PSICOTERAPIA BREVE DE ORIENTAÇÃO PSICANALÍTICA

Eduardo Alberto Braier

PSICOTERAPIA BREVE DE ORIENTAÇÃO PSICANALÍTICA .

Tradução IPEPLAN

Martins Fontes
São Paulo 2008

Esta obra foi publicada originalmente em espanhol com o titulo PSICOTER APIA BREVE DE ORIENTACIÓN PS/CO ANALÍTICA por Ediciones Nueva Visiõn, Buenos Aires, rm I9&4. Copyright © Ediciones Nueva Vision SAIC, Buenos Aifes. 1984 Copyright © 1986. Livraria Martins Fontes Editora Ltda.. São Paulo, paia a presente edição I* edição 1986 4* edição -TO Coordenação da tradução Mana Risoleta de Oliveira Marcondes Revisão da tradução Maria Esteia Heider Cavalheiro Revisões gráficas Eloisa da Silva Aragão Ivete Batista diu Santos IHnarte Zorzanelh da Silva Produção gráfica Geraldo Alves Pagirmçáo/Fotolitos Studio 3 Desenvolvimento Editorial Dados Internacionais de Catalogação na Puhlicaçao (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP. Brasil) lírnicr, Eduardo Alberto Psiwterapia breve de orientação psican.il itica / Eduardo Alberto Britiet : iraduçAn IPEPLAN. - S3o Paulo : Martins Fontes. 2008. (Psicologia c pedagogia) Titulo original: Psicoterapia breve de orienlación psicoanalítica. Bibliografia. ISBN *J7K-85-336-2407'8 I INicnntilisc 2. Psicoterapia breve I. Titulo. II. Série. 07 UHM ____________________________________ CDD-618.8917 Indices para catálogo sistemático: I Psicanálise : Medicina 618.8917

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Introdução 3 Referências bibliográficas 7 2. Resenha histórico-bibliográfica 9 A psicoterapia breve na A rgentina 12 Referências bibliográficas 13 3.Indice | Prefácio à edição brasileira XV por Maurício Knobel Prefácio 1 1. Fundamentos teóricos 15 Introdução 15 Pelos caminhos da psicanálise 16 A psicoterapia individual breve de orientação psicanalitica Os fins terapêuticos 18 A temporalidade 21 A técnica 21 Resultados e mecanismos terapêuticos 49 Referências bibliográficas 56 .

Entrevistas preliminares 63 Introdução 63 0 estabelecimento da relação terapêutica 63 A história clínica 65 Avaliação diagnostica e prognostica 65 Avaliação diagnostica 65 » Papel do psicodiagnóstico 69 Avaliação prognostica 70 A devolução diagnóstico-prognóstica 71 Contrato sobre as metas terapêuticas e a duração do tratamento 73 Explicitação do método de trabalho. Fixação das demais normas contratuais 76 Referências bibliográficas 77 5. Planejamento do tratamento 79 Referências bibliográficas 81 6. O tratamento 83 Introdução 83 A relação paciente-terapeuta no tratamento breve 84 1Ima regra básica defuncionamento em psicoterapia breve de orientação psicanalitica 89 O emprego constante do método da associação livre ("regrafundamental ”da psicanálise) nos tratamentos breves 90 Adoção de uma regra básica defuncionamento para psicoterapias breves 93 t lso operativo do método da associação livre nos tratamentos breves 93 ( 'onformação definitiva de uma regra de funi ionamen to para psicoterapias breves 95 I í/ i-/ <v.vo» sobn' afocalização e a atenção do terapeuta 95 t i*-nu7j/í>\ psiioterapêuticos verbais 99 <ieneralidades 99 .TÉCNICA 4.

prática e investigação em psicoterapias breves 149 Introdução 149 A dificuldade de adaptação ao enquadramento da psicoterapia breve 151 'Psicoterapiabreve 'versus'psicanálise” 151 Na intimidade da relação terapeuta-paciente 152 Dificuldades ante o término do tratamento psicoterapêutico breve 159 Dificuldades na avaliação dos resultados obtidos em psicoterapia breve 159 Desprestígio da psicoterapia breve enquanto indicação terapêutica 160 Outras dificuldades do terapeuta ante as terapias breves Conclusões 162 Referências bibliográficas 163 9.As interpretações na psicoterapia breve de orientação psicanalitica 100 Outras intervenções verbais 117 Sobre as sessões 118 Outros recursos terapêuticos 119 O emprego depsicofármacos 120 A participação defamiliares e/ou pessoas próximas do paciente no tratamento 121 Referências bibliográficas 125 7. Dificuldades do terapeuta para a formação . Uma sessão de psicoterapia breve 129 A sessão 136 * Comentários sobre a sessão 141 Referências bibliográficas 148 8. A respeito do término do tratamento em psicoterapia breve 165 Introdução 165 Reações causadas no paciente pela separação 166 Reações causadas no terapeuta pela separação 170 Aspectos técnicos 171 .

Dos tratamentos breves 213 Exemplificação do método psicoterapêutico de objetivos limitados 213 Dados biográficos de interesse (resumo) 214 Avaliação diagnostica 215 A hipótese psicodinámica inicial 216 As metas terapêuticas 219 Prognóstico 220 Planificação do tratamento 220 Evolução durante o tratamento 223 Avaliação dos resultados terapêuticos 225 Considerações finais 228 O caso da jovem que vomitava às segundas-feiras. A avaliação dos resultados terapêuticos em psicoterapia breve 185 Introdução 185 Um método de avaliação 186 A avaliação imediata 187 Alternativas do paciente ao terminar o tratamento 194 A avaliação mediata 196 Problemas na avaliação dos resultados terapêuticos 200 Referências bibliográficas 204 12. Aprofundamento nofoco 229 Motivos da consulta 230 Dados biográficos de interesse 231 Avaliação diagnostica 232 . Indicações da psicoterapia breve 207 Referências bibliográficas 211 13.Conclusões 174 Referências bibliográficas 175 10. Alguns problemas técnicos característicos e riscos em psicoterapia breve 177 Referências bibliográficas 182 11.

Hipótesepsicodinâmica inicial. Formação de terapeutas em psicoterapia breve 251 Introdução 251 Aprendizagem teórica 252 < Treinamento psicoterapêutico 253 Supervisão clínica 254 Algumas condições necessárias para um terapeuta em psicoterapias breves 254 Referências bibliográficas 263 Notas 265 . Conflitivafocal 232 Metas terapêuticas 233 Prognóstico 233 Planificação do tratamento 234 Evolução durante o tratamento 235 Avaliação dos resultados terapêuticos 241 Consideraçõesfinais 245 Referências bibliográficas 249 14.

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“Defrontamo-nos então com o trabalho de adaptar nossa técnica às novas condições. .” Sigmund Freud. Os caminhos da terapia psicanalitica (1919).

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uma teoria da técnica para a sua prática.Prefácio à edição brasileira í Apresentar ao leitor a edição brasileira do livro de Braier é uma honra e um prazer. sem te­ rem acesso a uma técnica complexa. através do próprio exercício clínico. São poucos. Eduardo A. de 1967. a precisão dos conceitos. E isso não apenas no devaneio intelectual. posso constatar o amadurecimento das idéias. os que conseguem associar o rigor da prática psicanalítica a uma consciência social e comunitária. É também sentir que estamos contribuin­ do para o esforço atual para tomar a psicoterapia acessível a uma ampla camada da população que necessita desta modalidade de atendimento. Como participante das investigações sobre psicoterapias bre­ ves do Colégio Acta. . demorada e elitista. Braier procurou oferecer uma contribuição concreta para aqueles que buscam ajuda para os problemas emocionais. infelizmente. Braier é um psicanalista argentino. a elaboração cuidadosa das técnicas ao longo desses anos bem como a organização e clareza com que são agora apresentados. mas na confrontação do dia-a-dia com o paciente que procura ajuda nos hospitais e centros de saúde. Conhece e reconhece a Psicoterapia Breve e resolve elaborar. que recebeu a formação rigorosa do Instituto de Psicanálise da Associação Psicanalítica Argentina.

privilegiando di­ versas e diferentes hipóteses. merece especial destaque a afirmação de que é necessária uma ampla e minuciosa avaliação diagnostica. Não disfarça as dificuldades que existem para a formação de quem pretende se iniciar na práti­ ca desta modalidade psicoterapêutica e reconhece seus problemas técnicos e riscos. Inicia com o estudo das entrevistas preli­ minares e. hstuda minuciosa e cuidadosamente os princípios clássicos e a prática da psicanálise c compara-os com a sua prqpria experiên­ cia neste campo relativamente novo da psicoterapia. o autor parece não ter esquecido nenhum daqueles detalhes que respondem às muitas perguntas que constantemente nos fazem os alunos e os estudiosos da técnica. O livro traz muitas respostas e sua contribuição didática é inquestionável. a meu ver. por momentos. esta modalidade de terapia que resulta de uma cuidadosa ava­ liação da técnica psicanalitica. depois de uma revisão minuciosa dos conceitos de Malan c da terapia focal. aceita o desafio do mestre e procura “adaptar nossa técnica às nossas condições”. A sua técnica criteriosamente elaborada é apresentada com metodologia. No estudo sobre “O Tratamento”. com os pés no chão e voltado para o futuro. A linguagem é. principalmente dentro da área psicanalítica. De aluno fiel converte-se em mestre generoso e nos oferece esta contribui­ ção. veículo de uma proposta con­ creta e acessível.XVI Psicoterapia breve de orientação psicanalitica Os fundamentos teóricos de Braier têm origem na psicanáli­ se. rigidamente psicanalitica. mas reflete sempre uma compreensão dinâmica do processo terapêutico. A apresentação detalhada de um caso clínico é uma ilustra­ ção de grande valor didático e um estímulo para o aprendizado e a compreensão da proposta do autor. é extremamente rico pelos conceitos que traz. sem a qual será difícil iniciar um processo psicoterapêutico. . Os difíceis temas da avaliação e das indicações são aborda­ dos em capítulos separados e de grande valor para a pesquisa. sobre “Planejamento do tratamento”. Braier é o psicanalista cauteloso unido ao terapeuta audacioso. O capítulo cinco. Aceita a possível utilização de recursos terapêuticos múlti­ plos e afirma que ninguém é dono da verdade. Como bom discípulo de Freud.

uma atitude resistencial.Prefácio à edição brasileira _ ____ _____________________ _____________________________ Os exemplos clínicos ajudam o leitor a entender e a familiarizar-se com esta técnica tão concisa. Este trabalho é uma mostra do quanto se pode fazer quando existe compreensão humana do ser humano e não uma escondida fobia ao contato interpessoal criativo e enriquecedor da alma. academicista e. MAURÍCIO KNOBEL Professor Titular de Psiquiatria Clínica da FCM da UN1CAMP Professor Titular de Processos Psicoterápicos do Dept? de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da PUC Campinas. Não se trata de um “transplante artificial”. junho de 1986. do ponto de vista psicanalítico. ofe­ recer a teoria de uma técnica compreensível dentro do campo psicanalítico e mostrar que a psicoterapia não é necessariamente o privilégio de uma classe social. O país e os leitores de língua portuguesa vão se beneficiar com esta obra. em nossa sociedade.empresa editora pela seleçào desta obra. mostra também que este mundo conflitante necessita cada vez mais de especialistas com conhecimentos sérios e profunda sensibilidade áocial. só válido na sua microcultura de origem. teórico. aqui apresentada de modo abrangente. Campinas. que. e sim de uma ampla e imparcial obra teórico-técnica. . A polêmica sobre “investigação” da personalidade ou seu “tratamento” é estéril. j Braier consegue aqui abrir nossos olhos a uma realidade. PROE DR. além de seu valor didático. é um importante auxiliar clínico. O modelo de “ficha clínica para psicoterapias breves” que encerra o livro é um guia útil para quem procura sistematizar estes estudos. Não existe pesquisa em psicanálise sem assistência a quem procura este contato único e absolutamen­ te singular. mas deve ser uma possibilidade aberta para muitos. perfeitamente aplicável em nossa cultura. Considero necessário parabenizar a. prático e de pesquisa.

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a empreender a ár­ dua tarefa de escrever este livro. Isso motivou minha apresentaçãb a concurso para obter uma bolsa municipal que era oferecida pela Secretaria de Saúde Pública de Buenos Aires. além da exercida em consultório particular. depois. finalmente. No trabalho hospitalar. no serviço de mesmo nome no Hospital Ramos Mejía.Prefácio Meu interesse pela psieoterapia breve nasceu em meus anos de residente em Psiquiatria (1968-71). Desde então. no segundo dos servi­ ços citados (1971-72). e concomitantemente à mi­ nha dedicação a terapias prolongadas. A isto se somou o poderoso estímulo que significou o intercâmbio científico com colegas. mais recentemente. Minha práti­ ca em tais técnicas. inclui uma passagem de aproximadamente 2 anos pelo CEMEP (Centro dc Psicologia Médica). o enorme enriquecimento que me proporcionou a formação na Associação Psicanalítica Argentina. Minha intenção é de nele expor | 9 «> . Todos esses fatos me animaram. defron­ tei-me com o problema ocasionado pela necessidade de propor­ cionar assistência psiquiátrica a grandes massas da população. que me proporcionou uma experiência clínica de um ano na investigação de terapias breves. o trabalho docente que venho exercendo sobre o assunto em hospitais. não abandonaria mais o estudo e a investigação das técnicas de objetivos e tempos limita­ dos. sempre partindo do corpo teórico-psicanalítico. instituições e em nível privado e. primeiro no Serviço de Psicopatologia do Hospital Pinero e. como terapeuta da instituição (1972-73).

Silvia S. alguns incon­ venientes técnicos e riscos a eles relacionados e os problemas concernentes à avaliação dos resultados terapêuticos. que de nenhum modo pretende ser completa. Aos colegas membros dos diferentes grupos de estudo por mim coordenados. De Zanoto. Quero expressar meus mais sinceros agradecimentos a todos aqueles que de uma maneira ou de outra me ajudaram nesse em­ preendimento. complementadas por uma revisão crítica. que supervisionou os trata­ mentos breves que efetuei durante minha investigação no Serviço de Psicopatologia do Hospital Municipal J. que leu o capítulo 13. a prática e a investigação em psicoterapias breves. assim como ao Dr. Como sempre ocorre. EDUARDO A. De Finkelstein e Suzana Boz. Boa parte de meu entusiasmo pelo tema deve-se à leitura de seus excelentes trabalhos. que realizou um leitura crítica dos ori­ ginais e. realizada com carinho e esmero. me incentivou constantemente. Moisés Kijak e a Elisabeth G. Delia Saffoires. Ricardo Frigerio. Marcos Guites. da bibliografia existente sobre o tema. certos pontos despertaram em mim um interesse maior que outros. Brener. principalmente os seguintes: doutores Víctor Feder. as difi­ culdades do terapeuta para a formação. agosto de 1980. licenciados Jorge A. M. Buenos Aires. Alba Brengio. Alejandro Puente. além disso.2 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica com clareza principalmente as experiências e idéias pessoais que venho acumulando até o momento. À Dra. Montevecchio. Entre eles se encontram: os fundamentos teóricos. de transcrever meus ilegíveis manuscritos. o término do tratamento. Mónica Noseda. Fiorini. os tipos de atenção do terapeuta. Ao Dr. Claudia H. motivando alguns desenvolvimentos. pelo generoso estímulo e pelas su­ gestões que pessoalmente me ofereceu durante anos de frutíferas discussões sobre as psicoterapias. Iléctor J. Aída Núnez. Blanca R. que foram meus analistas. a regra de fun­ cionamento do paciente. De Garma. A meus pacientes. Ifim Kantor. Isaías Finkelstein. Luiz Allegro. a quem coube a enorme tarefa. Ao Sr. especialmente: Ao Dr. Ramos Mejía. Ao Dr. BRAIER .

com idêntica finalidade. já que os tera­ peutas. o uso de modernos psicofármacos e da psicoterapia grupai. e de forma similar a outros paí­ ses. Em nosso meio. Os diversos nomes que *» . não conseguiam cobrir a demanda de pacientes. as instituições privadas e os hospitais psiquiátricos tive­ ram. centrar-se na superação de sintomas e incidentes agudos ou situações perturbadoras atuais.1. então. As limitações econômicas de muitos que acorrem em busca de ajuda terapêutica foram e são. propósito este que. naturalmente mais acessiveis às pessoas de poucos recursos. um fator que vem exercendo uma influência decisiva no desenvol­ vimento e na difusão das terapias breves. ao problema de sua denominação. As terapias de curto prazo. de um modo gradual. os inci­ pientes serviços de psicopatologia hospitalar. permitiram ampliar a assistência psiquiátrica. a seu tempo. Os objetivos terapêuticos deveriam. de implementar técnicas breves. novos traços distintivos. sem dúvida. Da mesma maneira. de ime­ diato. não era compatível com o emprego de tratamentos longos. que se apresentam como prioritárias por sua urgência e/ou importância. Introdução l As chamadas psicoterapias breves surgiram essencialmente como uma resposta ao problema assistencial colocado pela massa cada vez maior de população consultante. em quantidade insuficiente. tinham incorporado. por outro lado. Esses procedimentos terapêuticos vão alcançando. o que nos conduz. individuais e grupais. em determinado momento. os centros de saúde mental.

desde já. estabelecer uma diIVrença com respeito aos tratamentos breves alicerçados cm ouiius orientações terapêuticas (terapias comportamentais. que por conseguinte poderão ser concomitantemente de tempo limitado ou não. é. há que se admitir que não é a mais adequada: em princípio porque essas terapias sâo breves do ponto de vista do terapeuta. Em primeiro lugar cabe examinar a denominação psicotera­ pia breve. etc. em geral mais prolongado (1). mas que denota não só bre­ vidade. já que se refere a um elemento importante e que.).mas ter as metas limitadas e as características técnicas próprias e essenciais desses procedimen­ tos (focalização.um ano ou mais . . tal denominação é dis­ cutível. Tampouco este é um fato necessariamente constante nesses tratamentos. a mais difundida e imposta pelo uso. geralmente e de ante­ mão. Apesar disso. etc. sempre se faz presente em tais terapias.).4 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica recebem revelam as tentativas de tornar precisas algumas daquelas que se consideram suas principais características (embora indu­ zam. como também a fixação de um limite de tempo para o tra­ tamento. que dá título a este livro. Acima de tudo. assim. que por ser. que as distinguem da psica­ nálise corrente e de outras psicoterapias. empregamos aqui com muita freqüência1 . já que uma psicoterapia pode ser de duração certamente prolongada . em definitivo. planejamento. uma data de finalização preestabelecida. deixar claro a que situações e métodos psicoterápicos vou referir-me ao longo desta obra. a de psicote­ rapias de objetivos limitados. denominação essa que novamente alude à sua temporalidade. sem dúvida. e quando sua duração é comparada com a do tratamento psicanalítico. As terapias a que fazemos referência também são conhecidas como psicoterapias de tempo limitado. Outra denominação a que se costuma recorrer. a meu ver. mas podem não parecer breves por exemplo para o paciente. as quais. muito apropriada. e que escolhi porque me interessa explicitar que se trata de uma terapia originada nas teorias de psicanálise e. diferentemente de outros elementos. em virtude do qual este passa a ter. Pode-se também empregar a denominação psicoterapia bre­ ve de orientação psicanalítica. análise trunsacional. a aumentar a confusão reinante). é conveniente citar para poder..

como por exemplo. particularmente. etc. já que de imediato suas condições egóicas não costumam permiti-lo. como também no de supervalorizar os alcances da RB. com freqüência prevalece a necessidade de estancar a crise. por exemplo. Refere-se. A chamada psicoterapia de emergência concerne. É necessário afastar a absurda antinomia que alguns preten­ dem criar entre a psicanálise e a RB. (De minha parte. a uma terapia de urgência em “situações especiais de crise e exigência” (2). a uma psicoterapia de objetivos limitados. Ambos os métodos constam de objetivos terapêuticos.Introdução _______ ____ ____ ________ ________ _________ ________ ________ ________ Alguns autores preferem designá-las com nomes que servem para destacar algumas de suas peculiaridades técnicas e que suge­ rem diferenças com relação às da psicanálise clássica: terapias planejadas (3) ou focais (4).. longe de querer apresentar o tratamento breve como uma panacéia. mas também. indicações clínicas e técnicas diferen­ tes. Nesta obra referir-me-ei. considero que não devemos deixar de atender aos numerosos pacientes que. É perigoso incorrer no erro de pensar que a psicanálise é o único tratamento válido realizável. .. e com certo detalhe. delírios agudos. Além disso. de modo que na maioria dos casos deve-se postergar a busca de insight no paciente até um segundo momento terapêutico. de suas limitações e ris­ cos.) É melhor dizer que é possível instrumentar uma terapêutica breve baseada no esquema conceituai da psicanálise. no ambiente hospitalar. não . Em tais situações. que deve ser empregada em indivíduos com capacidade egóica sufi­ ciente para serem tratados por meio dela. no meu entender. sobretudo. basicamente’interpretativa ou de insight.).à forma de psicoterapia rápida ou breve que partilha apenas algumas das características e dos métodos de que nos ocu­ pamos. tais edmo episódios de natureza psicótica (tentativas de suicídio. obtendo-se um alívio sintomático. atribuindo-lhes resultados espetacula­ res. tratarei aqui não só de suas possibili­ dades. o que signi­ ficará uma proveitosa aplicação de suas teorias em situações nas quais não é possível utilizar a técnica psicanalítica corrente. Entre nós Szpilka e Knobel propuseram denominá-las psicoterapias não-regressivas. tanto no meio hospitalar como no consultório particular. para acentuar outro aspecto importante delas (5).

Cabe acrescentar que em muitas ocasioes uma terapia de objetivos e tempo limitados pode ser o passo inicial em direção a um posterior tratamento analítico. procurei sistematizar os sucessivos passos do processo terapêutico e ensaiei um critério de avaliação dos re­ sultados. já são muitos os que falam na importância do emprego deste método terapêutico. mas são poucos os que preconizam e aplicam procedimentos técnicos apropriados ao contexto em que tal método cabe. mas também de resis­ tência. tentando conceituar uma modalidade terapêutica que reconhece suas fontes no corpo teórico da psicanálise.B.B. uma psicoterapia prolongada. Oriento meu trabalho cm direção a essa meta.B. em seguida. De um tempo para cá. interessei-me em obter uma compreensão profunda de algumas das motivações inconscientes do terapeuta que subjazem a suas dificuldades para ajustar-se ao enquadramento requerido pela P. Acima de tudo. exigindo que adaptemos nossos recursos técnicos às possibilidades e necessidades do paciente. ou por sua idade avançada. que poderá trazer. Pessoalmente.) ser abordados através de um tratamento psicanalítico. Constitui uma necessidade premente contar com uma teo­ ria da técnica da P. na mais conveniente. correríamos o risco de tomar por intratáveis indivíduos que simplesmente . segundo creio. num primei­ ro momento.não estão em condições de ser analisados. na única abordagem terapêutica viável. convertendo-se. Também chama a atenção a escassa participação dos analistas de maior experiência na investigação dessas terapias. se diferencia nitidamente de sua técnica. que possibilite um ensino adequado de seus princípios básicos (sem que tal afirmação desmereça o reconhecimento da existência de contri­ buições de decisiva importância sobre o tema. que enriqueceram profundamente nossa visão dele). surge clara­ mente como premissa.c freqüente­ mente só em caráter transitório . estruturada com mais solidez. ou ainda. A superação das diversas dificuldades dos profissionais para encarar aformação. por motivos diversos (econômicos. Caso isso ocorresse. sem esperar que sejam eles quem devam amoldar-se a um único método terapêutico. uma mudança nas condições do paciente que o torne apto para efetuar. a prática e a investigação em P. . como resultado. mas que." Psicoterapia breve de orientação psicanalítica podem. etc.

T. (Versão castelhana: La psicoterapia breve. 3. French. PaxMcxico. em I. e Knobel. Londres. F e Frcnch. cap. grupo fami­ liar. Referências bibliográficas j .. T.. que possibilitem validar ou questionar as concepções teóricas sustentadas atual­ mente. e French. 2. Coloquio Acta 1967: Psicoterapia breve. T. 1974. “Eficacia dei contacto breve”. V it 4. D.. n? 2. Malan. 1965. Szpilka. M.. IX. Paidós. J. Lat. e Swall.. 1969.B. ob. H. Amér. L.. Terapêutica psicoanalítica.. junho de 1968. desejo esclarecer que nesta obra irei ocupar-me especialmente do que tange à psicoterapia individual breve em pacientes adultos e adolescentes. F. XIV. Psicoterapia breve y de emergencia. etc. Alexander F. cm Alexander.) 5. Buenos Aires. L. México. Buenos Aires. vol. Springfield. Illinois.)? •» 1. 1963. Tavistock. Centro Editor de América Latina. em Alexander. psicol. “Acerca de la psicoterapia breve”. Buenos Aires. ainda que muitos dos conceitos apresentados sejam extensivos ao tratamento de crianças c aos procedimentos grupais (psicoterapia breve de casal.. Acta psiq. “Planificación de la psicoterapia”. Por último. Charles Thomas. cit...Introdução ___________________________________________________________________________________________ ___ _ Também serão bem-vindas a realização e a transmissão de novas experiências clinicas organizadas em P. cap. A Study o f Brief Psychotherapy.. Bellar.

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pois duravam só alguns meses. que conseguiu bons resul­ tados. a sobredeterminação dos sintomas. Devo começar tal revisão assinalando que os primeiros tra­ tamentos efetuados pelo próprio Freud na etapa pré-analítica e no começo da analítica eram. os fenômenos transferenciais. etc. inicialmente. O fundador da psicanálise se achava empenhado. o do Homem dos ratos.. em buscar curas rápidas. redigido em 1914 e editado em 1918 (7). (12). com resultados satisfatórios.. Outro trata­ mento célebre. durante algo mais de. e cujo histórico clínico foi publicado em 1909 (5).2. Freud disse que fixou pela primeira . Freud atendeu a Gustav Mahler. quatro horas. O desenvolvimento dos acontecimentos mais relevantes pode ser resumido como se segue: 1914: no histórico clínico do Homem dos lobos. Gradualmente e com os progressos da psicanálise. Resenha histórico-bibliográfica I Passaremos cm revista os principais acontecimentos e obras que marcaram a evolução da terapêutica breve de orientação psicanalítica. o trata­ mento foi-se tornando mais prolongado. durou tão-somente 11 meses. terapias breves. Incidem fatores como a resistência. a princípio dirigidas para a solução de determinados conflitos e sintomas'. a maior parte das quais trans­ correram enquanto ambos passeavam por Leyden (9). de cfcrto modo. a necessidade de elaboração.

que logo aban­ donará. dizendo a respeito dela: “(. pela primeira vez. Ferenczi e O. 1937: em “Análise terminável e interminável”. podemos ter certeza de que. recebendo duras críticas de Freud. Em várias passa­ gens desse artigo sublinhará que o encurtamento da duração da análise é uin fato desejável. Ferenczi propõe o chamado “método ativo”. no qual abordam o tema (3). contanto que se faça no momento oportuno. baseadas em sua concepção a respeito do trauma de nascimento. re­ correu ao expediente de fixar-lhe um limite de tempo. Rank realizam tentativas para abreviar a cura psicanalítica. 1916: Ferenczi menciona. para acelerar o tratamento analítico no caso do Homem dos lobos. Mas também fustigará as tentativas que Rank efetuara nessa direção desde 1924. a necessidade de uma psicoterapia breve. Acrescenta que posteriormente também tomou essa medida em outros casos. o trauma do nascimento. outra parte ficará guardada e enterrada como estava antes. a configuração de uma terapia breve de orientação psi­ canalítica. Rank. Mas não se pode garantir o cumprimento total da tarefa. Neste. O mesmo fará em relação a Ferenczi. enquanto parte do material se tornará acessível sob a pressão dessa amea­ ça. ura de seus últimos trabalhos. Freud recorda que. Freud propõe uma psicoterapia de base psicanalítica para respon­ der à necessidade assistencial da população. Pelo contrário. defende a possibilidade de um trata­ mento analítico breve baseado na tentativa de superar.W Psicoterapia breve de orientação psicanalítica vez uma data para o término da análise. que considera o nódulo da neurose. Freud assina­ la que as tentativas de abreviar a duração da análise que consome muito tempo não requerem justificação “e se baseiam em impera­ tivas considerações de razão e dc conveniência”.) é eficaz. outros métodos. Escrevem conjuntamente um livro. 1920-1925: S. e sugere que se com­ binem os recursos terapêuticos da análise com.. Tal proposta é de importância decisiva para fundamentar. poste­ riormente. e . por sua vez.. em poucos meses dc análise. sendo repreendido por Freud (13)\ 1918: em uma conferência pronunciada em Budapeste e edi­ tada no ano seguinte (“Os caminhos da terapia psicanalítica” [8]). numa tentativa de acelerar o desenvolvimento do processo terapêutico2.

de outro modo. Inc. 1963: publica-se A Study o f Brief Psychotherapy. 1941: o Instituto de Psicanálise de Chicago organiza um con­ gresso nacional sobre psicoterapia breve. Alexander e T. um método psicodinâmico para avaliar os resultados terapêuticos. Além disso desenvolve. brilhantemente. H. A supervisão dos tratamentos esteve a cargo de M. que inclui os acompanhamentos efetuados. Nela se detalha a técnica focal. obra compilada por L. Masserman. Tomam como ponto dc partida uma experiência clínica na qual intervém um número importante de terapeutas experientes. a respeito da técnica da psicoterapia breve (16). assim como a necessidade de trabalhar a separação entre paciente e terapeuta. O autor acen­ tua a conveniência de interpretar a transferência de maneira exaus­ tiva dentro da terapia breve (em acentuada dissidência com muitos outros). 1965: aparece Short-Term Psychotherapy. L. Aumenta o interesse pelo tema nos Estados Unidos. de F. Wolberg (Grune and Stratton. que contém trabalhos de Avnet. Londres). Porque. não pode prolongá-lo. Incluem conceitos sobre planejamento da psicoterapia. Wol­ berg. obra que inicia uma nova e decisiva etapa no campo das técnicas breves. de D. Sobressai o de L. Nova York). utilidacfê de ressaltar a realidade externa e eficácia do contato breve. A obra descreve uma experiência clínica de investigação baseada em tratamentos de curto prazo. Wolf. Flarrower e A. . Hoch. Alexander. flexibilidade do terapeuta. uma vez que o analista tenha fixado o limite de tempo. f F AG 11 perdida para nossos esforços terapêuticos. o paciente perderia a fé que nele deposita” (6). 1946: aparece Psychoanatytic Therapy (Ronald Press.IFACULDADE GUAIRACÁ [ GiBLIQTECA_____. Rado. Kalinowsky.. Os autores recolocam a necessida­ de de abreviar o tratamento analítico e de efetuar terapias breves com uma compreensão psicanalítica. Nova York). realizada por terapeutas da Clínica Tavistock. Wolberg. de orientação kleiniana. Wolberg. manejo da relação transferencial e do ambiente. French e colaboradores do Instituto de Psicanálise de Chicago. causada pelo término do tratamento. O livro descreve numerosos históricos clínicos (1). Malan (Tavistock Publications Limited. Balint (12). O livro oferece uma detalhada apresentação de 19 casos tratados com psicoterapia individual bre­ ve.

entre outros aspectos. R. Small realiza uma extensa compilação das idéias de numerosos autores sobre o tema (14). Partici­ pam. Kiorini. 1973: publica-se Teoria y técnica de psicoterapias. Dellarossa (15). A. I. hospitais psiquiátricos e instituições privadas. utilizando o esquema referen­ cial de Pichon-Rivière aborda. amplo e valioso estudo sobre o tema. 1970: aparece o primeiro livro de autor argentino. Kesselman. e assinala algumas caracterís­ ticas essenciais das interpretações a serem utilizadas no trabalho terapêutico (10). Beliak e L. G. Ferrari. G. em nosso meio. Szpilka. de H. S..de hospitais gerais. J. Empregam-se tra­ tamentos de duração limitada com base psicanalitica. maio­ res perspectivas de instrumentalizar técnicas suficientemente sis­ tematizadas e coerentes.12 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica Também nesse ano L. Os autores incluem diversos temas. entre outros. Knobel. o planeja­ mento e as técnicas de mobilização. que apresenta valiosas contribuições.de recente criação . que oferecem tratamentos a honorários reduzidos em razão da demanda cada vez maior de assistência psicológica por parte da população. Fontana. No­ va York). de Dellarossa. Swall publicam Emergency Psychotherapy and BriefPsychotherapy (Grune and Stratton. pelo proble­ ma das psicoterapias (individuais ou grupais) em serviços psi­ quiátricos . entre os quais se destacam: o enfoque do tratamento à luz da psicologia psicanaliti­ ca do ego. A. com prólogo de J. 1971: em The Briefer Psychotherapies (Brunner Mazel. J. o insight e a ela­ boração (2). Nova York). de H. M. Bleger. exclusiva­ mente consagrado ao tema: Psicoterapia breve. a aplicação da teoria da aprendizagem. E. Inc. O autor. J. Marticorena e A. ainda. A psicoterapia breve na Argentina 1967: tem lugar o Colóquio Acta 1967: Investigações sobre psicoterapia breve. mas a ativi­ dade é desorganizada e confusa e não se apresentam. Usandivaras. H. Esse colóquio é um testemunho do crescente interesse que começa a se manifestar. no qual se destacam especialmente o capítulo referente à primeira entrevista em psico- .

Resenha histórico-bibliográfica

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terapia breve e o que oferece um modelo teórico do foco terapêu­ tico (4). 1975: Psicoanálisisy psicoterapia breve en la adolescencia*, de J. C. Kusnetzoff, aborda, em sua segunda parte, o tema da psico­ terapia individual e grupai breve do adolescente. É de especial interesse o capítulo destinado à teoria da comunicação e à psicote­ rapia breve, assim como a inclusão da família no tratamento (11). 1980: em nosso meio atualmente é indiscutível a necessidade de se recorrer a psicoterapias menos custosas que a análise, tanto em temjío como em dinheiro, a fim de responder à demanda de um número cada vez maior dc indivíduos. A aplicação das chama­ das psicoterapias breves se difunde ostensivamente, mas ainda não se lhes reconhece um status teórico, que, no entanto, começa a se delinear, sendo relativamente escassas as investigações que têm suscitado.

Referências bibliográficas
1. Alexander, F. e French, T., Terapêutica psicoanalitica, Paidós, Bue­ nos Aires, 1965. 2. Beliak, L. e Small, L., Psicoterapia brevey de emergencia, Pax- Mé­ xico, México, 1969. 3. Ferenczi, S. e Rank, O., The Development of Psychoanalysis, Zurich International Press, Leipzig e Viena, 1924. 4. Fiorini, H. J., Teoria y técnica de psicoterapias, Nueva Vision, Bue­ nos Aires, 1973. 5. Freud, S., “Análisis de un caso de neurosis obsesiva”, era O.C., Bi­ blioteca Nueva, Madri, 1948, t. II. 6 . “Análisis terminable y interminable”, em O.C., Biblioteca Nue­ va, Madri, 1968, t. III. 7 . “Historia de uma neurosis infantil”, em O.C., ob. cit. em 5, t. II. 8 . “Los caminos de la terapia psicoanalitica”, em O.C., ob. cit., em 9. Jones, E., “Vida y obra de Sigmund Freud”, Nova, Buenos Aires, 1960, t. n.
* Traduzido para o português sob o título Psicanálise e psicoterapias breves na adolescência, tradução de Patrícia M. E. Cenacchi, edição brasileira adaptada e revis­ ta pelo autor, Rio de Janeiro, Zahar, 1980. (N. do T.)
5,t. n.

1+

Psicoterapia breve de orientação psieanalitica

10. Kcssclman, H., Psicoterapia breve, Kargieman. Buenos Aires, 1970. 11. Kusnetzoff, J. C., Psicoanálisis y psicoterapia breve en la adolescencia, Kargieman, Buenos Aires, 1975. 12. Malan, D. H„ A Study o f Brief Psychotherapy, Tavistock, Londres, Charles Thomas, Springfield, Illinois. 1963 (Versão castelhana: La psicoterapia breve, Centro Editor de America Latina, Buenos Aires, 1974). 13. Rey Ardid, R., Prólogo al tomo m de S. Freud, O.C., ob. cit. em 6, 1968. 14. Small, L., Psicoterapias breves, Granica, Buenos Aires, 1972. 15. Usandivaras, R. J. c outros, Coloquio Acta 1967: Psicoterapia bre­ ve, Actapsiq. psicol. Amêr. Lai., vol. XIV, ní* 2, Buenos Aires, junho de 1968. 16. Wolbcrg, L. e col., Psicoterapia breve, Gredos, Madri, 1968.

3. Fundamentos teóricos1

!
Introdução
Os problemas de teoria em terapias breves são numerosos e comprometem o seu reconhecimento dentro do panorama psicoterapêutico. Atualmente crcio que podeifios encontrar contribuições mui­ to valiosas ao tema, mas, se há pontos de coincidência entre os diversos autores no que concerne a uma teoria do processo, tam­ bém é certo que paralelamente ainda reina muita confusão entre os leitores, talvez provocada por uma verdadeira miscelânea de conceitos teóricos que nem sempre podem articular-se entre si. Como assinala Fiorini, falta uma estrutura unitária que suste esses procedimentos (13). É para sua obtenção que devemos diri­ gir nossos esforços. Gostaria de assinalar uma carência particularmente notória, que é a de uma concepção mais ou menos definida e aceita quanto aos mecanismos terapêuticos atuantes nessas terapias. Neste capitulo mc proponho a discorrer sobre alguns temas cuja recolocação considero de importância decisiva dentro da ten­ tativa de configurar um marco conceituai para as psicotcrapias de objetivos e tempo limitados. Além disso, procurarei, ao longo desta obra, expor o marco conceituai que venho adotando pes­ soalmente, e ao qual pretendo dotar da necessária coerência, atri­ buto disso tenho consciência - nada fácil de alcançar. Meu pon­

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Psicoterapia breve de orientação psicanalítica

to de partida, como o de muitos investigadores, são as teorias psicanalíticas. Na verdade, não encontro motivos para prescindir de teorias tão valiosas como a do inconsciente, do conflito psíquico, da sobredetemiinação, dos mecanismos defensivos, da gênese dos sonhos, das séries complementares, da estrutura do aparelho psí­ quico, da transferência, das resistências e de tantas outras que nos permitem compreender a problemática do paciente e do processo terapêutico2. Porém, o que realmente terá de ser modificado é a técnica, que por múltiplas razões não poderá continuar sendo a mesma que a empregada em psicanálise, devendo ajustar-se ao contexto próprio desses procedimentos. Incluo-me assim entre aqueles que propõem uma psicoterapia breve de orientação psica­ nalítica, mas entendendo que deve ser algo tecnicamente muito diferente de uma “psicanálise breve”.

Pelos caminhos da psicanálise
Minha concepção da terapêutica breve é fiel aos princípios básicos formulados por Freud num trabalho que adquire signifi­ cação especial dentro do tema que nos ocupa e que talvez não tenha sido suficientemente valorizado. Refiro-me à conferência pronunciada em Budapeste em 1918, e publicada um ano depois sob o título de “Os caminhos da terapia psicanalítica” (26). Já naquela época, Freud adiantou-se a fatos que sobreviriam poste­ riormente, entre os quais hoje podemos incluir o aparecimento dos tratamentos breves como uma tentativa de possibilitar a assis­ tência psicológica a um número maior de pessoas. Muitos dos pensamentos expressos naquela ocasião vigoram ainda hoje. Na parte final do trabalho, Freud assinala a necessidade de no futuro os psicanalistas adotarem medidas para estender o tratamento psicoterapêutico a grandes massas da população. Reconhece que se tropeça em inconvenientes para consegui-lo, derivados de carac­ terísticas próprias do método psicanalítico, que limita a atenção a poucos indivíduos, e de fatores de ordem econômica. Dirigindose a seus colegas psicanalistas, Freud disse textualmente: “Qui­ sera examinar com os senhores uma situação que pertence ao futuro e que talvez lhes pareça fantástica. Mas, a meu ver, merece

Fundamentos teóricos

17

que acostumemos a ela nosso pensamento. Sabem muito bem que nossa ação terapêutica é bastante restrita. Somos poucos, e cada um de nós não pode tratar mais do que um número limitado de doentes por ano, por maior que seja nossa capacidade dc trabalho. Diante da magnitude da miséria neurótica de que padece o mundo e de que quiçá pudesse não padecer, nosso rendimento terapêutico é quantitativamente insignificante. Além disso, nossas condições de existência humana limitam nossa ação às classes abastadas da sociedade.” Mais adiante antecipa a criação de estabelecimentos assistenciais estatais, nos quais os psicanalistas tratem gratuita­ mente dos pacientes por meio da psicoteràpia: “Por outro lado, é possível prever que algum dia chegará a vez de despertar a cons­ ciência da sociedade, e adverti-la de que os pobres têm tanto direito ao auxílio do psicoterapeuta como ao do cíirurgiào, e de que as neuroses ameaçam tão gravemente a saúde dt povo como a tuberculose, não podendo ser seu tratamento tampouco abandona­ do à iniciativa individual. Criar-se-ão, então, instituições médicas para as quais serão designados analistas encarregados de conser­ var a resistência e o rendimento de homens que, abandonados a si mesmos, se entregariam à bebida, de mulheres prestes a sucumbir sob o peso das privações e de crianças cujo único porvir é a delin­ qüência ou a neurose. O tratamento seria, naturalmente, gratuito.’’ Assinala logo a seguir a necessidade de se modificar, nessas cir­ cunstâncias, a técnica psicanalítica, o que me parece da maior importância, pois hoje em dia muitos analistas resistem a fazê-lo, mostrando-se “mais realistas que o rei”. “Caberá a nós, então, o trabalho de adaptar nossa técnica às novas condições” (o grifo é meu). Em seguida expõe, ao contrário do que alguns poderiam supor, seu ponto de vista a respeito do uso de diferentes recursos terapêuticos em tais casos, em lugar de preconizar, de modo exclusivo, o método psicanalítico (o que endossaria o critério que hoje sustenta a multiplicidade de elementos terapêuticos nas tera­ pias breves, especialmente nas que ocorrem em instituições assisiciK iais): “Na aplicação popular de nossos métodos talvez tenha­ mos de misturar ao ouro puro da análise o cobre da sugestão direu. também a influência hipnótica poderia aqui voltar a ter lugar como no tratamento das neuroses de guerra”3 ainda que, de ime­ diato. sublinhe que os componentes básicos de tais tratamentos

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Psicoterapia breve de orientação psicanalítica

deverão provir da psicanálise (isso, como tudo o que disse ante­ riormente, também se converteu em realidade, já que atualmente se conta com a P.B. de orientação psicanalítica): “Mas, quaisquer que sejam a estrutura e a composição dessa psicoterapia para o povo, seus elementos mais importantes e ejicazes continuarão sendo. desde já, os tomados da psicanálise propriamente dita, ri­ gorosa e livre de toda tendenciosidade” (o grifo é meu).

A psicoterapia individual breve de orientaçãp psicanalítica Ante a perspectiva de se adotar uma técnica breve de base psicanalítica, faz-se neceásário, para definir melhor seus elemen­ tos principais, estabelecer uma comparação com nosso modelo original, o tratamento psicanalítico. Desse modo, tentarei clarifi­ car os pontos de contato entre os dois métodos terapêuticos e, muito especialmente, suas diferenças4. Dentro dos procedimentos breves, referir-me-ei, fundamentalmente, à técnica dirigida ao insight, sobre a qual podem apresentar-se mais dúvidas a respeito de suas relações com a técnica analítica, contrariamente ao que acontece com uma terapia essencialmente de apoio, cuja caracte­ rização é mais simples e mais conhecida. Juntando-me à iniciativa de alguns setores, como Bellak (6), Small (6), (48) e Malan (40) e com um propósito principalmente didático, considerarei três aspectos essenciais: 1) os fins terapêu­ ticos, 2) a temporalidade, 3) a técnica.
Os fins terapêuticos A psicanálise reconhece como meta fundamental o tomar consciente o inconsciente. Mas a experiência clínica nos permite comprovar que essa finalidade traz, além disso, a perspectiva simultânea de uma reconstrução da estrutura da personalidade do analisando como resultado terapêutico talvez mais transcen­ dente. Essa reconstrução envolve a resolução de conflitos básicos e de seus derivados através da elaboração e do conseqüente ga­ nho de um maior bem-estar, com o qual se pretende eliminar ou aliviar os sintomas de modo franco e duradouro.

o propósito de que este possa enfrentar mais adequadamente determinadas situações conflitivas e recuperar sua capacidade de autodesçnvolvimento. e na medida do possível. Os obje­ tivos podem colocar-se em termos da superação dos sintomas e problemas atuais da realidade do paciente.Fundamentos teóricos 19 Na terapia de objetivos limitados. tudo isso lhe ocasionando sérias dificuldades adaptativas no plano profissional. que se alternava com tentativas . as metas são reduzidas e mais modestas que as do tratamento psicanalítico. a solução dos pro­ blemas imediatos e o alívio sintomático deverão. como o próprio nome indi­ ca. Fixaram-se os seguintes objetivos para uma terapia de curta duração: conseguir que a jovem obtivesse um alívio de seus sintomas e sobretudo que pudesse compreender e manejar. o que implica. diante da qual mantinha uma atitu­ de infantil de extrema submissão. não seja a exploração do inconsciente como ocorre na psicanálise). Malan fala precisamente em “elaborar brevemente um dado aspecto da psicopatologia” (40). e aparece em função das necessidades mais ou menos imediatas do indivíduo. Exemplo: uma jovem professora. No exemplo há pouco citado. apresentava recentemente sintomas de cjepressào e de conversão histérica (paralisia dos membros inferiores e des­ maios). parte da patologia do pacien­ te. antes de tudo. ainda que de modo parcial. corresponder à obtenção de um principio de insight do paciente a respeito dos conflitos subjacentes (o que supõe que cm certa medida também nos propomos a tomar conscientes aspectos inconscientes. isto consistia essencialmente em conseguir que a paciente se conscientizasse parcialmente de aspectos do conflito básico rela­ cionado com a figura da mãe. o trabalho pode ser encarado a partir do lugar do terapeuta e com uma visão dinâmica. melhor os conflitos subjacentes a seu problema atual a fim de poder reintegrar-se no trabalho e de­ senvolver-se mais saudavelmente em seu meio profissional. Além disso. ligados a situações conflitivas surgidas em sua relação com a diretoria de sua escola. ainda que a meta central. de modo que na prática se ache em condi­ ções de adotar certas determinações quando isso se revele neces­ sário. com francas alterações de caráter. A limitação dos objetivos terapêuticos é caracterís­ tica do procedimento de que nos ocupamos. em um sentido psieodinâmico. como tendo o propósito de clarificar e resolver. De preferência. em si.

Explica-se. assim. deve pressupor. etc. sua proposta ofereceria a vantagem de nos permitir incluir expectativas de resultados terapêuticos maiores do que se concebêssemos as metas meramente circunscritas à re­ missão de um determinado sintoma ou à resolução de uma situa­ ção crítica (40). uma maior iniciativa e a superação de inibições. no terapeuta.). inclusive. mas também a conseguir mudanças favoráveis em suas rela­ ções patológicas com outras mulheres que representassem sua mãe (uma companheira mais velha. Numa ordem de importância geralmente secundária. como no caso da assistência social. ve­ mos que estes. além de conseguir que a jovem pudesse solucionar seus problemas de relação com a dire­ tora. Segundo Malan.20 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica de rebelião. na realidade. implícitas e constantes. no tratamento da professora.). social. não chegam a ser mais tratados de maneira explícita ou direta durante a terapia. mas que se acham ligados. por detrás do intento de resolver aspectos do conflito primário com a figura materna. nos termos correntes. às perturbações que tenham sido objeto de nossa abordagem terapêutica. poder-se-ia aspirar não só a obter a remissão ou a dimi­ nuição da intensidade dos sintomas atuais. uma refor­ mulação dc tais objetivos num sentido psicodinâmico que os abar­ que e que quase sempre haverá de transcendê-los em alguma me­ dida. figu­ ram diversas formas de oferecer ajuda ao paciente no que se refere às situações perturbadoras. do que derivavam dificuldades em sua relação com representantes da autoridade materna. de objetivos terapêuticos limitados. dc certo modo. não só na área profis­ sional como também em outras (sexual. seja procurando aliviar sua ansiedade através de meios como por exemplo os psicofármacos. não são tão limitados em uma terapia breve de predomínio interpretativo. valiosas. vinculadas às enunciadas até aqui e que podem ser concebidas em termos da recuperação da . seja inter­ vindo diretamente nessas situações de sua realidade. etc. Assim. Ao aprofundar mais o tema dos objetivos terapêuticos. Tal impressão aumenta assim que admitamos que tal terapia inclui a presença de outras metas. a dona da pensão. a aparição posterior de certas mudanças no paciente no que concerne a problemas em outras áreas de sua vida que. etc. como sucedia com a direto­ ra. Considero então que toda formulação.

A técnica O método breve pode ser tecnicamente diferenciado da psi­ canálise corrente.) A temporalidade Enquanto que num tratamento psicanalítico a duração não é determinada de antemão. acima de tudo. a qual estimularia o progresso da terapia (50)\ De ime­ diato. nas cha­ madas terapias breves é comum que a fixemos previamente. introduzindo definitivamente na relação terapêutica um novo e necessário elemento de realidade. Mas. influenciando’’de modo decisivo os diferentes aspectos do vínculo terapêutico. tema que mais adiante analiso detidamente (ver os capítulos 8 e 9). não èsteja presente necessariamente em todos os casos. que esmorece no paciente a produção de fantasias regressivas oni­ potentes de união permanente com o terapeuta. Tais fantasias se desenvolvem e sc manejam com mais facilidade no contexto do tra­ tamento psicanalítico do que no da terapia da qual nos ocupamos. deve-se levar em conta que a limitação temporal confere à terapia uma estrutura mais definida em termos de “princípio. etc. e que seja mai£ curta. de uns meses. este cria invariavelmente uma situação bastante diferente na situa­ ção psicanalítica. (Tratarei mais detidamente desses aspectos no capítulo 11. prolongando-se durante anos. em especial a finalização do trata­ mento. Pouco a pouco foi-se configurando uma teoria do tratamento que compreende uma atitude particular diante de .Fundamentos teóricos 21 auto-estima (6) e da aquisição de consciência da enfermidade. Stekel. cabe assinalar que quando se fixa um prazo de encerramento. em geral. configuram um traço diferenciado náiito destacado dos mesmos. Essas peculiaridades. apontou a incidência favorável que. poderia ter a limitação temporal estabelecida de antemão. como já assinalei. entre outros. no processo terapêutico.). psicoterapias de tempo li­ mitado. meio e fim” (43). ainda que. das quais derivam as denominações talvez mais difundidas desses procedimentos (psicoterapias breves.

resistências. dos quais. decorrem. .Fortalecimento e ativação das funções egóicas. foco. O trabalho com os conflitos6 Podem-se estabelecer claras diferenças entre uma psicotera­ pia de objetivos limitados e um tratamento psicanalítico no que diz respeito à abordagem dos conflitos psíquicos do paciente.Regressão. Neurose de trans­ ferência. ponto de urgência e hipó­ tese psicodinâmica inicial). . . .Quadro comparativo entre algumas características teóricotécnicas da psicanálise e da psicoterapia breve de orienta­ ção psicanalitica. Outros conceitos de especial aplicação em psicoterapia breve (situação-problema. regressão. Dependência. . Focalização. etc. . . relação caracteri­ zada por uma marcada submissão a ela. primeiramente. cuja validade é corroborada pela experiên­ cia clínica.Planejamento. A investigação psicanalitica demonstra-nos que as si­ tuações conflitivas atuais do indivíduo estão relacionadas a con­ flitos infantis. * . enquanto se confirmam alguns princípios dinâmicos operativos. transferida para as relações atuais. Transferência.transferência. Desenvolverei aqui os seguintes aspectos: O trabalho com os conflitos. . Ambas as situações reme­ tem a um conflito infantil com a figura materna.22 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica distintos fenômenos psicoterapêuticos .Multiplicidade de recursos terapêuticos. Recordemos. São exemplos de conflitos derivados os que a professora antes mencionada apre­ sentava na sua relação com a diretora da escola.O problema da resistência. ou os de uma mulher que obstinadamente rivaliza com sua sogra. em realidade.lnsight e elaboração. como se tratam os conflitos em psicanálise.

O terapeuta deverá centrar-se. por sua importância. sem se aprofundar mais nele. Em todas essas circunstâncias. orientada em direção ao insight há. Na P. se tem capacidade de insight. a priori. relacionando-o com sua situação conflitiva. além disso.Fundamentos teóricos 23 Os conflitos infantis genéticos se produzem. o terapeuta pode empreender um tra­ balho interpretativo cauteloso de certos componentes do conflito básico. sobretudo. cm especial dos que estejam imediatamente vinculados à problemática focal e que adquiram relevância para a finalidade de se alcançar a clarificação e a superação de tal problemática. como sabemos.)7. para serem alcan­ çados os objetivos propostos8. que subjazem ao problema atual. o pa­ ciente revive tais conflitos (sobretudo no seio da relação transfe­ rencial com o terapeuta). quer dizer. evitando-se que se produza uma excessiva mobilização afetiva e. em relação com os objetos primários do sujeito. que recairá nos que prevalecem por sua urgência*e/ou. Mas também considero que em alguns tratamentos breves é necessário e possível confrontar o paciente com o conflito origi­ nal. 40 ss.B. nos atuais fatores determinantes desses conflitos subjacentes focais. Isso ocorre quando. Em algumas ocasiões é o próprio paciente. que q trabalho tera­ pêutico se circunscreva. a encarar exclusivamente esses derivados do conflito primitivo infantil. É habitual. de preferência. sendo sua nature­ za edípica ou pré-edípica. tem-se a impressão de que de outro modo não se obterão maiores progressos no transcorrer deste. seja no começo seja mais freqüentemente no transcurso do tratamento. Não se deverão abordar outros aspectos do conflito. que se favoreça no paciente a regressão. c/ou quando aspectos desse conflito básico se acham muito próxi­ mos à superfície psíquica do paciente. principalmente. e uO foco”. quem menciona o conflito infantil. pp. uma eleição dos conflitos (deriva­ dos) a serem tratados. freqüentemente isso bastará para se obterem bons resultados terapêuticos e. que são analisados profundamente a fim de se conseguir sua resolução (e a de seus derivados) por meio do trabalho elaborativo (elaboração dos conflitos). já que não tem sentido abrir feridas de maneira indiscriminada na estrutura defen- . 37. p. como primeiro fator distintivo digno de nota. Durante o tratamento analítico. por princípios elementares de prudência. motivo do tratamento (ver “Focalização”.

Por isso farei referência a esses con- . para nós. Já sabemos com quanta insistência Freud preveniu a respeito dos riscos de tal procedimento no tratamento psicanalítico (24). diferentemente do que ocorre na psicanálise. Dependência. são abordados de um modo também parcial. (Quanto às prováveis modifica­ ções no estado dos conflitos. muitas vezes suficientes para se obterem benefícios terapêuticos nada desdenháveis. por sua vez. o que terá de ser avaliado em cada caso particular (ver pp. não se terá oportunidade de analisar suficiente e convenientemen­ te nessa terapia. Freqüentemente colocar-se-á.B. sempre se faz uma tentativa de solucionar interpretativamente os conflitos deri­ vados. mediante interpretações. ver p. em algu­ ma medida. os quais. pondo a descoberto conteúdos que. essa correlação. com vistas a nos aproximarmos das metas terapêuticas propostas.. de dependência. sem dúvida. transferenciais e neurótico-transferenciais acham-se intimamente relacionados no tratamento psicanalítico. circunscrita àqueles que tenham sido escolhidos. Incursione-se ou não na interpretação das raízes infantis da conflitiva focal. 102 e 111 ss. Transferência. Neurose de transferência Os fenômenos regressivos. o problema de saber até onde poderemos nos aprofundar. Quando se trata de uma psicoterapia de breve duração. Como se pode perceber a esta altura de minha exposição. em P. Trata-se de uma resolução parcial ou incom­ pleta (1).) Regressão. o terapeuta pode sentir-se pressionado pelo tempo. realiza-se uma tarefa interpretativa parcial dos conflitos do paciente. ainda que esta não seja idêntica à que se possa obter atra­ vés da psicanálise. devendo evitar sobretudo cair em interpretações prematuras sobre os conflitos infantis.^ ____ Psicoterapia breve de orientação psicanalítica siva do paciente.). Trata-se de um ponto que requer tato e experiência por parte do terapeuta. 101. que consiste na produção de certas mudanças dinâmicas nos conflitos. Denominações tais como dependência regressiva ou neurose transferencial regressiva refletem. 53.

A regressão é necessária para a revivescência dos conflitos originais infantis do analisando cm sua relação com o analista (neurose de transferência) e sua conseqüente elaboração. Na realidade. vivida com um marcado sentimento de atualidade” (38) (p. que tornará possível que o paciente assuma realmente uma conduta mais adulta na vida. que a.Fundamentos teóricos 25 ceitos de maneira conjunta. além disso. que o processo regressivo se reverta ao longo do cami­ nho terapêutico. Aqui vou referir-me em especial à regres­ são temporal na transferência com o terapeuta. tempo­ ral e formal (18) (25). e. Freud ocupou-se do conceito de regressão em diferentes contextos . 459).a enfermidade mental. associação livre. que costuma representar basicamente figuras parentais.). No processo analítico trata-se de favorecer. silêncio do analista. de um modo especial. a qual representa um meio essencial para se alcançar o objetivo terapêutico. é preciso além disso levar em conta os conceitos de transferência e de neurose de transferência9. Esperase.regressão produzida gere um in­ cremento da dependência do analisando em relaçào ao analista. Laplanche e Pontalis descrevem a transferência como “o pro­ cesso em virtude do qual os desejos inconscientes se atualizam sobre certos objetos. |por diferentes meios (posição deitada do paciente. Acrescentam: “Trata-se de uma repetição de protótipos infantis. a transferência com o analista. é claro. A regressão pode ser entendida como o processo pelo qual readquirem vigência estados ou modos de funcionamento psíqui­ co pertencentes a etapas anteriores do desenvolvimento do indiví­ duo. dentro da relação analítica”. etc. . dentro de um mesmo subtítulo deste capítulo. dando lugar a um crescimento psicológico paula­ tino. numa tentativa de esclarecer as diferenças que nesses as­ pectos apresenta o tratamento breve de insight com relaçào à psi­ canálise. Isso implica.. os sonhos e a classificou em três tipos: tópica. uma regressão vivencial útil. dentro de um determinado tipo de relação estabelecida com eles. Para compreender as diferentes peculiaridades ao vínculo terapêutico em terapias breves de insight. freqüência às sessões.

Pressupõe a reedi­ ção seletiva de determinadas situações e mecanismos infantis na relação terapêutica.) A transferência. logo passou a ocupar. a diferença entre as reações de transferência propria­ mente dita. Freud faz referência à neurose transferencial como a uma “massa de pautas culturais neuróticas estereotipadas. cuja resolução.26 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica Quanto à neurose transferencial. com base nos escritos de Freud. É oportuno recordar aqui a definição que dá Rangell da psicanálise como método terapêutico: “A psicanálise é um méto­ do de terapia pelo qual se estabelecem condições favoráveis para o desenvolvimento de uma neurose transferenciai. (Os grifos são meus. a neurose transferencial consiste em uma “neurose arti­ ficial em que tendem a se organizar as manifestações de transfe­ rência” (p. com o fim de provocar mudanças estruturais no aparelho mental do paciente para que este seja capaz de uma adaptação ótima à vida” (grifos do autor). será fundamental se aspira à cura do anali­ sando. até converter-se sua análise na tarefa central. Na psicoterapia breve de insight. um papel de decisiva importância na cura (22). segundo Glover) e. não é conveniente favorecer o desenvolvimento da regressão nem de uma neurose . Em relação a esta última expressam-se: “de um lado. Rangell acrescenta que tais condições indispen­ sáveis distinguem qualitativamente a psicanálise de seus diversos derivados (46). expostas na situação analítica” (15). tanto para ele como para a maior parte dos psicanalistas. 259). Esses autores estabelecem. citando novamente Laplanche e Pontalis (38). o desenvolvimento da neurose transferencial. Mesmo assim. coordena as relações de transferência a princípib difusas ( “trans­ ferência flutuante’. ou seja. em troca. Deste fato se depreende que é conveniente per­ mitir .durante a terapia psicanalítica.e inclusive promover . diremos que é a reprodução da neurose infantil na relação com o analista. 258). de outro. na qual o pas­ sado se restaura no presente com o propósito de. obter uma resolução dessa neurose (transferenciai e infantil). mediante um ata­ que interpretativo sistemático às resistências que se opõem a isso. inicialmente considerada por Freud como um obstáculo no tratamento psicanalítico. permite ao con­ junto de sintomas e condutas patológicas do paciente adotar uma nova função ao referir-se à situação analítica” (p. por meio da elaboração.

dado que as condições do paciente e/ou do enqua­ dramento não são apropriadas para tais fins. como as metas terapêuticas não estão dirigidas para a reestruturação da personalidade nem para resolver conflitos básicos do indivíduo. também aconselham que se evite.iatrogenicamente . no desenvolvimento. na análise e na resolução da neurose transferencial. entre outros. em particular. aos quais mais adiante me referirei em detalhes (ver capítulo 6).o paciente em um estado regressivo-dependente. mas sim para mitigar alguns sofrimentos atuais. na psicoterapia breve. Os mecanismos terapêuticos não se sustentam. não seria coeren­ te que o insight de aspectos da relação transferenciai neurótica. do mesmo modo que Wolberg (54). regressivo-dependcnte. o desenvolvimento da neurose transferencial. continuasse sendo o recurso terapêutico fundamental nesse novo contexto. por outro lado. Se bem que os fenômenos transferenciais também ocorram. já que. junto ao de uma regressão vivencial. expondo-o a diversas reações transferenciais nocivas em virtude da mobilização afetiva produzida e. configurando uma neurose de transfe- . razão pela qual o trabalh«} interpretativo recai mais em suas relações com os objetos de sua realidade exter­ na do que na relação com o terapeuta.Fundamentos teóricos 27 transferencial. Seu desencadeamento. ao deixar truncada sua elaboração. Segundo Szpilka e Knobel. podemos esperar que a adoção de algumas medidas técnicas impeça que a transfe­ rencia alcance demasiada intensidade e chegue a cobrir e a domi­ nar a situação terapêutica. ante a pers­ pectiva de terminar sua terapia10. a dificuldades para aceitar sua separação com relação ao terapeuta. em geral. pode considerar-se uma complicação (às vezes inevitável) nas psicoterapias breves. tendo em vista as limitações inerentes a esses tratamentos. o que adquire importância agora é a busca de insight do paciente a respeito de situações confiitivas atuais de sua vida cotidiana (que são as queihabitualmente dão origem à consulta). deve-se procurar que o paciente não concentre muita libido na relação com o terapeuta. Por meio de diferentes recursos. às vezes inexoravelmente. den­ tro do possível. Bellak e Small (6). nesses procedimentos é preciso precaver-se de estimular tanto a regressão como a neurose de transferência (51) (37). deixaria .

Freud distinguiu e sistematizou cinco formas de resistência de um ponto de vista estrutural. e as resistên­ cias do superego13. ao trabalho terapêutico e à cura. Habitualmente. pp. isto é. As outras são as resistências do id. ainda que não o único. deve inclinar-se para a estimulação e o reforçamento de sua iniciativa pessoal. é um dos moti­ vos para que isso ocorra. a pró­ pria índole do procedimento não contempla fins tão ambiciosos. O prolongamento deste deve-se. O tratamento. (ver capítulo 6. especialmente “A relação paciente-terapeuta*no tratamento bre­ ve”. como obstáculos que este interpõe ao avanço do processo psicoterapêutico especificamente do insight. em grande parte. . ou seja. que podem ser consideradas. em lugar de fomentar a dependência do paciente. também chamadas por Freud de resistências do inconsciente. A análise exaustiva das resistências constitui uma parte im­ prescindível de todo tratamento psicanalítico. A terapia deve sustentar-se no predomínio de uma trans­ ferência sublimada (6). como se poderia supor. a análise das resistências em P. em seu trabalho “Ini­ bição. A limitação temporal. Os critérios apresentados até aqui definem as características que terá de assumir a relação terapêutica em P. quando existe. chamamos resistência aos diversos obstáculos que o analisando opõe ao acesso ao seu pró­ prio inconsciente. o mesmo caráter intensivo que em psicanálise. Em 1925. á necessidade de elaboração daquelas (27). Na terapia breve interpretativa. por acréscimo.B.). de suas capacidades autônomas.B. Três delas procedem do ego e são: as resistências da repressão. sintoma e angústia” (21). também surgem resistências no paciente. não apre­ senta.28 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica rência". 84 ss. basicamente. A regressão só deveria ser permitida em pequeno grau. as da transferência e as do ganho secundário da doença. não indo além dos níveis requeridos para possibilitar a exploração e experiências iniciais de insight de situações conflitivas atuais. O problema da resistência12 No tratamento psicanalítico.

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O tratamento das resistências que dependem dos mecanis­ mos defensivos do ego, em P.B., pode apresentar as seguintes características: a) algumas defesas são combatidas, quer dizer, analisadas; b) outras, em troca, são respeitadas ou ainda reforça­ das pelo trabalho terapêutico, de acordo com o que pareça indica­ do em cada caso, com base nas condições do paciente e do enqua­ dramento. Como exemplo do mencionado no item a, podemos citar a necessidade de trabalhar as defesas maníacas (negaçào, onipotência, etc.), perigosamente incrementadas, ou, o que é mais comum, ter de atacar parcialmente as barreiras repressivas de conteúdos inerentes ao sofrimento atual, além dos mecanismos de isolamento, intelectualizaçâo, projeção, etc. Pelo contrário, e a propósito do expresso no item b, com freqüênciajjoptamos por não perturbar certos mecanismos defensivos caractefplógicos, permi­ tindo ao paciente que os conserve, seja porque queremos evitar uma mobilização afetiva excessiva e difícil de manejar no trata­ mento, seja por tratar-se de defesas relativamente úteis, as quais ainda que só ocasionalmente - poderia ser conveniente reforçar. O tema da resistência da transferência em P.B. também mere­ ce alguns comentários. Ao menos nas terapias desse tipo, tal resis­ tência não costuma ser muiter intensa. Isso se deve ao seguinte: sabemos que esse tipo de resistência obedece em parte ao ressen­ timento despertado no paciente, por sentir-se frustrado em sua relação transferencial com o terapeuta, razão pela qual Menninger propõe chamá-la de resistência de frustração ou de vingança (41). Na medida cm que, em P.B., a relação terapêutica é menos frustrante para o paciente, já que existe um vínculo mais “real” e uma maior proximidade afetiva da parte do terapeuta, conseqüen­ temente a hostilidade que desperta naquele pode ser menor do que a que o tratamento psicanalítico desperta; portanto, as resistências transferenciais também serão menores (35). Mas o terapeuta de­ verá lutar sempre para que se obtenha esse resultado, procurando lazer com que predomine uma transferência positiva. Quando es­ sas resistências se exacerbam, achamo-nos ante um dos motivos fundamentais, para cuja dissolução, a meu ver, se justifica o em­ prego de interpretações transferenciais no tratamento breve (ver capítulo 6, pp. 107 ss.).

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“Insight”e elaboração14
Entre os problemas ainda não resolvidos no terreno da psico­ terapia breve de base psicanalitica, acham-se os que concernem ao papel do insight e da elaboração e sua relação com as mudan­ ças que se obtêm nos pacientes. Começaremos por lembrar sucintamente os significados es­ senciais de ambos os termos. Com o insight queremos dizer, como L. Grinberg, “a aquisi­ ção do conhecimento da própria realidade psíquica” (31). Tal conhecimento pressupõe uma participação afetiva: não se trata simplesmente de compreender no sentido intelectual, mas tam­ bém de poder experimentar emocionalmente o contato com os aspectos inconscientes do mesmo. A elaboração ou trabalho elaborativo (working through) é um conceito de significado complexo e não suficientemente defi­ nido na bibliografia psicanalitica. Uma definição simples a des­ creve como “o processo pelo qual um paciente em análise desco­ bre, gradualmente, através de um lapso de tempo prolongado, as conotações totais de alguma interpretação ou insight” (47). (“Elaboração”, p. 49, grifos do autor.) É conhecida a importância do insight e da elaboração no tra­ tamento analítico. A finalidade das interpretações do analista, que são, por excelência, seu instrumento terapêutico, é promover o insight dos conflitos no paciente. É oportuno citar aqui Rycroft: “O objetivo do tratamento psicanalítico é definido, algumas ve­ zes, em termos da aquisição de insight, ainda que mesmo Freud nunca tenha utilizado essa formulação, preferindo a idéia de que seu objetivo é fazer consciente o inconsciente,'>(47). (“Insight”, p. 68, grifos do autor.) Com relação a esse ponto, Grinberg diz: “Freud havia assinalado que o objetivo básico do analista é conhecer; por conseguinte, não deve estar preocupado com o objetivo terapêutico. Esse objetivo de conhecer, em realidade, não se contradiz com o objetivo terapêutico, sendo o insight o fator central, e a pré-condição de toda mudança duradoura na personalidade” (31). A elaboração, como trabalho de aprofundamento do pacien­ te, implicará que este assimile as interpretações corretas do ana-

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lista, condição essencial para o êxito terapêutico (39). A respeito do princípio da elaboração, cabe lembrar: a) Requer dois fatores elementares: tempo (é por isso que a necessidade de elaboração constitui uma causa importante do prolongamento do tratamento psicanalítico) e trabalho (o labor analítico) (27). Do último se depreende que tem lugar no paciente fundamentalmente na presença do analista e com a participação deste. b) Em seu desenvolvimento intervém a regressão do anali­ sando (31). c) Inclui a tarefa de superar as resistências e a análise exaus­ tiva dos conflitos, na qual tem especial importância o que trans­ corre dentro dos limites da neurose transferencial |27). Na terapia breve de orientação psicanalítica, a concepção da existência de insight e de elaboração apresenta numerosos pontos obscuros. Sendo assim, é válido falar-se em insight nesses tratamen­ tos? Creio que sim, ainda que com certas ressalvas, como vere­ mos em seguida. Propiciar ao paciente a aquisição de insight por meio de in­ terpretações especialmente dos psicodinamismos relacionados com o transtorno atual, motivo do tratamento - deve constituir, a meu ver, nosso principal propósito na terapia dinâmica breve, sempre que as condições psíquicas do paciente o permitirem. Es­ sa atitude terapêutica nos permitirá abrigar maiores esperanças de conseguir um progresso mais sólido e estável no paciente, ao aumentar sua capacidade egóica para enfrentar e resolver as situa­ ções conflitivas. A busca de insight no tratamento breve é preco­ nizada por numerosos autores, entre eles, Bellak e Small, os quais assinalam, clara e repetidamente, seu valor, em diferentes passa­ gens de sua obra (6). Mas a técnica breve requer restrições pecu­ liares para o insight do paciente, que é necessário consignar: Com respeito à sua extensão entendo que em geral dadas as limitações do enquadramento - e sobretudo quando se trata de uma terapia de curta duração - só nos resta a alternativa de pro­ porcionar o que poderíamos considerar como experiências ini­ ciais de “insight ”, um autoconhecimcnto limitado às dificuldades habitualmente contidas no foco terapêutico (mas que tampouco

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pode dar conta de todos os aspectos do conflito subjacente ao pro­ blema vital focal, mas, unicamente, dos mais próximos e aces­ síveis à compreensão psicológica do paciente dentro desse enqua­ dramento). Isso poderá servir, ser suficiente - ou não - para os pa­ cientes, para obter mudanças dinâmicas favoráveis, pôr em mar­ cha um processo progressivo que continue ainda depois de finali­ zado o tratamento e estimular sua auto-observação e motivação para as experiências psicoterapêuticas de índole interpretativa. Em suma, numa terapia de objetivos e, eventualmente, de tempo - limitados, também o insight estará naturalmente limitado em sua extensão, diferentemente daquele mais amplo, decorrente de um tratamento intensivo e prolongado como o psicanalítico; tratase de uma verdade óbvia, mas que é necessário ter presente para estudar tudo aquilo que se relacione com mecanismos terapêuti­ cos e grau de eficácia dos procedimentos breves. Quanto ao tipo e profundidade, cabe assinalar que enquanto o insight psicanalítico tem lugar em meio a uma atmosfera regres­ siva que o favorece, dependendo principalmente da atividade inter­ pretativa a respeito das diversas reações próprias da neurose de transferência, em P.B. a busca de insight está dirigida, com mais freqüência, para as relações do sujeito com os objetos externos de sua vida cotidiana e presente, ainda que não despreze os fenôme­ nos transferenciais mais notórios, que trabalham como obstáculo (resistências transferenciais), e/ou ilustram a problemática do paciente, como se verá mais adiante (pp. 106 s.). Mais abrangente, o insight psicanalítico também o é na medida em que oferece maiores possibilidades de alcance de situações infantis reprimidas que serão revividas na situação transferenciai, permitindo, em sín­ tese, uma conexão mais completa do que sucede no mundo externo extra-analítico e na relação transferencial analítica do paciente com sua vida passada. São tipos e graus de profundidade diferen­ tes de insight, mas nem por isso devem ser-lhes negadas totalmen­ te a validade e a eficácia que se obtêm no tratamento breve. (“Não se pode sustentar, com tanta ênfase, que o insight através da trans­ ferência seja o único tipo de insight que sirva para a organização e reintegração do ego”, afirma Kamo [36].) Todavia, é possível estabelecer outra diferença com o insight do tratamento psicanalítico, que remete à natureza mesma do

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fenômeno de compreensão psicológica no paciente, e também obedece à necessidade de controlar a intensidade dos fenômenos regressivos e transferenciais: Szpilka e Knobel sugerem que em terapias breves o insight possua umaf‘maior participação cogniti­ va que afetiva”/(51), levando o paciente, como medida prudente e mediante um determinado estilo interpretativo (ver pp. 110 ss.) na relação transferencial, antes à compreensão que à revivescência das situações infantis determinantes de seu problema atual (51). Expressa dessa maneira, essa proposição corre o risco de ser dis­ torcida. Bntendo que não implica, como alguns poderiam supor, um mero insight intelectual (que configuraria uma nova forma de resistência), pois não deixa de ter certa ressonância afetiva. Mas a diferença entre o insight psicanalitico, que é mais p|eno e vívido, em suma, dotado de uma maior e às vezes diferente repercussão emocional, e o insight do tratamento breve tem de ser, nesse senti­ do, um fenômeno na medida do possível mais controlado pela ati­ vidade terapêutica, em especial se explora circunstancialmente aspectos da transferência com o terapeuta correspondentes ao infantil-genético. (Será menos necessário controlá-lo se atender aos componentes mais atuais da t/ansferência com o terapeuta ou com outros objetos da realidade externa do paciente.) Examinemos agora o problema da elaboração na terapia dinâmica breve, cuja bibliografia, como se poderia supor, é suma­ mente escassa. Bellak e Small citam, como .princípios gerais da “psicoterapia rápida”, a comunicação, o insight (do terapeuta e do paciente) e a elaboração (6). Como não se estimula o desenvolvimento da regressão nem o da neurose transferencial, e não se realiza uma análise intensiva desta nem das resistências, considero que em PB. não podemos falar em elaboração no mesmo sentido que em psicanálise. Em todo caso, o trabalho de elaboração real será escasso, principal­ mente se existe limitação de tempo. Este, como vimos, é um fator fundamental para que a elaboração tenha lugar15. Estaríamos, então, diante de um dos pontos mais discutíveis no que diz respei­ to à validade terapêutica desses procedimentos. Sem dúvida, é possível conceber um processo qualitativamente distinto do pro­ cesso de elaboração analítica, sem a profunda reestruturação meta psicológica que ela implica e basicamente circunscrito à conflitiva

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focal. Um processo imperfeito e incompleto, mas enfim de mu­ dança, que em circunstâncias em que o tratamento esteja limitado em sua duração, também o estará, mas que em alguns pacientes, com capacidades egóicas suficientes, poderá talvez ainda conti­ nuar, depois de concluído o tratamento breve. Nesse último caso seria uma espécie de “auto-elaboração”, a qual se teria iniciado, a princípio, com o trabalho terapêutico, para seguir um caminho pro­ gressivo até a consolidação dos resultados16. Os mecanismos ínti­ mos desse fenômeno, que apresentaria, talvez, grande importância terapêutica em alguns casos, ficam difíceis de precisar no momen­ to17. Talvez as modificações significativas que às vezes se eviden­ ciam, inclusive na estrutura de personalidade de pacientes tratados com o procedimento breve, em testes projetivos efetuados anos depois de finalizado o tratamento (32), se relacionem a mecanis­ mos desse tipo. Mais adiante, considerando os resultados e meca­ nismos terapêuticos, retornaremos à discussão desses fatos. Finalmente, cabe acrescentar que numa terapia de objetivos e tempo limitados talvez seja necessário concluir que o insight e a elaboração terão de ser em boa parte estimulados, quer dizer, faci­ litados e agilizados mediante o papel ativo do terapeuta, dadas as condições de focalização e de curta duração do tratamento.

Fortalecimento e ativação das funções egóicas
Considero que a aquisição de insight por parte do paciente, através de interpretações do terapeuta, seja a forma mais aprecia­ da de se conseguir o fortalecimento de seu ego. No entanto, de­ vem ser levadas em conta outras formas, cuja significação tera­ pêutica não é muito menor, era meio às terapias breves, e que não são, necessariamente, incompatíveis com a busca de insight. Muitas vezes, as diversas medidas terapêuticas destinadas ao rcasseguramento e à ativação de funções egóicas são englobadas sob a denominação genérica de psicoterapia de apoio. O emprego de tal denominação encerra o risco de que os terapeutas, sem con­ siderar mais cuidadosamente tais medidas, desprezem-na, já que nos círculos psicanalíticos o termo apoio, como se sabe, está carre­

duvidam de seu discernimento...natureza. quando não há uma alter­ nativa melhor.. Se parte de nossa meta terapêutica consiste em aumentar as funções egóicas sãs do paciente e sua capacidade para as relações objetais. mas pode resultar extremamente significativa e útil se. às vezes exclusivamente. Começaremos por reconhecer. e por isso mesmo não-progressiva.e mesmo oposta . de distinta . Mais adiante. com ligeiras alterações.” Esta frase pertence a um artigo de Greenson e Wexler (30) e se refere ao tratamento analítico.B. Mas defemos discrimi­ nar com clareza esta posição terapêutica de outra. é importante confirmar aqueles aspectos de sua conduta que indicam um fun­ cionamento sadio. errônea ou insana. dos quais.) muitos de nossos pacientes necessitam ter a experiên­ cia de sentir que estão no caminho certo. . Se só inter­ pretamos ou só analisamos. ante a possibilidade de que suijam mal-entendidos. os autores con­ tinuam: “(. “Todos os nossos pacientes. Necessitam da expe­ riência de que se reconheçam e se respeitem suas funções egóicas e suas relações objetais adequadas”. e para os quais o único resultado que se pro­ cura obter é uma supressão de sintomas. Há motivos para atribuir fun­ damental importância a esses conceitos no campo das terapias breves. também em P.Fundamentos teóricos _ ______ . porquanto costuma implicar basicamente o fomento e a utilização de uma relação regressivo-dependente não analisada. o paciente deve emergir recon­ fortado e reafirmado em suas capacidades egóicas c recuperando sua facilidade resolutiva nas situações de conflito. Por conse­ guinte. a necessida­ de de apelar. e que pode ser alternada. de suas percepções e de seu valor. em graus variáveis. ____ ____ _______ ____________________________ ________ _ gado em alguns casos de um sentimento francamente pejorativo. a aplicarmos também à técnica breve. e que sua conduta é imatura. precisamente. e sem que se intente colocar o paciente em contato com as motivações profundas de seu sofrimento. é o caso de pacientes que por debilidades egóicas não cónsèguem tolerar uma terapia interpretativa.'que se caracte­ riza pelo emprego de certo tipo de intervenção verbal que busca conseguir reforçamento e ativação do ego. com as interpretações. coerentemente. deixamos sem querer a impressão de que suas reações são meras repetições de seu passado infantil. é con­ veniente estabelecer algumas distinções sobre o tema. para técnicas de apoio emocional.

em direção à estimu­ lação das capacidades autônomas do paciente. mas também para ativar diversos funcionamentos egóicos1*. interven­ ções diretivas). Para este autor. o protótipo da atividade terapêutica nesses trata- . que as terapias breves são. se partimos dos retursos que o pa­ ciente verdadeiramente possui. na medida em que o terapeuta assume um papel protetor-autoritário (empregando. que deverá fundar-se numa compreensão psicodinâmica adequada do proces­ so terapêutico20. e ao mesmo tempo se valem desta para exercer seu efeito. como se depreende do que assina­ lam Greerson e Wexler. em seu enfoque e na prática. em sua maioria. falar de tratamentos breves em que pre­ domina o insight e de tratamentos breves em que predomina o re­ força mento ou o ^ o /o e^(2iccu. sendo essa natureza “mista” uma característica relevante de tais terapias (podemos. são. pelo contrário. sim. em troca. cm lugar de incentivar uma rela­ ção dependente. com muito mais freqüência. incluindo as de objetivos e tem­ po limitados. Assim mesmo. por exemplo. incluindo os mecanismos de defesa neuróticos do ego. esta ati­ tude terapêutica não impede. não só para fortalecer. que costuma fomentar a idealização de sua figura. assinalando seus rendimentos egóicos adequados. a atividade do terapeuta orienta-se. em vez de serem puramente interpretativas. Nesta outra forma de reasseguramento egóico.segundo o lado para o qual se incli­ ne a balança em cada caso21. Quer dizer.36 Psicoterapia breve de orientação psicanalílica Dessa maneira observamos que na psicoterapia de apoio pro­ priamente dita ou “pura” as medidas de apoio promovem a depen­ dência regressiva no paciente. pro­ movemos nele um sentimento de reafirmação ou reasseguramen­ to que pode funcionar. As psicoterapias dinâmicas. o resultado de uma reunião de elementos próprios de uma técnica de insight com estes outros elementos reforçadores e estimuladores de determinadas funções do ego'\ Mas é mister que tais psicoterapias se traduzam numa combinação antes de tudo coerente de intervenções. ou ainda exclusivamente de apoio no sentido antes descrito. / Diremos entào. ou reforçadoras do ego não-interpretativas.) Fiorini proporciona alguns bons exemplos das diversas inter­ venções capazes de sustentar e ativar o funcionamento egóico (12). e ao assinalar-lhe esse fato. “mistas”. a análise de aspectos inconscientes do pa­ ciente.

mas também a seus aspectos adultos. Multiplicidade de recursos terapêuticos Eis aqui outro aspecto distintivo da P.) nos tratamentos. o que os afasta ainda mais do enquadramento e dos cânones psicanalíticos. etc. etc. intervenções de reasseguramento. dada a sua urgência e/ou importância. técnicas grupais. poderse-ão anexar à psicoterapia individual outros elementos. terapeutas ocupacionais. Estes procedimentos admitem e com'freqüência requerem . fornecimen­ to de informações. nu­ ma tarefa efetuada em equipe23. que per­ mite distingui-la da técnica psicanalítica corrente a qual não opera com um módulo conceituai de foco (ver “O foco”. que adquire prioridade. em virtude da necessidade de se alcançarem os objeti­ vos terapêuticos. e portanto não só são feitas menções a seus aspectos infantis. assis­ tentes sociais. 40 ss. Todo recurso que tenha demonstrado ser útil no campo da terapêutica psiquiátrica poderá eventualmente ser incorporado ao tratamento. por isso também chamada de focal j(40). comunitárias.B. sugestões. mantendo certo equilíbrio nas referências a uns e outros (12) (13)22.a associa­ ção dc diversos elementos terapêuticos. pp. cujas perspecti­ vas de inclusão correm em paralelo com os progressos que. se registram no emprego de distintos recursos psicoterapêuticos. etc. (14) (48) (55).Fundamentos teóricos 37 mentos está representado por uma tarefa em “frente dupla”.). psicopedagogos. assim. Trata-se de outra característica substancial desse tipo de terapia. na qual se têm sempre presentes “as partes sãs” do paciente. além dos distintos tipos de intervenção verbal não-interpretativa (assinalamentos.. regressivos e patoló­ gicos. Focalização O trabalho terapêutico em P.B. no tra­ balho científico. progressivos e sadios. . enquanto se deixam de lado as demais dificuldades. tais como psicodrogas. está “enfocado” para determi­ nada problemática do paciente. É sumamente valiosa a participação de outros profissionais da saúde mental (psicólogos.).

38 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica Os diferentes instrumentos psieoterapêuticos devem ser im­ plementados coerentemente. além disso. nem sempre podem distinguir-se com facilidade uns dos outros. Junto às metas e à duração do tratamento fixam-se os pontos fundamentais do processo terapêutico.B. Planejamento . tentarei. tendo em vista a obtenção de um maior discernimento. da maior ou menor flexibilidade do terapeu­ ta e de sua capacidade para tentar criativamente combinações te­ rapêuticas harmônicas e eficazes. .foco..B. tais como foco ou ponto de urgência. que compreende um plano de tratamento prévio ao desenvolvimento do mesmo. Quadro comparativo de algumas características teórico-técnicas da psicanálise e da psicoterapia breve de orientação psicanalítica Em forma de síntese e considerando-se as limitações que supõe todo esquema. é a imprecisão com que os profissionais empregam corrente­ mente alguns termos. e que chega a cobrir até a etapa final de avaliação de resultados (ver capítulo 5). ponto de urgência e hipótese psicodinâmica inicial) Uma prova a mais da confusão reinante no terreno teórico da P. Outros conceitos de especial aplicação em psicoterapia breve (situação-problema. a fim de se obter uma visão que nos facilite a discriminação entre ambos (ver página seguinte). sempre com adequada compreensão e fundamentação psicodinâmica. será útil a esta altura expor em um quadro as caracte­ rísticas de um e de outro procedimento. que fazem parte de um jargão característico das terapias breves. precisar seu sig­ nificado. que a distingue nitidamente da psicaná­ lise. É outro traço da P. A inclusão de tais instrumentos depende. Diante de necessidade de alcançar uma conceitualização teórica su­ ficientemente clara. na forma de proposta. Estes.

Limitado. sobretudo. Mais cognitivo que afetivo Não.Fundamentos teóricos ________ ________ ________ _________ _________ ______ _ Descreverei sucessivamente: a) a situação-problema. São favorecidas Dependência / Desenvolvimento e análise da neurose Sim de transferência Análise de Intensiva resistência ThCNICA Insight Elaboração Fortalecimento e ativação das Junções egóicas Focalização Multiplicidade dos recursos terapêuticos Planejamento Sim Sim t «» Limita. Reestruturação da personalidade Prolongada Indeterminada Refere-se especialmente a conflitos básicos Psicoterapia breve de orientação psicanalitica Limitados. Processos geradores de mudanças Sim Sim Sim Sim Não (ou muito pouco) Não Não Não . b) o foco\ c) o ponto de urgência e d) a hipótese psicodinâmica ini­ cial. Resolução de con­ flitos básicos e seus deri­ vados. Referido so­ bretudo ao “de fora”. Explicitarei. Psicanálise A exploração do incons­ ciente. habitualmente a con­ flitos derivados Limita-se habitualmente a conflitos derivados Não são favorecidas Não Limitada Sim. o que quero dizer pessoalmente com cada um desses termos. e estabelecerei tanto as diferenças funda­ mentais como as relações que existem entre eles. Superação dc sin­ tomas c problemas atuais Fins terapêuticos Duração 1 Trabalho com os conflitos Regressão.

medo. a perda de um ser querido. uma crise evolutiva como a da adolescência. situação-obstáculo. diante da qual e por motivo de cuja ação descompensadora surgem ou podem surgir nele dificuldades de índole psíquica que operam como obstáculo para alcançar um desenvolvimento adequado. Mas foi sobretudo Malan. e como conseqüência de uma falta de resolução favorável. etc. A situação-proble­ ma . assinalaram a conveniên­ cia de focalizar. referência a fatos que são manifestos e objetiváveis.B. etc. junto com Balint. de concentrar a tarefa terapêutica em determinado sintoma. Bellak (6). b) O foco Constitui talvez um dos elementos mais característicos e dis­ tintivos da atual P. Entre nós cabe citar muito especialmente Fiorini. Alexander (5). Muitos autores. então. uma mu­ dança de trabalho. o nascimento de um filho. etc. quem se 'Ocupou mais exaustivamente do foco terapêutico e promoveu a denominação terapia “focal” (40). Com relação a eles. Deutsch (8). Implica. a quem devemos o desenvolvimento de um modelo conceituai de foco (11). uma viagem ou uma intervenção cirúçgica próximas. Small (6) e Malan (40). Ao propiciar uma centralização da tarefa. distúrbios corpo­ rais. Wolberg (55). e que são passíveis de se­ rem tratados por meio da técnica breve. aparecem no sujeito inibições e sintomas diversos (ansiedade. F. a focalização con­ tribui para tornar mais efetiva a atividade terapêutica em função . depressão. que costumam constituir o motivo (manifesto) da consul­ ta e que poderão ou não ser ligados pelo paciente e pelo terapeuta às situações-problema que na realidade os provocam24.ou situação critica. entre os quais se destacam Stekel (50). uma gravidez. quer dizer.40 a) A situação-problema Psicoterapia breve de orientação psicanalitica Com essa denominação tento indicar que se trata de uma situa­ ção que se torna presente na vida do indivíduo. . situação desencadeante. um acidente.). French (5).pode ser provocada por ocorrências tais como um exame. problemática ou setor da psicopatologia do paciente. A existência de uma ou mais situações atuais dessa natureza pode ser detectada com freqüência em grande parte dos pacientes que solicitam assistência psiquiátrica.

com os sintomas que motivam a consulta. O que devemos entender realmente por foco? Como surge. no meu entender. c) combater a passividade e o perfeccionismo do terapeuta. Trabalhar com uma técnica de “enfoque” implica. etc.Fundamentos teóricos 41 das metas selecionadas e em uma terapia de duração limitada. primordial e essencialmente. o tra­ tamento psicanalítico é contra-indicado. Comenta Fiorini: “A diversidade de significados que possam ser atribuídos à noção de foco ilustra o estado atual da teoria. tam­ pouco é. não explica em que consiste ou como está constituído o foco. totalmente esclarecedora. já que. b) planejar o tratamento. circunscrever-se a certos problemas do paciente. no sentido de ser “a inter­ pretação essencial. na prática psicoterapêutica? Procurarei encontrar minhas próprias respostas a essas perguntas. por diversos motivos (idade avançada. por exemplo). A que formulou Malan. ao se revestir de um caráter técnico. com as metas do tratamento. d) contrapor-se ao desenvolvimento d| neurose de transferência (há uma orientação constante em direção à realida­ de e ao atual do paciente). entre outras coísas (40): a) manter a coerência e a operatividade a res­ peito da fixação de objetivos terapêuticos prioritários. com os pontos de urgência. a partir de uma perspectiva psicopatológica. a noção de foco ainda é. sobre a qual se funda toda a terapia” (40). e inclusive prolongadas. então. Contudo. realizando uma abordagem interpretativa setorial e respeitar o resto de sua organi­ zação patológica e das áreas de sua vida.” E acrescenta: “Sem um esforço de preci­ são e delimitação rigoroso de seus conceitos básicos não é possí­ vel construir uma teoria com certo grau de verificabilidade” (13). Nesse sentido será definido como/ uma estrutura integrada pelos distintos fatores intervenientes na gênese da que foi escolhida como a problemáti-- . como assinala Fiorini (11) (13). O foco deve ser concebido. como se configura e como se delimita. É evidente que não resultou fácil kchar e adotar majoritariamente uma definição que expresse de modo pleno a natureza e o signifi­ cado do foco. mas não só uma limitação temporal a justifica: a técnica focal também é adequada àqueles pacientes que podem realizar psicoterapias sem prazo fixo de duração. sumamente ambígua e se confunde com a situação de crise (situação-problema). nas quais. O terapeuta pode.

solteira. Motivo da consulta. citado anteriormente. além de uma zona relativa ao momento evolutivo individual e grupai e outra de determinantes do contexto social mais amplo. Por outro . ao mesmo tempo. Esses diver­ sos componentes se encontram atualizados e totalizados pela situação (11). O modelo teórico de foco que Fiorini desenvolveu é de gran­ de utilidade prática. ou seja. que se encontrava de passagem em Buenos Aires. enquanto esta corresponde a uma finalidade também limitada e preestabelecida. situações de crise). a partir desse momento. que geralmente é definido pelo motivo da con­ sulta (sintomas. professora rural de uma escola primária localizada no sul da Argentina. seguidos em certa ocasião de desmaio. da complexa interação existente entre osfatores^Podemos considerar que atua como um artifício teórico-técnico. a exploAção terapêutica. Essa mulher. o diagnóstico se orientou na direção de uma afecção essencial­ mente psíquica. Sucintamente recordaremos a estrutura do foco proposta por este autor: na prática terapêutica. ela Usadas). especialmente válido para esses procedimentos.42 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica ca central do tratamento (uma determinada situação-problenioji as manifestações sintomatolósicas^u. por meio do qual se tenta basicamente delimitar zonas da problemática geral do paciente e/ou dos episódios de sua vida.^constituindo. ela se achava deprimida. Como o exame médico não revelasse nenhuma alteração orgâni­ ca. todo foco tem um eixo central. confli­ to nuclear subjacente e situação grupai são aspectos “de uma situação que condensa um conjunto de determinações”. aspectos histórico-genéticos individuais e grupais reativados. o qual se inse­ re em uma situação grupai específica. e na qual um exame analítico nos permite distinguir zonas com diversos componentes: aspectos caracterológicos do paciente. de 31 anos. Vejamos um exemplo a partir do caso da professo­ ra. dirigindo preferente­ mente para aí. existe um conflito nuclear exacerbado. Paralelamente. uma hipótese ou um conjuniade hipóteses do terapeuta a respeito dos mecanismos operantes dentro de taljvoblemàtica. Subjacente e ligado ao motivo da consulta. consultou um serviço psiquiátrico hospitalar por ter apresentado episódios de paresia de ambos os membros inferiores. à qual também se vinculam todos os componentes citados.

tinham aparecido após áspe­ ras discussões com a diretora. os quais também eram professores)25. a regressão.movida pelo desejo de ser tratada de modo semelhante. veremos que: a) Entre os aspectos caracterológicos em jogo destacavase o conflito suscitado por uma instância superegóica muito severa. Esse é o conflito nuclear. evidenciável através de diferentes experiências de sua vida. Tudo isso faz parte da situação grupai. então. representantes dos irmãos. Tratava-se. Apresentava traços histéricos de caráter. dc uma família que correspondia ao tipo*'esquizóide (7). Descobriu-se que os sintomas e a situação desencadeante que constituíam o motivo da consulta correspondiam a um conflito da paciente com figuras femininas de autoridade. com seus mem­ bros distantes e dispersos ou ainda desaparecidos.e radicou-se no sul. e a quem descreveu como uma mulher sumamente autoritária e depreciativa para com ela . manifestou que tinha problemas de adaptação ao trabalho. alcoólatra crônico. A paciente residia em um lugar muito distantes de seu meio familiar. onde assumiu o trabalho docente. ainda que conservasse certa eficiência . claramente vinculados a tal situação. a qual estava passando por um período de extrema tensão e a fazia sentir-se muito exigida e mesmo perseguida. Seus irmãos (três mulhe­ res e dois homens) moravam por sua vez em diferentes locais do país. obtenção de benefícios secun­ dários de seus sintomas. junto a uma busca oral regressiva de afeto através de conversões (identificação com a mãe da diretora .Fundamentos teóricos ___________ lado. a projeção e a conver­ são. tendo falecido há um ano.carinhosa­ mente cuidada por esta última até a morte . sobre uma estrutura que parecia basicamente melancólica. Os principais mecanismos defensivos empregados nessas cir­ cunstâncias foram a repressão. As funções egóicas esta­ vam em geral debilitadas. havia sofrido de uma enfermidade crônica. Se procurarmos precisar os componentes dessa situação. tinha-se ausentado do lar quatro anos atrás e se ignorava seu destino. Os sintomas. ocasionados pela má relação que mantinha com a diretora da cscola. com paralisia dos membros inferiores. ao ser assistida pelos demais professores. por outro lado. como no caso do pai. Tempos atrás havia-se afastado de sua mãq . A mãe desta última. Seu pai.com quem vivia no norte do país.

sua falta de parceiro e seus fracassos ardorosos anteriores pesavam. pp. edípico ou pré-edipico. realizada com o objetivo de conseguir um desprendimento em relação à mãe e libcrtar-se de sua opressão. que podemos chamar conflitiva focal. acarretou de imediato o incremento de suas carências afetivas e de seu sentimento de solidão e insegurança no novo meio. apresentando tez escura e cabelos negros e lisos. numa busca neuróti­ ca de afeto. 22 a 24. Por outro lado experimentava um sentimento de inferioridade diante dos demais professores. De minha parte. Aos 31 anos. organizado sempre em torno de uma situação-problema e dos sintomas provenientes desta. (N. e que vem a constituir o nó da estrutura focal (ver O trabalho com os conjlitos. a conflitiva focal é representada fiindamen* Expressão pejorativa semelhante à nossa “cabeça chata”. no qual custava a fazer amigos justamente quando se achava mais necessi­ tada para reafirmar-se em sua tentativa de emancipação. e tentando uma síntese. com um conflito infantil e primário. No exemplo antes citado. ao qual se remete em última instância tal conflitiva. A desconexão existente entre quase todos os membros do grupo familiar e sobretudo o desaparecimento do pai contri­ buíam para fazer deste um momento muito difícil para a paciente.) . Estes são os determinantes do contexto social. b) Dentro do momento evolutivo individual e grupai cabe des­ tacar que sua migração. o qual era seu único meio de vida. já que se sentia víti­ ma dos preconceitos existentes contra os denominados cabecitas negras*. do T. aumentando especialmente sua angústia e favorecendo o desenvolvimento de mecanismos regressivos. c) Suas precárias condições econômicas eram outro fator pre­ mente que a obrigavam a um rápido restabelecimento para poder reintegrar-se ao trabalho (achava-se em gozo de licença). entendo basicamen­ te que o foco. utilizada nas cida­ des para se referir àqueles que têm origem rural e sangue indígena. ao mesmo tempo em que era fundamental para manter sua auto-estima (o magistério era altamente valorizado em seu meio social). compreende em sua conformação uma conflitiva subjacente mais ou menos ampla e complexa.44 Psicoterapia breve de orientação psicunalitica em seu trabalho e revelasse suficiente tolerância à dor para enfrentar uma psicoterapia de insight. Sua auto-estima se achava muito diminuída.

quanto mais precoce e mais claramente demarcáveEÍor o foco.Fundamentos teóricos 45 talmente por conflitos derivados. se cristalizando. de seus critérios pes­ soais e de sua experiência prévia. entre vários fatores. melhor será^prognós­ tico do tratamento. os limites focais são imprecisos27. quer dizer. configurado a partir das descobertas obtidas nas entrevistas clínicas e no psicodiagnóstico^Numa terapiajireve. mas também o terapeuta obtém um aprofundamento na compreensão de seus psicodinamismos28. em virtude da técnica de “enfoque” empregada. mais efetivo/ No começo. de uma situação-problema e do conseqüente foco para sua abordagem preferencial num tra­ tamento breve depende. Esses gravitarão em tomo de suas impressões quanto à patologia do paciente. e que se origina­ ram a partir de um conflito primário com a figura materna. através da qual. . o qual dependerá. enrai­ zado em fixações edípicas c pré-edípicas a ela. dever-se-á contar pelo menos com um esboço inicial de foco terapêutico. sobretudo no que diz respeito à determinação das perturbações que privilegiará. dois ou mais terapeutas poderão chegar a diferir na escolha’*. tal foco não só vai-se deli­ mitando melhor. diante de um mesmo caso e num mejsmo momen­ to. Ao começar uma terapia focal. A evolução habitual do foco com o trabalho terapêutico pode ser observada no esquema desta página. que obriguem uma recolocação e o adiamento da tarefa programada inicialmente. muitas vezes. e que poderão ser tratadas com possibilidades de êxito terapêutico nas condições de que disponha para levar adiante o tratamento. Eventualmente. Um critério psicanalítico para a investiga­ ção do foco deverá privilegiar o reconhecimento das raízes in­ fantis da conflitiva focal. de diversos fatores. 23). imprevistas e traumáticas na vida do paciente. pois permitirá um trabalho. Isso pode ocorrer: a) surgindo situações novas. Às vezes teremos de mudar o foco e as metas terapêuticas em pleno tratamento. no qual a paciente repete aspectos de suas relações familiares (em especial com a diretora). A escolha por parte do terapeuta. Durante o processo terapêutico costuma-se assistir a uma “evolução” desse mesmo foco. que encontram sua expressão no ambiente de trabalho. como já vimos em parte (p. ainda que nem por isso tenha de de­ sembocar forçosamente na tentativa de proporcionar insight ao paciente acerca dos mesmos.

predomina no sujeito num dado momento. que omitiu deliberada ou involu­ ntariamente no começo. Limites confusos no começo 2 e 3. Em torno do término se vai perfilando um novo foco . poden­ do. depois. que tornam aconselhável modificar tanto o foco como os objetivos29. durante a terapia. c) 0 ponto de urgência Esse conceito. . também se reveste de grande importância prática na P.. Por exemplo. No meu entender. ocupar exclusivamente o primeiro plano.diante da significação singular que este possa alcançar em cada paciente. sendo motivo de de­ terminadas ansiedades e defesas.que se superpõe primeiro ao anterior no processo terapêutico. dadas sua história e características pessoais . pela ação de fatores atuais. diante da iminente separação paciente-terapeuta.O foco vai-se delimitando mais claramente na superfície (pode ser relativamente isolado de outras conflitivas) e crescendo em profundidade b) ante revelações do paciente. temor inconscien­ te de ser abandonado pelo terapeuta.B.46 Diagnóstico Psicoterapia breve de orientação psicanalitica Processo terapêutico k 1. c) como circunstância habitual nos estágios finais dos tratamentos. o ponto de urgência corresponde à situação psí­ quica inconsciente de conflito que. que gera um incremento da angústia e uma reação defensiva de desprezo e hostilidade em relação a ele30. de certos fatos ou sofrimentos de importância. já conhecido dentro da técnica psicanalitica.

co­ mo a própria denominação sugere.ou ser rela­ tivamente estranho a ele (exlrafocal). Na verdade deveríamos empregar o plu­ ral e dizer os pontos de urgência. Enquanto um tratamento breve costuma se desenvolver sobre a base de uma estrutura focal (11) apenas ou no máximo de dois focos (toda vez que se leve em conta o que se relaciona à sepa­ ração definida. e que “saem do foco”. as distintas medidas terapêuticas. é uma obstinação que. o caso de situações de emergên­ cia inesperadas (a morte de um ser querido.) que costumam apresentar-se durante o tratamento. etc. Também. Interessam sobretudo as interpretações: o fato de que estas obtenham uma repercussão emocional efetiva no paciente dependerá fundamentalmente de que estejam ou não dirigidas para o ponto de urgência. Somente quan­ do a calma tiver sido restabelecida. que adquire de imediato prioridade no traba­ lho terapêutico. então. pois mobiliza ansiedades e produz descompensa­ ção no paciente. Este último acontece com freqüência. afetando o pacien­ te. a indagação a respeito de um ponto crítico. pertur­ bando assim a focalização do trabalho terapêutico.Fundamentos teóricos 47 Freqüentemente a detecção do ponto de urgência conduz. Para esse ponto deverão orientar-se. for­ çando o paciente. auxiliando o paciente. pretender continuar nesse momento o trabalho com a conflitiva focal. O ponto de urgência pode ser inerente ao foco {tyocal) . além de reve­ lar falta de senso comum. sendo. nessas ocasiões é imprescindí­ vel atender ao ponto de urgência. daí seu valor clínico. apesar e por cima da ansiedade que essa situa­ ção imprevista nele provoca. variável. em conse­ qüência. por exemplo. o paciente poderá recuperar a capacidade de concentração focal necessária. resulta ineficaz. precisaremos antes desembaraçar o campo dos estímulos traumáticos que impedem circunstancialmente que o paciente concentre seu interesse naquela problemática.subjazindo diretamente à situação-problema ou ligando-se a fatos que correspondem de algum modo à conflitiva focal . pela conclusão da terapia). ao trabalho terapêutico imedia­ to do mesmo. pois são vários os que se suce- . o ponto de urgência é. pelo contrário. Precisamente para po­ dermos voltar a nos ocupar produtivamente da problemática prin­ cipal do tratamento. um roubo. Sua busca parte de uma inter­ rogação que o terapeuta se formula: a que obedece a ansiedade do paciente neste momento? Pressupõe.

com base nas descobertas obtidas durante o tratamento. a hipótese psicodinâmica inicial. desde as entrevistas iniciais51 até as etapas finais do trata­ mento. ou seja. Entre estes últimos distinguimos: a) os que são próprios de sua vida cotidiana e b) os que provêm da atividade terapêutica. Enquanto a estrutura do foco se organiza. Tem caráter provisório. envolvendo apenas certos setores de sua psicopatologia. Tal variabilidade -se deve à influência de diversos estímulos procedentes dos mundos interno e externo do paciente. tal como a concebo. já que isso pode ser indício de uma mobilização afetiva útil. que o ponto de urgência vá-sc modi­ ficando. Tais pontos são diferentes entre si. ampliada ou retificada. séries complementares. formulação psicodinâmica pre­ coce (17).48 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica / dem. a tudo o que dinamicamente pode- . a hipótese psico­ dinâmica inicial alude. englobando inclusive a hipótese focaP\ Pode­ ríamos dizer que enquanto o foco aponta mais especificamente para o campo das situações que deverão ser trabalhadas terapeuticamente. etc. ainda que em sua maior parte se incluam numa mesma conflitiva focal32.). tentando modificações e resoluções. aos conflitos restantes extrafocais . sobredeterminação. e que se constitui a partir dos dados que aflo­ ram nas primeiras entrevistas e no psicodiagnóstico. Com relação aos estímulos citados em b é desejável. a hipótese psicodinâmica inicial pode ser entendida como um esboço reeonstrutivo da história dinâmica do paciente. Em meu conceito. é mais abrangente. d) A hipótese psicodinâmica inicial Também é chamada de hipótese psicodinâmica mínima (40).do paciente. em certa medida. A concepção dessa hipótese psicodinâmica inicial está regi­ da pelas teorias psicanalíticas (determinismo psíquico. formulação psicodinâmica (55). produzida pela atividade terapêutica. única e exclusiva­ mente em torno de uma determinada situação-problema da vida atual do paciente. além disso. uma tentativa de compreensão global de sua psicopatologia que tende a incluir todas as perturbações do paciente que nos sejam conhecidas (40) (entre as quais se destacam as corres­ pondentes ao foco). etc. pois é susceptível de ser confirmada.

) de tratamento (ver capítulo 5). A elaboração de uma hipótese psicodinâmica inicial por parte do terapeuta ou da equipe terapêutica permitirá: a) extrair elementos suficientes para uma de\>olução diagnostica (D. nas quais se integram as várias noções expostas até aqui14. concentrar o interesse na indagação das modifica­ ções que transcendam as metas terapêuticas fixadas. Os resultados positivos. 67). e com a finaIidade de investigar o grau de eficácia desses tratamentos. Resultados e mecanismos terapêuticos A experiência clínica tem demonstrado que com o método breve é possível obter efeitos terapêuticos altamente benéficos e duradouros. p. de outro modo. inicial c primordialmente. na medida em que buscássemos o que não corresponde diretamente a elas. que por sua vez aciona a busca de acordo com o paciente sobre as metas terapêuticas (M. Num segundo momento poder-se-á. b) desenvolver um plano (P.Fundamentos teóricos __________ ______________ mos compreender e inferir acerca deste. ) ao paciente (ver capitulo 4. devem ser investigados a partir de critérios dinâmicos. devem ser avaliados. que podem ser verificados por meio de acompanha­ mentos.D. erro no qual muitos incorrem. Tentarei esquematizar resumidamente as seqüências que ocor­ rem na prática psicoterapeutica. em cada caso. que abarcam desde o puro alívio ou a eliminação da ansiedade e de outros sintomas até modificações na estrutura da personalidade. I . os quais não se reduzem aos pacientes cuja psicopatologia seja leve e de sintomas recen­ tes (40). Malan sustenta que podem ser alcançados bons resulta­ dos em uma ampla variedade de casos. nossa atitude não seria coerente com suas finalidades terapêuticas. coerente com a hipótese formulada e com os objetivos selecionados. Mas neste ponto desejo formular uma advertência: não devemos per­ der de vista que os resultados.T. e que nâo necessariamen­ te tentaremos modificar. seu alcance e sua estabilidade. em relação ao que acontece com a situação-problema e seus sintomas. Diante de tais mudanças indagamo-nos acer­ ca de sua natureza íntima.). sim.

50 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica .

4. 5.Fundamentos teóricos Entre os resultados favoráveis que se registram. não são raras <\s recaídas. etc. 3. isto é. Outras modificações favoráveis (referentes a dificuldades em diversas áreas da vida do sujeito. do ponto de vista metapsicológico. (O tema dos resulta­ dos desfavoráveis e os riscos do tratamento breve se desenvolvem no capítulo 10. pode resultar também absolutamente ineficaz em al­ gumas situações. aquisição ou recuperação da capacidade de tomar decisões). Consideração de projetos para o futuro (esboço de planos a respeito de diferentes atividades da experiência de vida do su­ jeito).B. .). a maior ou menor extensão que registram em relação às áreas de conduta35e/ou da vida do paciente (sexuali­ dade. e ao alcan­ ce das mesmas. rela­ ções familiares. em virtude dos distintos recursos e estratégias operantes (13) (14). ou seja. Elevação. É evidente a participação de diversos mecanismos terapêuti­ cos nesses procedimentos. sobretudo quando se trata de pacientes cuja patologia é grave. desenvolvimento mais ade­ quado e eficaz. podemos mencionar: 1. Alivio ou supressão dos sintomas. tais como sexualidade. trabalho. Mudanças com relação a perturbações próprias da situação-problema (superação de inibições. A P. estando estritamente ligada ao problema da estabilidade das mudanças. sem dúvida resulta particularmen­ te difícil precisar. principal­ mente as que não foram abordadas de maneira direta durante a psicoterapia). cabe per­ guntarmos: A que mecanismos respondem? E possível definir o processo de mudança existente? Eis aqui uma questão que ainda não está totalmente elucidada e que entra no terreno da investiga­ ção. j 6.) Voltando aos resultados positivos da terapia breve. etc. recuperação ou auto-regulação da auto-estima. Aquisição de consciência da enfermidade psíquica. Modificações na estrutura da personalidade. 7. ao tempo em que estas se mantêm. 2. de amizade ou trabalho.. estudo. estudo. certos pro­ cessos geradores de mudança em relação ao tipo de atividade tera­ pêutica desenvolvida.

centrar-me-ei em mecanismos que. configuram atrativos pontos de investigação. além do mais. / O insight em P.). Direi unicamente que não só costumam conduzir à consolidação dos gànhos obtidos pelo paciente através da terapia. que costu­ mam ser traduzidas num desempenho eficaz em distintas áreas de sua vida. ao conceber .que o insight em P. que logo citarei37. reconhecem nele. São eles: o insight e a elabora­ ção.52 Psicoterupia breve de orientação psicanalítica Como nào pretendo oferecer aqui um panorama amplo sobre o tema. 30 ss.). e num maior desen­ volvimento de sua iniciativa pessoal e das diferentes capacidades egóicas. entre os quais me incluo. provém principalmente da análise das situações da realidade externa do paciente. além de importantes na gênese de modificações dinâmicas e duradouras.B. permitindo ampliar o alcance ou a extensão das mudan­ ças a partir de uma elevação da auto-estima. deva ser exclusivamente de natureza cognitiva. Deixarei de lado o fortalecimento e a ativação das fiinçòes egóicas. sugestão. A eficácia de tal insight seria discutí­ vel porque.). nào tem validade por esse motivo. Penso que. processos dignos de se considerar. mas que já foram muito bem descritos por Fiorini (10) (12). O paciente agora ousa ensaiar outras atitudes e levar adiante ações que antes se via impedido de realizar por sentimen­ tos de insegurança e desvalorização.B. em particular das condutas adaptativas. nem da cura transferencial (à qual Alexander e French conferem valor terapêutico [2] [4] [16]36) nem.equivocadamente. 31 ss. como temos visto (pp. etc. por influên­ cia de um insight parcial do conflito derivado. A ques­ tão centra-se em saber se confiamos ou não no valor terapêutico de um insight que em geral não se baseia na análise exaustiva da neurose transferencial. relaciona-se fundamentalmente com os conflitosfocais do paciente. o paciente com fre­ . mas também a outras modificações favoráveis. de certo tipo de falsa solução do conflito. por último. uma maior efetividade. adminis­ tração de psicodrogas. atribuem-lhe apenas efeitos superficiais adaptativos^Outros. Para alguns autores. apesar de suas restrições. assina­ lado por Malan (40). Tampouco me ocuparei aqui dos mecanismos somente volta­ dos para produzir alívio dos sintomas (catarse. temas que já abordei antes (pp. em minha opinião . mas que é necessário voltar a considerar.

A eficácia terapêutica resultante da ação destes procedimentos é satisfatória para um grande número de situações ou quadros clínicos. como diz Wolberg. Mas também constitui parte do traba­ lho que efetua as maiores mudanças no paciente e que distingue o tratamento analítico de qualquer tipo de tratamento por sugestão” (27).^ “Na prática (. pelo qual este costuma ao menos diminuir de intensidade. mas acontece que alguns vão mais longe e rejei­ tam a opção da terapêutica breve por considerá-la totalmente ine­ ficaz. For­ nece. além disso. o que jfacilitará futuras consultas. ainda se contarmos com a possibi­ lidade de ocorrerem recaídas em virtude da multidcterminaçâo dos sintomas.). a extensão e a aplicação do insight do conflito no paciente a dife­ rentes contextos (elaboração) explicaria a amplitude das mudan­ ças. não acompanhada de uma análise intensiva e de uma elaboração das corresponden­ tes resistências . refletidas em outras modificações favoráveis que às vezes se produzem. A frase de Freud (1914) seria lapidar para aqueles que pre­ tendessem conceber um processo terapêutico de tempo e objeti­ vos limitados. contudo.dizem . Finalmente.. de possibilidades e limitações pessoais. capaz de promover alguma mudança dinâmica na conduta ou na personalidade do paciente/Chega-se então às se­ guintes conclusões: não é possível conseguir modificações pro­ fundas.Fundamentos teóricos _______ ________ ________ ________ _______ _______ _______ qüência pode conseguir uma resolução. e toda psicoterapia que não cumpra a citada condição de elaboração das resistências é um trabalho só de sugestão? Que os analistas mantenham hoje taxativa e estritamente tais princípios é compreensível. também parcial. Com a mera interpretação do conteúdo..o paciente não conseguiria alcançar . consciência da enfermidade. “uma solução parcial é melhor do que*nenhuma" (55) //Dè todo mõSõTolnsight é o mecanismo graças ao qual a melhora conseguida terá mais possibilidade de se manter. ajudando a conceber projetos de vida com base no autoconhecimento obtido com o tra­ tamento. (a) elaboração das resistências pode constituir-sc num penoso trabalho para o analisado e numa dura prova para a paciência do médico. caso sejam necessárias. eviden­ ciando-se clinicamente uma melhora nas dificuldades concernen­ tes ã situação conflitiva. prove­ niente da obtenção de certas modificações dinâmicas no conflito.

sobretudo pelas entrevistas de acompanhamento e no psicodiagnóstico (32). a presença de mudanças favoráveis. modificações profundas na estrutura da personalidade.B. que com o avançar dos anos promova uma mudança interior. principalmente no que respeita à oposição do pa­ ciente ao insight da problemática focal40. e não pode ser outro o caminho para se conseguir que o paciente tome consciência real de suas tendências inconscientes.. mas talvez a prá­ tica da mesma nos demonstre outros fatos. um processo evolutivo. Afirma este autor (55) que um tratamento curto adequadamente conduzido pode desencadear. Isso parece acontecer com a P. talvez peque por um exces­ so de otimismo. um dos autores mais entusiastas das mudanças que se podem esperar nas terapias breves. do ponto de vista da teoria.diz - . cujos mecanismos não têm sido explicados satisfa­ toriamente. ao empregarmos tal método. que chamam a atenção da personalidade. “No final do tratamento . e sem que haja mediado outro tratamento psicotcrapêutico (32). a partir da solução de um aspecto do problema do paciente. vemos que de fato não podem ser interpretadas rigorosamente como na psicanálise. mas o terapeuta ocupa-se delas em certa medida a fim de reduzir sua intensidade. o que pode acontecer quan­ do se realizam vários anos depois. encontramos vários in­ vestigadores que reconhecem a existência de importantes mudan­ ças dinâmicas em pacientes que foram tratados com o método breve. Apenas con­ seguiria um insight “intelectual”. e até prepare “alterações substanciais na perso­ nalidade que lhes abram (aos pacientes) o caminho para uma auto-realizaçào mais completa”41. Com respeito ao psicodiagnóstico. Isto nos remete a um processo ativo de mudança que ocorre no paciente durante esse período.54 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica uma verdadeira ou suficiente conscientização (45)-< 1 . Apesar de. não nos propor­ mos a obter. insuficiente para que se produ­ zam nele modificações em um nível mais profundo. é significativo que os estudos efetuados pouco depois dc finalizado o tratamento bre­ ve não registrem um progresso maior. em certas ocasiões é possível observar. uma reação em série. Wolberg. por exemplo. Já no terreno da experiência clínica. Não creio que na tera­ pêutica breve as coisas devam ser situadas de modo inapelável num extremo: se considerarmos as resistências.

deve­ mos convir que não há respostas que revelem a natureza íntima do processo que gera essas mudanças. Referimo-nos a elas de uma maneira bem mais vaga. etc.” (Os grifos são meus. como sua capacidade de cooperação” (4).) Logicamente.” Pouco mais adiante continua: “Às vezes se produz uma reação em cadeia. retrospectivamente. e ainda mais difícil deduzir dessa experiência regras precisas aplicáveis a outros casos. não sejam levantadas hipóteses explicativas definidas tampouco se recorra. a vontade do paciente de se curar. Diz Alexander: “Até onde chegará o impulso do tratamento é sempre uma interrogação sem resposta ao finalizar uma análise43.Fundamentos teóricos 55 não há por que deter o processo de transformação do paciente. e em virtude dê forças que escapam ao nosso conhecimento. Ainda que aceitemos que mudanças profundas ocasional­ mente ocorram. e do qual falam Wolberg e Alexander. (Os grifos são meus. mais vagamente. de­ finir o ocorrido. Essa circunstância não é fortuita: é um acerto do psiquiatra.”(2). em nenhum . Noutro lugar expressa Alexander: “Também na psicanálise confiamos nas faculdades regenerado­ ras do ego. Neste co­ locamos o paciente sobre a pista.. mesmo que. pois o tratamento carece de qualquer medida exata para se verificar a mudança psíquica ou se preverem os acontecimentos futuros” (3). Também Alexander sustenta idéias simi­ lares a algumas das que propõe Wolberg: “O importante é que a cura nunca se realiza totalmente durante o tratamento. mas também de outros fatores.) Wolberg às vezes reitera essas opiniões e esses/resultados de sua própria experiência. A obser­ vação pós-clinica pode revelar amplas mudanças que apenas se adivinhavam ao terminar o tratamento. além disso: “£ difícil. que pode perdurar pelo resto de sua vida. inclusive na estrutura da personalidade. e então o ego assume a direção. que com sua intervenção con­ segue liberar as forças construtivas latentes42 na pessoa do enfer­ mo Assinala.). ao que parece. como por exemplo as condi­ ções de seu meio ambiente. nenhuma deliberação consciente. como o desejo.. sem que intervenha. convém esclarecer. Às vezes basta eliminar um bloqueio emocional para que o ego comece a atuar (. as possibilidades de progresso são variáveis em cada caso e dependem não só de suas próprias potencialida­ des. ou ainda.

Psique. 11 . Buenos Aires. L. 32 ss. 6. 8. em L. Terapêuticapsicoanalitica. cm H. Garma. 1960.. Deutsch. cap. Nova York.. Buenos Aires. cit. Grune and Stratton. Small. Rangell. H. Gumbcl. Mexico.. Morra. cit. “Grupo familiar: psicologia y psicopatologia”. Pax-México. Zetzel. Rodrigue. Granica. “El concepto de foco”. cit.. Bcllak. M. XXVIII.. “Contribuciones psicoanalíticas a la psicoterapia bre­ ve”. Orcmland.. Rev. cap. 3. 12 . V. Fiorini. Luquct. 7. 9. em H. ob. cap. De minha parte penso que tais mecanismos poderiam estar ligados ao menos parcialmente a uma espécie de processo “elaborativo”. Gredos. em L. Teoria y técnica de psicoterapias. “Mesa redonda sobre psicoanálisis y psicoterapia”. F. Buenos Aires. contan­ do com uma etapa pós-terapêutica provavelmente muito impor­ tante (ver pp. 4 . Langer e E. Madrid. 3 . c Small. em 9. 1971. em F. Psicoterapia breve y de emergencia. Buenos Aires. Psicoterapia breve. que. Buenos Aires. Bleger.)44. Paidós. Fiorini. em 9. ob. cap. Thiel. em H. 1969. Referências bibliográficas 1. ob. 1973. 8. “Las funciones yoicas en el processo terapêutico”. cap. . “El principio de la flexibilidad”. 9. “Dinamismos y niveles del cambio en psicoterapias”.cap. L. em 3. 6. Buenos Aires. ainda que só em pe­ quena escala. El grupo psicológico. e French T. 1965. cit. 1968. em H. 1972. muito trabalho pela frente. quando se mencionam esses me­ canismos autônomos (2) (4) (55). No processo de investigação há ainda. Wolberg e col. ob. Main. de e J. 1959. Fiorini. III.. em L. “Delimitación técnica de psicoterapias”. n? 1. ob. Alexander e T. em 9. S. nesse campo. Joseph. Grinberg. Psicoterapias breves. No­ va.56 Psicoterapia breve de orientação psicanalílica momento. 2. desenvolver-se-ia nos tratamentos breves. Nueva Vision. Applied Psychoanalysis: Selected Lectures on Psycho­ therapy. Wallerstein. French. 5 .. Adler. ao termo elaboração. 1949. F. . Psicoanàlisis y psicoterapia. Fiorini. . Fiorini. eit. de Psicoa. L. . . t. . Alexander. . 10 .

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em 39. S. 38. Psicoterapias breves.. 1954. J. Pax-México. ELDEBA. 42. Arg. n" 4. out. Tirada do Journal o f the American Psychoanalytic Association. 10. Gxanica. 44. M..58 Psicoterapia hreve de orientação psicanalitica 32. Paidós. cm 2. Wolberg e col.. Reinforcement and Insight. Springfield. Pichon-Rivière. “Psicoterapia breve en la infancia”. 35. Estúdio 1. “Psicoanàlisis y psicoterapia dinâmica: similitudes y direfencias” em Rev. n? 1. ob. cap. Hoch. Citado por S. M.) 41. Buenos Aires. 1965. México. 33. The Problem of Psychotherapy Effect”. E. 1 . H. Novey. Buenos Aires. Mcnninger. X. cit. Barcelona. K. Psicoa. . Wolberg e col. “El principio de la ‘elaboración’ en psicoanálisis” Apostila Asoc. Psychiatry. Novey. 1963. Knobel.. Raeker. Tavistock. “Psicoterapia breve lrente a psicoterapia prolongada”. cit. Harrower. e Johnston. México. Cuaderno de la SAPPIA. The Psychoanalysis o f Elation. 1969. Paidós. cap. Dicionário de psicoanàlisis.. 1971. Lcwin. Centro Editor de América Latina. L. Norton. e Pontalis. Psicologia de la conducta.. cap. n? 2. 1964.. 48. A Study of Brief Psychotherapy. Illinois. B. Rangell. Nova York. J. Buenos Aires... Psicoanàlisis y psicoterapia breve en ninosy adoles­ centes. JL Diccionario de psicoanàlisis. Kamo. 1969. H. 47. III. Psychother... E. cilado por Fiorini. tomo XXVIII. “Introducción a la técnica psicoanalítica”. ob. Kargieman. 43. Buenos Aires. D.. L. Philips.. “Cómo ve el tratamiento breve un psicólogo clinico”. Labor. 1960. S. A. 34 . Laplanche. Buenos Aires. M. Am. Buenos Aires. 1961.. 45. PaxMéxico. Buenos Aires. 1971. citado por J.. M. cit.. Lu psicologia dei yo y el problema de la adaptación. 39. Estúdios sobre técnica psicoanalítica.. Hartmann. 19. P. 40. “Theoretical and clinical aspects of short-term parent-child psychotcrapy”. em 9. emL. Charles Thomas. H. cm 2. Racker. Fondo de Cultura Económica. 1976. L.. Ch. 1974. 37. 1972. Ensayos sobre la psicologia del vo. . Small. H. 1962.. Bleger. “Communication. cit. Malan. D. México. Rycroft. de Psicoa. (Versão Castelhana: La psicoterapia breve. em L. 1971. H. Londres. ob. vol. 46. cap II. ob. 1950. Teoria de la técnica psicoanalítica. 36. 2. em H.

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* .

TÉCNICA .

.

• A explicitação do método de trabalho e a fixação das demais normas contratuais. No campo da P. em boa parte. • A devolução diagnóstico-prognóstica. será o que se revele necessário para atingir os fins enunciados. O número de entrevistas a se realizar..B. Veremos a seguir cada um destes pontos.4. • A avaliação diagnostica e prognostica. as principais finalidades de tais entrevis­ tas são: • O estabelecimento da relação tefapêutica. o destino da relação deste com seu terapeuta . • A elaboração da história clínica. variável em cada caso. O estabelecimento da relação terapêutica Neste aspecto. • O contrato sobre metas terapêuticas e duração do tratamento. Dos primeiros contatos com o paciente de­ pende. as entrevistas preliminares desempenham um papel fundamental. Entrevistas preliminares Introdução f T É sabido que as entrevistas iniciais têm importância decisiva para o futuro do processo terapêutico a ser desenvolvido.

. Para isso convém que lhe comuni­ que previamente a finalidade das primeiras entrevistas (conhece­ rem-se mutuamente. Considero que o emprego de interpretações nas entrevistas ais deva limitar-se principalmente aos seguintes fins: a) esclarecer e orientar a relação transferencial quando sur­ jam obstáculos a ela que ameaçam inclusive provocar a deserção do paciente. empregando isolada e prudentemente interpre­ tações de ensaio (1)'. dirigindo os diversos momentos das entrevistas em função dos objetivos desta fase do procedimento. c) detectar a capacidade do paciente para efetuar uma psico­ terapia de insight. etc. Formulará perguntas. Tenta-se. na qual pode-se recorrer às chamadas interpretações panorâmicas (ver . tudo o que pode facilmente conduzir à deserção (4). O entrevistador deverá. em relação ao qual importa muito a con­ duta que assuma o entrevistador. assumir um papel ativo. . etc. além disso. e ízes poderá recorrer a assinalamentos e interpretações.64 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica (que poderá ser ou nâo aquele que o tenha entrevistado). terá que comba­ ter a ambigüidade. Será benéfico que possa mostrar-sc interessado pelos problemas do paciente. realizar um estudo o mais completo possível de seu caso para poder decidir a conduta terapêutica a ser seguida. Em essência. P. mal­ entendidos ou temores a respeito do tratamento. Trata=se então de poder criar condições favoráveis para a instauração de um vínculo terapêutico. essencialmente diagnostica e contratual. dis­ posto a oferecer-lhe sua ajuda e confiante em seu método terapêu­ tico. desse modo. diminuir as resistências produzidas por preconceitos. quer dizer. fornecerá informação. informe-o detalhadamente a respeito dos diferentes aspectos do tratamento que seguirá. no decorrer das mesmas. A experiência clínica demonstra que tais atitudes ajudam bastante no estabelecimento de uma relação terapêutica. desde o primeiro momento. sua contribuição para o estabelecimento de uma relação de trabalho. em sua comunicação com o paciente. . fomentadora de condutas resistenciais e fenô­ menos regressivos. 72). além de claro e explícito.) e que. b) efetuar uma devolução diagnóstico-prognóstica.

que não deve permanecer circunscrita ao diag­ nóstico clínico.B. ou seja. os sintomas que a acompanham. que logo poderá ser dirigida ou semidirigida quando for necessário obter determinados dados do paciente (antecedentes familiares e pessoais). psicoterapia em que predomine o insight ou de apoio. Será conveniente obter amplas informações sobre os antecedentes dessa situação-problema. cabe recomen­ dar a adoção de um modelo de anamnese cromo ponto de referên­ cia. é necessário realizar uma indagação exaustiva dos dados do paciente. Se se decide pela realização de uma terapia de duração limita­ da. os fatores desencadeantes.).Entrevistas preliminares 65 A história clinica Em P. Convém assinalar o interesse particular de quese reveste em P. em relação à sua história de vida. Uma história clínica em que se leva em conta esta indicação poderá oferecer-nos elementos valiosos para com­ preender melhor a natureza dos problemas atuais do paciente.B. com maior razão ainda. de grupo. psicoterapia prolongada. insuficiente para efetuar a formulação prognosti­ ca e a indicação terapêutica (psicoterapia breve. A respeito da metodologia a ser empregada. modos patológicos e repetitivos de conduta. etc. um conhecimento . Avaliação diagnostica e prognostica Avaliação diagnostica É preciso efetuar uma ampla e minuciosa avaliação diagnos­ tica do paciente. através dos momentos livres da entrevista. a escolha de objetivos e o planejamento do tratamen­ to-. mediante a descoberta de situações traumáticas. etc. embora isso não implique que se tenha de seguir uma ordem rígida para interrogar o paciente. O habituaf é que este se ache ligado à situação-problema que dará lugar ao tratamento. etc. Essas averiguações podem ser reali­ zadas deixando-se em primeiro lugar que o paciente exponha li­ vremente suas dificuldades atuais. esta demandará. a indagação do motivo da consulta.

66 Psicoterapia breve de orientação psicanalíticu prévio do paciente o mais profundo possível (hipótese psicodinâmica inicial) para organizar o plano terapêutico correspondente. no que diz respeito à sua qualidade e intensidade e . por meio do trabalho terapêutico. além disso. eletroencefalográfico. Consideramos aqui: 1) O diagnóstico nosográfico-dinâmico. o qual. que as circunstâncias requeiram (exame médico geral. e suas debilidades. para que o paciente adquira ou recupere as capacidades egóicas que lhe faltam. sua inci­ dência na problemática atuãlT ãíém da influência que possa exer­ cer o meio ambiente. que inclui as condições egóicas. que serão os aliados do terapeuta. memória. Exem­ plo: depressão reativa num neurótico obsessivo. aos quais podem somar-se outros exames. quer dizer.). Uma avaliação das condições egóicas. elas serão examinadas. Em psicoterapia breve interessa indagar principalmente: <^a) AsJunções egóicas básicas (percepção. psicopatia. Os elementos necessários para os distintos diagnósticos devem ser obtidos basicamente por meio de entrevistas clínicas e de testes psicológicos.). Segundo Bellak e Small. atenção. E elementar que estas funções se apresentem cm condições mínimas para tomar possível a psicoterapia. caracteropatia. Devem incluir-se também: O diagnóstico do tipo de grupo familiar de origem. procurará contribuir. cuja personalida­ de apresenta um predomínio de traços paranóide-obsessivos. Este último fato permitirá que se tomem os cui­ dados necessários diante das prováveis dificuldades que pode­ riam sobrevir durante o tratamento. etc. neurológi­ co. 2) A avaliação do grau de moti­ vação para o tratamento e de atitudes para o “insigfit”. O diagnóstico nosográfico-dinâmico Implica o diagnóstico atual da enfermidade do paciente (neu­ rose. para a qual se investi­ gam os recursos de que dispõe o ego do paciente. seus aspectos adultos ou sadios. psicose) e de personalidade. compondo na realidade um diagnóstico psicossociopatológico. pensamento. etc. 3) A deter­ minação do foco. b) As relações objetais.

a partir da conduta evidenciada pelo paciente durante as entrevistas clínicas. da história de suas relações interpessoais. em certa medida. a varie­ dade de mecanismos defensivos tornará favoráveis as perspecti­ vas prognosticas. de nossa contratransferência e dos dados fornecidos pelos testes psi­ cológicos. aumento do número de sessões em outro. e que repercussão tive­ ram nele). para o plane­ jamento e para o prognóstico. devendo o trabalho terapêutico resultar numa elevação da mesma. K . os que procuram terapia apresentam uma diminuição da auto-estima. Essas indagações são de grande valor para efetuar um prognóstico e uma estratégia terapêutica. as características da relaçào transferen­ cial durante a terapia. assim como sua capacida­ de para superar sem maiores conseqüências o luto causado por sua separação do terapeuta no fim da terapia (convirá averiguar a existência dc lutos na história do paciente. Será necessário precisar as principais defesas empregadas pelo paciente. recordações. {I d) A tolerância à ansiedade e àfrustração. de suas fantasias. e muito especialmente o momento do término da terapia e do desligamen­ to do terapeuta. sonhos. estar diminuído.e) Os mecanismos defensivos. para comprovar sua reação às mesmas). nas primeiras entrevistas. determinação que é de grande importância para a indicação terapêutica. será necesfário tomar certas medidas terapêuticas (emprego de técnicas dramáticas em um. em contrapartida. etc. Em ambos os casos. pode-se apelar para diversos recursos. . porque nos permitem prever. Em geral. Exemplo: um repertório reduzido de defesas estereotipadas será um elemento prognóstico desfavo­ rável para uma psicoterapia de insight. Trata-se de detec­ tar as condições do paciente para tolerar uma psicoterapia interpretativa. 24 c) O controle de impulsos. f) A regulação da auto-estima. a maior ou menor capacidade do paciente para estabelecer uma boa relaçào terapêutica.). em virtude da mobilização afetiva que esta costuma produzir (para isso. os inconvenientes que nesse sentido podem surgir durante o tratamento. Pode ser excessivo ouí pelo con­ trário. entre cies as interpretações de ensaio [í].Entrevistas preliminares 67 aspectos manifestos e latentes (2).

se o paciente apresenta transtornos ge­ neralizados em todas ou em quase todas as áreas de conduta. de tal forma que não conseguimos destacar um problema ou conflito como ponto de partida. depressões reativas). nos dão uma idéia acerca do grau de motivação do paciente para receber ajuda tera­ pêutica. para assistir às sessões de tratamento. do mesmo modo que a definição dos objetivos terapêuticos. isto é. Diretamente ligado à capacidade de insight do paciente achase seu grau de consciência da enfermidade. A esse respeito cabe assinalar o papel fundamental que de­ sempenha a forma pela qual o entrevistador faz a devolução diagnóstico-prognóstica para o paciente no começo da relação. e em espe­ cial sobre sua motivação e condições para o insight (8). Quando se trata de quadros agudos (neuroses traumáticas. provenientes das entrevistas diagnosti­ cas e da realização dos testes psicológicos. a escolha e a demarcação do foco são facilitadas.6H Psicoterapia hreve de orientação psicanalitica Finalmente chegaremos à avaliação da potência e plasticida­ de do ego. passo tecnicamente essencial para nosso trabalho terapêutico pos­ terior. A motivação para o trabalho terapêutico é susceptível de ser estimulada durante as primeiras entrevistas e no decorrer do trata­ mento. que também terá de ser detectado. Suas res­ postas às interpretações de ensaio (1) e assinalamentos nos darão a medida de sua capacidade de auto-observação. Determinação do foco Trata-se da possibilidade de precisar e delimitar um foco. sua resistência ou sua permeabilidade ante as intervenções do terapeuta. Outras vezes torna-se mais dificultosa. que devem resolver-se através do tratamen­ to. sobretudo se não há uma situação definida . Avaliação do grau de motivação para o tratamento e das atitudes para o "insight” Diversos indicadores.

às vezes fica ampla­ mente compensado. Papel do psicodiagnóstico Embora este não seja meu campo específico de atividade. já que esta última não é outra coisa senão uma hipótese diag­ nostica integral. em outras palavras. um conhecimento amplo e profundo acerca do paciente. Daí que a aplicação de testes deveria efetuarse de maneira sistemática em pacientes para os quais se prevê a realização de um tratamento breve e planejado. desejo fazer algumas considerações a respeito3. com a base num plano de trabalho determinado. quando se deve empreender uma psicoterapia de duração limitada5.Entrevistas preliminares 69 I de urgência que predomine. A aplicação de testes psicológicos é muito útil para o diag­ nóstico. nâo encontramos “a ponta do novelo” para abordar o caso através de uma terapia setorial (trata-se de indivíduos com sérias alterações de personali­ dade. Sou dos que pensam que o tempo investido no processo psicodiagnóstico. de antemão. essa aplicação adquire suma importância no planejamento terapêutico. como num tratamento analítico. prognóstico e para as indicações e contra-indicaçôes da terapia breve. coloca-se a necessidade de se obter.B. enquanto os diferentes diagnósticos e avaliações citados até «qui constituem as versões interpretativas parciais de tal formulação. não haverá tempo para esperar a emergência de certos conteúdos. cuja enfermidade data de muitos anos. Sobretudo se a terapia é de duração limitada. A determinação do foco e o aprofundamento em sua conflitiva engloba o diagnóstico do ponto de urgência e acha-se por sua vez compreendida dentro da formulação psicodinâmica antecipa­ da . pelo menos em seus traços princi­ pais. Quando se recomendà esse tipo de tratamento. que facilite a formulação da hipótese psicodinâmica ini­ cial e conseqüentemente nossa tarefa terapêutica. . ou pelo menos nos casos em que se esbarre com dificuldades diagnosticas e/ou tera­ pêuticas4. boderline ou neuróticos crônicos). Tenho dito e o repito: em P. em geral caracteropatas. ainda que considerável.

na realidade. a partir dos dados obtidos (sobre o tipo de tratamento. A bateria de testes a ser empregada pode constar do Teste de Rorscharch (5) (7) (10). e apreciações prognósticas. Os dados que se extraem são muitos e valiosos: diagnóstico da personalidade c do quadro psicopatológico. os mecanismos defensivos. etc. Avaliação prognostica Em geral é possível realizar uma avaliação prognostica. desiderativo.T. desenho livre. acrescentem-se os testes de inteligência.A. cuja duração poderá eventualmente abreviar-se no alcance dos objeti­ vos propostos. so­ bretudo do momento ou quadro atual que motiva o tratamento. influirão especialmente as diversas condições diagnosticas a respeito dos aspectos já citados. como. capacidade de insight. a força do ego. do terapeuta e do âmbito assistencial em que tenha lugar (hospi­ tal. e completar-se com o de Bender. São_elementos para um prognóstico favorável: — . etc. clínica. condições egóicas. Dentro destas últimas. [5]). pois a riqueza dos dados que podem ser obtidos não só pode contribuir para a consecução de bons resultados. a tolerância à ansiedade e à frustração. figura huma­ na. Os resultados deste dependerão de fatores provenientes do paciente. psicodinamismos. sexo do tera­ peuta. mas também para agilizar o processo terapêutico. Também poderão efetuar-se recomendações terapêuticas. especialmente quanto à capacidade de suportar a separação do terapeuta6.70 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica Embora pareça contraditório destinar um número apreciável de horas à realização do psicodiagnóstico quando se trata de pou­ par tempo (como ocorre no caso das terapias hospitalares de curto prazo).)7. o Phillipson ou o T. Quando as circunstâncias o aconse­ lhem. e não de maneira isolada. etc. consultório particular). não o é. Tais fatores devem ser consi­ derados sempre em conjunto. Com relação ao paciente. por exemplo. casal. do Teste das Relações Objetais de Phillipson (5) (10) ou do Teste de Apercepção Temática de Murray (5). o psicodiagnóstico descreve as características das relações objetais (por diversos indícios dos testes projetivos.

• Condições favoráveis do meio familiar e social para o desenvolvimento da tarefa terapêutica e aceitação das mudanças do paciente. (ver capítulo L4). que se trate de um “momento propício” numa enfermidade relativamente crônica. capacidade de estabelecer boas relações objetais e de tolerar adequadamente a separação que sobrevirá ao finalizar-se a terapia (relação transferencial com grau leve de ambivalência e dependência).B. segundo estas pareçam ou não alcançáveis dentro das condições gerais que regerão o traba­ lho terapêutico. plasticidade de defesas. • Leveza e limitação da patologia (3). Com relação ao terapeuta. equipe de profissionais. Com relação ao contexto assistência!interessam as possibi­ lidades terapêuticas que oferece em seus aspectos temporais. mesmo nos casos que apresentem certa gravidade (8). além disso. • Alto grau de motivação para o tratamento. existe uma contratransferência positiva que facilita a instauração dc um bom vínculo com o paciente.e mesmo que tenha sido outro o pro­ fissional que realizou as entrevistas clínicas. deve ser feito em fimção das metas combinadas. como assinala Courtenay (3). além de este reunir as condições necessárias para o exercício da P. em nenhum caso deveria se omitir (12) . É claro que o prognóstico terapêutico. as perspectivas prognosticas são favoráveis quando. A devolução diagnóstico-prognóstica Além da devolução dos dados do psicodiagnóstico. cabe uma nova devo­ . a cargo do psicólogo que o efetuou .que por diversas razões. • Possibilidade de determinar ofoco antecipadamente (antes de iniciado o tratamento ou em suas primeiras sessões)*.Entrevistas preliminares ___ ______ ______ ______ _______ _______ _______ _____ • Início recente e agudo do sofrimento ou problema atual a ser abordado ou. com funções básicas em bom estado. • Capacidade de insight. • Egoforte. es­ paciais. etc. etc. Incide conside­ ravelmente na produção de bons resultados terapêuficos.

com o que além disso se irá delineando o provável foco terapêutico. Mencionarei. b) Fornecer-lhe certo esclarecimento preliminar a respeito de sua problemática. uma vez combinadas. impressões gerais a respeito de sua pro­ blemática. Trata-se de uma nova contribuição em busca de uma aliança de trabalho. procurando compreendê-las. Para isso pode-se recorrer às interpretações denominadas panorâmicas (4). psicodinamismos subjacentes à situação-problema. O entrevistador transmitirá oralmente ao paciente. sem se estender nem aprofundar em demasia.72 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica lução da parte deste último. Esta segunda devolução é resultante da tare­ fa desenvolvida em equipe e deve antes de tudo manter coerência com relação à devolução psicodiagnóstica. além dos aspectos diagnósticos. que será a escolha de metas te­ rapêuticas. d) Facilitar o passo seguinte. já que não é proveitoso fazê-lo nesta etapa. de maneira global. o conflito do qual julgamos poderiam surgir tais metas. a qual naturalmente será baseada nas conclusões a que chegou. que permitem esboçar.) Como foi dito. mas tam­ bém como conseqüência do emprego dos diferentes meios auxi­ liares de diagnóstico. deve abranger referências ao prognóstico capazes de tranqüilizar e reanimar o paciente. a seguir. Poderíamos reiterar o mesmo com relação às metas tera­ pêuticas. . a devo­ lução será centrada naquilo que em nossa opinião deve converterse na problemática central do tratamento. Isto lhe dará a idéia de que podemos oferecer-lhe nossa ajuda e de que tem possibilidade de resolver seus sofrimentos ou pelo menos de ali­ viá-los. e em parte sugerir. serão transmitidas ao paciente apenas algu­ mas apreciações acerca dc sua problemática. nào só depois das entrevistas. numa lin­ guagem simples e clara. (Em outras palavras. alguns dos objetivos de tal con­ duta: » a) Fazer o paciente sentir que se presta atenção nele e se pensa em suas dificuldades. A devolução. ao lhe apresentar. c) Reforçar sua motivação para entender e resolver suas difi­ culdades por meio da psicoterapia.

Também dirá que se procurará melhorar seu estado de ânimo e esclarecer também o que sucede com sua família. já se terá formulado ao paciente perguntas. Por exemplo. etc. de acordo com a ordem cronológica em que se procure alcançálos. se tiverem ou não sido verbalizados e com- . dirá ao paciente que entre ambos poderiam tratar de esclarecer por que ele sente tanto temor quan­ do lhe solicitam qualquer tarefa em' seu emprego e de conseguir que enfrente essas situações de forma mais adequada. Poder-se-ão classificar como primordiais e secundários. Com essa finalidade. dasjquais pro­ vêm os objetivos que ele se coloca. até chegar a estabelecê-los claramente e de comum acordo. e em explícitos e implícitos. em revelar o significado inconsciente de tal conduta e atacar determinados mecanismos defensivos. em imediatos e mediatos. segundo sua importância. paciente e entrevistador trocarão opiniões acerca dos possíveis objetivos da terapia a ser realizada. seguindo. um escalonamento estratégico. É preciso que os objetivos a que se proponham sejam presu­ mivelmente alcançáveis. o tera­ peuta deve formular os fins terapêuticos de um ponto de vista psicodinâmico: em um caso pensará sobretudo em elevar a auto-estima. num tercei­ ro. O terapeuta se referirá aos objetivos do modo mais claro e simples possível. etc. se necessário. Paralelamente. Isso não exclui que por meio de devolu­ ção efetuada se tente chamar sua atenção sobre determinada “conflitiva” e acrescentar sua motivação para enfrentá-la. como: Que expectativas tem acerca do tratamento? Em que problemas você crê necessitar de ajuda? Em que supõe que tem de consistir essa ajuda?. As respostas correspondentes nos darão além disso alguma idéia de suas fantasias a respeito de enfermidade e de cura.Entrevistaspreliminares__ _____ ______ ______ ______ ______ _ Contrato sobre as metas terapêuticas e a duração do tratamento Depois de efetuada a devolução diagnostica. em outro. etc. assim como de suajrnotivação e capacidade de insight. Devem-se em princípio conhecer e levar em conta os pontos de vista do paciente acerca das metas do tratamento. equivocados ou não segundo nosso julgamento. isto é. que se ajustem às possibilidades que oferecem paciente e terapeuta e às condições gerais em que terá lugar a terapia. em atenuar as exigências superegóicas.

Ulloa (13). que estabelecem prazos para os tratamentos geralmente de modo convencional e que correspondem a necessidades organizacionais dentro do planejamento assistencial que tais instituições adotam (de 3.12 meses. colocam. que inclusive podem ter motivado o tratamento. A isso se tem referi­ do. não efetuar V nenhum tratamento9. ou postergá-los para uma segunda etapa.6. Esses fins. por exemplo. por sua vez. situações próprias do paciente. • Em muitas oportunidades. • Em outras ocasiões. a duração do tratamento depende do que o terapeuta e o paciente resolvam. que sur­ gem em cada caso. Assim.4 _____ Psicoterapia breve de orientação psicanalitica binados cora o paciente. poderá contar ou não com um final prefixado. caso em que o terapeuta deverá renunciar aos propósitos terapêuticos que tinha previa­ mente. diferenciados dos particulares. entre nós. que se apresentam especialmente no consultório particular. também constituem por conseguinte objeti­ vos terapêuticos gerais. Em lugar de encarregar da duração do . A duração de um tratamento breve varia segundo as circuns­ tâncias: • Pode estar predeterminada por modalidades institucionais.). uma limitação temporal espontânea ao mesmo: acontecimen­ tos como uma viagem. poderão determinar uma finalização obrigatória. (Toda terapia breve de insight pressupõe a existência de fins terapêuticos inerentes à natureza mesma do processo. Não só os objetivos. quase cons­ tantemente presentes. c) se as dissidências forem muito grandes. por exemplo. dentro do possível. que atuam naquele como ordens). etc. por acaso também adequada. de um pseudo-acordo por submis­ são do paciente às sugestões do terapeuta. ser estabelecidos de comum acordo entre terapeuta e paciente. mas também a duração do tratamento deveriam. cabem várias alternativas: / a) aceitar o que propõe o paciente.) Quando não se chega a um acordo real sobre as metas da te­ rapia (pode tratar-se. b) realizar uma tarefa de esclarecimento que tenda a motivar o paciente a emj preender uma terapia com base nas metas que consideram conve­ nientes. que o paciente alcance maior consciência da enfermidade ou eleve sua auto-estima. antes de seu início. inclusive.

o terapeuta deve procurar.Entrevistas preliminares 75 tratamento fatores alheios à situação mesma do paciente. o melhor será não limitá-la. pode ser conve­ niente determinar uma data exata . ou que este tenha a impressão de que é imposta pelo terapeuta. mas às vezes ocorre o contrário: para antepacientes que apresentem uma atitude receosa e. se se fixa um prazo. Por último. Com freqüência.não muito longínqua . a fim de a elaborarem conjuntamente. Fixar previamente uma data para o término da terapia supõe vantagens e desvantagens. sg.para a finalização. do que quando se acham ante uma terapia de duração indeterminada. sendo até possível que depois dese­ jem prolongá-lo./ . seus fins não se cumprirem)10. tranqüiliza-os saber. Isso não implica que aceitaremos ingenuamente as idéias do paciente. o mais comum é que a abandonem em algum momento ou que simplesmente não a ini­ ciem. Em contrapartida. de desconfiança (habitualmen­ te com marcados traços fóbicos ou paranóicos). os quais em princípio não concebem que a psicoterapia deva estender-se demasiadamente no tempo para solucionar seus padecimentos. que a mesma guarde relação direta com os objetivos terapêuticos pro­ postos.tempo para um pode não ser para o outro. O que é pouco .assinala Ulloa . como condição primordial. mas que buscaremos soluções depois de uma revisão adequada da situação. Esta situação se apresenta mais comumente em pacientes de es­ trato socioeconômico baixo.ou muito . outras vezes a limitação de tempo parece necessária para estimular e agilizar o trabalho terapêutico do paciente. seus receios diante do tratamento são menores.faz-se com a participação explícita do paciente no nível em que ele esteja capacitado para tal elaboração” (13). com o objetivo de evitar fantasias de ser preso numa armadilha pelo terapeuta. quer dizer. seria pre­ ferível que se pudesse obter uma vez mais a opinião do paciente sobre essa questão. Se não apelarmos com flexi­ bilidade para este recurso estratégico. Quando a duração do tratamento for determinada de antemão. “A fixação do tempo . desde o começo. uma vez chegado o seu término. com o tempo que empiricamente estime neces­ sário para cada paciente alcançar esses objetivos (sem que isso seja um impedimento para efetuar uma recontratação do tratamento. que existe uma data em que o tratamento será concluído/Dessa maneira aceitam com menos dificuldades serem tratados.

89 ss. e que em P.76 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica Além disso. etc. recontrato. que vá mais além do que lhe permite seu senso comum. desconcerto ou estranheza. (Da regra básica de funcionamento ocupo-me no capítulo 6. em vez de resistir. tomando conhecimento da técnica que orien­ tará o trabalho de ambos.) Convém que o paciente tenha uma noção prévia do papel do terapeuta. Fixação das demais normas contratuais É útil oferecer ao paciente uma idéia acerca das característi­ cas do tratamento que terá de seguir. Desse modo. que uma vez ter­ minada a terapia. indicação de outro tratamento. as do terapeuta e eventualmente as da equipe terapêutica. ou seja. No que diz respeito às funções do paciente. realizará. considero que possa ser prejudicial.). pp. que será baseado sobretudo em revelar-lhe aspectos obscuros ou desconhecidos para ele. suas funções. fixação de entrevistas de con­ trole. poder-se-á explicar-lhe que se trata fundamentalmente de ajudá-lo a compreender melhor sua situação. e que a partir daí se resolverá a conduta mais ade­ quada a assumir (separação final. respecti­ vamente. poderá pelo contrário coope­ rar com o terapeuta. que em princípio costu­ mam provocar as interpretações. quais serão. procuraremos fazer com que se familiari­ ze o mais rápido possível com o tratamento e se abrevie a etapa de ansiedade. à intolerância das ansieda­ des provocadas pelo desconhecido. tentando trazer-lhe um ponto de vista diferente.B. para o que ambos levarão em conta seu estado nesse momento. que podem estar provocando e/ou incrementandq seus sofrimentos. O benefício dessa tarefa informativa reside em que o paciente. Quando se pensa em efetuar uma psicoterapia interpretativa. é mister explicar ao paciente. das quais se dará alguma idéia elementar. junto com o terapeuta. Com relação a isso costumo advertir ao pa- . e que isso será efetuado através de interpretações. um balanço dos resultados obtidos. Explicitação do método de trabalho. dever-se-á fazer empenho em explicar-lhe cuidadosa e detalhadamente o que será sua regra básica defuncionamento no decorrer da psicoterapia.

feriados. F.Entrevistas preliminares 77 cicnte que é possível que minhas intervenções. graças a seus conhecimentos e expe­ riência. lhe pareçam apesar de tudo um pouco es­ tranhas. Também convém informar o paciente se se pretende empre­ gar outros recursos terapêuticos (psicofármacos. honorários. Por último. Àlcxander e T. para o terapeuta. Os demais detalhes não diferem do que já se conhece (férias do terapeuta.). das entrevistas de avaliação e do novo psicodiagnóstico. cap. freqüência e duração das sessões. eventualmente. VI.. Com isto tende-se a contrabalançar sua sensação de fra­ casso ao ter de ir à consulta.). Referências bibliográficas 1. . A todos esses esclarecimentos podem agregar-se outros. Paidós. em especial as correspondentes aos aspectos espaço-temporais do enquadramento: posição espacial do terapeuta e paciente (geralmente devem sentar-se frente a frente). horários. 1965. particularmente no início do tratamento. sendo conveniente que se ajuste desde o primeiro momento a uma relação mais “real” com este (9). em F. do lado de fora. que lhe permita en­ frentá-las melhor. Buenos Aires. devem fixar-se as diferentes condições do conta­ to terapêutico. “Indieaciones para la terapia”. não menos benéficos para o desenvolvimento do tratamento: cabe as­ sinalar ao paciente que nossa tentativa de fazê-lo entender suas dificuldades a partir de uma nova perspectiva. comunicando. como também a fantasia de onipotên­ cia do terapeuta. acrescento ante uma sugestão de Montevechio (9) é de se esperar que ao protagonista de uma situação perturbadora resulte difícil compreender com clareza o que está acontecenjio ao seu redor e que. seu sen­ tido e alcance. etc. mas. ainda que minimamente. French. etc. entrevistas com familiares. e que na realidade notará alguma diferença em relação às conversas que mantém habitualmente com as pessoas. Alexander. pode tornar-se pos­ sível entendê-lo e ajudá-lo. datas do térmi­ no do tratamento. Terapêutica psicoanalitica. corresponde ao fato de que tais dificuldades superam suas^possibilidades de solucioná-las jíor sua conta.

Teoria y técnica de psicoterapias. Ocampo e M. n‘. A Study of Brief Psychotherapy. H. Buenos Aires. 1973.) 9. 1968. psicol. Springfield. “Cómo ve cl tratamiento breve un psicólogo clinico”. Montevechio.78 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica Aires. I. . cit. Madrid. “La primera entrevista era psicoterapia breve". 1968. “La recomendación de psicoterapia a partir dei diag­ nóstico psicológico”.. em M. 2. Acta psiq. e García Arzeno. Fiorini. 11. Instituciones y problemas. Tavistock. “El proceso psicodiagnóstico”. Fiorini. “La entrevista de devolución de información”. J.. Âmér. Las técnicas proyectivasy el proceso psicodiagnóstico. Psicoterapias breves.. Nueva Vision. 1974. vol. 11. em 10.1. Comunicación personal. S. Psicoterapia breve. Nueva Vision. L. Citado por L. M. E. PaxMéxico. t.. M. D. cap. em L. E. García Arzeno. 1968. Buenos Aires. 1972. cap. IX. M. em W. Nueva Vision. Buenos .. . 1969. H.. XIV. Sexual Discord in Marriage. em M. R. Centro Editor de América Latina. L. Tavistock.. Buenos Aires. em FI. em 10. L.. e Small. Ocampo e M. García Arzcno. 10. Harrower. Buenos Aires. “Comentário al artículo de Hector Juan Fiorini”. S. ob. L. Gredos. Lat. Ocampo. 8. Granica. O. Ulloa. B. Grimson (comp. Charles Thomas. S. 4. 7. Wolberg. 1963.. Garcia Arzeno. Illinois. 12 . 4. 1973. F. M. Psicoterapia breve y de emergencia. M. t. L. XI. Ocampo e M.) e outros. 1. S. 11 . E. Nuevas perspectivas en salud mental. México. J. 6. ob. E. García Arzeno. cit.’2. Buenos Aires. 5. 13. cap. L. (Versão castelhana: La psicoterapia breve. Friedcnthal. Courtenay. R.. Londres. Comunicación personal. Malan. “Indicadores para la recomendación de terapia breve extraídos de la entrevista devolutiva”. em M. Beliak. 3. E. Londres. H. cap. Small.

Planejamento do tratamento I f A elaboração de um plano terapêutico é uma das característi­ cas que distinguem as psicoterapias breves. que em algumas passagens da Terapêutica psicanalítica chamam ao tratamento breve terapia planejada (2) (3). dever-se-ão considerar fatores como a experiência prévia daquele e sua habilidade no manejo dos distintos recursos (fatores que deverão ser levados em conta em relação a toda a equipe terapêutica). Este consiste no projeto de rima estratégia terapêutica.5. efetuado com o fim de alcançar os objetivos propostos. entre eles French (3) e Alexander (1). será essencial partir dos vários dados obtidos pela avaliação diagnóstico-prognóstica (ver capítulo 4). Com relação ao terapeuta e à instituição. Para conceber a estratégia. o que demonstra a importância que tais autores outorgam ao plane­ jamento. já estaremos em condições de estabelecer um planejamento estratégico adequado. dever-se-ão ter presentes diversos elementos provenientes do paciente. da recolocação das distintas questões técnicas que são suscitadas em . necessariamente. Planejaremos nossa ação terapêutica com base numa estrutura de foco terapêutico inicial. Um programa terapêutico deve surgir. Diversos autores têmse referido à necessidade de planejamento. Com a revisão desses elementos. que terá culminado no desenvolvimento de uma for­ mulação psicodinâmica antecipada (3). assim como as pos­ sibilidades que oferece a instituição. do terapeuta e eventualmente da instituição. Com relação ao paciente.

Inclui a determinação do tipo de psicoterapia a ser aplicada (em que predomine o insight. técnicas dramáticas. etc. etc. os conflitos que vamos abordar. além disso. número e periodicidade'das sessões sema­ nais. aqueles que serão deixados de lado e a provável seqüência de tal abordagem. assinalamentos. cstabelecer-se-á muito especialmente a atitude terapêutica a ser assumida diante dos distintos mecanismos defensivos do paciente (incisiva ou pelo contrário de abstenção. diretiva. Recomendo sobretudo não omi­ tir tudo o que se refira à conclusão do tratamento. O planejamento deve. ainda que elementar e provisória. duração total do tratamento.HO Psicoterapia breve de orientação psicanalítica cada caso particular. do princípio do desen­ volvimento e do final da terapia. os diversos tipos de intervenção do terapeuta (interpretações em suas distintas variantes. irá sendo regulada pelos indicadores que aparecerem no decorrer das ses­ sões. A experiência demons­ tra que é conveniente contar desde o começo com uma idéia ante­ cipada. perguntas. organizar-se-á tudo o que se refere às condições temporais (duração. Outros aspectos relevantes a serem considerados serão: as regras de funcionamento do paciente durante o tratamento (ver capítulo 6).) e o uso de outros recursos terapêuticos (psicofármacos. etc. que em certa medida também deverá ser planejada: será necessário prestar atenção às situações que poderá reviver cada paciente na ocasião de enfrentar o luto pela separação do terapeuta e de acordo com isso ao tipo de relação objetai e ao grau de tolerância à frustração que apresenta. serviço social. muito ativa. e ainda em tarefas a realizar se a evolução do paciente o permitir (a abordagem de determinado conflito subja­ cente. tender para a previsão dos possíveis rumos e das características que pode tomar o processo terapêutico em seus aspectos mais gerais.) que. informa­ ções. Projetar-se-á então alguma tarefa em relação a tal luto que até em sua mínima expressão inclua sempre o assinala- .). sugestões. cautelosa. etc. de fortalecimento egóico ou de apoio). ou inclusive de reforçamento desses). por exemplo).) e espaciais do enquadra­ mento. a atitude geral do terapeuta ante o paciente (cálida. logicamente. Também é útil pensar em possíveis inconvenientes terapêuti­ cos que possam surgir durante o tratamento e na melhor forma de enfrentá-los (3). inclusão de familiares e/ou pessoas que lhe são pró­ ximas.

que além disso será comparti­ lhado precisamente por aqueles. cit. Paidós. Por isso.que devem colocá-lo em prática em seguida. dos demais profissionais que eventualmente intervenham no tra­ tamento. considero que quando numa terapia está envolvida uma equipe de especialistas (dois ou mais profissio­ nais). “Eficacia dei contacto breve”. o terapeuta deverá ser dotado de uma flexibilidade tal que lhe permita itiodificar seus planos quando as circunstâncias o exijam. “Planificación dc la psicoterapia”. IX. Trata-se em suma que a terapia não fique entregue exclusiva­ mente à intuição e à improvisação sobre o seu andamento (2). por­ que de nenhum modo dever-se-á entender que todas essas medi­ das possuem um caráter rígido c inalterável. já que. French. ob. em F. a encarregada de elabo­ rar o programa terapêutico. 3. 2 . F. para poder enfrentar com eficácia as situações mutáveis e inespe­ radas que podem apresentar-se no decorrer do tratamento. 1965. French.Planejamento do tratamento 81 mento da situação de perda. Alexander e T. envolvendo detalhes. Referências bibliográficas 1. em conjunto.. French. Buenos Aires. Alexander e T. em 1. deve ser sempre esta. French. cm F. “Alcance dc la psicoterapia”. cap. cit. pelo contrá­ rio. Alexander. tais como o nú­ mero de sessões semanais a se estabelecerem nas últimas etapas do tratamento (ver capítulo 9). Mas essas alternativas só podem ser previstas até certo ponto. ao ladb do terapeuta. Alexander e T. Terapêuticapsicoanalítica.. O intercâmbio de dados e idéias freqüentemente possibilita uma elaboração mais minuciosa. ob. Finalmente. . VII. T. . em F. em síntese. recordemos que o planejamento cpstuma ser fa­ cilitado e enriquecido pela participação nele. o que resulta essencial para se obter eficácia terapêu­ tica. em 1. profunda e definitivamente mais adequada do projeto terapêutico. cap.

.

em seguida referir-me-ei à regra de funcionamento para o paciente. por último. . de imediato. que terá de ser adotada no decorrer da terapia. inicia-se o tratamento. psicopatológicas e terapêuticas consistentes e ao mesmo tempo "em objetivos e enquadramento definidos. O tratamento [ Introdução Uma vez cumpridas as etapas diagnostica e contratual. examinarei os ele­ mentos psicoterapêuticos verbais. instrumento fundamental na P. Com relaçào aos diferentes aspectos de técnica concernen­ tes ao tratamento propriamente dito.B. figuram algumas reflexões acer­ ca das sessões e de outros recursos terapêuticos. depois abordarei o problema da atenção do terapeuta em relação à tarefa de focalização. entre os quais incluo aqueles em que minha própria experiência é maior (uso de psicodrogas e participação de familiares e/ou pessoas próximas do paciente). dedicando uma maior exten­ são às interpretações. considerar-se-á em primeiro lugar a relaçào paciente-terapeuta. que se apoiará dentro do possível em hipóteses. assim como a de planejamento.6. e ao papel que nesta última poderia caber ao método psicanalítico de associação livre. cujo estudo é ponto de parti­ da obrigatório para a compreensão dos temas subseqüentes. psicanaliticamente orientada.

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Psicoíerapia breve de orientaçãopsicanalitica

A relação paciente-terapeuta no tratamento breve
Referir-me-ei à relação terapêutica na psicoterapia dinâmica breve e às diferenças existentes entre ela e sua correspondente no tratamento psicanalítico. Tomarei como base um resumo que in­ clui a opinião de alguns autores acerca do tema. Para compreender o porquê das particularidades do vínculo terapêutico em P.B., convcm considerar primordialmente o que acontece em relação à transferência e à neurose transferencial re­ gressiva1. Antes de passar a ver como podem ser manejadas em uma terapia breve de orientação psicanalitica, efetuaremos uma rápida revisão das características da relação terapêutica no trata­ mento psicanalítico, que servirá portanto para apontar diferenças significativas. Há, no contexto psicanalítico, condições que facilitam o esta­ belecimento, o desenvolvimento e a análise da neurose transferen­ cial regressiva, a qual, como disse antes (ver capítulo 3, p. 26), é fundamental no processo terapêutico. Assim observamos que: O analista procura manter o anonimato - o que por sua vez contribui para criar um clima de ambigüidade a fim de não en­ torpecer a produção dos fenômenos transferenciais; além disso, trata de adotar uma atitude neutra e relativamente distante, o que também implica promover no paciente uma situação de frustra­ ção; o vínculo é marcadamente assimétrico, fato acentuado, entre outras coisas, pelo uso do divã. Também no aspecto temporal, o enquadramento favorece a dependência regressiva, constando de várias sessões semanais e de uma duração do tratamento, em princípio, não limitada. Com relação à situação espacial, a posição do paciente, dei­ tado no divã, encontra-se ligada a fenômenos regressivos, tais co­ mo o dormir e o meditar, e fomenta, além disso, o desenvolvimen­ to da neurose transferencial, dado que, ao estar o paciente privado de ver o analista, o teste de realidade torna-se mais difícil. A regra fundamental psicanalitica, que consiste no emprego, por parte do paciente, da associação livre, determina neste, por si mesma, um funcionamento mental regressivo. Sob outro ponto de vista cabe acrescentar que, de acordo com Racker (37), ao impli­ car a abolição do rechaço às associações e à sua comunicação e a

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superação das resistências que por isso se vão produzindo, a regra fundamental incide na transferência na situação analítica, confe­ rindo-lhe uma intensidade particular, pois se produz, em conse­ qüência, a projeção dos objetos internos no analista, especialmen­ te do superego. O analista, por sua vez, emprega a atenção flutuante, tenden­ do assim a uma comunicação dc inconsciente para inconsciente (17). Intervém verbalmente, partindo do material que o paciente traz dc maneira espontânea, e sobretudo mediante a interpretação; ante os silêncios, costuma manter uma atitude de espera, permi­ tindo que se prolonguem. As interpretações transferenciais são muito valorizadas, cons­ tituindo, para a maioria dos analistas, o instrumenti técnico es­ sencial, e para alguns inclusive o único com efeitos‘modificado­ res (4). Penso que tais interpretações encorajam o paciente à revi­ são minuciosa e profunda de suas fantasias transferenciais e pro­ movem a revivescência de situações infantis, favorecendo assim o desenvolvimento da neurose de transferência. Na psicoterapia breve, em troca, devem desencorajar-se tan­ to o desenvolvimento da regressão como o da neurose transferen­ cial (ver capítulo 3, pp. 27 s.), e inclusive faz-se necessário con­ trolar dentro do possível a intensidade dos fenômenos regressivotransferenciais. Disso deriva uma série de medidas técnicas que conferem perfis próprios à terapêutica breve. O vínculo que se estabelece com o paciente é mais realista e definido, já que a ambigüidade aqui é inconveniente (11), pois promove situações persecutórias e por isso regressivas. Uma rela­ ção mais baseada na realidade contrabalança as tendências ao es­ tabelecimento de uma relação transferencial neurótica. Fiorini qualificou o papel que o terapeuta deve assumir na psicoterapia de esclarecimento (em boa medida equiparável, de acordo com a descrição deste autor, à terapia dinâmica breve) como papel real de docente experiente, sublinhando assim o que seria, a seu ver, um dos aspectos mais importantes (7). Por parte do terapeuta, e ao contrário do que ocorre no trata­ mento psicanalítico, existe uma maior proximidade afetiva, que sc espera opere positivamente sobre o processo terapêutico. É que cm princípio será preciso que se estabeleça rapidamente um bom

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Psicoterapia breve de orientação psicanalítica

rapport, sobretudo se se trata de uma terapia cujo tempo será limi­ tado; dever-se-á fomentar o rápido desenvolvimento de uma alian­ ça terapêutica , condição básica para aspirar ao êxito. O terapeuta

deverá então, na medida do possível, mostrar-sc moderadamente cálido, oferecer uma imagem confiável e demonstrar interesse pe­ los problemas do paciente. A relação terapêutica exige a manutenção de um delicado equilíbrio entre gratificações e privações do paciente. Deve-sc per­ mitir-lhe certo grau de gratificação de necessidades emocionais (por exemplo, respondendo às perguntas formuladas por ele [42]); do contrário corre-se o perigo de despertar ou incrementar - por causa do ressentimento provocado pela frustração - a produção de reações hostis passíveis de determinar um aumento das resistên­ cias, às quais não teremos tempo suficiente para nos dedicar. Gra­ tificá-lo em demasia pressupõe, do mesmo modo, certos riscos, tais como dificultar a integração da agressividade e favorecer a dependência (33). Dever-se-á, em suma, tender à manutenção de uma relação transferencial positiva sublimada ao longo de toda a terapia (2). Só assim poderemos esperar que o paciente assuma uma atitude de colaboração e possa aceitar e utilizar com proveito as interpre­ tações2. Sentimentos transferenciais de idealização muito intensos podem complicar e prolongar o tratamento; quando juirgejrn, é preciso dissolvê-los prontamente mediante a tarefa interpretativaT Cabe dizer o mesmo a respeito da hostilidade e do erotismo trans­ ferenciais. Finalmente, a relação será menos assimétrica que no trata­ O número reduzido de sessões semanais e a duração limitada e geralmente prefixada do tratamento breve desencorajam a re­ gressão. A posição frente a frente, que é habitual em terapias breves, diferentemente do que se adota em psicanálise (emprego do divã), atua contrapondo-se às tendências do paciente ao desenvolvimen­ to da regressão e da neurose de transferência. (A percepção visual ajuda a que se situe na realidade.) Tal posição aparece, além disso, como a mais adequada ao tipo de comunicação que tem lugar en­ tre paciente e terapeuta nessas terapias, posto que se traduz num
mento psicanalítico.

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intercâmbio verbal fluido, mais próximo de um diálogo corrente queopsicanalítico. Temos recordado que a regra fundamental da psicanálise é um dos fatores que explicam a intensidade particular que a transferên­ cia adquire no tratamento psicanalítico. Como em P.B. se trata de evitar um efeito dessa natureza, considero que tal regra não deve ser empregada do mesmo modo que no tratamento psicanalitico. Mais adiante abordarei exaustivamente esse ponto (pp. 89 ss.). Voltando ao tema da comunicação em.P.B., é preciso assina­ lar a função ativa que o terapeuta tem de exercer, e que será deci­ siva para o alcance de bons resultados. Isto se deve em primeiro lugar à sua possível incidência no vínculo, coadjuvando na manu­ tenção de uma transferência positiva - cm contrast«? com os efei­ tos que teria uma atitude menos participante, que pudesse gerar descontentamento ou hostilidade. Deve-se também ao fato dc que um papel ativo tem importância para a gestão da focalização da tarefa terapêutica (14), dado que comumente é necessário alcan­ çar determinadas metas e se dispõe de tempo limitado para isso. A situação requer certa ativação egóica no paciente, que se consegue precisamente através desse funcionamento ativo, pois nâo pode­ mos esperar demasiado tempo para que vença, por si mesmo, suas dificuldades para se manter numa comunicação terapêutica pro­ dutiva e poder aprofundar-se no conflito em questão. O terapeuta simplesmente tenta agilizar o intercâmbio, procurando produzir um efeito catalisador no processo terapêutico. Ao mesmo tempo deve dedicar-se desde o começo e plenamente a ajudar o paciente a resolver situações perturbadoras de sua vida diária. Com tal fim, recorrerá com freqüência a intervenções não-interpretativas. For­ mulará perguntas, assinalamentos, efetuará sugestões, oferecerá informações. Às vezes terá de tomar a iniciativa na comunicação (12), propondo o tema a ser tratado. (Exemplo: “Vejamos aquilo que você mencionou de passagem na última sessão.” Ou por meio de perguntas: “Como passou este fim de semana? Aconteceu al­ guma coisa especial?”.) E quanto às interpretações, têm de estar dirigidas fundamentalmente ao esclarecimento da conflitiva fo­ cal’. Em suma, o papel do terapeuta é mais ativo e diretivo que na técnica psicanalítica no que concerne à atitude ante o material que o paciente traz. O terapeuta encaminha a exploração em uma de­

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terminada direção, escolhendo entre o material aqwek-ídativQJiQ. foca e descartando o extrafocal4. Em certas ocasiões, pode caber ao terapeuta uma participa­ ção decididamente ativa e direta nos problemas atuais do pacien­ te. Por meio de sugestões, poderá incidir em alguma medida sobre eles. Assim, por exemplo, ante uma situação fobígena talvez con­ sidere necessário, depois que o paciente alcançou certa com­ preensão psicológica do conflito, estimulá-lo a enfrentá-la (27) (49), atitude avalizada já desde 1918 por Freud, com suas reco­ mendações acerca do tratamento das fobias (21), e posteriormente adotada por muitos profissionais na terapia psicanalítica. A res­ peito disso, expressa Ilaley: “A psicanálise dos tempos de Freud não era somente mais breve , mas também mais ativa. Freud esco­ lhia o tema sobre o qual um paciente tinha de associar e quando este obtinha algum insight do problema sugeria-lhe que se mos­ trasse ativo em sua vida pessoal , agora que já dispunha de tal conhecimento” (26)3. (Os grifos são meus.) Em geral evita-se o prolongamento excessivo dos silêncios, não só porque incrementa a ansiedade e a conseqüente regressão (42), mas também porque se trata de utilizar operativamente o tempo disponível. Em particular, os silêncios prolongados do te­ rapeuta podem provocar hostilidade transferencial devido à frus­ tração ocasionada. Ante a posição frente a frente entre terapeuta e paciente, tam­ bém adquirem significação as manifestações pré-verbais do pri­ meiro. E necessário levar em conta a repercussão dos seus gestos e de sua atitude corporal no paciente se se pretende propiciar a produção de uma aliança terapêutica. Wolberg recomenda que o terapeuta dê “livre expressão à sua mímica facial” (48). É claro então que essas contribuições ao processo de tratamento, que po­ deríamos chamar de expressões terapêuticas do terapeuta , como o olhar atento e os gestos que revelam interesse pelo relato do paciente, serão benéficas, desde que sejam espontâneas e não-estudadas. Por último, o tratamento efetuado no contexto institucional e o uso de diferentes recursos terapêuticos, com eventual participa­ ção de outros profissionais ligados ao campo da saúde mental, são fatores que contribuem para modificar as condições da relação

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terapêutica, já que introduzem diversas variantes no campo dos fenômenos transferenciais e contratransferenciais, marcando no­ vas e substanciais diferenças com o que acontece na psicanálise individual (7) (14).

Uma regra básica de funcionamento em psicoterapia breve de orientação psicanalítica
Na técnica psicanalítica, Freud instituiu o método da associa­ ção livre? pelo qual o paciente deve comunicar ao analista o que lhe ocorrer, quer dizer, todos os pensamentos que assomem à sua mente, sem nenhuma restrição. A livre associação é* junto com os sonhos e os atos falhos, uma via facilitadora de acesso ao incons­ ciente. e ao reger de modo praticamente ininterrupto no decorrer do tratamento psicanalítico, configura o que Freud chamou de “regra fundamental”. No terreno das terapias de tempo e objetivos limitados sur­ gem várias interrogações relacionadas com este tema: 1) Qual deve ser a regra de funcionamento para o paciente? 2) Que papel há de lhe caber no procedimerUo da livre associação? Deve-se deixá-la completamente de lado ou, pelo contrário, é necessário empregá-la? Neste último caso, como, do mesmo modo que no tratamento psicanalítico ou diferentemente? Revisando as obras mais destacadas da bibliografia corres­ pondente à psicoterapia breve de orientação psicanalítica, desco­ brimos que, apesar de se tratar de um aspecto técnico de decisiva importância, ou se tem omitido toda a referência à regra da asso­ ciação livre (abundando em troca as considerações sobre outros temas, tais como o papel da transferência, o das interpretações, etc.) ou no máximo registram-se alguns pontos de vista em tomo da mesma - em geral no sentido de não utilizá-la - na maioria das vezes formulados “de passagem” e com certo caráter dogmático. Vejamos alguns deles: “(...) é desacertada essa atitude passiva e abstencionista, como também o c a associação livre (...)”; “Em geral, a falta material de tempo não nos permite empregar os recursos tradicionais da associação livre, passividade e anonima­ to”. (L. Wolberg [48]. Os grifos são meus.) “Não acredito nesses

já que no caso desta última nosso propósi­ to é o de proteger o paciente tanto da regressão como da neurose de transferência. enquanto tal. Já recordei os con­ ceitos de Racker (p. Esse fato é conveniente para o tratamento psicanalíti­ co. “Na psicoterapia rápida. tal como se faz no tratamento psicanalítico) da associação livre em terapias breves. não se explicitam claramente os funda­ mentos em que se sustentam esses critérios7. sus­ tenta que a indicação que se dá ao paciente de “dizer o que lhe venha à mente” raramente parece ser necessária. Analisaremos primeiro as desvantagens. fala em desencorajar a associação livre (34)t No meu entender. pela projeção do .. sobretudo em se tratando de uma psicoterapia breve” (Hoch [28]). da­ rei minha opinião acerca dos problemas que aqui se colocam e que considero que requerem um estudo mais minucioso. sem uma idéia diretriz. ao dar lugar à ime­ diata projeção dos objetos internos no analista.90 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica tratamentos difusos. assemelhando-se a fenômenos como a meditação e o sonho. determina uma maior intensidade de transferência no tratamento psicanalítico. a associação livre. mas não para a P. De minha parte. em especial do su­ perego (37). Também Malan. Produz efeitos regressivos. tais como: a) Incrementar as ansiedades paranóides (entre outros motivos. Em outra parte do livro. não é um instrumento essencial” (Bellak e Small [2]). durante o mesmo. A associação livre no processo psicanalítico favorece a re­ gressão e constitui em si mesma um funcionamento mental re­ gressivo. 84) no sentido de que a abolição do rechaço às associações e à sua comunicação por parte do paciente. O emprego constante do método da associação livre (“regra fundamentar’ da psicanálise) nos tratamentos breves Começarei por examinar as vantagens e as desvantagens que acarretaria o uso constante (desde o começo do tratamento e de modo praticamente continuo. em sua obra sobre psicoterapia breve. pelo emprego da associação livre.B. em que o paciente se senta para discutir a seu bel-prazer qualquer tema que se apresente e a falar praticamente de tudo o que aconteceu e vai acontecer.

Mas cabe agora examinar as vantagens de se adotar a “regra fundamental”. alguns colegas me assinalaram a possibilidade . que ficam então a descoberto. levado pelo curso de suas associações. embora não duvide de que antes de mais nada é preciso que seja o terapeuta quem não perca de vista os objetivos do tratamento. a desconexão . Desse mo­ do. inadequada a essas tera­ pias. em terapia breve. situação que. -reitero. Em grupos de discussão. Sem dúvida.e suposta conveniência .0 tratamento 91 superego sobre o analista e o temor ao próprio e desconhecido que poderá emergir).de que em terapias bre­ ves todo paciente se ajustasse permanentemente à livre associa­ ção sempre que o terapeuta recorresse a intervenções focalizadas. mostrando-lhe a relação . c) Conduzir o paciente à dispersão . deverá ser desencorajada8. além de certo nível pode perturbar consideravelmente um tratamento de duração breve. com o que se respeitaria a essência do procedimento em seu caráter de tera­ pêutica focal. Seriam definidas desde já. na I maioria dos casos não me parece recomendável. Finalmente isso leva a acentuar a dependên­ cia regressiva em relação ao terapeuta. e por conseguinte o que corresponde à conflitiva focal . ele se desvia excessivamente das situa­ ções conflitivas a serem tratadas (sem maior aproveitamento do tempo em função do problema central do tratamento). pelo que. o emprego constante do método da associação livre no tratamento intensificaria os fenômenos transferenciai sregressivos até um ponto indesejável. Sua aplicação pode ser especial­ mente útil quando se trata de pacientés com excessiva tendência à intelectualização. b) Gerar uma atmosfera de ambigüidade. Talvez seja essa uma das poucas situações de exceção em que se poderia apelar para o uso da “regra fundamental”9. quer dizer. fato que pode resultar propício no tratamento para ser utilizado como o “argumento” ou “libreto” conhecido de antemão.o motivo de preocupação não deve ser tanto que .do material com a problemática principal do tratamento. pois nesse caso a defesa pode ser incrementada se têm de se referir a um tema determinado (à situaçào-problema). inclusive os uierentes a situações ou etapas arcaicas. pois permite que aflore material vinculado a outros conflitos relativamente alheios ao foco. também abre brechas no paciente. imagino.ou. pela facilitação do aces­ so aos conteúdos inconscientes. f Em suma. pelo contrário. a qual. a meu ver.

até agora. ainda que seja possível que no caso de uma situação traumática de reconhecida eficácia patogênica as associações livres do paciente girem em sua grande maioria em tomo dela. entrando em aberta contradição com esta como método de trabalho. dados os inconvenientes que o mesmo pode acarretar e que já foram assinalados"'. quer dizer. neste. a “enveredar por outros Raminhos”. razão pela qual a utili/ação da “regra fundamental” psicanalítica poderia dar lugar em alguns momentos ao aprofun­ damento na estrutura focal. que é a usual nessas terapias. graças às quais promove a ativação egóica no paciente (não só através de assinalamentos e interpretações. e não creio que as vantagens provenientes do uso da associação livre. sim. . o que Fiorini chamou de “associa­ ções intencionalmente dirigidas”. sejam argumento suficiente para seu em­ prego sistemático e constante. Assim sendo. como em outros . e em boa medida. acrescento a este requisito os benefícios que comumente oferece o fato de que também o paciente concentre sua atenção desde o princípio nos problemas a resolver. O terapeuta.92 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica o paciente “saia do foco”. mas também sugerindo temas ou fazendo perguntas. como o atesta a experiência clínica psicanalítica (com as denomi­ nadas neuroses traumáticas. estimulará.e insisto neste aspecto . com suas freqüentes inter­ venções. pressupõem a presença de tal situação claramente definida e dc suficiente intensidade traumática. costuma perturbar a associação livre. por exemplo). a focalização conduz a trabalhar sobre associações intencionalmente dirigidas.ao afastamento dela. mas sim que o terapeuta se descuide de relocalizá-lo nele. a eventual conexão entre as associações espontâneas e os elementos focais. o que pode ocorrer na prática das terapias bre­ ves? Que o papel ativo e focalizador desempenhado pelo terapeu­ ta. afirma este autor [8]“. se interponha reduzin­ do ou até deixando sem efeito a associação livre espontânea do paciente. quer dizer. Por outro la­ do.) Assim mesmo. com as conhecidas conseqüências. atuando de modo mais diretivo no que diz respeito à orientação que deverá imprimir ao pensamento do paciente em direção a uma problemática deter­ minada). (“Operativamente. mais do que sobre associações livres”. característica dominante dessas terapias. por exemplo. isto é. o certo é que nem todos os casos tratáveis por meio da PB. a posição frente a frente.

podere­ mos apelar para esses métodos em determinadas circunstâncias. gerando-se um menor montante de ansiedade paranóide. fantasias. como de recordações. a comunicação se verá em geral facilitada. Além disso. Do mesmo modo que com outros recursos da técnica psicanalítica. vivências e sonhos). mas que em princípio convirá que se refiram preferencialmente a tudo aquilo que suponham ter alguma relação com os problemas que combinamos abordar (poderá tratar-se tanto de relatos acerca de fatos atuais da vida deles. Se a norma de funcionamento se baseia nessa premis­ sa. pensamentos variados. Uso operativo do método da associação livre nos tratamentos breves Será necessário descartar quase por completo a utilização da associação livre em terapias breves? Penso que não. costumo formular uma prescrição de trabalho para os pacientes antes de começar o tratamento breve que consiste no seguinte: esclareço-lhes que poderão falar do que desejem. Fromm Reichman (22) escreveu^ “Muitos psicanalistas consideram que uma quantidade suficiente de material dissociado reconhecível chega à superfície e pode ter acesso à consciência no intercâmbio psicoterapêutico mais dirigido. .” Isso significa que. Por esses motivos. Podemos assim dedicarnos de maneira seletiva a seus sofrimentos atuais.0 tratamento propiciando antes o estabelecimento de uma comunicação em que predomina o processo secundário e portanto mais aproximada do que seria um diálogo corrente. o natural e lógico para o paciente é ter que falar ante o terapeuta fundamentalmente de seus sintomas e situações conflitivas. Adoção de uma regra básica de funcionamento para psicoterapias breves F. por mais que a associação livre favoreça a explora|ào do incons­ ciente. isso não implica que sem sua ajuda esta não Seja exeqüível. os quais terão de se converter em tema primordial da terapia (focalizaçâo).

com base no obtido. sentimento. ampliar ou corrigir as hipóteses psicodinâmicas em jogo. Dessa maneira. convidava o paciente a me comunicar as associações que iam surgindo a partir desse material. sim.94 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica Em minha experiência pessoal. Em resumo e com respeito ao destino do método da associa­ ção livre como recurso técnico no campo das terapias breves. etc. mas mediando uma tarefa de “adaptar nossa técnica às novas con­ dições” (21). A manobra em questão tem naturalmente a in­ tenção de aprofundar-se no material correspondente ao foco tera­ pêutico e freqüentemente permite ratificar./ mento no tratamento breve . Essa instrumentalização seletiva do método da associa­ ção livre permite seu aproveitamento. já que é possível exercer certo controle sobre os efeitos regressivos que seu emprego pode­ ria provocar. a aplicação nas psicoterapias de elementos tomados da psicanálise. ao aparecimento de um determinado sintoma. também seríamos conseqüentes a respeito desse ponto com o que Freud propunha em 1918. diferentemente do que resultaria se utilizado cons­ tantemente13. sugerindo-o com determinados pa­ cientes e em determinadas circunstâncias.)12. venho ensaiando isso de maneira isolada nos tratamentos . definidas pelo surgi­ mento de algum elemento significativo . A flexibilidade de que o terapeuta deverá fazer uso há de pos­ sibilitar-lhe a opção de utilizar este recurso técnico quando o con­ sidere oportuno e ante pacientes capazes de responder positiva­ mente ao mesmo14.salvo es­ cassas exceções . os benefícios de um uso limitado e seletivo do procedi­ lugar o processo associativo. fantasia. ato falho. Nesse momento.estar ligado à estrutura focal (podendo relacionar-se a um sonho. quer dizer.e creio necessário alertar a respeito de tal emprego quando corresponde a uma simples transposição da téc­ nica psicanalítica corrente e carece de fundamentos válidos. a fim de se aprofundar na conflitiva focal. £>estaco. a partir do qual poderá ter .tendo-me resultado de suma utilidade perante a emergência de certo material que impressionava como significativo e sobretudo podia supor-se ou inclusive compro­ var-se . não considero adequado o emprego sistemático do mesmo .

conduz o paciente ao foco através do trabalho interpretativo e descarta o material distanciado dele (34)/al estado de atenção seletiva parece certa­ mente o oposto da atenção flutuante recomendada por Freud. repito. evitando na medida do possível privilegiar algum aspecto do material.ainda que. conside­ ro que o emprego de atenção seletiva em P. esta norma poderia selar as características essenciais da relação terapêutica na terapia breve psicanaliticamente orienta­ da. quer dizer. só em caso de pacientes que reve­ lem atitudes^egóicas suficientes para que tal emprego traga bene­ fícios informando-se em detalhe em que consiste o mesmo antes de começar o tratamento. sendo sua finalidade poder des­ cobrir neste as conexões inconscientes (17)/Sem dúvida. a interpretação central em torno da qual deve girar todo o tratamento). 93). poderia então agregar-se a explicitação do even­ tual emprego do método da associação livre em alguns momentos da terapia . à norma ou prescrição de trabalho antes propos­ ta (p. Digressões sobre a focalização e a atenção do terapeuta Tem-se dito que na terapia focal o terapeuta deve empregar uma atenção seletiva. o terapeuta se concentra de preferência no material que aparece mais diretamente ligado à problemática focal. segundo a qual a principal contribuição do paciente será fornecer todo tipo de material que chegue a relacionar com seu sofrimento atual. em virtude da qual tende a conservar men­ talmente um foco (na descrição de Malan. de nenhuma maneira deve implicar a ausência total de atenção flutuante por parte do . Considero que em grande {pedida. as­ sim como a “regra fundamental”. sem focalizar sua atenção. de acordo com o qual o analista deve escutar o analisando. no dizer de Laplanche e Pontalis. p.B. 370).0 tratamento Conformação definitiva de uma regra de funcionamento para psicoterapias breves 95 Finalmente. definindo muito especialmente seu próprio focalizador. A citada norma de funcionamento se ajustaria à» condições próprias da terapia breve. “estrutura a situação analítica” (32) (“Regra fundamen­ tal”. Ao mesmo tempo.

Penso que nessas circunstâncias poder-se-ia questionar muito mais severamente que em outras . justamente para facilitar o aprofundamento na mesma conflitiva focal. valer-se dela. nada arriscaremos. Resulta bastante útil em muitos momentos recuperar justamente a atenção flutuante. corre o risco de se reduzir automática e exclusi­ vamente a uma terapia do prê-consciente. flexivelmente utilizada em P. e ainda para a produção de interpretações focalizadas a partir da contribuição que oferecem as associações espontâneas do terapeuta diante do material focal do paciente. o que torna muito mais difícil mantê-la. conseqüências desfavoráveis para o tra­ tamento. a comunicação terapêutica não seria em momento algum aceitemo-lo ou não a partir dc um ponto dc vista terapêutico. o tratamento breve.a existência de algum grau de insight e dc elabora­ ção do paciente nessas terapias. . a meu ver. na associação livre do paciente e. Sustento que é possível. que ao ver-se inevitavelmente dificultada de maneira parcial pela necessidade estratégica de focalização.e com direito .B. obstacularizados ou impedidos ambos pelo tipo de comunicação estabelecida. assim como da associação livre. o qual requer seu concurso. o qual se sustenta. às vezes não muito apropriada para a ocasião quando nos abandonamos à aten­ ção flutuante). A atenção flutuante do terapeuta. Embora retomemos periodicamente. podendo estereotiparse consideravelmente o intercâmbio verbal terapeuta paciente e empobrecer-se o procedimento em suas possibilidades terapêuti­ cas. muito pelo contrário. não deve por isso ficar anulada no decorrer do pro­ cesso terapêutico toda vez que desejamos preservar em alguma medida um método mais depurado de exploração do inconsciente. já que devemos controlar nossa mímica. Não se empregando a atenção flutuante.de inconsciente para inconsciente.. Se se prescindir por completo da atenção flutuante. mas antes de mais nada coloquemo-lo clara­ mente . à atenção seletiva e implementemos os resultados da atenção flutuante para gerar intervenções focaliza­ das. dc planejamento e de um papel ativo do terapeuta (antes de tudo. como em troca se pro­ cura que seja no tratamento psicanalítico.96 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica terapeuta. no meu entender. para isso. quando seja necessário. pois. o estar cara a cara. Tratarei em seguida de esclarecer um pouco mais esses conceitos. não traz. em contrapartida. na aten­ ção flutuante do analista (17).

solicita-lhe associações livres partindo de tal ele­ mento e se dispõe então a escutá-las com atenção flutuante. conexões. tenha sido tal material trazido de modo espontâneo pelo paciente.0 tratamento 97 Sob essa perspectiva chegamos à proposta do que seria no terapeuta uma combinação sucessiva. No entanto. etc.melhor ainda claramente relacionado (pelo terapeuta) com o focal. tenha de reduzir-se somente a tais circunstâncias. seguidos de momentos dc atenção mais seletiva. operativa e flexível de~momentos de atenção flutuante. como conseqüência da atividade pensante do terapeuta que tem lugar nesse momento (associações. ter como resposta: a) a emergência de mate- .ou não .a formulação de uma interpretação. isso não significa que o emprego da atenção flutuante em P.B. que se alternam de acordo com as vicissitudes cia comunicação terapêutica. poderíamos estabelecer que toda vez que se solicitem associa­ ções livres ao paciente. etc. de onde poderá sobrevir . efe­ tuando uma seleção à qual o paciente tenha renunciado [17]). com retomo final à focalização (atenção seletiva focal) para a conseqüente seleção interna voluntária entre as linhas interpretativas (quando surge mais de uma) do que se rela­ ciona ao eixo terapêutico. sínteses. Como norma elemen­ tar. Em seguida. antepondo nossa própria censura às suas comunicações. Em seguida se dá. pedidos de as­ sociação livre a partir de um elemento. por exemplo). que tem de ser focalizada. Esta poderá.). por exemplo. o terapeuta distingue um elemento focal signifi­ cativo no material do paciente (relativo a um sonho. tem-se de escutá-lo em estado de atenção flutuante (qualquer outra atitude implicaria rieste caso uma incoe­ rência técnica. Uma possível se­ qüência ilustrativa da combinação dos tipos de atenção que pro­ ponho para o trabalho focalizador é a seguinte: em virtude de sua atenção seletiva. pois se nos decidirmos a procurar que circunstan­ cialmente o paciente vença a censura existente entre seu conscien­ te e seu pré-consciente. Creio que de maneira geral o que poderia embasá-la como requisito básico seria o surgimento de material presumível ou . o passo na direção da gestação de uma interpretação. interpretações. tenha apa­ recido como conseqüência de intervenções foealizadoras do tera­ peuta (perguntas. não vamos incorrer no erro jtte substituíla. por sua vez. assinalamentos. ainda que sempre se dê no final um retomo ao estado de atenção se letiva focal.).

apesar da sua indubitável importância. Desse modo. por exemplo. etc. que o terapeuta desenvolverá seu trabalho interpretativo. então. e que é empregando essencialmente esta forma de atenção. de que a atenção seletiva pressupõe a concentração preferencial do terapeuta no material ligado á problemática focaÇestaria irapficüõ o emprego da atenção flutuante para a recepção de tal material).da mesma maneira que o relativo à associação livre . ante o que o terapeuta tem de abandonar-se igualmente à atenção flutuante e reiniciar o ciclo. por parte do terapeuta.° Psicoterapia breve de orientação psicanalítica rial focal (associações dirigidas) (8). facilitando-nos o exercício de nossa atenção flutuante (isto se apresenta do mesmo modo diante dos quadros de neuroses traumáticas. nos quais com freqüência a .sua atenção. em estado de atenção flutuante . atividade pensante com trabalho fmàT de seleção interna do terapeuta (atenção seletiva focal) — » interpre­ tação focalizada — > material focal —>atenção flutuante do tera. que voltou a focalizar automaticamente . mas que na rea­ lidade a dita seleção segue uma recepção. o levará a reencaminhar o paciente ao foco. Esta é a forma pela qual pessoalmente concebo o que sucede .com a atenção do terapeuta na psicoterapia focal. o qual. já que os diver­ sos autores que vêm se referindo a essa técnica se ocuparam pouco ou nada de aclarar esse tema . material do paciente — » focal ização baseada na atenção selcTiva do terapeuta ^ jp edíHrTda associa­ ção livre ao paciente — > atenção flutuante do terapeuta — » gesta­ ção da interpretação. b) resistencialmente.ou deveria suceder . do material focal que sobrevem em continuação. ao transcorrer certo tempo c ser corroborado pelo tera­ peuta. a noção de atenção seletiva na psico­ terapia focal também encerra no fundo a presença de estados de atenção flutuante do terapeuta (no conceito antes mencionado. Mas não podemos extrair algo mais dessa exemplificação? De fato. o distanciamento do foco. a flutuante.^ peuta. c que me parece sumamente necessário explicitar. com ura assinalamento. Em síntese. ou. ela mostra que a atenção seletiva serve basicamente para efetuar uma seleção do material do paciente (em razão de nosso interesse seletivo na problemática focal daquele). Os pacientes que têm certa capacidade para centrar-se na conflitiva focal nos eximem de maiores preocupações e esforços para orientá-los em direção a ela.

da atenção. Elementos psicoterapêuticos verbais Generalidades Em P. Vale a pena preservar nesses procedimentos certo grau de atenção flutuante. que às intervenções tendentes a desencorajar a regres­ são se sigam outras que. A combinação atenção flutuante/atenção seletiva. Há uma regulação .B. a atenção flutuante em P.. por exemplo. pode ser empregada em diferentes momentos terapeuticamente significativos de nosso trabalho15. perguntas e comentários . inerente ao foco terapêutico).. a favoreçam. que pare­ ceria difícil de êoncretizar na prática. as intervenções verbais do terapeuta devem reunir três condições básicas: X 1“) Manter certa coerência interna (7) (13). Quando se cometem tais erros tem-se a impressão de que a terapia breve se converte num expoente da improvisação e da imprudência. que com o tempo se toma auto­ mática.0 tratamento _ __________ ____________________ ______ ____ _________________________________ maior parte do material trazido está vinculada mais ou menos diretamente à situação traumática. tudo isso possibili­ tando o progresso terapêutico. É inaceitável. quer dizer. colocação seletiva consciente de material focal e associações livres a partir de um elemento focal. pode dar-se em grau satisfa­ tório e de modo quase espontâneo em terapeutas convenientemen­ te treinados. Os assinalamentos. Em suma. A combinação que sugiro tem seu correlato no que foi pro­ posto para o paciente. como vimos. pelo contrário. para os fins de aprofundar a elucidação dos psicodinamismos focais e de dar lugar à produção de intervenções focalizadas. v 2?) Constituir-se de uma proporção elevada de intervenções não-interpretativas. Isso quer dizer que de um ponto de vista dinâmico não é admissível que haja con­ tradições no emprego das diferentes intervenções do terapeuta. capitalizada.B. segundo as formas em que se vão cjiando as seqüências. as quais devem responder a uma estratégia terapêutica elaborada de acordo com as necessidades de cada caso.

Tratase de uma premissa essencial dessas terapias. Considera-se desse modo que se deva reafirmar uma relação terapeuta-paciente em termos de realidade e de uma menor assime­ tria. ^ 3?) Estar focalizadas. Atenuação dos efeitos regressivos. além disso. Dessa maneira serão tam­ bém focalizadoras em seus efeitos.B. Por outro lado. apelar com freqüência para intervenções nãointerpretativas constitui uma clara expressão do papel ativo e focalizador do psicoterapeuta nesse tipo de terapia. As interpretações na psicoterapia breve de orientação psicanalitica Ainda é objeto de viva discussão tudo o que concerne às interpretações em P. Dentre as diferentes intervenções do terapeuta. c) O terapeuta diante do trabalho interpretativo. . As intervenções. c) Variantes qualitativas nas interpretações. deverão estar de preferência focalizadas.100 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica que estimulam o intercâmbio verbal têm de ser empregados com uma freqüência maior do que na psicanálise tradicional. quer dizer. d) Interpretação dos sonhos. me ocuparei detalhadamente das interpretações. a fim de contrabalançar os efeitos da estimulação da dependência que um uso quase exclusivo de interpretações poderia trazer associado. interpretativas ou não. já que estimulam a colocação por parte do paciente de material relacionado com o foco. como acontece quando se segue uma direção definida e previamente incluída nu­ ma estratégia terapêutica determinada. b) Interpretações e transferências. meus pontos de vista a res­ peito. dirigidas seletivamente à problemática focal16. A apresentação do tema será feita na seguinte ordem: a) Introdução. mencionando sucintamente as restantes. mediante a qual se procura centralizar o trabalho terapêutico nos problemas vitais e atuais do paciente e não abrir nele outras brechas. Examinarei aqui as contribuições de di­ versos autores e exporei.

o elemento terapêutico essencial. por serem es­ tas indutorãTdã^dependencia regressiva. efetuando-se ocasional e prudentemente como experiência (48)1R . Numa palavra. pois o objetivo principal continua sen­ do a busca de insight no paciente (sem que por isso se desconheça terapêutico na P. um tratamento coloca a necessidade de se atingirem certos níveis de profundidade para que os objetivos terapêuticos propostos possam ser alcançados. comumentc. E conveniente então avaliar antes a capacidade do paciente para assimilar inter­ pretações desse teor. de orientação psicanalítica. partindo das idéias de Rogers (40). dado o número relativamente reduzido de sessões semanais e. que toda interpretação.ão acentuadamente dependente do paciente em relação ao terapeuta. sugestões. parece conveniente que em P. favorece o estabelecimento de uma rel£y. se alter­ nem em maior medida com outros tipos de intervenção verbal (assinalamentos. seja ou nào “trans­ ferencial”. por exemplo.0 tratamento a) Introdução 101 Em primeiro lugar pode-se colocar a que lugar. interpretações “profundas” podem. Quanto à sua profundidade !7. capazes de relocalizar o paciente uma vez ou outra em sua condição de adulto e nu­ ma relação menos assimétrica com o terapeuta. A meu ver deve ser a incidência de outros mecanismos terapêuticos. em ordem de importância. é desejável que o tratamento nãd/se reduza a um empregoExclusi­ vamente sustentado ou baseado enTInterpretacões. minha impressão é de que habitualmente é limitada pelas próprias características do enqua­ dramento. será preciso tam­ bém contar com a possibilidade de que se produzam reações des­ favoráveis pelo incremento das resistências. que em minha opinião têm um papel secundário). o curto prazo do tratamento. indu­ zir a estados regressivos de certa consideração. Não obstante.B.). como na psicanálise. etc. as interpretações. perguntas. caberia insistir em algumas considerações a respeito.B. Além dis­ so. em algu­ mas oportunidades. Se aceitamos. . em certas ocasiões. dificuldades para se exercer controle sobre as ansiedades que o paciente sofre por efeito das interpretações. corresponde a interpretação como instrumento a ferramenta fundamental. sem’deixar de ser. Pois bem. Existem.

vamos analisar o papel das interpretações “extratransferenciais” na terapêutica breve. Poderíamos dizer que o é tanto na superfície (ao ser focalizado) como em profundidade (não abarcando certos aspectos dos conflitos centrais do trata­ mento. O que ocorre é que em psicanálise as interpretações “extratransferenciais” quase sempre têm sido. de insight é limitado em com­ paração com o que tem lugar na análise. às transferências19. melhor dizendo. Além disso. atribuindo-se- . A meu ver podem configurar sem dúvi­ da um recurso válido. b) Interpretações e transferências Um dos aspectos mais importantes e polêmicos da teoria da técnica da PB. diz respeito aos tipos de interpretação que devem ser utilizados no que se refere à transferência ou. sobretudo os que se acham ligados a conteúdos muito re­ primidos). as que na técnica psi­ canalítica não costumam ser levadas muito em conta ou são dire­ tamente desestimuladas. usual e importante no trabalho interpretativo. etc. a qual. filhos.102 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica O trabalho terapêutico na P. desenvolvidas em qualquer pessoa com quem se relaciona em sua vida diária (cônjuge. como sabemos. devemos nos dedicar à tarefa de resolver problemas atuais da realidade externa do paciente mediante a análise e a conseqüente busca de insight a respeito da natureza das situações conflitivas que apre­ sentam suas transferências .). Mas o emprego dessas interpretações parece requerer toda­ via fundamentos teóricos suficientemente sólidos. Isso obedece ao fato de que. os pormenores do uso das denomina­ das interpretações “transferenciais” e “extratransferenciais”-. Interpretações "extratransferenciais " Em primeiro lugar. ignora a maior parte das manifestações inerentes à neurose de transferência. al­ cança pouco ou nenhum desenvolvimento no tratamento breve.B. pais. em matéria de terapias breves. chefes. e não carecem de valor para o tratamento psicanalítico. como disse antes. Examinaremos. subestimadas. agora.n.

Esse autor resgata seus fundamentos teórico-técnicos. tenho selecionado aqueles que me parecem mais eloqüentes e ilustrativos (25). e que a meta da análise é a busca do objeto transferido para este em suas múltiplas variantes e em seu interjogo com o analisado. nesse momento (1973) em que trabalham partindo da hipótese de que tudo o que o paciente diz se refere ao analista. por serem as mais descuidadas pela psicanálise em seu esquema teórico). mas.esclarece . Guiter. .continua Guiter vou afastarme da maneira tradicional de trabalhar (talvez melhor do que tra­ balhar. dado que as necessidades da prática psicoterapêutica obrigam o analista a sair e ampliar sua estreita margem conceituai) de muitos psicanalistas de nosso país. Ao dizer isto . Em que p<|sc sua ex­ tensão. Não estou de acordo com essa maneira de trabalhar. Freud confe­ ria grande valor à transferência. nem das recordações. partindo da revisão de pontos essenciais do pensamento freudiano. quero transcrevê-los. já que disso dependerão em gran­ de parte a validade e o alcance terapêutico que adjudiquemos à técnica breve que apele freqüentemente para as interpretações mencionada».as interpretações que se referem à vida atual do paciente.0 tratamento 103 lhes um valor muito secundário na cura. passada ou futura com o paciente (ainda vou enfatizar . Depois começa a expor seus pontos de vista cm torno das interpretações que operam “centrando o ponto de urgência fora da transferência ao psicanalista”. como elemento incluído dentro de uma totalidade englobada pela reconstrução. as que fazem alusão a “transferên­ cias” a outras pessoas em relação atual. expõe conceitos que permi­ tem reivindicar as interpretações “extratransferenciais” em sua significação terapêutica dentro do tratamento psicanalítico (25). Entre nós. pois sua menção resulta‘/mais que oportuna ao abordar este tema: “A análise é uma investigação do inconsciente. Não da trans­ ferência. o que se reveste de singular importância. Dos pensamentos de Guiter acerca das interpretações não relacionadas com o analista. em comparação com as “transferências”. Um claro exemplo disso é a posição adotada por Strachey (41). devesse dizer teorizar acerca de técnica. contemporâneas à situação analítica. a meu ver. nem de nenhuma circunstância em paiJjcliJã*3* —~ .

pois o nível do conflito nesse momento não se relaciona com cie” (grifos do autor). o elemento estimulador pode ser comparado a um resíduo diurno). agora e comigo” é. alheios ao analista. tanto mais se pode tomar essa técnica como defesa.) De modo que. no primeiro. o paciente sempre é um menino de quem o analista é um pai. regressões patológicas. enquanto “na sessão.” (Assinala antes. ao grau de veracidade acerca do que o paciente nos relata ou à circunstância de que se trate de “um fato que já passou”. não é forçoso que seja com o analista. iatrogenicamente.. mas não a regressão útil. sem ver as transfe­ rências em outra parte. a situação é presente”). nesse nível. para mim.. Guiter refuta as críticas que se formulam contra essa modalidade de trabalho (no que concerne ao favorecimento de “atuações”. e se fomenta. OJ^aqui. que mesmo Freud “inter­ pretava transferências em outros contextos”. reduz-se ao mínimo a relaçào adulta (ou sã) entre o paciente e o analista. Dessa maneira.) Prossegue dizendo: “Outro problema que se coloca é este: se tudo o que o paciente diz se relaciona com seu analista. Por razões de espaço abstenho-me de transcrever a passagem correspondente. quanto mais se interprete o paciente em relação ao analista. de modo que. e quase tudo o que ocorre na sessão é transferência.104 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica J que inclui também o histórico próximo e distante da vida do paciente. e essas excita­ ções podem então ter-se originado na relação com processos reais ou transferenciais. quando um paciente vem à sessão pode chegar estimulado por excitações que ultrapassam sua capacidade de elaboração (e que traz para elaborar na sessão). somente uma pade do processo analítica -----------— “O paciente vem a sessão estimulado pela angústia ocasiona­ da por um determinado problema com raízes no passado e estimu­ lado a partir do presente.” “(. Penso então que a missão do analista é interpretar esses fatos sem incluir-se. Esse presente pode estar constituído pelo próprio analista ou por qualquer estímulo do dia ou dias ante­ riores (equiparando-o a um sonho. . a regressão. o que se consegue é adoecer mais o paciente. Mais adiante expressa: “A transferência pode acontecer em qualquer parte. fomentando. Mais ainda. Continuando.

em psicanálise. a interpreta­ ções que a desvelem e clarifiquem parcialmente só em determina- . avaliza com acréscimos o emprego das interpretações “extratransferenciais”.105 Assim sendo. o conhecimento que o analista adquire no decorrer do tempo sobre as características da transferência desen­ volvida pelo paciente para com ele. os mecanismos terapêuticos não consistem do desenvolvimento e da elaboração da neurose transferencial.vencido na maioria das vezes mediante um prévio estu­ do clínico e psicodiagnóstico o mais amplo possível do paciente.que poderia propiciar o desenvolvimento da neurose de transferência . seja de todo o modo um elemento valioso para diagnosticar as caracterís­ ticas das relações objetais do paciente. Mas. A clareza expositiva de Guiter me exime de maiores comen­ tários e. que se impõe em P.B. em função do enquadramento da P. os analistas.B. quase como imprescindível para oferecer sustentação adequada ao nosso trabalho terapêutico posterior. já evidenciada com o terapeuta. em virtude do limitado contato que propbrciona o tra­ tamento. nós. geralmente. muito menos reduzir a tarefa à analise da transferência ao terapeuta.. e como venho repetindo. do mesmo modo que a compreensão da contratransferêricia. Por outro lado. podemos ser paradoxalmente reforçadores de neuroses” (grifos do autor). lhe resulta de grande ajuda para inferir e interpretar as demais transferências do paciente. o tra­ balho não tem por que concentrar-se então na análise exaustiva da relação terapêutica . Concordo com o critério de Guiter e entendo que nenhuma terapia interpretativa deva descuidar-se das diferentes transferên­ cias extraterapêuticas. cabe recordar precisamente que.B. na minha opinião. Mas considero que esse obstáculo pode ser . em troca. Em P.B. devemo-nos desenvolver praticamente sem essa ajuda desde o começo). devemos reconhecer a existência de um inconveniente em nosso trabalho de análise das relações do paciente com os diferentes objetos transferenciais de sua realida­ de externa: o terapeuta conhece pouco o paciente cif sua relação terapêutica. Disso poderiam derivar apreciações e interpretações errôneas da realidade externa do paciente (ainda quando a com­ preensão da transferência.recorrendo-se. tio terreno de P.e é .

no outro extremo. em função. em vez de concentrar a atividade na relação paciente-terapeuta. quer dizer. hierarquizar outras transferências preexis­ tentes do paciente. de acordo com o que quase sem­ pre ocorre na prática. senão melhor. Pumpian-Mindlin (36) sugere “desviar a transferência”. do enqua­ dramento e das finalidades do procedimento terapêutico breve. em direção a uma figura importante para o paciente. que é preci­ samente através dessas interpretações que se pode resistir ao de­ senvolvimento de uma neurose transferencial e lhes assinala um papel muito importante ao alcance de resultados favoráveis (34). Malan assinala que parece haver acordo geral acerca da necessidade de não fomentar o desenvolvi­ mento da neurose de transferência21. primeiramente. Eu não chamaria a isto “desviar a transferên­ cia” .em que desviar poderia ser entendido como desviar de maneira forçada. Em conseqüência. Rogers. Sustenta que os perigos que se corre (de aumentar a dependência. existem critérios díspares quanto ao uso das inter­ pretações “transferenciais”. A questão esbarra em como fazê-lo. Ali começam as divergências. por exemplo) são escassos. Com o propósito de evitar fenômenos transferenciais inten­ sos. Malan não vê nenhum inconveniente em empregar precoce e intensivamente interpreta­ ções “transferenciais”. e. como numa terapia breve costumam pre­ dominar as impropriamente chamadas interpretações “extratransferenciais” cm relação às “transferenciais”.106 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica das circunstâncias que assim o aconselhem e que citarei em se­ guida. alarmado porque induziram o paciente . a tarefa interpretativa se diferencia claramente da do tratamento psicanalítico. em segundo lugar.B. Interpretações “transferenciais " Em P. no qual prevalecem as segundas ou pelo menos em que se manifesta uma maior proporção delas com relação às que geralmente averigua­ mos num tratamento breve (as diferenças se acentuam muito mais na análise kleiniana que na análise que mantém uma modalidade técnica freudiana). os problemas a tratar. de relações objetais dotadas de um importante montante de libido). da real significa­ ção em sua vida (ou seja.

aflorar talvez mais seletivamente e apreciar-se com maior clareza as pau­ tas repetitivas e neuróticas de sua conduta. pois considera que utilizadas de modo sistemático como em psi­ canálise podem fomentar a neurose de transferência (7) (14). perguntas. Quase sempre trata-se da interpretação da transferência negativa. o terapeuta geralmente tratará de não estimular com suas intervenções (refiro-me às de qualquer tipo. Compartilho plenamente essa posição. senão também aos assi­ nalamentos. Mas. isso sim. e que não temos tempo suficiente para insistir demasiado neles (não é conveniente fazêlo em P. por múltiplas razões). Por isso creio que devemos nos conformar em prover o paciente de elementos para a conscientização de suas transferên­ cias para com pessoas significativas. geralmente envolvidas na situação conflitiva em questão. . e muito menos para incluir reve­ lações acerca das raízes genéticas infantis do conflito transferen­ cial. Além disso. fuhdadas no insight. ocorre o fato incontestável de que se em certos momentos não se apela para a interpretação “transferen­ cial” poderão aparecer ou acentuar-se diversas dificuldades. Seguiríamos assim a regra freudiana de não interpretar a transfe­ rência positiva sublimada. que reduzirão nossas possibilidades. se apesar de tal situação instarmos para que se concentre em sua relação conosco.0 tratamento 107 à dependência. Assim. propõe suprimi-las por completo (40). sem deixar de “seguir o fio” dos fenômenos transferenciais relacionados àquele a que sua compreensão se refere. não só às interpretações.) o surgimento excessivo desse tipo de material.B. que em troca deverá ser estimulada e utilizada para tornar possível o trabalho terapêutico (18) (19). quer dizer. o paciente se apresenta para tratar-se só uma ou duas vezes por semana. poderemos gerar consideráveis resistên­ cias à tarefa. Mas talvez a maioria se incline a um uso prudente e limitado (2) (14) (48).na qual podem. A fim de resolver problemas vitais atuais que o afetam. etc. de alcançar o êxito terapêutico desejado*2. paralelamente.e não como o eixo do tratamento . e incluir o vínculo com o terapeuta na maioria dos casos só como uma rieva relação transferencial . entendo que comumente o paciente tarda em aceitar como algo próprio os ele­ mentos da transferência para o terapeuta.

atrasos e outras dificuldades do paciente essencial­ mente para trazer material focal (intervalos de silêncio reiterados. se negava a falar durante as sessões. o que se alcançou mediante uma mensagem interpretativa denunciadora do “falso vínculo”. Desse modo.e eventualmente do passado pois o propósito é basicamente estabelecer de imediato a cone­ xão com esses objetos de conflitos para alcançar uma adaptação à realidade. ^b) Quando podem constituir para o paciente um elemento demonstrativo de determinados aspectos de sua problemática focal. sem que ela mesma encontrasse motivos ra­ zoáveis que pudessem justificar tal estado. afastamento do foco) quase sempre podem ser interpretados ao menos cm parte com relação a situações transferenciais.108 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica Com este último concordam autores como Bellak e Small (2) e Malan (34). A título de ilustração. durante as quais manifestava uma expressão de nojo para comigo. o que permitiu remover o obstáculo e facilitar o curso posterior do tratamento. pude apreciar com clareza que repetia em seu vínculo comigo o lipo de relação que mantinha com seu pai. Em qualquer momento. darei um exemplo6simples: uma mu­ lher jovem. um fragmento de transferência converte-se prontamente em ponto de partida para propiciar insight no paciente acerca dos conflitos com outros seres de sua vida atual . num momento do tratamento breve. a quem desde tempos atrás não dirigia a palavra. mas que por sua vez desalentava a revivescência de situações infantis na relação com o terapeuta24. Ao cabo de algumas sessões. Tratar-se-á de vencer através da tarefa interpretativa os obstáculos resistenciais provenientes da transferência assim que aparecerem (28)2\ Ausências. Vejamos então quais são as principais situações em que será necessário recorrer às interpretações “transferenciais”: xT a) Quando surgem resistências transferenciais. . Mas será conveniente que a interpretação da transferência se realize em circunstâncias em que o fenômeno transferencial possa ser cla­ ramente reconhecido pelo paciente. Revelei esta situação transfe­ rencial à paciente. ao dissipar de imediato e em gran­ de parte a resistência surgida. a relação com o terapeuta poderá funcionar como um modelo experimental esclarecedor dos pro­ blemas do paciente com suas relações interpessoais.

procurancfo tomar-me “cego de raiva”. que a levava a buscar que a maltratassem e também a atentar contra a relação terapêutica. (Resultava claro que queria despertar minha raiva até conseguir alterar-me. A situação conflitiva principal na terapia era a relação intensamente competitiva e sadomasoquista que havia estabeleci­ do com seu cônjuge: descobri que conseguia com freqüência irri­ tá-lo até colocá-lo fora de si. A relação ia sofrendo uma progressiva deterioração. Desejava “triunfar” sobre mim e. sua conduta correspondia uma vez mais a um intenso masoquismo. motivo principal de sua consulta25. provocando assim sentimentos de rejeição. tratei de chamar sua atenção para o fato de que esses aspectos doentes de sua personalidade conspiravam também na terapia. Foi necessário mostrar-lhe através de uma revisão parcial do vín­ culo transferencial como tratava insistentemente e de modo incons­ ciente de atacar-me e denegrir-me. Nesse aspecto considero que tanto nas etapas iniciais como nas finais do processo terapêutico costuma produzir-se em geral maior necessidade de se recorrer a essas intervenções.porque é preciso despejar o panorama de . mas predominava o objetivo de supera­ ção das resistências. que na verdade a intenção de relacionar o fenômeno transferen­ cial com algumas perturbações nas relações interpessoais da rea­ lidade atual da paciente era acompanhada pela tentativa de dissol­ ver obstáculos resistenciais. com marcados tra­ ços fálicos. provocando nele reações violentas contra ela que chegavam ao ataque físico. Durante as primeiras sessões .) Todavia. colocando-a seriamente em perigo. ambos os aspectos coe­ xistiam em certa medida. neste último exemplo. raiva e frustração. Além disso. partindo da comprovação da situação que experimentava repetitivamenté comigo. sobretudo com comentários hostis acerca dos psiquiatras. No fundo. o que é freqüente na prática psicoterapêutica. de caráter histérico.0 tratamento 109 Recorrerei novamente a um exemplo clínico: Trata-se de uma paciente de 32 anos. anular-me em minha capacidade terapêutica pen­ sante. cabe fazer referência ao uso das interpretações “transferenciais” segundo as fases que o tratamento está atraves­ sando. Também no exemplo anterior. (Poder-se-á notar. do mesmo mo<|o que a seu marido.) Com esta inter­ venção busquei provocar um insight na paciente a respeito do que lhe ocorria com seu marido.

mostrando-lhe assim a conexão equivocada.) c) Variantes qualitativas nas interpretações. Isso implica. Atenuação dos efeitos regressivos Já disse que. por debilitar seu efeito indutor da regressão.porque o término da terapia e a eventual separação requerem certo trabalho interpretativo. além da óbvia restrição quantitativa ao emprego desse tipo de interpre­ tações. e a minha própria. seu potencial regressivo.110 Psicoterapia bre\>e de orientação psicanalitica resistências transferenciais dadas pelo natural surgimento de ansiedades paranóides. o quanto possível.B. Pessoalmente penso que essas modificações devem referirse não só ao aspecto verbal.. (Este tema é examinado no capítulo 9. precisamente para a resolução da neuro­ se de transferência). as situações peculiares de luto que se repro­ duzem em cada paciente no seio da relação transferenciai. no terreno da P. Ainda que no melhor dos casos não seja possível aspirar a níveis muito elevados de elaboração. diminuin­ do. o emprego sobretudo fundamenta­ do .de interpretações “transferenciais” é na psicanálise um fator favorável ao desenvolvimento da neurose transferencial regressi­ va. pelo menos a situação final d? trata­ mento e de ^eparacão— deverá ser sempre assinalada para o paciente. com o intento de evitar 011 atenuar as reações desfavoráveis que este pudesse apresentar diante de tal situação e de afian­ çar assim os êxitos terapêuticos obtidos.e nos estágios finais . por antonomásia. pois leva o paciente a concentrar seu interesse no vínculo tera­ pêutico e o estimula a reviver nele mesmo situações passadas (ainda que em última instância. o instrumento funda­ mental. ao fazer consciente o inconscien­ te. a meu ver. ter de realizar modificações técnicas em sua índole quali­ tativa. em alguma medida. serão em grande medida no curso do processo psicanalítico. mas também ao para e ao pré-verbal . que contemple. Partindo dessa postura poder-se-á compreen­ der a preocupação de alguns autores. A idéia é não deixar de utilizá-las quando devemos servir-nos delas. que se traduz em temores e desconfiança (se estão efetuando então os já conhecidos ajustes à relação de trabalho e fomentando os sentimentos transferenciais positivos) .

diminuindo dessa maneira a concentração excessiva de exploração psicológica no vínculo com o terapeuta. ^ Também a Knobel e Szpilka corresponde uma das observa­ ções mais interessantes e claras que tenho encontrado a propósito do problema que estamos considerando: “Uma boa utilização da transferência nas psicoterapias breves é aquela que permite a alu­ são ao terapeuta. A intenção c incluir sempre a realidade que está mais além do consultório. parentes ou demãís ohjeim sipnifiçativos de seu mundo externo” (grifos dos autores). al ém disso com seus amigos..B. já que na verdade. Podemos afirmar que. mas que na realidade isto é fruto de sua percepção errô­ nea de realidade.0 tratamento FACULDADE GUAIRACÁ BIBLIOTECA F AG 111 da mensagem interpretativa. esta questão se colocará em maior ou menor medida na P.) acompanhar cada interpretação do que ocorre com o terapeuta. transferen­ cial ou não. Descobrimos que Szpilka e Knobel (42) sugerem algo similar como uma maneira de usar a transfe­ rência sem os perigos de uma neurose transferencial. (Os grifos são meus. cm sua relação com o terapeuta. sobretudo que é'stabeleçam uma ligação de maneira praticamente constante entre o que sucede ao paciente. Para tanto é necessário <|ue as interpreta­ ções possuam certas condições.de um 'õssinãlaménto doque acontece. muito pelo contrário. por exemplo.. ante qualquer interpretação. Desfazer significa dizer à parte adulta da per­ sonalidade do paciente que ele se porta com o terapeuta como se este fosse seu pai. ao formular a interpretação. o terapeuta não é nenhum desses objetos primários por ele . em direção à qual se há de orientar continuamente o paciente. e nas relações daquele com os objetos transferenciais de “fora”. já que. como sabemos. mas para desfazer em seguida a confusão que surge dessa alusão. momento e forma de apresentá-las) é o meio mais eficaz de»ciue dispõe o terapeuta para regular o tipo e a intensidade da relação" (45). interferem considera­ velmente.) Trata-se de controlar na medida do possível a intensidade de regressão transferencial. Na realidade. por tais e quais motivos obje­ tivos. Disse Weiss: “O uso adequado das interpretações (quanto à escolha.. isto é: “(. o tom de voz. assim como a expressão corporal do terapeuta. não são indiferentes em sua repercussão no paciente e no que se refere a suas tendências regressivas. sua mãe ou qualquer outro objeto significativo primário.

reitero. (Grifos dos autores. Para isso também será útil mostrar ao paciente de quais elementos do material trazido por ele extraímos nossas interpretações. e no que diz respeito às interpre' tações em geral. a dependência e a insegurança. o agressivo do construtivo (Szpilka e Knobel [42].) Para controlar a regressão. registramos algumas coincidências relativas à conveniência de que as intervenções do terapeuta incluam sempre dois aspectos opostos e coexistentes do paciente e não apenas um. Andrés Rascovsky e Wencelblat observa-se um nítido paralelismo com essas idéias (3). A atitude que deve assumir o terapeuta a respeito dos ele­ mentos histórico-genéticos do conflito atual e particularmente sua . numa atitude de certa humildade (Fiorini [16]). a influên­ cia de outros fatores. que tende a opor obstá­ culos à idealização da figura do terapeuta. Fiorini [ 13])27. Por exemplo: o infantil acompanhado do adulto. pelo contrário. /Entre a emergência do bloco de transferência e sua resolução deve transcorrer por outro lado o menor tempo possível e quase diríamos tão logo venha à tona é necessário desfazê-la” (42). Tarachow [43]). como hipóteses que são. Con­ sidero que implica que a mensagem. No meu entender estamos diante de um ponto-chave dentro do trabalho interpretativo. Trata-se de não polarizar na direção que fomente a regressão. O outro recurso a ser considerado para se evitar que o pacien­ te estabeleça uma relação excessivamente regressivo-dependente é apresentar as interpretações sob a forma de perguntas ou suges­ tões (Gerard [23]. a acentuação que o tera­ peuta confere a certas palavras ou frases que a integram também podem “convidar” o paciente a estabelecer uma relação regressivo-dependente com o terapeuta ou. ora manifesta. o tom de voz emprega­ do.) Em um traba­ lho de Córdoba. deve ser tal que desalente o prosseguimento da revives­ cência de situações infantis no seio da relação transferencial. e ao mesmo tempo de chamar a atenção do paciente para seus aspectos adultos ou mais bem integrados e para suas possibilidades evolutivas e autônomas. ora eventualmente implícita em seu conteúdo.112 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica trazidos e pelo terapeuta representados. como. o que significa renunciar a explorar a maior parte do “como se” metafórico da tccnica psicanalítica’\ À importância do conteúdo c da forma de interpretação dever-se-á agregar. (O modo como se faz a interpretação. explicitada na interpretação. desalentá-la. quer dizer. por exemplo.

Por isso. Que as condições do enquadramento. não devemos deixar dc reconhecer que colocar ênfase excessiva nos aspectos infantis do paciente pode promover ã regressão. enquanto não se incorporarem às inter­ pretações elementos do passado infantil .. queria insistir em alguns aspectos fundamentais c particula­ rizar outros a fim de aprofundar a visão do tema. principalmente as temporais (duração. 101 s. Que o paciente demonstre estar capacitado para receber e aproveitar essas interpretações sem experimentar reações desfa­ voráveis (isto significa em essência respeitar o timing). diferentemente do que ocorre no tratamento psicanalítico.) Mas o certo é que na prática apresentam-se situações em que selem a impressão. por conseguinte. Reconhecida a necessidade de que a tarefa ínterpretativa abarque conflitos genéricos infantis. c partir em troca cia referência aos fatores atuais em jogo. a priori ou no curso de um tratamento breve. o terapeuta podérâ estimar que é necessário efetuar uma revisão e um trabalho interpretativo mais profundo das perturbações do paciente. sejam propícias.. Convirá tomar algumas precau­ ções (sobretudo se se trata de interpretar a transferência para com o terapeuta). por mais que nos tratamentos breves pareça aconselhável abster-se de interpretar em primeira instância e de maneira sistemática tais aspectos. (Em P. pelo que lhe cabem as considerações ali expostas2*.os quais certamente sempre se levam em conta para compreender o conflito poderá produzir-se um estancamento no processo 3e conscientização e mudança do paciente. Diante dc tudo isso. estudaremos em cada caso a possibilidade de colocar isso em prática.B. Em tais circunstâncias.). uma posição extrema consistiria em evitar tflda incursão por esses níveis do conflito. as quais. serão as seguintes: 1.B. freqüência e periodicidade das sessões. reiterando o já assinalado em outras oportu­ nidades. Não obs­ tante. V 2. dc que. com probabilidades de que seja terapeuticamcnte eficaz. . Não compar­ tilho desse critério.0 tratamento 113 eventual inclusão nas interpretações que se formulam para o paciente é um ponto que cm parte já foi tratado na “Introdução” (pp. dura­ ção total do tratamento). a propósito da profundidade das interpretações em P. nâo haveria uina intenção prioritária de se remeter às experiências prematuras da vida do paciente.

no sentido de que o insight em P. ao necessário para obter certa mobili­ zação e progresso no paciente. para al­ guns indivíduos. com relação a um(a) irmão(ã)30. o significado incestuoso ou parricida de suas fantasias11. ou seja. Assim. têm dito esses autores: “Devemos reconhecer que isto. mostrando-lhe direta­ mente. aquela poderá fornecer o desenvolvimento da regressão e o da neurose de transferência ou. cm vez de fazê-lo reviver emocional­ mente os conflitos infantis no seio da relação transferencial. Como corolário da revisão das distintas modificações e agre­ gados realizáveis nas interpretações. tem de ter “maior participação cognitiva que afetiva” (42).114 Psicolerapia breve de orientação psicanalítica X 3. quando se considere necessário fazê-lo. A propósito deste aspecto da técnica. Este ponto corresponde ao critério sustentado por Szpilka e Knobcl. limitado ao que é imediatamente relacionado à situação-problema. O modo de formular as interpretações tenderá a facilitar que o paciente. compreenda os determinantes históricos do conflito atual. ainda que. . realizo um trabalho interpretativo sempre parcial. pois não é possível abarcá-lo em sua totalidade e propen­ der para a sua elaboração. para as quais ainda não temos métodos de avaliação e que podem ser úteis para alcançar uma adaptação produtiva à ^realidade” (42). descartando outros aspectos do conflito. pode servir perfeitamente para mobilizar situa­ ções internas. dificilmente uma terapia breve chega a con­ frontar o paciente com seu conflito edípico.B. mais do que tudo. tenha de fazer alusão de maneira direta a componentes do conflito original. mas o terapeuta não deve ter por aspiração principal eliminar a amnésia infantil (Devald [5]). K5. Poder-se-á trabalhar um conflito infantil derivado (por exemplo. carecendo de sentido “abrir feridas” nas defesas. ten­ der a neutralizá-los. Que os componentes histórico-genéticos a incluir nas in­ terpretações sejam pertinentes à estrutura focal®. Neste último caso. por exemplo. A isto terá de se agregar que: )*■4. podemos afirmar: de acordo com a conformação da interpretação e a modalidade que assume sua formulação. pelo contrário.

A interpretação dos sonhos. já que a interpretação onírica é “a via régia para o conhecimento do inconsciente” (Freud [20]) c por conseguinte constitui uma ajuda valiosíssima para detectar o ponto de urgência. repito. Em última instância.115 d) Interpretação dos sonhos Em P. no geral. Como responder a este problema técnico? Creio que diante dos sonhos o terapeuta deve assumir a mesma atitude que ante qualquer outro produto da atividade psíquica (atos falhos. (De qualquer manei­ ra. fantasias. quer dizer. Quando interpretar A interpretação dos sonhos deverá reger-se pelos mesmos princípios gerais que presidem toda interpretação em P. ainda que não . Do que surgir da análise se verá se a formulação de interpretações é indicada ou se pelo çarb> trário o sonho em questão deverá ser deixado de lado nesse senti­ do: tudo isso dependerá essencialmente. Com isso quero expressar que não costumo “deixar passar” um sonho sem antes efetuar uma tarefa mínima de exploração de seu conteúdo. Mas uma vezf mais certos cui­ dados terão de ser tomados para tratar de conttolar a regressão que poderá ser gerada. certa aná­ lise dos sonhos trazidos pelo paciente. ainda que tendo presente quando. não há tampouco uma unidade de critério com res­ peito a se devem ou não ser formuladas interpretações acerca do material onírico dos pacientes. em função da possibili­ dade de estimular excessivamente a produção de fenômenos re­ gressivos no paciente. o que e como interpretar. sugerem apriori sua vinculaçào com o foco. se considerará o material onírico inter potável sobrem do desde seu conteúdo' manifesto e por sua relação com o contexto. praticada do mesmo modo que na psicanálise.). crçio que não convem rejei­ tar de imediato um material tão apropriado. Apesar disso. etc. não vejo nenhum inconveniente em tentar. conteria um risco básico. interpretar na medida em que o considere útil. de tratar-se ou não de materiaífocal. Mas vejamos a que me refiro com o que acabo de mencionar..B.B. ou seja.

o que implicft conduzir uma vez mais o paciente ao contato com o conflito central do tratamento. tal como se faz na técnica psicanalitica. venho observando com freqüência que os colegas cometem diver­ . Os recursos para analisar os sonhos são em essência os da psicanálise. sempre dentro do que se refere ao conflito a resolver. a quem se podem pedir associações a partir dos dife­ rentes elementos. Como interpretar Consideraremos duas questões: uma referente ao método de análise dos sonhos e outra ao conteúdo das interpretações formu­ ladas para o paciente. devem-se interpretar-se mais que tudo aqueles conteúdos que parecem mais claros para o paciente. e) O terapeuta diante do trabalho interpretativo Em minha experiência de supervisão de tratamentos breves. | especialmente no que concerne à focalização e à transferência. a análise do sonho.assim como acontece por exemplo com os fenômenos transferenciais em geral um recurso de apreciável utilidade para enriquecer nossa compreen­ são dinâmica do paciente. A tarefa interpretativa se efetuará segundo as normas já assi­ naladas para a interpretação na PB.116 Psicoterapia breve de orientaçào psicanalitica derive na formulação de uma interpretação. psicanaliticamente orientada. Por outro lado. embora limitada em seu alcance. constitui . remetendo-nos em troca só às idéias latentes pré-conscientes. pois a limitação de tempo permite introduzi-lo só até certo ponto nos significados dos mecanismos oníricos (Hoch [28]). incluindo o auxílio oferecido pelas associações livres do paciente.) O que interpretar Desde logo será preciso hierarquizar aqueles aspectos do sonho inerentes ao focal-atual. e recolocá-lo assim na realidade de sua vida cotidiana. reduzindo ao mínimo a indução de fenômenos regressivos. Geralmente deve-se evitar referir as interpretações a desejos infantis inconscientes.

Os assinalamentos. As perguntas. Entre eles encontramos muito correntemente o abuso da referência a situa­ ções transferenciais.117 sos erros gerados pela transposição de elementos técnicos da psi­ canálise sem nenhuma modificação à técnica breve. tais como os vinculados à sexualidade. São de diversas tendências. ao mesmo tempo em que significa justamente cavalgar permanentemente entre a transfe­ rência e extratransferência. As sugestões. leva-se em conta a possibilidade de estimular o paciente fóbico.) Outras intervenções verbais Além das interpretações. Exemplo: desde Freud. .” Fiorini apontou do mesmo modo a necessidade de que o terapeuta se autocontrole na utilização das interpretações “transferenciais” (14). além de empregar reiterada e excessivamente interpretações da transferência. % 2. a enfrentar as situações temidas (21). Cabem não só na etapa diagnostica. (Os motivos subjacentes a esta atitude do tera­ peuta serão considerados no capítulo 8. Em certas ocasiões pode ser benéfico oferecer informações ao paciente acerca de certos temas. pode­ mos citar: 1. O fornecimento de informações. ^ 4. a fim de se obte­ rem diversos e necessários dados acerca do paciente sobre o anda­ mento. Em outro contexto. num dado momento do processo terapêutico. hão resista a seus efeitos regressivos. instrumento terapêutico necessário em toda terapia de insight para facilitar o trabalho interpretativo. o terapeuta conta com diversos ins­ trumentos na psicologia verbal. Recordo com relação a isto um acertado comentário: “Ocorre-me que toda terapia breve apela para a mais primorosa sensibilidade do terapeuta. as perguntas revelam um terapeuta não-onipotente e interessado no paciente (16). ^ 3. com os perigos decorrentes. mas também durante o tratamento propriamente dito. Também nesse ponto pode-se apreciar o papel ativo que desempenha o terapeuta. Dentre os mais relevantes. Certas dificuldades próprias do terapeuta determinam que este.

excitação psicomotríz. etc. costuma ser recomendável uma freqüência de mais de duas sessões semanais. Realizam-se essencialmente com o pro­ pósito de fomentar o intercâmbio verbal. para facilitar a separação ao terminar o trata­ mento. Os conselhos. ^ 8. Sobre as sessões t Em primeiro lugar referir-me-ei à freqüência das sessões. Uma maior freqüência pode ser conveniente. por exemplo. na maioria dos casos. com grande necessida­ de dc provimentos narcísicos. ^ b) Pacientes com marcadas tendências ao acting out.1JS Psicolerapia breve de orientação psicanalítica “é 5. que es­ timule por sua vez a. dada a diminuição da auto-estima. â 7. 34 ss. Já fiz alusão às mesmas ao referir-me ao tema “Fortalecimento e ativa­ ção das funções egóicas” no capítulo 3. Os comentários. pode bastar uma sessão por semana. em casos tais. Sem dúvida posso dizer que. que transcorrem com grande angústia. pp. £ 6. Tentar-se-á assim alcançar um rápido alívio sintomático. às vezes pode ser útil ir reduzindo gradualmente a fre­ qüência das sessões (sempre que o estado do paciente o permita). depressão. Em geral é conveniente adequar-se às necessidades de cada caso particular. exceto quando se trata de apoio emocional. As intervenções de reasseguramento ou de reforço. De uso muito esporádico. duas sessões semanais é um número apropriado para uma psicoterapia breve de insight. em de­ pressões intensas e agudas. ao menos no começo.. Além disso. confiança do paciente em suas possibilida­ des de melhoria (a posteriori poder-se-á reduzir o número de ses­ sões). além de interpretar . Em certas ocasiões. como: X a) Situações de crises muito intensas. Exemplo: a prescrição de uma psicodroga. uma vez que possibilita uma tarefa de certo aprofundamento e restringe as perspectivas de regressão e depen­ dência que poderiam ser incrementadas com um maior número de sessões. As indicações. Para prevenir e contcr os acting out.

À medida que a sessão se estende por mais tempo. Quanto à duração das sessões. terapia ocupacional. aumentam as possibili­ dades de fadiga do terapeuta (não esqueçamos que em P. intervenção breve. (9) (10) (14) (46) (47). o que pode ser altamente positivo. dramatização.0 tratamento 119 as fantasias transferenciais que possam estar presentes (mais co­ mentários sobre esse ponto poderão ser achados no capítulo 10).B. hipnose. serviço social. comunidade terapêutica. As alternativas com que contamos no momento sâo realmen­ te numerosas: psicodrogas. quando se apela para outros elementos. Pessoalmente penso que uma duração de 40 minutos por sessão resulta adequada. Ocupar-me-ei de dois recursos que me são mais familiares por utilizá-los em minha experiência pessoal como terapeuta. Um dos tantos propósitos válidos e usuais na aplicação de diversos recursos em P. Supostamente.B. o ponto de partida deve ser sempre uma fundamenta­ ção psicodinâmica acerca de sua incorporação ao tratamento e dos efeitos esperados com ela. para o que deve agilizar o processo terapêutico. É sobretudo no âmbito institucional que ocorrem as oportunidades mais promissoras para efetuar tratamentos combinando instru­ mentos terapêuticos que incluem eventualmente uma tarefa em equipe com outros profissionais da saúde mental. é o de procurar agilizar o processo tera­ pêutico. supõe-se que também pode variar dc acordo com as circunstâncias. já que geralmente basta para efetuar uma tarefa proveitosa. F " Outros recursos terapêuticos Em muitas ocasiões resulta benéfico agregar outros instru­ mentos terapêuticos à psicoterapia individual verbal e breve. psicoterapia grupai. geralmente o que implica na realização de um esforço significa­ tivo). São . intervenção de familiares e/ou pes­ soas próximas do paciente. exercendo o profissional um papel ativo e buscando obter determinados resultados em um prazo limitado. se trabalha comumente frente a IVentc. etc.

permitindo o acesso à psicoterapia de pacientes que de outro modo seriam muito difíceis de tratar. e particularmente naquelas ocasiões em que se efetua uma terapia breve de insight. parece o mais indicado para poder realizar uma escolha adequada do medi­ camento. especificarei alguns aspectos de sua aplicação.). Ministrar-se-á medicação só na­ quelas situações em que seu uso seja requerido como coadjuvante da psicoterapia e durante o tempo que se considere estritamente necessário. Não insistirei nas reconhecidas vanta­ gens provenientes dos efeitos da medicação (alívio sintomático. Em troca. assim como certas dificuldades que podem sur­ gir se os psicofármacos não forem manejados adequadamente. conhecendo o paciente melhor que seus colegas. se trate de um profissional capacitado para o manejo dos psicofármacos). Em primeiro lugar. é claro. sempre que se tenham pre­ sentes certas precauções. Sem dúvida é ele quem. Outros assinalaram a decisiva importância do fato de que desde o começo se explicite para o paciente o sentido da administração dos psico- . já que isto pode conduzir o paciente a escamotear seus conflitos. controlar seus efeitos e ir efetuando as modificações que julgar convenientes. facilitaçào do insight. O emprego de psicofármacos A combinação de psicoterapia com psicodrogas pode ser muito útil em diversas circunstâncias. sem que se necessite da participação dc um terceiro. opino que a medicação deve ser forneci­ da na medida do possível pelo mesmo terapeuta encarregado da psicoterapia (sempre e quando.120 Psicoterapia breve de orientaçãopsicanalitica eles: o emprego de psicofármacos e a participação de familiares e/ou figuras próximas do paciente em tratamento. graduar a dose. etc. deverá evitar-se um emprego indiscriminado e rotineiro de medicações. Aqui é pertinente recordar também que alguns já alertaram sobre os perigos que contém a idealização do medicamento. melhoria na comunicação. anulando-o em suas possibilidades de esclarecê-los e de encontrar uma solu­ ção mais satisfatória para eles. uma vez que pode gerar no paciente atitudes maníacas (30). Em segundo lugar.

que é a que no fimdo deve ser tratada/Em síntese. sem os esforços e a participação ativa que a psicoterapia supõe). Obter informações. ela persistirá/ A participação de familiares e/ou pessoas próximas do paciente no tratamento Freqüentemente é necessário incluir no processo terapêutico breve pessoas vinculadas ao paciente. por exemplo. ela voltará. pois sua origem. Para esclarecer a questão aos pacientes. costumo recorrer a exemplos simples: freqüentemente refiro-me ao que ocorre quan­ do a uma pessoa se ministra um analgésico (droga) para acalmar uma dor de dente (representante do sintoma psíquico). Dever-se-á insistir junto ao paciente que ele deve aspirar a algo mais. ou seja. o que poderá acontecer ou na fase diagnóstico-prognóstica ou na busca de objetivos comuns. Procurase além disso chegar a um diagnóstico psicodinâmico do casal . é uma cárie (assimilável ao conflito psíquico). se não tentamos “curar” a infecção “pela raiz” por meio da psicoterapia. e se não se recorre novamente a ela. no caso em que esta esteja muito difícil. à compreensão c à resolu­ ção do conflito por meio da psicoterapia.0 tratamento 121 fármacos (35). Com essas explicações tende-se a evitar a eventual interferência do efeito da medicação no pfocesso psicoterapêutico (o alívio fácil. a procurar que a melhoria sintomática não seja acompanhada de uma desva­ lorização da psicoterapia ou. A dor pode ceder.B. Resulta em geral sumamente benéfico ter a oportunidade de entrevistar familiares e/ou pessoas próxi­ mas do paciente e conhecer suas impressões sobre eleJ2. diretamente. da f>erda de interesse pela mesma. Também é convenien­ te esclarecer os objetivos do uso das psicodrogas associadas à P. posição com a qual concordo e segundo a qual costumo explicar ao paciente. por exemplo. As metas que mais comumente se buscam com essa conduta são: 1. mas passado o efeito da medicação. isto é. quando se tenha um alívio sintomático. que a medicação é destinada a tornar possível (ou facilitar) sua comunicação comi­ go. na terapêutica e/ou na avaliação de resultados. explicando o caráter pa­ liativo de sua administração.

família) desde o começo. Atuar terapeuticamente sobre o meio que rodeia o enfer­ mo. partindo da concepção de que aquele é. Informar sobre o estado do paciente para conseguir que seus familiares ou as pessoas próximas assumam a responsabili­ dade do tratamento nos casos em que isso seja necessário. a indicação poderá ser uma psicoterapia breve ex­ clusivamente grupai (casal. determinar o papel que nela ocupa o paciente. Hm algu­ mas ocasiões. na P. apresenta-se especialmente aqui a necessidade de fazer intervirem os pais em função dc outros fins que se acrescen­ tam em determinadas fases do procedimento. tudo isso de acordo com os critérios predominantes em cada caso.B. com ou sem a inclusão do paciente no tratamento grupai. b) fase de combinação das metas terapêuticas e dos distintos aspectos do contrato. dc uma psicoterapia a cargo do mesmo terapeuta que efetua o tratamento do paciente.B. E não poderia ser de outra maneira quando se trata de buscar modificações em um prazo geralmente limitado. de adoles­ centes. na realidade. pelos quais se dá espaço a familiares e/ou pessoas próximas do paciente no tratamento. de adolescentes. c) fase de avaliação dos resultados terapêuticos. senão do grupo familiar. São elas: a) fase de devolução diagnostico-prognóstíca. se for preciso. Quisera efetuar agora algumas considerações acerca da P.lzz_ Psicoterapia breve de orientaçãopsicanalitica e/ou da família. Tem-se enfatizado. 3. a necessidade de incluir os pais no tratamento. de pacientes adolescentes no que diz respeito ao papel dos pais. o emergente de um grupo enfermo. já não como uma psicoterapia do adolescente. Atualmente. Além dos fins anteriormente mencionados. fato que deverá configurar a regra e não a exceção na P. . já que se acham profundamente im­ plicados na crise do filho (31). £ 2. Isto poderá realizar-se através de entrevistas jie orientação c além disso. paia o que resulta até imperioso trabalhar sobre os pro­ genitores e ter constantemente presente a unidade grupai de pato­ logia.B. ou de outro. o tratamento pode ser concebido. A participação dos pais (ou tutores) do adolescente no pro­ cesso terapêutico deverá estender-se desde o início até o final do mesmo. so­ bretudo quando a problemática está principalmente relacionada com seu meio familiar.

Trataremos então de que colaborem desde o princípio e de ir preparando-os para que aceitem essas mudanças.poderia mais adiante exercer a psicoterapia do grupo familiar a ser efetuada. necessitam ter uma noçào real do esta­ do de saúde do filho e de suas perspectivas prognosticas. a situação mais desejável para enfrentar nosso trabalho terapêutico consistirá em alcançar um acordo unânime acerca dos mesmos. que não coincidem com as do paciente e/ou as do terapeuta. quer dizer. é muito mais fácil que sobrevenham inconvenientes deriva­ dos da incompreensão e que consistem em diversos tipos de rea­ ções negativas por parte dos pais. atitudes repressoras. o que pode produzir efeitos perturbadores de natureza diversa. por exemplo. por exemplo. desqualificadoras dos suces- . efitre paciente. Não é possí­ vel passar por alto desacordos ou mal-entendidos de início e dei­ xá-los à mercê.no caso em que sejam cltís os que interferem inicialmente em nossas finalidades terapêuticas . objetivo que será facilitado por meio da psicoterapia familiar que virá em continuação. Caso con­ trário. definitivamente. e por ter sido requerida sua colaboração. ainda admitindo que depende substancialmente desta que eles aceitem as modifi­ cações que possam produzir-sc na dinâmica familiar.123 > a) Os pais. Uma míni­ ma concordância inicial acerca dos objetivos terapêuticos consti­ tui um requisito fundamental porque permite começar a tarefa em melhores condições. da ação retificadora que sobre os pais . No que concerne especificamente aos objetivos. / b) É imprescindível combinar. pais e terapeuta. e que os pais. Quando não recebem informações.*os objetivos terapêuticos e o contrato. não se sintam inteiramente tomados de surpresa ou “atraiçoados” com relação ao planejamento previsto no começo do tratamento a respeito dos fins deste. Mas com freqüência as coisas nãó' são tão sim­ ples. culpogênicas e. seja considerando-a mais grave do que o é na realidade seja pelo con­ trário diminuindo sua importância. por serem responsáveis pela terapia. ficam mais facilmente sujeitos a suas próprias fantasias acerca da enfermidade de que o filho padece. ante as possíveis mudanças que o filho experimente. Os pais costumam chegar à consulta com determinadas ex­ pectativas e intenções a respeito do tratamento do filho. junto com o adolescente e seus pais.

será preciso que se comprometam firmemente no esforço terapêutico. No caso de se apresentarem dificuldades para chegar a um acordo inicial sobre os objetivos. pois nelas devem-se encarar já alguns problemas cruciais da conflitiva famjliar. é indubitável que os pais têm direito a um esclarecimento sobre o sentido e o alcance do tratamento que o filho venha a empreender. logo após obtido um diagnóstico psicodinâmico do grupo familiar e da situação-problema.124 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica sos do paciente ou. Essas entre­ vistas adquirem na realidade grande valor terapêutico. título de exemplo do exposto até aqui. Antes de tudo. mas em tratar / de entender juntos a problemática familiar global que pode estar originando sua rebeldia e o significado profundo da mesma como expressão da crise adolescente e da conseqüente crise deles mes­ mos. Por outro lado. Apelando uma vez mais para entrevistas con­ juntas ou em separado. pois será ne­ cessário revisar o que acontece não só com o paciente. Procurar-se-á que os pais cheguem a reconhecer que tam­ bém eles estão imersos no problema e que. descreverei uma sií \ tuaçao -A muito freqüente na psicoterapia de adolescentes: a do jovem que tem uma atitude de rebeldia em relação aos pais. o deles mesmos (quando tenham sido tratados) e sobre o tratamento. num filho submisso e obediente. será de utilidade efetuar. os pais devem ficar excluídos da avaliação dos resultados obtidos33. para obterem certas mudanças em sua relação com o paciente. o que é muito comum. as quais poderiam ser conjuntas (29) com os pais e o adolescente ou realizar-se em separado. mediante a qual este comu­ nicará sua própria avaliação dos resultados terapêuticos. entrevistas operativas (44) especialmente destinadas a este fim. . y c) Tampouco. de repente. solicitar-se-á que tragam suas impressões sobre o estado atual do paciente. que retirem diretamen­ te o filho do tratamento. devemos fazer compreender a estes pais que nossa finali­ dade terapêutica não consiste simplesmente em converter o pa­ ciente. sendo também eles objeto de uma devolução por parte do terapeuta. mas tam­ bém com eles.

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Consultou-me às escondidas de seu marido. Tinha completado o curso secundário (efetuou algumas matérias no curso de psicologia. segundo a paciente. O casal havia se conhecido trépanos antes. a quem chamarei Rita. ainda que não poucas vezes tivessem desentendimentos e discussões acaloradas. o qual. A princípio queria ajuda para compreender melhor suas qualidades a esse respeito e em conse­ qüência tomar uma resolução. tam­ bém empregado.7 Uma sessão depsicoterapia breve . e para permitir uma melhor compreensão do que aconteceu na ses­ são. isto é. A paciente. à tarefa de focalizaçào e a outros temas de interesse. e por não poder tQmar uma decisão diante da mesma. Antes de mais nada.cujo diagnósti­ co foi confirmado . que espero possa ser útil para ilustrar aspectos inerentes à relação paciente-terapeuta. exporei os dados principais da história clinica e um esboço da estrutura focal da maneira como/oi concebida inicialmente1. é uma jovem que na época da consulta tinha 23 anos. j Apresentarei aqui o material de uma sessão cie psicoterapia focal. trabalhava como empregada numa oficina e pertencia à classe média baixa. Rita dizia que a rela­ ção com seu marido era “bastante boa e carinhosa”. mas abandonou-o logo em seguida). “não acreditava” na psicoterapia e nunca havia aceitado consultar um psiquiatra. de 27 anos. Estava casada há 14 meses. . prosseguir com a gra­ videz ou submeter-se a um aborto. Veio à consulta apresentando uma gravidez . às intervenções do terapeuta.de aproximadamente 50 dias.

Na realidade. já que seu marido desejava um filho. mostrando-se muito entusiasmado com a idéia de ser pai e confiava em que iriam poder superar os diversos inconvenientes que se apresentas­ sem. As mesmas eram pouco satisfatórias. aceitando o conselho de uma amiga. de vez em quando. por momentos parecia inclinar-se ao aborto. submeteu-se a uma anestesia geral e. mas dizia tam­ bém que se sentia insegura de si mesma e incapacitada para ter um filho. Até esse momento não ha­ viam empregado nenhum método anticonceptivo. chorara muito. enquanto voltava a si.130 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica A gravidez não foi planejada conscientemente pelo casal. uma vez passado o momento crítico. enquanto. assim mesmo em poucas ocasiões. Para tanto. Temia que tivessem produzido lesões importan­ tes nos genitais da paciente. antes de mais nada. alegando apenas que assim “era mais cômodo”. angustiadamente: “tiraram ele de mim!”. havia esta­ do a ponto de visitar um médico residente para praticar o aborto. que ocasionassem sua esterilidade. Alegava. chocavam-se com seu desejo de chegar virgem ao casamento. razões econômicas. Um dia. A partir do aborto foi sobretudo seu marido quem pareceu ficar preocupado. mas logo mudou de idéia e. A paciente não encontrava explicações razoáveis para esse descuido. havia se desin­ teressado do assunto. A jovem temia em conseqüência que um aborto afetasse a relação do casal. Mas. Haviam começado a manter relações sexuais antes do casa­ mento. Seu marido adotava uma posição oposta. antes de vir à primeira entrevista em meu consultório. “deve ser feio tê-lo sem sentir muito desejo”. há dois anos ficara grávida ç de comum acordo com seu atual marido praticara um aborto. simbolizado pelo “casar-se de branco”). a não ser o coitus interruptus. decidiu consultar antes um psicoterapeuta. quase não voltaram a falar no assunto. segundo lhe contaram. . gritando. ao verificar que não ficava grávida. Ainda que Rita insistisse na dúvida acerca do que queria com relação à gravidez. que não tinha interesse em submeter-se aos procedimentos habituais de contracepção e que ultimamente. seja porque eram vividas por ambos com muita culpa (em Rita. dizia ela. seja porque eram constantemente acompa­ nhadas pelo medo de uma gravidez.

”) Teve dois 'abortos.” A reação de sua mãe havia sido especialmente desconcertante para Rita e parecia assentar-se em uma intensa ambivalência para com sua gravidez. Segundo a descrição da paciente. l ive que lhe dar soro. que após ter vivido um tempo separado dos pais voltara à casa paterna acompanhado da esposa e.) A família de Rita se opusera tenazmente a seu casamento. Bleger [2]). não podia “separar-se deles”i /"NTlido o que foi mencionado. Sobressaíam as característi­ cas matriarcais.. como: “A mulher não deveria sofrer na gravidez. como sofreu sua mãe nas dela. cm troca. vivia zombando do genro. Segundo Rita. por exemplo. casado. o pai impressionava por ser uma pessoa muito controlada ein seus afetos: FEu sempre digo que é muito diplomático. e só ultimamente parecia dar mostras de começar a aceitar ou tole­ rar seu marido. que tratou de explicar à jovem com argumentos. todavia. um antes e outro depois do nascimento de Rita. . Qualificou-a também de “muito nervosa”. A mãe. Vi­ sitava-os diariamente com seu marido “para bater papo e jantar”. (“É como se ela não hesitasse em matar alguém nesse momento. dizendo-lhe que “não servia” (alusão ao fato de que não engravidava sua filha). Nunca se pode saber olque está sentindo c nunca discute com ninguém.disse . e L. além de muitos outros indícios.Uma sessão de psicoterapia breve 131 Dosjmtecedentes familiares importa assinalar que a paciente cra proveniente de uma família de educacão e costumes tradicio­ nais. Mas é só o que falta”.era^cordial”. dizia com ironia. T inha um irmao.” Padecia de hipertensão arterial. a paciente se encontrava em plena luta para alcançar sua individualização. com tantos vômitos e indisposições. Sua relação com ele . filha.. Segundo a paciente. } fazia supor que o grupo familiar correspondia ao tipo dos çj^omij \ nados aglutinados (F. Logo sejirrepende. Nem água podia beber. Diante da notícia da gravidez. que experimentava ocasionalmente. com os conhecidos tabus sexuaisA relaçào com seus pais era de marcada dependência. ante as quais. o pai adotou uma atitude de franco desagrado. cinco anos mais velho que ela. era uma pessoa muito severa e domina­ dora. o irmão reagiu com aparente indiferença. se domina. segundo ela. com uma filha de 4 anos. com reações anormais de violência. (“Não vivemos ali porque não dormimos.

Dos antecedentes pessoais de Rita. Interessa em especial destacar que a inãe de Rita. na sala) até que. a princípio. você acha? respondi. grande risco de vida. ÜJUxo único. Até se casar. assinalarei alguns dados •' significativos: ela acreditava ter sido produto de uma gravidez não desejada por seus pais ( já em sua primeira gestação. dificuldades econômicas familiares). sala. devido a um quadro de apendicite aguda. . teve de se submeter a uma inter­ venção cirúrgica de urgência. ‘Olha que é muito cedo para você perder tempo com uma criança’. havia tido outras moléstias durante essa gravidez (anemia profunda. ao que parece. para justificar. e o irmão. O par­ to foi normal. Em seguida pareceu emocionar-se e começou a chorar. o que supostamente levou o casal a não desejar outra gravidez). corren­ do as duas. instalada ao lado da de seus pais (alegava. para ir trabalhar. com seu casamento. sua mãe. também. me disse ela”. um médico diagnosticara uma presumível apendi­ cite crônica'. Não. Por outro lado seu. “Mas não sei até que ponto se alegrou . Além do mais. a mãe havia sofrido diversas moléstias. pai preferia.” (Não descartava a possibilidade de recorrer a uma creche. Essa intervenção foi realizada com anestesia local. foi viver com o marido em um apartamento alugado. ainda que lhe parecesse que sua mãe cuidaria do filho com mais carinho. à qual. diariamente. que era.) Dois anos antes.co­ mentou Rita .132 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica Logo lhe levaram a notícia da confirmação da gravidez. flebite. depois passou a dormir com sua mãe na cama de casal (enquanto o pai dormia em seu local de trabalho. e episódios diarréicos). cozinha e banheiro). Ujnjnenino. que os pais ^do marido. Rita sempre dormiu na casa dos pais (a casa em que ainda vivem c que conta apenas com uin quarto. estando grávida de três meses. dormiu na mesma cama que seu ir­ mão. num exame clínico motivado por transtor­ nos intestinais.porque depois me disse que tomasse algo para tirálo. se alegraram muitíssimo com a novidade. Nesses momentos a preocupava o fato de ver-se obrigada a deixar o bebê aos cuidados da mãe. Não tem lugar para nada. não deu crédito. Até os seis anos. segundo lhe contou. Cabe dizer. Dizia-me: “Essa casà é um desastre.

ba­ seado nos conflitos ante a maternidade. a faziam temer agora por sua própria sorte. nao chegando a configurar um quadro característico de neurose.C ---- - " j ' - . e dali ir retrocedendo em sua história até chegar a considerar a pro­ vável incidência de fatos a elas concernentes. seu aborto podia ser considerado. inclusive as primei­ ras etapas de sua vida. funcionamento egóico adequado. Assinalarei agora os componentes do foco iniciahe alguns dos principais psicodinamismos em jogo. consU derando seus ^ntêcedentes pré-natái§> podemos compreender melhor o porquê de suas elevadas ansiedades paranóides ante a sua gestãçao e suas intenções de abortos. \lguns diagnósticos considerados foram: personalidade hipomaniaca^ com conflitos de natureza neurótica.e ao que parece. A gravidez atual continha então um desejo inconsciente de reparar o dano produzi­ do^ associado à ngcgssidade de comprovar a preservação de seus genitais diante do temor de que tivessem sofrido danos. com atitudes para o insight. em parte.Uma sessão depsicoterapia breve w. ainda que em grau menor. foco definido. Mas Rita parecia sentir novamente e de modo imperativo a necessidade de pagar por suas “faltas” com um novo aborto. alimentadas pelo risco cirúrgico que sofrera sua mãe. W. Pensei em questões que se vinculavam ao motivo da consulta. Diante de uma imagem fetal seguramente muito per____________ ^ ' J' " " " ^ llh _ *' í . tais como: Quais foram os fatores*dcterminantes da busca inconsciente da gravidez atual? O que ela representava para a paciente e para o seu marido? Que fatos motivavam sua ambivalência afetiva e seu» temores ante a gestação? Por que se inclinava conscientemente a&aborto?. etc. Vamos aventar a hipótese de quê suas fantasias de ataque ao ventre materno. Suas relações sexuais pareciam despertar nela intensos sentimentos de culpa. tam­ bém seu esposo reagia com típicas defesas maníacas. como um mecanismo de autocastigo por infringir a proibição. Mas o aborto também era gerador de culpa pela destruição do filho. Ein conseqüência do men­ cionado. diante dà qual a paciente . que sem dúvida tinham muito a ver com suas experiências de coabitação e de partilha de cama. negando a dor e a perseguição provocadas por essa perda. e as conseqüentes fantasias incestuosas. ainda que manifes­ tando resistências que poderiam accntuar-se4. Creio que podemos partir da^dificuldades sexuaj^ de Rita. principalmen­ te por tratar-se de relações sexuais pré-conjugais. ^ -----. Além do mais.

. adquirindo a gravidez o caráter de algo pecaminoso. temerosa. para cm seguida dizer que abortasse. crcnça quase mítica de que a gravidez era uma espécie de enfermidade^lesgraça ou maldição. Inclusive sua mãe a incentivava em certos momentos a abortar. A conduta materna reproduzia. Nessa etapa dc doloroso e difícil despren­ dimento. a rejeição ante o marido e à gravidez. atraves~dê~seírs levado montantejteagressão. bssa crença era fundamentada nos problemas sofridos por sua mãe e sua cunhada. de uma gravide/. até esse momento. dos tabus sexuais e . correspondentes à conflitiva focal. em uma observação mais profunda. A família parecia exercer grande influência sobre a paciente. interessava além do mais considerar o momento evolutivo que este caso estava atravessando: pudera começar a separar-se fís i-/lfV '*^tr ca e gradualmente de seu grupo familiar ao contrair matrimônio j cerca de um ano atrás. a paciente sem dúvida não havia conseguido. também para ela a imagem materna continha características filiei^ das (5 ). incrementando-se seus temores de experimentar uni retrocesso nesse sentido: deixar o bebê aos cuidados de sua mãe consistiria em voltar a ligar-se e submeter-se intensamente à. especialmente à mãe. não desejada e muito acidentada. .da. Mas sim. superar sua dependência patológica do gru­ po.134 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica secutória. como emer­ gente. Parecia temer que os familiares. e a jovem. (Rita havia nascido entre dois abonos. já que primeiro incentivava o casal à gravidez por meio de troças a seu genro. só acumulava dúvidas sobre o que desejava fazer. no que. assim. em função do luto patológico nâo-elaborado (aborto). e na qual correu peri­ go de ser abortada. Por sua vez. os provenientes do meio familiar. e expressa verbalmente pelo pai. ao que parece.) Deduz-sc que Rita não se sfiüúa cqmjLijreito de_sCTmãe. por outro lado. pela qual é preferível não passar. a perspectiva de ter um filho repercutia curiosamente na jovem. a de um superego ambíguo. Os relativos à relação de casal da paciente não pareciam relevantes num primeiro momento. através da quãTse^oãõHrígadíTa abandonar seus desejos maternais5. poderse-ia descobrir a persistente resistência familiar à sua individuali­ zação e desprendimento. Havia muito mais elementos em jogo. da severa educação religiosa. família. Recordando o conceito de foco enunciado por Fiorini (3). em relação à qual teria lugar o conflito básico da problemâtica.

no caso de nãcTabortar. ^ Tratarei dc reproduzir. em sua pró.. Estas seriam as regras do jogo que deveria cumprir para não perder o carinho dos seus. o desenvolvido até aqui: ^ FO C O Relações sexuais pré-conjugais (culpa pela sexualidade) I Aborto |-----1 Defesas maníacas t s [ M omento ev o lutivo]----- Casamento Deves abonar" \ . com as limitações próprias de todo esquema. Rita tomava como referência o que ocorria com sua pequena sobrinha. teria de oferecer a ela.no sentido de não poder liberar-se da ligação com a figura materna. antes de mais nada. que se reativava ao identificar-se com o filho monopolizado em sua fantasia por sua mãe. r'Mas seus temores se baseavam. que se achava sob o domínio da avó e exposta a uma educação retrógrada.pria experiência. M o o familiar | . renunciando à sua condi­ ção dc tnãe. a despojassem de seu filho.Uma sessão de psicolerapia breve 135 em particular a mãe. sobretudo o materno. o qual.

P1: (Sorri. levando-se em conta seu estado e motivação para o tratamento. Caso decidisse prosseguir com a gravi­ dez.136 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica A paciente nào se achava motivada para realizar um trata­ mento prolongado. Caso se decidisse pelo aborto. um pouco perturbada): Não me diga nada. para ela. T1: (Respondo com um sorriso. perfeitamente localizada c circunscrita. em tom amável): O que você pensa a respeito de ter chegado tarde desta vez? P2: A verdade é que sentia frio e tive dificuldades para me le­ vantar da cama e vir. Chega com 20 minutos de atraso. Há um silêncio de alguns segun­ dos. acredita que poderia haver outros motivos? P3: (Incisivamente): Não. assim como das dificuldades de diversos tipos que eventualmente pudessem aparecer. que interrompo para dirigir-me a ela. dependendo da evolução do seu estado e das vicissitu­ des que poderiam acompanhar sua gravidez. ainda que nesse caso tenha-se adiantado que uma assistência psicológica seria tanto ou mais necessária6. (muda bruscamente o tom de voz. a situação seria reestudada.. assim como as fantasias subjacentes que haviam acompanhado a sua busca. considerando-se útil em algum momento a possibilidade de inclusão do esposo e de outros familiares da paciente no processo terapêutico.. que estava próxima de completar o terceiro mês de gestação. ( pensa breve) Sobra-me apenas metade da sessão. Recorria à consulta por uma necessidade que era. com duas sessões semanais de 40 minutos cada. o objetivo do tratamento seria a revisão das ansiedades por ela produzidas durante a gestação. . As metas terapêuticas imediatas consistiam em ajudá-la a en­ tender melhor as causas determinantes de suas dúvidas a respeito de sua gravidez. O tratamento foi planejado com base na técnica de insight. T2: Além disso. motivo pelo qual lhe propus uma psicoterapia de objetivos limitados e de final “aberto”.. por meio de entrevistas de orientação.. que revela agora certa preocupação). A sessão A seguir é transcrita quase que literalmente a sétima sessão do tratamento de Rita.

. externando através de um olhar atento e movimentos de cabeça em sinal de aprovação. P6: Sim. Então. No dia seguinte. (A seguir ocorre uma nova pausa. Porque vir aqui adquiriu o significado de ocupar-se de você e de sua gravidez com a idéia de pre­ servá-la. De novo interrompo à silêncio. celebrávamos minha pri­ meira comunhão. mais prolongada. Lembrei-me que quando tinha sete anos mataram meu cachorro. metade da sessão não vem e a outra metade. Logo soube que meu pai e meu irmão o tinham atirado no rio. Depois. Creio que isso tem a ver com seus sentimentos ante a sua gravidez. a que vem.Uma sessão de psicoterapia breve T3: Assim é. recordando algumas coisas relaciona­ das com o que você me perguntou nas entrevistas. Tí­ nhamos um cachorro que “andava” com uma cachorra que estava no cio. Sofri muito com isso. você ia procurar um aborteiro. T6: (Acompanho seu relato. não? P5: ( Com expressão de alivio ): Sim. meu irmão bateu-lhe com uma cadeira que o “descadeirou”. sim. num saco. com si­ nais visíveis de ansiedade.. pelo que eu me converti em algo assim como a contrapartida dele. a que não vem na primei­ ra metade da sessão.. e outra não.. Quer dizer.. Um dia. Como foi isso? Contc-me por favor. antes de me consultar pela primeira vez. o in­ teresse que me desperta sua abordagem)1 .. não sei. Como incomodavam e o cachorro estava mui­ to agitado.. sobre alguma coisa ruim de minha infância. E não sei por onde co­ meçar... e que naquela ocasião eu não pude lembrar. • P4: (Adota uma expressão meditativa): Pode ser. Volta a sorrir-me. quando estão no cio? Bem. estive pensando. Lembro-me de que meus pais e meu irmão comentavam: “Não vamos deixar que as pessoas vejam um cachorro assim maltratado.) T4: Parece que lhe custa prosseguir. P7: Você já notou os cachorros.” O cachorro desapareceu. você parece se sentir como que dividida em duas partes: uma quer prosseguir a gravidez e ter o bebê. T5: Pelo que sente necessidade de trazer hoje e que lhe parece possa ser útil para entender seu problema. meu outro cachorro foi .. Mas Rita começa a mostrar-se tensa.

. Não sinto isso tudo. abortar outra vez. Tl 1: Sua mãe com a faca. não sei se tenho medo por mim mesma.. T7: Ela tentou alguma vez? P8: Não.. Vejamos um pouco por quê: você sofria pelo que acon­ tecia aos cachorros.138 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica atropelado por um caminhão. Estive também me lembrando de outras coisas: de quando minha mãe.. Sua gravidez é sua principal preocupação. mas eu não me dou conta de que isso aconteça com minha gravidez. que o arranquem como o seu cachorro. e por isso surgem essas lembran­ ças. num saco. ameaçan­ do se matar. que sempre foi muito nervosa. o que viria? Com o que poderia relacionar? PIO: Não sei. você poderia ter recordado outras coisas desagradá­ veis de sua infância. (pausa um pouco pro­ longada). TIO: Medo de que lhe suceda algo por estar grávida? PI 1: Sim. dos quais não se dá conta. Quem sabe seja isso... Em sessões passadas e nas entrevistas. que atiraram dentro do rio. T8: Bem. tratemos de ver o que significaram para você esses fatos de sua vida e por que foram recordados agora. pelo menos que eu saiba.. P9: Talvez. essas recordações. ou se justamente por serem feias pre­ feri deixá-las de lado.. Tudo isso eu não recordava.. brigava com meu pai e pegava uma faca. e ontem me perguntava se era por não serem coisas tão feias. despedaçando a boca.. o que não é casual. expressam uma grande preocupação que agora tem por sua gravidez. mas por algum motivo surgem essas recordações. Quer dizer. Com certeza.. não reconhe­ cendo em você. Parecem estar em parte re­ lacionadas com os problemas que tem agora.. T9: E no que diz respeito à gravidez de sua mãe. que lhe acon­ teça o mesmo que a ela? Que a tenham de operar de apendi­ cite? .. será seu medo ao bisturi. seu carinho maternal e seus desejos de proteção para com seu filho. quem sabe. Creio que no fundo teme muito perdê-lo. vimos que para você os cachorros repre­ sentam os filhos7.. abaixar um pouco.

T l3: Não quis ou não pôde? Porque talvez algo lhe acontecesse. Não só viajar. como se tivesse sido descobkrta): Eu gostava de muitas coisas. e no entanto não pude fazer coisas. (sorri. sentime cansada da faculdade e a deixei. mas não qúis. abandonando os estudos quando estudar era algo muito desejado por você. Por fim. motivo pelo qual lhe custa vir aqui. uma desculpa. se não haveria mais coisas nisso tudo. teria de pensar em con­ seguir um emprego com urgência para poder enfrentar todas as despesas que viriam. umas ‘lou­ cas’. Sim. Tl 4: É certo que. de que nada me atraía. Quero lhe dizer também que estive pensando sobre o que disse na últi­ ma sessão.. não fica claro o porque desse temor.. PI4: Sim. já que vontade não lhe faltava. Quero dizer. PI5: (Interrompendo-me).Uma sessão de psicoterapia breve 139 PI2: (Aprova com um movimento de cabeça).. ser uma dama. mas também modelo. (pausa).. mas antes disso não existia esse problema. para os quais não teve apro­ vação deles. Tl 5: Sim. Tl 6: O cansaço é. P13: Pode ser. estudar. É como se fosse algo relacionado aos seus estudos de psicologia. na verdade não sei por que me atormenta tanto esse medo de que algo de ruim mc aconteça. como a de não ter querido fazer coisas que na realidade você gostava. Depois cheguei a pensar que me invejava por ele não ter podido seguir uma carreira nos estudos.. parece que é assim. se opunham e me diziam: “Para essa faculdade é que você vai? É psicologia que você quer estudar? Ali são todas umas sem-vergonha.. Podia tê-lo feito antes de me casar.. então. Perguntome sc tudo isso não está relacionado ainda com suas dificul­ dades em vir às sessões. PI6: Com a psicologia.. Além do . próximo do casamento... quê eu gostava. Assim acabou por se submeter a seu marido.. São explicações que procuram esconder quanto você dependia da opinião dos outros e quanto estava submetida a eles.. T l2: Se bem que um médico lhe haja dito que tem apendicite crô­ nica. minha família e meu marido. Na verdade antes de mc casar havia muitas coisas de que eu gostava. cheios de preconceitos.

não se sinta muito tranqüila.. como por exemplo que a tenham de ope­ rar de apendicite. esperando aprovação para levar suas coisas adiante e agora sua gravidez. Seria desobedecer-lhe. deles dando mostras hoje.140 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica mais. PI7: Tem razão. mas também por seus temores em contradizê-la. Seria o empurrãozinho de que necessita para preservá-la. Tl 8: Isso explica por que quando ela lhe disse “tire-o”. eu pensava: parece que sempre necessitei que alguém me desse um empurrãozinho. Recentemente então se sentiu com permissão. rebe­ lar-se e expor-se a ser castigada por ela. Esse problema de suas dificuldades para empreender algumas atividades muito desejadas é muito importante. você se permite falar aqui de seus interesses. e creio que é parecido com o que acontece com suas dificuldades ante sua gravi­ dez. Você o faz às escondidas.<a ocorrência de alguma coisa ruim. como sente que ela não a aceita de todo. Queria sentir-se autorizada por mim a prosseguir com sua gravidez. Foi entào. mostra-se com mais iniciativa. P18: É que eu sempre tive medo de minha mãe. Meu irmão a con­ testava. disse você. a qual teria. Recorde como sua disposição sobre sua gravidez se modificou quando ela mudou de opinião e a aprovou. Enquanto você fala­ va. Eu me salvava por ficar caladinha. segundo parece. lcmbre-se de que você não comentou com seu marido que está se tratando. em especial sua mãe. Pelo visto. você acha?”. defendê-la. . que me apóie para eu poder fazer coisas. mas também de mim.. também nisso se sinta sem permissão para seguir adiante. Creio que é como você diz. como castigo. Isso significa que continua dependendo dos outros. assinalando. com o caso dos cachorros. ainda que. Uma permissão que estava esperando sobretudo de sua mãe. Hoje. Tem desejos muito encobertos de ser mãe. não só por suas próprias dúvidas. por tudo isso sente que seria melhor “tirá-lo” e assim evitar o perigo. Em parte. você ensaiou uma defesa muito tímida: “Não. se preocu­ pa muito com o que pensa sua família sobre sua gravidez. se rebelava e entào “levava”. quem sabe espera que a ajude. Mas quem sabe. T l7: Talvez esteja buscando isso em mim. Por isso tem medo de manter a gravidez.

doutor. acho que se coloca na posição do cachorrinho. e no entanto eu o fiz! Tl 9: Está certo. Se bem que deva haver mui­ tas outras coisas para se ver com respeito aos problemas ante sua gravidez. mas meus pais nào aceitavam meu marido.. T21: Temos que encerrar por hojç.. que cor­ reria o risco de ser vivenciado como muito inquisidor ou direta­ mente acusador (Intervenções Tl e T2).Protestando em tom amável)'. Faço-o de modo a ser o menos persecutório possí­ vel. que tem razão. já que ele interfere sensivelmente em nosso trabalho. Não havia pensado nisso. e por ter relações sexuais antes e depois do casamento. T20: Então..Uma sessão de psicoterapia breve 141 P19: (. opunham-se a que eu me casas­ se. Isto é.. agora quer ter um filho dele. e agora é maior com a gravidez.. parece que não (fesapareceu. não permitindo que ocorra um silêncio prolongado. e cuja causa é a regressão que se pro­ duziria a partir da identificação com o feto (6). apesar da oposição de seus pais. através de sua ambivalência ante a gravidez. abordo suas resis­ tências através de um fator determinante. te­ mendo ser duramente castigada por “esquentar” e ter rela­ ções sexuais.. trato de concentrar sua atenção sobre este fato. O que acha? P21: Acho que sim. Além de se atrever a casar sem a apro­ vação de seus pais. creio que hoje vimos algumas que parccem ser muito importantes e que devem estar pesando muito em você. Por mais que o fato de querer ficar na cama possa em parte ser explicado pela retração e excesso de sono que as mulheres costumam sentir durante as pri­ meiras semanas de gravidez. (surpresa). Acho que é assim. Em primeiro lugar. Bem. (brincan­ do): É o fim! P20: Ah!. Seu sentimento de culpa por ter-se casado. então se entende que é com muita razão que você se sinta tão inquieta. mostrando-lhe . Comentários sobre a sessão A paciente chega tarde. essencial às mesmas. coisa que já havia ocorrido em algu­ mas sessões anteriores.

a canalização nessa direção. segundo vislumbro. Além do mais. dispondo-me a escutá-la fazendo uso da atenção flutuante. Parece estar do­ tado de uma grande carga emocional que me impressiona muito. portanto. Rita relata ali recordações que impressionam pelo vínculo à repressão sexual e à violência de seu meio familiar. de­ monstro à paciente também verbalmente atenção e interesse diante do material que me traz. uma vez que já nos momentos iniciais da sessão uma intenção focalizadora se manifesta através desta intervenção. Estamos sem dúvida diante de um material focal que convém abordar. quando admite a pos­ sibilidade de tratar-se de coisas “feias”. podem ajudar-me a detectar o ponto de urgên­ cia. Tudo isso acontece rapidamente. situação essa que se apresenta com freqüên­ cia nessas terapias. Em T4. destinada a superar o obstácu­ lo resistencial. a serviço da tarefa terapêutica. dando-me a sensação. no qual parece que­ rer me situar (T3). trata-se fundamentalmente de uma interpretação “transferenciar. raciocinar.). numa tentativa de propiciar boa relação terapêutica e particularmente de estimular sua atividade egóica (recordar. por indícios que a seguir veremos. etc. esboça levemente uma atitude crítica. deduzo então que se trata de material pertinente ao foco. Em T6. Reforço.e tolero suas dificuldades de trabalhar na sessão. Trata-se agora de decidir o que interpretar e de eleger uma determinada linha interpretativa entre várias possíveis. Em P6 mencionou algo que lhe aconteceu com um cachorro. As recordações de Rita provocam em mim ocorrências que. além do mais. como o de P7. Mencionarei alguns dos pensamentos que me passaram pela mente nesses momentos sobre o significado que . de estar diante de algo de decisiva importância para compreender a problemática da paciente. através da expressão corporal eque manifesto. No transcorrer do tratamento. volto a interromper seu silêncio com uma interven­ ção que tende a tranqíiilizá-la..142 também o papel de defensor e protetor desta. na verdade pouco desen­ volvida em conseqüência de sua submissão. Como em sessões anteriores havia ficado evidenciado que este animal sim­ bolizava para ela os filhos. a tarefa interpretativa estimula o aparecimento de um rico material associativo. visto que quero fazê-la sentir que compreendo . A esse respei­ to. atenuando assim sua perseguição.

suas próprias relações préconjugais. e prestarei especial atenção à primeira das ditas recordações. já que a família aparece condenando sua sexualidade e por fim seu matrimônio e gravidez.) 2. sua genitalidade culposa e rejeitada que ela sente que a destrói. A cadela no cio me faz pensar na atual gravidez de Rita. ata­ que fantasiado como aborto. decido for­ .) Também o cachorro jogado ao rio dentro de um saco e o sofrimento experimentado encobririam outro fragmento de sua história: o aborto. (É sobretudo a recordação descrita pela paciente no primeiro momento que suge­ re tal conteúdo. a preocupação pelo feto perdido e seu destino. por tratar-se de um pecado. tudo isso que é necessário negar ou subesti­ mar e ao qual se soma o fato de que o aborto é por sua vez o casti­ go por haver realizado algo proibido. (“Não vamos mostrar um cachorro assim maltratado aos outros”. as atividades sexuais dos animais na véspera dessa comunhão. já que o cio é o período em que ocorre a fecundação. 4. casando-se “de branco”. deve ofcultar. além do mais. o cachorro machucado. a dor que lhe causa. 3. Expressariam sua atual preocupação e seus temores pelo que poderia acontecer a seu filho e em especial pela perspectiva de ser vítima de um violento ataque familiar à sua gravidez. A esse respeito me ocorre que a primeira comunhão poderia então repre­ sentar seu casamento (as meninas trajando longos vestidos bran­ cos s&assemelham a pequenas noivas). nas quais prevaleceria o temor de dar à luz um filho deficiente ou talvez monstruoso (cachorro “descadeirado”).Uma sessão ciepsicoterapia breve 143 poderiam ter essas recordações surgidas em tais circunstâncias. fantasias subjacentes referi­ das ao parto. Este pensa­ mento é o ponto de partida para as duas suposições que figuram a seguir. 1. o que se relacionaria com sua culpa por desejos sexuais incestuosos e pelo aborto. Estariam relacionadas com sentimentos infantis de culpa e fantasias de castigo pela sexualidade incestuosa. 5. pois a faz pírder sua pureza e que por isso. que teria de ocultar ou eliminar. Penso a seguir que poderiam estar encobrindo situações tanto anteriores quanto posteriores à época de que datam. Poderia haver. Ainda que todas essas hipóteses sejam concernentes à conflitiva focal e se encontrem intimamente relacionadas.

o que significa o ressurgimento da recordação dos acessos de violência de sua mãe9. T7. que não se limita a esperar o material da pa­ ciente e interpretar a partir de sua apresentação.T6. Por outro lado. Em T8 configura-se então uma abertura para uma linha interpretativa a ser seguida no transcorrer dessa sessão. isso se vai traduzindo numa gradual de­ marcação e aprofundamento focais. como o dos cachorros que para ela têm o significado de bebês. T4. Mostro suas tendências maternais ocultas. Junto à ativa­ ção egóica da paciente. como aconteceu com seu cachorro. além do mais. a assunção de iun papel decididamente ativo por parte do terapeuta. e no seguimen­ to da sessão. incluindo a formulação fre­ qüente de perguntas (Tl. Pode-se observar aqui. É que este último enfoque se ajusta melhor ao que tem sido evidenciado nas ses­ sões. T9) e de explicações que recordam sinteticamente a ordem de trabalho (T5). Começo ali tra­ tando de comunicar à jovem que a aparição dessas recordações se deve ao determinismo psíquico. do que se a opção tivesse sido por outras interpretações. seu medo de abortar é próprio da etapa de gestação que está atravessando. na qual existe um risco de aborto espontâneo (6). T2. assim como o faz com os sentimentos de rejeição ante a gravidez. Nessas circunstâncias poderia ser menos difícil que compreenda e aceite uma interpretação referente a esses temores. fantasiado como se fosse a família que lhe arrebata violentamente o filho e o destrói. o medo de perder o filho outra vez através de novo aborto. Um objetivo importante aqui é que ela possa tomar consciência de seus sentimentos de proteção para com o filho. e a oposição familiar à sua gestação. . uti­ lizando-se essencialmente da negação. (A evocação de um cachorro atropelado por um caminhão parece expressar também sua preocupação pelo destino do filho.*44 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica mular uma interpretação que possa conectá-la com as prováveis fantasias subjacentes enunciadas no item 5. a paciente aparentemente rejeita a interpretação. mas que participa intensamente e de diversas maneiras. procuro indagar mediante uma pergunta . Em T9. Também é necessário que reconheça que foram os sentimentos de proteção projetados no esposo e cm mim que possibilitaram sua consulta*. Isto porque parto de fatores já conhecidos de Rita.) Em P9.

A negação parece ceder um pouco. quer dizer. está sem dúvida muito mais próximo da consciência que seu medo do aborto . dado pelos temores particulares correspof dentes à etapa de gestação que está atravessando10 e que o mito‘familiar acerca da gravidez fomenta sobremaneira". a paciente demonstra aceitar a realidade evi­ denciada. isto é. quem sabe muito ansiógeno (o que sugere que devo ter cuidado em não for­ mular interpretações prematuras dentro do conflito em questão).como se pode com­ provar mais adiante na sessão que a levou a abandonar diversas atividades. e também destinadas a comprovar sua resposta a elas a fim de verificar sua tolerância para enfrentar os referidos conflitos. Logo sobrevêm uma pausa. Já em PI6 se anima a resgatar e evocar juízos críticos para com aqueles que se opu­ nham preconceituosamente a seus estudos.Uma sessão depsieoterapia breve _____ A partir de PIO. . Em PI3. o que configuraria o conflito básico. assinalo a negação maníaca da realidade. (Nesta paciente torna-se necessário assinalar constantemente o empobrecimento a que conduz a exa­ cerbação de suas defesas maníacas. Em T12 trato de incrementar sua motivação para compreen­ der melhor as causas de seus temores. que se opõem fundamental­ mente ao autoconhecimento. formulando uma nova interrogação. formuladas como interrogações. Isso porque alude à sua submissão ao grupo familiar. inicialmente não aborda de modo direto elementos de interesses como resposta.daí sua rápida resposta de aceitação da interpretação em PI 2. Seu medo de ter de se submeter a uma inter­ venção cirúrgica de apendicite. ainda que aquilo a que faz referência guarde igualmente estreita relação com o evitado. TIO e Tl 1 são na realidade interpretações que es­ boçam e apontam para esse conflito (ainda que sem revelá-lo dire­ tamente no momento). pela qual inconscientemente se sente ameaçada e condenada a abortar. como suposições. censuradas essencialmente pelas conotações sexuais que teriam para eles. comq o fora sua mãe. assim como ao seu parceiro . o que não ocorre em P9 configurando o ponto de emergên­ cia. através da qual parece querer fugir ao tema. a submissão às normas grupais. vai-se confirmando a existência de uma imago materna muito persecutória.) Em P14 e PI 5. Em T l3.

cujas características são uma mútua participação ativa. Incluo-me nessa interpretação. pode-se dizer que Rita está próxima de um insight. um bom funcionamento egóico a serviço da tarefa. que seria a busca de uma figura parental sobretudo materna permissiva e protetora para sua maternida­ de12. Assim sendo.146 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica Em T16 aludo às suas racionalizações diante das dificulda­ des causadas pela submissão. Por meio dessa interpretação espera-se que Rita compreenda um aspecto importantíssimo de sua problemática atual e o motivo latente da consulta. o que. procuro de imediato orientar sua atenção para as figuras de sua realidade externa e cotidiana. não constituindo necessariamente o tipo principal de interpretação e conectando o que sucede com outros objetos da realidade externa. pode alcançar a formulação de uma interpretação ou de qualquer outra intervenção verbal nes­ ses tratamentos. Em PI8 surge o temor de Rita à sua genitora. Em PI7. trazendo novamente para o pri­ meiro plano sua gestação. em especial o castigo pela rebelião. Para a paciente. às quais acrescento as que registra para vir às sessões por sua vinculação com o proibido (a psicolo­ gia). Isso se harmoniza com o tipo de vínculo e por­ tanto de comunicação que se instala. além do mais. Em T l7 pode-se observar também a intenção de recolocar a paciente na situaçào-problema. dentro de uma estrutura focal. O material que fornece se apresenta extremamente produtivo e revela. já en­ . Insisto assim em deter-me nos obstáculos resistenciais. numa atmosfera de ágil intercâmbio. o que configura um aspecto do trabalho de focal ização. característica fundamental dessas terapias. sem no entan­ to ser utilizada como um instrumento para promover a dependên­ cia regressiva transferencial. observa-se também a extensão que nessa oportunidade como em outras. dentro dessa sessão. sem que isso no entanto implique concentrar todo o interesse da paciente na relação tera­ pêutica. Em T17 faz-se necessário interpretar a transferência. Por outro lado. a interpretação “transferencial” cumpre aqui uma função claramente ilustrativa de seus problemas atuais (dependência patológica). na qual não preocupa muito que em certos momentos o terapeuta possa chegar a falar tanto ou mais que o paciente.

Uma sessão depsicoterapia breve 147 volve o conflito básico. por fim. por meio da qual se tenta promover um insight inicial de um aspecto decisivo de seus conflitos. permitindo assim que venha à tona a situação persecutória subjacente. reafirmar o já formulado em interpretações imediatamente anteriores. em tom de brincadeira . posto que abor­ dam. Em PI9. em sessões posteriores . responde ao mo­ do expressivo assumido por Rita em P19 e encerra um momento de insight obtido. num sen­ tido mais amplo. de tal modo que quase toda a ses­ são pode ser considerada sob esse ponto de vista como um traba­ lho preparatório para a receptividade de interpretações similares.sempre com base numa atitude cordial para com a paciente -. a paciente traz elementos para qye em T l9 se con­ firme e complemente o expresso em Tl 8. A perspectiva é conseguir. e ao mesmo tempo procuro manter . favotecendo assim que se clarifique ainda mais sua visão do problema atual à luz de seus sentimentos de culpa por ter-se “rebelado”. em T20. dado por sua submissão à figura mater­ na e por extensão a outras figuras superegóicas. ainda que parcialmente. A intervenção em T l9. Por últi­ mo e como forma de encerrar. Também tento. o que nem sempre é possível. (Este momento da sessão é por sua vez um dos que melhor exem­ plificam a afabilidade e a fluidez de diálogo que a comunicação pode assumir. que espero sirvam para estimular a participação de Rita na tarefa. que contemple entre outras coisas o pfoblema da culpa.) Em T20. o conflito básico dentro do foco.até onde seja possível e indi­ cado c com base nessa revelação um maior aprofundamento. creio ser possível e oportuno confrontar a paciente. com conteúdos reprimidos que possam emergir das recor­ dações do cachorro maltratado. contando com certas perspectivas de que consiga um insight. de importância crucial no processo terapêutico. pelo fato de crescer e desprender-se do grupo familiar. demonstrativa do efeito emocional produzido pelas descobertas. como parece atestar sua reação em P20. incluo apreciações acerca das des­ cobertas obtidas na sessão. T l8 é uma nova interpretação “extratransferencial”. Esse momento é resultado da lenta pene­ tração no foco durante a sessão e de que pouco a pouco foram cedendo as defesas maníacas.

em A. Rodrigué. Psicologia y psycopatología”. cap. c E. Nos estágios fi­ nais da mesma. A. dei superyó”. “La matanza de los hijos”. 1959. “Ansiedades específicas del embarazo”. Rascovsky. Respostas como esta vão-se fazendo mais freqüen­ tes no decorrer da sessão (o que se confirma a partir de P11 e especialmente em P17 e P20) e me sugerem. . Kargieman. pelo clima afetivo que impera.. “Reacciones maníacas: alegria masoquista dei yo por el triunfo. L. Buenos Aires. Langer c E. Comunicaciónpersonal.14S Psicoterapia breve de orientação psicanalitica sua curiosidade e suas expectativas a respeito desta (“. Soifer. em vez de respostas vazias ou de submissão ao terapeuta. Deu à luz uma robusta menina. motivo pelo qual teve de guardar repouso na cama por aproximadamente um mês e meio. 1. Kargieman.... J. 6. Allegro. demos por encer­ rado o tratamento. por exemplo). tratar-se de uma atenuação dos mecanismos manía­ cos e de um ascendente predomínio da transferência positiva. “El concepto de foco”.. em A. Libcrman. J. Buenos Aires. cm R. De. Buenos Aires.. 1971. Rascovsky c D. 1966. tendo-se recuperado por completo. G. Referências bibliográficas 1.) e propiciar nela uma atitude reflexiva. Rita decidiu prosseguir com sua gravidez. etc. Fiorini. Soifcr. Fiorini. “Grupo familiar. El grupo psicológico. parto y puerperio. 1970. Teoria y técnica depsicoterapias. 6. mediante enganos. dificultando eventuais ten­ dências ao acting out (na forma de uma “pseudo-independência”. Bleger. Grinberg. P21 é uma nova resposta afirmativa de aceitação às minhas intervenções. H. Psi­ cologia dei embarazo.deve haver muitas outras coisas para serem vistas. Rascovsky. Nova. de introspecção. M. Paidós.”. Nueva Vision. 3. padeceu de uma afecção renal.. 4. 2. A. 1973.. L. La matanza de los hijos y otros ensayos. em parto normal. cm H. Garma. R. Pouco tempo depois. e J. Psicoanálisis de la mania y la psicopatia.. Bue­ nos Aires. 5. Bue­ nos Aires. cap. em L.

na avaliação dos resultados obtidos e. não devemos nos enganar: por mais que desde alguns anos se fale bastante em terapias breves. seja nos hospitais psiquiátricos ou nas instituições privadas. no caso de praticá-las. Dificuldades do terapeuta para a formação. ainda permanece a impressão de que os terapeu­ tas que se dedicam às psicoterapias breves “fazem o que podem” e enfrentam. para adequar-se ao en­ quadramento que as mesmas exigem e que as diferencia de outras técnicas psicoterapêuticas. ameaça desacreditá-lo cada vez mais. na prática assistencial.8. as vicissitudes e dúvidas que lhes im­ . Poderíamos considerar a questão como uma conseqüência das dificuldades dos terapeutas para se ajustarem ao seu enquadraníento e finalidade. de cuja utilidade para avaliar o problema que a assistência psiquiátrica maciça da população suscita muito poucos duvidam. Antes de tudo. mesmo assim observa­ mos uma considerável resistência por parte dos profissionais para o seu emprego ou. à medida que os anos passam. prática e investigação em psicoterapias breves' Introdução \ Vou referir-me a alguns dos problemas que em nosso meio apresentam-se aos terapeutas ante a psicoterapia individual breve de orientação psieanalítica. à sua maneira. o que é ainda mais grave. Assim sendo. o que por sua vez se traduz inevitavelmente em dificuldades no exercício desse mctodo terapêutico. seja nos serviços psi­ quiátricos hospitalares ou nos ccntros de saúde mental.

• Conclusões. esclarecendo-me aspectos de decisiva importância no processo terapêutico. Esses fatos têm-me chamado muito a atenção e também tenho me formulado as perguntas obrigatórias: Por que isso ocorre? Que motivos existem para que o processo de aprendiza­ gem dos terapeutas do emprego das terapias breves se atrase e se veja freqüentemente entorpecido? Diversos investigadores já assinalaram algumas das causas. e que. • Dificuldades diante do término do tratamento psicoterapêutico breve. sendo mais difíceis de controlar. que me despertaram um profundo interesse. • Desprestígio da psicoterapia breve enquanto indicação tera­ pêutica. vou citá-las aqui. • Outras dificuldades do terapeuta diante das terapias breves. • Dificuldades na avaliação dos resultados obtidos em psico­ terapia breve. Ao longo deste capítulo. abordarei os seguintes pontos: • A dificuldade de adaptação ao enquadramento da psicote­ rapia breve. Pela importância que têm a re­ lação com o que colocarei em seguida. em sua maior parte inconscientes têm sobre esses fatos. Searles (15) (16) (17) sobre a inter-relação pa­ ciente-terapeuta. De mi­ nha parte quero referir-me à incidência que em minha opinião certos fenômenos próprios da relação paciente-terapeuta. influem sobremaneira na mesma. Não podemos deixar de supor que tal situação diminui a eficácia terapêutica do procedimento e que é necessá­ rio portanto vencer os empecilhos que existem para instrumentar com êxito os diferentes recursos que podem fazer parte da terapia breve. Convém esclarecer que essas opiniões são basicamente resultado de minhas reflexões a res­ peito das próprias vivências experimentadas ao longo de minha tarefa em psicoterapia de tempo limitado e do conhecimento das idéias de H.150 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica põem a tarefa. jus­ tamente por essa condição. .

alcance e indicações determinados.. portanto interrompida. capazes de produzir autênticas mudanças nos pacientes. partir da psicanálise.B. Muitas vezes tal idéia se relacfona com a necessidade que os tera­ peutas jovens sentem de idealizar a psicanálise. Esses terapeutas são objeto das influências já citadas. que sê la/ sentir com mais intensidade a necessidade de empregar a P. mas acrescentava due esta teria de sofrer um processo de adaptação às novas condições (11). como logo veremos. têm de maneira geral extremo interesse em exercitar-se na técnica psicanalítica. os terapeutas princi­ piantes são maioria e. têm a seu cargo de maneira geral a realização dos tratamentos breves. Como é de se supor.Dificuldades do terapeuta 151 A dificuldade de adaptação ao enquadramento da psicoterapia breve “Psicoterapia breve ‘versus’ psicanálise” A P. o que por sua vez se acha ligado a seus desejos de se converterem em psicanalistas (20). ao que se soma uma tendência defensiva natural em aplicar aos pacientes aquilo que melhor . onde se deve oferecer atenção psicológica a um número elevado de pacientes. em sua opi­ nião.B. até perturbadora para o pa­ ciente. Nesses estabelecimentos. pouco eficaz e. na prática. em definitivo. um procedimento terapêutico basea­ do em certos elementos fundamentais da teoria psicanalítica. de orientação psicanalítica constitui. É habitual a tendência a desvalorizar a P. Que acontece então quando as circunstâncias impedem de se efetuar um tratamento psicanalítico? Cai-se freqüentemente na realização de uma psicanálise “curta”. Não obstante. Já em 1918 Freud antecipou que os novos métodos que seriam utili­ zados com o correr do tempo para efetuar tratamentos psicoterapêuticos em grandes massas da população deveriam.B. e a difundir a idéia de que só um tratamento psicanalítico tem reais propriedades curativas. para muitos é difícil aceitar a coexistência da psicanálise e da psicoterapia breve e reconhecer que se trata de métodos que têm utilidade. Comumente é nos estabelecimentos assistenciais. como se de­ preende desta denominação.

. material bibliográfico. continua sendo um parente pobre da psicanálise. esses problemas lamentavelmente ainda existem. embora não abundante. Também como conseqüência dessas pressões. . leva a uma “desvalori­ zação da nova técnica” (20).B. as terapias breves podem traduzir-se na prática em uma psicanálise “breve” (19). no final das contas. como assmalam Szpilka e Knobel. durante um ano. tem despertado. os conhecimentos e as técnicas psicanalíticas para essa psicoterapia” (19). felizmente contamos com um valioso. Concordo com ambos os autores quando atribuem tal situação ao fato de que se trans­ põem "as vivências. (O grifo é meu. Apesar do relativo interesse que a P. Além disso. que se costuma chamar de “superego ana­ lítico”. as modificações técnicas que necessitam introduzir são sentidas com freqüência como uma “heresia” ante o modelo psicanalítico. de início. a técnica psicanalítica. Essa pergunta se impôs a mim com maior intensidade quando me dediquei à realização de uma expe­ riência hospitalar sistemática em P.B. originando-se situações persecutórias. que podem intensificar-se diante de supervisores aferrados cm demasia à técnica da psicanálise ortodoxa e que não aceitam facilmente essas modificações. tampouco considero que sejam as discrepâncias entre os diversos autores qúe provoquem confu­ são. se bem que eu tivesse suficientemente clara. e ao com­ provar que. tais discrepâncias não são tão grandes nem tão abundantes. como bem disse Usandivaras. Creio que sua persistência obedece não só aos motivos até aqui enunciados. nem somente à carência de possibilidades de infor­ mação a respeito da teoria c da técnica da P. já que.) Na intimidade da relação terapeuta-paciente Pessoalmente perguntei-me o porquê de tal transposição. a qual. os quais sublinham o estado de desprestígio e de confusão que se observa em torno dela.B. quanto à qual. pois c vivida como uma falta de garantia interna e externa para o trabalho a sèr desenvolvido.B. e para muitos a P. quer dizer. Toda essa situação toma difícil a aplicação dos novos métodos. na atualidade.‘ *2 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica conhecem (o novo é menos seguro e gera ansiedades paranóides).

poucos meses de tratamento. diferen­ ciando com certa precisão a técnica a ser empregada da técnica analítica. contraria­ mente à minha ideologia terapêutica em matéria de terapias de tempo limitado e respondendo a uma tendência que não conse­ guia controlar e que nem poderia explicar unicamente através das razões aqui expostas (preconceitos com relagão a qualquer técni­ ca que não fosse a do tratamento psicanalítico. a ocorrências que não foram postas em prática e que pode­ riam facilitar o desenvolvimento da neurose de transferência e estimular a conseqüente regressão e dependência do paciente). a respeito do que me indicava a realidade (objetivos limitados. manifestaVa-se uma notória inclinação para cons­ tituir comigo imi vínculo emocionalmente intenso e regressivo. . Cheguei a pensar então que uma força interior me conduzia insensivelmente a tal atitude. além disso.). etc. “o efeito dos processos inconscientes do terapeuta sobre o paciente” (16) no vínculo simbiótico2. Sus­ tenta Searles que o vínculo terapeuta-pacicnte atravessa um mo­ mento de simbiose e que tanto o paciente como o terapeuta contri­ buem para que ele seja assim. Mas tampouco tinha eu dúvidas de que.). em vários de meus pacientes. Esse vínculo simbiótico tem suas raízes na relação mãe-filho c tende a se estabelecer e consolidar cedo ou tarde durante o tratamento psicanalítico. Com base num insight progressivo em seus pacientes e nele próprio. etc. em geral. Searles sobre a simbiose terapêuti­ ca (15) (16) (17) que me permitiu entender o fenômeno e formu­ lar minha hipótese sobre o que acontece no tratamento breve. Foi o conceito proposto por H. comecei a notar em mim uma forte e às vezes irresistí­ vel tendência de criar ou favorecer o estabelecimento da “atmos­ fera” psicanalítica nas sessões. Corria-se o risco de que isso sucedesse a contragosto. oferecendo uma maior “compreensão do significado emocional do paciente para o tera­ peuta c vice-versa” (16) e ressaltando. sobretudo através de insistentes interpretações transferenciais (afortunadamente reduziram-se. Searles desenvolveu suas impressões referentes ao papel fundamental da simbiose terapêutica. devendo final­ mente se atingir sua resolução.Dificuldades do terapeuta 153 a maneira segundo a qual me havia proposto a trabalhar. inconveniência do estabe­ lecimento de uma neurose transferencial e de estimular a regres­ são.

.. o qual (. Hm tais fases. mas profundamente valorizada (15). Searles descreveu. o qual. Não só o paciente..) constitui uma fase necessária na psi­ canálise ou psicoterapia tanto de pacientes neuróticos como de psicóticos ” e que “tanto o paciente quanto o terapeuta (.. como a inter-relaçào simbióti­ ca atravessa distintas “fases”.) para fora do canal confluente. por sua força. mas também ele está agarrado a um processo. na psicoterapia de esquizofrênicos crônicos. em determinado momento. Diz esse autor: “(..) a) A relação terapeuta-paciente no tratamentopsicanalítico A análise das emoções transferenciais e contratransferenciais mostra freqüentemente que estas alcançam grande intensida­ de e muitas delas são altamente gratificantes para o analista. Assim. quando estes despertam sentimentos maternais no terapeuta.. logo teve que reconhecê-la na evolução trans­ ferencial de pacientes neuróticos.) apesar de seus tormentos (..) se vêem submersos e arrastados em direção à corrente.) atualmente tenho me dado conta .. a simbiose terapêutica se apresenta tanto em pacientes psicóticos quarta n^irótims F ainda quêlnicialmcnte a tenha detectado e descrito na psicoterapia de esquizofrê­ nicos crônicos (15). ao processo de tra­ tamento (. Sustenta também que a relação de transferência simbiótica “(. o processo terapêutico.) tam­ bém é poderoso tanto para o paciente quanto para ele mesmo. Isso é particularmente notório na psicanálise de esquizofrênicos crôni­ cos. (Os grifos são meus.... processos gratificantes da relação simbiótica que tanto o paciente quanto o terapeuta se mostram renitentes em abandonar” (16).mesmo quando isso me provoca muita ansiedade dos profundos.). durante meses ou anos. o qual tende a fo r­ mar-se p õ rsi mesmo” (16). embora inconscientes. demasiadamente poderoso para serem capazes de desviá-lo com facilidade (.154 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica Para Searles. é com­ parável ao processo de maturação na criança (. . a simbiose terapêutica experimenta mudanças de significado qualitativas e quantitativas.). constitui fonte de intensa grati­ ficação para paciente e terapeuta .. além disso. até chegar finalmente à de individualização do paciente.. com freqüência negada por este último..7.

Essas emoções aparecem em parte como conseqüência da situação regressiva do paciente. e nesses momentos o próprio paciente vive o terapeuta transferencialmente como uma màe (ou pai) ideal. Vai-se configurando uma estreita relação.B. especialmente nas etapas de maior regressão dos pacientes. do paciente e do analista.? Que acontece com o fenômeno que acabamos de descrever e que se anuncia desde que começam a interatuar paciente e terapeuta? Penso que o enquadramento que requer a P.B. na qual o analista. b) A relação terapeuta-paciente na psicoterapia breve Qual é a situação que se apresenta em P. são dirigidas para evitar a instauração de um vínculo . Pode “converter-se” então na muito amada (ou inclusive muito odiada) mãe. a regressão do paciente. e que é preciso controlar.Dificuldades do terapeuta 155 permitindo uma tarefa reparatória. que o leva a situar o analista no lugar de uma figura parental. essa interrelação simbiótica pode ser fomentada em beneficio do processo terapêutico. sente-se cada vez mais objeto de todos os sentimentos deste e protagonista decisivo em sua vida. Sabemos que temos que nos propor objetivos limitados.B. Em resumo: o estabelecimento do vinculo simbiótico na re­ lação paciente-terapeuta parece ser um fenômeno que tende a se produzir espontaneamente. sabemos além disso que o tratamento costuma centrar-se na elaboração da relação transfe­ rencial. resulta frustrante nesse aspecto. nesse “mundo dos dois”. As condições do enquadramen­ to da P. que se prolongará por anos e no qual o “como se” da rela­ ção não o impede de experimentar intensos e prazerosos senti­ mentos1. que carecemos do tempo necessário para trabalhar a neurose de transferência e a regressão conseqüente até conseguir que sejam elaboradas. ao fomentar por sua vez a regressão do paciente. pois oferece um campo menos propício para as citadas gratifica­ ções do terapeuta. Esclareçamos desde já que tudo isso também ocorre cm me­ nor magnitude na psicanálise de neuróticos. No tratamento psicanalítico. o que estimula no terapeuta o sentimento de onipotên­ cia'. o que é altamente gratificante. na medida do possível.

que na realidade tendem a tomar conscientes outras transferências do paciente. Na opinião de numerosos autores. esse fato geralmente constitui uma complicação (ver capítulo 10. convém em termos gerais recorrer à interpretação da transferência somente em determinadas circuns­ tancias . não se presta a que o terapeuta satisfaça suficientemente certas expectativas latentes. já não será um terapeuta-mãe e deverá. nos quais me incluo. Sentir-se-á. çônjnge_ chefer etc. (1) (3) (8) (10) (19) (22). parece conveniente. aquelas que estabelece com as pessoas com as quais se relaciona em sua vida cotidiana. em troca. numa terapia breve.156 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica paciente-terapeuta demasiado intenso emocionalmente. Con­ sidero que. e que além disso encontramos pacientes que de um modo quase espontâneo desen­ volvem uma intensa regressão desde o início do tratamento. então. Isso naturalmente é coerente com o propósito de conseguir a resolução de seus con­ flitos atuais. Mas numa terapia breve. e levar o paciente a se interessar pela revisão de seus vínculos com seu verdadeiro pai.B. pp. devendo ater-se ao “de fora". diferentemente do que acontece na práti­ ca da psicanálise. pode repetir-se com assi­ duidade numa terapia breve . procurando manter uma trans­ ferência positiva moderada.B. já que se deverá evitar a regressão transferencial. mas não ignoramos que em certas circunstâncias os sentimentos transfe­ renciais e contratransferenciais são muito fortes. mãe. É de supor então que aJ^. 178 ss. fora do universo do paciente. A experiência do terapeuta que realiza uma terapia breve pode diferir bastante da que vivência com um paciente em tratamento psicanalítico.). recorrer às interpretações denominadas “extratransferenciais”. As conseqüências dessa vivência contratransferencial de frustração que. em lugar de fazê-lo na relação com o terapeuta. já que desde um primeiro momento procura-se que concentre seu interesse nela. Quer dizer. conformar-se com sua condição real de docente experimentado (8) no tratamento.se sentirá um p ro tag o n ista importante. na relação com o paciente. que não se deve empregá-la com a assiduidade e com a finalidade com que se utiliza em psicanálise5. o terapeuta pode experimentar um sentimento de exclusão. quer dizer. pelo contrário. cm P. Neste último caso pode “atrair” o paciente para uma intensa neurose dç transferência.. como se deduz. dependerão de suas possibilidades . na qual o terapeuta .

o terapeuta pode- rá ter acesso em certa medida às gratificações comumentc nega­ das. exige. a estabelecer um vínculo simbióti£ 0. caracterizada noriuma regressão a nm tipo de dependência infantil com relação ao terapeuta. Para estimular a regressão. induzindo o paciente.de^ratificação através do fomento da neurose transferencial. É possível. Isso nos expl ica por que diferentes autores falam. da “tentação” que o terapeuta pode experimentar de analisar a trans­ . pode erroneamente atribuir essa sensação de insatisfação e desilusão a uma suposta ineficácia ou fracasso do método psicoterapêutico breve. que reaja com intervenções agressi­ vas. f c) Quando a psicoterapia breve converte-se em “psicanálise breve ” Dessa maneira pode pôr-se em marcha o que há de ser uma espécic de “psicanálise breve” (19). etc. Se este alcança certa intensidade e não é controlado adequadamente. e que de outro modo a terapia é “superfi­ cial''. que chegará a adquirir ou não consciência da situa­ ção. mais ajustado às condições da realidnde . cons­ ciente ou inconscientemente. Creio ser por isso que lhe resul- ta difícil renunciar a tal tipo de relação para aceitar o outro. Se os motivos estiverem reprimidos. au­ mentar a freqüência e a periodicidade das sessões7.portanto mais frustrante que a P. Em suma sustentará que é preciso insistir em interpretar o “aqui c agora eomigo”\ na busca inconsciente . e que é por esta razão que a transposição da téc­ nica psicanalítica para as tempias breves se produz com tanta freqüência^ Com o paciente como criança-filho.. que poderão por sua vez ser racionalizadas.B. pode dificultar era alto grau a tarefa do terapeuta.Dificuldades do terapeuta ____ ____ de resolução do conflito. que uma tal relação promete proporcionar-lhe. usar o divã. o terapeuta pode apelar para o uso reiterado e até sistemático dc interpretações transferenciais. renunciar ao papel ativo na tarefa. mas profundamente valorizadas. por exemplo. em P.B. tendendo além disso a conven­ cer-se de que só a análise exaustiva e sistemática da transferencia pode ajudar o paciente.

pelas diversas razões assinaladas no começo deste capítulo.. Além do mais. não descõrftl&eemos. demandou-me um grande esforço “deixar passar” sem interpretar o material não relacionado com o foco. a análise sistemática da transferência é uma tentação permanente para o terapeuta ” (5). e em especial em minhas pri­ meiras experiências em P. volte para ela todas as suas emoções e expectativas. A esse respeito assinalam vários terapeutas: “Não se fomentou a regressão. Freqüentemente houve necessidade dafirmar-se nessa postura ante o material que trazia o paciente. não é aconselhável ábrir demasiadas feridas no paciente. pois isso o obrigaria a centrar-se mais na problemática atual do paciente para ajudá-lo a resolver questões . Assim mesmo podemos compreender a resistência que às vezes experimenta o terapeuta para buscar e encontrar objetivos limitados em cada caso.. Diz acertadamente Fiorini: “Haveria além disso uma contra­ dição entre um enquadramento de tempo limitado e um processo no qual as intervenções do terapeuta ‘propusessem’ a regressão e a concentração de afetos do paciente nessa relação bipessoal (a situação se expressaria nesta proposição: ‘a relação que o senhor mantém comigo é muito importante para entender e tratar sua enfermidade. mas também e muito especialmente à busca das gratificações que lhe daria uma relação mais profunda com o paciente. que se apresentava como sedutor para a análise da transferência (. Pessoalmente.B. Tapibcm tentainterpxetar_conflitos alheios ao foco terapêutico1 ainda que saibamos que em P. que isso conduz a um incre­ mento da regressão. Mensagem e ação resultariam aqui do tipo estímulo-irustraçào. (Os grifos são meus.B. o que costuma per­ turbar o paciente.). respeitando-se a lógica e adequada pro­ gressão dada pela mesma relação terapêutica. pelo exercício da psicanálise..‘ Psicoterapia breve de orientação psicanalitica ferência.) Eu acrescentaria que se trata de uma tentação que não só corresponde ao desejo dc investigação do terapeuta e de extrapo­ lar o sistema psicanalítico. Mas prepare-se para cortá-la de repente’)” (8). Outros autores fazem referência a uma necessidade de auto­ controle do terapeuta para regular as interpretações transferen­ ciais e com isso a regressão do paciente (1) (10).

as mudanças de atitude que estes puderam apresentar em sua vida real são com muita freqüência rapidamente subestimadas e qualificadas como atuações.) O terapeuta pode então resistir a reconhecer os progressos do paciente e até parecer muito decepcionado pelos resultados do tratamento.B. procu­ rando estimular nele a confiança em si próprio. não é difícil supor que isso interfere na possibilidade do terapeuta de efetuar uma avaliação realista e justa dos resultados obtidos com o método. não lhes faci­ lita o acesso às negadas. em seu afã inconsciente de perpetuar sua . Dificuldades ante o término do tratamento psicoterapêutico breve Em geral a tendência para fomentar a.. Por isso. assim como seu de­ senvolvimento independente. se é que se insistiu em fomentar nos pacientes a dependência regressiva em lugar do autodesenvolvimento. “fuga em direção à saúde”. de tais eventualidades nas terapias breves8. gratificações próprias de uma relação mais estreita e emocionalmente mais intensa com os pacientes. e conseguir desse modo que possa obter alta. já que. (Com isso não quero desconhecer a presença.Dificuldades do terapeuta 159 muito concretas e imediatas com um critério prospectivo.dependência no paciente complitfa a separação ao terminar o tratamento. chegam a ajustar reconfrafÕs que permitem prolongar a relação. os quais por sua vez podem ser certamente pouco alentadores. ainda que muito desejadas. nada rara por ccrto. Mas desse ponto me ocupo em mais detalhes no capítulo seguinte. Só acrescentarei a respeito que. Dificuldades na avaliação dos resultados obtidos em psicoterapia breve Em função da frustração jque podem experimentar os tera­ peutas ao comprovar que o enquadramento da P. etc.. como conseqüçncia da dificul­ dade do paciente e do terapeuta para aceitarem a séjjãraçao.

diminuem o entusiasmo dos terapeutas para optar pela indicação e utilização da P. ante a necessi­ dade inconsciente de manter o uso excludente do método psicanalítico como fonte de gratificação a partir do estabelecimento de um vínculo simbiótico com o paciente (neurose ou psicose trans­ ferencial). tanto pam. ainda que de modo geral nào reconhecidos. continuam a tratá-los como crianças. por tudo aquilo que para ele o paciente significa.icanalítieo. na fase de resolução da sim­ biose. oferece a possibilidade de um vínculo. como não podem aceitar o crescimento e desprendimento de seus filhos. pode experimentar os sentimentos de desvalorização e perda. com um objeto que logo perderão. cujos motivos subjacentes mantêm-se ocultos. f' Searles assinala que o terapeuta. numa cumplicidade inconscientemente conso lidada. Desanima-os principalmente a perspectiva de estabelecer uma relação fugaz. O luto pela separação predeterminada desempenha um importante papel cm P. pelo contrário. ^ .B. A passividade que ainda observamos para resistir a este “movimenteifaz-me pensãrêm uma espécie de acordo tácito entre os terapeutas. em determinadas situações em que a mesma poderia ser um recurso terapêutico nada depreciável. nào deseja que se produza a separação (a alta defini­ tiva significaria a ruptura do vínculo e a perda absoluta das possi­ bilidades de gratificação ligadas a ela).4 .te como para o terapeuta e.160 Psicoíerapia breve de orientaçãopsicanalitica dependência. çom freqüência._~ Desprestigio da psicoíerapia breve enquanto indicação terapêutica Pode-se deduzir que os motivos expostos.B. Atua como aquelas mães que. parece repercutir mais no terapeuta que no paciente ((>). mais duradouro e portanto menos" frustrante. com o qual mantém “uma relação muito mais profundado que a que crê capaz de perceber em si mesmo” (15). O tratamento ps. Tende-se assim a desvalorizar a terapia breve.QJ3aciejn.

B.. impõe ao terapeuta um ritmo fati­ gante “[. como o psicanalítico. consideramos que os terapeutas. é muito conveniente para a formação psicoterapêutica em terapias breves.. A fim de oferecer uma visão mais completa do problema. ainda que não seja imprescindível. junto ao desejo de desempe­ nhar o papel de psicanalistas nos tratamentos que empreendem e ao temor de utilizar outros procedimentos que são desvalorizados. c) às resistências do ambiente profissional circundante. b) às dificuldades para adaptar-se ao enquadramento que exi­ ge a P. r~) g) freqüentemente a P. circunstância que também contribui para a perda de interesse por essa terapêutica (13). acrescentaremos os seguintes fatores: ~->d) uma experiência prévia insuficiente em tratamentos pro­ longados. —> e) necessidades econômicas do terapeuta (em parte em virtu­ de dos gastos que lhe demanda sua formação profissional). ..*As terapias breves aparecem como o novo e incerto diante de técnicas mais conhecidas e seguras. experiência que. Os supervisores adquirem aqui especial importância..] pode fazer com que para este a experiência resulte embmtecedora e compulsiva” (2). apresentando-se como muito duvidosas guas possibilidades de eficácia.Dificuldades do terapeuta 161 Outras dificuldades do terapeuta ante as terapias breves Recapitulando até aqui. A isto junta-se o esforço que no meio hospitalar. por tratar-se de uma relação terapeuta-pa|iente que ofe­ rece menos gratificações que a psicanalítica.. tropeçam.B. para o estudo e emprego eficaz da RB. requer a abordagem de um novo caso tão logo termine o tratamento breve de um paciente anterior.. es­ pecialmente os novatos. Por último quero mencionar a influência de outros fatos de particular importância que me foram apontados: O f) em P. que o levam a preferir os tratamentos prolongados. por exemplo. já que geralmente lhe possibilitam uma remuneração mais estável.B. em obstáculos que remetem: *&a) à idealização da psicanálise. a ênfase recai na melhoria clínica do paciente e em grau muito menor na investigação exaustiva de sua psicopatologia ou de qualquer outro aspecto. como o permite a psicanálise.

. é significativo o que se costuma observar nos ser­ viços psiquiátricos: freqüentemente os terapeutas pareccm tender inconscientemente a prolongar os tratamentos. Nesse sentido contamos hoje com impor­ tantes descobertas no campo da P. com certa exigência de conseguir mudanças a curto prazo. Todas essas dificuldades se esclare­ ceriam em parte se houvessem incorporado a seus conhecimentos uma teoria da mudança. de forças “cons­ trutivas latentes” (21).. postergando o mo­ mento da alta e com isso a troca de paciente.162 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica Em comparação com a prática da psicoterapia prolongada. que somam a noção de insight e estão fundamentadas essencialmente na concepção da existência de partes autônomas do ego. ocorre agora que deve atender mais pacientes num mesmo espaço de tempo. o processo de transformação. ainda que lento.B.e e de . o que em termos de economia psíquica significa “um mau negó­ cio” (uma nova responsabilidade e em suma um maior stress) (7). Como não têm interiorizados os dinamismos da mudança e só conhecem e aceitam os fenômenos inerentes às modificações que se produ­ zem nos tratamentos prolongados. Nesse sentido.B. enfatizando especialmente a importância que tem o reconheci mento dos próppn«. Conclusões Quis assinalar diversas dificuldades do psicoterapeuta no que se refere à P. Desse modo. não chegam a ter a necessária convicção de que os pacientes tratados com psicotcrapias breves podem experimentar mudanças favoráveis. e uma vez finalizado o tratamento do paciente. quer dizer.B. a partir de uma experiên­ cia terapêutica corretiva. da ralaçSn terappnta-pacient. -> h) Fiorini destaca também a incidência que tem nos terapeu­ tas o desconhecimento de uma teoria da mudança em P. com a intenção de contribuir para aplainá-las. Tal situação além disso se acresce de suas dúvidas a respeito da decisão a tomar quanto à alta do paciente (7). a continuação ininterrupta do progresso nas mudanças. pros­ seguiria com uma reação em cadeia e seria verificável nos acom­ panhamentos ao longo de anos em pacientes tratados com tal método (9) (14) (18) (21). que permitiriam..

7. 2.). Buenos Aires. J.. XIX. México. H. As experiências clínicas em P. Buenos Aires. “Ejemplos clínicos”.B. c Marticorena. A. Barten. Barten (compils. J. “The Corning of Age of Brief Psychotherapies”. Alexander. Devries.. A maioria. Progress in Community Mental Health. Paidós. provavelmente fse conseguiria também uma valorização mais objetiva e favorável das terapias breves dentro do panorama da terapêutica psiquiátrica. Grüne and Stratton. T. Psicoterapia brevey de emergencia. Bue­ nos Aires.. 3. O. em H. Beliak e H. Psicote­ rapia hreve. 1970..Dificuldades do terapeuta 163 sua influência no processo terapêutico. e French. Comunicación personal. n? 2. Fiorini H. c col. através de uma mais ajustada e eficaz adaptação do terapeuta ao seu enquadra­ mento. 1969. A ninguém escapa que cm nosso meio só uma pequena mino­ ria de psicanalistas se ocupa da investigação em P. adequadamente supervisio­ nadas são. vol. Creio que é necessário um estudo mais exaustivo do proble­ ma. 6. 1967. Citado por L. Ferrari. F. Pax-México. Kesselman. Amèr. . e aumentar o interesse pela investigação sobre esse méto­ do. H. Bleger.. H. Buenos Aires.B. Se tudo isso se concretizasse.. cap. VI.psicol. “Una experiencia en psicoterapia de tiempo limitado”. L.B. Tal reconhecimento pode­ ria favorecer um exercício bem-sucedido da P.. e Small. junho de 1968.. Referências bibliográficas 1. muito necessárias para afastar pre­ conceitos e permitir a comprovação direta da real utilidade desse recurso terapêutico.. . 4. Lai. 5. Coloquio Acta 1967: Psicoterapia Breve. Simbiosisy ambigüedad. L. em troca. Granica. Paidós. em L. como por exemplo as psicoterapias grupais prolongadas (possivelmente mais gratificantes no sentido considerado neste trabalho). no momento atual. Nova York. Small em Psicoterapias breves. 1965. 1969. Acta psiq. Terapêutica psicoanalítica. interessa-se por outras técnicas. Buenos Aires. 1972. Bellak. H. Kargieman. Aspiro a que estas minhas impressões funcionem como um estímulo e que finalmente consigamos obter descobertas que lan­ cem mais luz sobre o controvertido campo das terapias breves.

junho 1970. Searles. Apostila inédita. Centro Lditor de América Latina. Nueva Vision. 1961. “Delimitation técnica dc psicoterapias”. XIX. Lai. 1965. Gredos. “Psicoanálisis y psicoterapia dinâmica: similitudes y diferencias”.1971. Amér. Psicoterapia breve. em 2... em H. “La técnica dc la psicoterapia breve”. XXV. vol. VIII.. Amér.. 20. Charles Thomas. Acta psiq. L. 19. R. vol. Amér. Buenos Aires. Aportes para una teoria dc la téc­ nica”. Rangcll. 1968. . junho 1968. Montevechio.. psicol. Madrid. Lat. . Teoria y técnica de psicoterapias. XIX. Acta psiq. psicol. 11.. of Med. J. 1. cit. em Collected Papers on Schizophrenia and Related Subjects. cit. junho 1968. “Acerca de la psicoterapia breve”. Fiorini. 1963. 22 . J. “Introducción”. 16 . L. n? 2. M. em 21. O. III. Psy­ chology. psicol.. n? 2. Wolberg e col. “Los caminos de la terapia psicoanalitica”. Amér. em Elementos de la etiologia y la psicoterapia de la esquizofrenia. 9. B. e colaboradores. Lat. e Knobel.. B. D. de Psicoanálisis. Apostila inédita. (Versão castelhana: La psicoterapia breve. XVI.. H. Colo­ quio Acta 1967: Psicoterapia Breve.) 13.. 1948. Apostila inédita. H.C. 10 . . Acta psiq.. em Coloquio Acta 1967: Psicoterapia Breve. 18... Freud. vol. L. Usandivaras R.. 9 . “Psicoterapia dinâmica breve. Rev. VI. 1959. “Dinamismos y niveles de cambio en psicoterapias”. cap. Lat. Illinois. cm S. Buenos Aires. Acta psiq. 1973. Buenos Aires. Londres. n? 2. 1974.. Biblioteca Nueva. . n?2. junho 1968. Coloquio Acta 1967: Psicoterapia Bre\>e. Buenos Aires. II. Comunicación personal. XIX.lf}4 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica 8 . Brit.. Londres. 14. em L. 17 . ob. Madrid. Buenos Aires. “Problemas que plantea la investigación sobre psicotcrapia breve”. J. . 21. Tavistock. t. 15. Small. . ob. “Formas de inducir a la loucura”. Malan. Psychol. . Journal Med. Wolbcrg. “Fases de la interacción paciente-terapeuta en la psico­ terapia de la esquizofrenia crônica”. 12. psicol. cap. vol. Buenos Aires. A Study of Brief Psychotherapy. cap. Hogarth Press. t. Szpilka. Springfield. Freud S.

Quero expor de que maneira e até onde os resultados do tra­ tamento estarão de forma indefectível relacionados com as possi­ bilidades de ambos tolerarem suficientemente a separação. dividirei minha apresentação nos seguintes pontos: • Reações causadas no paciente pela separação. A respeito do término do tratamento em psicoterapia breve t$» < Introdução Proponho-me neste capítulo a analisar algumas das vicissi­ tudes que se apresentam nas terapias breves psicanaliticamente orientadas . . • Reações causadas no terapeuta pela separação. em razão do término do tratamento. No que concerne ao terapeuta.9. sua capacidade de enfrentar o luto ade­ quadamente será uma condição fundamental para o manejo eficaz da situação. partindo do reconhecimento de que tanto o paciente quanto o terapeuta de­ vem enfrentar o luto ocasionado pela finalização do vínculo tera­ pêutico. para em segui­ da expor sinteticamente as conclusões. Ocupar-me-ei primeiro dos aspectos técnicos. Com a finalidade de poder mostrar com mais clareza o que sucede com o binômio paciente-terapeuta ante a finalização de uma terapia de tempo limitado.

Primeiro sonho: O paciente aparece num depósito em que tempos atrás “tinha havido um ‘barulho’ ” . como denominador comum. que possuem um ego relativamente forte. Diante da perda. regressivas e altamente dependentes. A repercussão da perda no paciente pode traduzir-se em manifestações diretas de pesar e/ou preocupação. e podem chegar a vivêla como uma oportunidade de comprovar e pôr cm prática o aprendido até entào durante o tratamento. Outros pacientes se conformam com o alívio sintomático.166 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica Reações causadas no paciente pela separação A separação de seu terapeuta afetará o paciente com uma intensidade variável em cada caso. sendo talvez o primeiro deles o mais demonstrativo. o que estará em parte relacio­ nado com uma estrutura psíquica correspondente. desejam de bom grado o término do tra­ tamento. Em geral preferem. ou evidenciarse de maneira mais velada. e chegam a mobilizar-se inclusive o temor à morte e à loucura. no material onírico. e que o teto do depósi- .segundo sua expressão . em muitas ocasiões aparecem em troca an­ siedades intensas. e que agora está muito limpo e em ordem. Supõe-se que o fato repercuta mais em quem tem tendência a estabelecer espontaneamente vínculos de caracte­ rísticas simbióticas. ainda que se tenha “a impressão de vazio”. Acrescenta que se trata de uma “velha construção em reforma” que ficou interrompida. assim como naqueles cuja dependência regressiva tenha sido fomentada pelo terapeuta ao longo do tratamento. Certos pacientes. seguindo o modelo da clínica médi­ ca. os quais mostravam. vivida inconscientemente como um abandono de minha parte1. por exemplo. e uma vez conseguido este. rclatou-me numa sessão vários sonhos. que a terapia seja o mais curta possível. Este último foi o que aconteceu no caso de um paciente a quem atendi numa terapia breve. suas ansiedades e hostilidade diante da separação. aceitam a separação melhor do que outros. Perto da finalização da mesma.porque continha mercadorias. Os sonhos eram semelhantes entre si (sobretudo os três primeiros a que me referirei).

O depósito representava ele mesmo. através do qual nos ocupávamos de jsua cabeça-depósito. seu acanhado protesto e reprovação contra mim. mais ordenados. particularmente sua cabeça. no qual há muita gente. abandonando-o. Disse-lhe que a menção a seu amigo parecia referir-se à minha pessoa. e que eu interrompia sua reconstrução. e era uma referência a seus temores pelos perigos aos quais se sen­ tia exposto por causa da separação. especificamente. O edifício grande no qual havia muita gente representava o hospital onde o atendi. Tem um aposento só para ele e utiliza ferramentas de cor negra. Por último. a sociedade era uma referência ao nosso contrato terapêutico. Sentia agora que tinha as coisas (idéias) mais claras. que se encontrava muito enraivecido contra mim porque sentia que eu lhe dava pouco e que estava em dívida para com ele. Este detalhe do sonho era. Por sete horas de jornadas. O amigo era por certo ele mesmo. que ficava “separado no meio” como o depósito. uma representação de seu medo à loucura2. de vazio pela separação. Terceiro sonho: Trabalha no interior de um grande edifício. tal como aparecia no sonho anterior. mau destino”. Associou o depósito com aquele que. na qual havia ocorrido um “barulho” (confusão) quando chegou ao tratamento. mas ao mesmo tempo con­ densava no depósito sua sensação de abandono. Outra vez se evidencia seu sentimento de . disse que no sonho lhe deviam di­ nheiro. mercadorias). pagam-lhe uma escassa so­ ma em dinheiro. Também o teto simbolizava sua cabeça. Segundo sonho: Um amigo seu trabalha como ajudante num teatro. Ele sentia. A cor negra do mes­ mo foi associada pelo pacienttf como “mau augúrio. pois. ao sentir-se abandonado. Sente uma grande indignação.A respeito do término do tratamento em psicoterapia breve 167 to é negro. apa­ reciam no sonho como o dinheiro que lhe deviam e que tinha que reclamar. sua mente mais “limpa” e seus pensamentos (no so­ nho. na realidade. o qual tinha de reclamar. além disso. havia tido um ano atrás em sociedade com um amigo.

compreendidas e resolvidas no seio da relação terapêutica. Nesses pacientes. pode resultar conveniente que o paciente tenha ocasião dc desenvolver essas reações enquanto se encontra sob tratamento pan< parmitif mais bem-examinadas. Tinha que conservá-la (trabalhar) sozinho e não confiava em seus próprios recursos (as ferramentas negras. como é óbvio supor.). é uma circunstância que tenho podido observar em minha prática. É possível que se produzam no paciente diferentes reações. Aparecer como menino tinha a ver alem disso com a relação de dependência infantil que cm parte havia estabelecido comigo. des­ prezo pelo terapeuta. Depois. Quarto sonho: Vê um menino descer por um tobogã em grande velocidade. interessa ver qual é o destino da transferência. expressou em tom risonho que o menino deveria ser ele. Tal situação costuma estar motivada g^j^-n . que por diferentes motivos não toleram suficientemente a separação. na mesma sessão. sobretudo cm circunstâncias nas quais o terapeuta pode perder o controle da situação. que vão desde o afloramento de novos conflitos. passando por retrocessos e pioras por simples manifestações de hostilidade transferencial e pelo acting out. acham-se intimamente vinculadas entre si (são diferenciáveis só até certo ponto). ao aproximar-se o Tinal do tratamento. Por outro lado. De novo figurava a cor negra como símbolo de mau augúrio). com muito medo de escorregar “ladeira abaixo”. Essas reações. etc. contou-me que em matéria de traba­ lho ele sentia que precisava de alguém que o guiasse e que não podia fazer nada por conta própria.If)íi Psicolerapia breve de orientação psicanalitica abandono. através de colocação espontânea por parte do paciente de material alheio ao foco. Sua esposa lhe assegurava que isso não era certo e que devia animar-se a “navegar sozinho”. sob a aparente satisfação de ter um aposento só para ele. Novamente aludia a seus temores pela finalização do vínculo tera­ pêutico. superando-sè ou apresentando-se em forma sucessiva. freqüentemen­ te acompanhadas de defesas maníacas (negação da perda. a) A rcferência a novos conflitos nas partes finais do trata­ mento. até a reação terapêutica negativa3. Ao associar.

acusar um incremento de an­ siedade.eventualmente . etc. posto que a manutenção da me­ lhora certamente dependerá em grande parte de suas possibilida­ des de introjectar e conservar uma boa imagem do terapeuta (2). tal como em ou­ tras formas de psicoterapia. ao ser vivida consciente ou inconscientemente pelo paciente como um abandono. Será conveniente assinalar ao paciente sua intenção incons­ ciente de õbter ganhos secundários através de suas recaídas nos últimos períodos do tratamento. Tal situação de separação. Deve-se procurar que o paciente tome consciência das motivações de sua atitude. o acting out costuma expressar fantasias agressivas para com o terapeuta ou objetivar substituí-lo . tal como sugere Bellak (2). toma-se necessário inter­ pretá-la.A respeito do término do tratamento em psicoterapia breve 169 inconscientemente por um desejo de permanecer ligado ao tera­ peuta. dos diversos transtornos somáticos. de depressão. e dom isso a dolorosa separação do terapeuta (ganhos secundários)J. pode trazer como conseqüência algumas das de­ mais complicações que mencionei. exposto aos perigos de conflito não resolvidos para conseguir deste modo que o tratamento seja prolongado. c freqüentemente constituem uma tentativa de evitar que lhe seja dada alta. c) As manifestações de hostilidade transferencial podem co­ locar em sério perigo os resultados do tratamento. E) Os retrocessos e pioras no estado do paciente são algumas das reações que se observam com maior assiduidade nas etapas terminais do tratamento psicoterapêutico breve. o que se acha claramente vinculado à perda ocasionada pela finalização da rela­ ção terapêutica (conforme o caso. ou ainda preocupação e . quer dizer. pode apresentar uma reapa­ rição de sua sintomatologia inicial. como destaca Malan (6).culpa por deixá-lo nessas condi­ ções. tratando de despertar neste interesse por outros padecimen­ tos (numa tentativa de sedução por meio do material). Isso só será possível se prevalecer uma transferência positiva ao terminar o tratamento.O paciente. Quando tal hostilidade alcança certa intensidade. ou sua raiva pode jogar por terra o obtido durante a terapia. que até esse momento vinha inclusive evidenciando claros progressos e uma apreciável melhora sintomática. diante do incremento da ansiedade. d) Outra opção está dada pela tendência de alguns pacientes ao acting out.

para ele. O terapeuta “atua” nes­ sas circunstâncias através de suas intervenções (interpretações). Comumente.o terapeuta para não sofrer de maneira passiva o que vivência como um abandono por parte deste. comumente negadas". Ferrari e Marticorena comentam acerca da experiên­ cia em psicoterapia breve: “O mais notável (.). sobretudo por meio de interpretações “transferenciais”. mesmo naqueles pacientes que inicialmente não se veriam demasiadamente afetados pela separação.) foi observar as dificuldades de desprendimento dos próprios terapeutas (.. Tal interrupção significa principalmente que o paciente quer abandonar . A separação significa. o que às vezes adquire características de inoculação no­ civa. Üm mecãnísmõ defensivo do terapeuta ante as ansiedades pela separação é a negação do conflito e sua projeção maciça no paciente. em seu afa inconsciente de perpetuar sua dependência. O terapeuta pode apresentar resistência em reconhecer os eventuais progressos dõ paciente e atuar fomentando nêsferdiirantê"õ tràtarrrentoTãneurosê^transferencial e a regres­ são. evitando a ruptura de um vínculo que lhe oferece profundas gratifi­ cações. Quando o terapeuta detecta essa tendência.. . evitan­ do assim as atuações. indutoras de dependência regressiva. c) A reação terapêutica negativa se manifesta com freqüência através da interrupção brusca do tratamento por parte do paciente. as dificuldades para separar-se apareceram mais do lado do médico que do paciente” (3). o luto provoca sentimen­ tos de desvalorização e perda (7)4.. não em poucas ocasiões.ativamente . deve inclinar-se à compreensão psicológica do conflito no pacien­ te.. Desejo então que fique clara minha impressão de que na prátiea o término do vínculo terapêutico é. Já me ocupei em parte no capítulo anterior dos problemas do terapeuta para aceitar a separação do paciente ao chegar ao fim o vínculo terapêutico.). Reações causadas no terapeuta pela separação Com freqüência.170 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica por outro objeto. a separação repercute mais no terapeuta que no paciente. vêrse privado de gratificações simbióticas. etc.

perturbadora. ao fomentar a natural tendên­ cia regressiva do paciente com base numa extrapolação da técnica psicanalítica (uso reiterado ou sistemático de interpretações trans­ ferenciais. Este. de certo modo. descobrimos que alguns autores levam em conta esse aspecto.B.ou franca aparição das diferentes reações do paciente. Bellak . aumento da freqüência e/ou periodicidade das sessões. Adverte-se o terapeuta de que.). resultará mais convenien­ te em P. como expressão de uma necessidade mútua de pro­ longar a relação. Mas agora desejo examinar mais detida­ mente o problema da repercussão.B. em certas ocasiões. com efeito. o processo se complicará ainda mais (nenhum dos dois componentes do par aceitará facilmente a separação) desembocando com freqüência na Já mencionada recontratação. enfrentá-la e atenuá-la. 1. haverá pacientes que superam melhor que outros a separação. do final do vín­ culo terapêutico sobre o paciente. Como disse antes. Aspectos técnicos Tenho mencionado até aqui a conduta que deve assumir o terapeuta diante da insinuaçào. Compreender melhor por que chega a produzir-se ou a incrementar-se. não tem que vivê-la necessariamente como aígo penoso e angus­ tiante. sobretudo no caso de sentir-se seguro de sua própria capa­ cidade para enfrentar seus problemas. etc.B. já que o problema se coloca.A respeito do término do tratamento em psicoterapia breve 171 mais um problema do terapeuta aue do paciente.. que está naturalmente rela­ cionado com a capacidade egóica para tolerar frustração. e particularizar a conduta que. com base no que adquiriu durante o tratamento. uso do divã. deixá-la de lado significaria correr o risco de expor o paciente a algumas das conseqüências às quais já fiz referência. interpretação de material alheio ao foco. a meu ver. para tentar preveni-la. Na bibliografia sobre P. por sua própria conta. desde j^momento em aue se efetua uma indicação de P. conduta que em síntese consiste em abordar o problema ocasionado pela iminente separação. Considero que devemos nos remontar aos primeiros contatos com o paciente. atuação pouco -ativa do terapeuta. Para isso será preciso interpretar a transferência. daí para a frente.

que servirá para o diagnóstico. além de existir essa condição de tolerância diante da separação.. Trataremos. são em parte conseqüência dessa atitude ini­ cial. Realizaremos uma eleição dos casos na medida do possível. esta­ remos diante da situação menos discutível para indicar uma tera­ pia breve. e para isso será preciso. pelo contrário. a capacidade do paciente para suportar suficientemente o luto pela separação do terapeuta. delimitar claramente os objetivos do trata- . Se. não pode­ remos fazer outra coisa senão embarcar com o paciente num pro­ cesso que terá muito de uma difícil aventura e que requererá ao máximo nossa perícia terapêutica para poder atingir um bom final. prognósti­ co e tratamento. principalmente por ocasião da separação definitiva entre paciente e terapeuta. pois sem dúvida será o mais conveniente. na medida do possível.172 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica (2) sublinha a importância de se efetuar previamente uma avalia­ ção das funções do ego.B. Poderemos. e que poderá ser realizada por meio de dados clí­ nicos e de testes psicológicos. de não facilitá-la ou incrementá-la. como condição fundamental em P. Creio que em al­ guns casos as complicações que logo aparecem no tratamento breve. portanto mais propenso a reações como as já assinaladas c com menores probabilidades de êxito terapêutico5. essa seleção não puder ser feita. O passo seguinte será a contratação que temos de realizar. muito regressiva e dependente em suas relações de objeto. trata-se de um paciente que atravessa um problema atual e se encontra motivado para efetuar uma psicoterapia. considerar que pode ser tec­ nicamente objetável indicá-la para um paciente que revele pouca capacidade para suportar e elaborar lutos e uma modalidade sim­ biótica. mas o que acontece c que em nossa prática assistencial com freqüência não temos outro remédio senão efetuar um tratamento de tempo limitado em muitos dos pacientes que apresentam essas características. em especial com aqueles pacientes que apresentam uma franca tendência a desenvolver espontaneamente intensa regressão no vínculo terapêutico. Mas é sobretudo Malan (6) quem assinala especificamente a utilidade de detectar. antes do trata­ mento propriamente dito. Os testes pro­ jetivos poderiam oferecer-nos regularmente elementos para essa apreciação. mas quando. por diferentes motivos. 2.

favorecedoras da simbiose terapêutica. terão uma influência decisiva no aspecto que adquire o término do tratamento e a posterior separação para ambos os protagonistas. Üm aspecto que merece especial atenção dentro da contrata­ ção é a duração que fixaremos para o tratamento. se o terapeuta se desempenhar adequadamente ao lcfngo da terapia.incons­ cientemente . verdadeiro objetivo do trata­ mento8.a realizar consideráveis e decisivas modificações no enquadramento. defrontaremo-nos com as complicações às quais aludimos. ter-se-á esp_eciiü cuidado em evitar que a freqüência das mesmas possa chegar a favorecer a tendência regressiva6. Se seguirmos adiante no processo terapêutico. se estimular no paciente sua iniciativa pessoal com um critério pros­ pectivo.* 3. Quando o terapeuta não pode controlar . Como procurei demonstrar no capítulo ante­ rior.freqüentemente bastanta atenuadas. sem que isto nos prive do tempo necessário para abordar a situação crítica em si. impõe. nesse sentido mais frustrantes. mas também e fundamen­ talmente de que possa renunciar às gratificações que oferece o tipo de relação analista paciente e aceitar as condições.B. de que haja vencido os preconceitos contra todo procedimento que não seja o p'sicanalítico. isso dependerá de vários fatores: de sua familiaridade com a técnica da P.A respeito do término do tratamento em psicoterapia breve 173 mento. conseguindo ajustar-se ao enquadramento da P.. requer-se que o terapeuta tenha um insight dessa problemática e um auto­ controle de suas tendências naturais a estabelecer uma modalida­ de simbiótica de relação com o paciente que. Em algumas destas situações será preferível outorgar um tempo suficiente.B. Considero que o manejo da relação transferenciai por parte do terapeuta. em lugar de fomentar a neurose transferencial e a depen­ dência regressiva.B. Em síntese. juntamente com sua capacidade para superar os pró­ prios conflitos que puderem derivar da perda do paciente como objeto gratificante. quanto às sessÕes. de modo a permitir que uma parte do mesmo se destine à análise do luto pela separação1. Vale dizer. que a P. que poderão ser evitadas ou ao menos . além da tendência de extrapolar esse modelo técnico para a terapia breve por crer que só assim poderá obter bons resultados. segundo minha hipótese. é o que com freqüência costuma conduzi-lo .

em razão do término do tratamento em particular. Para isso sugerem que se solicite ao paciente que informe o terapeuta de seu estado me­ diante cartas ou chamadas telefônicas. sobretudo nos estágios finais do tratamento. exige.174 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica essa situação e não toma as precauções correspondentes. -> 2. que inclua a possibilidade de analisar o luto pela separação. Será conveniente tratar de detectar o grau de tal capacidade a partir dos primeiros contatos. 3. e por sua vez de se evita­ rem certas complicações ao longo de uma terapia breve em geral e. costu­ ma-se chegar a uma fase final do tratamento em que a separação se toma mais difícil para ele e para seu paciente. o problema que coloca para o paciente a finalização e a separação. diante do risco da aparição neste de reações (retrocessos e pioras. a fim de que este não se sinta abandonado e de conservar uma transferência positiva. evitando a extrapolação da técnica psicanalítica. À capacidade do terapeuta para ajustar-se ao enquadra­ mento que a P. Dever-se-á abor­ dar. em pacientes com tendência a estabelecer relações simbióticas terá que se oferecer um tempo suficiente de tratamento. privado de seu objeto gratificante. À capacidade do paciente de tolerar suficientemente o luto pela separação. mais perturbado­ ra e mais frustrante: este se encontra no final numa atitude regres­ siva e dependente. hostilidade . Conclusões As maiores possibilidades de êxito. Às condições do contrato terapêutico: procurar-se-á dimi­ nuir a intensidade das regressões.B. e aquele. geralmente na fase final do tratamento. Já ine referi à conveniência de abordar. com uma sensação de desilusão por haver efetuado um tratamento curto e pouco eficaz. favorecedora da dependência regressiva. 4. Considero que esse propó­ sito pode ser cumprido tanto ou mais satisfatoriamente por meio de entrevistas de acompanhamento. estão relacio­ nadas: 1. o problema da separação. Bellak e Small (2 ) também assinalaram a importância de manter algum contato com o paciente logo após haver-se encerra­ do o tratamento.

Psychol. Barcelona.. Pax-Mexico. para o que poderão contribuir as en­ trevistas periódicas de seguimento.. 1974. junho 1968. radicalmente oposta aos propósitos ineren­ tes a esse procedimento. quer dizer. vol. Amér. recorrendo-se especialmente a interpretações transferenciais. é de se esperar que encontre gratificações nos resultados terapêuticos.) 7. sem precisar em troca fomentar a gratificante simbiose terapêutica. XIV. Acta Psiq. Buenos Aires. México. 1971. cm Coloquio Acta 1967: Psicoterapia Breve. Acta psiq. reação terapêutica negativa). impresso na Grã-Bretanha. J. c Marticorcna. J. nf 2.A respeito do término do tratamento em psicoterapia breve 175 transferencial. psic. Centro Editor de América Latina. Scarles. na obtenção dc uma atitu­ de relativamente independente e nos demais jlrogress. psicol. acting out. Allegro. “Psicoterapia dinâmica breve... H. D. 6. cm Coloquio Acta 1967: Psicoterapia Breve. (Versão castelhana: La psicoterapia breve. Buenos Aires.. Ia/. vol. H. 2. L. Malan. Apostila inédita.os do pa­ ciente. Fiorini. 4. Labor. H. Em essência dever-se-á ao menos assinalar a situação de luto. junho 1968. Lat. “Reacción terapêutica negativa”. Laplanche. c Small. A Study o f Brief Psychotherapy.. Comunicación personal. e Pontalis. c portanto que encontre no método psicotcrapêutico breve um recurso útil. B. 5. 3. Brit. “Fases de la intcracción pacicnte-terapeuta cn la psicotcrapia dc la esquizofrenia crónica”. n" 2. Buenos Aires. em Diccionario depsicoanálisis. Springfield. Psicoterapia breveyde entergencia. Tavistock. L. Em P.. Londres. Ferrari.. Aportes para una teoria dc la técnica”. já que não conta­ mos com melhores possibilidades para a sua elaboração. Journal Med.. .B. 1969. Amér. À manutenção de uma transferência positiva a posteriori da realização do tratamento. 4. deve-se tratar de chegar à finalização do tratamento de modo tal que a alta coloque o paciente em condições de viver uma experiência estimulante e reasseguradora a partir da compro­ vação*de que seu aulodesenvolvimcnto agora é possível.. “Una cxperiencia en psicoterapia dc tiempo limitado”. Illinois. Charles Thomas. Beliak. No que se refere ao terapeuta. H. L. A. J. XIV. (1981). Referências bibliográficas 1. 1963.

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como vemos. assim como certos perigos que com elas se corre. este deve diferenciar-se do pseudo-insight com reforçamento da intelectualizaçào que. e se apresentam com mais facilidade diante de pacientes que por de­ terminada patologia não resultam suficientemente aptos para obter maiores benefícios terapêuticos com o emprego desses pro­ cedimentos. esperando que mediante a compreensão intelectual possa conseguir-se a cura. 1. Tanto os inconvenien­ tes como os riscos. que às vezes não é suficiente paia que o paciente “apreenda” as interpretações e reconheça assim seus conteúdos inconscientes como algo que lhe é próprio. entendendo além do mais que nessas terapias se realiza uma análise apenas parcial das resistências. Os pacientes que recorrem excessivamente à intelectualizaçâo podem criar sérias dificuldades.10. reduzido a “explicar” ao paciente o significa­ do de suas manifestações patológicas. Ainda que nessas terapias se aspire a conseguir um insight que possa ser mais cognitivo que afetivo (Szpilka e Knobel [7]). estamos consignando uma limitação da psico- «» . acham-se relacionados com as peculiaridades desses tratamentos e com os eventuais erros dos terapeutas. é um risco que devemos ter em conta. De fato. Alguns problemas técnicos característicos e riscos em psicoterapia breve I Mencionarei aqui alguns inconvenientes técnicos de que so­ fre o exercício das terapias de tempo e objetivos limitados. que aumentam nos casos cm que o terapeuta compreende a psicoterapia focal como um processo individual.

está em condições de assimilar. é habitual que se sinta um tanto pressionado em seu afa por obter determinados resultados. o que pode trazer paralelamente um aumento de suas resistências e de sua angústia ou ainda ocasionar sua deserção. em razão do número relativamente reduzido de ses­ sões semanais com que se costuma trabalhar nela: “Devemos destacar aqui a grande diferença no uso da interpretação quando se vê o paciente todos os dias ou quase todos os dias. Vinculadas com essa questão se acham as advertências formu­ ladas por T. originado no terapeuta e em estreita rela­ ção com o descrito em 1. pois pode apreciar seu efeito no dia seguinte e proteger o paciente contra um aumento de . que pode se apresentar com bastante facilidade é o de não exercer aquele um autocontrole adequado diante de certas vivências que possivelmente experimente na prá­ tica dessas terapias. French a respeito das “complicações resultantes das tentativas de forçar o conhecimento” (4).a um intenso trabalho interpretativo de suas resistências ao insighl.178 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica terapia verbal de tempo e objetivos limitados. o terapeuta poderia arriscar uma interpretação desagradável. nesse momento pelo menos. Se a impaciência o domina. já que diante de certos pacientes poderemos nos ver na necessidade de nos voltar . Outro problema. tais alterações caracteropáticas atuam como um freio que chega às vezes a difi­ cultar em grau máximo o trabalho relativo a seus problemas atuais. e quando se o vê uma ou duas vezes por semana ou ainda com intervalos mais prolonga­ dos. Esse autor assinala parti­ cularmente o efeito perturbador de certas interpretações em psico­ terapia breve. segundo o método que descrevi até aqui. corre o perigo de depreciar o timing e de “bombardear” o paciente com interpretações prematuras em seu desejo de oferecer-lhe muito mais do que este. obrigando a uma recolocação estratégica1dos objetivos ou diretamente do tipo de tratamento recomendável. de modo que tenhamos que dedicar boa parte do tratamento ou inclusive todo o tempo que dure o mesmo a tal trabalho.e reduzir . sem que nos seja possível pretender outra coisa. No procedimento psicanalítico ortodoxo. Se bem que fazer ver ao paciente suas defesas patológicas possa ser importante. Quando a duração estabelecida para as mes­ mas foi limitada. 2. sensação que se incre­ menta ante a proximidade da finalização do tratamento.

O manejo técnico deficiente por parte do terapeuta . tampouco os objetivos do tratamento. em virtude de o ser.). 5. a eficácia do procedimento toda vez que não seja possível delimitar com facilidade o foco e. que recorrem a estabelecimentos assistenciais por contar com uma oportunidade única de confiar seus problemas a um profissional. o trabalho se complica. Requer-se portanto maior atenção e inclusive maior agilidade por paflecíõ terapéutã^T3X 3.. em conse­ qüência. levar às com­ plicações que já mencionei nos capítulos 8 e 9.. com isso. dada a fugacidade da relação paciente-terapeuta e. diante da separação. O trabalho do terapeuta pode ver-se dificultado. * > 4. Formulada essa mesma interpretação numa psicoterapia mais breve. compro­ metendo-se. exis­ te a possibilidade de que a dinâmica do tratamento sofra uma limi­ tação esquemática . em que se deve atender preferen­ cialmente àquilo que concerne à conflitiva focal do paciente. possibili­ tando reajustes e descobertas que o conduzam a readequar-se à estratégia. A partir da necessária circunscrição que a abordagem de uma terapêutica setorial requer. . Mas a regressão. indesejada.por transposição da técnica psicanalítica . vendose perturbado nosso propósito de centralizar a ação terapêutica de um modo operativo e com fins de aprofundamento. Em nosso meio se observou a ocorrência desse fato especialmente em tratamentos de pacientes de baixo nível sociocultural. alcança inevitavelmente e de modo espontâneo grande intensidade em algumas ocasiões. uma pessoa qualificada que possa escutá-los sem julgá-los (5 ). como por exemplo nos quadros reativos. diferentemente do que acontece quando uns e outros surgem de maneira clara e pre­ cisa. 6. Mas todo terapeuta disposto a manter-se suficientemente receptivo às comu­ nicações 4o paciente e a extrair sempre novos significados poderá contribuir na obtenção de um processo terapêutico rico. assim como as me­ didas preventivas e terapêuticas a 'serem tomadas. a angústia poderia acumular-se em tal medida que o paciente cairia em pânico (. com o conseqüente estancamcnto. Não contando com um foco mais ou menos definido. limite seus alcances. evitando assim ficar reduzido a um plar£> rígido que.Alguns problemas técnicos característicos 179 angústia.pode fom entar iatrogenicamente a regressão vivencial e a neurose de transferência no pa­ ciente e acarretar diversas complicações. quer dizer.

resulta curta. registrem uma marcante distorção em sua captação da realidade. será escassa a confiança nesse sentido que possam nos inspirar. existe a alternativa de que sofram uma reativação traumáti­ ca desses sentimentos.180 Psicoterapia breve de orientação psicanaiítica 7. insuficiente para abordar com possibilidades de benefícios terapêuticos apreciáveis a dita proble­ mática. há de se rever nesses casos na medida do possível . em função da curta duração deste e de serem as sessões relativamente pouco freqüen­ tes. Em tais circuns­ tâncias. etc.a indicação terapêuti­ ca. limitada. que reaviva a per­ da. isso pressupõe uma maior margem de erro por parte do . o que pode acarretar diversas conseqüências negati­ vas se não trabalha com cautela suficiente.B.) 8. É sabido que em P. razão pela qual. Trata-se do fato de o terapeuta não contar com conhecimento suficiente do paciente em particular de suas relações de objeto .). Devemos então reconhecer uma limitação própria des'sãTtênípias.além de ter pouco tempo para adquiri-lo durante o tratamento. apelando freqüentemente para isso para as interpretações. ao termos de nos remeter cm boa medida ao material que nos trazem. à qual já mc referi no capítulo 6 (ver “Interpretações extratransferenciais”. com os perigos conseqüentes (acentuação da angústia e da dor. submetidos a tratamentos cuja dura­ ção. que às vezes adquire grande importância. depressão. encontra dificultado seu acesso a uma adequa­ da compreensão em interpretação dos sucessos do mundo externo do paciente. Esse inconveniente pode acentuar-se no caso de pacientes que. Assim sendo. por deficiências egóicas. por exemplo. Diante de pacientes com sentimentos de perda patológicos e/ou recentes de importância. p. (Pode ser adequado instituir uma técnica de enfoque com final “aberto”. Portanto e antes de mais nada. em particular o que corresponde à duração do tratamento. chamadas “extratransTerenciais”. o terapeuta deve de modo iieral dedicar o trabalho terapêutico à resolução de problemas da realidade externa atual do paciente (comumente representados por conflitos em determinadas relações interpessoais). 102) e que aqui menciono novamente. precisamente em função da limitação tem­ poral e da separação com respeito ao terapeuta. acting out. pro­ curando dotar o processo terapêutico do tempo necessário para evitar esses efeitos indesejáveis. isto é.

é o preço que se há de pagar para evitar uma complicação maior. Se bem que elevar a freqüência das ses­ sões traz consigo por sua vez outro risco. Também se des­ crevem mecanismos tais como a fuga à saúde e à cura transferen­ cial. que ainda que não sejam raros tampouco considero que sejam habituais em P. Fantasias transferenciais negligenciadas podem então ser atuadas por parte do paciente. Esse estudo prévio deverá então prover-nos de elementos diagnósticos nos quais possamos apoiar nossas hipóteses explicativas e nossas in­ tervenções terapêuticas.a do acting out. Os pacientes que evidenciam tendências ao acting out in­ troduzem um novo problema técnico. sobretudo através de testes projetivos). Entre outros resultados que se podem produzir em rela­ ção ao assinalado em último lugar no item 10. que implicam modificações só em nível superficial. Quero aqui formular uma advertência: alguns . Uma mediqa poderá ser contratar um número necessário talvez maior que o habitual nessas terapias . e muito especial­ mente detectar as principais características das relações objetais do paciente. o de favorecer a depen­ dência regressiva do paciente. > Em seu afã de conseguir “resultados práticos” em pouco tempo.Alguns problemas técnicos característicos 1H1 terapeuta na apreciação da natureza dos conflitos da realidade exrema do paciente. Por outro lado. a limitação mencionada deve compen­ sar-se com um estudo prévio exaustivo e o mais profundo possível do paciente no começo do tratamento (uma razão poderosa para realizar várias entrevistas diagnosticas quando o caso o requer. prescinde em demasia da análise da transferência. por exemplo . 9. e às vezes sumamente perigosa . o risco do acting out aumenta quando o caminho se vê possibilitado ou facilitado porque o terapeuta. leva­ do pelo critério de orientar o paciente na direção dos problemas atuais de sua realidade externa. confeccionar uma história clínica minuciosa. figuram as meras condutas adaptativas .três.de sessões semanais .para garantir uma tarefa interpretativa mínima da transferência desen­ volvida que permita diminuir as possibilidades de apresentação da conduta de acting out. 10.B. Na terapêutica breve. promovidas pelo fervor terapêutico. o terapeuta pode induzir a atuação2. 11.

o que é regra nessas terapias. De Psicologia Médica. em 3. Grcdos. “La dinâmica dei proceso terapêutico”. As recaídas. Alexander e T. Wolberg e col. Méd. Madrid. Os agravamentos constituem uma complicação que por sua vez também pode estar relacionada com a separação. Buenos Aires. 4 .. Curso para graduados de Técnicas en Psicotcrapia Breve. pois são a expressão de uma reativação dos conflitos que tinham sido objeto de uma resolução em essência incompleta. ob. VII. Organizado pela Soe. Alexander. durante e depois do tratamento (ver capítulo 9). “Contribuciones psicoanalíticas a la psicotcrapia bre­ ve”. ainda que se produzam na ausência dos fatos que acabo de citar. Teremos de contar com essa possibilidade. con­ figuram em troca uma eventualidade mais ou menos freqüente nessas terapias. Psicosomática (Asoc. “Planificación de la psicoterapia”.. o acompanhamento prolongado possihilitará a comprovação desses resultados e a adoção das medidas terapêuticas mais indicadas. Terapêutica psicoanalitica. cap. Psicoterapia breve. em F. 168 s j. Psique. Alexander. Psicoanâlisisy psicolerapia. Arg. French. cit. a qual pode ser vivida como um abandono e condicionar diversas reações prejudiciais ao paciente.182 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica detratores dessas terapias não vacilam em rotular pejorativamente como fuga à saúde ou cura transferencial todo sucesso do paciente obtido através das mesmas3. 1968.) Buenos Aires. Paidós. VIU. French. . Vlli. “Psicoanálisis y psicoterapia”.. conjuntamente ou em continuação a eles. cm F. em F. 16 de junho de 1972. Síntesis y debate. Em todos esses casos. 3. . Alexander e T. French. pp. .. F. Psicoanálisis y Medic. cap. C. Arg. ou correspondem diretamente a uma resolução falsa' Nessas ocasiões costumamos detefctar a persistência dos conflitos transferenciais subjacentes. em função do final do tratamento (ver capítulo 9. V. em L. incrementados pela separa­ ção devida ao término da terapia. cap. Buenos Aires. 5. cap. 1960. 1965. 2 . Referências bibliográficas 1. Kaplan. T.

1969 (Estúdio Víll)..Alguns problemas técnicos característicos 183 6. Racker. Buenos Aires. J. Coloquio Acta 1967: Psicoterapia Breve. Amér.. Paidós. Lat. e Knobel. M. 7. Buenos Aires. Rackcr. H. “Técnica analítica y la mania inconsciente dei analista”. psicol. XIV. vol. . Szpilka. “Acerca de la psicoterapia breve”. junho 1968. n? 2. em H. Acta psiq.. Estúdios sobre técnica psicoanalitica.

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será possível recolocar a situação do paciente e determinar os passos a serem seguidos a partir desse momento. criando-lhe uma sensação de reasseguramento. . a qual tem assim um encerramento cuidadoso.11. plane­ jado. requerida num intercâmbio cordial e franco com o terapeuta. Considero que isso permitirá que a apre­ ciação dos resultados seja enriquecida e possa na maioria das vezes aproximar-se mais da realidade. A avaliação dos resultados terapêuticos em psicoterapia breve í Introdução A avaliação dos resultados terapêuticos nas terapias breves tem por finalidade primordial verificar se estão sendo cumpridos os objetivos fixados. a avaliação conjunta deixa no paciente a impressão de que se levou a caso uma tarefa em comum. Paralelamente se poderá indagar outros as­ pectos que resultem de interesses. sendo estas ratificadas pelo julgamento do terapeuta. que eventualmente inclui a confirmação. Desse modo. por parte do paciente. Este último passo do processo adquire então um alcance terapêutico. mas que haja partici­ pação ativa do paciente. Com base na avaliação dos resultados obtidos. no qual se aprecia sua opinião. como logo veremos. o que não costuma aconte­ cer quando é efetuada de forma isolada por ambos os protagonis­ tas do processo terapêutico. Quero destacar a conveniência de que a tarefa avaliatória não fique exclusivamente a cargo do terapeuta. de suas impressões a respeito dos progressos obtidos.

Como qualquer outro. é suscetível de ser objetado e/ou aper­ feiçoado a fim de se conseguir uma maior precisão. etc. um ano. já que as de avaliação mediata costumam ser combinadas a partir da finali­ zação do tratamento. con­ sidero que possui um valor prático. mas também mediata. O procedimento que descreverei é o que adotei pessoalmen­ te2. dentro do possível.186 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica No que se refere ao terapeuta. . É necessário o follow-up ou acompanhamento do paciente em alta para poder saber se os resultados alcançados se mantêm e durante quanto tempo”(6). variando sua periodicidade em função de diversos fatores. de base psicodinâmica.). Nada melhor do que transcrever suas próprias palavras: “Para que uma avaliação de terapia seja realmente válida deve ser não apenas imediata. (Grifos do autor.) A avaliação é. na medida em que provém de uma técnica suficientemente fundamentada. costuma estimulá-lo a efetuar um estudo mais exaus­ tivo dos mesmos. ao ter­ mino da cura. permitindo um registro que facilite a elaboração estatística e ulteriores investigações quanto aos alcances e limita­ ções do procedimento que nos ocupa1. sem chegar a constituir um rigoroso instrumento de medição. Não obstante. Para levar a cabo a avaliação tanto imediata como mediata. explica-se quais são seus motivos. em parte relacionados com as necessidades e possibilidades de cada caso (entrevistas a cada seis meses. recordarei uma questão básica. Um método de avaliação A partir das considerações expostas por Usandivaras em nos­ so meio. o emprego de um procedimen­ to metódico de avaliação dos resultados terapêuticos. recorro a dois recursos fundamentais: a) entrevistas com o pacien­ te (eventualmente estendidas a familiares e/ou figuras próximas dele. como se fará e quais serão as datas de realização das entrevistas de avaliação imediata. anunciada e ajustada de antemão com o paciente ao efetuar-se o contrato terapêutico. como por exemplo quando se trata de adolescentes) e b) psicodiagnóstico.

A técnica que utilizo na primeira entrevista de avaliação ime­ diata» é a seguinte: para começar.S. geralmente realizada poucos dias depois da primeira.que confronto com minhas observações. im­ pressões que haverão de ser úteis para o terapeuta.P. estudo. com base em perguntas. comunico ao paciente minha própria avalia­ ção estudo prévio de todo o material recolhido na primeira entrevista . Na primeira parte da entre­ vista. tratando ao final de precisar fundamentalmente: l ) o que se aclamou e se resolveu e o que ficou pendente.. as vivências que teve. de que forma foi ajudado. um pouco mais breve. que inclui a avaliação dele. trabalho e lazer) Projetos para o futuro . está destinada a recolher as apreciações e informações que o paciente fornece (auto-avaliação). indico ao paciente que poderá expressar amplamente suas opiniões acerca do tratamento que acaba de concluir e de seus resultados e que ein seguida lhe for­ mularei algumas perguntas a respeito. 2) minha opinião a respeito dos próximos passos a serem seguidos. P Para avaliar cada caso levo em conta os seguintes pontos: Insight da problemática focal (LP.A avaliação dos resultados terapêuticos 187 A avaliação imediata Efetuam-se duas entrevistas. A seguir efetua-se uma indagação sistemática da auto-avalia­ ção do paciente. o paciente opina sobre distintos pontos: ás mudanças nota­ das.E) Resolução da problemática focal (R. etc. Na segunda. Na segunda entrevista . tem lugar uma devolução por parte do terapeuta. Depois de haver revisado a evolução do caso. que críticas sugere. A primeira. a propósito dos pontos que exponho mais abaixo. se possível claras c simples. já estou em condições de transmitir-lhe minhas impressões sobre cada um dos pontos considera­ dos.) Melhoria sintomática (M. de uns 40 minutos de duração c que se realiza pouco depois de finalizada a terapia. relações de casal. como havia imaginado que seria seu tratamento.) Consciência da enfermidade Auto-estima Outras modificações favoráveis (vida sexual. outras relações interpessoais.F.

ou seja. levo em conside­ Além de excluir conclusões acerca da existência ou não de . depende do terapeuta. Mas aqui me refiro apenas a expe­ riências iniciais de insight . As expectativas do terapeuta no sentido de que se produzam modificações significativas e medianamente perduráveis no pa­ ciente devem assentar-se principalmente no insight que este possa adquirir a respeito dos dinamismos psíquicos subjacentes à situaçào-problema. ou uma exclamação do paciente que revela surpresa diante de uma descoberta. que é na realidade o que costuma pro­ porcionar um tratamento focal.. etc. Na realidade. com uma sensação contratransferencial de desa­ parecimento das resistências. ou uma mudança do clima emo­ cional da sessão. neste ponto. mais do que em qualquer outro. do ponto de vista dinâmi­ co esta resolução não implica . significa que as mudanças produzidas mediante o tratamento deverão basear-se essencialmente no insight para que sc possa considerar tal resolução como real. já lhe terão dado indicações sobre o grau de insight obtido (quando a uma interpretação se segue um silêncio reflexivo do paciente. a quem diferentes indicadores clínicos. I. neste caso. trata-se de saber concretamente se chegou a compreender seus problemas de um modo diferente e mais profundo.seria absurdo pretendê-lo . Resolução da problemática focal (R.). registre invariavelmente um resultado positivo." quer dizer.uma superação (elaboração) substancial dos conflitos subjacentes.P. pois me parece de decisiva importância. Veremos o que implica o termo resolução tanto dinâmica quanto clinicamente.F) Incluo esse ponto. que.F. ao seu alcance ao longo do próprio tratamen­ to. Em relação ao primeiro.188 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica "Insight ” da problemática focal (l. ou seja. o item precedente.) ração este item. insight sobre a problemática focal de cada caso.P. a avaliação. Para o paciente.P.F. a existência de insight'. ou a associação por parte deste com situações análogas à que foi objeto de interpretação. que se refere à resolução propriamente dita dessa mesma problemática e sobre cuja denominação cabem alguns esclarecimentos.

como já foi assinalado anteriormente (ver capítulo 3. irritabilidade. p. Clinicamente. 24yde uma resolução dinamicamente incompleta ou parcial. Malan acrescenta que isâo não confunde necessariamente a resolução do processo patológico subjacente. Aclarado o significado do termo do ponto de vista clínico. A primeira corresponde à definição do termo já assinalada e se apresenta quando um paciente. que não venha acompanhada da reação apropriada (4). apropriada (4). podemos esperar na melhor das hipóteses que o conflito se torne inativo. entre as quais se incluem fenômenos tais como a “cura transferencial” e a “fuga para a saúde”. sempre baseando-nos em Malan. cuja resolução clinicamente total seria dada pela desaparição de seu medo do patrão e de seus temores obsessivos de cometer erros em seu trabalho. Malan menciona as falsas soluções. mas em troca enfrenta tais situações de uma forma mais adequada. o termo resolução é uma forma sinté­ tica de fazer referência à substituição de uma reação imprópria por outra. ao qual devia somar-se o fato de que começara a ter confiança em seu próprio desempenho e que se estabelecera uma relação satisfatória com seu patrão. assim como o desaparecimento de sintomas alcançados a . sem excessiva submissão ou hostilidade. Trata-se então. depois do trata­ mento e ante situações ligadas-'à conflitiva focal. etc. a resolução poderá ser total ou parcial. fato que por outro lado não seria possível distinguir. a resolução pode traduzir-se com freqüência na superação de um episódio (com aquisição de certo grau de insight e retorno ao equilíbrio psicológico).). referindo-se ao caso de um homem que tinha uma relação conflitiva com seu patrão. De um modo mais preciso. clinicamente completa ou incomple­ ta. e seguindo Malan. Cm suma. ansiedade. O mesmo autor dá um exemplo muito claro. veremos que neste sentido.ainda com certas reservas num tratamento psicanalítico. deixando assim de ter um caráter perturbador por um período cuja duração é impre­ visível. t> que explica que possam produzir-se recaídas circunstanciais. Além da resolução real.A avaliação dos resultados terapêuticos como poderia esperar-se . a resolução clínica parcial consistirá no desaparecimento de uma reação inadequada (por exemplo. Por outro lado. não só deixa de registrar as dificuldades e sintomas do início.

. Malan assinala que na prática se colo­ cam interrogações decisivas: Como reconhecer a melhoria “bási­ ca” ou “específica”? Como diferenciar uma “resolução” real de várias categorias de “soluções falsas”? (£). 3.: Não]. partindo-se da idéia de aceitar como real toda resolução da problemática central do tratamento que.: Não]. perdure sem que se produzam re­ caídas ao longo de um determinado período.P.P.F.: Sim (total)]. . Resolução (clinicamente) parcial da problemática focal [R. 6.) [R. Não obstante.F.P. Sem dúvida. Aparente resolução da problemática focal.P.: Não]. evitação.: Sim (parcial)]. é possível mencionar.F. algumas das distintas possibilidades que podem ocorrer em maté­ ria de resultados terapêuticos. etc. cuja reali­ zação costuma ser faciütada mediante um estudo realizado ao longo do acompanhamento.: ?] 4. Resolução (clinicamente) total da problemática focal [R. total ou parcial (clinicamente). 7. Falsa solução valiosa [R. que serve para romper um circulo vicioso e instalar em seu lugar um ganho benigno e modi­ ficações vitais (4)4. com fins de orientação. As apreciações contudo continuarão tendo caráter empírico.F.190 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica expensas da evitação das situações conflitivas. Desse modo podem apresentarse alternativas como as seguintes: 1. efe­ tuar tais distinções pode ser às vezes uma tarefa difícil.F.P. Denomina dqfalsa situação valiosa àquela na qual as mudanças se vinculam com alguma determinação do paciente ou com algum outro fato signi­ ficativo gerado a partir do tratamento.P.P. 2. Agravamento5da problemática focal [R. ao qual deverão agregar-se os elementos fornecidos pelo psicodiagnóstico. em 24 meses a partir da finalização da terapia.F.: Não]. que podemos fixar arbitrariamente. Resultado duvidoso [R. assentando-se no insight.P. por exemplo. em realidade imprescindível se se pretende valorizar adequadamente o item R. com recaída [R.F.F.: Não]. 5.P. Bem. desde que o paciente não se submeta a outro tratamen­ to psicoterápico nesse intervalo. com ou sem recaída (cura transferencial. fuga para a saúde. instável. Sem modificações na problemática focal [R. Falsa solução da problemática focal.F. 8.

“assintomático”. se considera que persistem nele outras dificuldades que requei­ ram resolução. que o alívio ou o desaparecimento dos sintomas seja o corolário de mudanças internas (melhoria pelo insight). pois daí pode obter-se a motivação do paciente para continuar recebendo assistência psiquiátrica ou voltar a se consultar em outra ocasião. A melhoria sintomática pode che­ gar a ser o principal objetivo terapêutico. se solucionaram ou não seus problemas através do tratamento.) também é patrimônio do terapeuta. que por sua vez resultem de havermos penetrado com o paciente na psicogênese de seus sintomas. por exemplo. na opinião deste. Consciência da enfermidade Compreende a indagação sobre se houve ou não uma tomada de consciência por parte do paciente a respeito da existência de uma enfermidade “de base”. quando possível. embora este deva conhecer. é de se desejar. tomada de consciência que.F. as impres­ sões do paciente sobre o caso. nos quais se procura às vezes . per­ manente ou transitória (esta última é típica dg episódios agu­ dos). Para isto poder-se-á inquirir. ou seja.ao menos inicialmente uma remissão sintomática. se. Penso que a aquisição de consciência da enfermidade deve ser uma meta implícita em toda terapia breve de insight.S. como no caso de pacientes que apresentam uma grande debilidade egóica. quando isso for necessário. em (unção da qual o paciente. deve transcender o mero reconhecimento da natureza patológi­ ca do transtorno atual. Além disso. portan­ to. Melhoria sintomática (M.P. Cabe advertir quanto à falsa solução por evitação (4).A avaliação dos resultados terapêuticos 191 A avaliação deste ponto (R. como sempre. .) A observação da evolução dos sintomas adquire particular impoftância nessas terapias. encontra-se na reali­ dade pior que no começo.

no trabalho e na recreação. A maior parte das pessoas que procuram uma consulta psiquiátrica registram uma diminuição de sua auto-estima. Outras modificações favoráveis Já que se trata de um procedimento terapêutico orientado para a realidade cotidiana do paciente. através da qual pode promover modificações positivas*. configuram uma finalidade que convém ter presente. sem entrar aqui em con­ siderações profundas. especialmente as familiares .). interessa averiguar se se têm eventualmente produzido mudanças em aspectos como sua vida sexual. não só porque por si só significa para o paciente maior bemestar. etc. o fato de se notar num indivíduo.mas tam­ bém as de amizade.. outras relações interpessoais. permitindo-se expandir-se. Pode servir de simples exemplo. . profissionais. em conseqüência do insight alcan­ çado. também a elevação da auto-estima e as possibilidades de uma auto-regulação adequada dela. atendendo ao uso que faz de seu tempo livre (o que permitirá explorar sua capacidade de gozo. nos estudos. O estado atual da auto-estima detecta-se por meio de diver­ sos dados. uma maior preocupação com seu aspecto pessoal. recolhidos tanto nas entrevistas como no psicodiagnóstico. que no começo do tratamento impressionava pelo descuido consigo mesmo. irmãos. etc. etc.192 Auto-estima Psicoterapia breve de orientação psicanalítica Como acontece com o item anterior. sua iniciativa pessoal. suas relações de casal. etc. 1) Alguma orienta­ . o paciente emerge do tratamento com. Projetos para o futuro Trata-se de comprovar se. mas também por sua influência direta no funcionamento egóico.com pais. sua criatividade. Seu incremento (conseqüência natural de um tratamento caloroso por parte do terapeuta e também do efeito particular de determinadas interven­ ções do mesmo) constitui um ganho terapêutico nada desdenhável.

permite ampliar a obser­ vação das modificações obtidas. Tudo isso implica por sua vez certo autoconhecimento e a aceitação de algu­ mas perspectivas e limitações. a instrumentação de mecanismos menos primitivos e mais adaptativos que os presentes no começo. contase com a possibilidade de adotar certas determinações. utilizando procedimentos idênticos aos daquela ocasião. 2) A partir daí. registravam uma notá­ vel melhora. o que parece indicar também que a posteriori desses tratamentos se desenvolve um processo ativo e gerador de mudan­ ças (2). já que do contrário é menos provável que possam registrar-se mudanças significativas no material. O novo psico­ diagnóstico. que realizou uma investigação com numerosos pacientes tratados com o método terapêutico breve. trabalho. comparado com ó anterior. Mas as provas realizadas ao cabo de vários anos com estes mesmos pacientes. Comprova-se freqüentemente. Quando as metas terapêuticas não guardam maior vinculação com o que concerne aos planos pessoais do paciente. efetue o reteste e a devolução corresponden­ . esta questão configura por si um objetivo à parte. possíveis migrações. sem que no ínterim mediasse qualquer tratamento psicológico. pois nem sempre é possível abordá-la num tratamento breve.A avaliação dos resultados terapêuticos 193 ção no que se refere a realizações futuras em aspectos tais como estudos. É conveniente que o mesmo psicólogo que realizou o psico­ diagnóstico inicial seja quem. i» Psicodiagnóstico É conveniente efetuar o reteste não antes de que tenham trans­ corrido pelo menos seis meses desde a realização do psicodiag­ nóstico inicial. entre outras descobertas. a exploração dos distintos pontos citados pode ser vista como uma reavaliação do estado das funções egóicas do paciente depois de efetuado o tratamento. Harrower. Em geral. refere que na maioria dos casos os testes exploratórios não revelavam diferen­ ças destacáveis quando se efetuavam imediatamente depois de finalizado o tratamento. etc.

como é natural. A indicação de outro tipo de tratamento. No primeiro caso trata-se de um prolongamento necessário do tratamento. A separação de paciente e terapeuta. É freqüente. com conhecimento do terapeuta. pode surgir em diversas situações. b) havendo sido cumpridos. que poderá consultar-se novamente toda vez que sinta necessidade de fazê-lo. quer dizer. durante o tratamento. convém que proponha isso ao paciente sem esperar que se cumpra o prazo inicialmente fixado. Quando. que a conti­ . A separação de paciente e terapeuta será decidida sempre e quando aquele estiver em condições de enfrentá-la. cumpridas ou nào as metas terapêuticas. As distintas possibilidades que devem ser levadas em conta ao concluir o prazo terapêutico são: * 1. 3. O estabelecimento de um recontrato. sem programação de futuros encontros. 4. compelido a trabalhá-la. o terapeuta considera neces­ sário prolongá-lo (recontrato). a com­ paração dos resultados de um e de outro estudo terá validade. carece de sentido. Alternativas do paciente ao terminar o tratamento Este tema já foi considerada por outros autores. 2. O estabelecimento de um recontrato pode realizar-se cm várias circunstâncias: a) se nào se cumprirem os objetivos. além disso. 3. 4. Atuar de modo contrário suporia expor o paciente a uma falsa situação de separação ime­ diata. o que. Ser-lhe-á comunicado. no momento da avaliação. em que o prazo inicial pode ter sido insuficiente para alcançar as metas estabelecidas. como é óbvio. A indicação de outro tipo de tratamento . que se veria. distinto em seus fins e técnicas. evitando que haja variáveis. pp. por exemplo. Do acompanhamento me ocupo em “A avaliação media­ ta”. se se colocam novos objetivos limita­ dos. 1.194 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica te ao paciente. Só desse modo. Comentarei aqui apenas algumas questões que me parecem de interesse. 196 ss. 2. A combinação de entrevistas periódicas de acompanha­ mento.

A avaliação dos resultados terapêuticos 195 nuação de uma terapia de tempo e objetivos limitados desperte no paciente o interesse de efetuar uma psieoterapia prolongada. ao confirmar que*'a melhoria é possível. tudo o que o toma agora mais apto para realizar ura tratamento dessa natureza. o tera­ peuta já conhece. Pode tratar-se também de um paciente que o tratamento breve haja motivado para uma exploração mais profunda. De minha parte. Há. e que tenha adquirido além disso maior consciência da enfermidade e maior confiança na psicoterapia. quer dizer. Na prática o tratamento poderá ser solicitado pelo próprio pacien­ te ou ser recomendado pelo terapeuta. quer se realize de imediato quer depois de haver transcorrido algum tempo entre um c outro. psicanálise).. pode-se contar a seu favor com a existência de uma aliança terapêutica já instaurada e com a confiança do paciente nas perspectivas que oferece o tratamento. ampla e prolongada de seus conflitos. Penso que tanto uma alternativa como outra oferecem vantagens e desvanta­ gens. a patologia do paciente. além disso. creio que não se pode generalizar afirmando que tal ou qual posição será mais adequada em todos os casos. com vistas a modificar aspectos de seu caráter. não constitui por si só nenhum indício de fracasso ou êxito do trata­ mento efetuado. Se o novo tratamento deve ou não ser feito pelo mesmo tera­ peuta pode constituir um tema polêmico que merece alguns co­ mentários. evita-lhe o . Aqui o passo para a psicoterapia prolongada é uma conquista importante da terapia breve. Além disso. com outros e mais ambiciosos objetivos. Fi­ nalmente. modelos repetitivos de conduta. As opiniões a respeito parecem bastante divididas. Ocorre no caso em que se decida realizar um tratamento prolongado ao ficar comprovado qfie a técnica focal resultou ineficaz e que na oportunidade se requêr outro enquadra­ mento. continuando a encarregar-se do tratamento. etc. Na realidade. Quero destacar que a passagem de um paciente de um trata­ mento breve que está por finalizar para um tratamento prolongado (por exemplo. questão sobre a qual ’outros se têm pronunciado de maneira similar. terapeutas que sugerem completar a experiência cor­ retiva de terapia individual com um tratamento grupai posterior. baseada nas melhorias obtidas inicialmente. tanto pode responder ao primei­ ro como ao segundo. cm alguma medida. Se se considera a possibilidade de que seja o mesmo tera­ peuta quem efetue o novo tratamento.

mais ambígua. que fica reduzido ao ocasionado pela eventual mudança do tipo de relação paciente-terapeuta7. Talvez algo que possa ser feito. preservando-se ao mesmo tempo o setting necessário. No terreno da investigação.de uma rela­ ção mais definida e calorosa do diálogo fluido e mantido “frente a frente” para outra. sem chegar à atitude de ambigüidade psicanalítica. diante de um paciente sub­ metido a um tratamento breve.de um modo contraditório para ele. a avaliação mediata nos permite indagar acerca do grau de eficácia desses . às vezes. seja menos demonstrativo com o paciente. essa situação pode trazer complicações transferenciais. na qual o terapeuta estabelece maior distância afetiva. tal como se vê a transformação de seu vínculo com o teçapeuta . o mais conveniente pode ser recorrer a um novo terapeuta. provocadas pela hostilidade gerada ao passar . que basicamente servirá para comprovar se as mudanças alcançadas mantêm-se ou não. desempenhe um papel um pouco menos ativo que o habitual nas psicoterapias focais e regule mais determinado tipo de intervenção que possa contrastar com as da técnica psicanalíti­ ca que depois terá de adotar. para que a passagem à nova forma de relação terapêutica seja mais gradual e que a situação criada possa ser manejada sem que se produzam reações transferenciais inde­ sejáveis. Mas é precisa­ mente no que concerne a tal mudança que residem as desvanta­ gens. e que propõe outra disposição espacial. uma psica­ nálise. com o mesmo terapeuta. haverá de se pesar cuidadosamente distintos fatores. Em cada situação. Por isso. seja considerar firmemente a pos­ sibilidade de aceitar a continuação de tal tratamento. sendo em suma mais frustrante. Toda essa situação pode confun­ dir e desconcertar o paciente. correspondentes não só ao paciente mas também ao terapeuta.196 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica luto da separação. O paciente pode experimentar dificuldades para aceitar as modificações da relação com seu terapeuta devido às característi­ cas do novo enquadramento. e que este. diante de um novo tratamento. Paralelamente. A avaliação mediata É praticada por meio de follow-up ou acompanhamento.

dando lugar também a recaídas. uma cura transferenciai de efeitos fugazes. por exemplo. tais como a conduta do paciente diante do terapeuta no acompanhamento. evitando o encontro. Pode ser efetuado. Partindo-se de experiências em estabelecimentos assistenciais. Pode evitar . em nosso meio. a investigação. de autênticas melhorias causadas pelo insight. Além disso teremos oportunidade de comprovar se depois da remoção do obstáculo continuam ou não evidenaiando-se novos progressos. nos encontra­ remos tanto com pacientes que vêm entusiasmados. temática que foi considerada no capítulo 9. a evolução da rela­ ção transferencial e sua conseqüente vinculação com o estado do paciente (como o realizou o grupo de Malan [4]. Também podem ser explorados em detalhes determinados aspectos do processo terapêutico. certas mudanças prospectivas ligadas ao tratamento. Às vezes o acompanhamento torna possível distinguir melhor. que pode ser prolongado. então. depois de transcorrido um certo período. Mas os alcances do acompanhamento não se reduzem a uma só face. ou melhor.A avaliação dos resultados terapêuticos 197 procedimentos e formular hipóteses sobre os prováveis mecanis­ mos terapêuticos atuantes. as mudanças esperadas só se manifestam no acom­ panhamento. os perigos que derivam de certos aspectos transferenciais não-resolvidos. mostrando-se colaboradores e agradecidos. Às vezes. desde a finalização do tratamento. um estudo mais preciso que na avaliação imediata e por conseguinte uma avaliação mais correta das mudanças produzidas. quer dizer. que estudou esses fatos com relação ao grau de interpretações da transferência exis­ tente ao longo dos tratamentos efetuados). por exemplo. Assim.ou ao menos atenuar possíveis recaídas relacionadas com fantasias dc abandono por causa do término do tratamento. verificáveis tanto clinicamente como por meio de psicodiagnóstico. uma “fiiga para a*saúde”. que chega a con­ . como com outros que se apresentam queixosos ou ainda não compareçam. isto é. tem-se assinalado. já que com o passar do tempo estes podem consolidar-se ou seguramente descaracterizar-se. mas este representa por sua vez um recur­ so preventivo-terapêutico. Conhecemos sobeja­ mente. que poderão então ser pesquisados através de entrevistas periódicas de controle. É nessas circunstâncias que são postos à prova os ganhos obtidos. ou seja.

já que nem sempre tere­ mos respostas concludentes a essas interrogações. é factível detectar novas manifestações sintomatológicas ou a reaparição das já conhecidas e com isso a indi­ cação psicoprofilática ou psicoterapêutica necessária. que desenvolve assim certa pertinência à mesma (3). Aprofundando-nos no que podemos explorar por meio do controle periódico do paciente. 194). Também poderemos pesquisar a existência de uma cura transferencial. já que pode objetivar a permanência das melhorias alcançadas. Tudo isso deverá efetuar-se em uma ou mais entrevistas. 49 ss. no qual a insti­ tuição c um continente para o paciente. Também já fiz menção de que é nessas circunstâncias que o psicodiagnóstico pode registrar as mudanças significativas produzidas por essas terapias. que deriva em mudanças só . A respeito dos mecanismos das mudanças e melhorias sinto­ máticas. quando existe um controle periódico da avaliação do caso. assim como suas sugestões para o futuro. este tem uma possibilidade de reasseguramento e tranqüilização. Se considerarmos concretamente as mudanças e melhorias sintomáticas . aos quais se deverá agregar a indagação acerca de possíveis novos ganhos e/ou problemas que possa apresentar o paciente. como o incremento da auto-estima (quero dizer. recordemos que esses resultados podem ser produto do insight. que pode influir favoravelmente no funcionamento do ego e avaliar sofri­ mentos. mantendo-se contato com o paciente. é mister indagar ao menos. que transmitirá suas impressões.m Psicoterapia breve de orientação psicanalitica figurar uma continuação espaçada do tratamento. Por último. antes que o processo patológico alcance maior desenvolvimento. de acordo com as necessidades. em essência similar à descrita a propósito da avaliação imediata. A técnica das entrevistas . O reteste será realizado conforme as condições enunciadas anteriormente (ver p. temas aos quais me referi em parte no capítulo 3 (ver pp. assim como também de outros meios de fortalecimento egóico. assinalarei alguns pontos de ma­ neira sucinta. Além disso haverá uma “devolução” do terapeuta. quando este é alcançado por mecanismos distintos do insight). Além disso. tais como a depressão. a que mecanis­ mos respondem e qual é o alcance e a estabilidade de tais mudan­ ças.). leva em conta os mesmos itens.

podem dar lugar. reveladas nos psicodiagnósticos. ou seja. de duvidosa per­ manência. em caso afirmativo. permitindo às vezes a remoção de obstá­ culos e a consecução de ganhos. O aprendido na terapia é confrontado e interatua com tais experiências. O paciente teria adquirido certo insight. trabalho. se as mudanças registradas se mantêm ou não e. ainda que a durabilidade das mudanças. que o paciente realizaria espontaneamente. etc. Nesse caso parece resultar necessário que transcorra algum tempo. por exemplo. Mas também é possível que constitua descoberta evidenciada durante o acompa­ nhamento. etc. alcançada através de insight) da problemática focal poderá expressar-se na manutenção das mu­ danças registradas ao concluir-se o tratamento. tais como sexualidade. as quais costumam realimentar o processo.A avaliação dos resultados terapêuticos 199 aparentes e superficiais (reações adaptativas). durante quanto tempo. como sabemos. . com os mecanismos que as geraram e seu correspondentenívèrde profundidade. O alcance ou a extensão das modificações clínicas favorá­ veis pode referir-se às distintas áreas de conduta em que se regis­ tram8 e/ou simplesmente aos diferentes aspectos da vida do paciente. ainda. Mo­ dificações internas de distinta natureza. Interessará. A resolução real (ou seja. cata­ lisado pelas suas experiências vitais. a mudanças prospectivas em uma ou mais áreas ou atividades. mas também. mas este não se faria acompanhar de modificações visí­ veis. quer dizer. Isso acontece quando as mudanças e melhorias sinto­ máticas sobrevêm só depois de um certo período de tempo. estudo. Este é um índice muito válido para avaliar a eficácia desses procedimen­ tos. seu grau de estabilidade. estahilidade das mudanças estará relacionada com a natureza dos mesmos. lazer. uma “falsa solução valiosa”. ao longo do qual teria lugar um proce|so “elaborativo” pós-terapêutico. Já vimos que tudo isto pode refletir-se nos resultados do psicodiagnóstico realizado nesta etapa. podendo tratar-se de uma “fuga à saúde”. não dependa só do tratamento realizado. No que corresponde ao processo terapêuticQ^ a. da maior ou menor influência de situações traumáticas que possam afetar o paciente e promover uma nova descompensa­ ção. fato registrado na avaliação imediata. entre outros fatores.

fato mais bem detectado através do psicodiagnóstico. mas também à estrutura da personalidade. A avaliação dos resultados terapêuticos em psiquiatria breve constitui um terreno aberto à investigação. e diante dos quais cabe indagar também acerca de seus mecanismos. por meio do acompanhamento9. ainda que em grau menor. diante das quais o terapeuta estará em condi­ ções de prevenir ou auxiliar o paciente. Contudo.200 Psicoterapia breve de orientaçãopsicanalítica As recaídas. imprecisões e limitações. o desenvolvi­ mento fundamental do terapeuta requer que seja feita uma avalia­ ção sincera. traduzidas na reaparição dos sintomas ou na presença de novas manifestações sintomatológicas. A avaliação constitui uma tarefa complexa. da mesma forma que a presença de novas si­ tuações conflitivas. por fornecer uma grande riqueza de dados com possibilidade de . Essas mudanças podem ser inerentes não só às con­ dições de vida. é possível encontrar novos ganhos e mudanças. Esses fatos também podem ser investigados. Geralmente. mas também acerca de seus possíveis fatores e ra­ zões (1)”. Problemas na avaliação dos resultados terapêuticos As dificuldades para avaliar os resultados terapêuticos dos distintos procedimentos utilizados em psicoterapia são sobeja­ mente conhecidas. podem dcverse à reativação do conflito subjacente pela ação de fatores traumá­ ticos. sobretudo porque não contamos até o momento com a possibili­ dade de realizar medições mais objetivas. a respeito de como se produziu o êxito ou o fracasso. Por último. Isso deveria incluir não só o julga­ mento. um auto-exame e uma autocrítica de seus resultados terapêuticos em cada paciente. Em parte devemos con­ fiar em informações e apreciações subjetivas do paciente ou de seus familiares. este deverá tentar sempre uma avaliação. no que é possível que o psicodiagnóstico possa transformar-se num valioso instrumento. Disse Dewald: “Em que pesem as dificuldades. de certo modo alheios às metas terapêuticas propostas. grosso modo. também as impres­ sões do terapeuta estão sujeitas às mesmas vicissitudes. que por diversos motivos podem distorcer os fatos. alcance e estabilidade.

F.P. Por esse motivo exporei a seguir o esquema que idealizei e que utilizo. e. a saber: insight da problemática focal (I. Levantam-se muitas polêmicas em torno dos critérios de me­ lhoria que deveriam imperar quanto às terapias breves: Que deve­ mos entender por “melhoria” ou por “resultado favorável” nessas terapias? Darei minha opinião a respeito: em psicoterapia breve de insight. O que im­ porta no final das contas é o julgamento que o terapeuta desenvol­ ve com respeito aos resultados obtidos no que concerne a cada um desses itens.). fornecendo assim.S.A avaliação dos resultados terapêuticos 201 sistematização metodológica.). no meu entender. Quando se trata de uma terapia breve em que predomina o insight. Mas na prática e sobretu­ do com fins estatísticos.) e melhoria sintomática ( M. resolução da problemática focal (R. embora. surge a necessidade de apelar para um código que sirva para qualificar os resultados terapêuticos “fi­ nais” de cada tratamento. Na realidade é uma tarefa difícil. como vimos. uma idéia global dos mesmos. Mas isso não significa desdenhar a melhoria ou ciura sintomática.F. por si só não nos sirva de parâmetro. muito menos nesse tipo de tratamento. parte dos itens aos quais anteriormente fiz referência. o que tal­ vez contribua para criar maior desconcordância nesse campo. um enfrentamento mais adequado de alguns dos obstáculos correspondentes à sua situação-problerna. Esse procedimento terá maior validade se for apli­ cado com base nos dados recolhidos ein acompanhamentos efe­ tuados depois de haver transcorrido um certo lapso de tempo des­ . pelo alcance de uma maior compreensão psicológica [insight). como é lógico supor. em algum momento. Bastará isto para considerar um resultado como favorável. Os pontos restantes têm importân­ cia secundária. Difundem-se numerosos e diferentes esquemas para a avalia­ ção dos resultados terapêuticos em psicoterapia breve. ainda se está longe de poder unifi­ car critérios e adotar um sistema único. e mais do que tudo fundamentar um procedimento de medição bastante preciso. sinteticamente. a melhoria do paciente pode ser definida. ainda quando diferir do julgamento do paciente. levaremos fundamentalmente em conta. pelo que não é sinônimo de êxito terapêutico. na sua avaliação.P. os três primeiros pontos da lista já conhecida. o qual. já que pode ser o produto de fal­ sas soluções (4). (Tinda que persistam certos sintomas ou dificuldades meno­ res.

e nos demais itens se as mudanças e melhorias se mantiverem ao longo de pelo menos 24 meses.S. é clini­ camente incompleta ou parcial.P. a catarse. d) A categoria de regular significará que só se alcançaram alguns benefícios no concernente a M.P. e/ou mudanças favoráveis nos outros itens de importância secundária.F. só I...)10.P.. O registrado nos restantes pontos. só se considera­ rão resultados positivos em R. acompanhado de uma resolução clinicamente completa ou total da problemática focal e do desaparecimento ou demarca­ da atenuação da sintomatologia. Em conseqüência.F.F. etc. dos três pontos. a R. clinicamente parcial.F. e) Quando não se registra nenhuma variação favorável ou desfavorável nos diferentes pontos.F.P.P. e M. qualificaremos os resulta­ dos alcançados do seguinte modo: a) Naqueles casos em que se registre um resultado positivo em I.F.202 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica de o término da terapia.. a essa situação corresponderá um re­ sultado discreto. Cumpridas as condições descritas. não modificará a qualificação. por meio de distintos mecanismos não-bascados no insight. o efeito psicofarmacológico.P. uma vez mais. diferentemente do descrito em a. M. é avaliado como positivo e enquanto não se tenham exacerbado mais intensamente as mani­ festações sintomatológicas. Paralelamente poderão existir ou não modifi­ cações favoráveis em outros itens e eventualmente na estrutura da personalidade. (excetuando-se o de evitar as si­ tuações conflitivas). ou à atenuação ou supressão sintomática por evitaçào (falsa solução) sem se ter alcançado I. o resultado final será considerado favorável. c) Quando. f) Se assistimos a uma franca piora ou agravamento na sinto­ matologia. o resultado final será considera­ do muito favorável.F.S. que de um modo convencional podemos fixar em no mínimo dois anos.P. e portanto tampouco . sem que se tenham registrado recaídas nem sido efetuados outros tratamentos psicoterapêuticos durante tal período. independentemente dos resultados concernentes aos demais pontos. e R. b) Quando. ou apenas dois dos três itens prin­ cipais acusam resultados positivos (I.P. ou ainda por último I. o resultado será nulo. como a sugestão.F.S. ainda com persistência ou intensificação de certos sinto­ mas.

P.F.S. No caso de uma psicoterapia breve baseada numa técnica de apoio.F. Como requisitos para considerar válidas a melhoria sintomática e as mudanças. © Regular: M.P. também deverão manter-se pelo menos por dois anos a partir da data de conclusão do tratamento. sem que o paciente haja realizado durante esse tempo novos trata­ mentos psicológicos12.F. Os itens restantes desempe­ nharão uma vez mais um papel menor na determinação do resul­ tado final. o significado de cada uma das categorias mencionadas pode ser resumido esquematicamente assim: PSICOTERAPIA BREVE EM QUE PREDOMINA O “INSIGHT” Resultado final Muito favorável: I.P. (total) ® + M.P. o resultado final será rotulado como desfavorável.P.P. terá importância. (parcial) © + M.. Seria interessante estudar uma forma de incorporação siste­ mática do psicodiagnóstico ao procedimento descrito.S.P. Os resultados finais na terapia breve de apoio poderão ser qua­ lificados com as mesmas denominações aplicadas à de insight. sem variações em I. a M.F. as significações serão as seguintes: . ® Favorável: I.P. não serão levados diretamente em conta.F. © ou I. © + M.F.F. © + R.A avaliação dos resultados terapêuticos 203 R.F.F.P.F.S.P.E 0 “ R. Nesse caso. e R.S.F. e R. (parcial) © ou I.P.P. além do observado nos demais pontos. © Discreto: I.PF. enquanto que I.S. © e/ou resultados positivos em outros itens de importância secundária Nulo: Sçm variações Desfavorável: Piora sintomatológica ou falsa solução por evitaçào. Definitivamente. © + R.

Buenos Aires. Pichon-Riviere. R. Psicoterapia breve. Buenos Aires. A. A Study o f Brief Psychotherapy. A. Bleger em Psicologia de la conducta. J. Tavistock. M. Med. cap. Springfield. 1973. acompanhada de modificações benéficas cm um ou mais aspectos restantes considerados. Illinois. 1974. Arg.P. Buenos Aires. E. cap. “Problemas que plantea la investigation sobre psi­ coterapia breve”. Também pode ser definido unicamente pela cura sintomática. Centro Editor de América Latina. Buenos Aires. Madrid. em P. Londres.. ~7’c) Discreto: Só há atenuação dos sintomas. “Evaluation de la terapia". Psi­ coterapia: m enfoque dinâmico. 1964.. válido para a avaliação em ambas as formas de psicoterapia breve: quando um resultado é duvidoso em um item (exemplo: R. 6. Psicossomática (Assoc. Um último esclarecimento. Barcelona. Wolberg y col. XX. Grcdos.. « e) Nulo: Sem variações. Referências bibliográficas 1. em Cotoquio Acta 1967: Psicoterapia Breve. 4. psicol. II.. 3. Acta psiq. Usandivaras.que não se obteve uma resposta positiva no que diz respeito ao mesmo. Kaplan. Amér. XIV. junho 1968. Toray.. de Psicologia Médica. 16 de junho de 1972. f) Desfavorável: Piora sintomática. -7 d) Regular: Registram-se somente alguns benefícios em pon­ tos de importância secundária.). em L. D. Lat.) 5.: Resultado: ?) considerar-se-á a fim de estabelecer um resultado final . X. vol. Arg. Psicoanálisis y Medic.F. C. / b) Favorável: Difere do resultado muito favorável em que existe uma atenuação dos sintomas em vez de seu desaparecimen­ to. Dewald. não acompanhada dc outras variações nos demais itens. Charles Thomas. 2 Harrower. Dewald. 1963. (Versão castelhana: La psicoterapia breve. “Cómo vc cl tratamiento breve un psicólogo clinico”. P.. qualquer que seja o esultado nos outros pontos. Malan.204 Psicolerapia breve de orientação psicanalítica /a) Muito favorável: Um resultado será muito favorável quan­ do se produza a cura sintomática. 1968. H.. citado por J. n“ 2. . cap. EUDEBA.. Organizado pela Soc. Curso para Graduados de Técnicas em Psicoterapia Bre­ ve.

Servicio de Psicopatología c Higiene Mental del Hospital Municipal “J. White. Paidós. 8. R. para residentes municipales de tercer ano de Psiquiatria. . Buenos Aires. Wolf. Ramos Mejia”. Bue­ nos Aires. 1970-71.. E lyoy la realidaden la teoriapsicoanalitica.. M.A avaliação dos resultados terapêuticos 205 7. Supervisiones de psicoterapias breves hospitalares en pa­ cientes adolescentes. 1973. L.

* ^ .V .

como diz Courtenay [2]. atravessar um "mo­ mento propício" numa enfermidade relativamente crônica). A indica­ ção ou contra-indicação clínica dessa terapia decorre da avaliação diagnostica e prognostica do paciente. dentro da qual são elemen­ tos indicadores para sua recomendação: a) Sofrer transtornos de início recente e agudo que motivem o tratamento (ou. Essa posição. A terapia de objetivos e tempo limita­ dos satisfaz assim uma necessidade assistencial. praticamente quase todas as pessoas poderão receber certa ajuda terapêutica com o tra­ tamento focal. justifica sua aplicação generalizada quando dificuldades econômi­ cas. desde que se recorra. nesse sentido. Indicações da psicoterapia breve' i Por mais grave que seja sua enfermidade. que é. É evidente que se pode determinar em que circunstâncias e com que tipo de pacientes se poderão esperar os melhores resulta­ dos. o que costuma originar maiores dúvidas. ainda que esteja longe de ser em muitos casos a indicação mais adequada. mesmo de duração limitada. à técnica interpretativa e à de fortalecimento do ego.12. tanto no meio institucional como no consultório privado. distância ou falta de tempo não possibilitem um tratamento mais intensivo e prolongado. Estabelecerei a seguir alguns critérios de seleção de pacien­ tes para o tratamento focal em que predomina o insight. compartilhada por muitos. Nes­ sas características incluem-se as situações críticas nas quais o *> . inclusive quando o método breve apresenta suas indicações clínicas. com critério e segundo cada caso.

Nos estados de crise aguda. um parto. que representam importantes campos de aplicação das técnicas breves (a psicoprofilaxia cirúrgica [5] ou a assistência psicológica durante a gravi­ dez.cujo propósito é o de penetrar por debaixo da superfície e descobrir as influências do passado” (4). assinalando . por sua vez.). exercendo ao mesmo tempo uma função preventiva. ^ b) Patologia de caráter leve (exemplo: neurose). Disse Freud a respeito: “(. ataque histérico. essas situa­ ções distintas demandam muitas vezes ajuda psicológica urgente. ruptura de casamento. ao mesmo tempo.208 Psicolerapia breve de orientaçãopsicanalitica indivíduo esteja afetado por problemas que digam respeito à sua realidade atual (acidente de trabalho. Essas situações costumam pelo menos transitoriamente impedir a realização de um trata­ mento analítico. Todo o interesse do ego está absorvido pela penosa realidade e se retira da análise . etc.) o trabalho de análise progride melhor se as experiências patológicas do paciente per­ tencem ao passado. Menciona também a leveza da patolo­ gia como um fator para um prognóstico favorável. e deve haver uma ausência relativa de expectativas primitivas. Afirma Main: “Os problemas principais devem situar-se predominante­ mente no nível genital. ou até mesmo sair garbosamente dela. uma migração.. A terapêutica breve pode converter-se num auxílio eficaz.. de modo que seu ego possa situar-se a uma certa distância delas. Também podem incluir-se aqui os casos em que o indivíduo deve preparar-se para passar por tensões. razão pela qual. depressão reativa. Courtenay. etc. de necessidades de dependên­ cia e de privações precoces sérias” (6). como terapeutas. não devemos desentender-nos a respeito disso2. se pronuncia de modo similar. a psicanálise não pode ser utilizada de nenhum modo. de pessoa total. às quais podem adequar-se facilmente. para a elaboração das ansiedades surgidas ao longo dela [8]). que permita ao paciente superar melhor a situação sem graves conseqüências.).. etc.). Mas. adquirindo além do mais um caráter essencial­ mente preventivo. casamento. ou não necessaria­ mente patológico como pode ser o caso de uma crise vital (ingres­ so na universidade. dando lugar a um quadro psicopatológico agudo (neurose traumá­ tica. etc. dada a lógica limitação de tempo e os objetivos terapêuticos que a natureza idêntica das situações coloca. tais como uma interven­ ção cirúrgica.

Diante desses fatos. Szpilka e Knobel advertem sobre o erro de guiar-se quase que exclusivamente por um diagnóstico nosológico para a indicação terapêutica. histérica. que não estão dispostos a passar por uma terapia intensiva e prolongada. mas sim que se pretende esta­ belecer uma generalização que não considera realmente o diag­ nóstico nem leva em conta a realidade atual e circunstancial de cada paciente.” Sintetizam essa posição dizendo: “A psicoterapia breve pode então aplicar-se não como uma terapia substitutiva da psicanálise. de três pessoas. etc. Considerar isoladamente o diagnóstico nosológico (neurose obsessiva. como se faz em geral em medicina. que implique uma sacrificada revisão de sua vida e de sua personalidade (mas que por outro lado chegam a manifes­ tar um certo interesse em aliviar alguns de seus sintomas ou uma situação conílitiva atual através de uma psicoterapia). e) Capacidade de insight. etc. d) Alto grau de motivação para o tratamento. ou depressi­ vos sérios (2). surgida do diagnóstico. devendo-se atender em cada caso ao todo da situação apresentada pelo paciente. c) Força e plasticidade do ego.” O tratamento breve pode erigir-se como a única experiência terapêutica possível para numerosos pacientes reíratários á psica­ nálise. mas que idealiza o método terapêutico. não de um quadro nosológico.) . a outro com problemas orais de dois. condições socioeconômicas. e de que esta recaia sobre o tratamento psicanalítico quando não são fornecidas ao paciente determinadas condições elementares.ou qual­ quer otitro fator é em suma insuficiente para indicar ou contraindicar uma terapia breve. isto é. f) Determinação e boa delimitaçãofocal desde o inicio (7). tanto em psiquiatria como em medicina geral. mas como uma indicação precisa. Essas limi- . quando devem ser considerados também fatores como idade. dizem: “Entendemos que não se está prescrevendo &terapia de escolha para cada caso. o qual é sempre prejudicial para qualquer paciente. mas de uma personalidade enferma num determinado quadro socioeconômico e cultural. com funções em bom estado. caracteropatia esquizóide. suas resistências a tratamentos intensivos e prolonga­ dos.Indicações da psicoterapia breve 209 que é preferível um indivíduo com necessidades edípicas.

Uma nova circunstância que cabe citar é a da aplicação póspsicanalítica da P. geral- rio . quando há pouca motivação para o tratamento. 8. a par de seus conflitos difi­ cilmente modificáveis. dependentes ou sim­ bólicas. respeitar a estrutura caracterológica do paciente. Outras vezes a PB. c não o contrário. e evitar desse modo mobilizações afetivas desnecessárias. com relações objetais muito ambivalentes.B. quando resulta dificultoso determinar e delimitar um foco.ou reaparição de uma situação conflitiva ou dc um sintoma. excessivas e também arriscadas. Abarca assim outra área importante da assistência psiquiátrica. não se justificando que se submetam a uma reanálise. que ele possa tolerar. toxicomanias. inclusive através de uma técnica interpretativa. enfermidade psicossomática. A P. mas com método. pois a tentativa estará geralmente condenada ao fracasso. para as quais se acha contraindicado o tratamento psicanalitico. Em pessoas de idade avançada. Trata-se então de adaptar sempre nossa técnica psicoterapêutica ao paciente. Um tratamento focal pode ser suficiente para solucionar o pro­ blema atual surgido.passo para a realização de um tratamento psicanalitico1. é indicada como primeiro .210 Psicolerapia breve de orientação psicanalitica Esta técnica pode cumprir idêntica finalidade no que diz respeito a outros tratamentos. 9 e 10). Pode ser tratável.B. como a psicoterapia de grupo prolongada. de insight é menos eficaz : em casos crônicos de psico­ se. em geral quando existem grandes debilidades egóicas. enfoque e objetivos terapêuti­ cos determinados. com grandes possibilidades de terminar em deserção. porque permite trabalhar setorialmente. taçòes por vezes têm que ser respeitadas. circunstâncias nas quais a indica­ ção técnica mais adequada pode ser outro tipo de terapia. antes de rotulá-lo como intratável. tendências marcadas ao acting out ou escassa tolerância à ansiedade c à frustração (ver os capítulos 4. bastando às vezes umas poucas entrevistas com seu próprio analista4. perversões.e preparató­ . estados fronteiriços e caracteropatias graves (sobretudo se o que se pretende é tratar estas patologias e não um conflito cir­ cunscrito). Está destinada a pacientes que puderam inclusive obter alta de uma análise com êxito e que consultam pela aparição . a terapia focal pode encontrar uma aplicação muito adequada. sem forçá-los a um trata­ mento analítico. psicopatias.

1968. Small. Courtenay. amiúde.. p. Nova York. “Brief Psychotherapy”. Psicoterapia breve y de emergencia. os conflitos estarem pouco circunscritos e afetarem quase todos os aspectos da vida do sujei­ to) (veroscapítulos4. Buenos Aires. Mcxico. Beliak. Norton. 2. em S. L. Londres. e 10. sendo em princípio conveniente que o prazo não fique estabelecido de antemão. os produzidos por falecimentos de pessoas queridas (ver capítulo 10. Small em Psicoterapias breves. 68. situamo-nos diante de uma condi­ ção aparentemente favorável para a indicação do tratamento bre­ ve. M. PaxMexico. 4.. Acontece que nos encontramos ante um lego momentanea­ mente debilitado. The Collected Papers of Otto Fenichel. Por outro lado. uma terapia de três meses de duração (período que se fixa. Tavistock.. para esses tratamentos). de um transtorno atual de começo rccénte e agudo. o que pode provocar uma reativação iatrogênica da perda.). L. e Small. 179). com antecedentes de um aborto recente. p. em H. 1972. . O. t. Citado por L. “Analisis terminable e interminable”. consideramos o problema que para a indica­ ção de uma terapia de tempo limitado estabelecem os pacientes que registram lutos patológicos e/ou recentes de importância. 3. o que pode rea­ vivar traumaticamente a perda anterior. Biblioteca Nueva. Fenichel. por exemplo. Citado por L. Fenichel e D. Deverse-á cuidar então ao máximo para que nesses casos a duração da psicoterapia não predisponha a estas reações. Granica. como. Sexual Discord in Marriage. isto é. Granica. Rapaport (comps. apeSar de que quando tais lutos são ôs que motivam a consulta. 1972. 1964. Madrid. Freud. Buenos Aires. Referências bibliográficas 1. III. Um trágico exemplo des­ sas situações poderia ser o prescrever descuidadamente a alguém. 1968. com uma diminuição de sua capacidade para suportar a dor e a frustração e poder enfrentar o novo luto gerado pela separação do terapeuta ao terminar a terapia. S. 179). Freud.Indicações da psicoterapia breve FACULDADE GÜAIRACÁ BIBLIOTECA F AG 211 mente intensiva e prolongada (nesses casos é comum existirem transtornos graves de personalidade. em Psicoterapias breves.C. 1969. p. O..

R. Londres. Acta psic. Kargieman. 1971..212 Psicoterapia breve de orientação psicanalilica 5. .. psicol. Lat. Soifer. Malan. Main. T. 7. c Knobel. (Versão castelhana: La psicoterapia breve. Buenos Aires.. Rev. Lat. Buenos Aires. M. Amér.. M.. 9. “La psicoprofílaxis quirúrgica: una técnica de prevención”. Charles Thomas. Illinois. 1974. era Coloquio Acta 1967: Psicoterapia Breve. Psicologia del emharazo. set. 6. Buenos Aires. “Accrca de la psicoterapia breve”. Amér. Tavistock. t. Buenos Aires. Centro Editor de América Latina. vol. Glasserman. H. Acta psiq. Szpilka. XV. R. 1963. psicol. Springfield. J.. e col. de Psicoanálisis. n°3. parody pueperio. D. n° 1.. vol. 1969. jnnho 1968.) 8. XXV1I1. “Mesa redonda sobre psicoanálisis y psicoterapia”. 1971. XIV. “A Study of Brief Psychotherapy”. L. n? 2. Buenos Aires.

ao efetuar a consulta. no ano de 1972. um homem de 28 anos. com instrução primária completa. consultou o Serviço por experimentar um incremento na ansiedade e depressão de que sofria há muitos anos. fatos cuja conexão permanecia ignorada por A. essencialmente. O segundo constitui. um exemplo do trabalho de aprofunda­ mento no foco1. eletricista. de dois meses de idade. pertencente à classe média baixa. O caso descrito em primeirá'lugar ilustra com certo detalhe dis­ tintos aspectos e momentos do procedimento focal. de um modo quase constante.13. M. Ambos os tratamen­ tos foram efetuados por mim. argentino. Ramos Mejía”. e fa­ zem parte de uma investigação que ali realizei durante 12 meses. casado. Exemplificação do método psicoterapêutico de objetivos limitados A.. Na realidade o recrudescimento de sua sintomatologia coin­ cidia com o nascimento de seu primeiro filho. . Dos tratamentos breves I «> Apresentarei aqui dois casos que foram tratados por meio dc psicoterapia de objetivos e tempo limitados. no Serviço de Psicopatologia do Hospital Municipal “J.

ainda que. Seu desejo era conseguir outro emprego. opusera-se a tudo aquilo o que para ele (o paciente) pudesse significar “um passo adiante” na vida. empregado bancário. políticos ou psicológicos. com quem protagonizava freqüentes discussões. Ganhava uma soma de dinheiro insuficien­ te para enfrentar os gastos correspondentes aos cuidados do bebê c tinha uma má relação com seu patrào. a quem atribuiu um papel impor­ tante nessa questão. manifestou-se muito frustrado intelectualmente. Havia sido um menino tímido c um pouco triste. acredi­ tasse que nunca chegaria a “cometer uma loucura”. dormia junto com a mãe no mesmo leito desde muito pequeno até os 11 anos. mostrando-se abertamente hostil. Vivia muito apegado à màe e nào se recorda de ter tido amigos. Grandes temores e inibições ao cursar os esttidos primários pare­ ciam havê-lo impedido de continuar estudando. Seus pais dormiam no mesmo quarto. Seu pai. a princípio aparentemente bondosa para com ele. em contraste com a recordação que tinha de sua màe. A relação com seu pai foi descrita como sumamente conflitiva. com relação à idéia dc suicídio. Logo A.214 Psicoterapia breve de orientação psicanalílica Ocasionalmente havia pensado que nào valia a pena conti­ nuar vivendo. Mostrou-se além disso preocupado pelas dificuldades que tinha em seu trabalho. mas em camas separadas. Tinha desejado ser um “grande intelectual. vítima de uma enfermidade infecciosa. enquanto A. Definiu-o como muito dominador. época em que esta morreu. Por último. Sentia um “medo pavoroso” de uma professora. Autodefiniu-se como inseguro e indeciso. Enfim. voltou a se casar um ano depois de ter enviu­ vado e não teve filhos do segundo matrimônio. . Criticava nele que. mas logo. Nos últimos anos. capaz de analisar problemas sociais. áspero e pouco afetuoso. se sentiria muito prejudicado por sua madrasta. além de nào tê-lo estimulado a prosseguir os estudos. Dados biográficos de interesse (resumo) Único filho de um matrimônio com grandes desavenças. uma pessoa com muitos conhecimentos”. carinhosa e solícita. segundo afirmou.

Isso me fez temer mais a dependência em relação a ele e decidi deixar”. cabe assinalar rfela sua grande adesão à religião católica. . não só no referente a situa­ ções de dependência. aparentemente de orientação dinâmica. Nos últimos tempos.Dos tratamentos breves 215 seu pai havia contraído uma grave enfermidade. Assim sendo havia sérias dificuldades para vincular-se com mulheres. Voltando à sua adolescência. decidiu afastar-se da casa pater­ na. Visitavam-se muito esporadicamente. em duas ocasiões. Sentia-me respaldado. contava 18 anos. uma vida sexual medianamente satisfatória (embora logo admita que sobretudo no começo tivesse tido gran­ des dificuldades. O paciente atra­ vessava uma crise com exacerbação de seus sintomas. Revelava assim evidentes problemas. no seu parecer. indo viver numa pensão. A atividade social do casal era intensa e gratifkante. e foi sua espo­ sa a única com a qual conseguiu fazê-lo. num caráter essencialmente anal. Nesses anos. Considerava que os tratamentos tinham tido um saldo positivo. levando com ela. Ali permaneceu até os 25 anos. Avaliação diagnostica O diagnóstico psiquiátrico-dinâmico foi o de uma neurose obsessiva medianamente grave. que consistiram em episódios de impotência e de ereçctes dificultosas c mais adiante em fantasias uxoricidas em pleno coito. que confi­ gurava clinicamente uma depressão ansiosa reativa. ainda que seu estado geral fosse bom. as quais haviam reaparecido ultimamente). Suas primeiras relações sexuais datam de seu matrimônio. mas também ante a existência de profundos temores a uma aproximação afetiva. quan­ do se casou com uma jovem que havia conhecido um ano antes e que descreveu como “muito sensível e inteligente”. admitiu a influên­ cia do tipo de relação que chegou a ter com seu terapeuta: “notava grande afinidade com o médico. tudo o qúe se referia a sexo adquiria para ele caráter pecaminoso. com terapeutas homens e que abandonou alegando inconvenien­ tes econômicos. com componentes melancólicos c paranóides. Quando A. No abandono do segundo deles. tinha seguido trata­ mentos psicotcrapêuticos.

achando-se esta última francamente diminuída. tomando-o. isto é. ainda que se duvidasse do grau de tolerância que teria à frustração que poderia ocasionar-lhe sua separação do terapeuta ao finalizar a terapia. como o substituto libidinal de seu marido. Não obstante todo o mencionado. Também apresentava alterações no controle de seus impulsos. o diagnóstico re­ velou com clareza uma grande disposição a estabelecer vínculos de natureza simbiótica. descargas de raiva. Bender. pensou-se que o paciente possuía um ego suficientemente forte para suportar os sentimen­ tos dolorosos provocados pela revelação de seus aspectos incons­ cientes. Assim mesmo. Tinha consciência da enfermidade . considerou A. Por último. memória. em con­ . O foco pôde ser delimitado desde o começo. puderam ser apreciadas: deficiências marcadas no teste de realidade . como em ocasionais. ainda que violentas. optando-se por centrar o trabalho terapêutico na situação crítica criada em tomo do nascimento do filho. relações que eram muito ambivalentes e oscilavam entre a tendência à submissão extrema e a rebelião patológica.216 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica Quanto às suas condições egóicas . O grau de motivação para a psicoterapia e suas capacidades para o insight foram considerodos elevados. atenção. etc.) estavam menos alteradas. casal)2. (Os detalhes sobre a estrutura do foco serão descritos mais adiante. Essa perturba­ ção gerava nele dificuldades nas diferentes relações interpes­ soais. e seu nível de inteligência poderia ser considerado médio. superprotetora e sedutora. em especial com pessoas de autoridade. uma distorção da realidade produzida por intensas projeções.) A hipótese psicodinâmica inicial Três entrevistas e a bateria de testes ministrada permitiram formular o seguinte: a mãe. que se evidenciavam tanto num exagerado controle da agressão atra­ vés de formação reativa (psicodiagnóstico). fato confirmado pelo psicodiagnóstico (Rorschach. a regulação de sua autoestima resultava inadequada. cabe mencionar que as funções básicas (per­ cepção.

pela qual foram responsáveis ambos os progenitores. Essa situação foi expressa numa frase muito significativa do paciente: “angustia-me ter muitas coisas boas e não poder desfrutá-las. próprias da etapa sádico-anal (isolamento. que ein parte pode ser concebida como uma defesa ante a ameaça de castração por mefo da submissão ao superego paterno. constituiria uma forma de controle de seus impulsos sexuais e agressivos. vítima de uma prematura e intensa estimulação sexual. É a etapa em que surge sua religiosida­ de. anulação. Os mecanismos de repressão e sublimação sofreram mui­ ta interferência (os graves conflitos eícolares. sentir-se-ia culpado pelos grandes delitos de humanidade consumados em sua fantasia4. A rivalidade edípica. traduziram-se ao que parece no caráter assustadiço do menino. pareceram atestá-lo). e de escasso e difi­ cultoso contato social. muito intensificada em sua adolescên­ cia. intelectual e eco­ nomicamente. É particularmente importante o antecedente da partilha do leito. que simbolicamente representavam a castração: renunciar ao prazer sexual. Por sua vez car­ regou consigo desejos insatisfeitos de dependência oral. Como Édipo. em nome dos quais deveria sofrer severos castigos. com terror à figura da professora. Por último. o que o levou a abandonar o lar paterno. como seria o caso de uma pessoa que gos- . que au­ mentaram com a morte da mãe. que foram plasmando sua estrutura de personalidade. O psicodiagnóstico refletiu isto através da presen­ ça da fantasia de haver sido castrado. a religião lhe permitia satisfazer desejos infan­ tis de dependência e proteção e a necessidade de castigo por seus intensos sentimentos de culpa. além disso. vividos como proibidos e perigosos por seu significado incestuoso e par­ ricida.Dos tratamentos breves 217 seqüência. constituindo um sério impedimento para uma resolução adequada do complexo edípico ao incrementar os desejos incestuosos e parricidas c a angústia da castração conse­ qüente. tomava cada vez mais tensa a relação com o pai. provenien­ te do fato de perceber-se pouco potente sexual3. representado pela figura de Deus. Apelou então regressivamente para defesas mais primitivas. resignar-se a ver restringidas suas inquietações intelec­ tuais e profissionais. Acompanhava-o um sentimento de inferioridade. formáção reativa). deslocamento. Os efeitos deletérios dessa situação. muito apegado à mãe.

através do qual também procuraria satisfazer seus desejos de dependência. Tal conduta tinha do mesmo modo antecedentes no abandono do lar paterno quando contava 18 anos. depressão e insô­ nia. A enfermidade de seu pai e o nascimento do filho provocaram um incremento pa­ ranóico em seus desejos parricidas mal reprimidos5e em suas fan­ tasias dc haver consumado o incesto. Ligavam-se também aos impulsos filicidas. Formularam-se as seguintes hipóteses prognosticas a respei­ to das vicissitudes transferenciais durante o tratamento: buscava no terapeuta um pai bom. mas era possível esperar a repetição de uma relação fortemente ambivalente. mas é ce­ ga. dadas as dificuldades na relação com seu pai real e com representantes paternos. O foco terapêutico inicial ficava configurado em tomo dos sintomas que apareciam como o motivo manifesto da consulta: ansiedade. deduziuse.218 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica ta muito dc ler e consegue todos os livros do mundo.. Isso se ligava com o que fora considerado como o principal motivo latente. poderia condu­ zi-lo a repetir a conduta de deserção do tratamento7. Existia além disso o risco de que seu temor inconsciente a uma aproximação afetiva . Aprofundando-se na compreensão do momento crítico que A. provocados por sua intensa inveja oral (um sonho seu desses dias revelava esses fatos claramente) e por sua rivalidade edípica. e de suas distintas limitações vitais. a intensa situação per­ secutória intervinha na gênese de sua angústia. que as ansiedades provocadas por essa crise vital estavam vinculadas essencialmente à sua vivência dolorosa de exclusão8. burlando a proibição supercgóica6. também. atravessava. (Recorde-se a cegueira de Édipo. isto é: o nascimento de seu filho (que diga-se de passagem antecipou-se aos planos do casal). assim como havia feito cm sua fantasia com seu próprio pai. a busca de uma contenção que o pusesse a salvo de suas tendências hetero e auto-agressivas. seu temor de que o filho lhe “roubasse” a esposa-mãe.muito necessitada por ele com o terapeuta. como seu patrão c mais recentemente com o próprio filho.) Com base no exposto. com o conseqüente .”.. resulta clara a influência em sua pro­ blemática do conflito com a imago paterna. depressão e insônia exacerbados.

Como objetivo menos prioritário. Vemos então que essa conflitiva focal também podia remeter parcialmente ao con­ flito com a imago paterna (conflito básico). também. oferecer-lhe ajuda no que concerne a seus estudos. Obter também um alívio sintomático. ajudando-o a adequar-sc melhor à nova situação. 3.Dos tratamentos breves 219 temor à retaliação. pela mater­ nidade. que o incentivava a tratar-se. 2. É de se destacar a influência favorável que tinha sua esposa. também foram detectados. Tais objetivos foram: 1. o fato de ser consciente disso que o subme­ tia a uma grande depressão9. 4. Sentimentos de inveja com relação à sua mulher. tratar de alcançar esclarecimento e alguma solução para seus problemas de trabalho. Em seguida. Conseguir uma maior compreensão dos conflitos reativa­ dos com o nascimento de seu filho. . Era. levando em conta seu projeto de continuá-los em futuro próximo. Por último. caberia conside­ rar sua constrangedora posição econômica. ainda que considerados de menor relevância dentro do conjunto de problemas. que se agre­ gava a tudo o já mencionado a respeito da significação incons­ ciente da enfermidade do pai e de outras conseqüências a que dera lugar o nascimento do descendente. transferida agora para o filho. que era um novo fator * de incremento de sua angústia e que o defrontava mais drastica­ mente com a realidade dolorosa das limitações produzidas por sua neurose. a qual. Tudo isso constituía os pontos de urgência a serem levados em conta no início do tratamento. em especial para assumir melhor sua paternidade. gerava uma situação persecutória. As metas terapêuticas Cheguei a um contrato mínimo com o paciente sobre os obje­ tivos do tratamento depois de haver-lhc exposto meu pareccr sobre a natureza de seus transtornos (devolução diagnóstico-prognóstica).

curiosidade ante sua conflitiva) e suficiente e relativamente fácil compreensão dos psicodinamismos básicos de sua problemática. o contar com uma esposa cooperativa. Entre os elementos prognósticos desfavoráveis se assinala­ vam: a gravidade da patologia. Planificação do tratamento Decidiu-se utilizar uma técnica em que predomina o insight. o fato de tratar-se de um “momento propício'’ para a abordagem psicoterapêutica numa enfermidade crônica (2). a imediata deter­ minação focal. unido à sua capacidade de auto-observação. . sua idade. que es­ tariam dirigidas de preferência para suas relações com represen­ tantes paternos (filho. o que permitiu arriscar um bom prognóstico para o tratamento foi talvez o alto grau de moti­ vação do paciente para a psicoterapia (disposição para o esforço da tarefa). que me diz que não vou ser capaz disto ou daquilo”. e ao critério predominante neste caso acerca da necessi­ dade de proceder desse modo para alcançar as metas propostas. partindo da percepção. que ele já tinha. patrão) e com o próprio pai. seriam um ins­ trumento importante na terapia. que afetava quase todas as áreas de sua vida. discutindo com alguém dentro de mim.). as interpretações chegariam a incluir parte das raízes infantis do conflito. uma contratransferência positiva (interesse em ajudá-lo. havia dito A. Se fosse possível e conveniente.220 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica Prognóstico De todos os fatos considerados. devido a um certo training de A. o qual fazia temer a aparição de complicações duran­ te a terapia (cm particular a respeito da finalização desta). de uma luta interna que o angustiava e agoniava (“como se estives­ se sempre lutando. De particular utilidade poderiam ser aquelas interpretações destinadas a mostrar as vicissitudes intrapsiquicas do conflito a fim de que tomasse consciência da vigência de uma imago paterna superegóica muito severa. que poderiam comprometer os resultados terapêuticos. As chamadas interpretações “extratransferenciais ”. e muito especialmente o tipo de relações objetais que apresentava.

e quando o esta­ do do paciente o permitisse. em virtude da reativação do lutcípela perda de sua progenitora. como era evidente. como meio de ir facilitando a separação.a enfrentar suas fantasias infantis de consumar a relação incestuosa. não . cumprindo um papel decisivo para a demonstração emocional de certos problemas com a figura paterna (em razão da qual se torna­ va oportuno que fosse tratado por um terapeuta homem). apresentaram-se durante o tratamento). inveja. Com referência à estratégia terapêutica. Em princípio.B. dispôs-sc a encarar inicialmente a situação-problema criada por sua paternidade. ciúmes e rivalidade com respeito ao filho. utilizando no inicio interpretações “de ensaio” (1) e observando sua resposta a elas. demonstrasse ter um timing rápido. mas sem conduzi-lo necessariamente salvo se os indícios de seu grau de insight e a tolerância da dor o permitissem . se incluiriam durante a etapa final dele. fantasias essas que. não se administrariam psicofármacos. Efetivar-sc-ia um trabalho interpretativo com as devidas precauções. Estabeleceram-se também as datas para as entrevistas de avalia­ ção imediata e para a realização do reteste. Se A.Dos tratamentos breves _j_ _____ As chamadas interpretações "transferenciais ” teriam de ser empregadas com mais assiduidade do que o habitual em P. na tarefa de ajudar o paciente a aceitar a separação.. mas pro­ curar-se-ia não fomentar com isso a neurose transferencial. com duas sessões semanais de 30 minutos cada uma. Fixou-se uma duração de quatro meses para a terapia. seriam reduzidas para uma por sema­ na durante o último mês. com efeito. atendendo aos pontos de urgência detectados. diante da qual se esperava que pudessem além disso aflorar aspectos da transfe­ rência materna. Por último. em parte como reedição dos conflitos com seu pai. Apelar-se-ia para o uso flexível e seletivo da regra de asso­ ciação livre. considerando a todo momento a receptividade do paciente. seria possível aprofun­ dar progressivamente a situação genética da conflitiva focal. Também eram previstas ante a possível aparição de fenômenos transferen­ ciais que chegassem a obstaculizar abertamente o processo tera­ pêutico (tais fenômenos. cm rela­ ção ao carinho materno. As interpretações tenderiam a fazê-lo tomar consciência de seus sen­ timentos de exclusão.

a qual continuaria tratando dos problemas que se apresentassem em suas relações interpessoais. Por último. como derivados do con­ flito com a ünago paterna. ficaria re­ servada para outra ocasião. Procurar-se-ia então revelar parcialmente o complexo edípico para o paciente. Não resul­ tava possível indicar outra opção. que se evidenciava ante representantes paternos (incluindo o terapeuta). Uma vez alcançado certo insight e alívio a respeito da situa­ ção crítica derivada do nascimento do filho. como diria Malan (8). pensou-se em mostrar-lhe esse conflito básico. de uma situação conflitiva nuclear. Considerou-se que se ante suas necessidades econômicas conseguisse melhorar seus rendimentos. se fosse exeqüível um tratamento pro­ longado. conside­ rando-se que o fato de que se tratava de uma revelação incompleta não despojaria a tarefa da qualidade dc ser operativa em grau su­ ficiente para alcançar os fins terapêuticos propostos. nesse caso com seu patrão. em diferentes contextos. c que mostra ao pa­ ciente a repetição. a tarefa se centraria nas dificuldades encontradas em seu trabalho. além do natural alívio poderia elevar sua auto-estima. As condições do vínculo terapêutico deveriam tender a au­ mentar constantemente sua auto-estima e a estimular sua iniciati­ va pessoal a fim de conseguir o estabelecimento de um processo . se possível. c que o fazia sentir-se desvalorizado e ameaçado por eles. sem desenvolver todos os seus componentes. Dessa forma diminuiria seu sentimento de culpa provocado por sua hostilidade cm relação ao filho. de modo que a possibilidade dc uma elabo­ ração mais profiinda. dadas as condições do enqua­ dramento e em se tratando de algo que poderia ser demasiado ansiógeno e despertar resistências insolúveis no curto lapso que duraria o tratamento. Ou seja.222 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica tinham sido conscientizadas nos tratamentos anteriores. A conseqüência final seria o alívio de sua de­ pressão. já que se sentiria menos débil e mais capaz de exercer um papel de pai protetor. seriam considerados seus problemas na área intelectual. e efetivamente mais completa. que é característica da técnica de “enfoque”. surgindo assim a “interpretação central sobre a qual teria de se basear todo o tratamento”.

. em razão da qual. Utilizaram-se com proveito associações livres. ainda que se es­ perasse que em certa medida a situação-probfema implicasse que A. • Por força deveria ficar intocada a perda patológica pela mor­ te de sua mãe. O paciente comparecia a todas as sessões quase sempre pon­ tualmente. à abordagem do problema da separação consecutiva à finalização do tratamento. repre­ sentada agora por sua esposa. Prestar-se-ia particular atenção. sobretudo a partir do material onírico trazido. Mas isso tampouco significava que teria de ser deixada totalmente de lado. diante do qual se percebia o paciente mais defendido. dedicando-lhe pelo menos um terço da duração total da terapia.' Mão ocorria o mesmo com o que se referia ao mencionado luto. ia conseguindo um insight progressivo.Dos tratamentos breves 223 prospectivo que o paciente pudesse continuar por sua conta de­ pois de terminado o tratamento. apesar de sua importância decisiva na psicopatologia do paciente. sua abordagem profunda não parecia impres­ cindível para os fins imediatos do tratamento e teria resultado talvez imprudente. dadas as caracte­ rísticas e a história do paciente. À medida que se aprofundava na conflitiva focal.) Evolução durante o tratamento Ao menos nessa ocasião. Sua motivação para a tarefa foi aumentando. evitar-seia interpretar o material relacionado com tal luto. a terapia transcorreu em grande parte de acordo com o plano terapêutico concebido. (Se bem que o considerasse em con­ dições de enfrentar certos aspectos do complexo edípico. como seus desejos parricidas e por extensão a hostilidade em relação a seu filho. revivesse inconscientemente a perda de sua progenitora. e além disso levando-se em conta o incremento dos vínculos regressivos de dependência ante o nas­ cimento de seu filho. de maneira deliberada. Tudo isto se achava mais próximo da superfície cons­ ciente e parecia possível de ser manejado com êxito num enqua­ dramento de terapia breve.

fantasias suicidas que o angustiariam muito. a imago paterna. já que em pouco tempo começou a discutir com ela por amenidades. A relação. por colocar em mim. parecia pouco menos que insustentável. Pôde compreender que seu filho era vivido por ele como se se tratasse do pai rival. segundo sua “voz inte­ rior”. Originaram-se precisamente na separação iminente. como um abandono. os quais foram con­ templados com interpretações “transferenciais”. Apresentou logo típicas dúvidas obsessivas acerca de seu amor por ela. acompanhadas de intensos sentimentos de culpa.224 Psicoierapia breve de orientação psicanalítica A focalização do trabalho terapêutico na crise registrou o surgimento de fantasias filicidas conscientes. As relações com sua mulher melhoraram. o despediriam “a patadas”. Em relação a toda a problemática mencionada. ainda que também esperasse dele inconsciente e neuroticamente carinho paternal. vivida por A. Tampouco dessa vez se recorreu às psicodrogas. o que incrementou sua hostilidade transferencial (em sua maior parte não consciente). mas A. As maiores dificuldades se apresentaram na etapa final razão pela qual o número de sessões semanais não pôde ser redu­ zido. foi inevitável certo grau de desenvolvimento da neurose de transferência. Mostrava-se agradecido para comi­ go e mais otimista. Surgiram obstáculos transferenciais na tarefa. A. Ao fim do segundo mês de tratamento. Não obstante. Planejava agora continuar seus estudos e conseguir um novo emprego. Durante o terceiro mês foi possível trabalhar sobre o proble­ ma profissional. pôde dar-se conta de que reproduzia com o patrão a relação com seu pai. o qual por sua vez ajudava a colocar seu ego em melhores condições de rendimento. O reatamento das relações sexuais cotn sua mulher pareceu haver atenuado sua hostilidade. foi conseguido por fim certo alívio sintomático. ainda que só transitoriamente. progredindo a terapia em bom ritmo. e em poucos dias o momento críti­ co pôde ser relativamente superado por meio de um intenso traba­ lho interpretativo. muito conflitiva. temia buscar outro traba­ lho. com hostilidade. Necessitava rebelar-se contra sua autoridade. pois imaginava que o ludibriariam e. que cresceu . surgiram ein A.

Mas estou conformado com ele... Isso permitiu evitar outras reações desfavoráveis (recaídas. considerando-se impróprio fazê-lo nessa tera­ pia. Isso é funda­ mental. entre os quais se achavam grandes ansiedades fóbicas ante ele.” Segundo meu critério. mostrava agora um novo e interessante problema para conseguir de mim que con­ tinuasse tratando dele. foram: “As vezes me sinto um pouco desiludido. Apesar deste trabalho. dirijo minha bronca quando ataco os demais. parecem ter influído em certa medida nos resultados terapêuti­ cos e na auto-avaliação dos mesmos. que me freia em tudo.. demandando uma árdua tarefa interpretativa sobre o novo foco10. principalmente no final. aspectos transferenciais não resolvidos.Dos tratamentos breves 225 até limites perigosos para o futuro do tratamento. as quais foram em troca inter­ pretadas como uma resistência a aceitar o desprendimento. que foi ava­ .). a julgar por algumas impres­ sões de A. Descobri que isso se deve a que o tratamento terminou. logo depois de finalizado.. nem se referiu às fantasias homos­ sexuais em relação ao terapeuta. de caráter hos­ til. que obedecia a diversos motivos. ner­ voso. na rea­ lidade. Sobre o tema cabe acrescentar que é provável que nãu se tenha insistido o suficientê em assinalar sua rivalidade e inveja com relação ao tera­ peuta. Serviume e pode continuar me servindo. Nas últimas sessões começou a manifestar|inesperadamcnte preocupações que provocavam nele certos pensamentos sujos relacionados com fantasias homossexuais. Vi sobretudo esse pai temível que tenho dentro de mim. num intento de con­ seguir que se adiasse o término do tratamento. vi um montão de coisas. acting out. Avaliação dos resultados terapêuticos Alguns comentários de A. rôzão pela qual.. como logo veremos.. etc. que pretendeu ajudar o paciente a aceitar a separação. e a quem. que coincidiu bastante com a autoavaliação do paciente.. este alcançou certo insight da problemática focal do tratamento e um melhor manejo da situação. principalmente no aspecto intelectual e científico.. ao efetuar-se esta... sobre o tratamento. Não se tentou apro­ fundar no material. isso eu tenho presente.

uma psicoterapia prolongada. cm que pese não se haverem produzido mo­ dificações substanciais em sua situação. Sua atividade sexual resultava bastante adequada e satisfató­ ria no dizer do paciente.226 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica liado como resolução clinicamente parcial de tal problemática. por outro la*do. desfrutava melhor de seu tempo livre em compa­ nhia da mulher. Adquiriu. com caráter temporário. em parte responsável por estas dificuldades. Em suas relações com as demais pessoas. a projeção de aspectos superegóicos (sobretudo nas pessoas com autoridade). . Sem dúvida. O reteste imediato à finalização do tratamento não revelou modificações de importância. não apresentou nenhuma mudança a partir do trata­ mento. interessou-se pela idéia de reatá-los. isto é. No concernente a seus estudos. A melhoria sintomática foi muito acentuada. Por último.trouxesse paralelamen­ te mudanças no teste de realidade. sua maior autovalorizaçao atual. dada a deterioração que havia alcançado sua relação com o patrão esse era um objetivo importante do ponto de vista prático. Mas com respeito a seu trabalho A. antes havia optado por iludi-la. esperava-se que o fortalecimento de seu ego . se havia elevado. o que parecia sem dúvida o mais indicado. já que deveria verificar-se novamente numa avaliação mediata. maior consciência da enfermidade. Concretamente: cessaram as disputas com sua mulher e conseguiu aceitar melhor o filho. quando pudesse. Sua auto-estima. considerei que tinha po­ dido compreender melhor seus problemas com o patrão. indicada diante de seu crescente interesse por achar uma solução para suas perturbações caracterológicas.pelo insight . como já disse. pelas razões expostas 1. já que ele havia notado sua ten­ dência dominante. ainda. não sendo tomado como a busca de uma falsa solução (8) do problema. o ajudaria a encontrar outro emprego. pelo ressentimento para com cia. o que implicava por sua vez contar com certo projeto pessoal. o que lhe permitiu desfrutar melhor sua relação com ele. o que significou um importante estímulo para que efetuasse.

baseada na negação da dor e da dependência do objeto). o paciente havia começado a psicanalisarse com uma mulher. 2. A.Dos tratamentos breves _______ _________ Ao fim de uns três anos. 1. de nenhum modo pude atribui-los ao tratamento hospi­ talar). a qual lhe havia permitido. sem mediar tratamento algum? Em suma: os tratamentos são realmente eficazes? (Em outros momentos de entrevista. em troca.) Em minha opinião. Inclinava-me então a considerar essas dúvidas como ob­ sessivas. Tratou-se du­ rante dois anos e abandonou o tratamento. . ver como e quanto o havia afetado a morte da mãe. voltamos a nos ver para uma entre­ vista de acompanhamento. Exceto alguns progressos em suas relações com sua mu­ lher. semanas depois de haver terminado o tra­ tamento comigo. aos quais já me referi anteriormente (sua atitude depreciativa constituía além disso uma defesa ante a perda do terapeuta. tais sucessos. abundaram expressões de agradecünento para comigo. tudo fazia supor que ambos os tratamen­ tos haviam resultado benéficos e que. podem resultar de interesse. para os fins dessa apresentação. como é de se supor. não teria alcançado. alegando novamente dificuldades econômicas. seu pequeno filho e seu pai. com melhor re­ muneração do que o anterior. pelo que eu o havia ajudado. Meses depois de haver terminado o tratamento hospitalar. assim com$ ein seus estudos e no estado de sua auto-estima (aos quais carecé de sentido referirme aqui. graças a eles. produto de sua ambivalência afetiva c que ao menos em sua relação comigo remetiam a aspectos hostis da transferência não-rcsolvidos. toda tentativa de avaliação imedia­ ta dos resultados da terapia hospitalar. revelou-me que. pôde supe­ rar em parte certas perturbações neuróticas crônicas e ativar um processo prospectivo que lhe permitiu desenvolver suas potencia­ lidades. segundo afirmou. Freqüentemente assaltavam-no certas dúvidas. que teve de me confessar: até que ponto o alcançado se devia ao fato de se ter tratado? Com o correr do tempo. vincular-se à psicoterapía hospitalar. pois diante da indubitável influência do tratamento psicanalitico. eventualmen­ te. Esse sucesso poderia. A existência deste último tratamento invalidou. pôde conseguir outro emprego. a seguir só tenho de consignar alguns fatos e comentários do paciente que. de todo modo. Por isso.

“Continuo com certa tensão nervosa . segundo expressou. ou algo mais do que isso.. metas que são patrimônio de outras terapias.228 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica 3.A im portância da indagação exaustiva dos dados biográ­ ficos e do psicodiasnóstico em psicoterapia breve.uma aliança terapêutica c sobretudo no fato de fixar objetivos terapêu­ ticos limitados e alcançáveis. em função dos objetivos. Por último havia comparecido à entrevista com uma longa lista de temas escritos por ele.” Recentemente apre­ sentava. O psicodiagnóstico trouxe elementos de grande utilida­ de para o manejo terapêutico. que permitiram prever certas peculiaridades das transferências pater­ na e materna durante a terapia. foram de especiafinte­ resse as averiguações concernentes à constelação familiar.. Considerações finais Este caso ilustra particularmente os seguintes pontos: 1 . a qual era previsível. na existência dc aspectos cgóicos capazes de concretizar . “alguma dificuldade” para conseguir orgasmo. 2.comentou. tendo em conta que havia sofrido vários episódios de impotência. A finalidade então não é a reorgani­ zação da estrutura da personalidade nem a cura da neurose. argu­ mentando que temia se esquecer de muitas das coisas que queria me dizer. a fim de se elaborar uma ampla hipótese psicodinâmica inicial. que fúndamentará o planejamento terapêutico. se tudo vai bem. pode . Por isso. o prognóstico do tratamento. Sei que devem ser coisas profundas. ainda com pacientes que apresentam marcantes transtornos de personalidade e que são portadores de sintomas neuróticos crônicos. As razões fundamentais se apóiam na existência de um suficicntc grau dc motivação para o tratamen­ to. como ele dizia. Neste caso. eu não podia espe­ cificar se seu transtorno era “alguma dificuldade”. Levou-se em conta o antecedente de partilha de leito existente ao longo de toda a infância do paciente. Havia também claras indicações da persistência de mani­ festações neuróticas e de seus transtornos de caráter. como a psicanálise. A possibilidade de trabalhar com boas perspectivas prognósticas em terapias breves. naturalmente. Caramba.

de obter o prolongamento do tratamento e de con­ servar assim o terapeuta. . do sexo feminino. ao qual acorreu depois. A necessidade . 4 .) do paciente. em que pese a possibilidade de que por momentos a tarefa terapêutica tenha sucumbido às defesas (intelectuafixação. O caso da jovem que vomitava às segundas-feiras12. concernente a outros sintomas ou con­ flitos do paciente e trazidos por este com a intenção. — 6. argentina. 21 anos. com estudos secundários completos e pertencente à classe média baixa. geralmente inconsciente. A necessidade de trabalhar o problema da separação que se coloca ante o término do tratamento. etc. deixando de lado determinados aspectos e níveis desses conflitos a partir de uma avaliação cuidadosa não só do que convirá. solteira. nos estágios finais de terapia focai de material alheio aofoco. por si só. 3. sem centrar côm isso o tra­ balho na análise da relação paciente-terapeuta. problema que chega.Dos tratamentos breves 229 ser bom ainda nesses casos. dando lugar em parte a um pseu­ do-insight.ainda que a abordagem se realize de um modo incompleto. . mas também do que não convirá trazer à consciêrfcia do paciente. o que o motivou para um novo tratamento prolongado. isto é. empregada numa butique. a configurar um novo foco terapêutico.5.de abordar conflitos básicos parajjbter os resultados terapêuticos esperados . A eventual aparição.em certas ocasiões . Se a isso acrescentarmos que a terapia^TOTTfnbui para aumentar a consciência da enlermidade e a motivação no pacientc. devemos concluir que o benefício não foi pequeno.. para diluir obstáculos transferenciais e também como mostra vívida dç aspectos da problemática principal do tratamento. Aprofundamento no foco J. A oportunidade e o sentido da utilização de interpretações “transferenciais ” em terapias breves. por não poder ser suficientemente retomado e elaborado no tratamento.

. idade em que teve a primeira menstruação. mas não parecia muito preocupada em melhorar. É como se tivesse medo deles”.230 Motivos da consulta Psicoterapia breve de orientação psicanalítica Trata-se de uma bonita jovem. os vômitos haviam sido muito abundantes. tendo sido encaminhada por um mcdico clí­ nico do hospital em razão de apresentar vômitos todas as segun­ das-feiras de manhã. Cabe destacar que esses sintomas apareciam também ao ver­ se diante de jovens que pudessem exercer certa atração sexual sobre ela. Uma averiguação cuidadosa permitiu comprovar que a paciente obtinha claros ganhos secundários por meio dc seu sofri­ mento: às segundas-feiras. nesses dias recebia cuidados e atenção. em especial de sua mãe. Na realidade padecia de náuseas e vômitos desde os 12 anos. por causa de seu mal-estar. Uns meses atrás. Nos últimos tempos se produziam especialmente nas segundas-feiras pela manhã. dadas suas dificuldades para estabelecer uma relação de casal. tinha então a impressão de que isso lhe sucedia “por ser covarde. . por temor a levar alguma coisa adiante com eles e sobretudo por temor ao sexo. assumindo por sua vez uma conduta francamente regressiva. Demonstrava certo interesse em conhecer o porque da exis­ tência desses sintomas. Um antecedente recente e importante era a ruptura de uma relação de casal (situação-problema). expressou. Em certas ocasiões se irritava e chegava a apresentar “crises de nervos”. Em mais de uma ocasião vomitou na presença deles e inclusive sobre eles. desidratou-se e foi necessário administrar-lhe soro.por meio de exaustivos estudos ... Por causa deles..”. Esse fato derivou numa exacerbação de suas náuseas e vômitos e lhe causou certo grau de depressão. que consultou o Serviço acom­ panhada de sua mãe. J. Havia mantido relações sexuais com o rapaz. não com­ parecia ao emprego. sendo sua ausência justificada. revelando a respeito certa preocupação. tendo sido descartado previamente . '‘Vomito em cima deles.que tivesse alguma afecção orgâni­ ca.

mencione-se que J. Dos antecedentes pessoais interessa consignar aqui alguns outros. integrada por seu pai.Dos tratamentos breves Dados biográficos de interesse 231 Com referência aos antecedentes familiares. Ali morreu afogado. o qual também falecera com a idade de 15 anos. de 55. Segando o relato desta. e um filho que morrera tragicamente na Segunda Guerra Mundial. J. havia tido uma filha. dc 61 anos. Dc seu segundo matrimônio nasceram-na Argentina J. Neste aspecto resultava difícil verificar o que havia sucedido realmente.. comentou. estava casada em segundas núpcias com seu pai. podia estar distorcendo bastante os fatos com suas pró­ prias fantasias. se via favo­ recida pela atitude da mãe.) Temia não poder ter filhos. “carente dc afeto”. que ela descrevia como sereno. quando a paciente contava 8 anos. o que a inquietava sobremaneira. referentes à sua sexualidade. . pois estavam entretidos em jogos sexuais. que residia em Buenos Aires c era casada. provinha de uma família modesta. pois dava a im­ pressão de que J. com ausência dc menstruação por três meses e aumento de volume do abdômen e dos seios. nunca havia experimenta­ do orgasmos e durante o coito se sentia envergonhada e culpada. que havia sofrido três grandes perdas e que cm conseqüência disso tornara-se ansiosa e superprotetora13. oriunda de um país europeu. mas que o jovem e a rapariga que o acompanhavam nào quiseram socorrê-lo. e um filho varão. De seu primeiro matrimônio. e por sua mãe. unidos por um grande carinho. no qual enviu­ vara. assinalou que seu irmão havia lançado gritos desesperados pedindo auxílio. viviam os três juntos. além de não ter presenciado o trágico aconteci­ mento. o rapaz havia ido numa sexta-feira a um balneário com um casal de ado­ lescentes. Hm certa oportunidade teve uma falsa gravidez. algo sujo”. (“Sentia que o que fazia era uma porcaria. em parte proveniente de certas versões que‘Yecolhera. Com base nesses antecedentes podia-se compreender como a conduta regressiva da paciente. Quanto à mãe. J.

chegou-se ao diagnóstico de histeria de conversão.). com as quais estava energicamente . O fato de que se manifestavam prefe­ rentemente às segundas-feiras explicar-se-ia pela intensificação de suas fantasias sexuais durante os fins de semana e/ou imediata­ mente depois. por serem os dias mais propícios para os encontros com finalidades sexuais. nos quais aparecia ela mesma sendo objeto de cunnilineuae: os vômitos poderiam significar basicamente rejeição da incorporação do pênis. Hipótese psicodinâniica inicial. etc.havia operado em J. Por sua vez. O psicodiagnóstico mostrou principalmente elementos da série histérica. e por seus pró­ prios sonhos. relacionar-se-iam com desejos orais reprimidos. que incrementou sua sintomatologia como expressão da rea­ tivação de antigos conflitos. a julgar por seus comentários acerca dessas práticas sexuais por parte de amigas suas que lhe contavam suas experiências. revelou transtornos na identidade sexual e marcadas tendências homossexuais latentes. Outros dados diagnósticos se mencionam ao fazer referência ao prognóstico do tratamento. como um fator traumá­ tico.reativameníe .em desacordo. numa personalidade que mostrava os traços típicos do caráter corres­ pondente (necessidade de ser o centro das atenções. Além disso. sobretudo áe fellatio. à qual me remeterei em seguida. sedução. fantasias.232 Avaliação diagnostica Psicoterapia breve de orientação psicanalitica Através dos dados obtidos nas entrevistas e dos testes psico­ lógicos. b) seu obsessivo temor de ser esté­ ril e sua gravidez psicogênica. . a ruptura de sua relação de casal . Os vômitos podiam estar vinculados a seus frustrantes desejos de engravidar se levarmos em conta: a) que sào comuns nas gestantes. ten­ dência à teatralização.por decisão de seu companheiro . que seria ratificada e ampliada durante o tratamento e que incluía uma hipótese acerca da confli­ tiva focal. Conflitiva focal As descobertas recolhidas permitiram esboçar uma formula­ ção psicodinâmica prematura. Sem dúvida.

e de comum acordo com a paciente. já que apresentava um ego relativamente forte. Clarificar o conflito atual (significação da ruptura da rela­ ção de casal e dos sintomas a ela relacionados). esquivando-se da responsabilidade e refugiando-se nâ. Conseguir uma melhoria em seus vínculos interpessoais (considerando especialmente seus desejos de formar um par). o antecedente de haver sido amamentada com mamadeira até os 6 anos). detectaram-se fantasias homossexuais rela­ cionadas à figura materna. A paciente negava seus víncu[os regressivos e sustentava que éra sua mãe quem se empenhava em não deixá-la só. estabeleceram-se os seguintes objetivos terapêuticos: 1. Mantinha com a mãe um vínculo simbióti­ co. Metas terapêuticas Por ordem de prioridade. a paciente buscou consolo e refugio em sua mãe através de uma regressão oral. Os vômitos lhe permitiam além disso faltar £o trabalho. Isso se revelava na presença constante de sua progenitora. Prognóstico Considerou-se que a paciente estava apta para obter benefí­ cios de uma psicoterapia interpretativa de tempo e objetivos limi­ tados. Por outro lado. 3. Em síntese: a perda de seu companheiro havia exacerbado ainda mais seus desejos insatisfeitos e com isso seus vômitos. ante a frustração. 2. com fun- . além disso. resultava claro que os mesmos se associavam a uma acentuada tendência regressiva. fantasia re­ gressiva.Dos tratamentos breves __________ ______ Era muito ostensiva uma fixação oral da libido (existia. que a acompanhava desde as primeiras entrevistas. temerosa do que lhe pudesse su­ ceder. Obter o alívio ou a cura sintomática. Considerando a repercussão dos vômitos sobre seu ambien­ te.

pudesse reconhecer a conexão entre seus sintomas conversivos e sua vida emocional. para ver em que grau a paciente as aceitaria. a possibilidade de determinar um foco e objetivos claros foi outro elemento que permitiu formular um bom prognóstico. motivada. quer dizer.sobretudo “extratransferenciais” . embora cautelosa. A duração do tratamento foi fixada em três meses. A isso se acrescentava que nos encontrávamos ante uma pessoa jovem. com certa capacidade de autoobscrvação11. Por último. A tarefa terapêutica centrar-se-ia em investigar a relação entre os sintomas mencionados e suas inibições sexuais (dificul­ dades para formar um par. graças ao “momento propício” que atravessava (2). De início efetuar-se-iam interpretações “de ensaio” ( 1). Levou-se cm conta a possibilidade de apelar para a utilização seletiva do método da associação livre. . realizar-se-ia um trabalho de inter­ pretação ativa. Quanto à estratégia terapêutica. aprofundar-se no foco. Logo. Posteriormente talvez fosse possível aprofimdar-se mais nos psicodinamismos subjacentes aos sintomas. como sempre. para realizar uma psicoterapia. à razão de duas sessões semanais de 30 minutos cada uma. frigidez). * Planificação do tratamento Considerou-se conveniente apelar para assinalamentos e interpretações .234 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica çòes em grande parte conservadas. Considerou-se que não era conveniente intentar a aborda­ gem e a interpretação de suas fantasias homossexuais latentes numa psicoterapia de tempo limitado. um trabalho relacionado com as ansiedades provocadas pela se­ paração. se possível. do conflito. medianamente inteligen­ te. A parte final do tratamento deveria incluir. pensou-se que um primeiro avanço dar-se-ia ao se conseguir que J.ao operar sobre a conflitiva central do tratamento.

de características sádicas. entregando-se em tfoca ajogos sexuais. de aniquilar todo homem rival. desfrutávamos'* juntas a sessão. a cena da morte de seu irmão encobria o complexo edípico. Pensou-se que tal­ vez não fosse necessário . uma significação agressiva intensa c em conseqüência muito persecu­ tória. isto é. Mas além disso.” Compreendi que essa situação revelada por J. recordou algo muito importante que relatou como se segue: “Eu estava no cinema com mamãe. em seu inconsciente. não havia auxiliado seu irmão.como evidenciou com clareza outro sonho seu adquirindo. para seu amor homossexual possessivo pela mãe.Dos tratamentos breves ________ _________ Evolução durante o tratamento Logo nas primeiras sessões. A respeito. por seus desejos ocultos de livrar-se dele. Freqüentemente tinha pesadelos cujo conteúdo se vin­ culava ao acontecimento no qual aquele havia perdido a vida (eram freqüentes sonhos sobre inundações). que a repulsa de sua sexualidade correspondia em parte à identificação com a jovem que. todavia. seus dese­ jos homossexuais e simultaneamente seus desejos parricidas. com aquela jovem.nem prudente . nas quais evidenciou uma inten­ sa resistência. à morte de um terceiro . se tomou mais receptiva e começou a mostrar certa capacidade de insight.. como se o houvesse abandonado ao ocorrer a tragé­ . eroticamente carre­ gada. em es­ pecial da análise de seus sonhos.chegar a confrontar a paciente com estes aspectos de seu problema edípico para alcançar os objetivos propostos. Cabia inferir. razão pela qual se via obrigada a rejeitar seus impulsos sexuais. a morte de seu irmão vinha somar-se ao relato feito por esta de que haviam falecido seu primeiro marido e seu primeiro filho. A união sexual ficava assim muito intensanfpnte ligada. e por isso seus eventuais pares. representava por sua vez seu pai. para a paciente. Revclou-se decisiva influência da morte do irmào em seu so­ frimento. sobretudo mediante vômitos. J. quando nos vieram avisar que meu irmão havia morrido. segundo ela. O terceiro. o qual reforça­ va as fantasias onipotentes de J. com predomínio do negativo. J. sofria de intensos sentimentos de culpa ante a perda de seu irmão: fazia-se censuras. havia facilitado além disso a já mencionada identificação. seu irmão. Na realidade. J.

a repulsa desses dese­ jos e o castigo por eles16. uma oferenda a sua mãe. Agora tinha-a quase que só para si. implicava ao mesmo tempo a perda de suas possibilidades de reparação. ao significar a possibilidade biológi­ ca de procriar. além disso. dada sua rivalidade por conquistar a preferência de seus pais. situação vinculada ao desejo de ter um coito anal. pôde-se precisar e interpretar-se que seus vômitos se relacionavam principalmente com: a) Fantasias inconscientes de gravidez. que só desejava ter um varãozinho c que não podia explicar por quê. mortificava-se pensando que devia ter feito algo para salválo. por exemplo: “Ele era melhor como pessoa e como filho e podia ter dado mais satisfações que eu.” A aparição dos vômitos coincidentes com a primeira menstruação poderia ser explicada provavelmente pela influência desta última como estímulo. Dizia. nas quais ao desejo de possuir um menino como substituto do pênis se agregava um intento reparador em relação à morte de seu irmão.. Seu filho constituiria.. Essa descoberta significou um novo aprofundamento na compreensão focal. Na realidade tinha tido uma relação muito ambivalente com ele. ao ver-se impedida de procriar. A esta altura. b) Fortes desejos oral-sádicos (fantasias de fellatio ) reprimi­ dos. em síntese. Existia uma intensa idealização da figura do irmão. entre outras coisas. em especial de sua progenitora. no qual havia projetado seu pró­ prio sadismo.236 Psicolcrapia breve de orientação psicanaiítica dia. supervalorizada. Comentava. Os vômitos significavam. com o intuito de aplacar o perseguidor. A paciente havia conseguido que toda vez que tivesse vômitos lhe aplicassem injeções de um tranqüilizante nas náde­ gas. c) A busca da satisfação de desejos ligados a outras pulsões parciais. .” Durante o tratamento pôde manifestar que os desejos de ter um filho se relacionavam com um desejo reparatório inconsciente em direção a seu irmão. A perda de seu par. como se com ela quisesse expressar-lhe: “Aqui tens um varão em troca daquele que eu matei. Esses aspectos de seu conflito foram mostrados à paciente. Os vômitos cediam quase instantaneamente ao receber a injeção (sugestão). por sua vez. vivendo inconscientemente essa situação como uma violentação.

por causa de uma suposta apendicite. um tanto intempestivamente. Havia assim satisfeito seu masoquismo erógeno.de gravidez (havia além disso outra prova suficiente para demonstrar a J. anos atrás. eu mesma creio em minhas mentiras. o que refor­ çava ainda mais seus sintomas. já que os cirurgiões. Às vezes. J. Tenho muita imaginação”). A transferência hostil estava ligada a seus sentimentos de inveja fálica. durante a operação. A intensi­ dade das náuseas e dos vômitos diminuiu com rapidez pouco .Dos tratamentos breves 237 A esse respeito existia o antecedente de ter sofrido uma ope­ ração cirúrgica. o que re­ sultou muito útil para a compreensão de sua problemática.. o que foi interpretado. a fim de que pudesse reconhecer a existência de uma situação persecutória na relação terapêutica. Também nessa fase da terapia assinala­ ram-se suas tendências opostas de dependência e independência com respeito à figura materna. tal como o atestavam os testes projetivos. imagino que saio com um rapaz e o conto como certo. não en­ contraram nenhuma alteração no apêndice e cm nenhum outro lu­ gar. Por exemplo. Re­ conheceu então seus desejos . aceitando que estas influíam na produção dos sintomas (havia dito que com freqüência vivia em parte como reais suas próprias fantasias diurnas: “Quando minto. como fator gerador de resistências. J. também era importante. que não houve. Para vencer essas resistências foi necessário utilizar interpretações “transferenciais”. relatou fantasias e sonhos durante o tratamento. A evolução de seus sintomas foi muito favorável. sentimentos in­ crementados pela existência de uma imagem supervalorizada de seu irmão no seio familiar. se tornava resisten­ te e até hostil. Começou tomando consciência da relação entre seus vômi­ tos e suas fantasias. da qual foi conseguindo um insight progressivo. enquanto experimentava seus próprios desejos sexuais como proibidos*e perigosos.. seu ressentimento por ter de me revelar os segredos de sua sexualidade. Dali vimos que deveria refugiar-se na fan­ tasia onipotente de gravidez ante a perda de sua relação de casal e das ilusões a ela ligadas. o poder de suas fantasias: a gravidez psicogênica). d) A obtenção de evidentes ganhos secundários. e) A necessidade de provocar repulsa em seus pretendentes.

No segundo mês de tratamento. Pudemos ver que a significação in­ consciente desses pensamentos era a seguinte: o terçol se achava associado a fantasias de coito. proeminente. Na sessão.de um terçol17. ainda que muito atenuada.numa segunda-feira . os dedos c a lapiseira eram símbolos fálicos e penetravam em um orifício representado pelo orifício orbital. o que me fez pensar que pudesse ser um efeito da suges­ tão (cura transferencial). por deslocamento e como sintoma substitutivo de suas náuseas e vômitos. durante o tratamento. presumidamente substituídos pela aparição . diga-se de pas­ . conseqüência do anterior. o que havia acontecido durante o fim de sema­ na) visitou-a em sua casa um ex-noivo seu. Ao lhe pedir associações sobre fcstc. cederam. Não foi necessário recorrer a nenhuma medicação. Esses sintomas. respondeu-me que devia ser conseqüência de ter introduzido “os dedos sujos ou uma lapiseira no olho”.°) no dia seguinte a um domingo em que foi ao cinema. isto é. de caráter proibi­ do para a paciente (alusão do sexual como algo “sujo”. Isto é. particular­ mente à analidade. a fantasia da paciente da gênese do terçol representava a união sexual. o fato mais notável foi o desaparecimento das náuseas e dos vômitos histéricos. O terçol apare­ cia. Acrescentou que lhe parecia muito estranho que em troca dc seus vômitos tivesse que sofrer nessa segundafeira de um doloroso terçol. Só em duas ocasiões ambas em segundas-feiras . agora na qualidade dc amigo. como uma nova expressão na área do corpo de suas fanta­ sias dc gravidez.reapare­ ceu. um bebê de poucos meses.23H Psicoterapia breve de orientaçãopsicanalitica depois de iniciado o tratamento e praticamente ao completar-se o primeiro mês. pois se reduziu a um estado de náusea. então. exercen­ do um papel ativo. sua sintomatologia habitual. e 2. c o terçol. Isso suce­ deu: IP) quando no dia anterior (sempre lhe perguntava. sobretudo anais. comprovando assim sua tendência a expressar suas fantasias através de transtor­ nos corporais"*). um significado anal inconsciente). através de sua referência a dedos sujos. a própria gravidez. com significado idêntico ao desses sintomas. diante do assombro da paciente. es­ sencialmente. com sua esposa efilho. o olho tinha aqui. J. associou a subs­ tituição das náuseas e dos vômitos por um terçol com as manifes­ tações de uma gravidez (o terçol como volume.

Ela presenciava a cena sem poder evitá-la. estimulados. que finalmente a fazem objeto de um brutal estupro por via anal. mas também de modo paralelo e constante a existência de sentimentos carinhosos e de autênticos desejos reparatórios. Começou a encontrar-se com jovens sem ter vômitos e evidenciando de modo . nessas circunstâncias. não só seus impulsos agressivos e sua inveja fálica para com seu irmão. Neste. Contou-me depois a forte impressão que lhe haviam produzido certas cenas do filme. Já durante a proje­ ção do filme J. tratando de assinalar. A relação entre seus desejos de gravidez e a dor patológi­ ca pela morte de seu irmão.Dos tratamentos breves 239 sagem com sua mãe. Este é um dos meios de manejar a regressão. Pôde accitar que seus sintomas expressavam seu sentimento reafivo de repugnân­ cia por tais desejos e ao mesmo tempo a busca inconsciente de sua satisfação (injeções).uma jovem. senão os vários aspectos em jogo” (10). tal o título em castelhano um filme que inclui cenas de muita violência . TTSuas dificuldades nas relações interpessoais. cui­ dando de mencionar sempre o componente do amor. Na realida­ de. de traços histéricos. a innà representava ela mesma. Convencido de que a elaboração de luto permaneceria inconcluída. personalidade. Em seus pesadelos freqüentemente aparecia sua irmã afbgando-se. ao longo de sessões que tiveram nela e cm mim profunda repercussão emocional. temerosa de sofrer retaliação. fatos foram muito úteis para mostrar-lhe novamente como suas náuseas e vômitos se relacionavam com seus desejos sexuais reprimidos. havia começado a sofrer de um estado de náusea. seguindo nisto Szpilka e Knobel quando sugerem que as intervenções em psicoterapia breve não se dirigem a mostrar “um so dos agentes de. Desde a metade do segundo mês até o final do tratamento abordaram-se especialmente: 1. Esses. derivadas da mobilização afetiva ocasionada. “Los perros de paja”. o castigo pelos desejos de morte em relação ao irmão19. A delicada e difícil tarefa de encarar esse problema da pa­ ciente se efetuou. provoca sexualmente um grupo de homens. procurei atenuar as ansiedades persecutórias e a regressão conseqüente. no breve tempo disponí­ vel. esse fato ficava associado à morte de seu irmào pelo já visto anteriormente.

) e assim foi-se aprofundando o foco. Isso era conseqüência de uma confiança na relação comigo. Em suma. etc. racionalizadas com argumentos pouco consistentes e cujo provável significado seria o de tentar inverter os papéis e aparecer como ela abandonando o tratamento antes de se sentir abandona­ da. Não se encarou a fundo o complexo de Édipo positivo e negativo. o que co-determinava suas próprias inibições sexuais. Mostrei-lhe como os ganhos secundários de seus sintomas podiam interferir na sua cura (cabe mencionar aqui que a partir do segundo mês de tratamento a paciente já comparecia sozinha às sessões). J. o que parecia mais com­ plicado ainda neste tratamento de tempo limitado (se bem que o luto patológico não ficasse atrás em extremo nesse sentido. pois seus vômitos a haviam feito sofrer durante muitos anos.. registrou suas únicas ausências nas duas sessões finais do trata­ mento. por isso foi necessário “deixar passar” material que era tentador inter­ pretar). ao qual não se associaram maiores dificuldades (penso que isso foi possível porque desde o primeiro momento tratei de estimular em J. com critério prospectivo). o sexual como algo detestável.. Por outro lado. Existia ao que parece certo grau de identificação melancólica com sua pro­ genitora. seus sentimentos de culpa e seus desejos de reparação. em certa oportunidade mencionou que sua mãe lhe havia con­ fiado que desde a trágica morte de seu irmão apresentava uma mar­ cada inibição de sua atividade sexual.”. com uma diminuição de suas ansiedades paranóicas. “Não sei disse-me a pacien­ te -se foi ela quem ‘me passou’ ou nào alguns traumas.240 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica geral progressos no trato com eles. As interpretações foram centrandose nesse ponto (a rivalidade com seu irmão. Mostrava-se muito grata a mim. salvo que J. Realizei certo trabalho interpretativo em torno da separação. sua iniciativa pessoal. . A esta altura fez-se ainda mais notória a incidência do luto pela perda do irmão em sua problemática sexual: trazia sonhos cujo denominador comum era o desejo de dar à luz um varào. chegou-se a obter uma certa clarificação de sua problemática e do significado de seus sintomas com relação ao luto pela morte de seu irmão. trazia com menos temor seus problemas sexuais. Depois compareceu às entrevistas de avaliação.

da mesma maneira que a depressão. Outras modificações geradas pela terapia em torno de questões tais como o trabalho foram de importância secundária ou não ocorre­ ram.dos motivos determinantes de seus proble­ mas atuais e que dia após dia podia manejá-los melhor. O reteste também evidenciou uma evolução favorável: repa­ ração da figura masculina e tentativas de sublimação de seus de­ sejos orais. que no entanto pareciam já estar a caminho de serem superadas. ..” Concordamos que havia alcançado em boa medida com­ preensão . se despediu de nós sem que combinássemos novos encontros para o futuro. a paciente opinou acerca do tratamento: “Foi bastante positivo. já sabend© quais são meus problemas. Superei muitas coi­ sas. J. mostrando-se muito agradecida pelo que havíamos feito por ela.. A melhora sintomática era muito ostensiva no que se referia aos sintomas positivos de sua neurose. os vômitos das segundas-feiras. certamente podem ficar muitas coisas que eu mesma posso superar pouco a pouco. Ainda que tenham desaparecido reações impróprias (os vômitos). Nesse sentido.insight . manifestou confiança em poder formar um novo par e gozar se­ xualmente. As náuseas e os vômitos haviam desaparecido. J. persistiam dificuldades em suas relaçõ. No to­ cante a suas inibições. A terapia produziu além disso outras modificações favoráveis em suas relações interpes­ soais. a melhora foi menos notável. Transcorrida a etapa avaliativa. Via-se menos ligada à mãe e com desejos de aproveitar seu tempo livre integrando-se a grupos de ambos os sexos. Claro que voltarei a consultar-me se necessário.Dos tratamentos breves _____________ 1 Avaliação dos resultados terapêuticos Avaliação imediata Nas entrevistas de avaliação imediata. como no concernente a uma eventual elaboração de projetos pessoais.es com os homens. Havia-se elevado sua auto-estima.

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Avaliação mediata
Cerca de três anos depois e após grandes esforços para locali­ zá-la, pois se havia mudado com seus pais, consegui encontrá-la. Desloquei-me até seu domicílio, já que J. nào tinha telefone. Recebeu-me sua mãe (J. nào se encontrava ali no momento), que se alegrou de me ver. Pcdi-lhe que dissesse a J. que tratasse de se comunicar comigo e aproveitei a ocasião, além disso, para obter sua impressão sobre o estado da jovem. Contou-me que a seu ver havia mudado notoriamente a partir do tratamento efetuado; mos­ trava-se otimista e ativa de modo estável, havia conseguido um novo emprego, mais bem remunerado, e um companheiro, e nunca mais havia apresentado episódio de vômitos. Para ela prosseguiu comentando - “o problema” de J. fora sempre o de seu irmão fale­ cido. Finalmente acrescentou que desde algumas semanas J. pen­ sava em falar comigo para que atendesse uma amiga sua. A paciente me ligou quando recebeu meu recado e pudemos marcar uma entrevista de acompanhamento. A maior parte das declarações de J. e das conclusões que se podem extrair de tal en­ trevista sào dignas de serem expostas com certo detalhe, pois con­ sidero que ilustram adequadamente a eficácia e o alcance que o procedimento terapêutico aplicado parece ter atingido. Encontrei J. sorridente e de excelente aspecto. Seus gestos me pareceram mais sóbrios, menos teatrais. Não havia recebido nenhum outro tratamento psicológico após ter terminado o efetuado comigo. Com grande satisfação, expressou: “Desapareceu uma série de problemas que eu tinha. Nào tive mais problemas de vômitos e tive uma mudança radical em tudo: estou noiva, vou muito bem com ele, mudei de trabalho, me sinto bem. O tratamento foi difí­ cil para mim. Rçcordo que, às vezes, rejeitava muito você. Até tinha bronca de você. Agora entendo que era pelas coisas que me fazia ver.” J. me falou de seu parceiro, com quem se relacionava há dois anos. “E muito centrado, tem 28 anos (J. tinha 23 na época da entrevista), é engenheiro, estamos próximos do casamento, talvez dentro de uns meses, no fim do ano... Nos completamos em ques­ tão de temperamento. Meu temperamento está mudado, estou

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mais alegre, brinco, gosto não só da companhia do meu noivo, mas também de sair em grupo. Antes tratava de ficar só, não tinha desejos de sair e nem de me arrumar.” No que se refere à atividade sexual, J. assegurou que tinha relações sexuais satisfatórias com seu parceiro e que quase sempre conseguia o orgasmo. “Antes continuou - não era feliz sexualmente, sentia-me usada, o sexo era algo asqueroso para mim... Não rejeitei meu noivo em nenhum momento. E não comentei nada de minha outra relação (alude a seu parceiro anterior). Não acho necessário.”2 0Mais adiante conti­ nuou se referindo à sua sexualidade: “Creio que tenho mudado muito minhas idéias sobre sexo... Com ele temos bastante liberda­ de sexual, conseguida pouco a pouco... Eu antes não tinha podido mostrar-me desnuda diante de um homem, com a luz acesa. Ago­ ra, pelo contrário, considero normal.” Toma-se indubitável que ao longo do tempo depois do trata­ mento, J. havia vencido em grande parte suas inibições sexuais, havendo formado um par, com o qual aparentemente se achava muito ajustada, e superado sua frigidez. Foi, isso sim, necessário que passasse certo tempo para que pudessem cumprir-se esse objetivos terapêuticos e comprovàr-se assim os frutos do trabalho desenvolvido, segundo o relato da paciente e o de sua mãe. Manifestou desejos de casar-se logo para poder ter filhos. Enquanto isso recorria a anticonceptivos orais. “Apesar de meus desejos de ter filhos, não me esqueço de tomá-los”, comentou sorrindo. J. queria sem dúvida fazer-me notar que tinha presente aquilo que havíamos explorado durante sua terapia e que além disso estava muito atenta no que se referia a tomar as precauções devidas, a partir da profunda convicção - obtida mediante o trata­ mento - que tinha a respeito da força de seus desejos inconscien­ tes. Não havia tido abortos. Quanto às relações com seus familiares, contou-mc que se sentia muito bem com seus pais, e ao mesmo tempo muito mais independente. Como havia comparecido à entrevista com sua mãe, iinportou-lhe esclarecer-me que esta havia insistido tanto cm acompanhá-la que lhe parecera absurdo negá-lo, mas que na ver­ dade sentia que isso não era necessário em nada, diferentemente do que sucedia antes, quando ela mesma requeria a companhia e os

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cuidados de sua progenitora, chamando de algum modo a atenção para isso. “A relação com minha mamãe - continuou a me contar J. mudou muito, ao menos de minha parte. Agora compro sozinha minha roupa... Antes, tenho certeza, não teria podido casar e viver longe dela. Agora tenho propostas para viver com meu futuro marido na província e não vejo inconvenientes.” A paciente atri­ buiu ao tratamento efetuado uma decisiva influência nas modifica­ ções que a relação com sua mãe apresentava21. Do mesmo modo, J. havia sido antes muito dependente em relação à irmã, com a qual agora - segundo ela - se vinculava mais, “de igual para igual”, sem ajustar-se incondicionalmente às opiniões dela, aceitando-as como tais, mas desenvolvendo pontos de vista. Havia interrompido seus estudos de modelo publicitário, devido ao fato de que os encarregados de dar-lhe trabalho tacita­ mente lhe impunham como condiçào que mantivesse relações se­ xuais com eles. Isso se repetiu em duas ou três oportunidades, razão pela qual decidiu abandonar definitivamente esse campo. Referiu-me que sempre se sentira atraída pela arte cênica, mas que no momento não pensava em estudar teatro, já que o que lhe interessava era concretizar com brevidade seus planos de contrair matrimônio e nesse sentido voltava-se com afinco para seu traba­ lho numa empresa distribuidora de peças para automóveis, onde obtinha um salário superior ao de seu emprego anterior e ainda tinha possibilidade de melhorar seus ganhos muito mais. Espontaneamente comentou que, em função de uma bron­ quite que contraíra, deixara de fumar. Pôde consegui-lo contro­ lando a ansiedade derivada de tal abstinência, fato que a seu ver cra um efeito da terapia, ainda que não pudesse precisar melhor de que maneira esta a havia ajudado nesse problema. Depois referiu-se a seus estados depressivos, que já haviam deixado de acontecer. Dc imediato aludiu à recordação de seu ir­ mão falecido: “Não penso tanto nele. Inclusive, antes desejava ter um varão ruivo como meu irmão. Agora não. Quero que se pareça com meu noivo e comigo... Quando nos mudarmos, não quero mais pendurar fotografias de familiares mortos, como meu irmão, meus tios...” Isso podia indicar certa atenuação da culpa pela morte do irmão, o que lhe permitia um maior desprendimento do objeto per­ dido, podendo dedicar-se mais a seus próprios desejos pessoais.

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Queria enviar-me uma companheira de trabalho, para que tratasse dela, o que constituía uma manifestação a mais de sua confiança em mim. Quase no final da entrevista, após haver-lhe transmitido minhas impressões ao longo da mesma, expressei-lhe minha sa­ tisfação de encontrá-la bem e com tão gratas novidades, reiteran­ do que contasse comigo para qualquer necessidade, depois do que nos despedimos, não sem que J. tivesse palavras de emocionado agradecimento para comigo. Desde esse momento não voltei a ter notícias dela. Finalmente, ao se registrarem nessa oportunidade resultados positivos em I.P.F. (insight da problemática focal), R.P.F. (resolu­ ção - clínica total da problemática focal, pof substituição das reações impróprias pelas apropriadas, em suas rèlações heterosse­ xuais) e M.S. (melhoria sintomática), o resultado final, de acordo com o sistema de avaliação proposto no capítulo 11 , considera-se muito favorável.
Considerações finais

Este caso convida à reflexão em torno de vários pontos. Sem dúvida é polêmico e penso que constitui uma mostra fiel das múl­ tiplas interrogações que se apresentam na prática dessas terapias a respeito da teoria da técnica. Tais questões devem servir de estí­ mulo para discutirmos e investigarmos propostas que resultem úteis e que conduzam a linhas de trabalho fundamentadas dinami­ camente. Também é interessante o problema que levanta com relação aos resultados terapêuticos. y 1 . O uso flexível e seletivo do método da associação livre rende seu frutos ao aplicar-se em quem conta com possibilidades reais de responder de um modo favorável (aqui pôde-se utilizá-lo com êxito, por exemplo, a propósito dos sonhos da paciente e da aparição do terçol). — /'2. Podemos observar neste caso a evolução do foco durante o tratamento, quando a compreensão dos dinamismos da conflitiva focal vai-se enriquecendo e se aclarando como conseqüência de descobertas progressivas. É possível uma maior definição do jogo

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de inter-relações entre os diversos fatores. O aprofundamento no foco revela a sobredcterminaçào dos sintomas e é facilitado pelas condições da paciente para se remeter ao material focal e obter insight desses conflitos22. 3. Se bem que aqui tenha-me aventurado de novo num traba­ lho interpretativo de certo modo profundo, com incursão em aspectos históricos infantis - já que penetrar na relação que a paciente mantinha com o irmão e no luto patológico que sobre­ vêm a essa perda, ocorrida em plena infância dela, não supõe ou­ tra coisa não me afastei da conflitiva focal. As interpretações que incluíam aspectos históricos infantis eram, repito, sempre focalizadas, possibilitando assim o aprofundamento do foco. Se tivessem estado ‘‘fora de foco”, isso teria implicado o risco de “abrir feridas” desnecessárias, provocando uma maior mobiliza­ ção na paciente, relacionada com conflitos que não poderíamos abarcar o suficiente durante o tratamento. — 7 4. No que se refere aos problemas suscitados pela presença de lutospatológicos de importância em tratamentos de curto pra­ zo, cabem aqui as considerações efetuadas em capítulos anterio­ res (ver os capítulos 10 e 12). Mas quero formular uma interroga­ ção que surge em seguida: se é conveniente, ou ainda necessário, incluir um luto dessa natureza, entre os aspectos a serem tratados com o paciente, no programa terapêutico de uma terapia de dura­ ção limitada (o qual coincide, nessa oportunidade, com o proble­ ma da atitude a ser assumida ante o histórico infantil). Neste caso particular, minha resposta é afirmativa. Incluir 0 luto era de certo modo algo inevitável, como fui compreendendo ao longo do pro­ cesso terapêutico, pois a meu ver constituía um problema de importância fundamental, que estava no próprio núcleo do sinto­ ma como conflito subjacente c que requeria abordagem, ainda que só pudesse ser efetuada de modo parcial. Cabe perguntar se o fato de não haver trabalhado desse modo teria produzido resultados similares aos obtidos quanto à remissão da sintomatologia, baseda em certo grau de insight a respeito do conflito central do trata­ mento, resultados esses que ficam corroborados no meu enten­ der- pelo acompanhamento efetuado anos depois. Uma vez convencidos de que devemos nos ocupar direta­ mente do luto. surge a necessidade de recolocar nossa modalida­

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de técnica ante esses problemas, adaptando-a ao enquadramento existente nesse tipo de terapia para evitar que elas se convertam numa psicanálise incompleta, com conseqüências previsíveis. Ao descrever este histórico expus a posição que adoto, partindo das propostas de Szpilka e Knobel (10). Esta inquietude leva não só a ajudar o paciente ao máximo, dentro das possibilidades institucionais. mas também a não preíudicá-lo com técnicas inadequadas. Até aqui refiro-me somente às necessidades e vantagens de incursionar na problemática do luto, mas desde já com a ressalva de cjue tal atitude contém os riscos próprios de uma tarefa terapêu­ tica escabrosa, que em termos ideais deveria ser tão prolongada quanto intensiva, e que em virtude da limitação temporal ficará forçosamente incompleta. A elaboração insuficiente do luto poderá acarretar o reaparecimento dos sintomas ou novas manifes­ tações do conflito (fato não comprovado nesta paciente após transcorridos cerca dc três anos do término do tratamento). Mas trata-se de um risco previsto, calculado. Para isso existem os acompanhamentos, que oferecerão oportunidade de detectar re­ caídas e de assinalar, quando a situação o requeira, a necessidade de retomo à psicoterapia. , - -Em TtPSsã~pãciente, pênso que os resultados obtidos com re­ lação à abordagem do luto enquistado não devem ser subestima­ dos. Creio que, na prática, ainda em terapias de objetivos limitados, nos problematizamos - e equivocamos - em demasia, quando, com nosso furor curandis, pretendemos conseguir uma elabora­ ção de conflitos fundamentais ou solucionar perturbações caracteropáticas que costumam levar muito mais tempo, habitualmente anos de trabalho esforçado. Nesta oportunidade poder-se-ia questionar e creio que com certa razão - a abordagem de um conflito ocasionado por um luto patológico num tratamento de três meses apenas. Colocando-nos sempre a alternativa de ter de fornecer uma terapia de tempo limi­ tado, como ocorre no contexto hospitalar, o que corresponde ao caso de que nos ocupamos (paciente de escassos recursos econô­ micos, em primeira experiência psicoterápica, que se consulta ao ser encaminhada e não por iniciativa própria, talvez necessitada de adquirir maior consciência da enfermidade e de aumentar sua motivação para considerar futuramente a opção de um tratamento

sua estabilidade e os novos progressos ao longo de quase três anos de evolução. incô­ modo e antigo sintoma. e que é de se destacar haver-se instaurado um ciclo prospectivo e uma adaptação produtiva à realidade.) . penso agora que o que talvez pudesse ter sido feito e resultasse conveniente seria fixar.e mais bem documentado . Que essas terapias sejam indefectivelmente “superficiais” constitui por certo um preconceito. Vemos que em nossa paciente. apesar de ter-se efetuado um tratamento apenas de três meses.248 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica prolongado). algo mais sobre os resultados obtidos. os resultados ultrapassaram a mera cura ou alívio de um. fanta­ sias pré-genitais inconscientes (em especial as de caráter oral e anal). razão pela qual foi possível interpretar. é bom recordar. Também em matéria de resultados terapêuticos das terapias breves existe um preconceito muito arraigado. o grau possível de aprofundamento interpretativo e de “insight” alcançado concomitantemente pode . Naturalmente faço referên­ cia a uma profundidade que se alcança somente em aspectos par­ ciais da conflitiva. (Lamentavelmente não se pôde contar com um novo reteste. que permitisse um estudo mais exaustivo . desde o começo. ainda que bastante firme do conflito. como se pôde apreciar ao longo deste histórico.sobre o caso. O acompanhamento permitiu descartar as temidas recaídas. numa magnitude a princípio inusual em minha experiência em psicoterapias de tempo limitado24. um tempo maior para a terapia23.ser significativo. Por último. permanecendo diversos conflitos sem serem desenvolvidos. A natureza da melhoria.em certas ocasiões .^ isso o que ocorreu com esta inteligente e flexívçl paciente (apesar de apresentar por momentos intensas manifestações resistenciais). após três anos de finalizado o tratamento. já que. e pareceu haver-se chegado a uma resolução dinamicamente parcial. nos dão neste caso a medida de que isso não é exato. diante de pacientes muito cooperativos e capacitados para o insight. por exemplo. As mudanças impressionam como tendo tido um alcance que cm alguns aspectos transcende os objetivos terapêuticos propostos. concretizados nos êxitos obtidos pela paciente nos anos que se seguiram ao tratamento. que consiste em crer que as mudanças produzidas são sempre “superficiais” e/ou transitórias.

Buenos Aires. 1948. 1932. Buenos Aires. Comunicación personal. A. “Análisis fragmentario de una histeria”. 119. S. Dewald. ob. Pontalis.. Szpilka. 2.. 10. Londres. A. “Acerca de la psicoterapia breve”. Small em Psicoterapias breves. F. Alexander. (Versão castelhana: La psicoterapia breve. em Papers on Psychoanalysis.. French.C. cap. citado por J. 7. 1950. O. 1971. Acta psiq. H. em S.Dos tratamentos breves 249 A experiência de investigadores como Dewald também pare­ ce demonstrar que é possível obter resultados terapêuticos muito bons. Toray. Biblioteca Nueva. cit. C. “La histeria: Historiales cínicos”. Guiter. Charles Thomas. 1972. cap. Londres. R. Paidós. Granica. Lat. Centro Editor de América Latina. vol. J. Baillière. Picdimonte. Labor. Buenos Aires. junho 1968. 8. bem ‘prepa­ rados’ sensível e psicologicamente. em Diccionario de psicoanálisis. e Knobel. B. cm Coloquio Acta 1967: Psicoterapia Breve.. citado por L. podem bem produzir-se. VI. Freud.. Jones. Referências bibliográficas . Freud. Springfield. pode desenvolver-se um insight importante dos conflitos num contato terapêutico relativamente curto e que exerça um efeito terapêutico duradouro” (3). “Indicaciones para la terapia”. 1974. Courtenay. Barce­ lona.. A Study of Brief Psychotherapy. em S. Tavistock. “The Phallic Phase”. Apesar de esses resultados não serem habituais em psicoterapias breves. XVI11. Barcelona. Buenos Aires. P. 3. Illinois. E. Dewald. Tavistock. “Psicoanálisis y psicoterapia por ‘insight’ dirigido”. Madrid.. 1. M. 1963. tomol. 1972. Terapêutica psicoanalitica. a propósito do tratamento de J. cm'F.. M. Psicoterapia: un enfoque dinâmico. Malan.) 9. . Assinala este autor que “em alguns enfermos. XIV. tomo ü. Londres. 1968.. n? 2. Comunicación personal. 6. Laplanche e J. Amér. 1965. 5 . M.. cm P. como vimos nesta ocasião. . psicol. Freud. D.. em 4. p. Alexander e T. Sexual Discord in Marriage. 4.

4 .

acontece com freqüência num tratamento breve (ver capítulo 8. cabe assinalar a necessidade de que o terapeuta exerça um controle adequado sobre elas. é necessária uma rápida captação da problemática do paciente e cr conhecimento c manejo dos fenô­ menos transferenciais e contratransferenciais que abranjam as variações que no campo criam fatos tais como a conduta ativa do terapeuta ou a combinação dos diferentes recursos terapêuticos. Por esse motivo. especialmente em circunstâncias que para ele reproduzam a situação triangular.B. etc. Wolberg (5). Conhecimentos teóricos e prática psicanalíticos. É que.14. será de grande utilidade contar com suficiente experiência de análise pessoal. entre outros. pp. No que diz respeito às emoções contratransferenciais. como vimos.). reafirma isso de maneira concludente. De­ verá dominar tanto o sentimento de exclusão que possa experi­ mentar como os componentes de ciúme. 155 s.. o que. Formação de terapeutas em psicoterapia breve * Introdução Está fora de qualquer dúvida que uma preparação psicanalítica prévia adquire importância decisiva na formação em P. rivalidade. que o * Tradução de Rosa Maria Salmen Scaramuzzi. . nas quais pode chegar a colocar-se como o excluído. entre outras coisas.

252 Psicoterapiu breve de orientaçãopsicanalitica acompanhem. mas que no máximo coincide com o desenvolvimento dela. 155 ss.B. Aprendizagem teórica Ainda aceitando que na verdade seja difícil “fazer e aprender simultaneamente psicoterapia e psicanálise” (Joseph [2]) e em virtude de apresentar-se na maioria das vezes essa necessidade nas fases iniciais do caminho a ser percorrido por todo terapeuta iniciante. A seguir me ocuparei desses aspectos. Mas sabemos que na prática a realização dos trata­ mentos breves se assenta em boa parte em terapeutas novatos.B. pp.B.. o que também já foi assinalado (capítulo 8. que este se fixe no objetivo de conhecer com clareza as características principais que distinguem uma terapêutica da outra.B. considero que será melhor. De qualquer forma. consistirá na apren­ dizagem da teoria de sua técnica e no treinamento psieoterapêutico adequadamente supervisionado..). pois do contrário corre o risco de atuar nocivamen­ te. para não se abandonar a uma situação que o condene a transformar o trata­ mento breve numa “psicanálise breve’\/Para isso será mister estu­ dar conscienciosamente certos princípios essenciais da P. Finalmente. exporei um modelo de registro clínico que acredito pode servir de guia na prática e favorecer uma sistemati­ zação operativa da tarefa. pois os erros mais comuns na sua prática correspondem precisamente à extrapolação da técnica psicanalítica. para em seguida descrever alguns dos requisitos ou con­ dições que me parecem importantes para ser um bom terapeuta em P. a formação do terapeuta em P. e que o treinamento deles em tais tratamentos não costuma ser pre­ cedido de uma sólida formação psicanalitica. como primeira medida. já que podem contar. cumprida previamente ou não a etapa psicanalitica./É claro que tal pretensão exige a existência de fundamentos teóricos definidos em P. dentre as muitas vantagens em comparação com um tera­ peuta principiante. com uma boa elaboração de seus próprios con­ flitos básicos. A partir daí deduz-se que são os psicanalistas experientes que estão em melhores condições de exercer a P.B. © que seria ideal. Fiorini assinalou a influência negativa que a carência de uma .

rever de início. com certa facilidade. são fatos que provocam exigên­ cias nos profissionais. É possível que assim seja. seriam então: partir de embasamentos teóricos sólidos (por exemplo e fundamentalmen­ te os fofnecidos pela psicanálise) e expor um método que apresen­ te coerência suficiente. centros de saúde mental. no sentido de conseguir deles uma boa disposição para a aprendizagem do tema.. tenho experimentado quase sempre a necessidade dc incluir ini­ cialmente nos grupos um trabalho que chamaria de/“abrandamento" dos colegas. já que sobre o mesmo abundam preconceitos de todo tipo.B.B. instituições privadas). e que em grande parte essa carcncia. oportuni­ dades para o exercício desse método terapêutico.à qual também se refere acertadamente Fiorini (1) que com freqüência colocam hipóteses incon­ ciliáveis entre si e que também freqüentemente se fundamentam em esquemas referenciais diferentes^Mguns requisitos a se levar especialmente em conta no ensino da P. ao longo de meu trabalho como docente em P. posto que ainda significa para muitos o debut como psicoterapeutas. Além disso. cuja aplica­ ção é factível e/ou recomendável cm não poucos casos que se apre­ sentam nos consultórios privados. constitua mais que tudo o produto da falta de coerência nas contribuições . a meu ver. propósitos cuja concretização encerra uma árdua tarefa que ainda não terminou de se cristalizar. e que é a que pode fornecer a orientação e o respaldo necessáriq para evitar que os jovens profissionais caiam no desânimo e na descrença.Formação de terapeutas em psicoterapia breve 253 identidade teórica por parte da P.B. entào. . assim como o reconhecimento da terapia focal como técnica. so­ bretudo porque se continua insistindo equivocadamente em de­ frontar a P.B. Mas não é menos certo que também estimulam e oferecem por sua vez. como se se tratasse de dois proce­ dimentos antagônicos. com a psicanálise. que convém. (1) exerce na formação dos terapeutas./ Treinamento psicoterapêutico As necessidades atuais de recorrer a esses procedimentos pa­ ra oferecer atenção psiquiátrica à numerosa população que recorra aos diversos estabelecimentos assistenciais (serviços psiquiátricos hospitalares.

para os terapeutas. etc/Quer dizer. nos supervisionados. incluindo-os como tema que é necessário tratar._Psicoterapia breve de orientaçãopsicanalítica Supervisão clínica / Preferencialmente. pres­ tará especial atenção aos problemas imediatos da realidade externa do paciente e aos que poderão derivar da dissolução do vínculo terapêutico. Costumam apresentar problemas de adequação ao contexto institucional e reforçam./ Todavia comprovam-sc comumente dificuldades dos superviso­ res nos tratamentos hospitalares que. por carecerem de experiên­ cia de campo e partirem exclusivamente da experiência obtida no âmbito de seus consultórios particulares..^ Algumas condições necessárias para um terapeuta em psicoterapias breves Mencionarei apenas aquelas que me parecem fundamentais (supõe-se que tanto uma boa análise pessoal como o conhecimen­ to e o treinamento em psicanálise poderão. . atitudes “passivas” do terapeuta. além das que correntemente se lhe apresentam. a supervisão deverá enfatizar a elaboração de uma história clínica minuciosa. a tendência à extrapolação da técnica psicanalítica. com deficiências tais como não corrigir . em maior ou menor medida. / / Por outro lado. o estabe­ lecimento de objetivos terapêuticos e o planejamento. Capacidade para estabelecer prontamente um bom rapport com o paciente (Knobel [3]).e ainda fomentar o emprego exagerado de interpretações transferenciais. mostram-se rigidamente vinculados à técnica analítica ortodoxa. Do mesmo modo deverá ajudar a detectar o ponto de urgência nas sessões e estimular a assunção de um papel ativo por parte do terapeuta. uma função elementar do supervisor. será a de assinalar. a delimitação de um foco. Fi­ nalmente deverá propor a realização sistemática de avaliações. deverá estar a cargo de profissionais ex­ perientes tanto em terapias prolongadas como em terapias focais. as contradições técnicas em que possam incorrer. contribuir para a obtenção dessas condições): X 1.

.. I d) Suportar sem excessivas dificuldades a separação dos pacientes......................................... Nacionalidade:.... Data de admissão:............ Nome e sobrenome: ....... FICFIA CLÍNICA PARA PSICOTERAPIAS BREVES Local (serviço.................................................................. Certa elaboração da conílítiva cdípica que lhe permita um manejo «das situações triangulares.................... Idade:..... Suficiente tolerância à frustração para: < / a) Conformar-se com o ganho de objetivos |erapêuticos li| mitados............ Telefone:....................................................... No que diz respeito a seus conflitos pessoais: X 5.... centro de saúde mental... O cupação:............................................................. X3.........................Sexo: ...................................... X 6........................... ...Residência: ............................. Flexibilidade livre de preconceitos..... J b) Renunciar às gratificações especiais proporcionadas 1 pela relação analista-paciente (ver capítulo 8)...................... Capacidade para desempenhar um papel ativo no processo terapêutico............. Capacidade para compreender a natureza dos problemas centrais do tratamento em breve espaço de tempo.. Escolaridade:........... / c) Resignar-se a não alcançar graus profUndos de investiI gaçào dos psicodi namismos de cada paciente................................................ e criatividade para exa­ minar e combinar os diferentes recursos terapêuticos que domine e dos quais disponha quando as circunstâncias o requeiram. nas quais possa sentir-se en­ volvido durante o tratamento...... instituição ou consultório privado):...................... Estado civil:.......... yC 4........Formação de lerapeiitas em psicoterapia breve 255 2.........

.............. Interessam especialmente: a) Funções egóicas básicas (percepção.... ....... b) Relações objetais... e) Mecanismos de defesa....... Dados biográficos de interesse (inclui antecedentes familiares e pessoais):.... ....)... b) Da enfermidade. c) Controle de impulsos........... f) Regulação da auto-estima...Grupo familiar: Diagnóstico e incidência .. atenção....25" Psicoterapia breve de orientação psicanalítica História clínica (resumo): Motivo da consulta (inclui descrição da situação-problema e dos fatores descncadeantes):... Avaliação diagnostica: Diagnóstico nosográfico-dinâmico: a) Do episódio........ memória.................. pensamento...................incluindo a que exerce o meio social do paciente na problemática. d) Tolerância à ansiedade e à frustração....................... etc..... c) Da personalidade.............. Inclui ainda: ....Avaliação das condições egóicas..................

. informações psicológicas (Testes: Bender............. í i Foco terapêutico...A......................... Rorscharch.................... T.. Grau de motivação para o tratamento e atitudes para o insight:....... Duração do tratamento: Prognóstico:.Formação de terapeutas em psicoterapia breve Isso nos conduzirá a uma avaliação da potência e plasticidade do ego.... Sua estrutura...............)...... Determinação dofoco: .. ..... Elementos mais importantes:... ................................. b) Secundárias:.......... .......................................... Phillipson............ Hipótesepsicodinâmica inicial:................................. etc.... Pontos de urgência ao começar o tratamento:.... .............................................. Metas terapêuticas: a) Primordiais:......T........................ Descrição:............. Casal...........

etc. Tipo de relação paciente-terapeuta: Recursos terapêuticos: Assinalamentos “Transferenciais” “ExtratransferenIntcrpretações ' ciais’ Das raízes infantis [ do conflito Perguntas Informações Insinuações Comentários Intervenções de reasseguramento Indicações Conselhos terapeuta (ativo. etc.) posição (frente a frente. b) De reforçamento egóico (predominantemente). etc. . ocupacional.25 # ____ Psicoterapia breve de orientação psicanalítica Planificação do tratamento: Psicoterapia: a) De insight (predominantemente). dirétivo.) Intervenções Psicoterapia individual verbal Uso optativo . Assistência social. etc.do método da associação livre Outros Psicofármacos Inclusão de familiares e/ou figuras próximas Técnicas dramáticas Terapia grupai.

das entrevistas de avaliação e do reteste (se houver):. evolu­ .. linhas interpretativas e tipo de interpretação. freqüência e periodicidade das sessões. eventuais modificações na freqüência das ses­ sões. principais pontos de urgência. con­ signar a utilização dos diferentes recursos terapêuticos. Evolução durante o tratamento: Evolução do foco. Contrato: Detalhes do contrato sobre metas terapêuticas. da motivação ou da resistência ao insighí. freqüência e periodicidade: Duração total do tratamento: Estratégia terapêutica ^ Conflitos a abordar e possível seqüência de tal ‘âbordagem. duração do tratamen­ to. assinalar o tipo de material que deverá ser descartado. data do término do tratamento..Formação de terapeutas em psicoíerapia breve 259 Sessões: duração. duração. funções egóicas a serem reforçadas... a tarefa em torno da separação ante o final do tratamento:. pos­ sibilidades do paciente de centrar-se no focal.

.260 Psicoterapia breve de orientação psicanalílica ção do estado do paciente...S.. mençào ao uso e aos efeitos de outros recursos terapêuticos.. evolução da relação terapêutica (a transferência e a contratransferência)..F....P. de traba­ lho.....) Estudos Trabalho Recreação ..) Melhoria sintomática (M..) Consciência da enfermidade Auto-estima Modificações favoráveis cm: Vida sexual Relações de casal Outras relações interpessoais (familiares.. etc....) Resolução da problemática focal (R...F.... de amizade.... o término:... Avaliação dos resultados terapêuticos: * 1) Avaliação imediata Impressões gerais do paciente acerca do tratamento Insight da problemática focal (l..P.......

.. Considerações finais Separação paciente .. Resultados. etc..............)............. psicoterapia de gru­ po.............. . 2 ) Avaliação mediata (acompanhamento) Insight da problemática focal (I. Recontrato (com objetivos limitados)......F....................................P........................... Objetivos Passagem a outros tratamentos: a) Com o mesmo terapeuta b) Com outro terapeuta Especificar o tipo de tratamento (psicanálise....Formação de terapeutas em psicoterapia breve 261 Projetos para o futuro1 Reteste..................... .................) D ............................................P...........terapeuta Ajustamento do acompanhamento................................ I* >.............. Datas de entrevistas de avalia­ ção e do reteste..................... Resolução da problemática focal (R.F.......).... í Total ea { Parcial ...........

S.P. fuga para a saúde. Sem modificações Recaídas2 Falsa solução valiosa (4) Falsa solução (4). de amizade. cura transferencial.) Consciência da enfermidade: Auto-estima: Modificações favoráveis cm: Vida sexual Relações de casal Outras relações interpessoais (familiares.) Estudos Trabalho Recreação Projetos para o fiituro: . de traba­ lho. evitação com ou sem recaída Agravamento Mecanismos Alcance Estabilidade Melhoria Sintomática (M. etc.262 Psicoterapia breve de orientaçãopsicanalitica Duvidosa Nào-R.F.

............. Joseph e outros......... Buenos Aires....Formação de terapeutas em psicoterapia breve 263 Novas situações conflitivas:.............. “Mesa redonda sobre psicoanálisis y psicoterapia”........ Outros tratamentos realizados:..... Nuevasperspectivas en salud mental..... Grimson (comp......... .............. R.. { Mecanismos Alcance Estabilidade ! Resultado Final3 Muito favorável Favorável Discreto Regular Nulo Desfavorável Considerações finais: Referências bibliográficas 1....... Nueva Vision... Fiorini... 2... 1973... tomo XXVIU........ “Problemática actual de las psicoterapias breves” em W... n? 1.... Resultados:.. Revista de Psicoanálisis. ..... Instituciones y problemas....................). Reteste. . J.. H...... Buenos Aires......... 1971...........

. Cuardemos de la SAPP1A Kargieman. 1971. 1968. H. “La técnica de la psicoterapia breve”. Wolberg. Knobel. Gredos. Madri. Springfield. 1974. Buenos Aires. (Versão castelhana: La psicoterapia breve.. M. em Psicoanàlisis y psicoterapia breve en niiîosy adolescentes. Charles Thomas. A Study o f Brief Psychotherapy.264 Psicoterapia breve de orientaçãopsicanalítica 3. L.) 5. Psicoterapia breve. VI. Buenos Aires. 4.. . “Psicoterapia breve en la infancia”. em L. Illinois. D. Tavistock. Centro Editor de América Latina. Wolbcrg e colab. Londres. Malan. 1963. cap.

de psicoterapia (13). etc. o criador da psicanálise justificará. equivocada. 3. assim.“se sentiu normal e se conduziu impecavelmente”. El problema de los basamentos teóricos” (Buenos Aires. 20 anos depois.Notas I «» Capitulo 1 Apelarei para ela e para outras similares (tratamento ou técnica breve.disse Freud . Utilizarei. com o titulo de “Psicoterapia breve de orientación psicoanalítica. mas que depois da guerra este o visitou em Viena.B. neste caso. para Freud. crendo-o completamente curado. 22 de agosto de 1979). tal medida foi. ocasião em que Freud pôde comprovar que haviam permanecido sem resol­ ver aspectos da transferência. . Capítulo 2 1. Não obstante. em “Análise terminável e interminável”.) convencionalmente para fazer menção a este tipo de tratamento ao longo dos sucessivos capítulos. depois dos quais o paciente . Lido parcialmente na Associação Psicanalítica Argentina. Também cabe acrescentar que a focalização do trabalho terapêutico na direção de um aspecto da problemática ou sintomatologia do paciente é característica das atuais técnicas breves. Capitulo 3 1. a busca de novas técnicas. mais breves. a abreviatura P. o que exigiu mais alguns meses de tratamento. Ali descreve que deu alta ao paciente. 2. Um acréscimo de 1923 deixa implicito que.

já que me incluo entre os que pensam que. cabe assinalar que Malan e sua equipe de terapeutas se dedicaram. mas isso não implica necessariamente que esse conflito seja sempre o central dentro da patologia do paciente. French e colaboradores (5) sugerem propiciar . à qual me refiro. Anteriormente. muito especialmente. denominá-los-ei con­ flitos focais ou conflito focal. o próprio Freud já havia fixadoiim limite de tempo para o tratamento psicanalítico. combinado com outras técnicas. têm a desvantagem de prestar-se a confusões. já que con­ centraremos nele nossa atenção e nossos esforços. Por último. as quais. forçosamente. Sem dúvida. como logo veremos. sendo suas manifestações bastante antigas e/ou de instalação gradual. em especial. deve-se entender que o mesmo o é em relação ao tratamento. Wolberg propiciou seu emprego. agosto de 1978). Alexander. 7. ainda que apropriadas. Esse critério comparativo será utilizado quase permanentemente ao longo desta obra. Meu esquema referencial é fundamentalmente freudiano. permitindo o desdobramento de alguns fenômenos transferenciais. no capítulo 8 (ver também os capítulos 9 e 14). Outras denominações às quais se recorrc comumente são conflito atual e conflito central ou principal. dc agora em diante. dc aparecimento recente e/ou de começo sintomatológico agudo. no método terapêu­ tico breve (54). c válido recorrer a distintos modelos tcóricos que possam ser úteis para compreender diferentes fenômenos ou pacientes. 5. a interpretar os problemas edípicos. A respeito da hipnose em particular.0 estudo deve completar-se com o conjunto dos aspectos concernen­ tes à contratransferência em psicoterapias breves. razão pela qual. Antes de mais nada. Esses conflitos.266 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica 2. atual não significa. 10. são próprios da estrutura do foco terapêutico. 3. que apresentei no Primeiro Encontro Argentino de Psicologia Profunda (Buenos Aires. portanto. dos quais deri­ vam as diversas dificuldades dos pacientes (40). 9. mas não hesito em recorrer a conceitos próprios de escolas como a inglesa ou a ameri­ cana quando isso me parece necessário.ainda que só em certas oca­ siões o desenvolvimento e a análise de determinados componentes da neu­ rose de transferência. quando se fala em conflito central ou princi­ pal. Não obstante. nem todo conflito atual terá dc ser focal e. em terapias de curto prazo. 6. por outro lado. 4. em seu livro Terapêutica psicoanalitica. Esses autores supõem que é possível controlar a relação transferencial. especialmente os que sejam importantes . cabe mencionar que L. já que também pode tratar-se de um conflito que se mantenha vigente. como consignei no capítulo 2. dentro de certos limites. pelo que requerem alguns esclarecimentos. Incluído no trabalho “El labor con los conflictos y la resistencia en psicoterapia breve”. ao atender o Homem dos lobos (20). objeto da abordagem terapêutica. 8.

por um lado. e em determinadas circunstâncias (ver capítulo 6. I 11. Freud aborda novamente o tema dos distintos tipos de resistência em “Análise terminável e interminável”. Isso não implica que se deva descuidar do fenômen» da transferên­ cia. Apresentado no Primeiro Encontro Argentino de Psicologia Profunda (Buenos Aires. realmente.fora da sessão analítica. por exemplo. se o prazo mínimo para a finalização do mesmo seja. agosto de 1978) sob o título de: “Insight y elaboración en psicoterapia breve”. isto é. 14. Incluído no trabalho “El labor con los conflictos y la resistencia cn psicoterapia breve”. 13. ainda que de certa maneira arriscada. pp. para se alcançar uma mudança terapêutica . com êxito.) será necessária sua interpretação. mas também continuar elaborando os conflitos em novos con­ textos e situações” (42). com base nas dificuldades que o terapeuta deverá enfren­ tar para manejar a relação. por exemplo. também continuaria . Pelo contrário. esta. já que não conta com as possibilidades que o enquadramento psicanalítico oferece (considero que tal manobra poderia ser mais eficaz quando não se tenha fixado previamente uma data para o término do tratamento ou. por outro. como um meio de compreender o paciente (9) (51). onde se refere aos mecanismos de defe­ sa do ego em geral. A incidência do fator tempo na elaboração é assinalada também por Bellak e Small: “Na psicoterapia rápida não há muito tempo para o processo de elaboração” (6). evitando derivações indese­ jáveis. de desenvolver certos aspectos díf neurose de transferência e. agosto de 1978). de manter simultaneamen­ te uma relação “real" com o terapeuta e uma aliança de trabalho (29) (30). de um ano). 15. deve-se tê-lo em conta constantemente.e é necessário que assim seja. . no caso de tê-la fixado. Novey ainda se refere expressamente à continuação do processo de elaboração uma vez que se tenha concluído. 106 ss. que apresentei no Primeiro Encontro Argentino de Psicologia Profunda (Buenos Aires. ao menos para Novey.Notas 267 para compreender. Poder-se-ia fazer referência a esta última fase do processo com qualquer outra denominação. a capacidade. Em última instância penso que essa atitude deveria ser a exceção à regra. se a duração prevista para ele não seja demasiado curta. a de processo progressivo pósterapêutico. 16. o conflito central do pa­ ciente. já que. c não só à repressão como resistência contra a cura (19). exige do terapeuta muita destreza e. Devemos consignar aqui que. o tratamento analítico. “O período pós-analilico não só implica repetir e experimentar situações da vida com maior facilidade e liberdade. e por conseguinte solucionar. no que concerne à elaboração psicanalítica. “inclusive quando o paciente dorme”. do paciente. Essa manobra técnica parece-me interessante. 12. diz. que garantam o bom andamento do tratamento.

por exemplo. podem paradoxalmente fomentar a dependência se se convertem. além disso. pela criação de todo um contexto de verificação e estimulação dessas funções (12).. Os autores expressam que. Compreende-se que o fortalecimento das funções egóicas durante o tratamento é dado..268 Psicoterapia breve de orientaçãopsicanalítica 17.) antes de tudo.prosseguem podem ter o efeito de convencer o paciente de que aprendeu adequadamente um novo modo de conduta. a meu ver. esse conceito é ligado pelos autores à problemática da falta de tempo para levar a cabo o processo de elaboração. a atenção. Aquelas que. Tais mecanismos poderiam estar ligados ao seguinte: ante diferen­ tes experiências de vida. Em ambos os casos. em lisonja desnecessária ou não refletem a real eficácia dos rendimentos egóicos e os sucessos do paciente. ativação que adquire muita importância porque acelera e facili­ ta o caminho em direção ao insight. 20. a memória. não só pelas intervenções verbais do tera­ peuta. desempenha um papel fundamental na interação com o pacien­ te) pode conseguir tais efeitos. não só durante o tratamento. Nesse aspecto cabe advertir que as mesmas intervenções empregadas com uma intenção confirmatória e reasseguradora. mas também. uma vez que reforça a aliança terapêutica. Devemos ativar muito especialmente as funções egóicas do paciente essenciais para o trabalho terapêutico. Bellak e Small incluem a elaboração em P. ou de que sua aprendizagem foi inadequada. 18. neste terreno. ou dar-se conta de que tem outros pro­ blemas. na realidade. em um dado momento. dentro dos limites da teo­ ria da aprendizagem. são “atacadas" interpretativãmente não devem passar. ou vice-versa. concebem-na como o reforço da apren­ dizagem de uma conduta nova e a extinção de modos neuróticos de adapta­ ção. o que nos diz respeito é o pro­ blema de fazer permanente a aprendizagem que se produz na situação psicoterapêutica. Seguem comentários que corroboram a idéia de um processo “elaborativo”. Dessa maneira. posterior ao mesmo. etc. Assinalam que o paciente deve “aplicar o aprendizado a situações da vida real.. Em seguida. como expressa Fiorini. o resultado é que a aprendizagem psicoterapêutica melhorou pela experiência de vida real” (6). não incorrer em contradições. falamos em impedir as recaídas”. a ser respeitadas ou ainda reforçadas pelo terapeuta. ocorreria uma aplicação dos núcleos de insight adquiridos durante o tratamento breve. Essas experiências . concomitante ao reasseguramento e ampliação progressivos dos mesmos. É necessário. para estimular no paciente a autonomia e a progressão. tais como alternar intervenções que tendam a estimular o autodesenvolvimento com outras que favoreçam a dependência regressiva. por exemplo. exagerando-os. 19. Clinicamente. a teoria da aprendizagem pode­ ria ter aplicações especiais: “(. Um planejamento estratégico coerente deve prestar atenção à atitu­ de a ser assumida ante as defesas do paciente. . em segui­ da. O terapeuta que exerce uma participação ativa e nâo se limita a apelar para recursos verbais (sua expressão corporal. tais como a percepção. mas também.B.

as obras de Hartmann. A utilidade de uma avaliação das funções cgóicas em P. O trabalho realizado por uma equipe de profissionais abre perspectivas auspiciosas. além disso. a esquematização das funções do ego e de suas perturbações tem um valor prático porque oferece um marco de referência para o diagnós­ tico e para o tratamento” (6). Rappaport. onde não conta ainda com uma verdadeira tradição investigatória. Pode. Insuficientemente arraigado em nosso pais. por diversos motivos. Kris. S. 22. Referindo-se à composição de uma “psicoterapia para o povo”. concebida por Freud. vai sendo reconhecida em nossa prática assistencial. etc. o enfoque egóico se emprega.Notas 269 21. Freud. 23. O caso de uma jovem que se consultou por causa da angústia e das vacilações que lhe despertava uma gravidez recente ilustra accrca da relação que se estabelece automaticamente entre os sintomas e a situação que lhes dá . de ori­ gem distinta.convém assi­ nalar . Mas é especialmente no que diz respeito às hipóteses sobre os mecanis­ mos terapêuticos de mudança operantes nas técnicas breves. em 1918. em que a psico­ logia do ego talvez possa prestar um novo e valioso auxilio (12) (13). em que. contribuir consideravelmente para o desenvolvimento e a sistematização de métodos de avaliação dos re­ sultados terapêuticos. como vimos anteriormente. contudo.B. nem sempre são devidamente aproveitadas. White. amplamente entre os americanos.sejam mais complexas no que se refere à conceituação dos mecanis­ mos terapêuticos operantes. Apesar desses inconvenientes. Estes temas serão objeto de revisão nos capítulos que se seguem. 24. Todas essas possibilidades ocorrem mais facilmente em institui­ ções assistenciais e serviços hospitalares. Em nosso meio e no terreno das psicoterapias. A esta altura é necessário assinalar que a moderna psicologia do ego fornece elementos sumamente úteis para a teoria e a prática das terapias breves. Fiorini chamou nossa atenção sobre esse enfoque (10) (12) (13) (14). Aqui só diremos que Bellak e Small lhe atribuem grande valor na psicoterapia breve e de emergência: “Apresentar o ego como uma ^ntidade só dizem . Loewenstein. baseando-se sobretudo nos importantes desenvolvimentos de Hartmann (33) (34) e os mais recentes de Whitc (53). indicação e prognóstico. por mais que . as perspectivas atuais são muito promissoras. Ocupar-nos aqui da psicologia do ego excede os limites desta apresentação. O leitor interessado poderá recorrer às principais lbntes.nega a inter-relação entre o ego e as outras psicodinânucas. como para o planejamento estratégico e a condução do processo terapêutico. dos quais provêm seus principais progressos. Nesse sentido. tanto com fins de diagnóstico. na realidade já foi. propunha misturar “o ouro puro da análise” com “o cobre da sugestão direta” (26). A combinação de recursos de base psicanalítica com outros.

95 ss. na reali­ dade. 26. o foco compreende basicamente todos os aspectos da existência do paciente (histórico-gencticos. Outra paciente notou que seus antigos vômitos se exacerbaram desde que ocorreu a ruptura de seu namoro (caso de J. com os conflitos "extrafocais”. não existindo nunca como fenômeno isolado e independente do contexto. através de sua paresia. Na realidade. sempre o são. Por último. A técnica focal. múltiplas conexões. tais como: os que provêm do temor da perda do filho por aborto espontâneo nos primeiros meses. 31. evidentes ou não. sem chegar a vincular. princi­ palmente maníacos. Não insistirei. cabe esclarecer que se utiliza num sentido que não envolve um trahalho interpretativo que remete necessariamente às fantasias precoces infantis descritas por M. A conflitiva focal tem. tal estado com o nascimento de seu primeiro filho. O conceito de ponto de urgência foi muito empregado pela escola inglesa.270 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica origem (ver capitulo 7).. acontecido poucas semanas antes e que resultou ser o fator desencadeante principal (caso de A.. . freqüentemente inconsciente. caracterológieos. capítulo 13). (49). Creio que tão mais fácil e freqüente do que este c o fato de que. à maneira de Isabel dc R. cm psicanálise. mobilizam mecanismos defensivos. que se reaviva com a percepção dos movimen­ tos fetais.) examina-se o trabalho de focalização cm relação aos tipos de atenção empregados pelo terapeuta para tal fim. etc. 33. Os primeiros pontos de urgência detectados por ocasião dos conta­ tos iniciais com o paciente correspondem aos motivos latentes da consulta. Num sentido estrito.. e optem por diferentes linhas interpretativas. de morrer duran­ te o parto. Por isso. ao adotar aqui essa denominação. que aparece nos dias anteriores a este. 27. o que se pode comprovar nas supervi­ sões coletivas. com as seqüências na interação paciente terapeuta que possibilitam a evolução do foco. 29. no capítulo 6 (pp. o que pode ser assinalado pelo terapeuta como uma resistência. 25. os analistas não coincidam diante de um*mesmo caso. O caso de (capítulo 13) ilustra o aprofundamento no foco à medida que evolui o trata­ mento. a paciente de Kreud (23). capitulo 13). conscientemente. expressasse também que assim não podia continuar. o temor.). mas só no que diz respeito à situaçâo-problema correspondente. foi exposta com clareza por Malan (40). Um exemplo de trabalho sobre o loco na sessão psicoterapêutica poderá ser encontrado no capitulo 7. 32. nesse ponto. 30. Cabe advertir que em certas ocasiões o paciente também se refere a problemas “extrafocais” com a intenção de elidir o problema central. o temor ao filho como ser desconhecido. Um homem buscou consulta ao experimentar um incremento de sua an­ gústia. portanto. Talvez a paciente. além disso. etc. os quais. Klein. Basta pensar numa terapia focal centrada nas ansiedades relativas à gravidez e na sucessão de distintos pontos de urgência “intrafocais” que apa­ recem paralelamente à evolução daquela. nem dar ‘"um passo a mais. 28.

pôde-se advertir qjue quase todos os presentes admitiram que através de uma psicoterapia de orientação psicanalítica conseguem-se modificações nos conflitos e certas mudanças dinâmicas benéficas. 40. os conflitos derivados sofrem. reconhecer como próprio o que se interpreta acerca do conteúdo. Por*ocasião de uma mesa redonda sobre psicanálise e psicoterapia. (capítulo 13) permite além disso apreciar. O caso de A. Existem diversas impressões favoráveis sobre as vicissitudes que. além disso. em certo momento e por ocasião de fatores traumáticos tais conflitos podem ser reativados. Já vimos. ao não se obter uma resolução substancial dos conflitos derivados. Ver capitulo 11. modificações e equilíbrios” (1). já que o conflito básico não se resolve. na psicoterapia dinâmica. Área 1 da mente. ainda que se obtenham modificações. dando lugar a recaídas. por conseguinte. Define a verdadeira resolução do conflito como “uma compreensão metapsicológica plena e elaboração das forças interatuahtes”. além dos demais conceitos assinalados. Quer dizer. Wallerstein formulou a seguinte questão: “E possível resolver substancialmen­ te os conflitos derivados ou qualquer outro conflito. carecemos de explicações metapsicológicas suficientes a respeito. Mas também é necessário advertir que. baseadas no esquema de Pichon-Rivière (44). Pelas respostas.nem sequer um tratamento psieanalítico com êxito . porém. em termos de “elaborar brevemente um dado aspecto da psicopatologia do paciente” (40) (o grifo é meu). não sabe­ mos o que sucede em termos das conexões ou do fortalecimento da função integradora ou sintética. Diversas passagens de sua obra . 2 do corpo e 3 do mundo extemo.garante que tais recaidas possam ser evitadas. “os conflitos se resolvem no sentido de que se tomam inati­ vos. Joseph considera que. a partir de material clínico. 37. 35. sua força relativa pode diminuir (28). Para este autor. 36. ainda que nâo se provoque uma reestruturação profunda. a hipótese psicodinâmica inicial. 38. em função de se haverem modificado algumas das forças internas que levam a mudanças energéticas e catéticas. ainda que não haja por que acreditar que devam fatalmente produzir-se. por outro meio que não seja a psicanálise?” (52). sobretudo pela reexpericncia c pela compreensão genética ("l). e acrescenta que só é possível consegui-la mediantp a psicanálise. Naturalmente. por exemplo. Ver capítulo 10. Segundo Oremland. e das mudanças nos vínculos energéticos ou cargas. que ele atribui a uma modificação do confli­ to.B. sua aparição não deve surpreender.Notas 271 34. que Mallan faz referência às metas terapêuti­ cas em P. Gillman por sua vez sustenta que. na psicoterapia assistimos a uma resolução parcial ou incompleta. nada . 39. ainda que não se alcance nessas tera­ pias uma resolução dos conflitos.

Na realidade. S. 3. Garcia Arzeno (10). definitivamente. 43. 41. tais como “trans­ formação profunda da personalidade”. 44. O tema do planejamento terapêutico é desenvolvido em outro lugar. Con­ tudo.272 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica mostram claramente que essa “elaboração” que o autor menciona também abrange certa análise das resistências.talvez menos miste­ riosos . Em outro lugar. 2. constitua o emprego de interpretações do intrapsíquico. Como resul­ tado dessa ação e da mobilização terapêutica conseqüente. 42. é retornado no capí­ tulo 6. até a estrutura da personalidade (55). mas não decisi­ vo. uma depressão não será igual.. também algo nele muda profundamente depois do tratamento. em certa medida e a partir do sintoma ou da situaçãoproblema. “reajustes profundos na estrutura intrapsíquica”. a necessidade de abordar os sintomas interpretativamente conduz nossa atenção. com as­ sinalamentos e interpretações que estejam dirigidas às mesmas.B.B. às vezes são gera­ das algumas mudanças nos dinamismos intrapsiquicos. tem sido assinalado precisamente por Wolberg: na P. habitualmente incompletas e insuficientes. o paciente já não e o mesmo. o que deveria ser motivo de uma inves­ tigação mais profunda.B. as modificações na estrutura da personalidade pode­ riam ser explicadas em parte também por certos fatos . Capitulo 4 1.B. de Ocampo e Maria E. de modo ine­ vitável. O tema da relação paciente-terapeuta em P. Emprega também outros qualificativos similares. e que só circunstancialmente adquirem uma grande magnitude. as chama de “recursos c elementos sadios”. (ver capítulos 5 e 12. como a que a equipe da Tavistock Clinic levou a cabo para estudara relação existente entre a aplicação de interpretações “transfe­ renciais”. nem terá o mesmo significado num caráter obsessivo e num cará­ ter histérico. as que se re­ ferem à relação com objetos internos. por sua provável influência nas modificações da estrutura de personalidade. . não só os sintomas se atenuam ou o conflito focal se resolve parcialmente. Um deles. respectiva­ mente). Portanto. e os resultados terapêuticos obtidos (40). o terapeuta deve incursionar nas perturbações do caráter. Poder-se-á encontrar maior informação sobre o tema na obra de Maria L.do trabalho terapêutico. Assim. que não deixam margem a dúvidas acerca da posição do autor. muito elementar. Sob essa denominação o autor se refere aqui a uma terapia psicanalitica breve. sem a solidez das obtidas no tratamento psicanalitico. ou seja. do mesmo modo que as indicações da P.. Talvez um elemento terapêutico de particular interesse em P.

Por último pode ser necessário revisar os objetivos tm pleno trata­ mento. particularmente para a recomendação ou contraindicaçâo de uma terapia breve (11). comparando-se os dados obtidos através da aplica­ ção pós-terapêutica com os do psicodiagnóstico inicial (ver capítulo 11). isto é. 6. 2. capacidade essa. A este respeito refere-se Malan. como tem assinalado anteriormente (ver capítulo 3. Nesse caso. quando propõe. pp. Tive a satisfação de comprovar que Garcia Arzcno (6) compartilha dessa opinião. caso se opte por um tratamento breve. podem ser consul­ tados os capítulos 8. para avaliar os resultados do tratamento. em cujo caso se exigirá desde o início uma boa disposição de sua parte. 8. que logo examinaremos detidamente (pp. que pode ser avaliada por meio de testes projetivos (8). 4. sobretudo se se trata dc um tratamento dc curto prazo. 7.4.. 21 e 22 de outubro de 1977) sob o titulo “Una regia basica de íúncionamento en psicoterapia breve”. 6.).B. 5. 3. 95 ss. 100 ss. não sendo possível estabelecer regras fixas a respeito. o que merece uma especial revisão (ver pp.B. que tenham de se eleger metas terapêuticas de acordo com o tempo limitado de que se dis­ põe para efetuar um tratamento. ). no processo psicodiagnóstico. 5. que o terapeuta não tenha de esforçar-se demasiado em vencer dificuldades para ocupar-se do paciente.9 e 14.). Sobre os aspectos da contratranslérência em P. que define a atual terapêutica breve. Ocampo e Garcia Arzeno descrevem uma série de indicadores. sempre segundo esse autor. . são várias as atitudes a assumir (mudanças de objetivos. determinam um tipo de comunicação nitidamente diferenciável do psicanalítico. Um ponto de importância decisiva na evolução e manejo da relação terapêutica constitui a técnica interpretativa particular exigida pela índole dessas terapias. Os testes psicológicos também sào utilizados em P. quer dizer. Concomitantemente. etc. que se investigue a capacidade do paciente para enfrentar o luto. será conveniente que exista uma contratransferência positiva. 9. somadas às modifi­ cações no emprego da associação livre. 46 s. e que. "Focalidadc". Trabalho lido no Simpósio sobre Psicoterapia Breve organizado pelo CEMEP (20. Esta observação de Haley implica curiosamente o estabelecimento de certo paralelismo interessante entre a técnica psicanalítica de cunho freu­ diano e a técnica “ativa”. 10. O perigo é de que aconteça o contrário. Capitulo 6 • 1. A técnica focal supõe certas vicissitudes da atenção do terapeuta. cio tipo de tera­ pia.). segundo a denominação empregada por Malan (8).

apenas a um conjunto de idéias que este tem presente (ainda que para sua organização tenha de basear-se em cadeias associativas do paciente). mas lambém é verdade que alé esse momento podem ter estado reprimidos. ao contar com um enquadramento temporal menos limitado. scr mais levado cm conta. ante a persistência de uma dificuldade para encará-la a fundo.274 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica 7. Ocorre-me que esse qualificativo continua pesando no ânimo dos investigadores. É certo que tais conflitos preexistem e que a livre associação não faz mais do que colocá-los em evidência. Nesta última situação. já que se pretendêssemos intervir ein todos. Na prática teremos de considerar. como disse anteriormente (ver capítulo 3. não se poderá pensar que existe em certa medida uma evitação do tema.e considera­ mos para fins práticos . Não é o mesmo num tratamento de objetivos limitados com. com nossa concentração seletiva só daremos prioridade a determinados problemas. é a relação existente entre associa­ ções livres (cadeias associativas) e foco terapêutico. tais como a duração total do tratamento e o número de sessões semanais. vinculada ao tema que estamos tratando. sc outros motivos o tornarem aconsclhávcj. além disso. Recordemos que a estrutura focal corres­ ponde. fato por demais sugestivo. pp. 10. o problema de saber quais são os limites dofoco. por sua conta e como possa. cm todo caso. são múltiplas e complexas.. por sua vez. embora no exercício da terapia breve não tenhamos de nos aprofundar mais na explora­ ção de tais ligações. 8. o emprego da “regra fundamental” poderá. em troca. por exemplo. Gabe perguntar a razão pela qual os autores não se tenham estendido sobre esta questão. a eles sem que provoquemos sua mobili­ zação. Uma questão interessante e polêmica que pode surgir. e outro que conste de duas a três sessões por semana e se estenda durante um ou mais anos. .). àqueles que colocam uma necessidade de resolu­ ção mais ou menos imediata. uma a duas sessões semanais e dois ou três meses de duração. senão como um artifício técnico. Na realidade. o melhor será que o paciente siga se ajus­ tando. outros fatores. por mais desconsideração que pareça. é bom reconhecê-lo. Se a consideram algo óbvio. pelo que de nenhum modo seus limites podem conside­ rar-se nítidos e nem sequer precisáveis num sentido estrito. pouco seria o que poderíamos íazer pelo paciente dentro do enquadramento que corresponde a essas terapias (especialmente se existe uma grande limita­ ção temporal). 9. e. talvez acompanha­ da da sensação de estar “atacando’* precisamente a regra básica da técnica psicanalitica? Porque se trata nada menos daquilo que o criador da psicanáli­ se também denominou “regra de ouro”. as ligações associativas de seus componentes como parte do material que chamamos . ou seja. como hipótese do terapeuta. 45 s. negados.“extrafocal”. que não operam. dissociados. fazendo com que o tema seja deixado de lado ou apenas mencionado. etc.

em relação à P. ima­ gem de um sonho. Gillman faz men­ ção. o emprego do método da associação livre em técnica psicanalítica se efetua “a partir de um elemento dado (palavra.. Ferenczi.. a um “(. Quando se usa. adotar no campo da psicoterapia breve uma regra básica pró­ pria. de limitar o aproveitamento da associação livre aos “casos nos quais possa surgir como resposta a um determinado estimulo do terapeu­ ta. o emprego de associações livres. na auto-análise de seus sonhos.. de acor­ do com o mencionado em segundo lugar. p. em troca da qual será necessário. Na prática da terapia dinâmica breve proponho umífaplicação ocasional e reduzida na maioria dos casos . 14. em 1949. No capitulo 9 podem ser encontrados exemplos do uso de associa­ ções na terapia breve a partir de material onírico. havia proposto já centrar a tarefa nos sintomas.à forma como foi expressa em primeiro lugar (assim a utilizou Freud. como por exemplo a fim de obter algum material pertinente e informati­ vo” (2). 12. a regra básica da psicanálise. seus antecedentes devem rastrear-se nas expe­ riências deste com pacientes da época pré-analítica). Encontrei algumas referências bibliográficas acerca da aplicação. o assinalamento ou a interpreta­ ção transferencial)” (15). ao fazer referência a uma “terapia setorial". Por outro lado.) Por último. de forma espontânea” (32). constitui. . 15. cíomo sabemos. tampouco nele é possível mantê-la.. (“Associação livre”.Notas 275 11. res­ tringida. já empregava o recurso de pedir aq paciente que trouxesse fantasias acerca de certos temas selecionados (“fantasias forçadas”) (6).) emprego saudável da associação livre” (24).) certos recursos técnicos próprios da psicanálise (o silêncio atento do terapeuta.. número.. F. 13. Na realidade. Fiorini também considera factível e benéfica a utiliza­ ção de associações livres em psicoterapias. Em certa parte de sua obra. do procedimento da associação livre nos tratamentos breves: em suas tentativas de abreviar a psicanálise. uma representação qualquer). ainda que a continuidade da atenção flutuante seja muito maior no tratamento psicanalítico. e em outra menciona a necessidade do “emprego discriminado” em psicoterapias de “(.). 37).) com­ binar flexivelmente os dois estilos dc associação livre e dirigida” (8). entre os procedimentos básicos da terapia breve. Na prática poderemos encontrar pessoas de grande capacidade para associar e transmitir suas associações. Bellak e Small falam. Na realidade. ainda que não entre demasiada­ mente em detalhes a respeito.B.. e diante das quais carecerá de sentido pretender tirar algum partido da aplicação do método. e no capítulo 13. Por sua parte. de asso­ ciações surgidas em tomo do aparecimento de sintomas (caso dc J. mas também outras que tenham um tal grau de inibição que só obteremos um bloqueio como resposta. (Os grifos são meus. conforme o que já foi desenvolvido. propõe: “(. havendo exposto uma possível nas páginas anteriores. estimulando a produção asso­ ciativa sobre eles através das interpretações (4). Deutsch. em seu método ativo.

Guiter pretere cha­ mar a estas últimas de “interpretações não relacionadas com o analista” [35]. (ver capitulo 13). e por “extratransferenciais” as que concernem aos aspectos inconscientes da relação do paciente com as demais pessoas (na técnica psicanalitica. 17. 18. esse insight deve ser pertinente à tarefa de focalização e/ou estar vinculado a obstáculos resistenciais e. produz-se durante o tratamento algum fato trau­ mático inesperado. Portanto. às vezes é possivel. Utilizarei aqui essas denominações principalmente com a finalidade de abreviar. Se menciono essas características entre aspas é porque na realidade as interpretações nomeadas em segundo lugar também são transferenciais no sentido mais amplo do termo. p. a quem se lhe interpretou sua submissão ao objeto supercgóico constituído pela figura paterna (pai interno). . mesmo numa terapia breve. Mas não recomendo recorrer sistematicamente a seu uso. pois. Sem dúvida. devendo em conseqüência entender-se por “transferenciais” as interpretações que fazem referência a aspectos inconscientes da relação com o terapeuta. Ante pacientes com boa capacidade de insight. constituindo ou não parte do passado remoto infantil do paciente. o tomar o paciente consciente de aspectos acerca de sua relação com objetos internos. ilustra eloqüentemente a aplica­ ção dessas interpretações. com a qual se pretenda realizar uma focalização forçada do trabalho terapêutico. repito uma vez mais. O trata­ mento de A. mas de todo modo interes­ sante. é o papel das interpretações dirigidas ao intrapsíquico. tal procedimento traz implícitos os sabidos riscos de mobilização emocional e indução regressiva. um paciente com boa capacidade de autoobservação. que às vezes se observam em alguns pacientes que foram submetidos a tratamento breve (ver também capítulo 3. 56). 20. trabalhar com apreciável profundidade (ver o caso de J. Recorro a esse tipo de intervenção só quan­ do percebo que é possivel aprofundar e promover no paciente um maior insight a respeito de seu vínculo com objetos internos. 19. Neste contexto entenderemos por interpretações “profundas” as que fazem referência a elementos intensamente reprimidos. certamente não cabe assumir uma rígida conduta diretiva. alguma situação que perturba o paciente c que se acha “fora do foco” e que a terapia deve examinar. tal abordagem deve afigurar-se francamente benéfica para o paciente. no capítulo 13). quer dizer. de modo absolutamente constante. Em tais casos. devemos consi­ derá-la como uma regra ideal ([32].276 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica como sabemos. contudo. um ponto pouco discutido. p. 40). Creio que cm certa medida tais interpretações cabem na técnica breve c poderiam ter incidência na produção de modificações dinâmicas sig­ nificativas de personalidade. rápido timinge sufi­ ciente tolerância à dor provocada pela revelação do inconsciente. As vezes. ainda quando se tratar de uma abordagem incompleta de conflito. pois as transferências se desenvolvem não só com a figura do terapeuta. 16. mas com qualquer outra pessoa.

freqüentemente. de alguns tratamentos de curto prazo na relação transferencial (ver capítulo 3. Nesse sentido. por seu caráter transferencial. (É claro que nas histórias clínicas que integram a obra de Malan se registram justamente fortes reações resistenciais. pela qual se permite o desenvolvi­ mento de certos aspectos da neurose de transferência (aqueles inerentes ao conflito central de terapia). e essas “mudanças” não provêm de um insight genuino. de menor magnitude que no tratamen­ to psicanalitico.Notas 277 pretações transferenciais extra-analiticas [45]). trans­ correndo a oitava sessão do tratamento. se cumpriram realmente esses requisitos ele­ mentares. razão pela qual certas resistências de transferência se desenvolveriam menos (28). Nesses casos de pacien­ tes que no fundo têm grandes resistências. no qual. que me impressio­ nam como prematuras (34). (Os grifos sào meus. e. Citei antes uma exceção a este requisito: a centralização. 29). 22. p. pois o enquadramento dela não permitirá trabalhá-las suficientemente para melhorar as condições tera­ pêuticas. ainda tendo presente que isto ocorreu em Londres.B. preconiza­ da por Alexander e French. as manifestações resistenciais costumam ser. como no exemplo citado. as perspectivas prognosticas se ensombrcccm numa terapia de curto prazo. que devem contar com uma transferência positiva real e mais ou menos estável e não só “superficialmente” positiva. Quando já a priori do tratamento ou no decorrer do mesmo estas se apresentam muito marcadas. é quando os resultados aparente­ mente bons que se alcançam se fundam em curas transferenciais. como dissemos (ver capítulo 3. Por exemplo. exigem no mínimo um certo periodo durante o qual exista a consolidação de uma relação transferencial positiva sublimada com o terapeuta e o avanço do paciente na compreensão profunda lhe permitam aceitá-las.. O paciente se sente forçado a “mudar”. pp. já haviam sido efetuadas para o paciente várias interpretações relativas a seus desejos d^ manter uma relação homossexual passiva com o terapeuta. fala em inter­ 21. e se recorre.). o que produz surpresa. É sabido que interpretações deste calibre. como é óbvio. costumam produzir-se diversas respostas negativas no paciente. Na P. sobretudo de caráter hostil. Permanece-me a dúvida se em poucas ses­ sões. dado o tipo de relação terapêutica existente. 27 s. por se referirem a tendências. Do contrário. ao emprego de interpretações transferenciais (1). em um dos casos (o biólogo). onde existe urna maior tolerância à homossexualidade. cuja revelação ao paciente resulta extremamente angustiante. o analista pode e deve dedi­ car muitos esforços à interpretação daquelas. com freqüência. sempre respeitan­ do seu timing. . também cabe rcpcti-lo.) 23. intensamente reprimidas. não deixam de me chamar fortemente a atenção algu­ mas interpretações “'transferenciais” formuladas por terapeutas da equipe que Malan integrou na experiência clínica que ilustra seu livro.) enquanto Weiss. costuma gerar-se menor montante de hostilidade trans­ ferencial no paciente. já no terreno da terapêutica breve analítica. De qualquer maneira.

junto à agressão. Nas primeiras “(.. 29. quando intervêm no tratamento (irmãos do paciente. 31.) os aspectos positivos do analisado não são adequadamente considerados" (frustra-se ao paciente “mais do que seria indicado para a manutenção da transferência positiva”). 28. 33. que. Percebo que essa iniciativa guarda em parte relação com o que coloca Racker quando se refere às interpretações que ele chama de parciais e dc integrais. considera “os aspectos histórico-genéticos individuais c grupais reativados” dentro do problema atual do paciente (8). Assim por exemplo. em seu modelo teórico de foco. Na experiência descrita por Malan (34). 26. Ver também o capítulo 3 (p. mas me inteiro de muitas coisas sobre meu paciente que posso utilizar com proveito em meu tratamento. outros membros do grupo familiar. 30. da mesma forma que o erotismo transferencial. etc. . O risco de cair cm acring out ou as manifestações concretas dc tal conduta também configuram um difícil e muito perturbador obstáculo resistencial (dadas suas conseqüências para o paciente e cm particular para o futu­ ro do tratamento). eventualmente. Rado: “Ao falar com o cônjuge de um paciente sei bem que vai me pintar um quadro parcial. 27. pelo que não foi possível efetuar um tratamento de casal. Ver o caso de J. os terapeu­ tas costumam adotar uma atitude radical ao explorar c interpretar prematura e energicamente conflitos primários do paciente (problemas “edipicos”) em muitos dos casos apresentados. pelo contrário. como tal. Disse S. Malan afirma que não houve provas de que os pacientes houvessem sofrido algum dano nem tido necessidade de prolon­ gar o tratamento. 24). Incluir-se-iam. mas para resolvê-la melhor (34). encon­ traria explicação no estilo interpretativo empregado. Opino que o nâo aproveitar este recurso é violar uma responsabilidade médica elemen­ tar” (39). afirmando que não contri­ buem para fomentar a dependência. e que pessoalmente ignoro se o estilo tem alguma relação com o aqui proposto.. Seu marido se mostrava resistente à psicoterapia. exige o emprego de interpretações “transfe­ renciais”. (capítulo 13). 25.278 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica 24. que talvez pudesse par­ ticipar em certa medida das características que menciono. avós. Recordemos que Fiorini. Nas segundas in­ cluem-se os aspectos positivos. Que Malan tenha realizado e recomende o uso energélico das inter­ pretações transferenciais nos tratamentos breves.). mostrase ao paciente o amor que também existe em relação ao objeto (38). ainda que caiba esclarecer que estas não são reveladas nas exemplificações incluídas na obra do autor. 32.

cui­ dou de várias crias de cachorro e sobretudo alimentou-os com mamadeira “como bebês”. A fantasia de um grupo familiar com grande carga de agressão. Existem numerosos indicios a respeito. reforçando um circulo vicioso patológico. p. por quem experimentava muita rejeição. Quanto à sua hostilidade para com o filho. em razão de a mãe do cachorro estar enferma. [6]. ela foi objeto dc trabalho te­ rapêutico em sessões posteriores. não foi possível efetuar um psicodiagnóstico nessa oportunidade. 5. Como se sabe. Faz-se necessário destacar que sua cunhada havia sofrido vários abortos espontâneos. 4.) 8. segundo contou a filha. havia relatado um sonho recente. 1f 8. Mencionarei aqui somente alguns deles. AJém do mais. eram uma evidencia inequivoca de sua disposição maternal. por serem muito eloqüentes. sentiu que lhe “arran­ cavam o filho do ventre”). pois esse tipo dc terapia não pretende prioritariamente alcançar uma gran­ de profundidade interpretativa com base cm tais hipóteses. 7. Convem esclarecer que boa parte das interferências até aqui propos­ tas foram consideradas apenas para uma melhor compreensão psicopatológica. objetos continentes. Lamentavelmente. posteriores ao nascimento de sua única filha. e sua negativa em abortar diante da imposição de sua mãe. O tratamento a que se refere esta sessão se realizou em 1974.Notas 279 Capitulo 7 1. lamentando e protestando o ocorrido. no qual tinha um filho que era na realidade um filhote de cachorro. com o bisturi faca . ameaçasse atacá-la. Recorda que. Na verdade. já que esta última poderia induzir estados regressivos muito acentuados ou gerar outras respos­ tas contraproducentes no paciente (ver capítulo 10. suas exclamações “tiraram ele de mim” depois do aborto. 2. 6. quando já se achava grávida. Num nivel mais profundo. etc. Em uma sessão anterior tive a oportunidade de mostrar-lhe que fatos como sua criação de cachorros. segundo sua comparação. crianças. fantasiada como se fora esta. em parte desejada. (É comum a representa­ ção da gravidez em sonhos através de pequenos auimais. 3. 9. Podia por sua vez condensar a figura do aborteiro . o sur­ gimento dessa imagem poderia estar vinculado à operação de apendicite de sua progenitora. A paciente acreditava que um aborto poderia‘libcrá-la da situação persecutória e ignorava que o mais provável era que contribuísse para acen­ tuá-la. quem. ponto 2). quando criança. que ameaça com morte ou aborto parece completar-se aqui com uma imagem da màe descontrolada e armada com uma faca. há indícios de que sua màe sofrera aquela intervenção cirúrgica como uma indução ou provocação. é discutida na medicina a existência de apendicite crônica como entidade nosológica. do aborto (durante a operação.

sentindo-se uma mãe oni­ potente. Considero que. Capitulo 8 1. preferiu-se não abordar certos níveis. sob o título “Dificuldades dei terapeuta para la práctica de la psicoterapia breve”. Este capítulo tem como base um trabalho que apresentei no Primeiro Congresso Panamericano de Medicina Psicossomática. além do mais. Se bem que desta vez. na interpretação imediata ou não das mesmas. Podem-se notar aqui. atentando sobretudo para o estado de gravidez da paciente e evitando. O surgimento de hipóteses acerca dc profundas situações persecutórias não deve culminar necessariamente. na tarefa interpretativa. esse sentimento não é outra coisa senão o que sente a mãe com respeito à sua divina indispensabilidade para com seu infante. Assinala também “(. realizado em Buenos Aires.280 Psicoíerapia breve de orientação psicanalitica esgrimindo a cureta (como representante da imago materna filicida) com sua própria figura. no fato de fazer o tratamento às escondidas do marido).. considerou que a relação analítica é uma relação simbiótica c realizou importantes contribuições para o tema (4). “o Deus criador na situação terapêutica”. em 1972. Diz Searles que o analista chega a sentir por momentos que é o único terapeuta no mundo que pode curar esse paciente. o que fica claramente eviden­ ciado sobretudo no início (Allcgro [1]). Recorde-se também que foi aproximadamente ao término do tercei­ ro mês dc gravidez que sua mãe precisou ser submetida à intervenção cirúr­ gica. uma grande mobili­ zação emocional com eventuais reações que pudessem ser perturbadoras e difíceis de controlar. como os concernentes ao con­ flito edípico (as fantasias incestuosas. J. Em nosso meio.) depois de tudo. fantasias transferenciais eróti­ cas que não foram interpretadas. ainda que detectadas (aparecem em PI 7. pleno de necessidades” (15). insisto. 2. Bleger. 10. A propósito. 3. 12. 11. Mas disto se depreende a importância de sua . as dificul­ dades a que me refiro neste capítulo persistem no momento atual sem maio­ res modificações.por mim. considero que tais elementos devem ser instrumentados com muito cuidado numa psicoterapia breve. apesar do tempo transcorrido. entre outros. O surgimento dessas emoções no terapeuta é parte fundamental da contratransferência e de nenhuma maneira implica necessariamente que nele exista uma situação patológica. a ponto de atentar contra a gravidez (aborto). por exemplo). 4. assim.. o ponto de urgência dessa sessão compreende o temor de ser abortada expulsa . Transferencial mente. foi-se aprofundando progressivamente o trata­ mento.

pois seus próprios conflitos poderiam ligá-lo em demasia ao paciente como objeto gratificante. sobretudo quando se trata de uma terapia breve. negam quão profundamente querem essas gratifica­ . que por sua vez reativava o da perda de sua mãe.Notas 281 análise pessoal. É de supor como e quanto essas circunstâncias podem complicar uma psicoterapia. mas. tratando-se de uma psicoterapia hospitalar. não limitado ao que assinala Freud em suas obras com rela­ ção ao masoquismo (5). o que revela que não pode renunciar aos desejos terapêuticos próprios de sua formação psicanalítica. (O grifo é meu. Utilizo a denominação reação terapêutica negativa num sentido amplo. Tratava-se de um paciente com marca­ dos componentes obsessivos e um núcleo melancólico. além disso. Propõe que se interprete a transferência desde o começo e com freqüência (12). O perfeccionismo terapêutico {furor curandis) pode constituir um sério inconveniente. 5. e a relaçào com ele poderia tender a adotar uma modalidade simbiótica tal. que o paciente significa muito para ele. especialmente se é breve. (ver capímlo 13. Disse Alexander: “Não se deve esquecer que as sessões diárias exer­ cem uma influência sedutora sobre a tendência regressiva (. Também acontece freqüentemente que o terapeífta divirja a respeito da melhoria produzida nos problemas atuais do paciente. pois mantém uma posição oposta acerca deste problema decisivo. referindo-se à fase de resolução da simbiose terapêutica: “Alguns terapeutas negam que na realidade a terapia vai bem. 2.) * 8.. Seria um exemplo claro o caso do terapeuta que carece de descendência e que vê em seu paciente um filho. que durante a ava­ liação mostrou-se francamente hostil. Refiro-me ao caso de A. 4. se comprova que não vem acompanhada do ganho de mudanças profundas na personalidade. e até fazê-la fracassar. Searles diz. uma grande disposição para estabelecer vínculos de características regressivas e simbióticas. Isso se manifesta de uma maneira maiá acentuada quando o terapeuta possui uma orientação predominantemente kleiniana. ou seja. O psicodiagnóstico inicial havia revelado. não havia possibilidade de se efetuar outro tratamento que não fosse o de tempo limitado. 3. acontecida quando ainda era menino (1). p. Malan é uma exceção.) do paciente”( 1). Capítulo 9 1. 7. 6. 195). Provavelmente a cor negra representava além disso o luto diante do luto ocasionado pela separação. que dificultaria a individualização do pa­ ciente no processo terapêutico.. com relações de objeto muito ambivalentes. em que devemos nos conformar com objetivos limitados.

4. Malan (6) diz que um terço da duração da terapia deve ser destinado. como é o caso do paciente a quem pertencem os sonhos que figuram neste capitulo.282 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica ções que obtèm ou obtiveram. Cabe acrescentar além disso que apesar de fenômenos como as curas transferenciais constituírem uma falsa solução do conflito. Concordo com Fiorini quando por sua vez assinala que em psicotera­ pia breve “poder-se-ia questionar a validade de uma linha interpretativa foca­ lizada nas vivências transferenciais diante do luto determinado pela alta” (4). Obstinado em alcançar o autodesenvolvímento do pacien­ te. operando mais por sugestão e como um superego severo e exi­ gente. pode ser conveniente ir reduzindo progressivamente o número de sessões semanais. uma evolução favorável no pacien­ te. em todos os casos. 117 s. pp.a supressão sintomática na área do mundo externo. p. 6. com o que pode provocar . mas com a agravante de condenar o paciente a exteriorizar a posteriori o conflito (que obviamente . As técnicas dramáticas podem constituir um recurso útil para conse­ guir a mobilização do paciente e combater a intelectualização. em seu entusiasmo. Um risco particularmente temivel dentro da perspectiva da reaparição de manifestações sintomatológicas constitui o fato dc que as mesmas tenham lugar em nível somático. especialmente se forem recentes e/ou patológicos. Outra possibilidade seria dada poruni eventual emprego do método da associação livre (ver capí­ tulo 6.em seu afa por conseguir “mudanças” . Em certas ocasiões. 93). nossas expectativas deverão continuar centradas na obtenção do insight.. tal como as mencionadas no capítulo 6. segundo Alexander e French existem algumas bastante duradouras e até permanentes. 2. 8. sobretudo se se dispõe de relativamente pouco tempo de tratamento. A situação costuma complicar-se ainda mais quando se deve efetuar uma terapia de tempo limitado cm pacientes que já vêm suportando lutos sig­ nificativos. cqndicionado pelo espaçamento dos encontros. pelo que esses autores não deixaram dc valorizar seus efeitos terapêuticos (1) (2) (3). a separação consecutiva ao tér­ mino da terapia através de um desprendimento gradual. De qualquer maneira. Essa conduta pode facilitar. por sua vez. ao trabalho interpretativo em tomo da terminação. e quão profunda c a sensação de perda que tra­ rão consigo as mudanças” (7). Em alguns casos cabe pensar se o terapeuta. não funciona às vezes no tratamento breve efetuando uma “proibição” do sintoma. sempre que exista. Capítulo 10 1. poderia fomentar saídas maníacas pseudo-independentes. 5. 7. 3. Esse perigo pode ser maior se o terapeuta tem tendências maníacas inconscientes (6). no paciente.

cabe esclarecer que o inverso é possível. Refiro-me aqui principalmente à passagem para um tratamento psicanalítico. ao menos de imediato. ou por último a que tal desenvolvimento poderia ver-se restringi­ do ou exaurido sem produzir nenhum efeito favorável. por exemplo. 8. Capitulo 11 1. à necessidade de desenvolvimento de pro­ cessos elaborativos pós-tcrapêuticos que demandarão mais tempo para dar seus frutos. minucioso e dotado de sólidos fundamentos psicodinâmicos. Em matéria de avaliação dos resultados terapêuticos em psicoterapia breve é obrigatório citar Malan. modificações que poderão apresentar-se ou não tempos depois. sugiro que se consulte a obra de Malan (4). É que. Área 1 da mente. 9. W olf (8) (a quem agradeço os valiosos ensinamentos que sobre este tema mc conferiu há alguns anos). Essas situa­ ções obedecem à existência de outros determinantes da problemática não elucidados durante o tratamento. Recentemente. Sempre será conveniente alertar o paciente sobre a possibilidade de reincidência dos sintomas e recomendar-lhe que o consulte se isto acontecer.permanece ativo) no terreno corporal. Para uma informação mais detalhada. através de um novo sinto­ ma e com os perigos que isso acarreta. assim como algumas idéias de Malan (4). White distinguiu a influência reciproca existente entre auto-estima c experiências de eficácia (7). 6. 2. de acordo com o esquema de Pichon-Rivière (5). existindo às vezes uma desproporção entre o insight que parece haver-se obtido e as modificações comprováveis. L. Ainda que não possamos então admitir como real g resolução que não seja acompanhada de uma conscientização da problemática correspon­ dente. 2 do corpo e 3 do mundo externo. etc. . R. 4.). Seu livro (4) contém um excelente estudo. o que além do mais equivale a supor que só conseguiu mudar a área de expressão do mencionado conflito. certa resistência da repressão. Espero que a descrição dos conceitos incluídos neste item haja alcan­ çado suficiente clareza expositiva. uma mudança favorável e esperada. | 3. que se tenha consegui­ do certo insight daquela e que sem dúvida não derive. por exemplo. isto é. ainda que fosse vencida. 5. já que por razões de espaço nào posso estender-me mais a respeito. do superego. podem persistir outras formas de resistência que obstaculizam todo progresso (resistências de ganho secundário da enfermidade. Ta[procedimento é produto de uma elaboração pessoal que incorpo­ ra elementos de um modelo tbrnecido pela lic. O agravamento apresenta-se habitualmente com a piora da sintoma­ tologia concomitante. 7.

em principio empenhados em realizar uma terapia de curto prazo. interessan­ do-se por ela.S. de acordo com o dito anteriormente. com resultado negativo em I. posto que não admitiremos como real.. A combinação impossível é a de resultados positivos em R. 10. estará mais bem preparado para en­ frentá-los e que terão provavelmente menor intensidade.da problemática central da terapia que não seja baseada no insight e em que as mudanças não sejam. tem combatido com eficácia as resistências. Mas quero advertir aqui sobre a possibilidade de ser utilizada pelo paciente como resistência ao tratamento analítico. podem aquiescer ao tratamento analítico. enfrentando situações criticas.284 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica mas acrescentando que. Desse modo. Atualmente. e em M. Foi isso o que sucedeu com uma série de casos. 12.. o interesse do paciente pela terapia breve pode simplesmente encobrir as resis­ tências à análise e estar a serviço delas. pude­ ram. Trata-se de pacientes que. A P. que como continuação do tra­ tamento breve.e sendo esta a indicação mais adequada ein ambas as ocasiões .F. Paradoxalmente. consideraremos propícia a ocasião para que tenham acesso à psicoterapia. uma vez acrescentada sua motivação para o insight. 2. talvez mais interessada porque a denominação popular do pro­ cedimento faz alusão a uma curta duração do tratamento. .. cabe oferecer-lhes assistência psiquiátrica. Este trabalho foi apresentado no Primeiro Encontro de Psicologia Profunda (Buenos Aires. Geralmente a possibilidade de recidiva da sintomatologia é maior nessas terapias do que naquelas em que o insight não predorrfina. Há pessoas que somente em momentos de crise se decidem a recorrerá consulta (1). não estão nesse momento em condições de enfrentar um processo de análise.) as dificuldades agudas da vida consti­ tuem o primeiro e principal campo para a prescrição da psicoterapia breve” (3).. mediante o tratamento prévio de esclarecimentos dos motivos particula­ res que originavam seu rechaço pelo tratamento analítico . Fcnichcl sustenta: “(.clinicamen­ te total ou parcial ..B. a população está cada vez mais informada da existência da P. modificar sua atitude e aceitar fazê-lo. Tambcm é o caso de pacientes com resistência á análise. compreensí­ veis dinamicamente. 1 1 .0 sinal © indica resultado positivo. É o caso de pessoas que. uma resolução .P. Capitulo 12 1.B.. que a título de exemplo passarei a relatar. agosto de 1978 ). Em lugar de rechaçá-las e condená-las a que se ajustem como possam às dificuldades atuais para que retornem somente quando estejam em condições de efetuar uma análise. em conseqüência.F. sua con­ fiança na psicoterapia e tendo conseguido adquirir consciência da enfermi­ dade. reaparecendo.P. 3.

. havia se psicotizado durante tratamento psicanalitico. exce­ to as já enunciadas. poderia superar sem demasiado esfor­ ço o problema atual com uma terapia interpretativa de objetivos limitados. ele nào havia ligado esse fato ao seu pedido de realizar exclusivamente uma terapia de breve duração. do ponto de vista evolutivo. consultou-me por haver sofrido uma reação fóbica ante um exame que devia fazer em sua faculdade. Sua mãe havia se casado duas vezes. a paciente se sentia sufi­ cientemente motivada para isso. 4. pôde ini­ ciá-lo pouco depois. analisada dos 12 aos 18 anos (quando lhe foi dada alta) por um prestigioso colega que havia-se radicado no exterior há um ano. procurou meu consul­ tório solicitando uma lerapia de tempo limitado. e ao mesmo tempo de um grande autoconhecimento. de aspecto agradável. um ano. por diversos motivqS. que. não achei necessário que voltasse à análise (o que parecia ter lançado. possuidora de um ego forte. Chamava a aten­ ção a insistência com que desde o começo propunha-mc que a tratasse duran­ te um ano. não havendo razões válidas para limitar a duração da psicoterapia. Tampouco pare­ ceu-me oportuno. teria que empreender com outro terapeuta. (Próxiríla de cumprir o primeiro ano de análise. no máximo. teve uma reação de “fuga à saúde”. . Uma jovem de 21 anos. A averiguação de seus ante­ cedentes revelou que tinha um irmão esquizofrênico. Na realidade. segundo o pacien­ te. a julgar por outros indícios. Pensei que a jovem. e havia-se separado de seus maridos antes de completarem 12 meses de casamento. ao nào apresentar outras dificuldades. que pude logo elaborar e controlar.. vinculado ao meio psicanalitico. foi-me enviada expressamente por seu interesse em efetuar um tratamento de breve duração. O motivo da consulta eram suas dificuldades para constituir um par estável. o qual lhe criava grandes temores e por outro lado parecia-me o mais indicado. Depois de estudar cuidadosamente o caso. obtido com a experiência analítica.Notas 285 Uma jovem. Aconteceu que os pares que havia conseguido for­ mar não conseguiam se manter mais de. O obstáculo itsistencial pôde ser vencido por meio de assinalamentos e inter­ pretações durante as entrevistas clínicas. e a paciente aceitou finalmente submeter-sc a um tratamento analitico. que retomasse nesse momen­ to à situação de dependência analítica. dada a ausência de seu analista. resultados sumamente satisfatórios). o que era racionalizado por meio de diversos argu­ mentos. O conflito que a paciente trazia para o tratamento a impedia de formar um par terapêutico com perspectivas de durar: esse era o motivo inconsciente de sua insistência na limitação temporal da terapia. Ao tomar consciência de que rejeitava a análise porque temia ter a mesma sorte do irmão. que provavelmente nào haveria de se estender durante muito tempo e que. Por sua vez. aptidão e training para o insighi. com quem mantinha uma relação muito ambivalente e ficar convencido de que necessitava de um tratamento analitico.) Um paciente.

pensou-se que tais dificuldades poderiam também relacionar-se com o ocor­ rido com sua mãe. ao ligar-se estreitamento a alguém. no qual. mostrou-se angustiado nas entrevistas pelos sentimentos que lhe inspirava seu pai: “Se solto cm cima dele tudo o que tenho para censurá-lo. do mesmo modo. ao colocar em evidência dificuldades para vincular-sc com pessoas. Finalmente.. acabo matando-o. Até antes de casar-se imaginava que seria impotente e pensava que seu pênis era extremamente pequeno. Esse fato havia sido vivido pelo paciento como uma expressão de desaprovação de sua paternidade por parte daquele. através de repetidas frases.. que poderia levá-lo a resgatar c desenvolver potencialidades egóicas. 9. 2. No psicodiagnóstico apresentavam-se fantasias de adultério de sua mulher. 8. Os fatos me dariam pouco depois razão: A. uma intenção de seduzir-me a fim de que o retivesse. um novo emprego semanas depois de terminada sua terapia. Não obstante. 4. 165 e 168). via-se per­ turbado pelo temor de se expor a uma nova frustração. já há quase três anos deste fato (entrevista de acompanhamento) conti­ . A. dc Frymer teve a seu cargo os psicodiagnósticos correspondentes. A licenciada Flora M. como a que havia sig­ nificado a perda de sua mãe. 5. A esse respeito. O sentimento de culpabilidade se exteriorizava no psicodiagnóstico através da sensação de estar “sujo".” A isso se somava a conduta de seu progenitor..286 Psicoterapia breve de orientação psicanalitica Capitub 13 1. necessitando melhorar sua situação econômica. solicitou ajuda tera­ pêutica. por iniciati­ va pessoal. Em todo caso. 11. vários sonhos e referências trazidos pelo paciente nesta etapa ilustram acerca da situação.'’ 6.. 10. a partir precisamente do qual o pa­ ciente. que foram atribuídas a esta situação. por temor ao surgimen­ to de certas fantasias.. como a seguinte. a seu progenitor).. Seus relatos de abundante material onírico quando se aproxima­ va o final do tratamento encerravam. especialmente de caráter homossexual.. Seu pai tinha ido conhecer o bebê várias semanas depois de seu nas­ cimento (o que motivou fortes reprovações de A.. os quais figuram no capítulo 9 (pp. freqüentemente recordadas pelo paciente: “Como você é mau. tenho medo de ter um ataque de raiva e dizer-lhe tudo. ao trazer-me um material que ele supu­ nha haveria de satisfazer-me e interessar-me muito. conseguiu. denotava contar com um ego observador. você me mata desse jeito. inoculadora de culpa. o nascimento do bebê pode ser visto ao mesmo tempo como um fato mobilizador e estimulante. capaz de chegar a sc conscientizar de “uma falsa ligação". pelo que. 7. O psicodiagnóstico reforçava essas pressuposições. 3.

existiam ao que parece fantasias de coitos fra­ ternos (e mais profundamente patemos). Recomendamos à mãe de J. Tanto os desejos de fellatio da paciente. Nesse sentido. A interpretação ativa desses conteúdos não foi seguida de uma reposta confirmatória imediata dela. subja­ cente aos vômitos. Assim vestida. Resultou naquele momento um dos casos mais ilustrati­ vos e polêmicos de minha experiência hospitalar c talvez o que registrou os melhores resultados terapêuticos. o que nos sugere uma conexão direta entre os desejos às fellatio e a gravidez de J. habitualmente engolindo-o e remetendo-o dentro do corpo. compareceu a vá­ rias sessões. 16. 12. dando assim lugar ao sintoma. 15. não cheguei a elucidar e interpretar os conflitos corres­ pondentes aos aspectos libidinosos da relação com seu irmão. pode traduzir-se “no desejo de adquirir um pênis. que expres­ sara um duplo jogo de sentimentos da paciente: não só se tratava de prazer que sentia por estar junto com sua mãe como também provavelmente do gozo sádico por haver se livrado definitivamente da um rival de toda a sua vida (6). mas esta colocou muitos obstáculos à sua realização. destacando assim seu principal sintoma. . Além disso. terminava expulsando-o. Mas devido a seu caráter incestuoso. Fosse ou não esse padecimento substituição do anterior. sem ter lido grandes problemas em suas relações inter­ pessoais. seguindo uma moda não demasiadamente difundida. Optei por denominar o caso desse modo. que efetuasse uma psicoterapia. com os quais intentava satisfazer tal desejo. e se achava ligado igualmente com uma tentativa reparatória ma­ níaca diante da perda. começasse a se vestir com uma ostentação masculina. 13. e como autocastigo. isto se‘Yelacionava com fanta­ sias de introjeção ambivalente do objeto perdido (irmão). especialmente de seu pênis. 14. Por outro lado. 17. Resultou justamente digno de nota que J. Para ela mesma. c com melhor retribuição econômica. É interessante recordar aqui um dos sentidos que E. o qual é em geral um indicio favorável no curso de um tratamento. nas quais a boca substituía por deslocamento a vagina. como os de gravidez. freqüentemente transformando-o num menino" (7). e devido também a um intenso desejo de recuperar o obje­ to perdido (pênis incestuoso).Notas 2S7 nuava trabalhando. querendo ela aparecer ante sua mãe como se fora seu irmão através de uma identificação com ele. De acordo com o psicodiagnóstico. Pode considerar-se esta palavra Como palavra-sintoma. Jones atribui à inveja do pênis. houve de todo modo mobilização de um sintoma crônico. a perda de seu companheiro reativava a perda daquele. reme­ tiam a seu complexo de castração (no qual não se aprofundou demasiado durante a terapia). Demonstraria logo uma grande facilidade para trazer material focal e adequado para a exploração profunda.

que evitava contar-me algo que pudesse nos colocar em desacordo. mas também pretendia ocultar-me conflitos não-resolvidos com seus sentimentos de gratidão. nessa observação da paciente. pela existência de lutos patológicos de grande envergadura. Uma interessante condensação se deu num pesadelo em que via sua irmã. Isso sugeria também que J. Justamente. os resultados favoráveis obtidos no momento da avaliação. associados às limitações temporais próprias da expe­ riência clínica realizada. Ao que parecia. Pensei se isso não significaria. a experiência que significou assistir a essa paciente contribuiu para que se prestasse atenção ao problema. a qual constituiu uma descoberta registrada em pleno processo terapêutico. 20. afogando-se no mar. em seu extenso relato. como podem ser os desencadeados por motivo de perda de seres queridos. Existe uma certa analogia entre a abordagem do foco terapêutico e o que praticava Freud com o sintoma em seus primeiros tratamentos (Isabel de R. Inclusive acreditei notar. dado por sua relação de dependência infantil com a mãe.288 Psicoterapia breve de orientação psicanalítica Além disso. 21. novamente. 23. Por último. além do mais. A tudo isso contudo se somou o fato de se considerar o caso de J. J. 18. A diferença reside em que atualmente contamos com a vantagem de possuir novos conhecimentos que ampliam nossa compreensão profunda. J. sem dúvida. isso não se fez basicamente porque no princípio se ignorava que existisse uma vinculaçâo tão direta entre os sofrimentos atuais da paciente e o luto. como um dos de patologia menos severa dentre os tratados. Eu lambem não havia refletido até esse momento a res­ peito da necessidade de se levar em conta a situação especial que se coloca. Isto não surpreendeu mais. os transtornos e prejuízos que lhe acarretou esse novo padecimento eram em troca muito menores que os que lhe ocasio­ naram seus vômitos. já que nela estava muito acentuado o par voyeurismo-exibicionismo (seguia estudos de modelo publicitário). a qual pode-se considerar um antecedente técnico da terapia focal). também ligava inconscientemente o terçol com desejos escatofílicos e seu caráter doloroso com o castigo diante de tais desejos. grávida. Na verdade. o que não foi interpretado. 19. que o próprio criador da psicanálise se encarregou de nos trazer (a sexualidade infantil. era capaz de evidenciar pro­ gressos e não necessariamente que o esforço terapêutico fosse infrutífero (9). fizeram rejeitar a alternativa de um recontrato. especialmente o complexo de Édipo que nessa época naturalmente ainda não havia descoberto). Cabe acrescentar que no dia anterior (domingo). que não só queria. na aplicação de terapias de curto prazo. por exemplo. 22. contar-me tudo o que havia obtido de positi­ vo da terapia. pelo que se lhe fixou uma duração de três meses apenas. o que havia agido como estímulo. e demais históricos incluidos em "Estudos sobre a histeria” [5]. tinha saído a passeio com um casal de noivos. Isso me pareceu uma racionalização de um problema não totalmen­ te resolvido. Fc- .

P. excluem-se dessa lista I.F.Ver tabela que consta na pág. . 203. . se recordamos que Freud. Quer as recaídas se traduzam indistintamente na reaparição dos sin­ tomas quer na aparição de novas manifestações sintomatológicas. tanto para a avaliação imediata como mediata. Sabemos que cada paciente necessita de seu próprio tempo. do T. De acordo com as siglas utilizadas no capítulo 11 (pp. Capítulo 14 1. tinha pelo visto um rápido timing.P. N. chegou a interpretar as fantasias de fellatio que subjaziam à tosse nervosa da paciente (4). pelo contrário.). que foi o que durou essa análise. 24.F.. 3. já em 1900. 202 ss. e R. os benefícios foram apreciáveis. com considerável capacidade de insight. dando a impressão de que o tempo combinado para a terapia havia sido suficiente para o sucesso daqueles. 2. Em caso de se tratar dc uma psicoterapia em que predomina o reforçamento egóico. 1 I . que a fez responder satisfa­ toriamente a uma terapia intensiva de curta duração.1. no tratamento de Dora e num período de três meses apenas.lizmentc não houve conseqüências negativas a lamentar. Por sua vez tais interpretações não devem causar maior surpresa.

-O ^SSb nesses métodos G 34217 . o insight a ela­ boração etc. mas contribuindo também com suas idéias pessoais. O livro traz também temas de importância prá­ tica indubitável: as entrevistas preliminares. mas se diferencia da sua técnica clássica. Nesta obra o autor procura estruturar uma modalidade técnica deste tipo de terapia. Desenvolve intenitra mais de quinze . a avaliação dos resultados terapêuticos. adquiriram fundamental importância ante a demanda maciça de assistência psicológica. como o trabalho com os conflitos. a interpretação. como a transferência. as resistências. as indicações do X ' ). Incluindo pontos que são objetos de polêmicas tradicionais. o autor aborda outros pontos pouco discutidos anteriormente. particularmente as chamadas breves. que reconhece a psicanálise como fonte.As psicoterapias de orientação analítica.

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