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04/09/13 História de Palmares ganha nova cronologia com análise de fontes originais | Agência FAPESP ::

História de Palmares ganha nova cronologia com análise de fontes originais | Agência FAPESP :: Especiais

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Pesqu isadora da Unicam p se debru ça sobre docu m entos h istóricos qu e perm aneciam inéditos desde o sécu lo XV II para entender as form as de dom inação no período colonial

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História de Palmares ganha nova cronologia com análise de fontes originais

01/08/2013

Por Frances Jones

Agência FAPESP – Em 167 8, o então rei dos Palmares firmou

um acordo de paz com o governador de Pernambuco, a

autoridade máxima sobre um território que englobava os atuais

estados da Paraíba, Alagoas, Rio Grande do Norte, além de

Pernambucano.

A negociação durou alguns meses e envolveu intérpretes, envio de embaixadas, presentes e

libertação de prisioneiros. De um lado, Ganazumba (ou Gangazumba), tio de Zumbi, séculos depois

apontado como símbolo da resistência contra a escravidão; de outro, dom Pedro de Almeida,

governador prestes a voltar para Portugal.

Até agora pouco estudado e comentado pela historiografia, o episódio vem ganhando contornos

mais definidos sob a luz de documentos originais, boa parte deles inéditos. O material, manuscrito,

inclui cartas, despachos de conselheiros do regente português, crônicas e até rascunhos

encontrados em Portugal pela historiadora Silvia Hunold Lara, professora da Universidade

Estadual de Campinas (Unicamp), em pesquisa realizada no âmbito do Projeto Temático

A documentação tem permitido que Lara e outros historiadores tracem uma nova cronologia

sobre Palmares. “Em geral, a historiografia periodizou a história palmarina a partir das guerras

feitas contra eles. Procuro me concentrar na formação dos mocambos [os assentamentos de

fugitivos] e entender como eles se organizavam em termos políticos e militares”, disse Lara à

Agência FAPESP.

“A década de 167 0 é importante porque marca o reconhecimento por parte das autoridades

portuguesas e coloniais desse sobado (estado africano) em Palmares. Os termos do acordo

negociado em 167 8 constituem a maior evidência disso”, disse a historiadora.

Em seus estudos, Lara retoma teses de uma vertente da historiografia que dá ênfase às raízes

africanas de Palmares, na qual se incluem os brasileiros Nina Rodrigues (1862-1906) e Edison

Carneiro (1912-197 2) e os norte-americanos Raymond Kent (1929-2008), Stuart B. Schwartz e

John Thornton.

De acordo com Lara, um documento-chave para entender Palmares é uma crônica anônima, com

data atribuída a 167 8, escrita logo depois do acordo de paz selado entre Ganazumba e o governo

de Pernambuco, quando d. Pedro de Almeida volta a Portugal e vai mostrar seus feitos às

autoridades portuguesas.

“É uma crônica extensa, que faz uma história de Palmares, desde o seu início até 167 8. Dá nome

aos mocambos, descreve as relações entre os chefes militares e os chefes dos mocambos, conta as

expedições feitas e equipara a uma conquista militar a vitória [parcial] obtida em 167 7 por uma

expedição que destrói os mocambos e está na origem do acordo de paz”, disse.

O grande ponto, segundo a professora titular do Departamento de História da Unicamp, é que essa

redigida.

“As pessoas não viram o original, que estava perdido nos arquivos. Quando você olha o original,

pode ver que houve transcrições incorretas”, disse Lara. Um bom exemplo é o dos nomes das

incorretas”, disse Lara. Um bom exemplo é o dos nomes das Buscar SIGA A AGÊNCIA FAPESP
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lideranças palmarinas e dos principais mocambos ali descritos – com diferenças em relação aos consagrados pela historiografia.

“A maior parte de quem lidou com Palmares trabalhou com uma documentação impressa. E quem transcreveu e publicou fez uma seleção. Ao ir às fontes e aos arquivos, localizei uma quantidade muito grande de fontes ao redor desses documentos transcritos, muitas nunca publicadas”, disse.

Os achados estavam no Arquivo Histórico Ultramarino e no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, e na biblioteca pública da cidade de Évora, interior de Portugal.

Saindo da trilha dos Imbangala

Lara também parte de um trabalho publicado em 2007 por Thornton e pela historiadora Linda Heywood, da Boston University, nos Estados Unidos, sobre a história das guerras na África Central para estudar quem eram os africanos escravizados e trazidos para o Brasil que fugiram e acabaram se organizando em agrupamentos em vários pontos de uma extensa região nordestina ao norte do Rio São Francisco, caracterizada por matas de palmeiras.

“Hoje conseguimos saber com um pouco mais de precisão quem eram as pessoas trazidas para cá:

muito provavelmente eram falantes de kimbundu, língua africana da região do então reino de Ndongo, que ocupava o que hoje é uma região de Angola”, disse.

Dos vários assentamentos de fugitivos – todos conhecidos nessa época como palmares –, um deles em especial se consolidou durante o período da ocupação holandesa (entre 1630 e 1654), formando uma rede de mocambos que se tornou conhecida depois como Palmares. Nove mocambos chegaram a abrigar no total cerca de 11 mil habitantes, de acordo com algumas fontes.

“Todo mundo diz quilombo dos palmares, mas a palavra ‘quilombo’ é empregada deslocadamente nesse contexto e é anacrônica para designar Palmares. A palavra empregada naquele período para designar ‘assentamentos de fugitivos’ é mocambo”, afirmou Lara.

Segundo a historiadora, “kilombo” é uma palavra africana que significa “acampamento de guerra”, usada pelos grupos nômades guerreiros Imbangala, da África Central. Historiadores como o norte- americano Stuart Schwartz, da Y ale University, consideraram que a formação dos quilombos nas Américas estava relacionada a esses acampamentos guerreiros – daí a origem do termo.

“Mas acho que essa não é uma matriz da formação dos assentamentos dos fugitivos no Brasil. Os kilombos Imbangala tinham rituais específicos, com morte de crianças, serragem de dentes e

canibalismo. Como eram nômades, não tinham uma ligação territorial nem as linhagens que davam

a legitimidade do poder, diferentemente do que ocorreu nos mocambos do interior de Pernambuco, onde se formou um reino linhageiro”, disse Lara.

Os mocambos se organizavam segundo uma gramática política centro-africana, explicou a pesquisadora. Como nos sobados centro-africanos (os potentados locais da África), os chefes políticos dos mocambos do Nordeste mantinham relações de parentesco entre si e todos estavam subordinados a Ganazumba, conhecido como rei dos Palmares. “Esse sobado que se formou no interior de Pernambuco foi reconhecido pelas autoridades coloniais como um poder político independente, com o qual se podia negociar”, disse.

Mudança para Cucaú

A pesquisadora conta que a ideia de as autoridades coloniais fazerem acordos com fugitivos

sempre existiu – e não apenas no Brasil. O de 167 8, porém, foi o que mais progrediu. Boa parte dos

habitantes dos mocambos de Palmares mudou-se para uma aldeia criada especialmente para recebê-los, Cucaú, e eles foram considerados livres.

A paz, no entanto, não durou mais do que dois anos. Uma parte dos mocambos, liderada por

Zumbi, rejeitou o acordo e ficou em Palmares. Seguidores de Ganazumba, como seu irmão Ganazona, participaram de buscas para trazer os que haviam permanecido no mato. Ganazumba termina assassinado e Cucaú, destruída, provavelmente por tropas coloniais. As pessoas que moravam lá voltaram à condição de escravos.

“A história contada até hoje sobre Palmares é uma história militante e toda ela converge para o enaltecimento da figura de Zumbi como a grande liderança que jamais se curvou e resistiu à escravidão até ser morto em 1695; as pessoas reiteram e usaram a mesma documentação para dizer mais ou menos a mesma coisa”, ressaltou Lara. “Essa história passa muito rápido pelo acordo de paz. Tão rápido que os termos do acordo nunca foram publicados nas coletâneas de documentos feitas sobre Palmares.”

Interessada em discutir as formas de dominação nesse período e o modo como africanos e indígenas lidaram com o domínio colonial, Lara recupera de todas as formas o acordo. “A história de Palmares, da maneira como a estamos estudando, ajuda a entender como a dominação colonial

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foi enfrentada e modificada pela ação dos índios e dos africanos na África e no Brasil.”

Com o auxílio do Projeto Temático FAPESP, Lara e sua equipe montaram uma base de dados sobre

Palmares, organizada de forma a ser disponibilizada para consulta pública on-line. Cerca de 2 mil

documentos foram digitalizados e aos poucos estão sendo transcritos. “Espero que, dentro de dois

anos, tudo esteja aberto para o público”, disse.

Diversos bolsistas também produziram trabalhos relacionados à produção da base de dados. Um

deles foi a monografia de graduação "Guerras contra Palmares: um estudo das expedições

realizadas entre 1654 e 1695", de Laura Peraza Mendes, que ganhou prêmio de melhor monografia

de graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp em 2011.

Mendes defenderá sua dissertação de mestrado, que contou com Bolsa FAPESP

2013.

Lara agora trabalha para transformar em livro a tese “Palmares & Cucaú: o aprendizado da

dominação”, com a qual se tornou professora titular.

da dominação”, com a qual se tornou professora titular. AGENDA DE EVENTOS DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E

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