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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE SANTA CRUZ

DEPARTAMENTO DE LETRAS E ARTES


COLEGIADO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL

JAQUELINE DE JESUS CERQUEIRA

MAROLA, SEGUINDO O CURSO DAS ÁGUAS


PROJETO EXPERIMENTAL EM VÍDEO

ILHÉUS – BAHIA
2008
JAQUELINE DE JESUS CERQUEIRA

MAROLA, SEGUINDO O CURSO DAS ÁGUAS


PROJETO EXPERIMENTAL EM VÍDEO

Memorial Descritivo apresentado ao curso


de graduação em Comunicação Social –
Rádio e TV da Universidade Estadual de
Santa Cruz como requisito parcial para
obtenção do grau de Bacharel em
Comunicação Social.

Orientador: Prof. Me. Antônio Marcus Lima Figueiredo

ILHÉUS – BAHIA
2008
JAQUELINE DE JESUS CERQUEIRA

MAROLA, SEGUINDO O CURSO DAS ÁGUAS


PROJETO EXPERIMENTAL EM VÍDEO

Memorial Descritivo ao curso de


graduação em Comunicação Social –
Rádio e TV da Universidade Estadual de
Santa Cruz como requisito parcial para
obtenção do grau de Bacharel em
Comunicação Social.

Banca Examinadora

____________________________________________
Prof. Me. Antônio Marcus Lima Figueiredo - Orientador

____________________________________________
Prof. Me. Rodrigo Bonfim Oliveira

____________________________________________
Prof. Me. Roberto Pazos Ribeiro
À
Meu irmão Paulo Alexandre de Jesus Cerqueira, que foi para tão longe de nós em
busca de um sonho. Mas o que nos conforta é a certeza de que este sonho
aconteceu primeiro no coração de Deus.
AGRADECIMENTOS

Ao Deus da minha vida, por me mostrar a cada dia, nas coisas mais simples, a
razão de existir e pela força nos momentos difíceis.

Aos meus pais, Maria de Fátima Cerqueira e Emiliano Cerqueira Filho, por todo
amor, pelas orações intercessoras e pela compreensão.

Ao meu noivo e amigo Celso, pelo carinho, amor e pela compreensão nos
momentos de pânico e ainda pela disponibilidade de me acompanhar nas pesquisas
de campo.

Aos meus tios e avós pelas orações e pela união.

Às marisqueiras de Ilhéus (Zelina, Kátia, Inês, Dinalva, Tertulina e Rosemeire) pela


grande contribuição e pela disponibilidade em participar do documentário

Aos colegas de trabalho da TV Cabrália e em especial a Lorena Pio, pela força e


compreensão com os horários de edição e gravação.

Às colegas Fabiana e Poly, pela ajuda nesse processo. Duas pessoas muito
queridas que descobrir nessa nova turma.

Ao meu orientador Antônio Figueiredo, pela competência e seriedade.

À Emiron Golveia pela disponibilidade em ajudar sempre.

Ao grande cinegrafista Hélio Heleno, pelas belas imagens e pela dedicação ao


trabalho.

À Camila Oliveira, pela paciência durante a edição e disposição em ajudar.


“A história pra mim foi
mais triste de que alegre,
porque enfrentar esse mangue
pra criar dez filhos não é fácil,
mas eu criei”.
(Tertulina Mota, marisqueira do Teotônio Vilela, Ilhéus)
CERQUEIRA, Jaqueline de Jesus. PROJETO EXPERIMENTAL EM VÍDEO:
MAROLA, SEGUINDO O CURSO DAS ÁGUAS- Bahia. 56f. il 2008. Memorial
Descritivo (Graduação) – Comunicação Social - RTV, Universidade Estadual de
Santa Cruz, Ilhéus, 2008.

RESUMO

Este memorial visa embasar teoricamente o conteúdo temático, o suporte


videográfico e os procedimentos metodológicos desenvolvidos para a realização do
projeto experimental em vídeo “Marola”. Através do estudo de Gênero, buscou-se
entender a representatividade da mulher na comunidade pesqueira. Por meios dos
estudos da relação de gênero e trabalho que tem como análise principal, a divisão
sexual do trabalho, será possível compreender uma constante existente na história
das mulheres e homens. O presente projeto não analisa um grupo específico de
marisqueiras, mas trabalha com histórias isoladas em detrimento da valorização da
história de cada uma entorno de uma mesma atividade profissional.

Palavras-Chave: Gênero. Trabalho. Marisqueiras. Meio ambiente. Audiovisual.


CERQUEIRA, Jaqueline de Jesús. PROYECTO EXPERIMENTAL EN VIDEO:
Marola, que va al água - Bahia. 56f. il de 2008. Memorial descriptivo (Graduación) -
Medios de comunicación - RTV, Universidade Estadual de Santa Cruz, Ilhéus, 2008.

RESUMEN

Este memorial se destina base teórica del contenido temático, el apoyo de


vídeo y los procedimientos metodológicos para la aplicación experimental del
proyecto en video "Marola". A través del estudio de género, tratando de entender la
representación de la mujer en la comunidad pesquera. Por medio de estudios de la
relación entre el género y el trabajo que tiene como principal el análisis, la división
sexual del trabajo, puede comprender una constante en la historia de las mujeres y
los hombres. Este proyecto no se ocupa de un grupo específico de marisqueiras,
pero el trabajo con historias individuales en lugar de la recuperación en la historia de
cada una de cualquier lugar de una sola actividad profesional.

Palabras clave: Género. Trabajo. Marisqueiras. Meio ambiente. Audiovisual.


SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO 10

2 DA MULHER AO GÊNERO 13
2.1 Gênero e Trabalho 13
2.2 A divisão sexual do trabalho e a mulher pescadora 18
2.3 As marisqueiras e meio ambiente 22

3 DA OBSERVAÇÃO A CRIAÇÃO 28
3.1 “Marola”: um modo observativo 28
3.2 Na prática 30
3.3 Conhecendo um ponto de vista por meio da “voz” 32
3.4 Gravando 34
3.5 Trilha Sonora: independência como conceito 37
3.6 O que o filme representa? 40

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS 43

REFERÊNCIAS 45

ANEXOS 48
I Roteiro de Edição 48
II Ficha Técnica 55
III Ficha de Decupagem 55
IV Fotografia 56
1 INTRODUÇÃO

O presente memorial tem como objetivo relatar o processo de


desenvolvimento do vídeo documentário “Marola, seguindo o curso das águas”, além
de contextualizar historicamente o tema de reflexão do vídeo. Através dos
depoimentos das pescadoras, mais conhecidas como marisqueiras, contidos no
vídeo, o presente trabalho levanta uma discussão a cerca do trabalho feminino na
pesca numa perspectiva de gênero.
As pescadoras entrevistadas são da cidade de Ilhéus e vivem da cata de
mariscos como o moapen e o siri. Ilhéus está localizada no sul da Bahia e por ser
uma cidade litorânea, possui um grande fluxo na atividade pesqueira. O município
possui cerca de vinte comunidades pesqueiras e os principais locais de pesca
podem se encontram na barra de Ilhéus, na costa, e nas lagoas e rios internos:
Cachoeira, Almada e Lagoa Encantada. Cada comunidade de pesca apresenta as
suas peculiaridades, porque o meio vai oferecer determinado tipo de espécie para a
sua captura.
As mulheres que vivem da pesca no município são consideradas pescadoras
artesanais porque trabalham com instrumentos considerados rudimentares e pegam
pouca quantidade de mariscos e peixes. Ao exerceram este tipo de pesca, as
mulheres contribuem para o equilíbrio ambiental mesmo que de forma não
perceptível, ou seja, “parece não haver, por parte das pescadoras, a consciência da
relação direta entre as atividades por elas desenvolvidas e a conservação dos
recursos ambientais”. (SANTOS; COSTA, 2004).
As peculiaridades da profissão motivou a realização do vídeo. Historicamente
é possível notar a presença marcante das mulheres em todo o mundo. Ao longo da
história elas conquistaram espaço no mercado de trabalho, na política e se tornaram
objeto de estudos para muitos pesquisadores.
Nesse documentário o que se vê são mulheres que conseguiram seu espaço
mesmo em uma comunidade tradicional de pesca e em proporções pouco vistas
pela comunidade. Ao escolher trabalhar com estudos de gêneros tomando como
base marisqueiras no sul da Bahia, há uma plena convicção de que, as conquistas
das mulheres em um âmbito regionalizado são pouco vistas.
São mães, esposas e filhas que se dividem entre os trabalhos domésticos e a
atividade da pesca. Já que a pesca é uma atividade considerada tipicamente
masculina, o exemplo das mulheres marisqueiras é um retrato da considerável
alteração do papel da mulher nas últimas décadas.
Dentro desse contexto, será necessário estudar os conceitos de gênero e
trabalho que tem como análise principal, a divisão sexual do trabalho, uma constante
na história das mulheres e homens. Para alguns autores, as diferenças, longe de
serem naturais são, antes, elaboradas a partir de um discurso que é social e
discriminatório.
As mulheres marisqueiras de Ilhéus entrevistadas no projeto experimental,
participam das atividades da pesca tanto na coleta quanto na cata de mariscos.
Desta forma o trabalho dessas mulheres não é meramente de complemento ou
ajuda na renda familiar, já que assim como os homens, elas dividem espaços
produtivos, na atividade da pesca artesanal, desde a tarefa da pré-captura, captura e
pós-captura.
Nos depoimentos do vídeo, a maioria das mulheres relata ter entrado na
pesca, devido a dificuldades econômicas, cabendo a elas na maioria das vezes o
papel de mantenedora do lar. Segundo BARROS (1995), o aumento de mulheres
com responsabilidades familiares que se vêem integrando na força de trabalho é
cada vez maior um dos fatores que contribuíram para que as mães prosseguissem
para um emprego é justamente a necessidade econômica.
E mesmo ocupando a função de mantenedoras do lar com o trabalho de
pescadoras, enquanto donas de casa elas ocupam normalmente posição de
subordinação, já que nessa esfera, a divisão do trabalho se apresenta mais
desigual, pois são elas que assumem tais funções. E segundo Maneschy (1997)
esse fator reforça a visão corrente das mulheres mais como donas de casa,
“ajudantes” do companheiro e não como sujeitos produtivos.
É importante ressaltar que foi opcional não trabalhar com um grupo de
marisqueiras especificamente, como associação, colônia de pesca ou de uma vila de
pescadores, pela profunda mobilização política desses grupos. Daí a opção de não
localizar no espaço – a cidade de Ilhéus – as marisqueiras em detrimento da
valorização da história de cada uma entorno de uma mesma atividade profissional.
Grande parte dos trabalhos realizados em vídeo sobre comunidades
tradicionais, negligenciou o trabalho da mulher. O interesse deste trabalho volta-se,
justamente, para o registro do cotidiano das pescadoras que constitui uma história
de resistência e de superação tendo em vista as dificuldades enfrentadas no
cotidiano.
A opção pela utilização do formato documentário se deu devido à
potencialidade do gênero como a possibilidade de tratar as mais diversas temáticas.
O documentário pretende cumprir, sua função característica, que é “documentar” a
vida das pessoas e os acontecimentos de modos diversos.
No primeiro capítulo deste memorial será abordado o conceito de gênero e
trabalho. O início das pesquisas sobre gênero no Brasil, o papel da mulher na
história e no mercado de trabalho e especificamente o trabalho da mulher na pesca.
Veremos ainda neste capítulo a relação das marisqueiras com o meio ambiente a
partir da perspectiva do Ecofeminismo, uma corrente que trabalha com mulheres
dentro do movimento ambientalista.
Já no segundo capítulo analisaremos algumas teorias do documentário
fazendo assim, um paralelo com o projeto experimental, como por exemplo, a
análises dos estudos de Bill Nichols de classificação do documentário e ainda a
representação da realidade presente no documentário. Neste capítulo, todo o
processo de produção (metodologia) será apresentado em paralelo à teoria do
documentário, já que a classificação de cada documentário se dá justamente nas
características de seus processos de produção. Serão justificados os métodos de
produção, técnicas, trilha sonora e edição.
2 DA MULHER AO GÊNERO

2.1. Gênero e Trabalho


As pesquisas sobre mulher no Brasil apresentam um crescimento somente a
partir dos anos 70, seguindo uma tendência que se observa no plano internacional e
os movimentos sociais feministas (MOTA-MAUÉS,1999). Esses movimentos além
de propor uma articulação entre a política e a vida cotidiana, promoveram novas
formas de entendimento do mundo.
No início da década de 80, pesquisadores de diversas áreas do saber
elegeram a mulher como objeto de estudo aumentando a consciência de processos
sociais e culturais extremamente complexos antes ignorados. Ao mostrarem a
importância de se incluir o homem no bojo de seus trabalhos, os Estudos da Mulher
converteram-se em Estudos de Gênero (ROCHA-COUTINHO, 1994).

O gênero transformou-se, desta forma, numa categoria de análise


extremamente importante, comparável, por exemplo, a categoria de
raça e classe social. E, hoje, na apenas a família é vista de uma
nova perspectiva, como também todas as outras instituições sociais,
econômicas e políticas que são influenciadas pelo estereotipo
acerca de homens e mulheres. (ROCHA-COUTINHO, 1994, p.16).

De acordo com Saffioti (1992), o uso da categoria de gênero não é construído


sobre a categoria natural do sexo, mas tornou-se uma categoria de percepção de
dois grupos que compõe a humanidade.

A organização social do gênero constrói duas visões de mundo,


donde se pode concluir que a perspectiva da mulher e, portanto,
seus interesses divergem do ponto de vista do homem e, por
conseguinte, dos interesses deste. Uma vez que as experiências
adquirem um colorido de gênero, como, aliás, ocorre com a classe e
a etnia também, a vida não é vivida da mesma forma por homens e
mulheres (SAFFIOTI, 1992, p.199).

A análise e sistemas de categorias e imagens constitutivas da experiência


feminina em diferentes grupos vêm possibilitando que se pense agora não apenas
na mulher, mas também o homem, como categoria social definida (ROCHA-
COUTINHO, 1994). Desta formas os estudos de gênero abrem caminho para a visão
de que não existe, na verdade, a Mulher – enquanto gênero universal – mas sim
uma multiplicidade de mulheres.
Para Joan Scott (1991), a importância da noção de gênero contribui para a
compreensão dos aspectos relacionais entre homens e mulheres, já que considera –
em separado – os aspectos essenciais para descobrir a amplitude dos papéis
sexuais e do simbolismo sexual na várias sociedade e épocas. Ainda segundo
Rocha-Coutino, a própria psicologia social, reforça a importância de se trabalhar
com categoria de gênero, já que não estuda a mulher isoladamente.

Na psicologia social, o estudo das identidades e subjetividades, ao


nos mostrar que o papel de cada ator social é sempre
desempenhado em interação com o outro, numa relação de
reciprocidade e troca, questionou a possibilidade de se estudar a
mulher isoladamente. O problema da mulher é, antes de mais nada,
um problema de complementaridades sexuais, onde se interpretam
práticas sociais, discursos e representações dos universos
femininos e masculinos. (ROCHA-COUTINHO, 1994, p.15)

De acordo Sayão (2003), as características dos indivíduos – enquanto gênero


– geram consequentemente uma condição que vale por toda a vida. “Passamos a
ser homens ou mulheres e as construções culturais provenientes dessa diferença
evidenciam inúmeras desigualdades e hierarquias que se desenvolvem e vem se
acirrando ao longo da história humana, produzindo significados e testemunhando
práticas de diferentes matizes” (SAYÃO,2003, p.122).
Segundo Michelle Perrot, as diferenças e as representações entre homens e
mulheres, se perpetuam através do tempo, mas assumem formas variáveis
conforme as épocas.

“Nas sociedades que pensam o político, isso se traduz por uma


divisão racional dos papéis, das tarefas e dos espaços sexuais. (...)
Para os homens, o público e o político, seu santuário. Para as
mulheres, o privado e seu coração, a casa.” (PERROT, 1998, p.10)

Ao longo da história as diferenças entre os sexos contribuíram para a


imposição de relações hierárquicas, homens nas posições de dominação e mulheres
nas subordinadas. Para Pierre Bourdieu (2003), as relações de gênero e o “modelo
pragmático” de ser homem ou mulher regulam todas as nossas atividades. Segundo
o autor, o corpo, é o lugar de disputa pelo poder na sociedade, é nele que nosso
capital cultural está inscrito, ou seja, o sexo define a condição de dominados e
dominadores.
Segundo o autor os agentes específicos (homem e mulher) e as instituições
(escolas, igrejas, Estado, família), são “estruturadas e estruturantes” neste processo
de naturalização da dominação (masculina). O autor defende que ao mesmo tempo
em que estes agentes têm o poder de moldar a sociedade é por ela moldada.
Para Bourdieu, as representações sociais do homem e da mulher, não se
restringem ao âmbito interpessoal, mas se expandem ao âmbito econômico, político
e religioso. A dominação masculina é considera natural internalizada pelo “habitus1”
humano.
A maioria dos estudos sobre as relações de poder entre homens e mulheres
na família e na sociedade em geral, tratou quase sempre essas questões a partir de
um ponto de vista masculino. Segundo Rocha-Coutino (1994), quase sempre se
pesquisou a autoridade e o poder exercido pelos homens, dentro e fora do lar.

Ignorou-se frequentemente o modo como as mulheres encaram a


estrutura de poder domestico masculino e as formas por elas
encontradas para atuar dentro desta estrutura. (ROCHA-
COUTINHO, 1994, p.20)

Segundo Rago (2001), isso significa que lidamos muito mais com a
construção masculina da identidade das mulheres trabalhadoras do que coma sua
própria percepção de condição social, sexual e individual.

Não é à toa que, até recentemente, falar das trabalhadoras urbanas


no Brasil significava retratar um mundo de opressão e exploração
demasiada, em que elas apareciam como figuras vitimizadas e sem
nenhuma possibilidade e resistência. Sem rosto, sem corpo, a
operária foi transformada numa figura passiva, sem expressão
política nem contorno pessoal. (RAGO, 200, p.579)

Para Perrot (1998), de alguma forma, as mulheres ao longo da história,


exercem algum tipo de domínio, seja ele no cotidiano (nos bastidores) e com isso
pode se perceber uma “fuga” da dominação e consequentemente criam o
movimento da história. De acordo com a autora, mesmo em situações de
desigualdade a mulher possui muito mais poder do que teoricamente se tem
admitido.

1
O Habitus é um conceito fundamental para entender como a prática de dominação adquire um
caráter natural, dado e quase divino, ou seja, significa ‘disposição incorporada’. (BOURDIEU, 2003)
Os discursos feministas recentes contribuíram para uma reavaliação do poder
das mulheres. Segundo Perrot (1992), as feministas procuram superar o discurso de
opressão subvertendo o ponto de vista da dominação.

[...]ela procurou mostrar a presença, a ação das mulheres, a


plenitude dos seus papéis, e mesmo a coerência de sua ‘cultura’ e a
existência dos seus poderes. Foi o que poderia chamar a era do
matriarcado, triunfante numa certa época da antropologia feminista
americana, o tempo das Amazonas e François d’Eaubonne [...],
simpática e ardente demonstração de força física das
mulheres.” (PERROT, 1992, p.170)

Ao longo da história, o acesso das mulheres ao domínio público reforça-se, a


ponto de se ter podido falar de “feminilização do mundo” (PERROT, 1998). Segundo
a autora, entender as proibições é também compreender a força de resistências e a
maneira de controlá-las ou de subvertê-las. “As tentativas de frentes de luta das
mulheres, suas tentativas de atravessar os limiares muitas vezes provocam a
violenta reação dos homens” (PERROT, 1998, p.91).
Esses obstáculos enfrentados pelas mulheres, não se limitavam ao espaço
público, mas começava pela própria hostilidade com que o trabalho feminino fora do
lar era tratado no interior da família (RAGO, 2001). Um desses obstáculos, e que
marca a história da inserção da mulher no mercado de trabalho, foi a associação do
trabalho fora de casa e a moralidade sexual.
No discurso de diversos setores sociais, destacava-se a ameaça à honra
feminina representada pelo mundo do trabalho. “As mulheres deixariam de ser mães
dedicadas e esposas carinhosas, se trabalhassem fora do lar; além do que um bom
número delas deixariam de se interessar pelo casamento e pela
maternidade” (RAGO, 2001, p.585). A definição da falta de moral feminina é tão
ampla que se torna uma arma potencial contra praticamente qualquer mulher adulta
(FONSECA, 2001).
Bruschini (2007), ao traçar um panorama da situação das mulheres no
mercado de trabalho brasileiro desde a última década do século XX até os primeiros
anos, do novo milênio, revela uma nova identidade feminina, voltada tanto para o
trabalho quanto para a família.
Mas ainda segundo o panorama, apesar desta nova identidade, permanecem
as responsabilidades das mulheres pelas atividades domésticas e cuidados com os
filhos e outros familiares, “o que indica a continuidade de modelos familiares
tradicionais” (BRUSCHINI, 2007, p.538).
Em dados gerais, a primeira questão destacada é a intensidade e constância
do crescimento da atividade feminina:

Nesse caso, os indicadores para o Brasil revelam que, no período


considerado, a População Economicamente Ativa – PEA – feminina
passou de 28 para 41,7 milhões, a taxa de atividade aumentou de
47% para 53% e a porcentagem de mulheres no conjunto de
trabalhadores foi de 39,6% para 43,5%. (BRUSCINHI, 2007, p.538)

Ao analisar os dados, Bruschini, identifica que “mais da metade da população


feminina em idade ativa trabalhou ou procurou trabalho em 2005 e que mais de 40
em cada 100 trabalhadores eram do sexo feminino, na mesma data” (BRUSCHINI,
2007, p 539). Apesar do considerável avanço, no entanto, as mulheres ainda estão
longe de atingir, seja as taxas masculinas de atividade, superiores a 70%, seja o
número de ocupados ou de empregados, nessa data (Tabela I).

Outra observação importante é a mudanças nos padrões culturais e nos


valores relativos ao papel social da mulher que consequentemente alteraram a
identidade feminina que é “cada vez mais voltada para o trabalho
remunerado” (BRUSCHINI, 2007). As trabalhadoras, que, até o final dos anos 70,
em sua maioria, eram jovens, solteiras e sem filhos, passaram a ser mais velhas,
casadas e mães.

De acordo com a Tabela II, Em 2005, a mais alta taxa de atividade feminina,
74%, é encontrada entre mulheres de 30 a 39 anos, 69% das mulheres de 40 a 49
anos e 54% das de 50 a 59 anos também são ativas.

2.2. A divisão sexual do trabalho e a mulher pescadora


A divisão sexual do trabalho é uma constante na história das mulheres e
homens, as diferenças biológicas, portanto, longe de serem naturais são, antes,
elaboradas a partir de um discurso que é social e discriminatório.

A primeira forma de divisão do trabalho nas sociedades primitivas


ocorreu entre os dois sexos. Aos homens eram confiadas a caça e a
pesca e à mulher, a coleta de frutos, evoluindo para a cultura da
terra. (BARROS, 1995, p.27)
A invisibilidade da mulher nos espaços públicos é um fator histórico. Segundo
Michelle Perrot, o século XIX, levou a divisão das tarefas e a segregação sexual ao
seu ponto mais alto. “Lugar das mulheres: a maternidade e a Casa cercam-na por
inteiro.” (PERROT, 1988, p.186).
A “invisibilização” da mulher de modo geral, e em particular daquela que vive
em sociedades pesqueiras, deve-se a consideração do “modelo bipolar de divisão
sócio-espacial e do trabalho”, e a pretensa “generalização” do mesmo “a partir da
análise de uma realidade particular” (ALENCAR, 1993).

Este modelo bipolar da divisão sócio-espacial e do trabalho


recorrente nas etnografias tem sido característico da visão
intelectual da tradição pesqueira. Em alguns casos, aparece de
forma rígida, principalmente porque reforça as distinções das
atividades de acordo com os espaços e com o gênero que as
realiza. (...) Assim, muito da “invisibilidade” da mulher em atividades
de pesca decorre da ótica do pesquisador na construção etnográfica
e interpretativa do seu objeto de estudo (ALENCAR,1993, p. 66).

As características e as capacidades atribuídas às mulheres não são inatas,


mas sim habilidades desenvolvidas a partir de um aprendizado social. Entrevista no
projeto experimental “Marola”, a marisqueira Rosemeire reconhece as dificuldades
físicas enfrentadas pelas mulheres em comparação aos homens.

[...] na profissão de marisqueira pra mulher é bom assim porque é


mais uma opção, mas é ruim em outras porque a doença chega
mais rápido né. Reumatismo, dores, porque a mulher sempre teve
menino, coisa que o homem não faz, aí eu acho que é mais difícil
(Rosemeire, 09/09/2008)

No entanto, tais dificuldades não a impediram de aprender a profissão e que


por meio dela, gerasse o sustento dos filhos e se realizasse profissionalmente, como
relata:

[...] eu tenho orgulho de ser marisqueira, de hoje eu ter minha


carteirinha de marisqueira profissional. (Rosemeire,09/09/2008)

“Assim, do mesmo modo que os homens não nascem pais, as mulheres,


apesar de seu aparato biológico, também não nascem mãe. E do mesmo modo que
a paternidade, por si só pode não preencher o projeto de vida do homem, por si só,
pode não preencher o projeto de vida da mulher.” (ROCHA-COUTINHO,1994, p.
155).
A pesca é uma atividade tradicionalmente exercida pelos homens, o trabalho
feminino na pesca é geralmente pouco considerado, principalmente quando esta
pesca se refere à captura de crustáceos. A pesca, quase sempre esta associada à
atividade em alto mar, um dos motivos que contribuem para isso é caracterização da
atividade como sendo inerente a captura do peixe e sempre simbolizada pelo
pescador, no barco em mar aberto (ANDRADE, 2007).
As atividades femininas tendem, pois, a ser multidirecionadas, ao contrário
das masculinas, geralmente centradas em uma ou duas atividades principais, como
por exemplo, pesca e lavoura (ALENCAR, 1993). As marisqueiras realizam
atividades diversificadas envolvendo a pesca no rio, cata do marisco, confecção e
costura das redes, cata do pescado e a captura na beira da praia nas redes de
arrasto.

Eu tiro moapen, tiro ostra, tiro sururu, pesco de anzol, remo canoa,
faço tudo. (Inês,08/09/08)

Quando não dá o marisco parte pra tarrafa, aí nós aqui como é


pouca gente, só eu e meu menino, aí tudo dá, pedindo forças a
Deus que a gente. (Kátia, 10/09/08)

Esse fato reforça a invisibilidade de seu trabalho e dificulta sua identificação


como trabalhadoras.
A desconsideração do trabalho feminino pode ser melhor compreendida a
partir da perspectiva de gênero por se tratar de algo que é uma construção social
pois, “naturaliza-se” o trabalho da mulher como algo inerente ao domínio doméstico,
quando ocorre sua inserção no domínio público o seu trabalho é visto como “ajuda”
ao trabalho do homem (CARDOSO, 2002).
As mulheres marisqueiras entrevistadas no projeto experimental, participam
das atividades da pesca tanto na coleta quanto na cata de mariscos. Desta forma o
trabalho dessas mulheres não é meramente de complemento ou ajuda na renda
familiar, já que assim como os homens, elas dividem espaços produtivos, na
atividade da pesca artesanal, desde a tarefa da pré-captura, captura e pós-captura.
As chamadas marisqueiras, realizam a pesca artesanal e este trabalho
envolve a pesca no rio e a cata de mariscos na beira da praia, do rio ou do mangue.
A pesca artesanal é caracterizada pela utilização de instrumentos rudimentares e
pela quantidade de mariscos e peixes pescados que é pouca.
Um fator histórico já citado e que remete a para a invisibilidade da mulher na
pesca é a divisão bipolar do trabalho que atribui equivocadamente à mulher o
trabalho na terra e ao homem o trabalho no mar (CARDOSO, 2002). No entanto
entre as populações pesqueiras, a produção das mulheres é tão importante quanto a
dos homens, ainda que não seja reconhecida como tal” (MANESCHY, 1997).
A entrada da maioria das mulheres na pesca aconteceu devido a dificuldades
econômicas, cabendo a elas na maioria das vezes o papel de mantenedora do lar
como relata a marisqueira Zelina Nascimento em entrevista ao projeto experimental
em vídeo “Marola”.

Eu comecei a ser marisqueira depois que sai do trabalho, não tinha


mais o que fazer e tive que lutar na pescaria, [...] e eu aprendi quase
tudo de pescaria, para poder sobreviver e dá comida para meus
filhos. (Zelina, 08/09/08)

Assim como Rosemeire que durante toda a vida – mesmo no período em que
foi casada – trabalhou na pesca para manter os filhos.

Agora sempre pescando e criando meus meninos com o dinheiro de


pesca, pegando peixe na praia, no tempo agora de verão e pegando
siri na ponte que aí eu vendo. (Rosemeire, 09/09/08)

Segundo Barros (1995), o aumento de mulheres com responsabilidades


familiares que se vêem integrando na força de trabalho, nos últimos quarenta anos
(em 1995), é uma realidade significativa. Segundo a autora um dos fatores que
contribuíram para que as mães prosseguissem para um emprego é justamente a
necessidade econômica.

a presença dos filhos no lar aumenta as atividades domésticas e


produz efeito desestimulador n participação da mulher no mercado
de trabalho. Portanto, só as mulheres com alto nível de instrução ou
aquelas que tem a necessidade de aumentar a renda familiar
compatibilizam trabalho e maternidade. E as causas econômicas,
que dão origem ao crescimento da atividade feminina, também
produzem efeitos ideológicos sobre as atividades e preferências
sociais. (BARROS, 1995, p.205)
Mesmo que a relação dominado/dominador seja amena nas representações
dos papeis femininos e masculinos no âmbito da pesca, percebe-se que a mulher
marisqueira, enquanto dona de casa ocupa uma posição de subordinação, já que
nessa esfera, a divisão do trabalho se apresenta mais desigual, pois são elas que
assumem tais funções (LIMA, 2003).

[...] acordo 4 horas da manhã para fazer café, deixar a roupa da


escola tudo em cima da mesa para eles (os filhos) poder ir pra o
colégio. Aí quando chego vou cuidar dos que fazer. (Zelina,
08/09/08)

Esses fatores reforçam a visão corrente das mulheres mais como donas de
casa, “ajudantes” do companheiro e não como sujeitos produtivos (MANESCHY,
1997).

O caráter muitas vezes inconstante e variado de seu trabalho, bem


como o fato de que a renda que produz não assume
necessariamente a forma monetária - por exemplo, peixes, mariscos
ou produtos da roça para consumo doméstico, reparos ou confecção
de apetrechos de pesca para o marido ou filhos, etc. – tem
contribuído para ocultar esse trabalho. [...]Muitos dos trabalhos
assumidos por mulheres em comunidades pesqueiras apresentam
como características a variabilidade no tempo e no espaço, a
irregularidade na demanda, sua compatibilização com as tarefas
domésticas e, por conseqüência, a dificuldade de contabilizar o
tempo de trabalho. (MANESCHY, 1997, p.88)

Essa característica inerente ao trabalho feminino na pesca, como a atividade


descontínua, que nem sempre se traduzem em renda monetária e ainda a
compatibilização com as atividades domésticas, contribuem para reforçar a
indiferença ao trabalho da mulher no setor (ANDRADE, 2007).
Mesmo diante a invisibilidade, ao exercer tais funções no espaço doméstico, tais
como cuidar dos filhos, manter a casa e pescar e plantar para o consumo das
famílias, são elas que, mais que os homens, enfrentam cotidianamente as
dificuldades da vida em terra.

2.3. As marisqueiras e o meio ambiente


Como já mencionado neste trabalho, as mulheres marisqueiras exercem em seu
cotidiano a pesca artesanal caracterizada pela utilização de instrumentos
considerados rudimentares e pegam pouca quantidade de mariscos e peixes. Cada
comunidade de pesca apresenta as suas peculiaridades, como afirma Andrade
(2007) em sua pesquisa:

porque o meio vai oferecer determinado tipo de espécie para a sua


captura. No São Miguel, as mulheres costumam pescar o siri no rio
e o peixe no mar, enquanto os seus maridos vão para o alto mar. Já
no Teotônio Vilela as mulheres costumam pegar o siri no rio, como
também adentram no mangue em busca do aratu e das ostras,
sendo que tanto mulheres quanto os homens exercem a pesca
artesanal. Na Lagoa Encantada, as pescadoras e pescadores
costumam pegar o camarão e o peixe na Lagoa. Nesses lugares
encontramos especificidades tanto no que a natureza oferece como
nas práticas de pesca que são utilizadas nesses espaços.
(ANDRADE, 2007, p.2)

Ao executarem a pesca artesanal as marisqueiras preservam a biodiversidade


como afirma Santos e Costa (2004):

a produção de produtos de pequeno porte oriundos dos rios,


mangues e mares, bem como a recuperação, conservação e
confecção dos materiais necessários à pesca e os artesanatos
produzidos, que abastecem os mais diversos mercados, é resultado,
predominantemente, do trabalho das pescadoras. Além disso, as
trabalhadoras da pesca são responsáveis por grande parte da pesca
artesanal, o que contribui para a preservação da biodiversidade,
deixando clara a sua inserção no que diz respeito ao equilíbrio
ambiental (SANTOS; COSTA, 2004, p.3)

A exerceram este tipo de pesca, as mulheres contribuem para o equilíbrio


ambiental mesmo que de forma não perceptível, ou seja, “parece não haver, por
parte das pescadoras, a consciência da relação direta entre as atividades por elas
desenvolvidas e a conservação dos recursos ambientais”. (SANTOS; COSTA,
2004).
Além disso, pode-se observar, a partir dos depoimentos das marisqueiras, que
em meio aos diversos problemas vivenciados no cotidiano na pescaria, é perceptível
a crescente diminuição da quantidade de mariscos capturados ao longo dos anos.
Elas atribuem essa situação a fatores de degradação ambiental, como a quantidade
de esgotos despejados indiscriminadamente no rio e quantidade de lixo encontrado,
como afirma Rosemeire:

[...] hoje pra gente pegar uma lata dá bastante trabalho, tem que tá
dando bastante siri e tem que ter bastante siripoia./Antigamente não,
rapidinho, hoje tá difícil, não sei se é a poluição, porque no rio passa
muita coisa, muito saco, muito garrancho, muita coisa que não devia
jogar no rio.

A pesca artesanal sempre teve grande importância para o setor, mas diante da
grave crise mundial do setor pesqueiro desde a década de 1980, o COFI – Comitê
de Pesca da FAO (Órgão das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura)
propôs, em 1991, um conceito, considerado central, para nortear a promoção de um
novo estilo de desenvolvimento da atividade pesqueira, que é o de pesca
responsável.

Trata-se de um enfoque muito importante, pois pretende associar


desenvolvimento e responsabilidade. Seus princípios estão
expressos no Código de Conduta para a Pesca Responsável,
elaborado sob os auspícios da FAO, a ser adotado pelos vários
países pesqueiros. (MANESCHY, 1997, p.83)

O código incorporou a noção do direito à pesca atrelada a importância da


conservação ambiental como garantia dos recursos para as futuras gerações. “O
direito de pescar é inseparável do dever de ordenar e de conservar os recursos,
para as gerações presentes e futuras” (MANESCHY, 1997, p.90).
Ainda se tratando preservação ambiental numa perspectiva de gênero, Cardodo
(ano) firma que a mulher “é valorizada mais pelo seu papel de reprodutora social do
que por ser um agente de transformação em potencial (ou mesmo um agente de
conservação e equilíbrio ambiental)”. (CARDOSO, 2002, p.5).
Dentro dessa perspectiva foi criado na década de 70, um movimento com
objetivo de estabelecer uma relação entre a dominação da natureza e a dominação
das mulheres (SILIPRANDI, 2000). O Ecofeminismo pode ser considerado como
uma corrente que trabalha com mulheres dentro do movimento ambientalista.
Segundo Emma Siliprandi (2002), um dos princípios do pensamento ecofeminista é
a seguinte questão:
do ponto de vista econômico, existe uma convergência entre a forma
como o pensamento ocidental hegemônico vê as mulheres e a
Natureza, ou seja, a dominação das mulheres e a exploração da
Natureza, são dois lados da mesma moeda da utilização de
recursos naturais sem custos, a serviço da acumulação de capital.
(SILIPRANDI, 2000, p.3)

Para o Ecofeminismo, o patriarcalismo é a forma de opressão, que mantém as


mulheres na posição de dominadas da mesma forma que acontece com os animais.

Os ecofeministas vêem a dominação patriarcal de mulheres por


homens como o protótipo de todas as formas de dominação e
exploração: hierárquica, militarista, capitalista e industrialista. Eles
mostram que a exploração da natureza, em particular, tem
marchado de mãos dadas com a das mulheres, que têm sido
identificadas com a natureza através dos séculos. [...] os
ecofeministas vêem o conhecimento vivencial feminino como uma
das fontes de uma visão ecológica da realidade. (CAPRA, 1996, p.
27)

No entanto a visão ecofeminista é criticada por alguns autores por ter sua
discussão baseada nos “centrismos”, “ecocentrismo” ou o “centrismo de
gênero” (ARRUDA, 1995). Segundo a autora, o ecofeminismo e a “perspectiva
biocêntrica” não têm força no Brasil e estão ligados às origens comuns (os
movimentos sociais) e afirma ainda que “os movimentos sociais surgem de pessoas
vinculadas a resistência à ditadura, uma perspectiva ligada ao paradigma do
socialismo” e desta forma questiona: como ele vai separar os explorados em
homens e mulheres?. (Arruda, 1995).
As atividades exercidas pelas marisqueiras requer o domínio de mecanismos
próprios, um amplo conhecimento de apropriação dos recursos marinhos e de um
sábio manejo dos instrumentos da pesca como afirmam as marisqueiras Dinalva
Alcântara de Carvalho, Tertulina Ferreira Mota e Maria Inês de Aquino :

[...] tem vez que a gente vai com a maré alta, tem vez que vai com a
maré baixa. Tem vez que o marisco dá mais na alta e tem vez que
dá na maré baixa [...]

[...] No verão, assim na beira do mangue, ele ta cheio, fica assim as


carreiras é porque cai as folhas ele vem comer a folha, aí você
escoa uma varinha pegou um balde de junto de você, o aratú vem
vê o que é aquilo ele chegou pegou suspendeu a vara ele caiu
dentro do balde [...]
[...] Quando a maré bem seca, as vezes a gente sai 5 horas da
manhã chega 9, cada dia ela vai dando mais tarde...5 outro dia 7,
outro dia já é 8, 9,10 e assim vai [...]

As marisqueiras mantêm uma relação com o meio ambiente e através dessa


relação e por meio de experiências do dia a dia, ou passadas de geração em
geração, elas percebem os períodos de vazantes e a relação com a lua, que tipo de
marisco é possível pegar a depender da maré.
A dependência da maré, faz com que o trabalho das mulheres marisqueiras
seja determinado pelo tempo subjetivo diferente da sincronização do relógio:

Ao contrário dos trabalhadores industriais que estão presos ao


“tempo do relógio”, na sua prática cotidiana, as pescadoras
possuem o seu próprio tempo porque o seu trabalho depende do
acompanhamento do “tempo da natureza”. O descaso pelo tempo
do relógio só pode ser aplicado em comunidades de pequenos
agricultores e pescadores, cuja estrutura de mercado e
administração é mínima e nas quais as tarefas diárias parecem se
desenvolver pela lógica da necessidade. (ANDRADE, 2007, p.3)

A não dependência do “tempo formal” é portanto uma característica de


comunidades tradicionais como a de pescadores.

Sem dúvida, esse descaso pelo tempo do relógio só é possível


numa comunidade de pequenos agricultores e pescadores, cuja
estrutura de mercado e administração é mínima, e na qual as tarefas
diárias (que podem variar da pesca ao plantio, construção de casas,
remendo das redes. (THOMPSON, 1998, p.271)

Essa espécie de marcação do “tempo livre e do tempo do trabalho”, causa


nas marisqueiras uma certa autonomia e sensação de independência associada a
não subordinação que os “trabalhadores urbanos não usufruem”. (BLUME, 2008).

Tais pescadores e marisqueiras têm como particularidades um ritmo


de vida destoante do trabalhador industrial e um conhecimento
próprio construído pela ligação direta que mantêm com o ambiente
dos mares, rios, lagoas e mangues. Além disso, as organizações
das atividades cotidianas e de trabalho estão imbricadas,
proporcionando uma relativa autonomia do tempo do trabalho.
(BLUME, 2008, p.7)
Questionadas sobre a possível adequação em emprego formal todas foram
unânimes em dizer que não conseguiriam se adaptar, como relata os três
depoimentos a seguir:

Trabalhar para os outros você tem que trabalhar o dia todo. Pra
você não. Você trabalha o dia que quer vai a hora que quer, vem a
hora que quer e pra os outros (Dinalva, 08/09/08)

Eu acho ótimo esse negócio de pescaria, porque não tem ninguém


para ficar mandando na gente. A gente chega em casa descansa e
no trabalho dos outros a gente não tem isso de descansar (Zelina,
08/09/08)

Eu já tentei e não consegui. Na ponte, na praia eu vou no dia que eu


quiser, na hora que eu quiser, não falo nada e não ouço nada./Pra
patroa a gente tem que falar, ouvir né. Então é melhor que não
(Rosemeire, 09/09/08)
3 DA OBSERVAÇÃO À CRIAÇÃO

3.1. “Marola”: um modo observativo

Segundo Nichols, no formato documentário, cada subgênenro apresenta


características peculiares e a partir de tal divisão é possível compreender as
peculiaridades de cada um. A identificação do filme com todas as características de
um modo não precisa ser total. Segundo Nichols, “um documentário reflexivo pode
conter porções bem grandes de tomadas observativas ou participativas”. (NICHOLS,
2005, p.136).
Historicamente, o modo observativo surge com a disponibilidade de câmeras
portáteis de 16 mm e gravadores magnéticos nos anos 60. Desta forma já era
possível filmar acontecimentos cotidianos com um mínimo de encenação e
intervenção. A nova forma de observação espontânea resultou em filmes com
características específicas.

[...] resultou em filmes sem comentários com voz-over, sem


música ou efeitos sonoros complementares, sem legendas, sem
reconstituições históricas, sem situações repetidas para a câmera
[...] (NICHOLS, 2005, p.147)

A identificação do projeto experimental “Marola” com o modo observativo


pode ser analisada a partir das características técnicas como a utilização da voz-
over evitando-se textos em off, a ausência de efeitos sonoros que fossem além das
trilhas sonoras, de legendas e feitos de computação gráfica. No vídeo, buscou-se
uma característica similar ao “documentário de Coutinho2” (LINS, 2004, p.184),
“misturando personagens, suas falas, sons ambientes, imagens, expressões”.

O modo observativo propõe uma série de considerações éticas


que incluem o ato de observar os outros ocupando-se de seus
afazeres. (NICHOLS, 2005, p.148)

Essa característica do modo observativo pode ser percebida em “Marola”, ao


registrar experiência de pessoas reais (e comuns). O relato da atividade na pesca, a
2
Eduardo Coutinho é um dos mais importantes nomes do documentário brasileiro, teve uma formação
que passou pelo cinema, teatro e jornalismo. Seu trabalho é caracterizado pela profundidade e
sensibilidade com que aborda problemas e aspirações da grande maioria marginalizada.
relação de dependência do rio e o cotidiano da pesca em si formam cenas que situa
o espectador dentro da especificidade daquele lugar e daquele determinado
momento.
Uma característica do modo analisado é sua atuação no sentido da não
intervenção do realizador nos acontecimentos que estão sendo filmados. No filme,
são os personagens que determinam o andamento temporal do filme e a montagem
sempre tem em vista a temporalidade autêntica dos acontecimentos.
Bill Nichols ressalta que o modo de observação tem sido utilizado como
ferramenta etnográfica, já que permite aos realizadores observar atividades e
costumes de maneira direta, sem as mediações textuais do “documentário
expositivo”. Segundo Yakhni (2001), a característica etnográfica está justamente
registro de experiências de vidas dentro seus contextos.

O que é representado é a experiência vivida e as características


peculiares de seu cotidiano, no qual diferentes relações sociais
são apreendidas, linguagens diferentes são ouvidas e identificadas
em seus respectivos contextos culturais (YAKNI, 2001, p.11)

Outra característica marcante no modo observativo é a presença da câmera


na “cena” como marca de um comprometimento ou “engajamento com o imediato”.
(Nichols, Ibid.). No entanto essa presença que causa a sensação de fidelidade ao
que acontece, foram construídas para ter determinada aparência.
A questão da intervenção da câmera seja no cotidiano dos personagens seja
nos depoimentos, o que suscita o questionamento de Nichols:

Quanto do que vemos seria igual se a câmera não estive lá, ou


quanto seria diferente se a presença do cineasta fosse mais
facilmente reconhecida. (NICHOLS, 2005, p.153)

Que conclui o questionamento com uma justificativa que se mostra como


mola-propulsora para a investigação e aprimoramento das características do modo
observativo:

O fato de que esse debate seja insolúvel, por sua natureza,


continua a alimentar um certo mistério, ou inquietação, sobre o
cinema observativo. (Ibid., p.153)
A partir da descrição do tópico a seguir, que relata a processo da pré-
produção, é possível constatar de que forma o presente trabalho se apropria ao
modelo apresentado.

3.2. Na prática

O planejamento do documentário começa com a idéia e a idéia do


documentário “pode começar com nada mais do que um vago impulso em alguma
direção”3. Segundo Santos (1986, p.43), não adianta ter uma idéia, “mas é preciso
que se fique completamente envolvido por ela, que ela passe a ser incorporada ao
dia-a-dia, sustentando-se em outras idéias paralelas.”
A princípio tudo não passava de uma vaga idéia que se consolidou a partir de
leitura de vários trabalhos de dissertação de mestrado e matérias jornalísticas sobre
o tema na internet. A partir de então passei a ter uma noção maior das dificuldades
enfrentadas por essas mulheres no dia a dia e, sobretudo a percepção da
invisibilidade do trabalho dessas mulheres. Com as pesquisas bibliográficas foi-se
percebendo a escassez de materiais sobre a temática específica sobre “mulher e
pesca” e, portanto foi necessário recorrer dissertações de mestrados e artigos
científicos.
A noção real sobre as dificuldades da mulher pescadora foi comprovada a
partir da pesquisa de campo. A primeira pesquisa de campo foi feita no bairro de
São Miguel, caracterizada como uma vila de pescadores de Ilhéus, mas diante da
resistência da presidente da Associação de Marisqueiras daquele local em conceder
entrevistas, foi impossível conhecer mais a fundo o trabalho das mulheres naquela
localidade.
Essa dificuldade inicial contribuiu para um ponto decisivo no vídeo, não
trabalhar com um grupo de marisqueiras especificamente, como associação, colônia
de pesca ou de uma vila de pescadores, pela profunda mobilização política desses
grupos. Daí a opção de não localizar no espaço as marisqueiras em detrimento da
valorização da história de cada uma entorno de uma mesma atividade profissional.
As pesquisas de campo foram feitas ainda nos bairros de São Domingos e
Teotônio Vilela e para isso foi de suma importância a ajuda da pesquisadora
3
“A idéia do documentário”, tradução livre e resumida dos principais tópicos do capítulo 9 de:
MAKING DOCUMENTARY FILMS AND REALITY VIDEOS. Barry Hampe. New York: Henry Holt and
Company, 1997. (Tradução: Roberto Braga).
Fabiana Andrade4 . Nos reconhecimentos de campo no bairro Teotônio Vilela,
encontramos dificuldade com relação à segurança, fomos aconselhadas a andar
com pouco ou quase nenhum objeto na mão, usar roupas simples e andarmos pelo
bairro e principalmente na “Quadra 1”, até no máximo as 17 horas. Chegamos a
andar por meio de pessoas armadas, o que inevitavelmente causou certa
preocupação.
Cinco personagens do vídeo são do bairro Teotônio Vilela, sendo quatro delas
– Zelina, Dinalva, Kátia e Inês – de uma mesma rua, a Quadra 1 e dona Tertulina de
uma outra rua do bairro. A sexta personagem, Rosemeire mora e pesca no bairro de
São Domingos, zona norte de Ilhéus.
Diante das pesquisas de campo e ao conhecer as histórias de vida de
algumas marisqueiras e suas lutas diárias pela sobrevivência, trabalhar com os
conceitos de gênero e trabalho foi inevitável. Em momento nenhum, pensei em
trabalhar com a “história das mulheres” marisqueiras tornando-as vítimas ou
heroínas, um dos erros dos estudos iniciais sobre mulheres (BRUSCHINI; COSTA,
1992, p.10), mas revelar experiências de vidas.
Segundo Watts (1990), a pesquisa deve ser feita de todas as formas
possíveis, através de leituras, conversas formais ou informais. Segundo o autor é
nesse momento que nasce o pré-roteiro.

É hora de começar a pensar na música, se você pretende usa-la em


sua produção. Ela pode afetar a maneira de lidar com suas imagens.
[...]raciocine em seqüência visuais. (WATTS, 1990, p.29)

Ainda segundo o autor, nesse momento devem ser analisados as condições


naturais de iluminação o que indispensável para uma boa fotografia.

Confira onde o sol estará quando você retornar para a gravação ou


filmagem. Isso é importante. Um sol baixo no horizonte, à tardinha,
pode tornar impossível filmar algumas cenas. Um sol brilhante atrás
do edifício pode dar uma sombra tão escura na frente dele que nada
produzirá uma imagem aceitável. (WATTS, 1990, p.32)

4
Fabiana Andrade há quatro anos desenvolve um trabalho história oral sobre marisqueiras de Ilhéus
atualmente ela é aluna do Programa de Pós-Graduação-Mestrado em História da Universidade Feira
de Santana e defende sua tese intitulada “Tecer Redes, Tecer Histórias: As experiências de vida e
trabalho das pescadoras em Ilhéus - BA, 1980-2007”
Durante os reconhecimentos de campo além das entrevistas, foram feitas
fotos com máquina digital para que se tivesse posteriormente uma melhor análise da
iluminação e dos possíveis enquadramentos e das composições de cenas, que por
opção foram feitas em cenários naturais.
Com as pesquisas preliminares feitas, partiu-se para a elaboração do roteiro.
Segundo Comparato (1995, p.341), o roteiro do documentário é “[...] unicamente
orientativo, um ponto de referência para o trabalho de filmagem, visto que a
realidade muitas vezes interfere e introduz novos elementos não previstos.”.
Segundo Larson e Meade, as limitações do documentário residem na necessidade
de fazê-lo conforme os fatos vão acontecendo.
O roteiro de gravação do vídeo foi feito foi feito apenas para sequenciar os
ambientes onde as imagens seriam feitas e com alguns takes de imagens estáticas
com composição visual determinada (Anexo IV). O que se procurou em todo
momento foi tornar o filme o mais natural possível concordando com os autores
citados:

A satisfação que dá um documentário é, justamente, registra uma


personalidade, um tema ou acontecimento, sem modifica-lo. O
cineasta deve então basear-se quase totalmente na montagem, para
exprimir seu ponto de vista. (LARSON; MEAD, 1969, p.2)

3.3. Conhecendo um ponto de vista por meio da “voz”

Um documentário transmite um discurso e para isso se faz necessário o uso


de imagens e sons, o que se pode chamar de “voz” do documentário. Segundo
Nichols (2005), voz, nesse sentido, não é entendida no sentido literal da palavra.

É óbvio que a palavra falada desempenha papel crucial na maioria


dos vídeos e filmes documentário. [...] Ainda assim, quando falam
do mundo histórico, os documentários fazem-no com todos os
meios disponíveis, especialmente com sons e imagens inter-
relacionados ou, nos filmes mudos, só com imagens. (NICHOLS,
2005, p.72)

Para o autor, a partir do momento em que um documentário não reproduz


uma realidade, passa a ter uma voz própria, ou seja, uma “visão singular” do mundo.
É por meio da voz, que se pode conhecer o ponto de vista ou uma perspectiva no
documentário.
A voz do documentário pode defender uma causa, apresentar um argumento,
bem como transmitir um ponto de vista, durante o processo de pré-produção foi
necessário pensar de que forma o discurso se daria no vídeo. Em “Marola”, o
trabalho da mulher na pesca numa perspectiva dos Estudos de Gênero é um
argumento que é representado a partir das vozes femininas, a partir de depoimento
de mulheres marisqueiras, imagens de mulheres em contato com a profissão,
imagens de mulheres exercendo atividades historicamente masculinas, como remar
canoa, planos fechados que demonstram expressões do olhar.
No entanto, nada impede que o trabalho da mulher na pesca possa ser visto
através de outro ângulo ou ponto de vista. A voz está ligada ao estilo, que segundo
Nichols (2005, p.74) é próprio de cada autor:

No documentário, o estilo deriva parcialmente da tentativa do


diretor de traduzir seu ponto de vista sobre o mundo histórico em
termos visuais, e também de seu envolvimento direto no tema do
filme. [...] o estilo ou a voz do documentário revelam uma forma
distinta de envolvimento com o mundo histórico.

Nichols fortalece o argumento de que a voz do documentário não esta restrita


ao que é dito verbalmente, mas é a voz que “fala” através de todos os meios
disponíveis, como arranjo de som e imagem. Entretanto, a fala é a forma mais
explícita de voz.
Em “Marola”, não é utilizado em momento algum o uso da voz off, sendo
predominantemente utilizada a “voz dos personagens” devido a ´características que
são inatas ao recurso. Eduardo Coutinho, ao evitar a voz off em seu documentário,
defende a criação da narrativa pelo próprio atores sociais e a utilização do recurso
como característica típica ao forma documentário.

Contrariamente às informações telejornalística, em que a lógica do


texto em off é o que determina a edição das imagens e onde o
silêncio e os tempo mortos de uma conversa não tem vez, aqui é a
lógica das imagens e do que dizem ou deixam de dizer os
entrevistados que pesa na construção das seqüências. (LINS,
2004, p.184)
O projeto experimental “Marola” nasceu com o problema5: De que forma
procede a relação cotidiana das marisqueiras com o rio e o que a representatividade
desta relação, mediada pela atividade profissional que exercem, significa para elas.
Entretanto a hipótese para o problema proposto só foi definido a partir dos
depoimentos das personagens, das expressões e imagens in loco – e “jamais
significações prontas fornecida por uma voz off”6 –, que permitiram a montagem do
filme que oferece ao espectador várias interpretações.

3.4. Gravando
Para a gravação do vídeo “Marola” foram cedidos pela Uesc, quatro turnos. O
roteiro de gravação priorizou as sonoras, partindo em seguida para a gravação das
imagens das mulheres executando os trabalhos na pesca. Antes de gravar foram
feitos todos os contatos por telefone com as personagens e tudo saiu de forma
planejada.
Segundo Watts (1990) antes de partir para uma gravação é importante se
certificar dos contatos do dia e hora e ainda observar condições adversas como
movimentação de feiras livres, festas, dentre outros imprevistos, para que nada sai
de forma inesperada.
Com os contatos marcados foi solicitada a autorização para a saía do
equipamento da universidade. Para as gravações foram utilizados os seguintes
equipamentos: câmera, seis fitas de 60 minutos, tripé, microfone, monitor e
extensão. Segundo Watts (1990), é essencial numa produção tomar nota de todo o
equipamento necessário.
Uma dificuldade encontrada no início foi a travessia de rio que as marisqueiras
fazem até chegar ao local de trabalho, um banco de areia, chamado de coroa. As
canoas utilizadas por elas são muito pequenas e não oferecem segurança, daí uma
preocupação com os equipamentos. Mas em conversa com as próprias marisqueiras
elas se disponibilizaram em conseguir uma canoa maior, chamada por elas de
barco, quem tem a capacidade para até cinco pessoas e oferece maior segurança.
A situação foi exposta ao coordenador de laboratórios Emiron Gouveia, que
autorizou a travessia no barco, desde que, o cinegrafista Helio Heleno visse a
canoa, avaliasse e aprovasse a travessia com segurança. Com a aprovação de
5
Dentro do contexto Objeto, Problema e Hipótese.
6
Conceito defendido por Eduardo Coutinho como identifica Consuelo Lins no texto “O cinema de
Eduardo Coutinho: uma arte do presente”.
Hélio e consequentemente de Emiron a travessia foi feita e tudo aconteceu de forma
satisfatória. No entanto as imagens feitas no barco pouco foram utilizadas pelo
movimento constate do barco e muitas dessas imagens saíram “tremidas”.
O áudio foi um dos maiores problemas encontrados pela equipe, já que todas as
sonoras foram gravadas ao ar livre, exposto ao vento, sons automotivos, dentre
outros. Segundo Watts, é importante ouvir os ruídos na locação7 e alerta:

Se vier de fontes que o espectador não verá, eles ficarão mais altos
quando gravados do que realmente são na realidade, e poderão ser
extremante desagradáveis. (WATTS, 1990, p.34)

Em duas sonoras houve grande interferência de ruídos, a da marisqueira Dinalva


Carvalho, que mora próximo ao um bar e onde havia muitas pessoas bebendo.
Como faz parte do papel da produção, foi pedido para o dono do local baixar som, o
que foi feito, mas não necessário para que não houvesse interferência na sonora. No
segundo caso foi em um pequeno trecho da sonora de Rosemeire, mas não foi
pedido aos vizinhos que baixassem o som, como orientado pela entrevistada, já que
eram pessoas que, segundo ela iriam “criar confusão”.
Outro ruído que atrapalhou muito e principalmente na sonora da senhora
Tertulina, foram os fortes ventos. Para tentar solucionar o problema o cinegrafista
sugeriu que utilizássemos o microfone em volume mais baixo, o que amenizou a
situação, mas em alguns momentos, com a força do vento foi impossível controlar.
O microfone boom é o modelo disponível que possibilitar captar o áudio sem que
haja interferência estética na imagem, ou seja, ele não entra na cena, mas como o
boom é um microfone direcional que apresenta vantagens e desvantagens
específicas como a sensibilidade e capacidade de captar vários sons no ambiente.
Todas as personagens entrevistadas durante a gravação foram utilizadas no
vídeo. Ao total foram seis mulheres marisqueiras entrevistadas conforme um
planejamento prévio:

DIA HORÁRIOS LOCAÇÕES


08/09 14:00 às 17:30 • Sonoras com as marisqueiras do Teotônio
Vilela: Dinalva, Kátia e Inês

• imagens de insert8
09/09 14:00 às 17:30 • Sonora e imagens in loco do trabalho da

7
Qualquer local fora do estúdio
marisqueira Rosemeire no São Domingos
10/09 14:00 às 17:30 • Sonoras comas as marisqueiras do Teotônio
Vilela: Kátia e Tertulina/
• imagens de insert
17/09 08:00 às 11:30 • Gravação do trabalho das marisqueiras na
coroa, Teotônio Vilela

Com a conclusão das gravações começou-se então trabalho de decupagem


(ver ficha – Anexo III), que consiste na seleção e marcação dos minutos das
melhores cenas. Segundo Watts, na edição se escolhe as melhores tomadas-de-
cena, ou as melhores partes das melhores cenas, desta forma o processo de
decupagem é essencial para a edição.
Com as imagens escolhidas e com a transcrição de todas as sonoras foi
montado então o roteiro de edição (Anexo I). Esses processos ajudaram na
otimização da edição que foi concluída em cinco turnos – com duração de quatro
horas, das 08:00 às 12:00.
No processo de edição, segundo Watts (1990, p.95), a “chave é descobrir o
ponto preciso onde a tomada-de-cena começa a ficar interessantes e o ponto de
preciso onde ela deixa de ser interessantes”. Em “Marola” a edição foi um
processo guiado pela “lógica das imagens e do que diziam os entrevistados”
pesou para a construção das seqüências. (LINS, 2004, p.63).
A fala das personagens foram montadas em uma seqüência onde os
discursos se reafirmam ou se discordam ao mesmo tempo como na seqüência
seguinte onde as marisqueiras falam sobre a profissão:

00:14:21 00:14:57 Tertulina - Hoje eu agradeço a Deus,


eu sou nos meus documentos
marisqueira profissional
00:16:46 00:17:32 Zelina - Eu mesmo trabalho porque é o
jeito, eu sou doente, tenho problema
não posso ficar na frieza, mas eu não
vou vez meus filhos na casa dos outros
pedindo pão, não vou.
00:01:30 00:02:07 Rosemeire - Ajuda e como ajuda em
tenho orgulho de ser marisqueira, de
hoje eu ter minha carteirinha de
marisqueira profissional

Na edição não foi usado nenhum efeito nas imagens, nem computação
gráfica, o único efeito usado foram os fades9 de transição de imagens. O filme
8
Imagens feitas para substituir uma cena por outra de idêntica duração, neste caso para cobrir
algumas sonoras (depoimentos gravados).
9
Efeito de transição gradual de uma cena para outra
pretende ser suave e tentou-se o máximo possível não fazer nenhum tipo de
alteração na estética visual, apenas:

Apresentar uma seqüência que flui suavemente, sem nos fazer


demasiadamente conscientes dos cortes (LARSON; MEAD, 1969, p.
113)

Um recurso adotados com o objetivo de não tornar o documentário cansativo


foi a inserção de dois pequenos clipes de imagens no meio do vídeo quebrando
sempre um assunto na seqüência das sonoras. O primeiro clip é uma seqüência
de imagens onde as mulheres saem de casa e percorrem um caminho até
chegarem a beira do rio. Já a segunda é a saída das canoas pelo rio.
Segundo Watts (1990, p.126), a música possui grande influência no vídeo ela
“tem o poder maravilhoso de atingir os sentidos das pessoas em poucos
segundos”. No entanto o autor alerta sobre a importância de saber utilizar a
música, não a cortando de forma abrupta só porque a seqüência terminou é
preciso “baixar suavemente”.
Uma opção para as escolhas das trilhas foi utilizar músicas de artistas
independentes uma forma de divulgar esse tipo de trabalho e também trabalhar o
conceito de “direito autoral”, como falaremos mais a fundo a seguir.

3.5 . Trilha sonora: independência como conceito

A trilha sonora do filme “Marola” foi composta por músicas que além de
concordarem com a temática proposta, são novos modelos de compartilhamento,
interatividade e consumo musical favorecidos pelos desenvolvimentos
tecnológicos. Todas as músicas utilizadas foram adquiridas através de
downloads gratuitos dos sites Palco Mp3, Bandas de Garagem e Trama Virtual10.

A gravadora brasileira Trama é um exemplo de modelo alternativo


de negócio que não criminaliza o download gratuito, mas compõe

10
Endereços virtuais: www.palcomp3.com.br; www.bandasdegarem.com.br e www.tramavirtual.com.br.
com ele, servindo-se desta tecnologia para inaugurar nova
modalidade de prospecção de mercado. (CASTRO, 2006, p.3)

O Trama Virtual é espaço criado pela gravadora independente que permite


aos artistas e bandas disponibilizem informações, agenda e músicas em formato
mp3 para que estas sejam analisadas pelo público que visita o site (MONTEIRO,
2008),. Para fazer downloads é preciso que o usuário faça um cadastro.
O Palco Mp3 tem cerca de quinze mil artistas cadastrados e mais de setenta
e cinco mil músicas disponíveis e além de disponibilizar vídeos, agenda, letras e
cifras, os artistas podem colocar suas músicas à disposição do público para
download. (MONTEIRO, 2008).
O Bandas de Garagem é um site que permite que cada banda possua um
espaço para divulgação do seu trabalho, fotos, discografia, rádio, agenda de
shows.
Estes sites são classificados como agregadores que são definidos como
“empresa ou serviço que coleta ampla variedade de bens e os torna disponíveis
e fáceis de achar, quase sempre num único lugar” (MONTEIRO, 2008, p. 86).
Com a internet e as novas práticas de consumo de música digital, surgiu uma
discussão sobre a pirataria e o direito autoral. Os direitos autorais foram
estabelecidos através da Convenção de Berna em 1886 e integrados no
mercados global através dos Acordo de 1994 da Organização Mundial do
Comércio. (CASTRO, 2006).
As leis de copyright mediam no campo da música as relações contratuais
entre músicos e gravadoras e segundo Castro (2006, p.1), têm a “função de
regular o poder de barganha das instâncias intermediárias entre criador e seu
público”.
A situação passa a ter outros contornos com a entrada em cena das
tecnologias digitais que então problematiza o papel das instâncias intermediárias
e traz conseqüências para a implantação dos direitos autorais.

A adoção do CD (compact disc) como formato preferencial de


distribuição no mercado fonográfico trouxe em seu bojo a
proliferação da pirataria em escala industrial [...] finalmente a
digitalização da música possibilitou a apropriação da internet como
canal de distribuição. (CASTRO, 2006, p.02)
Nesse novo cenário foi afetado o poder de barganha das instancias
intermediárias e a própria estruturação dos contratos do copyrights. Entretanto
para os artistas – nas maiorias deles pouco conhecidos – que disponibilizam
suas músicas em formato mp3 em sites específicos, o que importa é tornar a
música conhecida e popular.

Na composição da renda destinada aos músicos, convites para


shows, participação na venda de ingressos e produtos com a
imagem do artista, etc, representam muito. (CASTRO, 2006, p.4)

Todas as trilhas de “Marola” são de artistas considerados independentes, ou


seja, aqueles que assumem integralmente as responsabilidades e os custos
envolvidos, sem nenhuma veiculação que implique em subordinação a uma
empresa ou instituição com fins lucrativos (VAZ, 1988).

O termo independente se refere ao mesmo tempo: a) a uma


característica de bandas que não teriam sido lançadas por grandes
gravadoras; b) a gravadoras independentes, pequeno selos com
relativa autonomia no processo produtivo e criativo, contratação e
promoção dos artistas; e c) a uma condição específica de produção,
que diz respeito a um estilo musical alternativo, associado a um
conjunto de valores musicais, como a autenticidade (MONTEIRO,
2008, p.2)

A música Coco Dub, de Chico Science e Nação Zumbi, além está disponível
sob licença Creative Comonns11, foi escolhida por ser do movimento Mangue Beat,
movimento musical que surgiu no Brasil na década de 90 em Recife que mistura
ritmos regionais com rock, hip hop, maracatu e música eletrônica, mas que tem em
sua essência a marca de engajamento cultural, o que o tornou marcante
musicalmente e socialmente.

o Mangue Beat vai se distinguir pelo fato de ter sido puxado por
jovens nascidos nas camadas populares dessa região [Recife].
Neste sentido, o comparamos ao Quilombo dos Palmares. Como
Palmares, com sua pluralidade étnica que acolheu os excluídos do
sistema colonial, o movimento de Chico Science, em alguns anos

11
Organização sem fins lucrativos sediada na Standford Law School, têm o intuito de oferecer opções
em termos de regimes de proteção de direitos autorais que sejam legalmente viáveis e também
adaptados aos tempos de consumo de mídia digital. www.creativecommons.org.br
vai dar a palavra a uma camada da sociedade que até então não
tinha encontrado um eco de maneira autônoma. (TESSER, 2007, p.
70)

Chico Science, ex-vocalista da banda Chico Science e Nação Zumbi é o ícone


desse movimento e idealizador do rótulo mangue e principal divulgador das idéias,
ritmos e contestações do Mangue Beat. No entanto os músicos ligados ao
movimento “souberam se impor frente a uma indústria musical que há vários anos
restringe a sua produção a uma estética” (TESSER, 2007, p.71)

3.1. O que o filme representa?

A definição de documentário não é mais fácil do que a de amor ou


de cultura. Seu significado não pode ser reduzido a um verbete de
dicionário, como temperatura, ou sal de cozinha.
Bill Nichols, Introdução ao Documentário.

O documentário diferencia-se da ficção,onde o cenário é imaginado e suposto


e existem atores. No documentário, que ocorre em cenário natural, não existem
personagens, mas pessoas reais que ali aparecem.
Segundo Yakhni (2001), uma das características básicas do documentário é a
de “representar um fragmento do mundo histórico”. Segundo a autora, “o espaço
documental é histórico e o realizador se situa como parte integrante desse mundo”.
(YAKHNI, 2001, p.4). Nesse sentido, o ponto de partida do realizador está sempre
referido a alguém, a um grupo de pessoas, instituição, a um lugar ou manifestação
cultural.
Nichols acredita que se o documentário fosse realmente uma reprodução da
realidade, “teríamos simplesmente a réplica ou cópia de algo já
existente” (NICHOLS, 2005, p. 47). Segundo o autor, diferente de reproduzir a
realidade, o filme documentário é uma representação do mundo em que vivemos.

Representa uma determinada visão do mundo, uma visão com a


qual talvez nunca tenhamos deparados antes, mesmo que os
aspectos do mundo nela representado nos sejam familiares.
Julgamos uma reprodução por sua fidelidade ao original – sua
capacidade de se parecer com o original, de atuar como ele e de
servir aos mesmos propósitos. (NICHOLS, 2005, p.47)
Penafria (2006, p. 184) entende o documentário não tanto como um gênero,
mas um “projeto de cinema”, já permite pensar tanto em relação a temática, quanto
em relação a outro filmes.

[...] esta classificação de gênero é uma abordagem que se deve


ultrapassar.[...] Os filmes que se designam como documentário
conterão em si um projeto de cinema que permite pensa-los em
relação aos restantes filmes e em relação ao mundo em que
vivemos.

O que justifica tal pensamento é o valor documental que a imagem estabelece


com o que existe fora dela. Grierson (PENAFRIA, 2006 ) ao analisar o filme Moama
(1926) de Robert Flaherty justifica o valor documental.

Para Grierson, Moana não é apenas um registro ou uma descrição


da vida de uma família polinésia. Esse seu “valor documental” ou
(dizemos nós) o “valor fotográfico” é secundário em relação à sua
poética, à sua capacidade em transmitir a beleza e harmonia da
relação que o homem estabelece com a natureza circundante.
Essa sua capacidade só é possível pelo manuseamento das
técnicas cinematográficas (PENAFRIA, 2006, p.185).

Julgamos uma representação mais pela natureza do prazer que ela


proporciona, pelo valor das idéias ou do conhecimento que oferece e ainda segundo
Nichol (2005, p.48), “pela qualidade da orientação ou da direção, do to ou do ponto
de vista que instila.
Esperamos mais da representação que da reprodução”. Para o autor é
através da fotografia, que percebemos a representação, já que uma cena pode (e
deve ser) representada fielmente mas “alguns artistas conseguem ver e representar
mais verdades, e verdades maiores, do que qualquer transeunte conseguia
observar” (NICHOLS, 2005, p.48).
Segundo Yakhni, todo e qualquer filme, independente do gênero, é uma
interpretação da realidade, já que a partir da escolha sobre o que filmar, desde o
plano escolhido até a escolha dos entrevistados e a edição, se constroem uma
interpretação, que segundo a autora, “se traduzem um determinado ponto de vista
subjetivo e singular” (YAKHNI, 2001, p.9).
Apesar de um documentário representar um determinado ponto de vista, nada
impede que ele seja fiel a fiel à “verdade de determinadas realidades”. E a partir das
diferentes formas de representação de uma determinada realidade que Nichols
elabora seis modalidades do filme documentário, como explica Yakhni (2001, p.9):

Nesse sentido, podemos lançar um olhar para a trajetória que o


documentário tem percorrido tendo como referência as diferentes
maneiras como tem se dado a relação realidade x representação.
Os modos de representação diferem entre si por empregarem os
elementos da narrativa cinematográfica de maneiras distintas e
historicamente datadas.

Segundo Nichols (2005), cada documentário tem “sua voz distinta” e assim
como toda voz, a voz fílmica tem um estilo uma natureza. Em “Marola”, a narrativa
dos fatos traz ao espectador a impressão da realidade por meio da “fala” (através de
sons e imagens) e sensação da não manipulação desses meios. No entanto, em
qualquer cinema, independente do gênero sempre há um discurso que representa
uma realidade.
A partir de todo processo – pré-produção, produção e pós-produção – já
mostrado nesse memorial, é possível perceber que em todas as etapas há uma
interpretação da realidade que pode ser entendidas como por exemplo, “no
momento em que se escolhe o que filmar, de que ponto de vista, qual a duração do
plano, quem entrevistar, o que perguntar ao entrevistado, como editar o material”.
(YAKHNI, 2001, p.11)
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente trabalho buscou, por meio de um registro videográfico, valorizar a


importância do trabalho das mulheres pescadoras enquanto ocupantes de um papel
importante na atividade da pesca.
Para a contextualização teórica foram pesquisadas autoras importantes para
os estudos de gênero como Michelle Perrot e Maria Lúcia Rocha-Coutinho. Para as
análises do trabalho da mulher na pesca foram de grande importância o trabalho das
antropólogas Denise Machado Cardoso e Maria Cristina Maneschy. Já para o
embasamento teórico para o suporte videográfico foi imprescindível as pesquisas de
Bill Nichols e Manuela Penafria.
A partir do pensamento de Michelle Perrot percebe-se que ao longo da
história as diferenças entre os sexos contribuíram para a imposição de relações
hierárquicas, homens nas posições de dominação e mulheres nas subordinadas. Um
exemplo disso é divisão sexual do trabalho, que não são meramente naturais, mas,
elaboradas a partir de um discurso que é social e discriminatório.
A invisibilidade da mulher nos espaços públicos é um fator histórico. Segundo
Michelle Perrot, o século XIX, levou a divisão das tarefas e a segregação sexual ao
seu ponto mais alto. “Lugar das mulheres: a maternidade e a Casa cercam-na por
inteiro.” (PERROT, 1988, p.186).
O documentário possibilitou dar voz a mulheres, que por meio do trabalho na
pesca conquistaram seu espaço de sobrevivência e independência. De acordo com
a classificação de Bill Nichols, o trabalho possui características do modo
observativo, já que priorizou “observar os outros ocupando-se de seus afazeres”
(NICHOLS, 2005, p.148) e registrar esses fatos.
Ao final desse trabalho foi possível perceber que, muito além de conquistas
obtidas, essas mulheres trazem consigo marcas das dificuldades enfrentadas
durante a vida. O trabalho em tempos frios, a cata do moapen, que precisa ser
cavado com uma enxada causa seqüelas físicas que muitas vezes interrompem o
trabalho dessas mulheres antes da idade previstas.
Observou-se assim que mesmo com as dificuldades e com o trabalho mal
remunerado, a maioria dessas mulheres se orgulha da profissão que exercem.
Profissão que possibilitou o sustento da família, a criação dos filhos e a valorização
enquanto mulheres.
O vídeo abordou ainda à relação que as mulheres exercem com o rio, o
período da cata do marisco, a observação das marés, a não adaptação com o tempo
formal em detrimento do tempo das marés, a vida pelo ritmo das águas e ainda de
que forma elas passam a tradição para os filhos.
A partir dos depoimentos de algumas marisqueiras, foi possível conhecer
como se dá o trabalho dessas mulheres e de que forma elas se vêem enquanto
profissionais de pesca. O que podemos concluir com tal discussão é que nossa
cultura está compreendida com os mitos das diferenças sexuais demarcadas,
chamadas de “masculina” e “feminina”.
Mesmo diante de algumas falhas técnicas já abordadas no processo
metodológico os objetivos de mostrar o trabalho da mulher na pesca a fim de
valorização desse trabalho foram alcançados. Dentro das limitações encontradas, o
resultado foi satisfatório.
Tanto o produto como este memorial, ficarão disponíveis na Biblioteca da
Universidade Estadual de Santa Cruz, contribuindo assim com o acervo histórico
audiovisual sobre a cultura local a partir de uma temática de gênero e trabalho.

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ANEXO I – ROTEIRO DE EDIÇÃO

Roteiro de Edição – “Marola”

Fita Entrada Saída Áudio Imagem Observação

05 00:23:22 00:24:31 Tertulina 6- Tenho muita saudade Imagem:


Sonora
da pescaria. As vezes da vontade Fita 05
+
de pescar né, vontade bate de 00:20.45
Tertulina sentada olhando
voltar a pescar mais a idade não 00:20.53/
para o rio/ pescador no rio/
compete eu voltar a pescar de novo, 00:22.07
Tela escurece
mas infelizmente não dá mais... 00:22.19
Aparece o
Trilha instrumental - “22” (O Teatro título do
Tela escura
Mágico) filme:
Marola
03 00:01:56 00:02:27 Trilha instrumental - “22” (O Teatro Fita 04
Mágico) Por do sol, rio Almada 00:10:01
00:10:09
Trilha instrumental Fita 07
Imagens feitas no barco
00:05:40
00:06:47
Trilha instrumental Fita 07
Imagens feitas no barco
00:06:40
00:06:59
Trilha instrumental Fita 0
Imagens feitas no barco
00:12:40
00:13:20
05 00:23:22 00:24:31 Trilha instrumental - “22” (O Teatro Imagem:
Mágico) Fita 05
+ Pescador na canoa (Badaró) 00:21:40
Tertulina 6 - a gente olhando ali 00:21:47
agora se aí tivesse a maré seca,
bate mesmo a vontade de pescar

06 00:22:08 00:22:28
Trilha instrumental - “22” (O Teatro PAN mangue Coroa de São
Mágico) joão

06 00:18:12 00:18:34
Trilha instrumental - “22” (O Teatro Kátia e Inês empurram a
Mágico)
canoa
01 00:25:58 00:26:32 Inês 1 - Eu comecei a ser
marisqueira com a idade de 10 anos,
minha mãe e meu pai saiam para
Sonora
pescar aí levava a gente pra não
ficar a toa na roça, a gente tinha que
ta junto com eles. Aí fui aprendendo
01 00:12:14 00:12:42 Zelina 1 - Eu comecei a ser
marisqueira depois que sai do
trabalho, não tinha mais o que fazer Sonora
e tive que lutar na pescaria. Porque
eu não sabia o que era pescaria
01 00:26:36 00:28:13 Inês 2 - É ... no começo sempre é Imagem:
difícil porque a gente ainda tá Fita 06
aprendendo. Aí tudo que a gente ta 00:18:53
Inês na canoa com Kátia
aprendendo é difícil, muito difícil./ 00:19:00
Uma vez mesmo, quase fui
morrendo afogada (risos).
01 00:15:58 00:16:34 Zelina 4 - teve uma vez mesmo que
nós quase se afogava a gente teve
que sair da canoa as pressas e cair
tudo dentro d’água, quando a canoa
tava afundando./ É bom, mais é um
trabalho muito difícil, arrisca muito a
vida da gente,
04 00:01:28 0:02:12 Tertulina 1- Hoje tô aposentada
mas continuo trabalhando só que
Sonora
não vou pro mangue pescar, quem
pesca é meu filho?. Eu cato o
marisco e vou vender.
01 00:05:41 00:06:02 Dinalva 4 – Eu não acho dificuldade Imagem:
nenhuma pra mim/ Porque a gente Fita 01
pesca e no dia que pega pega e o Sonora 00:00.23
dia que não pega, não pega, pega + 00:00.33
pouco./ Tem dia que a gente vai e Imagem mãos catando siri
pega pouco, não tem dificuldade
nenhuma
04 00:06:20 00:06:48 Kátia 3 - Os momentos difíceis eu Imagem:
acho dessa profissão da gente é Fita 04
PAN Quadra Um
quando chega a enchente, que 00:19:04
+
alaga tudo isso aqui, ninguém 00:19:20/
Kátia na porta (senhor
trabalha, ninguém faz nada, os 00:16:45
sentado ao lado
moradores tem que sair porque as 00:16:53
águas invadem as casa
02 00:06:00 00:06:21 Rosemeire - E na profissão de
marisqueira pra mulher é bom assim
porque é mais uma opção, mas é
ruim em outras porque a doença Sonora
chega mais rápido né./Reumatismo,
dores, porque a mulher sempre teve
menino, coisa que o homem não faz,
aí eu acho que é mais difícil.
04 00:06:13 00:07:35 Tertulina 4 - vc chega ali na beira do Sonora Imagem:
mangue, olha e pensa, vc vai fazer o + Fita 05
que? No mangue vc vê muita coisa, Mangue/ 00:30:42
vc vê o aratú, caranguejo, tem como aratú/moapen 00:30:58
vc tirar o moapen, sururu, tudo tem. Fita 03
Aí vc vai escolher o que achar uma 00:03:35
coisa melhor 00:03:43
Fita 05
00:40:01
:00:40:05
02 00:02:56 00:03:46 Rosemeire 3 - Ah! Difícil. Tempo Imagem:
difícil foi quando aqui em casa Fita 02
não tinha nada né, eu tinha que 00:15:23
consegui com meu sustento de 00:15:36
Rosemeire na porta de casa
marisqueira e pior é meu filho né,
(silhueta)
deixando eles trancados, indo para
+
ponte até 4 horas da manhã com
Sonora
meu filho Samuel pequeno pra me
fazer companhia. Já fiquei até 8
horas da noite./ E eu assim
chorando...Chorando não, triste, pq
poderia acontecer alguma coisa com
ela, comigo não
04 00:06:55 00:07:20 Kátia 4 – Qdo não dá o marisco Imagem:
parte pra tarrafa, aí nós aqui como é Sonora Fita 04
pouca gente – só eu e meu menino – + 00:14:56
aí tudo dá, pedindo forças a Deus Tarrafa na porta de Kátia 00:15:17
que a gente...
01 00:19:35 00:20:05 Zelina 5 – Eu mesmo fico
dependendo do marido ...Qdo a
maré tá ruim, porque ele pesca de
Sonora
tarrafa, ele pesca siri, ele tira ostra
de mergulho. Aí quando o negócio tá
ruim mesmo, arranja o dinheiro pra
gente se manter
01 00:16:46 00:17:32 Zelina 5 - eu to lutando boto eles no Imagem:
colégio pra eles estudarem e ser Fita 05
Sonora
umas pessoas mais decente não 00:06:58
Imagem de Mai trabalahndo
serem igual a mim trabalhando de 00:07:32
pescaria (...)
02 00:07:57 00:08:42 Rosemeire 6 - . Minha menina Sonora
ontem mesmo tive na casa dela,
sempre pescava comigo, todo
mundo pergunta por ela. E ela
mesmo disse: mainha, vai me
cadastrar pq eu quero também, pq
isso é um pé de meia. É para a
senhora, é para outras mulheres e
pode ser para mim.
06 00:07:46 00:08:16 Kátia 6 – tudo indica que ele vai ser
pescador, pq eu pesco, o pai dele Sonora
pesca, ele já joga tarrafa.
01 00:04:47 00:04:56 Dinalva 2 - Filho! Nunca tive filho
Sonora
não. Só eu e meu marido mesmo
01 00:16:46 00:17:32 Zelina 5 – Eu queria que eles
estudassem e tivessem um trabalho
Sonora
melhor e pudessem se manter
tranquilamente mais do que eu
01 00:29:50 00:30:24 Inês 4 – Todos eles já sabem, meu
caçula tem16 anos e ele também já
tá começando a pescar também e
Sonora
agora a gente mora aqui e tem a
escolinha, e eu não vou deixar eles
só na maré pescando.
02 00:09:22 00:09:52 Imagem:
Rosemeire 7 - Na ponte, na praia eu
Fita 02
vou no dia que eu quiser, na hora
Rosemeire passa em frente 00:17:12
que eu quiser, não falo nada e não
a porta (entra na cena)/ 00:17:22/
ouço nada./
Caminha pela trilha 00:18:05
00:18:18

01 00:04:32 00:04:40 Dinalva 1 – Trabalhar para os outros Sonora Imagem:


vc tem que trabalhar o dia todo. Pra + Fita 01
vc não. Vc trabalha o dia que quer Imagem 00:01.13
vai a hora que quer, vem a hora que Pan do rosto para as mãos 00:01.20
quer e pra os outros não, é cativo. catando sirí
01 00:32:15 00:32:32 Inês - essas coisas de roça eu sei Imagem:
fazer um pouco. Se eu não fosse pra Inês sai de casa (c/ o marida Fita 05
pesca, já tinha a roça né, ia trabalhar para a pesca 00:22.50
na roça para os outros. 00:23.06
02 00:09:22 00:09:52 Rosemeire 7 - Pra patroa a gente Efeito: corte
Rosemeire caminha pelo
tem que falar, ouvir né. para
acostamento
aproximação
06 00:03:10 00:03:34 Kátia – Outro dia chegou uma Imagem:
mulher procurando uma pessoa para Fita 05
Kátia cava moapen
trabalhar ganhando um salário na 00:40:54
carteira, eu falei eu vou não. 00:41:10
01 00:12:48 00:13:21 Zelina 2 - Eu acho ótimo esse
negócio de pescaria, porque não tem
ninguém para ficar mandando na
Sonora
gente. A gente chega em casa
descansa e no trabalho dos outros a
gente não tem isso de descansar
01 00:25:58 00:26:32 Inês 1 - , não tive emprego (de Imagem:
trabalhar em casa de família, de Fita 01
PAN horizontal da cerca
trabalhar assim nunca trabalhei), só 00:00:17
para rosto de dona Inês
trabalho assim mesmo na pescaria./ 00:00:26
+
Aí eu tiro moapen, tiro ostra, tiro
Sonora
sururu, pesco de anzol, remo
canoa, faço tudo (risos)
05 00:23:18 00:23:23 Trilha – Camarada d’água
Povo caminha quadra I
05 00:22:50 00:23:06 Trilha – Camarada d’água
Inês sai de casa
05 00:23:29 00:23:54 Trilha – Camarada d’água
Kátia sai de casa
05 00:24:10 00:24:21 Trilha – Camarada d’água
Mulheres caminham
05 00:24:38 00:24:51 Trilha – Camarada d’água
Pés caminhando
05 00:25:30 00:25:47 Trilha – Camarada d’água
Mulheres caminham I
05 00:25:12 00:25:28 Trilha – Camarada d’água
Mulheres caminham II
05 00:25:30 00:25:47 Trilha – Camarada d’água
Mulheres caminham III
05 00:26:25 00:26:39 Trilha – Camarada d’água
Mulheres em fila no mangue
05 00:26:45 0026:48 Trilha – Camarada d’água
Pés caminham no mangue
06 00:05:10 00:05:28 Kátia – Rapaz, valor ninguém dá Imagem:
Sonora
não, tem muita gente que olha pra
+
gente, pergunta de que é que a
Imagem Kátia cavando
gente trabalha e diz, é um serviço
moapen
mole, serviço não cansa
05 00:40:07 00:40:53 Som ambiente
Kátia pega um“mussum”
06 00:00:3 00:00:53 Zelina - pra mim o mais difícil é isso
5 aqui, cavar, é o trabalho mais difícl
que a gente tem, pq a gente fica Sonora
assim dói as costas, dói as mãos,
acho o mais difícil é isso
04 00:14:21 00:14:57 Tertulina 5 - Meus fregueses me
enchem muito o saco, eu também
encho o deles/ “Ah dona Tertulina a
senhora vende um quilo de aratu por
Sonora
20 reais, eu falo: eu quero vender é
por 50, é pq vcs não sabem do valor
do trabalho da gente. Ele disse tá
certo
02 00:12:10 00:12:42 Rosemeire 9 - hoje pra gente pegar Imagem:
Imagem contra plano
uma lata dá bastante trabalho, tem Fita 02
Rosiemeire desamarrando
que tá dando bastante siri e tem que 00:20:32
siripóia
ter bastante siripoia./Antigamente 00:20:52/
+
não, rapidinho, hoje tá difícil 00:23:54
Rosemeire joga siripóia
00:23:58
01 00:06:00 Dinalva 5 - Naquele tempo dava Imagem:
Sonora
mais marisco mas o dinheiro era Fita 01
+
mais pouco. Pra mim agora ta mais 00:01:46
Mãos catando siri
pouco, mas pra mim da mais 00:01:54
01 00:07:04 00:07:12 Dinalva 6 – Rapaz tem vez que a Imagem:
gente vai com a maré alta, tem vez Siri no balde Fita 02
que vai com a maré baixa. Tem vez + 00:27:46
que o marisco dá mais na alta e tem Plantas do mangue abre 00:27:50/
vez que dá na maré baixa para PG do rio 00:29:01
00:29:20
01 00:19:35 00:20:05 Zelina 7 - Qdo a maré enche mesmo Imagem:
e não tem condição de tirar o Fita 02
moapen (que eles morrem tudo na 00:31:50
Pan rio (Almada)
água doce) eu não tenho condição 00:32:04
de pescar porque só pesco disso
não pesco de outra coisa.
04 00:14:21 00:14:57 Tertulina 5 - Hoje eu agradeço a
Deus, eu sou nos meus documentos Sonora
marisqueira profissional
01 00:16:4 00:17:32 Zelina 5 - Eu mesmo trabalho pq é o
6 jeito, eu sou doente, tenho problema
não posso ficar na frieza, mas eu Sonora
não vou vez meus filhos na casa dos
outros pedindo pão, não vou.
02 00:01:30 00:02:07 Rosemeire 2 - Ajuda e como ajuda
em tenho orgulho de ser
marisqueira, de hoje eu ter minha Sonora
carteirinha de marisqueira
profissional
04 00:05:31 00:05:52 Kátia - graças a Deus que agora Imagem:
tenho essa casa com a pescaria, Fita 04
graças a Deus sou colonizada, tenho PG casa de Kátia/ela está 00:17:32
meu dinheiro todo ano, eu comprei na porta 00:17:35
os materiais da minha casa, graças
a Deus.
02 00:00:13 00:01:26 Rosemeire 1 - Agora sempre
pescando e criando meus meninos
com o dinheiro de pesca, pegando
Sonora
peixe na praia, no tempo agora de
verão e pegando siri na ponte que aí
eu vendo né
05 00:28:29 00:28:58 Trilha – Mangue beat faixa 14
Kátia sai com a canoa
05 00:27:50 00:28:03 Trilha – Mangue beat faixa 14
Sai a canoa de Beth
05 00:27:4 00:27:50 Trilha – Mangue beat faixa 14
Sai a primeira canoa
2
05 00:29:2 00:29:37 Trilha – Mangue beat faixa 14 Pássaros nas pedras, abre
8 para imagem do rio
02 00:25:3 00:25:49 Trilha – Mangue beat faixa 14
Pescador joga tarrafa
6
02 00:26:2 00:26:31 Trilha – Mangue beat faixa 14 Rosemeire puxa siripóia
1 com sirí
02 00:36:0 00:36:22 Trilha – Mangue beat faixa 14 Rosemeire olha par o mar -
5 giro 360°
06 00:26:01 00:26:23 Trilha – Mangue beat faixa 14
Kátia em pé nas pedras
05 00:33:03 00:33:15 Trilha – Mangue beat faixa 14 Pescador (Badaró) abre
para gpg
05 00:30:25 00:30:36 Trilha – Mangue beat faixa 14
Mangue
05 00:34:07 00:34:30 Trilha – Mangue beat faixa 14
Kátia cava na coroa
05 00:42:25 00:42:53 Trilha – Mangue beat faixa 14
Povo na coroa (360°)
02 00:01:30 00:02:07 Rosemeire 2 - E todo tempo Imagem:
também de ano tema desova do Fita 02
robalo aí nos que somos Sonora 00:14:35
marisqueiras ganham 3 salários + 00:14:48
mínimos. Isso ajuda bastante é tanto PAN do cajueiro para casa
que construí minha casa ali com o de Rosemeire
salário de marisqueira. E esse
salário que ganho todo ano.
01 00:14:19 00:14:41 Zelina 3 - Eu acho que é importante
porque pelo menos nem eu nem
meus ilhós passam fome, porque se Sonora
fosse esperar esse dinheiro não
tinha sustento para meus filhos
04 00:02:26 00:03:03 Tertulina 2 - É! Eu tenho a dizer que Imagem:
a história pra mim foi mais triste de Fita 02
que alegre. Porque enfrentar esse Sonora 00:31:50
mangue pra criar dez filhos não é + 00:32:04
fácil, mas eu criei. Deus me deu PAN mangue (Almada)
essa oportunidade, me deu força,
me deu coragem, saúde.
06 00:04:38 00:04:58 Kátia – eu gosto de tá qui no rio, tem Imagem:
dia mesmo que to sem querer Fita 06
trabalhar me aborreça em casa e 00:26:01
Kátia em pé nas pedras
venho pra qui. É muito bom é 00:26:23
tranqüilo principalmente a noite a
noite fica melhor ainda
04 00:02:26 00:03:03 Tertulina 2 Que eu to com 61 anos, Imagem:
mas graças a Deus to forte, com Fita 05
Tertulina sentada nas
saúde, se fosse pra mim pescar eu 00:30:17
pedras
tinha certeza que eu ia é só jogar a 00:30:20
canoa e ir pescar.
05 00:26:47 00:26:53 PG pescador (Badaró )
TRILHA - Batuque de Cana

Por do sol (Badaró)


05 00:31:31 00:32:00 Aparecem
os créditos
Rosemeire (silhueta) e as
05 00:20:45 00:20:53 imagens
vão
02 00:32:42 00:32:47 Rosemeire volta para casa aparecendo
(entra na cena) em janelas

02 00:01:21 00:01:27 Rosemeire volta para casa

03 00:03:53 00:04:14 Sol brilhando (rio Almada)

02 00:33:18 00:33:37 Imagem pescador (moldura


ponte)
04 00:13:10 00:13:14
Mãos tecendo (homem ao
06 00:19:32 00:20:35 fundo)

03 00:16:34 00:16:40 Equipe volta p/ casa

Kátia pega canoa c/ homens


ANEXO II – FICHA TÉCNICA

Duração: 13’ 18’’

Produção, Direção e Roteiro: Jaqueline Cerqueira

Montagem: Jaqueline Cerqueira

Edição: Camila Oliveira

Imagens: Hélio Heleno

Fotografia: Jaqueline Cerqueira e Hélio Heleno

Trilha Sonora:
• 22-11 e Camarada d’água (O Teatro Mágico)
• Batuque de Canoa (Jurema Paes)
• Coco Dub ( Chico Science e Nação Zumbi)

Supervisão: Antônio Figueiredo

Marisqueiras entrevistadas:

• Kátia Sueli Neves dos Santos (Teotônio Vilela, Ilhéus)


• Zelina Santos Nascimento (Teotônio Vilela, Ilhéus)
• Dinalva Alcântara de Carvalho (Teotônio Vilela, Ilhéus)
• Maria Inês de Aquino (Teotônio Vilela, Ilhéus)
• Tertulina Ferreira Mota (Teotônio Vilela, Ilhéus)
• Rosemeire Maria Marques dos Santos (São Domingos, Ilhéus)

ANEXO III – FICHA DE DECUPAGEM

Ficha de Decupagem

Sequência Nº Fita Entrada Saída Descrição

ANEXO IV – FOTOGRAFIA