaneio intelectual. Eduardo A.

Braier é o psicanalista cauteloso unido ao terapeuta audacioso. Aceita a possível utilização de recursos terapêuticos múlti­ plos e afirma que ninguém é dono da verdade. aceita o desafio do mestre e procura “adaptar nossa técnica às nossas condições”. O livro traz muitas respostas e sua contribuição didática é inquestionável. No estudo sobre “O Tratamento”. sem a qual será difícil iniciar um processo psicoterapêutico. A sua técnica criteriosamente elaborada é apresentada com metodologia. mas reflete sempre uma compreensão dinâmica do processo terapêutico. é extremamente rico pelos conceitos que traz. com os pés no chão e voltado para o futuro. merece especial destaque a afirmação de que é necessária uma ampla e minuciosa avaliação diagnostica. sobre “Planejamento do tratamento”. Não disfarça as dificuldades que existem para a formação de quem pretende se iniciar na práti­ ca desta modalidade psicoterapêutica e reconhece seus problemas técnicos e riscos. depois de uma revisão minuciosa dos conceitos de Malan c da terapia focal. O capítulo cinco. Como bom discípulo de Freud.XVI Psicoterapia breve de orientação psicanalitica Os fundamentos teóricos de Braier têm origem na psicanáli­ se. A apresentação detalhada de um caso clínico é uma ilustra­ ção de grande valor didático e um estímulo para o aprendizado e a compreensão da proposta do autor. esta modalidade de terapia que resulta de uma cuidadosa ava­ liação da técnica psicanalitica. Inicia com o estudo das entrevistas preli­ minares e. privilegiando di­ versas e diferentes hipóteses. a meu ver. por momentos. . veículo de uma proposta con­ creta e acessível. A linguagem é. De aluno fiel converte-se em mestre generoso e nos oferece esta contribui­ ção. principalmente dentro da área psicanalítica. rigidamente psicanalitica. hstuda minuciosa e cuidadosamente os princípios clássicos e a prática da psicanálise c compara-os com a sua prqpria experiên­ cia neste campo relativamente novo da psicoterapia. o autor parece não ter esquecido nenhum daqueles detalhes que respondem às muitas perguntas que constantemente nos fazem os alunos e os estudiosos da técnica. Os difíceis temas da avaliação e das indicações são aborda­ dos em capítulos separados e de grande valor para a pesquisa.

Considero necessário parabenizar a. Não se trata de um “transplante artificial”. perfeitamente aplicável em nossa cultura. j Braier consegue aqui abrir nossos olhos a uma realidade. O modelo de “ficha clínica para psicoterapias breves” que encerra o livro é um guia útil para quem procura sistematizar estes estudos. Campinas. mostra também que este mundo conflitante necessita cada vez mais de especialistas com conhecimentos sérios e profunda sensibilidade áocial. academicista e. O país e os leitores de língua portuguesa vão se beneficiar com esta obra. A polêmica sobre “investigação” da personalidade ou seu “tratamento” é estéril.Prefácio à edição brasileira _ ____ _____________________ _____________________________ Os exemplos clínicos ajudam o leitor a entender e a familiarizar-se com esta técnica tão concisa. do ponto de vista psicanalítico. Não existe pesquisa em psicanálise sem assistência a quem procura este contato único e absolutamen­ te singular.empresa editora pela seleçào desta obra. só válido na sua microcultura de origem. ofe­ recer a teoria de uma técnica compreensível dentro do campo psicanalítico e mostrar que a psicoterapia não é necessariamente o privilégio de uma classe social. teórico. que. prático e de pesquisa. . aqui apresentada de modo abrangente. Este trabalho é uma mostra do quanto se pode fazer quando existe compreensão humana do ser humano e não uma escondida fobia ao contato interpessoal criativo e enriquecedor da alma. mas deve ser uma possibilidade aberta para muitos. junho de 1986. além de seu valor didático. MAURÍCIO KNOBEL Professor Titular de Psiquiatria Clínica da FCM da UN1CAMP Professor Titular de Processos Psicoterápicos do Dept? de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da PUC Campinas. em nossa sociedade. PROE DR. uma atitude resistencial. e sim de uma ampla e imparcial obra teórico-técnica. é um importante auxiliar clínico.

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o enorme enriquecimento que me proporcionou a formação na Associação Psicanalítica Argentina. inclui uma passagem de aproximadamente 2 anos pelo CEMEP (Centro dc Psicologia Médica). mais recentemente. sempre partindo do corpo teórico-psicanalítico. finalmente. primeiro no Serviço de Psicopatologia do Hospital Pinero e.Prefácio Meu interesse pela psieoterapia breve nasceu em meus anos de residente em Psiquiatria (1968-71). Minha intenção é de nele expor | 9 «> . Todos esses fatos me animaram. além da exercida em consultório particular. instituições e em nível privado e. Isso motivou minha apresentaçãb a concurso para obter uma bolsa municipal que era oferecida pela Secretaria de Saúde Pública de Buenos Aires. como terapeuta da instituição (1972-73). no serviço de mesmo nome no Hospital Ramos Mejía. não abandonaria mais o estudo e a investigação das técnicas de objetivos e tempos limita­ dos. que me proporcionou uma experiência clínica de um ano na investigação de terapias breves. Minha práti­ ca em tais técnicas. o trabalho docente que venho exercendo sobre o assunto em hospitais. Desde então. depois. No trabalho hospitalar. e concomitantemente à mi­ nha dedicação a terapias prolongadas. A isto se somou o poderoso estímulo que significou o intercâmbio científico com colegas. a empreender a ár­ dua tarefa de escrever este livro. defron­ tei-me com o problema ocasionado pela necessidade de propor­ cionar assistência psiquiátrica a grandes massas da população. no segundo dos servi­ ços citados (1971-72).

Mónica Noseda. A meus pacientes. Ao Dr. motivando alguns desenvolvimentos. À Dra. certos pontos despertaram em mim um interesse maior que outros. Ao Sr. Iléctor J. assim como ao Dr. que foram meus analistas. a regra de fun­ cionamento do paciente. que supervisionou os trata­ mentos breves que efetuei durante minha investigação no Serviço de Psicopatologia do Hospital Municipal J. as difi­ culdades do terapeuta para a formação. Alejandro Puente.2 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica com clareza principalmente as experiências e idéias pessoais que venho acumulando até o momento. Luiz Allegro. a prática e a investigação em psicoterapias breves. da bibliografia existente sobre o tema. Quero expressar meus mais sinceros agradecimentos a todos aqueles que de uma maneira ou de outra me ajudaram nesse em­ preendimento. principalmente os seguintes: doutores Víctor Feder. Claudia H. o término do tratamento. Ramos Mejía. Marcos Guites. além disso. Alba Brengio. EDUARDO A. Entre eles se encontram: os fundamentos teóricos. De Finkelstein e Suzana Boz. Aos colegas membros dos diferentes grupos de estudo por mim coordenados. De Garma. Fiorini. Buenos Aires. licenciados Jorge A. Aída Núnez. de transcrever meus ilegíveis manuscritos. Boa parte de meu entusiasmo pelo tema deve-se à leitura de seus excelentes trabalhos. Brener. Ifim Kantor. Ricardo Frigerio. Delia Saffoires. que leu o capítulo 13. Isaías Finkelstein. que realizou um leitura crítica dos ori­ ginais e. Moisés Kijak e a Elisabeth G. especialmente: Ao Dr. os tipos de atenção do terapeuta. agosto de 1980. pelo generoso estímulo e pelas su­ gestões que pessoalmente me ofereceu durante anos de frutíferas discussões sobre as psicoterapias. Blanca R. Montevecchio. que de nenhum modo pretende ser completa. Silvia S. BRAIER . complementadas por uma revisão crítica. realizada com carinho e esmero. a quem coube a enorme tarefa. M. alguns incon­ venientes técnicos e riscos a eles relacionados e os problemas concernentes à avaliação dos resultados terapêuticos. me incentivou constantemente. Ao Dr. De Zanoto. Como sempre ocorre.

a seu tempo. propósito este que. em quantidade insuficiente. tinham incorporado. o uso de modernos psicofármacos e da psicoterapia grupai. que se apresentam como prioritárias por sua urgência e/ou importância. Introdução l As chamadas psicoterapias breves surgiram essencialmente como uma resposta ao problema assistencial colocado pela massa cada vez maior de população consultante. Os objetivos terapêuticos deveriam. então. com idêntica finalidade. os centros de saúde mental. e de forma similar a outros paí­ ses. Os diversos nomes que *» . o que nos conduz. Em nosso meio. Esses procedimentos terapêuticos vão alcançando. de ime­ diato. em determinado momento. já que os tera­ peutas. de um modo gradual.1. de implementar técnicas breves. novos traços distintivos. os inci­ pientes serviços de psicopatologia hospitalar. as instituições privadas e os hospitais psiquiátricos tive­ ram. não conseguiam cobrir a demanda de pacientes. As terapias de curto prazo. centrar-se na superação de sintomas e incidentes agudos ou situações perturbadoras atuais. sem dúvida. um fator que vem exercendo uma influência decisiva no desenvol­ vimento e na difusão das terapias breves. por outro lado. permitiram ampliar a assistência psiquiátrica. As limitações econômicas de muitos que acorrem em busca de ajuda terapêutica foram e são. Da mesma maneira. ao problema de sua denominação. não era compatível com o emprego de tratamentos longos. naturalmente mais acessiveis às pessoas de poucos recursos. individuais e grupais.

a meu ver. uma data de finalização preestabelecida. As terapias a que fazemos referência também são conhecidas como psicoterapias de tempo limitado. sem dúvida. mas que denota não só bre­ vidade. mas podem não parecer breves por exemplo para o paciente. e quando sua duração é comparada com a do tratamento psicanalítico. planejamento. muito apropriada. que dá título a este livro.um ano ou mais . estabelecer uma diIVrença com respeito aos tratamentos breves alicerçados cm ouiius orientações terapêuticas (terapias comportamentais. Pode-se também empregar a denominação psicoterapia bre­ ve de orientação psicanalítica. Em primeiro lugar cabe examinar a denominação psicotera­ pia breve. diferentemente de outros elementos. etc. é. a de psicote­ rapias de objetivos limitados. empregamos aqui com muita freqüência1 . .). análise trunsacional. e que escolhi porque me interessa explicitar que se trata de uma terapia originada nas teorias de psicanálise e. como também a fixação de um limite de tempo para o tra­ tamento. deixar claro a que situações e métodos psicoterápicos vou referir-me ao longo desta obra. desde já. as quais. é conveniente citar para poder.).4 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica recebem revelam as tentativas de tornar precisas algumas daquelas que se consideram suas principais características (embora indu­ zam.. etc. já que se refere a um elemento importante e que. geralmente e de ante­ mão. Tampouco este é um fato necessariamente constante nesses tratamentos. em virtude do qual este passa a ter. sempre se faz presente em tais terapias. tal denominação é dis­ cutível. em geral mais prolongado (1). Acima de tudo. em definitivo. assim. Apesar disso. a mais difundida e imposta pelo uso. a aumentar a confusão reinante). já que uma psicoterapia pode ser de duração certamente prolongada . que por conseguinte poderão ser concomitantemente de tempo limitado ou não. que por ser. que as distinguem da psica­ nálise corrente e de outras psicoterapias.mas ter as metas limitadas e as características técnicas próprias e essenciais desses procedimen­ tos (focalização. Outra denominação a que se costuma recorrer. denominação essa que novamente alude à sua temporalidade. há que se admitir que não é a mais adequada: em princípio porque essas terapias sâo breves do ponto de vista do terapeuta.

obtendo-se um alívio sintomático. Entre nós Szpilka e Knobel propuseram denominá-las psicoterapias não-regressivas. Em tais situações.. mas também. já que de imediato suas condições egóicas não costumam permiti-lo. como por exemplo. basicamente’interpretativa ou de insight. Nesta obra referir-me-ei. Refere-se. no ambiente hospitalar.). de modo que na maioria dos casos deve-se postergar a busca de insight no paciente até um segundo momento terapêutico. Além disso. delírios agudos. atribuindo-lhes resultados espetacula­ res. tanto no meio hospitalar como no consultório particular. e com certo detalhe. no meu entender. .Introdução _______ ____ ____ ________ ________ _________ ________ ________ ________ Alguns autores preferem designá-las com nomes que servem para destacar algumas de suas peculiaridades técnicas e que suge­ rem diferenças com relação às da psicanálise clássica: terapias planejadas (3) ou focais (4).à forma de psicoterapia rápida ou breve que partilha apenas algumas das características e dos métodos de que nos ocu­ pamos. tratarei aqui não só de suas possibili­ dades. É perigoso incorrer no erro de pensar que a psicanálise é o único tratamento válido realizável. de suas limitações e ris­ cos.) É melhor dizer que é possível instrumentar uma terapêutica breve baseada no esquema conceituai da psicanálise.. particularmente. É necessário afastar a absurda antinomia que alguns preten­ dem criar entre a psicanálise e a RB. para acentuar outro aspecto importante delas (5). A chamada psicoterapia de emergência concerne. que deve ser empregada em indivíduos com capacidade egóica sufi­ ciente para serem tratados por meio dela. Ambos os métodos constam de objetivos terapêuticos. com freqüência prevalece a necessidade de estancar a crise. por exemplo. etc. (De minha parte. não . considero que não devemos deixar de atender aos numerosos pacientes que. o que signi­ ficará uma proveitosa aplicação de suas teorias em situações nas quais não é possível utilizar a técnica psicanalítica corrente. indicações clínicas e técnicas diferen­ tes. a uma terapia de urgência em “situações especiais de crise e exigência” (2). tais edmo episódios de natureza psicótica (tentativas de suicídio. longe de querer apresentar o tratamento breve como uma panacéia. a uma psicoterapia de objetivos limitados. como também no de supervalorizar os alcances da RB. sobretudo.

se diferencia nitidamente de sua técnica.B. sem esperar que sejam eles quem devam amoldar-se a um único método terapêutico. segundo creio. que possibilite um ensino adequado de seus princípios básicos (sem que tal afirmação desmereça o reconhecimento da existência de contri­ buições de decisiva importância sobre o tema. por motivos diversos (econômicos. A superação das diversas dificuldades dos profissionais para encarar aformação." Psicoterapia breve de orientação psicanalítica podem. Constitui uma necessidade premente contar com uma teo­ ria da técnica da P. estruturada com mais solidez. exigindo que adaptemos nossos recursos técnicos às possibilidades e necessidades do paciente. convertendo-se. Oriento meu trabalho cm direção a essa meta. ou por sua idade avançada.não estão em condições de ser analisados. tentando conceituar uma modalidade terapêutica que reconhece suas fontes no corpo teórico da psicanálise. que enriqueceram profundamente nossa visão dele). mas são poucos os que preconizam e aplicam procedimentos técnicos apropriados ao contexto em que tal método cabe. surge clara­ mente como premissa. correríamos o risco de tomar por intratáveis indivíduos que simplesmente . Pessoalmente. . na única abordagem terapêutica viável. De um tempo para cá. Acima de tudo. mas que. num primei­ ro momento.) ser abordados através de um tratamento psicanalítico.c freqüente­ mente só em caráter transitório . Também chama a atenção a escassa participação dos analistas de maior experiência na investigação dessas terapias. como resultado. Cabe acrescentar que em muitas ocasioes uma terapia de objetivos e tempo limitados pode ser o passo inicial em direção a um posterior tratamento analítico. mas também de resis­ tência. em seguida. uma psicoterapia prolongada. etc. já são muitos os que falam na importância do emprego deste método terapêutico. a prática e a investigação em P. que poderá trazer.B. uma mudança nas condições do paciente que o torne apto para efetuar.B. Caso isso ocorresse. ou ainda. interessei-me em obter uma compreensão profunda de algumas das motivações inconscientes do terapeuta que subjazem a suas dificuldades para ajustar-se ao enquadramento requerido pela P. na mais conveniente. procurei sistematizar os sucessivos passos do processo terapêutico e ensaiei um critério de avaliação dos re­ sultados.

. 2. Springfield. e French. 1969. Terapêutica psicoanalítica.. 1965. “Planificación de la psicoterapia”. 1963. Psicoterapia breve y de emergencia. Londres. Buenos Aires. Acta psiq. T. grupo fami­ liar. “Acerca de la psicoterapia breve”. desejo esclarecer que nesta obra irei ocupar-me especialmente do que tange à psicoterapia individual breve em pacientes adultos e adolescentes. Tavistock.B. Lat.. PaxMcxico. XIV. J. cit. Illinois. cap..Introdução ___________________________________________________________________________________________ ___ _ Também serão bem-vindas a realização e a transmissão de novas experiências clinicas organizadas em P. H. F. T. ainda que muitos dos conceitos apresentados sejam extensivos ao tratamento de crianças c aos procedimentos grupais (psicoterapia breve de casal.) 5. Buenos Aires. IX. Buenos Aires. French. n? 2. D. M.. Charles Thomas.. vol. 3. que possibilitem validar ou questionar as concepções teóricas sustentadas atual­ mente. em Alexander. F e Frcnch. Referências bibliográficas j . em I. L. Centro Editor de América Latina. Szpilka. ob. V it 4... “Eficacia dei contacto breve”... A Study o f Brief Psychotherapy. psicol. e Swall. Paidós. L.. Amér. cap. México.)? •» 1. etc. e Knobel. Coloquio Acta 1967: Psicoterapia breve. junho de 1968. Malan. Alexander F. Bellar. (Versão castelhana: La psicoterapia breve. T. 1974. Por último. cm Alexander.

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que conseguiu bons resul­ tados. os fenômenos transferenciais. a maior parte das quais trans­ correram enquanto ambos passeavam por Leyden (9). redigido em 1914 e editado em 1918 (7). inicialmente. Freud atendeu a Gustav Mahler. de cfcrto modo. Gradualmente e com os progressos da psicanálise. etc.. quatro horas. Resenha histórico-bibliográfica I Passaremos cm revista os principais acontecimentos e obras que marcaram a evolução da terapêutica breve de orientação psicanalítica. Freud disse que fixou pela primeira . Incidem fatores como a resistência. O desenvolvimento dos acontecimentos mais relevantes pode ser resumido como se segue: 1914: no histórico clínico do Homem dos lobos. o do Homem dos ratos. e cujo histórico clínico foi publicado em 1909 (5). a sobredeterminação dos sintomas. com resultados satisfatórios. pois duravam só alguns meses.2. a necessidade de elaboração. (12). Outro trata­ mento célebre. O fundador da psicanálise se achava empenhado. Devo começar tal revisão assinalando que os primeiros tra­ tamentos efetuados pelo próprio Freud na etapa pré-analítica e no começo da analítica eram. durante algo mais de. em buscar curas rápidas. o trata­ mento foi-se tornando mais prolongado. a princípio dirigidas para a solução de determinados conflitos e sintomas'. terapias breves.. durou tão-somente 11 meses.

outra parte ficará guardada e enterrada como estava antes. que considera o nódulo da neurose. a configuração de uma terapia breve de orientação psi­ canalítica. no qual abordam o tema (3). Tal proposta é de importância decisiva para fundamentar. a necessidade de uma psicoterapia breve. defende a possibilidade de um trata­ mento analítico breve baseado na tentativa de superar. por sua vez. O mesmo fará em relação a Ferenczi. Escrevem conjuntamente um livro. Ferenczi propõe o chamado “método ativo”. 1916: Ferenczi menciona. recebendo duras críticas de Freud. re­ correu ao expediente de fixar-lhe um limite de tempo. baseadas em sua concepção a respeito do trauma de nascimento. enquanto parte do material se tornará acessível sob a pressão dessa amea­ ça. ura de seus últimos trabalhos. contanto que se faça no momento oportuno.. para acelerar o tratamento analítico no caso do Homem dos lobos. Pelo contrário. Mas não se pode garantir o cumprimento total da tarefa. e sugere que se com­ binem os recursos terapêuticos da análise com. Em várias passa­ gens desse artigo sublinhará que o encurtamento da duração da análise é uin fato desejável. Neste. Freud assina­ la que as tentativas de abreviar a duração da análise que consome muito tempo não requerem justificação “e se baseiam em impera­ tivas considerações de razão e dc conveniência”. Freud propõe uma psicoterapia de base psicanalítica para respon­ der à necessidade assistencial da população. Rank realizam tentativas para abreviar a cura psicanalítica. 1920-1925: S.. que logo aban­ donará. o trauma do nascimento. pela primeira vez. numa tentativa de acelerar o desenvolvimento do processo terapêutico2. dizendo a respeito dela: “(. sendo repreendido por Freud (13)\ 1918: em uma conferência pronunciada em Budapeste e edi­ tada no ano seguinte (“Os caminhos da terapia psicanalítica” [8]). poste­ riormente. Mas também fustigará as tentativas que Rank efetuara nessa direção desde 1924. Freud recorda que. podemos ter certeza de que. e . outros métodos. Ferenczi e O. Acrescenta que posteriormente também tomou essa medida em outros casos.) é eficaz. em poucos meses dc análise. Rank. 1937: em “Análise terminável e interminável”.W Psicoterapia breve de orientação psicanalítica vez uma data para o término da análise.

de orientação kleiniana. Porque. obra compilada por L. Aumenta o interesse pelo tema nos Estados Unidos. O autor acen­ tua a conveniência de interpretar a transferência de maneira exaus­ tiva dentro da terapia breve (em acentuada dissidência com muitos outros). Nova York). 1963: publica-se A Study o f Brief Psychotherapy. Hoch. Os autores recolocam a necessida­ de de abreviar o tratamento analítico e de efetuar terapias breves com uma compreensão psicanalítica. causada pelo término do tratamento. brilhantemente. 1946: aparece Psychoanatytic Therapy (Ronald Press. de D. L. 1941: o Instituto de Psicanálise de Chicago organiza um con­ gresso nacional sobre psicoterapia breve. a respeito da técnica da psicoterapia breve (16). Nova York). Balint (12).IFACULDADE GUAIRACÁ [ GiBLIQTECA_____. utilidacfê de ressaltar a realidade externa e eficácia do contato breve. O livro descreve numerosos históricos clínicos (1). A obra descreve uma experiência clínica de investigação baseada em tratamentos de curto prazo. Nela se detalha a técnica focal. Malan (Tavistock Publications Limited. Wol­ berg. que inclui os acompanhamentos efetuados. Rado. obra que inicia uma nova e decisiva etapa no campo das técnicas breves. não pode prolongá-lo. O livro oferece uma detalhada apresentação de 19 casos tratados com psicoterapia individual bre­ ve. A supervisão dos tratamentos esteve a cargo de M. .. Wolberg. Flarrower e A. assim como a necessidade de trabalhar a separação entre paciente e terapeuta. Londres). f F AG 11 perdida para nossos esforços terapêuticos. Tomam como ponto dc partida uma experiência clínica na qual intervém um número importante de terapeutas experientes. Wolberg (Grune and Stratton. o paciente perderia a fé que nele deposita” (6). manejo da relação transferencial e do ambiente. Kalinowsky. Wolberg. H. Alexander. Wolf. que contém trabalhos de Avnet. Masserman. de outro modo. uma vez que o analista tenha fixado o limite de tempo. um método psicodinâmico para avaliar os resultados terapêuticos. de F. Além disso desenvolve. realizada por terapeutas da Clínica Tavistock. Incluem conceitos sobre planejamento da psicoterapia. flexibilidade do terapeuta. 1965: aparece Short-Term Psychotherapy. Alexander e T. Inc. Sobressai o de L. French e colaboradores do Instituto de Psicanálise de Chicago.

G. e assinala algumas caracterís­ ticas essenciais das interpretações a serem utilizadas no trabalho terapêutico (10). entre os quais se destacam: o enfoque do tratamento à luz da psicologia psicanaliti­ ca do ego. Marticorena e A. M. Nova York). 1971: em The Briefer Psychotherapies (Brunner Mazel. Beliak e L. Kesselman.de recente criação .de hospitais gerais. Empregam-se tra­ tamentos de duração limitada com base psicanalitica. Usandivaras. exclusiva­ mente consagrado ao tema: Psicoterapia breve. Esse colóquio é um testemunho do crescente interesse que começa a se manifestar. hospitais psiquiátricos e instituições privadas. Bleger. O autor. amplo e valioso estudo sobre o tema. o insight e a ela­ boração (2). Fontana. que apresenta valiosas contribuições. J. A. S. Small realiza uma extensa compilação das idéias de numerosos autores sobre o tema (14). de Dellarossa. em nosso meio. No­ va York). J. a aplicação da teoria da aprendizagem. A. entre outros aspectos. G. Os autores incluem diversos temas. no qual se destacam especialmente o capítulo referente à primeira entrevista em psico- . mas a ativi­ dade é desorganizada e confusa e não se apresentam. Inc. que oferecem tratamentos a honorários reduzidos em razão da demanda cada vez maior de assistência psicológica por parte da população. J. A psicoterapia breve na Argentina 1967: tem lugar o Colóquio Acta 1967: Investigações sobre psicoterapia breve. Partici­ pam. 1973: publica-se Teoria y técnica de psicoterapias. I. Dellarossa (15). de H. utilizando o esquema referen­ cial de Pichon-Rivière aborda. entre outros. ainda.12 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica Também nesse ano L. Ferrari. pelo proble­ ma das psicoterapias (individuais ou grupais) em serviços psi­ quiátricos . R. Kiorini. Swall publicam Emergency Psychotherapy and BriefPsychotherapy (Grune and Stratton. maio­ res perspectivas de instrumentalizar técnicas suficientemente sis­ tematizadas e coerentes. Knobel.. 1970: aparece o primeiro livro de autor argentino. Szpilka. com prólogo de J. H. E. o planeja­ mento e as técnicas de mobilização. de H.

Resenha histórico-bibliográfica

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terapia breve e o que oferece um modelo teórico do foco terapêu­ tico (4). 1975: Psicoanálisisy psicoterapia breve en la adolescencia*, de J. C. Kusnetzoff, aborda, em sua segunda parte, o tema da psico­ terapia individual e grupai breve do adolescente. É de especial interesse o capítulo destinado à teoria da comunicação e à psicote­ rapia breve, assim como a inclusão da família no tratamento (11). 1980: em nosso meio atualmente é indiscutível a necessidade de se recorrer a psicoterapias menos custosas que a análise, tanto em temjío como em dinheiro, a fim de responder à demanda de um número cada vez maior dc indivíduos. A aplicação das chama­ das psicoterapias breves se difunde ostensivamente, mas ainda não se lhes reconhece um status teórico, que, no entanto, começa a se delinear, sendo relativamente escassas as investigações que têm suscitado.

Referências bibliográficas
1. Alexander, F. e French, T., Terapêutica psicoanalitica, Paidós, Bue­ nos Aires, 1965. 2. Beliak, L. e Small, L., Psicoterapia brevey de emergencia, Pax- Mé­ xico, México, 1969. 3. Ferenczi, S. e Rank, O., The Development of Psychoanalysis, Zurich International Press, Leipzig e Viena, 1924. 4. Fiorini, H. J., Teoria y técnica de psicoterapias, Nueva Vision, Bue­ nos Aires, 1973. 5. Freud, S., “Análisis de un caso de neurosis obsesiva”, era O.C., Bi­ blioteca Nueva, Madri, 1948, t. II. 6 . “Análisis terminable y interminable”, em O.C., Biblioteca Nue­ va, Madri, 1968, t. III. 7 . “Historia de uma neurosis infantil”, em O.C., ob. cit. em 5, t. II. 8 . “Los caminos de la terapia psicoanalitica”, em O.C., ob. cit., em 9. Jones, E., “Vida y obra de Sigmund Freud”, Nova, Buenos Aires, 1960, t. n.
* Traduzido para o português sob o título Psicanálise e psicoterapias breves na adolescência, tradução de Patrícia M. E. Cenacchi, edição brasileira adaptada e revis­ ta pelo autor, Rio de Janeiro, Zahar, 1980. (N. do T.)
5,t. n.

1+

Psicoterapia breve de orientação psieanalitica

10. Kcssclman, H., Psicoterapia breve, Kargieman. Buenos Aires, 1970. 11. Kusnetzoff, J. C., Psicoanálisis y psicoterapia breve en la adolescencia, Kargieman, Buenos Aires, 1975. 12. Malan, D. H„ A Study o f Brief Psychotherapy, Tavistock, Londres, Charles Thomas, Springfield, Illinois. 1963 (Versão castelhana: La psicoterapia breve, Centro Editor de America Latina, Buenos Aires, 1974). 13. Rey Ardid, R., Prólogo al tomo m de S. Freud, O.C., ob. cit. em 6, 1968. 14. Small, L., Psicoterapias breves, Granica, Buenos Aires, 1972. 15. Usandivaras, R. J. c outros, Coloquio Acta 1967: Psicoterapia bre­ ve, Actapsiq. psicol. Amêr. Lai., vol. XIV, ní* 2, Buenos Aires, junho de 1968. 16. Wolbcrg, L. e col., Psicoterapia breve, Gredos, Madri, 1968.

3. Fundamentos teóricos1

!
Introdução
Os problemas de teoria em terapias breves são numerosos e comprometem o seu reconhecimento dentro do panorama psicoterapêutico. Atualmente crcio que podeifios encontrar contribuições mui­ to valiosas ao tema, mas, se há pontos de coincidência entre os diversos autores no que concerne a uma teoria do processo, tam­ bém é certo que paralelamente ainda reina muita confusão entre os leitores, talvez provocada por uma verdadeira miscelânea de conceitos teóricos que nem sempre podem articular-se entre si. Como assinala Fiorini, falta uma estrutura unitária que suste esses procedimentos (13). É para sua obtenção que devemos diri­ gir nossos esforços. Gostaria de assinalar uma carência particularmente notória, que é a de uma concepção mais ou menos definida e aceita quanto aos mecanismos terapêuticos atuantes nessas terapias. Neste capitulo mc proponho a discorrer sobre alguns temas cuja recolocação considero de importância decisiva dentro da ten­ tativa de configurar um marco conceituai para as psicotcrapias de objetivos e tempo limitados. Além disso, procurarei, ao longo desta obra, expor o marco conceituai que venho adotando pes­ soalmente, e ao qual pretendo dotar da necessária coerência, atri­ buto disso tenho consciência - nada fácil de alcançar. Meu pon­

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Psicoterapia breve de orientação psicanalítica

to de partida, como o de muitos investigadores, são as teorias psicanalíticas. Na verdade, não encontro motivos para prescindir de teorias tão valiosas como a do inconsciente, do conflito psíquico, da sobredetemiinação, dos mecanismos defensivos, da gênese dos sonhos, das séries complementares, da estrutura do aparelho psí­ quico, da transferência, das resistências e de tantas outras que nos permitem compreender a problemática do paciente e do processo terapêutico2. Porém, o que realmente terá de ser modificado é a técnica, que por múltiplas razões não poderá continuar sendo a mesma que a empregada em psicanálise, devendo ajustar-se ao contexto próprio desses procedimentos. Incluo-me assim entre aqueles que propõem uma psicoterapia breve de orientação psica­ nalítica, mas entendendo que deve ser algo tecnicamente muito diferente de uma “psicanálise breve”.

Pelos caminhos da psicanálise
Minha concepção da terapêutica breve é fiel aos princípios básicos formulados por Freud num trabalho que adquire signifi­ cação especial dentro do tema que nos ocupa e que talvez não tenha sido suficientemente valorizado. Refiro-me à conferência pronunciada em Budapeste em 1918, e publicada um ano depois sob o título de “Os caminhos da terapia psicanalítica” (26). Já naquela época, Freud adiantou-se a fatos que sobreviriam poste­ riormente, entre os quais hoje podemos incluir o aparecimento dos tratamentos breves como uma tentativa de possibilitar a assis­ tência psicológica a um número maior de pessoas. Muitos dos pensamentos expressos naquela ocasião vigoram ainda hoje. Na parte final do trabalho, Freud assinala a necessidade de no futuro os psicanalistas adotarem medidas para estender o tratamento psicoterapêutico a grandes massas da população. Reconhece que se tropeça em inconvenientes para consegui-lo, derivados de carac­ terísticas próprias do método psicanalítico, que limita a atenção a poucos indivíduos, e de fatores de ordem econômica. Dirigindose a seus colegas psicanalistas, Freud disse textualmente: “Qui­ sera examinar com os senhores uma situação que pertence ao futuro e que talvez lhes pareça fantástica. Mas, a meu ver, merece

Fundamentos teóricos

17

que acostumemos a ela nosso pensamento. Sabem muito bem que nossa ação terapêutica é bastante restrita. Somos poucos, e cada um de nós não pode tratar mais do que um número limitado de doentes por ano, por maior que seja nossa capacidade dc trabalho. Diante da magnitude da miséria neurótica de que padece o mundo e de que quiçá pudesse não padecer, nosso rendimento terapêutico é quantitativamente insignificante. Além disso, nossas condições de existência humana limitam nossa ação às classes abastadas da sociedade.” Mais adiante antecipa a criação de estabelecimentos assistenciais estatais, nos quais os psicanalistas tratem gratuita­ mente dos pacientes por meio da psicoteràpia: “Por outro lado, é possível prever que algum dia chegará a vez de despertar a cons­ ciência da sociedade, e adverti-la de que os pobres têm tanto direito ao auxílio do psicoterapeuta como ao do cíirurgiào, e de que as neuroses ameaçam tão gravemente a saúde dt povo como a tuberculose, não podendo ser seu tratamento tampouco abandona­ do à iniciativa individual. Criar-se-ão, então, instituições médicas para as quais serão designados analistas encarregados de conser­ var a resistência e o rendimento de homens que, abandonados a si mesmos, se entregariam à bebida, de mulheres prestes a sucumbir sob o peso das privações e de crianças cujo único porvir é a delin­ qüência ou a neurose. O tratamento seria, naturalmente, gratuito.’’ Assinala logo a seguir a necessidade de se modificar, nessas cir­ cunstâncias, a técnica psicanalítica, o que me parece da maior importância, pois hoje em dia muitos analistas resistem a fazê-lo, mostrando-se “mais realistas que o rei”. “Caberá a nós, então, o trabalho de adaptar nossa técnica às novas condições” (o grifo é meu). Em seguida expõe, ao contrário do que alguns poderiam supor, seu ponto de vista a respeito do uso de diferentes recursos terapêuticos em tais casos, em lugar de preconizar, de modo exclusivo, o método psicanalítico (o que endossaria o critério que hoje sustenta a multiplicidade de elementos terapêuticos nas tera­ pias breves, especialmente nas que ocorrem em instituições assisiciK iais): “Na aplicação popular de nossos métodos talvez tenha­ mos de misturar ao ouro puro da análise o cobre da sugestão direu. também a influência hipnótica poderia aqui voltar a ter lugar como no tratamento das neuroses de guerra”3 ainda que, de ime­ diato. sublinhe que os componentes básicos de tais tratamentos

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Psicoterapia breve de orientação psicanalítica

deverão provir da psicanálise (isso, como tudo o que disse ante­ riormente, também se converteu em realidade, já que atualmente se conta com a P.B. de orientação psicanalítica): “Mas, quaisquer que sejam a estrutura e a composição dessa psicoterapia para o povo, seus elementos mais importantes e ejicazes continuarão sendo. desde já, os tomados da psicanálise propriamente dita, ri­ gorosa e livre de toda tendenciosidade” (o grifo é meu).

A psicoterapia individual breve de orientaçãp psicanalítica Ante a perspectiva de se adotar uma técnica breve de base psicanalítica, faz-se neceásário, para definir melhor seus elemen­ tos principais, estabelecer uma comparação com nosso modelo original, o tratamento psicanalítico. Desse modo, tentarei clarifi­ car os pontos de contato entre os dois métodos terapêuticos e, muito especialmente, suas diferenças4. Dentro dos procedimentos breves, referir-me-ei, fundamentalmente, à técnica dirigida ao insight, sobre a qual podem apresentar-se mais dúvidas a respeito de suas relações com a técnica analítica, contrariamente ao que acontece com uma terapia essencialmente de apoio, cuja caracte­ rização é mais simples e mais conhecida. Juntando-me à iniciativa de alguns setores, como Bellak (6), Small (6), (48) e Malan (40) e com um propósito principalmente didático, considerarei três aspectos essenciais: 1) os fins terapêu­ ticos, 2) a temporalidade, 3) a técnica.
Os fins terapêuticos A psicanálise reconhece como meta fundamental o tomar consciente o inconsciente. Mas a experiência clínica nos permite comprovar que essa finalidade traz, além disso, a perspectiva simultânea de uma reconstrução da estrutura da personalidade do analisando como resultado terapêutico talvez mais transcen­ dente. Essa reconstrução envolve a resolução de conflitos básicos e de seus derivados através da elaboração e do conseqüente ga­ nho de um maior bem-estar, com o qual se pretende eliminar ou aliviar os sintomas de modo franco e duradouro.

apresentava recentemente sintomas de cjepressào e de conversão histérica (paralisia dos membros inferiores e des­ maios). as metas são reduzidas e mais modestas que as do tratamento psicanalítico. melhor os conflitos subjacentes a seu problema atual a fim de poder reintegrar-se no trabalho e de­ senvolver-se mais saudavelmente em seu meio profissional. o propósito de que este possa enfrentar mais adequadamente determinadas situações conflitivas e recuperar sua capacidade de autodesçnvolvimento. de modo que na prática se ache em condi­ ções de adotar certas determinações quando isso se revele neces­ sário. Fixaram-se os seguintes objetivos para uma terapia de curta duração: conseguir que a jovem obtivesse um alívio de seus sintomas e sobretudo que pudesse compreender e manejar. De preferência. tudo isso lhe ocasionando sérias dificuldades adaptativas no plano profissional. como tendo o propósito de clarificar e resolver. ligados a situações conflitivas surgidas em sua relação com a diretoria de sua escola. como o próprio nome indi­ ca. não seja a exploração do inconsciente como ocorre na psicanálise). o que implica. ainda que de modo parcial. e na medida do possível. antes de tudo. Malan fala precisamente em “elaborar brevemente um dado aspecto da psicopatologia” (40). o trabalho pode ser encarado a partir do lugar do terapeuta e com uma visão dinâmica. Os obje­ tivos podem colocar-se em termos da superação dos sintomas e problemas atuais da realidade do paciente. que se alternava com tentativas . isto consistia essencialmente em conseguir que a paciente se conscientizasse parcialmente de aspectos do conflito básico rela­ cionado com a figura da mãe. corresponder à obtenção de um principio de insight do paciente a respeito dos conflitos subjacentes (o que supõe que cm certa medida também nos propomos a tomar conscientes aspectos inconscientes. em um sentido psieodinâmico. A limitação dos objetivos terapêuticos é caracterís­ tica do procedimento de que nos ocupamos. parte da patologia do pacien­ te.Fundamentos teóricos 19 Na terapia de objetivos limitados. Exemplo: uma jovem professora. e aparece em função das necessidades mais ou menos imediatas do indivíduo. No exemplo há pouco citado. diante da qual mantinha uma atitu­ de infantil de extrema submissão. a solução dos pro­ blemas imediatos e o alívio sintomático deverão. com francas alterações de caráter. ainda que a meta central. Além disso. em si.

no terapeuta. por detrás do intento de resolver aspectos do conflito primário com a figura materna. Assim. valiosas. além de conseguir que a jovem pudesse solucionar seus problemas de relação com a dire­ tora. dc certo modo.). não são tão limitados em uma terapia breve de predomínio interpretativo. às perturbações que tenham sido objeto de nossa abordagem terapêutica. não só na área profis­ sional como também em outras (sexual. Ao aprofundar mais o tema dos objetivos terapêuticos. mas também a conseguir mudanças favoráveis em suas rela­ ções patológicas com outras mulheres que representassem sua mãe (uma companheira mais velha. etc. sua proposta ofereceria a vantagem de nos permitir incluir expectativas de resultados terapêuticos maiores do que se concebêssemos as metas meramente circunscritas à re­ missão de um determinado sintoma ou à resolução de uma situa­ ção crítica (40). do que derivavam dificuldades em sua relação com representantes da autoridade materna. Numa ordem de importância geralmente secundária. como no caso da assistência social. social. não chegam a ser mais tratados de maneira explícita ou direta durante a terapia. como sucedia com a direto­ ra. de objetivos terapêuticos limitados. Segundo Malan. a dona da pensão. etc. nos termos correntes. na realidade. Tal impressão aumenta assim que admitamos que tal terapia inclui a presença de outras metas. implícitas e constantes. seja procurando aliviar sua ansiedade através de meios como por exemplo os psicofármacos. mas que se acham ligados. figu­ ram diversas formas de oferecer ajuda ao paciente no que se refere às situações perturbadoras.20 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica de rebelião. uma refor­ mulação dc tais objetivos num sentido psicodinâmico que os abar­ que e que quase sempre haverá de transcendê-los em alguma me­ dida. seja inter­ vindo diretamente nessas situações de sua realidade. Explica-se. Considero então que toda formulação. deve pressupor. ve­ mos que estes. vinculadas às enunciadas até aqui e que podem ser concebidas em termos da recuperação da . inclusive. no tratamento da professora. a aparição posterior de certas mudanças no paciente no que concerne a problemas em outras áreas de sua vida que. assim. uma maior iniciativa e a superação de inibições. etc. poder-se-ia aspirar não só a obter a remissão ou a dimi­ nuição da intensidade dos sintomas atuais.).

tema que mais adiante analiso detidamente (ver os capítulos 8 e 9). poderia ter a limitação temporal estabelecida de antemão. nas cha­ madas terapias breves é comum que a fixemos previamente. ainda que. (Tratarei mais detidamente desses aspectos no capítulo 11. psicoterapias de tempo li­ mitado. A técnica O método breve pode ser tecnicamente diferenciado da psi­ canálise corrente. prolongando-se durante anos. não èsteja presente necessariamente em todos os casos.Fundamentos teóricos 21 auto-estima (6) e da aquisição de consciência da enfermidade. no processo terapêutico. deve-se levar em conta que a limitação temporal confere à terapia uma estrutura mais definida em termos de “princípio. introduzindo definitivamente na relação terapêutica um novo e necessário elemento de realidade. influenciando’’de modo decisivo os diferentes aspectos do vínculo terapêutico. Stekel. que esmorece no paciente a produção de fantasias regressivas oni­ potentes de união permanente com o terapeuta.). e que seja mai£ curta. acima de tudo. Essas peculiaridades. este cria invariavelmente uma situação bastante diferente na situa­ ção psicanalítica. configuram um traço diferenciado náiito destacado dos mesmos. como já assinalei. etc. Pouco a pouco foi-se configurando uma teoria do tratamento que compreende uma atitude particular diante de .) A temporalidade Enquanto que num tratamento psicanalítico a duração não é determinada de antemão. das quais derivam as denominações talvez mais difundidas desses procedimentos (psicoterapias breves. em especial a finalização do trata­ mento. Tais fantasias se desenvolvem e sc manejam com mais facilidade no contexto do tra­ tamento psicanalítico do que no da terapia da qual nos ocupamos. meio e fim” (43). Mas. em geral. apontou a incidência favorável que. cabe assinalar que quando se fixa um prazo de encerramento. de uns meses. a qual estimularia o progresso da terapia (50)\ De ime­ diato. entre outros.

primeiramente. Neurose de trans­ ferência. .transferência.Regressão. .Fortalecimento e ativação das funções egóicas. resistências.Multiplicidade de recursos terapêuticos. como se tratam os conflitos em psicanálise.Quadro comparativo entre algumas características teóricotécnicas da psicanálise e da psicoterapia breve de orienta­ ção psicanalitica. relação caracteri­ zada por uma marcada submissão a ela.lnsight e elaboração.O problema da resistência. ou os de uma mulher que obstinadamente rivaliza com sua sogra. . São exemplos de conflitos derivados os que a professora antes mencionada apre­ sentava na sua relação com a diretora da escola. . regressão. cuja validade é corroborada pela experiên­ cia clínica. * . Outros conceitos de especial aplicação em psicoterapia breve (situação-problema. Focalização. . . em realidade. . dos quais. Transferência. enquanto se confirmam alguns princípios dinâmicos operativos. etc. O trabalho com os conflitos6 Podem-se estabelecer claras diferenças entre uma psicotera­ pia de objetivos limitados e um tratamento psicanalítico no que diz respeito à abordagem dos conflitos psíquicos do paciente. Recordemos. Dependência. A investigação psicanalitica demonstra-nos que as si­ tuações conflitivas atuais do indivíduo estão relacionadas a con­ flitos infantis. decorrem. transferida para as relações atuais. Ambas as situações reme­ tem a um conflito infantil com a figura materna. Desenvolverei aqui os seguintes aspectos: O trabalho com os conflitos. ponto de urgência e hipó­ tese psicodinâmica inicial). .22 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica distintos fenômenos psicoterapêuticos .Planejamento. foco.

Em algumas ocasiões é o próprio paciente. que são analisados profundamente a fim de se conseguir sua resolução (e a de seus derivados) por meio do trabalho elaborativo (elaboração dos conflitos). orientada em direção ao insight há. quer dizer. que recairá nos que prevalecem por sua urgência*e/ou. nos atuais fatores determinantes desses conflitos subjacentes focais. seja no começo seja mais freqüentemente no transcurso do tratamento. Não se deverão abordar outros aspectos do conflito. pp. que q trabalho tera­ pêutico se circunscreva. como sabemos. a encarar exclusivamente esses derivados do conflito primitivo infantil. principalmente. Durante o tratamento analítico. já que não tem sentido abrir feridas de maneira indiscriminada na estrutura defen- . como primeiro fator distintivo digno de nota. evitando-se que se produza uma excessiva mobilização afetiva e. sem se aprofundar mais nele. que se favoreça no paciente a regressão. que subjazem ao problema atual. o terapeuta pode empreender um tra­ balho interpretativo cauteloso de certos componentes do conflito básico. Mas também considero que em alguns tratamentos breves é necessário e possível confrontar o paciente com o conflito origi­ nal.B. além disso. Em todas essas circunstâncias. tem-se a impressão de que de outro modo não se obterão maiores progressos no transcorrer deste. Isso ocorre quando. em relação com os objetos primários do sujeito. por princípios elementares de prudência. quem menciona o conflito infantil. p. por sua importância. É habitual. 40 ss.)7. 37. uma eleição dos conflitos (deriva­ dos) a serem tratados. se tem capacidade de insight. o pa­ ciente revive tais conflitos (sobretudo no seio da relação transfe­ rencial com o terapeuta). Na P. c/ou quando aspectos desse conflito básico se acham muito próxi­ mos à superfície psíquica do paciente. motivo do tratamento (ver “Focalização”. sobretudo. de preferência. e uO foco”. relacionando-o com sua situação conflitiva.Fundamentos teóricos 23 Os conflitos infantis genéticos se produzem. O terapeuta deverá centrar-se. cm especial dos que estejam imediatamente vinculados à problemática focal e que adquiram relevância para a finalidade de se alcançar a clarificação e a superação de tal problemática. freqüentemente isso bastará para se obterem bons resultados terapêuticos e. para serem alcan­ çados os objetivos propostos8. a priori. sendo sua nature­ za edípica ou pré-edípica.

101.) Regressão. Freqüentemente colocar-se-á. pondo a descoberto conteúdos que. de dependência. são abordados de um modo também parcial. sem dúvida. Trata-se de uma resolução parcial ou incom­ pleta (1). muitas vezes suficientes para se obterem benefícios terapêuticos nada desdenháveis. não se terá oportunidade de analisar suficiente e convenientemen­ te nessa terapia. Incursione-se ou não na interpretação das raízes infantis da conflitiva focal. que consiste na produção de certas mudanças dinâmicas nos conflitos. Denominações tais como dependência regressiva ou neurose transferencial regressiva refletem. essa correlação. em P. o terapeuta pode sentir-se pressionado pelo tempo. (Quanto às prováveis modifica­ ções no estado dos conflitos. ainda que esta não seja idêntica à que se possa obter atra­ vés da psicanálise. sempre se faz uma tentativa de solucionar interpretativamente os conflitos deri­ vados. Já sabemos com quanta insistência Freud preveniu a respeito dos riscos de tal procedimento no tratamento psicanalítico (24). circunscrita àqueles que tenham sido escolhidos.). Neurose de transferência Os fenômenos regressivos. mediante interpretações. 102 e 111 ss. Como se pode perceber a esta altura de minha exposição. ver p. transferenciais e neurótico-transferenciais acham-se intimamente relacionados no tratamento psicanalítico. 53. para nós. Dependência.^ ____ Psicoterapia breve de orientação psicanalítica siva do paciente. o problema de saber até onde poderemos nos aprofundar. Por isso farei referência a esses con- . realiza-se uma tarefa interpretativa parcial dos conflitos do paciente. Transferência.B. diferentemente do que ocorre na psicanálise. devendo evitar sobretudo cair em interpretações prematuras sobre os conflitos infantis. com vistas a nos aproximarmos das metas terapêuticas propostas. Trata-se de um ponto que requer tato e experiência por parte do terapeuta. o que terá de ser avaliado em cada caso particular (ver pp. os quais. Quando se trata de uma psicoterapia de breve duração. por sua vez. em algu­ ma medida..

dentro da relação analítica”. numa tentativa de esclarecer as diferenças que nesses as­ pectos apresenta o tratamento breve de insight com relaçào à psi­ canálise. Esperase.).regressão produzida gere um in­ cremento da dependência do analisando em relaçào ao analista.a enfermidade mental. além disso. A regressão é necessária para a revivescência dos conflitos originais infantis do analisando cm sua relação com o analista (neurose de transferência) e sua conseqüente elaboração. vivida com um marcado sentimento de atualidade” (38) (p. No processo analítico trata-se de favorecer. dentro de um determinado tipo de relação estabelecida com eles. Na realidade. que a. que tornará possível que o paciente assuma realmente uma conduta mais adulta na vida. |por diferentes meios (posição deitada do paciente. freqüência às sessões. uma regressão vivencial útil. silêncio do analista. que costuma representar basicamente figuras parentais. é preciso além disso levar em conta os conceitos de transferência e de neurose de transferência9. os sonhos e a classificou em três tipos: tópica. associação livre. dentro de um mesmo subtítulo deste capítulo.. Isso implica. a qual representa um meio essencial para se alcançar o objetivo terapêutico. e. dando lugar a um crescimento psicológico paula­ tino. tempo­ ral e formal (18) (25). que o processo regressivo se reverta ao longo do cami­ nho terapêutico. A regressão pode ser entendida como o processo pelo qual readquirem vigência estados ou modos de funcionamento psíqui­ co pertencentes a etapas anteriores do desenvolvimento do indiví­ duo. . a transferência com o analista. Freud ocupou-se do conceito de regressão em diferentes contextos . Para compreender as diferentes peculiaridades ao vínculo terapêutico em terapias breves de insight. de um modo especial. é claro.Fundamentos teóricos 25 ceitos de maneira conjunta. Laplanche e Pontalis descrevem a transferência como “o pro­ cesso em virtude do qual os desejos inconscientes se atualizam sobre certos objetos. 459). etc. Aqui vou referir-me em especial à regres­ são temporal na transferência com o terapeuta. Acrescentam: “Trata-se de uma repetição de protótipos infantis.

cuja resolução. a neurose transferencial consiste em uma “neurose arti­ ficial em que tendem a se organizar as manifestações de transfe­ rência” (p. por meio da elaboração. coordena as relações de transferência a princípib difusas ( “trans­ ferência flutuante’.e inclusive promover . Esses autores estabelecem. permite ao con­ junto de sintomas e condutas patológicas do paciente adotar uma nova função ao referir-se à situação analítica” (p. obter uma resolução dessa neurose (transferenciai e infantil). não é conveniente favorecer o desenvolvimento da regressão nem de uma neurose .) A transferência. com base nos escritos de Freud. Freud faz referência à neurose transferencial como a uma “massa de pautas culturais neuróticas estereotipadas. (Os grifos são meus. logo passou a ocupar. mediante um ata­ que interpretativo sistemático às resistências que se opõem a isso. Rangell acrescenta que tais condições indispen­ sáveis distinguem qualitativamente a psicanálise de seus diversos derivados (46). Mesmo assim. citando novamente Laplanche e Pontalis (38). de outro. o desenvolvimento da neurose transferencial. Pressupõe a reedi­ ção seletiva de determinadas situações e mecanismos infantis na relação terapêutica. 259). segundo Glover) e. Em relação a esta última expressam-se: “de um lado. diremos que é a reprodução da neurose infantil na relação com o analista. 258). até converter-se sua análise na tarefa central. tanto para ele como para a maior parte dos psicanalistas. É oportuno recordar aqui a definição que dá Rangell da psicanálise como método terapêutico: “A psicanálise é um méto­ do de terapia pelo qual se estabelecem condições favoráveis para o desenvolvimento de uma neurose transferenciai.durante a terapia psicanalítica. um papel de decisiva importância na cura (22). com o fim de provocar mudanças estruturais no aparelho mental do paciente para que este seja capaz de uma adaptação ótima à vida” (grifos do autor). Na psicoterapia breve de insight.26 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica Quanto à neurose transferencial. Deste fato se depreende que é conveniente per­ mitir . inicialmente considerada por Freud como um obstáculo no tratamento psicanalítico. a diferença entre as reações de transferência propria­ mente dita. em troca. será fundamental se aspira à cura do anali­ sando. expostas na situação analítica” (15). ou seja. na qual o pas­ sado se restaura no presente com o propósito de.

Bellak e Small (6). ao deixar truncada sua elaboração. também aconselham que se evite. Segundo Szpilka e Knobel. configurando uma neurose de transfe- . deixaria . às vezes inexoravelmente. em geral. Os mecanismos terapêuticos não se sustentam. dado que as condições do paciente e/ou do enqua­ dramento não são apropriadas para tais fins. entre outros. na psicoterapia breve.iatrogenicamente . regressivo-dependcnte. no desenvolvimento. o que adquire importância agora é a busca de insight do paciente a respeito de situações confiitivas atuais de sua vida cotidiana (que são as queihabitualmente dão origem à consulta). por outro lado. a dificuldades para aceitar sua separação com relação ao terapeuta. ante a pers­ pectiva de terminar sua terapia10. Seu desencadeamento. mas sim para mitigar alguns sofrimentos atuais. continuasse sendo o recurso terapêutico fundamental nesse novo contexto. junto ao de uma regressão vivencial.o paciente em um estado regressivo-dependente. expondo-o a diversas reações transferenciais nocivas em virtude da mobilização afetiva produzida e.Fundamentos teóricos 27 transferencial. tendo em vista as limitações inerentes a esses tratamentos. do mesmo modo que Wolberg (54). deve-se procurar que o paciente não concentre muita libido na relação com o terapeuta. den­ tro do possível. o desenvolvimento da neurose transferencial. não seria coeren­ te que o insight de aspectos da relação transferenciai neurótica. em particular. aos quais mais adiante me referirei em detalhes (ver capítulo 6). como as metas terapêuticas não estão dirigidas para a reestruturação da personalidade nem para resolver conflitos básicos do indivíduo. razão pela qual o trabalh«} interpretativo recai mais em suas relações com os objetos de sua realidade exter­ na do que na relação com o terapeuta. nesses procedimentos é preciso precaver-se de estimular tanto a regressão como a neurose de transferência (51) (37). podemos esperar que a adoção de algumas medidas técnicas impeça que a transfe­ rencia alcance demasiada intensidade e chegue a cobrir e a domi­ nar a situação terapêutica. Por meio de diferentes recursos. já que. pode considerar-se uma complicação (às vezes inevitável) nas psicoterapias breves. Se bem que os fenômenos transferenciais também ocorram. na análise e na resolução da neurose transferencial.

e as resistên­ cias do superego13. em grande parte. Habitualmente. o mesmo caráter intensivo que em psicanálise. de suas capacidades autônomas. deve inclinar-se para a estimulação e o reforçamento de sua iniciativa pessoal. A terapia deve sustentar-se no predomínio de uma trans­ ferência sublimada (6). As outras são as resistências do id. á necessidade de elaboração daquelas (27). ao trabalho terapêutico e à cura. é um dos moti­ vos para que isso ocorra. chamamos resistência aos diversos obstáculos que o analisando opõe ao acesso ao seu pró­ prio inconsciente. pp.). não apre­ senta.B. também chamadas por Freud de resistências do inconsciente. O tratamento.B. como se poderia supor. quando existe. A regressão só deveria ser permitida em pequeno grau. especialmente “A relação paciente-terapeuta*no tratamento bre­ ve”. a análise das resistências em P. O problema da resistência12 No tratamento psicanalítico. não indo além dos níveis requeridos para possibilitar a exploração e experiências iniciais de insight de situações conflitivas atuais. como obstáculos que este interpõe ao avanço do processo psicoterapêutico especificamente do insight. basicamente. que podem ser consideradas. A análise exaustiva das resistências constitui uma parte im­ prescindível de todo tratamento psicanalítico. Três delas procedem do ego e são: as resistências da repressão. ou seja. ainda que não o único. também surgem resistências no paciente.28 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica rência". Os critérios apresentados até aqui definem as características que terá de assumir a relação terapêutica em P. em seu trabalho “Ini­ bição. sintoma e angústia” (21). (ver capítulo 6. O prolongamento deste deve-se. Em 1925. 84 ss. por acréscimo. em lugar de fomentar a dependência do paciente. as da transferência e as do ganho secundário da doença. Freud distinguiu e sistematizou cinco formas de resistência de um ponto de vista estrutural. . isto é. Na terapia breve interpretativa. a pró­ pria índole do procedimento não contempla fins tão ambiciosos. A limitação temporal.

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O tratamento das resistências que dependem dos mecanis­ mos defensivos do ego, em P.B., pode apresentar as seguintes características: a) algumas defesas são combatidas, quer dizer, analisadas; b) outras, em troca, são respeitadas ou ainda reforça­ das pelo trabalho terapêutico, de acordo com o que pareça indica­ do em cada caso, com base nas condições do paciente e do enqua­ dramento. Como exemplo do mencionado no item a, podemos citar a necessidade de trabalhar as defesas maníacas (negaçào, onipotência, etc.), perigosamente incrementadas, ou, o que é mais comum, ter de atacar parcialmente as barreiras repressivas de conteúdos inerentes ao sofrimento atual, além dos mecanismos de isolamento, intelectualizaçâo, projeção, etc. Pelo contrário, e a propósito do expresso no item b, com freqüênciajjoptamos por não perturbar certos mecanismos defensivos caractefplógicos, permi­ tindo ao paciente que os conserve, seja porque queremos evitar uma mobilização afetiva excessiva e difícil de manejar no trata­ mento, seja por tratar-se de defesas relativamente úteis, as quais ainda que só ocasionalmente - poderia ser conveniente reforçar. O tema da resistência da transferência em P.B. também mere­ ce alguns comentários. Ao menos nas terapias desse tipo, tal resis­ tência não costuma ser muiter intensa. Isso se deve ao seguinte: sabemos que esse tipo de resistência obedece em parte ao ressen­ timento despertado no paciente, por sentir-se frustrado em sua relação transferencial com o terapeuta, razão pela qual Menninger propõe chamá-la de resistência de frustração ou de vingança (41). Na medida cm que, em P.B., a relação terapêutica é menos frustrante para o paciente, já que existe um vínculo mais “real” e uma maior proximidade afetiva da parte do terapeuta, conseqüen­ temente a hostilidade que desperta naquele pode ser menor do que a que o tratamento psicanalítico desperta; portanto, as resistências transferenciais também serão menores (35). Mas o terapeuta de­ verá lutar sempre para que se obtenha esse resultado, procurando lazer com que predomine uma transferência positiva. Quando es­ sas resistências se exacerbam, achamo-nos ante um dos motivos fundamentais, para cuja dissolução, a meu ver, se justifica o em­ prego de interpretações transferenciais no tratamento breve (ver capítulo 6, pp. 107 ss.).

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“Insight”e elaboração14
Entre os problemas ainda não resolvidos no terreno da psico­ terapia breve de base psicanalitica, acham-se os que concernem ao papel do insight e da elaboração e sua relação com as mudan­ ças que se obtêm nos pacientes. Começaremos por lembrar sucintamente os significados es­ senciais de ambos os termos. Com o insight queremos dizer, como L. Grinberg, “a aquisi­ ção do conhecimento da própria realidade psíquica” (31). Tal conhecimento pressupõe uma participação afetiva: não se trata simplesmente de compreender no sentido intelectual, mas tam­ bém de poder experimentar emocionalmente o contato com os aspectos inconscientes do mesmo. A elaboração ou trabalho elaborativo (working through) é um conceito de significado complexo e não suficientemente defi­ nido na bibliografia psicanalitica. Uma definição simples a des­ creve como “o processo pelo qual um paciente em análise desco­ bre, gradualmente, através de um lapso de tempo prolongado, as conotações totais de alguma interpretação ou insight” (47). (“Elaboração”, p. 49, grifos do autor.) É conhecida a importância do insight e da elaboração no tra­ tamento analítico. A finalidade das interpretações do analista, que são, por excelência, seu instrumento terapêutico, é promover o insight dos conflitos no paciente. É oportuno citar aqui Rycroft: “O objetivo do tratamento psicanalítico é definido, algumas ve­ zes, em termos da aquisição de insight, ainda que mesmo Freud nunca tenha utilizado essa formulação, preferindo a idéia de que seu objetivo é fazer consciente o inconsciente,'>(47). (“Insight”, p. 68, grifos do autor.) Com relação a esse ponto, Grinberg diz: “Freud havia assinalado que o objetivo básico do analista é conhecer; por conseguinte, não deve estar preocupado com o objetivo terapêutico. Esse objetivo de conhecer, em realidade, não se contradiz com o objetivo terapêutico, sendo o insight o fator central, e a pré-condição de toda mudança duradoura na personalidade” (31). A elaboração, como trabalho de aprofundamento do pacien­ te, implicará que este assimile as interpretações corretas do ana-

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lista, condição essencial para o êxito terapêutico (39). A respeito do princípio da elaboração, cabe lembrar: a) Requer dois fatores elementares: tempo (é por isso que a necessidade de elaboração constitui uma causa importante do prolongamento do tratamento psicanalítico) e trabalho (o labor analítico) (27). Do último se depreende que tem lugar no paciente fundamentalmente na presença do analista e com a participação deste. b) Em seu desenvolvimento intervém a regressão do anali­ sando (31). c) Inclui a tarefa de superar as resistências e a análise exaus­ tiva dos conflitos, na qual tem especial importância o que trans­ corre dentro dos limites da neurose transferencial |27). Na terapia breve de orientação psicanalítica, a concepção da existência de insight e de elaboração apresenta numerosos pontos obscuros. Sendo assim, é válido falar-se em insight nesses tratamen­ tos? Creio que sim, ainda que com certas ressalvas, como vere­ mos em seguida. Propiciar ao paciente a aquisição de insight por meio de in­ terpretações especialmente dos psicodinamismos relacionados com o transtorno atual, motivo do tratamento - deve constituir, a meu ver, nosso principal propósito na terapia dinâmica breve, sempre que as condições psíquicas do paciente o permitirem. Es­ sa atitude terapêutica nos permitirá abrigar maiores esperanças de conseguir um progresso mais sólido e estável no paciente, ao aumentar sua capacidade egóica para enfrentar e resolver as situa­ ções conflitivas. A busca de insight no tratamento breve é preco­ nizada por numerosos autores, entre eles, Bellak e Small, os quais assinalam, clara e repetidamente, seu valor, em diferentes passa­ gens de sua obra (6). Mas a técnica breve requer restrições pecu­ liares para o insight do paciente, que é necessário consignar: Com respeito à sua extensão entendo que em geral dadas as limitações do enquadramento - e sobretudo quando se trata de uma terapia de curta duração - só nos resta a alternativa de pro­ porcionar o que poderíamos considerar como experiências ini­ ciais de “insight ”, um autoconhecimcnto limitado às dificuldades habitualmente contidas no foco terapêutico (mas que tampouco

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pode dar conta de todos os aspectos do conflito subjacente ao pro­ blema vital focal, mas, unicamente, dos mais próximos e aces­ síveis à compreensão psicológica do paciente dentro desse enqua­ dramento). Isso poderá servir, ser suficiente - ou não - para os pa­ cientes, para obter mudanças dinâmicas favoráveis, pôr em mar­ cha um processo progressivo que continue ainda depois de finali­ zado o tratamento e estimular sua auto-observação e motivação para as experiências psicoterapêuticas de índole interpretativa. Em suma, numa terapia de objetivos e, eventualmente, de tempo - limitados, também o insight estará naturalmente limitado em sua extensão, diferentemente daquele mais amplo, decorrente de um tratamento intensivo e prolongado como o psicanalítico; tratase de uma verdade óbvia, mas que é necessário ter presente para estudar tudo aquilo que se relacione com mecanismos terapêuti­ cos e grau de eficácia dos procedimentos breves. Quanto ao tipo e profundidade, cabe assinalar que enquanto o insight psicanalítico tem lugar em meio a uma atmosfera regres­ siva que o favorece, dependendo principalmente da atividade inter­ pretativa a respeito das diversas reações próprias da neurose de transferência, em P.B. a busca de insight está dirigida, com mais freqüência, para as relações do sujeito com os objetos externos de sua vida cotidiana e presente, ainda que não despreze os fenôme­ nos transferenciais mais notórios, que trabalham como obstáculo (resistências transferenciais), e/ou ilustram a problemática do paciente, como se verá mais adiante (pp. 106 s.). Mais abrangente, o insight psicanalítico também o é na medida em que oferece maiores possibilidades de alcance de situações infantis reprimidas que serão revividas na situação transferenciai, permitindo, em sín­ tese, uma conexão mais completa do que sucede no mundo externo extra-analítico e na relação transferencial analítica do paciente com sua vida passada. São tipos e graus de profundidade diferen­ tes de insight, mas nem por isso devem ser-lhes negadas totalmen­ te a validade e a eficácia que se obtêm no tratamento breve. (“Não se pode sustentar, com tanta ênfase, que o insight através da trans­ ferência seja o único tipo de insight que sirva para a organização e reintegração do ego”, afirma Kamo [36].) Todavia, é possível estabelecer outra diferença com o insight do tratamento psicanalítico, que remete à natureza mesma do

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fenômeno de compreensão psicológica no paciente, e também obedece à necessidade de controlar a intensidade dos fenômenos regressivos e transferenciais: Szpilka e Knobel sugerem que em terapias breves o insight possua umaf‘maior participação cogniti­ va que afetiva”/(51), levando o paciente, como medida prudente e mediante um determinado estilo interpretativo (ver pp. 110 ss.) na relação transferencial, antes à compreensão que à revivescência das situações infantis determinantes de seu problema atual (51). Expressa dessa maneira, essa proposição corre o risco de ser dis­ torcida. Bntendo que não implica, como alguns poderiam supor, um mero insight intelectual (que configuraria uma nova forma de resistência), pois não deixa de ter certa ressonância afetiva. Mas a diferença entre o insight psicanalitico, que é mais p|eno e vívido, em suma, dotado de uma maior e às vezes diferente repercussão emocional, e o insight do tratamento breve tem de ser, nesse senti­ do, um fenômeno na medida do possível mais controlado pela ati­ vidade terapêutica, em especial se explora circunstancialmente aspectos da transferência com o terapeuta correspondentes ao infantil-genético. (Será menos necessário controlá-lo se atender aos componentes mais atuais da t/ansferência com o terapeuta ou com outros objetos da realidade externa do paciente.) Examinemos agora o problema da elaboração na terapia dinâmica breve, cuja bibliografia, como se poderia supor, é suma­ mente escassa. Bellak e Small citam, como .princípios gerais da “psicoterapia rápida”, a comunicação, o insight (do terapeuta e do paciente) e a elaboração (6). Como não se estimula o desenvolvimento da regressão nem o da neurose transferencial, e não se realiza uma análise intensiva desta nem das resistências, considero que em PB. não podemos falar em elaboração no mesmo sentido que em psicanálise. Em todo caso, o trabalho de elaboração real será escasso, principal­ mente se existe limitação de tempo. Este, como vimos, é um fator fundamental para que a elaboração tenha lugar15. Estaríamos, então, diante de um dos pontos mais discutíveis no que diz respei­ to à validade terapêutica desses procedimentos. Sem dúvida, é possível conceber um processo qualitativamente distinto do pro­ cesso de elaboração analítica, sem a profunda reestruturação meta psicológica que ela implica e basicamente circunscrito à conflitiva

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focal. Um processo imperfeito e incompleto, mas enfim de mu­ dança, que em circunstâncias em que o tratamento esteja limitado em sua duração, também o estará, mas que em alguns pacientes, com capacidades egóicas suficientes, poderá talvez ainda conti­ nuar, depois de concluído o tratamento breve. Nesse último caso seria uma espécie de “auto-elaboração”, a qual se teria iniciado, a princípio, com o trabalho terapêutico, para seguir um caminho pro­ gressivo até a consolidação dos resultados16. Os mecanismos ínti­ mos desse fenômeno, que apresentaria, talvez, grande importância terapêutica em alguns casos, ficam difíceis de precisar no momen­ to17. Talvez as modificações significativas que às vezes se eviden­ ciam, inclusive na estrutura de personalidade de pacientes tratados com o procedimento breve, em testes projetivos efetuados anos depois de finalizado o tratamento (32), se relacionem a mecanis­ mos desse tipo. Mais adiante, considerando os resultados e meca­ nismos terapêuticos, retornaremos à discussão desses fatos. Finalmente, cabe acrescentar que numa terapia de objetivos e tempo limitados talvez seja necessário concluir que o insight e a elaboração terão de ser em boa parte estimulados, quer dizer, faci­ litados e agilizados mediante o papel ativo do terapeuta, dadas as condições de focalização e de curta duração do tratamento.

Fortalecimento e ativação das funções egóicas
Considero que a aquisição de insight por parte do paciente, através de interpretações do terapeuta, seja a forma mais aprecia­ da de se conseguir o fortalecimento de seu ego. No entanto, de­ vem ser levadas em conta outras formas, cuja significação tera­ pêutica não é muito menor, era meio às terapias breves, e que não são, necessariamente, incompatíveis com a busca de insight. Muitas vezes, as diversas medidas terapêuticas destinadas ao rcasseguramento e à ativação de funções egóicas são englobadas sob a denominação genérica de psicoterapia de apoio. O emprego de tal denominação encerra o risco de que os terapeutas, sem con­ siderar mais cuidadosamente tais medidas, desprezem-na, já que nos círculos psicanalíticos o termo apoio, como se sabe, está carre­

Mas defemos discrimi­ nar com clareza esta posição terapêutica de outra.e mesmo oposta . e que pode ser alternada.'que se caracte­ riza pelo emprego de certo tipo de intervenção verbal que busca conseguir reforçamento e ativação do ego. Se só inter­ pretamos ou só analisamos. ante a possibilidade de que suijam mal-entendidos. dos quais. para técnicas de apoio emocional. a aplicarmos também à técnica breve. com ligeiras alterações. Mais adiante. Há motivos para atribuir fun­ damental importância a esses conceitos no campo das terapias breves. é con­ veniente estabelecer algumas distinções sobre o tema. em graus variáveis. é o caso de pacientes que por debilidades egóicas não cónsèguem tolerar uma terapia interpretativa. quando não há uma alter­ nativa melhor. o paciente deve emergir recon­ fortado e reafirmado em suas capacidades egóicas c recuperando sua facilidade resolutiva nas situações de conflito. errônea ou insana. Por conse­ guinte. ____ ____ _______ ____________________________ ________ _ gado em alguns casos de um sentimento francamente pejorativo.” Esta frase pertence a um artigo de Greenson e Wexler (30) e se refere ao tratamento analítico. precisamente. a necessida­ de de apelar. . mas pode resultar extremamente significativa e útil se. de suas percepções e de seu valor. porquanto costuma implicar basicamente o fomento e a utilização de uma relação regressivo-dependente não analisada. também em P. os autores con­ tinuam: “(. é importante confirmar aqueles aspectos de sua conduta que indicam um fun­ cionamento sadio.Fundamentos teóricos _ ______ . e sem que se intente colocar o paciente em contato com as motivações profundas de seu sofrimento. às vezes exclusivamente. de distinta . deixamos sem querer a impressão de que suas reações são meras repetições de seu passado infantil.B. e por isso mesmo não-progressiva. Necessitam da expe­ riência de que se reconheçam e se respeitem suas funções egóicas e suas relações objetais adequadas”.) muitos de nossos pacientes necessitam ter a experiên­ cia de sentir que estão no caminho certo. e que sua conduta é imatura. duvidam de seu discernimento... coerentemente. Começaremos por reconhecer.natureza.. com as interpretações. Se parte de nossa meta terapêutica consiste em aumentar as funções egóicas sãs do paciente e sua capacidade para as relações objetais. e para os quais o único resultado que se pro­ cura obter é uma supressão de sintomas. “Todos os nossos pacientes.

o resultado de uma reunião de elementos próprios de uma técnica de insight com estes outros elementos reforçadores e estimuladores de determinadas funções do ego'\ Mas é mister que tais psicoterapias se traduzam numa combinação antes de tudo coerente de intervenções. que costuma fomentar a idealização de sua figura. Para este autor. interven­ ções diretivas). Nesta outra forma de reasseguramento egóico. sim.) Fiorini proporciona alguns bons exemplos das diversas inter­ venções capazes de sustentar e ativar o funcionamento egóico (12). com muito mais freqüência. não só para fortalecer. se partimos dos retursos que o pa­ ciente verdadeiramente possui. em seu enfoque e na prática. ou ainda exclusivamente de apoio no sentido antes descrito. mas também para ativar diversos funcionamentos egóicos1*. a análise de aspectos inconscientes do pa­ ciente. pelo contrário. e ao assinalar-lhe esse fato. assinalando seus rendimentos egóicos adequados. e ao mesmo tempo se valem desta para exercer seu efeito. em sua maioria.36 Psicoterapia breve de orientação psicanalílica Dessa maneira observamos que na psicoterapia de apoio pro­ priamente dita ou “pura” as medidas de apoio promovem a depen­ dência regressiva no paciente. em troca. As psicoterapias dinâmicas.segundo o lado para o qual se incli­ ne a balança em cada caso21. ou reforçadoras do ego não-interpretativas. cm lugar de incentivar uma rela­ ção dependente. sendo essa natureza “mista” uma característica relevante de tais terapias (podemos. pro­ movemos nele um sentimento de reafirmação ou reasseguramen­ to que pode funcionar. Quer dizer. por exemplo. Assim mesmo. em vez de serem puramente interpretativas. esta ati­ tude terapêutica não impede. em direção à estimu­ lação das capacidades autônomas do paciente. que as terapias breves são. na medida em que o terapeuta assume um papel protetor-autoritário (empregando. falar de tratamentos breves em que pre­ domina o insight e de tratamentos breves em que predomina o re­ força mento ou o ^ o /o e^(2iccu. incluindo as de objetivos e tem­ po limitados. que deverá fundar-se numa compreensão psicodinâmica adequada do proces­ so terapêutico20. como se depreende do que assina­ lam Greerson e Wexler. são. incluindo os mecanismos de defesa neuróticos do ego. o protótipo da atividade terapêutica nesses trata- . / Diremos entào. “mistas”. a atividade do terapeuta orienta-se.

assis­ tentes sociais.a associa­ ção dc diversos elementos terapêuticos. além dos distintos tipos de intervenção verbal não-interpretativa (assinalamentos.). Estes procedimentos admitem e com'freqüência requerem . regressivos e patoló­ gicos. etc. progressivos e sadios. Focalização O trabalho terapêutico em P. intervenções de reasseguramento. dada a sua urgência e/ou importância. o que os afasta ainda mais do enquadramento e dos cânones psicanalíticos. técnicas grupais. psicopedagogos. etc. sugestões. fornecimen­ to de informações. em virtude da necessidade de se alcançarem os objeti­ vos terapêuticos. comunitárias.. poderse-ão anexar à psicoterapia individual outros elementos.Fundamentos teóricos 37 mentos está representado por uma tarefa em “frente dupla”. no tra­ balho científico. Todo recurso que tenha demonstrado ser útil no campo da terapêutica psiquiátrica poderá eventualmente ser incorporado ao tratamento.). Trata-se de outra característica substancial desse tipo de terapia. por isso também chamada de focal j(40). que per­ mite distingui-la da técnica psicanalítica corrente a qual não opera com um módulo conceituai de foco (ver “O foco”. na qual se têm sempre presentes “as partes sãs” do paciente. assim. terapeutas ocupacionais. que adquire prioridade. mas também a seus aspectos adultos. enquanto se deixam de lado as demais dificuldades. 40 ss. tais como psicodrogas. . pp. (14) (48) (55). etc.B.B. cujas perspecti­ vas de inclusão correm em paralelo com os progressos que. e portanto não só são feitas menções a seus aspectos infantis.) nos tratamentos. nu­ ma tarefa efetuada em equipe23. mantendo certo equilíbrio nas referências a uns e outros (12) (13)22. É sumamente valiosa a participação de outros profissionais da saúde mental (psicólogos. se registram no emprego de distintos recursos psicoterapêuticos. está “enfocado” para determi­ nada problemática do paciente. Multiplicidade de recursos terapêuticos Eis aqui outro aspecto distintivo da P.

Junto às metas e à duração do tratamento fixam-se os pontos fundamentais do processo terapêutico. nem sempre podem distinguir-se com facilidade uns dos outros. é a imprecisão com que os profissionais empregam corrente­ mente alguns termos. Quadro comparativo de algumas características teórico-técnicas da psicanálise e da psicoterapia breve de orientação psicanalítica Em forma de síntese e considerando-se as limitações que supõe todo esquema. a fim de se obter uma visão que nos facilite a discriminação entre ambos (ver página seguinte). da maior ou menor flexibilidade do terapeu­ ta e de sua capacidade para tentar criativamente combinações te­ rapêuticas harmônicas e eficazes. Estes. Planejamento . que a distingue nitidamente da psicaná­ lise. . que fazem parte de um jargão característico das terapias breves.B. e que chega a cobrir até a etapa final de avaliação de resultados (ver capítulo 5).B. tendo em vista a obtenção de um maior discernimento. tentarei. sempre com adequada compreensão e fundamentação psicodinâmica. É outro traço da P. ponto de urgência e hipótese psicodinâmica inicial) Uma prova a mais da confusão reinante no terreno teórico da P. além disso. na forma de proposta. Diante de necessidade de alcançar uma conceitualização teórica su­ ficientemente clara. será útil a esta altura expor em um quadro as caracte­ rísticas de um e de outro procedimento. que compreende um plano de tratamento prévio ao desenvolvimento do mesmo. tais como foco ou ponto de urgência.38 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica Os diferentes instrumentos psieoterapêuticos devem ser im­ plementados coerentemente. precisar seu sig­ nificado. A inclusão de tais instrumentos depende. Outros conceitos de especial aplicação em psicoterapia breve (situação-problema.foco..

e estabelecerei tanto as diferenças funda­ mentais como as relações que existem entre eles. Explicitarei. Superação dc sin­ tomas c problemas atuais Fins terapêuticos Duração 1 Trabalho com os conflitos Regressão.Fundamentos teóricos ________ ________ ________ _________ _________ ______ _ Descreverei sucessivamente: a) a situação-problema. habitualmente a con­ flitos derivados Limita-se habitualmente a conflitos derivados Não são favorecidas Não Limitada Sim. Processos geradores de mudanças Sim Sim Sim Sim Não (ou muito pouco) Não Não Não . Limitado. Reestruturação da personalidade Prolongada Indeterminada Refere-se especialmente a conflitos básicos Psicoterapia breve de orientação psicanalitica Limitados. Psicanálise A exploração do incons­ ciente. Mais cognitivo que afetivo Não. o que quero dizer pessoalmente com cada um desses termos. São favorecidas Dependência / Desenvolvimento e análise da neurose Sim de transferência Análise de Intensiva resistência ThCNICA Insight Elaboração Fortalecimento e ativação das Junções egóicas Focalização Multiplicidade dos recursos terapêuticos Planejamento Sim Sim t «» Limita. sobretudo. Resolução de con­ flitos básicos e seus deri­ vados. b) o foco\ c) o ponto de urgência e d) a hipótese psicodinâmica ini­ cial. Referido so­ bretudo ao “de fora”.

Bellak (6). aparecem no sujeito inibições e sintomas diversos (ansiedade. um acidente. Small (6) e Malan (40). etc. depressão. Deutsch (8). Wolberg (55). Ao propiciar uma centralização da tarefa. F. situação desencadeante. e como conseqüência de uma falta de resolução favorável. de concentrar a tarefa terapêutica em determinado sintoma. Muitos autores. Implica. uma crise evolutiva como a da adolescência. etc.). uma viagem ou uma intervenção cirúçgica próximas. uma gravidez.40 a) A situação-problema Psicoterapia breve de orientação psicanalitica Com essa denominação tento indicar que se trata de uma situa­ ção que se torna presente na vida do indivíduo. etc. o nascimento de um filho. situação-obstáculo. e que são passíveis de se­ rem tratados por meio da técnica breve. A existência de uma ou mais situações atuais dessa natureza pode ser detectada com freqüência em grande parte dos pacientes que solicitam assistência psiquiátrica. assinalaram a conveniên­ cia de focalizar. Alexander (5). a focalização con­ tribui para tornar mais efetiva a atividade terapêutica em função . referência a fatos que são manifestos e objetiváveis. a quem devemos o desenvolvimento de um modelo conceituai de foco (11). A situação-proble­ ma . uma mu­ dança de trabalho. Mas foi sobretudo Malan. então. Com relação a eles. entre os quais se destacam Stekel (50). Entre nós cabe citar muito especialmente Fiorini. distúrbios corpo­ rais. . b) O foco Constitui talvez um dos elementos mais característicos e dis­ tintivos da atual P.B. problemática ou setor da psicopatologia do paciente. quem se 'Ocupou mais exaustivamente do foco terapêutico e promoveu a denominação terapia “focal” (40). diante da qual e por motivo de cuja ação descompensadora surgem ou podem surgir nele dificuldades de índole psíquica que operam como obstáculo para alcançar um desenvolvimento adequado. quer dizer.ou situação critica. medo. French (5). a perda de um ser querido. que costumam constituir o motivo (manifesto) da consul­ ta e que poderão ou não ser ligados pelo paciente e pelo terapeuta às situações-problema que na realidade os provocam24.pode ser provocada por ocorrências tais como um exame. junto com Balint.

e inclusive prolongadas. O que devemos entender realmente por foco? Como surge. no sentido de ser “a inter­ pretação essencial. como se configura e como se delimita. A que formulou Malan. Contudo. com os pontos de urgência. Trabalhar com uma técnica de “enfoque” implica. por diversos motivos (idade avançada. c) combater a passividade e o perfeccionismo do terapeuta. etc. realizando uma abordagem interpretativa setorial e respeitar o resto de sua organi­ zação patológica e das áreas de sua vida. sobre a qual se funda toda a terapia” (40). O terapeuta pode. já que. com os sintomas que motivam a consulta. com as metas do tratamento. tam­ pouco é. O foco deve ser concebido. primordial e essencialmente. o tra­ tamento psicanalítico é contra-indicado. entre outras coísas (40): a) manter a coerência e a operatividade a res­ peito da fixação de objetivos terapêuticos prioritários. É evidente que não resultou fácil kchar e adotar majoritariamente uma definição que expresse de modo pleno a natureza e o signifi­ cado do foco. a noção de foco ainda é.” E acrescenta: “Sem um esforço de preci­ são e delimitação rigoroso de seus conceitos básicos não é possí­ vel construir uma teoria com certo grau de verificabilidade” (13). no meu entender. na prática psicoterapêutica? Procurarei encontrar minhas próprias respostas a essas perguntas. totalmente esclarecedora. nas quais. Nesse sentido será definido como/ uma estrutura integrada pelos distintos fatores intervenientes na gênese da que foi escolhida como a problemáti-- .Fundamentos teóricos 41 das metas selecionadas e em uma terapia de duração limitada. sumamente ambígua e se confunde com a situação de crise (situação-problema). b) planejar o tratamento. d) contrapor-se ao desenvolvimento d| neurose de transferência (há uma orientação constante em direção à realida­ de e ao atual do paciente). circunscrever-se a certos problemas do paciente. a partir de uma perspectiva psicopatológica. mas não só uma limitação temporal a justifica: a técnica focal também é adequada àqueles pacientes que podem realizar psicoterapias sem prazo fixo de duração. por exemplo). então. Comenta Fiorini: “A diversidade de significados que possam ser atribuídos à noção de foco ilustra o estado atual da teoria. ao se revestir de um caráter técnico. como assinala Fiorini (11) (13). não explica em que consiste ou como está constituído o foco.

dirigindo preferente­ mente para aí. o diagnóstico se orientou na direção de uma afecção essencial­ mente psíquica. que geralmente é definido pelo motivo da con­ sulta (sintomas. especialmente válido para esses procedimentos. e na qual um exame analítico nos permite distinguir zonas com diversos componentes: aspectos caracterológicos do paciente. ao mesmo tempo. a exploAção terapêutica. confli­ to nuclear subjacente e situação grupai são aspectos “de uma situação que condensa um conjunto de determinações”. Como o exame médico não revelasse nenhuma alteração orgâni­ ca. de 31 anos. à qual também se vinculam todos os componentes citados. ela se achava deprimida. citado anteriormente. uma hipótese ou um conjuniade hipóteses do terapeuta a respeito dos mecanismos operantes dentro de taljvoblemàtica. solteira. ou seja. O modelo teórico de foco que Fiorini desenvolveu é de gran­ de utilidade prática. todo foco tem um eixo central. situações de crise). Sucintamente recordaremos a estrutura do foco proposta por este autor: na prática terapêutica.42 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica ca central do tratamento (uma determinada situação-problenioji as manifestações sintomatolósicas^u. consultou um serviço psiquiátrico hospitalar por ter apresentado episódios de paresia de ambos os membros inferiores. que se encontrava de passagem em Buenos Aires. seguidos em certa ocasião de desmaio. Motivo da consulta. da complexa interação existente entre osfatores^Podemos considerar que atua como um artifício teórico-técnico. ela Usadas). Vejamos um exemplo a partir do caso da professo­ ra. enquanto esta corresponde a uma finalidade também limitada e preestabelecida. a partir desse momento. aspectos histórico-genéticos individuais e grupais reativados. Esses diver­ sos componentes se encontram atualizados e totalizados pela situação (11). existe um conflito nuclear exacerbado. além de uma zona relativa ao momento evolutivo individual e grupai e outra de determinantes do contexto social mais amplo. Subjacente e ligado ao motivo da consulta. Essa mulher. o qual se inse­ re em uma situação grupai específica. Paralelamente. Por outro .^constituindo. por meio do qual se tenta basicamente delimitar zonas da problemática geral do paciente e/ou dos episódios de sua vida. professora rural de uma escola primária localizada no sul da Argentina.

obtenção de benefícios secun­ dários de seus sintomas. A paciente residia em um lugar muito distantes de seu meio familiar.e radicou-se no sul. representantes dos irmãos. Tratava-se. claramente vinculados a tal situação. a regressão.carinhosa­ mente cuidada por esta última até a morte . sobre uma estrutura que parecia basicamente melancólica. As funções egóicas esta­ vam em geral debilitadas. veremos que: a) Entre os aspectos caracterológicos em jogo destacavase o conflito suscitado por uma instância superegóica muito severa. Esse é o conflito nuclear. Seu pai. Seus irmãos (três mulhe­ res e dois homens) moravam por sua vez em diferentes locais do país. tendo falecido há um ano. com paralisia dos membros inferiores. por outro lado. tinha-se ausentado do lar quatro anos atrás e se ignorava seu destino. como no caso do pai.Fundamentos teóricos ___________ lado. a projeção e a conver­ são. a qual estava passando por um período de extrema tensão e a fazia sentir-se muito exigida e mesmo perseguida. dc uma família que correspondia ao tipo*'esquizóide (7). ao ser assistida pelos demais professores. Tempos atrás havia-se afastado de sua mãq . com seus mem­ bros distantes e dispersos ou ainda desaparecidos. onde assumiu o trabalho docente. e a quem descreveu como uma mulher sumamente autoritária e depreciativa para com ela . alcoólatra crônico. manifestou que tinha problemas de adaptação ao trabalho. Descobriu-se que os sintomas e a situação desencadeante que constituíam o motivo da consulta correspondiam a um conflito da paciente com figuras femininas de autoridade. então. tinham aparecido após áspe­ ras discussões com a diretora. ainda que conservasse certa eficiência . os quais também eram professores)25.movida pelo desejo de ser tratada de modo semelhante. Se procurarmos precisar os componentes dessa situação. Apresentava traços histéricos de caráter. evidenciável através de diferentes experiências de sua vida. junto a uma busca oral regressiva de afeto através de conversões (identificação com a mãe da diretora . Os sintomas. A mãe desta última. havia sofrido de uma enfermidade crônica. Os principais mecanismos defensivos empregados nessas cir­ cunstâncias foram a repressão.com quem vivia no norte do país. Tudo isso faz parte da situação grupai. ocasionados pela má relação que mantinha com a diretora da cscola.

Sua auto-estima se achava muito diminuída. aumentando especialmente sua angústia e favorecendo o desenvolvimento de mecanismos regressivos. a conflitiva focal é representada fiindamen* Expressão pejorativa semelhante à nossa “cabeça chata”. pp. utilizada nas cida­ des para se referir àqueles que têm origem rural e sangue indígena. organizado sempre em torno de uma situação-problema e dos sintomas provenientes desta. o qual era seu único meio de vida. A desconexão existente entre quase todos os membros do grupo familiar e sobretudo o desaparecimento do pai contri­ buíam para fazer deste um momento muito difícil para a paciente. 22 a 24. realizada com o objetivo de conseguir um desprendimento em relação à mãe e libcrtar-se de sua opressão. que podemos chamar conflitiva focal. entendo basicamen­ te que o foco.) . com um conflito infantil e primário. ao mesmo tempo em que era fundamental para manter sua auto-estima (o magistério era altamente valorizado em seu meio social). ao qual se remete em última instância tal conflitiva. Por outro lado experimentava um sentimento de inferioridade diante dos demais professores. (N. acarretou de imediato o incremento de suas carências afetivas e de seu sentimento de solidão e insegurança no novo meio. do T. apresentando tez escura e cabelos negros e lisos. Aos 31 anos. sua falta de parceiro e seus fracassos ardorosos anteriores pesavam. no qual custava a fazer amigos justamente quando se achava mais necessi­ tada para reafirmar-se em sua tentativa de emancipação. edípico ou pré-edipico. já que se sentia víti­ ma dos preconceitos existentes contra os denominados cabecitas negras*. Estes são os determinantes do contexto social. compreende em sua conformação uma conflitiva subjacente mais ou menos ampla e complexa. De minha parte. e que vem a constituir o nó da estrutura focal (ver O trabalho com os conjlitos. numa busca neuróti­ ca de afeto. b) Dentro do momento evolutivo individual e grupai cabe des­ tacar que sua migração.44 Psicoterapia breve de orientação psicunalitica em seu trabalho e revelasse suficiente tolerância à dor para enfrentar uma psicoterapia de insight. c) Suas precárias condições econômicas eram outro fator pre­ mente que a obrigavam a um rápido restabelecimento para poder reintegrar-se ao trabalho (achava-se em gozo de licença). e tentando uma síntese. No exemplo antes citado.

dois ou mais terapeutas poderão chegar a diferir na escolha’*. imprevistas e traumáticas na vida do paciente. pois permitirá um trabalho. e que se origina­ ram a partir de um conflito primário com a figura materna. mais efetivo/ No começo. Eventualmente. muitas vezes. enrai­ zado em fixações edípicas c pré-edípicas a ela. Um critério psicanalítico para a investiga­ ção do foco deverá privilegiar o reconhecimento das raízes in­ fantis da conflitiva focal. configurado a partir das descobertas obtidas nas entrevistas clínicas e no psicodiagnóstico^Numa terapiajireve. Às vezes teremos de mudar o foco e as metas terapêuticas em pleno tratamento. dever-se-á contar pelo menos com um esboço inicial de foco terapêutico. A escolha por parte do terapeuta. que encontram sua expressão no ambiente de trabalho. melhor será^prognós­ tico do tratamento. e que poderão ser tratadas com possibilidades de êxito terapêutico nas condições de que disponha para levar adiante o tratamento. os limites focais são imprecisos27. se cristalizando. quanto mais precoce e mais claramente demarcáveEÍor o foco. como já vimos em parte (p. . sobretudo no que diz respeito à determinação das perturbações que privilegiará. 23). Durante o processo terapêutico costuma-se assistir a uma “evolução” desse mesmo foco. no qual a paciente repete aspectos de suas relações familiares (em especial com a diretora). de diversos fatores. de uma situação-problema e do conseqüente foco para sua abordagem preferencial num tra­ tamento breve depende. Ao começar uma terapia focal. ainda que nem por isso tenha de de­ sembocar forçosamente na tentativa de proporcionar insight ao paciente acerca dos mesmos. em virtude da técnica de “enfoque” empregada. que obriguem uma recolocação e o adiamento da tarefa programada inicialmente. através da qual. tal foco não só vai-se deli­ mitando melhor. entre vários fatores. Isso pode ocorrer: a) surgindo situações novas.Fundamentos teóricos 45 talmente por conflitos derivados. o qual dependerá. Esses gravitarão em tomo de suas impressões quanto à patologia do paciente. A evolução habitual do foco com o trabalho terapêutico pode ser observada no esquema desta página. quer dizer. mas também o terapeuta obtém um aprofundamento na compreensão de seus psicodinamismos28. diante de um mesmo caso e num mejsmo momen­ to. de seus critérios pes­ soais e de sua experiência prévia.

temor inconscien­ te de ser abandonado pelo terapeuta. Em torno do término se vai perfilando um novo foco . de certos fatos ou sofrimentos de importância.46 Diagnóstico Psicoterapia breve de orientação psicanalitica Processo terapêutico k 1.que se superpõe primeiro ao anterior no processo terapêutico. Por exemplo. ocupar exclusivamente o primeiro plano. dadas sua história e características pessoais .O foco vai-se delimitando mais claramente na superfície (pode ser relativamente isolado de outras conflitivas) e crescendo em profundidade b) ante revelações do paciente. que gera um incremento da angústia e uma reação defensiva de desprezo e hostilidade em relação a ele30. c) 0 ponto de urgência Esse conceito. também se reveste de grande importância prática na P. . c) como circunstância habitual nos estágios finais dos tratamentos. que omitiu deliberada ou involu­ ntariamente no começo. Limites confusos no começo 2 e 3.diante da significação singular que este possa alcançar em cada paciente. o ponto de urgência corresponde à situação psí­ quica inconsciente de conflito que. depois. diante da iminente separação paciente-terapeuta. já conhecido dentro da técnica psicanalitica. No meu entender. que tornam aconselhável modificar tanto o foco como os objetivos29. predomina no sujeito num dado momento. poden­ do. sendo motivo de de­ terminadas ansiedades e defesas. pela ação de fatores atuais. durante a terapia..B.

em conse­ qüência. resulta ineficaz.subjazindo diretamente à situação-problema ou ligando-se a fatos que correspondem de algum modo à conflitiva focal . precisaremos antes desembaraçar o campo dos estímulos traumáticos que impedem circunstancialmente que o paciente concentre seu interesse naquela problemática. a indagação a respeito de um ponto crítico. variável. o paciente poderá recuperar a capacidade de concentração focal necessária. nessas ocasiões é imprescindí­ vel atender ao ponto de urgência. auxiliando o paciente. que adquire de imediato prioridade no traba­ lho terapêutico. pois são vários os que se suce- . Na verdade deveríamos empregar o plu­ ral e dizer os pontos de urgência. Somente quan­ do a calma tiver sido restabelecida. Sua busca parte de uma inter­ rogação que o terapeuta se formula: a que obedece a ansiedade do paciente neste momento? Pressupõe. pela conclusão da terapia). é uma obstinação que. as distintas medidas terapêuticas. Para esse ponto deverão orientar-se.) que costumam apresentar-se durante o tratamento. afetando o pacien­ te. co­ mo a própria denominação sugere. pretender continuar nesse momento o trabalho com a conflitiva focal. Interessam sobretudo as interpretações: o fato de que estas obtenham uma repercussão emocional efetiva no paciente dependerá fundamentalmente de que estejam ou não dirigidas para o ponto de urgência.Fundamentos teóricos 47 Freqüentemente a detecção do ponto de urgência conduz. pelo contrário. Precisamente para po­ dermos voltar a nos ocupar produtivamente da problemática prin­ cipal do tratamento. e que “saem do foco”. Este último acontece com freqüência. o caso de situações de emergên­ cia inesperadas (a morte de um ser querido. ao trabalho terapêutico imedia­ to do mesmo. além de reve­ lar falta de senso comum. pertur­ bando assim a focalização do trabalho terapêutico. Também. O ponto de urgência pode ser inerente ao foco {tyocal) . por exemplo. então.ou ser rela­ tivamente estranho a ele (exlrafocal). pois mobiliza ansiedades e produz descompensa­ ção no paciente. um roubo. Enquanto um tratamento breve costuma se desenvolver sobre a base de uma estrutura focal (11) apenas ou no máximo de dois focos (toda vez que se leve em conta o que se relaciona à sepa­ ração definida. o ponto de urgência é. sendo. apesar e por cima da ansiedade que essa situa­ ção imprevista nele provoca. daí seu valor clínico. for­ çando o paciente. etc.

uma tentativa de compreensão global de sua psicopatologia que tende a incluir todas as perturbações do paciente que nos sejam conhecidas (40) (entre as quais se destacam as corres­ pondentes ao foco). Tais pontos são diferentes entre si. a hipótese psicodinâmica inicial pode ser entendida como um esboço reeonstrutivo da história dinâmica do paciente. envolvendo apenas certos setores de sua psicopatologia. é mais abrangente. pois é susceptível de ser confirmada.). Em meu conceito. Enquanto a estrutura do foco se organiza. ou seja. produzida pela atividade terapêutica. a hipótese psicodinâmica inicial. com base nas descobertas obtidas durante o tratamento. Tal variabilidade -se deve à influência de diversos estímulos procedentes dos mundos interno e externo do paciente. formulação psicodinâmica pre­ coce (17). etc. aos conflitos restantes extrafocais . já que isso pode ser indício de uma mobilização afetiva útil. em certa medida. ampliada ou retificada. tal como a concebo. englobando inclusive a hipótese focaP\ Pode­ ríamos dizer que enquanto o foco aponta mais especificamente para o campo das situações que deverão ser trabalhadas terapeuticamente. Com relação aos estímulos citados em b é desejável. desde as entrevistas iniciais51 até as etapas finais do trata­ mento. etc. única e exclusiva­ mente em torno de uma determinada situação-problema da vida atual do paciente. a tudo o que dinamicamente pode- . d) A hipótese psicodinâmica inicial Também é chamada de hipótese psicodinâmica mínima (40). formulação psicodinâmica (55). Entre estes últimos distinguimos: a) os que são próprios de sua vida cotidiana e b) os que provêm da atividade terapêutica. e que se constitui a partir dos dados que aflo­ ram nas primeiras entrevistas e no psicodiagnóstico. a hipótese psico­ dinâmica inicial alude. A concepção dessa hipótese psicodinâmica inicial está regi­ da pelas teorias psicanalíticas (determinismo psíquico. ainda que em sua maior parte se incluam numa mesma conflitiva focal32. Tem caráter provisório. além disso.do paciente. que o ponto de urgência vá-sc modi­ ficando. séries complementares. sobredeterminação. tentando modificações e resoluções.48 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica / dem.

p. Malan sustenta que podem ser alcançados bons resulta­ dos em uma ampla variedade de casos. os quais não se reduzem aos pacientes cuja psicopatologia seja leve e de sintomas recen­ tes (40).). e que nâo necessariamen­ te tentaremos modificar. nas quais se integram as várias noções expostas até aqui14. A elaboração de uma hipótese psicodinâmica inicial por parte do terapeuta ou da equipe terapêutica permitirá: a) extrair elementos suficientes para uma de\>olução diagnostica (D.) de tratamento (ver capítulo 5). erro no qual muitos incorrem. em cada caso. Resultados e mecanismos terapêuticos A experiência clínica tem demonstrado que com o método breve é possível obter efeitos terapêuticos altamente benéficos e duradouros. que por sua vez aciona a busca de acordo com o paciente sobre as metas terapêuticas (M.T. Mas neste ponto desejo formular uma advertência: não devemos per­ der de vista que os resultados. em relação ao que acontece com a situação-problema e seus sintomas. que podem ser verificados por meio de acompanha­ mentos. devem ser avaliados. Os resultados positivos. I . seu alcance e sua estabilidade. de outro modo. na medida em que buscássemos o que não corresponde diretamente a elas. 67). concentrar o interesse na indagação das modifica­ ções que transcendam as metas terapêuticas fixadas.D. coerente com a hipótese formulada e com os objetivos selecionados. ) ao paciente (ver capitulo 4. inicial c primordialmente. nossa atitude não seria coerente com suas finalidades terapêuticas. sim. e com a finaIidade de investigar o grau de eficácia desses tratamentos. que abarcam desde o puro alívio ou a eliminação da ansiedade e de outros sintomas até modificações na estrutura da personalidade. Num segundo momento poder-se-á. Tentarei esquematizar resumidamente as seqüências que ocor­ rem na prática psicoterapeutica.Fundamentos teóricos __________ ______________ mos compreender e inferir acerca deste. b) desenvolver um plano (P. devem ser investigados a partir de critérios dinâmicos. Diante de tais mudanças indagamo-nos acer­ ca de sua natureza íntima.

50 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica .

4. certos pro­ cessos geradores de mudança em relação ao tipo de atividade tera­ pêutica desenvolvida. não são raras <\s recaídas. cabe per­ guntarmos: A que mecanismos respondem? E possível definir o processo de mudança existente? Eis aqui uma questão que ainda não está totalmente elucidada e que entra no terreno da investiga­ ção. rela­ ções familiares.) Voltando aos resultados positivos da terapia breve. A P. em virtude dos distintos recursos e estratégias operantes (13) (14). 5. Mudanças com relação a perturbações próprias da situação-problema (superação de inibições. estando estritamente ligada ao problema da estabilidade das mudanças. 3. É evidente a participação de diversos mecanismos terapêuti­ cos nesses procedimentos. Consideração de projetos para o futuro (esboço de planos a respeito de diferentes atividades da experiência de vida do su­ jeito). Elevação. j 6. desenvolvimento mais ade­ quado e eficaz. Aquisição de consciência da enfermidade psíquica. sem dúvida resulta particularmen­ te difícil precisar. estudo. etc. do ponto de vista metapsicológico. (O tema dos resulta­ dos desfavoráveis e os riscos do tratamento breve se desenvolvem no capítulo 10. tais como sexualidade. ou seja. de amizade ou trabalho. aquisição ou recuperação da capacidade de tomar decisões). trabalho. pode resultar também absolutamente ineficaz em al­ gumas situações. podemos mencionar: 1. estudo. Outras modificações favoráveis (referentes a dificuldades em diversas áreas da vida do sujeito.Fundamentos teóricos Entre os resultados favoráveis que se registram. Alivio ou supressão dos sintomas. ao tempo em que estas se mantêm. principal­ mente as que não foram abordadas de maneira direta durante a psicoterapia). recuperação ou auto-regulação da auto-estima. e ao alcan­ ce das mesmas.). isto é. sobretudo quando se trata de pacientes cuja patologia é grave. etc. 2.B. Modificações na estrutura da personalidade. a maior ou menor extensão que registram em relação às áreas de conduta35e/ou da vida do paciente (sexuali­ dade. 7. ..

adminis­ tração de psicodrogas. além do mais. como temos visto (pp.).). Direi unicamente que não só costumam conduzir à consolidação dos gànhos obtidos pelo paciente através da terapia. relaciona-se fundamentalmente com os conflitosfocais do paciente. por último. além de importantes na gênese de modificações dinâmicas e duradouras. deva ser exclusivamente de natureza cognitiva. ao conceber .equivocadamente. Para alguns autores. permitindo ampliar o alcance ou a extensão das mudan­ ças a partir de uma elevação da auto-estima. mas também a outras modificações favoráveis. processos dignos de se considerar. reconhecem nele. que costu­ mam ser traduzidas num desempenho eficaz em distintas áreas de sua vida. em minha opinião . apesar de suas restrições. o paciente com fre­ . Tampouco me ocuparei aqui dos mecanismos somente volta­ dos para produzir alívio dos sintomas (catarse.52 Psicoterupia breve de orientação psicanalítica Como nào pretendo oferecer aqui um panorama amplo sobre o tema. São eles: o insight e a elabora­ ção. O paciente agora ousa ensaiar outras atitudes e levar adiante ações que antes se via impedido de realizar por sentimen­ tos de insegurança e desvalorização. e num maior desen­ volvimento de sua iniciativa pessoal e das diferentes capacidades egóicas. mas que já foram muito bem descritos por Fiorini (10) (12).B.). por influên­ cia de um insight parcial do conflito derivado. entre os quais me incluo.que o insight em P. mas que é necessário voltar a considerar. Penso que. sugestão. nào tem validade por esse motivo. / O insight em P. temas que já abordei antes (pp.B. de certo tipo de falsa solução do conflito. A eficácia de tal insight seria discutí­ vel porque. 31 ss. A ques­ tão centra-se em saber se confiamos ou não no valor terapêutico de um insight que em geral não se baseia na análise exaustiva da neurose transferencial. uma maior efetividade. que logo citarei37. centrar-me-ei em mecanismos que. etc. nem da cura transferencial (à qual Alexander e French conferem valor terapêutico [2] [4] [16]36) nem. Deixarei de lado o fortalecimento e a ativação das fiinçòes egóicas. assina­ lado por Malan (40). provém principalmente da análise das situações da realidade externa do paciente. 30 ss. atribuem-lhe apenas efeitos superficiais adaptativos^Outros. configuram atrativos pontos de investigação. em particular das condutas adaptativas.

contudo.dizem . e toda psicoterapia que não cumpra a citada condição de elaboração das resistências é um trabalho só de sugestão? Que os analistas mantenham hoje taxativa e estritamente tais princípios é compreensível. ajudando a conceber projetos de vida com base no autoconhecimento obtido com o tra­ tamento.Fundamentos teóricos _______ ________ ________ ________ _______ _______ _______ qüência pode conseguir uma resolução.). o que jfacilitará futuras consultas. A frase de Freud (1914) seria lapidar para aqueles que pre­ tendessem conceber um processo terapêutico de tempo e objeti­ vos limitados. caso sejam necessárias. além disso.o paciente não conseguiria alcançar . eviden­ ciando-se clinicamente uma melhora nas dificuldades concernen­ tes ã situação conflitiva. de possibilidades e limitações pessoais. Mas também constitui parte do traba­ lho que efetua as maiores mudanças no paciente e que distingue o tratamento analítico de qualquer tipo de tratamento por sugestão” (27). capaz de promover alguma mudança dinâmica na conduta ou na personalidade do paciente/Chega-se então às se­ guintes conclusões: não é possível conseguir modificações pro­ fundas. (a) elaboração das resistências pode constituir-sc num penoso trabalho para o analisado e numa dura prova para a paciência do médico. não acompanhada de uma análise intensiva e de uma elaboração das corresponden­ tes resistências . A eficácia terapêutica resultante da ação destes procedimentos é satisfatória para um grande número de situações ou quadros clínicos. pelo qual este costuma ao menos diminuir de intensidade. a extensão e a aplicação do insight do conflito no paciente a dife­ rentes contextos (elaboração) explicaria a amplitude das mudan­ ças. prove­ niente da obtenção de certas modificações dinâmicas no conflito. “uma solução parcial é melhor do que*nenhuma" (55) //Dè todo mõSõTolnsight é o mecanismo graças ao qual a melhora conseguida terá mais possibilidade de se manter. ainda se contarmos com a possibi­ lidade de ocorrerem recaídas em virtude da multidcterminaçâo dos sintomas. também parcial. For­ nece.. Finalmente. mas acontece que alguns vão mais longe e rejei­ tam a opção da terapêutica breve por considerá-la totalmente ine­ ficaz. como diz Wolberg. Com a mera interpretação do conteúdo.^ “Na prática (.. refletidas em outras modificações favoráveis que às vezes se produzem. consciência da enfermidade.

o que pode acontecer quan­ do se realizam vários anos depois. em certas ocasiões é possível observar. por exemplo. que chamam a atenção da personalidade. cujos mecanismos não têm sido explicados satisfa­ toriamente. e não pode ser outro o caminho para se conseguir que o paciente tome consciência real de suas tendências inconscientes. vemos que de fato não podem ser interpretadas rigorosamente como na psicanálise. e até prepare “alterações substanciais na perso­ nalidade que lhes abram (aos pacientes) o caminho para uma auto-realizaçào mais completa”41. é significativo que os estudos efetuados pouco depois dc finalizado o tratamento bre­ ve não registrem um progresso maior. Já no terreno da experiência clínica. Afirma este autor (55) que um tratamento curto adequadamente conduzido pode desencadear. Com respeito ao psicodiagnóstico. Isto nos remete a um processo ativo de mudança que ocorre no paciente durante esse período.54 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica uma verdadeira ou suficiente conscientização (45)-< 1 . e sem que haja mediado outro tratamento psicotcrapêutico (32). encontramos vários in­ vestigadores que reconhecem a existência de importantes mudan­ ças dinâmicas em pacientes que foram tratados com o método breve. um processo evolutivo. insuficiente para que se produ­ zam nele modificações em um nível mais profundo. Wolberg. um dos autores mais entusiastas das mudanças que se podem esperar nas terapias breves. principalmente no que respeita à oposição do pa­ ciente ao insight da problemática focal40. Apesar de.B. uma reação em série. Apenas con­ seguiria um insight “intelectual”. sobretudo pelas entrevistas de acompanhamento e no psicodiagnóstico (32). Isso parece acontecer com a P. a partir da solução de um aspecto do problema do paciente. não nos propor­ mos a obter. Não creio que na tera­ pêutica breve as coisas devam ser situadas de modo inapelável num extremo: se considerarmos as resistências. talvez peque por um exces­ so de otimismo. mas o terapeuta ocupa-se delas em certa medida a fim de reduzir sua intensidade. mas talvez a prá­ tica da mesma nos demonstre outros fatos. ao empregarmos tal método. do ponto de vista da teoria. “No final do tratamento . a presença de mudanças favoráveis. que com o avançar dos anos promova uma mudança interior.. modificações profundas na estrutura da personalidade.diz - .

Neste co­ locamos o paciente sobre a pista. Referimo-nos a elas de uma maneira bem mais vaga. A obser­ vação pós-clinica pode revelar amplas mudanças que apenas se adivinhavam ao terminar o tratamento. além disso: “£ difícil. e em virtude dê forças que escapam ao nosso conhecimento.Fundamentos teóricos 55 não há por que deter o processo de transformação do paciente. não sejam levantadas hipóteses explicativas definidas tampouco se recorra. ou ainda.). convém esclarecer. Às vezes basta eliminar um bloqueio emocional para que o ego comece a atuar (. retrospectivamente.) Wolberg às vezes reitera essas opiniões e esses/resultados de sua própria experiência. Noutro lugar expressa Alexander: “Também na psicanálise confiamos nas faculdades regenerado­ ras do ego. que com sua intervenção con­ segue liberar as forças construtivas latentes42 na pessoa do enfer­ mo Assinala. Essa circunstância não é fortuita: é um acerto do psiquiatra.. Também Alexander sustenta idéias simi­ lares a algumas das que propõe Wolberg: “O importante é que a cura nunca se realiza totalmente durante o tratamento.”(2).) Logicamente. pois o tratamento carece de qualquer medida exata para se verificar a mudança psíquica ou se preverem os acontecimentos futuros” (3). mais vagamente. a vontade do paciente de se curar. de­ finir o ocorrido. as possibilidades de progresso são variáveis em cada caso e dependem não só de suas próprias potencialida­ des. e ainda mais difícil deduzir dessa experiência regras precisas aplicáveis a outros casos. (Os grifos são meus.. e do qual falam Wolberg e Alexander. nenhuma deliberação consciente. que pode perdurar pelo resto de sua vida. como o desejo. como por exemplo as condi­ ções de seu meio ambiente.” Pouco mais adiante continua: “Às vezes se produz uma reação em cadeia. Ainda que aceitemos que mudanças profundas ocasional­ mente ocorram. e então o ego assume a direção. deve­ mos convir que não há respostas que revelem a natureza íntima do processo que gera essas mudanças. em nenhum . como sua capacidade de cooperação” (4).” (Os grifos são meus. mesmo que. sem que intervenha. ao que parece. Diz Alexander: “Até onde chegará o impulso do tratamento é sempre uma interrogação sem resposta ao finalizar uma análise43. mas também de outros fatores. inclusive na estrutura da personalidade. etc.

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. Psychiatry. Am. 1974. Buenos Aires. “Introducción a la técnica psicoanalítica”. M. Buenos Aires. ob. tomo XXVIII. Pax-México. H. Kamo. Psicologia de la conducta. 45. em L.. 1954. Knobel.. México. em 9. Paidós. cit. Buenos Aires. Estúdios sobre técnica psicoanalítica. cap II. 1964. Lu psicologia dei yo y el problema de la adaptación. Fondo de Cultura Económica. 10. 37. 38. 1963. 19. Wolberg e col. 1976. L. Centro Editor de América Latina. L. cm 2. “Psicoterapia breve lrente a psicoterapia prolongada”. Bleger. 48.58 Psicoterapia hreve de orientação psicanalitica 32. Charles Thomas. Illinois. . M. 1971. Laplanche. Ch. K. Novey. Cuaderno de la SAPPIA. Gxanica. cap. A Study of Brief Psychotherapy. cit. 1950. Londres. Buenos Aires... Racker. 1962. (Versão Castelhana: La psicoterapia breve. n? 2. 1960. Small. 34 ... P. “Psicoanàlisis y psicoterapia dinâmica: similitudes y direfencias” em Rev. Pichon-Rivière. emL. cm 2. cit. Barcelona. J. S.. Estúdio 1. 47. México. Tirada do Journal o f the American Psychoanalytic Association. 46.. 39. cap. Paidós. cilado por Fiorini. Springfield. Norton. cap. Harrower. E.. Rangell. 44. Philips. Rycroft. e Pontalis. n? 1. D. Buenos Aires. ob. H. Novey. ob. Labor.. 42. S.. Mcnninger.. em H. Kargieman. H. e Johnston. Buenos Aires. D. J. out. vol.. 1971. “Communication. PaxMéxico. Tavistock. . Reinforcement and Insight. 43. Buenos Aires. “Theoretical and clinical aspects of short-term parent-child psychotcrapy”. JL Diccionario de psicoanàlisis. Psicoterapias breves. Dicionário de psicoanàlisis. B. Raeker. E. 36. “Psicoterapia breve en la infancia”.. ob. 40. Citado por S. Psychother. 35. 1 . Teoria de la técnica psicoanalítica. citado por J. México.. “Cómo ve el tratamiento breve un psicólogo clinico”. de Psicoa. The Psychoanalysis o f Elation. Psicoanàlisis y psicoterapia breve en ninosy adoles­ centes. Lcwin... H. The Problem of Psychotherapy Effect”. 1969. 1969. Hoch. Hartmann.. 1971. Psicoa. A. Wolberg e col. Malan. 2. ELDEBA. Nova York. cit. M. n" 4. “El principio de la ‘elaboración’ en psicoanálisis” Apostila Asoc. 1965. 1972. M. Arg.) 41. L. Ensayos sobre la psicologia del vo. H. III. X. 33. 1961. em 39.

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TÉCNICA .

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No campo da P.B. será o que se revele necessário para atingir os fins enunciados.4. • A avaliação diagnostica e prognostica. • A elaboração da história clínica. em boa parte. O estabelecimento da relação terapêutica Neste aspecto. as entrevistas preliminares desempenham um papel fundamental. O número de entrevistas a se realizar. Dos primeiros contatos com o paciente de­ pende.. variável em cada caso. • A devolução diagnóstico-prognóstica. as principais finalidades de tais entrevis­ tas são: • O estabelecimento da relação tefapêutica. o destino da relação deste com seu terapeuta . • O contrato sobre metas terapêuticas e duração do tratamento. • A explicitação do método de trabalho e a fixação das demais normas contratuais. Entrevistas preliminares Introdução f T É sabido que as entrevistas iniciais têm importância decisiva para o futuro do processo terapêutico a ser desenvolvido. Veremos a seguir cada um destes pontos.

desde o primeiro momento. dirigindo os diversos momentos das entrevistas em função dos objetivos desta fase do procedimento. quer dizer. O entrevistador deverá. Em essência. . em sua comunicação com o paciente. .64 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica (que poderá ser ou nâo aquele que o tenha entrevistado). 72). fornecerá informação. desse modo. e ízes poderá recorrer a assinalamentos e interpretações. na qual pode-se recorrer às chamadas interpretações panorâmicas (ver . Considero que o emprego de interpretações nas entrevistas ais deva limitar-se principalmente aos seguintes fins: a) esclarecer e orientar a relação transferencial quando sur­ jam obstáculos a ela que ameaçam inclusive provocar a deserção do paciente. dis­ posto a oferecer-lhe sua ajuda e confiante em seu método terapêu­ tico. Para isso convém que lhe comuni­ que previamente a finalidade das primeiras entrevistas (conhece­ rem-se mutuamente. Formulará perguntas. A experiência clínica demonstra que tais atitudes ajudam bastante no estabelecimento de uma relação terapêutica. tudo o que pode facilmente conduzir à deserção (4). Trata=se então de poder criar condições favoráveis para a instauração de um vínculo terapêutico. além disso. Tenta-se. realizar um estudo o mais completo possível de seu caso para poder decidir a conduta terapêutica a ser seguida. assumir um papel ativo. no decorrer das mesmas. etc. terá que comba­ ter a ambigüidade. mal­ entendidos ou temores a respeito do tratamento. empregando isolada e prudentemente interpre­ tações de ensaio (1)'.. diminuir as resistências produzidas por preconceitos. Será benéfico que possa mostrar-sc interessado pelos problemas do paciente. em relação ao qual importa muito a con­ duta que assuma o entrevistador. fomentadora de condutas resistenciais e fenô­ menos regressivos.) e que. c) detectar a capacidade do paciente para efetuar uma psico­ terapia de insight. essencialmente diagnostica e contratual. etc. informe-o detalhadamente a respeito dos diferentes aspectos do tratamento que seguirá. P. b) efetuar uma devolução diagnóstico-prognóstica. sua contribuição para o estabelecimento de uma relação de trabalho. além de claro e explícito.

psicoterapia prolongada. em relação à sua história de vida. ou seja. é necessário realizar uma indagação exaustiva dos dados do paciente.B. etc. mediante a descoberta de situações traumáticas. que logo poderá ser dirigida ou semidirigida quando for necessário obter determinados dados do paciente (antecedentes familiares e pessoais). insuficiente para efetuar a formulação prognosti­ ca e a indicação terapêutica (psicoterapia breve. de grupo.B. Se se decide pela realização de uma terapia de duração limita­ da.Entrevistas preliminares 65 A história clinica Em P. esta demandará. os fatores desencadeantes. Uma história clínica em que se leva em conta esta indicação poderá oferecer-nos elementos valiosos para com­ preender melhor a natureza dos problemas atuais do paciente. A respeito da metodologia a ser empregada. os sintomas que a acompanham. embora isso não implique que se tenha de seguir uma ordem rígida para interrogar o paciente. Avaliação diagnostica e prognostica Avaliação diagnostica É preciso efetuar uma ampla e minuciosa avaliação diagnos­ tica do paciente. Será conveniente obter amplas informações sobre os antecedentes dessa situação-problema.). Essas averiguações podem ser reali­ zadas deixando-se em primeiro lugar que o paciente exponha li­ vremente suas dificuldades atuais. Convém assinalar o interesse particular de quese reveste em P. O habituaf é que este se ache ligado à situação-problema que dará lugar ao tratamento. através dos momentos livres da entrevista. etc. etc. um conhecimento . a escolha de objetivos e o planejamento do tratamen­ to-. psicoterapia em que predomine o insight ou de apoio. com maior razão ainda. cabe recomen­ dar a adoção de um modelo de anamnese cromo ponto de referên­ cia. que não deve permanecer circunscrita ao diag­ nóstico clínico. modos patológicos e repetitivos de conduta. a indagação do motivo da consulta.

memória. elas serão examinadas. no que diz respeito à sua qualidade e intensidade e . O diagnóstico nosográfico-dinâmico Implica o diagnóstico atual da enfermidade do paciente (neu­ rose. para a qual se investi­ gam os recursos de que dispõe o ego do paciente. o qual. seus aspectos adultos ou sadios. Em psicoterapia breve interessa indagar principalmente: <^a) AsJunções egóicas básicas (percepção. neurológi­ co. psicopatia. psicose) e de personalidade. Os elementos necessários para os distintos diagnósticos devem ser obtidos basicamente por meio de entrevistas clínicas e de testes psicológicos. 3) A deter­ minação do foco. que inclui as condições egóicas. cuja personalida­ de apresenta um predomínio de traços paranóide-obsessivos. procurará contribuir. E elementar que estas funções se apresentem cm condições mínimas para tomar possível a psicoterapia. e suas debilidades.). b) As relações objetais. sua inci­ dência na problemática atuãlT ãíém da influência que possa exer­ cer o meio ambiente.). compondo na realidade um diagnóstico psicossociopatológico. Consideramos aqui: 1) O diagnóstico nosográfico-dinâmico. que as circunstâncias requeiram (exame médico geral. quer dizer. Uma avaliação das condições egóicas. além disso. etc. atenção. por meio do trabalho terapêutico. para que o paciente adquira ou recupere as capacidades egóicas que lhe faltam. Este último fato permitirá que se tomem os cui­ dados necessários diante das prováveis dificuldades que pode­ riam sobrevir durante o tratamento. eletroencefalográfico. aos quais podem somar-se outros exames. Segundo Bellak e Small. caracteropatia. 2) A avaliação do grau de moti­ vação para o tratamento e de atitudes para o “insigfit”. que serão os aliados do terapeuta. pensamento. etc. Devem incluir-se também: O diagnóstico do tipo de grupo familiar de origem. Exem­ plo: depressão reativa num neurótico obsessivo.66 Psicoterapia breve de orientação psicanalíticu prévio do paciente o mais profundo possível (hipótese psicodinâmica inicial) para organizar o plano terapêutico correspondente.

pode-se apelar para diversos recursos. porque nos permitem prever. recordações. e muito especialmente o momento do término da terapia e do desligamen­ to do terapeuta. em certa medida. estar diminuído. f) A regulação da auto-estima.Entrevistas preliminares 67 aspectos manifestos e latentes (2). Em ambos os casos. Exemplo: um repertório reduzido de defesas estereotipadas será um elemento prognóstico desfavo­ rável para uma psicoterapia de insight. Será necessário precisar as principais defesas empregadas pelo paciente. . entre cies as interpretações de ensaio [í]. aumento do número de sessões em outro. sonhos. em contrapartida. as características da relaçào transferen­ cial durante a terapia. K . os que procuram terapia apresentam uma diminuição da auto-estima. e que repercussão tive­ ram nele).). {I d) A tolerância à ansiedade e àfrustração. a varie­ dade de mecanismos defensivos tornará favoráveis as perspecti­ vas prognosticas. para o plane­ jamento e para o prognóstico. os inconvenientes que nesse sentido podem surgir durante o tratamento.e) Os mecanismos defensivos. para comprovar sua reação às mesmas). da história de suas relações interpessoais. Trata-se de detec­ tar as condições do paciente para tolerar uma psicoterapia interpretativa. a partir da conduta evidenciada pelo paciente durante as entrevistas clínicas. Em geral. assim como sua capacida­ de para superar sem maiores conseqüências o luto causado por sua separação do terapeuta no fim da terapia (convirá averiguar a existência dc lutos na história do paciente. nas primeiras entrevistas. será necesfário tomar certas medidas terapêuticas (emprego de técnicas dramáticas em um. em virtude da mobilização afetiva que esta costuma produzir (para isso. devendo o trabalho terapêutico resultar numa elevação da mesma. de nossa contratransferência e dos dados fornecidos pelos testes psi­ cológicos. de suas fantasias. Essas indagações são de grande valor para efetuar um prognóstico e uma estratégia terapêutica. a maior ou menor capacidade do paciente para estabelecer uma boa relaçào terapêutica. Pode ser excessivo ouí pelo con­ trário. etc. 24 c) O controle de impulsos. determinação que é de grande importância para a indicação terapêutica.

A esse respeito cabe assinalar o papel fundamental que de­ sempenha a forma pela qual o entrevistador faz a devolução diagnóstico-prognóstica para o paciente no começo da relação. Avaliação do grau de motivação para o tratamento e das atitudes para o "insight” Diversos indicadores. sua resistência ou sua permeabilidade ante as intervenções do terapeuta. que também terá de ser detectado. Suas res­ postas às interpretações de ensaio (1) e assinalamentos nos darão a medida de sua capacidade de auto-observação. isto é. sobretudo se não há uma situação definida . para assistir às sessões de tratamento.6H Psicoterapia hreve de orientação psicanalitica Finalmente chegaremos à avaliação da potência e plasticida­ de do ego. que devem resolver-se através do tratamen­ to. A motivação para o trabalho terapêutico é susceptível de ser estimulada durante as primeiras entrevistas e no decorrer do trata­ mento. passo tecnicamente essencial para nosso trabalho terapêutico pos­ terior. Outras vezes torna-se mais dificultosa. do mesmo modo que a definição dos objetivos terapêuticos. a escolha e a demarcação do foco são facilitadas. Quando se trata de quadros agudos (neuroses traumáticas. Determinação do foco Trata-se da possibilidade de precisar e delimitar um foco. nos dão uma idéia acerca do grau de motivação do paciente para receber ajuda tera­ pêutica. se o paciente apresenta transtornos ge­ neralizados em todas ou em quase todas as áreas de conduta. de tal forma que não conseguimos destacar um problema ou conflito como ponto de partida. provenientes das entrevistas diagnosti­ cas e da realização dos testes psicológicos. e em espe­ cial sobre sua motivação e condições para o insight (8). Diretamente ligado à capacidade de insight do paciente achase seu grau de consciência da enfermidade. depressões reativas).

como num tratamento analítico. enquanto os diferentes diagnósticos e avaliações citados até «qui constituem as versões interpretativas parciais de tal formulação. de antemão. pelo menos em seus traços princi­ pais. boderline ou neuróticos crônicos). prognóstico e para as indicações e contra-indicaçôes da terapia breve. Sou dos que pensam que o tempo investido no processo psicodiagnóstico. A aplicação de testes psicológicos é muito útil para o diag­ nóstico. que facilite a formulação da hipótese psicodinâmica ini­ cial e conseqüentemente nossa tarefa terapêutica. coloca-se a necessidade de se obter. Quando se recomendà esse tipo de tratamento. essa aplicação adquire suma importância no planejamento terapêutico. em outras palavras. Sobretudo se a terapia é de duração limitada. A determinação do foco e o aprofundamento em sua conflitiva engloba o diagnóstico do ponto de urgência e acha-se por sua vez compreendida dentro da formulação psicodinâmica antecipa­ da . um conhecimento amplo e profundo acerca do paciente. quando se deve empreender uma psicoterapia de duração limitada5. já que esta última não é outra coisa senão uma hipótese diag­ nostica integral. ainda que considerável. ou pelo menos nos casos em que se esbarre com dificuldades diagnosticas e/ou tera­ pêuticas4. cuja enfermidade data de muitos anos. não haverá tempo para esperar a emergência de certos conteúdos. Daí que a aplicação de testes deveria efetuarse de maneira sistemática em pacientes para os quais se prevê a realização de um tratamento breve e planejado.Entrevistas preliminares 69 I de urgência que predomine.B. Tenho dito e o repito: em P. com a base num plano de trabalho determinado. Papel do psicodiagnóstico Embora este não seja meu campo específico de atividade. desejo fazer algumas considerações a respeito3. . às vezes fica ampla­ mente compensado. em geral caracteropatas. nâo encontramos “a ponta do novelo” para abordar o caso através de uma terapia setorial (trata-se de indivíduos com sérias alterações de personali­ dade.

desenho livre. e completar-se com o de Bender. não o é. [5]). e não de maneira isolada. São_elementos para um prognóstico favorável: — . psicodinamismos. Também poderão efetuar-se recomendações terapêuticas. especialmente quanto à capacidade de suportar a separação do terapeuta6. do terapeuta e do âmbito assistencial em que tenha lugar (hospi­ tal. acrescentem-se os testes de inteligência. do Teste das Relações Objetais de Phillipson (5) (10) ou do Teste de Apercepção Temática de Murray (5). Quando as circunstâncias o aconse­ lhem.T. etc. Os dados que se extraem são muitos e valiosos: diagnóstico da personalidade c do quadro psicopatológico. mas também para agilizar o processo terapêutico. desiderativo. por exemplo. Tais fatores devem ser consi­ derados sempre em conjunto. Dentro destas últimas. Avaliação prognostica Em geral é possível realizar uma avaliação prognostica. clínica. na realidade. os mecanismos defensivos. etc. a tolerância à ansiedade e à frustração. o psicodiagnóstico descreve as características das relações objetais (por diversos indícios dos testes projetivos. condições egóicas. figura huma­ na. o Phillipson ou o T.)7. a partir dos dados obtidos (sobre o tipo de tratamento.70 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica Embora pareça contraditório destinar um número apreciável de horas à realização do psicodiagnóstico quando se trata de pou­ par tempo (como ocorre no caso das terapias hospitalares de curto prazo). A bateria de testes a ser empregada pode constar do Teste de Rorscharch (5) (7) (10). e apreciações prognósticas. Os resultados deste dependerão de fatores provenientes do paciente. capacidade de insight. sexo do tera­ peuta. consultório particular). cuja duração poderá eventualmente abreviar-se no alcance dos objeti­ vos propostos. influirão especialmente as diversas condições diagnosticas a respeito dos aspectos já citados. pois a riqueza dos dados que podem ser obtidos não só pode contribuir para a consecução de bons resultados. Com relação ao paciente. so­ bretudo do momento ou quadro atual que motiva o tratamento. a força do ego. etc. como. casal.A.

A devolução diagnóstico-prognóstica Além da devolução dos dados do psicodiagnóstico. as perspectivas prognosticas são favoráveis quando. além disso. mesmo nos casos que apresentem certa gravidade (8). que se trate de um “momento propício” numa enfermidade relativamente crônica. existe uma contratransferência positiva que facilita a instauração dc um bom vínculo com o paciente. plasticidade de defesas. em nenhum caso deveria se omitir (12) . equipe de profissionais. Com relação ao contexto assistência!interessam as possibi­ lidades terapêuticas que oferece em seus aspectos temporais. es­ paciais. como assinala Courtenay (3). cabe uma nova devo­ . • Condições favoráveis do meio familiar e social para o desenvolvimento da tarefa terapêutica e aceitação das mudanças do paciente. É claro que o prognóstico terapêutico. • Egoforte.B. Com relação ao terapeuta. a cargo do psicólogo que o efetuou . etc.Entrevistas preliminares ___ ______ ______ ______ _______ _______ _______ _____ • Início recente e agudo do sofrimento ou problema atual a ser abordado ou. segundo estas pareçam ou não alcançáveis dentro das condições gerais que regerão o traba­ lho terapêutico. deve ser feito em fimção das metas combinadas. etc. além de este reunir as condições necessárias para o exercício da P. • Leveza e limitação da patologia (3). • Capacidade de insight.que por diversas razões. capacidade de estabelecer boas relações objetais e de tolerar adequadamente a separação que sobrevirá ao finalizar-se a terapia (relação transferencial com grau leve de ambivalência e dependência). • Alto grau de motivação para o tratamento.e mesmo que tenha sido outro o pro­ fissional que realizou as entrevistas clínicas. (ver capítulo L4). Incide conside­ ravelmente na produção de bons resultados terapêuficos. • Possibilidade de determinar ofoco antecipadamente (antes de iniciado o tratamento ou em suas primeiras sessões)*. com funções básicas em bom estado.

Mencionarei. já que não é proveitoso fazê-lo nesta etapa. ao lhe apresentar. Isto lhe dará a idéia de que podemos oferecer-lhe nossa ajuda e de que tem possibilidade de resolver seus sofrimentos ou pelo menos de ali­ viá-los. e em parte sugerir. serão transmitidas ao paciente apenas algu­ mas apreciações acerca dc sua problemática. d) Facilitar o passo seguinte. procurando compreendê-las. O entrevistador transmitirá oralmente ao paciente. o conflito do qual julgamos poderiam surgir tais metas. numa lin­ guagem simples e clara. deve abranger referências ao prognóstico capazes de tranqüilizar e reanimar o paciente.72 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica lução da parte deste último.) Como foi dito. Esta segunda devolução é resultante da tare­ fa desenvolvida em equipe e deve antes de tudo manter coerência com relação à devolução psicodiagnóstica. Poderíamos reiterar o mesmo com relação às metas tera­ pêuticas. Trata-se de uma nova contribuição em busca de uma aliança de trabalho. com o que além disso se irá delineando o provável foco terapêutico. sem se estender nem aprofundar em demasia. a devo­ lução será centrada naquilo que em nossa opinião deve converterse na problemática central do tratamento. a seguir. uma vez combinadas. impressões gerais a respeito de sua pro­ blemática. a qual naturalmente será baseada nas conclusões a que chegou. Para isso pode-se recorrer às interpretações denominadas panorâmicas (4). A devolução. nào só depois das entrevistas. que permitem esboçar. que será a escolha de metas te­ rapêuticas. alguns dos objetivos de tal con­ duta: » a) Fazer o paciente sentir que se presta atenção nele e se pensa em suas dificuldades. c) Reforçar sua motivação para entender e resolver suas difi­ culdades por meio da psicoterapia. (Em outras palavras. mas tam­ bém como conseqüência do emprego dos diferentes meios auxi­ liares de diagnóstico. b) Fornecer-lhe certo esclarecimento preliminar a respeito de sua problemática. . psicodinamismos subjacentes à situação-problema. de maneira global. além dos aspectos diagnósticos.

se necessário. Devem-se em princípio conhecer e levar em conta os pontos de vista do paciente acerca das metas do tratamento. em revelar o significado inconsciente de tal conduta e atacar determinados mecanismos defensivos. em outro. É preciso que os objetivos a que se proponham sejam presu­ mivelmente alcançáveis. equivocados ou não segundo nosso julgamento. segundo sua importância. Poder-se-ão classificar como primordiais e secundários. etc. Por exemplo. o tera­ peuta deve formular os fins terapêuticos de um ponto de vista psicodinâmico: em um caso pensará sobretudo em elevar a auto-estima.Entrevistaspreliminares__ _____ ______ ______ ______ ______ _ Contrato sobre as metas terapêuticas e a duração do tratamento Depois de efetuada a devolução diagnostica. seguindo. até chegar a estabelecê-los claramente e de comum acordo. e em explícitos e implícitos. Isso não exclui que por meio de devolu­ ção efetuada se tente chamar sua atenção sobre determinada “conflitiva” e acrescentar sua motivação para enfrentá-la. de acordo com a ordem cronológica em que se procure alcançálos. em atenuar as exigências superegóicas. em imediatos e mediatos. um escalonamento estratégico. que se ajustem às possibilidades que oferecem paciente e terapeuta e às condições gerais em que terá lugar a terapia. O terapeuta se referirá aos objetivos do modo mais claro e simples possível. como: Que expectativas tem acerca do tratamento? Em que problemas você crê necessitar de ajuda? Em que supõe que tem de consistir essa ajuda?. paciente e entrevistador trocarão opiniões acerca dos possíveis objetivos da terapia a ser realizada. As respostas correspondentes nos darão além disso alguma idéia de suas fantasias a respeito de enfermidade e de cura. etc. isto é. já se terá formulado ao paciente perguntas. Também dirá que se procurará melhorar seu estado de ânimo e esclarecer também o que sucede com sua família. Com essa finalidade. Paralelamente. assim como de suajrnotivação e capacidade de insight. num tercei­ ro. se tiverem ou não sido verbalizados e com- . dirá ao paciente que entre ambos poderiam tratar de esclarecer por que ele sente tanto temor quan­ do lhe solicitam qualquer tarefa em' seu emprego e de conseguir que enfrente essas situações de forma mais adequada. etc. dasjquais pro­ vêm os objetivos que ele se coloca.

cabem várias alternativas: / a) aceitar o que propõe o paciente. que o paciente alcance maior consciência da enfermidade ou eleve sua auto-estima. quase cons­ tantemente presentes. Assim. • Em muitas oportunidades. que atuam naquele como ordens). de um pseudo-acordo por submis­ são do paciente às sugestões do terapeuta. que se apresentam especialmente no consultório particular. A isso se tem referi­ do. colocam. uma limitação temporal espontânea ao mesmo: acontecimen­ tos como uma viagem. ou postergá-los para uma segunda etapa.4 _____ Psicoterapia breve de orientação psicanalitica binados cora o paciente. poderá contar ou não com um final prefixado. etc.) Quando não se chega a um acordo real sobre as metas da te­ rapia (pode tratar-se. Em lugar de encarregar da duração do . mas também a duração do tratamento deveriam. caso em que o terapeuta deverá renunciar aos propósitos terapêuticos que tinha previa­ mente.6. • Em outras ocasiões. c) se as dissidências forem muito grandes. a duração do tratamento depende do que o terapeuta e o paciente resolvam. A duração de um tratamento breve varia segundo as circuns­ tâncias: • Pode estar predeterminada por modalidades institucionais. antes de seu início. também constituem por conseguinte objeti­ vos terapêuticos gerais. por exemplo. por exemplo. que estabelecem prazos para os tratamentos geralmente de modo convencional e que correspondem a necessidades organizacionais dentro do planejamento assistencial que tais instituições adotam (de 3. ser estabelecidos de comum acordo entre terapeuta e paciente. Não só os objetivos. por acaso também adequada. poderão determinar uma finalização obrigatória. inclusive. entre nós. que sur­ gem em cada caso.). diferenciados dos particulares. situações próprias do paciente. não efetuar V nenhum tratamento9. dentro do possível.12 meses. (Toda terapia breve de insight pressupõe a existência de fins terapêuticos inerentes à natureza mesma do processo. que inclusive podem ter motivado o tratamento. b) realizar uma tarefa de esclarecimento que tenda a motivar o paciente a emj preender uma terapia com base nas metas que consideram conve­ nientes. Esses fins. Ulloa (13). por sua vez.

se se fixa um prazo. seus receios diante do tratamento são menores. tranqüiliza-os saber. mas que buscaremos soluções depois de uma revisão adequada da situação. “A fixação do tempo . os quais em princípio não concebem que a psicoterapia deva estender-se demasiadamente no tempo para solucionar seus padecimentos. quer dizer. sg.tempo para um pode não ser para o outro. Em contrapartida. de desconfiança (habitualmen­ te com marcados traços fóbicos ou paranóicos).não muito longínqua .assinala Ulloa . Por último. outras vezes a limitação de tempo parece necessária para estimular e agilizar o trabalho terapêutico do paciente. a fim de a elaborarem conjuntamente. Isso não implica que aceitaremos ingenuamente as idéias do paciente.ou muito . ou que este tenha a impressão de que é imposta pelo terapeuta. Esta situação se apresenta mais comumente em pacientes de es­ trato socioeconômico baixo. como condição primordial.para a finalização. pode ser conve­ niente determinar uma data exata . sendo até possível que depois dese­ jem prolongá-lo.Entrevistas preliminares 75 tratamento fatores alheios à situação mesma do paciente. Quando a duração do tratamento for determinada de antemão. seria pre­ ferível que se pudesse obter uma vez mais a opinião do paciente sobre essa questão. seus fins não se cumprirem)10.faz-se com a participação explícita do paciente no nível em que ele esteja capacitado para tal elaboração” (13). O que é pouco . que a mesma guarde relação direta com os objetivos terapêuticos pro­ postos. que existe uma data em que o tratamento será concluído/Dessa maneira aceitam com menos dificuldades serem tratados./ . do que quando se acham ante uma terapia de duração indeterminada. Fixar previamente uma data para o término da terapia supõe vantagens e desvantagens. com o objetivo de evitar fantasias de ser preso numa armadilha pelo terapeuta. mas às vezes ocorre o contrário: para antepacientes que apresentem uma atitude receosa e. Se não apelarmos com flexi­ bilidade para este recurso estratégico. o mais comum é que a abandonem em algum momento ou que simplesmente não a ini­ ciem. uma vez chegado o seu término. o melhor será não limitá-la. desde o começo. com o tempo que empiricamente estime neces­ sário para cada paciente alcançar esses objetivos (sem que isso seja um impedimento para efetuar uma recontratação do tratamento. o terapeuta deve procurar. Com freqüência.

quais serão. suas funções. que em princípio costu­ mam provocar as interpretações. e que em P.76 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica Além disso. tomando conhecimento da técnica que orien­ tará o trabalho de ambos. em vez de resistir. Quando se pensa em efetuar uma psicoterapia interpretativa. procuraremos fazer com que se familiari­ ze o mais rápido possível com o tratamento e se abrevie a etapa de ansiedade. que vá mais além do que lhe permite seu senso comum. um balanço dos resultados obtidos. poderá pelo contrário coope­ rar com o terapeuta. ou seja. e que isso será efetuado através de interpretações. que será baseado sobretudo em revelar-lhe aspectos obscuros ou desconhecidos para ele. dever-se-á fazer empenho em explicar-lhe cuidadosa e detalhadamente o que será sua regra básica defuncionamento no decorrer da psicoterapia. O benefício dessa tarefa informativa reside em que o paciente. realizará.). (Da regra básica de funcionamento ocupo-me no capítulo 6. junto com o terapeuta. considero que possa ser prejudicial. No que diz respeito às funções do paciente. que uma vez ter­ minada a terapia. para o que ambos levarão em conta seu estado nesse momento. é mister explicar ao paciente. poder-se-á explicar-lhe que se trata fundamentalmente de ajudá-lo a compreender melhor sua situação. pp. das quais se dará alguma idéia elementar. respecti­ vamente. Desse modo. fixação de entrevistas de con­ trole. as do terapeuta e eventualmente as da equipe terapêutica. tentando trazer-lhe um ponto de vista diferente. 89 ss. e que a partir daí se resolverá a conduta mais ade­ quada a assumir (separação final. que podem estar provocando e/ou incrementandq seus sofrimentos. Fixação das demais normas contratuais É útil oferecer ao paciente uma idéia acerca das característi­ cas do tratamento que terá de seguir. Explicitação do método de trabalho. indicação de outro tratamento. desconcerto ou estranheza. etc. Com relação a isso costumo advertir ao pa- . à intolerância das ansieda­ des provocadas pelo desconhecido.) Convém que o paciente tenha uma noção prévia do papel do terapeuta. recontrato.B.

Referências bibliográficas 1. em F. Àlcxander e T. Terapêutica psicoanalitica. mas. graças a seus conhecimentos e expe­ riência. datas do térmi­ no do tratamento. corresponde ao fato de que tais dificuldades superam suas^possibilidades de solucioná-las jíor sua conta. ainda que minimamente. devem fixar-se as diferentes condições do conta­ to terapêutico. “Indieaciones para la terapia”. não menos benéficos para o desenvolvimento do tratamento: cabe as­ sinalar ao paciente que nossa tentativa de fazê-lo entender suas dificuldades a partir de uma nova perspectiva. Também convém informar o paciente se se pretende empre­ gar outros recursos terapêuticos (psicofármacos. entrevistas com familiares. A todos esses esclarecimentos podem agregar-se outros. do lado de fora. French. Alexander.. honorários. Por último. freqüência e duração das sessões. em especial as correspondentes aos aspectos espaço-temporais do enquadramento: posição espacial do terapeuta e paciente (geralmente devem sentar-se frente a frente). horários. seu sen­ tido e alcance. pode tornar-se pos­ sível entendê-lo e ajudá-lo. Buenos Aires.). acrescento ante uma sugestão de Montevechio (9) é de se esperar que ao protagonista de uma situação perturbadora resulte difícil compreender com clareza o que está acontecenjio ao seu redor e que.Entrevistas preliminares 77 cicnte que é possível que minhas intervenções. como também a fantasia de onipotên­ cia do terapeuta. particularmente no início do tratamento. etc. 1965. cap. lhe pareçam apesar de tudo um pouco es­ tranhas.). . das entrevistas de avaliação e do novo psicodiagnóstico. etc. Com isto tende-se a contrabalançar sua sensação de fra­ casso ao ter de ir à consulta. que lhe permita en­ frentá-las melhor. para o terapeuta. comunicando. F. Paidós. e que na realidade notará alguma diferença em relação às conversas que mantém habitualmente com as pessoas. sendo conveniente que se ajuste desde o primeiro momento a uma relação mais “real” com este (9). Os demais detalhes não diferem do que já se conhece (férias do terapeuta. VI. feriados. eventualmente.

Âmér. cap. L. Buenos Aires. E. Psicoterapia breve.1. L. L. . “La primera entrevista era psicoterapia breve". (Versão castelhana: La psicoterapia breve. Psicoterapia breve y de emergencia. Garcia Arzeno. J. L. XIV. 1972. 1969. Nueva Vision. Teoria y técnica de psicoterapias. Harrower. L. PaxMéxico. Fiorini. e Small. M. em 10. Ocampo e M. R. Nuevas perspectivas en salud mental. 5. Fiorini. t. Buenos Aires. em M. Buenos . “El proceso psicodiagnóstico”. Wolberg. México. Granica. n‘. em FI.78 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica Aires. em M. Tavistock. Ulloa. Friedcnthal. 4. “Indicadores para la recomendación de terapia breve extraídos de la entrevista devolutiva”.... Small.. XI. cit. S. Instituciones y problemas. . 1968. M. 1974. Buenos Aires. E. Malan. e García Arzeno. 6. F. Nueva Vision. García Arzeno. M. O. 4. ob. H. M. Buenos Aires. 1973. Springfield. Centro Editor de América Latina. A Study of Brief Psychotherapy. 1968. Ocampo e M. IX. H. em W. M. Citado por L.. Buenos Aires. 2. Psicoterapias breves. Beliak. cap. 3.. García Arzcno. vol. cap. Ocampo. Ocampo e M. psicol. L. H. Londres. I.. Las técnicas proyectivasy el proceso psicodiagnóstico. Gredos. 7. “Comentário al artículo de Hector Juan Fiorini”. 1968. t. Nueva Vision. “Cómo ve cl tratamiento breve un psicólogo clinico”. 10. D. 12 . “La entrevista de devolución de información”. Lat. 8. B. R. em 10. 1963. Londres. Montevechio. J.. “La recomendación de psicoterapia a partir dei diag­ nóstico psicológico”. Illinois. cit. Tavistock.) 9.’2. Madrid. E. 11. E. ob. 1. Courtenay. 11 . em M. Comunicación personal. em L.) e outros. 1973. 13. S. 11. Comunicación personal. S. S. García Arzeno. Acta psiq. Sexual Discord in Marriage. Grimson (comp.. cap. Charles Thomas.. E.

Com relação ao paciente. já estaremos em condições de estabelecer um planejamento estratégico adequado. Planejaremos nossa ação terapêutica com base numa estrutura de foco terapêutico inicial. Com relação ao terapeuta e à instituição. da recolocação das distintas questões técnicas que são suscitadas em .5. Planejamento do tratamento I f A elaboração de um plano terapêutico é uma das característi­ cas que distinguem as psicoterapias breves. Diversos autores têmse referido à necessidade de planejamento. Um programa terapêutico deve surgir. do terapeuta e eventualmente da instituição. entre eles French (3) e Alexander (1). Este consiste no projeto de rima estratégia terapêutica. Para conceber a estratégia. o que demonstra a importância que tais autores outorgam ao plane­ jamento. dever-se-ão considerar fatores como a experiência prévia daquele e sua habilidade no manejo dos distintos recursos (fatores que deverão ser levados em conta em relação a toda a equipe terapêutica). que terá culminado no desenvolvimento de uma for­ mulação psicodinâmica antecipada (3). necessariamente. será essencial partir dos vários dados obtidos pela avaliação diagnóstico-prognóstica (ver capítulo 4). assim como as pos­ sibilidades que oferece a instituição. que em algumas passagens da Terapêutica psicanalítica chamam ao tratamento breve terapia planejada (2) (3). Com a revisão desses elementos. dever-se-ão ter presentes diversos elementos provenientes do paciente. efetuado com o fim de alcançar os objetivos propostos.

número e periodicidade'das sessões sema­ nais. inclusão de familiares e/ou pessoas que lhe são pró­ ximas. cstabelecer-se-á muito especialmente a atitude terapêutica a ser assumida diante dos distintos mecanismos defensivos do paciente (incisiva ou pelo contrário de abstenção. os diversos tipos de intervenção do terapeuta (interpretações em suas distintas variantes. perguntas. técnicas dramáticas. informa­ ções. serviço social.). a atitude geral do terapeuta ante o paciente (cálida.HO Psicoterapia breve de orientação psicanalítica cada caso particular. O planejamento deve. Recomendo sobretudo não omi­ tir tudo o que se refira à conclusão do tratamento. por exemplo). tender para a previsão dos possíveis rumos e das características que pode tomar o processo terapêutico em seus aspectos mais gerais. além disso. ainda que elementar e provisória.) que. A experiência demons­ tra que é conveniente contar desde o começo com uma idéia ante­ cipada. logicamente.) e o uso de outros recursos terapêuticos (psicofármacos. aqueles que serão deixados de lado e a provável seqüência de tal abordagem. Inclui a determinação do tipo de psicoterapia a ser aplicada (em que predomine o insight. irá sendo regulada pelos indicadores que aparecerem no decorrer das ses­ sões. muito ativa. diretiva. Outros aspectos relevantes a serem considerados serão: as regras de funcionamento do paciente durante o tratamento (ver capítulo 6). cautelosa. duração total do tratamento. ou inclusive de reforçamento desses). etc. Também é útil pensar em possíveis inconvenientes terapêuti­ cos que possam surgir durante o tratamento e na melhor forma de enfrentá-los (3). organizar-se-á tudo o que se refere às condições temporais (duração. etc. assinalamentos. e ainda em tarefas a realizar se a evolução do paciente o permitir (a abordagem de determinado conflito subja­ cente. os conflitos que vamos abordar. do princípio do desen­ volvimento e do final da terapia. que em certa medida também deverá ser planejada: será necessário prestar atenção às situações que poderá reviver cada paciente na ocasião de enfrentar o luto pela separação do terapeuta e de acordo com isso ao tipo de relação objetai e ao grau de tolerância à frustração que apresenta. etc. sugestões. etc. de fortalecimento egóico ou de apoio).) e espaciais do enquadra­ mento. Projetar-se-á então alguma tarefa em relação a tal luto que até em sua mínima expressão inclua sempre o assinala- .

Alexander e T. . 3. em 1. em F. Buenos Aires. ob. por­ que de nenhum modo dever-se-á entender que todas essas medi­ das possuem um caráter rígido c inalterável. Por isso. “Planificación dc la psicoterapia”. cap. recordemos que o planejamento cpstuma ser fa­ cilitado e enriquecido pela participação nele. French. T. IX. em síntese. 1965. ao ladb do terapeuta. “Eficacia dei contacto breve”. “Alcance dc la psicoterapia”. Mas essas alternativas só podem ser previstas até certo ponto. profunda e definitivamente mais adequada do projeto terapêutico. . tais como o nú­ mero de sessões semanais a se estabelecerem nas últimas etapas do tratamento (ver capítulo 9). para poder enfrentar com eficácia as situações mutáveis e inespe­ radas que podem apresentar-se no decorrer do tratamento. French. o que resulta essencial para se obter eficácia terapêu­ tica. deve ser sempre esta. Trata-se em suma que a terapia não fique entregue exclusiva­ mente à intuição e à improvisação sobre o seu andamento (2). pelo contrá­ rio. considero que quando numa terapia está envolvida uma equipe de especialistas (dois ou mais profissio­ nais).que devem colocá-lo em prática em seguida. 2 . em F. O intercâmbio de dados e idéias freqüentemente possibilita uma elaboração mais minuciosa..Planejamento do tratamento 81 mento da situação de perda. que além disso será comparti­ lhado precisamente por aqueles. cit. dos demais profissionais que eventualmente intervenham no tra­ tamento. cap. em 1. Alexander. Alexander e T. Referências bibliográficas 1. ob. cit. Terapêuticapsicoanalítica. Finalmente.. F. French. o terapeuta deverá ser dotado de uma flexibilidade tal que lhe permita itiodificar seus planos quando as circunstâncias o exijam. a encarregada de elabo­ rar o programa terapêutico. cm F. envolvendo detalhes. Alexander e T. Paidós. já que. em conjunto. French. VII.

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considerar-se-á em primeiro lugar a relaçào paciente-terapeuta. entre os quais incluo aqueles em que minha própria experiência é maior (uso de psicodrogas e participação de familiares e/ou pessoas próximas do paciente). . que se apoiará dentro do possível em hipóteses.6. dedicando uma maior exten­ são às interpretações. em seguida referir-me-ei à regra de funcionamento para o paciente. assim como a de planejamento. figuram algumas reflexões acer­ ca das sessões e de outros recursos terapêuticos. e ao papel que nesta última poderia caber ao método psicanalítico de associação livre. por último. O tratamento [ Introdução Uma vez cumpridas as etapas diagnostica e contratual. examinarei os ele­ mentos psicoterapêuticos verbais. instrumento fundamental na P. psicanaliticamente orientada. psicopatológicas e terapêuticas consistentes e ao mesmo tempo "em objetivos e enquadramento definidos. inicia-se o tratamento. depois abordarei o problema da atenção do terapeuta em relação à tarefa de focalização. que terá de ser adotada no decorrer da terapia. de imediato. Com relaçào aos diferentes aspectos de técnica concernen­ tes ao tratamento propriamente dito. cujo estudo é ponto de parti­ da obrigatório para a compreensão dos temas subseqüentes.B.

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Psicoíerapia breve de orientaçãopsicanalitica

A relação paciente-terapeuta no tratamento breve
Referir-me-ei à relação terapêutica na psicoterapia dinâmica breve e às diferenças existentes entre ela e sua correspondente no tratamento psicanalítico. Tomarei como base um resumo que in­ clui a opinião de alguns autores acerca do tema. Para compreender o porquê das particularidades do vínculo terapêutico em P.B., convcm considerar primordialmente o que acontece em relação à transferência e à neurose transferencial re­ gressiva1. Antes de passar a ver como podem ser manejadas em uma terapia breve de orientação psicanalitica, efetuaremos uma rápida revisão das características da relação terapêutica no trata­ mento psicanalítico, que servirá portanto para apontar diferenças significativas. Há, no contexto psicanalítico, condições que facilitam o esta­ belecimento, o desenvolvimento e a análise da neurose transferen­ cial regressiva, a qual, como disse antes (ver capítulo 3, p. 26), é fundamental no processo terapêutico. Assim observamos que: O analista procura manter o anonimato - o que por sua vez contribui para criar um clima de ambigüidade a fim de não en­ torpecer a produção dos fenômenos transferenciais; além disso, trata de adotar uma atitude neutra e relativamente distante, o que também implica promover no paciente uma situação de frustra­ ção; o vínculo é marcadamente assimétrico, fato acentuado, entre outras coisas, pelo uso do divã. Também no aspecto temporal, o enquadramento favorece a dependência regressiva, constando de várias sessões semanais e de uma duração do tratamento, em princípio, não limitada. Com relação à situação espacial, a posição do paciente, dei­ tado no divã, encontra-se ligada a fenômenos regressivos, tais co­ mo o dormir e o meditar, e fomenta, além disso, o desenvolvimen­ to da neurose transferencial, dado que, ao estar o paciente privado de ver o analista, o teste de realidade torna-se mais difícil. A regra fundamental psicanalitica, que consiste no emprego, por parte do paciente, da associação livre, determina neste, por si mesma, um funcionamento mental regressivo. Sob outro ponto de vista cabe acrescentar que, de acordo com Racker (37), ao impli­ car a abolição do rechaço às associações e à sua comunicação e a

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superação das resistências que por isso se vão produzindo, a regra fundamental incide na transferência na situação analítica, confe­ rindo-lhe uma intensidade particular, pois se produz, em conse­ qüência, a projeção dos objetos internos no analista, especialmen­ te do superego. O analista, por sua vez, emprega a atenção flutuante, tenden­ do assim a uma comunicação dc inconsciente para inconsciente (17). Intervém verbalmente, partindo do material que o paciente traz dc maneira espontânea, e sobretudo mediante a interpretação; ante os silêncios, costuma manter uma atitude de espera, permi­ tindo que se prolonguem. As interpretações transferenciais são muito valorizadas, cons­ tituindo, para a maioria dos analistas, o instrumenti técnico es­ sencial, e para alguns inclusive o único com efeitos‘modificado­ res (4). Penso que tais interpretações encorajam o paciente à revi­ são minuciosa e profunda de suas fantasias transferenciais e pro­ movem a revivescência de situações infantis, favorecendo assim o desenvolvimento da neurose de transferência. Na psicoterapia breve, em troca, devem desencorajar-se tan­ to o desenvolvimento da regressão como o da neurose transferen­ cial (ver capítulo 3, pp. 27 s.), e inclusive faz-se necessário con­ trolar dentro do possível a intensidade dos fenômenos regressivotransferenciais. Disso deriva uma série de medidas técnicas que conferem perfis próprios à terapêutica breve. O vínculo que se estabelece com o paciente é mais realista e definido, já que a ambigüidade aqui é inconveniente (11), pois promove situações persecutórias e por isso regressivas. Uma rela­ ção mais baseada na realidade contrabalança as tendências ao es­ tabelecimento de uma relação transferencial neurótica. Fiorini qualificou o papel que o terapeuta deve assumir na psicoterapia de esclarecimento (em boa medida equiparável, de acordo com a descrição deste autor, à terapia dinâmica breve) como papel real de docente experiente, sublinhando assim o que seria, a seu ver, um dos aspectos mais importantes (7). Por parte do terapeuta, e ao contrário do que ocorre no trata­ mento psicanalítico, existe uma maior proximidade afetiva, que sc espera opere positivamente sobre o processo terapêutico. É que cm princípio será preciso que se estabeleça rapidamente um bom

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Psicoterapia breve de orientação psicanalítica

rapport, sobretudo se se trata de uma terapia cujo tempo será limi­ tado; dever-se-á fomentar o rápido desenvolvimento de uma alian­ ça terapêutica , condição básica para aspirar ao êxito. O terapeuta

deverá então, na medida do possível, mostrar-sc moderadamente cálido, oferecer uma imagem confiável e demonstrar interesse pe­ los problemas do paciente. A relação terapêutica exige a manutenção de um delicado equilíbrio entre gratificações e privações do paciente. Deve-sc per­ mitir-lhe certo grau de gratificação de necessidades emocionais (por exemplo, respondendo às perguntas formuladas por ele [42]); do contrário corre-se o perigo de despertar ou incrementar - por causa do ressentimento provocado pela frustração - a produção de reações hostis passíveis de determinar um aumento das resistên­ cias, às quais não teremos tempo suficiente para nos dedicar. Gra­ tificá-lo em demasia pressupõe, do mesmo modo, certos riscos, tais como dificultar a integração da agressividade e favorecer a dependência (33). Dever-se-á, em suma, tender à manutenção de uma relação transferencial positiva sublimada ao longo de toda a terapia (2). Só assim poderemos esperar que o paciente assuma uma atitude de colaboração e possa aceitar e utilizar com proveito as interpre­ tações2. Sentimentos transferenciais de idealização muito intensos podem complicar e prolongar o tratamento; quando juirgejrn, é preciso dissolvê-los prontamente mediante a tarefa interpretativaT Cabe dizer o mesmo a respeito da hostilidade e do erotismo trans­ ferenciais. Finalmente, a relação será menos assimétrica que no trata­ O número reduzido de sessões semanais e a duração limitada e geralmente prefixada do tratamento breve desencorajam a re­ gressão. A posição frente a frente, que é habitual em terapias breves, diferentemente do que se adota em psicanálise (emprego do divã), atua contrapondo-se às tendências do paciente ao desenvolvimen­ to da regressão e da neurose de transferência. (A percepção visual ajuda a que se situe na realidade.) Tal posição aparece, além disso, como a mais adequada ao tipo de comunicação que tem lugar en­ tre paciente e terapeuta nessas terapias, posto que se traduz num
mento psicanalítico.

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intercâmbio verbal fluido, mais próximo de um diálogo corrente queopsicanalítico. Temos recordado que a regra fundamental da psicanálise é um dos fatores que explicam a intensidade particular que a transferên­ cia adquire no tratamento psicanalítico. Como em P.B. se trata de evitar um efeito dessa natureza, considero que tal regra não deve ser empregada do mesmo modo que no tratamento psicanalitico. Mais adiante abordarei exaustivamente esse ponto (pp. 89 ss.). Voltando ao tema da comunicação em.P.B., é preciso assina­ lar a função ativa que o terapeuta tem de exercer, e que será deci­ siva para o alcance de bons resultados. Isto se deve em primeiro lugar à sua possível incidência no vínculo, coadjuvando na manu­ tenção de uma transferência positiva - cm contrast«? com os efei­ tos que teria uma atitude menos participante, que pudesse gerar descontentamento ou hostilidade. Deve-se também ao fato dc que um papel ativo tem importância para a gestão da focalização da tarefa terapêutica (14), dado que comumente é necessário alcan­ çar determinadas metas e se dispõe de tempo limitado para isso. A situação requer certa ativação egóica no paciente, que se consegue precisamente através desse funcionamento ativo, pois nâo pode­ mos esperar demasiado tempo para que vença, por si mesmo, suas dificuldades para se manter numa comunicação terapêutica pro­ dutiva e poder aprofundar-se no conflito em questão. O terapeuta simplesmente tenta agilizar o intercâmbio, procurando produzir um efeito catalisador no processo terapêutico. Ao mesmo tempo deve dedicar-se desde o começo e plenamente a ajudar o paciente a resolver situações perturbadoras de sua vida diária. Com tal fim, recorrerá com freqüência a intervenções não-interpretativas. For­ mulará perguntas, assinalamentos, efetuará sugestões, oferecerá informações. Às vezes terá de tomar a iniciativa na comunicação (12), propondo o tema a ser tratado. (Exemplo: “Vejamos aquilo que você mencionou de passagem na última sessão.” Ou por meio de perguntas: “Como passou este fim de semana? Aconteceu al­ guma coisa especial?”.) E quanto às interpretações, têm de estar dirigidas fundamentalmente ao esclarecimento da conflitiva fo­ cal’. Em suma, o papel do terapeuta é mais ativo e diretivo que na técnica psicanalítica no que concerne à atitude ante o material que o paciente traz. O terapeuta encaminha a exploração em uma de­

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terminada direção, escolhendo entre o material aqwek-ídativQJiQ. foca e descartando o extrafocal4. Em certas ocasiões, pode caber ao terapeuta uma participa­ ção decididamente ativa e direta nos problemas atuais do pacien­ te. Por meio de sugestões, poderá incidir em alguma medida sobre eles. Assim, por exemplo, ante uma situação fobígena talvez con­ sidere necessário, depois que o paciente alcançou certa com­ preensão psicológica do conflito, estimulá-lo a enfrentá-la (27) (49), atitude avalizada já desde 1918 por Freud, com suas reco­ mendações acerca do tratamento das fobias (21), e posteriormente adotada por muitos profissionais na terapia psicanalítica. A res­ peito disso, expressa Ilaley: “A psicanálise dos tempos de Freud não era somente mais breve , mas também mais ativa. Freud esco­ lhia o tema sobre o qual um paciente tinha de associar e quando este obtinha algum insight do problema sugeria-lhe que se mos­ trasse ativo em sua vida pessoal , agora que já dispunha de tal conhecimento” (26)3. (Os grifos são meus.) Em geral evita-se o prolongamento excessivo dos silêncios, não só porque incrementa a ansiedade e a conseqüente regressão (42), mas também porque se trata de utilizar operativamente o tempo disponível. Em particular, os silêncios prolongados do te­ rapeuta podem provocar hostilidade transferencial devido à frus­ tração ocasionada. Ante a posição frente a frente entre terapeuta e paciente, tam­ bém adquirem significação as manifestações pré-verbais do pri­ meiro. E necessário levar em conta a repercussão dos seus gestos e de sua atitude corporal no paciente se se pretende propiciar a produção de uma aliança terapêutica. Wolberg recomenda que o terapeuta dê “livre expressão à sua mímica facial” (48). É claro então que essas contribuições ao processo de tratamento, que po­ deríamos chamar de expressões terapêuticas do terapeuta , como o olhar atento e os gestos que revelam interesse pelo relato do paciente, serão benéficas, desde que sejam espontâneas e não-estudadas. Por último, o tratamento efetuado no contexto institucional e o uso de diferentes recursos terapêuticos, com eventual participa­ ção de outros profissionais ligados ao campo da saúde mental, são fatores que contribuem para modificar as condições da relação

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terapêutica, já que introduzem diversas variantes no campo dos fenômenos transferenciais e contratransferenciais, marcando no­ vas e substanciais diferenças com o que acontece na psicanálise individual (7) (14).

Uma regra básica de funcionamento em psicoterapia breve de orientação psicanalítica
Na técnica psicanalítica, Freud instituiu o método da associa­ ção livre? pelo qual o paciente deve comunicar ao analista o que lhe ocorrer, quer dizer, todos os pensamentos que assomem à sua mente, sem nenhuma restrição. A livre associação é* junto com os sonhos e os atos falhos, uma via facilitadora de acesso ao incons­ ciente. e ao reger de modo praticamente ininterrupto no decorrer do tratamento psicanalítico, configura o que Freud chamou de “regra fundamental”. No terreno das terapias de tempo e objetivos limitados sur­ gem várias interrogações relacionadas com este tema: 1) Qual deve ser a regra de funcionamento para o paciente? 2) Que papel há de lhe caber no procedimerUo da livre associação? Deve-se deixá-la completamente de lado ou, pelo contrário, é necessário empregá-la? Neste último caso, como, do mesmo modo que no tratamento psicanalítico ou diferentemente? Revisando as obras mais destacadas da bibliografia corres­ pondente à psicoterapia breve de orientação psicanalítica, desco­ brimos que, apesar de se tratar de um aspecto técnico de decisiva importância, ou se tem omitido toda a referência à regra da asso­ ciação livre (abundando em troca as considerações sobre outros temas, tais como o papel da transferência, o das interpretações, etc.) ou no máximo registram-se alguns pontos de vista em tomo da mesma - em geral no sentido de não utilizá-la - na maioria das vezes formulados “de passagem” e com certo caráter dogmático. Vejamos alguns deles: “(...) é desacertada essa atitude passiva e abstencionista, como também o c a associação livre (...)”; “Em geral, a falta material de tempo não nos permite empregar os recursos tradicionais da associação livre, passividade e anonima­ to”. (L. Wolberg [48]. Os grifos são meus.) “Não acredito nesses

a associação livre. sus­ tenta que a indicação que se dá ao paciente de “dizer o que lhe venha à mente” raramente parece ser necessária. durante o mesmo. Produz efeitos regressivos. O emprego constante do método da associação livre (“regra fundamentar’ da psicanálise) nos tratamentos breves Começarei por examinar as vantagens e as desvantagens que acarretaria o uso constante (desde o começo do tratamento e de modo praticamente continuo. pela projeção do . Em outra parte do livro. Esse fato é conveniente para o tratamento psicanalíti­ co. Analisaremos primeiro as desvantagens. assemelhando-se a fenômenos como a meditação e o sonho. De minha parte. em que o paciente se senta para discutir a seu bel-prazer qualquer tema que se apresente e a falar praticamente de tudo o que aconteceu e vai acontecer. A associação livre no processo psicanalítico favorece a re­ gressão e constitui em si mesma um funcionamento mental re­ gressivo. tal como se faz no tratamento psicanalítico) da associação livre em terapias breves. Também Malan. tais como: a) Incrementar as ansiedades paranóides (entre outros motivos. não é um instrumento essencial” (Bellak e Small [2]). em especial do su­ perego (37). mas não para a P. ao dar lugar à ime­ diata projeção dos objetos internos no analista. sem uma idéia diretriz. não se explicitam claramente os funda­ mentos em que se sustentam esses critérios7. determina uma maior intensidade de transferência no tratamento psicanalítico. pelo emprego da associação livre. 84) no sentido de que a abolição do rechaço às associações e à sua comunicação por parte do paciente. em sua obra sobre psicoterapia breve. enquanto tal. da­ rei minha opinião acerca dos problemas que aqui se colocam e que considero que requerem um estudo mais minucioso. Já recordei os con­ ceitos de Racker (p.. “Na psicoterapia rápida. fala em desencorajar a associação livre (34)t No meu entender.B. já que no caso desta última nosso propósi­ to é o de proteger o paciente tanto da regressão como da neurose de transferência. sobretudo em se tratando de uma psicoterapia breve” (Hoch [28]).90 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica tratamentos difusos.

também abre brechas no paciente. embora não duvide de que antes de mais nada é preciso que seja o terapeuta quem não perca de vista os objetivos do tratamento. inadequada a essas tera­ pias. Mas cabe agora examinar as vantagens de se adotar a “regra fundamental”. Desse mo­ do. em terapia breve. mostrando-lhe a relação . na I maioria dos casos não me parece recomendável. a desconexão .o motivo de preocupação não deve ser tanto que . c) Conduzir o paciente à dispersão .e suposta conveniência . f Em suma. Sua aplicação pode ser especial­ mente útil quando se trata de pacientés com excessiva tendência à intelectualização. Seriam definidas desde já. -reitero. fato que pode resultar propício no tratamento para ser utilizado como o “argumento” ou “libreto” conhecido de antemão. Finalmente isso leva a acentuar a dependên­ cia regressiva em relação ao terapeuta. situação que. a qual. que ficam então a descoberto. pois permite que aflore material vinculado a outros conflitos relativamente alheios ao foco. levado pelo curso de suas associações.ou. imagino. Em grupos de discussão. pela facilitação do aces­ so aos conteúdos inconscientes.0 tratamento 91 superego sobre o analista e o temor ao próprio e desconhecido que poderá emergir). alguns colegas me assinalaram a possibilidade . quer dizer. e por conseguinte o que corresponde à conflitiva focal . com o que se respeitaria a essência do procedimento em seu caráter de tera­ pêutica focal. ele se desvia excessivamente das situa­ ções conflitivas a serem tratadas (sem maior aproveitamento do tempo em função do problema central do tratamento). o emprego constante do método da associação livre no tratamento intensificaria os fenômenos transferenciai sregressivos até um ponto indesejável.de que em terapias bre­ ves todo paciente se ajustasse permanentemente à livre associa­ ção sempre que o terapeuta recorresse a intervenções focalizadas.do material com a problemática principal do tratamento. pois nesse caso a defesa pode ser incrementada se têm de se referir a um tema determinado (à situaçào-problema). b) Gerar uma atmosfera de ambigüidade. a meu ver. Sem dúvida. Talvez seja essa uma das poucas situações de exceção em que se poderia apelar para o uso da “regra fundamental”9. inclusive os uierentes a situações ou etapas arcaicas. além de certo nível pode perturbar consideravelmente um tratamento de duração breve. pelo que. deverá ser desencorajada8. pelo contrário.

característica dominante dessas terapias. . por exemplo.ao afastamento dela. Por outro la­ do. sim. atuando de modo mais diretivo no que diz respeito à orientação que deverá imprimir ao pensamento do paciente em direção a uma problemática deter­ minada). se interponha reduzin­ do ou até deixando sem efeito a associação livre espontânea do paciente. isto é. pressupõem a presença de tal situação claramente definida e dc suficiente intensidade traumática. O terapeuta. o certo é que nem todos os casos tratáveis por meio da PB. a posição frente a frente. a eventual conexão entre as associações espontâneas e os elementos focais. acrescento a este requisito os benefícios que comumente oferece o fato de que também o paciente concentre sua atenção desde o princípio nos problemas a resolver. razão pela qual a utili/ação da “regra fundamental” psicanalítica poderia dar lugar em alguns momentos ao aprofun­ damento na estrutura focal. como o atesta a experiência clínica psicanalítica (com as denomi­ nadas neuroses traumáticas.e insisto neste aspecto . até agora. costuma perturbar a associação livre. neste. que é a usual nessas terapias. com suas freqüentes inter­ venções. mas sim que o terapeuta se descuide de relocalizá-lo nele. com as conhecidas conseqüências. e não creio que as vantagens provenientes do uso da associação livre. mais do que sobre associações livres”.) Assim mesmo. dados os inconvenientes que o mesmo pode acarretar e que já foram assinalados"'. ainda que seja possível que no caso de uma situação traumática de reconhecida eficácia patogênica as associações livres do paciente girem em sua grande maioria em tomo dela. mas também sugerindo temas ou fazendo perguntas. como em outros .92 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica o paciente “saia do foco”. quer dizer. o que Fiorini chamou de “associa­ ções intencionalmente dirigidas”. sejam argumento suficiente para seu em­ prego sistemático e constante. graças às quais promove a ativação egóica no paciente (não só através de assinalamentos e interpretações. por exemplo). entrando em aberta contradição com esta como método de trabalho. estimulará. a focalização conduz a trabalhar sobre associações intencionalmente dirigidas. quer dizer. afirma este autor [8]“. a “enveredar por outros Raminhos”. e em boa medida. Assim sendo. (“Operativamente. o que pode ocorrer na prática das terapias bre­ ves? Que o papel ativo e focalizador desempenhado pelo terapeu­ ta.

Por esses motivos. costumo formular uma prescrição de trabalho para os pacientes antes de começar o tratamento breve que consiste no seguinte: esclareço-lhes que poderão falar do que desejem. pensamentos variados. Se a norma de funcionamento se baseia nessa premis­ sa. isso não implica que sem sua ajuda esta não Seja exeqüível.” Isso significa que. . Além disso. como de recordações. Do mesmo modo que com outros recursos da técnica psicanalítica. gerando-se um menor montante de ansiedade paranóide. o natural e lógico para o paciente é ter que falar ante o terapeuta fundamentalmente de seus sintomas e situações conflitivas. os quais terão de se converter em tema primordial da terapia (focalizaçâo). Uso operativo do método da associação livre nos tratamentos breves Será necessário descartar quase por completo a utilização da associação livre em terapias breves? Penso que não. mas que em princípio convirá que se refiram preferencialmente a tudo aquilo que suponham ter alguma relação com os problemas que combinamos abordar (poderá tratar-se tanto de relatos acerca de fatos atuais da vida deles.0 tratamento propiciando antes o estabelecimento de uma comunicação em que predomina o processo secundário e portanto mais aproximada do que seria um diálogo corrente. podere­ mos apelar para esses métodos em determinadas circunstâncias. Adoção de uma regra básica de funcionamento para psicoterapias breves F. a comunicação se verá em geral facilitada. fantasias. por mais que a associação livre favoreça a explora|ào do incons­ ciente. Podemos assim dedicarnos de maneira seletiva a seus sofrimentos atuais. vivências e sonhos). Fromm Reichman (22) escreveu^ “Muitos psicanalistas consideram que uma quantidade suficiente de material dissociado reconhecível chega à superfície e pode ter acesso à consciência no intercâmbio psicoterapêutico mais dirigido.

Nesse momento. fantasia. sentimento. já que é possível exercer certo controle sobre os efeitos regressivos que seu emprego pode­ ria provocar. a fim de se aprofundar na conflitiva focal. sim./ mento no tratamento breve . etc. Em resumo e com respeito ao destino do método da associa­ ção livre como recurso técnico no campo das terapias breves. A manobra em questão tem naturalmente a in­ tenção de aprofundar-se no material correspondente ao foco tera­ pêutico e freqüentemente permite ratificar. Essa instrumentalização seletiva do método da associa­ ção livre permite seu aproveitamento. ato falho. venho ensaiando isso de maneira isolada nos tratamentos . sugerindo-o com determinados pa­ cientes e em determinadas circunstâncias. a aplicação nas psicoterapias de elementos tomados da psicanálise. Dessa maneira. os benefícios de um uso limitado e seletivo do procedi­ lugar o processo associativo.estar ligado à estrutura focal (podendo relacionar-se a um sonho.salvo es­ cassas exceções . com base no obtido. diferentemente do que resultaria se utilizado cons­ tantemente13.tendo-me resultado de suma utilidade perante a emergência de certo material que impressionava como significativo e sobretudo podia supor-se ou inclusive compro­ var-se . não considero adequado o emprego sistemático do mesmo .94 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica Em minha experiência pessoal. também seríamos conseqüentes a respeito desse ponto com o que Freud propunha em 1918.e creio necessário alertar a respeito de tal emprego quando corresponde a uma simples transposição da téc­ nica psicanalítica corrente e carece de fundamentos válidos. convidava o paciente a me comunicar as associações que iam surgindo a partir desse material. ao aparecimento de um determinado sintoma. definidas pelo surgi­ mento de algum elemento significativo . A flexibilidade de que o terapeuta deverá fazer uso há de pos­ sibilitar-lhe a opção de utilizar este recurso técnico quando o con­ sidere oportuno e ante pacientes capazes de responder positiva­ mente ao mesmo14.)12. quer dizer. £>estaco. a partir do qual poderá ter . mas mediando uma tarefa de “adaptar nossa técnica às novas con­ dições” (21). ampliar ou corrigir as hipóteses psicodinâmicas em jogo.

poderia então agregar-se a explicitação do even­ tual emprego do método da associação livre em alguns momentos da terapia . de nenhuma maneira deve implicar a ausência total de atenção flutuante por parte do . 93). quer dizer. o terapeuta se concentra de preferência no material que aparece mais diretamente ligado à problemática focal. Digressões sobre a focalização e a atenção do terapeuta Tem-se dito que na terapia focal o terapeuta deve empregar uma atenção seletiva. A citada norma de funcionamento se ajustaria à» condições próprias da terapia breve.0 tratamento Conformação definitiva de uma regra de funcionamento para psicoterapias breves 95 Finalmente. “estrutura a situação analítica” (32) (“Regra fundamen­ tal”. sem focalizar sua atenção. a interpretação central em torno da qual deve girar todo o tratamento). conside­ ro que o emprego de atenção seletiva em P.ainda que. as­ sim como a “regra fundamental”.B. esta norma poderia selar as características essenciais da relação terapêutica na terapia breve psicanaliticamente orienta­ da. Ao mesmo tempo. no dizer de Laplanche e Pontalis. segundo a qual a principal contribuição do paciente será fornecer todo tipo de material que chegue a relacionar com seu sofrimento atual. à norma ou prescrição de trabalho antes propos­ ta (p. conduz o paciente ao foco através do trabalho interpretativo e descarta o material distanciado dele (34)/al estado de atenção seletiva parece certa­ mente o oposto da atenção flutuante recomendada por Freud. 370). Considero que em grande {pedida. p. em virtude da qual tende a conservar men­ talmente um foco (na descrição de Malan. evitando na medida do possível privilegiar algum aspecto do material. sendo sua finalidade poder des­ cobrir neste as conexões inconscientes (17)/Sem dúvida. de acordo com o qual o analista deve escutar o analisando. só em caso de pacientes que reve­ lem atitudes^egóicas suficientes para que tal emprego traga bene­ fícios informando-se em detalhe em que consiste o mesmo antes de começar o tratamento. repito. definindo muito especialmente seu próprio focalizador.

na aten­ ção flutuante do analista (17). Penso que nessas circunstâncias poder-se-ia questionar muito mais severamente que em outras . podendo estereotiparse consideravelmente o intercâmbio verbal terapeuta paciente e empobrecer-se o procedimento em suas possibilidades terapêuti­ cas.96 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica terapeuta. à atenção seletiva e implementemos os resultados da atenção flutuante para gerar intervenções focaliza­ das. no meu entender. dc planejamento e de um papel ativo do terapeuta (antes de tudo. não traz. conseqüências desfavoráveis para o tra­ tamento.e com direito . . o tratamento breve. Não se empregando a atenção flutuante. em contrapartida.. às vezes não muito apropriada para a ocasião quando nos abandonamos à aten­ ção flutuante). o que torna muito mais difícil mantê-la. quando seja necessário. o estar cara a cara. na associação livre do paciente e. corre o risco de se reduzir automática e exclusi­ vamente a uma terapia do prê-consciente. e ainda para a produção de interpretações focalizadas a partir da contribuição que oferecem as associações espontâneas do terapeuta diante do material focal do paciente. o qual se sustenta. Sustento que é possível. Se se prescindir por completo da atenção flutuante.de inconsciente para inconsciente. Tratarei em seguida de esclarecer um pouco mais esses conceitos. a meu ver. já que devemos controlar nossa mímica. muito pelo contrário. assim como da associação livre.a existência de algum grau de insight e dc elabora­ ção do paciente nessas terapias. valer-se dela. mas antes de mais nada coloquemo-lo clara­ mente . não deve por isso ficar anulada no decorrer do pro­ cesso terapêutico toda vez que desejamos preservar em alguma medida um método mais depurado de exploração do inconsciente. A atenção flutuante do terapeuta. a comunicação terapêutica não seria em momento algum aceitemo-lo ou não a partir dc um ponto dc vista terapêutico. flexivelmente utilizada em P. nada arriscaremos. como em troca se pro­ cura que seja no tratamento psicanalítico. Resulta bastante útil em muitos momentos recuperar justamente a atenção flutuante. para isso.B. que ao ver-se inevitavelmente dificultada de maneira parcial pela necessidade estratégica de focalização. justamente para facilitar o aprofundamento na mesma conflitiva focal. obstacularizados ou impedidos ambos pelo tipo de comunicação estabelecida. pois. o qual requer seu concurso. Embora retomemos periodicamente.

Em seguida. o passo na direção da gestação de uma interpretação. isso não significa que o emprego da atenção flutuante em P. o terapeuta distingue um elemento focal signifi­ cativo no material do paciente (relativo a um sonho. etc. Em seguida se dá. No entanto. pois se nos decidirmos a procurar que circunstan­ cialmente o paciente vença a censura existente entre seu conscien­ te e seu pré-consciente. por exemplo. sínteses. Esta poderá. operativa e flexível de~momentos de atenção flutuante. seguidos de momentos dc atenção mais seletiva. ainda que sempre se dê no final um retomo ao estado de atenção se letiva focal.melhor ainda claramente relacionado (pelo terapeuta) com o focal. antepondo nossa própria censura às suas comunicações. não vamos incorrer no erro jtte substituíla. ter como resposta: a) a emergência de mate- . com retomo final à focalização (atenção seletiva focal) para a conseqüente seleção interna voluntária entre as linhas interpretativas (quando surge mais de uma) do que se rela­ ciona ao eixo terapêutico.0 tratamento 97 Sob essa perspectiva chegamos à proposta do que seria no terapeuta uma combinação sucessiva. que se alternam de acordo com as vicissitudes cia comunicação terapêutica. tenha de reduzir-se somente a tais circunstâncias. por exemplo). assinalamentos.B. de onde poderá sobrevir . Como norma elemen­ tar. conexões. Creio que de maneira geral o que poderia embasá-la como requisito básico seria o surgimento de material presumível ou . tenha sido tal material trazido de modo espontâneo pelo paciente. solicita-lhe associações livres partindo de tal ele­ mento e se dispõe então a escutá-las com atenção flutuante. tenha apa­ recido como conseqüência de intervenções foealizadoras do tera­ peuta (perguntas. tem-se de escutá-lo em estado de atenção flutuante (qualquer outra atitude implicaria rieste caso uma incoe­ rência técnica. efe­ tuando uma seleção à qual o paciente tenha renunciado [17]). por sua vez.). Uma possível se­ qüência ilustrativa da combinação dos tipos de atenção que pro­ ponho para o trabalho focalizador é a seguinte: em virtude de sua atenção seletiva. como conseqüência da atividade pensante do terapeuta que tem lugar nesse momento (associações. etc.a formulação de uma interpretação.). poderíamos estabelecer que toda vez que se solicitem associa­ ções livres ao paciente. que tem de ser focalizada.ou não . interpretações. pedidos de as­ sociação livre a partir de um elemento.

sua atenção.apesar da sua indubitável importância.da mesma maneira que o relativo à associação livre . por parte do terapeuta. material do paciente — » focal ização baseada na atenção selcTiva do terapeuta ^ jp edíHrTda associa­ ção livre ao paciente — > atenção flutuante do terapeuta — » gesta­ ção da interpretação.com a atenção do terapeuta na psicoterapia focal. ante o que o terapeuta tem de abandonar-se igualmente à atenção flutuante e reiniciar o ciclo. e que é empregando essencialmente esta forma de atenção. nos quais com freqüência a . de que a atenção seletiva pressupõe a concentração preferencial do terapeuta no material ligado á problemática focaÇestaria irapficüõ o emprego da atenção flutuante para a recepção de tal material). por exemplo. a flutuante. que o terapeuta desenvolverá seu trabalho interpretativo. que voltou a focalizar automaticamente . ela mostra que a atenção seletiva serve basicamente para efetuar uma seleção do material do paciente (em razão de nosso interesse seletivo na problemática focal daquele). ou. o levará a reencaminhar o paciente ao foco. Os pacientes que têm certa capacidade para centrar-se na conflitiva focal nos eximem de maiores preocupações e esforços para orientá-los em direção a ela.ou deveria suceder . Mas não podemos extrair algo mais dessa exemplificação? De fato. em estado de atenção flutuante . o qual. ao transcorrer certo tempo c ser corroborado pelo tera­ peuta. mas que na rea­ lidade a dita seleção segue uma recepção. já que os diver­ sos autores que vêm se referindo a essa técnica se ocuparam pouco ou nada de aclarar esse tema . então. b) resistencialmente. c que me parece sumamente necessário explicitar. do material focal que sobrevem em continuação. etc. Em síntese. Esta é a forma pela qual pessoalmente concebo o que sucede . facilitando-nos o exercício de nossa atenção flutuante (isto se apresenta do mesmo modo diante dos quadros de neuroses traumáticas. Desse modo. a noção de atenção seletiva na psico­ terapia focal também encerra no fundo a presença de estados de atenção flutuante do terapeuta (no conceito antes mencionado. atividade pensante com trabalho fmàT de seleção interna do terapeuta (atenção seletiva focal) — » interpre­ tação focalizada — > material focal —>atenção flutuante do tera. o distanciamento do foco.^ peuta. com ura assinalamento.° Psicoterapia breve de orientação psicanalítica rial focal (associações dirigidas) (8).

Elementos psicoterapêuticos verbais Generalidades Em P.B. a favoreçam. perguntas e comentários . capitalizada. que às intervenções tendentes a desencorajar a regres­ são se sigam outras que. Quando se cometem tais erros tem-se a impressão de que a terapia breve se converte num expoente da improvisação e da imprudência. quer dizer. colocação seletiva consciente de material focal e associações livres a partir de um elemento focal. A combinação atenção flutuante/atenção seletiva. Os assinalamentos. da atenção. v 2?) Constituir-se de uma proporção elevada de intervenções não-interpretativas. as quais devem responder a uma estratégia terapêutica elaborada de acordo com as necessidades de cada caso. por exemplo. pode ser empregada em diferentes momentos terapeuticamente significativos de nosso trabalho15. Isso quer dizer que de um ponto de vista dinâmico não é admissível que haja con­ tradições no emprego das diferentes intervenções do terapeuta.. que com o tempo se toma auto­ mática. É inaceitável. Há uma regulação . inerente ao foco terapêutico). como vimos.. segundo as formas em que se vão cjiando as seqüências. Vale a pena preservar nesses procedimentos certo grau de atenção flutuante.B. que pare­ ceria difícil de êoncretizar na prática. pelo contrário. pode dar-se em grau satisfa­ tório e de modo quase espontâneo em terapeutas convenientemen­ te treinados. Em suma. as intervenções verbais do terapeuta devem reunir três condições básicas: X 1“) Manter certa coerência interna (7) (13).0 tratamento _ __________ ____________________ ______ ____ _________________________________ maior parte do material trazido está vinculada mais ou menos diretamente à situação traumática. para os fins de aprofundar a elucidação dos psicodinamismos focais e de dar lugar à produção de intervenções focalizadas. a atenção flutuante em P. A combinação que sugiro tem seu correlato no que foi pro­ posto para o paciente. tudo isso possibili­ tando o progresso terapêutico.

B. As intervenções. Por outro lado. interpretativas ou não. como acontece quando se segue uma direção definida e previamente incluída nu­ ma estratégia terapêutica determinada. dirigidas seletivamente à problemática focal16. ^ 3?) Estar focalizadas. meus pontos de vista a res­ peito. c) O terapeuta diante do trabalho interpretativo. Dessa maneira serão tam­ bém focalizadoras em seus efeitos. d) Interpretação dos sonhos. b) Interpretações e transferências. apelar com freqüência para intervenções nãointerpretativas constitui uma clara expressão do papel ativo e focalizador do psicoterapeuta nesse tipo de terapia. além disso. mencionando sucintamente as restantes. A apresentação do tema será feita na seguinte ordem: a) Introdução. mediante a qual se procura centralizar o trabalho terapêutico nos problemas vitais e atuais do paciente e não abrir nele outras brechas. . Atenuação dos efeitos regressivos. deverão estar de preferência focalizadas. a fim de contrabalançar os efeitos da estimulação da dependência que um uso quase exclusivo de interpretações poderia trazer associado. c) Variantes qualitativas nas interpretações. Considera-se desse modo que se deva reafirmar uma relação terapeuta-paciente em termos de realidade e de uma menor assime­ tria. Dentre as diferentes intervenções do terapeuta. Examinarei aqui as contribuições de di­ versos autores e exporei. As interpretações na psicoterapia breve de orientação psicanalitica Ainda é objeto de viva discussão tudo o que concerne às interpretações em P. Tratase de uma premissa essencial dessas terapias. quer dizer. me ocuparei detalhadamente das interpretações.100 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica que estimulam o intercâmbio verbal têm de ser empregados com uma freqüência maior do que na psicanálise tradicional. já que estimulam a colocação por parte do paciente de material relacionado com o foco.

Quanto à sua profundidade !7. comumentc. pois o objetivo principal continua sen­ do a busca de insight no paciente (sem que por isso se desconheça terapêutico na P. Numa palavra. as interpretações. indu­ zir a estados regressivos de certa consideração. dado o número relativamente reduzido de sessões semanais e.). etc.B. Não obstante. partindo das idéias de Rogers (40). sem’deixar de ser. efetuando-se ocasional e prudentemente como experiência (48)1R . como na psicanálise. é desejável que o tratamento nãd/se reduza a um empregoExclusi­ vamente sustentado ou baseado enTInterpretacões. dificuldades para se exercer controle sobre as ansiedades que o paciente sofre por efeito das interpretações. .B. E conveniente então avaliar antes a capacidade do paciente para assimilar inter­ pretações desse teor. capazes de relocalizar o paciente uma vez ou outra em sua condição de adulto e nu­ ma relação menos assimétrica com o terapeuta.ão acentuadamente dependente do paciente em relação ao terapeuta. o elemento terapêutico essencial. um tratamento coloca a necessidade de se atingirem certos níveis de profundidade para que os objetivos terapêuticos propostos possam ser alcançados. em certas ocasiões. Se aceitamos. perguntas. de orientação psicanalítica. Existem. por serem es­ tas indutorãTdã^dependencia regressiva. Pois bem. que toda interpretação. que em minha opinião têm um papel secundário). interpretações “profundas” podem. em ordem de importância.0 tratamento a) Introdução 101 Em primeiro lugar pode-se colocar a que lugar. favorece o estabelecimento de uma rel£y. em algu­ mas oportunidades. corresponde a interpretação como instrumento a ferramenta fundamental. se alter­ nem em maior medida com outros tipos de intervenção verbal (assinalamentos. seja ou nào “trans­ ferencial”. parece conveniente que em P. sugestões. por exemplo. será preciso tam­ bém contar com a possibilidade de que se produzam reações des­ favoráveis pelo incremento das resistências. A meu ver deve ser a incidência de outros mecanismos terapêuticos. Além dis­ so. o curto prazo do tratamento. caberia insistir em algumas considerações a respeito. minha impressão é de que habitualmente é limitada pelas próprias características do enqua­ dramento.

).102 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica O trabalho terapêutico na P. devemos nos dedicar à tarefa de resolver problemas atuais da realidade externa do paciente mediante a análise e a conseqüente busca de insight a respeito da natureza das situações conflitivas que apre­ sentam suas transferências . como sabemos. Além disso. vamos analisar o papel das interpretações “extratransferenciais” na terapêutica breve. de insight é limitado em com­ paração com o que tem lugar na análise. as que na técnica psi­ canalítica não costumam ser levadas muito em conta ou são dire­ tamente desestimuladas. chefes. como disse antes.n. melhor dizendo. al­ cança pouco ou nenhum desenvolvimento no tratamento breve. diz respeito aos tipos de interpretação que devem ser utilizados no que se refere à transferência ou. sobretudo os que se acham ligados a conteúdos muito re­ primidos).B. agora. ignora a maior parte das manifestações inerentes à neurose de transferência. atribuindo-se- . Isso obedece ao fato de que. filhos. às transferências19. A meu ver podem configurar sem dúvi­ da um recurso válido. os pormenores do uso das denomina­ das interpretações “transferenciais” e “extratransferenciais”-. em matéria de terapias breves. Examinaremos. O que ocorre é que em psicanálise as interpretações “extratransferenciais” quase sempre têm sido. Interpretações "extratransferenciais " Em primeiro lugar. usual e importante no trabalho interpretativo. Poderíamos dizer que o é tanto na superfície (ao ser focalizado) como em profundidade (não abarcando certos aspectos dos conflitos centrais do trata­ mento. etc. e não carecem de valor para o tratamento psicanalítico. a qual. Mas o emprego dessas interpretações parece requerer toda­ via fundamentos teóricos suficientemente sólidos. subestimadas. b) Interpretações e transferências Um dos aspectos mais importantes e polêmicos da teoria da técnica da PB. desenvolvidas em qualquer pessoa com quem se relaciona em sua vida diária (cônjuge. pais.

0 tratamento 103 lhes um valor muito secundário na cura. Esse autor resgata seus fundamentos teórico-técnicos. devesse dizer teorizar acerca de técnica. dado que as necessidades da prática psicoterapêutica obrigam o analista a sair e ampliar sua estreita margem conceituai) de muitos psicanalistas de nosso país. por serem as mais descuidadas pela psicanálise em seu esquema teórico). contemporâneas à situação analítica. nesse momento (1973) em que trabalham partindo da hipótese de que tudo o que o paciente diz se refere ao analista. e que a meta da análise é a busca do objeto transferido para este em suas múltiplas variantes e em seu interjogo com o analisado. em comparação com as “transferências”. expõe conceitos que permi­ tem reivindicar as interpretações “extratransferenciais” em sua significação terapêutica dentro do tratamento psicanalítico (25). pois sua menção resulta‘/mais que oportuna ao abordar este tema: “A análise é uma investigação do inconsciente. Não estou de acordo com essa maneira de trabalhar.as interpretações que se referem à vida atual do paciente. como elemento incluído dentro de uma totalidade englobada pela reconstrução. quero transcrevê-los. mas. Ao dizer isto . já que disso dependerão em gran­ de parte a validade e o alcance terapêutico que adjudiquemos à técnica breve que apele freqüentemente para as interpretações mencionada».esclarece .continua Guiter vou afastarme da maneira tradicional de trabalhar (talvez melhor do que tra­ balhar. Depois começa a expor seus pontos de vista cm torno das interpretações que operam “centrando o ponto de urgência fora da transferência ao psicanalista”. passada ou futura com o paciente (ainda vou enfatizar . nem das recordações. as que fazem alusão a “transferên­ cias” a outras pessoas em relação atual. Não da trans­ ferência. Entre nós. tenho selecionado aqueles que me parecem mais eloqüentes e ilustrativos (25). . partindo da revisão de pontos essenciais do pensamento freudiano. Freud confe­ ria grande valor à transferência. a meu ver. o que se reveste de singular importância. Um claro exemplo disso é a posição adotada por Strachey (41). Em que p<|sc sua ex­ tensão. Dos pensamentos de Guiter acerca das interpretações não relacionadas com o analista. Guiter. nem de nenhuma circunstância em paiJjcliJã*3* —~ .

OJ^aqui. iatrogenicamente. e quase tudo o que ocorre na sessão é transferência. quanto mais se interprete o paciente em relação ao analista. Continuando. Penso então que a missão do analista é interpretar esses fatos sem incluir-se. Mais ainda. mas não a regressão útil. de modo que. no primeiro. regressões patológicas. para mim. e se fomenta. o que se consegue é adoecer mais o paciente. Por razões de espaço abstenho-me de transcrever a passagem correspondente..104 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica J que inclui também o histórico próximo e distante da vida do paciente. a regressão. o paciente sempre é um menino de quem o analista é um pai. o elemento estimulador pode ser comparado a um resíduo diurno). ao grau de veracidade acerca do que o paciente nos relata ou à circunstância de que se trate de “um fato que já passou”. não é forçoso que seja com o analista. fomentando. que mesmo Freud “inter­ pretava transferências em outros contextos”.) De modo que. pois o nível do conflito nesse momento não se relaciona com cie” (grifos do autor). Esse presente pode estar constituído pelo próprio analista ou por qualquer estímulo do dia ou dias ante­ riores (equiparando-o a um sonho. tanto mais se pode tomar essa técnica como defesa.. e essas excita­ ções podem então ter-se originado na relação com processos reais ou transferenciais. Mais adiante expressa: “A transferência pode acontecer em qualquer parte. Guiter refuta as críticas que se formulam contra essa modalidade de trabalho (no que concerne ao favorecimento de “atuações”. reduz-se ao mínimo a relaçào adulta (ou sã) entre o paciente e o analista.” (Assinala antes.) Prossegue dizendo: “Outro problema que se coloca é este: se tudo o que o paciente diz se relaciona com seu analista. sem ver as transfe­ rências em outra parte. agora e comigo” é. enquanto “na sessão. a situação é presente”). Dessa maneira. somente uma pade do processo analítica -----------— “O paciente vem a sessão estimulado pela angústia ocasiona­ da por um determinado problema com raízes no passado e estimu­ lado a partir do presente. nesse nível. quando um paciente vem à sessão pode chegar estimulado por excitações que ultrapassam sua capacidade de elaboração (e que traz para elaborar na sessão). alheios ao analista.” “(. .

cabe recordar precisamente que. geralmente.B.105 Assim sendo. na minha opinião. em virtude do limitado contato que propbrciona o tra­ tamento. a interpreta­ ções que a desvelem e clarifiquem parcialmente só em determina- .B. do mesmo modo que a compreensão da contratransferêricia. avaliza com acréscimos o emprego das interpretações “extratransferenciais”. que se impõe em P. Por outro lado. em psicanálise. os mecanismos terapêuticos não consistem do desenvolvimento e da elaboração da neurose transferencial. Mas considero que esse obstáculo pode ser . lhe resulta de grande ajuda para inferir e interpretar as demais transferências do paciente. em troca.B.B. quase como imprescindível para oferecer sustentação adequada ao nosso trabalho terapêutico posterior.e é . devemo-nos desenvolver praticamente sem essa ajuda desde o começo). e como venho repetindo.. o conhecimento que o analista adquire no decorrer do tempo sobre as características da transferência desen­ volvida pelo paciente para com ele. o tra­ balho não tem por que concentrar-se então na análise exaustiva da relação terapêutica . muito menos reduzir a tarefa à analise da transferência ao terapeuta. os analistas.que poderia propiciar o desenvolvimento da neurose de transferência .vencido na maioria das vezes mediante um prévio estu­ do clínico e psicodiagnóstico o mais amplo possível do paciente. seja de todo o modo um elemento valioso para diagnosticar as caracterís­ ticas das relações objetais do paciente. Mas. nós. devemos reconhecer a existência de um inconveniente em nosso trabalho de análise das relações do paciente com os diferentes objetos transferenciais de sua realida­ de externa: o terapeuta conhece pouco o paciente cif sua relação terapêutica. Em P. tio terreno de P.recorrendo-se. já evidenciada com o terapeuta. Disso poderiam derivar apreciações e interpretações errôneas da realidade externa do paciente (ainda quando a com­ preensão da transferência. em função do enquadramento da P. podemos ser paradoxalmente reforçadores de neuroses” (grifos do autor). Concordo com o critério de Guiter e entendo que nenhuma terapia interpretativa deva descuidar-se das diferentes transferên­ cias extraterapêuticas. A clareza expositiva de Guiter me exime de maiores comen­ tários e.

senão melhor. em vez de concentrar a atividade na relação paciente-terapeuta. Sustenta que os perigos que se corre (de aumentar a dependência. Rogers. como numa terapia breve costumam pre­ dominar as impropriamente chamadas interpretações “extratransferenciais” cm relação às “transferenciais”. por exemplo) são escassos. em segundo lugar. Malan assinala que parece haver acordo geral acerca da necessidade de não fomentar o desenvolvi­ mento da neurose de transferência21. alarmado porque induziram o paciente . Pumpian-Mindlin (36) sugere “desviar a transferência”. que é preci­ samente através dessas interpretações que se pode resistir ao de­ senvolvimento de uma neurose transferencial e lhes assinala um papel muito importante ao alcance de resultados favoráveis (34).em que desviar poderia ser entendido como desviar de maneira forçada.B. Malan não vê nenhum inconveniente em empregar precoce e intensivamente interpreta­ ções “transferenciais”. Em conseqüência. quer dizer. e. de relações objetais dotadas de um importante montante de libido). Interpretações “transferenciais " Em P. A questão esbarra em como fazê-lo. de acordo com o que quase sem­ pre ocorre na prática.106 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica das circunstâncias que assim o aconselhem e que citarei em se­ guida. os problemas a tratar. no qual prevalecem as segundas ou pelo menos em que se manifesta uma maior proporção delas com relação às que geralmente averigua­ mos num tratamento breve (as diferenças se acentuam muito mais na análise kleiniana que na análise que mantém uma modalidade técnica freudiana). existem critérios díspares quanto ao uso das inter­ pretações “transferenciais”. hierarquizar outras transferências preexis­ tentes do paciente. Ali começam as divergências. do enqua­ dramento e das finalidades do procedimento terapêutico breve. Eu não chamaria a isto “desviar a transferên­ cia” . em direção a uma figura importante para o paciente. a tarefa interpretativa se diferencia claramente da do tratamento psicanalítico. Com o propósito de evitar fenômenos transferenciais inten­ sos. primeiramente. da real significa­ ção em sua vida (ou seja. em função. no outro extremo.

pois considera que utilizadas de modo sistemático como em psi­ canálise podem fomentar a neurose de transferência (7) (14). perguntas. não só às interpretações. . e incluir o vínculo com o terapeuta na maioria dos casos só como uma rieva relação transferencial . e que não temos tempo suficiente para insistir demasiado neles (não é conveniente fazêlo em P. etc. Mas. que em troca deverá ser estimulada e utilizada para tornar possível o trabalho terapêutico (18) (19). Seguiríamos assim a regra freudiana de não interpretar a transfe­ rência positiva sublimada. Mas talvez a maioria se incline a um uso prudente e limitado (2) (14) (48). isso sim. poderemos gerar consideráveis resistên­ cias à tarefa. ocorre o fato incontestável de que se em certos momentos não se apela para a interpretação “transferen­ cial” poderão aparecer ou acentuar-se diversas dificuldades. paralelamente. senão também aos assi­ nalamentos. Compartilho plenamente essa posição.0 tratamento 107 à dependência. por múltiplas razões). o terapeuta geralmente tratará de não estimular com suas intervenções (refiro-me às de qualquer tipo.e não como o eixo do tratamento .) o surgimento excessivo desse tipo de material. Assim. e muito menos para incluir reve­ lações acerca das raízes genéticas infantis do conflito transferen­ cial. entendo que comumente o paciente tarda em aceitar como algo próprio os ele­ mentos da transferência para o terapeuta. Além disso. Quase sempre trata-se da interpretação da transferência negativa. Por isso creio que devemos nos conformar em prover o paciente de elementos para a conscientização de suas transferên­ cias para com pessoas significativas. fuhdadas no insight.B. o paciente se apresenta para tratar-se só uma ou duas vezes por semana.na qual podem. quer dizer. A fim de resolver problemas vitais atuais que o afetam. aflorar talvez mais seletivamente e apreciar-se com maior clareza as pau­ tas repetitivas e neuróticas de sua conduta. que reduzirão nossas possibilidades. sem deixar de “seguir o fio” dos fenômenos transferenciais relacionados àquele a que sua compreensão se refere. de alcançar o êxito terapêutico desejado*2. propõe suprimi-las por completo (40). geralmente envolvidas na situação conflitiva em questão. se apesar de tal situação instarmos para que se concentre em sua relação conosco.

Tratar-se-á de vencer através da tarefa interpretativa os obstáculos resistenciais provenientes da transferência assim que aparecerem (28)2\ Ausências. a relação com o terapeuta poderá funcionar como um modelo experimental esclarecedor dos pro­ blemas do paciente com suas relações interpessoais. a quem desde tempos atrás não dirigia a palavra. num momento do tratamento breve. Ao cabo de algumas sessões.e eventualmente do passado pois o propósito é basicamente estabelecer de imediato a cone­ xão com esses objetos de conflitos para alcançar uma adaptação à realidade. o que permitiu remover o obstáculo e facilitar o curso posterior do tratamento. Vejamos então quais são as principais situações em que será necessário recorrer às interpretações “transferenciais”: xT a) Quando surgem resistências transferenciais. o que se alcançou mediante uma mensagem interpretativa denunciadora do “falso vínculo”. Desse modo. afastamento do foco) quase sempre podem ser interpretados ao menos cm parte com relação a situações transferenciais. sem que ela mesma encontrasse motivos ra­ zoáveis que pudessem justificar tal estado. mas que por sua vez desalentava a revivescência de situações infantis na relação com o terapeuta24. darei um exemplo6simples: uma mu­ lher jovem. A título de ilustração. . ao dissipar de imediato e em gran­ de parte a resistência surgida. pude apreciar com clareza que repetia em seu vínculo comigo o lipo de relação que mantinha com seu pai.108 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica Com este último concordam autores como Bellak e Small (2) e Malan (34). durante as quais manifestava uma expressão de nojo para comigo. Mas será conveniente que a interpretação da transferência se realize em circunstâncias em que o fenômeno transferencial possa ser cla­ ramente reconhecido pelo paciente. ^b) Quando podem constituir para o paciente um elemento demonstrativo de determinados aspectos de sua problemática focal. Revelei esta situação transfe­ rencial à paciente. se negava a falar durante as sessões. atrasos e outras dificuldades do paciente essencial­ mente para trazer material focal (intervalos de silêncio reiterados. Em qualquer momento. um fragmento de transferência converte-se prontamente em ponto de partida para propiciar insight no paciente acerca dos conflitos com outros seres de sua vida atual .

Foi necessário mostrar-lhe através de uma revisão parcial do vín­ culo transferencial como tratava insistentemente e de modo incons­ ciente de atacar-me e denegrir-me.) Com esta inter­ venção busquei provocar um insight na paciente a respeito do que lhe ocorria com seu marido. Além disso. mas predominava o objetivo de supera­ ção das resistências.0 tratamento 109 Recorrerei novamente a um exemplo clínico: Trata-se de uma paciente de 32 anos. procurancfo tomar-me “cego de raiva”. No fundo. (Resultava claro que queria despertar minha raiva até conseguir alterar-me. A situação conflitiva principal na terapia era a relação intensamente competitiva e sadomasoquista que havia estabeleci­ do com seu cônjuge: descobri que conseguia com freqüência irri­ tá-lo até colocá-lo fora de si. partindo da comprovação da situação que experimentava repetitivamenté comigo. do mesmo mo<|o que a seu marido. A relação ia sofrendo uma progressiva deterioração. Nesse aspecto considero que tanto nas etapas iniciais como nas finais do processo terapêutico costuma produzir-se em geral maior necessidade de se recorrer a essas intervenções. Desejava “triunfar” sobre mim e. com marcados tra­ ços fálicos. que a levava a buscar que a maltratassem e também a atentar contra a relação terapêutica. colocando-a seriamente em perigo. provocando assim sentimentos de rejeição. de caráter histérico. Durante as primeiras sessões . sua conduta correspondia uma vez mais a um intenso masoquismo. ambos os aspectos coe­ xistiam em certa medida. sobretudo com comentários hostis acerca dos psiquiatras. provocando nele reações violentas contra ela que chegavam ao ataque físico. raiva e frustração.porque é preciso despejar o panorama de .) Todavia. Também no exemplo anterior. o que é freqüente na prática psicoterapêutica. anular-me em minha capacidade terapêutica pen­ sante. cabe fazer referência ao uso das interpretações “transferenciais” segundo as fases que o tratamento está atraves­ sando. neste último exemplo. que na verdade a intenção de relacionar o fenômeno transferen­ cial com algumas perturbações nas relações interpessoais da rea­ lidade atual da paciente era acompanhada pela tentativa de dissol­ ver obstáculos resistenciais. tratei de chamar sua atenção para o fato de que esses aspectos doentes de sua personalidade conspiravam também na terapia. motivo principal de sua consulta25. (Poder-se-á notar.

no terreno da P.porque o término da terapia e a eventual separação requerem certo trabalho interpretativo. diminuin­ do. Atenuação dos efeitos regressivos Já disse que. o emprego sobretudo fundamenta­ do . o instrumento funda­ mental. precisamente para a resolução da neuro­ se de transferência). em alguma medida. Pessoalmente penso que essas modificações devem referirse não só ao aspecto verbal.. com o intento de evitar 011 atenuar as reações desfavoráveis que este pudesse apresentar diante de tal situação e de afian­ çar assim os êxitos terapêuticos obtidos. que contemple. as situações peculiares de luto que se repro­ duzem em cada paciente no seio da relação transferenciai. ao fazer consciente o inconscien­ te. serão em grande medida no curso do processo psicanalítico. a meu ver.110 Psicoterapia bre\>e de orientação psicanalitica resistências transferenciais dadas pelo natural surgimento de ansiedades paranóides.de interpretações “transferenciais” é na psicanálise um fator favorável ao desenvolvimento da neurose transferencial regressi­ va. o quanto possível. ter de realizar modificações técnicas em sua índole quali­ tativa.B. pelo menos a situação final d? trata­ mento e de ^eparacão— deverá ser sempre assinalada para o paciente.e nos estágios finais . A idéia é não deixar de utilizá-las quando devemos servir-nos delas. Partindo dessa postura poder-se-á compreen­ der a preocupação de alguns autores. seu potencial regressivo. (Este tema é examinado no capítulo 9. por debilitar seu efeito indutor da regressão. Isso implica. e a minha própria. Ainda que no melhor dos casos não seja possível aspirar a níveis muito elevados de elaboração. mas também ao para e ao pré-verbal . que se traduz em temores e desconfiança (se estão efetuando então os já conhecidos ajustes à relação de trabalho e fomentando os sentimentos transferenciais positivos) . pois leva o paciente a concentrar seu interesse no vínculo tera­ pêutico e o estimula a reviver nele mesmo situações passadas (ainda que em última instância. por antonomásia. mostrando-lhe assim a conexão equivocada. além da óbvia restrição quantitativa ao emprego desse tipo de interpre­ tações.) c) Variantes qualitativas nas interpretações.

como sabemos. muito pelo contrário. al ém disso com seus amigos. já que. (Os grifos são meus. não são indiferentes em sua repercussão no paciente e no que se refere a suas tendências regressivas. ao formular a interpretação. por exemplo.0 tratamento FACULDADE GUAIRACÁ BIBLIOTECA F AG 111 da mensagem interpretativa. sua mãe ou qualquer outro objeto significativo primário. transferen­ cial ou não. Descobrimos que Szpilka e Knobel (42) sugerem algo similar como uma maneira de usar a transfe­ rência sem os perigos de uma neurose transferencial. e nas relações daquele com os objetos transferenciais de “fora”. assim como a expressão corporal do terapeuta. ante qualquer interpretação. diminuindo dessa maneira a concentração excessiva de exploração psicológica no vínculo com o terapeuta. o terapeuta não é nenhum desses objetos primários por ele . esta questão se colocará em maior ou menor medida na P. Podemos afirmar que.de um 'õssinãlaménto doque acontece. Na realidade.B. Disse Weiss: “O uso adequado das interpretações (quanto à escolha. o tom de voz. A intenção c incluir sempre a realidade que está mais além do consultório. mas para desfazer em seguida a confusão que surge dessa alusão. por tais e quais motivos obje­ tivos. momento e forma de apresentá-las) é o meio mais eficaz de»ciue dispõe o terapeuta para regular o tipo e a intensidade da relação" (45). em direção à qual se há de orientar continuamente o paciente.) acompanhar cada interpretação do que ocorre com o terapeuta. interferem considera­ velmente. Desfazer significa dizer à parte adulta da per­ sonalidade do paciente que ele se porta com o terapeuta como se este fosse seu pai. mas que na realidade isto é fruto de sua percepção errô­ nea de realidade.) Trata-se de controlar na medida do possível a intensidade de regressão transferencial.. Para tanto é necessário <|ue as interpreta­ ções possuam certas condições... já que na verdade. parentes ou demãís ohjeim sipnifiçativos de seu mundo externo” (grifos dos autores). isto é: “(. sobretudo que é'stabeleçam uma ligação de maneira praticamente constante entre o que sucede ao paciente. ^ Também a Knobel e Szpilka corresponde uma das observa­ ções mais interessantes e claras que tenho encontrado a propósito do problema que estamos considerando: “Uma boa utilização da transferência nas psicoterapias breves é aquela que permite a alu­ são ao terapeuta. cm sua relação com o terapeuta.

numa atitude de certa humildade (Fiorini [16]). /Entre a emergência do bloco de transferência e sua resolução deve transcorrer por outro lado o menor tempo possível e quase diríamos tão logo venha à tona é necessário desfazê-la” (42). registramos algumas coincidências relativas à conveniência de que as intervenções do terapeuta incluam sempre dois aspectos opostos e coexistentes do paciente e não apenas um. por exemplo. o agressivo do construtivo (Szpilka e Knobel [42].112 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica trazidos e pelo terapeuta representados. pelo contrário. ora manifesta. A atitude que deve assumir o terapeuta a respeito dos ele­ mentos histórico-genéticos do conflito atual e particularmente sua . a influên­ cia de outros fatores. Por exemplo: o infantil acompanhado do adulto. o que significa renunciar a explorar a maior parte do “como se” metafórico da tccnica psicanalítica’\ À importância do conteúdo c da forma de interpretação dever-se-á agregar. e ao mesmo tempo de chamar a atenção do paciente para seus aspectos adultos ou mais bem integrados e para suas possibilidades evolutivas e autônomas. que tende a opor obstá­ culos à idealização da figura do terapeuta. quer dizer. Tarachow [43]). Trata-se de não polarizar na direção que fomente a regressão. No meu entender estamos diante de um ponto-chave dentro do trabalho interpretativo. desalentá-la.) Para controlar a regressão. a dependência e a insegurança. deve ser tal que desalente o prosseguimento da revives­ cência de situações infantis no seio da relação transferencial. reitero. a acentuação que o tera­ peuta confere a certas palavras ou frases que a integram também podem “convidar” o paciente a estabelecer uma relação regressivo-dependente com o terapeuta ou. Fiorini [ 13])27. O outro recurso a ser considerado para se evitar que o pacien­ te estabeleça uma relação excessivamente regressivo-dependente é apresentar as interpretações sob a forma de perguntas ou suges­ tões (Gerard [23]. o tom de voz emprega­ do. como. Con­ sidero que implica que a mensagem. ora eventualmente implícita em seu conteúdo.) Em um traba­ lho de Córdoba. (Grifos dos autores. (O modo como se faz a interpretação. Andrés Rascovsky e Wencelblat observa-se um nítido paralelismo com essas idéias (3). Para isso também será útil mostrar ao paciente de quais elementos do material trazido por ele extraímos nossas interpretações. e no que diz respeito às interpre' tações em geral. explicitada na interpretação. como hipóteses que são.

V 2. . Convirá tomar algumas precau­ ções (sobretudo se se trata de interpretar a transferência para com o terapeuta). serão as seguintes: 1. a priori ou no curso de um tratamento breve. o terapeuta podérâ estimar que é necessário efetuar uma revisão e um trabalho interpretativo mais profundo das perturbações do paciente. uma posição extrema consistiria em evitar tflda incursão por esses níveis do conflito. por mais que nos tratamentos breves pareça aconselhável abster-se de interpretar em primeira instância e de maneira sistemática tais aspectos. Por isso. Não obs­ tante. por conseguinte.os quais certamente sempre se levam em conta para compreender o conflito poderá produzir-se um estancamento no processo 3e conscientização e mudança do paciente. diferentemente do que ocorre no tratamento psicanalítico. pelo que lhe cabem as considerações ali expostas2*. sejam propícias. nâo haveria uina intenção prioritária de se remeter às experiências prematuras da vida do paciente. c partir em troca cia referência aos fatores atuais em jogo. queria insistir em alguns aspectos fundamentais c particula­ rizar outros a fim de aprofundar a visão do tema. enquanto não se incorporarem às inter­ pretações elementos do passado infantil . Diante dc tudo isso. Que as condições do enquadramento. 101 s. dc que.. Em tais circunstâncias. principalmente as temporais (duração.) Mas o certo é que na prática apresentam-se situações em que selem a impressão. reiterando o já assinalado em outras oportu­ nidades.B.). as quais.. Que o paciente demonstre estar capacitado para receber e aproveitar essas interpretações sem experimentar reações desfa­ voráveis (isto significa em essência respeitar o timing). com probabilidades de que seja terapeuticamcnte eficaz. não devemos deixar dc reconhecer que colocar ênfase excessiva nos aspectos infantis do paciente pode promover ã regressão. (Em P.0 tratamento 113 eventual inclusão nas interpretações que se formulam para o paciente é um ponto que cm parte já foi tratado na “Introdução” (pp.B. freqüência e periodicidade das sessões. estudaremos em cada caso a possibilidade de colocar isso em prática. a propósito da profundidade das interpretações em P. Não compar­ tilho desse critério. Reconhecida a necessidade de que a tarefa ínterpretativa abarque conflitos genéricos infantis. dura­ ção total do tratamento).

pode servir perfeitamente para mobilizar situa­ ções internas. O modo de formular as interpretações tenderá a facilitar que o paciente. compreenda os determinantes históricos do conflito atual. Neste último caso. realizo um trabalho interpretativo sempre parcial. limitado ao que é imediatamente relacionado à situação-problema. têm dito esses autores: “Devemos reconhecer que isto. ainda que. quando se considere necessário fazê-lo. com relação a um(a) irmão(ã)30. para as quais ainda não temos métodos de avaliação e que podem ser úteis para alcançar uma adaptação produtiva à ^realidade” (42). . aquela poderá fornecer o desenvolvimento da regressão e o da neurose de transferência ou. mais do que tudo. pois não é possível abarcá-lo em sua totalidade e propen­ der para a sua elaboração. Como corolário da revisão das distintas modificações e agre­ gados realizáveis nas interpretações. ou seja. Que os componentes histórico-genéticos a incluir nas in­ terpretações sejam pertinentes à estrutura focal®. A propósito deste aspecto da técnica. dificilmente uma terapia breve chega a con­ frontar o paciente com seu conflito edípico.B. ao necessário para obter certa mobili­ zação e progresso no paciente. Assim. mas o terapeuta não deve ter por aspiração principal eliminar a amnésia infantil (Devald [5]). descartando outros aspectos do conflito.114 Psicolerapia breve de orientação psicanalítica X 3. cm vez de fazê-lo reviver emocional­ mente os conflitos infantis no seio da relação transferencial. Este ponto corresponde ao critério sustentado por Szpilka e Knobcl. no sentido de que o insight em P. carecendo de sentido “abrir feridas” nas defesas. podemos afirmar: de acordo com a conformação da interpretação e a modalidade que assume sua formulação. ten­ der a neutralizá-los. tenha de fazer alusão de maneira direta a componentes do conflito original. K5. mostrando-lhe direta­ mente. por exemplo. para al­ guns indivíduos. A isto terá de se agregar que: )*■4. o significado incestuoso ou parricida de suas fantasias11. tem de ter “maior participação cognitiva que afetiva” (42). Poder-se-á trabalhar um conflito infantil derivado (por exemplo. pelo contrário.

B. já que a interpretação onírica é “a via régia para o conhecimento do inconsciente” (Freud [20]) c por conseguinte constitui uma ajuda valiosíssima para detectar o ponto de urgência. em função da possibili­ dade de estimular excessivamente a produção de fenômenos re­ gressivos no paciente.). (De qualquer manei­ ra. Do que surgir da análise se verá se a formulação de interpretações é indicada ou se pelo çarb> trário o sonho em questão deverá ser deixado de lado nesse senti­ do: tudo isso dependerá essencialmente. se considerará o material onírico inter potável sobrem do desde seu conteúdo' manifesto e por sua relação com o contexto. Apesar disso. certa aná­ lise dos sonhos trazidos pelo paciente.B. Mas uma vezf mais certos cui­ dados terão de ser tomados para tratar de conttolar a regressão que poderá ser gerada. Com isso quero expressar que não costumo “deixar passar” um sonho sem antes efetuar uma tarefa mínima de exploração de seu conteúdo. conteria um risco básico. repito. ainda que não . sugerem apriori sua vinculaçào com o foco. o que e como interpretar. ou seja. no geral. não vejo nenhum inconveniente em tentar.. praticada do mesmo modo que na psicanálise.115 d) Interpretação dos sonhos Em P. não há tampouco uma unidade de critério com res­ peito a se devem ou não ser formuladas interpretações acerca do material onírico dos pacientes. Como responder a este problema técnico? Creio que diante dos sonhos o terapeuta deve assumir a mesma atitude que ante qualquer outro produto da atividade psíquica (atos falhos. etc. fantasias. Em última instância. crçio que não convem rejei­ tar de imediato um material tão apropriado. quer dizer. Mas vejamos a que me refiro com o que acabo de mencionar. Quando interpretar A interpretação dos sonhos deverá reger-se pelos mesmos princípios gerais que presidem toda interpretação em P. A interpretação dos sonhos. ainda que tendo presente quando. interpretar na medida em que o considere útil. de tratar-se ou não de materiaífocal.

a análise do sonho. e recolocá-lo assim na realidade de sua vida cotidiana. constitui . Os recursos para analisar os sonhos são em essência os da psicanálise. devem-se interpretar-se mais que tudo aqueles conteúdos que parecem mais claros para o paciente. embora limitada em seu alcance. remetendo-nos em troca só às idéias latentes pré-conscientes. A tarefa interpretativa se efetuará segundo as normas já assi­ naladas para a interpretação na PB.) O que interpretar Desde logo será preciso hierarquizar aqueles aspectos do sonho inerentes ao focal-atual.assim como acontece por exemplo com os fenômenos transferenciais em geral um recurso de apreciável utilidade para enriquecer nossa compreen­ são dinâmica do paciente. | especialmente no que concerne à focalização e à transferência. tal como se faz na técnica psicanalitica. Por outro lado. Como interpretar Consideraremos duas questões: uma referente ao método de análise dos sonhos e outra ao conteúdo das interpretações formu­ ladas para o paciente. reduzindo ao mínimo a indução de fenômenos regressivos. pois a limitação de tempo permite introduzi-lo só até certo ponto nos significados dos mecanismos oníricos (Hoch [28]).116 Psicoterapia breve de orientaçào psicanalitica derive na formulação de uma interpretação. venho observando com freqüência que os colegas cometem diver­ . sempre dentro do que se refere ao conflito a resolver. incluindo o auxílio oferecido pelas associações livres do paciente. a quem se podem pedir associações a partir dos dife­ rentes elementos. psicanaliticamente orientada. o que implicft conduzir uma vez mais o paciente ao contato com o conflito central do tratamento. e) O terapeuta diante do trabalho interpretativo Em minha experiência de supervisão de tratamentos breves. Geralmente deve-se evitar referir as interpretações a desejos infantis inconscientes.

117 sos erros gerados pela transposição de elementos técnicos da psi­ canálise sem nenhuma modificação à técnica breve. ao mesmo tempo em que significa justamente cavalgar permanentemente entre a transfe­ rência e extratransferência. Os assinalamentos. As perguntas. Também nesse ponto pode-se apreciar o papel ativo que desempenha o terapeuta. . a fim de se obte­ rem diversos e necessários dados acerca do paciente sobre o anda­ mento. Certas dificuldades próprias do terapeuta determinam que este. a enfrentar as situações temidas (21). num dado momento do processo terapêutico. pode­ mos citar: 1. o terapeuta conta com diversos ins­ trumentos na psicologia verbal. as perguntas revelam um terapeuta não-onipotente e interessado no paciente (16). Dentre os mais relevantes. Entre eles encontramos muito correntemente o abuso da referência a situa­ ções transferenciais. % 2. O fornecimento de informações.” Fiorini apontou do mesmo modo a necessidade de que o terapeuta se autocontrole na utilização das interpretações “transferenciais” (14). (Os motivos subjacentes a esta atitude do tera­ peuta serão considerados no capítulo 8. São de diversas tendências. tais como os vinculados à sexualidade. hão resista a seus efeitos regressivos. ^ 3. mas também durante o tratamento propriamente dito. Em certas ocasiões pode ser benéfico oferecer informações ao paciente acerca de certos temas. leva-se em conta a possibilidade de estimular o paciente fóbico. As sugestões.) Outras intervenções verbais Além das interpretações. Em outro contexto. Recordo com relação a isto um acertado comentário: “Ocorre-me que toda terapia breve apela para a mais primorosa sensibilidade do terapeuta. instrumento terapêutico necessário em toda terapia de insight para facilitar o trabalho interpretativo. Cabem não só na etapa diagnostica. com os perigos decorrentes. Exemplo: desde Freud. além de empregar reiterada e excessivamente interpretações da transferência. ^ 4.

â 7. Os comentários. Uma maior freqüência pode ser conveniente. como: X a) Situações de crises muito intensas. Sem dúvida posso dizer que. pode bastar uma sessão por semana. em de­ pressões intensas e agudas. às vezes pode ser útil ir reduzindo gradualmente a fre­ qüência das sessões (sempre que o estado do paciente o permita). para facilitar a separação ao terminar o trata­ mento. ao menos no começo. Em certas ocasiões. Além disso. Os conselhos. excitação psicomotríz. Para prevenir e contcr os acting out. Exemplo: a prescrição de uma psicodroga. De uso muito esporádico. por exemplo. ^ 8. dada a diminuição da auto-estima. costuma ser recomendável uma freqüência de mais de duas sessões semanais. uma vez que possibilita uma tarefa de certo aprofundamento e restringe as perspectivas de regressão e depen­ dência que poderiam ser incrementadas com um maior número de sessões. £ 6. confiança do paciente em suas possibilida­ des de melhoria (a posteriori poder-se-á reduzir o número de ses­ sões). Realizam-se essencialmente com o pro­ pósito de fomentar o intercâmbio verbal. duas sessões semanais é um número apropriado para uma psicoterapia breve de insight. 34 ss. ^ b) Pacientes com marcadas tendências ao acting out. depressão. Já fiz alusão às mesmas ao referir-me ao tema “Fortalecimento e ativa­ ção das funções egóicas” no capítulo 3. na maioria dos casos. As indicações. que transcorrem com grande angústia. exceto quando se trata de apoio emocional. Em geral é conveniente adequar-se às necessidades de cada caso particular. em casos tais. pp. As intervenções de reasseguramento ou de reforço. Sobre as sessões t Em primeiro lugar referir-me-ei à freqüência das sessões. etc. com grande necessida­ de dc provimentos narcísicos.1JS Psicolerapia breve de orientação psicanalítica “é 5. além de interpretar . Tentar-se-á assim alcançar um rápido alívio sintomático.. que es­ timule por sua vez a.

0 tratamento 119 as fantasias transferenciais que possam estar presentes (mais co­ mentários sobre esse ponto poderão ser achados no capítulo 10). É sobretudo no âmbito institucional que ocorrem as oportunidades mais promissoras para efetuar tratamentos combinando instru­ mentos terapêuticos que incluem eventualmente uma tarefa em equipe com outros profissionais da saúde mental. intervenção breve. quando se apela para outros elementos. aumentam as possibili­ dades de fadiga do terapeuta (não esqueçamos que em P. À medida que a sessão se estende por mais tempo. exercendo o profissional um papel ativo e buscando obter determinados resultados em um prazo limitado. Quanto à duração das sessões. é o de procurar agilizar o processo tera­ pêutico.B. Supostamente. terapia ocupacional. o que pode ser altamente positivo. supõe-se que também pode variar dc acordo com as circunstâncias. etc. se trabalha comumente frente a IVentc. para o que deve agilizar o processo terapêutico.B. comunidade terapêutica. o ponto de partida deve ser sempre uma fundamenta­ ção psicodinâmica acerca de sua incorporação ao tratamento e dos efeitos esperados com ela. Ocupar-me-ei de dois recursos que me são mais familiares por utilizá-los em minha experiência pessoal como terapeuta. serviço social. São . dramatização. As alternativas com que contamos no momento sâo realmen­ te numerosas: psicodrogas. Pessoalmente penso que uma duração de 40 minutos por sessão resulta adequada. intervenção de familiares e/ou pes­ soas próximas do paciente. F " Outros recursos terapêuticos Em muitas ocasiões resulta benéfico agregar outros instru­ mentos terapêuticos à psicoterapia individual verbal e breve. (9) (10) (14) (46) (47). hipnose. geralmente o que implica na realização de um esforço significa­ tivo). já que geralmente basta para efetuar uma tarefa proveitosa. Um dos tantos propósitos válidos e usuais na aplicação de diversos recursos em P. psicoterapia grupai.

Ministrar-se-á medicação só na­ quelas situações em que seu uso seja requerido como coadjuvante da psicoterapia e durante o tempo que se considere estritamente necessário. Em segundo lugar. se trate de um profissional capacitado para o manejo dos psicofármacos). Em troca. é claro. deverá evitar-se um emprego indiscriminado e rotineiro de medicações. sempre que se tenham pre­ sentes certas precauções. já que isto pode conduzir o paciente a escamotear seus conflitos. facilitaçào do insight. opino que a medicação deve ser forneci­ da na medida do possível pelo mesmo terapeuta encarregado da psicoterapia (sempre e quando. melhoria na comunicação. Aqui é pertinente recordar também que alguns já alertaram sobre os perigos que contém a idealização do medicamento. especificarei alguns aspectos de sua aplicação. Sem dúvida é ele quem. e particularmente naquelas ocasiões em que se efetua uma terapia breve de insight. graduar a dose. Não insistirei nas reconhecidas vanta­ gens provenientes dos efeitos da medicação (alívio sintomático. etc. controlar seus efeitos e ir efetuando as modificações que julgar convenientes. assim como certas dificuldades que podem sur­ gir se os psicofármacos não forem manejados adequadamente. permitindo o acesso à psicoterapia de pacientes que de outro modo seriam muito difíceis de tratar. Outros assinalaram a decisiva importância do fato de que desde o começo se explicite para o paciente o sentido da administração dos psico- . sem que se necessite da participação dc um terceiro. parece o mais indicado para poder realizar uma escolha adequada do medi­ camento. uma vez que pode gerar no paciente atitudes maníacas (30). Em primeiro lugar. O emprego de psicofármacos A combinação de psicoterapia com psicodrogas pode ser muito útil em diversas circunstâncias.120 Psicoterapia breve de orientaçãopsicanalitica eles: o emprego de psicofármacos e a participação de familiares e/ou figuras próximas do paciente em tratamento. anulando-o em suas possibilidades de esclarecê-los e de encontrar uma solu­ ção mais satisfatória para eles. conhecendo o paciente melhor que seus colegas.).

o que poderá acontecer ou na fase diagnóstico-prognóstica ou na busca de objetivos comuns.0 tratamento 121 fármacos (35). da f>erda de interesse pela mesma. As metas que mais comumente se buscam com essa conduta são: 1. sem os esforços e a participação ativa que a psicoterapia supõe). ou seja. e se não se recorre novamente a ela. posição com a qual concordo e segundo a qual costumo explicar ao paciente. na terapêutica e/ou na avaliação de resultados. ela voltará. que a medicação é destinada a tornar possível (ou facilitar) sua comunicação comi­ go. no caso em que esta esteja muito difícil. costumo recorrer a exemplos simples: freqüentemente refiro-me ao que ocorre quan­ do a uma pessoa se ministra um analgésico (droga) para acalmar uma dor de dente (representante do sintoma psíquico). Também é convenien­ te esclarecer os objetivos do uso das psicodrogas associadas à P. por exemplo. por exemplo. isto é. Obter informações. que é a que no fimdo deve ser tratada/Em síntese. é uma cárie (assimilável ao conflito psíquico). explicando o caráter pa­ liativo de sua administração. Dever-se-á insistir junto ao paciente que ele deve aspirar a algo mais. diretamente. à compreensão c à resolu­ ção do conflito por meio da psicoterapia. Procurase além disso chegar a um diagnóstico psicodinâmico do casal . Com essas explicações tende-se a evitar a eventual interferência do efeito da medicação no pfocesso psicoterapêutico (o alívio fácil. Resulta em geral sumamente benéfico ter a oportunidade de entrevistar familiares e/ou pessoas próxi­ mas do paciente e conhecer suas impressões sobre eleJ2. mas passado o efeito da medicação. ela persistirá/ A participação de familiares e/ou pessoas próximas do paciente no tratamento Freqüentemente é necessário incluir no processo terapêutico breve pessoas vinculadas ao paciente. pois sua origem. Para esclarecer a questão aos pacientes. A dor pode ceder.B. se não tentamos “curar” a infecção “pela raiz” por meio da psicoterapia. a procurar que a melhoria sintomática não seja acompanhada de uma desva­ lorização da psicoterapia ou. quando se tenha um alívio sintomático.

E não poderia ser de outra maneira quando se trata de buscar modificações em um prazo geralmente limitado. se for preciso. paia o que resulta até imperioso trabalhar sobre os pro­ genitores e ter constantemente presente a unidade grupai de pato­ logia. fato que deverá configurar a regra e não a exceção na P.lzz_ Psicoterapia breve de orientaçãopsicanalitica e/ou da família. Hm algu­ mas ocasiões. o tratamento pode ser concebido. pelos quais se dá espaço a familiares e/ou pessoas próximas do paciente no tratamento. partindo da concepção de que aquele é. a necessidade de incluir os pais no tratamento. de adolescentes. so­ bretudo quando a problemática está principalmente relacionada com seu meio familiar. Atualmente. Atuar terapeuticamente sobre o meio que rodeia o enfer­ mo. com ou sem a inclusão do paciente no tratamento grupai. A participação dos pais (ou tutores) do adolescente no pro­ cesso terapêutico deverá estender-se desde o início até o final do mesmo. de adoles­ centes. c) fase de avaliação dos resultados terapêuticos. Quisera efetuar agora algumas considerações acerca da P. dc uma psicoterapia a cargo do mesmo terapeuta que efetua o tratamento do paciente. a indicação poderá ser uma psicoterapia breve ex­ clusivamente grupai (casal. já que se acham profundamente im­ plicados na crise do filho (31). tudo isso de acordo com os critérios predominantes em cada caso.B. senão do grupo familiar. família) desde o começo. ou de outro.B. Tem-se enfatizado. na P. 3. já não como uma psicoterapia do adolescente. Isto poderá realizar-se através de entrevistas jie orientação c além disso. apresenta-se especialmente aqui a necessidade de fazer intervirem os pais em função dc outros fins que se acrescen­ tam em determinadas fases do procedimento. de pacientes adolescentes no que diz respeito ao papel dos pais. o emergente de um grupo enfermo. Informar sobre o estado do paciente para conseguir que seus familiares ou as pessoas próximas assumam a responsabili­ dade do tratamento nos casos em que isso seja necessário. . na realidade.B. b) fase de combinação das metas terapêuticas e dos distintos aspectos do contrato. £ 2. Além dos fins anteriormente mencionados. determinar o papel que nela ocupa o paciente. São elas: a) fase de devolução diagnostico-prognóstíca.

o que pode produzir efeitos perturbadores de natureza diversa.123 > a) Os pais. seja considerando-a mais grave do que o é na realidade seja pelo con­ trário diminuindo sua importância. ainda admitindo que depende substancialmente desta que eles aceitem as modifi­ cações que possam produzir-sc na dinâmica familiar. junto com o adolescente e seus pais. efitre paciente. No que concerne especificamente aos objetivos. Caso con­ trário. Trataremos então de que colaborem desde o princípio e de ir preparando-os para que aceitem essas mudanças. ficam mais facilmente sujeitos a suas próprias fantasias acerca da enfermidade de que o filho padece. por serem responsáveis pela terapia. Mas com freqüência as coisas nãó' são tão sim­ ples. / b) É imprescindível combinar. necessitam ter uma noçào real do esta­ do de saúde do filho e de suas perspectivas prognosticas. objetivo que será facilitado por meio da psicoterapia familiar que virá em continuação. a situação mais desejável para enfrentar nosso trabalho terapêutico consistirá em alcançar um acordo unânime acerca dos mesmos. definitivamente.no caso em que sejam cltís os que interferem inicialmente em nossas finalidades terapêuticas . quer dizer. e por ter sido requerida sua colaboração.*os objetivos terapêuticos e o contrato. da ação retificadora que sobre os pais . pais e terapeuta. atitudes repressoras. Os pais costumam chegar à consulta com determinadas ex­ pectativas e intenções a respeito do tratamento do filho. e que os pais. desqualificadoras dos suces- . por exemplo. por exemplo.poderia mais adiante exercer a psicoterapia do grupo familiar a ser efetuada. culpogênicas e. que não coincidem com as do paciente e/ou as do terapeuta. ante as possíveis mudanças que o filho experimente. Uma míni­ ma concordância inicial acerca dos objetivos terapêuticos consti­ tui um requisito fundamental porque permite começar a tarefa em melhores condições. é muito mais fácil que sobrevenham inconvenientes deriva­ dos da incompreensão e que consistem em diversos tipos de rea­ ções negativas por parte dos pais. não se sintam inteiramente tomados de surpresa ou “atraiçoados” com relação ao planejamento previsto no começo do tratamento a respeito dos fins deste. Quando não recebem informações. Não é possí­ vel passar por alto desacordos ou mal-entendidos de início e dei­ xá-los à mercê.

124 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica sos do paciente ou. Procurar-se-á que os pais cheguem a reconhecer que tam­ bém eles estão imersos no problema e que. o que é muito comum. Essas entre­ vistas adquirem na realidade grande valor terapêutico. . o deles mesmos (quando tenham sido tratados) e sobre o tratamento. mas em tratar / de entender juntos a problemática familiar global que pode estar originando sua rebeldia e o significado profundo da mesma como expressão da crise adolescente e da conseqüente crise deles mes­ mos. sendo também eles objeto de uma devolução por parte do terapeuta. entrevistas operativas (44) especialmente destinadas a este fim. num filho submisso e obediente. Antes de tudo. devemos fazer compreender a estes pais que nossa finali­ dade terapêutica não consiste simplesmente em converter o pa­ ciente. logo após obtido um diagnóstico psicodinâmico do grupo familiar e da situação-problema. pois nelas devem-se encarar já alguns problemas cruciais da conflitiva famjliar. os pais devem ficar excluídos da avaliação dos resultados obtidos33. No caso de se apresentarem dificuldades para chegar a um acordo inicial sobre os objetivos. as quais poderiam ser conjuntas (29) com os pais e o adolescente ou realizar-se em separado. para obterem certas mudanças em sua relação com o paciente. é indubitável que os pais têm direito a um esclarecimento sobre o sentido e o alcance do tratamento que o filho venha a empreender. será preciso que se comprometam firmemente no esforço terapêutico. y c) Tampouco. que retirem diretamen­ te o filho do tratamento. de repente. Apelando uma vez mais para entrevistas con­ juntas ou em separado. pois será ne­ cessário revisar o que acontece não só com o paciente. mas tam­ bém com eles. solicitar-se-á que tragam suas impressões sobre o estado atual do paciente. mediante a qual este comu­ nicará sua própria avaliação dos resultados terapêuticos. Por outro lado. descreverei uma sií \ tuaçao -A muito freqüente na psicoterapia de adolescentes: a do jovem que tem uma atitude de rebeldia em relação aos pais. será de utilidade efetuar. título de exemplo do exposto até aqui.

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A princípio queria ajuda para compreender melhor suas qualidades a esse respeito e em conse­ qüência tomar uma resolução. “não acreditava” na psicoterapia e nunca havia aceitado consultar um psiquiatra. trabalhava como empregada numa oficina e pertencia à classe média baixa. Rita dizia que a rela­ ção com seu marido era “bastante boa e carinhosa”. segundo a paciente. e para permitir uma melhor compreensão do que aconteceu na ses­ são. Consultou-me às escondidas de seu marido. Antes de mais nada. é uma jovem que na época da consulta tinha 23 anos. tam­ bém empregado. Veio à consulta apresentando uma gravidez . . j Apresentarei aqui o material de uma sessão cie psicoterapia focal. O casal havia se conhecido trépanos antes.de aproximadamente 50 dias. de 27 anos. A paciente. o qual. isto é. prosseguir com a gra­ videz ou submeter-se a um aborto. que espero possa ser útil para ilustrar aspectos inerentes à relação paciente-terapeuta. ainda que não poucas vezes tivessem desentendimentos e discussões acaloradas. Tinha completado o curso secundário (efetuou algumas matérias no curso de psicologia. às intervenções do terapeuta. exporei os dados principais da história clinica e um esboço da estrutura focal da maneira como/oi concebida inicialmente1. mas abandonou-o logo em seguida). Estava casada há 14 meses. e por não poder tQmar uma decisão diante da mesma.7 Uma sessão depsicoterapia breve .cujo diagnósti­ co foi confirmado . à tarefa de focalizaçào e a outros temas de interesse. a quem chamarei Rita.

a não ser o coitus interruptus. chorara muito. Mas. “deve ser feio tê-lo sem sentir muito desejo”. seja porque eram vividas por ambos com muita culpa (em Rita. há dois anos ficara grávida ç de comum acordo com seu atual marido praticara um aborto. . Para tanto. enquanto voltava a si. Um dia. As mesmas eram pouco satisfatórias. mas logo mudou de idéia e.130 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica A gravidez não foi planejada conscientemente pelo casal. mostrando-se muito entusiasmado com a idéia de ser pai e confiava em que iriam poder superar os diversos inconvenientes que se apresentas­ sem. Temia que tivessem produzido lesões importan­ tes nos genitais da paciente. dizia ela. antes de mais nada. alegando apenas que assim “era mais cômodo”. quase não voltaram a falar no assunto. angustiadamente: “tiraram ele de mim!”. simbolizado pelo “casar-se de branco”). assim mesmo em poucas ocasiões. seja porque eram constantemente acompa­ nhadas pelo medo de uma gravidez. gritando. Seu marido adotava uma posição oposta. Alegava. havia se desin­ teressado do assunto. de vez em quando. chocavam-se com seu desejo de chegar virgem ao casamento. ao verificar que não ficava grávida. já que seu marido desejava um filho. A paciente não encontrava explicações razoáveis para esse descuido. submeteu-se a uma anestesia geral e. segundo lhe contaram. A jovem temia em conseqüência que um aborto afetasse a relação do casal. mas dizia tam­ bém que se sentia insegura de si mesma e incapacitada para ter um filho. razões econômicas. aceitando o conselho de uma amiga. que não tinha interesse em submeter-se aos procedimentos habituais de contracepção e que ultimamente. por momentos parecia inclinar-se ao aborto. enquanto. Haviam começado a manter relações sexuais antes do casa­ mento. que ocasionassem sua esterilidade. Até esse momento não ha­ viam empregado nenhum método anticonceptivo. antes de vir à primeira entrevista em meu consultório. Ainda que Rita insistisse na dúvida acerca do que queria com relação à gravidez. decidiu consultar antes um psicoterapeuta. A partir do aborto foi sobretudo seu marido quem pareceu ficar preocupado. uma vez passado o momento crítico. Na realidade. havia esta­ do a ponto de visitar um médico residente para praticar o aborto.

como sofreu sua mãe nas dela. vivia zombando do genro.Uma sessão de psicoterapia breve 131 Dosjmtecedentes familiares importa assinalar que a paciente cra proveniente de uma família de educacão e costumes tradicio­ nais. Mas é só o que falta”. Nunca se pode saber olque está sentindo c nunca discute com ninguém. segundo ela. Segundo a descrição da paciente.disse . com uma filha de 4 anos. l ive que lhe dar soro. se domina. o irmão reagiu com aparente indiferença. que tratou de explicar à jovem com argumentos. (“Não vivemos ali porque não dormimos.) A família de Rita se opusera tenazmente a seu casamento. Segundo Rita. por exemplo. dizendo-lhe que “não servia” (alusão ao fato de que não engravidava sua filha). não podia “separar-se deles”i /"NTlido o que foi mencionado. Sobressaíam as característi­ cas matriarcais. além de muitos outros indícios. (“É como se ela não hesitasse em matar alguém nesse momento. Diante da notícia da gravidez. Vi­ sitava-os diariamente com seu marido “para bater papo e jantar”. Sua relação com ele . era uma pessoa muito severa e domina­ dora. Segundo a paciente. ante as quais.era^cordial”. que após ter vivido um tempo separado dos pais voltara à casa paterna acompanhado da esposa e. Bleger [2]). a paciente se encontrava em plena luta para alcançar sua individualização. Logo sejirrepende.. o pai adotou uma atitude de franco desagrado.” A reação de sua mãe havia sido especialmente desconcertante para Rita e parecia assentar-se em uma intensa ambivalência para com sua gravidez.. como: “A mulher não deveria sofrer na gravidez. com tantos vômitos e indisposições. casado. com reações anormais de violência. todavia. Nem água podia beber. Qualificou-a também de “muito nervosa”. A mãe.” Padecia de hipertensão arterial. cinco anos mais velho que ela. e L. com os conhecidos tabus sexuaisA relaçào com seus pais era de marcada dependência. um antes e outro depois do nascimento de Rita. o pai impressionava por ser uma pessoa muito controlada ein seus afetos: FEu sempre digo que é muito diplomático. cm troca. T inha um irmao. dizia com ironia. . que experimentava ocasionalmente. e só ultimamente parecia dar mostras de começar a aceitar ou tole­ rar seu marido.”) Teve dois 'abortos. } fazia supor que o grupo familiar correspondia ao tipo dos çj^omij \ nados aglutinados (F. filha.

a mãe havia sofrido diversas moléstias. dificuldades econômicas familiares). diariamente. Nesses momentos a preocupava o fato de ver-se obrigada a deixar o bebê aos cuidados da mãe. sua mãe. não deu crédito. Dizia-me: “Essa casà é um desastre. ainda que lhe parecesse que sua mãe cuidaria do filho com mais carinho. grande risco de vida. ao que parece. Além do mais. ÜJUxo único. cozinha e banheiro). se alegraram muitíssimo com a novidade. Não tem lugar para nada. um médico diagnosticara uma presumível apendi­ cite crônica'. para justificar. você acha? respondi.132 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica Logo lhe levaram a notícia da confirmação da gravidez. estando grávida de três meses. Dos antecedentes pessoais de Rita. Por outro lado seu.co­ mentou Rita . o que supostamente levou o casal a não desejar outra gravidez). havia tido outras moléstias durante essa gravidez (anemia profunda. pai preferia. que era. foi viver com o marido em um apartamento alugado. para ir trabalhar. flebite. Rita sempre dormiu na casa dos pais (a casa em que ainda vivem c que conta apenas com uin quarto. num exame clínico motivado por transtor­ nos intestinais. também. segundo lhe contou. ‘Olha que é muito cedo para você perder tempo com uma criança’. depois passou a dormir com sua mãe na cama de casal (enquanto o pai dormia em seu local de trabalho.” (Não descartava a possibilidade de recorrer a uma creche. Não. na sala) até que. e episódios diarréicos). “Mas não sei até que ponto se alegrou .) Dois anos antes. devido a um quadro de apendicite aguda. teve de se submeter a uma inter­ venção cirúrgica de urgência. Interessa em especial destacar que a inãe de Rita. Cabe dizer. assinalarei alguns dados •' significativos: ela acreditava ter sido produto de uma gravidez não desejada por seus pais ( já em sua primeira gestação. dormiu na mesma cama que seu ir­ mão. Em seguida pareceu emocionar-se e começou a chorar. sala. e o irmão. que os pais ^do marido. Até os seis anos. a princípio. à qual. . me disse ela”. O par­ to foi normal. Ujnjnenino. instalada ao lado da de seus pais (alegava. Essa intervenção foi realizada com anestesia local. com seu casamento. corren­ do as duas. Até se casar.porque depois me disse que tomasse algo para tirálo.

nao chegando a configurar um quadro característico de neurose. Creio que podemos partir da^dificuldades sexuaj^ de Rita. e as conseqüentes fantasias incestuosas. Mas Rita parecia sentir novamente e de modo imperativo a necessidade de pagar por suas “faltas” com um novo aborto. ainda que em grau menor. Pensei em questões que se vinculavam ao motivo da consulta. diante dà qual a paciente . alimentadas pelo risco cirúrgico que sofrera sua mãe. Assinalarei agora os componentes do foco iniciahe alguns dos principais psicodinamismos em jogo. tais como: Quais foram os fatores*dcterminantes da busca inconsciente da gravidez atual? O que ela representava para a paciente e para o seu marido? Que fatos motivavam sua ambivalência afetiva e seu» temores ante a gestação? Por que se inclinava conscientemente a&aborto?. Ein conseqüência do men­ cionado. como um mecanismo de autocastigo por infringir a proibição. em parte. funcionamento egóico adequado. inclusive as primei­ ras etapas de sua vida. ^ -----.C ---- - " j ' - . negando a dor e a perseguição provocadas por essa perda. ba­ seado nos conflitos ante a maternidade. e dali ir retrocedendo em sua história até chegar a considerar a pro­ vável incidência de fatos a elas concernentes. seu aborto podia ser considerado.Uma sessão depsicoterapia breve w. Vamos aventar a hipótese de quê suas fantasias de ataque ao ventre materno. a faziam temer agora por sua própria sorte. Diante de uma imagem fetal seguramente muito per____________ ^ ' J' " " " ^ llh _ *' í . consU derando seus ^ntêcedentes pré-natái§> podemos compreender melhor o porquê de suas elevadas ansiedades paranóides ante a sua gestãçao e suas intenções de abortos. A gravidez atual continha então um desejo inconsciente de reparar o dano produzi­ do^ associado à ngcgssidade de comprovar a preservação de seus genitais diante do temor de que tivessem sofrido danos. Mas o aborto também era gerador de culpa pela destruição do filho. W. etc. tam­ bém seu esposo reagia com típicas defesas maníacas. que sem dúvida tinham muito a ver com suas experiências de coabitação e de partilha de cama. com atitudes para o insight. Além do mais. foco definido. Suas relações sexuais pareciam despertar nela intensos sentimentos de culpa.e ao que parece. ainda que manifes­ tando resistências que poderiam accntuar-se4. \lguns diagnósticos considerados foram: personalidade hipomaniaca^ com conflitos de natureza neurótica. principalmen­ te por tratar-se de relações sexuais pré-conjugais.

em uma observação mais profunda. até esse momento. só acumulava dúvidas sobre o que desejava fazer. poderse-ia descobrir a persistente resistência familiar à sua individuali­ zação e desprendimento. como emer­ gente. temerosa. incrementando-se seus temores de experimentar uni retrocesso nesse sentido: deixar o bebê aos cuidados de sua mãe consistiria em voltar a ligar-se e submeter-se intensamente à. e na qual correu peri­ go de ser abortada. de uma gravide/. a de um superego ambíguo. especialmente à mãe. e a jovem.) Deduz-sc que Rita não se sfiüúa cqmjLijreito de_sCTmãe. através da quãTse^oãõHrígadíTa abandonar seus desejos maternais5. dos tabus sexuais e . em função do luto patológico nâo-elaborado (aborto). também para ela a imagem materna continha características filiei^ das (5 ). Mas sim. Os relativos à relação de casal da paciente não pareciam relevantes num primeiro momento. atraves~dê~seírs levado montantejteagressão. interessava além do mais considerar o momento evolutivo que este caso estava atravessando: pudera começar a separar-se fís i-/lfV '*^tr ca e gradualmente de seu grupo familiar ao contrair matrimônio j cerca de um ano atrás. e expressa verbalmente pelo pai. crcnça quase mítica de que a gravidez era uma espécie de enfermidade^lesgraça ou maldição. Recordando o conceito de foco enunciado por Fiorini (3). Nessa etapa dc doloroso e difícil despren­ dimento. (Rita havia nascido entre dois abonos. Parecia temer que os familiares. Inclusive sua mãe a incentivava em certos momentos a abortar. A família parecia exercer grande influência sobre a paciente. bssa crença era fundamentada nos problemas sofridos por sua mãe e sua cunhada. A conduta materna reproduzia. a rejeição ante o marido e à gravidez. a perspectiva de ter um filho repercutia curiosamente na jovem.. superar sua dependência patológica do gru­ po. da severa educação religiosa. família.da. não desejada e muito acidentada. pela qual é preferível não passar. ao que parece. assim. Havia muito mais elementos em jogo. a paciente sem dúvida não havia conseguido. correspondentes à conflitiva focal.134 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica secutória. . os provenientes do meio familiar. Por sua vez. por outro lado. em relação à qual teria lugar o conflito básico da problemâtica. adquirindo a gravidez o caráter de algo pecaminoso. no que. para cm seguida dizer que abortasse. já que primeiro incentivava o casal à gravidez por meio de troças a seu genro.

que se reativava ao identificar-se com o filho monopolizado em sua fantasia por sua mãe.no sentido de não poder liberar-se da ligação com a figura materna.pria experiência. ^ Tratarei dc reproduzir. que se achava sob o domínio da avó e exposta a uma educação retrógrada. a despojassem de seu filho. o desenvolvido até aqui: ^ FO C O Relações sexuais pré-conjugais (culpa pela sexualidade) I Aborto |-----1 Defesas maníacas t s [ M omento ev o lutivo]----- Casamento Deves abonar" \ .Uma sessão de psicolerapia breve 135 em particular a mãe. com as limitações próprias de todo esquema. sobretudo o materno. em sua pró. o qual. Estas seriam as regras do jogo que deveria cumprir para não perder o carinho dos seus. teria de oferecer a ela.. r'Mas seus temores se baseavam. Rita tomava como referência o que ocorria com sua pequena sobrinha. no caso de nãcTabortar. antes de mais nada. renunciando à sua condi­ ção dc tnãe. M o o familiar | .

Chega com 20 minutos de atraso..136 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica A paciente nào se achava motivada para realizar um trata­ mento prolongado. assim como as fantasias subjacentes que haviam acompanhado a sua busca. um pouco perturbada): Não me diga nada. perfeitamente localizada c circunscrita. levando-se em conta seu estado e motivação para o tratamento. dependendo da evolução do seu estado e das vicissitu­ des que poderiam acompanhar sua gravidez. A sessão A seguir é transcrita quase que literalmente a sétima sessão do tratamento de Rita. a situação seria reestudada. com duas sessões semanais de 40 minutos cada. motivo pelo qual lhe propus uma psicoterapia de objetivos limitados e de final “aberto”. assim como das dificuldades de diversos tipos que eventualmente pudessem aparecer. em tom amável): O que você pensa a respeito de ter chegado tarde desta vez? P2: A verdade é que sentia frio e tive dificuldades para me le­ vantar da cama e vir. o objetivo do tratamento seria a revisão das ansiedades por ela produzidas durante a gestação. Caso se decidisse pelo aborto. Recorria à consulta por uma necessidade que era. As metas terapêuticas imediatas consistiam em ajudá-la a en­ tender melhor as causas determinantes de suas dúvidas a respeito de sua gravidez. T2: Além disso. acredita que poderia haver outros motivos? P3: (Incisivamente): Não.. Caso decidisse prosseguir com a gravi­ dez. que estava próxima de completar o terceiro mês de gestação.. O tratamento foi planejado com base na técnica de insight. ( pensa breve) Sobra-me apenas metade da sessão. considerando-se útil em algum momento a possibilidade de inclusão do esposo e de outros familiares da paciente no processo terapêutico.. P1: (Sorri. por meio de entrevistas de orientação. que interrompo para dirigir-me a ela. Há um silêncio de alguns segun­ dos. para ela. ainda que nesse caso tenha-se adiantado que uma assistência psicológica seria tanto ou mais necessária6. (muda bruscamente o tom de voz. . T1: (Respondo com um sorriso. que revela agora certa preocupação).

De novo interrompo à silêncio. Porque vir aqui adquiriu o significado de ocupar-se de você e de sua gravidez com a idéia de pre­ servá-la. Quer dizer. a que vem. Mas Rita começa a mostrar-se tensa. (A seguir ocorre uma nova pausa. Então. antes de me consultar pela primeira vez. a que não vem na primei­ ra metade da sessão.. No dia seguinte. num saco. Creio que isso tem a ver com seus sentimentos ante a sua gravidez. P7: Você já notou os cachorros. e outra não. Logo soube que meu pai e meu irmão o tinham atirado no rio. metade da sessão não vem e a outra metade.) T4: Parece que lhe custa prosseguir. sobre alguma coisa ruim de minha infância.. sim. com si­ nais visíveis de ansiedade. Depois. e que naquela ocasião eu não pude lembrar. Volta a sorrir-me. Como incomodavam e o cachorro estava mui­ to agitado. não? P5: ( Com expressão de alivio ): Sim. Tí­ nhamos um cachorro que “andava” com uma cachorra que estava no cio. Como foi isso? Contc-me por favor. quando estão no cio? Bem.. recordando algumas coisas relaciona­ das com o que você me perguntou nas entrevistas. P6: Sim.” O cachorro desapareceu... mais prolongada. T6: (Acompanho seu relato... Um dia.Uma sessão de psicoterapia breve T3: Assim é.. celebrávamos minha pri­ meira comunhão. pelo que eu me converti em algo assim como a contrapartida dele. meu irmão bateu-lhe com uma cadeira que o “descadeirou”. Lembrei-me que quando tinha sete anos mataram meu cachorro. você parece se sentir como que dividida em duas partes: uma quer prosseguir a gravidez e ter o bebê. você ia procurar um aborteiro. E não sei por onde co­ meçar. não sei. Lembro-me de que meus pais e meu irmão comentavam: “Não vamos deixar que as pessoas vejam um cachorro assim maltratado. meu outro cachorro foi .. T5: Pelo que sente necessidade de trazer hoje e que lhe parece possa ser útil para entender seu problema. o in­ teresse que me desperta sua abordagem)1 . externando através de um olhar atento e movimentos de cabeça em sinal de aprovação.. estive pensando. Sofri muito com isso. • P4: (Adota uma expressão meditativa): Pode ser.

abortar outra vez. que o arranquem como o seu cachorro. que atiraram dentro do rio. Quer dizer. mas eu não me dou conta de que isso aconteça com minha gravidez. Quem sabe seja isso.. ameaçan­ do se matar.. Parecem estar em parte re­ lacionadas com os problemas que tem agora. (pausa um pouco pro­ longada). pelo menos que eu saiba. ou se justamente por serem feias pre­ feri deixá-las de lado. Tl 1: Sua mãe com a faca. seu carinho maternal e seus desejos de proteção para com seu filho. Com certeza. será seu medo ao bisturi.. T7: Ela tentou alguma vez? P8: Não. despedaçando a boca. e ontem me perguntava se era por não serem coisas tão feias.. o que viria? Com o que poderia relacionar? PIO: Não sei.. P9: Talvez. T9: E no que diz respeito à gravidez de sua mãe. que lhe acon­ teça o mesmo que a ela? Que a tenham de operar de apendi­ cite? . vimos que para você os cachorros repre­ sentam os filhos7. quem sabe.. Tudo isso eu não recordava. Sua gravidez é sua principal preocupação. o que não é casual.. abaixar um pouco.. expressam uma grande preocupação que agora tem por sua gravidez. Vejamos um pouco por quê: você sofria pelo que acon­ tecia aos cachorros.. num saco.138 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica atropelado por um caminhão. tratemos de ver o que significaram para você esses fatos de sua vida e por que foram recordados agora. que sempre foi muito nervosa. não reconhe­ cendo em você.. essas recordações. mas por algum motivo surgem essas recordações. T8: Bem.. Estive também me lembrando de outras coisas: de quando minha mãe.. Em sessões passadas e nas entrevistas. não sei se tenho medo por mim mesma. e por isso surgem essas lembran­ ças. Não sinto isso tudo. TIO: Medo de que lhe suceda algo por estar grávida? PI 1: Sim. Creio que no fundo teme muito perdê-lo.. você poderia ter recordado outras coisas desagradá­ veis de sua infância. brigava com meu pai e pegava uma faca. dos quais não se dá conta..

T l3: Não quis ou não pôde? Porque talvez algo lhe acontecesse. mas não qúis. São explicações que procuram esconder quanto você dependia da opinião dos outros e quanto estava submetida a eles.. PI6: Com a psicologia. como a de não ter querido fazer coisas que na realidade você gostava. Quero lhe dizer também que estive pensando sobre o que disse na últi­ ma sessão.. minha família e meu marido... e no entanto não pude fazer coisas. Além do . estudar. PI5: (Interrompendo-me).. já que vontade não lhe faltava. cheios de preconceitos. sentime cansada da faculdade e a deixei. T l2: Se bem que um médico lhe haja dito que tem apendicite crô­ nica. Por fim. Na verdade antes de mc casar havia muitas coisas de que eu gostava. se não haveria mais coisas nisso tudo. de que nada me atraía... (pausa). Assim acabou por se submeter a seu marido. parece que é assim.. Tl 6: O cansaço é.. (sorri. ser uma dama. abandonando os estudos quando estudar era algo muito desejado por você. Perguntome sc tudo isso não está relacionado ainda com suas dificul­ dades em vir às sessões. não fica claro o porque desse temor. PI4: Sim. Sim. Depois cheguei a pensar que me invejava por ele não ter podido seguir uma carreira nos estudos. para os quais não teve apro­ vação deles. motivo pelo qual lhe custa vir aqui. mas antes disso não existia esse problema. Tl 4: É certo que. É como se fosse algo relacionado aos seus estudos de psicologia. Podia tê-lo feito antes de me casar. como se tivesse sido descobkrta): Eu gostava de muitas coisas. se opunham e me diziam: “Para essa faculdade é que você vai? É psicologia que você quer estudar? Ali são todas umas sem-vergonha. Não só viajar.Uma sessão de psicoterapia breve 139 PI2: (Aprova com um movimento de cabeça).. Quero dizer. Tl 5: Sim. umas ‘lou­ cas’. P13: Pode ser. quê eu gostava. então. mas também modelo.. próximo do casamento.. teria de pensar em con­ seguir um emprego com urgência para poder enfrentar todas as despesas que viriam. na verdade não sei por que me atormenta tanto esse medo de que algo de ruim mc aconteça. uma desculpa.

Recentemente então se sentiu com permissão. não se sinta muito tranqüila. com o caso dos cachorros. Hoje. disse você. quem sabe espera que a ajude. Foi entào. Uma permissão que estava esperando sobretudo de sua mãe. Esse problema de suas dificuldades para empreender algumas atividades muito desejadas é muito importante. como por exemplo que a tenham de ope­ rar de apendicite. PI7: Tem razão. Isso significa que continua dependendo dos outros. Creio que é como você diz. eu pensava: parece que sempre necessitei que alguém me desse um empurrãozinho. mas também por seus temores em contradizê-la. Recorde como sua disposição sobre sua gravidez se modificou quando ela mudou de opinião e a aprovou. Enquanto você fala­ va. lcmbre-se de que você não comentou com seu marido que está se tratando.140 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica mais. deles dando mostras hoje. Mas quem sabe. rebe­ lar-se e expor-se a ser castigada por ela. Por isso tem medo de manter a gravidez. Meu irmão a con­ testava. Seria desobedecer-lhe. e creio que é parecido com o que acontece com suas dificuldades ante sua gravi­ dez. se rebelava e entào “levava”. mas também de mim. por tudo isso sente que seria melhor “tirá-lo” e assim evitar o perigo. não só por suas próprias dúvidas. Você o faz às escondidas. Tem desejos muito encobertos de ser mãe. como sente que ela não a aceita de todo. você ensaiou uma defesa muito tímida: “Não. Em parte.<a ocorrência de alguma coisa ruim. T l7: Talvez esteja buscando isso em mim. como castigo. assinalando. Tl 8: Isso explica por que quando ela lhe disse “tire-o”. ainda que. Queria sentir-se autorizada por mim a prosseguir com sua gravidez. esperando aprovação para levar suas coisas adiante e agora sua gravidez. a qual teria. mostra-se com mais iniciativa. Seria o empurrãozinho de que necessita para preservá-la. defendê-la.. em especial sua mãe. você acha?”. se preocu­ pa muito com o que pensa sua família sobre sua gravidez. segundo parece. também nisso se sinta sem permissão para seguir adiante. P18: É que eu sempre tive medo de minha mãe. que me apóie para eu poder fazer coisas. você se permite falar aqui de seus interesses.. Pelo visto. . Eu me salvava por ficar caladinha.

abordo suas resis­ tências através de um fator determinante. acho que se coloca na posição do cachorrinho. e cuja causa é a regressão que se pro­ duziria a partir da identificação com o feto (6). mas meus pais nào aceitavam meu marido. agora quer ter um filho dele. Acho que é assim. Além de se atrever a casar sem a apro­ vação de seus pais.Uma sessão de psicoterapia breve 141 P19: (. Por mais que o fato de querer ficar na cama possa em parte ser explicado pela retração e excesso de sono que as mulheres costumam sentir durante as pri­ meiras semanas de gravidez. doutor. e no entanto eu o fiz! Tl 9: Está certo. que tem razão. então se entende que é com muita razão que você se sinta tão inquieta. Faço-o de modo a ser o menos persecutório possí­ vel.. Comentários sobre a sessão A paciente chega tarde. através de sua ambivalência ante a gravidez. Em primeiro lugar. apesar da oposição de seus pais. já que ele interfere sensivelmente em nosso trabalho. e por ter relações sexuais antes e depois do casamento. Seu sentimento de culpa por ter-se casado.. coisa que já havia ocorrido em algu­ mas sessões anteriores. (surpresa). creio que hoje vimos algumas que parccem ser muito importantes e que devem estar pesando muito em você.. Não havia pensado nisso. parece que não (fesapareceu. opunham-se a que eu me casas­ se. O que acha? P21: Acho que sim.Protestando em tom amável)'. te­ mendo ser duramente castigada por “esquentar” e ter rela­ ções sexuais. mostrando-lhe . (brincan­ do): É o fim! P20: Ah!. que cor­ reria o risco de ser vivenciado como muito inquisidor ou direta­ mente acusador (Intervenções Tl e T2). essencial às mesmas. Se bem que deva haver mui­ tas outras coisas para se ver com respeito aos problemas ante sua gravidez.. T21: Temos que encerrar por hojç. e agora é maior com a gravidez. Isto é. trato de concentrar sua atenção sobre este fato. T20: Então. Bem.. não permitindo que ocorra um silêncio prolongado..

No transcorrer do tratamento. portanto. situação essa que se apresenta com freqüên­ cia nessas terapias. Em T4. de­ monstro à paciente também verbalmente atenção e interesse diante do material que me traz. volto a interromper seu silêncio com uma interven­ ção que tende a tranqíiilizá-la. podem ajudar-me a detectar o ponto de urgên­ cia. a canalização nessa direção. Reforço.). Tudo isso acontece rapidamente. trata-se fundamentalmente de uma interpretação “transferenciar. a serviço da tarefa terapêutica. deduzo então que se trata de material pertinente ao foco.142 também o papel de defensor e protetor desta. através da expressão corporal eque manifesto. Trata-se agora de decidir o que interpretar e de eleger uma determinada linha interpretativa entre várias possíveis. Em T6. visto que quero fazê-la sentir que compreendo . As recordações de Rita provocam em mim ocorrências que. Em P6 mencionou algo que lhe aconteceu com um cachorro. atenuando assim sua perseguição. dispondo-me a escutá-la fazendo uso da atenção flutuante. dando-me a sensação. destinada a superar o obstácu­ lo resistencial. A esse respei­ to. segundo vislumbro.e tolero suas dificuldades de trabalhar na sessão. etc. Estamos sem dúvida diante de um material focal que convém abordar. por indícios que a seguir veremos. raciocinar. uma vez que já nos momentos iniciais da sessão uma intenção focalizadora se manifesta através desta intervenção. a tarefa interpretativa estimula o aparecimento de um rico material associativo. como o de P7.. de estar diante de algo de decisiva importância para compreender a problemática da paciente. Mencionarei alguns dos pensamentos que me passaram pela mente nesses momentos sobre o significado que . numa tentativa de propiciar boa relação terapêutica e particularmente de estimular sua atividade egóica (recordar. esboça levemente uma atitude crítica. além do mais. Como em sessões anteriores havia ficado evidenciado que este animal sim­ bolizava para ela os filhos. Além do mais. no qual parece que­ rer me situar (T3). Rita relata ali recordações que impressionam pelo vínculo à repressão sexual e à violência de seu meio familiar. Parece estar do­ tado de uma grande carga emocional que me impressiona muito. quando admite a pos­ sibilidade de tratar-se de coisas “feias”. na verdade pouco desen­ volvida em conseqüência de sua submissão.

as atividades sexuais dos animais na véspera dessa comunhão. ata­ que fantasiado como aborto. decido for­ . a dor que lhe causa.) Também o cachorro jogado ao rio dentro de um saco e o sofrimento experimentado encobririam outro fragmento de sua história: o aborto. 4. Ainda que todas essas hipóteses sejam concernentes à conflitiva focal e se encontrem intimamente relacionadas. por tratar-se de um pecado. A cadela no cio me faz pensar na atual gravidez de Rita. tudo isso que é necessário negar ou subesti­ mar e ao qual se soma o fato de que o aborto é por sua vez o casti­ go por haver realizado algo proibido. o que se relacionaria com sua culpa por desejos sexuais incestuosos e pelo aborto. Estariam relacionadas com sentimentos infantis de culpa e fantasias de castigo pela sexualidade incestuosa. Poderia haver. que teria de ocultar ou eliminar. 5.) 2. suas próprias relações préconjugais. casando-se “de branco”. fantasias subjacentes referi­ das ao parto. pois a faz pírder sua pureza e que por isso. Expressariam sua atual preocupação e seus temores pelo que poderia acontecer a seu filho e em especial pela perspectiva de ser vítima de um violento ataque familiar à sua gravidez. o cachorro machucado. (É sobretudo a recordação descrita pela paciente no primeiro momento que suge­ re tal conteúdo. deve ofcultar.Uma sessão ciepsicoterapia breve 143 poderiam ter essas recordações surgidas em tais circunstâncias. e prestarei especial atenção à primeira das ditas recordações. já que o cio é o período em que ocorre a fecundação. 1. além do mais. nas quais prevaleceria o temor de dar à luz um filho deficiente ou talvez monstruoso (cachorro “descadeirado”). já que a família aparece condenando sua sexualidade e por fim seu matrimônio e gravidez. A esse respeito me ocorre que a primeira comunhão poderia então repre­ sentar seu casamento (as meninas trajando longos vestidos bran­ cos s&assemelham a pequenas noivas). sua genitalidade culposa e rejeitada que ela sente que a destrói. a preocupação pelo feto perdido e seu destino. Este pensa­ mento é o ponto de partida para as duas suposições que figuram a seguir. Penso a seguir que poderiam estar encobrindo situações tanto anteriores quanto posteriores à época de que datam. (“Não vamos mostrar um cachorro assim maltratado aos outros”. 3.

procuro indagar mediante uma pergunta . assim como o faz com os sentimentos de rejeição ante a gravidez. do que se a opção tivesse sido por outras interpretações. T9) e de explicações que recordam sinteticamente a ordem de trabalho (T5). Isto porque parto de fatores já conhecidos de Rita. isso se vai traduzindo numa gradual de­ marcação e aprofundamento focais. mas que participa intensamente e de diversas maneiras. T2. Também é necessário que reconheça que foram os sentimentos de proteção projetados no esposo e cm mim que possibilitaram sua consulta*. (A evocação de um cachorro atropelado por um caminhão parece expressar também sua preocupação pelo destino do filho. Por outro lado. uti­ lizando-se essencialmente da negação. a assunção de iun papel decididamente ativo por parte do terapeuta. na qual existe um risco de aborto espontâneo (6). É que este último enfoque se ajusta melhor ao que tem sido evidenciado nas ses­ sões. incluindo a formulação fre­ qüente de perguntas (Tl. como o dos cachorros que para ela têm o significado de bebês. Em T9. Começo ali tra­ tando de comunicar à jovem que a aparição dessas recordações se deve ao determinismo psíquico. Nessas circunstâncias poderia ser menos difícil que compreenda e aceite uma interpretação referente a esses temores. seu medo de abortar é próprio da etapa de gestação que está atravessando. Em T8 configura-se então uma abertura para uma linha interpretativa a ser seguida no transcorrer dessa sessão. como aconteceu com seu cachorro. fantasiado como se fosse a família que lhe arrebata violentamente o filho e o destrói. a paciente aparentemente rejeita a interpretação. Junto à ativa­ ção egóica da paciente. que não se limita a esperar o material da pa­ ciente e interpretar a partir de sua apresentação. Mostro suas tendências maternais ocultas. Pode-se observar aqui.o que significa o ressurgimento da recordação dos acessos de violência de sua mãe9. além do mais.*44 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica mular uma interpretação que possa conectá-la com as prováveis fantasias subjacentes enunciadas no item 5.) Em P9. e no seguimen­ to da sessão. o medo de perder o filho outra vez através de novo aborto. T4. e a oposição familiar à sua gestação. Um objetivo importante aqui é que ela possa tomar consciência de seus sentimentos de proteção para com o filho. T7. .T6.

está sem dúvida muito mais próximo da consciência que seu medo do aborto . TIO e Tl 1 são na realidade interpretações que es­ boçam e apontam para esse conflito (ainda que sem revelá-lo dire­ tamente no momento). quem sabe muito ansiógeno (o que sugere que devo ter cuidado em não for­ mular interpretações prematuras dentro do conflito em questão). dado pelos temores particulares correspof dentes à etapa de gestação que está atravessando10 e que o mito‘familiar acerca da gravidez fomenta sobremaneira". assinalo a negação maníaca da realidade. A negação parece ceder um pouco. a paciente demonstra aceitar a realidade evi­ denciada. Logo sobrevêm uma pausa. pela qual inconscientemente se sente ameaçada e condenada a abortar. censuradas essencialmente pelas conotações sexuais que teriam para eles. como suposições. o que não ocorre em P9 configurando o ponto de emergên­ cia. vai-se confirmando a existência de uma imago materna muito persecutória. formuladas como interrogações. Seu medo de ter de se submeter a uma inter­ venção cirúrgica de apendicite. Já em PI6 se anima a resgatar e evocar juízos críticos para com aqueles que se opu­ nham preconceituosamente a seus estudos.daí sua rápida resposta de aceitação da interpretação em PI 2. ainda que aquilo a que faz referência guarde igualmente estreita relação com o evitado. a submissão às normas grupais. quer dizer. Isso porque alude à sua submissão ao grupo familiar. comq o fora sua mãe. formulando uma nova interrogação. e também destinadas a comprovar sua resposta a elas a fim de verificar sua tolerância para enfrentar os referidos conflitos. Em T12 trato de incrementar sua motivação para compreen­ der melhor as causas de seus temores.) Em P14 e PI 5. .como se pode com­ provar mais adiante na sessão que a levou a abandonar diversas atividades. através da qual parece querer fugir ao tema. (Nesta paciente torna-se necessário assinalar constantemente o empobrecimento a que conduz a exa­ cerbação de suas defesas maníacas.Uma sessão depsieoterapia breve _____ A partir de PIO. assim como ao seu parceiro . Em PI3. inicialmente não aborda de modo direto elementos de interesses como resposta. o que configuraria o conflito básico. isto é. Em T l3. que se opõem fundamental­ mente ao autoconhecimento.

em especial o castigo pela rebelião. pode alcançar a formulação de uma interpretação ou de qualquer outra intervenção verbal nes­ ses tratamentos. Em T17 faz-se necessário interpretar a transferência. Isso se harmoniza com o tipo de vínculo e por­ tanto de comunicação que se instala. dentro de uma estrutura focal. Em PI7. trazendo novamente para o pri­ meiro plano sua gestação. Em T l7 pode-se observar também a intenção de recolocar a paciente na situaçào-problema. na qual não preocupa muito que em certos momentos o terapeuta possa chegar a falar tanto ou mais que o paciente. Assim sendo. Insisto assim em deter-me nos obstáculos resistenciais. a interpretação “transferencial” cumpre aqui uma função claramente ilustrativa de seus problemas atuais (dependência patológica). observa-se também a extensão que nessa oportunidade como em outras. sem no entan­ to ser utilizada como um instrumento para promover a dependên­ cia regressiva transferencial. às quais acrescento as que registra para vir às sessões por sua vinculação com o proibido (a psicolo­ gia). Por outro lado. Em PI8 surge o temor de Rita à sua genitora. O material que fornece se apresenta extremamente produtivo e revela. o que. além do mais. não constituindo necessariamente o tipo principal de interpretação e conectando o que sucede com outros objetos da realidade externa. cujas características são uma mútua participação ativa. Por meio dessa interpretação espera-se que Rita compreenda um aspecto importantíssimo de sua problemática atual e o motivo latente da consulta. característica fundamental dessas terapias. numa atmosfera de ágil intercâmbio. o que configura um aspecto do trabalho de focal ização. um bom funcionamento egóico a serviço da tarefa.146 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica Em T16 aludo às suas racionalizações diante das dificulda­ des causadas pela submissão. já en­ . Incluo-me nessa interpretação. sem que isso no entanto implique concentrar todo o interesse da paciente na relação tera­ pêutica. Para a paciente. procuro de imediato orientar sua atenção para as figuras de sua realidade externa e cotidiana. pode-se dizer que Rita está próxima de um insight. que seria a busca de uma figura parental sobretudo materna permissiva e protetora para sua maternida­ de12. dentro dessa sessão.

incluo apreciações acerca das des­ cobertas obtidas na sessão. contando com certas perspectivas de que consiga um insight. favotecendo assim que se clarifique ainda mais sua visão do problema atual à luz de seus sentimentos de culpa por ter-se “rebelado”. Esse momento é resultado da lenta pene­ tração no foco durante a sessão e de que pouco a pouco foram cedendo as defesas maníacas. demonstrativa do efeito emocional produzido pelas descobertas. A intervenção em T l9. em tom de brincadeira . A perspectiva é conseguir. a paciente traz elementos para qye em T l9 se con­ firme e complemente o expresso em Tl 8. creio ser possível e oportuno confrontar a paciente. ainda que parcialmente. num sen­ tido mais amplo. Em PI9. permitindo assim que venha à tona a situação persecutória subjacente. dado por sua submissão à figura mater­ na e por extensão a outras figuras superegóicas. por meio da qual se tenta promover um insight inicial de um aspecto decisivo de seus conflitos. reafirmar o já formulado em interpretações imediatamente anteriores. o conflito básico dentro do foco. posto que abor­ dam. de tal modo que quase toda a ses­ são pode ser considerada sob esse ponto de vista como um traba­ lho preparatório para a receptividade de interpretações similares. T l8 é uma nova interpretação “extratransferencial”. de importância crucial no processo terapêutico. pelo fato de crescer e desprender-se do grupo familiar.Uma sessão depsicoterapia breve 147 volve o conflito básico.até onde seja possível e indi­ cado c com base nessa revelação um maior aprofundamento. por fim. como parece atestar sua reação em P20. com conteúdos reprimidos que possam emergir das recor­ dações do cachorro maltratado. que contemple entre outras coisas o pfoblema da culpa. Por últi­ mo e como forma de encerrar. em sessões posteriores . e ao mesmo tempo procuro manter . (Este momento da sessão é por sua vez um dos que melhor exem­ plificam a afabilidade e a fluidez de diálogo que a comunicação pode assumir.sempre com base numa atitude cordial para com a paciente -. Também tento. em T20. que espero sirvam para estimular a participação de Rita na tarefa.) Em T20. o que nem sempre é possível. responde ao mo­ do expressivo assumido por Rita em P19 e encerra um momento de insight obtido.

. Garma. Rascovsky. 1. cap. em A. R. Soifcr... Kargieman. Rita decidiu prosseguir com sua gravidez. Rascovsky c D. em parto normal. e J. “La matanza de los hijos”. Respostas como esta vão-se fazendo mais freqüen­ tes no decorrer da sessão (o que se confirma a partir de P11 e especialmente em P17 e P20) e me sugerem. dei superyó”.14S Psicoterapia breve de orientação psicanalitica sua curiosidade e suas expectativas a respeito desta (“. G. Buenos Aires. J. De. mediante enganos.. tendo-se recuperado por completo. Teoria y técnica depsicoterapias. Bleger. Buenos Aires.. Comunicaciónpersonal. Grinberg. M. Psicoanálisis de la mania y la psicopatia. . Nova. Bue­ nos Aires. em A. “Ansiedades específicas del embarazo”. Pouco tempo depois.. Langer c E. L. 1966. El grupo psicológico. Fiorini.”. 6. Rascovsky. La matanza de los hijos y otros ensayos. H. 3. cap. dificultando eventuais ten­ dências ao acting out (na forma de uma “pseudo-independência”. motivo pelo qual teve de guardar repouso na cama por aproximadamente um mês e meio. Nueva Vision. 4. cm H. em L. Buenos Aires. 1970. cm R. “Grupo familiar. por exemplo). Libcrman. etc. padeceu de uma afecção renal. Kargieman. pelo clima afetivo que impera. em vez de respostas vazias ou de submissão ao terapeuta. Deu à luz uma robusta menina. J. 1973. tratar-se de uma atenuação dos mecanismos manía­ cos e de um ascendente predomínio da transferência positiva. Soifer. c E. 2. Fiorini. demos por encer­ rado o tratamento.) e propiciar nela uma atitude reflexiva.. L. Allegro. 1959. 1971.deve haver muitas outras coisas para serem vistas. “Reacciones maníacas: alegria masoquista dei yo por el triunfo. Rodrigué. “El concepto de foco”. A. P21 é uma nova resposta afirmativa de aceitação às minhas intervenções.. Referências bibliográficas 1. Paidós. A. 5. parto y puerperio. Psicologia y psycopatología”. Nos estágios fi­ nais da mesma. Psi­ cologia dei embarazo.. 6. Bue­ nos Aires. de introspecção.

no caso de praticá-las. Antes de tudo. para adequar-se ao en­ quadramento que as mesmas exigem e que as diferencia de outras técnicas psicoterapêuticas. ameaça desacreditá-lo cada vez mais. Poderíamos considerar a questão como uma conseqüência das dificuldades dos terapeutas para se ajustarem ao seu enquadraníento e finalidade. prática e investigação em psicoterapias breves' Introdução \ Vou referir-me a alguns dos problemas que em nosso meio apresentam-se aos terapeutas ante a psicoterapia individual breve de orientação psieanalítica. seja nos hospitais psiquiátricos ou nas instituições privadas. mesmo assim observa­ mos uma considerável resistência por parte dos profissionais para o seu emprego ou. não devemos nos enganar: por mais que desde alguns anos se fale bastante em terapias breves. à medida que os anos passam. na prática assistencial. o que por sua vez se traduz inevitavelmente em dificuldades no exercício desse mctodo terapêutico. seja nos serviços psi­ quiátricos hospitalares ou nos ccntros de saúde mental. na avaliação dos resultados obtidos e. as vicissitudes e dúvidas que lhes im­ .8. de cuja utilidade para avaliar o problema que a assistência psiquiátrica maciça da população suscita muito poucos duvidam. Dificuldades do terapeuta para a formação. Assim sendo. o que é ainda mais grave. à sua maneira. ainda permanece a impressão de que os terapeu­ tas que se dedicam às psicoterapias breves “fazem o que podem” e enfrentam.

e que. sendo mais difíceis de controlar. jus­ tamente por essa condição. que me despertaram um profundo interesse. • Dificuldades diante do término do tratamento psicoterapêutico breve.150 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica põem a tarefa. Ao longo deste capítulo. De mi­ nha parte quero referir-me à incidência que em minha opinião certos fenômenos próprios da relação paciente-terapeuta. influem sobremaneira na mesma. Pela importância que têm a re­ lação com o que colocarei em seguida. Searles (15) (16) (17) sobre a inter-relação pa­ ciente-terapeuta. esclarecendo-me aspectos de decisiva importância no processo terapêutico. vou citá-las aqui. Esses fatos têm-me chamado muito a atenção e também tenho me formulado as perguntas obrigatórias: Por que isso ocorre? Que motivos existem para que o processo de aprendiza­ gem dos terapeutas do emprego das terapias breves se atrase e se veja freqüentemente entorpecido? Diversos investigadores já assinalaram algumas das causas. • Desprestígio da psicoterapia breve enquanto indicação tera­ pêutica. • Outras dificuldades do terapeuta diante das terapias breves. • Conclusões. . abordarei os seguintes pontos: • A dificuldade de adaptação ao enquadramento da psicote­ rapia breve. Não podemos deixar de supor que tal situação diminui a eficácia terapêutica do procedimento e que é necessá­ rio portanto vencer os empecilhos que existem para instrumentar com êxito os diferentes recursos que podem fazer parte da terapia breve. em sua maior parte inconscientes têm sobre esses fatos. Convém esclarecer que essas opiniões são basicamente resultado de minhas reflexões a res­ peito das próprias vivências experimentadas ao longo de minha tarefa em psicoterapia de tempo limitado e do conhecimento das idéias de H. • Dificuldades na avaliação dos resultados obtidos em psico­ terapia breve.

Não obstante. de orientação psicanalítica constitui. como logo veremos. em definitivo. até perturbadora para o pa­ ciente. têm a seu cargo de maneira geral a realização dos tratamentos breves.. Muitas vezes tal idéia se relacfona com a necessidade que os tera­ peutas jovens sentem de idealizar a psicanálise. mas acrescentava due esta teria de sofrer um processo de adaptação às novas condições (11). que sê la/ sentir com mais intensidade a necessidade de empregar a P. Comumente é nos estabelecimentos assistenciais. Que acontece então quando as circunstâncias impedem de se efetuar um tratamento psicanalítico? Cai-se freqüentemente na realização de uma psicanálise “curta”. É habitual a tendência a desvalorizar a P.Dificuldades do terapeuta 151 A dificuldade de adaptação ao enquadramento da psicoterapia breve “Psicoterapia breve ‘versus’ psicanálise” A P. Nesses estabelecimentos. os terapeutas princi­ piantes são maioria e. Já em 1918 Freud antecipou que os novos métodos que seriam utili­ zados com o correr do tempo para efetuar tratamentos psicoterapêuticos em grandes massas da população deveriam. um procedimento terapêutico basea­ do em certos elementos fundamentais da teoria psicanalítica. onde se deve oferecer atenção psicológica a um número elevado de pacientes. como se de­ preende desta denominação.B.B. Como é de se supor. na prática. têm de maneira geral extremo interesse em exercitar-se na técnica psicanalítica. pouco eficaz e.B. capazes de produzir autênticas mudanças nos pacientes. para muitos é difícil aceitar a coexistência da psicanálise e da psicoterapia breve e reconhecer que se trata de métodos que têm utilidade. em sua opi­ nião. partir da psicanálise. portanto interrompida. alcance e indicações determinados. Esses terapeutas são objeto das influências já citadas. ao que se soma uma tendência defensiva natural em aplicar aos pacientes aquilo que melhor . e a difundir a idéia de que só um tratamento psicanalítico tem reais propriedades curativas. o que por sua vez se acha ligado a seus desejos de se converterem em psicanalistas (20).

Também como conseqüência dessas pressões. originando-se situações persecutórias. os quais sublinham o estado de desprestígio e de confusão que se observa em torno dela. Essa pergunta se impôs a mim com maior intensidade quando me dediquei à realização de uma expe­ riência hospitalar sistemática em P. felizmente contamos com um valioso.B. como bem disse Usandivaras. tais discrepâncias não são tão grandes nem tão abundantes. já que.B. nem somente à carência de possibilidades de infor­ mação a respeito da teoria c da técnica da P. Apesar do relativo interesse que a P. (O grifo é meu.) Na intimidade da relação terapeuta-paciente Pessoalmente perguntei-me o porquê de tal transposição. esses problemas lamentavelmente ainda existem. que se costuma chamar de “superego ana­ lítico”. que podem intensificar-se diante de supervisores aferrados cm demasia à técnica da psicanálise ortodoxa e que não aceitam facilmente essas modificações.B. tampouco considero que sejam as discrepâncias entre os diversos autores qúe provoquem confu­ são. quanto à qual. continua sendo um parente pobre da psicanálise. embora não abundante. Toda essa situação toma difícil a aplicação dos novos métodos. Creio que sua persistência obedece não só aos motivos até aqui enunciados. . Concordo com ambos os autores quando atribuem tal situação ao fato de que se trans­ põem "as vivências. durante um ano. pois c vivida como uma falta de garantia interna e externa para o trabalho a sèr desenvolvido. e ao com­ provar que. de início. a qual. tem despertado.‘ *2 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica conhecem (o novo é menos seguro e gera ansiedades paranóides). as terapias breves podem traduzir-se na prática em uma psicanálise “breve” (19). na atualidade. no final das contas. quer dizer.. se bem que eu tivesse suficientemente clara. e para muitos a P.B. material bibliográfico. a técnica psicanalítica. os conhecimentos e as técnicas psicanalíticas para essa psicoterapia” (19). leva a uma “desvalori­ zação da nova técnica” (20). Além disso. como assmalam Szpilka e Knobel. as modificações técnicas que necessitam introduzir são sentidas com freqüência como uma “heresia” ante o modelo psicanalítico.

inconveniência do estabe­ lecimento de uma neurose transferencial e de estimular a regres­ são. em geral. Foi o conceito proposto por H. Searles desenvolveu suas impressões referentes ao papel fundamental da simbiose terapêutica. sobretudo através de insistentes interpretações transferenciais (afortunadamente reduziram-se. devendo final­ mente se atingir sua resolução. oferecendo uma maior “compreensão do significado emocional do paciente para o tera­ peuta c vice-versa” (16) e ressaltando. etc. a ocorrências que não foram postas em prática e que pode­ riam facilitar o desenvolvimento da neurose de transferência e estimular a conseqüente regressão e dependência do paciente).). Esse vínculo simbiótico tem suas raízes na relação mãe-filho c tende a se estabelecer e consolidar cedo ou tarde durante o tratamento psicanalítico. poucos meses de tratamento. Searles sobre a simbiose terapêuti­ ca (15) (16) (17) que me permitiu entender o fenômeno e formu­ lar minha hipótese sobre o que acontece no tratamento breve. . Corria-se o risco de que isso sucedesse a contragosto. diferen­ ciando com certa precisão a técnica a ser empregada da técnica analítica. contraria­ mente à minha ideologia terapêutica em matéria de terapias de tempo limitado e respondendo a uma tendência que não conse­ guia controlar e que nem poderia explicar unicamente através das razões aqui expostas (preconceitos com relagão a qualquer técni­ ca que não fosse a do tratamento psicanalítico. além disso. Mas tampouco tinha eu dúvidas de que. a respeito do que me indicava a realidade (objetivos limitados.).Dificuldades do terapeuta 153 a maneira segundo a qual me havia proposto a trabalhar. “o efeito dos processos inconscientes do terapeuta sobre o paciente” (16) no vínculo simbiótico2. etc. em vários de meus pacientes. manifestaVa-se uma notória inclinação para cons­ tituir comigo imi vínculo emocionalmente intenso e regressivo. Cheguei a pensar então que uma força interior me conduzia insensivelmente a tal atitude. comecei a notar em mim uma forte e às vezes irresistí­ vel tendência de criar ou favorecer o estabelecimento da “atmos­ fera” psicanalítica nas sessões. Com base num insight progressivo em seus pacientes e nele próprio. Sus­ tenta Searles que o vínculo terapeuta-pacicnte atravessa um mo­ mento de simbiose e que tanto o paciente como o terapeuta contri­ buem para que ele seja assim.

) apesar de seus tormentos (.. como a inter-relaçào simbióti­ ca atravessa distintas “fases”.. o qual. .. quando estes despertam sentimentos maternais no terapeuta.. constitui fonte de intensa grati­ ficação para paciente e terapeuta . Isso é particularmente notório na psicanálise de esquizofrênicos crôni­ cos. na psicoterapia de esquizofrênicos crônicos..154 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica Para Searles.). embora inconscientes..) para fora do canal confluente. logo teve que reconhecê-la na evolução trans­ ferencial de pacientes neuróticos. demasiadamente poderoso para serem capazes de desviá-lo com facilidade (. em determinado momento.).. a simbiose terapêutica experimenta mudanças de significado qualitativas e quantitativas.) atualmente tenho me dado conta . é com­ parável ao processo de maturação na criança (.) constitui uma fase necessária na psi­ canálise ou psicoterapia tanto de pacientes neuróticos como de psicóticos ” e que “tanto o paciente quanto o terapeuta (....) a) A relação terapeuta-paciente no tratamentopsicanalítico A análise das emoções transferenciais e contratransferenciais mostra freqüentemente que estas alcançam grande intensida­ de e muitas delas são altamente gratificantes para o analista.. com freqüência negada por este último. Assim. Searles descreveu.mesmo quando isso me provoca muita ansiedade dos profundos. o processo terapêutico. além disso. a simbiose terapêutica se apresenta tanto em pacientes psicóticos quarta n^irótims F ainda quêlnicialmcnte a tenha detectado e descrito na psicoterapia de esquizofrê­ nicos crônicos (15). ao processo de tra­ tamento (.. durante meses ou anos.7. mas profundamente valorizada (15). o qual (. Diz esse autor: “(. processos gratificantes da relação simbiótica que tanto o paciente quanto o terapeuta se mostram renitentes em abandonar” (16). por sua força.. o qual tende a fo r­ mar-se p õ rsi mesmo” (16). até chegar finalmente à de individualização do paciente.) se vêem submersos e arrastados em direção à corrente. Não só o paciente. (Os grifos são meus.) tam­ bém é poderoso tanto para o paciente quanto para ele mesmo. mas também ele está agarrado a um processo.. Sustenta também que a relação de transferência simbiótica “(. Hm tais fases.

na medida do possível. Essas emoções aparecem em parte como conseqüência da situação regressiva do paciente. Em resumo: o estabelecimento do vinculo simbiótico na re­ lação paciente-terapeuta parece ser um fenômeno que tende a se produzir espontaneamente. na qual o analista. o que é altamente gratificante.? Que acontece com o fenômeno que acabamos de descrever e que se anuncia desde que começam a interatuar paciente e terapeuta? Penso que o enquadramento que requer a P. Pode “converter-se” então na muito amada (ou inclusive muito odiada) mãe. Vai-se configurando uma estreita relação. especialmente nas etapas de maior regressão dos pacientes. o que estimula no terapeuta o sentimento de onipotên­ cia'. nesse “mundo dos dois”. sente-se cada vez mais objeto de todos os sentimentos deste e protagonista decisivo em sua vida.B. do paciente e do analista. são dirigidas para evitar a instauração de um vínculo . No tratamento psicanalítico. ao fomentar por sua vez a regressão do paciente. pois oferece um campo menos propício para as citadas gratifica­ ções do terapeuta. essa interrelação simbiótica pode ser fomentada em beneficio do processo terapêutico. e nesses momentos o próprio paciente vive o terapeuta transferencialmente como uma màe (ou pai) ideal.B. a regressão do paciente. resulta frustrante nesse aspecto. Sabemos que temos que nos propor objetivos limitados. Esclareçamos desde já que tudo isso também ocorre cm me­ nor magnitude na psicanálise de neuróticos. b) A relação terapeuta-paciente na psicoterapia breve Qual é a situação que se apresenta em P. que se prolongará por anos e no qual o “como se” da rela­ ção não o impede de experimentar intensos e prazerosos senti­ mentos1. sabemos além disso que o tratamento costuma centrar-se na elaboração da relação transfe­ rencial. As condições do enquadramen­ to da P. e que é preciso controlar.B.Dificuldades do terapeuta 155 permitindo uma tarefa reparatória. que o leva a situar o analista no lugar de uma figura parental. que carecemos do tempo necessário para trabalhar a neurose de transferência e a regressão conseqüente até conseguir que sejam elaboradas.

já que desde um primeiro momento procura-se que concentre seu interesse nela. A experiência do terapeuta que realiza uma terapia breve pode diferir bastante da que vivência com um paciente em tratamento psicanalítico. aquelas que estabelece com as pessoas com as quais se relaciona em sua vida cotidiana. diferentemente do que acontece na práti­ ca da psicanálise.B. pelo contrário. Na opinião de numerosos autores. em troca. na qual o terapeuta . que na realidade tendem a tomar conscientes outras transferências do paciente. As conseqüências dessa vivência contratransferencial de frustração que. pode repetir-se com assi­ duidade numa terapia breve . já não será um terapeuta-mãe e deverá. (1) (3) (8) (10) (19) (22). Sentir-se-á. Quer dizer. e levar o paciente a se interessar pela revisão de seus vínculos com seu verdadeiro pai. e que além disso encontramos pacientes que de um modo quase espontâneo desen­ volvem uma intensa regressão desde o início do tratamento. em lugar de fazê-lo na relação com o terapeuta. não se presta a que o terapeuta satisfaça suficientemente certas expectativas latentes. çônjnge_ chefer etc.B. mãe. parece conveniente. que não se deve empregá-la com a assiduidade e com a finalidade com que se utiliza em psicanálise5.. na relação com o paciente. pp. o terapeuta pode experimentar um sentimento de exclusão. É de supor então que aJ^. nos quais me incluo. já que se deverá evitar a regressão transferencial. conformar-se com sua condição real de docente experimentado (8) no tratamento. Isso naturalmente é coerente com o propósito de conseguir a resolução de seus con­ flitos atuais.se sentirá um p ro tag o n ista importante. esse fato geralmente constitui uma complicação (ver capítulo 10. procurando manter uma trans­ ferência positiva moderada. fora do universo do paciente. recorrer às interpretações denominadas “extratransferenciais”. Mas numa terapia breve. dependerão de suas possibilidades .).156 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica paciente-terapeuta demasiado intenso emocionalmente. devendo ater-se ao “de fora". numa terapia breve. cm P. convém em termos gerais recorrer à interpretação da transferência somente em determinadas circuns­ tancias . como se deduz. Neste último caso pode “atrair” o paciente para uma intensa neurose dç transferência. quer dizer. então. 178 ss. mas não ignoramos que em certas circunstâncias os sentimentos transfe­ renciais e contratransferenciais são muito fortes. Con­ sidero que.

de^ratificação através do fomento da neurose transferencial. o terapeuta pode apelar para o uso reiterado e até sistemático dc interpretações transferenciais. Se este alcança certa intensidade e não é controlado adequadamente. pode erroneamente atribuir essa sensação de insatisfação e desilusão a uma suposta ineficácia ou fracasso do método psicoterapêutico breve. usar o divã. induzindo o paciente. por exemplo. f c) Quando a psicoterapia breve converte-se em “psicanálise breve ” Dessa maneira pode pôr-se em marcha o que há de ser uma espécic de “psicanálise breve” (19). mas profundamente valorizadas. que uma tal relação promete proporcionar-lhe. Em suma sustentará que é preciso insistir em interpretar o “aqui c agora eomigo”\ na busca inconsciente . exige. Se os motivos estiverem reprimidos.B. da “tentação” que o terapeuta pode experimentar de analisar a trans­ .B. etc. que reaja com intervenções agressi­ vas. Isso nos expl ica por que diferentes autores falam.. tendendo além disso a conven­ cer-se de que só a análise exaustiva e sistemática da transferencia pode ajudar o paciente.portanto mais frustrante que a P. em P. e que é por esta razão que a transposição da téc­ nica psicanalítica para as tempias breves se produz com tanta freqüência^ Com o paciente como criança-filho. que chegará a adquirir ou não consciência da situa­ ção. o terapeuta pode- rá ter acesso em certa medida às gratificações comumentc nega­ das. caracterizada noriuma regressão a nm tipo de dependência infantil com relação ao terapeuta. mais ajustado às condições da realidnde . Para estimular a regressão. Creio ser por isso que lhe resul- ta difícil renunciar a tal tipo de relação para aceitar o outro. cons­ ciente ou inconscientemente. au­ mentar a freqüência e a periodicidade das sessões7. e que de outro modo a terapia é “superfi­ cial''. que poderão por sua vez ser racionalizadas. pode dificultar era alto grau a tarefa do terapeuta. renunciar ao papel ativo na tarefa. É possível.Dificuldades do terapeuta ____ ____ de resolução do conflito. a estabelecer um vínculo simbióti£ 0.

que isso conduz a um incre­ mento da regressão. Além do mais. Mensagem e ação resultariam aqui do tipo estímulo-irustraçào. Assim mesmo podemos compreender a resistência que às vezes experimenta o terapeuta para buscar e encontrar objetivos limitados em cada caso. respeitando-se a lógica e adequada pro­ gressão dada pela mesma relação terapêutica. Pessoalmente. A esse respeito assinalam vários terapeutas: “Não se fomentou a regressão.B. não descõrftl&eemos. Mas prepare-se para cortá-la de repente’)” (8). e em especial em minhas pri­ meiras experiências em P. volte para ela todas as suas emoções e expectativas. o que costuma per­ turbar o paciente.‘ Psicoterapia breve de orientação psicanalitica ferência.) Eu acrescentaria que se trata de uma tentação que não só corresponde ao desejo dc investigação do terapeuta e de extrapo­ lar o sistema psicanalítico. mas também e muito especialmente à busca das gratificações que lhe daria uma relação mais profunda com o paciente.B.). demandou-me um grande esforço “deixar passar” sem interpretar o material não relacionado com o foco. Freqüentemente houve necessidade dafirmar-se nessa postura ante o material que trazia o paciente. Tapibcm tentainterpxetar_conflitos alheios ao foco terapêutico1 ainda que saibamos que em P.. que se apresentava como sedutor para a análise da transferência (. não é aconselhável ábrir demasiadas feridas no paciente. Diz acertadamente Fiorini: “Haveria além disso uma contra­ dição entre um enquadramento de tempo limitado e um processo no qual as intervenções do terapeuta ‘propusessem’ a regressão e a concentração de afetos do paciente nessa relação bipessoal (a situação se expressaria nesta proposição: ‘a relação que o senhor mantém comigo é muito importante para entender e tratar sua enfermidade.. pois isso o obrigaria a centrar-se mais na problemática atual do paciente para ajudá-lo a resolver questões .. pelo exercício da psicanálise. pelas diversas razões assinaladas no começo deste capítulo. a análise sistemática da transferência é uma tentação permanente para o terapeuta ” (5). (Os grifos são meus. Outros autores fazem referência a uma necessidade de auto­ controle do terapeuta para regular as interpretações transferen­ ciais e com isso a regressão do paciente (1) (10).

B. Só acrescentarei a respeito que. ainda que muito desejadas.) O terapeuta pode então resistir a reconhecer os progressos do paciente e até parecer muito decepcionado pelos resultados do tratamento. em seu afã inconsciente de perpetuar sua . Mas desse ponto me ocupo em mais detalhes no capítulo seguinte.dependência no paciente complitfa a separação ao terminar o tratamento. procu­ rando estimular nele a confiança em si próprio. nada rara por ccrto. “fuga em direção à saúde”. de tais eventualidades nas terapias breves8. as mudanças de atitude que estes puderam apresentar em sua vida real são com muita freqüência rapidamente subestimadas e qualificadas como atuações.. como conseqüçncia da dificul­ dade do paciente e do terapeuta para aceitarem a séjjãraçao. já que. (Com isso não quero desconhecer a presença. e conseguir desse modo que possa obter alta. os quais por sua vez podem ser certamente pouco alentadores.Dificuldades do terapeuta 159 muito concretas e imediatas com um critério prospectivo. não é difícil supor que isso interfere na possibilidade do terapeuta de efetuar uma avaliação realista e justa dos resultados obtidos com o método. chegam a ajustar reconfrafÕs que permitem prolongar a relação. gratificações próprias de uma relação mais estreita e emocionalmente mais intensa com os pacientes.. Por isso. etc. Dificuldades ante o término do tratamento psicoterapêutico breve Em geral a tendência para fomentar a. se é que se insistiu em fomentar nos pacientes a dependência regressiva em lugar do autodesenvolvimento. Dificuldades na avaliação dos resultados obtidos em psicoterapia breve Em função da frustração jque podem experimentar os tera­ peutas ao comprovar que o enquadramento da P. não lhes faci­ lita o acesso às negadas. assim como seu de­ senvolvimento independente.

B. nào deseja que se produza a separação (a alta defini­ tiva significaria a ruptura do vínculo e a perda absoluta das possi­ bilidades de gratificação ligadas a ela). pode experimentar os sentimentos de desvalorização e perda. çom freqüência. Tende-se assim a desvalorizar a terapia breve. parece repercutir mais no terapeuta que no paciente ((>). numa cumplicidade inconscientemente conso lidada. pelo contrário. por tudo aquilo que para ele o paciente significa. ainda que de modo geral nào reconhecidos.160 Psicoíerapia breve de orientaçãopsicanalitica dependência. diminuem o entusiasmo dos terapeutas para optar pela indicação e utilização da P. oferece a possibilidade de um vínculo.te como para o terapeuta e.4 . com o qual mantém “uma relação muito mais profundado que a que crê capaz de perceber em si mesmo” (15). ante a necessi­ dade inconsciente de manter o uso excludente do método psicanalítico como fonte de gratificação a partir do estabelecimento de um vínculo simbiótico com o paciente (neurose ou psicose trans­ ferencial). na fase de resolução da sim­ biose.icanalítieo. mais duradouro e portanto menos" frustrante. com um objeto que logo perderão._~ Desprestigio da psicoíerapia breve enquanto indicação terapêutica Pode-se deduzir que os motivos expostos. O luto pela separação predeterminada desempenha um importante papel cm P. como não podem aceitar o crescimento e desprendimento de seus filhos. A passividade que ainda observamos para resistir a este “movimenteifaz-me pensãrêm uma espécie de acordo tácito entre os terapeutas. O tratamento ps. tanto pam. cujos motivos subjacentes mantêm-se ocultos. em determinadas situações em que a mesma poderia ser um recurso terapêutico nada depreciável.B. continuam a tratá-los como crianças. f' Searles assinala que o terapeuta.QJ3aciejn. Desanima-os principalmente a perspectiva de estabelecer uma relação fugaz. Atua como aquelas mães que. ^ .

—> e) necessidades econômicas do terapeuta (em parte em virtu­ de dos gastos que lhe demanda sua formação profissional). requer a abordagem de um novo caso tão logo termine o tratamento breve de um paciente anterior. consideramos que os terapeutas. c) às resistências do ambiente profissional circundante. A fim de oferecer uma visão mais completa do problema. apresentando-se como muito duvidosas guas possibilidades de eficácia. como o psicanalítico. Os supervisores adquirem aqui especial importância.. como o permite a psicanálise. experiência que. .. A isto junta-se o esforço que no meio hospitalar. Por último quero mencionar a influência de outros fatos de particular importância que me foram apontados: O f) em P. já que geralmente lhe possibilitam uma remuneração mais estável.. b) às dificuldades para adaptar-se ao enquadramento que exi­ ge a P. em obstáculos que remetem: *&a) à idealização da psicanálise. impõe ao terapeuta um ritmo fati­ gante “[.. que o levam a preferir os tratamentos prolongados. por exemplo. é muito conveniente para a formação psicoterapêutica em terapias breves. r~) g) freqüentemente a P.B. por tratar-se de uma relação terapeuta-pa|iente que ofe­ rece menos gratificações que a psicanalítica. a ênfase recai na melhoria clínica do paciente e em grau muito menor na investigação exaustiva de sua psicopatologia ou de qualquer outro aspecto.Dificuldades do terapeuta 161 Outras dificuldades do terapeuta ante as terapias breves Recapitulando até aqui.B. circunstância que também contribui para a perda de interesse por essa terapêutica (13).. para o estudo e emprego eficaz da RB. tropeçam. junto ao desejo de desempe­ nhar o papel de psicanalistas nos tratamentos que empreendem e ao temor de utilizar outros procedimentos que são desvalorizados.] pode fazer com que para este a experiência resulte embmtecedora e compulsiva” (2).B..*As terapias breves aparecem como o novo e incerto diante de técnicas mais conhecidas e seguras. es­ pecialmente os novatos. acrescentaremos os seguintes fatores: ~->d) uma experiência prévia insuficiente em tratamentos pro­ longados. ainda que não seja imprescindível.

o processo de transformação. não chegam a ter a necessária convicção de que os pacientes tratados com psicotcrapias breves podem experimentar mudanças favoráveis.B. Tal situação além disso se acresce de suas dúvidas a respeito da decisão a tomar quanto à alta do paciente (7). com certa exigência de conseguir mudanças a curto prazo. a continuação ininterrupta do progresso nas mudanças..162 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica Em comparação com a prática da psicoterapia prolongada. pros­ seguiria com uma reação em cadeia e seria verificável nos acom­ panhamentos ao longo de anos em pacientes tratados com tal método (9) (14) (18) (21). a partir de uma experiên­ cia terapêutica corretiva. Desse modo. de forças “cons­ trutivas latentes” (21). postergando o mo­ mento da alta e com isso a troca de paciente. ocorre agora que deve atender mais pacientes num mesmo espaço de tempo. enfatizando especialmente a importância que tem o reconheci mento dos próppn«. quer dizer. com a intenção de contribuir para aplainá-las. é significativo o que se costuma observar nos ser­ viços psiquiátricos: freqüentemente os terapeutas pareccm tender inconscientemente a prolongar os tratamentos.B. Conclusões Quis assinalar diversas dificuldades do psicoterapeuta no que se refere à P. Nesse sentido contamos hoje com impor­ tantes descobertas no campo da P.e e de .B. e uma vez finalizado o tratamento do paciente. Todas essas dificuldades se esclare­ ceriam em parte se houvessem incorporado a seus conhecimentos uma teoria da mudança. Nesse sentido. Como não têm interiorizados os dinamismos da mudança e só conhecem e aceitam os fenômenos inerentes às modificações que se produ­ zem nos tratamentos prolongados. -> h) Fiorini destaca também a incidência que tem nos terapeu­ tas o desconhecimento de uma teoria da mudança em P... o que em termos de economia psíquica significa “um mau negó­ cio” (uma nova responsabilidade e em suma um maior stress) (7). que somam a noção de insight e estão fundamentadas essencialmente na concepção da existência de partes autônomas do ego. ainda que lento. que permitiriam. da ralaçSn terappnta-pacient.

L. 1969. Bleger. J. Buenos Aires. provavelmente fse conseguiria também uma valorização mais objetiva e favorável das terapias breves dentro do panorama da terapêutica psiquiátrica. no momento atual. . c col. Simbiosisy ambigüedad. 1965. Paidós.. em H. Buenos Aires. “Ejemplos clínicos”. México. J. Amèr. As experiências clínicas em P. cap. “Una experiencia en psicoterapia de tiempo limitado”. Kesselman. XIX. Devries.Dificuldades do terapeuta 163 sua influência no processo terapêutico. adequadamente supervisio­ nadas são. Aspiro a que estas minhas impressões funcionem como um estímulo e que finalmente consigamos obter descobertas que lan­ cem mais luz sobre o controvertido campo das terapias breves. H. Acta psiq. . 7. Nova York. Barten (compils. Psicote­ rapia hreve. Small em Psicoterapias breves. Ferrari. Granica.. Pax-México..B.. em L. Creio que é necessário um estudo mais exaustivo do proble­ ma. H. Se tudo isso se concretizasse. Psicoterapia brevey de emergencia..).. F. Buenos Aires. e aumentar o interesse pela investigação sobre esse méto­ do. L. Kargieman. Terapêutica psicoanalítica. A. como por exemplo as psicoterapias grupais prolongadas (possivelmente mais gratificantes no sentido considerado neste trabalho). vol. Grüne and Stratton. 1970. H. Alexander.psicol. através de uma mais ajustada e eficaz adaptação do terapeuta ao seu enquadra­ mento. Comunicación personal. 4.. Paidós.B. Progress in Community Mental Health. 2. c Marticorena. 3.. em troca. Tal reconhecimento pode­ ria favorecer um exercício bem-sucedido da P..B. Citado por L. junho de 1968. Bellak. 5. VI. Buenos Aires. Barten. 1972. A maioria. interessa-se por outras técnicas. Referências bibliográficas 1. Bue­ nos Aires. A ninguém escapa que cm nosso meio só uma pequena mino­ ria de psicanalistas se ocupa da investigação em P. Lai. n? 2. 6. e French. 1969. O. T. muito necessárias para afastar pre­ conceitos e permitir a comprovação direta da real utilidade desse recurso terapêutico. e Small. Fiorini H. Coloquio Acta 1967: Psicoterapia Breve. 1967. H. “The Corning of Age of Brief Psychotherapies”. Beliak e H.

12. Charles Thomas. vol. XIX. Fiorini. Lai. Aportes para una teoria dc la téc­ nica”. 1948. Journal Med. Illinois. psicol. Freud. II. Amér.. Lat. Buenos Aires. “Los caminos de la terapia psicoanalitica”. Tavistock. 15.. . cit. “Formas de inducir a la loucura”. 1965. Madrid. em L. Freud S. Biblioteca Nueva. Acta psiq. Buenos Aires.. “Psicoterapia dinâmica breve. Usandivaras R. de Psicoanálisis.. 18. em 21.. .C. O. Apostila inédita. e Knobel. Apostila inédita. Buenos Aires. 1974. XIX. Rev. D. XVI. vol. 11. “Dinamismos y niveles de cambio en psicoterapias”. “Problemas que plantea la investigación sobre psicotcrapia breve”. junho 1968.. t. Madrid. J. Buenos Aires. em Elementos de la etiologia y la psicoterapia de la esquizofrenia. n? 2. ob. t. junho 1968.. vol.. “Acerca de la psicoterapia breve”. “Psicoanálisis y psicoterapia dinâmica: similitudes y diferencias”.. junho 1968. em 2. Psychol. 17 . 9. n?2. n? 2. 22 . junho 1970. em Coloquio Acta 1967: Psicoterapia Breve. . H. psicol.. M. L. “La técnica dc la psicoterapia breve”. ob. “Fases de la interacción paciente-terapeuta en la psico­ terapia de la esquizofrenia crônica”. psicol. psicol. Teoria y técnica de psicoterapias. em H. Hogarth Press.1971. . R. Lat. Montevechio. Psy­ chology. VIII. Brit. em Collected Papers on Schizophrenia and Related Subjects.. Amér. J. Coloquio Acta 1967: Psicoterapia Bre\>e. “Delimitation técnica dc psicoterapias”. Small. n? 2. Springfield. 1. Buenos Aires.. “Introducción”. 1959. Lat. Psicoterapia breve. . Rangcll. Acta psiq. Gredos.) 13. cap. L. Comunicación personal. Malan.. Wolberg e col. B. e colaboradores. 9 . Londres. Szpilka. Acta psiq. .. 21. H. 1968. 20. Colo­ quio Acta 1967: Psicoterapia Breve. III. J. 1973. 16 . vol. B. cap. (Versão castelhana: La psicoterapia breve. Londres. of Med. VI. Wolbcrg.. 10 . L. XXV. Searles. 14.. XIX. 1963. Amér. 1961. A Study of Brief Psychotherapy. Amér. 19. Apostila inédita.lf}4 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica 8 . cap. Acta psiq. cit. Buenos Aires. Nueva Vision. . Centro Lditor de América Latina. cm S.

A respeito do término do tratamento em psicoterapia breve t$» < Introdução Proponho-me neste capítulo a analisar algumas das vicissi­ tudes que se apresentam nas terapias breves psicanaliticamente orientadas . em razão do término do tratamento.9. Quero expor de que maneira e até onde os resultados do tra­ tamento estarão de forma indefectível relacionados com as possi­ bilidades de ambos tolerarem suficientemente a separação. No que concerne ao terapeuta. . partindo do reconhecimento de que tanto o paciente quanto o terapeuta de­ vem enfrentar o luto ocasionado pela finalização do vínculo tera­ pêutico. Com a finalidade de poder mostrar com mais clareza o que sucede com o binômio paciente-terapeuta ante a finalização de uma terapia de tempo limitado. para em segui­ da expor sinteticamente as conclusões. • Reações causadas no terapeuta pela separação. sua capacidade de enfrentar o luto ade­ quadamente será uma condição fundamental para o manejo eficaz da situação. Ocupar-me-ei primeiro dos aspectos técnicos. dividirei minha apresentação nos seguintes pontos: • Reações causadas no paciente pela separação.

por exemplo.segundo sua expressão . Acrescenta que se trata de uma “velha construção em reforma” que ficou interrompida. Primeiro sonho: O paciente aparece num depósito em que tempos atrás “tinha havido um ‘barulho’ ” . Outros pacientes se conformam com o alívio sintomático. seguindo o modelo da clínica médi­ ca. que possuem um ego relativamente forte. como denominador comum. Os sonhos eram semelhantes entre si (sobretudo os três primeiros a que me referirei). e podem chegar a vivêla como uma oportunidade de comprovar e pôr cm prática o aprendido até entào durante o tratamento. aceitam a separação melhor do que outros. sendo talvez o primeiro deles o mais demonstrativo. regressivas e altamente dependentes. e chegam a mobilizar-se inclusive o temor à morte e à loucura. que a terapia seja o mais curta possível. vivida inconscientemente como um abandono de minha parte1. suas ansiedades e hostilidade diante da separação. desejam de bom grado o término do tra­ tamento. os quais mostravam. ainda que se tenha “a impressão de vazio”. Perto da finalização da mesma. Certos pacientes. assim como naqueles cuja dependência regressiva tenha sido fomentada pelo terapeuta ao longo do tratamento.166 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica Reações causadas no paciente pela separação A separação de seu terapeuta afetará o paciente com uma intensidade variável em cada caso. e que agora está muito limpo e em ordem. e uma vez conseguido este. Em geral preferem. o que estará em parte relacio­ nado com uma estrutura psíquica correspondente. e que o teto do depósi- . no material onírico. ou evidenciarse de maneira mais velada. Supõe-se que o fato repercuta mais em quem tem tendência a estabelecer espontaneamente vínculos de caracte­ rísticas simbióticas. Diante da perda. em muitas ocasiões aparecem em troca an­ siedades intensas.porque continha mercadorias. Este último foi o que aconteceu no caso de um paciente a quem atendi numa terapia breve. A repercussão da perda no paciente pode traduzir-se em manifestações diretas de pesar e/ou preocupação. rclatou-me numa sessão vários sonhos.

de vazio pela separação. havia tido um ano atrás em sociedade com um amigo. pagam-lhe uma escassa so­ ma em dinheiro. O amigo era por certo ele mesmo. Por sete horas de jornadas. ao sentir-se abandonado. mas ao mesmo tempo con­ densava no depósito sua sensação de abandono. mais ordenados.A respeito do término do tratamento em psicoterapia breve 167 to é negro. Este detalhe do sonho era. a sociedade era uma referência ao nosso contrato terapêutico. Por último. tal como aparecia no sonho anterior. e era uma referência a seus temores pelos perigos aos quais se sen­ tia exposto por causa da separação. Outra vez se evidencia seu sentimento de . que se encontrava muito enraivecido contra mim porque sentia que eu lhe dava pouco e que estava em dívida para com ele. além disso. O depósito representava ele mesmo. apa­ reciam no sonho como o dinheiro que lhe deviam e que tinha que reclamar. mercadorias). Tem um aposento só para ele e utiliza ferramentas de cor negra. na qual havia ocorrido um “barulho” (confusão) quando chegou ao tratamento. particularmente sua cabeça. e que eu interrompia sua reconstrução. Disse-lhe que a menção a seu amigo parecia referir-se à minha pessoa. no qual há muita gente. Também o teto simbolizava sua cabeça. que ficava “separado no meio” como o depósito. Sente uma grande indignação. seu acanhado protesto e reprovação contra mim. A cor negra do mes­ mo foi associada pelo pacienttf como “mau augúrio. Terceiro sonho: Trabalha no interior de um grande edifício. pois. abandonando-o. disse que no sonho lhe deviam di­ nheiro. Associou o depósito com aquele que. o qual tinha de reclamar. Sentia agora que tinha as coisas (idéias) mais claras. Segundo sonho: Um amigo seu trabalha como ajudante num teatro. uma representação de seu medo à loucura2. Ele sentia. sua mente mais “limpa” e seus pensamentos (no so­ nho. especificamente. na realidade. O edifício grande no qual havia muita gente representava o hospital onde o atendi. através do qual nos ocupávamos de jsua cabeça-depósito. mau destino”.

acham-se intimamente vinculadas entre si (são diferenciáveis só até certo ponto). como é óbvio supor. Novamente aludia a seus temores pela finalização do vínculo tera­ pêutico. com muito medo de escorregar “ladeira abaixo”. sobretudo cm circunstâncias nas quais o terapeuta pode perder o controle da situação. ao aproximar-se o Tinal do tratamento. superando-sè ou apresentando-se em forma sucessiva. compreendidas e resolvidas no seio da relação terapêutica. Por outro lado. até a reação terapêutica negativa3. etc. sob a aparente satisfação de ter um aposento só para ele.If)íi Psicolerapia breve de orientação psicanalitica abandono. na mesma sessão. que vão desde o afloramento de novos conflitos. a) A rcferência a novos conflitos nas partes finais do trata­ mento. pode resultar conveniente que o paciente tenha ocasião dc desenvolver essas reações enquanto se encontra sob tratamento pan< parmitif mais bem-examinadas. expressou em tom risonho que o menino deveria ser ele. Essas reações. des­ prezo pelo terapeuta. Nesses pacientes. Sua esposa lhe assegurava que isso não era certo e que devia animar-se a “navegar sozinho”. que por diferentes motivos não toleram suficientemente a separação. Quarto sonho: Vê um menino descer por um tobogã em grande velocidade. através de colocação espontânea por parte do paciente de material alheio ao foco. Tal situação costuma estar motivada g^j^-n .). Aparecer como menino tinha a ver alem disso com a relação de dependência infantil que cm parte havia estabelecido comigo. freqüentemen­ te acompanhadas de defesas maníacas (negação da perda. interessa ver qual é o destino da transferência. De novo figurava a cor negra como símbolo de mau augúrio). passando por retrocessos e pioras por simples manifestações de hostilidade transferencial e pelo acting out. contou-me que em matéria de traba­ lho ele sentia que precisava de alguém que o guiasse e que não podia fazer nada por conta própria. é uma circunstância que tenho podido observar em minha prática. Depois. É possível que se produzam no paciente diferentes reações. Tinha que conservá-la (trabalhar) sozinho e não confiava em seus próprios recursos (as ferramentas negras. Ao associar.

como destaca Malan (6). diante do incremento da ansiedade. c) As manifestações de hostilidade transferencial podem co­ locar em sério perigo os resultados do tratamento. Deve-se procurar que o paciente tome consciência das motivações de sua atitude. que até esse momento vinha inclusive evidenciando claros progressos e uma apreciável melhora sintomática. pode trazer como conseqüência algumas das de­ mais complicações que mencionei. dos diversos transtornos somáticos. E) Os retrocessos e pioras no estado do paciente são algumas das reações que se observam com maior assiduidade nas etapas terminais do tratamento psicoterapêutico breve. o que se acha claramente vinculado à perda ocasionada pela finalização da rela­ ção terapêutica (conforme o caso. etc. tal como em ou­ tras formas de psicoterapia. Quando tal hostilidade alcança certa intensidade. c freqüentemente constituem uma tentativa de evitar que lhe seja dada alta. e dom isso a dolorosa separação do terapeuta (ganhos secundários)J. tratando de despertar neste interesse por outros padecimen­ tos (numa tentativa de sedução por meio do material). tal como sugere Bellak (2). posto que a manutenção da me­ lhora certamente dependerá em grande parte de suas possibilida­ des de introjectar e conservar uma boa imagem do terapeuta (2). ao ser vivida consciente ou inconscientemente pelo paciente como um abandono. toma-se necessário inter­ pretá-la. ou ainda preocupação e .culpa por deixá-lo nessas condi­ ções. Tal situação de separação. de depressão. o acting out costuma expressar fantasias agressivas para com o terapeuta ou objetivar substituí-lo .eventualmente . pode apresentar uma reapa­ rição de sua sintomatologia inicial.O paciente.A respeito do término do tratamento em psicoterapia breve 169 inconscientemente por um desejo de permanecer ligado ao tera­ peuta. Isso só será possível se prevalecer uma transferência positiva ao terminar o tratamento. d) Outra opção está dada pela tendência de alguns pacientes ao acting out. exposto aos perigos de conflito não resolvidos para conseguir deste modo que o tratamento seja prolongado. acusar um incremento de an­ siedade. Será conveniente assinalar ao paciente sua intenção incons­ ciente de õbter ganhos secundários através de suas recaídas nos últimos períodos do tratamento. ou sua raiva pode jogar por terra o obtido durante a terapia. quer dizer.

o que às vezes adquire características de inoculação no­ civa. Üm mecãnísmõ defensivo do terapeuta ante as ansiedades pela separação é a negação do conflito e sua projeção maciça no paciente. A separação significa.) foi observar as dificuldades de desprendimento dos próprios terapeutas (. Desejo então que fique clara minha impressão de que na prátiea o término do vínculo terapêutico é. Quando o terapeuta detecta essa tendência. não em poucas ocasiões. o luto provoca sentimen­ tos de desvalorização e perda (7)4. Já me ocupei em parte no capítulo anterior dos problemas do terapeuta para aceitar a separação do paciente ao chegar ao fim o vínculo terapêutico. comumente negadas". a separação repercute mais no terapeuta que no paciente. Reações causadas no terapeuta pela separação Com freqüência. c) A reação terapêutica negativa se manifesta com freqüência através da interrupção brusca do tratamento por parte do paciente. O terapeuta “atua” nes­ sas circunstâncias através de suas intervenções (interpretações). evitan­ do assim as atuações.). etc. evitando a ruptura de um vínculo que lhe oferece profundas gratifi­ cações.ativamente . vêrse privado de gratificações simbióticas.. em seu afa inconsciente de perpetuar sua dependência.170 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica por outro objeto. deve inclinar-se à compreensão psicológica do conflito no pacien­ te. Tal interrupção significa principalmente que o paciente quer abandonar .. Ferrari e Marticorena comentam acerca da experiên­ cia em psicoterapia breve: “O mais notável (.o terapeuta para não sofrer de maneira passiva o que vivência como um abandono por parte deste. Comumente. sobretudo por meio de interpretações “transferenciais”. indutoras de dependência regressiva.). para ele.. mesmo naqueles pacientes que inicialmente não se veriam demasiadamente afetados pela separação. as dificuldades para separar-se apareceram mais do lado do médico que do paciente” (3).. . O terapeuta pode apresentar resistência em reconhecer os eventuais progressos dõ paciente e atuar fomentando nêsferdiirantê"õ tràtarrrentoTãneurosê^transferencial e a regres­ são.

de certo modo.A respeito do término do tratamento em psicoterapia breve 171 mais um problema do terapeuta aue do paciente.ou franca aparição das diferentes reações do paciente. do final do vín­ culo terapêutico sobre o paciente. desde j^momento em aue se efetua uma indicação de P. sobretudo no caso de sentir-se seguro de sua própria capa­ cidade para enfrentar seus problemas. já que o problema se coloca. para tentar preveni-la. como expressão de uma necessidade mútua de pro­ longar a relação.).B. com efeito. não tem que vivê-la necessariamente como aígo penoso e angus­ tiante. Como disse antes. daí para a frente. descobrimos que alguns autores levam em conta esse aspecto.B. deixá-la de lado significaria correr o risco de expor o paciente a algumas das conseqüências às quais já fiz referência. e particularizar a conduta que. em certas ocasiões. Adverte-se o terapeuta de que. perturbadora. Compreender melhor por que chega a produzir-se ou a incrementar-se. etc. Na bibliografia sobre P. conduta que em síntese consiste em abordar o problema ocasionado pela iminente separação. atuação pouco -ativa do terapeuta. Bellak . o processo se complicará ainda mais (nenhum dos dois componentes do par aceitará facilmente a separação) desembocando com freqüência na Já mencionada recontratação. que está naturalmente rela­ cionado com a capacidade egóica para tolerar frustração. 1. Este. aumento da freqüência e/ou periodicidade das sessões. Para isso será preciso interpretar a transferência. haverá pacientes que superam melhor que outros a separação. Aspectos técnicos Tenho mencionado até aqui a conduta que deve assumir o terapeuta diante da insinuaçào. interpretação de material alheio ao foco. enfrentá-la e atenuá-la. por sua própria conta. resultará mais convenien­ te em P..B. Considero que devemos nos remontar aos primeiros contatos com o paciente. ao fomentar a natural tendên­ cia regressiva do paciente com base numa extrapolação da técnica psicanalítica (uso reiterado ou sistemático de interpretações trans­ ferenciais. uso do divã. com base no que adquiriu durante o tratamento. a meu ver. Mas agora desejo examinar mais detida­ mente o problema da repercussão.

e para isso será preciso. que servirá para o diagnóstico. principalmente por ocasião da separação definitiva entre paciente e terapeuta. além de existir essa condição de tolerância diante da separação. na medida do possível. portanto mais propenso a reações como as já assinaladas c com menores probabilidades de êxito terapêutico5. essa seleção não puder ser feita. por diferentes motivos.B. 2. Creio que em al­ guns casos as complicações que logo aparecem no tratamento breve..172 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica (2) sublinha a importância de se efetuar previamente uma avalia­ ção das funções do ego. trata-se de um paciente que atravessa um problema atual e se encontra motivado para efetuar uma psicoterapia. considerar que pode ser tec­ nicamente objetável indicá-la para um paciente que revele pouca capacidade para suportar e elaborar lutos e uma modalidade sim­ biótica. e que poderá ser realizada por meio de dados clí­ nicos e de testes psicológicos. esta­ remos diante da situação menos discutível para indicar uma tera­ pia breve. a capacidade do paciente para suportar suficientemente o luto pela separação do terapeuta. Poderemos. Os testes pro­ jetivos poderiam oferecer-nos regularmente elementos para essa apreciação. Mas é sobretudo Malan (6) quem assinala especificamente a utilidade de detectar. pelo contrário. antes do trata­ mento propriamente dito. Realizaremos uma eleição dos casos na medida do possível. delimitar claramente os objetivos do trata- . prognósti­ co e tratamento. mas o que acontece c que em nossa prática assistencial com freqüência não temos outro remédio senão efetuar um tratamento de tempo limitado em muitos dos pacientes que apresentam essas características. Se. muito regressiva e dependente em suas relações de objeto. em especial com aqueles pacientes que apresentam uma franca tendência a desenvolver espontaneamente intensa regressão no vínculo terapêutico. mas quando. Trataremos. O passo seguinte será a contratação que temos de realizar. pois sem dúvida será o mais conveniente. não pode­ remos fazer outra coisa senão embarcar com o paciente num pro­ cesso que terá muito de uma difícil aventura e que requererá ao máximo nossa perícia terapêutica para poder atingir um bom final. como condição fundamental em P. de não facilitá-la ou incrementá-la. são em parte conseqüência dessa atitude ini­ cial.

freqüentemente bastanta atenuadas.B. é o que com freqüência costuma conduzi-lo . juntamente com sua capacidade para superar os pró­ prios conflitos que puderem derivar da perda do paciente como objeto gratificante. ter-se-á esp_eciiü cuidado em evitar que a freqüência das mesmas possa chegar a favorecer a tendência regressiva6. isso dependerá de vários fatores: de sua familiaridade com a técnica da P.. Como procurei demonstrar no capítulo ante­ rior. sem que isto nos prive do tempo necessário para abordar a situação crítica em si. se estimular no paciente sua iniciativa pessoal com um critério pros­ pectivo.A respeito do término do tratamento em psicoterapia breve 173 mento. além da tendência de extrapolar esse modelo técnico para a terapia breve por crer que só assim poderá obter bons resultados. Considero que o manejo da relação transferenciai por parte do terapeuta. Üm aspecto que merece especial atenção dentro da contrata­ ção é a duração que fixaremos para o tratamento. de que haja vencido os preconceitos contra todo procedimento que não seja o p'sicanalítico. nesse sentido mais frustrantes. quanto às sessÕes. Vale dizer. conseguindo ajustar-se ao enquadramento da P.B. de modo a permitir que uma parte do mesmo se destine à análise do luto pela separação1. terão uma influência decisiva no aspecto que adquire o término do tratamento e a posterior separação para ambos os protagonistas. se o terapeuta se desempenhar adequadamente ao lcfngo da terapia. defrontaremo-nos com as complicações às quais aludimos. Em algumas destas situações será preferível outorgar um tempo suficiente. requer-se que o terapeuta tenha um insight dessa problemática e um auto­ controle de suas tendências naturais a estabelecer uma modalida­ de simbiótica de relação com o paciente que. mas também e fundamen­ talmente de que possa renunciar às gratificações que oferece o tipo de relação analista paciente e aceitar as condições. Quando o terapeuta não pode controlar . segundo minha hipótese. impõe. Se seguirmos adiante no processo terapêutico. verdadeiro objetivo do trata­ mento8. em lugar de fomentar a neurose transferencial e a depen­ dência regressiva.* 3. que poderão ser evitadas ou ao menos . que a P. Em síntese.a realizar consideráveis e decisivas modificações no enquadramento.incons­ cientemente . favorecedoras da simbiose terapêutica.B.

e por sua vez de se evita­ rem certas complicações ao longo de uma terapia breve em geral e. em pacientes com tendência a estabelecer relações simbióticas terá que se oferecer um tempo suficiente de tratamento. À capacidade do paciente de tolerar suficientemente o luto pela separação.174 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica essa situação e não toma as precauções correspondentes. sobretudo nos estágios finais do tratamento. Já ine referi à conveniência de abordar.B. privado de seu objeto gratificante. mais perturbado­ ra e mais frustrante: este se encontra no final numa atitude regres­ siva e dependente. Considero que esse propó­ sito pode ser cumprido tanto ou mais satisfatoriamente por meio de entrevistas de acompanhamento. diante do risco da aparição neste de reações (retrocessos e pioras. Para isso sugerem que se solicite ao paciente que informe o terapeuta de seu estado me­ diante cartas ou chamadas telefônicas. Dever-se-á abor­ dar. hostilidade . que inclua a possibilidade de analisar o luto pela separação. e aquele. geralmente na fase final do tratamento. Às condições do contrato terapêutico: procurar-se-á dimi­ nuir a intensidade das regressões. À capacidade do terapeuta para ajustar-se ao enquadra­ mento que a P. Bellak e Small (2 ) também assinalaram a importância de manter algum contato com o paciente logo após haver-se encerra­ do o tratamento. o problema que coloca para o paciente a finalização e a separação. Será conveniente tratar de detectar o grau de tal capacidade a partir dos primeiros contatos. 4. Conclusões As maiores possibilidades de êxito. o problema da separação. costu­ ma-se chegar a uma fase final do tratamento em que a separação se toma mais difícil para ele e para seu paciente. exige. favorecedora da dependência regressiva. com uma sensação de desilusão por haver efetuado um tratamento curto e pouco eficaz. em razão do término do tratamento em particular. estão relacio­ nadas: 1. a fim de que este não se sinta abandonado e de conservar uma transferência positiva. -> 2. 3. evitando a extrapolação da técnica psicanalítica.

J. A. Ferrari. Buenos Aires. é de se esperar que encontre gratificações nos resultados terapêuticos. Laplanche. Malan. Scarles. vol. Brit. 2. Buenos Aires. 1969. No que se refere ao terapeuta. Psychol. H. 6. Springfield. J. Amér.. Buenos Aires. Em essência dever-se-á ao menos assinalar a situação de luto. XIV. Charles Thomas. Acta Psiq. “Psicoterapia dinâmica breve. Barcelona... “Una cxperiencia en psicoterapia dc tiempo limitado”. radicalmente oposta aos propósitos ineren­ tes a esse procedimento. 5. psicol.. Referências bibliográficas 1. quer dizer. sem precisar em troca fomentar a gratificante simbiose terapêutica. impresso na Grã-Bretanha. Labor.os do pa­ ciente.) 7. cm Coloquio Acta 1967: Psicoterapia Breve. Pax-Mexico. D. Beliak. deve-se tratar de chegar à finalização do tratamento de modo tal que a alta coloque o paciente em condições de viver uma experiência estimulante e reasseguradora a partir da compro­ vação*de que seu aulodesenvolvimcnto agora é possível. c Marticorcna. H. n" 2.B.. Acta psiq. (Versão castelhana: La psicoterapia breve. junho 1968. J. “Fases de la intcracción pacicnte-terapeuta cn la psicotcrapia dc la esquizofrenia crónica”. junho 1968. Londres. H. c portanto que encontre no método psicotcrapêutico breve um recurso útil. psic. Amér. Lat. em Diccionario depsicoanálisis. nf 2. recorrendo-se especialmente a interpretações transferenciais. L. 4.. já que não conta­ mos com melhores possibilidades para a sua elaboração. L. A Study o f Brief Psychotherapy. L. Ia/. 1963.A respeito do término do tratamento em psicoterapia breve 175 transferencial. c Small. Comunicación personal. Allegro. XIV. 1971. cm Coloquio Acta 1967: Psicoterapia Breve. Aportes para una teoria dc la técnica”.. 1974. 3. 4. H. . “Reacción terapêutica negativa”. Centro Editor de América Latina. B. À manutenção de uma transferência positiva a posteriori da realização do tratamento. Tavistock. para o que poderão contribuir as en­ trevistas periódicas de seguimento.. reação terapêutica negativa). Psicoterapia breveyde entergencia.. acting out. México. e Pontalis. Fiorini.. Apostila inédita. Illinois. (1981). na obtenção dc uma atitu­ de relativamente independente e nos demais jlrogress. Em P. vol. Journal Med.

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estamos consignando uma limitação da psico- «» . assim como certos perigos que com elas se corre. entendendo além do mais que nessas terapias se realiza uma análise apenas parcial das resistências. como vemos. Alguns problemas técnicos característicos e riscos em psicoterapia breve I Mencionarei aqui alguns inconvenientes técnicos de que so­ fre o exercício das terapias de tempo e objetivos limitados. De fato. e se apresentam com mais facilidade diante de pacientes que por de­ terminada patologia não resultam suficientemente aptos para obter maiores benefícios terapêuticos com o emprego desses pro­ cedimentos. Tanto os inconvenien­ tes como os riscos. Ainda que nessas terapias se aspire a conseguir um insight que possa ser mais cognitivo que afetivo (Szpilka e Knobel [7]). 1. acham-se relacionados com as peculiaridades desses tratamentos e com os eventuais erros dos terapeutas. é um risco que devemos ter em conta. que aumentam nos casos cm que o terapeuta compreende a psicoterapia focal como um processo individual. que às vezes não é suficiente paia que o paciente “apreenda” as interpretações e reconheça assim seus conteúdos inconscientes como algo que lhe é próprio. Os pacientes que recorrem excessivamente à intelectualizaçâo podem criar sérias dificuldades. esperando que mediante a compreensão intelectual possa conseguir-se a cura. este deve diferenciar-se do pseudo-insight com reforçamento da intelectualizaçào que. reduzido a “explicar” ao paciente o significa­ do de suas manifestações patológicas.10.

Quando a duração estabelecida para as mes­ mas foi limitada.178 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica terapia verbal de tempo e objetivos limitados. é habitual que se sinta um tanto pressionado em seu afa por obter determinados resultados. obrigando a uma recolocação estratégica1dos objetivos ou diretamente do tipo de tratamento recomendável. Outro problema. corre o perigo de depreciar o timing e de “bombardear” o paciente com interpretações prematuras em seu desejo de oferecer-lhe muito mais do que este. segundo o método que descrevi até aqui. pois pode apreciar seu efeito no dia seguinte e proteger o paciente contra um aumento de . French a respeito das “complicações resultantes das tentativas de forçar o conhecimento” (4). tais alterações caracteropáticas atuam como um freio que chega às vezes a difi­ cultar em grau máximo o trabalho relativo a seus problemas atuais. 2. está em condições de assimilar. Se a impaciência o domina. em razão do número relativamente reduzido de ses­ sões semanais com que se costuma trabalhar nela: “Devemos destacar aqui a grande diferença no uso da interpretação quando se vê o paciente todos os dias ou quase todos os dias. No procedimento psicanalítico ortodoxo. Vinculadas com essa questão se acham as advertências formu­ ladas por T. Esse autor assinala parti­ cularmente o efeito perturbador de certas interpretações em psico­ terapia breve. originado no terapeuta e em estreita rela­ ção com o descrito em 1. sem que nos seja possível pretender outra coisa. nesse momento pelo menos. sensação que se incre­ menta ante a proximidade da finalização do tratamento. que pode se apresentar com bastante facilidade é o de não exercer aquele um autocontrole adequado diante de certas vivências que possivelmente experimente na prá­ tica dessas terapias. de modo que tenhamos que dedicar boa parte do tratamento ou inclusive todo o tempo que dure o mesmo a tal trabalho. Se bem que fazer ver ao paciente suas defesas patológicas possa ser importante. o que pode trazer paralelamente um aumento de suas resistências e de sua angústia ou ainda ocasionar sua deserção. já que diante de certos pacientes poderemos nos ver na necessidade de nos voltar .a um intenso trabalho interpretativo de suas resistências ao insighl. e quando se o vê uma ou duas vezes por semana ou ainda com intervalos mais prolonga­ dos. o terapeuta poderia arriscar uma interpretação desagradável.e reduzir .

indesejada. Não contando com um foco mais ou menos definido. A partir da necessária circunscrição que a abordagem de uma terapêutica setorial requer. 5. compro­ metendo-se. em conse­ qüência. em virtude de o ser. dada a fugacidade da relação paciente-terapeuta e. uma pessoa qualificada que possa escutá-los sem julgá-los (5 ). a angústia poderia acumular-se em tal medida que o paciente cairia em pânico (. Mas a regressão. como por exemplo nos quadros reativos. alcança inevitavelmente e de modo espontâneo grande intensidade em algumas ocasiões. em que se deve atender preferen­ cialmente àquilo que concerne à conflitiva focal do paciente. o trabalho se complica. O trabalho do terapeuta pode ver-se dificultado. a eficácia do procedimento toda vez que não seja possível delimitar com facilidade o foco e. exis­ te a possibilidade de que a dinâmica do tratamento sofra uma limi­ tação esquemática . Formulada essa mesma interpretação numa psicoterapia mais breve. possibili­ tando reajustes e descobertas que o conduzam a readequar-se à estratégia. * > 4. . com isso.pode fom entar iatrogenicamente a regressão vivencial e a neurose de transferência no pa­ ciente e acarretar diversas complicações. com o conseqüente estancamcnto. levar às com­ plicações que já mencionei nos capítulos 8 e 9. 6.). Mas todo terapeuta disposto a manter-se suficientemente receptivo às comu­ nicações 4o paciente e a extrair sempre novos significados poderá contribuir na obtenção de um processo terapêutico rico.por transposição da técnica psicanalítica . vendose perturbado nosso propósito de centralizar a ação terapêutica de um modo operativo e com fins de aprofundamento. que recorrem a estabelecimentos assistenciais por contar com uma oportunidade única de confiar seus problemas a um profissional. Em nosso meio se observou a ocorrência desse fato especialmente em tratamentos de pacientes de baixo nível sociocultural.. quer dizer. O manejo técnico deficiente por parte do terapeuta . diante da separação. limite seus alcances.Alguns problemas técnicos característicos 179 angústia. evitando assim ficar reduzido a um plar£> rígido que. Requer-se portanto maior atenção e inclusive maior agilidade por paflecíõ terapéutã^T3X 3. tampouco os objetivos do tratamento. assim como as me­ didas preventivas e terapêuticas a 'serem tomadas. diferentemente do que acontece quando uns e outros surgem de maneira clara e pre­ cisa..

a indicação terapêuti­ ca. encontra dificultado seu acesso a uma adequa­ da compreensão em interpretação dos sucessos do mundo externo do paciente. precisamente em função da limitação tem­ poral e da separação com respeito ao terapeuta. registrem uma marcante distorção em sua captação da realidade. o que pode acarretar diversas conseqüências negati­ vas se não trabalha com cautela suficiente. em particular o que corresponde à duração do tratamento. existe a alternativa de que sofram uma reativação traumáti­ ca desses sentimentos. Diante de pacientes com sentimentos de perda patológicos e/ou recentes de importância.). ao termos de nos remeter cm boa medida ao material que nos trazem. por deficiências egóicas.180 Psicoterapia breve de orientação psicanaiítica 7. (Pode ser adequado instituir uma técnica de enfoque com final “aberto”. em função da curta duração deste e de serem as sessões relativamente pouco freqüen­ tes. com os perigos conseqüentes (acentuação da angústia e da dor. depressão.além de ter pouco tempo para adquiri-lo durante o tratamento. 102) e que aqui menciono novamente. limitada. à qual já mc referi no capítulo 6 (ver “Interpretações extratransferenciais”. submetidos a tratamentos cuja dura­ ção. pro­ curando dotar o processo terapêutico do tempo necessário para evitar esses efeitos indesejáveis. Devemos então reconhecer uma limitação própria des'sãTtênípias. que reaviva a per­ da. isso pressupõe uma maior margem de erro por parte do . resulta curta. por exemplo. há de se rever nesses casos na medida do possível . insuficiente para abordar com possibilidades de benefícios terapêuticos apreciáveis a dita proble­ mática.) 8. Assim sendo. Portanto e antes de mais nada. Esse inconveniente pode acentuar-se no caso de pacientes que. apelando freqüentemente para isso para as interpretações. etc. razão pela qual. p. Em tais circuns­ tâncias.B. É sabido que em P. acting out. o terapeuta deve de modo iieral dedicar o trabalho terapêutico à resolução de problemas da realidade externa atual do paciente (comumente representados por conflitos em determinadas relações interpessoais). será escassa a confiança nesse sentido que possam nos inspirar. Trata-se do fato de o terapeuta não contar com conhecimento suficiente do paciente em particular de suas relações de objeto . que às vezes adquire grande importância. isto é. chamadas “extratransTerenciais”.

por exemplo .para garantir uma tarefa interpretativa mínima da transferência desen­ volvida que permita diminuir as possibilidades de apresentação da conduta de acting out.B.Alguns problemas técnicos característicos 1H1 terapeuta na apreciação da natureza dos conflitos da realidade exrema do paciente. leva­ do pelo critério de orientar o paciente na direção dos problemas atuais de sua realidade externa. Se bem que elevar a freqüência das ses­ sões traz consigo por sua vez outro risco. Uma mediqa poderá ser contratar um número necessário talvez maior que o habitual nessas terapias . prescinde em demasia da análise da transferência. é o preço que se há de pagar para evitar uma complicação maior. Também se des­ crevem mecanismos tais como a fuga à saúde e à cura transferen­ cial.a do acting out.de sessões semanais . Por outro lado. o terapeuta pode induzir a atuação2. sobretudo através de testes projetivos). e às vezes sumamente perigosa . promovidas pelo fervor terapêutico. 10.três. e muito especial­ mente detectar as principais características das relações objetais do paciente. Quero aqui formular uma advertência: alguns . Entre outros resultados que se podem produzir em rela­ ção ao assinalado em último lugar no item 10. que ainda que não sejam raros tampouco considero que sejam habituais em P. 11. Na terapêutica breve. o risco do acting out aumenta quando o caminho se vê possibilitado ou facilitado porque o terapeuta. > Em seu afã de conseguir “resultados práticos” em pouco tempo. figuram as meras condutas adaptativas . a limitação mencionada deve compen­ sar-se com um estudo prévio exaustivo e o mais profundo possível do paciente no começo do tratamento (uma razão poderosa para realizar várias entrevistas diagnosticas quando o caso o requer. Os pacientes que evidenciam tendências ao acting out in­ troduzem um novo problema técnico. que implicam modificações só em nível superficial. 9. Esse estudo prévio deverá então prover-nos de elementos diagnósticos nos quais possamos apoiar nossas hipóteses explicativas e nossas in­ tervenções terapêuticas. o de favorecer a depen­ dência regressiva do paciente. confeccionar uma história clínica minuciosa. Fantasias transferenciais negligenciadas podem então ser atuadas por parte do paciente.

C. French. cm F. Arg. Psicoterapia breve.. Buenos Aires. VIU. “Psicoanálisis y psicoterapia”. Alexander. conjuntamente ou em continuação a eles. cap. em F. Arg. 16 de junho de 1972. 1960. T. durante e depois do tratamento (ver capítulo 9). ainda que se produzam na ausência dos fatos que acabo de citar. Curso para graduados de Técnicas en Psicotcrapia Breve. . em 3. Psicoanálisis y Medic. ou correspondem diretamente a uma resolução falsa' Nessas ocasiões costumamos detefctar a persistência dos conflitos transferenciais subjacentes. Os agravamentos constituem uma complicação que por sua vez também pode estar relacionada com a separação.. Alexander. Madrid. VII. em F.. De Psicologia Médica. “La dinâmica dei proceso terapêutico”. cap. Psicoanâlisisy psicolerapia. ob. 168 s j. Grcdos. “Contribuciones psicoanalíticas a la psicotcrapia bre­ ve”. 3. Síntesis y debate. Teremos de contar com essa possibilidade. Vlli. “Planificación de la psicoterapia”. 1968. Organizado pela Soe. V. Terapêutica psicoanalitica. Buenos Aires. Referências bibliográficas 1. 1965. Alexander e T. Kaplan. cap. Alexander e T. pp. Em todos esses casos.) Buenos Aires.. Psique. em L. Wolberg e col. 5. o que é regra nessas terapias. a qual pode ser vivida como um abandono e condicionar diversas reações prejudiciais ao paciente. Paidós. As recaídas. cit. . o acompanhamento prolongado possihilitará a comprovação desses resultados e a adoção das medidas terapêuticas mais indicadas. con­ figuram em troca uma eventualidade mais ou menos freqüente nessas terapias. incrementados pela separa­ ção devida ao término da terapia.182 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica detratores dessas terapias não vacilam em rotular pejorativamente como fuga à saúde ou cura transferencial todo sucesso do paciente obtido através das mesmas3. . pois são a expressão de uma reativação dos conflitos que tinham sido objeto de uma resolução em essência incompleta. French. F. cap. 2 . 4 . Psicosomática (Asoc. em função do final do tratamento (ver capítulo 9. French. Méd.

7. psicol. Amér. Buenos Aires. junho 1968.. Buenos Aires. Acta psiq. “Acerca de la psicoterapia breve”. 1969 (Estúdio Víll). em H. vol. Paidós. M. Rackcr.Alguns problemas técnicos característicos 183 6. n? 2. Lat. “Técnica analítica y la mania inconsciente dei analista”. . Estúdios sobre técnica psicoanalitica. Racker. e Knobel. Szpilka.. Coloquio Acta 1967: Psicoterapia Breve. J. XIV.. H.

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Considero que isso permitirá que a apre­ ciação dos resultados seja enriquecida e possa na maioria das vezes aproximar-se mais da realidade. Desse modo. Quero destacar a conveniência de que a tarefa avaliatória não fique exclusivamente a cargo do terapeuta. como logo veremos. Paralelamente se poderá indagar outros as­ pectos que resultem de interesses. Este último passo do processo adquire então um alcance terapêutico. mas que haja partici­ pação ativa do paciente. . plane­ jado. de suas impressões a respeito dos progressos obtidos.11. no qual se aprecia sua opinião. sendo estas ratificadas pelo julgamento do terapeuta. requerida num intercâmbio cordial e franco com o terapeuta. A avaliação dos resultados terapêuticos em psicoterapia breve í Introdução A avaliação dos resultados terapêuticos nas terapias breves tem por finalidade primordial verificar se estão sendo cumpridos os objetivos fixados. Com base na avaliação dos resultados obtidos. será possível recolocar a situação do paciente e determinar os passos a serem seguidos a partir desse momento. o que não costuma aconte­ cer quando é efetuada de forma isolada por ambos os protagonis­ tas do processo terapêutico. criando-lhe uma sensação de reasseguramento. por parte do paciente. a qual tem assim um encerramento cuidadoso. que eventualmente inclui a confirmação. a avaliação conjunta deixa no paciente a impressão de que se levou a caso uma tarefa em comum.

explica-se quais são seus motivos. é suscetível de ser objetado e/ou aper­ feiçoado a fim de se conseguir uma maior precisão.186 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica No que se refere ao terapeuta. O procedimento que descreverei é o que adotei pessoalmen­ te2. recordarei uma questão básica. anunciada e ajustada de antemão com o paciente ao efetuar-se o contrato terapêutico. Um método de avaliação A partir das considerações expostas por Usandivaras em nos­ so meio. na medida em que provém de uma técnica suficientemente fundamentada. (Grifos do autor. como se fará e quais serão as datas de realização das entrevistas de avaliação imediata. costuma estimulá-lo a efetuar um estudo mais exaus­ tivo dos mesmos. como por exemplo quando se trata de adolescentes) e b) psicodiagnóstico. É necessário o follow-up ou acompanhamento do paciente em alta para poder saber se os resultados alcançados se mantêm e durante quanto tempo”(6). con­ sidero que possui um valor prático. etc. Nada melhor do que transcrever suas próprias palavras: “Para que uma avaliação de terapia seja realmente válida deve ser não apenas imediata. variando sua periodicidade em função de diversos fatores. ao ter­ mino da cura.) A avaliação é.). permitindo um registro que facilite a elaboração estatística e ulteriores investigações quanto aos alcances e limita­ ções do procedimento que nos ocupa1. Não obstante. . mas também mediata. já que as de avaliação mediata costumam ser combinadas a partir da finali­ zação do tratamento. recorro a dois recursos fundamentais: a) entrevistas com o pacien­ te (eventualmente estendidas a familiares e/ou figuras próximas dele. um ano. dentro do possível. de base psicodinâmica. Como qualquer outro. Para levar a cabo a avaliação tanto imediata como mediata. em parte relacionados com as necessidades e possibilidades de cada caso (entrevistas a cada seis meses. o emprego de um procedimen­ to metódico de avaliação dos resultados terapêuticos. sem chegar a constituir um rigoroso instrumento de medição.

E) Resolução da problemática focal (R. o paciente opina sobre distintos pontos: ás mudanças nota­ das. Na segunda.A avaliação dos resultados terapêuticos 187 A avaliação imediata Efetuam-se duas entrevistas. que inclui a avaliação dele. de uns 40 minutos de duração c que se realiza pouco depois de finalizada a terapia. como havia imaginado que seria seu tratamento. estudo. indico ao paciente que poderá expressar amplamente suas opiniões acerca do tratamento que acaba de concluir e de seus resultados e que ein seguida lhe for­ mularei algumas perguntas a respeito.) Consciência da enfermidade Auto-estima Outras modificações favoráveis (vida sexual.. A primeira. trabalho e lazer) Projetos para o futuro . está destinada a recolher as apreciações e informações que o paciente fornece (auto-avaliação). um pouco mais breve. se possível claras c simples. tratando ao final de precisar fundamentalmente: l ) o que se aclamou e se resolveu e o que ficou pendente. já estou em condições de transmitir-lhe minhas impressões sobre cada um dos pontos considera­ dos.P. P Para avaliar cada caso levo em conta os seguintes pontos: Insight da problemática focal (LP. 2) minha opinião a respeito dos próximos passos a serem seguidos.F. Na segunda entrevista .que confronto com minhas observações. a propósito dos pontos que exponho mais abaixo. Depois de haver revisado a evolução do caso. com base em perguntas. A técnica que utilizo na primeira entrevista de avaliação ime­ diata» é a seguinte: para começar. relações de casal. etc. geralmente realizada poucos dias depois da primeira. A seguir efetua-se uma indagação sistemática da auto-avalia­ ção do paciente. tem lugar uma devolução por parte do terapeuta.S. im­ pressões que haverão de ser úteis para o terapeuta. de que forma foi ajudado. comunico ao paciente minha própria avalia­ ção estudo prévio de todo o material recolhido na primeira entrevista . que críticas sugere.) Melhoria sintomática (M. outras relações interpessoais. as vivências que teve. Na primeira parte da entre­ vista.

do ponto de vista dinâmi­ co esta resolução não implica .188 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica "Insight ” da problemática focal (l. a existência de insight'. ao seu alcance ao longo do próprio tratamen­ to. pois me parece de decisiva importância.." quer dizer.F.P. etc. ou seja. significa que as mudanças produzidas mediante o tratamento deverão basear-se essencialmente no insight para que sc possa considerar tal resolução como real. o item precedente.F) Incluo esse ponto.) ração este item.). neste caso. Resolução da problemática focal (R. com uma sensação contratransferencial de desa­ parecimento das resistências.P. ou uma exclamação do paciente que revela surpresa diante de uma descoberta. trata-se de saber concretamente se chegou a compreender seus problemas de um modo diferente e mais profundo. Na realidade. a quem diferentes indicadores clínicos. ou seja. registre invariavelmente um resultado positivo. que é na realidade o que costuma pro­ porcionar um tratamento focal.P. que. I. Para o paciente.uma superação (elaboração) substancial dos conflitos subjacentes. depende do terapeuta. levo em conside­ Além de excluir conclusões acerca da existência ou não de . insight sobre a problemática focal de cada caso. Veremos o que implica o termo resolução tanto dinâmica quanto clinicamente. neste ponto. mais do que em qualquer outro. já lhe terão dado indicações sobre o grau de insight obtido (quando a uma interpretação se segue um silêncio reflexivo do paciente. Mas aqui me refiro apenas a expe­ riências iniciais de insight . que se refere à resolução propriamente dita dessa mesma problemática e sobre cuja denominação cabem alguns esclarecimentos.seria absurdo pretendê-lo . a avaliação.F. As expectativas do terapeuta no sentido de que se produzam modificações significativas e medianamente perduráveis no pa­ ciente devem assentar-se principalmente no insight que este possa adquirir a respeito dos dinamismos psíquicos subjacentes à situaçào-problema. ou a associação por parte deste com situações análogas à que foi objeto de interpretação. ou uma mudança do clima emo­ cional da sessão. Em relação ao primeiro.

Malan acrescenta que isâo não confunde necessariamente a resolução do processo patológico subjacente. o termo resolução é uma forma sinté­ tica de fazer referência à substituição de uma reação imprópria por outra. depois do trata­ mento e ante situações ligadas-'à conflitiva focal. Malan menciona as falsas soluções. fato que por outro lado não seria possível distinguir. sem excessiva submissão ou hostilidade. Clinicamente. O mesmo autor dá um exemplo muito claro. cuja resolução clinicamente total seria dada pela desaparição de seu medo do patrão e de seus temores obsessivos de cometer erros em seu trabalho. a resolução poderá ser total ou parcial. Cm suma. apropriada (4). deixando assim de ter um caráter perturbador por um período cuja duração é impre­ visível. veremos que neste sentido. clinicamente completa ou incomple­ ta.ainda com certas reservas num tratamento psicanalítico. mas em troca enfrenta tais situações de uma forma mais adequada. Além da resolução real. entre as quais se incluem fenômenos tais como a “cura transferencial” e a “fuga para a saúde”. De um modo mais preciso. não só deixa de registrar as dificuldades e sintomas do início. p. que não venha acompanhada da reação apropriada (4). a resolução clínica parcial consistirá no desaparecimento de uma reação inadequada (por exemplo. etc. Por outro lado. irritabilidade. e seguindo Malan. assim como o desaparecimento de sintomas alcançados a .). a resolução pode traduzir-se com freqüência na superação de um episódio (com aquisição de certo grau de insight e retorno ao equilíbrio psicológico). t> que explica que possam produzir-se recaídas circunstanciais. ao qual devia somar-se o fato de que começara a ter confiança em seu próprio desempenho e que se estabelecera uma relação satisfatória com seu patrão. sempre baseando-nos em Malan. Aclarado o significado do termo do ponto de vista clínico. como já foi assinalado anteriormente (ver capítulo 3. ansiedade. Trata-se então. referindo-se ao caso de um homem que tinha uma relação conflitiva com seu patrão. 24yde uma resolução dinamicamente incompleta ou parcial. podemos esperar na melhor das hipóteses que o conflito se torne inativo.A avaliação dos resultados terapêuticos como poderia esperar-se . A primeira corresponde à definição do termo já assinalada e se apresenta quando um paciente.

6. assentando-se no insight. Aparente resolução da problemática focal.F. com recaída [R. ao qual deverão agregar-se os elementos fornecidos pelo psicodiagnóstico.190 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica expensas da evitação das situações conflitivas.. fuga para a saúde. partindo-se da idéia de aceitar como real toda resolução da problemática central do tratamento que. .: ?] 4. com fins de orientação. perdure sem que se produzam re­ caídas ao longo de um determinado período.P. que serve para romper um circulo vicioso e instalar em seu lugar um ganho benigno e modi­ ficações vitais (4)4.P. Bem.P.: Sim (parcial)]. 8. total ou parcial (clinicamente). por exemplo. cuja reali­ zação costuma ser faciütada mediante um estudo realizado ao longo do acompanhamento. instável.F.: Não].P.F.F.: Não]. Resolução (clinicamente) total da problemática focal [R. etc. As apreciações contudo continuarão tendo caráter empírico.P. em realidade imprescindível se se pretende valorizar adequadamente o item R. Resolução (clinicamente) parcial da problemática focal [R.F.F. desde que o paciente não se submeta a outro tratamen­ to psicoterápico nesse intervalo. 5.: Não].P. que podemos fixar arbitrariamente. 7. Resultado duvidoso [R.F. Malan assinala que na prática se colo­ cam interrogações decisivas: Como reconhecer a melhoria “bási­ ca” ou “específica”? Como diferenciar uma “resolução” real de várias categorias de “soluções falsas”? (£).F. Sem dúvida. 3. efe­ tuar tais distinções pode ser às vezes uma tarefa difícil. Denomina dqfalsa situação valiosa àquela na qual as mudanças se vinculam com alguma determinação do paciente ou com algum outro fato signi­ ficativo gerado a partir do tratamento.P.P. em 24 meses a partir da finalização da terapia.: Não]. Falsa solução da problemática focal. 2. Sem modificações na problemática focal [R.F. é possível mencionar.P. algumas das distintas possibilidades que podem ocorrer em maté­ ria de resultados terapêuticos. Agravamento5da problemática focal [R. com ou sem recaída (cura transferencial.: Não]. evitação.) [R.: Sim (total)]. Não obstante. Falsa solução valiosa [R. Desse modo podem apresentarse alternativas como as seguintes: 1.

F. é de se desejar. A melhoria sintomática pode che­ gar a ser o principal objetivo terapêutico. . que por sua vez resultem de havermos penetrado com o paciente na psicogênese de seus sintomas. Consciência da enfermidade Compreende a indagação sobre se houve ou não uma tomada de consciência por parte do paciente a respeito da existência de uma enfermidade “de base”. se considera que persistem nele outras dificuldades que requei­ ram resolução. encontra-se na reali­ dade pior que no começo. “assintomático”. que o alívio ou o desaparecimento dos sintomas seja o corolário de mudanças internas (melhoria pelo insight). Além disso. na opinião deste. se solucionaram ou não seus problemas através do tratamento. como sempre.) A observação da evolução dos sintomas adquire particular impoftância nessas terapias. ou seja. como no caso de pacientes que apresentam uma grande debilidade egóica.A avaliação dos resultados terapêuticos 191 A avaliação deste ponto (R. se. Para isto poder-se-á inquirir. em (unção da qual o paciente. por exemplo.ao menos inicialmente uma remissão sintomática. portan­ to. quando possível. nos quais se procura às vezes .P. Cabe advertir quanto à falsa solução por evitação (4).S. as impres­ sões do paciente sobre o caso.) também é patrimônio do terapeuta. deve transcender o mero reconhecimento da natureza patológi­ ca do transtorno atual. tomada de consciência que. pois daí pode obter-se a motivação do paciente para continuar recebendo assistência psiquiátrica ou voltar a se consultar em outra ocasião. embora este deva conhecer. Melhoria sintomática (M. quando isso for necessário. Penso que a aquisição de consciência da enfermidade deve ser uma meta implícita em toda terapia breve de insight. per­ manente ou transitória (esta última é típica dg episódios agu­ dos).

sua iniciativa pessoal. A maior parte das pessoas que procuram uma consulta psiquiátrica registram uma diminuição de sua auto-estima. sua criatividade. 1) Alguma orienta­ . Projetos para o futuro Trata-se de comprovar se. sem entrar aqui em con­ siderações profundas. interessa averiguar se se têm eventualmente produzido mudanças em aspectos como sua vida sexual. nos estudos. configuram uma finalidade que convém ter presente. também a elevação da auto-estima e as possibilidades de uma auto-regulação adequada dela. Pode servir de simples exemplo. outras relações interpessoais.com pais. em conseqüência do insight alcan­ çado. o fato de se notar num indivíduo. que no começo do tratamento impressionava pelo descuido consigo mesmo. etc. Seu incremento (conseqüência natural de um tratamento caloroso por parte do terapeuta e também do efeito particular de determinadas interven­ ções do mesmo) constitui um ganho terapêutico nada desdenhável. uma maior preocupação com seu aspecto pessoal. O estado atual da auto-estima detecta-se por meio de diver­ sos dados. Outras modificações favoráveis Já que se trata de um procedimento terapêutico orientado para a realidade cotidiana do paciente. recolhidos tanto nas entrevistas como no psicodiagnóstico. suas relações de casal. profissionais. especialmente as familiares . no trabalho e na recreação. mas também por sua influência direta no funcionamento egóico. atendendo ao uso que faz de seu tempo livre (o que permitirá explorar sua capacidade de gozo. permitindo-se expandir-se. .mas tam­ bém as de amizade. irmãos. o paciente emerge do tratamento com.. através da qual pode promover modificações positivas*.).192 Auto-estima Psicoterapia breve de orientação psicanalítica Como acontece com o item anterior. não só porque por si só significa para o paciente maior bemestar. etc. etc. etc.

Quando as metas terapêuticas não guardam maior vinculação com o que concerne aos planos pessoais do paciente. pois nem sempre é possível abordá-la num tratamento breve. a instrumentação de mecanismos menos primitivos e mais adaptativos que os presentes no começo. esta questão configura por si um objetivo à parte. permite ampliar a obser­ vação das modificações obtidas. É conveniente que o mesmo psicólogo que realizou o psico­ diagnóstico inicial seja quem. utilizando procedimentos idênticos aos daquela ocasião. que realizou uma investigação com numerosos pacientes tratados com o método terapêutico breve. 2) A partir daí. sem que no ínterim mediasse qualquer tratamento psicológico.A avaliação dos resultados terapêuticos 193 ção no que se refere a realizações futuras em aspectos tais como estudos. Mas as provas realizadas ao cabo de vários anos com estes mesmos pacientes. trabalho. contase com a possibilidade de adotar certas determinações. registravam uma notá­ vel melhora. possíveis migrações. comparado com ó anterior. o que parece indicar também que a posteriori desses tratamentos se desenvolve um processo ativo e gerador de mudan­ ças (2). Tudo isso implica por sua vez certo autoconhecimento e a aceitação de algu­ mas perspectivas e limitações. já que do contrário é menos provável que possam registrar-se mudanças significativas no material. a exploração dos distintos pontos citados pode ser vista como uma reavaliação do estado das funções egóicas do paciente depois de efetuado o tratamento. refere que na maioria dos casos os testes exploratórios não revelavam diferen­ ças destacáveis quando se efetuavam imediatamente depois de finalizado o tratamento. Harrower. i» Psicodiagnóstico É conveniente efetuar o reteste não antes de que tenham trans­ corrido pelo menos seis meses desde a realização do psicodiag­ nóstico inicial. etc. Comprova-se freqüentemente. efetue o reteste e a devolução corresponden­ . Em geral. O novo psico­ diagnóstico. entre outras descobertas.

A indicação de outro tipo de tratamento . com conhecimento do terapeuta. por exemplo. 196 ss. 3. A separação de paciente e terapeuta será decidida sempre e quando aquele estiver em condições de enfrentá-la. pp. além disso. 4. em que o prazo inicial pode ter sido insuficiente para alcançar as metas estabelecidas. durante o tratamento. distinto em seus fins e técnicas. como é óbvio. É freqüente. Quando. 3. 2. no momento da avaliação. 1. Alternativas do paciente ao terminar o tratamento Este tema já foi considerada por outros autores. que a conti­ . A indicação de outro tipo de tratamento. pode surgir em diversas situações. A separação de paciente e terapeuta. cumpridas ou nào as metas terapêuticas. quer dizer. 4. As distintas possibilidades que devem ser levadas em conta ao concluir o prazo terapêutico são: * 1. se se colocam novos objetivos limita­ dos. Do acompanhamento me ocupo em “A avaliação media­ ta”. O estabelecimento de um recontrato pode realizar-se cm várias circunstâncias: a) se nào se cumprirem os objetivos. Comentarei aqui apenas algumas questões que me parecem de interesse. o que. carece de sentido. convém que proponha isso ao paciente sem esperar que se cumpra o prazo inicialmente fixado. Atuar de modo contrário suporia expor o paciente a uma falsa situação de separação ime­ diata. A combinação de entrevistas periódicas de acompanha­ mento. Só desse modo. a com­ paração dos resultados de um e de outro estudo terá validade. compelido a trabalhá-la. que se veria. No primeiro caso trata-se de um prolongamento necessário do tratamento. o terapeuta considera neces­ sário prolongá-lo (recontrato). b) havendo sido cumpridos. O estabelecimento de um recontrato. que poderá consultar-se novamente toda vez que sinta necessidade de fazê-lo. Ser-lhe-á comunicado. como é natural. evitando que haja variáveis. 2.194 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica te ao paciente. sem programação de futuros encontros.

continuando a encarregar-se do tratamento. com vistas a modificar aspectos de seu caráter. De minha parte. quer se realize de imediato quer depois de haver transcorrido algum tempo entre um c outro. e que tenha adquirido além disso maior consciência da enfermidade e maior confiança na psicoterapia. evita-lhe o . ampla e prolongada de seus conflitos. baseada nas melhorias obtidas inicialmente. Na realidade. Pode tratar-se também de um paciente que o tratamento breve haja motivado para uma exploração mais profunda. não constitui por si só nenhum indício de fracasso ou êxito do trata­ mento efetuado. creio que não se pode generalizar afirmando que tal ou qual posição será mais adequada em todos os casos. Há. Penso que tanto uma alternativa como outra oferecem vantagens e desvanta­ gens. cm alguma medida. Aqui o passo para a psicoterapia prolongada é uma conquista importante da terapia breve. tudo o que o toma agora mais apto para realizar ura tratamento dessa natureza. quer dizer. Além disso. a patologia do paciente. questão sobre a qual ’outros se têm pronunciado de maneira similar. ao confirmar que*'a melhoria é possível. terapeutas que sugerem completar a experiência cor­ retiva de terapia individual com um tratamento grupai posterior.. psicanálise). tanto pode responder ao primei­ ro como ao segundo. modelos repetitivos de conduta.A avaliação dos resultados terapêuticos 195 nuação de uma terapia de tempo e objetivos limitados desperte no paciente o interesse de efetuar uma psieoterapia prolongada. Quero destacar que a passagem de um paciente de um trata­ mento breve que está por finalizar para um tratamento prolongado (por exemplo. Ocorre no caso em que se decida realizar um tratamento prolongado ao ficar comprovado qfie a técnica focal resultou ineficaz e que na oportunidade se requêr outro enquadra­ mento. Fi­ nalmente. o tera­ peuta já conhece. Na prática o tratamento poderá ser solicitado pelo próprio pacien­ te ou ser recomendado pelo terapeuta. As opiniões a respeito parecem bastante divididas. Se se considera a possibilidade de que seja o mesmo tera­ peuta quem efetue o novo tratamento. além disso. etc. com outros e mais ambiciosos objetivos. pode-se contar a seu favor com a existência de uma aliança terapêutica já instaurada e com a confiança do paciente nas perspectivas que oferece o tratamento. Se o novo tratamento deve ou não ser feito pelo mesmo tera­ peuta pode constituir um tema polêmico que merece alguns co­ mentários.

e que este.196 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica luto da separação. tal como se vê a transformação de seu vínculo com o teçapeuta . diante de um paciente sub­ metido a um tratamento breve. a avaliação mediata nos permite indagar acerca do grau de eficácia desses . às vezes. preservando-se ao mesmo tempo o setting necessário. Talvez algo que possa ser feito. sem chegar à atitude de ambigüidade psicanalítica. na qual o terapeuta estabelece maior distância afetiva. sendo em suma mais frustrante. haverá de se pesar cuidadosamente distintos fatores. Em cada situação. diante de um novo tratamento. O paciente pode experimentar dificuldades para aceitar as modificações da relação com seu terapeuta devido às característi­ cas do novo enquadramento. mais ambígua. seja menos demonstrativo com o paciente. o mais conveniente pode ser recorrer a um novo terapeuta. Toda essa situação pode confun­ dir e desconcertar o paciente. Por isso. desempenhe um papel um pouco menos ativo que o habitual nas psicoterapias focais e regule mais determinado tipo de intervenção que possa contrastar com as da técnica psicanalíti­ ca que depois terá de adotar.de uma rela­ ção mais definida e calorosa do diálogo fluido e mantido “frente a frente” para outra. essa situação pode trazer complicações transferenciais. que basicamente servirá para comprovar se as mudanças alcançadas mantêm-se ou não. seja considerar firmemente a pos­ sibilidade de aceitar a continuação de tal tratamento. que fica reduzido ao ocasionado pela eventual mudança do tipo de relação paciente-terapeuta7. correspondentes não só ao paciente mas também ao terapeuta. com o mesmo terapeuta. provocadas pela hostilidade gerada ao passar . uma psica­ nálise. Paralelamente. e que propõe outra disposição espacial.de um modo contraditório para ele. A avaliação mediata É praticada por meio de follow-up ou acompanhamento. Mas é precisa­ mente no que concerne a tal mudança que residem as desvanta­ gens. para que a passagem à nova forma de relação terapêutica seja mais gradual e que a situação criada possa ser manejada sem que se produzam reações transferenciais inde­ sejáveis. No terreno da investigação.

certas mudanças prospectivas ligadas ao tratamento. como com outros que se apresentam queixosos ou ainda não compareçam. Conhecemos sobeja­ mente. isto é. verificáveis tanto clinicamente como por meio de psicodiagnóstico. já que com o passar do tempo estes podem consolidar-se ou seguramente descaracterizar-se. Mas os alcances do acompanhamento não se reduzem a uma só face.A avaliação dos resultados terapêuticos 197 procedimentos e formular hipóteses sobre os prováveis mecanis­ mos terapêuticos atuantes.ou ao menos atenuar possíveis recaídas relacionadas com fantasias dc abandono por causa do término do tratamento. Assim. tem-se assinalado. Às vezes. por exemplo. por exemplo. nos encontra­ remos tanto com pacientes que vêm entusiasmados. as mudanças esperadas só se manifestam no acom­ panhamento. Além disso teremos oportunidade de comprovar se depois da remoção do obstáculo continuam ou não evidenaiando-se novos progressos. tais como a conduta do paciente diante do terapeuta no acompanhamento. Pode ser efetuado. dando lugar também a recaídas. ou seja. depois de transcorrido um certo período. Partindo-se de experiências em estabelecimentos assistenciais. uma “fiiga para a*saúde”. desde a finalização do tratamento. Às vezes o acompanhamento torna possível distinguir melhor. uma cura transferenciai de efeitos fugazes. que chega a con­ . de autênticas melhorias causadas pelo insight. que pode ser prolongado. um estudo mais preciso que na avaliação imediata e por conseguinte uma avaliação mais correta das mudanças produzidas. que poderão então ser pesquisados através de entrevistas periódicas de controle. Pode evitar . ou melhor. a investigação. Também podem ser explorados em detalhes determinados aspectos do processo terapêutico. mas este representa por sua vez um recur­ so preventivo-terapêutico. então. em nosso meio. a evolução da rela­ ção transferencial e sua conseqüente vinculação com o estado do paciente (como o realizou o grupo de Malan [4]. quer dizer. mostrando-se colaboradores e agradecidos. temática que foi considerada no capítulo 9. É nessas circunstâncias que são postos à prova os ganhos obtidos. que estudou esses fatos com relação ao grau de interpretações da transferência exis­ tente ao longo dos tratamentos efetuados). os perigos que derivam de certos aspectos transferenciais não-resolvidos. evitando o encontro.

que pode influir favoravelmente no funcionamento do ego e avaliar sofri­ mentos. quando existe um controle periódico da avaliação do caso. é mister indagar ao menos. Se considerarmos concretamente as mudanças e melhorias sintomáticas . temas aos quais me referi em parte no capítulo 3 (ver pp. em essência similar à descrita a propósito da avaliação imediata. que desenvolve assim certa pertinência à mesma (3). a que mecanis­ mos respondem e qual é o alcance e a estabilidade de tais mudan­ ças. no qual a insti­ tuição c um continente para o paciente. Também poderemos pesquisar a existência de uma cura transferencial. assinalarei alguns pontos de ma­ neira sucinta. assim como suas sugestões para o futuro. 194). A técnica das entrevistas . aos quais se deverá agregar a indagação acerca de possíveis novos ganhos e/ou problemas que possa apresentar o paciente. quando este é alcançado por mecanismos distintos do insight). antes que o processo patológico alcance maior desenvolvimento. como o incremento da auto-estima (quero dizer. 49 ss. Além disso haverá uma “devolução” do terapeuta. é factível detectar novas manifestações sintomatológicas ou a reaparição das já conhecidas e com isso a indi­ cação psicoprofilática ou psicoterapêutica necessária. Além disso. assim como também de outros meios de fortalecimento egóico. que deriva em mudanças só . mantendo-se contato com o paciente. Aprofundando-nos no que podemos explorar por meio do controle periódico do paciente.m Psicoterapia breve de orientação psicanalitica figurar uma continuação espaçada do tratamento. tais como a depressão. já que nem sempre tere­ mos respostas concludentes a essas interrogações. já que pode objetivar a permanência das melhorias alcançadas. de acordo com as necessidades.). recordemos que esses resultados podem ser produto do insight. que transmitirá suas impressões. leva em conta os mesmos itens. O reteste será realizado conforme as condições enunciadas anteriormente (ver p. Tudo isso deverá efetuar-se em uma ou mais entrevistas. A respeito dos mecanismos das mudanças e melhorias sinto­ máticas. Também já fiz menção de que é nessas circunstâncias que o psicodiagnóstico pode registrar as mudanças significativas produzidas por essas terapias. este tem uma possibilidade de reasseguramento e tranqüilização. Por último.

com os mecanismos que as geraram e seu correspondentenívèrde profundidade. ao longo do qual teria lugar um proce|so “elaborativo” pós-terapêutico. ainda. que o paciente realizaria espontaneamente. estahilidade das mudanças estará relacionada com a natureza dos mesmos. O alcance ou a extensão das modificações clínicas favorá­ veis pode referir-se às distintas áreas de conduta em que se regis­ tram8 e/ou simplesmente aos diferentes aspectos da vida do paciente. A resolução real (ou seja. a mudanças prospectivas em uma ou mais áreas ou atividades. O aprendido na terapia é confrontado e interatua com tais experiências. No que corresponde ao processo terapêuticQ^ a. reveladas nos psicodiagnósticos. tais como sexualidade. trabalho. permitindo às vezes a remoção de obstá­ culos e a consecução de ganhos. de duvidosa per­ manência. alcançada através de insight) da problemática focal poderá expressar-se na manutenção das mu­ danças registradas ao concluir-se o tratamento. durante quanto tempo. não dependa só do tratamento realizado. Mas também é possível que constitua descoberta evidenciada durante o acompa­ nhamento. ou seja. lazer. estudo. uma “falsa solução valiosa”. mas também. cata­ lisado pelas suas experiências vitais. fato registrado na avaliação imediata. as quais costumam realimentar o processo. Interessará.A avaliação dos resultados terapêuticos 199 aparentes e superficiais (reações adaptativas). seu grau de estabilidade. da maior ou menor influência de situações traumáticas que possam afetar o paciente e promover uma nova descompensa­ ção. mas este não se faria acompanhar de modificações visí­ veis. . entre outros fatores. se as mudanças registradas se mantêm ou não e. O paciente teria adquirido certo insight. por exemplo. quer dizer. como sabemos. podendo tratar-se de uma “fuga à saúde”. Isso acontece quando as mudanças e melhorias sinto­ máticas sobrevêm só depois de um certo período de tempo. Este é um índice muito válido para avaliar a eficácia desses procedimen­ tos. em caso afirmativo. podem dar lugar. ainda que a durabilidade das mudanças. Mo­ dificações internas de distinta natureza. etc. Nesse caso parece resultar necessário que transcorra algum tempo. Já vimos que tudo isto pode refletir-se nos resultados do psicodiagnóstico realizado nesta etapa. etc.

o desenvolvi­ mento fundamental do terapeuta requer que seja feita uma avalia­ ção sincera. Contudo. imprecisões e limitações. diante das quais o terapeuta estará em condi­ ções de prevenir ou auxiliar o paciente. Isso deveria incluir não só o julga­ mento. e diante dos quais cabe indagar também acerca de seus mecanismos. por fornecer uma grande riqueza de dados com possibilidade de . no que é possível que o psicodiagnóstico possa transformar-se num valioso instrumento. Em parte devemos con­ fiar em informações e apreciações subjetivas do paciente ou de seus familiares. é possível encontrar novos ganhos e mudanças. que por diversos motivos podem distorcer os fatos. Problemas na avaliação dos resultados terapêuticos As dificuldades para avaliar os resultados terapêuticos dos distintos procedimentos utilizados em psicoterapia são sobeja­ mente conhecidas. mas também à estrutura da personalidade. mas também acerca de seus possíveis fatores e ra­ zões (1)”. fato mais bem detectado através do psicodiagnóstico. Disse Dewald: “Em que pesem as dificuldades. alcance e estabilidade. da mesma forma que a presença de novas si­ tuações conflitivas. grosso modo. Geralmente. A avaliação dos resultados terapêuticos em psiquiatria breve constitui um terreno aberto à investigação. de certo modo alheios às metas terapêuticas propostas. Por último. um auto-exame e uma autocrítica de seus resultados terapêuticos em cada paciente. Esses fatos também podem ser investigados. também as impres­ sões do terapeuta estão sujeitas às mesmas vicissitudes. Essas mudanças podem ser inerentes não só às con­ dições de vida. ainda que em grau menor. este deverá tentar sempre uma avaliação. A avaliação constitui uma tarefa complexa. traduzidas na reaparição dos sintomas ou na presença de novas manifestações sintomatológicas. podem dcverse à reativação do conflito subjacente pela ação de fatores traumá­ ticos.200 Psicoterapia breve de orientaçãopsicanalítica As recaídas. por meio do acompanhamento9. sobretudo porque não contamos até o momento com a possibili­ dade de realizar medições mais objetivas. a respeito de como se produziu o êxito ou o fracasso.

S. resolução da problemática focal (R.F. Por esse motivo exporei a seguir o esquema que idealizei e que utilizo.). o que tal­ vez contribua para criar maior desconcordância nesse campo. Difundem-se numerosos e diferentes esquemas para a avalia­ ção dos resultados terapêuticos em psicoterapia breve. parte dos itens aos quais anteriormente fiz referência. Esse procedimento terá maior validade se for apli­ cado com base nos dados recolhidos ein acompanhamentos efe­ tuados depois de haver transcorrido um certo lapso de tempo des­ .F. uma idéia global dos mesmos. como vimos. fornecendo assim. no meu entender.P. (Tinda que persistam certos sintomas ou dificuldades meno­ res. Bastará isto para considerar um resultado como favorável. pelo alcance de uma maior compreensão psicológica [insight). os três primeiros pontos da lista já conhecida. a saber: insight da problemática focal (I. O que im­ porta no final das contas é o julgamento que o terapeuta desenvol­ ve com respeito aos resultados obtidos no que concerne a cada um desses itens.). e mais do que tudo fundamentar um procedimento de medição bastante preciso. Mas na prática e sobretu­ do com fins estatísticos. na sua avaliação. o qual. por si só não nos sirva de parâmetro. surge a necessidade de apelar para um código que sirva para qualificar os resultados terapêuticos “fi­ nais” de cada tratamento. e. muito menos nesse tipo de tratamento. pelo que não é sinônimo de êxito terapêutico. um enfrentamento mais adequado de alguns dos obstáculos correspondentes à sua situação-problerna. em algum momento. Levantam-se muitas polêmicas em torno dos critérios de me­ lhoria que deveriam imperar quanto às terapias breves: Que deve­ mos entender por “melhoria” ou por “resultado favorável” nessas terapias? Darei minha opinião a respeito: em psicoterapia breve de insight.A avaliação dos resultados terapêuticos 201 sistematização metodológica. Quando se trata de uma terapia breve em que predomina o insight. como é lógico supor. sinteticamente.P. embora. Mas isso não significa desdenhar a melhoria ou ciura sintomática. Os pontos restantes têm importân­ cia secundária.) e melhoria sintomática ( M. a melhoria do paciente pode ser definida. já que pode ser o produto de fal­ sas soluções (4). levaremos fundamentalmente em conta. ainda quando diferir do julgamento do paciente. ainda se está longe de poder unifi­ car critérios e adotar um sistema único. Na realidade é uma tarefa difícil.

e M.)10.S. ou apenas dois dos três itens prin­ cipais acusam resultados positivos (I. M. a catarse. e portanto tampouco .F. o resultado final será considera­ do muito favorável. (excetuando-se o de evitar as si­ tuações conflitivas).P.. e nos demais itens se as mudanças e melhorias se mantiverem ao longo de pelo menos 24 meses.. sem que se tenham registrado recaídas nem sido efetuados outros tratamentos psicoterapêuticos durante tal período. uma vez mais.. o resultado final será considerado favorável. como a sugestão. ainda com persistência ou intensificação de certos sinto­ mas. f) Se assistimos a uma franca piora ou agravamento na sinto­ matologia. que de um modo convencional podemos fixar em no mínimo dois anos. ou à atenuação ou supressão sintomática por evitaçào (falsa solução) sem se ter alcançado I. e/ou mudanças favoráveis nos outros itens de importância secundária. a essa situação corresponderá um re­ sultado discreto.F. ou ainda por último I. etc. qualificaremos os resulta­ dos alcançados do seguinte modo: a) Naqueles casos em que se registre um resultado positivo em I.F.P.P. b) Quando. só se considera­ rão resultados positivos em R. Em conseqüência. só I.F.P.F. não modificará a qualificação.P. diferentemente do descrito em a.. e) Quando não se registra nenhuma variação favorável ou desfavorável nos diferentes pontos.P. Paralelamente poderão existir ou não modifi­ cações favoráveis em outros itens e eventualmente na estrutura da personalidade. a R. o efeito psicofarmacológico.S. Cumpridas as condições descritas.F. acompanhado de uma resolução clinicamente completa ou total da problemática focal e do desaparecimento ou demarca­ da atenuação da sintomatologia.202 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica de o término da terapia. o resultado será nulo. O registrado nos restantes pontos. é avaliado como positivo e enquanto não se tenham exacerbado mais intensamente as mani­ festações sintomatológicas. e R. dos três pontos.P. c) Quando. d) A categoria de regular significará que só se alcançaram alguns benefícios no concernente a M.P.F. por meio de distintos mecanismos não-bascados no insight.F. independentemente dos resultados concernentes aos demais pontos.S. clinicamente parcial. é clini­ camente incompleta ou parcial.

© Regular: M.P. terá importância.P.P.P.F.F. ® Favorável: I.E 0 “ R.S. (parcial) © + M. Seria interessante estudar uma forma de incorporação siste­ mática do psicodiagnóstico ao procedimento descrito. © ou I. e R. © e/ou resultados positivos em outros itens de importância secundária Nulo: Sçm variações Desfavorável: Piora sintomatológica ou falsa solução por evitaçào. e R. Nesse caso.S. Os itens restantes desempe­ nharão uma vez mais um papel menor na determinação do resul­ tado final.P.A avaliação dos resultados terapêuticos 203 R. as significações serão as seguintes: . © Discreto: I. também deverão manter-se pelo menos por dois anos a partir da data de conclusão do tratamento. © + M.. (parcial) © ou I.P.P.F. Como requisitos para considerar válidas a melhoria sintomática e as mudanças. No caso de uma psicoterapia breve baseada numa técnica de apoio. enquanto que I. Definitivamente. o resultado final será rotulado como desfavorável. (total) ® + M.S.F. Os resultados finais na terapia breve de apoio poderão ser qua­ lificados com as mesmas denominações aplicadas à de insight.S.F. © + R.P.PF.P.F. o significado de cada uma das categorias mencionadas pode ser resumido esquematicamente assim: PSICOTERAPIA BREVE EM QUE PREDOMINA O “INSIGHT” Resultado final Muito favorável: I.F. sem variações em I. não serão levados diretamente em conta.F.F. © + R.F.P. sem que o paciente haja realizado durante esse tempo novos trata­ mentos psicológicos12. além do observado nos demais pontos.S.P.P.F. a M.

Barcelona. de Psicologia Médica. XX. D. Dewald.) 5. E.que não se obteve uma resposta positiva no que diz respeito ao mesmo. Grcdos. (Versão castelhana: La psicoterapia breve. psicol.. Usandivaras. Toray. / b) Favorável: Difere do resultado muito favorável em que existe uma atenuação dos sintomas em vez de seu desaparecimen­ to. Curso para Graduados de Técnicas em Psicoterapia Bre­ ve. cap. XIV. Psicossomática (Assoc. Charles Thomas.F.204 Psicolerapia breve de orientação psicanalítica /a) Muito favorável: Um resultado será muito favorável quan­ do se produza a cura sintomática. cap. Centro Editor de América Latina. Psicoterapia breve. Amér.. cap. Kaplan. Buenos Aires. f) Desfavorável: Piora sintomática. « e) Nulo: Sem variações. A. “Evaluation de la terapia". H. Wolberg y col. X... Springfield. Referências bibliográficas 1. A Study o f Brief Psychotherapy. P. Buenos Aires. Londres.. Psicoanálisis y Medic. acompanhada de modificações benéficas cm um ou mais aspectos restantes considerados.). EUDEBA. vol. II. M. Lat. Buenos Aires. Tavistock.: Resultado: ?) considerar-se-á a fim de estabelecer um resultado final . válido para a avaliação em ambas as formas de psicoterapia breve: quando um resultado é duvidoso em um item (exemplo: R. qualquer que seja o esultado nos outros pontos. 2 Harrower. “Cómo vc cl tratamiento breve un psicólogo clinico”. n“ 2. Malan. ~7’c) Discreto: Só há atenuação dos sintomas. R. Organizado pela Soc. 1974. Dewald. em Cotoquio Acta 1967: Psicoterapia Breve. Buenos Aires. 1964. Bleger em Psicologia de la conducta. 3.. Também pode ser definido unicamente pela cura sintomática. -7 d) Regular: Registram-se somente alguns benefícios em pon­ tos de importância secundária. 1973. 1968.P. citado por J. em P. não acompanhada dc outras variações nos demais itens. Arg. 1963.. Madrid. C. Acta psiq. Med. 4. Pichon-Riviere. em L. Psi­ coterapia: m enfoque dinâmico. 6. junho 1968. 16 de junho de 1972. Um último esclarecimento.. A. J. Illinois. . Arg. “Problemas que plantea la investigation sobre psi­ coterapia breve”.

para residentes municipales de tercer ano de Psiquiatria. White.. 8.A avaliação dos resultados terapêuticos 205 7. Bue­ nos Aires. M. Servicio de Psicopatología c Higiene Mental del Hospital Municipal “J. Wolf. 1973. . R. 1970-71. E lyoy la realidaden la teoriapsicoanalitica.. Buenos Aires. Ramos Mejia”. L. Paidós. Supervisiones de psicoterapias breves hospitalares en pa­ cientes adolescentes.

V .* ^ .

ainda que esteja longe de ser em muitos casos a indicação mais adequada. dentro da qual são elemen­ tos indicadores para sua recomendação: a) Sofrer transtornos de início recente e agudo que motivem o tratamento (ou. A terapia de objetivos e tempo limita­ dos satisfaz assim uma necessidade assistencial. à técnica interpretativa e à de fortalecimento do ego. Essa posição. distância ou falta de tempo não possibilitem um tratamento mais intensivo e prolongado. Indicações da psicoterapia breve' i Por mais grave que seja sua enfermidade. Nes­ sas características incluem-se as situações críticas nas quais o *> . desde que se recorra. tanto no meio institucional como no consultório privado. com critério e segundo cada caso. compartilhada por muitos. o que costuma originar maiores dúvidas. A indica­ ção ou contra-indicação clínica dessa terapia decorre da avaliação diagnostica e prognostica do paciente.12. como diz Courtenay [2]. nesse sentido. mesmo de duração limitada. inclusive quando o método breve apresenta suas indicações clínicas. É evidente que se pode determinar em que circunstâncias e com que tipo de pacientes se poderão esperar os melhores resulta­ dos. que é. Estabelecerei a seguir alguns critérios de seleção de pacien­ tes para o tratamento focal em que predomina o insight. atravessar um "mo­ mento propício" numa enfermidade relativamente crônica). justifica sua aplicação generalizada quando dificuldades econômi­ cas. praticamente quase todas as pessoas poderão receber certa ajuda terapêutica com o tra­ tamento focal.

exercendo ao mesmo tempo uma função preventiva. ao mesmo tempo. de necessidades de dependên­ cia e de privações precoces sérias” (6).) o trabalho de análise progride melhor se as experiências patológicas do paciente per­ tencem ao passado. de pessoa total.). a psicanálise não pode ser utilizada de nenhum modo.. ^ b) Patologia de caráter leve (exemplo: neurose). casamento. de modo que seu ego possa situar-se a uma certa distância delas. Também podem incluir-se aqui os casos em que o indivíduo deve preparar-se para passar por tensões. ataque histérico. se pronuncia de modo similar. A terapêutica breve pode converter-se num auxílio eficaz.. não devemos desentender-nos a respeito disso2. Todo o interesse do ego está absorvido pela penosa realidade e se retira da análise . ruptura de casamento.cujo propósito é o de penetrar por debaixo da superfície e descobrir as influências do passado” (4). para a elaboração das ansiedades surgidas ao longo dela [8]). depressão reativa. e deve haver uma ausência relativa de expectativas primitivas. etc. ou até mesmo sair garbosamente dela. essas situa­ ções distintas demandam muitas vezes ajuda psicológica urgente. como terapeutas.208 Psicolerapia breve de orientaçãopsicanalitica indivíduo esteja afetado por problemas que digam respeito à sua realidade atual (acidente de trabalho. etc. tais como uma interven­ ção cirúrgica.). dada a lógica limitação de tempo e os objetivos terapêuticos que a natureza idêntica das situações coloca. assinalando . por sua vez. às quais podem adequar-se facilmente. Disse Freud a respeito: “(. Mas. razão pela qual. um parto. etc. Menciona também a leveza da patolo­ gia como um fator para um prognóstico favorável. Courtenay. Nos estados de crise aguda.. que representam importantes campos de aplicação das técnicas breves (a psicoprofilaxia cirúrgica [5] ou a assistência psicológica durante a gravi­ dez. dando lugar a um quadro psicopatológico agudo (neurose traumá­ tica.). que permita ao paciente superar melhor a situação sem graves conseqüências. Essas situações costumam pelo menos transitoriamente impedir a realização de um trata­ mento analítico. ou não necessaria­ mente patológico como pode ser o caso de uma crise vital (ingres­ so na universidade. uma migração. etc. adquirindo além do mais um caráter essencial­ mente preventivo. Afirma Main: “Os problemas principais devem situar-se predominante­ mente no nível genital.

a outro com problemas orais de dois. e) Capacidade de insight. e de que esta recaia sobre o tratamento psicanalítico quando não são fornecidas ao paciente determinadas condições elementares. isto é. dizem: “Entendemos que não se está prescrevendo &terapia de escolha para cada caso. ou depressi­ vos sérios (2). suas resistências a tratamentos intensivos e prolonga­ dos. condições socioeconômicas. com funções em bom estado. quando devem ser considerados também fatores como idade. histérica. como se faz em geral em medicina. d) Alto grau de motivação para o tratamento. devendo-se atender em cada caso ao todo da situação apresentada pelo paciente. Essas limi- . tanto em psiquiatria como em medicina geral. Szpilka e Knobel advertem sobre o erro de guiar-se quase que exclusivamente por um diagnóstico nosológico para a indicação terapêutica. mas sim que se pretende esta­ belecer uma generalização que não considera realmente o diag­ nóstico nem leva em conta a realidade atual e circunstancial de cada paciente. mas que idealiza o método terapêutico. que não estão dispostos a passar por uma terapia intensiva e prolongada.” Sintetizam essa posição dizendo: “A psicoterapia breve pode então aplicar-se não como uma terapia substitutiva da psicanálise.Indicações da psicoterapia breve 209 que é preferível um indivíduo com necessidades edípicas. etc. f) Determinação e boa delimitaçãofocal desde o inicio (7). c) Força e plasticidade do ego.” O tratamento breve pode erigir-se como a única experiência terapêutica possível para numerosos pacientes reíratários á psica­ nálise. mas de uma personalidade enferma num determinado quadro socioeconômico e cultural. Diante desses fatos. caracteropatia esquizóide. Considerar isoladamente o diagnóstico nosológico (neurose obsessiva. etc. o qual é sempre prejudicial para qualquer paciente.ou qual­ quer otitro fator é em suma insuficiente para indicar ou contraindicar uma terapia breve.) . surgida do diagnóstico. que implique uma sacrificada revisão de sua vida e de sua personalidade (mas que por outro lado chegam a manifes­ tar um certo interesse em aliviar alguns de seus sintomas ou uma situação conílitiva atual através de uma psicoterapia). não de um quadro nosológico. mas como uma indicação precisa. de três pessoas.

toxicomanias.B. circunstâncias nas quais a indica­ ção técnica mais adequada pode ser outro tipo de terapia. dependentes ou sim­ bólicas. e evitar desse modo mobilizações afetivas desnecessárias. é indicada como primeiro . 9 e 10).e preparató­ . excessivas e também arriscadas. perversões. inclusive através de uma técnica interpretativa. psicopatias. com relações objetais muito ambivalentes. sem forçá-los a um trata­ mento analítico. quando há pouca motivação para o tratamento. Trata-se então de adaptar sempre nossa técnica psicoterapêutica ao paciente. Um tratamento focal pode ser suficiente para solucionar o pro­ blema atual surgido. com grandes possibilidades de terminar em deserção. mas com método.B. quando resulta dificultoso determinar e delimitar um foco. em geral quando existem grandes debilidades egóicas. respeitar a estrutura caracterológica do paciente. Outras vezes a PB. Uma nova circunstância que cabe citar é a da aplicação póspsicanalítica da P. que ele possa tolerar. de insight é menos eficaz : em casos crônicos de psico­ se. não se justificando que se submetam a uma reanálise. 8. a par de seus conflitos difi­ cilmente modificáveis. Abarca assim outra área importante da assistência psiquiátrica.210 Psicolerapia breve de orientação psicanalitica Esta técnica pode cumprir idêntica finalidade no que diz respeito a outros tratamentos. porque permite trabalhar setorialmente. Está destinada a pacientes que puderam inclusive obter alta de uma análise com êxito e que consultam pela aparição . bastando às vezes umas poucas entrevistas com seu próprio analista4. estados fronteiriços e caracteropatias graves (sobretudo se o que se pretende é tratar estas patologias e não um conflito cir­ cunscrito). taçòes por vezes têm que ser respeitadas.ou reaparição de uma situação conflitiva ou dc um sintoma. pois a tentativa estará geralmente condenada ao fracasso. enfermidade psicossomática. c não o contrário. como a psicoterapia de grupo prolongada. A P. Pode ser tratável. geral- rio . para as quais se acha contraindicado o tratamento psicanalitico.passo para a realização de um tratamento psicanalitico1. a terapia focal pode encontrar uma aplicação muito adequada. tendências marcadas ao acting out ou escassa tolerância à ansiedade c à frustração (ver os capítulos 4. enfoque e objetivos terapêuti­ cos determinados. antes de rotulá-lo como intratável. Em pessoas de idade avançada.

Indicações da psicoterapia breve FACULDADE GÜAIRACÁ BIBLIOTECA F AG 211 mente intensiva e prolongada (nesses casos é comum existirem transtornos graves de personalidade. os conflitos estarem pouco circunscritos e afetarem quase todos os aspectos da vida do sujei­ to) (veroscapítulos4. 1968. 1969. amiúde. “Analisis terminable e interminable”. 1972. Acontece que nos encontramos ante um lego momentanea­ mente debilitado. Por outro lado. Buenos Aires. de um transtorno atual de começo rccénte e agudo. Nova York.. 1968. Fenichel. Tavistock. em S. Courtenay. S. como. Sexual Discord in Marriage. Beliak. Biblioteca Nueva. com uma diminuição de sua capacidade para suportar a dor e a frustração e poder enfrentar o novo luto gerado pela separação do terapeuta ao terminar a terapia. em Psicoterapias breves. 1964. 1972. 3. os produzidos por falecimentos de pessoas queridas (ver capítulo 10. Psicoterapia breve y de emergencia. Buenos Aires. Mcxico. o que pode provocar uma reativação iatrogênica da perda. III. 2. Small. The Collected Papers of Otto Fenichel. Citado por L. Madrid. uma terapia de três meses de duração (período que se fixa. o que pode rea­ vivar traumaticamente a perda anterior. Londres.C. apeSar de que quando tais lutos são ôs que motivam a consulta.)... Granica. p. isto é. M. Norton. sendo em princípio conveniente que o prazo não fique estabelecido de antemão. L. Rapaport (comps. . e 10. consideramos o problema que para a indica­ ção de uma terapia de tempo limitado estabelecem os pacientes que registram lutos patológicos e/ou recentes de importância. 179). e Small. O. Referências bibliográficas 1. Freud. PaxMexico. Citado por L. para esses tratamentos). Fenichel e D. situamo-nos diante de uma condi­ ção aparentemente favorável para a indicação do tratamento bre­ ve. por exemplo. Deverse-á cuidar então ao máximo para que nesses casos a duração da psicoterapia não predisponha a estas reações. 179). com antecedentes de um aborto recente. Small em Psicoterapias breves. L. O. em H. Freud. 4. p. Um trágico exemplo des­ sas situações poderia ser o prescrever descuidadamente a alguém.. 68. p. t. Granica. “Brief Psychotherapy”.

Lat. “Accrca de la psicoterapia breve”. Lat. set.) 8. 6. era Coloquio Acta 1967: Psicoterapia Breve. Buenos Aires. 1974.212 Psicoterapia breve de orientação psicanalilica 5. Amér. e col. (Versão castelhana: La psicoterapia breve.. n? 2. Illinois. .. vol. M. T. 1971. Main. jnnho 1968.. L. Springfield. H. Glasserman. psicol. XXV1I1.. D. Acta psiq. parody pueperio. 7. Londres. Acta psic. Psicologia del emharazo. de Psicoanálisis. XIV. 1969. Buenos Aires. Rev. Kargieman. Tavistock. 1963. vol. Centro Editor de América Latina. n° 1.. Malan. 9. c Knobel. Szpilka. “Mesa redonda sobre psicoanálisis y psicoterapia”. Buenos Aires. R. “La psicoprofílaxis quirúrgica: una técnica de prevención”. R. 1971. Amér. J. Charles Thomas. n°3.. t. Soifer. Buenos Aires. XV. psicol. “A Study of Brief Psychotherapy”. M. Buenos Aires..

13. no ano de 1972. no Serviço de Psicopatologia do Hospital Municipal “J. Ambos os tratamen­ tos foram efetuados por mim. argentino. O segundo constitui. Na realidade o recrudescimento de sua sintomatologia coin­ cidia com o nascimento de seu primeiro filho. Dos tratamentos breves I «> Apresentarei aqui dois casos que foram tratados por meio dc psicoterapia de objetivos e tempo limitados. de um modo quase constante. um homem de 28 anos.. . M. pertencente à classe média baixa. O caso descrito em primeirá'lugar ilustra com certo detalhe dis­ tintos aspectos e momentos do procedimento focal. Ramos Mejía”. eletricista. consultou o Serviço por experimentar um incremento na ansiedade e depressão de que sofria há muitos anos. essencialmente. de dois meses de idade. ao efetuar a consulta. casado. um exemplo do trabalho de aprofunda­ mento no foco1. e fa­ zem parte de uma investigação que ali realizei durante 12 meses. com instrução primária completa. fatos cuja conexão permanecia ignorada por A. Exemplificação do método psicoterapêutico de objetivos limitados A.

uma pessoa com muitos conhecimentos”. Seu pai. mas em camas separadas. opusera-se a tudo aquilo o que para ele (o paciente) pudesse significar “um passo adiante” na vida. ainda que. Mostrou-se além disso preocupado pelas dificuldades que tinha em seu trabalho. Autodefiniu-se como inseguro e indeciso. com quem protagonizava freqüentes discussões. mas logo. Grandes temores e inibições ao cursar os esttidos primários pare­ ciam havê-lo impedido de continuar estudando. Havia sido um menino tímido c um pouco triste. . Seu desejo era conseguir outro emprego. além de nào tê-lo estimulado a prosseguir os estudos. com relação à idéia dc suicídio. Tinha desejado ser um “grande intelectual. dormia junto com a mãe no mesmo leito desde muito pequeno até os 11 anos.214 Psicoterapia breve de orientação psicanalílica Ocasionalmente havia pensado que nào valia a pena conti­ nuar vivendo. segundo afirmou. a quem atribuiu um papel impor­ tante nessa questão. carinhosa e solícita. A relação com seu pai foi descrita como sumamente conflitiva. capaz de analisar problemas sociais. voltou a se casar um ano depois de ter enviu­ vado e não teve filhos do segundo matrimônio. Ganhava uma soma de dinheiro insuficien­ te para enfrentar os gastos correspondentes aos cuidados do bebê c tinha uma má relação com seu patrào. Dados biográficos de interesse (resumo) Único filho de um matrimônio com grandes desavenças. Por último. a princípio aparentemente bondosa para com ele. acredi­ tasse que nunca chegaria a “cometer uma loucura”. em contraste com a recordação que tinha de sua màe. Sentia um “medo pavoroso” de uma professora. políticos ou psicológicos. época em que esta morreu. empregado bancário. Nos últimos anos. Seus pais dormiam no mesmo quarto. manifestou-se muito frustrado intelectualmente. enquanto A. vítima de uma enfermidade infecciosa. Criticava nele que. mostrando-se abertamente hostil. Definiu-o como muito dominador. áspero e pouco afetuoso. Vivia muito apegado à màe e nào se recorda de ter tido amigos. Logo A. se sentiria muito prejudicado por sua madrasta. Enfim.

. tinha seguido trata­ mentos psicotcrapêuticos. Isso me fez temer mais a dependência em relação a ele e decidi deixar”. Revelava assim evidentes problemas. com terapeutas homens e que abandonou alegando inconvenien­ tes econômicos. uma vida sexual medianamente satisfatória (embora logo admita que sobretudo no começo tivesse tido gran­ des dificuldades. decidiu afastar-se da casa pater­ na. levando com ela. no seu parecer. Considerava que os tratamentos tinham tido um saldo positivo. Nos últimos tempos. com componentes melancólicos c paranóides. Sentia-me respaldado. quan­ do se casou com uma jovem que havia conhecido um ano antes e que descreveu como “muito sensível e inteligente”. contava 18 anos. Assim sendo havia sérias dificuldades para vincular-se com mulheres. em duas ocasiões. Voltando à sua adolescência. indo viver numa pensão. Nesses anos. Suas primeiras relações sexuais datam de seu matrimônio. ainda que seu estado geral fosse bom. tudo o qúe se referia a sexo adquiria para ele caráter pecaminoso. No abandono do segundo deles. O paciente atra­ vessava uma crise com exacerbação de seus sintomas. que confi­ gurava clinicamente uma depressão ansiosa reativa. Ali permaneceu até os 25 anos. as quais haviam reaparecido ultimamente). num caráter essencialmente anal.Dos tratamentos breves 215 seu pai havia contraído uma grave enfermidade. não só no referente a situa­ ções de dependência. Quando A. Avaliação diagnostica O diagnóstico psiquiátrico-dinâmico foi o de uma neurose obsessiva medianamente grave. Visitavam-se muito esporadicamente. admitiu a influên­ cia do tipo de relação que chegou a ter com seu terapeuta: “notava grande afinidade com o médico. mas também ante a existência de profundos temores a uma aproximação afetiva. cabe assinalar rfela sua grande adesão à religião católica. A atividade social do casal era intensa e gratifkante. aparentemente de orientação dinâmica. e foi sua espo­ sa a única com a qual conseguiu fazê-lo. que consistiram em episódios de impotência e de ereçctes dificultosas c mais adiante em fantasias uxoricidas em pleno coito.

ainda que violentas. casal)2. considerou A. memória. como o substituto libidinal de seu marido. pensou-se que o paciente possuía um ego suficientemente forte para suportar os sentimen­ tos dolorosos provocados pela revelação de seus aspectos incons­ cientes. (Os detalhes sobre a estrutura do foco serão descritos mais adiante. O grau de motivação para a psicoterapia e suas capacidades para o insight foram considerodos elevados. achando-se esta última francamente diminuída. isto é. superprotetora e sedutora. que se evidenciavam tanto num exagerado controle da agressão atra­ vés de formação reativa (psicodiagnóstico). como em ocasionais. Não obstante todo o mencionado. O foco pôde ser delimitado desde o começo. Essa perturba­ ção gerava nele dificuldades nas diferentes relações interpes­ soais. Assim mesmo. atenção. em especial com pessoas de autoridade. etc. Bender. Também apresentava alterações no controle de seus impulsos. puderam ser apreciadas: deficiências marcadas no teste de realidade . ainda que se duvidasse do grau de tolerância que teria à frustração que poderia ocasionar-lhe sua separação do terapeuta ao finalizar a terapia. e seu nível de inteligência poderia ser considerado médio. Por último. a regulação de sua autoestima resultava inadequada.216 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica Quanto às suas condições egóicas .) estavam menos alteradas. fato confirmado pelo psicodiagnóstico (Rorschach. optando-se por centrar o trabalho terapêutico na situação crítica criada em tomo do nascimento do filho. cabe mencionar que as funções básicas (per­ cepção. Tinha consciência da enfermidade .) A hipótese psicodinâmica inicial Três entrevistas e a bateria de testes ministrada permitiram formular o seguinte: a mãe. descargas de raiva. em con­ . uma distorção da realidade produzida por intensas projeções. tomando-o. relações que eram muito ambivalentes e oscilavam entre a tendência à submissão extrema e a rebelião patológica. o diagnóstico re­ velou com clareza uma grande disposição a estabelecer vínculos de natureza simbiótica.

pareceram atestá-lo). O psicodiagnóstico refletiu isto através da presen­ ça da fantasia de haver sido castrado. A rivalidade edípica. provenien­ te do fato de perceber-se pouco potente sexual3. formáção reativa). vítima de uma prematura e intensa estimulação sexual. constituiria uma forma de controle de seus impulsos sexuais e agressivos. resignar-se a ver restringidas suas inquietações intelec­ tuais e profissionais. representado pela figura de Deus. constituindo um sério impedimento para uma resolução adequada do complexo edípico ao incrementar os desejos incestuosos e parricidas c a angústia da castração conse­ qüente. traduziram-se ao que parece no caráter assustadiço do menino. Por sua vez car­ regou consigo desejos insatisfeitos de dependência oral. como seria o caso de uma pessoa que gos- . Essa situação foi expressa numa frase muito significativa do paciente: “angustia-me ter muitas coisas boas e não poder desfrutá-las. que ein parte pode ser concebida como uma defesa ante a ameaça de castração por mefo da submissão ao superego paterno. vividos como proibidos e perigosos por seu significado incestuoso e par­ ricida. Apelou então regressivamente para defesas mais primitivas. É a etapa em que surge sua religiosida­ de. o que o levou a abandonar o lar paterno. que simbolicamente representavam a castração: renunciar ao prazer sexual. em nome dos quais deveria sofrer severos castigos.Dos tratamentos breves 217 seqüência. Os mecanismos de repressão e sublimação sofreram mui­ ta interferência (os graves conflitos eícolares. e de escasso e difi­ cultoso contato social. intelectual e eco­ nomicamente. pela qual foram responsáveis ambos os progenitores. anulação. que au­ mentaram com a morte da mãe. Por último. além disso. com terror à figura da professora. muito intensificada em sua adolescên­ cia. Como Édipo. Acompanhava-o um sentimento de inferioridade. muito apegado à mãe. deslocamento. que foram plasmando sua estrutura de personalidade. Os efeitos deletérios dessa situação. É particularmente importante o antecedente da partilha do leito. sentir-se-ia culpado pelos grandes delitos de humanidade consumados em sua fantasia4. próprias da etapa sádico-anal (isolamento. a religião lhe permitia satisfazer desejos infan­ tis de dependência e proteção e a necessidade de castigo por seus intensos sentimentos de culpa. tomava cada vez mais tensa a relação com o pai.

A enfermidade de seu pai e o nascimento do filho provocaram um incremento pa­ ranóico em seus desejos parricidas mal reprimidos5e em suas fan­ tasias dc haver consumado o incesto. Formularam-se as seguintes hipóteses prognosticas a respei­ to das vicissitudes transferenciais durante o tratamento: buscava no terapeuta um pai bom. Isso se ligava com o que fora considerado como o principal motivo latente. a busca de uma contenção que o pusesse a salvo de suas tendências hetero e auto-agressivas.”. poderia condu­ zi-lo a repetir a conduta de deserção do tratamento7. mas é ce­ ga. depressão e insô­ nia. O foco terapêutico inicial ficava configurado em tomo dos sintomas que apareciam como o motivo manifesto da consulta: ansiedade. a intensa situação per­ secutória intervinha na gênese de sua angústia. Aprofundando-se na compreensão do momento crítico que A. (Recorde-se a cegueira de Édipo. assim como havia feito cm sua fantasia com seu próprio pai. burlando a proibição supercgóica6. Tal conduta tinha do mesmo modo antecedentes no abandono do lar paterno quando contava 18 anos. mas era possível esperar a repetição de uma relação fortemente ambivalente.. provocados por sua intensa inveja oral (um sonho seu desses dias revelava esses fatos claramente) e por sua rivalidade edípica. e de suas distintas limitações vitais. deduziuse. depressão e insônia exacerbados.) Com base no exposto. com o conseqüente .. como seu patrão c mais recentemente com o próprio filho. Ligavam-se também aos impulsos filicidas. dadas as dificuldades na relação com seu pai real e com representantes paternos. resulta clara a influência em sua pro­ blemática do conflito com a imago paterna. também.218 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica ta muito dc ler e consegue todos os livros do mundo. Existia além disso o risco de que seu temor inconsciente a uma aproximação afetiva . isto é: o nascimento de seu filho (que diga-se de passagem antecipou-se aos planos do casal). atravessava. através do qual também procuraria satisfazer seus desejos de dependência. que as ansiedades provocadas por essa crise vital estavam vinculadas essencialmente à sua vivência dolorosa de exclusão8.muito necessitada por ele com o terapeuta. seu temor de que o filho lhe “roubasse” a esposa-mãe.

3. que o incentivava a tratar-se. ajudando-o a adequar-sc melhor à nova situação. 4. oferecer-lhe ajuda no que concerne a seus estudos. Por último. tratar de alcançar esclarecimento e alguma solução para seus problemas de trabalho. Como objetivo menos prioritário. Era. Obter também um alívio sintomático. em especial para assumir melhor sua paternidade.Dos tratamentos breves 219 temor à retaliação. também. Sentimentos de inveja com relação à sua mulher. Em seguida. que se agre­ gava a tudo o já mencionado a respeito da significação incons­ ciente da enfermidade do pai e de outras conseqüências a que dera lugar o nascimento do descendente. o fato de ser consciente disso que o subme­ tia a uma grande depressão9. transferida agora para o filho. a qual. que era um novo fator * de incremento de sua angústia e que o defrontava mais drastica­ mente com a realidade dolorosa das limitações produzidas por sua neurose. As metas terapêuticas Cheguei a um contrato mínimo com o paciente sobre os obje­ tivos do tratamento depois de haver-lhc exposto meu pareccr sobre a natureza de seus transtornos (devolução diagnóstico-prognóstica). Tudo isso constituía os pontos de urgência a serem levados em conta no início do tratamento. É de se destacar a influência favorável que tinha sua esposa. também foram detectados. . 2. Conseguir uma maior compreensão dos conflitos reativa­ dos com o nascimento de seu filho. Vemos então que essa conflitiva focal também podia remeter parcialmente ao con­ flito com a imago paterna (conflito básico). ainda que considerados de menor relevância dentro do conjunto de problemas. levando em conta seu projeto de continuá-los em futuro próximo. gerava uma situação persecutória. caberia conside­ rar sua constrangedora posição econômica. Tais objetivos foram: 1. pela mater­ nidade.

as interpretações chegariam a incluir parte das raízes infantis do conflito. seriam um ins­ trumento importante na terapia. As chamadas interpretações “extratransferenciais ”. De particular utilidade poderiam ser aquelas interpretações destinadas a mostrar as vicissitudes intrapsiquicas do conflito a fim de que tomasse consciência da vigência de uma imago paterna superegóica muito severa. o qual fazia temer a aparição de complicações duran­ te a terapia (cm particular a respeito da finalização desta). sua idade. havia dito A. e muito especialmente o tipo de relações objetais que apresentava. Planificação do tratamento Decidiu-se utilizar uma técnica em que predomina o insight. que poderiam comprometer os resultados terapêuticos. que afetava quase todas as áreas de sua vida. discutindo com alguém dentro de mim.220 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica Prognóstico De todos os fatos considerados. unido à sua capacidade de auto-observação.). Se fosse possível e conveniente. e ao critério predominante neste caso acerca da necessi­ dade de proceder desse modo para alcançar as metas propostas. curiosidade ante sua conflitiva) e suficiente e relativamente fácil compreensão dos psicodinamismos básicos de sua problemática. uma contratransferência positiva (interesse em ajudá-lo. o contar com uma esposa cooperativa. que me diz que não vou ser capaz disto ou daquilo”. Entre os elementos prognósticos desfavoráveis se assinala­ vam: a gravidade da patologia. o fato de tratar-se de um “momento propício'’ para a abordagem psicoterapêutica numa enfermidade crônica (2). que ele já tinha. a imediata deter­ minação focal. o que permitiu arriscar um bom prognóstico para o tratamento foi talvez o alto grau de moti­ vação do paciente para a psicoterapia (disposição para o esforço da tarefa). patrão) e com o próprio pai. de uma luta interna que o angustiava e agoniava (“como se estives­ se sempre lutando. . partindo da percepção. que es­ tariam dirigidas de preferência para suas relações com represen­ tantes paternos (filho. devido a um certo training de A.

Fixou-se uma duração de quatro meses para a terapia. cm rela­ ção ao carinho materno. mas pro­ curar-se-ia não fomentar com isso a neurose transferencial. como era evidente. e quando o esta­ do do paciente o permitisse. diante da qual se esperava que pudessem além disso aflorar aspectos da transfe­ rência materna. com efeito.B. As interpretações tenderiam a fazê-lo tomar consciência de seus sen­ timentos de exclusão. se incluiriam durante a etapa final dele. Também eram previstas ante a possível aparição de fenômenos transferen­ ciais que chegassem a obstaculizar abertamente o processo tera­ pêutico (tais fenômenos. Se A. considerando a todo momento a receptividade do paciente. apresentaram-se durante o tratamento). demonstrasse ter um timing rápido. seriam reduzidas para uma por sema­ na durante o último mês. seria possível aprofun­ dar progressivamente a situação genética da conflitiva focal. inveja. como meio de ir facilitando a separação. com duas sessões semanais de 30 minutos cada uma. fantasias essas que.. não .Dos tratamentos breves _j_ _____ As chamadas interpretações "transferenciais ” teriam de ser empregadas com mais assiduidade do que o habitual em P. em virtude da reativação do lutcípela perda de sua progenitora. Em princípio.a enfrentar suas fantasias infantis de consumar a relação incestuosa. Com referência à estratégia terapêutica. atendendo aos pontos de urgência detectados. na tarefa de ajudar o paciente a aceitar a separação. ciúmes e rivalidade com respeito ao filho. cumprindo um papel decisivo para a demonstração emocional de certos problemas com a figura paterna (em razão da qual se torna­ va oportuno que fosse tratado por um terapeuta homem). Efetivar-sc-ia um trabalho interpretativo com as devidas precauções. dispôs-sc a encarar inicialmente a situação-problema criada por sua paternidade. Apelar-se-ia para o uso flexível e seletivo da regra de asso­ ciação livre. utilizando no inicio interpretações “de ensaio” (1) e observando sua resposta a elas. Estabeleceram-se também as datas para as entrevistas de avalia­ ção imediata e para a realização do reteste. não se administrariam psicofármacos. mas sem conduzi-lo necessariamente salvo se os indícios de seu grau de insight e a tolerância da dor o permitissem . Por último. em parte como reedição dos conflitos com seu pai.

como diria Malan (8). como derivados do con­ flito com a ünago paterna. de uma situação conflitiva nuclear. pensou-se em mostrar-lhe esse conflito básico.222 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica tinham sido conscientizadas nos tratamentos anteriores. que se evidenciava ante representantes paternos (incluindo o terapeuta). Ou seja. Por último. seriam considerados seus problemas na área intelectual. ficaria re­ servada para outra ocasião. Procurar-se-ia então revelar parcialmente o complexo edípico para o paciente. em diferentes contextos. c que o fazia sentir-se desvalorizado e ameaçado por eles. As condições do vínculo terapêutico deveriam tender a au­ mentar constantemente sua auto-estima e a estimular sua iniciati­ va pessoal a fim de conseguir o estabelecimento de um processo . Dessa forma diminuiria seu sentimento de culpa provocado por sua hostilidade cm relação ao filho. e efetivamente mais completa. Uma vez alcançado certo insight e alívio a respeito da situa­ ção crítica derivada do nascimento do filho. se possível. já que se sentiria menos débil e mais capaz de exercer um papel de pai protetor. se fosse exeqüível um tratamento pro­ longado. Não resul­ tava possível indicar outra opção. surgindo assim a “interpretação central sobre a qual teria de se basear todo o tratamento”. sem desenvolver todos os seus componentes. que é característica da técnica de “enfoque”. de modo que a possibilidade dc uma elabo­ ração mais profiinda. além do natural alívio poderia elevar sua auto-estima. a qual continuaria tratando dos problemas que se apresentassem em suas relações interpessoais. Considerou-se que se ante suas necessidades econômicas conseguisse melhorar seus rendimentos. conside­ rando-se que o fato de que se tratava de uma revelação incompleta não despojaria a tarefa da qualidade dc ser operativa em grau su­ ficiente para alcançar os fins terapêuticos propostos. A conseqüência final seria o alívio de sua de­ pressão. nesse caso com seu patrão. dadas as condições do enqua­ dramento e em se tratando de algo que poderia ser demasiado ansiógeno e despertar resistências insolúveis no curto lapso que duraria o tratamento. c que mostra ao pa­ ciente a repetição. a tarefa se centraria nas dificuldades encontradas em seu trabalho.

e além disso levando-se em conta o incremento dos vínculos regressivos de dependência ante o nas­ cimento de seu filho. Sua motivação para a tarefa foi aumentando.' Mão ocorria o mesmo com o que se referia ao mencionado luto. revivesse inconscientemente a perda de sua progenitora. sua abordagem profunda não parecia impres­ cindível para os fins imediatos do tratamento e teria resultado talvez imprudente. . Prestar-se-ia particular atenção. de maneira deliberada. O paciente comparecia a todas as sessões quase sempre pon­ tualmente. ia conseguindo um insight progressivo. dedicando-lhe pelo menos um terço da duração total da terapia. À medida que se aprofundava na conflitiva focal. (Se bem que o considerasse em con­ dições de enfrentar certos aspectos do complexo edípico. dadas as caracte­ rísticas e a história do paciente. apesar de sua importância decisiva na psicopatologia do paciente.) Evolução durante o tratamento Ao menos nessa ocasião. Mas isso tampouco significava que teria de ser deixada totalmente de lado. como seus desejos parricidas e por extensão a hostilidade em relação a seu filho. à abordagem do problema da separação consecutiva à finalização do tratamento. Utilizaram-se com proveito associações livres. • Por força deveria ficar intocada a perda patológica pela mor­ te de sua mãe. ainda que se es­ perasse que em certa medida a situação-probfema implicasse que A. sobretudo a partir do material onírico trazido. repre­ sentada agora por sua esposa. diante do qual se percebia o paciente mais defendido. evitar-seia interpretar o material relacionado com tal luto. Tudo isto se achava mais próximo da superfície cons­ ciente e parecia possível de ser manejado com êxito num enqua­ dramento de terapia breve. em razão da qual.Dos tratamentos breves 223 prospectivo que o paciente pudesse continuar por sua conta de­ pois de terminado o tratamento. a terapia transcorreu em grande parte de acordo com o plano terapêutico concebido.

A relação. a imago paterna. o despediriam “a patadas”. O reatamento das relações sexuais cotn sua mulher pareceu haver atenuado sua hostilidade. foi inevitável certo grau de desenvolvimento da neurose de transferência. com hostilidade. segundo sua “voz inte­ rior”. parecia pouco menos que insustentável. Surgiram obstáculos transferenciais na tarefa. vivida por A. foi conseguido por fim certo alívio sintomático. o que incrementou sua hostilidade transferencial (em sua maior parte não consciente). pôde dar-se conta de que reproduzia com o patrão a relação com seu pai. como um abandono. e em poucos dias o momento críti­ co pôde ser relativamente superado por meio de um intenso traba­ lho interpretativo. já que em pouco tempo começou a discutir com ela por amenidades. Pôde compreender que seu filho era vivido por ele como se se tratasse do pai rival. A. acompanhadas de intensos sentimentos de culpa. muito conflitiva. Não obstante. surgiram ein A. Durante o terceiro mês foi possível trabalhar sobre o proble­ ma profissional. por colocar em mim. os quais foram con­ templados com interpretações “transferenciais”. que cresceu . Planejava agora continuar seus estudos e conseguir um novo emprego. Ao fim do segundo mês de tratamento. progredindo a terapia em bom ritmo. As relações com sua mulher melhoraram. As maiores dificuldades se apresentaram na etapa final razão pela qual o número de sessões semanais não pôde ser redu­ zido. Necessitava rebelar-se contra sua autoridade. Em relação a toda a problemática mencionada. Tampouco dessa vez se recorreu às psicodrogas. temia buscar outro traba­ lho. Mostrava-se agradecido para comi­ go e mais otimista. o qual por sua vez ajudava a colocar seu ego em melhores condições de rendimento. mas A. pois imaginava que o ludibriariam e. ainda que só transitoriamente. Apresentou logo típicas dúvidas obsessivas acerca de seu amor por ela.224 Psicoierapia breve de orientação psicanalítica A focalização do trabalho terapêutico na crise registrou o surgimento de fantasias filicidas conscientes. Originaram-se precisamente na separação iminente. ainda que também esperasse dele inconsciente e neuroticamente carinho paternal. fantasias suicidas que o angustiariam muito.

. considerando-se impróprio fazê-lo nessa tera­ pia. Nas últimas sessões começou a manifestar|inesperadamcnte preocupações que provocavam nele certos pensamentos sujos relacionados com fantasias homossexuais. parecem ter influído em certa medida nos resultados terapêuti­ cos e na auto-avaliação dos mesmos. rôzão pela qual. Isso é funda­ mental. sobre o tratamento. principalmente no aspecto intelectual e científico. entre os quais se achavam grandes ansiedades fóbicas ante ele.. demandando uma árdua tarefa interpretativa sobre o novo foco10. que pretendeu ajudar o paciente a aceitar a separação. ao efetuar-se esta. aspectos transferenciais não resolvidos. que coincidiu bastante com a autoavaliação do paciente.... foram: “As vezes me sinto um pouco desiludido.” Segundo meu critério. isso eu tenho presente. Serviume e pode continuar me servindo. que obedecia a diversos motivos. acting out. como logo veremos. Isso permitiu evitar outras reações desfavoráveis (recaídas. num intento de con­ seguir que se adiasse o término do tratamento. Descobri que isso se deve a que o tratamento terminou. etc. Mas estou conformado com ele. as quais foram em troca inter­ pretadas como uma resistência a aceitar o desprendimento. vi um montão de coisas. na rea­ lidade. ner­ voso. que me freia em tudo...Dos tratamentos breves 225 até limites perigosos para o futuro do tratamento. mostrava agora um novo e interessante problema para conseguir de mim que con­ tinuasse tratando dele. este alcançou certo insight da problemática focal do tratamento e um melhor manejo da situação. Não se tentou apro­ fundar no material. Vi sobretudo esse pai temível que tenho dentro de mim. que foi ava­ .).. logo depois de finalizado.. dirijo minha bronca quando ataco os demais. de caráter hos­ til. Apesar deste trabalho. Avaliação dos resultados terapêuticos Alguns comentários de A. principalmente no final. a julgar por algumas impres­ sões de A.. nem se referiu às fantasias homos­ sexuais em relação ao terapeuta. Sobre o tema cabe acrescentar que é provável que nãu se tenha insistido o suficientê em assinalar sua rivalidade e inveja com relação ao tera­ peuta. e a quem.

esperava-se que o fortalecimento de seu ego . a projeção de aspectos superegóicos (sobretudo nas pessoas com autoridade). interessou-se pela idéia de reatá-los. já que deveria verificar-se novamente numa avaliação mediata.trouxesse paralelamen­ te mudanças no teste de realidade. já que ele havia notado sua ten­ dência dominante. Sua auto-estima. ainda. considerei que tinha po­ dido compreender melhor seus problemas com o patrão. Sua atividade sexual resultava bastante adequada e satisfató­ ria no dizer do paciente. sua maior autovalorizaçao atual. em parte responsável por estas dificuldades. o ajudaria a encontrar outro emprego. Adquiriu. o que parecia sem dúvida o mais indicado. indicada diante de seu crescente interesse por achar uma solução para suas perturbações caracterológicas. o que significou um importante estímulo para que efetuasse. como já disse. se havia elevado. antes havia optado por iludi-la. maior consciência da enfermidade.pelo insight . não sendo tomado como a busca de uma falsa solução (8) do problema. Concretamente: cessaram as disputas com sua mulher e conseguiu aceitar melhor o filho. Em suas relações com as demais pessoas. o que implicava por sua vez contar com certo projeto pessoal. Mas com respeito a seu trabalho A. quando pudesse. dada a deterioração que havia alcançado sua relação com o patrão esse era um objetivo importante do ponto de vista prático. Sem dúvida. o que lhe permitiu desfrutar melhor sua relação com ele. desfrutava melhor de seu tempo livre em compa­ nhia da mulher. O reteste imediato à finalização do tratamento não revelou modificações de importância. cm que pese não se haverem produzido mo­ dificações substanciais em sua situação. isto é. pelo ressentimento para com cia. com caráter temporário. pelas razões expostas 1. não apresentou nenhuma mudança a partir do trata­ mento. A melhoria sintomática foi muito acentuada. . Por último. uma psicoterapia prolongada.226 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica liado como resolução clinicamente parcial de tal problemática. por outro la*do. No concernente a seus estudos.

ver como e quanto o havia afetado a morte da mãe. podem resultar de interesse. seu pequeno filho e seu pai. Por isso. 2.Dos tratamentos breves _______ _________ Ao fim de uns três anos. vincular-se à psicoterapía hospitalar. alegando novamente dificuldades econômicas. em troca. abundaram expressões de agradecünento para comigo. Esse sucesso poderia. pôde supe­ rar em parte certas perturbações neuróticas crônicas e ativar um processo prospectivo que lhe permitiu desenvolver suas potencia­ lidades. assim com$ ein seus estudos e no estado de sua auto-estima (aos quais carecé de sentido referirme aqui. Meses depois de haver terminado o tratamento hospitalar. segundo afirmou. toda tentativa de avaliação imedia­ ta dos resultados da terapia hospitalar. Inclinava-me então a considerar essas dúvidas como ob­ sessivas. 1. eventualmen­ te. pois diante da indubitável influência do tratamento psicanalitico. tais sucessos. Exceto alguns progressos em suas relações com sua mu­ lher. voltamos a nos ver para uma entre­ vista de acompanhamento. pôde conseguir outro emprego. que teve de me confessar: até que ponto o alcançado se devia ao fato de se ter tratado? Com o correr do tempo. revelou-me que. de nenhum modo pude atribui-los ao tratamento hospi­ talar). a seguir só tenho de consignar alguns fatos e comentários do paciente que. sem mediar tratamento algum? Em suma: os tratamentos são realmente eficazes? (Em outros momentos de entrevista. baseada na negação da dor e da dependência do objeto). produto de sua ambivalência afetiva c que ao menos em sua relação comigo remetiam a aspectos hostis da transferência não-rcsolvidos. o paciente havia começado a psicanalisarse com uma mulher. como é de se supor. Freqüentemente assaltavam-no certas dúvidas.) Em minha opinião. para os fins dessa apresentação. Tratou-se du­ rante dois anos e abandonou o tratamento. A existência deste último tratamento invalidou. não teria alcançado. aos quais já me referi anteriormente (sua atitude depreciativa constituía além disso uma defesa ante a perda do terapeuta. a qual lhe havia permitido. graças a eles. . semanas depois de haver terminado o tra­ tamento comigo. A. tudo fazia supor que ambos os tratamen­ tos haviam resultado benéficos e que. com melhor re­ muneração do que o anterior. pelo que eu o havia ajudado. de todo modo.

A possibilidade de trabalhar com boas perspectivas prognósticas em terapias breves. As razões fundamentais se apóiam na existência de um suficicntc grau dc motivação para o tratamen­ to. metas que são patrimônio de outras terapias. Havia também claras indicações da persistência de mani­ festações neuróticas e de seus transtornos de caráter.uma aliança terapêutica c sobretudo no fato de fixar objetivos terapêu­ ticos limitados e alcançáveis.. O psicodiagnóstico trouxe elementos de grande utilida­ de para o manejo terapêutico. como a psicanálise. pode . Neste caso. em função dos objetivos. Sei que devem ser coisas profundas. Caramba. foram de especiafinte­ resse as averiguações concernentes à constelação familiar. Levou-se em conta o antecedente de partilha de leito existente ao longo de toda a infância do paciente.228 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica 3. a qual era previsível. Por isso. eu não podia espe­ cificar se seu transtorno era “alguma dificuldade”. que fúndamentará o planejamento terapêutico. 2. que permitiram prever certas peculiaridades das transferências pater­ na e materna durante a terapia. ou algo mais do que isso. Considerações finais Este caso ilustra particularmente os seguintes pontos: 1 . argu­ mentando que temia se esquecer de muitas das coisas que queria me dizer.comentou.” Recentemente apre­ sentava. Por último havia comparecido à entrevista com uma longa lista de temas escritos por ele. se tudo vai bem. segundo expressou. “Continuo com certa tensão nervosa .. a fim de se elaborar uma ampla hipótese psicodinâmica inicial. na existência dc aspectos cgóicos capazes de concretizar . o prognóstico do tratamento. naturalmente.A im portância da indagação exaustiva dos dados biográ­ ficos e do psicodiasnóstico em psicoterapia breve. A finalidade então não é a reorgani­ zação da estrutura da personalidade nem a cura da neurose. “alguma dificuldade” para conseguir orgasmo. como ele dizia. ainda com pacientes que apresentam marcantes transtornos de personalidade e que são portadores de sintomas neuróticos crônicos. tendo em conta que havia sofrido vários episódios de impotência.

o que o motivou para um novo tratamento prolongado.ainda que a abordagem se realize de um modo incompleto. Se a isso acrescentarmos que a terapia^TOTTfnbui para aumentar a consciência da enlermidade e a motivação no pacientc. geralmente inconsciente. 3. A eventual aparição. solteira. 4 . em que pese a possibilidade de que por momentos a tarefa terapêutica tenha sucumbido às defesas (intelectuafixação. . para diluir obstáculos transferenciais e também como mostra vívida dç aspectos da problemática principal do tratamento. problema que chega.. Aprofundamento no foco J.) do paciente. por não poder ser suficientemente retomado e elaborado no tratamento. A necessidade de trabalhar o problema da separação que se coloca ante o término do tratamento. etc. O caso da jovem que vomitava às segundas-feiras12.5. dando lugar em parte a um pseu­ do-insight. mas também do que não convirá trazer à consciêrfcia do paciente. sem centrar côm isso o tra­ balho na análise da relação paciente-terapeuta. ao qual acorreu depois. devemos concluir que o benefício não foi pequeno. por si só. — 6. isto é. nos estágios finais de terapia focai de material alheio aofoco. A oportunidade e o sentido da utilização de interpretações “transferenciais ” em terapias breves. a configurar um novo foco terapêutico.Dos tratamentos breves 229 ser bom ainda nesses casos. argentina. deixando de lado determinados aspectos e níveis desses conflitos a partir de uma avaliação cuidadosa não só do que convirá. 21 anos. concernente a outros sintomas ou con­ flitos do paciente e trazidos por este com a intenção. .de abordar conflitos básicos parajjbter os resultados terapêuticos esperados . com estudos secundários completos e pertencente à classe média baixa. empregada numa butique. A necessidade . do sexo feminino. de obter o prolongamento do tratamento e de con­ servar assim o terapeuta.em certas ocasiões .

Um antecedente recente e importante era a ruptura de uma relação de casal (situação-problema). mas não parecia muito preocupada em melhorar. Nos últimos tempos se produziam especialmente nas segundas-feiras pela manhã. Esse fato derivou numa exacerbação de suas náuseas e vômitos e lhe causou certo grau de depressão. por causa de seu mal-estar. Cabe destacar que esses sintomas apareciam também ao ver­ se diante de jovens que pudessem exercer certa atração sexual sobre ela. expressou. em especial de sua mãe. que consultou o Serviço acom­ panhada de sua mãe. Por causa deles. sendo sua ausência justificada.”. Demonstrava certo interesse em conhecer o porque da exis­ tência desses sintomas... não com­ parecia ao emprego. Em mais de uma ocasião vomitou na presença deles e inclusive sobre eles. Havia mantido relações sexuais com o rapaz. assumindo por sua vez uma conduta francamente regressiva. Em certas ocasiões se irritava e chegava a apresentar “crises de nervos”. Uma averiguação cuidadosa permitiu comprovar que a paciente obtinha claros ganhos secundários por meio dc seu sofri­ mento: às segundas-feiras. J.. Na realidade padecia de náuseas e vômitos desde os 12 anos. dadas suas dificuldades para estabelecer uma relação de casal. tendo sido encaminhada por um mcdico clí­ nico do hospital em razão de apresentar vômitos todas as segun­ das-feiras de manhã. revelando a respeito certa preocupação.que tivesse alguma afecção orgâni­ ca. tinha então a impressão de que isso lhe sucedia “por ser covarde. desidratou-se e foi necessário administrar-lhe soro.230 Motivos da consulta Psicoterapia breve de orientação psicanalítica Trata-se de uma bonita jovem. '‘Vomito em cima deles. . por temor a levar alguma coisa adiante com eles e sobretudo por temor ao sexo. nesses dias recebia cuidados e atenção.. os vômitos haviam sido muito abundantes.por meio de exaustivos estudos . Uns meses atrás. tendo sido descartado previamente . É como se tivesse medo deles”. idade em que teve a primeira menstruação.

unidos por um grande carinho. o rapaz havia ido numa sexta-feira a um balneário com um casal de ado­ lescentes. havia tido uma filha. dc 61 anos. . e um filho varão. quando a paciente contava 8 anos. podia estar distorcendo bastante os fatos com suas pró­ prias fantasias. o que a inquietava sobremaneira. assinalou que seu irmão havia lançado gritos desesperados pedindo auxílio. Ali morreu afogado. em parte proveniente de certas versões que‘Yecolhera. que residia em Buenos Aires c era casada. além de não ter presenciado o trágico aconteci­ mento.. Quanto à mãe. mencione-se que J. viviam os três juntos. Neste aspecto resultava difícil verificar o que havia sucedido realmente. (“Sentia que o que fazia era uma porcaria. De seu primeiro matrimônio. algo sujo”. comentou. integrada por seu pai.) Temia não poder ter filhos. estava casada em segundas núpcias com seu pai. oriunda de um país europeu. Hm certa oportunidade teve uma falsa gravidez. e um filho que morrera tragicamente na Segunda Guerra Mundial. provinha de uma família modesta. nunca havia experimenta­ do orgasmos e durante o coito se sentia envergonhada e culpada. com ausência dc menstruação por três meses e aumento de volume do abdômen e dos seios. que ela descrevia como sereno. Dos antecedentes pessoais interessa consignar aqui alguns outros. Segando o relato desta. se via favo­ recida pela atitude da mãe. no qual enviu­ vara. pois estavam entretidos em jogos sexuais. J. referentes à sua sexualidade. “carente dc afeto”. Com base nesses antecedentes podia-se compreender como a conduta regressiva da paciente. J. mas que o jovem e a rapariga que o acompanhavam nào quiseram socorrê-lo. pois dava a im­ pressão de que J. Dc seu segundo matrimônio nasceram-na Argentina J. que havia sofrido três grandes perdas e que cm conseqüência disso tornara-se ansiosa e superprotetora13. o qual também falecera com a idade de 15 anos. e por sua mãe.Dos tratamentos breves Dados biográficos de interesse 231 Com referência aos antecedentes familiares. de 55.

b) seu obsessivo temor de ser esté­ ril e sua gravidez psicogênica. numa personalidade que mostrava os traços típicos do caráter corres­ pondente (necessidade de ser o centro das atenções. chegou-se ao diagnóstico de histeria de conversão. etc. sobretudo áe fellatio. Os vômitos podiam estar vinculados a seus frustrantes desejos de engravidar se levarmos em conta: a) que sào comuns nas gestantes. à qual me remeterei em seguida.havia operado em J.232 Avaliação diagnostica Psicoterapia breve de orientação psicanalitica Através dos dados obtidos nas entrevistas e dos testes psico­ lógicos. Sem dúvida. revelou transtornos na identidade sexual e marcadas tendências homossexuais latentes. e por seus pró­ prios sonhos. fantasias.).por decisão de seu companheiro . O fato de que se manifestavam prefe­ rentemente às segundas-feiras explicar-se-ia pela intensificação de suas fantasias sexuais durante os fins de semana e/ou imediata­ mente depois. a ruptura de sua relação de casal . Hipótese psicodinâniica inicial. Além disso. . relacionar-se-iam com desejos orais reprimidos. Outros dados diagnósticos se mencionam ao fazer referência ao prognóstico do tratamento.reativameníe . Conflitiva focal As descobertas recolhidas permitiram esboçar uma formula­ ção psicodinâmica prematura. como um fator traumá­ tico. com as quais estava energicamente . por serem os dias mais propícios para os encontros com finalidades sexuais. sedução. a julgar por seus comentários acerca dessas práticas sexuais por parte de amigas suas que lhe contavam suas experiências. que seria ratificada e ampliada durante o tratamento e que incluía uma hipótese acerca da confli­ tiva focal.em desacordo. Por sua vez. nos quais aparecia ela mesma sendo objeto de cunnilineuae: os vômitos poderiam significar basicamente rejeição da incorporação do pênis. que incrementou sua sintomatologia como expressão da rea­ tivação de antigos conflitos. ten­ dência à teatralização. O psicodiagnóstico mostrou principalmente elementos da série histérica.

esquivando-se da responsabilidade e refugiando-se nâ. Por outro lado. além disso. estabeleceram-se os seguintes objetivos terapêuticos: 1. ante a frustração. 2. temerosa do que lhe pudesse su­ ceder. o antecedente de haver sido amamentada com mamadeira até os 6 anos). fantasia re­ gressiva. Conseguir uma melhoria em seus vínculos interpessoais (considerando especialmente seus desejos de formar um par). e de comum acordo com a paciente. Mantinha com a mãe um vínculo simbióti­ co. com fun- . Prognóstico Considerou-se que a paciente estava apta para obter benefí­ cios de uma psicoterapia interpretativa de tempo e objetivos limi­ tados.Dos tratamentos breves __________ ______ Era muito ostensiva uma fixação oral da libido (existia. Clarificar o conflito atual (significação da ruptura da rela­ ção de casal e dos sintomas a ela relacionados). detectaram-se fantasias homossexuais rela­ cionadas à figura materna. Obter o alívio ou a cura sintomática. Isso se revelava na presença constante de sua progenitora. Os vômitos lhe permitiam além disso faltar £o trabalho. a paciente buscou consolo e refugio em sua mãe através de uma regressão oral. A paciente negava seus víncu[os regressivos e sustentava que éra sua mãe quem se empenhava em não deixá-la só. Considerando a repercussão dos vômitos sobre seu ambien­ te. 3. Metas terapêuticas Por ordem de prioridade. resultava claro que os mesmos se associavam a uma acentuada tendência regressiva. já que apresentava um ego relativamente forte. que a acompanhava desde as primeiras entrevistas. Em síntese: a perda de seu companheiro havia exacerbado ainda mais seus desejos insatisfeitos e com isso seus vômitos.

Quanto à estratégia terapêutica. como sempre. se possível. embora cautelosa. com certa capacidade de autoobscrvação11. * Planificação do tratamento Considerou-se conveniente apelar para assinalamentos e interpretações . frigidez). Levou-se cm conta a possibilidade de apelar para a utilização seletiva do método da associação livre. De início efetuar-se-iam interpretações “de ensaio” ( 1). para realizar uma psicoterapia. A parte final do tratamento deveria incluir. do conflito. quer dizer. à razão de duas sessões semanais de 30 minutos cada uma. A duração do tratamento foi fixada em três meses. . motivada. A isso se acrescentava que nos encontrávamos ante uma pessoa jovem. A tarefa terapêutica centrar-se-ia em investigar a relação entre os sintomas mencionados e suas inibições sexuais (dificul­ dades para formar um par. medianamente inteligen­ te. pudesse reconhecer a conexão entre seus sintomas conversivos e sua vida emocional. Logo.sobretudo “extratransferenciais” .ao operar sobre a conflitiva central do tratamento.234 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica çòes em grande parte conservadas. Considerou-se que não era conveniente intentar a aborda­ gem e a interpretação de suas fantasias homossexuais latentes numa psicoterapia de tempo limitado. pensou-se que um primeiro avanço dar-se-ia ao se conseguir que J. para ver em que grau a paciente as aceitaria. a possibilidade de determinar um foco e objetivos claros foi outro elemento que permitiu formular um bom prognóstico. aprofundar-se no foco. um trabalho relacionado com as ansiedades provocadas pela se­ paração. Por último. Posteriormente talvez fosse possível aprofimdar-se mais nos psicodinamismos subjacentes aos sintomas. graças ao “momento propício” que atravessava (2). realizar-se-ia um trabalho de inter­ pretação ativa.

nas quais evidenciou uma inten­ sa resistência. todavia.chegar a confrontar a paciente com estes aspectos de seu problema edípico para alcançar os objetivos propostos. que a repulsa de sua sexualidade correspondia em parte à identificação com a jovem que. a cena da morte de seu irmão encobria o complexo edípico. recordou algo muito importante que relatou como se segue: “Eu estava no cinema com mamãe. como se o houvesse abandonado ao ocorrer a tragé­ . A respeito. com predomínio do negativo. de características sádicas. a morte de seu irmão vinha somar-se ao relato feito por esta de que haviam falecido seu primeiro marido e seu primeiro filho. Mas além disso. Pensou-se que tal­ vez não fosse necessário .. de aniquilar todo homem rival. com aquela jovem. por seus desejos ocultos de livrar-se dele. J. J. eroticamente carre­ gada. Na realidade. em es­ pecial da análise de seus sonhos. Cabia inferir. desfrutávamos'* juntas a sessão. A união sexual ficava assim muito intensanfpnte ligada. para seu amor homossexual possessivo pela mãe. razão pela qual se via obrigada a rejeitar seus impulsos sexuais. sobretudo mediante vômitos. uma significação agressiva intensa c em conseqüência muito persecu­ tória.” Compreendi que essa situação revelada por J. para a paciente. sofria de intensos sentimentos de culpa ante a perda de seu irmão: fazia-se censuras. segundo ela. O terceiro. J. isto é. em seu inconsciente. e por isso seus eventuais pares.Dos tratamentos breves ________ _________ Evolução durante o tratamento Logo nas primeiras sessões. Revclou-se decisiva influência da morte do irmào em seu so­ frimento. seu irmão. à morte de um terceiro . havia facilitado além disso a já mencionada identificação.nem prudente . quando nos vieram avisar que meu irmão havia morrido. se tomou mais receptiva e começou a mostrar certa capacidade de insight.como evidenciou com clareza outro sonho seu adquirindo. entregando-se em tfoca ajogos sexuais. seus dese­ jos homossexuais e simultaneamente seus desejos parricidas. não havia auxiliado seu irmão. Freqüentemente tinha pesadelos cujo conteúdo se vin­ culava ao acontecimento no qual aquele havia perdido a vida (eram freqüentes sonhos sobre inundações). representava por sua vez seu pai. o qual reforça­ va as fantasias onipotentes de J.

Agora tinha-a quase que só para si. por exemplo: “Ele era melhor como pessoa e como filho e podia ter dado mais satisfações que eu. vivendo inconscientemente essa situação como uma violentação. Existia uma intensa idealização da figura do irmão. Os vômitos significavam. situação vinculada ao desejo de ter um coito anal. entre outras coisas. b) Fortes desejos oral-sádicos (fantasias de fellatio ) reprimi­ dos. Os vômitos cediam quase instantaneamente ao receber a injeção (sugestão).236 Psicolcrapia breve de orientação psicanaiítica dia. com o intuito de aplacar o perseguidor. A perda de seu par.” A aparição dos vômitos coincidentes com a primeira menstruação poderia ser explicada provavelmente pela influência desta última como estímulo.. Dizia. A esta altura. nas quais ao desejo de possuir um menino como substituto do pênis se agregava um intento reparador em relação à morte de seu irmão. como se com ela quisesse expressar-lhe: “Aqui tens um varão em troca daquele que eu matei. Na realidade tinha tido uma relação muito ambivalente com ele. ao significar a possibilidade biológi­ ca de procriar. supervalorizada. mortificava-se pensando que devia ter feito algo para salválo. pôde-se precisar e interpretar-se que seus vômitos se relacionavam principalmente com: a) Fantasias inconscientes de gravidez. que só desejava ter um varãozinho c que não podia explicar por quê. no qual havia projetado seu pró­ prio sadismo. Seu filho constituiria.. dada sua rivalidade por conquistar a preferência de seus pais. . em síntese. em especial de sua progenitora. implicava ao mesmo tempo a perda de suas possibilidades de reparação. ao ver-se impedida de procriar. Essa descoberta significou um novo aprofundamento na compreensão focal. Esses aspectos de seu conflito foram mostrados à paciente. além disso. uma oferenda a sua mãe. a repulsa desses dese­ jos e o castigo por eles16. Comentava.” Durante o tratamento pôde manifestar que os desejos de ter um filho se relacionavam com um desejo reparatório inconsciente em direção a seu irmão. c) A busca da satisfação de desejos ligados a outras pulsões parciais. A paciente havia conseguido que toda vez que tivesse vômitos lhe aplicassem injeções de um tranqüilizante nas náde­ gas. por sua vez.

Por exemplo.Dos tratamentos breves 237 A esse respeito existia o antecedente de ter sofrido uma ope­ ração cirúrgica. imagino que saio com um rapaz e o conto como certo. Para vencer essas resistências foi necessário utilizar interpretações “transferenciais”. anos atrás. por causa de uma suposta apendicite. eu mesma creio em minhas mentiras. e) A necessidade de provocar repulsa em seus pretendentes. seu ressentimento por ter de me revelar os segredos de sua sexualidade. durante a operação. que não houve. não en­ contraram nenhuma alteração no apêndice e cm nenhum outro lu­ gar. enquanto experimentava seus próprios desejos sexuais como proibidos*e perigosos. A transferência hostil estava ligada a seus sentimentos de inveja fálica. da qual foi conseguindo um insight progressivo. o que re­ sultou muito útil para a compreensão de sua problemática. o que refor­ çava ainda mais seus sintomas. a fim de que pudesse reconhecer a existência de uma situação persecutória na relação terapêutica. o que foi interpretado..de gravidez (havia além disso outra prova suficiente para demonstrar a J. J. como fator gerador de resistências. um tanto intempestivamente. já que os cirurgiões.. o poder de suas fantasias: a gravidez psicogênica). relatou fantasias e sonhos durante o tratamento. Re­ conheceu então seus desejos . A evolução de seus sintomas foi muito favorável. tal como o atestavam os testes projetivos. d) A obtenção de evidentes ganhos secundários. se tornava resisten­ te e até hostil. Também nessa fase da terapia assinala­ ram-se suas tendências opostas de dependência e independência com respeito à figura materna. Às vezes. J. Começou tomando consciência da relação entre seus vômi­ tos e suas fantasias. aceitando que estas influíam na produção dos sintomas (havia dito que com freqüência vivia em parte como reais suas próprias fantasias diurnas: “Quando minto. também era importante. Tenho muita imaginação”). A intensi­ dade das náuseas e dos vômitos diminuiu com rapidez pouco . sentimentos in­ crementados pela existência de uma imagem supervalorizada de seu irmão no seio familiar. Havia assim satisfeito seu masoquismo erógeno. Dali vimos que deveria refugiar-se na fan­ tasia onipotente de gravidez ante a perda de sua relação de casal e das ilusões a ela ligadas.

isto é. Não foi necessário recorrer a nenhuma medicação. Acrescentou que lhe parecia muito estranho que em troca dc seus vômitos tivesse que sofrer nessa segundafeira de um doloroso terçol. associou a subs­ tituição das náuseas e dos vômitos por um terçol com as manifes­ tações de uma gravidez (o terçol como volume. um bebê de poucos meses. um significado anal inconsciente). o olho tinha aqui. exercen­ do um papel ativo. Ao lhe pedir associações sobre fcstc. J. o fato mais notável foi o desaparecimento das náuseas e dos vômitos histéricos. Pudemos ver que a significação in­ consciente desses pensamentos era a seguinte: o terçol se achava associado a fantasias de coito.23H Psicoterapia breve de orientaçãopsicanalitica depois de iniciado o tratamento e praticamente ao completar-se o primeiro mês. os dedos c a lapiseira eram símbolos fálicos e penetravam em um orifício representado pelo orifício orbital. respondeu-me que devia ser conseqüência de ter introduzido “os dedos sujos ou uma lapiseira no olho”.reapare­ ceu. então. No segundo mês de tratamento. o que me fez pensar que pudesse ser um efeito da suges­ tão (cura transferencial). como uma nova expressão na área do corpo de suas fanta­ sias dc gravidez. es­ sencialmente. conseqüência do anterior. agora na qualidade dc amigo. comprovando assim sua tendência a expressar suas fantasias através de transtor­ nos corporais"*). cederam. diga-se de pas­ . a própria gravidez. O terçol apare­ cia. pois se reduziu a um estado de náusea. Só em duas ocasiões ambas em segundas-feiras . o que havia acontecido durante o fim de sema­ na) visitou-a em sua casa um ex-noivo seu. Isso suce­ deu: IP) quando no dia anterior (sempre lhe perguntava. de caráter proibi­ do para a paciente (alusão do sexual como algo “sujo”. e 2. ainda que muito atenuada. sua sintomatologia habitual. diante do assombro da paciente. presumidamente substituídos pela aparição . proeminente.°) no dia seguinte a um domingo em que foi ao cinema. particular­ mente à analidade. durante o tratamento. com significado idêntico ao desses sintomas. Isto é.de um terçol17. Na sessão. por deslocamento e como sintoma substitutivo de suas náuseas e vômitos. c o terçol. a fantasia da paciente da gênese do terçol representava a união sexual. com sua esposa efilho. sobretudo anais.numa segunda-feira . Esses sintomas. através de sua referência a dedos sujos.

Convencido de que a elaboração de luto permaneceria inconcluída. tal o título em castelhano um filme que inclui cenas de muita violência . nessas circunstâncias. “Los perros de paja”. Esses. Desde a metade do segundo mês até o final do tratamento abordaram-se especialmente: 1. Pôde accitar que seus sintomas expressavam seu sentimento reafivo de repugnân­ cia por tais desejos e ao mesmo tempo a busca inconsciente de sua satisfação (injeções). mas também de modo paralelo e constante a existência de sentimentos carinhosos e de autênticos desejos reparatórios. de traços histéricos. cui­ dando de mencionar sempre o componente do amor. temerosa de sofrer retaliação. Já durante a proje­ ção do filme J. Começou a encontrar-se com jovens sem ter vômitos e evidenciando de modo . a innà representava ela mesma. Contou-me depois a forte impressão que lhe haviam produzido certas cenas do filme. fatos foram muito úteis para mostrar-lhe novamente como suas náuseas e vômitos se relacionavam com seus desejos sexuais reprimidos.Dos tratamentos breves 239 sagem com sua mãe. seguindo nisto Szpilka e Knobel quando sugerem que as intervenções em psicoterapia breve não se dirigem a mostrar “um so dos agentes de. esse fato ficava associado à morte de seu irmào pelo já visto anteriormente. o castigo pelos desejos de morte em relação ao irmão19. personalidade. estimulados. ao longo de sessões que tiveram nela e cm mim profunda repercussão emocional. procurei atenuar as ansiedades persecutórias e a regressão conseqüente. provoca sexualmente um grupo de homens. Neste. Este é um dos meios de manejar a regressão. A delicada e difícil tarefa de encarar esse problema da pa­ ciente se efetuou. Ela presenciava a cena sem poder evitá-la. A relação entre seus desejos de gravidez e a dor patológi­ ca pela morte de seu irmão. tratando de assinalar. Em seus pesadelos freqüentemente aparecia sua irmã afbgando-se.uma jovem. havia começado a sofrer de um estado de náusea. no breve tempo disponí­ vel. derivadas da mobilização afetiva ocasionada. Na realida­ de. senão os vários aspectos em jogo” (10). TTSuas dificuldades nas relações interpessoais. não só seus impulsos agressivos e sua inveja fálica para com seu irmão. que finalmente a fazem objeto de um brutal estupro por via anal.

pois seus vômitos a haviam feito sofrer durante muitos anos. Mostrei-lhe como os ganhos secundários de seus sintomas podiam interferir na sua cura (cabe mencionar aqui que a partir do segundo mês de tratamento a paciente já comparecia sozinha às sessões). Não se encarou a fundo o complexo de Édipo positivo e negativo. salvo que J.240 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica geral progressos no trato com eles. “Não sei disse-me a pacien­ te -se foi ela quem ‘me passou’ ou nào alguns traumas. com uma diminuição de suas ansiedades paranóicas. Por outro lado. seus sentimentos de culpa e seus desejos de reparação. Mostrava-se muito grata a mim. . sua iniciativa pessoal. Realizei certo trabalho interpretativo em torno da separação. A esta altura fez-se ainda mais notória a incidência do luto pela perda do irmão em sua problemática sexual: trazia sonhos cujo denominador comum era o desejo de dar à luz um varào. registrou suas únicas ausências nas duas sessões finais do trata­ mento. em certa oportunidade mencionou que sua mãe lhe havia con­ fiado que desde a trágica morte de seu irmão apresentava uma mar­ cada inibição de sua atividade sexual. Isso era conseqüência de uma confiança na relação comigo.. Depois compareceu às entrevistas de avaliação.”. o sexual como algo detestável. com critério prospectivo). racionalizadas com argumentos pouco consistentes e cujo provável significado seria o de tentar inverter os papéis e aparecer como ela abandonando o tratamento antes de se sentir abandona­ da. ao qual não se associaram maiores dificuldades (penso que isso foi possível porque desde o primeiro momento tratei de estimular em J. As interpretações foram centrandose nesse ponto (a rivalidade com seu irmão. chegou-se a obter uma certa clarificação de sua problemática e do significado de seus sintomas com relação ao luto pela morte de seu irmão. etc. Em suma. por isso foi necessário “deixar passar” material que era tentador inter­ pretar). o que co-determinava suas próprias inibições sexuais. J.) e assim foi-se aprofundando o foco. trazia com menos temor seus problemas sexuais. Existia ao que parece certo grau de identificação melancólica com sua pro­ genitora.. o que parecia mais com­ plicado ainda neste tratamento de tempo limitado (se bem que o luto patológico não ficasse atrás em extremo nesse sentido.

Ainda que tenham desaparecido reações impróprias (os vômitos). se despediu de nós sem que combinássemos novos encontros para o futuro. Havia-se elevado sua auto-estima. As náuseas e os vômitos haviam desaparecido. a melhora foi menos notável.insight . Superei muitas coi­ sas. Transcorrida a etapa avaliativa.dos motivos determinantes de seus proble­ mas atuais e que dia após dia podia manejá-los melhor. A terapia produziu além disso outras modificações favoráveis em suas relações interpes­ soais. já sabend© quais são meus problemas. que no entanto pareciam já estar a caminho de serem superadas.Dos tratamentos breves _____________ 1 Avaliação dos resultados terapêuticos Avaliação imediata Nas entrevistas de avaliação imediata. Nesse sentido. mostrando-se muito agradecida pelo que havíamos feito por ela.es com os homens. a paciente opinou acerca do tratamento: “Foi bastante positivo. No to­ cante a suas inibições. persistiam dificuldades em suas relaçõ. manifestou confiança em poder formar um novo par e gozar se­ xualmente. Claro que voltarei a consultar-me se necessário.. como no concernente a uma eventual elaboração de projetos pessoais. Outras modificações geradas pela terapia em torno de questões tais como o trabalho foram de importância secundária ou não ocorre­ ram. Via-se menos ligada à mãe e com desejos de aproveitar seu tempo livre integrando-se a grupos de ambos os sexos. os vômitos das segundas-feiras. da mesma maneira que a depressão.. O reteste também evidenciou uma evolução favorável: repa­ ração da figura masculina e tentativas de sublimação de seus de­ sejos orais. . A melhora sintomática era muito ostensiva no que se referia aos sintomas positivos de sua neurose. J. certamente podem ficar muitas coisas que eu mesma posso superar pouco a pouco.” Concordamos que havia alcançado em boa medida com­ preensão . J.

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Avaliação mediata
Cerca de três anos depois e após grandes esforços para locali­ zá-la, pois se havia mudado com seus pais, consegui encontrá-la. Desloquei-me até seu domicílio, já que J. nào tinha telefone. Recebeu-me sua mãe (J. nào se encontrava ali no momento), que se alegrou de me ver. Pcdi-lhe que dissesse a J. que tratasse de se comunicar comigo e aproveitei a ocasião, além disso, para obter sua impressão sobre o estado da jovem. Contou-me que a seu ver havia mudado notoriamente a partir do tratamento efetuado; mos­ trava-se otimista e ativa de modo estável, havia conseguido um novo emprego, mais bem remunerado, e um companheiro, e nunca mais havia apresentado episódio de vômitos. Para ela prosseguiu comentando - “o problema” de J. fora sempre o de seu irmão fale­ cido. Finalmente acrescentou que desde algumas semanas J. pen­ sava em falar comigo para que atendesse uma amiga sua. A paciente me ligou quando recebeu meu recado e pudemos marcar uma entrevista de acompanhamento. A maior parte das declarações de J. e das conclusões que se podem extrair de tal en­ trevista sào dignas de serem expostas com certo detalhe, pois con­ sidero que ilustram adequadamente a eficácia e o alcance que o procedimento terapêutico aplicado parece ter atingido. Encontrei J. sorridente e de excelente aspecto. Seus gestos me pareceram mais sóbrios, menos teatrais. Não havia recebido nenhum outro tratamento psicológico após ter terminado o efetuado comigo. Com grande satisfação, expressou: “Desapareceu uma série de problemas que eu tinha. Nào tive mais problemas de vômitos e tive uma mudança radical em tudo: estou noiva, vou muito bem com ele, mudei de trabalho, me sinto bem. O tratamento foi difí­ cil para mim. Rçcordo que, às vezes, rejeitava muito você. Até tinha bronca de você. Agora entendo que era pelas coisas que me fazia ver.” J. me falou de seu parceiro, com quem se relacionava há dois anos. “E muito centrado, tem 28 anos (J. tinha 23 na época da entrevista), é engenheiro, estamos próximos do casamento, talvez dentro de uns meses, no fim do ano... Nos completamos em ques­ tão de temperamento. Meu temperamento está mudado, estou

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mais alegre, brinco, gosto não só da companhia do meu noivo, mas também de sair em grupo. Antes tratava de ficar só, não tinha desejos de sair e nem de me arrumar.” No que se refere à atividade sexual, J. assegurou que tinha relações sexuais satisfatórias com seu parceiro e que quase sempre conseguia o orgasmo. “Antes continuou - não era feliz sexualmente, sentia-me usada, o sexo era algo asqueroso para mim... Não rejeitei meu noivo em nenhum momento. E não comentei nada de minha outra relação (alude a seu parceiro anterior). Não acho necessário.”2 0Mais adiante conti­ nuou se referindo à sua sexualidade: “Creio que tenho mudado muito minhas idéias sobre sexo... Com ele temos bastante liberda­ de sexual, conseguida pouco a pouco... Eu antes não tinha podido mostrar-me desnuda diante de um homem, com a luz acesa. Ago­ ra, pelo contrário, considero normal.” Toma-se indubitável que ao longo do tempo depois do trata­ mento, J. havia vencido em grande parte suas inibições sexuais, havendo formado um par, com o qual aparentemente se achava muito ajustada, e superado sua frigidez. Foi, isso sim, necessário que passasse certo tempo para que pudessem cumprir-se esse objetivos terapêuticos e comprovàr-se assim os frutos do trabalho desenvolvido, segundo o relato da paciente e o de sua mãe. Manifestou desejos de casar-se logo para poder ter filhos. Enquanto isso recorria a anticonceptivos orais. “Apesar de meus desejos de ter filhos, não me esqueço de tomá-los”, comentou sorrindo. J. queria sem dúvida fazer-me notar que tinha presente aquilo que havíamos explorado durante sua terapia e que além disso estava muito atenta no que se referia a tomar as precauções devidas, a partir da profunda convicção - obtida mediante o trata­ mento - que tinha a respeito da força de seus desejos inconscien­ tes. Não havia tido abortos. Quanto às relações com seus familiares, contou-mc que se sentia muito bem com seus pais, e ao mesmo tempo muito mais independente. Como havia comparecido à entrevista com sua mãe, iinportou-lhe esclarecer-me que esta havia insistido tanto cm acompanhá-la que lhe parecera absurdo negá-lo, mas que na ver­ dade sentia que isso não era necessário em nada, diferentemente do que sucedia antes, quando ela mesma requeria a companhia e os

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cuidados de sua progenitora, chamando de algum modo a atenção para isso. “A relação com minha mamãe - continuou a me contar J. mudou muito, ao menos de minha parte. Agora compro sozinha minha roupa... Antes, tenho certeza, não teria podido casar e viver longe dela. Agora tenho propostas para viver com meu futuro marido na província e não vejo inconvenientes.” A paciente atri­ buiu ao tratamento efetuado uma decisiva influência nas modifica­ ções que a relação com sua mãe apresentava21. Do mesmo modo, J. havia sido antes muito dependente em relação à irmã, com a qual agora - segundo ela - se vinculava mais, “de igual para igual”, sem ajustar-se incondicionalmente às opiniões dela, aceitando-as como tais, mas desenvolvendo pontos de vista. Havia interrompido seus estudos de modelo publicitário, devido ao fato de que os encarregados de dar-lhe trabalho tacita­ mente lhe impunham como condiçào que mantivesse relações se­ xuais com eles. Isso se repetiu em duas ou três oportunidades, razão pela qual decidiu abandonar definitivamente esse campo. Referiu-me que sempre se sentira atraída pela arte cênica, mas que no momento não pensava em estudar teatro, já que o que lhe interessava era concretizar com brevidade seus planos de contrair matrimônio e nesse sentido voltava-se com afinco para seu traba­ lho numa empresa distribuidora de peças para automóveis, onde obtinha um salário superior ao de seu emprego anterior e ainda tinha possibilidade de melhorar seus ganhos muito mais. Espontaneamente comentou que, em função de uma bron­ quite que contraíra, deixara de fumar. Pôde consegui-lo contro­ lando a ansiedade derivada de tal abstinência, fato que a seu ver cra um efeito da terapia, ainda que não pudesse precisar melhor de que maneira esta a havia ajudado nesse problema. Depois referiu-se a seus estados depressivos, que já haviam deixado de acontecer. Dc imediato aludiu à recordação de seu ir­ mão falecido: “Não penso tanto nele. Inclusive, antes desejava ter um varão ruivo como meu irmão. Agora não. Quero que se pareça com meu noivo e comigo... Quando nos mudarmos, não quero mais pendurar fotografias de familiares mortos, como meu irmão, meus tios...” Isso podia indicar certa atenuação da culpa pela morte do irmão, o que lhe permitia um maior desprendimento do objeto per­ dido, podendo dedicar-se mais a seus próprios desejos pessoais.

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Queria enviar-me uma companheira de trabalho, para que tratasse dela, o que constituía uma manifestação a mais de sua confiança em mim. Quase no final da entrevista, após haver-lhe transmitido minhas impressões ao longo da mesma, expressei-lhe minha sa­ tisfação de encontrá-la bem e com tão gratas novidades, reiteran­ do que contasse comigo para qualquer necessidade, depois do que nos despedimos, não sem que J. tivesse palavras de emocionado agradecimento para comigo. Desde esse momento não voltei a ter notícias dela. Finalmente, ao se registrarem nessa oportunidade resultados positivos em I.P.F. (insight da problemática focal), R.P.F. (resolu­ ção - clínica total da problemática focal, pof substituição das reações impróprias pelas apropriadas, em suas rèlações heterosse­ xuais) e M.S. (melhoria sintomática), o resultado final, de acordo com o sistema de avaliação proposto no capítulo 11 , considera-se muito favorável.
Considerações finais

Este caso convida à reflexão em torno de vários pontos. Sem dúvida é polêmico e penso que constitui uma mostra fiel das múl­ tiplas interrogações que se apresentam na prática dessas terapias a respeito da teoria da técnica. Tais questões devem servir de estí­ mulo para discutirmos e investigarmos propostas que resultem úteis e que conduzam a linhas de trabalho fundamentadas dinami­ camente. Também é interessante o problema que levanta com relação aos resultados terapêuticos. y 1 . O uso flexível e seletivo do método da associação livre rende seu frutos ao aplicar-se em quem conta com possibilidades reais de responder de um modo favorável (aqui pôde-se utilizá-lo com êxito, por exemplo, a propósito dos sonhos da paciente e da aparição do terçol). — /'2. Podemos observar neste caso a evolução do foco durante o tratamento, quando a compreensão dos dinamismos da conflitiva focal vai-se enriquecendo e se aclarando como conseqüência de descobertas progressivas. É possível uma maior definição do jogo

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de inter-relações entre os diversos fatores. O aprofundamento no foco revela a sobredcterminaçào dos sintomas e é facilitado pelas condições da paciente para se remeter ao material focal e obter insight desses conflitos22. 3. Se bem que aqui tenha-me aventurado de novo num traba­ lho interpretativo de certo modo profundo, com incursão em aspectos históricos infantis - já que penetrar na relação que a paciente mantinha com o irmão e no luto patológico que sobre­ vêm a essa perda, ocorrida em plena infância dela, não supõe ou­ tra coisa não me afastei da conflitiva focal. As interpretações que incluíam aspectos históricos infantis eram, repito, sempre focalizadas, possibilitando assim o aprofundamento do foco. Se tivessem estado ‘‘fora de foco”, isso teria implicado o risco de “abrir feridas” desnecessárias, provocando uma maior mobiliza­ ção na paciente, relacionada com conflitos que não poderíamos abarcar o suficiente durante o tratamento. — 7 4. No que se refere aos problemas suscitados pela presença de lutospatológicos de importância em tratamentos de curto pra­ zo, cabem aqui as considerações efetuadas em capítulos anterio­ res (ver os capítulos 10 e 12). Mas quero formular uma interroga­ ção que surge em seguida: se é conveniente, ou ainda necessário, incluir um luto dessa natureza, entre os aspectos a serem tratados com o paciente, no programa terapêutico de uma terapia de dura­ ção limitada (o qual coincide, nessa oportunidade, com o proble­ ma da atitude a ser assumida ante o histórico infantil). Neste caso particular, minha resposta é afirmativa. Incluir 0 luto era de certo modo algo inevitável, como fui compreendendo ao longo do pro­ cesso terapêutico, pois a meu ver constituía um problema de importância fundamental, que estava no próprio núcleo do sinto­ ma como conflito subjacente c que requeria abordagem, ainda que só pudesse ser efetuada de modo parcial. Cabe perguntar se o fato de não haver trabalhado desse modo teria produzido resultados similares aos obtidos quanto à remissão da sintomatologia, baseda em certo grau de insight a respeito do conflito central do trata­ mento, resultados esses que ficam corroborados no meu enten­ der- pelo acompanhamento efetuado anos depois. Uma vez convencidos de que devemos nos ocupar direta­ mente do luto. surge a necessidade de recolocar nossa modalida­

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de técnica ante esses problemas, adaptando-a ao enquadramento existente nesse tipo de terapia para evitar que elas se convertam numa psicanálise incompleta, com conseqüências previsíveis. Ao descrever este histórico expus a posição que adoto, partindo das propostas de Szpilka e Knobel (10). Esta inquietude leva não só a ajudar o paciente ao máximo, dentro das possibilidades institucionais. mas também a não preíudicá-lo com técnicas inadequadas. Até aqui refiro-me somente às necessidades e vantagens de incursionar na problemática do luto, mas desde já com a ressalva de cjue tal atitude contém os riscos próprios de uma tarefa terapêu­ tica escabrosa, que em termos ideais deveria ser tão prolongada quanto intensiva, e que em virtude da limitação temporal ficará forçosamente incompleta. A elaboração insuficiente do luto poderá acarretar o reaparecimento dos sintomas ou novas manifes­ tações do conflito (fato não comprovado nesta paciente após transcorridos cerca dc três anos do término do tratamento). Mas trata-se de um risco previsto, calculado. Para isso existem os acompanhamentos, que oferecerão oportunidade de detectar re­ caídas e de assinalar, quando a situação o requeira, a necessidade de retomo à psicoterapia. , - -Em TtPSsã~pãciente, pênso que os resultados obtidos com re­ lação à abordagem do luto enquistado não devem ser subestima­ dos. Creio que, na prática, ainda em terapias de objetivos limitados, nos problematizamos - e equivocamos - em demasia, quando, com nosso furor curandis, pretendemos conseguir uma elabora­ ção de conflitos fundamentais ou solucionar perturbações caracteropáticas que costumam levar muito mais tempo, habitualmente anos de trabalho esforçado. Nesta oportunidade poder-se-ia questionar e creio que com certa razão - a abordagem de um conflito ocasionado por um luto patológico num tratamento de três meses apenas. Colocando-nos sempre a alternativa de ter de fornecer uma terapia de tempo limi­ tado, como ocorre no contexto hospitalar, o que corresponde ao caso de que nos ocupamos (paciente de escassos recursos econô­ micos, em primeira experiência psicoterápica, que se consulta ao ser encaminhada e não por iniciativa própria, talvez necessitada de adquirir maior consciência da enfermidade e de aumentar sua motivação para considerar futuramente a opção de um tratamento

os resultados ultrapassaram a mera cura ou alívio de um. fanta­ sias pré-genitais inconscientes (em especial as de caráter oral e anal).e mais bem documentado . após três anos de finalizado o tratamento. diante de pacientes muito cooperativos e capacitados para o insight. é bom recordar. ainda que bastante firme do conflito. desde o começo. penso agora que o que talvez pudesse ter sido feito e resultasse conveniente seria fixar. Também em matéria de resultados terapêuticos das terapias breves existe um preconceito muito arraigado. que permitisse um estudo mais exaustivo . Vemos que em nossa paciente. (Lamentavelmente não se pôde contar com um novo reteste.sobre o caso. apesar de ter-se efetuado um tratamento apenas de três meses.) . sua estabilidade e os novos progressos ao longo de quase três anos de evolução. e que é de se destacar haver-se instaurado um ciclo prospectivo e uma adaptação produtiva à realidade. nos dão neste caso a medida de que isso não é exato. Naturalmente faço referên­ cia a uma profundidade que se alcança somente em aspectos par­ ciais da conflitiva.^ isso o que ocorreu com esta inteligente e flexívçl paciente (apesar de apresentar por momentos intensas manifestações resistenciais).em certas ocasiões . O acompanhamento permitiu descartar as temidas recaídas. Por último. incô­ modo e antigo sintoma. permanecendo diversos conflitos sem serem desenvolvidos. que consiste em crer que as mudanças produzidas são sempre “superficiais” e/ou transitórias. numa magnitude a princípio inusual em minha experiência em psicoterapias de tempo limitado24. A natureza da melhoria. um tempo maior para a terapia23. concretizados nos êxitos obtidos pela paciente nos anos que se seguiram ao tratamento. algo mais sobre os resultados obtidos. como se pôde apreciar ao longo deste histórico. Que essas terapias sejam indefectivelmente “superficiais” constitui por certo um preconceito. o grau possível de aprofundamento interpretativo e de “insight” alcançado concomitantemente pode . e pareceu haver-se chegado a uma resolução dinamicamente parcial. As mudanças impressionam como tendo tido um alcance que cm alguns aspectos transcende os objetivos terapêuticos propostos.ser significativo. já que. por exemplo. razão pela qual foi possível interpretar.248 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica prolongado).

2. em Papers on Psychoanalysis. French. 1. Apesar de esses resultados não serem habituais em psicoterapias breves. a propósito do tratamento de J. Amér. n? 2. ob. Acta psiq. Paidós. 1950. 1974. Biblioteca Nueva. 5 . A Study of Brief Psychotherapy. “The Phallic Phase”. “Psicoanálisis y psicoterapia por ‘insight’ dirigido”. Madrid.Dos tratamentos breves 249 A experiência de investigadores como Dewald também pare­ ce demonstrar que é possível obter resultados terapêuticos muito bons. 7. Buenos Aires. Jones.. 1971. Tavistock. tomol.. em S. como vimos nesta ocasião. citado por L. 1932. M.. Malan. 6. Referências bibliográficas . citado por J.. “Análisis fragmentario de una histeria”. p.. 1965. junho 1968. H. em Diccionario de psicoanálisis. J. Buenos Aires. 1968. Charles Thomas.. Buenos Aires.) 9. tomo ü. cit. O. Baillière. Pontalis. bem ‘prepa­ rados’ sensível e psicologicamente. Illinois.. psicol. 10. em 4. Picdimonte. Guiter. Londres. VI. Courtenay. 1948. 1963. Alexander e T.. vol. A. E. Dewald. Tavistock. Springfield. Buenos Aires. Londres. pode desenvolver-se um insight importante dos conflitos num contato terapêutico relativamente curto e que exerça um efeito terapêutico duradouro” (3). em S. Terapêutica psicoanalitica.C. Comunicación personal. A. D. 119. 8. Labor. Psicoterapia: un enfoque dinâmico. S. Szpilka. cm Coloquio Acta 1967: Psicoterapia Breve. P. Alexander. Assinala este autor que “em alguns enfermos.. Freud.. cm'F. R. “La histeria: Historiales cínicos”. “Acerca de la psicoterapia breve”. . 3. Toray. XVI11. Sexual Discord in Marriage. 1972. 1972. Comunicación personal. Granica. C. Centro Editor de América Latina. M. Londres. Dewald. (Versão castelhana: La psicoterapia breve. Small em Psicoterapias breves. Barcelona. F. B. XIV. Barce­ lona. Laplanche e J. cm P. “Indicaciones para la terapia”. Freud.. Freud. 4. M. . cap. e Knobel. podem bem produzir-se. cap. Lat.

4 .

entre outros. reafirma isso de maneira concludente. especialmente em circunstâncias que para ele reproduzam a situação triangular. É que.B. entre outras coisas. Wolberg (5). 155 s. .14. Conhecimentos teóricos e prática psicanalíticos. De­ verá dominar tanto o sentimento de exclusão que possa experi­ mentar como os componentes de ciúme. que o * Tradução de Rosa Maria Salmen Scaramuzzi.). é necessária uma rápida captação da problemática do paciente e cr conhecimento c manejo dos fenô­ menos transferenciais e contratransferenciais que abranjam as variações que no campo criam fatos tais como a conduta ativa do terapeuta ou a combinação dos diferentes recursos terapêuticos. pp. como vimos. será de grande utilidade contar com suficiente experiência de análise pessoal. cabe assinalar a necessidade de que o terapeuta exerça um controle adequado sobre elas. rivalidade. Por esse motivo. etc. o que. nas quais pode chegar a colocar-se como o excluído. Formação de terapeutas em psicoterapia breve * Introdução Está fora de qualquer dúvida que uma preparação psicanalítica prévia adquire importância decisiva na formação em P.. acontece com freqüência num tratamento breve (ver capítulo 8. No que diz respeito às emoções contratransferenciais.

considero que será melhor. cumprida previamente ou não a etapa psicanalitica. pp. para não se abandonar a uma situação que o condene a transformar o trata­ mento breve numa “psicanálise breve’\/Para isso será mister estu­ dar conscienciosamente certos princípios essenciais da P.B. A seguir me ocuparei desses aspectos. e que o treinamento deles em tais tratamentos não costuma ser pre­ cedido de uma sólida formação psicanalitica. como primeira medida. a formação do terapeuta em P. Mas sabemos que na prática a realização dos trata­ mentos breves se assenta em boa parte em terapeutas novatos. De qualquer forma.. exporei um modelo de registro clínico que acredito pode servir de guia na prática e favorecer uma sistemati­ zação operativa da tarefa. consistirá na apren­ dizagem da teoria de sua técnica e no treinamento psieoterapêutico adequadamente supervisionado.B. que este se fixe no objetivo de conhecer com clareza as características principais que distinguem uma terapêutica da outra.B. com uma boa elaboração de seus próprios con­ flitos básicos.B. pois do contrário corre o risco de atuar nocivamen­ te.B. Fiorini assinalou a influência negativa que a carência de uma . Finalmente.. mas que no máximo coincide com o desenvolvimento dela. A partir daí deduz-se que são os psicanalistas experientes que estão em melhores condições de exercer a P. já que podem contar. © que seria ideal. para em seguida descrever alguns dos requisitos ou con­ dições que me parecem importantes para ser um bom terapeuta em P. o que também já foi assinalado (capítulo 8. pois os erros mais comuns na sua prática correspondem precisamente à extrapolação da técnica psicanalítica. 155 ss. dentre as muitas vantagens em comparação com um tera­ peuta principiante.).252 Psicoterapiu breve de orientaçãopsicanalitica acompanhem. Aprendizagem teórica Ainda aceitando que na verdade seja difícil “fazer e aprender simultaneamente psicoterapia e psicanálise” (Joseph [2]) e em virtude de apresentar-se na maioria das vezes essa necessidade nas fases iniciais do caminho a ser percorrido por todo terapeuta iniciante./É claro que tal pretensão exige a existência de fundamentos teóricos definidos em P.

centros de saúde mental. . oportuni­ dades para o exercício desse método terapêutico. a meu ver. (1) exerce na formação dos terapeutas. Além disso. assim como o reconhecimento da terapia focal como técnica. e que é a que pode fornecer a orientação e o respaldo necessáriq para evitar que os jovens profissionais caiam no desânimo e na descrença. seriam então: partir de embasamentos teóricos sólidos (por exemplo e fundamentalmen­ te os fofnecidos pela psicanálise) e expor um método que apresen­ te coerência suficiente. É possível que assim seja.Formação de terapeutas em psicoterapia breve 253 identidade teórica por parte da P. Mas não é menos certo que também estimulam e oferecem por sua vez./ Treinamento psicoterapêutico As necessidades atuais de recorrer a esses procedimentos pa­ ra oferecer atenção psiquiátrica à numerosa população que recorra aos diversos estabelecimentos assistenciais (serviços psiquiátricos hospitalares. cuja aplica­ ção é factível e/ou recomendável cm não poucos casos que se apre­ sentam nos consultórios privados.B.B. e que em grande parte essa carcncia.B. rever de início. tenho experimentado quase sempre a necessidade dc incluir ini­ cialmente nos grupos um trabalho que chamaria de/“abrandamento" dos colegas. com certa facilidade. no sentido de conseguir deles uma boa disposição para a aprendizagem do tema. que convém. instituições privadas). ao longo de meu trabalho como docente em P. com a psicanálise. como se se tratasse de dois proce­ dimentos antagônicos. propósitos cuja concretização encerra uma árdua tarefa que ainda não terminou de se cristalizar.. já que sobre o mesmo abundam preconceitos de todo tipo. so­ bretudo porque se continua insistindo equivocadamente em de­ frontar a P.B.à qual também se refere acertadamente Fiorini (1) que com freqüência colocam hipóteses incon­ ciliáveis entre si e que também freqüentemente se fundamentam em esquemas referenciais diferentes^Mguns requisitos a se levar especialmente em conta no ensino da P. posto que ainda significa para muitos o debut como psicoterapeutas. são fatos que provocam exigên­ cias nos profissionais. constitua mais que tudo o produto da falta de coerência nas contribuições . entào.

Do mesmo modo deverá ajudar a detectar o ponto de urgência nas sessões e estimular a assunção de um papel ativo por parte do terapeuta. etc/Quer dizer. Capacidade para estabelecer prontamente um bom rapport com o paciente (Knobel [3]). além das que correntemente se lhe apresentam. a delimitação de um foco. em maior ou menor medida. pres­ tará especial atenção aos problemas imediatos da realidade externa do paciente e aos que poderão derivar da dissolução do vínculo terapêutico. / / Por outro lado. uma função elementar do supervisor. por carecerem de experiên­ cia de campo e partirem exclusivamente da experiência obtida no âmbito de seus consultórios particulares. as contradições técnicas em que possam incorrer._Psicoterapia breve de orientaçãopsicanalítica Supervisão clínica / Preferencialmente. mostram-se rigidamente vinculados à técnica analítica ortodoxa. Costumam apresentar problemas de adequação ao contexto institucional e reforçam.^ Algumas condições necessárias para um terapeuta em psicoterapias breves Mencionarei apenas aquelas que me parecem fundamentais (supõe-se que tanto uma boa análise pessoal como o conhecimen­ to e o treinamento em psicanálise poderão.. o estabe­ lecimento de objetivos terapêuticos e o planejamento. contribuir para a obtenção dessas condições): X 1.e ainda fomentar o emprego exagerado de interpretações transferenciais. com deficiências tais como não corrigir . para os terapeutas. Fi­ nalmente deverá propor a realização sistemática de avaliações. . a tendência à extrapolação da técnica psicanalítica. incluindo-os como tema que é necessário tratar. nos supervisionados. a supervisão deverá enfatizar a elaboração de uma história clínica minuciosa. será a de assinalar. atitudes “passivas” do terapeuta./ Todavia comprovam-sc comumente dificuldades dos superviso­ res nos tratamentos hospitalares que. deverá estar a cargo de profissionais ex­ perientes tanto em terapias prolongadas como em terapias focais.

.......... ............Sexo: ........... FICFIA CLÍNICA PARA PSICOTERAPIAS BREVES Local (serviço.... Escolaridade:..................................... Telefone:...................................................... J b) Renunciar às gratificações especiais proporcionadas 1 pela relação analista-paciente (ver capítulo 8)............... e criatividade para exa­ minar e combinar os diferentes recursos terapêuticos que domine e dos quais disponha quando as circunstâncias o requeiram............... Data de admissão:............................... Capacidade para desempenhar um papel ativo no processo terapêutico.............. Suficiente tolerância à frustração para: < / a) Conformar-se com o ganho de objetivos |erapêuticos li| mitados............. instituição ou consultório privado):... Capacidade para compreender a natureza dos problemas centrais do tratamento em breve espaço de tempo.............. X3.... Certa elaboração da conílítiva cdípica que lhe permita um manejo «das situações triangulares.... yC 4... Estado civil:...................................... No que diz respeito a seus conflitos pessoais: X 5.......................... I d) Suportar sem excessivas dificuldades a separação dos pacientes........................Formação de lerapeiitas em psicoterapia breve 255 2................ nas quais possa sentir-se en­ volvido durante o tratamento..... Nacionalidade:.... centro de saúde mental.... O cupação:.............................................................................. / c) Resignar-se a não alcançar graus profUndos de investiI gaçào dos psicodi namismos de cada paciente..................................Residência: .......... Nome e sobrenome: ....................... X 6.................... Flexibilidade livre de preconceitos...................................... Idade:.......

b) Da enfermidade.............. Interessam especialmente: a) Funções egóicas básicas (percepção.... Inclui ainda: . b) Relações objetais................................ Dados biográficos de interesse (inclui antecedentes familiares e pessoais):............... d) Tolerância à ansiedade e à frustração...25" Psicoterapia breve de orientação psicanalítica História clínica (resumo): Motivo da consulta (inclui descrição da situação-problema e dos fatores descncadeantes):............. atenção.. f) Regulação da auto-estima..... Avaliação diagnostica: Diagnóstico nosográfico-dinâmico: a) Do episódio........Avaliação das condições egóicas....................... e) Mecanismos de defesa. .....incluindo a que exerce o meio social do paciente na problemática...... memória.. c) Controle de impulsos.............. c) Da personalidade......)... etc..... ....Grupo familiar: Diagnóstico e incidência ........... pensamento...

..................................................................... Sua estrutura..Formação de terapeutas em psicoterapia breve Isso nos conduzirá a uma avaliação da potência e plasticidade do ego................ Grau de motivação para o tratamento e atitudes para o insight:......A...................... Casal... í i Foco terapêutico.............. b) Secundárias:......... Duração do tratamento: Prognóstico:.. ......... Pontos de urgência ao começar o tratamento:................................ Elementos mais importantes:............ informações psicológicas (Testes: Bender............ Hipótesepsicodinâmica inicial:........... Metas terapêuticas: a) Primordiais:............... Rorscharch........... Descrição:..................... Phillipson......... ......)....... ........... Determinação dofoco: .......... T...... etc........ ...............T.......

etc. etc.) Intervenções Psicoterapia individual verbal Uso optativo . etc.25 # ____ Psicoterapia breve de orientação psicanalítica Planificação do tratamento: Psicoterapia: a) De insight (predominantemente). dirétivo.) posição (frente a frente. Tipo de relação paciente-terapeuta: Recursos terapêuticos: Assinalamentos “Transferenciais” “ExtratransferenIntcrpretações ' ciais’ Das raízes infantis [ do conflito Perguntas Informações Insinuações Comentários Intervenções de reasseguramento Indicações Conselhos terapeuta (ativo. .do método da associação livre Outros Psicofármacos Inclusão de familiares e/ou figuras próximas Técnicas dramáticas Terapia grupai. Assistência social. ocupacional. etc. b) De reforçamento egóico (predominantemente).

funções egóicas a serem reforçadas.. Contrato: Detalhes do contrato sobre metas terapêuticas. con­ signar a utilização dos diferentes recursos terapêuticos. data do término do tratamento. Evolução durante o tratamento: Evolução do foco.. a tarefa em torno da separação ante o final do tratamento:. das entrevistas de avaliação e do reteste (se houver):..Formação de terapeutas em psicoíerapia breve 259 Sessões: duração. freqüência e periodicidade das sessões. duração do tratamen­ to. assinalar o tipo de material que deverá ser descartado. da motivação ou da resistência ao insighí. evolu­ . eventuais modificações na freqüência das ses­ sões. principais pontos de urgência.. linhas interpretativas e tipo de interpretação. duração. pos­ sibilidades do paciente de centrar-se no focal. freqüência e periodicidade: Duração total do tratamento: Estratégia terapêutica ^ Conflitos a abordar e possível seqüência de tal ‘âbordagem.

. o término:.S...F...P...) Resolução da problemática focal (R..) Consciência da enfermidade Auto-estima Modificações favoráveis cm: Vida sexual Relações de casal Outras relações interpessoais (familiares.. de amizade.....) Melhoria sintomática (M.260 Psicoterapia breve de orientação psicanalílica ção do estado do paciente...P.. mençào ao uso e aos efeitos de outros recursos terapêuticos.. etc. de traba­ lho..........F... evolução da relação terapêutica (a transferência e a contratransferência).......) Estudos Trabalho Recreação . Avaliação dos resultados terapêuticos: * 1) Avaliação imediata Impressões gerais do paciente acerca do tratamento Insight da problemática focal (l...

Formação de terapeutas em psicoterapia breve 261 Projetos para o futuro1 Reteste.. I* >.................... Resolução da problemática focal (R.................)........ í Total ea { Parcial . psicoterapia de gru­ po....... .................. Recontrato (com objetivos limitados).....P.................................... Considerações finais Separação paciente ..F.................................) D .......... ....terapeuta Ajustamento do acompanhamento... 2 ) Avaliação mediata (acompanhamento) Insight da problemática focal (I....... Objetivos Passagem a outros tratamentos: a) Com o mesmo terapeuta b) Com outro terapeuta Especificar o tipo de tratamento (psicanálise..................................... etc..................... Datas de entrevistas de avalia­ ção e do reteste..............F................ Resultados.........)........................P..........

fuga para a saúde.) Estudos Trabalho Recreação Projetos para o fiituro: . de traba­ lho.S. cura transferencial. Sem modificações Recaídas2 Falsa solução valiosa (4) Falsa solução (4). de amizade. etc.262 Psicoterapia breve de orientaçãopsicanalitica Duvidosa Nào-R.F.) Consciência da enfermidade: Auto-estima: Modificações favoráveis cm: Vida sexual Relações de casal Outras relações interpessoais (familiares.P. evitação com ou sem recaída Agravamento Mecanismos Alcance Estabilidade Melhoria Sintomática (M.

. “Problemática actual de las psicoterapias breves” em W.... Revista de Psicoanálisis........Formação de terapeutas em psicoterapia breve 263 Novas situações conflitivas:....... “Mesa redonda sobre psicoanálisis y psicoterapia”.. 1973... { Mecanismos Alcance Estabilidade ! Resultado Final3 Muito favorável Favorável Discreto Regular Nulo Desfavorável Considerações finais: Referências bibliográficas 1......... .... Nuevasperspectivas en salud mental.. Resultados:... Joseph e outros..... Fiorini....).... H......... R.. Buenos Aires.............. tomo XXVIU... Reteste.................. J..... ... Buenos Aires.. Outros tratamentos realizados:........ ... Nueva Vision.............. Instituciones y problemas........ 2.. Grimson (comp........ 1971.......... n? 1...........

D. em L. 1974. Gredos.264 Psicoterapia breve de orientaçãopsicanalítica 3. Buenos Aires. Cuardemos de la SAPP1A Kargieman. Londres. H.. Centro Editor de América Latina. Knobel.. em Psicoanàlisis y psicoterapia breve en niiîosy adolescentes. Wolberg. Tavistock. . Malan. Madri. Charles Thomas. 1968. Buenos Aires. M.) 5. 1963. A Study o f Brief Psychotherapy. L. Wolbcrg e colab. 1971.. “Psicoterapia breve en la infancia”. 4. Illinois. VI. “La técnica de la psicoterapia breve”. cap. Psicoterapia breve. Springfield. (Versão castelhana: La psicoterapia breve.

Também cabe acrescentar que a focalização do trabalho terapêutico na direção de um aspecto da problemática ou sintomatologia do paciente é característica das atuais técnicas breves.disse Freud . a busca de novas técnicas. tal medida foi. Lido parcialmente na Associação Psicanalítica Argentina.B. a abreviatura P.“se sentiu normal e se conduziu impecavelmente”. ocasião em que Freud pôde comprovar que haviam permanecido sem resol­ ver aspectos da transferência. depois dos quais o paciente . Ali descreve que deu alta ao paciente. em “Análise terminável e interminável”. mais breves. . Um acréscimo de 1923 deixa implicito que. Capítulo 2 1. Não obstante.) convencionalmente para fazer menção a este tipo de tratamento ao longo dos sucessivos capítulos. o criador da psicanálise justificará. etc. Capitulo 3 1. 22 de agosto de 1979). neste caso. com o titulo de “Psicoterapia breve de orientación psicoanalítica. mas que depois da guerra este o visitou em Viena. 3. 20 anos depois. o que exigiu mais alguns meses de tratamento. de psicoterapia (13). El problema de los basamentos teóricos” (Buenos Aires. para Freud. Utilizarei. equivocada. assim.Notas I «» Capitulo 1 Apelarei para ela e para outras similares (tratamento ou técnica breve. 2. crendo-o completamente curado.

no método terapêu­ tico breve (54). 10. são próprios da estrutura do foco terapêutico. Antes de mais nada. portanto. especialmente os que sejam importantes . sendo suas manifestações bastante antigas e/ou de instalação gradual. Esses conflitos. em especial. Meu esquema referencial é fundamentalmente freudiano. combinado com outras técnicas. 6. em seu livro Terapêutica psicoanalitica. no capítulo 8 (ver também os capítulos 9 e 14). têm a desvantagem de prestar-se a confusões. permitindo o desdobramento de alguns fenômenos transferenciais. cabe mencionar que L. Não obstante. 7. muito especialmente. ao atender o Homem dos lobos (20). à qual me refiro. Anteriormente. French e colaboradores (5) sugerem propiciar . 5.0 estudo deve completar-se com o conjunto dos aspectos concernen­ tes à contratransferência em psicoterapias breves. razão pela qual. dc aparecimento recente e/ou de começo sintomatológico agudo. 3. agosto de 1978). cabe assinalar que Malan e sua equipe de terapeutas se dedicaram. já que também pode tratar-se de um conflito que se mantenha vigente. quando se fala em conflito central ou princi­ pal. que apresentei no Primeiro Encontro Argentino de Psicologia Profunda (Buenos Aires. nem todo conflito atual terá dc ser focal e. Sem dúvida. mas não hesito em recorrer a conceitos próprios de escolas como a inglesa ou a ameri­ cana quando isso me parece necessário. atual não significa. Outras denominações às quais se recorrc comumente são conflito atual e conflito central ou principal. como logo veremos. c válido recorrer a distintos modelos tcóricos que possam ser úteis para compreender diferentes fenômenos ou pacientes. as quais. Wolberg propiciou seu emprego. dos quais deri­ vam as diversas dificuldades dos pacientes (40). Por último.ainda que só em certas oca­ siões o desenvolvimento e a análise de determinados componentes da neu­ rose de transferência. por outro lado. 8. Incluído no trabalho “El labor con los conflictos y la resistencia en psicoterapia breve”. já que con­ centraremos nele nossa atenção e nossos esforços. pelo que requerem alguns esclarecimentos. dc agora em diante. Esses autores supõem que é possível controlar a relação transferencial. o próprio Freud já havia fixadoiim limite de tempo para o tratamento psicanalítico. objeto da abordagem terapêutica. dentro de certos limites. forçosamente. deve-se entender que o mesmo o é em relação ao tratamento. Alexander. em terapias de curto prazo.266 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica 2. denominá-los-ei con­ flitos focais ou conflito focal. como consignei no capítulo 2. já que me incluo entre os que pensam que. ainda que apropriadas. A respeito da hipnose em particular. mas isso não implica necessariamente que esse conflito seja sempre o central dentro da patologia do paciente. a interpretar os problemas edípicos. 9. 4. Esse critério comparativo será utilizado quase permanentemente ao longo desta obra.

ainda que de certa maneira arriscada. 15. Essa manobra técnica parece-me interessante. onde se refere aos mecanismos de defe­ sa do ego em geral. Incluído no trabalho “El labor con los conflictos y la resistencia cn psicoterapia breve”. .Notas 267 para compreender. já que não conta com as possibilidades que o enquadramento psicanalítico oferece (considero que tal manobra poderia ser mais eficaz quando não se tenha fixado previamente uma data para o término do tratamento ou. 14. com base nas dificuldades que o terapeuta deverá enfren­ tar para manejar a relação.e é necessário que assim seja. Novey ainda se refere expressamente à continuação do processo de elaboração uma vez que se tenha concluído. o conflito central do pa­ ciente. Poder-se-ia fazer referência a esta última fase do processo com qualquer outra denominação. 13. “inclusive quando o paciente dorme”. por exemplo. para se alcançar uma mudança terapêutica . o tratamento analítico. no que concerne à elaboração psicanalítica. Freud aborda novamente o tema dos distintos tipos de resistência em “Análise terminável e interminável”. exige do terapeuta muita destreza e. mas também continuar elaborando os conflitos em novos con­ textos e situações” (42).) será necessária sua interpretação. diz. evitando derivações indese­ jáveis. agosto de 1978) sob o título de: “Insight y elaboración en psicoterapia breve”. como um meio de compreender o paciente (9) (51). Isso não implica que se deva descuidar do fenômen» da transferên­ cia. de manter simultaneamen­ te uma relação “real" com o terapeuta e uma aliança de trabalho (29) (30). no caso de tê-la fixado. “O período pós-analilico não só implica repetir e experimentar situações da vida com maior facilidade e liberdade. isto é. Apresentado no Primeiro Encontro Argentino de Psicologia Profunda (Buenos Aires. se o prazo mínimo para a finalização do mesmo seja. por exemplo. por um lado. pp. Devemos consignar aqui que. de um ano). agosto de 1978). I 11. deve-se tê-lo em conta constantemente. do paciente. c não só à repressão como resistência contra a cura (19). 12. Em última instância penso que essa atitude deveria ser a exceção à regra. com êxito. que garantam o bom andamento do tratamento. de desenvolver certos aspectos díf neurose de transferência e. que apresentei no Primeiro Encontro Argentino de Psicologia Profunda (Buenos Aires. e por conseguinte solucionar. 16.fora da sessão analítica. por outro. Pelo contrário. realmente. esta. a capacidade. 106 ss. e em determinadas circunstâncias (ver capítulo 6. se a duração prevista para ele não seja demasiado curta. também continuaria . a de processo progressivo pósterapêutico. ao menos para Novey. já que. A incidência do fator tempo na elaboração é assinalada também por Bellak e Small: “Na psicoterapia rápida não há muito tempo para o processo de elaboração” (6).

tais como a percepção. pela criação de todo um contexto de verificação e estimulação dessas funções (12). Dessa maneira.. desempenha um papel fundamental na interação com o pacien­ te) pode conseguir tais efeitos. 19. ou de que sua aprendizagem foi inadequada. Em ambos os casos. por exemplo. falamos em impedir as recaídas”. Um planejamento estratégico coerente deve prestar atenção à atitu­ de a ser assumida ante as defesas do paciente. ou vice-versa. em segui­ da. não só pelas intervenções verbais do tera­ peuta. Bellak e Small incluem a elaboração em P. a meu ver. mas também. O terapeuta que exerce uma participação ativa e nâo se limita a apelar para recursos verbais (sua expressão corporal. ocorreria uma aplicação dos núcleos de insight adquiridos durante o tratamento breve. Compreende-se que o fortalecimento das funções egóicas durante o tratamento é dado. em um dado momento. em lisonja desnecessária ou não refletem a real eficácia dos rendimentos egóicos e os sucessos do paciente. tais como alternar intervenções que tendam a estimular o autodesenvolvimento com outras que favoreçam a dependência regressiva.prosseguem podem ter o efeito de convencer o paciente de que aprendeu adequadamente um novo modo de conduta. concomitante ao reasseguramento e ampliação progressivos dos mesmos. Os autores expressam que. posterior ao mesmo. ou dar-se conta de que tem outros pro­ blemas. na realidade. a ser respeitadas ou ainda reforçadas pelo terapeuta. . além disso. Tais mecanismos poderiam estar ligados ao seguinte: ante diferen­ tes experiências de vida. podem paradoxalmente fomentar a dependência se se convertem.. Assinalam que o paciente deve “aplicar o aprendizado a situações da vida real. É necessário. são “atacadas" interpretativãmente não devem passar. Seguem comentários que corroboram a idéia de um processo “elaborativo”. uma vez que reforça a aliança terapêutica. para estimular no paciente a autonomia e a progressão. mas também. dentro dos limites da teo­ ria da aprendizagem. como expressa Fiorini. por exemplo. Devemos ativar muito especialmente as funções egóicas do paciente essenciais para o trabalho terapêutico. Essas experiências . a memória. Aquelas que. esse conceito é ligado pelos autores à problemática da falta de tempo para levar a cabo o processo de elaboração. exagerando-os. concebem-na como o reforço da apren­ dizagem de uma conduta nova e a extinção de modos neuróticos de adapta­ ção.. Nesse aspecto cabe advertir que as mesmas intervenções empregadas com uma intenção confirmatória e reasseguradora. o resultado é que a aprendizagem psicoterapêutica melhorou pela experiência de vida real” (6). etc. não incorrer em contradições.268 Psicoterapia breve de orientaçãopsicanalítica 17. ativação que adquire muita importância porque acelera e facili­ ta o caminho em direção ao insight.) antes de tudo. neste terreno.B. o que nos diz respeito é o pro­ blema de fazer permanente a aprendizagem que se produz na situação psicoterapêutica. Clinicamente. Em seguida. a atenção. a teoria da aprendizagem pode­ ria ter aplicações especiais: “(. 18. 20. não só durante o tratamento.

onde não conta ainda com uma verdadeira tradição investigatória. propunha misturar “o ouro puro da análise” com “o cobre da sugestão direta” (26). por mais que .B. Estes temas serão objeto de revisão nos capítulos que se seguem. nem sempre são devidamente aproveitadas. White. Mas é especialmente no que diz respeito às hipóteses sobre os mecanis­ mos terapêuticos de mudança operantes nas técnicas breves. 24. Aqui só diremos que Bellak e Small lhe atribuem grande valor na psicoterapia breve e de emergência: “Apresentar o ego como uma ^ntidade só dizem . Rappaport. O caso de uma jovem que se consultou por causa da angústia e das vacilações que lhe despertava uma gravidez recente ilustra accrca da relação que se estabelece automaticamente entre os sintomas e a situação que lhes dá . Fiorini chamou nossa atenção sobre esse enfoque (10) (12) (13) (14). a esquematização das funções do ego e de suas perturbações tem um valor prático porque oferece um marco de referência para o diagnós­ tico e para o tratamento” (6). além disso. em que a psico­ logia do ego talvez possa prestar um novo e valioso auxilio (12) (13).sejam mais complexas no que se refere à conceituação dos mecanis­ mos terapêuticos operantes. Nesse sentido. baseando-se sobretudo nos importantes desenvolvimentos de Hartmann (33) (34) e os mais recentes de Whitc (53).nega a inter-relação entre o ego e as outras psicodinânucas. indicação e prognóstico. 23. concebida por Freud. Referindo-se à composição de uma “psicoterapia para o povo”. Loewenstein. 22. em que. A esta altura é necessário assinalar que a moderna psicologia do ego fornece elementos sumamente úteis para a teoria e a prática das terapias breves. dos quais provêm seus principais progressos. na realidade já foi. Apesar desses inconvenientes. como para o planejamento estratégico e a condução do processo terapêutico. Ocupar-nos aqui da psicologia do ego excede os limites desta apresentação. A combinação de recursos de base psicanalítica com outros. Kris. O leitor interessado poderá recorrer às principais lbntes. Freud.convém assi­ nalar . Todas essas possibilidades ocorrem mais facilmente em institui­ ções assistenciais e serviços hospitalares. contribuir consideravelmente para o desenvolvimento e a sistematização de métodos de avaliação dos re­ sultados terapêuticos.Notas 269 21. amplamente entre os americanos. por diversos motivos. como vimos anteriormente. as obras de Hartmann. O trabalho realizado por uma equipe de profissionais abre perspectivas auspiciosas. Em nosso meio e no terreno das psicoterapias. em 1918. etc. de ori­ gem distinta. tanto com fins de diagnóstico. as perspectivas atuais são muito promissoras. vai sendo reconhecida em nossa prática assistencial. A utilidade de uma avaliação das funções cgóicas em P. Pode. Insuficientemente arraigado em nosso pais. o enfoque egóico se emprega. S. contudo.

O conceito de ponto de urgência foi muito empregado pela escola inglesa. foi exposta com clareza por Malan (40). Os primeiros pontos de urgência detectados por ocasião dos conta­ tos iniciais com o paciente correspondem aos motivos latentes da consulta.). Outra paciente notou que seus antigos vômitos se exacerbaram desde que ocorreu a ruptura de seu namoro (caso de J. no capítulo 6 (pp.. Um homem buscou consulta ao experimentar um incremento de sua an­ gústia. A técnica focal. a paciente de Kreud (23). múltiplas conexões. O caso de (capítulo 13) ilustra o aprofundamento no foco à medida que evolui o trata­ mento. 30. 33. sem chegar a vincular. Cabe advertir que em certas ocasiões o paciente também se refere a problemas “extrafocais” com a intenção de elidir o problema central.. mobilizam mecanismos defensivos. o que se pode comprovar nas supervi­ sões coletivas. Num sentido estrito. conscientemente. sempre o são. ao adotar aqui essa denominação. caracterológieos. etc.) examina-se o trabalho de focalização cm relação aos tipos de atenção empregados pelo terapeuta para tal fim. com os conflitos "extrafocais”. o temor. cabe esclarecer que se utiliza num sentido que não envolve um trahalho interpretativo que remete necessariamente às fantasias precoces infantis descritas por M. com as seqüências na interação paciente terapeuta que possibilitam a evolução do foco. A conflitiva focal tem. 31. Por último. de morrer duran­ te o parto. e optem por diferentes linhas interpretativas. 95 ss. 26. nesse ponto. os quais. etc. o que pode ser assinalado pelo terapeuta como uma resistência. tal estado com o nascimento de seu primeiro filho. através de sua paresia. Na realidade. que aparece nos dias anteriores a este. capitulo 13). 27. (49). Por isso. 25. freqüentemente inconsciente. além disso. portanto. acontecido poucas semanas antes e que resultou ser o fator desencadeante principal (caso de A. à maneira de Isabel dc R.270 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica origem (ver capitulo 7). . Klein. não existindo nunca como fenômeno isolado e independente do contexto. Basta pensar numa terapia focal centrada nas ansiedades relativas à gravidez e na sucessão de distintos pontos de urgência “intrafocais” que apa­ recem paralelamente à evolução daquela. capítulo 13). mas só no que diz respeito à situaçâo-problema correspondente. 29. o temor ao filho como ser desconhecido. cm psicanálise. o foco compreende basicamente todos os aspectos da existência do paciente (histórico-gencticos. Creio que tão mais fácil e freqüente do que este c o fato de que. expressasse também que assim não podia continuar. que se reaviva com a percepção dos movimen­ tos fetais. nem dar ‘"um passo a mais.. Um exemplo de trabalho sobre o loco na sessão psicoterapêutica poderá ser encontrado no capitulo 7. 32. Talvez a paciente. evidentes ou não. princi­ palmente maníacos. na reali­ dade. Não insistirei. tais como: os que provêm do temor da perda do filho por aborto espontâneo nos primeiros meses. os analistas não coincidam diante de um*mesmo caso. 28.

na psicoterapia assistimos a uma resolução parcial ou incompleta. Joseph considera que. em função de se haverem modificado algumas das forças internas que levam a mudanças energéticas e catéticas. porém. Diversas passagens de sua obra . Por*ocasião de uma mesa redonda sobre psicanálise e psicoterapia. modificações e equilíbrios” (1). na psicoterapia dinâmica. ainda que nâo se provoque uma reestruturação profunda. sua força relativa pode diminuir (28). por exemplo. Mas também é necessário advertir que. ao não se obter uma resolução substancial dos conflitos derivados. dando lugar a recaídas. (capítulo 13) permite além disso apreciar. Segundo Oremland. 35. que ele atribui a uma modificação do confli­ to. O caso de A. por conseguinte. 40. reconhecer como próprio o que se interpreta acerca do conteúdo. Ver capítulo 10. sua aparição não deve surpreender. a partir de material clínico.nem sequer um tratamento psieanalítico com êxito . e das mudanças nos vínculos energéticos ou cargas. em termos de “elaborar brevemente um dado aspecto da psicopatologia do paciente” (40) (o grifo é meu). Quer dizer. ainda que não haja por que acreditar que devam fatalmente produzir-se. já que o conflito básico não se resolve. sobretudo pela reexpericncia c pela compreensão genética ("l). pôde-se advertir qjue quase todos os presentes admitiram que através de uma psicoterapia de orientação psicanalítica conseguem-se modificações nos conflitos e certas mudanças dinâmicas benéficas. os conflitos derivados sofrem.B. em certo momento e por ocasião de fatores traumáticos tais conflitos podem ser reativados. que Mallan faz referência às metas terapêuti­ cas em P. além dos demais conceitos assinalados. 37. Ver capitulo 11. 39. baseadas no esquema de Pichon-Rivière (44). não sabe­ mos o que sucede em termos das conexões ou do fortalecimento da função integradora ou sintética. Área 1 da mente. nada . Existem diversas impressões favoráveis sobre as vicissitudes que. a hipótese psicodinâmica inicial. ainda que se obtenham modificações. Pelas respostas.garante que tais recaidas possam ser evitadas. Já vimos. além disso. Para este autor. 38. por outro meio que não seja a psicanálise?” (52). e acrescenta que só é possível consegui-la mediantp a psicanálise. 2 do corpo e 3 do mundo extemo. Gillman por sua vez sustenta que. ainda que não se alcance nessas tera­ pias uma resolução dos conflitos.Notas 271 34. 36. Naturalmente. Define a verdadeira resolução do conflito como “uma compreensão metapsicológica plena e elaboração das forças interatuahtes”. carecemos de explicações metapsicológicas suficientes a respeito. “os conflitos se resolvem no sentido de que se tomam inati­ vos. Wallerstein formulou a seguinte questão: “E possível resolver substancialmen­ te os conflitos derivados ou qualquer outro conflito.

o paciente já não e o mesmo. até a estrutura da personalidade (55). com as­ sinalamentos e interpretações que estejam dirigidas às mesmas. mas não decisi­ vo. o terapeuta deve incursionar nas perturbações do caráter.do trabalho terapêutico. uma depressão não será igual. nem terá o mesmo significado num caráter obsessivo e num cará­ ter histérico. do mesmo modo que as indicações da P. tem sido assinalado precisamente por Wolberg: na P. Talvez um elemento terapêutico de particular interesse em P.B. Poder-se-á encontrar maior informação sobre o tema na obra de Maria L. constitua o emprego de interpretações do intrapsíquico. Portanto. respectiva­ mente). muito elementar. Garcia Arzeno (10). Assim. “reajustes profundos na estrutura intrapsíquica”. Como resul­ tado dessa ação e da mobilização terapêutica conseqüente. Emprega também outros qualificativos similares. S. em certa medida e a partir do sintoma ou da situaçãoproblema. habitualmente incompletas e insuficientes.B. como a que a equipe da Tavistock Clinic levou a cabo para estudara relação existente entre a aplicação de interpretações “transfe­ renciais”.272 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica mostram claramente que essa “elaboração” que o autor menciona também abrange certa análise das resistências.talvez menos miste­ riosos . sem a solidez das obtidas no tratamento psicanalitico. ou seja. 42. 43.B. e os resultados terapêuticos obtidos (40). as que se re­ ferem à relação com objetos internos.. Em outro lugar. também algo nele muda profundamente depois do tratamento. Um deles. e que só circunstancialmente adquirem uma grande magnitude. Capitulo 4 1. 44. Na realidade. de Ocampo e Maria E. 41.B. as modificações na estrutura da personalidade pode­ riam ser explicadas em parte também por certos fatos . de modo ine­ vitável. é retornado no capí­ tulo 6. não só os sintomas se atenuam ou o conflito focal se resolve parcialmente. O tema do planejamento terapêutico é desenvolvido em outro lugar. que não deixam margem a dúvidas acerca da posição do autor. as chama de “recursos c elementos sadios”. Con­ tudo. (ver capítulos 5 e 12. 2. Sob essa denominação o autor se refere aqui a uma terapia psicanalitica breve. tais como “trans­ formação profunda da personalidade”. por sua provável influência nas modificações da estrutura de personalidade. definitivamente. o que deveria ser motivo de uma inves­ tigação mais profunda. O tema da relação paciente-terapeuta em P. a necessidade de abordar os sintomas interpretativamente conduz nossa atenção.. às vezes são gera­ das algumas mudanças nos dinamismos intrapsiquicos. 3. .

isto é. sobretudo se se trata dc um tratamento dc curto prazo. Ocampo e Garcia Arzeno descrevem uma série de indicadores. que logo examinaremos detidamente (pp. 100 ss. Tive a satisfação de comprovar que Garcia Arzcno (6) compartilha dessa opinião.). "Focalidadc". A este respeito refere-se Malan. 95 ss. 6. que o terapeuta não tenha de esforçar-se demasiado em vencer dificuldades para ocupar-se do paciente.9 e 14. Trabalho lido no Simpósio sobre Psicoterapia Breve organizado pelo CEMEP (20. cio tipo de tera­ pia.. o que merece uma especial revisão (ver pp. em cujo caso se exigirá desde o início uma boa disposição de sua parte.4. 5. Concomitantemente. sempre segundo esse autor. Sobre os aspectos da contratranslérência em P. que se investigue a capacidade do paciente para enfrentar o luto. 7. 21 e 22 de outubro de 1977) sob o titulo “Una regia basica de íúncionamento en psicoterapia breve”. para avaliar os resultados do tratamento. podem ser consul­ tados os capítulos 8. 10. comparando-se os dados obtidos através da aplica­ ção pós-terapêutica com os do psicodiagnóstico inicial (ver capítulo 11). O perigo é de que aconteça o contrário. 6. capacidade essa. são várias as atitudes a assumir (mudanças de objetivos. que define a atual terapêutica breve. no processo psicodiagnóstico. e que.B. quer dizer. A técnica focal supõe certas vicissitudes da atenção do terapeuta. 8. Esta observação de Haley implica curiosamente o estabelecimento de certo paralelismo interessante entre a técnica psicanalítica de cunho freu­ diano e a técnica “ativa”. 4. particularmente para a recomendação ou contraindicaçâo de uma terapia breve (11). Os testes psicológicos também sào utilizados em P. 9. que pode ser avaliada por meio de testes projetivos (8). . Capitulo 6 • 1. determinam um tipo de comunicação nitidamente diferenciável do psicanalítico. Nesse caso. que tenham de se eleger metas terapêuticas de acordo com o tempo limitado de que se dis­ põe para efetuar um tratamento. não sendo possível estabelecer regras fixas a respeito. como tem assinalado anteriormente (ver capítulo 3. 3. 5. quando propõe. ). segundo a denominação empregada por Malan (8). 46 s.B. 2.). caso se opte por um tratamento breve. etc.). somadas às modifi­ cações no emprego da associação livre. Um ponto de importância decisiva na evolução e manejo da relação terapêutica constitui a técnica interpretativa particular exigida pela índole dessas terapias. será conveniente que exista uma contratransferência positiva. Por último pode ser necessário revisar os objetivos tm pleno trata­ mento. pp.

vinculada ao tema que estamos tratando. Na realidade. tais como a duração total do tratamento e o número de sessões semanais. pouco seria o que poderíamos íazer pelo paciente dentro do enquadramento que corresponde a essas terapias (especialmente se existe uma grande limita­ ção temporal). por sua vez. como hipótese do terapeuta. é a relação existente entre associa­ ções livres (cadeias associativas) e foco terapêutico. sc outros motivos o tornarem aconsclhávcj. negados. ante a persistência de uma dificuldade para encará-la a fundo. Recordemos que a estrutura focal corres­ ponde. o melhor será que o paciente siga se ajus­ tando. dissociados. embora no exercício da terapia breve não tenhamos de nos aprofundar mais na explora­ ção de tais ligações. em troca.. 45 s. pp. . ou seja.e considera­ mos para fins práticos . que não operam. além disso.“extrafocal”. fazendo com que o tema seja deixado de lado ou apenas mencionado. Não é o mesmo num tratamento de objetivos limitados com. por mais desconsideração que pareça. outros fatores. o emprego da “regra fundamental” poderá. Nesta última situação. a eles sem que provoquemos sua mobili­ zação. as ligações associativas de seus componentes como parte do material que chamamos . como disse anteriormente (ver capítulo 3. Uma questão interessante e polêmica que pode surgir. cm todo caso. 9. Gabe perguntar a razão pela qual os autores não se tenham estendido sobre esta questão.). por exemplo. por sua conta e como possa.274 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica 7. 8. àqueles que colocam uma necessidade de resolu­ ção mais ou menos imediata. fato por demais sugestivo. já que se pretendêssemos intervir ein todos. e. Na prática teremos de considerar. pelo que de nenhum modo seus limites podem conside­ rar-se nítidos e nem sequer precisáveis num sentido estrito. 10. senão como um artifício técnico. são múltiplas e complexas. uma a duas sessões semanais e dois ou três meses de duração. mas lambém é verdade que alé esse momento podem ter estado reprimidos. o problema de saber quais são os limites dofoco. é bom reconhecê-lo. Se a consideram algo óbvio. apenas a um conjunto de idéias que este tem presente (ainda que para sua organização tenha de basear-se em cadeias associativas do paciente). Ocorre-me que esse qualificativo continua pesando no ânimo dos investigadores. etc. É certo que tais conflitos preexistem e que a livre associação não faz mais do que colocá-los em evidência. talvez acompanha­ da da sensação de estar “atacando’* precisamente a regra básica da técnica psicanalitica? Porque se trata nada menos daquilo que o criador da psicanáli­ se também denominou “regra de ouro”. não se poderá pensar que existe em certa medida uma evitação do tema. scr mais levado cm conta. e outro que conste de duas a três sessões por semana e se estenda durante um ou mais anos. com nossa concentração seletiva só daremos prioridade a determinados problemas. ao contar com um enquadramento temporal menos limitado.

como por exemplo a fim de obter algum material pertinente e informati­ vo” (2). (“Associação livre”. 13. havia proposto já centrar a tarefa nos sintomas. ao fazer referência a uma “terapia setorial". o emprego de associações livres. em troca da qual será necessário. res­ tringida. Na realidade. Quando se usa. Gillman faz men­ ção.. conforme o que já foi desenvolvido.Notas 275 11. p. Encontrei algumas referências bibliográficas acerca da aplicação. de acor­ do com o mencionado em segundo lugar. ima­ gem de um sonho. Na prática da terapia dinâmica breve proponho umífaplicação ocasional e reduzida na maioria dos casos . na auto-análise de seus sonhos. Ferenczi. Na prática poderemos encontrar pessoas de grande capacidade para associar e transmitir suas associações. constitui. cíomo sabemos. Fiorini também considera factível e benéfica a utiliza­ ção de associações livres em psicoterapias.) emprego saudável da associação livre” (24).à forma como foi expressa em primeiro lugar (assim a utilizou Freud. 12. de asso­ ciações surgidas em tomo do aparecimento de sintomas (caso dc J. Deutsch. de forma espontânea” (32). de limitar o aproveitamento da associação livre aos “casos nos quais possa surgir como resposta a um determinado estimulo do terapeu­ ta. a regra básica da psicanálise. o emprego do método da associação livre em técnica psicanalítica se efetua “a partir de um elemento dado (palavra. mas também outras que tenham um tal grau de inibição que só obteremos um bloqueio como resposta. Bellak e Small falam. em 1949.. em relação à P. ainda que a continuidade da atenção flutuante seja muito maior no tratamento psicanalítico.) Por último. o assinalamento ou a interpreta­ ção transferencial)” (15). . adotar no campo da psicoterapia breve uma regra básica pró­ pria. e diante das quais carecerá de sentido pretender tirar algum partido da aplicação do método. já empregava o recurso de pedir aq paciente que trouxesse fantasias acerca de certos temas selecionados (“fantasias forçadas”) (6). Na realidade. tampouco nele é possível mantê-la.). havendo exposto uma possível nas páginas anteriores...) certos recursos técnicos próprios da psicanálise (o silêncio atento do terapeuta. 14. estimulando a produção asso­ ciativa sobre eles através das interpretações (4)... ainda que não entre demasiada­ mente em detalhes a respeito.. Em certa parte de sua obra. e em outra menciona a necessidade do “emprego discriminado” em psicoterapias de “(. No capitulo 9 podem ser encontrados exemplos do uso de associa­ ções na terapia breve a partir de material onírico. do procedimento da associação livre nos tratamentos breves: em suas tentativas de abreviar a psicanálise. Por outro lado. 15. propõe: “(.B. e no capítulo 13. F. 37). em seu método ativo. Por sua parte. entre os procedimentos básicos da terapia breve. seus antecedentes devem rastrear-se nas expe­ riências deste com pacientes da época pré-analítica). (Os grifos são meus. a um “(. uma representação qualquer).) com­ binar flexivelmente os dois estilos dc associação livre e dirigida” (8). número.

ainda quando se tratar de uma abordagem incompleta de conflito. Recorro a esse tipo de intervenção só quan­ do percebo que é possivel aprofundar e promover no paciente um maior insight a respeito de seu vínculo com objetos internos. um ponto pouco discutido. Se menciono essas características entre aspas é porque na realidade as interpretações nomeadas em segundo lugar também são transferenciais no sentido mais amplo do termo. Guiter pretere cha­ mar a estas últimas de “interpretações não relacionadas com o analista” [35]. As vezes. 17. (ver capitulo 13). O trata­ mento de A. que às vezes se observam em alguns pacientes que foram submetidos a tratamento breve (ver também capítulo 3. Mas não recomendo recorrer sistematicamente a seu uso. Portanto. p. quer dizer. Creio que cm certa medida tais interpretações cabem na técnica breve c poderiam ter incidência na produção de modificações dinâmicas sig­ nificativas de personalidade. Ante pacientes com boa capacidade de insight. produz-se durante o tratamento algum fato trau­ mático inesperado. tal procedimento traz implícitos os sabidos riscos de mobilização emocional e indução regressiva. e por “extratransferenciais” as que concernem aos aspectos inconscientes da relação do paciente com as demais pessoas (na técnica psicanalitica. às vezes é possivel. repito uma vez mais. rápido timinge sufi­ ciente tolerância à dor provocada pela revelação do inconsciente. ilustra eloqüentemente a aplica­ ção dessas interpretações. Utilizarei aqui essas denominações principalmente com a finalidade de abreviar. com a qual se pretenda realizar uma focalização forçada do trabalho terapêutico. mas com qualquer outra pessoa. p. . pois as transferências se desenvolvem não só com a figura do terapeuta. devendo em conseqüência entender-se por “transferenciais” as interpretações que fazem referência a aspectos inconscientes da relação com o terapeuta. é o papel das interpretações dirigidas ao intrapsíquico.276 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica como sabemos. 16. trabalhar com apreciável profundidade (ver o caso de J. mas de todo modo interes­ sante. 19. 56). 20. mesmo numa terapia breve. a quem se lhe interpretou sua submissão ao objeto supercgóico constituído pela figura paterna (pai interno). contudo. certamente não cabe assumir uma rígida conduta diretiva. pois. de modo absolutamente constante. no capítulo 13). Sem dúvida. tal abordagem deve afigurar-se francamente benéfica para o paciente. devemos consi­ derá-la como uma regra ideal ([32]. um paciente com boa capacidade de autoobservação. Em tais casos. o tomar o paciente consciente de aspectos acerca de sua relação com objetos internos. 40). constituindo ou não parte do passado remoto infantil do paciente. esse insight deve ser pertinente à tarefa de focalização e/ou estar vinculado a obstáculos resistenciais e. Neste contexto entenderemos por interpretações “profundas” as que fazem referência a elementos intensamente reprimidos. alguma situação que perturba o paciente c que se acha “fora do foco” e que a terapia deve examinar. 18.

de alguns tratamentos de curto prazo na relação transferencial (ver capítulo 3. 27 s. Citei antes uma exceção a este requisito: a centralização. razão pela qual certas resistências de transferência se desenvolveriam menos (28). no qual. as manifestações resistenciais costumam ser. dado o tipo de relação terapêutica existente. intensamente reprimidas. de menor magnitude que no tratamen­ to psicanalitico. como no exemplo citado. ainda tendo presente que isto ocorreu em Londres. em um dos casos (o biólogo). já haviam sido efetuadas para o paciente várias interpretações relativas a seus desejos d^ manter uma relação homossexual passiva com o terapeuta. onde existe urna maior tolerância à homossexualidade.).B. costumam produzir-se diversas respostas negativas no paciente. por se referirem a tendências. (Os grifos sào meus. Nesse sentido. com freqüência. não deixam de me chamar fortemente a atenção algu­ mas interpretações “'transferenciais” formuladas por terapeutas da equipe que Malan integrou na experiência clínica que ilustra seu livro. pois o enquadramento dela não permitirá trabalhá-las suficientemente para melhorar as condições tera­ pêuticas.Notas 277 pretações transferenciais extra-analiticas [45]). ao emprego de interpretações transferenciais (1). por seu caráter transferencial. 29). . p. é quando os resultados aparente­ mente bons que se alcançam se fundam em curas transferenciais. o que produz surpresa. sobretudo de caráter hostil. sempre respeitan­ do seu timing. e essas “mudanças” não provêm de um insight genuino. o analista pode e deve dedi­ car muitos esforços à interpretação daquelas. preconiza­ da por Alexander e French. De qualquer maneira. como é óbvio. É sabido que interpretações deste calibre. e se recorre.. freqüentemente. como dissemos (ver capítulo 3. fala em inter­ 21.) 23. Quando já a priori do tratamento ou no decorrer do mesmo estas se apresentam muito marcadas. também cabe rcpcti-lo. Por exemplo. e. Nesses casos de pacien­ tes que no fundo têm grandes resistências. as perspectivas prognosticas se ensombrcccm numa terapia de curto prazo. costuma gerar-se menor montante de hostilidade trans­ ferencial no paciente. que devem contar com uma transferência positiva real e mais ou menos estável e não só “superficialmente” positiva. (É claro que nas histórias clínicas que integram a obra de Malan se registram justamente fortes reações resistenciais. exigem no mínimo um certo periodo durante o qual exista a consolidação de uma relação transferencial positiva sublimada com o terapeuta e o avanço do paciente na compreensão profunda lhe permitam aceitá-las. O paciente se sente forçado a “mudar”. trans­ correndo a oitava sessão do tratamento. pela qual se permite o desenvolvi­ mento de certos aspectos da neurose de transferência (aqueles inerentes ao conflito central de terapia). Na P. Permanece-me a dúvida se em poucas ses­ sões. 22. cuja revelação ao paciente resulta extremamente angustiante. já no terreno da terapêutica breve analítica. que me impressio­ nam como prematuras (34). se cumpriram realmente esses requisitos ele­ mentares.) enquanto Weiss. Do contrário. pp.

278 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica 24. 32. exige o emprego de interpretações “transfe­ renciais”. e que pessoalmente ignoro se o estilo tem alguma relação com o aqui proposto. afirmando que não contri­ buem para fomentar a dependência. Rado: “Ao falar com o cônjuge de um paciente sei bem que vai me pintar um quadro parcial. mostrase ao paciente o amor que também existe em relação ao objeto (38). quando intervêm no tratamento (irmãos do paciente. Nas segundas in­ cluem-se os aspectos positivos. Percebo que essa iniciativa guarda em parte relação com o que coloca Racker quando se refere às interpretações que ele chama de parciais e dc integrais. como tal. 24). Recordemos que Fiorini. mas para resolvê-la melhor (34). da mesma forma que o erotismo transferencial. Ver também o capítulo 3 (p. 29. que talvez pudesse par­ ticipar em certa medida das características que menciono. Seu marido se mostrava resistente à psicoterapia. O risco de cair cm acring out ou as manifestações concretas dc tal conduta também configuram um difícil e muito perturbador obstáculo resistencial (dadas suas conseqüências para o paciente e cm particular para o futu­ ro do tratamento). 26. Assim por exemplo.. Ver o caso de J. Nas primeiras “(. que. 25. (capítulo 13). Incluir-se-iam. os terapeu­ tas costumam adotar uma atitude radical ao explorar c interpretar prematura e energicamente conflitos primários do paciente (problemas “edipicos”) em muitos dos casos apresentados. em seu modelo teórico de foco. outros membros do grupo familiar. 30. pelo contrário. Na experiência descrita por Malan (34). ainda que caiba esclarecer que estas não são reveladas nas exemplificações incluídas na obra do autor. considera “os aspectos histórico-genéticos individuais c grupais reativados” dentro do problema atual do paciente (8).) os aspectos positivos do analisado não são adequadamente considerados" (frustra-se ao paciente “mais do que seria indicado para a manutenção da transferência positiva”). . etc. avós. Que Malan tenha realizado e recomende o uso energélico das inter­ pretações transferenciais nos tratamentos breves. Disse S. Opino que o nâo aproveitar este recurso é violar uma responsabilidade médica elemen­ tar” (39). 31. pelo que não foi possível efetuar um tratamento de casal. 27. Malan afirma que não houve provas de que os pacientes houvessem sofrido algum dano nem tido necessidade de prolon­ gar o tratamento. mas me inteiro de muitas coisas sobre meu paciente que posso utilizar com proveito em meu tratamento. 28..). encon­ traria explicação no estilo interpretativo empregado. 33. eventualmente. junto à agressão.

5. Podia por sua vez condensar a figura do aborteiro . A paciente acreditava que um aborto poderia‘libcrá-la da situação persecutória e ignorava que o mais provável era que contribuísse para acen­ tuá-la. posteriores ao nascimento de sua única filha. eram uma evidencia inequivoca de sua disposição maternal. [6]. Mencionarei aqui somente alguns deles. p. que ameaça com morte ou aborto parece completar-se aqui com uma imagem da màe descontrolada e armada com uma faca. 1f 8. suas exclamações “tiraram ele de mim” depois do aborto. Em uma sessão anterior tive a oportunidade de mostrar-lhe que fatos como sua criação de cachorros. (É comum a representa­ ção da gravidez em sonhos através de pequenos auimais. objetos continentes. em razão de a mãe do cachorro estar enferma. e sua negativa em abortar diante da imposição de sua mãe. Faz-se necessário destacar que sua cunhada havia sofrido vários abortos espontâneos. ameaçasse atacá-la. 2. já que esta última poderia induzir estados regressivos muito acentuados ou gerar outras respos­ tas contraproducentes no paciente (ver capítulo 10. segundo contou a filha. por quem experimentava muita rejeição. quem. 9. havia relatado um sonho recente. cui­ dou de várias crias de cachorro e sobretudo alimentou-os com mamadeira “como bebês”. é discutida na medicina a existência de apendicite crônica como entidade nosológica. 7. Como se sabe. em parte desejada. Convem esclarecer que boa parte das interferências até aqui propos­ tas foram consideradas apenas para uma melhor compreensão psicopatológica. pois esse tipo dc terapia não pretende prioritariamente alcançar uma gran­ de profundidade interpretativa com base cm tais hipóteses.) 8. etc. quando criança. Recorda que. o sur­ gimento dessa imagem poderia estar vinculado à operação de apendicite de sua progenitora. ela foi objeto dc trabalho te­ rapêutico em sessões posteriores. reforçando um circulo vicioso patológico. ponto 2). O tratamento a que se refere esta sessão se realizou em 1974. lamentando e protestando o ocorrido. com o bisturi faca . crianças. há indícios de que sua màe sofrera aquela intervenção cirúrgica como uma indução ou provocação. Num nivel mais profundo. no qual tinha um filho que era na realidade um filhote de cachorro. Lamentavelmente. Na verdade. Quanto à sua hostilidade para com o filho. sentiu que lhe “arran­ cavam o filho do ventre”). quando já se achava grávida. 4. A fantasia de um grupo familiar com grande carga de agressão. 3. do aborto (durante a operação. por serem muito eloqüentes. não foi possível efetuar um psicodiagnóstico nessa oportunidade. 6. segundo sua comparação.Notas 279 Capitulo 7 1. Existem numerosos indicios a respeito. fantasiada como se fora esta. AJém do mais.

O surgimento de hipóteses acerca dc profundas situações persecutórias não deve culminar necessariamente. sentindo-se uma mãe oni­ potente. O surgimento dessas emoções no terapeuta é parte fundamental da contratransferência e de nenhuma maneira implica necessariamente que nele exista uma situação patológica. foi-se aprofundando progressivamente o trata­ mento. ainda que detectadas (aparecem em PI 7.) depois de tudo. as dificul­ dades a que me refiro neste capítulo persistem no momento atual sem maio­ res modificações. uma grande mobili­ zação emocional com eventuais reações que pudessem ser perturbadoras e difíceis de controlar. no fato de fazer o tratamento às escondidas do marido). na interpretação imediata ou não das mesmas.. “o Deus criador na situação terapêutica”. 2. a ponto de atentar contra a gravidez (aborto). como os concernentes ao con­ flito edípico (as fantasias incestuosas. assim. Diz Searles que o analista chega a sentir por momentos que é o único terapeuta no mundo que pode curar esse paciente. considerou que a relação analítica é uma relação simbiótica c realizou importantes contribuições para o tema (4). Se bem que desta vez. Em nosso meio. fantasias transferenciais eróti­ cas que não foram interpretadas. Recorde-se também que foi aproximadamente ao término do tercei­ ro mês dc gravidez que sua mãe precisou ser submetida à intervenção cirúr­ gica. o ponto de urgência dessa sessão compreende o temor de ser abortada expulsa . pleno de necessidades” (15). além do mais. Este capítulo tem como base um trabalho que apresentei no Primeiro Congresso Panamericano de Medicina Psicossomática. realizado em Buenos Aires. Mas disto se depreende a importância de sua . 12. atentando sobretudo para o estado de gravidez da paciente e evitando. Podem-se notar aqui. esse sentimento não é outra coisa senão o que sente a mãe com respeito à sua divina indispensabilidade para com seu infante. 11.por mim. sob o título “Dificuldades dei terapeuta para la práctica de la psicoterapia breve”. J. Bleger. em 1972. Capitulo 8 1. entre outros. Assinala também “(. A propósito. Considero que. preferiu-se não abordar certos níveis. Transferencial mente. na tarefa interpretativa.280 Psicoíerapia breve de orientação psicanalitica esgrimindo a cureta (como representante da imago materna filicida) com sua própria figura. insisto.. 3. considero que tais elementos devem ser instrumentados com muito cuidado numa psicoterapia breve. por exemplo). 10. o que fica claramente eviden­ ciado sobretudo no início (Allcgro [1]). 4. apesar do tempo transcorrido.

Malan é uma exceção. não limitado ao que assinala Freud em suas obras com rela­ ção ao masoquismo (5). É de supor como e quanto essas circunstâncias podem complicar uma psicoterapia.) do paciente”( 1). Seria um exemplo claro o caso do terapeuta que carece de descendência e que vê em seu paciente um filho. Provavelmente a cor negra representava além disso o luto diante do luto ocasionado pela separação. 5. que por sua vez reativava o da perda de sua mãe..Notas 281 análise pessoal. Propõe que se interprete a transferência desde o começo e com freqüência (12). o que revela que não pode renunciar aos desejos terapêuticos próprios de sua formação psicanalítica. O perfeccionismo terapêutico {furor curandis) pode constituir um sério inconveniente. 6. Disse Alexander: “Não se deve esquecer que as sessões diárias exer­ cem uma influência sedutora sobre a tendência regressiva (. pois mantém uma posição oposta acerca deste problema decisivo. 4. que o paciente significa muito para ele. Também acontece freqüentemente que o terapeífta divirja a respeito da melhoria produzida nos problemas atuais do paciente. Searles diz. em que devemos nos conformar com objetivos limitados.. e até fazê-la fracassar. não havia possibilidade de se efetuar outro tratamento que não fosse o de tempo limitado. Utilizo a denominação reação terapêutica negativa num sentido amplo. mas. especialmente se é breve. que dificultaria a individualização do pa­ ciente no processo terapêutico. 2. uma grande disposição para estabelecer vínculos de características regressivas e simbióticas. que durante a ava­ liação mostrou-se francamente hostil. p. se comprova que não vem acompanhada do ganho de mudanças profundas na personalidade.) * 8. Refiro-me ao caso de A. referindo-se à fase de resolução da simbiose terapêutica: “Alguns terapeutas negam que na realidade a terapia vai bem. Isso se manifesta de uma maneira maiá acentuada quando o terapeuta possui uma orientação predominantemente kleiniana. 7. (O grifo é meu. Capítulo 9 1. além disso. acontecida quando ainda era menino (1). (ver capímlo 13. ou seja. 195). Tratava-se de um paciente com marca­ dos componentes obsessivos e um núcleo melancólico. O psicodiagnóstico inicial havia revelado. com relações de objeto muito ambivalentes. e a relaçào com ele poderia tender a adotar uma modalidade simbiótica tal. sobretudo quando se trata de uma terapia breve. negam quão profundamente querem essas gratifica­ . 3. pois seus próprios conflitos poderiam ligá-lo em demasia ao paciente como objeto gratificante. tratando-se de uma psicoterapia hospitalar.

Cabe acrescentar além disso que apesar de fenômenos como as curas transferenciais constituírem uma falsa solução do conflito. a separação consecutiva ao tér­ mino da terapia através de um desprendimento gradual. 6. 3. ao trabalho interpretativo em tomo da terminação. uma evolução favorável no pacien­ te. Em alguns casos cabe pensar se o terapeuta.282 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica ções que obtèm ou obtiveram. segundo Alexander e French existem algumas bastante duradouras e até permanentes. sobretudo se se dispõe de relativamente pouco tempo de tratamento. mas com a agravante de condenar o paciente a exteriorizar a posteriori o conflito (que obviamente . Essa conduta pode facilitar. operando mais por sugestão e como um superego severo e exi­ gente. especialmente se forem recentes e/ou patológicos. 8. 5. sempre que exista. e quão profunda c a sensação de perda que tra­ rão consigo as mudanças” (7). no paciente. p. tal como as mencionadas no capítulo 6. pp. com o que pode provocar . Concordo com Fiorini quando por sua vez assinala que em psicotera­ pia breve “poder-se-ia questionar a validade de uma linha interpretativa foca­ lizada nas vivências transferenciais diante do luto determinado pela alta” (4).a supressão sintomática na área do mundo externo. Um risco particularmente temivel dentro da perspectiva da reaparição de manifestações sintomatológicas constitui o fato dc que as mesmas tenham lugar em nível somático.. Malan (6) diz que um terço da duração da terapia deve ser destinado. Em certas ocasiões. As técnicas dramáticas podem constituir um recurso útil para conse­ guir a mobilização do paciente e combater a intelectualização. Outra possibilidade seria dada poruni eventual emprego do método da associação livre (ver capí­ tulo 6. pelo que esses autores não deixaram dc valorizar seus efeitos terapêuticos (1) (2) (3). em todos os casos. poderia fomentar saídas maníacas pseudo-independentes. em seu entusiasmo. cqndicionado pelo espaçamento dos encontros. 117 s. não funciona às vezes no tratamento breve efetuando uma “proibição” do sintoma. nossas expectativas deverão continuar centradas na obtenção do insight.em seu afa por conseguir “mudanças” . como é o caso do paciente a quem pertencem os sonhos que figuram neste capitulo. 93). 4. Obstinado em alcançar o autodesenvolvímento do pacien­ te. 2. por sua vez. Capítulo 10 1. Esse perigo pode ser maior se o terapeuta tem tendências maníacas inconscientes (6). De qualquer maneira. pode ser conveniente ir reduzindo progressivamente o número de sessões semanais. 7. A situação costuma complicar-se ainda mais quando se deve efetuar uma terapia de tempo limitado cm pacientes que já vêm suportando lutos sig­ nificativos.

sugiro que se consulte a obra de Malan (4). já que por razões de espaço nào posso estender-me mais a respeito. através de um novo sinto­ ma e com os perigos que isso acarreta. ainda que fosse vencida. certa resistência da repressão. Espero que a descrição dos conceitos incluídos neste item haja alcan­ çado suficiente clareza expositiva. por exemplo. 2 do corpo e 3 do mundo externo. 9. White distinguiu a influência reciproca existente entre auto-estima c experiências de eficácia (7). Seu livro (4) contém um excelente estudo.permanece ativo) no terreno corporal. O agravamento apresenta-se habitualmente com a piora da sintoma­ tologia concomitante. ao menos de imediato. o que além do mais equivale a supor que só conseguiu mudar a área de expressão do mencionado conflito. modificações que poderão apresentar-se ou não tempos depois. 8. uma mudança favorável e esperada. 4. Ainda que não possamos então admitir como real g resolução que não seja acompanhada de uma conscientização da problemática correspon­ dente. Para uma informação mais detalhada. isto é. Recentemente. Área 1 da mente. Em matéria de avaliação dos resultados terapêuticos em psicoterapia breve é obrigatório citar Malan. Sempre será conveniente alertar o paciente sobre a possibilidade de reincidência dos sintomas e recomendar-lhe que o consulte se isto acontecer. por exemplo. cabe esclarecer que o inverso é possível. W olf (8) (a quem agradeço os valiosos ensinamentos que sobre este tema mc conferiu há alguns anos). Refiro-me aqui principalmente à passagem para um tratamento psicanalítico. existindo às vezes uma desproporção entre o insight que parece haver-se obtido e as modificações comprováveis. 2. É que. L. R. | 3. minucioso e dotado de sólidos fundamentos psicodinâmicos. do superego. 5. Ta[procedimento é produto de uma elaboração pessoal que incorpo­ ra elementos de um modelo tbrnecido pela lic. . 6. à necessidade de desenvolvimento de pro­ cessos elaborativos pós-tcrapêuticos que demandarão mais tempo para dar seus frutos.). de acordo com o esquema de Pichon-Rivière (5). Capitulo 11 1. assim como algumas idéias de Malan (4). etc. Essas situa­ ções obedecem à existência de outros determinantes da problemática não elucidados durante o tratamento. ou por último a que tal desenvolvimento poderia ver-se restringi­ do ou exaurido sem produzir nenhum efeito favorável. podem persistir outras formas de resistência que obstaculizam todo progresso (resistências de ganho secundário da enfermidade. que se tenha consegui­ do certo insight daquela e que sem dúvida não derive. 7.

Capitulo 12 1. A P. Fcnichcl sustenta: “(. Foi isso o que sucedeu com uma série de casos. Este trabalho foi apresentado no Primeiro Encontro de Psicologia Profunda (Buenos Aires..clinicamen­ te total ou parcial . . que como continuação do tra­ tamento breve. a população está cada vez mais informada da existência da P. compreensí­ veis dinamicamente. 1 1 . uma vez acrescentada sua motivação para o insight. interessan­ do-se por ela. podem aquiescer ao tratamento analítico. enfrentando situações criticas.B. Paradoxalmente.0 sinal © indica resultado positivo.284 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica mas acrescentando que.B. Mas quero advertir aqui sobre a possibilidade de ser utilizada pelo paciente como resistência ao tratamento analítico.e sendo esta a indicação mais adequada ein ambas as ocasiões .S.. Desse modo. Geralmente a possibilidade de recidiva da sintomatologia é maior nessas terapias do que naquelas em que o insight não predorrfina. Em lugar de rechaçá-las e condená-las a que se ajustem como possam às dificuldades atuais para que retornem somente quando estejam em condições de efetuar uma análise. 2. 3..da problemática central da terapia que não seja baseada no insight e em que as mudanças não sejam.F. É o caso de pessoas que. o interesse do paciente pela terapia breve pode simplesmente encobrir as resis­ tências à análise e estar a serviço delas. sua con­ fiança na psicoterapia e tendo conseguido adquirir consciência da enfermi­ dade. talvez mais interessada porque a denominação popular do pro­ cedimento faz alusão a uma curta duração do tratamento. não estão nesse momento em condições de enfrentar um processo de análise. reaparecendo. em principio empenhados em realizar uma terapia de curto prazo. em conseqüência. com resultado negativo em I.. de acordo com o dito anteriormente.P. mediante o tratamento prévio de esclarecimentos dos motivos particula­ res que originavam seu rechaço pelo tratamento analítico . que a título de exemplo passarei a relatar. tem combatido com eficácia as resistências. Tambcm é o caso de pacientes com resistência á análise. uma resolução .F. e em M.) as dificuldades agudas da vida consti­ tuem o primeiro e principal campo para a prescrição da psicoterapia breve” (3). cabe oferecer-lhes assistência psiquiátrica. posto que não admitiremos como real. 12.. Trata-se de pacientes que. estará mais bem preparado para en­ frentá-los e que terão provavelmente menor intensidade. Atualmente.. agosto de 1978 ). A combinação impossível é a de resultados positivos em R. modificar sua atitude e aceitar fazê-lo.P. 10. Há pessoas que somente em momentos de crise se decidem a recorrerá consulta (1). pude­ ram. consideraremos propícia a ocasião para que tenham acesso à psicoterapia.

que retomasse nesse momen­ to à situação de dependência analítica. pôde ini­ ciá-lo pouco depois. Por sua vez.. ao nào apresentar outras dificuldades. e ao mesmo tempo de um grande autoconhecimento. aptidão e training para o insighi. O obstáculo itsistencial pôde ser vencido por meio de assinalamentos e inter­ pretações durante as entrevistas clínicas. e havia-se separado de seus maridos antes de completarem 12 meses de casamento. O conflito que a paciente trazia para o tratamento a impedia de formar um par terapêutico com perspectivas de durar: esse era o motivo inconsciente de sua insistência na limitação temporal da terapia. Depois de estudar cuidadosamente o caso. Uma jovem de 21 anos. exce­ to as já enunciadas. que provavelmente nào haveria de se estender durante muito tempo e que. o qual lhe criava grandes temores e por outro lado parecia-me o mais indicado. procurou meu consul­ tório solicitando uma lerapia de tempo limitado.) Um paciente. ele nào havia ligado esse fato ao seu pedido de realizar exclusivamente uma terapia de breve duração. que pude logo elaborar e controlar. foi-me enviada expressamente por seu interesse em efetuar um tratamento de breve duração. por diversos motivqS. poderia superar sem demasiado esfor­ ço o problema atual com uma terapia interpretativa de objetivos limitados. Ao tomar consciência de que rejeitava a análise porque temia ter a mesma sorte do irmão.. com quem mantinha uma relação muito ambivalente e ficar convencido de que necessitava de um tratamento analitico. Aconteceu que os pares que havia conseguido for­ mar não conseguiam se manter mais de. analisada dos 12 aos 18 anos (quando lhe foi dada alta) por um prestigioso colega que havia-se radicado no exterior há um ano. resultados sumamente satisfatórios). vinculado ao meio psicanalitico. Chamava a aten­ ção a insistência com que desde o começo propunha-mc que a tratasse duran­ te um ano. teria que empreender com outro terapeuta. o que era racionalizado por meio de diversos argu­ mentos. havia se psicotizado durante tratamento psicanalitico. e a paciente aceitou finalmente submeter-sc a um tratamento analitico. Na realidade. de aspecto agradável. A averiguação de seus ante­ cedentes revelou que tinha um irmão esquizofrênico. O motivo da consulta eram suas dificuldades para constituir um par estável. (Próxiríla de cumprir o primeiro ano de análise.Notas 285 Uma jovem. . dada a ausência de seu analista. possuidora de um ego forte. Sua mãe havia se casado duas vezes. segundo o pacien­ te. um ano. não havendo razões válidas para limitar a duração da psicoterapia. do ponto de vista evolutivo. Pensei que a jovem. 4. teve uma reação de “fuga à saúde”. a julgar por outros indícios. não achei necessário que voltasse à análise (o que parecia ter lançado. que. no máximo. Tampouco pare­ ceu-me oportuno. a paciente se sentia sufi­ cientemente motivada para isso. consultou-me por haver sofrido uma reação fóbica ante um exame que devia fazer em sua faculdade. obtido com a experiência analítica.

Em todo caso. 3. tenho medo de ter um ataque de raiva e dizer-lhe tudo. já há quase três anos deste fato (entrevista de acompanhamento) conti­ . solicitou ajuda tera­ pêutica. 5. 8. A licenciada Flora M. necessitando melhorar sua situação econômica.. A esse respeito. Os fatos me dariam pouco depois razão: A. do mesmo modo.. 9. 7..286 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica Capitub 13 1. A. acabo matando-o. dc Frymer teve a seu cargo os psicodiagnósticos correspondentes. um novo emprego semanas depois de terminada sua terapia.. por iniciati­ va pessoal. 11. conseguiu. O psicodiagnóstico reforçava essas pressuposições.'’ 6. O sentimento de culpabilidade se exteriorizava no psicodiagnóstico através da sensação de estar “sujo". 10. 4. denotava contar com um ego observador. freqüentemente recordadas pelo paciente: “Como você é mau. pensou-se que tais dificuldades poderiam também relacionar-se com o ocor­ rido com sua mãe. vários sonhos e referências trazidos pelo paciente nesta etapa ilustram acerca da situação. inoculadora de culpa. a partir precisamente do qual o pa­ ciente. que poderia levá-lo a resgatar c desenvolver potencialidades egóicas. mostrou-se angustiado nas entrevistas pelos sentimentos que lhe inspirava seu pai: “Se solto cm cima dele tudo o que tenho para censurá-lo. via-se per­ turbado pelo temor de se expor a uma nova frustração. Seu pai tinha ido conhecer o bebê várias semanas depois de seu nas­ cimento (o que motivou fortes reprovações de A. Finalmente. através de repetidas frases. a seu progenitor)... 165 e 168). no qual. Até antes de casar-se imaginava que seria impotente e pensava que seu pênis era extremamente pequeno. você me mata desse jeito. como a que havia sig­ nificado a perda de sua mãe. No psicodiagnóstico apresentavam-se fantasias de adultério de sua mulher. Seus relatos de abundante material onírico quando se aproxima­ va o final do tratamento encerravam. Esse fato havia sido vivido pelo paciento como uma expressão de desaprovação de sua paternidade por parte daquele.” A isso se somava a conduta de seu progenitor. como a seguinte... uma intenção de seduzir-me a fim de que o retivesse. por temor ao surgimen­ to de certas fantasias. capaz de chegar a sc conscientizar de “uma falsa ligação". ao trazer-me um material que ele supu­ nha haveria de satisfazer-me e interessar-me muito. que foram atribuídas a esta situação. especialmente de caráter homossexual. Não obstante. pelo que. o nascimento do bebê pode ser visto ao mesmo tempo como um fato mobilizador e estimulante. ao ligar-se estreitamento a alguém. 2. os quais figuram no capítulo 9 (pp. ao colocar em evidência dificuldades para vincular-sc com pessoas.

Resultou naquele momento um dos casos mais ilustrati­ vos e polêmicos de minha experiência hospitalar c talvez o que registrou os melhores resultados terapêuticos.Notas 2S7 nuava trabalhando. a perda de seu companheiro reativava a perda daquele. Por outro lado. É interessante recordar aqui um dos sentidos que E. 16. 17. 12. Mas devido a seu caráter incestuoso. Além disso. reme­ tiam a seu complexo de castração (no qual não se aprofundou demasiado durante a terapia). Para ela mesma. freqüentemente transformando-o num menino" (7). sem ter lido grandes problemas em suas relações inter­ pessoais. existiam ao que parece fantasias de coitos fra­ ternos (e mais profundamente patemos). Nesse sentido. que expres­ sara um duplo jogo de sentimentos da paciente: não só se tratava de prazer que sentia por estar junto com sua mãe como também provavelmente do gozo sádico por haver se livrado definitivamente da um rival de toda a sua vida (6). Demonstraria logo uma grande facilidade para trazer material focal e adequado para a exploração profunda. 15. habitualmente engolindo-o e remetendo-o dentro do corpo. não cheguei a elucidar e interpretar os conflitos corres­ pondentes aos aspectos libidinosos da relação com seu irmão. Jones atribui à inveja do pênis. c com melhor retribuição econômica. A interpretação ativa desses conteúdos não foi seguida de uma reposta confirmatória imediata dela. Recomendamos à mãe de J. pode traduzir-se “no desejo de adquirir um pênis. como os de gravidez. Optei por denominar o caso desse modo. Fosse ou não esse padecimento substituição do anterior. isto se‘Yelacionava com fanta­ sias de introjeção ambivalente do objeto perdido (irmão). subja­ cente aos vômitos. 13. e devido também a um intenso desejo de recuperar o obje­ to perdido (pênis incestuoso). De acordo com o psicodiagnóstico. seguindo uma moda não demasiadamente difundida. e como autocastigo. mas esta colocou muitos obstáculos à sua realização. que efetuasse uma psicoterapia. começasse a se vestir com uma ostentação masculina. e se achava ligado igualmente com uma tentativa reparatória ma­ níaca diante da perda. compareceu a vá­ rias sessões. 14. Tanto os desejos de fellatio da paciente. dando assim lugar ao sintoma. houve de todo modo mobilização de um sintoma crônico. terminava expulsando-o. com os quais intentava satisfazer tal desejo. destacando assim seu principal sintoma. . o qual é em geral um indicio favorável no curso de um tratamento. especialmente de seu pênis. Assim vestida. Pode considerar-se esta palavra Como palavra-sintoma. querendo ela aparecer ante sua mãe como se fora seu irmão através de uma identificação com ele. o que nos sugere uma conexão direta entre os desejos às fellatio e a gravidez de J. nas quais a boca substituía por deslocamento a vagina. Resultou justamente digno de nota que J.

o que havia agido como estímulo. por exemplo. 19. na aplicação de terapias de curto prazo. afogando-se no mar. Isso me pareceu uma racionalização de um problema não totalmen­ te resolvido. Pensei se isso não significaria. pelo que se lhe fixou uma duração de três meses apenas. Existe uma certa analogia entre a abordagem do foco terapêutico e o que praticava Freud com o sintoma em seus primeiros tratamentos (Isabel de R. A tudo isso contudo se somou o fato de se considerar o caso de J. Inclusive acreditei notar. que evitava contar-me algo que pudesse nos colocar em desacordo. Uma interessante condensação se deu num pesadelo em que via sua irmã. também ligava inconscientemente o terçol com desejos escatofílicos e seu caráter doloroso com o castigo diante de tais desejos.288 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica Além disso. tinha saído a passeio com um casal de noivos. 20. pela existência de lutos patológicos de grande envergadura. J. era capaz de evidenciar pro­ gressos e não necessariamente que o esforço terapêutico fosse infrutífero (9). grávida. Por último. além do mais. já que nela estava muito acentuado o par voyeurismo-exibicionismo (seguia estudos de modelo publicitário). fizeram rejeitar a alternativa de um recontrato. especialmente o complexo de Édipo que nessa época naturalmente ainda não havia descoberto). J. 18. a experiência que significou assistir a essa paciente contribuiu para que se prestasse atenção ao problema. Eu lambem não havia refletido até esse momento a res­ peito da necessidade de se levar em conta a situação especial que se coloca. isso não se fez basicamente porque no princípio se ignorava que existisse uma vinculaçâo tão direta entre os sofrimentos atuais da paciente e o luto. 21. contar-me tudo o que havia obtido de positi­ vo da terapia. como podem ser os desencadeados por motivo de perda de seres queridos. novamente. que o próprio criador da psicanálise se encarregou de nos trazer (a sexualidade infantil. Cabe acrescentar que no dia anterior (domingo). em seu extenso relato. mas também pretendia ocultar-me conflitos não-resolvidos com seus sentimentos de gratidão. a qual pode-se considerar um antecedente técnico da terapia focal). que não só queria. o que não foi interpretado. os transtornos e prejuízos que lhe acarretou esse novo padecimento eram em troca muito menores que os que lhe ocasio­ naram seus vômitos. nessa observação da paciente. como um dos de patologia menos severa dentre os tratados. 22. dado por sua relação de dependência infantil com a mãe. Fc- . 23. Justamente. Ao que parecia. e demais históricos incluidos em "Estudos sobre a histeria” [5]. a qual constituiu uma descoberta registrada em pleno processo terapêutico. os resultados favoráveis obtidos no momento da avaliação. A diferença reside em que atualmente contamos com a vantagem de possuir novos conhecimentos que ampliam nossa compreensão profunda. Na verdade. associados às limitações temporais próprias da expe­ riência clínica realizada. Isso sugeria também que J. Isto não surpreendeu mais. sem dúvida.

já em 1900. dando a impressão de que o tempo combinado para a terapia havia sido suficiente para o sucesso daqueles. se recordamos que Freud. Quer as recaídas se traduzam indistintamente na reaparição dos sin­ tomas quer na aparição de novas manifestações sintomatológicas. Em caso de se tratar dc uma psicoterapia em que predomina o reforçamento egóico. N.. . chegou a interpretar as fantasias de fellatio que subjaziam à tosse nervosa da paciente (4).P. que foi o que durou essa análise. pelo contrário. 24. 1 I . e R. do T.P.lizmentc não houve conseqüências negativas a lamentar. tanto para a avaliação imediata como mediata.F. De acordo com as siglas utilizadas no capítulo 11 (pp.Ver tabela que consta na pág.1. 202 ss. tinha pelo visto um rápido timing. excluem-se dessa lista I. que a fez responder satisfa­ toriamente a uma terapia intensiva de curta duração. Capítulo 14 1. Sabemos que cada paciente necessita de seu próprio tempo. 203. 2. os benefícios foram apreciáveis. 3.F. Por sua vez tais interpretações não devem causar maior surpresa. no tratamento de Dora e num período de três meses apenas. com considerável capacidade de insight.). .

-O ^SSb nesses métodos G 34217 . Incluindo pontos que são objetos de polêmicas tradicionais. que reconhece a psicanálise como fonte. as indicações do X ' ). Nesta obra o autor procura estruturar uma modalidade técnica deste tipo de terapia. a interpretação. mas se diferencia da sua técnica clássica. particularmente as chamadas breves. a avaliação dos resultados terapêuticos. como a transferência. Desenvolve intenitra mais de quinze . as resistências.As psicoterapias de orientação analítica. o autor aborda outros pontos pouco discutidos anteriormente. O livro traz também temas de importância prá­ tica indubitável: as entrevistas preliminares. o insight a ela­ boração etc. mas contribuindo também com suas idéias pessoais. adquiriram fundamental importância ante a demanda maciça de assistência psicológica. como o trabalho com os conflitos.

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