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Apologeticando

a defesa da Fé
Alexandre Martins, cm.
Alexandre Martins, cm.

Apologeticando
a defesa da Fé

2a edição
revista e ampliada

São Gonçalo
2008
do mesmo autor:
Perguntas a um Congregado
Palavra do Assistente

Copyright 2007 © Alexandre Martins


Copyright 2008 © Alexandre Martins

Capa: Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, Largo do Pelourinho,


Salvador, BA
- foto: Renato Soares®Imagens do Brasil <www.imagensdobrasil.art.br>

Correção ortográfica: profa. Bruna da Silva Tavares


Capas e diagramaçào: do autor

O registro de direito das fotos bem como de ilustrações desta publicação


- exceto 1a. capa - é de domínio público.

Pedido de exemplares:
rua Nilo Peçanha, 110 / 1101, São Gonçalo, RJ, CEP 24445-360,
ou pelo correio eletrônico
alexandremartins@bluebottle.com com o assunto “pedido de livro”.
Introdução
Apologética é uma palavra derivada de “apologia”
(do grego απολογία, que vem de απο + λογος). É definida pelo
dicionário Houaiss como sendo “defesa argumentativa de que a
fé pode ser comprovada pela razão” ou “parte da teologia que
se dedica à defesa do catolicismo contra seus opositores”, em
derivação: “defesa persistente de alguma doutrina, teoria ou
idéia”.
Conforme Sproul, Gerstner, Lindsley (1984:13),
””Apologetics is the reasoned defense of the Christian religion”
- a apologética é a defesa fundamentada da religião Cristã.
Como defesa fundamentada da fé, a Apologética está
para a Teologia como a Filosofia está para as Ciências Humanas.
Ramm (1953:2) identifica na apologética o papel fundamental
de mediar e conciliar tensões intelectuais: ...a apologética
media tensões intelectuais. [Essa] mediação intelectual alivia
as pressões mentais, resolvendo discrepâncias aparentes,
harmonizando todos os elementos da vida mental. (...) Com o
surgimento da mentalidade moderna e o conhecimento moderno,
veio uma ampla gama de tensões para o apologeta Cristão
mediar.
Este pequeno livro vem à lume para contribuir na defesa
da Fé cristã, tão volatizada por pseudo-intelectuais que desfiam
um colar de baboseiras em textos divulgados mormente na
Internet - a rede mundial de computadores. Neste século XXI,
o “século da informação” como se quer crer, vemos que as
informações são distorcidas a bel-prazer deste ou daquele grupo
que tem intenções misteriosas em manipular a verdade. Nunca as
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Apologeticando

informações foram tão rapidamente disseminadas e nunca tanto


se produziu de conhecimento como nestas últimas décadas.
Mas a pergunta é: será que as informações são corretas?
Será que podemos confiar em tudo o que lemos ou ouvimos e
vemos ?
A Desinformação é algo meticulosamente pensado e
exercido em todos os meios de comunicação de massa - os media
- fazendo com que ajamos de determinada forma sem a nossa
própria percepção. E este agir reflete algo já previsto por quem
nos informa. Desinformação não é o ato de não-informar ou o de
“retirar a informação”. Desinformação - que alguns atribuem a
Lenin e sua “desinformátsya” - é “informar coisas para fazer
com que tal pessoa (ou grupo) possa agir de modo que pense
que está agindo por sua própria consciência”. É algo terrível,
somente comparado com as mensagens subliminares que a
ciência da Gestalt estuda. Mas as mensagens subliminares estão
sendo pouco a pouco desmascaradas... Mas a desinformação,
não.
“A maior parte das nossas classes letradas não sabe
sequer o que é desinformação. Imagina que é apenas informação
falsa para fins gerais de propaganda. Ignora por completo que
se trata de ações perfeitamente calculadas em vista de um fim, e
que em noventa por cento dos casos esse fim não é influenciar as
multidões, mas atingir alvos muito determinados - governantes,
grandes empresários, comandos militares - para induzi-los a
decisões estratégicas prejudiciais a seus próprios interesses e
aos de seu país. A desinformação-propaganda lida apenas com
dados políticos ao alcance do povo. A desinformação de alto
nível falseia informações especializadas e técnicas de relevância
incomparavelmente maior.”*
Cumpre a nós, católicos, por força de um pensamento
coerente e lógico, desfazer equívocos que são maquiavelicamente
disseminados em círculos intelectuais, em meios de comunicação,
etc. O leitor verá neste livro refutações a artigos e pensamentos
que são à primeira vista bem coerentes e bem fundamentados,

(*) - Disponível em <http://www.olavodecarvalho.org/semana/desinf.htm>


Acesso em 10/10/2007.
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Alexandre Martins, cm.

mas que numa breve análise, tornam-se fúteis e até pobres de


embasamento científico.
Não é difícil, na sociedade brasileira moderna,
refutar acusações como as que são vistas nesta obra. O nível
de conhecimento histórico do estudante brasileiro - mesmo
do ensino superior - foi distorcido por professores geridos
ideologicamente por partidos políticos que, a pretexto de fazer
uma contra-revolução ao Golpe de 1964, no fundo desejavam
- e desejam - reescrever a História e as mentes de acordo com
as suas próprias filosofias. Ora, se um professor é doutrinado
ideologicamente desta forma, o mesmo necessariamente será
feito por ele com seus alunos. Eis uma forma de desinformação.
O tema da Desinformação é extenso e mereceria um
outro livro. Mas aqui é apenas uma apresentação desta pequena
Apologética Católica. Fique com “o outro lado da moeda” do que
se aprende na escola e o que se diz nos jornais. Quando deparar-
se com um texto como estes que citamos aqui, pense antes: “a
quem interessa ?”
Tenha a certeza, caro leitor, de que a verdade
prevalecerá.

Non ducor, duco*

o autor

(*) - Não sou conduzido, conduzo.

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Primeiro Conselho
para o Apologista
Católico
Este é um fragmento da obra de Atenágoras de Atenas,
datada do séc II. É um texto de muita importância para
aqueles que desejam defender a Verdade.

“Em todo dogma ou doutrina que se atenha à verdade


nesses assuntos nasce, como rebento, alguma mentira. E nasce
não porque, de princípio, saia algo inerente por natureza ou
como causa essencial de cada coisa, mas porque é procurado com
afinco que honram o germe adúltero que corrompe a verdade.

Pode-se comprovar isso primeiramente que há muito


tempo especularam sobre esses assuntos e na divergência com
seus predecessores ou mesmo com seus contemporâneos, e
igualmente através da própria confusão em que se encontram os
assuntos discutidos.

Com efeito, é certo que essa laia de pessoas não deixou


nenhuma verdade sem calúnia: nem a essência de Deus, nem
seu conhecimento e sua operação, nem o seguimento encadeado
dessas coisas que nos aponta a doutrina da piedade. Assim,
existem alguns que, completamente e de uma vez para sempre,
renunciam a encontrar a verdade sobre esses assuntos; outros a
distorcem em vista de suas próprias opiniões; outros, por fim,
fazem profissão de dúvida até sobre o evidente.

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Apologeticando

Na minha opinião, aqueles que se preocupam com isso


necessitam de duplos raciocínios: uns para defender a verdade,
outros a respeito da verdade. Os raciocínios para defender a
verdade se dirigem aos que não crêem ou duvidam; os raciocínios
a respeito da verdade para os que têm sentimentos nobres e
recebem com benevolência a verdade.

Portanto, é preciso que aqueles que desejam examinar


estas questões considerem o que lhes seja útil em cada caso
e, de acordo com o caso, meçam seus raciocínios e ajustem
convenientemente à sua ordem, e não descuidem do conveniente
e do lugar que corresponde a cada coisa, acreditando que se deva
conservar sempre o mesmo princípio. Com efeito, se se olha
para a força demonstrativa e para a ordem natural, os raciocínios
a respeito da verdade têm a primazia sobre os raciocínios em
defesa da verdade; ao contrário, se olhamos, porém, a utilidade,
os raciocínios em defesa da verdade são anteriores aos raciocínios
a respeito da verdade.

Assim é que o lavrador não pode convenientemente


lançar as sementes na terra, se antes não arrancar todo o mato
e o que pode prejudicar a boa semente; o médico também não
pode aplicar medicamentos de saúde ao enfermo, se não limpa
antes o mal interno ou não detém o mal que procura infiltrar-se;
assim quem procura ensinar a verdade não poderá, por mais que
fale dela, persuadir a ninguém, enquanto uma falsa opinião esteja
agarrada à mente dos ouvintes e se oponha aos raciocínios.”

Atenágoras de Atenas *

(*) - Atenágoras (†180) era filósofo em Atenas, Grécia, autor da “Súplica pelos
Cristãos” - apologia oferecida em tom respeitoso ao imperador Marco Aurélio
e seu filho Cômodo. Escreveu também o “Tratado sobre a Ressurreição dos
Mortos”. Um dos Padres da Igreja, foi grande apologista.

10
A Igreja de Roma e os
Movimentos Heréticos
Guimarães, Carlos. A Igreja de Roma e os Movimentos Heréticos,
disponível em <http://www.mundodemerlin.pro.br/home.htm>. Acesso em
5/4/2002.

Texto publicado na Internet* em meio a vários outros


artigos pró ou contra a Igreja.
O Autor, Carlos Antonio Fragoso Guimarães, nasceu
aos 10/01/1969, em João Pessoa (PB), formado em Psicologia
Clínica (UFPB) e Mestre em Sociologia (UFPB). Pianista,
Organista da Catedral Metropolitana local até 1989.
Segundo o professor Raúl Cesar Gouveia Fernandes
(USP) 1, citando s. Agostinho, deve haver no pesquisador um
aprêço pelo que pesquisa, ou seja, de sincera admiração. Tal
não encontramos no artigo do psicólogo Carlos Guimarães, que,
sem citar fontes, permeia de certa mágoa seu “estudo” sobre a
História Eclesiástica. O que se pode deduzir desta sua análise
parcial e pouco científica.

* - foram mantidas a grafia e redação do original, sem correção.


1
- Disponível em http://www.hottopos.com.br/videtur6/raul.htm>, Acesso em
05/04/2002
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Apologeticando

Segue o texto (em itálico) com os respectivos


comentários:

Durante a imersão da Europa nas trevas da Idade Média,


surgiram vozes que se levantavam contra o abuso e a
arrogância do poder de Roma.

O termo “trevas da Idade Média” foi uma fórmula infeliz


desenvolvida por autores que queriam justificar o chamado
Iluminismo do Século XVI, como um período antagônico cíclico
que seria, segundo eles, de barbárie.2

Estes movimentos conheciam boa parte da tradição


espiritual do ocidente, e procuravam recuperar a pureza
do cristianismo primitivo, sem as pesadas roupagens da
ritualística e dos dogmas romanos.

Não enumera o Autor a quais os “movimentos puristas”


a que se refere. Se contarmos como Idade Média o período
geralmente aceito entre 476 a 1453 d.C., poderemos apontar os
seguintes movimentos religiosos: criação do Islã (no Oriente,
em 622), o Monotelismo, os Iconoclastas, Godescalco, Fócio,
Estêvão e Lisóio, Berengário, Valdenses, Flagelantes e outros.
O 5° Concílio Ecumênico (ou 2° Constantinopolitano,
Constantinopla, 533 - chamado de ecumênico por reunir a
maioria dos bispos de todo o Mundo conhecido - , condenou a
heresia Nestoriana - segundo a qual a pessoa de Jesus Cristo
era um composto de dois filhos: filho de Deus e filho de um
homem.

2
- PERNOUD, Régine, O Mito da Idade Média, Lisboa, Europa-Am., s/d.

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Alexandre Martins, cm.

O Monotelismo pregava que Cristo tinha somente uma


vontade, a Divina. A Igreja, bem como as Escrituras, apregoam a
dupla natureza de Cristo: humana e divina.
O Arianismo - segundo o qual - ainda existia na
Espanha, combatido por s. Isidoro de Sevilha (atualmente o santo
protetor da Internet).
Os Acéfalos foram condenados pelo 4° Concílio de
Toledo (Espanha).
Os Iconoclastas - do grego εικών = eikon (ícone), e
κλαστειν = klastein (quebrar) quebradores de imagens de Cristo
e dos santos, além de baderneiros públicos foram condenados por
350 bispos em Nicéia, no 7° Concílio (786)
Godescalco, monge beneditino ambicioso, pregava que
Deus predestinava certas pessoas para a Salvação em detrimento
de outras. Foi condenado por Notingo, bispo de Verona (Itália).
Seus erros foram repetidos por Lutero e Calvino, séculos
depois.
Fócio, ambicioso bispo que desejava ser Papa por méritos
pessoais - usando de prestígio político passou de leigo cristão a
monge, diácono, sacerdote e até a bispo em apenas uma semana
- foi o início e a mais importante das causas que separaram as
Igrejas do Oriente e do Ocidente até hoje. Foi condenado pelo
8° Concílio Ecumênico, não antes de lhe ter sido dada a voz para
esclarecer-se, à qual respondeu esconjurando a todos.
Estêvão e Lisóio pregavam a extinta heresia dos
Maniqueus - segundo a qual existem dois deuses: um bom e
outro mau - além de rejeitarem os Sacramentos e praticarem
certas práticas como queimar crianças e dar as cinzas aos
moribundos. Foram condenados por um Concílio de Orléans
(França) e queimados vivos com seus adeptos.
Berengário rejeitava a presença de Cristo na Eucaristia.
Esclarecido de seus erros, retratou-se e morreu pedindo perdão a
Deus pelos que talvez tivesse tirado do caminho da Verdade.
Os Valdenses, de origem em Pedro Valdo, de Lion
(França), cujo amigo, ao morrer repentinamente ao seu lado,
lhe despertou repulsa por tudo quanto é riqueza. Pregou aos
amigos a pobreza voluntária e começou a condenar a riqueza
que possuía a Igreja, afirmando que o clero não poderia possuir
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Apologeticando

bens sem cometer pecado. Apesar de condenados pelo 11°


Concílio Ecumênico (1179), perduraram ocultos até a época dos
Calvinistas (séc. XVI), unindo-se a estes.
Flagelantes foram os que, visando aplacar a cólera de
Deus, andavam em procissões pelas ruas se açoitando como
forma de penitência. O que era devoção, virou superstição e
depois heresia: sustentavam que ninguém se salvaria sem estas
práticas. Foram condenados pelo papa Clemente VI (1349).
Como se percebe, muitos movimentos surgiram nesta
época, mas nenhum queria a “pureza cristã primitiva”.

Entre as mais famosas dessas correntes rebeldes,


predecessoras da Reforma Protestante, temos o
movimento da Igreja Cátara, que representou de fato uma
séria ameaça à hegemonia da Igreja Católica,

Se os movimentos anteriores não acabaram com a Igreja,


não seria a heresia cátara que conseguiria. Mesmo assim, os
cátaros ou albigenses - assim chamados por surgirem na cidade
de Albi (França) - foram grandes pertubadores políticos do seu
tempo, a ponto de impedirem a proliferação da paz e a hegemonia
dos soberanos dos países onde estavam. A esta desordem
política, mais do que movimento religioso, foi combatida com
a legislação da época: a ferro e fogo. E tal repressão feita pelo
poder político, e não eclesiástico. De fato, longe de opor-se à
“hegemonia” católica, o que estes movimentos mais faziam era
instaurar o caos urbano.3

e a Ordem dos Templários, contemporânea dos Cátaros e,


de início, apoiada pela própria Igreja de Roma.

A Ordem dos Templários, fundada em 1118 pelo


cavaleiro Hugo de Moyens para defender a civilização cristã dos

3
- BETTENCOURT
BETTENCOURT, d. Estêvão, OSB, cit., por prof. Felipe de Aquino,
diponível em <http://www.cleofas.com.br/html/igrejacatolica/inquisicao/inqu
isicaoespanhola.html>. Acesso em 5/4/2002.
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Alexandre Martins, cm.

maometanos, alcançou seu ápice anos mais tarde, dificultando


a própria vida das comunidades cristãs da Terra Santa, devido
aos privilégios concedidos pelos Papas e Bispos a eles. Como
as Ordens militares dos Templários e dos Hospitalares de São
João começaram a competir entre si por conflitos de interesses, o
príncipe São Luíz propôs sua fusão no Concílio de Lyon (França,
1274).
A Ordem dos Hospitalários tornou-se a atual Ordem de
Malta (www.malta.org).

Antes de nos voltarmos a estas


duas, temos de precisar o que foi
e como se fez o poderio da Igreja
Romana na Europa. A Ascenção
da Igreja Católica Romana -
Ao longo do século V, a Igreja
Romana viveu sérias ameaças
à sua sobrevivência e, por volta
de 490, a situação tornou-se
desesperadoramente precária.

Embora tenha sido a


época da heresia ariana - de Ário,
sacerdote egípcio, que pregava atual brasão da
que Jesus era criatura de Deus e não seu Filho Ordem de Malta
- este também foi o tempo do primeiro Concílio
Ecumênico da Igreja, o de Nicéia (325). Foi o tempo
do início do movimento monástico do Oriente com santo Antão e
dos bispos Hilário de Poitiers, Eusébio de Vercelli e Ambrósio de
Milão, doutos e santos. Não se entende o porquê da data de 490,
pois foi durante o pontificado de são Gelásio, o qual compilou os
livros do Antigo e Novo Testamento (usados até hoje), compôs
um catálogo com os escritos dos primeiros papas, aboliu as
festas em honra ao deus pagão Pã e praticou inúmeras obras de
caridade, além de viver uma vida austera e santa.

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Apologeticando

Ela estava ainda muito longe de ter a hegemonia do


poder espiritual na cristandade, e a implosão do Império
tornava a ameaça de invasão bárbara o principal foco das
atenções da população latina.

Esta “hegemonia” já existia bem antes deste primeiro


Concílio Ecumênico de Nicéia, ao qual compareceram 318
bispos de todo o mundo. A chamada “queda do Império Romano”
somente ocorreria de fato na tomada de Roma pelos hérulos em
476 (o rei dos Hérulos, Odoacro, destronou o último imperador
romano do ocidente, Rômulo Augustulus).

Entre 384 e 399, com o apoio oficial, o bispo de Roma já


era denominado papa, mas isto não significava muito pois
sua condição oficial, em termos de cristandade, era bem
diferente do que passou a ser alguns séculos mais tarde
quando passou a desempenhar o papel de líder e cabeça
suprema da cristandade.

O 4° Concílio Ecumênico (Calcedônia, 451) do qual


participaram 600 bispos, foi presidido pelo papa Leão I, com
apoio do imperador Marciano depois que o herege Nestório,
heresiarca dos Nestorianos, no conciliábulo de Éfeso torturou o
bispo são Flaviano de Constantinopla, por haver tentado corrigi-
lo de seus erros, falecendo este logo após. Neste Concílio os
Bispos aclamaram Leão com as palavras ““Assim o cremos todos.
Pedro falou pela boca de Leão.” tão logo o papa ter lido uma
carta condenando a heresia nestoriana. Neste mesmo Concílio os
bispos designaram o Bispo de Roma como ““Arcebispo universal,
patriarca, intérprete da voz do bem-aventurado Pedro”.

Na verdade, o papa era uma figura que representava


apenas uma função centralizadora de interesses
velados do colégio eclesiástico romano, que era apenas
uma escola dentre muitas outras linhas diferentes do
cristianismo, todas lutando por manterem-se vivas e
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Alexandre Martins, cm.

adotarem livremente seus pontos de vista a respeito da


mensagem do Cristo.

Talvez o Autor se refira à criação do Colégio de Cardeais


pelo Papa Nicolau II (1059), o qual para evitar a eleição de
antipapas em outros países, restringiu a eleição do Bispo de
Roma somente aos cardeais. Isto foi ratificado no 11° Concílio
Ecumênico (Latrão, 1179), do qual participaram 302 bispos de
todo o mundo.

A Igreja de Roma lutava desesperadamente para


sobressair-se dentre as demais, combatendo uma grande
variedade de pontos-de-vista teológicos diferentes dos
seus. A pesar de encravada no coração do Império, a
Igreja de Roma não possuia maior autoridade que outras,
como, por exemplo, a Igreja Grega ou a Igreja Celta. E
sua autoridade não era maior que a de outras correntes
cristãs.

Desnecessário o comentário, visto os anteriores.

Se a Igreja de Roma quisesse sobreviver e, ainda, criar uma


hegemonia sobre todo o pensamento cristão, exercendo
uma grande autoridade e poder, ela necessitaria do apóio
de um reino forte e de uma poderosa figura secular que
pudesse representá-la resgatando um pouco da mística
do Império dos Césares, impondo grande reverência e
respeito. Daí que, para que o mundo cristão evoluísse
segundo a doutrina romana, a Igreja Católica deveria
ser disseminada, implementada e imposta por meio da
força secular - uma força suficientemente poderosa para
enfrentar e finalmente exitirpar o desafio das outras
escolas cristãs. Por volta de 486, o rei franco-merovíngeo
Clóvis tinha expandido extraordinarimente a extensão de
seus domínios, anexando reinos e principados adjacentes
e vencendo várias tribos rivais. Cidades importantes
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Apologeticando

passaram a fazer parte de seu reino, como Troyes, Rehims


e Amiens. Em pouco mais de 10 anos de conquistas,
Clóvis era o chefe mais poderoso da Europa Ocidental.
E foi em Clóvis que a Igreja Católica tinha achado um
campeão para seus interesses. E foi através de Clóvis que
a Igreja Católica finalmente iria conseguir estabelecer
uma supremacia que não foi questionada por mais de mil
anos.

Clóvis, neto de Meroveu, foi o fundador da dinastia


Merovíngea, unificando as existentes tribos dos francos.
Convertido ao cristianismo por sua esposa Clotilde - santa
- formou o primeiro reino bárbaro cristianizado. Sucedeu-o a
dinastia Carolíngea (741-987).
Quem expandiu enormemente o império carolíngeo
foi Carlos Magno (768-814), anexando a Itália e a Catalunha,
tornando-se o único rei da Europa Cristã. Foi coroado imperador
do Ocidente no Natal de 800.
“Ora, como no santíssimo dia de Natal, ele tinha
entrado na basílica de São Pedro, apóstolo, na ocasião da
celebração das missas solenes, e estava diante do altar,
com a cabeça inclinada, em oração, o papa Leão pôs-
lhe a coroa na cabeça, e todo o povo romano rompeu em
aclamações: “A Carlos Augusto, coroado
por Deus, grande e pacífico imperador dos
Romanos, vida e vitória!” Terminados estes
louvores, foi Carlos adorado pelo papa à
maneira dos príncipes antigos, e sem tomar,
contudo, o título de Patrício, foi chamado
Imperador e Augusto.”(Anais Reais, ano de
801). 4

4
- ANAIS REAIS, ANO DE 801, citado por PEDRO, Fábio Costa, COULON,
Olga M.A. Fonseca. História: Pré-História, Antiguidade e Feudalismo, 1989.

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Igreja Católica:
Cotas e Reparações
de Walter Passos

O autor, escritor baiano, escreve feroz artigo* anticlerical


para defender a postura favorável às cotas de ingresso de
estudantes afro-descendentes em instituições de Ensino Superior
no Brasil. 1
Para conhecer o autor e entender seu pensamento: Walter
Passos é Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista
e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros
Cristãos: “O CNNC é afrocentrista, panafricanista e defende o
Cristianismo de Matriz Africana. O CNNC é a única organização
cristã do Brasil que defende o Afrocentrismo, Panafricanismo
e Cristianismo de Matriz Africana e acreditamos no Yeshua
Preto” - Pseudônimo: Kefing Foluke. Segue uma pequena auto-
biografia:
Na minha infância fui membro da Igreja Presbiteriana
de Queimados-RJ e na adolescência e início da juventude da
Igreja Presbiteriana do bairro da Piedade na cidade do RJ.

* - foram mantidas a grafia e redação do original, sem passar por nenhuma


correção.
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Apologeticando

Nas sextas-feira-santa a minha família agia diferentemente de


todas as famílias presbiterianas, sendo meus pais baianos, esse
dia apresentava uma sacralidade diferente da visão reformada
calvinista, porque a minha mãe, também presbiteriana,
mantinha a tradição dos antepassados como se fosse um
ritual a preparação de comidas baianas: moqueca de peixe
com bastante leite de coco, caruru, vatapá, feijão com leite de
coco, arroz com leite de coco, muita pimenta, etc. um cheiro
forte de azeite de dendê pela casa, quiabos sendo cortados,
cocos ralados, e aquele trabalhão de ver minha mãe mexendo
o vatapá, no sentido horário pra não embolar e só uma pessoa
mexendo, tudo um respeito simbólico pela data. Durante minha
infância não se ligava o rádio, não se falava alto, não podia
falar palavrão e nem apanhar, isso pra mim era uma felicidade,
comer bastantes comidas gostosas e não tomar uns catilipapos
de minha mãe, porque sempre eu estava aprontando e recebendo
as “admoestações necessárias”, mas, no sábado de aleluia, dia
da malhação de Judas, eu não podia vacilar. Só não gostava
do silêncio imposto dentro da casa, mas passávamos o dia
todo ouvindo de minha mãe histórias sobre a Paixão de Cristo,
do seu sofrimento e das lágrimas e dor de Maria, porque no
linguajar simples e sábio dela:
- “Maria sofreu muito ao ver o filho que saiu de suas
entranhas ser crucificado”.
Minha mãe era muito religiosa, sempre orava diversas vezes
ao dia e sempre pedia a Deus que me livrasse do mal. Um dia
ela me contou que Deus também tinha o nome de Nzambi e meu
pai, ao ouvir, disse que ELE também se chamava Olorum e até
hoje respeito esses nomes africanos de Deus. Hoje eu entendo
essas diferenças lingüísticas e o motivo dos dois ensinamentos.
Nesse ínterim de todos os anos, apesar de viver no Rio de
Janeiro, conheci grande variedades de comidas baianas, porque
todas eram feitas dentro da minha casa, seja o abará, acarajé,
bolinho de estudante, peixe assado na bananeira, efó, acaçá e
outros. Verdadeiros rituais alimentares, essa preocupação da
minha mãe de viver fora da Bahia e manter a tradição ancestral,
foi de suma importância na minha concepção africana hoje, de
continuar a tradição familiar na “sexta-feira santa”, vivendo
na Bahia de reunir-me com a minha família e saborearmos as
deliciosas comidas cheias de dendê, leite de coco, gengibre,
camarão, amendoim, castanha, pimenta, etc.

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Alexandre Martins, cm.

E milhares de famílias de pretos evangélicos estão deixando


a tradição alimentar ancestral de reuniões familiares na
diáspora na sexta-feira chamada santa, por discordarem do
catolicismo e das alimentações de origem africana.
“Sexta-feira santa” sem vatapá, caruru, moqueca de peixe
com leite de coco, moqueca de ovos com leite de coco e outras
iguarias vindas dos nossos ancestrais pretos, não é “sexta-feira
santa”. Eu vou continuar mantendo a tradição da reunião
familiar e comer o gostoso vatapá feito pela minha filha Aidan.
(Disponível em http://cnncba.blogspot.com/. Acesso em 22/03/
2008).

O modelo de cotas atual foi copiado do existente nos


Estados Unidos da América no século XX2 e reflete uma tentativa
de correção de injustiças sociais lá existentes na época.
Acredita-se que a transposição do modelo para o Brasil
do século XXI é irresponsável e temeroso.3
O que impressiona é o cabedal de erros históricos
amealhados pelo escritor para justificar sua posição de ser o
projeto de cotas para negros em universidades uma atitude
de justiça para com os marginalizados africanos dos séculos
passados.

Analisemos:

O Catolicismo Romano foi baseado na escravidão desde os


seus primórdios; na Igreja Primitiva e Feudal proclamava
igualdade dos homens no céu e a desigualdade na
terra. No Concílio de Granges, no ano 324, a Igreja
definiu claramente a sua posição ao pôr sob pena de
excomunhão, todo aquele que piedosamente induzisse um
escravo a fugir, desprezar o seu senhor, ou simplesmente
não o servir respeitosamente de boa vontade.

Por “Igreja Primitiva”, há consenso em todas as


atuais denominações cristãs que o termo se refere às primeiras
Comunidades dos seguidores de Jesus Cristo, inclusive as
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Apologeticando

administradas pelos próprios Apóstolos ou de seus sucessores


diretos4.
O Novo Testamento não cita nenhuma passagem
apoiando a escravidão, ao contrário, o Apóstolo Paulo refere-se
à igualdade entre os Homens: Gl 3,28; Rm 10, 12; Cl 3,11; 1Cor
12, 13.
Na Igreja durante o Feudalismo - período este
compreendido entre os séculos XI e XIII 5 - não se apoiava a
escravidão. Contudo, o escritor confunde-se quando cita Idade
Feudal (ou Feudalismo) com o período total da Idade Média
(séculos V a XV).
É de se considerar que a Escravidão sempre existiu na
História da Humanidade 6 e não era de uma hora para a outra que
seria extinta.
Diz D. Estêvão, OSB: “...medievais, contudo,
continuavam a fazer, de seus prisioneiros de guerra,
escravos. Precisamente no século IX surgiu no latim
medieval a palavra sclavu
sclavu, outra forma de slavus, que se
tornou esclave (escravo) no francês do século XIII. Isto
se explica pelo fato de que as populações eslavas dos
Bálcãs forneciam o principal contingente dos escravos do
Ocidente.” 7

Estranho que na História da Igreja8 não se tenha notícia


do citado “Concílio de Ganges” em 324 ! Existe, sim, o Concílio
de Nicéia I (em 325), cujas decisões principais foram:
a) confissão de fé contra Ario (heresiarca da época),
b) fixação da data da Páscoa a ser celebrada no primeiro
domingo após a primeira lua cheia da primavera (no Hemisfério
Norte);
c) estabelecimento da ordem de dignidade dos
Patriarcados: 1º - Roma, 2º - Alexandria, 3º - Antioquia, 4º -
Jerusalém.

Como os Concílios têm o nome do local onde são


realizados, então o de Ganges teria sido realizado na Índia, onde
existe o famoso rio de mesmo nome, sagrado para os hindus.
Estranho, não ?
40
Alexandre Martins, cm.

A Igreja sempre considerou o escravo como uma


propriedade divina, e a escravidão um direito justo. Santo
Agostinho defendeu ardorosamente a escravidão e Santo
Isidoro de Sevilha disse:” Deus concedeu a misericórdia
dos escravos pertencerem a um amo, em um projeto
redentor dos seus pecados”. Diversas bulas e tratados
teológicos foram escritos, considerando os escravos
perversos geneticamente que precisavam pagar penitência
com a vida escravizada.

Não se encontram documentos que provem os fatos. É


estranho uma instituição com 2000 anos e com cerca de 1 bilhão
de adeptos em todo o Mundo se basear
apenas em suposições para disseminar
suas idéias. Seria como se todos os
seus adeptos e seguidores fossem
iletrados e que não houvesse neles ao
menos um estudioso ou doutor que
pudesse refutar suas colocações sem
fundamento básico.
QUAIS Bulas ? QUAIS
Tratados ? Os de Calvino ? Os de
Lutero ? Surgiram e ainda surgem
heresias por toda a parte. E isso Bartolomeu Casas
de Las

desde o século II... A Posição Oficial d a


Igreja não deve ser confundida com
opiniões de cristãos, mesmo sendo clérigos. Ainda assim vários
outros defenderam a posição contra a Escravidão, como o bispo
de Chiapas (México), Frei Bartolomeu de las Casas (1474-1566),
que levantou-se em defesa dos índios.9
Santo Agostinho (354-430), Bispo de Hipona,
África, dizia que “nem a escravidão é de direito
natural, mas conseqüência do pecado original, que
perturbou a natureza humana, individual e social. Ela
não pode ser superada naturalmente, racionalmente,
porquanto a natureza humana já é corrompida; pode ser
superada sobrenaturalmente, asceticamente, mediante a
41
Apologeticando

conformação cristã de quem é escravo e a caridade de


quem é amo.” 10
Reflexo da mentalidade da época, que o Cristianismo a
muito custo poderia minimizar. Para analisar - historicamente,
como convém a sérios historiadores - o contexto social da época
em questão, leiamos um texto de um pesquisador atual:
““Durante séculos homens e mulheres, hoje
universalmente reconhecidos como heróicos e cheios de
generosidade, conviveram com o fato da escravatura sem
que lhes ocorresse a idéia de mover uma revolução, violenta
ou não, contra a mesma. Pode-se começar a enumeração
por S. Paulo Apóstolo, este, embora tenha professado
os princípios que logicamente levariam à extinção da
escravatura, não viu em sua época as condições para
propugnar explicitamente tal conseqüência. O mesmo
aconteceu com S. Agostinho († 430), S. Tomás de Aquino
(† 1274), S. Francisco de Assis († 1226), S. Teresa de Ávila
(† 1582) ... Em sua consciência subjetiva não chegavam
a ver na escravatura um mal a ser incondicionalmente
combatida como hoje é combatido.”11

Sobre Bulas relativas à escravidão pode-se citar a Bula


“Veritas Ipsa” de 2/6/1537 do Papa Paulo III. Nesta o Pontífice
expõe o equívoco subjacente à instituição da
escravatura:
“O comum Inimigo* do gênero humano,
que sempre se opõe às boas obras para que
pereçam, inventou um modo, nunca dantes
ouvido, para estorvar que a Palavra de Deus não
se pregasse às gentes, nem elas se salvassem. Para
isso moveu alguns ministros seus que, desejosos
cruz da Ordem de
de satisfazer às suas cobiças, presumem afirmar
Cristo a cada passo que os índios das partes ocidentais
e meridionais e as mais gentes que nestes nossos

(*) - o Demônio, N.doA.

42
Alexandre Martins, cm.

tempos têm chegado à nossa notícia, hão de ser tratados


e reduzidos a nosso serviço como animais brutos, a título
de que são inábeis para a Fé católica; e, com pretexto de
que são incapazes de recebê-la, os põem em dura servidão
em que têm suas bestas, apenas é tão grande como aquela
com que afligem a esta gente”.

Neste texto merece atenção especial a menção de índios


e das mais gentes, que são os africanos. A uns e outros Paulo III
quer defender. Por isto acrescenta:
“Pelo teor das presentes determinamos e
declaramos que os ditos índios e todas as mais gentes que
daqui em diante vierem à notícia dos cristãos, ainda que
estejam fora da fé cristã, não estão privados, nem devem
sê-lo, de sua liberdade, nem do domínio de seus bens, e
não devem ser reduzidos à servidão” (grifo nosso).

Aos 22/4/1639 o Papa Urbano


VIII publicou o Breve “Commissum
Nobis” incutindo a liberdade dos índios
da América. Este documento chegou ao
Rio de Janeiro por meio do Pe. Francisco
Dias, que iria até Buenos Aires com mais
trinta companheiros. Trazia também uma
nova lei de Sua Majestade, que mandava
dar a liberdade a todos os cativos sob
pena de castigos do Santo Ofício e de
confiscação dos bens. – No seu Breve, o
Papa mandava, sob pena de “excomunhão
reservada ao Pontífice”,12 que ninguém papa Urbano VIII
prendesse, vendesse, trocasse, doasse ou tratasse como cativos os
índios da terra. Dispunha outrossim que a ninguém seria lícito
ensinar ou apregoar o aprisionamento dos mesmos.
Infelizmente, o Marquês de Pombal, por alvará de
8/5/1758, mandou executar esta Bula em todo o Brasil apenas
no tocante aos indígenas. Na verdade, o teor do documento
refere-se a todos os homens, incluídos os de origem africana
trasladados para o Brasil.
43
Apologeticando

De novo a ignorância sobre leis e direitos adquiridos


por diversas classes da sociedade, como lei trabalhistas, de
funcionalismo, de educação pública e até mesmo de ordem
econômica !

Conclui o escritor: A Igreja poderá verdadeiramente dar


esse passo... Se quiser! Assim não fazendo, comprovará que a
Instituição continua do lado dos opressores e pregando que “Ela
deve ser rica na terra e os negros ricos nos céus”.

Uma ameaça ! Além de citar para epílogo uma frase de


“efeito”...

Conclusão:

Nós, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de


sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a
mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e
ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos viveu
por séculos sem consciência de si... Assim foi até se definir como
uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros.

Darcy Ribeiro
in “O Povo Brasileiro”

É conhecida a ignorância da grande massa popular sobre


a História Geral, mormente da de nossa Pátria. Que dizer então
de alguma mais específica, como a História da Igreja Católica!
São João Bosco, no século XIX, já o sabia, a ponto de
fazer uma grande obra denominada “História Eclesiástica”, para
uso nas Escolas Profissionais Salesianas, destinadas aos jovens
pobres.

60
Apêndice
Igreja Evangélica e a
Consciência Negra
O Professor e Pesquisador metodista José Carlos Barbosa
(doutor em história Pela Universidade de Sevilha, na Espanha),
coordenador do Centro de Pesquisa Metodista e autor do livro
““Negro não entra na Igreja, espia da banda de fora”,em sua fala
no encontro de Lideranças Negras Evangélicas comentou o seu
trabalho de pesquisa que mostra a relação do protestantismo no
Brasil com o negro e a escravidão. Com uma abordagem muito
interessante, o professor fez o grupo viajar no tempo, estudando
a relação inicial do catolicismo com o índio e com o negro, a
relação dos protestantes europeus e norte americanos, imigrantes
que aqui se estabeleceram a partir das primeiras décadas do
século XIX, com os negros, e ainda, o relacionamento dos
missionários vindos do sul dos Estados Unidos, com os negros.
O professor explicou como surgiu o seu interesse pela
questão do negro, falando de um documento que relatava o
naufrágio de um navio negreiro e escrito por um sobrevivente
branco. O navio vinha da África para o Brasil trazendo
negros para vendê-los. O sobrevivente com uma linguagem,
profundamente religiosa, agradecia a Deus pelo milagre de ter
salvado a sua vida. Mas, lamentava o afundamento do navio e a
perda econômica da carga - homens e mulheres negros. Aquele
103
Apologeticando

documento lhe chocou profundamente, por ele não conseguir


entender como aquele homem conseguia falar em Deus, ir à
Igreja e ter um pensamento daquele. Um discurso profundamente
piedoso e uma pratica tão cruel. Decidiu pesquisar o assunto e
achou uma farta informação sobre como o catolicismo lidava
com a escravidão. Mais quase nada, e nenhuma pesquisa mais
profunda sobre o assunto, com relação ao protestantismo, o que
o levou a estudar a questão.
A contribuição que o professor Jose Carlos nos trouxe foi
de grande importância, nos trazendo pistas para nossa atuação na
questão negra nas igrejas. Um dos pontos importantes é que os
protestantes vieram para o Brasil a fim de propagar o evangelho e
ganhar membros da elite. Sua meta era plantar a igreja evangélica
no país. Enfrentaram grande oposição do clero católico e tiveram
grande dificuldade pelo fato da população ser analfabeta, o
que fez com que sua estratégia fosse abrir escolas. O professor
afirmou que os primeiros protestantes que aqui chegaram em sua
grande maioria eram escravistas, não tendo nenhum interesse em
se opor à escravidão. Apesar de toda essa incompatibilidade no
campo do protestantismo, entre a escravidão e a fé cristã, houve
algumas vozes na Europa, Estados Unidos e Brasil, que não
concordavam com a escravidão, como John Wesley e, no Brasil,
Robert Kalley que chegou a expulsar um membro da sua igreja
por não ter libertado os seus escravos.
O professor também lembra que, ao terminar a guerra do
norte e sul, nos Estados Unidos, (chamada Guerra de Secessão),
os sulistas continuaram a querer a permanência do escravismo
e o norte o seu fim). Muitos sulistas vieram para o Brasil e
buscavam produzir o modelo escravista, tentando justificar a
escravidão teologicamente.
Os evangélicos, no processo da abolição da escravatura
no Brasil, de acordo com o professor, só se manifestaram quando
o Brasil inteiro já estava envolvido nessa luta. Ele cita um
documento muito importante, escrito pelo pastor presbiteriano
Carlos Eduardo Pereira, publicado, em 1886, no jornal “Imprensa
evangélica”, condenando a escravidão à luz da Bíblia.
Segundo o professor, os evangélicos não tiveram um
papel relevante na Abolição da Escravidão do negro. A partir da
104
Alexandre Martins, cm.

sua palestra, os participantes do Fórum tiveram subsídios para


legitimar a proposta do movimento negro evangélico, afirmando
que o seu trabalho de pesquisa veio de encontro às necessidades
da nossa luta, dando base e conteúdo para até pensarmos em
reivindicar reparações e políticas de ações afirmativas em nossas
igrejas para o afrodescendente, no sentido material, bem como
uma releitura bíblica teológica.
Por exemplo, cotas para negros e bolsas de estudos em
colégios e universidades protestantes e reparações teológicas.

Olhando a nossa situação atual com relação à Igreja


Evangélica e à Consciência Negra, podemos ver o tamanho da
luta que temos pela frente. Começando pelas Igrejas Históricas
onde a questão tem se desenvolvido de maneira mais efetiva:
A Igreja Metodista é a única denominação protestante
que tem uma Pastoral de Combate ao Racismo, que, por outro
lado, não tem apoio nem recursos humanos e financeiros para o
seu funcionamento. É só para inglês ver.
A Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil vem
tentando criar a sua Pastoral da Negritude, devido aos esforços
do Grupo de Negros e Negras da Escola Superior de Teologia da
denominação;
Uma das novidades que podemos comemorar vem da
Igreja Presbiteriana Unida que oficializou o Dia da Consciência
Negra em sua agenda com uma liturgia nacional, e também criou
um projeto especifico para trabalhar o racismo e a negritude.
Grande parte das Igrejas Históricas indica representantes
junto à CENACORA - Comissão Ecumênica Nacional de
Combate ao Racismo - uma organização do Movimento negro
evangélico. Mas, muitas vezes, essas indicações têm servido
de desculpa para essas igrejas não atuarem de uma forma
mais direta, cumprindo realmente o seu papel profético diante
do racismo e da questão negra. O fato é que essas igrejas, ao
terem um representante na CENACORA, imaginam que estão
fazendo a sua parte. Não compreendem que o verdadeiro papel
da CENACORA é assessorar essas igrejas e suas pastorais a
desenvolverem atividades e ações de combate ao racismo e não

105
Apologeticando

servir de muleta para as isentarem da sua responsabilidade diante


da questão.
As igrejas evangélicas participantes da CENACORA
são: Igreja Congregacional, Igreja Presbiteriana Independente,
Igreja Metodista, Igreja Luterana, Igreja Anglicana, Igreja
Siriana Ortodoxa e Igreja Católica Romana.
A Igreja Batista é a única que não tem nenhum tipo
de trabalho oficializado por suas lideranças com relação
ao afrodescendente, mas, tem projetos desenvolvidos por
pastores e membros, isoladamente, sem um apoio explicito da
denominação.
Existe um fato muito interessante com relação à Igreja
Batista Brasileira: as uniões e convenções batistas do mundo
inteiro adotaram o Pacto de Atlanta, garantindo que a primeira
década do século 21 será aquela em que os batistas do mundo
inteiro trabalharão pela justiça racial para todos os povos. Já se
passaram 4 anos da década e os batistas brasileiros nem sequer
sabem do pacto.
Mesmo com pastorais, representantes indicados e
pequenos trabalhos as igrejas históricas não têm a questão
do afrodescendente como parte da sua agenda e missão, nem
têm investido recursos para uma atuação mais eficaz diante do
problema, notando-se uma certa incoerência entre o discurso e a
pratica do quetem pregado como Igrejas cristãs.
Nas Igrejas pentecostais não existe nenhum trabalho
oficializado por suas lideranças com relação ao negro. O que
existe são manifestações de pessoas e organizações oriundas
das igrejas desse seguimento, sem nenhum vínculo com
as denominações ou oficialização por suas lideranças. Nas
igrejas pentecostais é onde se encontra a maior parcela de
afrodescendentes, não por que esse segmento optou pelo negro,
mais pelo negro ter optado pelo pentecostalismo,por ter se
identificado melhor com essas denominações.
Nas Igrejas Neopentecostais a situação é mais complicada
ainda. Além de não existir nenhum trabalho oficializado não há
espaço para o surgimento dequalquer tipo de proposta, realizado
por membros dessas igrejas. Isso, devido a sua característica
como a doutrina da prosperidade, a batalha espiritual, as
106
Alexandre Martins, cm.

maldições hereditárias, e outras. Fazendo que seus membros


vivam voltados somente para os compromissos da igreja e das
“coisas espirituais”. Dos neopentecostais a única denominação
que tem abordado a questão do negro é a Universal, porém isso
acontece mais em razão da sua forma estratégica e política de
atuação.

Conclusão
No geral, as igrejas brasileiras não tém respondido de
uma forma cristã à situação do afrodescendente. No passado,
por se cúmplice da escravidão, após a Abolição, de forma
silenciosa, e hoje continuando omissa. Nos anima o fato de
que entre os afrodescendentes tenha crescido uma significante
conscientização da sua negritude e isso, de certa forma, tem
fortalecido a nossa luta. Podemos sentir o mover de Deus
despertando as consciências adormecidas por anos de opressão.
Existem grandes barreiras para chegarmos a uma situação ideal
em nossa luta, das quais, as principais são:
- Falta de interesse das lideranças das igrejas
evangélicas.
- Falta de material com a temática do negro nas igrejas.
- Falta de estrutura e recursos financeiros.
- Falta de um movimento articulado que tenha
visibilidade e legitimidade.

Por fim, a demonização de tudo que se refere ao negro,


dificultando a introdução da questão nas igrejas evangélicas.
Os desafios são muitos mas existem prioridades e uma
delas é a conscientização dos pastores, pastoras e lideranças
negras para que, através deles e delas, a temática possa chegar
aos membros de suas igrejas.
Outra prioridade é a questão da informação, divulgação
e capacitação das lideranças para a fomentação da causa.
Também se torna urgente a consolidação do movimento
negro evangélico para fortalecer as bases e lideranças.

107
Apologeticando

Faz-se também necessário um ciclo de debates sobre


vários temas pertinentes e que nos faça pensar a relação entre o
movimento negro, os negros evangélicos, e as igrejas.

Síntese do Encontro do Fórum de Lideranças Negras


Evangélicas, em 18 de Outubro de 2003.http://br.msnusers.com/Afro
descendentesnasIgrejasEvangelicas/isenecon.msnw acesso em 31/10/
2007

108
O Evangelho segundo os
evangélicos
INTRODUÇÃO

Ao ver o título deste texto possivelmente alguns


poderiam pensar que se trata de algo ofensivo, mas não é assim.
O objetivo desta instrução não é atacar nem ofender aos nossos
irmãos evangélicos. Meu desejo é simplesmente mostrar a
Verdade do Evangelho tal como é, num ambiente ecumênico, de
amor ao irmão e de amor à Verdade.
Jesus Cristo disse: “conhecereis a verdade e a verdade
vos livrar.” (Jo 8,32) e é essa verdade que queremos proclamar
sem comentários, nem interpretações, nem agregados. Queremos
proclamar o Evangelho completo do Nosso Salvador e Senhor
Jesus Cristo.
Se você for evangélico compare todas as passagens que
damos da sua própria Bíblia (a de João Ferreira de Almeida,
porexemplo) usada neste texto, e peça a Deus que lhe ilumine e
te guie até a verdade plena.
Se você for católico, agradeça a Deus e reze para que
você viva como um autêntico cristão, seguindo o Evangelho de
Jesus Cristo.

125
Índice
Introdução 5
Primeiro Conselho para o Apologista Católico 9

A Igreja de Roma e os Movimentos Heréticos 13


Igreja Católica: Cotas e Reparações 37
Aborto & Prostituição 77
“Amizade Gospel” 83

Apêndice

Igreja Evangélica e a Consciência Negra 103


Cotas x Universalização 109
Meu amigo, o negão Almeida 114
Eu fui abortada! 117
Mercado e moralidade 120
O Evangelho segundo os evangélicos 125
Por que nem todas as religiões são iguais? 135
Mitos sobre pedofilia entre os Sacerdotes 142
Danos causados por algumas seitas e NMR 152

Glossário Católico 161


m
,
s
l

A
ssim é que o lavrador não pode
convenientemente lançar as
sementes na terra, se antes não
arrancar todo o mato e o que pode
prejudicar a boa semente; o médico
também não pode aplicar medicamentos
de saúde ao enfermo, se não limpa
antes o mal interno ou não detém o mal
que procura infiltrar-se; assim quem
procura ensinar a verdade não poderá,
por mais que fale dela, persuadir a
ninguém, enquanto uma falsa opinião
esteja agarrada à mente dos ouvintes e se
oponha aos raciocínios.”

(Fragmentos de Atenágoras de Atenas


- séc II)

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