A Casa Azul era um espaço cultural interessante.

Como ficava claro no próprio nome tratava-se de uma imensa casa antiga e grande de cor azul-escura em cujo interior funcionava um bar dedicado a assuntos relacionados à Arte. Em suas paredes estavam muitos quadros de artistas locais, alguns de gosto duvidoso, porém era um espaço de incentivo a intelectuais e artistas, que não fazia muita distinção de qualidade, preferindo incrementar a cultura acima de tudo. Era concorrida a procura por lançamentos literários na ‘Casa’, pois havia algo de maldito em sua aura, isto por estar sempre aberta às novidades mais estranhas em matéria de criação artística. Havia um pequeno palco em um canto do bar que já servira a esquetes dos mais variados, pantomimas e monólogos. Tudo podia na Casa Azul, mas a preferência era sempre por algo inovador. A Casa tinha dois pisos e se o de baixo era todo tomado pelo imenso bar com mesas e cadeiras laqueadas de preto, em cima ficavam banheiros e alguns quartos atapetados com almofadões sujos jogados pelos cantos; estes quartos eram os preferidos para o consumo de algumas drogas como maconha e cocaína, tudo com a maior liberdade. O local todo descansava sob a serenidade de uma penumbra mansa e convidativa. Ao chegar, Enzo reparou na pequena mesa em um canto do térreo, sob a qual um foco de luz iluminava pilhas de livros, eram os livros a serem autografados; a cadeira vazia junto à mesa indicava que o autor ou não havia chegado, ou estava entre as muitas pessoas, dos mais variados matizes que lotavam o bar. Havia poucas pessoas sentadas, no entanto, muitas conversavam em pé, segurando copos e taças, freqüentemente interrompendo conversas e risadas para darem goles gulosos em vinho branco, champanha, uísque e comerem alguns salgadinhos que circulavam nas mãos de bem vestidos garçons. Enzo pegou um copo de uísque com gelo e começou a circular por entre as pessoas, logo visualizou Zeno Kanova rodeado pelos bajuladores de sempre; ao seu lado, junto à parede, um imenso banner tinha uma grande foto sua ao lado da capa do livro intitulado Fome Canibal: Instinto Insaciável. Seu coração bateu mais forte. Kanova, a exemplo de Zattan, já não era um garoto; tinha cabelos compridos e grisalhos, muito lisos presos em um ‘rabo de cavalo’;, estava todo de preto e se mostrava bastante solícito com seus circundantes. A penumbra deixava marcas negras no sulcado rosto magro do escritor. Em seu canto Enzo imaginava se Kanova ao conversar animadamente com aquelas pessoas, não lhes calculava o peso, ou quem sabe vislumbrava partes suculentas do corpo, quem poderia garantir que a boca do autor não aguasse de vez em quando, ao firmar seus olhos cobiçosos na pele de algum interlocutor inocente e desavisado. Um lobo entre as ovelhas ingênuas. O lobo mais feliz do mundo, pois podia escrever com maestria sobre seu paladar sinistro, mesmo em seus pormenores, pois estava imerso sob a tutela do Clube. - Sabia que estaria aqui. – a voz de Zattan fê-lo botar os pés no chão de imediato. Olhou para o velho escritor que estava com seu uniforme de sempre, inclusive mantinha o chapéu na cabeça. Carregava um copo de uísque sem gelo e continuou: - Kanova chegou à perfeição. Soberbas descrições, coisa de mestre, chega a ser pura poesia o que escreve. - Você é um homem doente... - Não. Você é. – disse o velho autor encarando Enzo – Só não se apercebeu ainda. Botei um Rubi em sua mão e você insiste em cuspir nessa jóia. - Caralho, homem!...estamos falando de canibalismo... – disse o rapaz baixinho. - Não, estamos falando da arte do senhor Zeno Kanova. O que espera que eu lhe diga, que Kanova é do Clube? Como vou saber? Cuidado com suas conclusões. Espero realmente que comece a controlar seus nervos e sua paranóia, isso pode lhe trazer muitos problemas. Tire suas conclusões, vá lá, cheire o autor, chegue bem perto, sinta seu hálito. Quero ver você provar o que se passa em sua cabecinha perturbada.

Enzo desvencilhou-se de seu mentor e foi até a pilha de livros, uma mulher, também toda de preto, estava fazendo as vendas. Adquiriu um exemplar e num ato instintivo olhou para Kanova, este tinha os olhos cravados em Enzo. Seu sangue gelou. Eram olhos negros e duros que se destacavam no rosto branco e marcado. O novato baixou a cabeça, acusando um golpe com o qual não contava, disfarçou seu embaraço abrindo e folhando o livro, quando levantou os olhos rapidamente na direção de Kanova, este conversava novamente com as pessoas em sua volta. Zattan permanecia parado olhando para o rapaz com um sorriso que o irritava; sentiu um filete de suor descer pela testa. Voltou para a incômoda companhia de Rodolfo e este brincou olhando para o livro nas mãos de Enzo: - Bela aquisição, espero que lhe seja muito útil. Leia com a sensibilidade dos escritores, é o mínimo que pode fazer por esta obra. - Você fala como se isto aqui fosse o ‘crème de la crème’ da Literatura, ora, dane-se! estou de saco cheio! - Então imagine o meu, com um pupilo tão rebelde e arisco. Não quer aprender certas verdades, nossas verdades, só nossas. Entenda de uma vez por todas: não há como caminhar por este caminho pulando em uma perna só. Você precisa conhecer os dois lados desta moeda, e que moeda! Não vai se arrepender. Já lhe disse, se não mergulhar para dentro de sua sombra, não poderá escrever sobre sombras. E se você não tiver uma, está no lugar errado. O que lhe incomoda é que você quer o que não pode ter, ou melhor, pensa que não pode. Na verdade ninguém entra para o Clube se não tiver propensão para o lado negro, engane-se o quanto quiser. O auto-engano é uma máscara singela que esborracha em pedaços mais cedo ou mais tarde, hehe... – Enzo desviou os olhos de Zattan e sentiu as pernas bambearem, pois em meio às pessoas que conversavam alheias, um sorriso aproximava-se perigosamente. Era Alexandre, que acabara de perceber Enzo e vinha com uma taça de champanha erguida. Queria se esconder, isto não estava previsto: Alexandre encontrá-lo ao lado de Rodolfo Zattan, mas, enfim, agora era tarde. - Ora, ora, ora... se não é meu amigo e escritor Enzo Caio e... não acredito! Rodolfo Zattan! Que prazer! – Alexandre esticou a mão para Zattan que a apertou com seu melhor sorriso artificialmente branco. – Puxa, Enzo! Não sabia que você conhecia pessoalmente este ‘monstro’ sagrado da literatura de terror! – voltou-se para Zattan Em nossa última conversa falamos no senhor... – o velho escritor fitou o pupilo com um ar intrigado e comentou sem tirar os olhos de Enzo: - Comentaram a meu respeito? Espero que meu amigo escritor tenha tido a cortesia de me dedicar boas considerações... – Enzo estava entre o embaraço, o medo, e a raiva; era muito azar a chegada de Alex numa hora destas, estava definitivamente em maus lençóis. - Bem... na verdade – prosseguiu Alexandre – lhe teci elogios, disse ao meu amigo que você era um gênio nesse gênero de literatura, que escrevia uma descrição impressionante das cenas mais chocantes, disse também que é isso que as pessoas querem e não lorotas bobas. - Ah, e que seu amigo disse? - Nada. Saiu batendo a porta. Acho que ficou ofendido, mas lhe garanto, senhor Zattan, ele um dia chegará lá! É uma questão de tempo. – o velho escritor sorriu com sarcasmo e olhou novamente para o rapaz que estava totalmente sem jeito. - Não tenho dúvidas disso. É uma questão de tempo...não é? Senhor Enzo... - Claro... claro, senhor Zattan, agora, se o senhor me permite, preciso conversar com meu amigo. – já ia saindo levando Alex pelo braço quando Rodolfo ponderou: - Mas você nem me apresentou seu amigo? Esta é uma descortesia imperdoável.

- Ele é assim mesmo! Que cara chato! Aqui está o meu cartão, sou editor – quando Alex estendeu sua mão com o cartão de visitas, Enzo tomou-o num gesto instintivo. - Hei! Que é isso, Enzo? – protestou com veemência o amigo. - Me desculpe. – disse devolvendo o cartão a Alex, suas têmporas estavam empapadas de suor. O editor finalmente deu o cartão a Zattan, que parecia divertir-se com a situação. - Isso tem nome, - disse Alex ao veterano – chama-se insegurança. Ele normalmente não é assim. - Certo, mas agora vamos, Alex. Passar bem, senhor Zattan. – Zattan apenas fez um gesto e não tirava o sorriso do rosto. Os jovens saíram da presença do velho escritor. - O que deu em você, caralho! – protestou Alex – Você teria muito a aprender com ele, sabia? - Não estou me sentindo bem, e a presença desse homem só fez complicar as coisas, deixe ele para lá. - Não sabia que você o conhecia! Por isso ficou nervoso lá no escritório? - Porra, Alex! Não fale asneira! Conheci o cara aqui, hoje. Foi coincidência, nada mais. Olhe, o canibal já está autografando, vou para a fila. - Certo, vou pegar um uísque. Enzo ficou na imensa fila que se havia formado, folheou algumas vezes o livro e olhou para o relógio: nove e meia. Elisa já estaria furiosa há uma hora e meia – te espero às oito lá em casa... – desta vez as conseqüências seriam sérias, tinha certeza. Duas vezes machucada pela indiferença, a moça, orgulhosa como era, deveria tomar providências sérias com relação ao escritor. Pior, ficava definitivamente bem claro que algo estranho estava acontecendo, pois o namorado depois de uma briga por causa do celular desligado, repetia a dose, agora com requintes de crueldade. Elisa não perdoaria o fato de Enzo fugir a um compromisso combinado e com o celular desligado. Sim, sabia o que o esperava e isto o desanimava; estaria fazendo a coisa certa? Realmente justificaria perder a namorada, se fosse o caso, para escrever seu best-seller? A cegueira da obsessão já havia deitado suas primeiras sombras sobre seus olhos, estava confuso. Não contava também com a presença repentina e incômoda de Alexandre, justamente quando estava com Rodolfo. Sentia que agora se transformava em um equilibrista, equilibrava seus planos a despeito das circunstâncias, ou seja, de um script que se escreve com a própria vida em andamento. Rumava para o olho de um furacão com conseqüências imprevistas, ou acertava ou destruía sua vida; era então natural que seu cabelo fino estivesse grudado à testa pelo suor. Foi assim que chegou à frente de Enzo Kanova, o semblante descomposto, o olhar indignado... entregou o livro ao homem sentado à pequena mesa, este olhou para cima e o rapaz sentiu novamente o desconforto cortante daqueles olhos duros. Kanova esboçou um sorriso enigmático e ficou aguardando em silêncio que o rapaz dissesse seu nome. - Enzo Caio, sou escritor. – disparou e ficou observando a reação de Kanova feito uma águia. - Escritor? Que bom... – disse, fazendo a dedicatória – escreve sobre o quê? - Terror. - o homem parou e encarou Enzo novamente. - Gosta dos caminhos negros? Isso é bom. Tomara que tenha bom olfato para sangue. – devolveu o livro com a dedicatória para Enzo, sem deixar de encará-lo. - Acredite, senhor Kanova... é o que eu quero descobrir, tenha certeza. – retirou-se e sentiu que o coração saltava no peito, mas o que viu em seguida não ajudou em nada, pois Alex havia grudado em Zattan novamente e ambos mantinham uma animada conversa. A raiva chacoalhou seu sangue. Foi ao banheiro no andar de cima e depois de aguardar em uma pequena fila, entrou, trancou a porta, jogou o livro com raiva no chão,

foi à pia e tirou os óculos. As imagens de sua agressão à faca no cadáver voltaram à sua mente conturbada. Lavou o rosto diversas vezes, freneticamente. Olhou-se no espelho e percebeu algo em seus olhos; sim, algo estava mudando, havia uma dureza em seu olhar, um brilho estranho, como algo que se desvelasse lento e assustador. Secou o rosto com a toalha de papel, apanhou os óculos, o livro no chão, saiu do banheiro, desceu as escadas e saiu do bar. Ainda escutou a voz de Alexandre chamando-o, mas não ligou a mínima, estava com ânsia de rua, de ar; tinha vontade de sair correndo pela calçada, e foi o que fez.

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