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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

INSTITUTO DE PSICOLOGIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICANÁLISE

MESTRADO

Pesquisa e Clínica em Psicanálise

MARIA ELIZABETH DA COSTA ARAUJO

AUTISMO E CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO

Dissertação de Mestrado

RIO DE JANEIRO, JANEIRO DE 2006

AUTISMO E CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO

MARIA ELIZABETH DA COSTA ARAUJO

“Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Psicanálise da Universidade do Estado do Rio de Janeiro como requisito parcial para obtenção de Título de Mestre em Psicanálise”

“Orientador: Prof a . Dr a . MARCIA MELLO DE LIMA”

RIO DE JANEIRO, JANEIRO DE 2006.

Agradeço,

AGRADECIMENTOS

Para Carolina e Lucas

Aos meus filhos, MARIA CAROLINA ARAUJO VARELA e LUCAS ARAUJO VARELA, cuja alegria e descontração me serviram de amparo. Aos meus pais, ALBERTO LEMOS ARAUJO e MARIA DIVA DA COSTA ARAUJO, pelo gosto pela matemática e pela criatividade.

A HUMBERTO JOSÉ MARTINS, pelo carinho e por seus freqüentes questionamentos.

A MARY KLEINMANN, pela competência em seu ofício.

A RENATA SANTOS SOUZA, pela cumplicidade com que tem assessorado boa parte

de meus afazeres, inclusive dessa dissertação.

A PAULO VIDAL, pela gentileza de sua escuta e pela agudeza de suas intervenções.

A GERALDO CHIOZZO DE OLIVEIRA, reumatologista, JÚLIO CESAR MATHIAS,

ortopedista e VALÉRIA MATHIAS, fisioterapeuta, de cuja competência profissional dependi para levar adiante esse trabalho. Ao SERVIÇO DE PSICOLOGIA APLICADA da Universidade Federal Fluminense, pelo incentivo e acolhida nesse momento de conclusão. Aos ANALISANDOS e PACIENTES, por seus ensinamentos. Aos AMIGOS, porque a amizade é imprescindível.

RESUMO

Orientada pelas questões colocadas pela clínica em geral, e em particular pela clínica do autismo, a dissertação versa sobre a constituição do sujeito segundo a teoria freudiana lida por Jacques Lacan. Após expor a concepção de aparelho psíquico e do conceito de representação, é abordado o momento originário da constituição subjetiva, na qual o sujeito emerge na dependência da representação que marca o destacamento de um objeto ao qual o sujeito estará sempre atrelado. A partir dessa referência, o ponto de impasse em que o sujeito autista é aprisionado pode ser abordado nos termos de uma

falha na constituição da representação, fazendo do autista objeto de um gozo com características singulares.

RÉSUMÉ

Orienté par les questions posées par la clinique en général, et la clinique de l'autisme en particulier, ce mémoire porte sur la constitution du sujet selon la théorie freudienne lue par Jacques Lacan. Après une exposition de la conception de l'appareil psychique et du concept de représentation, on a trait au moment originaire de la constitution subjective, dans laquelle le sujet émerge sous la dépendance de la représentation qui signale le détachement d'un objet auquel le sujet est toujours attaché. À partir de cette référence, le point d'impasse où le sujet autiste est emprisonné peut être approché en termes d'un défaut dans la constitution de la représentation, qui fait de l'autiste l'objet d'une jouissance avec des caractéristiques particulières.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

01

PRIMEIRA PARTE: FUNDAMENTOS TEÓRICOS

09

CAPÍTULO I – A MÁQUINA DA LINGUAGEM

10

1.1 - As transferências de energia

11

1.2 - Memória e princípio do prazer

15

1.3 - O sistema consciente

17

CAPÍTULO II – DA REPRESENTAÇÃO AO GOZO DE ALÍNGUA

25

21

2.1- A experiência alucinatória de satisfação

21

2.1.1 - O grito

23

2.1.2 - A primeira experiência de satisfação

 

2.2 - A Carta 52

27

2.2.1 - A percepção e os signos: W e Wz

28

2.2.2 - O inconsciente, a repetição e o significante: Ub

29

2.2.3 - O pré-consciente: Vb

31

2.3 - A função intelectual do juízo como ato fundador da realidade 2.3.1 - O juízo de atribuição: a instauração do signo algébrico da Bejahung

32

33

 

2.3.2

- O juízo de existência : a realidade como mundo das representações

34

2.4 - O circuito pulsional

37

 

2.5 - O olhar do Outro na construção da realidade

40

2.5.1 - O esquema óptico

40

2.5.2 - “O desejo emerge em confronto com a imagem”

41

 

2.5.3 - A nomeação

43

2.5.4 - O campo da realidade

43

2.6 - O gozo

47

2.7 - O gozo de alíngua

49

2.8 - Em síntese

53

SEGUNDA PARTE: A CLÍNICA DO AUTISMO

55

CAPÍTULO III – A REPRESENTAÇÃO NO AUTISMO

56

3.1 - A linguagem não foi feita para comunicar

57

3.1.1 – Os signos perceptivos

3.1.2 – A função do juízo no autismo

60

61

3.1.3

- O episódio da água

3.1.4 – A Holófrase

64

3.2 - A especularidade no autismo

66

CAPÍTULO IV - A REALIDADE E O GOZO NO AUTISMO

74

4.1- O caso Dick e a realidade

75

4.2 - O sujeito autista e o Outro – Uma realidade não alucinada

77

4.3 - As conseqüências da não nomeação – O esquema óptico

80

4.4 - O gozo no autismo

82

4.4.1 - A lógica da estrutura moebiana no autismo

83

4.4.2 - O gozo no campo do duplo: a máquina do abraço

84

CONCLUSÃO

90

BIBLIOGRAFIA

INTRODUÇÃO

“Pode acontecer que um sujeito que dispõe de todos os elementos da linguagem, e que tem a possibilidade de fazer certo número de deslocamentos imaginários, que lhe permitem estruturar seu mundo, não esteja no real. Porque não está? –

unicamente porque as coisas não vieram numa certa ordem. A figura no seu conjunto está perturbada. Não há meio de dar a esse conjunto o menor desenvolvimento”. 1

A clínica do autismo despertou meu interesse no início da formação em

psiquiatria quando, ainda como estudante de medicina, estagiei na enfermaria de

crianças psicóticas e autistas da Casa de Saúde Saint Roman. Daquela ocasião, ficou

registrada a angústia que experimentei diante de crianças tão inacessíveis e, em muitos

momentos, desesperadas, cuja convivência me propus a suportar dois turnos por

semana. Eram cerca de vinte crianças em regime de internação. As mais graves tinham

o diagnóstico de autismo. A despeito da pobreza institucional, a equipe buscava uma

leitura kleiniana, o que, para mim, parecia quase tão incompreensível quanto o

comportamento e a fala daquelas crianças estranhas. Assim procedi minha primeira

leitura do caso Dick 2 , descrito por Melanie Klein, e do clássico livro de Francis Tustin 3 .

Ao longo de uma trajetória de cerca de vinte anos de trabalho como psiquiatra e

psicanalista, tive oportunidade de deparar-me, em alguns momentos - não muitos - com

essas crianças diagnosticadas como autistas, que compõe uma clínica tão singular. Foi,

em primeiro lugar, a insistência de um casal de pais na busca de tratamento para seu

filho autista que me proporcionou a oportunidade de aprender um pouco mais sobre esse

assunto e elaborar a experiência, que não deixara de ser traumática, dos tempos de

faculdade. Em segundo lugar, o sujeito autista suscita, tão claramente, questões que

dizem respeito à relação com o outro, à fala, à singularidade com que constrói sua

realidade, que nos remetem indubitavelmente às origens do sujeito e, portanto, podem

trazer esclarecimentos quanto à constituição do sujeito. Em terceiro lugar, e mais

recentemente, ao voltar-me para o estudo do autismo pude perceber um incremento nas

pesquisas sobre esse tema a despeito da raridade de sua prevalência.

O termo autismo foi cunhado por Eugen Bleuler por subtração de eros do termo

auto-erotismo inventado por Havellock Ellis e retomado por Freud. Bleuler designou

como autismo o estado de alheamento e de desinvestimento no mundo, gerador de certa

1 LACAN, J. - O Seminário, livro 1, Os escritos técnicos de Freud (1953-54) Rio de Janeiro, Zahar Editores S.A., 1983, p.105

2 KLEIN, M. - Amor, Culpa e Reparação (1921-1945), Rio de Janeiro, Imago Editora Ltda., 1996.

3 TUSTIN, F. – Autismo e Psicose infantil (1972), Rio de Janeiro, Imago Editora Ltda, 1975.

auto-suficiência, que se expressa na analogia proposta por Freud, de um ovo que encontra em seu interior tudo que precisa. Ao autismo foi atribuído lugar de destaque entre os sintomas mais importantes da patologia descrita por Bleuler: a esquizofrenia.

Em 1943, Leo Kanner, em Baltimore, descreveu, pela primeira vez, o que chamou distúrbio autístico do contato afetivo, síndrome de aparecimento muito precoce, que tinha o fechamento autístico como sintoma fundamental. Simultaneamente, Hans Asperger, em Viena, trabalhava na descrição de uma síndrome com traços bastante semelhantes, embora mais amenos, que denominou psicopatia autística, e que ficou conhecida posteriormente como Síndrome de Asperger.

Kanner considerou, inicialmente, a incapacidade de estabelecer relações desde o princípio da vida, como o sintoma patognomônico do autismo. Em 1955, esse autor estabeleceu dois sintomas fundamentais no autismo: o desejo de solidão (aloneness), que se expressa na busca de um isolamento profundo; e a preocupação com a imutabilidade (sameness), evidenciada na intrusão assustadora que a modificação no meio interno ou externo conota. Com o avançar da idade costuma haver, em grau variado, a ruptura da solidão e a aceitação de algumas pessoas, embora sempre persista um nível elevado de isolamento afetivo.

Ao nascer, a criança autista não apresenta indício em seu organismo, que sugira o desenvolvimento da síndrome. Desde os primeiros anos de vida, gradativamente, torna- se manifesto que ela estabelece uma relação muito especial com o mundo que a cerca. As primeiras manifestações podem ser sutis e costumam passar despercebidas. Freqüentemente há relatos de que o bebê não se “aninha” quando é colocado no colo, por isso é muitas vezes incômodo e desconcertante segurá-lo. Às vezes são “bonzinhos” demais, às vezes choram demais. Eles não “conversam”, os sons que emitem não são compatíveis com o balbucio comuns nos bebês a partir do terceiro mês. O bebê autista não faz “gracinhas” visando seduzir aquele que se ocupa dele.

Na medida que a criança vai crescendo, o fechamento em comportamentos ritualizados torna-se mais perceptível, e verifica-se um surpreendente desinteresse pelos acontecimentos e pessoas. O manuseio dos objetos, não caracteriza o brincar, mas a estereotipia e a perda do caráter de exterioridade desses objetos. Isso nos sugere que o

autista vive imerso numa realidade onde haveria uma espécie continuidade e indiferenciação entre o eu e o mundo externo.

Uma das características mais marcantes nessas crianças é a precisão com que registram as imagens tanto visuais quanto auditivas. Desta forma, são os primeiros, e às vezes os únicos, a notar a falta - ou a mudança de lugar - de um objeto no ambiente. Freqüentemente, são capazes de reproduzir literalmente falas – mesmo longas - que registraram em alguma ocasião, às vezes, única. É comum que essa percepção particular das coisas se expresse através de crises espantosas de agitação e angústia, que podem incluir a heteroagressividade, mas quase nunca excluem a autoagressividade.

O autista apresenta uma linguagem muito específica. A linguagem verbal pode estar completamente abolida ou limitar-se à repetição monótona de palavras, como a repetição continuada de anúncios publicitários, seqüência de números, séries de palavras, etc. Podem ocorrer alterações das palavras por assonância, duplicação ou triplicação de letras. Utiliza verbalizações aparentemente sem sentido e, sobretudo, sem endereçamento, que não escaparam às primeiras observações de Leo Kanner. Entre as onze crianças observadas em sua primeira descrição, ainda que oito falassem e três fossem “mudas”, ele afirmou que não havia diferença fundamental entre as que falavam e as que não falavam, pois a linguagem não servia para transmitir qualquer mensagem aos outros. Um fenômeno gramatical despertou, desde o início, a atenção de Kanner:

os pronomes pessoais são repetidos exatamente como são ouvidos”, não havendo a inversão pronominal. Ele também destaca, “a excelência da capacidade de memorização decorativa” dos autistas 4 .

Tal como os autistas descritos por Kanner, os portadores de psicopatia autística, descritos por Asperger também apresentavam o retraimento social e afetivo como traço fundamental. Igualmente, foram verificadas estereotipias de palavras e movimentos, como também uma marcada resistência a mudanças. Embora coincidam no sintoma preponderante, as síndromes descritas por Asperger e por Kanner diferem em aspectos relevantes. Entre eles, a amenidade dos sintomas e a posição decidida de Asperger quanto à diferenciação das esquizofrenias. Em conseqüência, desde que Utah Frith, em

4 KANNER, l. – Os distúrbios autísticos do contato afetivo, in: ROCHA, P. S. (Org.), Autismos. São Paulo, editora Escuta, 1997.

1991, traduziu o trabalho de Asperger para o inglês, promovendo seu merecido

reconhecimento, muitas discussões têm sido levantadas, sobretudo no sentido de decidir

se devem ou não ser consideradas como a mesma síndrome, e se esta deve ou não ser

incluída entre as esquizofrenias. No momento, existe uma forte tendência em considerar

ambas as síndromes como expressões diversas de um mesmo quadro patológico, visto

que a Classificação Internacional de Doenças em sua décima edição – CID X - inclui

ambas entre os Transtornos Invasivos do Desenvolvimento, diferenciando-as dos

Transtornos Emocionais e de Comportamento da Infância.

A partir da década de 60, iniciaram-se as primeiras pesquisas sobre o autismo no

campo cognitivo-comportamental, o que vêm avançando e assumindo crescente

expressão. Convém destacar que a idéia de excesso – traço destacado pelos psicanalistas

ingleses -encontra-se também presente na teoria de Baron-Cohen, em cuja concepção o

autismo corresponderia a um excesso de masculinidade. Esse excesso levaria a um

defeito na interação com o semelhante, considerado por eles um defeito cognitivo.

Simon Baron-Cohen, cognitivista renomado por suas pesquisas com autistas, considerou

que:

Kanner, que no artigo original em que delineou esta desordem, descreveu o autismo como uma alteração puramente emocional, o que foi desde logo entusiasticamente aceito pelos autores psicanalíticos, interessados na relação mãe-bebê e no seu papel causal no autismo.”

5

Contradizendo as palavras de Baron-Cohen, Kanner concluiu o artigo de 1943

declarando que, em seu entendimento, a precocidade do aparecimento e o

desenvolvimento dos quadros autísticos remetem a uma incapacidade inata,

biologicamente determinada, que compromete os estágios iniciais do desenvolvimento

da fala e da linguagem, ao dizer que:

devemos supor que estas crianças vieram ao mundo com uma incapacidade inata de estabelecer o contato afetivo habitual com as pessoas, biologicamente prevista, exatamente como outras crianças vêm ao mundo com deficiências físicas ou intelectuais”. 6

5 BARON- COHEN, S. – Autismo: uma alteração específica de “cegueira mental”, in Revista Portuguesa de Pedagogia Ano XXIV, Coimbra, 1990. p. 408. 6 KANNER, L. – Os distúrbios autísticos do contato afetivo, op.cit.

Embora as palavras de Kanner mencionadas acima contradigam o entendimento

de Baron-Cohen, de fato, Kanner valorizou o aspecto emocional e isto pode ter

contribuído para que os psicanalistas tenham sido os primeiros a se dedicarem ao estudo

das crianças autistas.

A partir da década de 80, surgiram publicações de autistas de alto nível, tais como

de Temple Grandin, Donna Williamn, Amelie Nothomb, também chamados savant, nas

quais são fornecidos elementos esclarecedores a propósito do funcionamento psíquico

autista. Através desses depoimentos, cai definitivamente por terra a concepção de que

esses sujeitos seriam seres isentos de angústia e de atividade mental, tal como fora

afirmado por Donald Meltzer. A idéia do autismo como um estágio normal do

desenvolvimento pode também ser considerada inteiramente ultrapassada. A própria

Francis Tustin, maior defensora dessa noção, as reformulou em suas últimas

colocações 7 . O entendimento do autismo como quadro predominantemente reativo,

segundo as idéias de Bruno Bettelheim 8 , encontra-se hoje bastante enfraquecida.

Porque o autismo tem despertado tanto interesse? Sessenta anos depois da

descrição de Kanner a profusão de trabalhos sobre o autismo, nas mais diversas

abordagens e propostas, vem situá-lo como paradigma de uma nova concepção da

doença mental, capaz de afinar-se com a mutação social que testemunhamos nos tempos

atuais. Comprovando essa idéia, autores de diferentes abordagens dão ao autismo lugar

de destaque. Assim, Pierre Fedida estabelece o autismo como paradigma

psicopatológico. Marie-Christine Laznik acredita que a partir do estudo do autismo

podemos chegar a uma nova leitura da metapsicologia. Jacques-Alain Miller também o

estabeleceu como um paradigma, desta vez, paradigma do gozo do Um, que ocupa lugar

de destaque nos últimos anos do ensino de Lacan.

A psicanálise se caracteriza por articular que os estados psíquicos correspondem à

posição na qual o sujeito se coloca frente ao mundo em que se insere. Considerando que

essa posição é da ordem de uma escolha inconsciente, esse sujeito é,

inquestionavelmente, responsável por ela. O sujeito requer uma constituição. As

7 TUSTIN, F. - Entrevista com E. Vidal, in Letra Freudiana. O Autismo. VIDAL, M.C. (org.), Rio de Janeiro, Livraria e Editora RevinteR Ltda, 1995, p.85.

8 Idem, ibidem.

manifestações que observamos no autismo nos remetem à diversidade de uma escolha

ocorrida num momento muito precoce de sua existência.

A concomitância, no autismo, de três aspectos - a estranha relação com o

semelhante, a excentricidade da linguagem, o enigma de sua realidade - sugere a

articulação entre eles. Para estabelecer tal articulação, tomo como referência a teoria

psicanalítica a partir das colocações de Freud e de Lacan a propósito da constituição do

sujeito priorizando o vínculo com a linguagem.

Esse estudo do momento mais primitivo da subjetividade prioriza abordar as

particularidades implicadas na emergência da Vorstellung – a representação – segundo

as premissas de Freud e tomando como referência o conceito de gozo postulado por

Lacan, interrogar, como se dá o gozo no autismo. Duas colocações de Lacan marcam

meu ponto de partida. Uma no Seminário 3:

“Não esqueçam jamais que nada do que diz respeito ao comportamento do ser humano como sujeito, e ao que quer que seja no qual ele se realize, no qual simplesmente ele é, não pode escapar de ser submetido às leis da fala.” 9

E outra na Conferência de Genebra sobre o Sintoma, onde refere-se aos autistas

dizendo:

[Os autistas], “você não pode dizer que não falam. Que você tenha dificuldade para escutá-los, para dar alcance ao que dizem, não impede que se trate, afinal, de personagens muito verbosos”. 10

Desta forma, tomo como ponto de partida a assertiva de que os autistas estão

inseridos nas leis da linguagem. O modo singular como se servem da palavra, de tal

forma que não possamos identificar ali uma intenção de comunicação, poderia colocar

em questão a própria constituição da fala, ou mesmo a inserção do sujeito na linguagem,

isto é, em sua condição de ser falante.

9 LACAN, J. - O Seminário, livro 3, As Psicoses (1955-56) Rio de Janeiro, Zahar Editores S.A., 1985,

p.100

10 LACAN, J. – “Conférence à Genève sur le symptôme”, in Le Bloc-Note de la psychanalyse, n°5, Paris, 1985, p. 17

Tomando a psicanálise como caracterizada por destacar a responsabilidade do sujeito perante sua expressão sintomática, não podemos senão considerar que há uma

escolha implicada na posição autística. A escolha, segundo a psicanálise, diz respeito à posição que o sujeito assume frente ao Outro e ao gozo que lhe é próprio. Isso nos leva

a interrogar quanto à posição do sujeito autista frente ao Outro e a natureza do gozo que ali comparece.

É certo que quanto mais precoce a intervenção terapêutica, melhores serão os resultados. Atualmente se trabalha no sentido de conscientizar aqueles que cuidam de crianças pequenas, sobretudo os pediatras, quanto aos indícios precoces de autismo. No

entanto, o diagnóstico ainda não costuma ser feito antes do terceiro ano de vida, quando

o isolamento já se encontra bastante avançado.

Essa dissertação corresponde à trajetória que me foi possível trilhar ao longo desses três anos de mestrado, orientada pelas questões colocadas pela clínica em geral, e em particular pela clínica do autismo. Assim, o primeiro capítulo apresenta uma breve exposição a respeito da concepção de aparelho psíquico e do conceito de representação para a psicanálise. No segundo capítulo serão abordadas algumas referências de Freud e Lacan no que diz respeito ao momento originário da constituição subjetiva. A identidade promovida pelo significante cria a realidade psíquica na qual cada sujeito se insere. O capítulo três versa sobre as consequências da falha na constituição da representação no autismo. Finalmente, o capítulo quatro trata da realidade e do gozo no autismo. A realidade que se constrói no enodamento entre Real, Simbólico e Imaginário permite que o gozo compareça como sifgnificação fálica. O autista, por estar impedido de acessar ao gozo pela via fálica fica limitado à pobreza de um gozo real.

CAPÍTULO I

A MÁQUINA DA LINGUAGEM

A psicanálise surge, no início do século XX, como uma invenção de Freud para

dar conta do que se passava no psiquismo de seus pacientes. Em seus primórdios,

influenciado pela neurologia, Freud elaborou o “Projeto para uma Psicologia

Científica11 - ao qual passarei a referir-me como o Projeto –, visando uma abordagem

neurofisiológica do aparelho psíquico. O resultado foi uma certa neurologia fantástica 12 ,

que não o entusiasmou a publicar. Hoje, quando Eric Kandel confirma as hipóteses

freudianas ao nível do funcionamento neurobiológico 13 , pode-se supor que as idéias de

Freud eram demasiadamente avançadas para os conhecimentos histo-fisiológicos da

época.

Antes de Kandel, Jacques Lacan já havia valorizado esse trabalho de publicação

póstuma, ao destacar que, nele, Freud construiu, na superfície do organismo, uma

verdadeira topologia da subjetividade ao desenvolver “a teoria de um aparelho

neurônico em relação ao qual o organismo permanece exterior, assim como o mundo

exterior14 . A abordagem de Lacan concebe que toda ação humana se desenvolve na

dimensão da linguagem 15 , uma vez que “os processos simbólicos dominam tudo”. 16 Em

seu entendimento, no Projeto se verifica a estruturação do mundo da realidade em

termos significantes, no interior do corpo primordial 17 , ao qual permanece externo.

11 FREUD, S. – Proyecto de una psicologia para neurologos (1895[1950] ) in Obras Completas, Vol. I, Madrid (España), Editorial Biblioteca Nueva, 1981.

12 GARCIA-ROZA, L. A. – Sobre as afasias (1891), O Projeto de 1895, in Introdução à metapsicologia freudiana, Vol. I, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor Ltda., 1991, p.80.

13 Pesquisador do ramo da neurociência, prêmio Nobel de medicina em 2001. Cf. se lê no Jornal O Globo de 20/06/04; O Jornal da Família, p.1-2.

14 LACAN, J. – O Seminário, livro 7, A ética da psicanálise (1959-60) Rio de Janeiro, Zahar Editores S.A., 1988, p.62. 15 Idem, ibidem, p.49.

16 Idem, ibidem, p.60.

17 LACAN, J. – O Seminário, livro 1, Os escritos técnicos de Freud (1953-54) Rio de Janeiro, Zahar Editores S.A., 1983, p.174.

Assim, é possível se verificar, antes mesmo da “Interpretação dos sonhos18 , a

relevância da dimensão da linguagem para a psicanálise. Lacan destacou que:

“Ele [Freud] compreendeu admiravelmente [a despeito da precariedade do estudo da lingüística na ocasião em que escreveu o Projeto] e formulou a distinção a ser feita entre a operação da linguagem como função, ou seja, no momento em que ela se articula e desempenha, com efeito, um papel essencial no pré-consciente, e a estrutura da linguagem, segundo a qual os elementos colocados em jogo no inconsciente se ordenam”. 19

Nesses termos, Lacan pontua que, no Projeto, Freud propõe os elementos básicos

do trilhamento significante demonstrando que a estrutura da linguagem, ou seja, a lei do

significante, ordena os elementos de estão em jogo no inconsciente, enquanto a

organização discursiva que ocorre no nível do pré-consciente, é comandada pela

linguagem como função – que é a fala. Entre a estrutura da linguagem e a fala

estabelece-se o encadeamento onde a economia psíquica se põe em exercício.

Considerando que há no autismo um transtorno que afeta a instauração da

representação, situarei, inicialmente, o funcionamento psíquico segundo Freud e Lacan,

a fim de estabelecer o conceito de representação na teoria psicanalítica e seu lugar no

psiquismo.

1.1 - As transferências de energia

Freud iniciou o Projeto explicitando o propósito de elaborar uma psicologia que

pudesse ser entendida como ciência ao dizer que:

“A finalidade desse projeto é a de estruturar uma psicologia que seja uma ciência natural; quer dizer representar os processos psíquicos como estados quantitativamente determinados de partículas materiais especificáveis, dando assim, a esses processos, um caráter concreto e inequívoco. O projeto contém duas idéias cardinais:

1) O que distingue a atividade do repouso deve conceber-se como uma quantidade (Q) submetida às leis gerais do movimento;

18 FREUD, S. – La Interpretacion de los sueños (1898-9[1900]), in Obras Completas, Vol. I, op. cit. Obra considerada inaugural da Psicanálise.

19 LACAN, J. – O Seminário, livro 7, A ética da psicanálise, op. cit., p.60.

2) Como partículas materiais em questão, devem admitir-se os neurônios”. 20

Nesse trabalho, buscando dar conta do que se passava na clínica, Freud

materializou, em transferências de energia numa rede de neurônios, aquilo que se

verifica na trama neurótica. Inspirado nos avanços da termodinâmica da época, ele

formulou os princípios fundamentais da atividade psíquica a partir do entendimento do

comportamento neuronal em relação à quantidade de energia que afeta os neurônios

desde o exterior, e os percorre internamente.

Posteriormente, tomando a lingüística estrutural como instrumento, Lacan

atribuiu essa materialidade ao significante. Observa-se, portanto, no Projeto, a indicação

dos elementos fundamentais da constituição e do funcionamento do aparelho psíquico,

bem como de sua organização e dinâmica inconsciente na forma de rede de neurônios,

que devem ser entendidos - a partir de Lacan - como equivalentes aos significantes.

A quantidade que investe e percorre o neurônio, Freud chamou de

Qη. Diferenciou-a de Q, a quantidade externa que chega às terminações nervosas. Em

sua intervenção no seminário sobre a “Ética” de Jacques Lacan, o sr. Kaufmann

esclareceu que a letra grega η encontrava-se presente, com freqüência, nos tratados de

termodinâmica da época em que Freud escreveu o Projeto. Designava a relação

econômica que expressa certa possibilidade de trabalho. 21 Dessa forma, Q deve ser

entendida como a quantidade de energia que incide sobre a superfície do organismo, e

Qη como a quantidade energética que pôde ser traduzida em tensão em direção ao

trabalho psíquico.

Freud propôs que o primeiro princípio que fundamenta o comportamento neuronal

é o princípio de inércia, segundo o qual os neurônios procuram livrar-se da quantidade,

mantendo, o máximo possível, seu estado de inércia 22 . A fim de melhor atender a esse

princípio, os neurônios se dividem em sensíveis e motores, visando, respectivamente,

20 FREUD, S. – Proyecto de una psicologia para neurologos, op. cit., p.211.

21 Referência à intervenção de Kaufmann na aula de 27/04/60. Tal intervenção não consta do seminário estabelecido e publicado em português pela Jorge Zahar Editor, op. cit., apenas no cd-rom Folio Views 4.0 das Obras Completas de Freud e Lacan.

22 FREUD, S. – Proyecto de una psicologia para neurologos, op. cit., p.212.

cancelar e neutralizar a recepção de energia Qη. O princípio da inércia, considerado como a função primária – e utópica - dos sistemas neuronais, diria respeito à conexão direta dos neurônios sensíveis e motores possibilitando a descarga imediata dos estímulos que não puderam ser evitados através de mecanismos musculares, mantendo, assim, os neurônios, isentos de qualquer ocupação energética.

A manutenção em estado de inércia requer do comportamento neuronal uma função secundária que diz respeito à fuga do estímulo Q. Isto estabelece um paradoxo pois, para executar a fuga, é necessário um acúmulo de Qη proporcional ao estímulo excitatório do qual se pretende fugir. Dessa forma, a função secundária implica numa certa transgressão do princípio de inércia. Na verdade, o princípio de inércia é, também, infringido constantemente pelos estímulos internos, dos quais não se pode exercer a função de fuga. Freud considera que os estímulos que nascem no interior do organismo só cessam através da ação específica 23 que, por sua vez, também requer um certo acúmulo de Qη. A noção de ação específica será melhor abordada mais adiante. No momento, nos interessa destacar que as exigências da vida levaram o sistema neuronal a guardar um provimento de Qη, modificando a tendência à inércia, no sentido de manter

o mais baixo possível as oscilações de Qη. Dito de outro modo, diante da impossibilidade de realização do princípio de inércia, este é modificado em princípio de constância.

Uma vez investido por Qη, o protoplasma neuronal tem a capacidade de ser

sensibilizado pelo próprio processo condutor, tornando-o diferenciado para aquele Qη.

Dessa forma, num próximo investimento, Qη o percorrerá mais rapidamente, atendendo melhor ao princípio de constância. A essas modificações protoplasmáticas, Freud chamou de facilitação (Bahung) 24 . Em contrapartida, quando o protoplasma encontra-se indiferenciado funciona como barreiras de contato. Nesses casos, Qη o percorrerá mais

lentamente. A função secundária, que requer acúmulo de Qη, é possibilitada pela existência das barreiras de contato, que atuam como represas de quantidade:

resistências.

23 Idem, ibidem, p.213.

24 Idem, ibidem, p.215.

Freud propõe que os neurônios se diferenciam quanto à permeabilidade ao

impulso:

“Assim,

pois,

existem

os

neurônios

permeáveis

(que

não

oferecem

resistência

e

nada

retém),

destinadas

à

percepção,

e

neurônios

impermeáveis

(dotados

de

resistência

e

retentores

de

quantidade [Qη], que são portadores de memória e, com isso, provavelmente também dos processos psíquicos em geral. Por conseguinte, daqui para frente chamarei ao primeiro sistema de

neurônios “ϕ ”, e ao segundo “ψ ” ao segundo” 25 .

Nessa perspectiva, os neurônios permeáveis, deixam passar um impulso,

regredindo em seguida ao estado anterior, como se jamais tivesse sido modificado. Eles

não retém Qη, deixando-a passar livremente sem oferecer resistência. Eles foram

considerados como destinados à percepção. São as terminações nervosas. O neurônios

impermeáveis caracterizam-se pela dificuldade com que passa a quantidade de excitação

Qη. Por outro lado, Freud afirma que:

“Comprovamos, com efeito, que os neurônios ϕ não terminam livremente na periferia, mas através de formações celulares, sendo essas e não aqueles neurônios que recebem o estímulo exógeno no lugar delas. Esses ‘aparelhos nervosos terminais’ – no sentido amplo do termo - poderiam perfeitamente ter a finalidade de impedir que as quantidades exógenas (Q) incidam com toda sua intensidade sobre ϕ, mas que sejam previamente atenuadas. Em tal caso, cumpririam a função de “telas para quantidade” (Q), que só deixariam passar frações de quantidades exógenas ( Q).” 26

Dessa forma, a tendência do sistema neuronal de se manter isentos de Q, não

apenas determina uma rápida descarga mas, através das terminações nervosas, já atua na

recepção do estímulo, atenuando sua intensidade sobre , que funciona como tela, como

se fosse um filtro, um amortecedor, através da qual só passam frações de Q. Tudo é

feito para que a quantidade exterior Q, ao entrar em contato com o sistema ϕ seja

barrada, impedindo a emergência de Qη.

25 Idem, ibidem, p.215. Os grifos são de Freud.

26 Idem, ibidem, p.220. O grifo é de Freud.

1.2 – Memória e princípio do prazer

Os neurônios ψ comportam-se de forma impermeável ao impulso e só adquirem

maior permeabilidade e, portanto, um comportamento mais semelhante aos neurônios ϕ,

através da facilitação. Uma vez que ocorre a sensibilização por uma certa quantidade, as

barreiras de contato são neutralizadas pela facilitação. A facilitação constitui a base da

articulação entre os neurônios ψ. Ela se dará de forma diferente entre eles, dependendo

da magnitude da impressão e a freqüência com que essa impressão se repetiu. O nível de

facilitação determinará a predileção por um caminho ou outro. Portanto, enquanto o

sistema ϕ caracteriza-se pela permeabilidade plena, o sistema ψ, por ser impermeável,

elege o caminho a ser seguido por Qη, segundo o percurso excitatório mais facilitado.

Retomando a idéia dos neurônios sensíveis e motores, pode-se dizer que o sistema

ψ se coloca na interposição deste círculo fechado que é a relação estímulo-descarga

motora, fazendo obstáculo à descarga completa e imediata. No entanto, na busca de

manter a homeostase exigida pelo princípio de constância, esse sistema opera desvios

que o caracterizarão como trama. A especificidade do sistema ψ se constitui justamente

nesses desvios, realizando passagens, transferências, que priorizarão, à revelia da

vontade consciente, uma direção em vez de outra. Através da facilitação, o movimento

do impulso trilhará o percurso de mais fácil descarga.

Freud privilegiou os fenômenos de memória, salientando que todo seu interesse

está voltado para a articulação do sistema ψ, destinado à memória e responsável por

toda aquisição psíquica 27 . Dessa forma, verificamos que a memória não é apenas uma

propriedade do aparelho psíquico, mas corresponde a sua essência. Freud definiu

memória como a capacidade de modificação duradoura do protoplasma nervoso que

consiste nas facilitações existentes entre os neurônios ψ. A impermeabilidade, que

caracteriza a matriz orgânica desse sistema, justifica seu funcionamento a partir dessas

modificações, verdadeiras marcas que, ao se multiplicarem, tecem a rede que o impulso

percorrerá.

27 LACAN, J. – O Seminário, livro 16, De um outro ao Outro,(1968-1969), inédito, aula do dia 26/02/69.

As barreiras de contato permitem o armazenamento parcial e a condução seletiva de Qη segundo a maior ou menor facilitação, fazendo com que o impulso siga

preferencialmente numa direção e não em outra. Foi o que Freud chamou de trilhamento. Ao afirmar que “A memória está representada pelas facilitações entre os neurônios ψ28 , ele destacou a importância da memória como traço diferencial, responsável pela preferência por um caminho em detrimento de outro. O fundamental naquilo que se repete como memória não é tanto a identidade, mas a diferença entre os traços. Assim, a diferença comparece aqui como o próprio princípio constitutivo do aparelho psíquico. Dessa forma, a memória é constituída de mensagens que não estão diretamente vinculadas à experiência, mas que trabalha regularmente numa sucessão de sinais, circulando segundo o princípio de constância que Freud chamará em seguida de princípio do prazer.

1.3 – O sistema consciente

Freud procurou, em seguida, saber segundo qual mecanismo é investido e desinvestido o sistema consciência. O sistema ψ está vinculado aos processos inconscientes. Para Freud, o sistema implicado na consciência não pode ser o mesmo do inconsciente. Considerou que a consciência não tem acesso às quantidades senão na forma de qualidades, que são as diversas sensações, que se distinguem como signos nesse aparelho especializado. Assim, as quantidades, ao atingirem a consciência, são traduzidas em signos de qualidade. Esse sistema, onde ocorrem os processos conscientes, Freud denominou sistema ω. Retomando a colocação feita anteriormente 29

28 FREUD, S. – Proyecto de una psicologia para neurologos, op. cit., p.215.

29 Ver p.11.

podemos considerar que a linguagem como função se desenvolve no sistema ω,

enquanto a estrutura da linguagem corresponde ao sistema ψ.

Lacan pontua que uma necessidade discursiva se impõe a Freud e o leva a postular a consciência como excluída da dinâmica dos sistemas psíquicos. A memória, ou rememoração, não produz nada que possua a natureza particular da qualidade- percepção. A função da memória, processo psíquico exclusivamente inconsciente, implica num reproduzir e recordar “desprovido de qualidade30 . O sistema nervoso se caracteriza pela capacidade de transformar as massas em movimento 31 , existentes no mundo externo - as quantidades externas - em qualidades, favorecendo a tendência a afastar a quantidade e respeitando o princípio do prazer. Freud situou o inconsciente entre a percepção e a consciência, colocando-as à margem do aparelho psíquico, exteriores a ele.

1.4 - A Estrutura da linguagem

A memória diz respeito à “impressão” de algo ao nível do sistema nervoso. Lacan aproximou o trilhamento promovido pelas facilitações na trama neuronal ψ à rede de significantes, destacando que “estas coisas que se imprimiam no sistema nervoso, ele [Freud] as provia de letras”. 32 A estrutura da memória corresponde a uma rede de significantes que se organiza segundo uma espécie de automatismo que corresponde à função do princípio do prazer. 33

Jacques-Alain Miller nos esclarece que o aforismo lacaniano “o inconsciente é estruturado como uma linguagem” quer dizer, em primeiro lugar, que o inconsciente é estrutura, ou seja, é formado de elementos que constituem um sistema. Em segundo

30 Idem, ibidem, p.222.

31 Idem, ibidem, p.223.

32 LACAN, J. – Le Séminaire livre 23, Le sinthome (1975-1976), Paris, Éditions du Seuil, 2005, p.131.

33 LACAN, J. - O Seminário, livro 7, A ética da psicanálise, op. cit., p.272.

lugar, que os elementos dessa estrutura são aqueles da linguagem tal como foi elaborado por Ferdinand de Saussure: significante e significado. 34 Um significante se define por remeter sempre a outro significante, produzindo, nesse encadeamento, efeitos de sentido, que se organizam num significado. Essa seria uma outra maneira de dizer o que Freud havia postulado como um sistema de memória materializado no trilhamento de quantidades - no nível inconsciente - fazendo surgir, de tempos em tempos, os signos de qualidade, no nível consciente.

A mecânica da linguagem, na medida que se sustenta no significante, implica que haverá, no limite da cadeia, uma letra que cai na ausência de sentido. Uma letra é um traço sem sentido que guarda relação com o significante. Há, portanto, um momento da cadeia significante em que o sentido não pode mais figurar e uma letra se destaca no lugar do sem-sentido. A letra ocupa, então, o lugar de uma falha na organização do significado Imaginário provocada pela falta de um significante. Dessa forma, a letra ocupa também o lugar de um furo no real, uma vez que o sem-sentido tem uma relação de continuidade com o sentido. A impossibilidade de haver um significante que estanque o trilhamento, impõe que a falta de sentido que isso causa aconteça sempre de “cair dentro” do sentido, ou seja, remeta a um novo sentido. O jogo significante organiza a libido em torno dessa letra que cai, fazendo dela o suporte do desejo inconsciente. A letra, portanto, é o que funciona como objeto perdido. Lacan chamou-a de objeto a, o objeto causa do desejo.

Para figurar o furo no real do significante, Lacan lançou mão do instrumento topológico da banda de Moebius. Trata-se de uma estrutura tridimensional. Para construir esse instrumento toma-se uma fita e colam-se as duas pontas depois de realizar uma semi-torção. Obtém-se assim uma banda com propriedades diferentes da banda euclidiana, que tem a forma de um cilindro. A banda euclidiana tem, claramente, duas faces opostas, duas bordas e dois sentidos. Basta que se percorra com o dedo sobre a superfície de uma banda de Moebius, para notar que, diferentemente da euclidiana, é possível percorrer os dois lados da fita continuamente, sem deixar de tocá-la. Isso comprova que é uma superfície com uma única face. Recursos semelhantes mostram

34 MILLER, J-A., O monólogo da apparola (1996-97), in Opção Lacaniana – Revista Brasileira Internacional de Psicanálise n°23, São Paulo, Editora EOLIA, Dezembro/1998, p.68-76.

que tem uma única borda e um único sentido. Dessa forma, a banda de Moebius serve

para conceber imaginariamente o furo no real que promove a continuidade entre sentido

e sem-sentido.

que promove a continuidade entre sentido e sem-sentido. Figura 1.1: Esquema da montagem de uma banda

Figura 1.1: Esquema da montagem de uma banda de Moebius. 35

1.1: Esquema da montagem de uma banda de Moebius. 3 5 Figura 1.2 – Esquema mostrando

Figura 1.2 – Esquema mostrando a banda de Moebius, destacando que apresenta apenas uma borda. 36

35 MAGNO, M.D. – A Psicanálise, Novamente: um pensamento para o século II da era freudiana (1999), Rio de Janeiro, Novamente, 2004, p.60.

36 Idem, ibidem, p.64.

Figura 1.3 – Esquema da Banda de Moebius de stacando sua superfíc ie unilátera e

Figura 1.3 – Esquema da Banda de Moebius destacando sua superfície unilátera e não orientável. 37

37 Idem, ibidem, p.65.

CAPÍTULO II

DA REPRESENTAÇÃO AO GOZO DE ALÍNGUA

Embora todo humano esteja irremediavelmente imerso na linguagem, é ainda

necessário que cada sujeito dê o passo que efetiva sua captura e seu compromisso com a

fala. Para a psicanálise, a instauração da representação - célula elementar da linguagem

e da fala – requer o ato que enoda o sujeito, a fala e a significação. A clínica do autismo

evidencia um uso singular da representação que parece desvinculada de qualquer

intenção de significação. A concomitância do comprometimento da fala e da relação

com o outro desde o início da vida, que o autismo evidencia, vem confirmar o vínculo

originário entre fala e constituição subjetiva e remeter a uma falha estabelecida no

momento inaugural da constituição do sujeito, momento em que o humano é capturado

pelo simbólico. Abordarei neste capítulo as noções fundamentais da constituição

subjetiva segundo a psicanálise.

2.1 - A Experiência alucinatória de satisfação

Vimos que é próprio da subjetividade humana estar articulado a uma rede complexa de significantes. Como foi dito acima, embora todo humano esteja inserido na linguagem, o ser falante implica um sujeito que não se encontra diferenciado desde o nascimento. O destacamento subjetivo se dá pela operação mítica de um corte que instaura a diferença entre o eu e o mundo externo, e inaugura a relação do sujeito com o Outro. Essa operação de corte ocorre numa sucessão de acontecimentos lógicos que requer a participação do que Freud chamou Nebenmensch, conhecido pela noção de próximo assegurador: um outro falante que, de alguma forma, toma o infans aos seus cuidados. Tradicionalmente, a mãe encarna esse lugar. Lacan atribuiu a ela a função de Outro primordial na medida em que desempenha a função de transmissor da referência ao Outro da linguagem, diante do qual o infans advirá sujeito.

No Projeto, são fornecidos os elementos fundamentais para o entendimento da inserção do sujeito em sua realidade psíquica, a partir do estabelecimento do que Freud chamou a primeira experiência de satisfação 37 . Essa experiência é apresentada nos termos de uma alteração irreversível no protoplasma das células nervosas que determinam as facilitações, responsável pela orientação dos trilhamentos. Essa foi a maneira através da qual Freud abordou, naquela ocasião, a noção de um elemento mítico, capaz de situar um gozo real, para sempre tão inacessível quanto almejado pela representação.

Freud considerou que o investimento neuronal – que corresponde à elevação de Qη -, tem como conseqüência, em qualquer sistema, a propensão à descarga motora.

Enquanto isso não ocorre, o aumento de Qη em ψ provoca sensação de desprazer em

ω - a consciência. Sua diminuição, ao contrário, suscita a sensação de prazer. Νο

sistema ψ, a primeira via a ser seguida no sentido da diminuição dos níveis de Qη é a alteração interna. Para exemplificá-la, Freud evoca o estímulo proveniente da fome do bebê, que promove uma modificação interna que se expressa no grito. O grito cumpre, portanto, originariamente uma função de descarga. No entanto, se o estímulo permanece, a descarga propiciada por essa ação interna não produz alívio suficiente, sendo necessária uma alteração no mundo externo através de uma ação específica. A especificidade dessa ação se deve ao fato dela se dar tão somente através de caminhos

precisos. No exemplo da fome do lactente, a oferta do seio que alimenta, pode ser

considerada como protótipo da ação específica. É importante destacar que esse exemplo

evidencia que o desamparo do organismo desse pequeno homem torna-o incapaz de

realizar a ação específica sem o auxílio externo, e é nessa impossibilidade real que deve

situar-se a centelha do enganchamento do sujeito em seu mundo.

2.1.1 - O grito

O grito deve ser considerado o primeiro movimento intencional do sujeito em

direção ao Outro. Ele situa-se num ponto limite, na medida que corresponde ao

esgotamento das possibilidades individuais de redução de Qη e convoca uma ação que

só pode provir de um Outro. Freud conferiu ao grito, lugar de destaque na constituição

do sujeito falante ao dizer que:

Essa via de descarga adquire, assim, a importantíssima função secundária da compreensão [comunicação com o próximo], e o desamparo original do ser humano converte-se, assim, na fonte primordial de todos as motivações morais”. 37

Dessa forma, a via de descarga que é o grito de apelo assume função de

comunicação na medida que requer que um outro empreste a ele um sentido,

traduzindo-o numa demanda. Na leitura de Lacan um grito de apelo se constitui como

demanda e como desejo:

“Quando a mãe responde aos gritos do bebê ela os reconhece constituindo-os como demanda, mas o que é mais importante é que os interpreta no plano do desejo da criança de estar perto dela, desejo de tomar-lhe algo, desejo de agredi-la, pouco importa. O que é certo é que por sua resposta, o Outro a dar a dimensão de desejo ao grito da necessidade, ao investir na criança, é de início resultado de uma interpretação subjetiva, função do desejo materno, de seu próprio fantasma” 37 .

A ação específica que está em jogo na experiência de satisfação articula-se à leitura

que a mãe faz do grito segundo o desejo que a atravessa. Isso faz do desejo do Outro a

bússola que orienta a constituição do sujeito. 37 Lacan também destacou que, ainda que

tenha inicialmente função de descarga, o grito pontua a captura de algo passível de ser

reconhecido posteriormente como consciência, ao sinalizar a instauração do objeto

enquanto hostil:

O objeto enquanto hostil só é sinalizado no nível da consciência na medida em que a dor faz o sujeito soltar um grito. [ ]

O grito cumpre aí uma função de descarga e desempenha um papel de

uma ponte no nível do qual algo do que ocorre de ser pego e identificado na consciência do sujeito. Esse algo permaneceria obscuro e inconsciente se o grito não lhe viesse conferir, no que diz respeito à consciência, o sinal que lhe confere seu [do objeto] valor,

sua presença, sua estrutura – da mesma feita, com o desenvolvimento

que lhe é conferido pelo fato de que os objetos mais importantes para

o sujeito humano são os objetos falantes, lhe permitirão ver, no discurso dos outros, revelarem-se os processos que habitam efetivamente seu inconsciente”. 37

Assim, o grito corresponde ao primeiro movimento constitutivo do sujeito: o corte

que, do lado do infans tem função primordial de inscrição do sujeito na linguagem ao

instaurar uma relação de dependência. No entanto, Lacan ressaltou que o grito deve ser

situado num nível aquém da linguagem, pois não implica em si nenhuma dicotomia,

nenhuma bipartição significante 37 . Só depois que o desejo do Outro o interpretar, aquilo

que era puro vazio, pura escansão, assumirá estatuto de palavra significativa e fará do

grito, apelo. Dessa forma, Jacques-Alain Miller considera que “a resposta do Outro

transforma o grito em apelo de um sujeito.37 A clínica do autismo vem evidenciar que

há possibilidade de recusa no nível do grito enquanto apelo.

2.1.2 – A primeira experiência de satisfação

Freud

esquematizou

o

que

se

passa

na

primeira

experiência

de

satisfação

afirmando que três coisas acontecem no sistema ψ:

1. Opera-se uma descarga duradoura e cessa o desprazer que o excesso de tensão

(Qη) no inconsciente (ψ ) produziu no consciente (ω).

2. Gera-se o investimento que corresponde à percepção de um primeiro objeto: o

semelhante que executa a ação específica capaz de fazer cessar a excitação endógena. 3. Fica registrada a descarga que se segue à ação específica, promovendo a experiência

de satisfação.

A experiência de satisfação gera uma facilitação entre duas imagens mnêmicas, a do objeto e da descarga (itens 2 e 3), mantendo-as associadas de tal maneira, que o investimento em uma remete facilmente ao investimento na outra. Com o re- afloramento do estado de urgência, lugar onde se situará o desejo, as duas lembranças são investidas simultaneamente. Devido a esse duplo investimento, na falta do outro assegurador, a ativação desejante dos traços mnêmicos dessa experiência é capaz de produzir algo idêntico a uma percepção, ou seja, uma alucinação. Dessa forma, a primeira experiência de satisfação serve de suporte para a instalação da experiência alucinatória de satisfação.

Se nos pontuarmos sobre a terminologia lacaniana, a experiência de satisfação é

uma inscrição mítica de gozo que deixará traços mnêmicos dos atributos e do gozo que o outro cuidador experimenta, conforme descrito no item 2 do esquema de Freud acima colocado. Essas marcas serão investidas libidinalmente no pólo alucinatório de satisfação. Dito de outro modo, atuando no sentido da repetição da experiência de satisfação, o princípio do prazer rege os trilhamentos que se repetem em direção às representações vinculadas ao desejo e instala o lugar-tenente da representação da pulsão (Vorstellungsrepräsentanz) 37 . Essas representações correspondem ao reencontro alucinatório do gozo e chegam à consciência na forma de identidade de percepção. Tal identidade diz respeito a uma percepção capaz de atender ao princípio de realidade. 37 Enquanto o princípio do prazer comanda a associação de uma representação à outra, o princípio de realidade elege a aglutinação de certas representações como pertencentes à realidade. 37 Assim, a partir de uma marca inaugural, a regulação homeostática visa o retorno a uma identidade que servirá de apoio para a construção da realidade psíquica.

A experiência de satisfação pode ser considerada a instauração de um traço real que

servirá de referência a tudo que há de relevante no mundo perceptivo e,

conseqüentemente, a toda realidade humana. Lacan afirmou que:

Sem algo que o alucine enquanto sistema de referência, nenhum mundo da percepção chega a ordenar-se de maneira válida, a constituir-se de maneira humana”. 37

Com isso Lacan destacou que a percepção, tal como é apresentada por Freud, não

leva em conta nenhum critério de realidade, uma vez que o mundo da percepção se

constrói a partir da alucinação fundamental. De certa maneira podemos dizer que, no

homem, o mundo real é alucinatório. Disso se construirá o mundo externo no qual o

sujeito se deslocará.

Embora Freud tenha se servido da fome do bebê para abordar o estabelecimento

da satisfação como uma marca inaugural, a instauração da satisfação pulsional

independe de qualquer experiência real. A esse respeito, Lacan afirmou que:

“Nenhum objeto de nenhum Not, necessidade, pode satisfazer a

] essa boca que se abre no registro da pulsão – não é pelo

pulsão. [

alimento que ela se satisfaz”. 37

No entanto, a idéia de que a experiência de satisfação da necessidade alimentar

serviria de apoio para a satisfação pulsional possibilitou a Freud instituir uma

historicidade constitutiva do sujeito onde o outro, através da ação específica, assume

papel fundamental na estruturação do aparelho psíquico. O vínculo com um Outro

primordial (suporte da linguagem), que o outro (semelhante) encarna, é o lugar fundador

do sujeito.

2.2 – A carta 52

Como foi visto na abordagem do Projeto, Freud descreveu o pensamento

inconsciente

como

funcionamento

de

um aparelho

de

memória

que

consiste

no

deslocamento

do

impulso

segundo

as

diferentes

facilitações. 37

Na

carta

52,

ele

apresentou a Fliess a constituição e o funcionamento desse aparelho centrada na

sucessão das Niederschriften, as inscrições, como concepção indispensável para a compreensão do funcionamento do aparelho psíquico. 37 Noções como signo (Zeichen) e inscrição (Niederschrift) sugerem que o que se passa nesse aparelho é da ordem de uma escrita e que os trilhamentos neurológicos propostos no Projeto, são trilhamentos de significantes. Lacan considerou que as inscrições são o que efetivamente funcionam nos traços mnêmicos 37 . A carta 52 destaca-se, portanto, como momento privilegiado de “significantização” do esquema proposto no Projeto. Jacques Derrida resumiu esta passagem dizendo que ali “o traço começa tornar-se escritura37 , ou seja, o traço, ao qual Freud já havia se referido no Projeto, na carta 52 assume, mais claramente, estatuto de escrita.

A rede de representações inconscientes se instaura a partir de uma sucessão de

acontecimentos que marcam o assujeitamento do falante ao significante. Na carta 52, Freud descreveu o processo de estratificação onde os tempos lógicos da constituição do aparelho psíquico se distinguem segundo o esquema abaixo:

W

Wz

Ub

Vb

Bew

2.2.1 – A percepção e os signos: W e Wz

O circuito da apreensão psíquica inicia-se com W (Wahrnehmungen: percepções),

que corresponde à pluralidade perceptiva enquanto impressões brutas do mundo exterior. Trata-se de uma posição primordial, comparável à total transparência do papel celofane do bloco mágico que não retém nenhum traço do que aconteceu. Esta etapa primitiva jamais vem à tona no sujeito como experiência registrável, permanecendo da ordem do mito, hipotética.

Em seguida há o registro em Wz (Wahrnehmungzeichen: signos de percepção) que corresponde à primeira inscrição mnêmica dos signos de percepção, associados entre si por simultaneidade. Lacan dá destaque a esse aspecto ao dizer que “Temos aí a exigência original de uma primitiva instauração de simultaneidade”. 37 São as representações primitivas de uma organização significante que antecede à articulação do

inconsciente. Esses traços primitivos correspondem às primeiras incidências do estímulo na matriz orgânica. O momento de gestação do bebê pode nos auxiliar a compreender o que diz respeito a um tempo em que há um sujeito que ainda não nasceu, mas que já se encontra inscrito na linguagem, numa plena inserção no discurso da mãe. Esse discurso – pode-se supor – já incide sobre a matriz orgânica do bebê. Faço a ressalva de que, trata-se aqui de um exemplo que nos permite imaginar um tempo da constituição subjetiva em que o sujeito restringe-se a uma promessa, estando inteiramente submetido ao discurso do Outro, mas que já sofre as conseqüências desse discurso.

2.2.2 – O inconsciente, a repetição e o significante: Ub

Quando, sobre os signos de percepção, incide uma repetição – sendo sensibilizados pela facilitação - ocorre uma transcrição que instaura o registro Ub (Unbewusstsein:

inconsciente), estabelecendo a articulação entre os traços. A experiência de satisfação exemplifica o que vem a ser a articulação entre duas representações, rompendo com a simultaneidade. Nota-se ali uma abordagem privilegiada desse momento inaugural, na medida que o enlace de dois traços de memória, é sincrônico à instauração de um gozo e à vinculação inextrincável entre sujeito e Outro.

Freud descreveu o inconsciente como uma rede articulada de traços mnésicos que correspondem a “lembranças conceituais37 . Lacan, fundamentado na lingüística de Ferdinand de Saussure, formulou a noção de que essas lembranças conceituais correspondem a significantes, de forma que o inconsciente consiste numa rede articulada de significantes. A estrutura do inconsciente deve, portanto, ser considerada a mesma da linguagem. Ela foi sintetizada por Lacan ao binário fundamental S 1 S 2 . Esse matema quer dizer que o importante da relação entre essas marcas, é que, no remetimento de uma a outra, há um sujeito se fazendo representar, isto é: “Um significante representa o sujeito para outro significante37 . S 1 S 2 quer dizer, também, que um conjunto de significantes S 1, como um essain 37 , um enxame de significantes, representa o sujeito para S 2 , o significante de exceção; ou que a multiplicidade do saber, representado por S 2 , está relacionado a S 1 como unidade. Dito

ainda de outro modo, S 1 S 2 quer dizer que o sujeito surge no intervalo entre o Um e o Outro.

Antes da instauração da representação de coisa, o significante comparece como simultaneidade, sem instauração do tempo, mera sucessão sem encadeamento, numa cronologia só percebida pelo Outro. Pode-se deduzir que o impedimento da passagem dos signos perceptivos para traços mnêmicos corresponde ao impedimento da inscrição dessa hiância.

A repetição promove uma transcrição na medida em que implica a inscrição de uma marca diferencial entre os registros mnêmicos. A partir dessa marca diferencial, onde anteriormente só havia simultaneidade, passa a haver deslocamento metonímico e, portanto, tempo e espaço. Dessa forma, o que vem distinguir um registro da ordem do signo perceptivo de um traço mnêmico é o fato de haver, no segundo, inscrição da hiância que se traça na diferença entre os trilhamentos. Essa falta promove a captura subjetiva pelo simbólico. A instauração do inconsciente consiste no corte em que o sujeito, ao ser barrado pelo significante, se faz representar por ele. É a única via pela qual o humano avaliza sua submissão ao simbólico ao alienar-se ao significante. O deslocamento metonímico de uma representação a outra, segundo o princípio do prazer, caracteriza o movimento do investimento libidinal inconsciente. Assim, o registro do traço mnêmico consiste na instauração de uma representação libidinalmente investida.

Lacan disse que a inscrição mnêmica é um signo que corresponde alucinatoriamente à satisfação da necessidade 37 . Assim, vemos estabelecida a relação entre a experiência de satisfação e o registro dos traços mnêmicos. A satisfação da necessidade na experiência primária de satisfação corresponde ao gozo maciço que é barrado no momento em que, através da representação, se instaura uma ilusão de gozo que alucina essa satisfação, o gozo fálico. No gozo maciço, a percepção do mundo externo não é acessada pela via do significante.

2.2.3 – O pré-consciente: Vb

A Vb (Vorbewusstsein: pré-consciente) é o terceiro registro, e corresponde à

tradução da representação de coisa em representação de palavra, isto é, corresponde à

transformação da pura alucinação ligada ao princípio do prazer em identidade de

pensamento, regido pelo princípio de realidade, princípio que instaura o “eu oficial37 .

Freud destacou que o pré-consciente “está ligado à ativação alucinatória das

represetações da palavra” 37 . Os movimentos do inconsciente, regidos pelo princípio do

prazer, chegam à consciência na medida que podem ser verbalizados, quer dizer,

traduzidos pelas palavras para o princípio de realidade que vigora no pré-consciente e

no consciente. Freud afirmou que:

“o material presente sob a forma de traços mnêmicos fica sujeito, de tempos em tempos, a um rearranjo, de acordo com as novas circunstâncias – a uma retranscrição”. 37

Os traços mnêmicos são inscrições diferenciais – significantes – que se deslocam

indefinidamente, só estancando mediante uma retranscrição, uma tradução no registro

do pré-consciente num signo de qualidade, que corresponde à aparição de um

significado no nível da consciência. Nesse processo, a liberação de desprazer que a

tradução de certos traços pode provocar, promove uma falha de tradução que

corresponde ao recalcamento desses traços.

Segundo Freud, a representação de palavra que se constitui no pré-consciente, na

consciência (Bewusstsein), vem ordenar-se de acordo com certas regras, as quais, para

Lacan, são as regras do significado. Assim, o campo da consciência é dominado pelo

ordenamento num significado que se presta à ilusão da comunicação. Nele, o

inconsciente comparece através de suas formações – chistes, atos falhos, sintomas – que

se contrapõe ao que se quer dizer conscientemente.

2.3 - A função intelectual do juízo como ato fundador da realidade

Para explicar um funcionamento psíquico, Freud partiu de um aparelho que,

regido pelo princípio do prazer, é feito, não para satisfazer à necessidade, mas para

alucinar a experiência de satisfação. Dirige-se, portanto, ao engodo e ao erro. É preciso

que entre em jogo um outro aparelho que se opõe ao primeiro, exercendo uma instância

de realidade, retificando o que parece ser a tendência natural do psiquismo. O princípio

de realidade guia o sujeito em relação a esse orthos, para que ele chegue a uma ação possível.

Lacan destacou que, antes de Freud, ninguém havia colocado com tanta clareza o caráter radicalmente conflituoso da organização psíquica, onde um dos sistemas se desenvolve para ir contra a irretratável inadequação do outro. 37

No entanto, a instauração do inconsciente foi também abordada por Freud sob a ótica da ação de uma tendência primitiva de destruição: a função intelectual do juízo. Esse ato consiste no corte fundador do sujeito e decide sobre a construção do mundo em que ele se fará representar. O texto “A Negação”, 37 ele dá as coordenadas do que se passa nesse momento mítico, ao considerar que a função do juízo, “deve atribuir ou negar uma qualidade a uma coisa e deve conceder ou negar à uma imagem a existência na realidade”. 37 Trata-se, portanto, de uma função que se desdobra em dois tempos:

juízo de atribuição e juízo de existência. Há um tempo anterior à simbolização em que as percepções limitam-se a massas moventes que se opõe à “primitiva tendência à inércia37 . Esse tempo se conclui quando, no campo perceptivo, incidem o juízo de atribuição – que atribui qualidade ao signo perceptivo - e o juízo de existência – que estabelece o princípio de realidade.

2.3.1 - Juízo de atribuição: a instauração do signo algébrico da Bejahung

Através do juízo de atribuição, as qualidades consideradas boas são afirmadas como internas, sendo introduzidas e, por assim dizer “comidas”, privilegiando o aspecto da oralidade, vindo a constituir o eu-prazer originário. A inserção do sujeito na linguagem diz respeito a um processo de “incorporação” implicado no juízo de atribuição. O resto dessa operação de inscrição se recorta como fora, como qualidades más, expulsas do eu, tidas como estranhas a ele. Desta forma, o juízo é, primeiramente, uma função que afirma ou nega, onde a negação diz respeito à expulsão de um primeiro traço de representação. Essa função incide, portanto, no campo das representações, estabelecendo uma clivagem que pode ser considerada como pré-subjetiva, possibilitando a separação entre dentro e fora, e fornecendo, assim, um esboço primitivo de delimitação do campo em que o sujeito virá a ser. Nas palavras de Lacan:

“O domínio próprio do eu primitivo, o Ur-Ich [eu-primordial] ou Lust-Ich [eu-prazer], se constitui pela clivagem, pela distinção do mundo exterior – o que está incluído dentro distingue-se do que é rejeitado pelos processos de exclusão, Ausstossung, e de projeção”. 37

Essa primeira bipartição corresponde à aceitação ou rejeição de um significante

primordial. 37 A expulsão – Ausstossung - funda o que Lacan chamou registro do Real,

como o impossível de se fazer representar no significante, aquilo que está excluído da

ordem simbólica. No mesmo ato, a expulsão se contrapõe à afirmação – Bejahung –,

que diz respeito à inclusão do Real no significante. Daí a Bejahung ser conceituada

como a primeira afirmação sobre o Real. Lacan diz que a Bejahung é a “condição

primordial para que do real, algo venha a se oferecer à revelação do ser37 . Indica com

isso que, antes desse ato constitutivo, o sujeito no ser falante mantém-se como não

revelado, inconstituído. A Bejahung é a afirmação da captura do ser vivente pelo

significante através da precipitação de uma marca diferencial que o inscreve: o traço

unário. Desta forma, a Bejahung é a matriz significante, a condição de possibilidade das

operações simbólicas.

2.3.2 - O juízo de existência: A realidade como o mundo das representações

O juízo de atribuição instaura, originariamente, o Lust-Ich, onde, segundo o

princípio do prazer, as representações compatíveis com o que pode ser registrado como

prazer (ou seja, como descarga da tensão) são introjetadas como boas e concorrem para

uma primeira organização do eu. O que resta dessa operação é notado como externo e

hostil. Essa primeira bipartição em bom e ruim servirá de base para que, num segundo

tempo, esse eu-prazer seja submetido à prova de realidade - o juízo de existência - tem

como função decidir sobre a realidade de uma coisa representada. 37 Freud afirma que:

“A outra decisão da função do juízo, a referência à existência real de um objeto imaginado (teste de realidade), é um interesse do eu real definitivo, que se desenvolve partindo do eu inicial regido pelo princípio do prazer. Já não mais se trata de que algo percebido (uma coisa) deva ou não ser acolhido no eu, mas se algo existente no eu como representação possa ser reencontrado também na percepção

A antítese entre o subjetivo e o objetivo não existe

desde o início. Se constitui assim que o pensamento possui a

(realidade). [

]

faculdade de tornar de novo presente, por reprodução na imagem, algo uma vez percebido, sem que o objeto tenha que continuar existindo fora.” 37 .

Dessa forma, o juízo de existência instaura a oposição entre subjetivo e objetivo

ao decidir sobre a existência de um objeto imaginado. No juízo de existência, o exterior

é posto à prova a partir do interior. Freud sugere que a perda do objeto de satisfação é

condição para que se dê a prova de realidade, ao dizer que:

“A primeira e mais imediata finalidade do exame da realidade não é encontrar na percepção real um objeto correspondente ao imaginado

A

reprodução de uma percepção como imagem não é sempre sua repetição exata e fiel, pode estar modificada por omissões e alterada pela fusão de diferentes elementos. O exame da realidade deve então apurar até onde vão tais deformações. Mas descobrimos, como condição do desenvolvimento do exame da realidade, a perda de objetos que um dia trouxeram uma satisfação real” 37

, mas reencontrá-lo, convencer-se de que ainda existe.[

]

O juízo de existência é o que vem conferir realidade ou não do objeto de

satisfação. Como na experiência alucinatória de satisfação, essa decisão terá como base

os traços do gozo do Outro e dirá sempre respeito a uma imagem do objeto, a uma

ilusão. Dizer que se trata de um reencontro quer dizer que esse objeto está perdido desde

sempre 37 .

Lacan disse que “a tendência a reencontrar, para Freud, funda a orientação do

sujeito humano em direção ao objeto.37 Uma vez que é impossível o encontro com o

objeto, essa orientação, regida pelo princípio do prazer, se dá na forma de rodeios,

guardando uma certa distância em relação ao objeto definitivamente perdido. Trata-se

de um reencontro que só se dá de forma quimérica, veiculada pela linguagem.

Foi visto anteriormente que a hipótese da experiência de satisfação primordial

serve a Freud de modelo da estruturação da relação do sujeito com o objeto, a partir da

qual se estabelecerá o investimento alucinatório numa imagem mnêmica. No entanto, o

investimento na imagem não é o bastante para atender às exigências de uma necessidade

real, impondo-se um princípio retificador a fim de separar o sujeito dessa alucinação à

qual se adere. Nas palavras de Ricardo de Sá:

“Esse critério que opera no real, cuja eficácia permite que uma realidade se estabilize como um sistema de coisas inanimadas, consiste em produzir um prazer mais duradouro que ultrapasse o curto relampejar da alucinação. Se, na alucinação, a representação de uma coisa se apresenta como uma presença positiva do objeto e, portanto, investida no lugar da própria ausência de um objeto que tem o dom de proporcionar alguma satisfação ao aparato psíquico, a busca por uma efetividade do prazer possibilita levar a efeito uma ação que culmine num ato do sujeito capaz de conferir uma realidade ao seu desejo.” 37

Em síntese, pode-se dizer que, o juízo de atribuição é o momento em que se dá a

transcrição dos signos perceptivos em representação de coisa enquanto o juízo de

existência consiste na tradução das representações de coisa em representação de palavra.

Inicialmente, a função intelectual do juízo, segundo um critério de qualidade,

instaura o eu-prazer pela introjeção de representações boas. O que resta dessa operação

é reconhecido como hostil. O aparelho psíquico se satisfaz, nesse tempo, com a

existência da representação. O trilhamento das representações, segundo o princípio do

prazer, promove uma série de deformações que são limitadas pela prova de realidade.

Ao decidir se o que foi afirmado como representação pode ou não ser reencontrado, a

função do juízo barra o princípio do prazer e instaura o princípio de realidade. Trata-se

da construção da realidade psíquica a partir de um ato que decidirá se outorga ou não

uma fiança à representação como existente na realidade. É o momento de decisão

quanto à relação que se estabelecerá com o Outro. Através do juízo de existência opera

um corte na estrutura, que vigorava inicialmente sob a vigência exclusiva do princípio

do prazer, o eu inicial, com suas pequenas oscilações de energia, e impõe ao sujeito uma

ação de interesse do eu real definitivo, onde o princípio de realidade enoda Real,

Simbólico e Imaginário.

À luz da eficácia da função intelectual do juízo podemos entender quando Lacan

diz que o psicótico não acredita no Outro. 37 Esse “não acreditar” diz respeito à

inexistência dessa fiança do Outro, onde lhe seria garantido - tal como acontece com o

neurótico - um lugar, por mais enigmático que seja, na cadeia significante do Outro,

lugar ao qual ele poderá identificar-se como significação fálica. Nesse momento

primitivo da constituição subjetiva, está em jogo a escolha do sintoma expressa na frase

de Freud:

O julgamento é o ato intelectual que decide sobre a escolha da ação motora, coloca um fim à protelação do pensamento e conduz do pensamento à ação.37 .

Lacan resume o movimento constitutivo do sujeito dizendo que há primeiro uma

substância, ou um sujeito da experiência que corresponde à oposição princípio do

prazer/princípio de realidade. Segue dizendo que:

Há, em seguida, um processo da experiência que corresponde à

oposição entre o pensamento e a percepção. O processo divide-se conforme se tratar da percepção – ligada à atividade alucinatória, ao princípio do prazer – ou do pensamento. É o que Freud chama de realidade psíquica. De um lado está o processo enquanto processo de ficção. De outro, estão os processos de pensamento, pelos quais se realiza, efetivamente a atividade tendencial, isto é, o processo apetitivo – de busca, de reconhecimento e, como Freud explicou mais tarde, de reencontro do objeto. Essa é a outra face da realidade psíquica, seu processo como inconsciente, que é também processo de apetite”. Em terceiro lugar, no nível da objetivação, “do objeto, o

As oposições ficção/apetite,

cognoscível/não-cognoscível, dividem o que ocorre no nível do processo e no nível do objeto”. 37

conhecido e o desconhecido se opõe. [

]

Assim, Lacan opõe percepção, que é da ordem da ficção - da imagem –, ao

pensamento inconsciente como processo simbólico de apetite, de busca do objeto.

2.4 – O circuito pulsional

Ao abordar a primeira experiência de satisfação, Freud manifesta que o sujeito se

constitui na relação com um outro, na medida que, através dessa relação, se transmitem

os signos do gozo do Outro. Em “A pulsão e seus destinos,37 ele aborda esse enlace

com o Outro, em termos do circuito percorrido pela pulsão.

Como foi visto anteriormente, para que um traço mnêmico se torne uma

representação, é preciso que ele seja investido libidinalmente. A experiência primitiva

de satisfação coincide com o momento da satisfação pulsional que ocorre, não mediante

o alcance do objeto, mas na medida que a pulsão completa uma certa trajetória que

estabelece o enlace com o Outro através de uma imagem que representa o gozo do

Outro. Essa trajetória que almeja o encontro com o objeto causador desse movimento,

jamais o encontra, mas realiza um circuito que o contorna. Ao ser cingido pela pulsão, o

objeto revela-se como definitivamente perdido. Assim, a pulsão move-se na direção

determinada pelo objeto que a causa e que lhe impõe percorrer os tempos necessários

para seu remate. Freud estabelece três tempos do circuito pulsional, que podem ser

resumidos da seguinte forma:

No primeiro tempo, o recém-nascido dirige-se para o objeto externo, seio ou

mamadeira, e o agarra, o “suga”. No segundo tempo, reflexivo, o bebê toma uma parte

de seu corpo como objeto e “se suga”. No terceiro tempo, o bebê se oferece como objeto

de um outro, ao oferecer-se para ser sugado, “fazendo-se sugar”. Dessa forma, o gozo

do Outro é fisgado, e o infans é capturado na relação com o Outro. Lacan chamou-o de

tempo do “fazer-se”. 37

Lacan considerou que no primeiro e no segundo tempos a pulsão é acéfala. No

terceiro, a pulsão terá um sujeito que é o Outro. O terceiro tempo é passivo na medida

que o sujeito é comido ou chupado pelo Outro. Trata-se, no entanto, de uma passividade

ativa (fazer-se comer, fazer-se chupar) onde se estabelece um faz de conta, essencial

para a estruturação do aparelho psíquico: a criança se oferece para ser comida pelo

outro, fazendo surgir a imagem (correspondente à experiência alucinatória de

satisfação) que realiza de forma fictícia o gozo interdito de incorporar o objeto.

Quando este terceiro tempo acontecer, sei que, no pólo alucinatório de satisfação primária, vai permanecer algo da representação do desejo (Wunschvorstellung), não apenas as características desse próximo capaz de socorrer que é o Outro (Nebenmensch) – mas ainda algo do gozo desse Outro”. 37

O terceiro tempo do circuito pulsional, momento em que o infans se faz objeto de

um novo sujeito, marca, no pólo alucinatório de satisfação do desejo, os traços

mnêmicos do gozo do Outro. Ainda que se trate da pulsão oral, esses traços não devem

ser concebidos apenas como aqueles promovidos pela sucção do seio. Devemos incluir

entre esses objetos o olhar e a voz.

Para poder operar como Outro, esse outro – que tem na mãe seu principal representante - deve estar convenientemente posicionado na estrutura simbólica. Só assim, seu olhar poderá oferecer ao bebê uma primeira unidade perceptiva imaginária. Este investimento libidinal dos pais foi nomeado por Lacan como “falicização do bebê”, que faz do corpo desse falante que virá a ser, um pólo de atribuição. “Esta unidade, que se constitui no olhar do Outro fundador é a pré-forma (Urbild) do corpo do bebê37 . O

olhar fundador do grande Outro é condição prévia para a constituição do sujeito e do eu.

O gozo fálico do Outro é indispensável para a estruturação do aparelho psíquico. O

terceiro tempo do circuito pulsional corresponde a essa falicização pelo olhar do Outro

primordial, onde o bebê se faz comer, se faz olhar e, portanto, corresponde à emergência

do gozo fálico.

2.5 – O olhar do Outro na construção da realidade

2.5.1 - O esquema óptico

O experimento do buquê invertido é utilizado em óptica para exemplificar o comportamento dos raios luminosos frente a um espelho côncavo. Lacan serviu-se dele para ilustrar o entrelaçamento do mundo imaginário com o mundo real que acontece no momento inaugural da constituição do sujeito 37 .

Figura 2.1 – Esquema do buquê invertido Em virtude das propriedades da superfície esférica, os

Figura 2.1 – Esquema do buquê invertido

Em virtude das propriedades da superfície esférica, os raios luminosos que emergem de um objeto colocado no centro de curvatura de um espelho côncavo, convergirão no ponto simétrico e invertido do espelho, produzindo uma imagem real e invertida. O experimento do buquê invertido coloca dentro de uma caixa com a abertura voltada para o espelho, um buquê de flores de cabeça para baixo. Sobre a caixa, um vaso em posição normal. Um observador colocado numa posição específica, cujo campo de visão permite visualizar o ponto de convergência dos raios que se refletem do espelho, não vê o buquê enquanto objeto real, pois ele está escondido pela caixa, porém, verá sua imagem real, ali onde ela se forma, no gargalo do vaso. A projeção da imagem no espaço real, ainda que um pouco borrada, não deixa de dar uma impressão de realidade, e o olhar do observador bem posicionado vê então o vaso contendo o buquê de flores. A inversão da posição dos objetos, obviamente, não alteram as leis da física e dessa forma, se colocarmos o vaso dentro da caixa e as flores sobre ela, teremos a imagem real do vaso contendo o buquê de flores real. A imagem borrada do vaso dá às flores reais o continente que possibilita uma unidade mínima e, ao mesmo tempo, o vaso real situa o objeto imaginário.

2.5.2 - “O desejo emerge em um confronto com a imagem” 37

O experimento do vaso (ou buquê) invertido torna sensível o que se passa no momento em que a realidade psíquica se constitui. As flores reais desse esquema óptico equivalem aos signos perceptivos, anteriores ao surgimento do eu, que requerem a organização imaginária do vaso para constituir um conjunto no momento em que se dá o nascimento do eu, através da clivagem entre o eu-prazer e o mundo exterior. Lacan diz que:

“É o nível ao qual Freud se refere em Die Verneinung, quando fala dos julgamentos de existência – ou bem é, ou bem não é. E é aí que a imagem do corpo dá ao sujeito a primeira forma que lhe permite situar o que é e o que não é do eu”. 37

Dessa forma, Lacan estabeleceu uma equivalência entre a função do julgamento,

proposto por Freud no texto A Negação e a emergência de uma amarração entre o real

orgânico, a imagem e o significante. Assim como, para que a imagem unificante se

forme é necessária a convergência dos raios, para que o mundo externo se constitua é

necessário que se produza uma série de encontros 37 .

Essa unidade foi abordada por Lacan como S 1 , o enxame de signos perceptivos

que convergem num significante Um, que remete necessariamente a um significante

Outro. Para que isso ocorra é indispensável não apenas a existência do olho - capaz de

reconhecer o conjunto formado pela combinação da imagem com o real - mas que ele

esteja na posição devida. O esquema óptico ilustra que, para poder operar eficazmente

como Outro, é preciso que o outro esteja devidamente posicionado na cadeia simbólica.

Ele considera que:

“Para que a ilusão se produza, para que se constitua diante do olho que olha, um mundo em que o imaginário pode incluir o real e, ao mesmo tempo, formá-lo, em que o real também pode incluir e, ao mesmo tempo, situar o imaginário, é preciso que uma condição seja realizada – eu o disse a vocês, o olho deve estar numa certa posição, deve estar no interior do cone”. 37

A localização do olho caracteriza o lugar do sujeito no mundo da palavra 37 ,

indicando que “o motor dessa operação é o ato da palavra, um funcionamento

coordenado a um sistema simbólico já estabelecido, típico e significativo. 37

Através da instauração da relação especular, o imaginário dá consistência ao

objeto do desejo, produzindo uma amarração que nomeia, viabilizando o

estabelecimento do jogo de transposição imaginária onde os objetos se multiplicam e

permitem ao ser humano ser o único entre os animais a ter um número quase infinito

de objetos à sua disposição”. 37 Assim nota-se que “o desejo emerge em um

confronto com a imagem”. 37

2.5.3 – A nomeação

Na carta a Jennny Aubry, Lacan destacou que - ainda que a pulsão seja sem objeto

determinado - o desejo precisa ser nomeado para que haja a constituição de um sujeito.

Esta transmissão, da ordem de um desejo que não seja anônimo, se daria a partir da

função da mãe e do pai:

“Da mãe, na medida em que seus cuidados trazem a marca de um interesse particularizado, nem que seja por intermédio de suas próprias faltas. Do pai, na medida em que seu nome é o vetor da encarnação da Lei no desejo”. 37

Ao afirmar que ”só pode haver definição do nome próprio à medida que há uma

relação entre a emissão nomeante e algo que em sua natureza radical é da ordem da

letra”, Lacan deu relevo ao significante como caráter distintivo e principal elemento do

nome próprio. Ele o situou como função da letra, pois não depende de seu caráter

fonemático. O nome próprio comporta duas ordens de funções: uma enquanto traço

distintivo puro – a letra -, outra enquanto garantia de um lugar simbólico no Outro,

através da qual o sujeito pode apoiar-se no que um ancestral designou para ele. 37

2.5.4 - O campo da realidade

A instauração da Urbild, tal como é representada no esquema óptico, corresponde

à organização do sujeito no enlace ao outro. Esse enlace será responsável pelo

estabelecimento do campo da realidade. Em De uma questão preliminar para todo

tratamento possível das psicoses, Lacan representou o campo da realidade por um

quadrilátero na forma de um trapézio sustentado pelos triângulos do Simbólico e do

Imaginário. 37 Isso quer dizer que o sujeito se constitui ao emergir na cadeia significante

articulado ao objeto perdido que é a letra. O campo da realidade é o lugar-tenente da

relação entre sujeito e objeto.

é o lugar-tenente da relação entre sujeito e objeto. Figura 2.2 – Esquema R: O campo

Figura 2.2 – Esquema R: O campo da realidade recobre o Real ao ser esgarçado pelos triângulos do Imaginário – m,i-, e do Simbólico – M,I,P. 37

Cerca de dez anos depois, Lacan acrescentou, nesse mesmo trabalho uma nota

dizendo que “o esquema R expõe um plano projetivo37 , também chamado de cross-cap.

Ele quer dizer com isso que, é na medida que houve a extração do objeto a, que o

sujeito, então barrado pelo desejo, sustenta o enquadre do campo da realidade.

Acrescentou ainda que:

deve saber

perfeitamente que na banda de Moebius, não há nada de mensurável a ser retido em sua estrutura, e que ela se reduz, como o real em questão, ao próprio corte”. 37

Quem acompanhou nossas exposições topológicas [

]

Dessa forma, a banda de Moebius, isoladamente, serve para representar o sujeito inconstituído. A relação entre sujeito e objeto é figurada numa outra estrutura topológica, o cross-cap. Enquanto a banda de Moebius é uma estrutura tridimensional, o cross-cap é uma superfície que, para ser construída, requer a quarta dimensão. A impossibilidade de construí-la em três dimensões torna sensível a instabilidade e a oscilação dessa superfície que o humano só pode apreender parcialmente. Trata-se de uma superfície moebiana que se fecha numa esfera. Ela pode ser criada imaginariamente ao se efetuar, numa esfera, um corte no formato de uma circunferência (dito de outro modo, corta-se uma “tampa” numa bola) “suturando” ali uma banda de Moebius. Isso é impossível de ser realizado porque haverá sempre um ponto de descontinuidade, ou seja, um ponto cuja continuidade se realiza no atravessamento para outra dimensão.

uidade se realiza no atravessamento para outra dimensão. Figura 2.3 – Esquema do cross-cap : a

Figura 2.3 – Esquema do cross-cap: a linha pontilhada representa uma banda de Moebius. Indica que, ao efetuar um corte, retirando uma circunferência, o cross-cap transforma-se na faixa de Moebius. 37

O cross-cap é o acoplamento de duas estruturas heterogêneas: a banda de Moebius representando o sujeito; e a esfera destacando o aspecto imaginário do objeto. O sujeito só está constituído na medida que essa relação comparece no discurso do sujeito como efeito do remetimento de um significante a outro significante. É o que se verifica quando alguém expressa uma fala em que se produz uma significação. Veremos que a problemática autista diz respeito ao impedimento do destacamento do objeto letra.

O olho como símbolo do sujeito indica que na etapa primitiva da constituição

subjetiva o sujeito é falado pelo Outro e só se constitui ao alienar-se num significante. É

o que se deduz ao ler em Lacan:

“Com o sujeito, portanto, não se fala. Isso fala dele,e é aí que ele se apreende, e tão mais forçosamente quanto, antes de – pelo simples fato de isso se dirigir a ele – desaparecer como sujeito sob o significante em que se transforma, ele não é absolutamente nada. Mas esse nada se sustenta no seu advento, produzido agora pelo apelo, feito no outro, ao segundo significante. 37

Logo, a nomeação do desejo depende do olhar parental. Para que o sujeito se

constitua, o investimento libidinal da mãe deve ser fisgado na experiência alucinatória

de satisfação, marcando o registro simbólico como borda do real. A mãe é o primeiro

grande Outro primordial, na medida que é afetada pelo desejo.

O esquema óptico de Lacan é metáfora do estabelecimento da relação entre

simbólico imaginário e real que é apresentada por Freud na experiência de satisfação.

Nesse momento se dá a captura do sujeito pelo gozo da palavra, o gozo do Um, através

da junção da linguagem com a imagem – referida a uma alucinação. A partir da primeira

experiência de satisfação, o jogo de transposição imaginária leva à multiplicação dos

objetos que permitirá ao falante dispor de um número de objetos só limitado pelo

sintoma. Pode-se dizer que o gozo promovido pelo significante possibilita a

multiplicação dos objetos.

Lacan considerou que, como numa máquina de calcular, a primeira experiência de

satisfação circula em forma de mensagem. 37 A realidade é de tal maneira triada pela

experiência de satisfação (gozo do Outro) que podemos dizer que o mundo exterior é

construído a partir de peças escolhidas. 37 Um tempo de idas e vindas deve ser percorrido

a partir da primeira identificação até que a realidade se fixe numa conclusão edípica.

Essas idas e vindas darão moldura ao real humano, constituindo sua realidade.

2.6 – O gozo

A experiência de satisfação descrita por Freud 37 pode ser retomada, a partir da

leitura de Lacan, como uma descarga onde a satisfação em questão encontra-se

essencialmente ligada a uma experiência de gozo. Na instauração do inconsciente algo

se cifra no significante e ocorre um gozo nesse ciframento. Essa experiência enlaça a

comunicação tanto quanto a ultrapassa. Jacques-Alain Miller reorganizou a teoria do

gozo na obra de Lacan subdividindo-a em seis paradigmas do gozo 37 . Mostrou que ao

longo da teorização de Lacan se verifica uma verdadeira pulsação, um ir e vir entre

significante e gozo, que ora se aproximam, ora se afastam, refletindo nesta trajetória o

próprio movimento pulsional que vincula significante e gozo no ser falante.

O terceiro tempo do circuito pulsional – fazer-se comer –, mencionada no item 2.4

dessa dissertação, corresponde a um gozo em que há o destacamento do objeto. Miller

destacou que, no Seminário Os quatro conceitos fundamentais da Psicanálise, Lacan

definiu o inconsciente como uma borda que se abre e se fecha, tornando-o homogêneo a

uma zona erógena. 37 A cavidade contornada pela pulsão é homóloga àquela criada pela

anulação significante e ocupada pelo objeto a. A inadequação inerente à impossibilidade

de correspondência, entre esse objeto e a hiância que ele visa encobrir, promove o

deslizamento metonímico dos objetos a. Esse aspecto foi abordado quando se falou da

multiplicação dos objetos. O gozo é, portanto, nessa abordagem, distribuído sob a figura

dos objetos pequenos a, que são elementos de gozo 37 . A propósito, Miller disse que o

objeto a tem:

“Ao mesmo tempo, a estrutura elementar do significante, e é substancial, enquanto que o significante é material e não substancial. Há uma matéria significante, mas há uma substância de gozo, e é aí que se mantém a diferença entre o objeto e o significante.” 37

Assim, pode-se considerar que no momento inaugural do sujeito, a experiência. de

satisfação, a matéria significante destaca-se das marcas (substância) de gozo do Outro

que vem configurar o objeto.

Miller considerou que, com a noção de discurso, elaborada mais detalhadamente

no seminário O avesso da psicanálise, Lacan deslocou o enfoque da relação primitiva e

originária entre significante e gozo, passando a valorizar a repetição, como repetição de

gozo. Dessa forma, Miller aproximou a definição clássica de significante proposta por Lacan – “O significante é aquilo que representa o sujeito para outro significante37 –, da definição, mais afinada com este paradigma - “O significante representa o gozo para outro significante37 -, uma vez que o significante faz faltar o gozo assim como faz faltar o sujeito. O significante faz faltar o gozo na medida que promove o gozo fálico que é o gozo fictício. O sujeito é estruturalmente irrepresentável. Paradoxalmente, ele requer a representação, pois só surge cristalizado no significante, que representa sua morte. É o que traduz a frase de Lacan: “O significante faz surgir o sujeito ao preço de cristalizá-lo”. 37 Se, inicialmente consideramos a primeira experiência de satisfação como correspondendo à instauração da imaginarização do gozo, não de pode esquecer que também estabelece o gozo como ponto de inserção do sujeito no aparelho significante.

Lacan, no final de seu ensinamento, priorizou a palavra em sua dimensão de corte, de gozo da disjunção, sendo tomada para além de sua função de comunicação. Miller destacou que, no final da obra de Lacan, a disjunção ou não-relação nos conduz a um Um-totalmente-só, separado do Outro, onde o Outro aparece como Outro do Um, e o Um como verdadeiro Outro do Outro 37 . O gozo do Um pode comparecer em três configurações: o gozo do corpo próprio; o gozo concentrado sobre a parte fálica do corpo, que se estabelece na não-relação com o Outro; e o gozo da palavra, onde a palavra é o gozo e não a comunicação com o Outro. No quarto capítulo veremos as conseqüências desse avanço na concepção do gozo para o entendimento do autismo.

2.7 - O gozo de alíngua

No animal existe um saber instintual que possibilita a realização do coito sexual, através da colagem entre Imaginário e Real. Um breve exemplo dessa colagem pode ser verificado na constatação de que um animal como a pomba atinge a maturidade sexual mediante a visão de um semelhante da mesma espécie. Por tal motivo, quando se coloca um espelho diante de uma pomba se obterá o mesmo resultado evidenciando que ela não se engana quanto aos traços imaginários do objeto sexual que o real orgânico determina. Por outro lado, no ser falante, a intervenção do Simbólico estabelece a inexistência da

relação sexual forçando-o na direção da construção de uma unidade promovida pelas palavras e pelo corpo, que possa estabelecer alguma equivalência com a relação sexual. Essa unidade se dá nos efeitos de sentido que emergem do remetimento de um significante a outro. O efeito de sentido resultante do binário inicial S 1 – S 2 , que corresponde à articulação significante inconsciente 37 , não tem intenção de significação e, portanto, não está a serviço do diálogo, mas da realização do gozo possível para o falante. 37

Em seu trabalho, persistente, de formalização, visando uma transmissão precisa e eficaz da experiência analítica, Lacan serviu-se da matemática e da lingüística nos momentos mais avançados de sua teorização. No campo da matemática, a teoria dos conjuntos é um dos exemplos. Georg Cantor, criador da teoria dos conjuntos e das hipóteses do contínuo e do transfinito, propõe a noção de conjunto como a totalidade dos elementos que existe simultaneamente, funcionando como um objeto único, uma multiplicidade consistente. No entanto, o esvaziamento da consistência faz surgir, na borda da multiplicidade consistente, algo da ordem do impossível de reunir-se, a multiplicidade inconsistente e infinita. Lacan notou a compatibilidade entre a teoria de Cantor e a multiplicidade a qual remete o conceito de inconsciente enquanto unidade que implica uma disjunção 37 .

Lacan, num lapso 37 , forjou o termo lalangue pelo acoplamento do artigo definido la com o vocábulo langue 37 . Esse termo, traduzido como alíngua, está relacionada ao que anteriormente foi definido como línguas naturais, língua corrente, ou língua materna 37 sem que possa igualar-se a essas noções, pois leva em conta a idéia de unidade disjunta trazida pela matemática. Através de alíngua se transmite a coletânea dos traços dos outros sujeitos em que cada um inscreveu seu desejo 37 . A inscrição descrita por Freud na experiência de satisfação é abordada em termos de alíngua. Os traços mnêmicos são representações que se registram em alíngua.

Dito de outro modo, na medida que não há relação sexual, esta se dá por intermédio do sentido precipitado pelo sem-sentido que caracteriza alíngua. O fenômeno essencial de alíngua não é o sentido, mas o gozo. 37 Dessa forma, alíngua não está comprometida com o significado das palavras, mas com a gramática e com a

repetição 37 , pois retorna como um estribilho 37 , assim como a mensagem que surge na primeira experiência de satisfação. O motor de alíngua não é a comunicação, mas a homofonia 37 , o que desloca o foco da linguagem em direção à fala. No discurso inconsciente, o significante, despojado do lastro do significado, faz emergir efeitos de sentido que podem se propagar e proliferar ao infinito 37 .

Com o conceito de alíngua, Lacan visou dar conta do paradoxo implicado na noção de unidade disjunta a qual corresponde o efeito de sentido. Ao considerar alíngua um “caule de gozo” na “árvore do gozo fálico” 37 , Lacan destacou a importância de alíngua nos efeitos de cristalização nas redes do gozo, os efeitos de sentido. O sentido é sexual porque faz suplência ao sexual que sempre falta 37 . A alíngua se sustenta no mal- entendido 37 que mobiliza o sentido de fazendo com que se cruzem e se multipliquem Ela indica que todo sentido é equivocado. Pela ambigüidade de cada palavra, a alíngua possibilita a unidade promovida pelo efeito de sentido e tem, simultaneamente, função de escoamento de sentido 37 . Assim, a alíngua diz respeito ao que é da ordem da castração - do Real - no campo da linguagem. 37

Os conceitos de alíngua e efeito de sentido possibilitam uma abordagem mais apurada do que foi descrito por Freud na experiência de satisfação. O efeito de sentido é o ponto em que se dá a amarração entre R, S e I, tal como na experiência de satisfação. Sua vantagem é abordar o vínculo inelutável com o Outro, salientando que pode ou não estar acoplado a uma intenção de dizer. Mesmo que não esteja, o efeito de sentido corresponde a uma unidade vinculada ao gozo da fala, promovida por alíngua que estabelece a relação moebiana entre sentido e sem sentido. Alíngua está vinculada tanto ao sentido proveniente da experiência de satisfação quanto ao sem-sentido, anterior a qualquer simbolização.O autista vem mostrar de modo privilegiado essa relação com a fala que não passa pela linguagem.

Lacan considerou que alíngua deve ser entendida como aquilo que promove a animação significante do corpo, de forma a possibilitar um gozo distinto do corpo, o gozo fálico que ele denomina, neste contexto, gozo semiótico 37 , destacando que esse gozo acontece na emergência do signo lingüístico 37 .

Lacan distinguiu um saber sobre alíngua do o savoir faire com alíngua. O saber

sobre alíngua corresponde a uma construção de saber capaz de estabelecer laço social,

um saber privativo da linguagem. Assim, Lacan disse que a “linguagem é uma

elucubração de saber sobre alíngua”. 37 O discurso inconsciente, na medida que é

estruturado como uma linguagem também é uma elucubração de saber sobre alíngua 37 .

Mas o savoir faire com alíngua diz respeito a um saber capaz de fazer emergir um gozo.

Dessa forma, o inconsciente é testemunho de um savoir faire com alíngua, uma vez que

é um saber que se define pela conexão significante vinculada a um gozo. Esse

encadeamento significante chega à realidade na forma de um saber não sabido – um

enigma - que sustenta o laço social. Lacan afirmou que:

“Se se pode dizer que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, é no que os efeitos de alíngua, que já estão lá como saber, vão além de tudo que o ser que fala é suscetível de enunciar”. 37

Alíngua é o correlativo à disjunção Real 37 implicada no sentido Imaginário – o

semblante – através do campo Simbólico do significante. É a falta de sentido que

sustenta os efeitos de sentido que possibilitam o gozo fálico. A alíngua é pura diferença

que encontra no inconsciente seu saber fazer na medida que essa diferença se introduz

no campo da linguagem 37 . Esse avanço na teorização da psicanálise permite sustentar a

hipótese de uma anterioridade de alíngua ao significante mestre 37 , de tal forma que, o

campo de alíngua, antes de por ordem nos significantes, põe a nu uma cadeia de

significantes sem efeito de sentido. Haveria, portanto, um saber fazer com alíngua, mas

não um saber sobre alíngua. 37

2.8 - Em síntese

Ao longo desse capítulo vimos que a emergência da representação requer o que

Freud chamou de a primeira experiência de satisfação. Sob o ponto de vista da pulsão,

a primeira experiência de satisfação corresponde ao momento histórico do primeiro

fechamento do circuito pulsional, destacando assim, aquilo que ocupará, na estrutura, o

lugar de objeto. É também o momento de instauração do recalque originário, em que

uma perda irreparável – a castração – se instaura. Portanto, a assunção da representação

marca a coincidência de um gozo – a já mencionada experiência de satisfação –, e de

uma perda – o destacamento do objeto, que se coloca como causa do investimento

pulsional. Esse objeto é imediatamente velado, vestindo a imagem de um outro que

nasce em espelho com o eu. Na origem, o sujeito é ao mesmo tempo um outro 37 . A

constituição subjetiva para Freud implica um ato, um julgamento, que tem a função de

afirmar ou negar a realidade da representação. A função intelectual do juízo é uma outra

maneira de abordar o recalque.

CAPÍTULO III

ELEMENTOS DA CONSTRUÇÃO DE UM CASO DE AUTISMO

A invenção freudiana do inconsciente o estabelece como um sistema de registros

mnêmicos que se articulam numa rede com possibilidade infinita de combinação. Trata-

se de um conjunto aberto de traços, uma vez que está em permanente renovação. De

tempos em tempos, esses traços se organizam num conjunto finito que é traduzido para

o consciente num significado. Dito de outro modo, as representações, que são os traços

mnêmicos, ao serem submetidas às regras de organização do significado, são traduzidas

na consciência, na forma daquilo que o eu é capaz de reconhecer como pensamentos.

Dessa forma, o campo da consciência é dominado pelo ordenamento num significado

que atende às exigências da compreensão e da comunicação. A parte do inconsciente

que não se submete à essa tradução, comparece nas brechas da consciência, através de

suas formações – chistes, atos falhos, sintomas, sonhos -, que se contrapõem à sua

coerência, fazendo a comunicação vacilar. Isso é válido para todos, pois todo humano

está submetido à fala. Lacan é contundente ao dizer:

“Não esqueçam jamais que nada do que diz respeito ao comportamento do ser humano como sujeito, e ao que quer que seja no qual ele se realize, no qual simplesmente ele é, não pode escapar de ser submetido às leis da fala.” 37

Portanto, para a psicanálise, a criança autista está inserida na fala, ou seja, sua

subjetividade emerge no encadeamento significante. Ela, como todo falante, recebe seu

ser da relação com o significante. No entanto, a precocidade do aparecimento de suas

manifestações, a estranheza da fala, a forma como esses sujeitos se colocam no mundo,

levam a supor que, no autismo, a constituição da representação encontra-se comprometida em sua origem, deixando o sujeito sem poder servir-se da proteção do simbólico. Esse trabalho aborda a hipótese, trazida pela leitura de Lacan, de que a clínica do autismo mostra as conseqüências de uma recusa radical da inserção simbólica. O que quer dizer essa recusa, num ser cuja particularidade reside justamente no seu assujeitamento ao Simbólico? O caso de um menino autista pode nos auxiliar a elaborar esta questão.

3.1 A linguagem não foi feita para comunicar

André tinha nove anos de idade quando seus pais me procuraram. Apresentava

uma história clássica de autismo, só tendo começado a pronunciar as primeiras palavras aos cinco anos de idade, após dois anos de tratamento. Quando iniciou o trabalho comigo, embora apresentasse um vocabulário pobre, falava com clareza várias palavras

e já apresentava um esboço de comunicação com os familiares mais próximos que, em

geral, o tratavam com bastante carinho. Durante os atendimentos, pronunciava palavras

e frases soltas, aparentemente desconexas e sem endereçamento. A voz era, em geral, de entonação metálica. Raramente me olhava. Era muito inquieto, e passava as sessões,

andando pela sala e dando pulinhos. Enquanto dava tapas na barriga com a mão direita, mordia sistematicamente o punho esquerdo que, conseqüentemente, apresentava uma mancha escura e um espessamento da pele. Algumas vezes chutava ou se jogava contra

a parede.

A maior parte de suas verbalizações restringiam-se a repetições de frases e

expressões recortadas do universo de palavras que chegava aos seus ouvidos: “Batman e Robin”, “Quadro da estátua”, “Lata de leite”, entre outros. Não se conseguia identificar uma série em suas expressões, o que parecia indicar uma falha no remetimento de um significante a outro, como se fossem significantes estanques, cada um deles bastando-se

a si mesmos.

Estabeleceu-se entre nós uma interação através dessas falas. Ele fazia uma pausa e me olhava, aguardando que eu as completasse exatamente como ele o faria. Assim, ele

cabia a

leite”. Nada era aceito senão as palavras exatas. Uma vez

ocupando esse lugar, não corresponder às expectativas tendia a levar à aflição, agitação

ou ao retorno ao fechamento autístico. Seguindo a indicação de Lacan de que o analista

deve colocar-se numa posição de “submissão completa, ainda que advertida” à posição subjetiva do doente 37 , compartilho da opinião, explicitada por Jeanne-Marie Ribeiro, de que o analista deve inicialmente se deixar regular pelas construções que a criança autista já realiza, satisfazendo assim suas necessidades de colocação de ordem no mundo, acolhendo seu comportamento repetitivo 37 .

palavra “estátua”, “Lata de

dizia “Batman e

para que eu completasse “Robin”, “Quadro da

e me

Ao participar dessas verbalizações que ele reproduzira inicialmente sozinho e passava, então, a reproduzi-las em duas partes - uma pronunciada por ele, e outra por mim -, eu parecia adquirir uma discreta existência para ele pois, embora assim se estabelecesse alguma interação entre nós, não se podia supor haver, na pausa que ele fazia, um apelo, um endereçamento. Um apelo implica uma falta. Nesse caso tratava-se, antes, da disponibilidade de compartilhar comigo – o que não era pouco - o trabalho de sonorização ao qual se dedicava. Essas expressões não tinham pretensão de apropriação subjetiva. Eram pedaços recortados diretamente do Outro enquanto linguagem.

Nas palavras de Leo Kanner, as crianças autistas podem “estabelecer, gradualmente, compromissos estendendo tentáculos em um mundo em que desde sempre foram estrangeiras”. 37 Ao “oferecer-me” o complemento de suas expressões, André parecia estender seus tentáculos em minha direção. Como podem ser situadas essas frases no que diz respeito à representação?

3.1.1 – Os signos perceptivos

Vimos que na carta 52, trabalhada no item 2.2 dessa dissertação, Freud indica que a constituição do inconsciente impõe a suposição de uma inscrição prévia aos traços mnêmicos, os signos de percepção. Esses não podem ser traduzidos em representação de palavra, por não terem sido inscritos no inconsciente como representação de coisa. A

instauração do inconsciente requer a retranscrição dos signos perceptivos, retranscrição

essa que possibilita o estabelecimento da marca diferencial dos traços mnêmicos entre

si, que Freud descreve como facilitação. A partir dessa marca, onde, anteriormente, só

havia simultaneidade, passa a haver deslocamento metonímico e substituição

metafórica. Portanto, inconsciente se instaura partir de uma repetição que inscreve a

falta que comparece, desde então, indissociada da representação.

Assim, o que distingue um registro da ordem do signo perceptivo de um traço

mnêmico é o fato de haver, no segundo, inscrição da hiância. Pode-se deduzir que o

impedimento da passagem dos signos perceptivos para os traços mnêmicos corresponde

ao impedimento da inscrição dessa hiância. Marie-Christine Laznik considera que:

a clínica do autismo nos autoriza a dizer que este primeiro registro de inscrição pode existir mesmo que o inconsciente não chegue a se constituir37 .

As expressões verbalizadas por André - “Lata de leite”, “Batman e Robin”, etc –

observadas sob essa ótica, podem ser consideradas representações primitivas da ordem

dos signos perceptivos, caracterizados pela simultaneidade, como se fossem blocos

maciços de palavras, sem inscrição do corte que estabelece a diferença. Isso faz a

distinção entre a sucessão de palavras que André constrói e a série significante. A falta

impõe, na cadeia significante, a diferença entre os significantes, e faz com que eles se

estabeleçam, desde o início como dois, reduzidos por Lacan, no matema:

S 1 S 2

Lacan considera que talvez o autista “só escute rumores (um zum-zum), quer dizer,

que tudo ao seu redor tagarela” 37 . Com essas palavras, ele parece confirmar o estatuto

de pura ressonância da fala autista, compatível com a apresentação do significante em

sua materialidade plena, à qual Freud se refere como massas moventes. Dessa forma, no

autismo a representação vigoraria como representação primitiva dos signos de

percepção, caracterizados pela simultaneidade e pela ausência da diferença.