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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE CAMPINAS

CENTRO DE LINGUAGEM E COMUNICAÇÃO


FACULDADE DE PUBLICIDADE E PROPAGANDA

Partidos políticos
Ana Oppo
SANI, Giacomo. In: BOBBIO, Norberto ET alii. Dicionário de Política. V II. 8 ed. Brasília : UNB,
1995, p. 898-905.

I. DEFINIÇÃO. — Segundo a famosa definição de Weber, o partido político é “uma associação... que visa a
um fim deliberado, seja ele objetivo, como a realização de um plano com intuitos materiais ou ideais, seja pessoal, isto
é, destinado a obter benefícios, poder e, conseqüemente, glória para os chefes e sequazes, ou então voltado para todos
esses objetivos conjuntamente” - Esta definição põe em relevo o caráter associativo do partido, a natureza da sua ação
essencialmente orientada à conquista do poder político dentro de uma comunidade, e a multiplicidade de estímulos e
motivações que levam a uma ação política associada, concretamente à consecução de fins “objetivos” e/ou “pessoais”.
Assim concebido, o partido compreende formações sociais assaz diversas, desde os grupos unidos por vínculos pessoais
e particularistas às organizações complexas de estilo burocrático e impessoal, cuja característica comum é a de se
moverem na esfera do poder político. Para tomar mais concreta e específica esta definição é usual sublinhar que as
associações que podemos considerar propriamente como partidos surgem quando o sistema político alcançou um certo
grau de autonomia estrutural, de complexidade interna e de divisão do trabalho que permitam, por um lado, um
processo de tomada de decisões políticas em que participem diversas partes do sistema e, por outro, que, entre essas
partes, se incluam, por princípio ou de fato, os representantes daqueles a quem as decisões políticas se referem. Daí que,
na noção de partido entrem todas as organizações da sociedade civil surgidas no momento em que se reconheça teórica
ou praticamente ao povo o direito de participar na gestão do poder político. Com este fim que ele se associa, cria
instrumentos de organização e atua.
Nesta acepção, os partidos aparecem, pela primeira vez, naqueles países que primeiramente adotaram formas
de Governo representativo: não que os partidos nasçam automaticamente com o Governo representativo; é mais porque
os processos civis e sociais que levaram a esta forma de Governo, que previa uma gestão do poder por parte dos
“representantes do povo”, teriam depois conduzido a uma progressiva democratização da vida política e à integração de
setores mais amplos da sociedade civil no sistema político. Em termos gerais, pode portanto se dizer que o nascimento e
o desenvolvimento dos partidos está ligado ao problema da participação, ou seja, ao progressivo aumento da demanda
de participação no processo de formação das decisões políticas, por parte de classes e estratos diversos da sociedade.
Tal demanda de participação se apresenta de modo mais intenso nos momentos das grandes transformações econômicas
e sociais que abalam a ordem tradicional da sociedade e ameaçam modificar as relações do poder. É em tal situação que
emergem grupos mais ou menos amplos e mais ou menos organizados que se propõem agir em prol de uma ampliação
da gestão do poder político a setores da sociedade que dela ficavam excluídos ou que propõem uma estruturação
política e social diferente da própria sociedade. Naturalmente, o tipo de mobilização e os estratos sociais envolvidos,
além da organização política de cada país, determinam em grande parte as características distintivas dos grupos
políticos que assim se formam.
II. O PARTIDO DOS NOTÁVEIS. — Historicamente, a origem do partido pode remontar à primeira metade
do século XIX, na Europa e nos Estados Unidos. É o momento da afirmação do poder da classe burguesa e, de um
ponto de vista político, é o momento da difusão das instituições parlamentares ou da batalha política pela sua
constituição. Na Inglaterra, o país de mais antigas tradições parlamentares, os partidos aparecem com o Reform Act de
1832, o qual, ampliando o sufrágio, permitiu que as camadas industriais e comerciais do país participassem, juntamente
com a aristocracia, na gestão dos negócios públicos. Antes dessa data, não se pode falar propriamente de Partidos
políticos na Inglaterra. Os dois grandes partidos da aristocracia, surgidos no século XVIII e desde então presentes no
Parlamento, não tinham, fora disso, nenhuma relevância nem algum tipo de organização. Tratava-se de simples
etiquetas atrás das quais estavam os representantes de um grupo homogêneo, não dividido por conflitos de interesses ou
por diferenças ideológicas substanciais, que aderiam a um ou a outro grupo, sobretudo por tradições locais ou
familiares. Como afirma Weber, eles não eram mais do que séquitos de poderosas famílias aristocráticas tanto que “toda
a vez que um Lord, por qualquer motivo, mudava de partido, tudo o que dele dependia passava, na mesma hora, para o
partido oposto”.
Depois do Reform Act começaram a surgir, no país, algumas estruturas organizativas que tinham o escopo de
ocupar-se da execução prevista pela lei para a eleição do Parlamento e de recolher votos em favor deste ou daquele
candidato. Tratava-se de associações locais promovidas por candidatos ao Parlamento ou por grupos de pessoas
notáveis que tinham lutado pelo alargamento do sufrágio ou, algumas vezes, por grupos de interesse. Estes círculos
reagrupavam um número mais restrito de pessoas, funcionavam quase exclusivamente durante os períodos eleitorais e
eram liderados por notáveis locais, aristocratas ou burgueses de alta sociedade, que proviam à escolha dos candidatos e
ao financiamento da atividade eleitoral. Entre os círculos locais não existia nenhum laço de tipo organizativo nem em
sentido horizontal nem em sentido vertical. A sua identidade partidária assim como a sua expressão nacional se achava
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no Parlamento: era o grupo parlamentar do partido que tinha a função de preparar os programas eleitorais e escolher os
líderes do partido. O poder do grupo parlamentar do partido, além disso, era acrescido do fato de que os deputados
tinham um mandato absolutamente livre: não eram responsáveis por sua atividade política nem frente à organização que
tinha contribuído para sua eleição nem frente aos eleitores, mas, como se afirmava então, eles eram responsáveis “só
diante da própria consciência”.
Este tipo de partido que na literatura sociológica é chamado de “partido dos notáveis” por sua composição
social ou partido do ‘comitê” por sua estrutura organizativa, ou de “representação individual” pelo gênero de
representação que exprimia, é o que prevalece durante todo o século XIX, na maior parte dos países europeus. Existem
obviamente diferenças entre um país e outro, seja porque em alguns países os partidos nascem muito mais tarde (na
Alemanha, por exemplo, pode-se falar de partidos só depois da revolução de 1848 com a formação dos partidos liberais
da burguesia e na Itália só depois da unificação nacional) seja porque as condições sociais e políticas que levaram à sua
constituição foram parcialmente diversas das inglesas. Todavia, pode-se afirmar, de um modo geral, que o ingresso da
burguesia na vida política foi contra-assinalado pelo desenvolvimento de uma organização partidária com base
no comitê e que enquanto o sufrágio foi limitado e a atividade política exclusivamente atividade parlamentar da
burguesia, não houve mudanças na estrutura partidária.
III. O PARTIDO DE ORGANIZAÇÃO DE MASSA. — Nos decênios que precederam e se seguiram aos
fins do século XIX a situação começou a mudar após o desenvolvimento do movimento operário. As transformações
econômicas e sociais produzidas pelo processo de industrialização levaram à ribalta política as massas populares cujas
reivindicações se expressam inicialmente em movimentos espontâneos de protesto, encontrando depois canais
organizativos sempre mais complexos até à criação dos partidos dos trabalhadores. E precisamente com o aparecimento
dos partidos socialistas — na Alemanha em 1875, na Itália em 1892, na Inglaterra em 1900 e na França em 1905 — que
os partidos assumem conotações completamente novas: um séquito de massa, uma organização difusa, e estável com
um corpo de funcionários pagos especialmente para desenvolver uma atividade política e um programa político-
sistemático.
Estas caracteristicas correspondiam a exigências específicas dos partidos dos trabalhadores, quer pelos
objetivos políticos que se propunham quer pelas condições sociais e econômicas das massas a que se dirigiam. Os
movimentos socialistas haviam surgido com o programa de promover um novo modo de convivência civil, de que
seriam artífices as classes subalternas política e socialmente emancipadas. Para tal fim, era necessário educar as massas,
torná-las politicamente ativas e conscientes do próprio papel. Para fazer isto não era suficiente uma genérica agitação
política por ocasião das eleições nem tinha grande importância a atividade parlamentar. Ao contrário, era essencial que
no país se desenvolvesse uma estrutura organizativa estável e articulada, capaz de enfrentar uma ação política contínua
que envolvesse o maior número possível de trabalhadores e que atingisse toda a esfera de sua vida social, que acolhesse
as suas demandas e exigências específicas e as transformasse num programa geral. Além disso, era necessário que à
atividade de educação e propaganda e ao trabalho organizativo se dedicassem, em tempo integral, pessoas qualificadas e
especialmente pagas para isto, não sendo possível que os trabalhadores, com pesados horários de trabalho e baixos
salários, dedicassem à atividade política mais do que um pouco do seu escasso tempo livre, nem que abandonassem o
trabalho para se dedicarem à política a simples título de honra. Havia, enfim, o problema do financiamento do partido:
faltando os “Notáveis” que financiassem a atividade e a organização política, foi introduzido o sistema das “quotas”,
isto é, as contribuições periódicas que cada membro devia pagar ao partido.
A estrutura que assim se desenvolveu teve uma configuração de tipo piramidal. Na base havia as uniões locais
— círculos ou seções — com a finalidade de enquadrar todos os membros do partido pertencentes a um dado espaço
territorial (bairro, cidade, país). As seções tinham reuniões periódicas e discutiam os principais problemas políticos e
organizacionais do momento. Ocupavam-se da atividade de propaganda e proselitismo e elegiam os próprios órgãos de
direção internos e os seus representantes de nível superior no partido. Por sua vez, as seções estavam organizadas a
nível de circunscrição eleitoral ou a nível provincial ou regional, em federações, que constituíam os órgãos
intermediários do partido com funções prevalentemente de coordenação. Enfim, a cúpula era constituída pela direção
central, eleita pelos delegados enviados pelas seções ao Congresso Nacional que era o órgão máximo de deliberação
dentro do partido, o qual estabelecia a linha política a que deviam sujeitar-se todas as instâncias do partido, desde as
seções até à direção central. Todas as posições de responsabilidade eram de caráter eletivo e era também função das
assembléias do partido escolher os candidatos às eleições. Estes últimos, uma vez eleitos, tinham um mandato
imperativo e eram obrigados a uma rígida disciplina de partido na sua atividade parlamentar.
Juntamente com a verdadeira estrutura partidária, os partidos socialistas podiam contar com uma densa rede de
organizações econômicas, sociais e culturais, sindicatos, cooperativas, organizações de assistência para os trabalhadores
e suas famílias, jornais e tipografias — que agiam como instrumentos de integração social e contribuíam para reforçar a
identidade política e os valores que o partido propunha. Tais organizações, de um modo geral, tinham nascido antes do
partido e haviam contribuído para sua fundação. Apesar de tudo, o partido se preocupava em reforçá-las e em criar
outras novas com o fim de ampliar a própria presença social.

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A extensão e a complexidade desta rede organizativa indica como os partidos socialistas, pelo menos nos
primeiros decênios de sua história, se preocupavam sobretudo com a mobilização permanente dos seguidores e pela
conquista de espaços de influência cada vez mais amplos dentro da sociedade civil, na tentativa de aumentar o espaço e
a intensidade da adesão ao seu projeto de gestão da sociedade. O momento eleitoral e a conquista de cadeiras no
Parlamento era sobretudo importante para a etapa posterior de marcar presença entre as massas e como instrumento para
a própria batalha política posterior, mas não constituía o objetivo principal do partido. Bem pelo contrário, muitas vezes
o Parlamento era considerado com uma certa desconfiança e o grupo parlamentar do partido estava sujeito a uma
vigilância particular a fim de que seu comportamento correspondesse à linha política decidida pelos congressos
nacionais e mandada respeitar pela direção.
Este modelo, denominado “partido de aparelho” ou “partido de organização de massa”, se aplica sobretudo ao
partido social-democrático alemão no período da sua linha revolucionária, mas caracteriza, de uma certa maneira,
também, os partidos socialistas francês e italiano. Este último, embora contando com uma estrutura organizacional
espalhada por quase todo o país e com uma série de organizações de sustentação como são as câmaras de trabalho, as
cooperativas e as caixas rurais, tinha laços organizativos verticais mais frágeis e o seu grupo parlamentar era dotado de
uma notável autonomia. Isto devia-se ao fato de que o partido socialista italiano era expressão de setores heterogêneos
das classes subalternas, faltava-lhe um forte núcleo operário, estando o desenvolvimento capitalista italiano apenas em
seus ínicios e por conseqüência nele coexistiam linhas políticas diversas que impediam a construção de uma “máquina”
partidária racionalmente organizada e politicamente homogênea. Nos primeiros decênios do século XX, o partido
socialista italiano acentuou as suas características de partido organizativo de massa, mas, na Itália, o modelo mais
completo de tal partido surgirá só depois da Segunda Guerra Mundial com o desenvolvimento do partido comunista.
IV. O PARTIDO ELEITORAL DE MASSA. — A introdução do sufrágio universal ou de um sufrágio muito
generalizado, a rápida expansão dos partidos operários nos países em que estes estavam radicados e sua parcial ou total
integração no sistema político, estava destinada a produzir mudanças graduais até nos partidos da burguesia. No início,
os notáveis não se mostraram muito favoráveis à formação dos partidos de massa. Tinha havido progressiva ampliação
da participação nos círculos e nos comitês eleitorais, e tinha-se procurado unificar, a nível nacional, o trabalho eleitoral,
e potenciá-lo através da admissão de pessoal político remunerado. Todavia, o medo de ver ameaçada a própria posição
de preeminência de uma democratização dos seus partidos ou de ver colocada em discussão a própria concepção da
política ou os próprios critérios de gestão do poder produziram nos notáveis uma acentuada hostilidade em relação aos
partidos de massa. Além disso, tendo em mãos as principais levas do poder político e podendo contar com a ação do
exército e da burocracia, os partidos da burguesia puderam impedir, durante um certo período, a integração política dos
partidos dos trabalhadores e neutralizar, portanto, a concorrência no mercado político. Só na Inglaterra, onde o Governo
trabalhista foi aceito rapidamente como legítimo aspirante ao poder governativo, o partido conservador iniciou, desde o
fim da Primeira Grande Guerra Mundial, a própria transformação em partido com a participação de massa. Na Europa
continental, este processo aconteceu, de um modo geral, depois da Segunda Guerra Mundial quando a maior parte dos
partidos de comitê foi obrigada a criar um aparelho estável para uma eficaz propaganda, procurando uma clientela de
massa e coligações com grupos e associações da sociedade civil capaz de dar ao partido uma base estável de consenso.
Todavia, diferentemente dos partidos dos trabalhadores, estes partidos tiveram e têm como caracteristica
distintiva a mobilização dos eleitores mais do que a dos associados. Dotados de uma organização em parte decalcada
sobre a dos partidos operários — com seções, federações, direção centralizada e pessoal político trabalhando em tempo
integral — os partidos eleitorais de massa não são dirigidos de um modo geral a uma classe ou a uma categoria
particular, não se propõem uma gestão diferente da sociedade e do poder, mas procuram conquistar a confiança dos
estratos mais diversos da população, propondo em plataformas amplas e flexíveis, além de suficientemente vagas, a
satisfação do maior número de pedidos e a solução dos mais diversos problemas sociais. Precisamente por seus
objetivos essencialmense eleitorais, a participação dos inscritos na formulação da plataforma política do partido é de
natureza formal: mais do que o debate político de base, a atividade crucial do partido é a escolha dos candidatos para as
eleições, que devem corresponder a toda uma série de requisitos aptos para aumentar o potencial eleitoral do partido.
Por esta razão, ganham ainda importância os notáveis, que, precisamente pelo fato de ocuparem posições-chaves na
sociedade civil, podem procurar para o partido grande clientela e fornecer parte dos meios econômicos necessários para
o financiamento da atividade eleitoral.
Ao mesmo tempo, a conquista das posições de poder político e a gestão dos negócios públicos a nível nacional
e local fazem aumentar os recursos eleitorais dos partidos que a partir dessas posições podem corresponder às
exigências de variados grupos da população e merecer seu apoio. Finalmente, neste tipo de partido não existe, ou existe
de modo contrastado, uma disciplina de partido ou uma ação política unitária. E muito freqüente, na verdade, que o
partido apresente várias faces segundo a natureza das camadas e das zonas geográficas a que se dirige, tal como
aconteceu muitas vezes em que sua linha política sofreu variações táticas notáveis em conexão com momentos políticos
particulares. Por este conjunto de conotações, o partido eleitoral de massa foi definido também como “partido pega-
tudo” (partito pigliatutto).

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O partido eleitoral de massa é o último a comparecer na cena política européia e em certo sentido termina a
história tal como se desenvolveu até agora. Deve repetir-se que se trata de uma “história” que prescinde, em grande
parte, dos acontecimentos específicos de cada Estado, uma vez que as características sociais e políticas dos vários países
europeus influíram tanto sobre a data de nascimento do sistema político como sobre o período de constituição deste ou
daquele partido ou de partido com características “mistas”. Além disso, se entre os partidos descritos existe uma ordem
de sucessão, no sentido em que historicamente são comparsas da ordem a que nos referimos acima, não existe entre eles
uma relação necessariamente evolutiva. Não se segue, por isso, que um certo tipo de partido produza inevitavelmente
um outro, com o desaparecimento conseqüente do precedente. Mais do que isso, causas sociais e políticas específicas
levam à emergência de uma determinada configuração partidária que pode durar por um certo tempo e depois
modificar-se e assumir finalmente características inteiramente novas. Isto comporta, entre outras coisas, que tipos
diversos de partidos podem coexistir no mesmo sistema partidário. Na verdade, ainda que a maior parte dos partidos
burgueses tenha se transformado em partidos eleitorais de massa, permanece ainda pequenos partidos de pessoas
notáveis, assim como em certos países existem, ao mesmo tempo, partidos eleitorais de massa e “partidos de aparelho”.
V. TRANSFORMAÇÃO DO PARTIDO DE ORGANIZAÇÃO DE MASSA. — Quando se aludiu às
modificações que podem ocorrer numa determinada configuração partidária ficaram demonstradas as transformações
que sofreram ou estão sofrendo importantes partidos de aparelho europeus. Foram estes partidos que mais interesse
despertaram na literatura e nas publicações de caráter sociológico e político. Julgados por alguns como os mais aptos a
permitir a participação política dos cidadãos e tidos por outros como partidos de estrutura antidemocrática dominada
pelos apare1hos que servem de instrumento de manipulação das massas, eram todavia unanimemente considerados
como “partidos modernos” por excelência, conseqüência necessária ou inevitável da democracia de massa, destinados a
ocupar o lugar de todos os outros. Houve até tentativas de transformar alguns partidos eleitorais de massa em partido de
aparelho, assim como de outros lados era desejada uma transformação de todos os partidos nesta direção.
Contudo, estas tentativas e estes auspícios jamais se realizaram completamente, assistindo-se, de outra parte, a
uma progressiva modificação dos partidos de aparelho. Em particular, eles foram perdendo algumas das suas
características essenciais, como a alta participação das bases na vida do partido, a contínua ação de educação moral e
intelectual das massas, a precisão do programa político e o apelo à transformação da sociedade. Do lado contrário, se
acentuou sua orientação eleitoral e o empenho maciço em ampliar sua influência para além das próprias bases
tradicionais e a importância sempre crescente da atividade parlamentar. Assistiríamos, assim, a um processo de
homogeneização dos partidos, todos preparados para se transformarem partidos “pega- tudo”.
As razões que servem de base a esta transformação são de ordem política e social ao mesmo tempo. Em
primeiro lugar, nas últimas décadas, a partir do segundo pós-guerra, foi-se realizando, nos principais países europeus, a
integração, pelo menos formal, das massas populares no sistema político: os partidos de origem operária foram
reconhecidos quase em toda a parte como concorrentes legítimos no “mercado” político — especialmente os que
abandonaram totalmente qualquer apelo a uma transforntação radical da sociedade — e, portanto, como possíveis
detentores do poder político. Sendo por ela favorecida, esta integração provocou ao mesmo tempo uma intervenção
cada vez maior do Estado nos setores mais diversos da sociedade e a conseqüente necessidade de princípios de
planejamento econômico e social, ou, em todo o caso, de uma mediação entre interesses diversos, para a qual se requer
a colaboração, clara ou tácita, dos partidos operários, especialmente quando eles podem contar com o apoio das mais
poderosas organizações sindicais do país. Isto representou uma diminuição ou queda da pressão das massas, mantidas
antes à margem do sistema, e ma mudança na qualidade e no nível das suas exigências políticas. E, fato, ainda mais
importante, se assistiu na esfera social a profundas modificações que atingiram vastos setores da população, tais como:
a consecução de um mínimo de segurança social, a difusão do consumo e de símbolos culturais homogeneizados, e o
surgimento de tendências de tipo secular e privativo. Este conjunto de fatores implicou uma relativa estabilização das
relações sociais, uma codificação mais ou menos compartilhada pela maior parte da população das regras de
convivência civil e, conseqüentemente, uma menor intensidade na participação política com objetivos de tipo geral e
totalizante.
A possibilidade real ou potencial da gestão do poder político, a relativa estabilização da situação social e, em
conseqüência, a menor participação política das massas, fez com que os partidos operários abrandasem os apelos de
classe em benefício de uma imagem de si mesmos que pudesse merecer o assentimento de vários setores da sociedade: a
referência às solicitações e aos interesses de uma determinada classe foi acompanhada ou substituída por programas e
apelos cujo conteúdo realça o interesse “nacional” e, em geral, as aspirações globais da sociedade. Tudo isto trouxe
conseqüências mesmo a nível de estrutura organizacional. A participação política de base se orientou
preponderantemente para a propaganda eleitoral e a obra de educação moral e política das massas se tomou quase que
supérflua. Em contraposição, acentuou-se a importância do profissionalismo político nos níveis médios e altos do
partido e a cooptação de “peritos” para se poder fazer face a uma atividade política cada vez mais complexa; do
mesmo modo, tornou-se essencial a escolha dos candidatos com vistas ao sucesso eleitoral do partido, recorrendo-se
para isso aos próprios notáveis de várias esferas sociais e profissionais.

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Este processo de transformação atingiu, de forma mais ou menos acentuada, os principais partidos de
articulação européia. Obviamente os partidos podem encontrar limitações, mais ou menos rígidas, às suas tendências do
“tudo serve”: certos interesses claramente em contraste com os da sua base tradicional não podem ser representados, a
não ser que se queira incorrer na defecção eleitoral dessa mesma base; da mesma maneira, as persistentes tradições
políticas de classe podem desaconselhar uma propaganda interclassista muito ousada. Porém, em geral, os partidos
superam tais obstáculos evitando assumir posições claras sobre problemas capazes de criar divisões e conflitos
decisivos dentro do país, lutando pela conquista do poder político com plataformas eleitorais e sistemas de gestão do
próprio potencial que não se diferenciam substancialmente dos de outros partidos, mas são até muito semelhantes a eles
sob muitos aspectos.
Em síntese, poderíamos dizer que a persistência dos partidos de aparelho ou vice-versa, a sua transformação
em partidos eleitorais de massa, parece estar ligada à qualidade e à intensidade da participação política: onde existir um
consenso generalizado sobre certos temas e problemas de base e a participação popular se manifestar através de
exigências setoriais e específicas, é provável que prevaleçam estruturas partidárias com tendências “pega-tudo”;
quando, ao contrário, por qualquer motivo de ordem interna ou internacional, surgirem crises capazes de criar fortes
conflitos políticos ou de colocar em discussão as relações sociais existentes, a tendência para “construir máquinas
políticas” profundamente homogêneas e organizadas deverá ser mais clara.
VI. FUNÇÃO DOS PARTIDOS. — A aparição dos partidos de massa, quer sob a forma de partidos de
aparelho, quer sob a forma de partidos eleitorais, tomou crucial um problema que na bibliografia sociológica e política
foi muito debatido desde o aparecimento dos partidos, é o problema das suas funções. Com esta expressão se indicam,
em geral, todas as atividades dos partidos que geram conseqüências mais ou menos relevantes no sistema político e
social. Especialmente no momento em que os partidos se difundiram por grande parte do mundo e assumiram um relevo
enorme na vida política, o problema das suas funções tornou-se não apenas uma questão de análise e teoria política mas
também e sobretudo uma questão politica que inevitavelmente suscitou respostas contrastantes e muitas vezes
polêmicas.
Ao analisar o desenvolvimento dos partidos, viu-se como eles foram um instrumento importante, senão o
principal, através do qual grupos sociais sempre mais vastos imergiram no sistema político e como, sobretudo, por meio
dos partidos, tais grupos puderam exprimir, de modo mais ou menos completo, as próprias reivindicações e as próprias
necessidades e participar, de modo mais ou menos eficaz, da formação das decisões políticas. Que os partidos
transmitem o que nos livros de sociologia e de política se chama de “questionamento político” da sociedade e que,
através dos partidos, as massas participem no processo de formação das decisões políticas, são as duas funções que
unanimemente são reconhecidas para os partidos. À função de transmissão do questionamento político pertencem
todas aquelas atividades dos partidos que têm como escopo fazer com que ao nível de decisão sejam tomadas em
consideração certas necessidades da sociedade. Por outro lado, ao momento da participação no processo político
pertencem atos como a organização das eleições, a nomeação de pessoal político e a competição eleitoral; através disso,
o partido se constitui sujeito de ação política e é delegado para agir no sistema a fim de conquistar o poder e
governar.
O modo como os partidos exercem estas duas funções, a prioridade dada a uma ou a outra, é o que diferencia
empiricamente os próprios partidos, constituindo também o objeto das respostas contrastantes presentes nos estudos da
matéria e das polêmicas políticas sobre os partidos e seu funcionamento.
É evidente que se, se faz referência aos velhos partidos dos notáveis, não existem muitos problemas a respeito.
Eles, na verdade, agregando uma camada homogênea, numericamente restrita e não dividida por fortes contrastes de
princípios e de interesses, não tinham necessidade nem de uma organização nem de procedimentos muito complexos
para transmitir o questionamento político da própria base social e para nomear e controlar os próprios representantes
oficiais. Estes últimos podem agir facilmente para satisfação das necessidades da base que representavam e às quais
organicamente pertenciam, para manutenção e proteção dos próprios privilégios sociais.
Com os partidos de massa, pelo contrário, os quais por vezes organizam milhões de pessoas, que podem
expressar questionamentos diversos de tipo setorial como de tipo geral, homogêneos ou contrastantes entre si e que
pressupõem complicados procedimentos para nomeação e controle das pessoas que agem dentro do sistema político, em
nome e por conta desta centena de milhares ou milhões de pessoas, a situação é diferente e de necessidades muito
complexas. Quais são, de preferência, os questionamentos que os partidos transmitem? Refletem efetivamente as
exigências mais autênticas da própria base social? De que modo os partidos transmitem estes questionamentos? De que
natureza é a delegação que os partidos recebem dos próprios correligionários? Quais são as conseqüências que se
verificam no sistema político se um partido ou diversos partidos desenvolverem suas funções de um modo, em vez de
outro?
A resposta a estas interrogações toma, em geral, em consideração, a configuração organizativa dos partidos. Os
partidos de massa — como longamente já se expôs —, não obstante a letra de seus estatutos e de seus complicados
processos de controle, são, em sua maior parte, casos constituídos de uma maioria de seguidores que, pelas mais

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diversas razões, aderem ao partido e por uma minoria de profissionais da política — o círculo interno —, que toma
todas as decisões importantes, define a linha política, controla as nomeações apesar do possível dissenso ou dos
interesses reais das bases do partido. Isto deveria atribuir-se, essencialmente, a uma lógica de tipo organizativo.
Segundo R. Michela, um dos mais ilustres estudiosos dos partidos políticos, uma participação política difundida
necessita de estruturas organizativas complexas, mas é exatamente a existência da organização que produz necessária e
inevitavelmente tendências oligárquicas. Na verdade, o progressivo desenvolvimento da organização, a crescente
complexidade dos fins a atingir com a conseqüente divisão de trabalho e a necessidade de conhecimentos especializados
que este fato comporta, conduzem à profissionalização e estabilização da liderança do partido, à sua objetiva
superioridade em relação aos outros membros da organização e portanto à sua inamovibilidade e ao exercício de um
poder de tipo oligárquico. Nesta situação, portanto, a delegação e o controle sobre ela seriam fictícios e a transmissão
do questionamento político seria manipulável e manipulado conforme os interesses de poder da oligarquia do partido.
Ao nível de sistema político geral, a conseqüência seria naturalmente a negação de grande parte das instâncias
democráticas que os partidos deveriam representar.
Embora se reconheça que, em muitos casos e em muitas situações, os partidos manifestam tendências
oligárquicas, a interpretação de Michels foi criticada porque ela apresenta como “lei” um fenômeno que pode verificar-
se em algumas circunstâncias históricas, pode ser uma tendência em outras ou pode até nem apresentar-se de fato em
outros casos ainda. O modo de funcionamento dos partidos não é uniforme. Ele pode variar segundo os tempos e os
lugares e é por isso difícil, a propósito, encontrar uma regra que seja válida universalmente.
Para dar uma resposta que tenha em conta esta variedade de funcionamento e que ao mesmo tempo seja
empiricamente verificável põe-se a hipótese de que, tanto a transmissão do questionamento político como o processo de
delegação estão estreitamente ligados ao fenômeno da participação política. Dentro desta hipótese, os tipos e os modos
de transmissão do questionamento político, assim como as várias modalidades de formação da delegação derivam, em
grande parte, do tipo e da intensidade de participação política existentes em sistemas políticos diversos e em diversas
circunstâncias histórico-sociais. Uma vez que se sabe que a participação política assume várias formas — participação
eleitoral, inscrição nos partidos, freqüência às reuniões e às várias atividades dos partidos, mobilização de grupos e de
categorias sócio.prof issionais — e é de intensidade diversa segundo os partidos e os sistemas políticos, e de diferentes
momentos históricos, também o funcionamento dos partidos estará sujeito a uma grande variabilidade. Quando o nível
de participação for elevado e o envolvimento político dos cidadãos intenso, a delegação e o controle sobre ela serão
acumulados e específicos e os partidos serão levados a colocar um questionamento político que tenha em conta as
exigências e as necessidades mais gerais dos próprios associados e simpatizantes. Ao contrário, um baixo nível de
participação e uma situação de não-mobilização tornarão menos controlável a delegação, favorecerão a cristalização das
estruturas políticas permitindo que estas funcionem como filtro de questionamentos particulares e setoriais. Em resumo,
a possibilidade de os partidos serem instrumento de democracia está dependente do controle direto e da participação das
massas.
Para concluir, podemos afirmar que se o fenômeno “partido” como configuração organizativa e como conjunto
de funções por ele desenvolvidas mostra, em termos gerais, uma tipicidade própria, do ponto de vista concreto e
analítico se apresenta de modo muito diferente pelo que, para captar sua especificidade e a relevância atual num dado
sistema político, é necessário vê-lo inserido na estrutura econômico-social e política de um determinado país, num bem
definido momento histórico.

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Opinião Pública e Propaganda


Prof. Artur Araujo – e-mail: artur.araujo@puc-campinas.edu.br /
http://docentes.puc-campinas.edu.br/clc/arturaraujo/index.html
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