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5ª edição
5ª edição

Copyright © 2011, by Khristian Paterhan C.

Revisão: Denis ???? Capa e diagramação: Alexandre Brum

Nova edição revisada

Capa e diagramação: Alexandre Brum Nova edição revisada Quartet Editora Rua São Francisco Xavier, 524 –

Quartet Editora Rua São Francisco Xavier, 524 – Térreo 20550-900 – Rio de Janeiro/RJ Tel./Fax: (21) 2516-5353 glaucio@quartet.com.br www.quartet.com.br

2011

Impresso no Brasil

A Eleanor Coelho, pelo seu apoio e estímulo.

Este livro é uma homenagem a Georges Ivanovich Gurdjieff, o homem que iniciou o resgate do Eneagrama para nosso tempo e dedicou sua vida ao desenvolvimento harmonioso do ser humano.

“Lembrem-se desses encontros e das observações que fizeram, porque é impossível estudar a ciência dos tipos a não ser encontrando tipos. Não há outro método. Tudo mais é imaginário.”

G. I. Gurdjieff

Agradecimentos

Agradeço a todos aqueles que colaboraram na construção deste livro com seus depoimentos e vivências. Eles são a base desta obra e sem essa participação não valeria a pena tê-lo escrito.

Como ler, aplicar e tirar maior proveito deste livro

27

Introdução ao Eneagrama O legado de Georges Ivanovich Gurdjieff

31

Algo sobre o valor objetivo de certos símbolos e as origens do Ene- agrama segundo Gurdjieff; Aplicação psicológica do Eneagrama nos ensinamentos de Gurdjieff; Os Três Grupos de Seres Humanos Básicos e os Quatro Grupos Superiores de Seres Humanos segundo Gurdjieff; A importância do estudo prático do Eneagrama para o auto- conhecimento; O Eneagrama dos nove Traços Principais; Definições de Gurdjieff para o estudo dos Traços Principais. Para além dos Nove Traços Principais. A questão dos “Eus”. O Eneagrama interior.

Parte I Centro Físico ou Motor (Tipos 8, 9 e 1)

75

O Tipo 8: O eu que confronta

77

Então, vamos nos conhecer melhor ou não? O poder: a grande fascinação dos “guerreiros” do Eneagrama; Como e por que os Tipos 8 brigam desde cedo com “o mundo todo”; Para estar prote- gido do mundo, é necessário controlar tudo; Lealdade e proteção:

algo valioso que se pode cobrar; Conquistando novos territórios sem limites; O Traço Principal: o excesso e a luxúria aumentam a agressividade; Raiva e ação instintiva; A influência “negativa” dos parceiros eneagramáticos 7 e 9: gula e indolência; Insensibilidade e poder; Insensibilidade e violência: uma reflexão necessária; O Tipo 8 e o Tipo Intuitivo Extrovertido de Jung; Iniciando o processo de mudanças positivas; Desenvolvendo o positivo das influências 7 e 9; Observando os movimentos a favor e contra a seta (do 8 ao 5 e do 8 ao 2); Redescobrindo a simplicidade e a leveza da inocência:

a virtude que conduz ao poder verdadeiro.

O

Tipo 9: O eu que espera

99

Um nome maravilhoso; A “doença do amanhã”. Os Tipos 9 são preguiçosos? Esquecimento de Si Mesmo: eis causa do Traço Prin- cipal! Deixando de lado o mais importante; A dificuldade de estar presente; A questão do “território aberto” e “sem limites”; Iniciando o processo de mudanças positivas; Observando a raiva: a influência negativa dos parceiros 8 e 1; O negativo dos movimentos ao 6 e ao 3: reconhecendo o medo e a mentira; O Tipo 9 e o Tipo de Sensação introvertida de Jung; O positivo do movimento 9–6–3; A influência positiva dos parceiros 8 e 1; Lembrança de si mesmo: cultivando as virtudes do amor e da reta ação.

O Tipo 1: O eu que ordena

125

Ah, esses perfeitíssimos Tipos 1; O tipo1 e seu Traço Principal; Como surgiu sua máscara; O próprio “território”; O melhor modo de evitar as cobranças de perfeição; O surgimento da raiva e do ressentimento; Movimento em direção à angústia; rigidez interna/externa; A face oculta aparece; A divisão interna; Iniciando o processo de mudanças positivas; movimentos do 1 ao 4 e do 1 ao 7; 9 e 2: uma influência positiva ou negativa; O Tipo 1 eo Tipo de Pensamento Extrovertido de Jung; O cultivo da virtude e da serenidade.

Parte II Centro Emocional (Tipos 2, 3 e 4)

153

O

Tipo 2: O eu que ama

155

Existem seres mais amorosos que os Tipos 2? A sutileza do orgu- lho; A “Identificação” e o Traço Principal: “Ser para os outros” como manifestação do orgulho; “Ser para os outros” como consideração interna; Ah, esses importantes “outros”! A necessidade de atrair a

atenção dos outros; O Tipo 2 e o Tipo de Sentimento Extrovertido de Jung; A sensação de perder a liberdade; Duas razões para a mesma conduta; Iniciando o processo de mudanças positivas; Aprimorando

a observação de si mesmo; Centrando-se na equanimidade do Ponto

4; 1 e 3: influências positivas e negativas; A humildade nos lembra nossa real importância.

O

Tipo 3: O eu que compete

179

Aparentemente tudo está sempre bem com você, não? Como

aparente sucesso externo produz a falta da felicidade interna; Esquecendo as necessidades emocionais e sentindo-se superfi-

o

cial; A “Identificação” e o Traço Principal – A vaidade é mentirosa; Aprendendo a mentir e a mentir-se; À procura da admiração e do reconhecimento alheios; Quanto mais vaidade mais narcisismo; As aparências enganam por isso o Tipo 3 gosta delas!; O Tipo 3 e

o

caráter mercantil de Fromm; O 3 como falso “exemplo” de vida

certa; Procurando um “bode expiatório” para os fracassos; Para não ter a mesma sorte de Narciso; Iniciando o processo de mudanças positivas; Os movimentos no triângulo equilátero: verdadeiro sentir, verdadeira ação, verdadeira esperança; O que evitar e o que aprender com os parceiros 4 e 2; “A verdade os fará livres”: o desafio final.

O

Tipo 4: O eu que idealiza

209

A dificuldade de ser feliz; Lembrando outros exemplos; A inveja

que parece tristeza; O maravilhoso Krajcberg; A perda do para-

íso; A insatisfação com o presente; Felicidade

desejada; A tristeza de não ser feliz no presente; O Tipo 4 e o Tipo Intuitivo Introvertido de Jung; Quando sofrer se transforma na arte de acabar com você; Iniciando o processo de mudanças positivas;

só de longe, só

A

observação dos companheiros eneagramáticos 3 e 5; O negativo

e

o positivo dos movimentos aos Pontos 2 e 1; Trabalhando para

conseguir ser equânime; Superando “o vício do sofrimento”; Aplique

o conselho de Gurdjieff.

Parte III Centro Intelectual (Tipos 5, 6 e 7)

239

O

Tipo 5: O eu que pensa

241

Não quero invadir sua privacidade; A tendência ao isolamento ou

a

sutileza da avareza; Como surge o Traço Principal? O medo e as

racionalizações (percebendo a dificuldade dos relacionamentos); Desconfiança demais! Somatizando o medo; Talvez “sumir do mapa” seja o mais correto! A tristeza de não poder sentir para não sofrer a tristeza de sentir; Uma boa desculpa: “antes só do que mal- acompanhado”; As armadilhas que separam os Tipos 5 da realidade;

O Tipo 5 e o Tipo de Pensamento Introvertido de Jung;A perigosa invasão; Escrever é melhor que falar o que sinto; Iniciando o processo de mudanças positivas; Observando o negativo dos Pontos 4 e 6; As influências positivas dos pontos 4 e 6; Os movimentos 5 - 7 e 5

-

8; Enxergando a realidade tal qual ela é; O desapego: a virtude de

ficar entregue; A diferença entre conhecimento vivo e conhecimento

morto; A lição do geógrafo no Pequeno príncipe.

O

Tipo 6: O eu que imagina

273

Medo: o Traço Principal, ou como uma espada pode virar uma ben- gala branca, segundo Woody Allen. Ambivalência: extrema covardia

ou extrema ousadia; Os filhos do casal ambivalência-medo;O Tipo 6

e o Tipo de Sentimento Introvertido de Jung; Como surgiu o Traço

Principal; Errar por medo do erro ou “Por que estão me castigan- do?”; O mundo oculto: motivo de rejeição e de atração; Iniciando

o processo de mudanças positivas; Observando seus parceiros 5

e 7; Imaginação consciente: percebendo as “78 faces” da realida- de; Conquistando a virtude da coragem e desenvolvendo uma “fé consciente”; O valor da fé consciente.

O

Tipo 7: O eu que projeta

293

A alegre, maravilhosa e original turma dos 7! Negando o medo como

uma maneira de sentir liberdade; A decisão de ser um puer aeternus (eterna criança); Hedonismo ou como os Tipos 7 decidem não sofrer nunca; O Traço Principal – gula – e suas consequências;O Tipo 7 e

o Tipo de Sensação Extrovertida de Jung; Uma mistura perigosa:

gula e intemperança; A projeção para o futuro: os riscos do “sonhar

acordado”; Iniciando o processo de mudanças positivas; Quando

o movimento ao Ponto 1 aumenta seu narcisismo e excesso de

autoconfiança; A necessidade de sentir-se “livre” e seus aspectos positivos e negativos; Seus parceiros 6 e 8 (tente pegar só o melhor deles!); Controlando o sentimento de “inferioridade”; Problemas com hierarquias e autoridades; Controlando a agressividade e a luxúria; Conquistando a virtude do equilíbrio; Relacionando liberdade e responsabilidade com o autoconhecimento.

Palavras Finais

O

Eneagrama positivo e a possível evolução humana

321

Referências Bibliográficas

331

Prefácio Por Alaor Passos *

Confesso-me honrado por receber do autor o pedido para escrever “um texto” para a reedição deste livro, o que faço com prazer. Ao mesmo tempo ainda me sinto surpreendidamente intrigado ao dar-me conta da sincronicidade da chegada do convite. Foi justamente quando eu aca- bava de reler a edição anterior, cujo exemplar ele me havia presenteado, com simpática dedicatória, quando nos conhecemos pessoalmente por ocasião do I o Congresso Brasileiro de Eneagrama, SãoPaulo/2006, pro- movido pela IEA/Brasil – Associação Internacional de Eneagrama – da

qual Khristian viria a ser presidente na gestão posterior. Daí para frente nos encontramos várias vezes e transformamos a empatia mútua inicial em consistentes laços de proximidade amiga, confiança, admiração e intercâmbio de ideais transformadores, visando melhorar a qualidade e

o sentido da vida humana no planeta. Para melhorar a qualidade de vida, faz-se necessária a elevação da

consciência humana planetária cuja aceleração, já perceptível, se faz cada vez mais urgente e possível neste período de transição de milênios. Transição esta que coincide com o fechamento/abertura de ciclos de dimensões cósmicas, cujo alcance e consequências parecem estar muito além da possibilidade de compreensão da consciência ordinária que ainda prevalece entre os humanos. Daí a notória defasagem existente entre o vertiginoso avanço tecnológico da civilização atual globalizante

e o baixíssimo nível de consciência coletiva e pessoal que permanece

estagnada na dormência do esquecimento de quem somos, como somos, onde estamos, de onde viemos e para onde vamos. A correria estressante do moderno jeito de “mal viver” trouxe em seu bojo o aumento da angústia, da violência, dos conflitos inter e in-

trapessoais, da competição, do egoísmo, da perda de valores éticos e a consequente sensação incômoda de vazio existencial. Poucos indivíduos,

em qualquer das camadas sociais, desde os mais ricos e sofisticados até

o extremo oposto das camadas mais pobres, conseguem escapar da ar-

madilha dos efeitos do “autoesquecimento” gerado pela engrenagem en- louquecedora que criou o estranho jeito de viver da civilização moderna

que se sustenta no tripé do assim chamado “complexo industrial/militar/ tecnológico” que tem se expandido desde o fim da Grande Guerra. Cada vez mais acentua-se o paradoxo que nos impede de gozar plenamente e com felicidade das conquistas crescentes da tecnologia altamente desenvolvida que, ao invés de bem-estar e melhor qualidade de vida, tem nos roubado de nós mesmos, sem nos deixar tempo nem motivação para nos dedicar ao desenvolvimento de nosso potencial humano e às inquietudes do espírito, ou da essência transcendente da vida que habita em nosso corpo. Cabe aqui uma paráfrase do que Ge- raldo Vandré denunciava em sua bela canção que continua tão viva hoje como quando foi criada nos idos anos sessenta. Refiro-me aos “indecisos cordões”, propensos a morrer sem ter vivido, ou “morrer pela pátria

e viver sem razão”. Substitua-se a palavra “pátria” por civilização,

trabalho, profissão, posse, dinheiro, consumo ou o que quer que seja, e mude-se o “viver sem razão” por vazio existencial, ausência de Ser, etc.

e talvez sejamos capazes de escutar o chamado do refrão: “vem, vamos

” que só labutar não é viver! “Quem sabe faz a hora” para

se autoconhecer e cultivar seu próprio Ser. A releitura da edição anterior me deu muito prazer, além de ampliar minha facilidade de compreensão do que já havia lido. Atribuo isto ao fato de ter conhecido o autor e interagido com ele, podendo perceber a profundidade de suas qualidades humanas, a solidez de seus conhecimen- tos e seu estilo de falar e comunicar-se. A leitura tornou-se então uma espécie de “conversa escrita” na qual Khristian permaneceu presente e inteiro, por seu estilo coloquial de escrever, ao mesmo tempo erudito e consistente, muito semelhante a seu jeito natural de falar. Entendi em seguida que na convergência de nossos pensamentos, pontos de vista, sonhos e esperanças, embora muitas razões pudessem ser comentadas, salientava-se uma que é suficiente em si mesma. É que, por muitos anos, ambos estivemos usando o Eneagrama como instrumento catalisador no caminho do autoconhecimento, e observado o efeito transformador que esta quase desconhecida e milenar sabedoria operava para melho- rar a qualidade de vida dos iniciados. Por certo que ambos sabíamos da existência um do outro, mas não nos conhecíamos, e nem estáva- mos conscientes da afinidade que permeava nosso jeito de trabalhar.

embora

Chegamos ao Eneagrama por caminhos diferentes, é certo, mas no encontro pessoal ficou evidente que tínhamos o mesmo zelo e a mesma esperança que nos fez preservar a pureza dos ensinamentos tal como haviam sido originados nos elos primordiais de sua origem secreta e de sua transmissão sutil através de milênios. De minha parte, tive a sorte de receber ensinamentos diretamente de Claudio Naranjo, acompanhando-o muito de perto nos últimos trinta anos e reconhecendo-o como o legítimo elo atual da corrente de transmissão milenar desta sabedoria hermética que chegou ao Ociden- te primeiro através do trabalho de Gurdjieff na Europa e em seguida vetorizada por Oscar Ichazo, com grande impacto nas Américas. O bastão da maestria foi logo passado a Claudio Naranjo, um psiquiatra gestaltista, buscador e pesquisador incansável que desenvolveu e am- pliou pioneiramente e com brilhantismo ímpar aquilo que Ichazo havia introduzido em Arica, Chile apenas elementarmente no que se refere à aplicação do Eneagrama ao estudo da personalidade. Naranjo criou o que veio a ficar conhecido como Psicologia dos Eneatipos para a qual proveu ampla e completa descrição de toda a tipologia à qual Ichazo fez menção apenas dos seus fundamentos básicos nos tempos de Arica. Do massivo e ainda crescente interesse despertado pelo tema, que já dura quatro décadas, muitos nomes gabaritados foram se destacando em muitos lugares. Foge a meus propósitos contar aqui essa história, por isso não desenvolvo mais que este pequeno trecho. Sem deixar de dizer que embora Naranjo tenha feito reconhecimento público de que Oscar Ichazo foi sua “parteira espiritual” ele também afirma que no concernente ao Eneagrama como instrumento de estudo aplicável ao ser humano, foi pouquíssimo o que Ichazo lhe ensinou em comparação com tantas outras coisas que aprendeu dele. Desta forma, fica evidenciado

que toda a descrição tipológica que viria circular em abundante número de livros, deve créditos a Naranjo, mesmo aqueles que não explicitam

o devido reconhecimento.

Da parte de Khristian Paterhan C., por outro lado, o leitor verá neste livro a história contada por ele mesmo de como chegou ao Eneagrama.

E reconheço-lhe o mérito da difícil tarefa que empreendeu com sucesso

para extrair diretamente dos herméticos ensinamentos de Gurdjieff a base

de seus conhecimentos tão consistentes. Ouvi-o reconhecer, na presença de Naranjo, que as descrições explícitas derivadas da Psicologia dos Ene- atipos foi de considerável ajuda para permitir-lhe entender as passagens habilmente disfarçadas e não sistemáticas de onde ele conseguiu extrair

a mesma tipologia por meios tão originais. Tal reconhecimento apenas

faz crescer minha admiração e respeito por sua integridade humilde e sincera, uma de suas notáveis qualidades humanas. Imagino que o dito até aqui seja suficiente para justificar meu empe- nho para atender o pedido honroso que recebi do autor, e me dá opor- tunidade para acrescentar algo mais substancial sobre a convergência do trabalho que ambos viemos fazendo paralelamente ao longo de anos. Só recentemente me dei conta que Khristian e eu fomos pioneiros da introdução do Eneagrama no Brasil, sem saber um do outro. Talvez tenhamos sido os dois primeiros, numa considerável sincronicidade e quase perfeita simultaneidade. Ambos começamos no início da década de oitenta. Ele desenvolvendo o que veio a ser seu prestigioso Instituto IDHI conforme menciona no livro, tornando-se uma referência nacio- nal confiável que tem ajudado a muita gente, com ênfase especial em sua atuação no meio empresarial por onde transita com desenvoltura profissional fluida e marcante. Apenas um pouquinho antes (1984) eu tive a grata oportunidade de trazer Claudio Naranjo ao Brasil para um primeiro seminário longo. Daí

para frente suas vindas anuais consecutivas, até hoje têm propiciado a um grande número de pessoas estudar o Eneagrama em profundidade e eu me tornei seu braço direito brasileiro na qualidade de discípulo e repre- sentante nacional. É disto que falarei em seguida. Aprendi diretamente dele tudo que pude absorver de nossa convivência estreita e colaboração longa e profícua. Dei alcance nacional a seu trabalho criando grupos de estudo de Eneagrama em muitas das principais cidades brasileiras. Criei

o Instituto Eneasat do Brasil, um veículo administrativo para organizar

e promover os ensinamentos da Escola SAT, sob a maestria de Naranjo, da qual passarei a falar na sequência. A Escola SAT internacional não é uma instituição física/admi- nistrativa. Ela é a guardiã de um corpo de conhecimentos inserida nos moldes de uma Escola do Quarto Caminho que funciona à luz do

Eneagrama, enriquecido de inúmeras atividades multidisciplinares de cunho especificamente terapêutico que ajuda a “passar a vida a limpo” para que a sabedoria do Eneagrama opere com mais inteireza e veloci- dade, maximizando seu potencial condutor do autoconhecimento levado a níveis ilimitados, pois ilimitado é o potencial de evolução possível ao ser humano que consiga alcançar a iluminação. Os eventos através dos quais a Escola transmite seus ensinamentos consistem de módulos vivenciais periódicos e intensivos de imersão total. Em tal formato as obrigações mundanas do entorno sócio/ familiar/profissional, que todos temos que executar por razões de so- brevivência visando adequado grau de sucesso em nossas atividades regulares, podem ser realizadas sem interferir com a dedicação à busca das qualidades superiores de vida que são intrínsecas ao autoconheci- mento. Faz parte do aprendizado a necessidade de “aprender a apren- der”, expressão derivada de um aforismo da tradição eneagramática de linhagem Sufi que afirma que no caminho da evolução é preciso “aprender a estar no mundo sem ser do mundo”. Ou seja, estar to- talmente inserido e ter êxito nas responsabilidades mundanas, porém desapegadamente delas, conduzindo conscientemente o próprio destino independentemente das circunstâncias externas do entorno em que se vive. Portanto sem necessidade de renúncia ao mundo ou refúgio isolado com pretensos propósitos “espiritualizantes”. Talvez Gurdjieff estivesse inspirado nesta sintonia quando proferia algumas de suas afirmações chocantes, como por exemplo, “mosteiro não é refúgio de proteção para fracassados” ou ainda, a ênfase dada à necessidade de que o buscador da transcendência espiritual deveria ser primeiro um vencedor no mundo, capacitando-se para prover suas próprias neces- sidades mundanas com sobra suficiente para atender as necessidades básicas de pelo menos vinte pessoas mais. A Escola SAT, moldada nos figurinos do Quarto Caminho intenciona propiciar o desenvolvimento harmônico do Ser integral, onde torna-se possível manter o equilíbrio da saúde corporal/emocional e simultane- amente cultivar-se e desenvolver a inteligência espiritual que é a meta principal que pode ser atingida no trabalho sobre si mesmo direcionado ao autoconhecimento.

A sigla “SAT”, que dá nome à Escola, necessita alguns comentários para ser corretamente entendida. Quando escrito por extenso o nome completo seria: Escola de Buscadores da Verdade – Teekers After Truth, no original inglês – cujas primeiras letras das três palavras formam a sigla que veio a ficar conhecida. Além da referência explícita a uma conhecida Ordem de linhagem Sufi ela contém outros significados relevantes. O primeiro deles tem a ver com o prefixo sânscrito que antecede a trindade conhecida no hinduísmo como SaT – Chiti-Ananda, onde SAT tem o significado de existência absoluta, ou Ser Essencial Absoluto. Traduzindo-se para o contexto aportuguesado do autoconhecimento podemos então entender o significado da Escola como sendo uma escola do Ser, e/ou para o Ser, que contém uma proposta e uma oportunidade para o resgate do próprio Ser essencial que habita em todos nós. Por- tanto, está em consonância com mais uma das quatro recomendações da Unesco para orientar o conteúdo da educação moderna. Anteriormente já fizemos referência a “aprender a aprender”, que é outra das quatro recomendações atuais para serem ensinadas pela educação do século XXi. Talvez seja oportuno aqui mencionarmos as duas faltantes que são respectivamente “ensinar/aprender a fazer” e “ensinar/aprender a conviver”. Uma delas (ensinar a fazer) é a única que em seu sentido convencional mais superficial é atendida, embora precariamente, pelo modelo educa- cional oficial da educação profissionalizante vigente entre nós. Ou seja, é certo que nosso sistema educacional se propõe ensinar a fazer, mas na prática está mais dedicado a transmitir informações para ensinar a passar em exames, até que o aluno consiga aprovar-se num certo número de provas suficientes para obter um diploma ou certificado profissional. Depois que consegue, podemos observar generalizadamente falando, que dificilmente alcança um estado de plenitude profissional onde sente que exerce sua vocação como expressão do seu Ser. É provável que viva enorme frustração ao dar-se conta que apenas venceu etapas necessárias à sobrevivência mundana e a intensidade do esforço continuado logo vai lhe custar a saúde e o sentido de viver. Mas ampliar a discussão disto foge ao escopo dos propósitos deste texto. O fazer prático, via de regra, tem que ser aprendido fora do contexto escolar e quase sempre

a posteriori, quando se consegue o primeiro emprego. Este é um fato

amplamente conhecido pelas gerações que saem dos bancos escolares, com ou sem o respectivo diploma.

Entretanto, à luz das demais recomendações, parece óbvio que

a Unesco pretende recomendar mais do que o significado profissio-

nalizante do termo “fazer”. Basta lembrar certas afirmações de Gurd- jieff – também um Buscador da Verdade da Ordem Naquishbandi do Sufismo – para que se percebam os significados mais profundos desta recomendação. Ele afirma que o Homem, em seu estado ordinário de consciência não sabe fazer. Aliás, suas afirmações são mais radicais e pioram a situação, pois o que ele diz é que o Homem, em sua condição humana ordinária, é incapaz de realmente fazer qualquer coisa. Não sabe o que fazer pois foi condicionado apenas para reagir, tornando-se uma máquina automática e adormecida, e não ativa mas apenas reativa aos estímulos externos que não vem do núcleo do Eu superior. Uma pluralidade de pequenos “eus”, desconhecidos entre si, se alternam em sucessivos plantões que perpetuam o estado de sono da máquina huma- na ordinária, impedindo-a da habilidade de realmente fazer, o que só acontece quando os centros superiores do Eu estejam deliberadamente ativados. Ou seja, apenas quando o indivíduo se educa verdadeiramente até atingir um grau mínimo de consciência ativa ele se torna verdadei- ramente capaz de fazer por si próprio, cujo significado vai muito além da reatividade automática da dormência que caracteriza nossa condição humana “normal”. Estou aproveitando o livro de Khristian, tão soli- damente embasado nos ensinamentos de Gurdjieff, para atrever-me a mencionar este sentido mais profundo de “fazer”, pois em nossos bancos escolares seriam pouquíssimos os que talvez pudessem vislumbrar algum sentido no que acabei de escrever resumidamente. Declaro apenas, para completar, que esta conclusão vem da minha experiência como pro- fessor universitário. Penso, inclusive, que só uma pequena minoria de meus colegas professores estaria apta a compreender adequadamente o sentido deste parágrafo. A maioria, infelizmente, além da incapacidade de compreensão sequer teria interesse no tema e na forma que estou expondo. Não é à toa que Idris Shah, quando desistiu de seus grupos latino-americanos para os quais pretendia ensinar o Sufismo, afirmou

que o povo daqui não tinha ainda a capacidade para compreender a sabedoria que seus ensinamentos poderiam atingir. A restante das quatro recomendações da Unesco refere-se a ensinar/ aprender a conviver de forma sadia. Mas como, dado que nosso siste- ma educacional incentiva a competição em graus altíssimos? Que dizer então do “bullying” e da violência que lastra nas escolas ocidentais em crescente e vertiginosa velocidade? Como alcançar um relacionamento pacífico e solidário entre os povos e nações, quando o próprio modelo educacional predominante prepara os jovens para o contrário disto? Nem as famílias, em larga extensão, são capazes de criar e incentivar valores de genuíno relacionamento pacífico e harmônico. Que fazer, então? Certamente que esta pergunta não tem o mesmo significado da pergunta de Lenin na Rússia nos anos vinte do século passado. Nem sua resposta pode ser semelhante à que ele tentou. Mas, será que conseguiremos coletivamente sair deste labirinto abismal? Con- fesso que estou entre os que ainda não perderam a esperança, mas não vislumbro soluções fáceis. Por isso peço desculpas ao leitor por não me alongar mais na explicação dos outros significados aplicáveis à palavra SAT que dá nome a nossa Escola. Os que tiverem interesse podem en- contrar mais referências em outros livros meus, ou principalmente em vários dos muitos livros de Claudio Naranjo. Mais informações podem também ser encontradas no site da Fundação Cláudio Naranjo (www. fundacionclaudionaranjo.com) ou mesmo no site do Instituto EneaSat (www.eneasat.com.br). Prefiro dedicar as linhas seguintes para tratar de aspectos mais subs- tanciais das atividades da Escola. Ao reconhecer que pertenço ao grupo dos que ainda não perderam a esperança, devo acrescentar que atribuo isso ao SAT. Os mais de trinta anos de exposição aos ensinamentos de Naranjo e as décadas de dedicação à Escola são os pilares onde minha esperança se afirma. Também não perdi o entusiasmo, entendido em seu significado etimológico mais remoto = “estar com Deus dentro”. Ao longo dos setenta anos de minha vida o mundo deu muitas voltas e me fez passar por muitas curvas. Mas ambos, esperança e entusiasmo, permaneceram quase juvenis. Como nos tempos de estudante quando enfrentamos a ditadura militar mergulhados nos filões do marxismo.

Fui parar no exílio, primeiro no Chile sem deixar de querer mudar o mundo pela força das balas. Por curto tempo, quando posteriormente fui estudar na Inglaterra, ajudei a engrossar os cordões que sonhavam com os nobres ideais da frustrada Revolução Universitária, começada na França em maio de 1968 e rapidamente espalhada pelo mundo. Vejo hoje que a alternativa de ir estudar na Europa foi um presente que a vida me deu para não ter morrido ao lado de Che Guevara na aventura da Bolívia. Quase fui, se não tivesse “amarelado” na hora “H” decisiva de comprometer-me com a viagem acabaria sem volta. Que os três parágrafos anteriores sirvam para a compreensão de um aspecto da Escola que introduzirei agora. Tem a ver com minhas inquietudes a respeito da educação atual e com a vontade de contribuir para mudar o mundo. São duas das sementinhas que ainda permanecem hibernadas bem no âmago de meu Ser. A Escola SAT tem múltiplas vertentes, todas permeadas por um fio condutor invisível que os une. Por isso afirmo que nossos eventos acontecem sob a Luz da sabedoria guardada no Eneagrama. Mencionarei apenas uma das vertentes. É a que vem ganhando corpo ao longo da última década. Ao público foi apresentada primeiramente por sucessivas conferências de Naranjo em muitos lugares, inclusive na UnB, acho que em 1998/99 com o título: “Uma Nova Educação Verda- deira para o Século Vinte e Um”. Em seguida viria seu livro, Mudar a Educação para Mudar o Mundo, traduzido e publicado em português pela editora Esfera, de São Paulo. Nasceu de uma experiência piloto que fizemos no Chile, em três módulos, durante o primeiro governo demo- crático que sucedeu a longa ditadura militar que derrubou o governo democrático e socialista do Presidente Allende. Reunimos professores universitários representantes de todas as universidades públicas chilenas selecionados e auspiciados pelo Ministério da Educação local. A semente germinou em alguns países dos quais não falarei aqui. Atenho-me apenas ao Brasil. Coube a mim, em 2007/2008 implantar na capital de Rondônia um Projeto Piloto, também de três módulos, para cerca de 80 professores de educação primária e média selecionados e financiados pela prefeitura de Porto Velho, através de sua Secreta- ria Municipal de Educação (SEMED). Dirigi, como representante de

Naranjo, uma equipe grande e multidisciplinar, porém especializada na Escola, cujos membros se alternaram conforme o conteúdo vivencial de cada módulo. O relatório da experiência completa transformou-se num pequeno livro publicado pelo Instituto Eneasat com o título: SAT na Educação – a experiência pioneira dos professores de Porto Velho e a humanização da educação. Foi uma experiência muito exitosa, em- balada no sonho de humanizar os educadores para que humanizem a educação, pelo menos no entorno individual onde cada um atua. Fomos movidos pela certeza de que podemos (e devemos) ajudar a formar os formadores das novas gerações. Aliás, esta é uma das afirmações sempre presente nos projetos nascidos na vertente que tem ficado conhecida como SAT-Educação, ou SAT-educ, em vários países e lugares. Uma experiência puxa outras e assim o SAT tem avançado na educa- ção, embora em ritmo mais lento que o desejável e necessário. A situa- ção calamitosa da educação oficial tem crescido em ondas gigantes que prenunciam tissunames globais iminentes. Temos que sair fora dos mo- delos oficiais da “deseducação” acumuladora de informações, se nosso propósito é salvar os contingentes juvenis cujos sonhos foram reduzidos ao pesadelo de ter que ser aprovado no exame vestibular para poder conquistar um título profissional que lhe dê a ilusão de haver conquis-

tado um lugar ao sol. Sol escaldante, inóspito e desértico de conteúdos humanizadores. Este é o resumo da situação prevalecente, embora os arautos das políticas e reformas “educacionais” sigam batendo na mesma tecla falida. Parecem ter uma obsessão quantitativa apoiada apenas em números estatísticos. De qualidade nada entendem, nem parecem inte- ressados. Por isso insistem em dar mais do mesmo, sem sequer perceber

a infecção epidêmica intrínseca ao modelo que continuam defendendo,

aplicando e fingindo que querem reformar apenas retocando curriculum

e aumentando a informação. Nem se dão conta que hoje esta já está

amplamente disponível na internet. O que realmente estão aumentando

é a quantidade de analfabetos funcionais, que saem alfabetizados das

escolas mas não sabem ler. Todos intoxicados pelo acúmulo da ingestão forçada de “mais do mesmo” indigerível e inabsorvível. O que a educação realmente precisa, além da quantidade numérica não é de reformas, mas sim de uma radical mudança de parâmetros.

Humanização? Valores humanos? Cultivo das emoções superiores

e repúdio à “virtudização” moralista? Sentido de vida, alegria de vi-

ver, harmonia pacífica nos relacionamentos, afetividade, intimidade

confiante? Nada disso importa, pensam os políticos e os burocratas educacionais. Pensam que seria um luxo afrontante num país que se-

quer tem escolas em quantidade suficiente. Portanto, há que investir recursos no básico e assim poder exibir números e estatísticas só de melhoras quantitativas. Como não sabem (ou não se interessam?) medir

a qualidade, então tratam de vender a ilusão de que estão empenhados em melhorar o ruim. Não percebem (ou não querem perceber?) que

o ruim já ultrapassou o péssimo, sem volta atrás. Tentar melhorar o

ruim receitando mais do mesmo que está produzindo o mal só pode empurrar o que está mal para o péssimo. Qual será o nível seguinte? Será que alguém que tenha poder de decisão se interessaria em mudar os parâmetros educacionais para propor, por exemplo, a mudança na ênfase dada à medição do PIB (Produto Interno Bruto) por, digamos, FIT (felicidade interna total)? Ou IRC (índice de renda per capita) por IFP (índice de felicidade pessoal)? Parece que estamos longe de tais inquietudes, que são ausentes na cabeça dos poderosos e dos burocratas. O conteúdo intrínseco da escola SAT, em qualquer de suas vertentes,

é a Reeducação Permanente integral e humanizadora. Há umas quatro

décadas a Unesco já sinalizava nesta direção. Só mais recentemente, en- tretanto, com as quatro recomendações, que comentamos, os caminhos foram alargados e pavimentados. Fora do sistema oficial dominante, sobretudo nas chamadas vias alternativas ou nas Escolas do Quarto caminho é que multidões crescentes buscam direcionamentos para encon- trar e percorrer as trilhas rumo ao novo e ao desconhecido. A maioria,

entretanto, ainda se ilude e pensa que está percorrendo os trilhos soli- damente construídos de uma ferrovia imaginária. Embora estressados, famintos e sedentos, marcham com determinação e esforço admiráveis, conduzidos por miragens alucinantes que aparecem sempre um pouqui- nho à frente. Que acontecerá quando perceberem, massivamente, que

a estrada solidamente construída que estão tentando percorrer os está levando do nada a lugar nenhum?

Prezado leitor, para terminar, falta dizer-lhe uma coisa muito impor- tante. A importância dela é proporcional ao gosto/desgosto que você tenha tido ao ler tudo que escrevi nas páginas anteriores. Esperando que você tenha gostado, então vou lhe dar uma dica secreta, pois sei que todo mundo gosta de segredos, principalmente quando os tornam públicos, fingindo guardá-los. Meu segredo é o seguinte. No livro que você tem em mãos, você en- contrará tudo o que escrevi aqui e muito mais. Melhor ainda, o livro está bem escrito e é sumamente consistente. Espero que além de divertir com o estilo peculiar e cativante de Khristian Paterhan C., você se abra aos grandes segredos embutidos no tema desenvolvido tão magistralmente por ele. Mais ainda, que você se motive o suficiente para participar vi- vencialmente dos eventos periodicamente disponíveis que lhe conduzirão da simples compreensão teórica a níveis inimagináveis de compreensão interna transformadora. Compartilho com Khristian principalmente desta intenção de usar o Eneagrama como poderoso instrumento de verdadeira transformação, individual e coletiva. Que você faça bom proveito do que este livro lhe dirá, são meus genuínos desejos.

* Sociólogo e professor adjunto da Universidade de Brasília – UnB. Foi funcionário internacional das Nações Unidas, lotado na CEPAL, em Santiago, Chile, e no ILPES, no México. Assessor da OECD, em Paris. “Visiting Scholar” no Peace Research Institute, Oslo, Noruega, 1968, com publicações em revistas locais especializadas.

Introduziu o estudo da Psicologia dos Eneatipos no Brasil no princípio dos anos 80. Discípulo de Claudio Naranjo desde então. Ensina à luz do Eneagrama nas principais capitais brasileiras desde 1992. Já ministrou cursos na Austrália, Chile, México, Colômbia e Itália e participou de Congressos Internacionais na Espanha, França e Estados Unidos. Membro da equipe internacional de terapeutas da Escola SAT, organiza e coordena suas atividades no Brasil como representante de Claudio Naranjo. Fundador e diretor do Ins- tituto EneaSAT do Brasil é membro fundador e Presidente da IEA Brasil - International Enneagram Association.

Como ler, aplicar e tirar maior proveito deste livro

Antes de ensinar como utilizar melhor este livro devo advertir que, para compreender realmente o Eneagrama, não basta ler um ou vá- rios livros sobre o assunto. É fundamental participar de um ou vários workshops vivenciais, compartilhar e trocar experiências com pessoas que possuam o mesmo Traço Principal (Tipo), ouvir o que pessoas com outros Tipos/Traços Principais dizem a respeito de si mesmas. Sem vivência é impossível sentir e compreender toda a força e sabe- doria que esta ferramenta possui. Se você está lendo sobre o assunto pela primeira vez, aconselho ler este livro da seguinte maneira:

1. Faça o Teste Simplificado disponível no site da Escola de Eneagrama,

ou copie este link no seu browser: http://www.escolaeneagrama.com.br/

view/teste-de-eneagrama/

O resultado do Teste permitirá que você tenha uma visão inicial e básica do seu Tipo de Personalidade Eneagramático Principal que será aquele com maior número de respostas afirmativas. Quanto mais você for sincero(a) e honesto (a) nas suas respostas, mais serão as probabilidades de identificar rapidamente seu Traço ou Tipo de Personalidade Principal. Lembre-se de que dessa atitude depende que o Eneagrama se transforme em um “aliado” da sua evolução e crescimento pessoal e profissional.

2. Leia neste livro as descrições, depoimentos e orientações relaciona- das ao Tipo de Personalidade Eneagramático identificado. Caso tenha dúvidas entre dois Tipos, leia as descrições de ambos.

É muito provável que após a leitura desses Tipos escolhidos, você terá mais certeza sobre qual é o seu Traço ou Tipo Principal. Reflita sobre seu Tipo e decida o que, em seu caso, você deveria começar a trabalhar e observar para aprimorar sua personalidade.

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Khristian Paterhan C.

Os Tipos de Personalidade Eneagramáticos estão agrupados de acor- do com o Centro ao qual pertencem, ou seja: os Tipos 8, 9 e 1 (Grupo de Seres Humanos cuja vida psíquica está relacionada com o Centro do Movimento ou Centro Físico); os Tipos 2, 3 e 4 (Grupo de Seres Humanos cuja vida psíquica esta relacionada com o Centro Emocional) e os Tipos 5, 6 e 7 (Grupo de Seres Humanos cuja vida psíquica está relacionada com o Centro Intelectual).

3. Leia os Tipos que acompanham seu Tipo Principal-chamados de “asas”, “braços” ou “companheiros eneagramáticos”. Por exemplo, se você é um Tipo 3, leia as características dos Tipos 2 e 4 e veja como elas o influenciam. Se você é um Tipo 5, leia os Tipos 4 e 6 e assim por diante.

4. Leia as características dos Tipos relacionados com seus movimentos imediatos no Eneagrama. Por exemplo, se você é Tipo 5, o “movi- mento a favor da seta” é para Ponto 7 e o movimento contra a seta é para Ponto 8 do Eneagrama. Leia e reflita nestes Tipos Eneagramáti- cos e tente observar como se dá em você a influência deles, tanto positiva como negativamente.

5. Estude todos os Tipos. Lembre-se que no seu mundo interior estão todos os Nove “eus” eneagramáticos e que você deve conhecer cada um deles profundamente para torna-lhos seus aliados. Verifique que aspectos negativos dos outros Tipos se dão em você e quais aspectos positivos você deveria imitar e /ou fortalecer.

6. Inicie a Observação e Lembrança de si mesmo.

Lembre-se de que você não é a máscara (personalidade) e que pode aprimorar-se, aperfeiçoar-se e ser cada dia melhor como ser humano.

7. Comece a pôr em prática o Eneagrama. Participe de nossos treina- mentos, seminários e workshops vivenciais sobre este assunto. Pouco

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

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a pouco, com a prática você poderá identificar os Tipos Eneagramá- ticos de seus clientes, colegas de trabalho, amigos e parentes. Sua capacidade de comunicação interpessoal vai melhorar porque você será capaz de compreender como os “outros” interpretam a realida- de. Aprenda a tratar cada Tipo segundo suas características tipo- lógicas, despertando e estimulando o melhor de cada um e de cada situação.

8. Aprenda em nossos workshops e treinamentos como aplicar o Enea- grama nos seus negócios e/ou relacionamentos profissionais, pratican- do o melhor modo de se relacionar e negociar com cada tipo, anali- sando quais os aspectos positivos e negativos de cada um e geran- do uma comunicação mais produtiva. Lembre-se de que cada Tipo Eneagramático observa o mundo de um ângulo diferente. Aprenda a perceber quais as motivações de cada Tipo. Argumente de acordo com essas motivações e melhore seus relacionamentos pessoais, profissio- nais e comerciais.

Se você é empresário e deseja fazer um treinamento específico com os seus colaboradores, leia o Portfólio e depoimentos de clientes disponível no site: http://www.escolaeneagrama.com.br/view/home/

Introdução ao Eneagrama O legado de Georges Ivanovich Gurdjieff (o homem que trouxe o Eneagrama para o Ocidente)

Esta introdução foi escrita para aqueles que desejam aprofundar nas origens filosóficas do Eneagrama. Caso você deseje, leia após ter feito o Teste Simplificado e/ou terminado a leitura do seu Tipo de Per- sonalidade. Hoje em dia podemos afirmar que Georges Ivanovich Gurdjieff (1872-1949), criador do sistema de desenvolvimento humano conhecido internacionalmente como Quarto Caminho, foi um dos mais notáveis transpessoalistas modernos. Sua obra que, como alguém acertadamente escreveu, somente por ignorância é colocada nas prateleiras das cha- madas “obras esotéricas” (as quais ele sempre desprezou, advertindo sobre seus perigos e extravagâncias), se mostra, a cada ano que passa, mais atual e exata. Os livros que ele escreveu guardam, para quem os estuda, reflete e pratica, preciosos tesouros, frutos de uma das sínteses mais valiosas do conhecimento psicofilosófico do Oriente e do Ocidente. Não vou fazer aqui um resumo da sua biografia, nem escrever sobre o que já está escrito em centenas de livros e comentários, alguns dos quais traduzidos para o português e que cito na bibliografia. O legado de G. I. Gurdjieff é hoje um dos mais importantes, espe- cialmente neste momento em que a humanidade precisa dar um “salto quântico” no seu desenvolvimento como espécie. Foi ele quem trouxe ao conhecimento do Ocidente, há mais de 80 anos, a existência do Eneagrama, milenar símbolo-síntese criado por sábios de uma época esquecida na qual as ciências exatas e a “psicologia da possível evolução humana”, como a chamava Piotr Demianovich Ouspensky, um de seus mais notáveis discípulos, estavam ligadas. Quem deseje conhecer e praticar a filosofia de vida ensinada por Gurdjieff e contida no Eneagrama, pode estabelecer contato com a Escola de Eneagrama “Khristian Paterhan C.”, e/ou pesquisar sobre outros grupos de trabalho de Quarto Caminho no Brasil e no mundo.

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Khristian Paterhan C.

Gurdjieff foi um profundo conhecedor das psicofilosofias e tradições antigas, e teve acesso, por meio de uma misteriosa ordem secreta cha- mada Sarmung, aos “fragmentos de um ensinamento desconhecido” (P.D.Ouspensky), cujas origens se perdem na noite dos tempos e se ligam com a extraordinária cultura sumério-babilônica, hoje reconhecida

pelos historiadores como uma das mais avançadas da Antiguidade em termos culturais e científicos. Atualmente seus ensinamentos deveriam ser tratados com “espírito científico”, já que estamos em condições cul- turais de completar e compreender – para benefício da nossa espécie e graças aos níveis que temos atingido nos campos das ciências humanas

e exatas – esse “quebra-cabeça” do conhecimento humano, do qual ele

nos deixou tantos e valiosos “fragmentos”. Com efeito, Gurdjieff afirmava que existiu, num remoto passado, um “Grande Conhecimento”, do qual faziam parte todas as ciências, artes

e filosofias e de cuja existência pouco ficou registrado na história escrita da humanidade. O Eneagrama, segundo ele, fazia parte desse “Grande Conhecimento” que unificava todas as coisas. Com o intuito de promover maiores níveis de consciência entre os seres humanos e tendo como objetivo incentivar “a unidade de todas as coisas”, Gurdjieff fundou na França, em 1922, o Instituto para o De- senvolvimento Harmonioso do Ser Humano, mediante o qual atualizou parte desses antigos ensinamentos. Sua obra atraiu importantes personagens de todas as áreas do co- nhecimento humano, muitos dos quais inspirados pelos ensinamentos que revelou de uma forma incomum, os incorporaram às suas áreas de atuação profissional com excelentes e notáveis resultados. Seu trabalho foi pioneiro no sentido de demonstrar objetivamente que existem níveis de consciência passíveis de serem desenvolvidos mediante práticas exatas. Muitos anos antes que se falasse sobre temas como “ecologia”, “psicossomática”, “relatividade”, “inteligência emo- cional”, “holismo”, “psicologia transpessoal” e outros assuntos que hoje se abordam cada vez com mais facilidade e objetividade, graças aos avanços das ciências, Gurdjieff já os tratava com uma profundidade que se mostra cada vez mais exata e completa.

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

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Tive o privilégio de conhecer sua proposta e o Eneagrama na déca- da de 80, no meu país, Chile, por meio de pessoas muito especiais que desejam permanecer no anonimato. Desde então, nunca parei de pesquisar, trabalhar e difundir o legado deste homem notável e faço isso como ele ensinou, para pagar parte da minha “divida com a existência”. Foi justamente com o objetivo de divulgar e dar um enfoque mais abrangente das ideias de Gurdjieff e da sua relação com outras linhas filosóficas do Oriente Antigo, 1 que fundei em 1986 o Instituto para el Desarrollo Humano Integral, IDHI®, no Chile. Seis anos depois (1992)

refundei-o aqui no Brasil, com o apoio de amigos muito especiais, alunos

e discípulos. As atividades do IDHI® foram encerradas no ano 2005,

para dar inicio a uma nova fase de trabalhos a través da atual Escola

de Eneagrama “Khristian Paterhan” www.escolaeneagrama.com.br

e da minha empresa a “Upgrade Nine-Consultoria e Treinamento de

Pessoal Ltda.”, “instrumentos” através dos quais possibilito o trabalho de desenvolvimento humano, tanto pessoal quanto profissional, de todos aqueles que almejam o autoconhecimento e a realização integral como seres humanos. Devo advertir que o Eneagrama não está atrelado a qualquer “tra- dição mística” nem é “propriedade” de qualquer escola ou instituição conhecida na atualidade. Sua natureza em termos de exatidão e objeti- vidade é única, e já se tem realizado estudos, teses e pesquisas empíricas, algumas das quais disponíveis na internet. Nas últimas décadas, o trabalho de Gurdjieff sofreu ataques de setores interessados em provocar o “esquecimento” da sua obra, assim

1 As quais tive a oportunidade de aprender vivencialmente desde os 15 anos de idade

Entre elas a Filosofia Vedanta Advaita, uma das principais linhas filosóficas da India,

o

Budismo, sistema psicofilosófico pelo qual Gurdjieff tinha uma especial simpatia, e

o

Hermetismo, filosofia milenar de origem egípcia, especialmente difundida na Europa

durante a Idade Média e cujas origens estão relacionadas com as lendas ancestrais de Thot-Hermes.

34

Khristian Paterhan C.

como em diminuir sua importância especialmente no que se refere aos seus conhecimentos sobre o Eneagrama. Não me parece estranho que se tenha combatido tanto o “sistema” de Gurdjieff nem que se tenham feito tantos esforços para desacreditá-lo, porque estas são as maneiras mais comuns de se tratar os grandes mestres e gênios. Esses mesmos setores não podem evitar que os ensinamentos de Gurdjieff se tornem cada vez mais conhecidos e aplicados em diversos campos da atividade humana e no mundo todo. Um desses setores tentou – e ainda tenta – provar que Gurdjieff não teria ensinado as aplicações psicológicas do Eneagrama. Porém, uma análise fria e serena da sua obra pode demonstrar que ele não somente conhecia suas aplicações psicológicas profundamente, como também as utilizava para explicar outros fenômenos universais com total mestria, como o demonstra nos seu livro Relatos de Belzebu a seu neto, obra já traduzida para o portu- guês. Demonstrarei isto nesta introdução ao tema. É importante advertir também que ninguém pode se atribuir a “inven- ção” do Eneagrama como ferramenta de desenvolvimento humano. Do mesmo modo que dizemos que Pitágoras “criou” “seu” famoso teorema e ficamos muito tranquilos sem perceber que estamos demonstrando uma tremenda ignorância, já que ele não criou esse teorema, apenas o “herdou” de pessoas que sabiam e o tinham conservado (dados sobre esse teorema existem na China muito antes de Pitágoras existir), assim também acontece com o Eneagrama cujos verdadeiros criadores são desconhecidos, calculando-se que exista, segundo o pesquisador J. G. Bennet, 2 há uns 4. 500 anos ou mais. Pela mesma razão, é importante cuidar para que este “patrimônio” científico-cultural da humanidade não seja “propriedade intelectual” de ninguém e sim um meio de desenvolvimento e unificação das ciências, artes e filosofias.

2 J.G.Bennet foi um notável discípulo de Gurdjieff nos Estados Unidos. Escreveu várias obras sobre o sistema filosófico conhecido como “Quarto Caminho” e uma sobre o Eneagrama, publicada no Brasil pela Editora Pensamento sob o título: O Eneagrama:

um estudo pormenorizado do Eneagrama usado por Gurdjieff.

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

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Sobre a importante contribuição e atualização do Eneagrama, realizadas por Oscar Ichazo e Claudio Naranjo

Não posso deixar de mencionar aqui a importância da atualização e sistematização do Eneagrama feita pelo sábio boliviano, Dr. Oscar Icha- zo, e, especialmente as realizadas pelo internacionalmente prestigiado psiquiatra e escritor chileno, Dr. Claudio Naranjo, cuja contribuição

e descrições dos Nove Eneatipos foi fundamental para que eu pudesse

reconhecer os mesmos nos textos de Gurdjieff. No Congresso de Eneagrama realizado em 2010 em Fortaleza e organizado pela International Enneagram Association - IEA do Brasil,

no qual Naranjo recebeu uma merecida homenagem e reconhecimento público pela sua contribuição e obra com relação ao Eneagrama, tive

a oportunidade de conversar com ele sobre minha defesa e argumentos

de que Gurdjieff conhecia sim a “tipologia eneagramática”, fato que demonstrarei na continuação desta introdução. Aceitando meus argu- mentos, Claudio me disse: “Porém, você não haveria descoberto isso sem a ajuda das minhas definições (dos Nove Tipos)”. É isto é verdade! Foi a partir do seu notável trabalho e das descobertas de Ichazo, no inicio dos anos 70, no meu país, Chile, que muitos outros pesquisadores e estudiosos do comportamento humano, eu incluído, iniciaríamos importantes e valiosos estudos sobre o tema Eneagrama, um tema que está longe de ser esgotado quando se compreende que este símbolo milenar supera os limites de uma simples tipologia psicológica. Alguns desses estudos, trabalhos e obras já estão traduzidos para o português e são citados na bibliografia complementar.

Algo sobre o valor objetivo de certos símbolos e as origens do Eneagrama, segundo G. I. Gurdjieff

Gostaria, antes de começar, transcrever aqui algumas palavras de P. D. Ouspensky com as quais me identifico plenamente e que foram ditas por ele no início de uma série de palestras sobre o sistema do Quarto

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Khristian Paterhan C.

Caminho, as quais ficaram reunidas num volume que leva o mesmo título.

Ele declarou:

“Antes de começar a explicar-lhes de um modo geral sobre o que trata este sistema, e de falar sobre nossos métodos, quero gravar parti- cularmente nas suas mentes que as ideias e princípios mais importantes do sistema não me pertencem. Isto é o que os faz valiosos, porque, se me pertencessem, seriam como todas as outras teorias inventadas pelas mentes correntes: somente dariam uma visão subjetiva das coisas.”

Espero que o leitor, a partir de agora, lembre constantemente este importante esclarecimento. No Capítulo XIV do livro Fragmentos de um ensinamento desco-

nhecido, Ouspensky nos revela, baseado em sua notável memória e em notas tomadas durante encontros com Gurdjieff, as milenares origens do Eneagrama. Vou tentar sintetizar ao máximo o texto, citando apenas

o necessário para o objetivo desta obra.

Primeiramente, Ouspensky nos lembra que Gurdjieff costumava falar de uma antiga “Ciência Objetiva” que não se baseava nos dados

e experiências produtos de “estados subjetivos de consciência” e que

teria existido na terra há milhares de anos, fruto da experiência de seres altamente evoluídos. 3 Esta “Ciência Objetiva” teria como uma de suas idéias centrais “a unidade de todas as coisas, a unidade na diversidade”. Os sábios que compreenderam a importância e profundidade destas ideias perceberam que a transmissão e conservação das descobertas feitas graças a esta “Ciência Objetiva” implicavam um grande esforço

3 Inspirado nesses e outros dados e nos Relatos de Belzebu a seu neto de Gurdjieff, escrevi uma obra de ficção que trata, dentre outras coisas, da provável origem extra-terrestre do Eneagrama, que foi publicada sob o título “Apocalipse 21: Uma Visão do Bem Que Está Por Vir” (Quartet Editora).

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

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de síntese para conseguir preservá-las e transmiti-las às gerações futuras. Pensaram, então, num meio exato para atingir este importante objetivo. Descobrir esse meio deu, com certeza, muito trabalho a estes sábios, porque na “ciência objetiva, inclusive a ideia de unidade, só pertence à consciência objetiva”, nível no qual a realidade é observada tal qual ela é e que, obviamente, não é um estado habitual entre nós. Com efeito, Gurdjieff ensinava que esta nossa incapacidade de ob- servar a realidade tal qual ela é se devia ao fato de que grande parte da nossa existência, ou quase toda ela, vivemos num estado de “sono e sonho” ou “estado de consciência subjetiva” no qual é impossível “observar” e muito menos “sentir” a realidade tal qual ela é. Por esta razão, é extremamente difícil perceber essa “unidade de todas as coisas”, quando se está habituado a acreditar num “mundo fragmentado” e di- vidido em “milhões de fenômenos separados e sem ligação”, ainda que intelectualmente até “entendamos” que “algo” unifica tudo. Sabemos que, com efeito, o fato de não compreendermos esta unidade intrínseca de todas as coisas, é uma das principais causas da perigosa situação que temos provocado no equilíbrio ecológico do planeta, a razão dos ódios raciais, das injustiças sociais, dos conflitos e separatismos religiosos e políticos e de tantos outros nefastos efeitos produtos do que Buda cha- mou, “sentimento de separatividade” que afeta a psique humana. Cientes destas nossas limitações, estes sábios decidiram que o único meio de transmitir seus conhecimentos objetivos era utilizando, entre outros recursos, símbolos especiais, os quais conteriam, graças a uma síntese matemático-psicológica exata, os principais dados dessa “Ciência Objetiva”. Ou seja, eles poderiam ser resgatados no futuro por aqueles que trabalhassem profunda e seriamente para conhecerem a si mesmos além das suas subjetivas e limitadas personalidades. Esta previsão foi acertada e, por esta razão, novamente o Eneagrama foi atualizado con- servando sua extraordinária exatidão matemática, cuja origem exata continua sendo ainda um mistério. Os símbolos aos quais se referia Gurdjieff, “continham os diagramas das leis fundamentais do universo e transmitiam não só a própria ciência, mas mostravam igualmente o caminho para chegar a ela. O estudo dos

38

Khristian Paterhan C.

símbolos, da sua estrutura e significação, era parte muito importante dessa necessária preparação sem a qual não é possível receber a ciência objetiva, e era uma prova do porque uma compreensão literal ou formal dos símbolos se opõe à aquisição de qualquer conhecimento ulterior. Os símbolos eram divididos em fundamentais e secundários; os pri- meiros compreendiam os princípios dos diferentes ramos da ciência; os segundos exprimiam a natureza essencial dos fenômenos em sua relação com a unidade.” Entre as leis fundamentais sintetizadas nesses símbolos que “ex- primiam a natureza essencial dos fenômenos em sua relação com a unidade”, duas são de fundamental importância para compreender os ensinamentos de Gurdjieff: a “Lei de Três” e a “Lei de Sete”, conhecida também como “Lei de Oitava” por sua relação com a escala musical e sua sequência , , , , sol, , si, que guarda dentro de si as relações matemáticas, associadas ao som correspondente a cada nota musical. “As leis fundamentais das tríades e das oitavas penetram todas as coisas e devem ser estudadas simultaneamente no homem e no universo”, ensina Gurdjieff. Porém, devido ao fato de existir num nível de consciência subjetiva, o homem precisa primeiro iniciar o estudo dessas duas leis em si mesmo, para depois compreender suas manifestações universais:

“Mas o homem é, para si mesmo, um objeto de estudo e de ciência mais próximo e mais acessível que o mundo dos fenômenos que lhe são exteriores. Por conseguinte, esforçando-se por atingir o conhecimento do universo, o homem deverá começar por estudar em si mesmo as leis fundamentais do universo.”

Por outro lado, o conhecimento dos símbolos e das leis fundamentais que eles guardam não pode ser apenas “teórico”, já que, nesse nível, os símbolos ainda estão sujeitos a interpretações errôneas devido à nossa forte subjetividade e ao nosso ainda baixo nível de consciência. Daí que, para compreendê-los profundamente, deve-se atingir um nível no qual as

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

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considerações subjetivas que provocam discussões e contradições sejam superadas completamente, o que exige um profundo conhecimento de si mesmo, único modo de compreender as leis fundamentais do universo,

a verdadeira compreensão dos símbolos não pode prestar-

ou seja: “(

se a discussões”. Para quem pretende atingir esse nível de compreensão, Gurdjieff adverte:

)

se alguém imagina poder seguir o caminho do conhecimento de

si, guiado por uma ciência exata de todos os detalhes, ou se espera ad- quirir tal ciência antes de se ter dado o trabalho de assimilar as diretrizes

que recebeu, no que concerne a seu próprio trabalho, engana-se; deve compreender, antes de tudo, que nunca chegará à ciência (objetiva) antes de ter feito os esforços necessários e que somente seu trabalho sobre si mesmo permitirá atingir o que busca. Ninguém lhe poderá dar o que ele ainda não possui; nunca ninguém poderá fazer por ele o trabalho que ele deveria fazer por si mesmo. Tudo o que outro pode fazer por ele é estimulá-lo a trabalhar e, desse ponto de vista, o símbolo compreendido como deve ser, desempenha o papel de um estimulante em relação à nossa ciência (objetiva)”.

“(

)

A advertência de Gurdjieff mostra-se claramente necessária, já que, nos nossos dias e apesar de todos os nossos avanços e conhecimentos “teóricos”, ainda não compreendemos a importância de “leis básicas” como a de “causa e efeito”, por exemplo, pois, se as compreendêsse- mos, primeiro em relação a nós mesmos e, em seguida, em relação à natureza da qual somos parte, concluiríamos, sem ter que discutir e sem “subjetividades” de nenhuma espécie, que uma série de erros sim- plesmente não poderia ser cometida sob nenhum aspecto, se as aplicás- semos “objetivamente”. Porém, a maioria não tem consciência de que muitos “efeitos” indesejáveis e negativos só existem porque não somos conscientes dos nossos atos, ou seja, não “compreendemos” o que essa lei de “causa e efeito” implica, ainda que sejamos capazes de “decorá- la” quando passamos pelo colégio. Também vemos que essa falta de

40

Khristian Paterhan C.

“compreensão” acontece inclusive em relação a signos simples, que são meios de expressar certos dados menos profundos que os contidos nos símbolos, porém, não menos importantes na prática. Assim, por exemplo, um sujeito pode “aprender”, por meio do Regulamento do Trânsito, que um cartaz ou painel de fundo amarelo com a figura em cor preta de uma

criança que carrega livros significa: “atenção-diminua-a-velocidade-do-seu-

carro-porque-você-está-passando-por-um-local-próximo-a-uma-escola-e-

crianças-menos-responsáveis-que-você-que-é-adulto-estão-por-perto, etc., etc.” Porém, o fato de este sujeito “aprender” a “interpretar” esse “sinal de trânsito”, internacionalmente aceito, não implica necessariamente que compreendeu a necessidade de obedecê-lo, e pode vir a atropelar uma ou várias crianças que, “acidentalmente”, estejam perto da dita escola no dia em que ele não respeite esse “signo”. O “estímulo” para a compreensão foi dado, porém não foi “vivenciado” pelo sujeito que o recebeu. Voltemos ao assunto dos símbolos e das chamadas “leis fundamen- tais”. Gurdjieff afirma, em outra parte do Capítulo XIV da citada obra de Ouspensky, que: “a lei de oitava conecta todos os processos do uni- verso e, para aquele que conhece as oitavas de transição e as leis de sua estrutura (ou seja, a Lei de Três e a Lei de Sete), surge a possibilidade de um conhecimento exato de cada coisa ou de cada fenômeno em sua natureza essencial, bem como de todas as suas relações com as outras coisas e com os outros fenômenos”. Então nos revela que, “para unir, para integrar todos os conhecimen- tos relativos à lei da estrutura da oitava, existe um símbolo que toma a forma de um círculo cuja circunferência se divide em nove partes iguais, mediante pontos ligados entre si, numa certa ordem, por nove linhas”. Ou seja, o Eneagrama. Os sábios que deram origem a este símbolo-síntese não pertenciam, ensina Gurdjieff, a nenhuma das linhas de conhecimento “tradicional” conhecidas na atualidade: nem hebraica, nem egípcia, nem iraniana, nem hindu, nem qualquer outra conhecida. A despeito de respeitáveis tradições desejarem ser os “pais da criança”, como se diz aqui no Brasil, este símbolo “não poderia ser encontrado em nenhum de seus livros”, e, embora se atribua o Eneagrama aos respeitáveis místicos sufis e suas

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

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tradições orais, por exemplo, Gurdjieff sustenta que este símbolo “não

é objeto de uma tradição oral”. Quando discute as origens do Eneagrama Gurdjieff ensina:

O ensinamento, cuja teoria expomos aqui, é completamente autôno- mo, independente de todos os outros caminhos e, até hoje [ou seja, até a data em que Gurdjieff o revelou aos seus discípulos], tinha permanecido inteiramente desconhecido. Como outros ensinamentos, utiliza o método simbólico e um de seus símbolos principais é a figura que mencionamos, isto é, o círculo dividido em nove partes.”

Observe que Gurdjieff está se referindo a um sistema de conhecimento a que ele teve acesso e no qual o Eneagrama é um, somente um, dos símbolos principais, o que significa que nesse sistema existem, ou exis- tiam, mais símbolos, alguns dos quais Gurdjieff revelou indiretamente por meio das suas exatas “Danças Conscientes”, que você pode apreciar no filme baseado em sua obra autobiográfica “Encontros com homens notáveis” dirigido por Peter Brook . A descrição que Gurdjieff faz do Eneagrama nesse mesmo capítulo

é a seguinte:

“Este símbolo toma a seguinte forma:

Figura 1

que Gurdjieff faz do Eneagrama nesse mesmo capítulo é a seguinte: “Este símbolo toma a seguinte

42

Khristian Paterhan C.

O Círculo está dividido em nove partes iguais. A figura construída sobre seis desses pontos tem por eixo de simetria o diâmetro que desce do ponto superior. Esse ponto é o vértice de um triângulo equilátero construído sobre aqueles pontos, dentre os nove, que estão situados fora da primeira figura.”

Ampliando suas explicações matemáticas sobre este símbolo, Gurd- jieff diz:

“As leis da unidade refletem-se em todos os fenômenos. O sistema decimal foi construído sobre as mesmas leis. Se tomarmos uma unidade como uma nota que contém em si mesma uma oitava inteira, devemos dividir essa unidade em sete partes desiguais correspondentes às sete notas dessa oitava. Mas, na representação gráfica, a desigualdade de partes não é levada em consideração e, para a construção do diagra- ma, toma-se primeiro um sétimo, depois dois sétimos, depois três, quatro, cinco, seis e sete sétimos. Se calcularmos as partes decimais, obteremos:

1/7

=

0,

142857

2/7

=

0,

285714

3/7

=

0,

428571

4/7

=

0,

571428

5/7

=

0,

714285

6/7

=

0,

857142

7/7 = 0, 999999

= 1

Você pode observar que, com exceção da última dízima periódica, em todas as restantes “encontram-se presentes os mesmos seis algarismos, que trocam de lugar segundo uma sequência definida; de tal modo que, quando se conhece o primeiro algarismo do período, torna-se possível

reconstruir o período inteiro”. Você também observou que nesses perío-

dos “os números 3, 6 e 9 não estão incluídos (

o triângulo separado – a trindade livre do símbolo”.

[porque eles] formam

)

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

43

Se você leitor prestou atenção à sequência definida segundo a qual os algarismos trocam seus lugares, está em condições de compreender o “movimento” que este símbolo representa, e que se conhece como “mo- vimento eneagramático externo” e se expressa por “setas” que indicam

a

direção desse “movimento” contínuo: 1 g 4 g 2 g 8 g 5 g 7 g 1 ,

e

assim por diante:

Figura 2 8 1 7 2 5 4
Figura 2
8
1
7
2
5
4

Aqui o triângulo equilátero é considerado como uma “unidade” e os 6 “pontos” (1, 4, 2, 8, 5 e 7) lembram a “Lei de Sete” ou “Lei de Oitava” (6 + 1 = 7).

44

Khristian Paterhan C.

Os números 3, 6 e 9 ficam nos vértices do triângulo e seu “movi- mento”, conhecido como “interno”, é: 9 - 6 - 3 - 9 - 6 - 3, etc. e são indicados com as “setas” correspondentes:

Figura 3

são indicados com as “setas” correspondentes: Figura 3 Estas indicações preliminares serão importantes quando

Estas indicações preliminares serão importantes quando considerar- mos os Tipos Eneagramáticos e seus movimentos psicológicos contra e/ ou a favor da seta de acordo com seu “Traço ou Defeito Principal”. Ouspensky deixou registrado também que “Gurdjieff voltou ao Eneagrama em múltiplas ocasiões”.

é necessário compreender

que o Eneagrama é um símbolo universal. Qualquer ciência tem seu lugar no Eneagrama e pode ser interpretada graças a ele. E, sob este

aspecto, é possível dizer que um homem só conhece realmente, isto é, só compreende aquilo que é capaz de situar no Eneagrama. O que não

é capaz de situar no Eneagrama, não compreende. (

) Se um homem

isolado no deserto traçasse o Eneagrama na areia, nele poderia ler as leis eternas do universo. E cada vez aprenderia alguma coisa nova, alguma coisa que ignorava até então.”

O Eneagrama é o movimento perpétuo, é esse perpetuum

mobile que os homens buscaram desde a mais remota antiguidade, sem- pre em vão. E não é difícil compreender por que não podiam encontrá-

Numa dessas ocasiões revelou que: “(

)

E mais: “(

)

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

45

lo. Buscavam fora de si o que estava dentro deles (

desse símbolo e a capacidade de utilizá-lo dão ao homem um poder

muito grande ( ).” Gurdjieff também diz: “(

A ciência do Eneagrama foi mantida se-

creta durante muito tempo e, se agora, de certo modo, está sendo tornada

acessível a todos, é apenas sob uma forma incompleta e teórica, pratica- mente inutilizável para quem não tenha sido instruído nessa ciência por um homem que a possua. Para ser compreendido, o Eneagrama deve ser pensado como em movimento, como se movendo. Um Eneagrama fixo é um símbolo morto; o símbolo vivo está em movimento.” Um dos “movimentos” do Eneagrama tem relação com os aspectos dinâmico-psicológicos que diferenciam os seres humanos uns dos outros como já foi mostrado. É sobre esse “movimento” que tratamos neste livro à luz dos ensinamentos de Gurdjieff.

) A compreensão

)

A aplicação psicológica do Eneagrama nos ensinamentos de Gurdjieff

OS TRÊS CENTROS BÁSICOS: Como profundo conhecedor do Eneagrama, G. I. Gurdjieff baseou todo o seu método de desenvolvimento humano na aplicação deste símbolo milenar e nas leis das quais ele é a síntese: a “Lei de Sete” e a “Lei de Três”. Baseado na “Lei de Três” presente no Eneagrama, ele dividia o ser humano, para facilitar o estudo e a compreensão de si mesmo, em três níveis ou “centros” básicos: Centro Intelectual, Centro Emocional e Cen- tro Motor. Como lembra Ouspensky, “tentava inicialmente ensinar-nos a distinguir essas funções, a encontrar exemplos e assim por diante”.

46

Khristian Paterhan C.

No Eneagrama esses “centros” têm a seguinte localização:

Figura 4

Centro Motor ou Centro do Movimento

9

88 11 77 22 6 3 55 44
88
11
77
22
6
3
55
44

Centro

Centro

Intelectual

Emocional

Você pode observar como, para cada Centro, existe uma manifestação eneagramática “tripla” e um correspondente vértice do triângulo central. Os números associados ao Centro Motor são: 8, 9 e 1; os associados ao Centro Emocional são 2, 3 e 4; e, finalmente, os associados ao Centro Intelectual são 5, 6 e 7. A localização dos Centros como se vê no gráfico não é aleatória. Obe- dece a uma ordem exata, revelada por Gurdjieff a seus alunos e que foi preservada por Ouspensky no Capítulo IX da obra citada. Não tratarei deste tema aqui por sua complexidade e porque só costumo falar sobre ele com quem já tem um certo tempo de prática com o Eneagrama.

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

47

Figura 5

Centro

do Movimento

HCI
HCI

HCD

Pé esquerdo

Pé direito

Mão esquerda

Mão direita

(Centro Intelectual)

(Centro Emocional)

Relação dos Três Centros com nossa Bilateralidade Cerebral e os Três Cérebros

Antes de continuar, vou apresentar aqui uma nova visão do Eneagrama, que chamo de “O Eneagrama Invertido”. Ao contrário do que geralmente se divulga, descobri que no Eneagrama devemos observar o ser humano ao contrário (Figura 5): ou seja, no Centro Físico ou do Movimento (Pontos 8,9,1), localizamos o sistema diges- tivo, o reprodutor e pernas; no Centro Intelectual o lado esquerdo do corpo até o umbigo, abarcando os órgãos desse lado do corpo e o braço e mão esquerda (Pontos 6 e 7); e no Centro Emocional o lado

direito do corpo até o umbigo, os órgãos desse lado do corpo e braço

e mão direita (2,3). Por último, nos Pontos 4 e 5 devemos imaginar

a cabeça, o cérebro, suas partes e hemisférios cerebrais: no Ponto 5

o Hemisfério Cerebral Esquerdo (HCI) e no Ponto 4 o Hemisfério Cerebral Direito (HCD).

48

Khristian Paterhan C.

De acordo com o princípio de bilateralidade cerebral o Hemisfério Ce- rebral Esquerdo rege o lado direito do ser humano (Centro Emocional) e o Hemisfério Cerebral Direito rege o lado esquerdo do ser humano (Centro Intelectual). Daí a importância do desenvolvimento harmonioso dos três Centros, já que, uma das questões mais descuidadas na educação é a do desenvolvimento das faculdades do Hemisfério Cerebral Direito, relacio- nado com o Centro Emocional no Eneagrama, e, uma supervalorização do desenvolvimento das faculdades relacionadas ao Hemisfério Cerebral Esquerdo, ligado ao Centro Intelectual no Eneagrama, e, um descuido quase total com o desenvolvimento do Centro Físico ou do Movimento relacionado, em parte, aos nossos instintos. Gurdjieff dava extrema im- portância ao desenvolvimento equilibrado de todos os Centros como única maneira de formar um ser humano mais harmonioso, já que, segundo ele somos seres TRICEREBRAIS ou de Três Cérebros. Estes são:

1. O Reptiliano: relacionado com o Centro Físico da AÇÃO e ATIVI- DADE e com os Pontos 8, 9 e 1 do Eneagrama Invertido.

Este Centro está conectado principalmente com o Cerebelo, camada do nosso cérebro que temos em comum com os répteis e mamíferos

e que é responsável por nossas manifestações instintivas tais como a sobrevivência (Ponto 9 do Eneagrama) , com a reprodução, a luta e com nossa necessidade de poder e de hierarquias (Ponto 8 do Enea- grama) e com hábitos, condicionamentos e rotinas (Ponto1).

2. O Límbico: relacionado com o Centro Emocional e com os nossos

sentimentos e aos Pontos 2, 3 e 4 do Eneagrama Invertido. Esta ca- mada do cérebro presente também nos mamíferos, inclui o Tálamo

e Hipotálamo e se relaciona ao controle do comportamento e do sistema nervoso autônomo.

3. O Neocórtex: relacionado ao Centro Intelectual e aos Pontos 5, 6, 7 do Eneagrama Invertido. Esta camada do cérebro que compartilha- mos com os mamíferos superiores é considerada subjetivamente a

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

49

mais “evoluída” e esta relacionada com nossa capacidade de racioci- nar (Ponto 5 do Eneagrama Invertido), com a chamada “linguagem simbólica” (Ponto 6 do Eneagrama Invertido) e com a linguagem conceitual e verbal. Como possui neurônios altamente especializados que possibilitam ao ser humano a realização de múltiplas tarefas si- multâneas (Ponto 7 do Eneagrama), este terceiro cérebro é chamado de “centro da inteligência” ou “cérebro inteligente”.

Todos possuímos estes Três Cérebros ou Centros, porém, um deles é predominante em nossas vidas e atividades. Por esta razão, a divisão básica do ser humano em Três Centros é muito importante no estudo do Eneagrama. Compreendendo-a, é possível apreender uma segunda divisão de Gurdjieff, maior, mas pouco conhecida, cujo profundo valor sequer se suspeita, tendo a maioria se limitado a repetir o que Ouspensky escreveu a respeito. Refiro-me aos Três Grupos de Seres Humanos Básicos e aos Quatro Grupos de Seres Humanos que correspondem a níveis superiores de evolução consciente. Note-se que novamente estão presentes aqui as Leis de Três e de Sete. Vejamos.

Os Três Grupos de Seres Humanos Básicos e os Quatro Grupos Superiores de Seres Humanos, segundo G. I. Gurdjieff

Gurdjieff ensinava que existem Três Grupos de Seres Humanos Bási- cos, os dos “Homens número Um”; “Homens número Dois” e “Homens número Três”, que não devemos confundir com os números dos Tipos 1,2, 3 Eneagramáticos e seus Traços Principais. Para ele os Grupos de Seres Humanos “Um, Dois e Três constituem a humanidade mecânica; na qual os seres humanos permanecem no nível em que nasceram”. Só poderiam ascender a um nível superior de consciência mediante um trabalho perseverante de autoconheci- mento que objetivasse a evolução individual, por meio das escolas conectadas com o que Gurdjieff chamava “Círculo Consciente da Humanidade”.

50

Khristian Paterhan C.

Os seres humanos do Grupo número Um correspondem no “Eneagra- ma dos Traços Principais” aos Tipos 8, 9 e 1 e, segundo Gurdjieff, teriam

o “centro de gravidade de sua vida psíquica no Centro Motor”. Seriam os

homens “do corpo físico, em quem as funções do instinto e do movimento predominam sobre as do sentimento e do pensar”. Estes aprendem por

imitação, por memorização e por repetição. (Reptiliano) Os seres humanos do Grupo número Dois correspondem no “Eneagrama dos Traços Principais” aos Tipos 2, 3 e 4 e, segundo

Gurdjieff, seriam aqueles nos quais o “centro de gravidade de sua vida psíquica está no Centro Emocional, e, [o ser humano] em quem

as funções emocionais predominam sobre as outras é [o ser humano]

do sentimento, [o ser humano] emocional”. Aprendem somente o que lhes “agrada”, o que “gostam”. Quando sadios procuram tudo

o que lhes “agrada”; quando “doentios” são atraídos para o que os “desagrada”. (Límbico) Os seres humanos do Grupo número Três correspondem no “Enea-

grama dos Traços Principais” aos Tipos 5, 6 e 7 e, segundo Gurdjieff,

é o tipo de ser humano “cujo centro de gravidade da sua vida psíquica

está no Centro Intelectual, noutros termos, é [o ser humano] em quem

as funções intelectuais predominam sobre as funções emocionais,

instintivas e motoras; é o [ser humano] racional, que tem uma teoria para tudo o que faz, que parte sempre de considerações mentais [ ]

O saber [dos seres humanos Três] é um saber fundado num pensar

subjetivamente lógico, em palavras, numa compreensão literal [ (Neocortex) Naturalmente, para cada aspecto predominante, existem outros dois, só que com menor poder de influência e desenvolvimento. Para “visua- lizar” esta divisão da humanidade, fiz o seguinte gráfico:

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

51

Figura 6

Centro Motor Seres Humanos do Grupo número Um de Gurdjieff Tipos Eneagramáticos 8, 9 e 1

9

88 11 77 22 6 3 55 44
88
11
77
22
6
3
55
44

Centro

Centro

Intelectual

Emocional

Centro Intelectual / Seres Humanos do Grupo número Três de Gurdjieff / Tipos Eneagramáticos 5, 6 e 7

Centro Emocional / Seres Humanos do Grupo número Dois de Gurdjieff / Tipos Eneagramáticos 2, 3 e 4

Além destes Três Grupos de Seres Humanos Básicos, Gurdjieff definia um grupo de Seres Humanos Intermediários (ou seja, que estão iniciando um processo de evolução consciente) e três Grupos de Seres Humanos Superiores, produtos de uma evolução deliberada, consciente e gradual, fruto de um conhecimento exato relacionado com o desenvolvimento objetivo de novos níveis de consciência e nos quais os Três Centros estão em equilíbrio, permitindo, a partir do quinto nível evolutivo, a manifestação plena do que ele chamava de “Centros Superiores”, que existem só potencialmente nas primeiras três categorias “mecânicas”, e com alguns sinais básicos de manifestação na quarta categoria. Ao ser humano do Grupo número Quatro Gurdjieff o definia como aquele que, tendo nascido nos Grupos Psicológicos Um, Dois ou Três, conhece um sistema de trabalho interno, que lhe permite desenvolver

52

Khristian Paterhan C.

nele “um centro de gravidade permanente feito de suas ideias, de sua apreciação do trabalho (interno) e de sua relação com a escola (na qual aprende a realizar esse trabalho de autoconhecimento). Além disso, seus centros psíquicos já começaram a se equilibrar; nele, um centro não pode mais ter preponderância sobre os outros, como é o caso das três primeiras categorias”. Gurdjieff completa dizendo que este tipo de ser humano, diferentemente dos que pertencem aos três primeiros Grupos, “já começa a se conhecer, começa a saber para onde vai”. Sobre os seres humanos das categorias Cinco, Seis e Sete (repito, não confundir com os Tipos 5, 6 e 7 do Eneagrama), Gurdjieff se refere apenas ao tipo de saber que desenvolvem com as seguintes palavras citadas por Ouspensky:

“O saber do homem [do Grupo] número Cinco é um saber total

Possui um Eu indivisível e todo o seu conhecimento

e indivisível [

pertence a esse Eu. Não pode mais ter um ‘eu’ que saiba alguma coisa sem que outro ‘eu’ esteja informado disso. O que ele sabe, sabe com

a totalidade de seu ser. Seu saber está mais próximo do saber objetivo

[lembra o que já revelamos sobre o conhecimento objetivo anteriormen- te?] do que pode estar o do homem número Quatro.O saber do homem [do Grupo] número Seis representa a integralidade do saber acessível ao

homem; mais ainda pode ser perdido. O saber do homem [do Grupo] número Sete é bem dele e não lhe pode mais ser tirado; é o saber objetivo

e totalmente prático (ou seja, vivencial, não teórico) de Tudo.” Em seguida e para reflexão dos conhecedores do Quarto Caminho e interessados no autoconhecimento e na evolução “espiritual” da hu- manidade, deixo um insight que tive em relação a estes ensinamentos e que resumi no seguinte “Eneagrama da evolução possível do homem” da minha autoria, para cuja confecção apliquei o Princípio Hermético de Correspondência, a Lei de Três e a Lei de Sete. 4

].

4 Sobre o “7 Princípios Herméticos” consultar minha obra Iniciação e Autoconhecimento:

Um Guia para o seu Despertar Espiritual.

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

53

Figura 7

9. Círculo Interno da Humanidade Triângulo interno. Nível dos ‘’Três em Um’’ ou da Tri-Unidade.
9. Círculo Interno
da Humanidade
Triângulo interno.
Nível dos ‘’Três em Um’’
ou da Tri-Unidade.
Seres humanos do
Grupo 7. (Possuidores
de consciência
objetiva. Realizados).
desvios no processo.

Nível da possível evolução humana (Consciência de si e Consciência objetiva)

Nível da consciência subjetiva (Humanidade “mecânica”)

Seres humanos do Grupo Quatro (em desenvolvimento da cons-

8.

ciência de si). Os três centros inferiores iniciam o processo de equlíbrio. Necessidade de superesforços para manter o processo em andamento.

1. Seres humanos dos Grupos Um, Dois e Três. – Níveis físico, emocional e intelectual em desequilíbrio. Visão parcial e sub- jetiva da realidade e do mundo. Tipos Eneagramá- ticos não trabalhados. Traços Principais são desconhecidos e dominam suas manifes- tações egóicas (Humanidade mecânica de Gurdjieff).

2. Seres humanos cujos processos de autoconhecimento começam a ter resultados objetivos e de- monstram maior controle de seus Traços Principais. Geralmente já estão em contato com Escolas preparatórias corretas, mas ainda podem sofrer “desvios”.

7. Seres humanos do Grupo Seis (plena consciência de si, centros superiores atualizados e completando o nível de cons- ciência objetiva).

6. Mestres visíveis. Segundo Ponto de choque consciente.

3. Escolas Iniciáticas (ou Prepara- tórias) de 1º, 2º, 3º e 4º Caminhos. Primeiro Ponto de choque consciente para a evolução.

Seres humanos do Grupo Cinco. Maior desenvolvimento da

consciência de si e iniciando o desenvolvimento da consciência objetiva. Três Centros em equilíbrio. Iniciam Atualização dos Cen- tros Superiores.

5.

4. Seres humanos que desejam conhecer a si mesmos e iniciam processos de autoconhecimento e de elevação de seus níveis de consciência subjetiva, através de leituras, métodos de auto-ajuda, terapias, análises de diversas linhas, métodos e sistemas diversos; por meio de instituições e/ou grupos místicos, fraternais, religiosos, esotéricos, sectários etc, de acordo com o Grupo humano a que pertencem e a seus Traços Principais. Grandes riscos de erros e

54

Khristian Paterhan C.

A importância do estudo prático e vivencial do Eneagrama para o autoconhecimento

É fácil observar no gráfico anterior (Figura 7) como são importantes o estudo e o conhecimento de si mesmo por meio do Eneagrama, já que, teoricamente, nos podem conduzir a níveis de desenvolvimento muito elevados. Iniciar um processo de autoconhecimento implica, primeiramen- te, perceber e aceitar que vivemos sujeitos a um nível de consciência subjetivo e “mecânico” e que fazemos parte de um desses três grupos psicológicos básicos de seres humanos ensinados por Gurdjieff. Em segundo lugar devemos compreender que o único meio para nos livrar- mos dessa “mecanicidade” passa necessariamente por um processo de aprimoramento que não pode ser improvisado e que deverá incluir o desenvolvimento harmonioso dos Três Centros (Físico, Emocional e Intelectual). Enquanto não soubermos o que implica tudo isso, não será possível compreender por que é fundamental o Eneagrama para iniciar este processo objetivamente. Muitas pessoas iniciam seus primeiros esforços em busca do autodo- mínio e do autoconhecimento estimuladas pela expectativa dos sonhados benefícios espirituais, materiais e individuais que isso lhes poderá propor- cionar. Porém, as diversas razões pelas quais uma pessoa deseja ter maior domínio e conhecimento de si mesma podem claramente ser diferenciadas e definidas quando sabemos a qual dos grupos principais ela pertence como ser humano. É fácil comprovar que existem motivações básicas bem diferentes. Pessoas do Grupo Um (Centro Motor) talvez desejem obter maior poder pessoal, maior controle das situações e dos demais, maior domínio de si mesmas, objetivando “resultados materiais”. Pessoas do Grupo Dois (Centro Emocional) querem lidar e interagir melhor com as pessoas em termos emocionais, querem aprender a controlar suas emoções e as das outras pessoas, querem ampliar suas possibilidades de servir aos outros com sucesso já que isto as satisfaz e realiza. Por último, pessoas do Grupo Três (Centro Intelectual) querem saber quais são as causas e as leis que governam seus mundos internos, querem conhecer

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

55

as causas pelas quais os fenômenos acontecem, querem ter os conheci- mentos que lhes permitam compreender a vida e a si mesmas, ou seja,

talvez queiram apenas “saber”. Naturalmente, em todas elas, algo das motivações que influenciam com maior força os outros dois grupos aos quais não pertencem, está presente, ainda que em menor grau. A razão

é que em todos os três Grupos é possível perceber um desenvolvimento

psicológico unilateral, pelo qual um dos Centros se tornou mais “sensí- vel” que os outros aos “estímulos externos” e “interpreta” a realidade

a partir de “necessidades” e “motivações” diferentes. O que dificulta o estudo prático de si mesmo é o fato de as pessoas não se darem conta do que implica ser parte de uma humanidade me-

cânica ou que vive num baixo nível de consciência. Em primeiro lugar, no nível de consciência habitual ou subjetivo, o ser humano não é realmente “livre”. Gurdjieff ensina que nesse nível o ser hu- mano não faz, tudo simplesmente lhe acontece. É muito difícil compreender

e aceitar esta afirmação porque todos achamos que “fazemos” e que somos

“livres”. Só que, falando em termos estritos, nenhum ser humano nos três Grupos (Físico, Emocional e/ou Mental) poderia considerar que suas con- dutas, modos de agir e/ou reagir perante a existência são “conscientemente” escolhidos ou mesmo originais, já que todos os que integram esses grupos agem e reagem pelas mesmas causas básicas. Esta é uma das verdades mais provocantes que o Eneagrama nos permite “descobrir”. O único meio de que dispomos para nos livrarmos dessa “mecani- cidade” é conhecer como ela se manifesta em cada um de nós, ou seja, quais são essas características mecânicas e previsíveis que acompanham essa nossa determinada e “mecânica” manifestação pessoal. É aqui que

o Eneagrama dos Traços ou Tipos Principais se torna valioso, porque por meio dele conseguiremos saber:

1. Qual é o Grupo (Um, Dois ou Três) ao qual pertenço como ser hu- mano no nível “mecânico”.

2. Qual é o Traço ou Defeito Principal (são três para cada grupo), no qual devo concentrar meus esforços de observação, lembrança e

56

Khristian Paterhan C.

autocontrole para superá-lo e conseguir efetivamente o real conhe- cimento de mim mesmo.

3. Qual o trabalho específico, relacionado com meu grupo e Traço Principal, que me ajudará a aprimorar meu autoconhecimento e autodomínio, e, a partir daí, ter a possibilidade de passar para o 4to Tipo de seres humanos.

Vamos, então, conhecer o Eneagrama dos Traços ou Tipos e suas três causas principais.

O Eneagrama dos Nove Traços (Tipos) principais segundo Gurdjieff

Gurdjieff costumava usar uma linguagem muito exata para transmitir seus conhecimentos, de tal maneira que seus conceitos podem ser muito bem identificados e diferenciados por alguém que estude e reflita sobre sua obra com atenção. Isso me permitiu realizar a análise eneagramática dos mesmos e definir explicitamente o Eneagrama dos Traços Principais implícitos nas obras de Gurdjieff e Ouspensky. Baseado nesta experiência e comparando essas observações com os estudos e descobertas eneagra- máticos feitas por Ichazo e Naranjo, segundo foram revelados, pesqui- sados e comentados nas obras do próprio Naranjo, e de autores como Don Richard Risso, Helen Palmer, David Daniels e outros pesquisadores do tema, pude, ao longo do tempo, concluir que, eneagramaticamente falando, os Três Problemas Fundamentais e Nucleares que segundo Gurdjieff impedem o autoconhecimento e a realização humana são:

1. O Esquecimento de Si Mesmo

2. A Consideração Interna

3. A Identificação

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

57

Destes três problemas principais, que podemos e devemos associar aos Três Grupos Humanos Básicos, surgem os seguintes Traços Principais:

Do Primeiro Grupo: associado ao Esquecimento de Si Mesmo, questão nuclear que afeta os seres humanos Tipos 8, 9 e 1, cujo centro de gravidade psicológico está localizado no Centro Motor ou do Mo- vimento, surgem:

a) Os seres humanos que se caracterizam por um constante estado de luta e defesa contra tudo o que parece estar contra eles, revoltados, sempre acham que alguma “injustiça” está sendo cometida contra eles, ou seja, os Tipos 8.

b) Os seres humanos proteladores e esquecidos de si mesmos que se caracterizam por sofrer do que Gurdjieff chamava de a “doença do amanhã”, ou seja, os Tipos 9.

c) Os seres humanos que se caracterizam por uma forte inclinação a separar as coisas em “boas” e “más”, “corretas” e “incorretas”, “certas” e “erradas”, ao que Gurdjieff denominava a “Moral Ex- terna” ou “moral subjetiva”, ou seja, os Tipos 1.

Figura 8

Grupo Um dos seres humanos / Centro Motor ou do Movimento / Tipos 8, 9 e 1.

Questão Nuclear: Esquecimento de Si Mesmo / Traços ou Defeitos Principais:

A “revolta” (8) A “Doença do amanhã” (9) e a “Moral Externa ou subjetiva” (1).

9 8 1
9
8
1

58

Khristian Paterhan C.

Do Segundo Grupo: Da Identificação, questão nuclear que afeta os seres humanos Tipos 2, 3 e 4 e cujo centro de gravidade psicológico está localizado no Centro Emocional, surgem:

a) Os seres humanos que se caracterizam por acreditar que não con- sideram os outros o suficiente, que não dão o suficiente de si e que se tornam escravos dos outros quando amam, ou seja, os Tipos 2. Identificados com as emoções alheias.

b) Os seres humanos que se caracterizam por suas “exigências”, ou seja, que exigem admiração, estima e consideração constante dos outros para que se sintam agradados e felizes, ou seja, os Tipos 3. Identificados com a “imagem” necessária para obter a consideração alheia.

c) Os seres humanos que sofrem “tolamente”, aqueles para os quais o “sofrimento inconsciente” se tornou uma escravidão, ou seja, os Tipos 4. Identificados com seus próprios “sofrimentos”.

Figura 9

Grupo Dois dos seres humanos / Centro Emocional / Tipos 2, 3 e 4.

Questão Nuclear: Identificação / Traços ou Defeitos Principais:

“Amor escravo” (2).

A

“Exigência” de atenção (3)

e

o “Sofrimento tolo” (4).

2 3 4
2
3
4

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

59

Do Terceiro Grupo: Da Consideração Interna, questão nuclear que afeta os seres humanos Tipos 5, 6 e 7 e cujo centro de gravidade psico- lógico está localizado no Centro Intelectual, surgem:

a) Os seres humanos que só vivem “pelo mental”, que aprendem sem compreender, ou seja, os Tipos 5.

b) Os seres humanos que estão sob o controle do “medo” e/ ou que “dei- xam de ver e ouvir o que realmente acontece”, ou seja, os Tipos 6.

c) Os seres humanos que têm a ilusão de serem “livres”, que acham que possuem “vontade própria” para “escolher, dirigir e organizar livremente suas vidas”, que se acham “notáveis”, “originais”, ou seja, os Tipos 7.

Figura 10

Grupo Três dos seres humanos / Centro Intelectual / Tipos 5, 6 e 7.

Questão Nuclear: Consideração Interna / Traços ou Defeitos Principais: “Viver no mental (5).

O “Medo” (6) e a “Falsa liberdade” (7).

7 6 5
7
6
5

60

Khristian Paterhan C.

Definições de Gurdjieff consideradas para o estudo dos Traços (defeitos) Principais

Definição dos três problemas nucleares: Esquecimento de Si Mes- mo, Identificação e Consideração Interna e sua relação com os Tipos Eneagramáticos:

Gurdjieff permanentemente chamava a atenção dos seus alunos para os três problemas nucleares. Para ele, era fundamental que todos conseguissem observá-los em si mesmos, como um meio para alcançar a consciência de si. Sendo “nucleares”, afetam todos os Tipos Eneagra- máticos, porém aquele relacionado com o grupo ao qual você pertence, deve ser considerado com maior atenção. Sendo meu interesse principal destacar a obra e os ensinamentos deste mestre, cito as principais definições que ele deixou destes três problemas nucleares:

Sobre o eSquecimento de Si meSmo:

o homem se esquece de si mesmo sem cessar. Sua

impotência em lembrar-se de si é um dos traços mais característicos de seu ser e a verdadeira causa de todo o seu comportamento ” Também podemos ler: “Vocês se esquecem sempre de si mesmos, vocês nunca se lembram de si mesmos. Vocês não sentem a si mesmos; vocês não são conscientes de si mesmos. Em vocês, isso observa, ou então isso fala, isso pensa, isso ri; vocês não sentem: sou eu quem observa, eu observo, eu noto, eu vejo. Tudo se observa sozinho, se vê sozinho Para chegar a observar verdadeiramente, é necessário, antes de tudo, lembrar-se de si mesmo.” Embora sirva para todos, por se tratar de um ponto nuclear que afeta todos os Tipos e se manifesta em todos os Defeitos ou Traços Principais, esta recomendação se reveste de especial importância para os Tipos 8, 9 e 1, os quais deverão considerá-la especialmente. Por quê? Porque, por exemplo, quando Tipos 8 se fixam demais na conquista do externo,

Gurdjieff dizia: “

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

61

“esquecem” do valor de seus mundos internos; quando Tipos 9 deixam de se importar com suas necessidades e protelam aquelas ações que os beneficiam pessoalmente, estão demonstrando o “esquecimento” de si mesmos, e quando Tipos 1 se preocupam demais com as “formalida- des” e com a “ordem”, “esquecem” de considerar as coisas sob outros ângulos e, também, “esquecem” que existem várias maneiras de realizar os mesmos objetivos. P. D. Ouspensky escreve a respeito o seguinte:

“Dizia que um fato de prodigiosa importância escapara à psicologia ocidental, ou seja: que não nos lembramos de nós mesmos, que vivemos, agimos e raciocinamos dentro de um sono profundo, dentro de um sono

que nada tem de metafórico, mas é absolutamente real; e, no entanto, que podemos nos lembrar de nós mesmos, se fizermos esforços suficientes; que podemos despertar.” A lembrança de si mesmo é a chave que nos permite compreender que não somos nossas “máscaras” (personalidades), que elas não são

o ser real e que é possível observar nosso “traço ou defeito principal” compreendendo que podemos chegar a transmutá-lo em seu oposto “virtuoso”.

Sobre a identificação:

uma das características fundamentais da

atitude do homem para consigo mesmo e para com os que o rodeiam [é] sua constante identificação com tudo o que prende sua atenção, seus

pensamentos ou seus desejos e sua imaginação. A Identificação é um traço tão comum que, na tarefa da observação de si, é difícil separá-la do resto. O homem está sempre em estado de identificação; apenas muda

o objeto de sua identificação”. Assim como acontece com o Esquecimento de Si Mesmo, a Identifi- cação, como aspecto “nuclear” (Ponto 3 do Eneagrama), afeta todos nós

e, como diz Gurdjieff, quando iniciamos a observação de nós mesmos,

Gurdjieff dizia que “

62

Khristian Paterhan C.

3 e 4, os quais deverão trabalhar sobre este aspecto com mais atenção. Exemplos: a) a “Identificação” leva Tipos 2 a ficarem “escravos” daquilo e/ou daqueles que amam transformando-os em “seres para”, o que, num momento determinado, pode angustiá-los; b) leva Tipos 3 a ficarem “escravos” dos “bons desempenhos”, dos “triunfos”, da “imagem de sucesso”, o que lhes provoca a perda do “contato” com seus sentimen- tos e necessidades mais profundos; finalmente, a “Identificação” com vivências passadas ou com desejos ou esperanças futuras leva Tipos 4

a serem “escravos” das lembranças ou dos desejos e, portanto, a não

estarem emocionalmente felizes no momento “presente”, nem perceber

o que esse “presente” tem de bom. Gurdjieff sustenta que o único modo de superar a identificação é

aprendendo a desidentificar-se, já que somente desta maneira se poderá

para aprender a não se identificar,

o homem deve, antes de tudo, não se identificar consigo mesmo, não

chamar a si mesmo de ‘eu’, sempre e em todas as coisas. Deve lembrar-se

conseguir a “lembrança de si”: “

de que existem dois nele, que há ele mesmo, isto é, um ‘eu’ (o verdadeiro ser, o observador) e o outro (a máscara, o falso eu), com quem deve lutar

e a quem deve vencer se quiser alcançar alguma coisa. Enquanto um

homem se identifica ou é suscetível de identificar-se, é escravo de tudo

o que lhe pode acontecer. A liberdade significa antes de tudo: libertar-se da identificação”.

Sobre a conSideração interna:

Considerar tem sua origem no latim considerare e, segundo os di- cionários, significa entre outras coisas: atender a, atentar para; pensar em; meditar, ponderar, examinar, imaginar, conceber, julgar, refletir em alguma coisa. Todos estes sentidos “intelectuais” devem ser relaciona- dos na definição que Gurdjieff faz da “consideração interna”, ou seja, um pensar, refletir, examinar, imaginar, somente voltado ao sujeito que considera e relaciona tudo apenas com suas “necessidades”. Não existe um pensar “considerando o que está fora” do sujeito, ou seja,

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

63

considerando as pessoas, as situações, as necessidades, os sentimentos e estados de ânimo dessas pessoas, desses outros. A consideração interior é como um muro que nos separa da realidade tal qual ela é. A consideração interna não nos permite agir de acordo com as mudanças, as nuances, apenas podemos enxergar nossas “ideias”, nossas “opiniões”, nossos “medos”. Na consideração interior também existe uma “projeção” ao exterior daquilo que eu sinto, penso ou acho de uma situação dada. Na filosofia Vedanta Advaita, se diz que um dos poderes de “Maia” é fazer as coisas aparecerem como elas não são e se conta, como exemplo, a história de um sujeito que vem caminhando à noite por uma estrada escura. Está ventando muito, então, de repente, ele vê uma serpente se movendo alguns metros adiante e se arma com um pau para se defender do provável ataque. Fica tenso, perde muita energia pelo seu grande temor de ser mordido pela serpente. Avança com cuidado. A serpente parece estar muito agitada. Porém quando chega perto da serpente e está totalmente esgotado de tanto temor, tremendo e suando, percebe que ela não existe, que era um galho que, movido pelo vento e devido à noite escura, parecia uma serpente. Isto é a consideração interna: uma incapacidade de ver, sentir e pensar nas coisas apenas tal qual elas são. Gurdjieff ensina a respeito que:

“Temos duas vidas, uma interior e outra exterior; por conseguinte, temos duas espécies de consideração. Nós ‘consideramos’ constantemen- te.” Então, ele dá um exemplo: “Uma pessoa me olha. Interiormente,

exteriormente sou cortês. Sou forçado a ser

cortês, pois preciso dela. Isso é consideração exterior. Agora ela diz que

sinto antipatia por ela (

)

sou um imbecil. Isso me enfurece. O fato de estar enfurecido é um re- sultado, mas o que isso provoca em mim é proveniente da consideração interior.” A consideração interior, por ser um dos pontos nucleares (Ponto 6), também é algo que devemos aprender a controlar, porque afeta todos os Tipos Eneagramáticos. Porém os Tipos 5, 6 e 7 deverão prestar maior atenção a esta questão. Por exemplo, Tipos 5 tendem a se isolar porque lhes é difícil “comunicar-se”, “interagir” e “inter-relacionar-se” com os demais, por estarem sempre “considerando internamente”, ou seja,

64

Khristian Paterhan C.

pensando que algumas pessoas são “muito superficiais”, que outras “podem comprometê-lo”, outras podem ter “intenções ocultas” e assim por diante, o que os leva a criar barreiras entre eles e os outros. Os Tipos 6 “consideram internamente” a partir de seus temores, de seus medos, imaginam situações perigosas ou difíceis de resolver e vivem essas supo- sições como se fossem reais. Já os Tipos 7 vivem “planejando” coisas no “plano mental”, às vezes totalmente “fora da realidade”, o que os pode levar a cometer certas irresponsabilidades que acabam afetando outros. Tudo isto porque apenas “consideram internamente” e não percebem que seus atos, que julgam “importantes”, podem afetar negativamente os outros. Gurdjieff afirma que esta “consideração interna” é produto de uma educação que só se preocupa com o desenvolvimento do Centro Intelectual. Ele diz que “não educamos nada além de nosso intelecto” e que o caminho para a consideração externa é o desenvolvimento correto do Centro Emocional, o qual compara com um “cavalo” que só apren- deu duas palavras “direita” e “esquerda”, ou seja, “simpático/odioso, agradável/desagradável”, etc. Um de seus conselhos era: “Devemos parar de reagir interiormente. Se alguém for grosseiro conosco (por exemplo), não devemos reagir internamente.” E acrescenta algo que, com certeza, Tipos 5, 6 e 7 apreciam demais: “Aquele que conseguir isso será mais livre.” Porém nos adverte que “isso é muito difícil.” Para Gurdjieff conseguir considerar tudo “externamente sempre e internamente nunca” era tão importante que um dos aforismos inscritos no toldo do Study House, no Prieuré (França), dizia assim:

“O melhor meio de ser feliz nessa vida é poder considerar externa- mente sempre – internamente nunca.”

Para além dos Nove Traços ou Tipos Principais. A questão dos “eus”. O Eneagrama e o nosso mundo interno

Após transcrever os exatos “retratos” psicológicos que Gurdjieff fazia dos tipos humanos, gostaria de compartilhar com você uma outra questão. Muitos me perguntam: Por que é que Gurdjieff não definiu

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

65

um Eneagrama dos Traços Principais explicitamente? Porque falava deles de um modo geral, de maneira que todos tinham que observar em si mesmos o modo pelo qual esses Traços/Tipos Principais se manifes- tavam, tendo que hierarquizá-los com respeito ao que, em cada caso particular, era o “principal”. Preferia, em algumas ocasiões, ele mesmo mostrar (e às vezes de forma bastante rude) qual era o Traço Principal de alguns de seus discípulos para que eles aprimorassem a observação e lembrança de si. Gurdjieff gostava de “pisar nos calos favoritos das pessoas”, ou seja, “provocar” a identificação do Traço/Tipo Principal de uma maneira que as pessoas se sentissem “chocadas” ao se aperceber de suas condutas mecânicas. Como observa muito corretamente Claudio Naranjo “( ) Gurdjieff explorou sua injunção ao insight e sua magistral confrontação (enquanto que) Ichazo trabalhou com o diagnóstico ( Logicamente, como Tipo 8 que Gurdjieff era, seu jeito “agressivo” de confrontar as pessoas com seus Traços (Tipos) Principais era para ele o mais adequado e, com certeza, conseguia “despertar” a atenção de seus alunos para a necessidade de enxergá-los sem “nenhuma piedade”. Penso também que quando ele ensina sobre os diversos “eus” que po- dem atuar na vida psíquica de um sujeito, ele se referia, de algum modo, ao fato de que todos temos, em maior ou menor grau, algo de todos os “Traços” e suas combinações, sendo que, um deles, é o mais “forte” e característico. Seus ensinamentos sobre os diversos “eus” presentes no mundo interno são um alerta para nossa falta de “unidade” interior. Citado por Ouspensky, Gurdjieff diz a respeito:

“O homem não tem ‘Eu’ individual. Em seu lugar há centenas e milhares de pequenos ‘eus’ separados, que, na maior parte das vezes, se ignoram, não mantêm nenhuma relação entre si ou, ao contrário, são

hostis uns aos outros, exclusivos e incompatíveis. A cada minuto, a cada momento, o homem diz ou pensa ‘Eu’. E a cada vez seu ‘eu’ é diferente

] [

O homem é uma pluralidade. O seu nome é legião”. 5

5 Do livro Fragmentos de um ensinamento desconhecido, de Ouspensky.

66

Khristian Paterhan C.

Visto deste ângulo, o Traço ou Tipo Principal seria, entre todos os “eus” que habitam nosso mundo interior, o “eu falso” mais forte, aquele que comanda a “máscara” /personne. Assim, por exemplo, um sujeito Tipo 8, que tem como Traço Principal seu caráter agressivo/ luxurioso, ou melhor, que se excede em tudo o que faz, também teria os outros 8 “eus” eneagramáticos e todos os “eus” resultantes das “triplas” combinações. Isso significa que, no mesmo sujeito agressi- vo, podemos achar todas as restantes características eneagramáticas

“negativas” e “positivas”. Algumas serão relativamente fortes, outras se manifestarão de maneira mais “fraca”, algumas fortalecerão o Traço Principal, outras o tornarão mais equilibrado. Algumas serão aliadas desse sujeito, outras agirão como “inimigos” internos. O que quero dizer é que, analisando o modo como Gurdjieff falava dos três problemas nucleares e o modo como descrevia os aspectos negativos das pessoas em relação aos seus diversos “eus”, cheguei à conclusão de que para ele o mais importante é que a gente perceba que todos os “traços negativos” estão presentes em nós sempre e que não devemos considerar apenas o “principal” como o alvo do nosso trabalho de observação e lembrança interior. No meu entendimento, este é o ponto mais valioso da técnica de Gurdjieff, porque nos lembra que o Eneagrama também está completo

e em movimento constante nos nossos mundos internos; que o esque-

cimento de si mesmo e os três traços decorrentes de sua manifestação afetam todos nós; que a identificação está sempre presente em nossos atos e relacionamentos, que vivemos considerando internamente sempre

e que todos os “traços” ligados a estes “núcleos” expressam a perda de contato com o Ser, com o “Eu real”, com aquilo que poderíamos cha-

mar, de acordo com as antigas tradições, o “observador silencioso”, a “testemunha”, a única capaz de ser verdadeiramente consciente porque

é a consciência. Ao mesmo tempo, considerando o assunto deste modo,

cada um de nós tem mais um elemento para a análise de si mesmo:

quais os aspectos que além do Traço Principal devemos conquistar em nós mesmos, que Tipos Eneagramáticos podem servir como exemplo do que devemos ou não fazer, o que é que podemos aprender com esses

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

67

“outros eus” que fazem parte dos nossos mapas eneagramáticos? Por acaso temos um “eu” que sofre “tolamente”? Temos um “eu” que não sabe amar? Temos um “eu” protelador? Um “eu” vaidoso? Um “eu” moralista? Um “eu” medroso? Ao mesmo tempo, e sabendo que para cada Traço ou Defeito Principal existe uma

Virtude, um Poder em potencial que podemos desenvolver e atualizar, devemos concluir necessariamente que a conquista da Virtude por trás dos nossos Traços Principais nos permitirá desenvolver positivamente

o potencial de todos os demais “eus” dos nossos mapas eneagramá-

ticos. Ainda mais, talvez, atualmente alguns desses “eus” sejam já os nossos “aliados” psicológicos e só devemos nos tornar conscientes de

suas “presenças”. A questão dos “eus” na psicofilosofia de Gurdjieff é fundamental, já que, a grande conquista interior passa necessariamente pelo controle, transmutação (ou até a “morte” de alguns deles) e governo de todos os pequenos “eus” por um único “Eu”, permanente, reflexivo

e consciente. Isto é o que torna “indivíduo” (sem divisões interiores) aquele que conquista a “máscara” ou personalidade. Enquanto o Traço Principal não for conquistado, o comando da “personalidade” ficará

a cargo de um “falso eu” e de todos os que a ele estão atrelados. Só o

profundo conhecimento de si mesmo poderá devolver o comando da personalidade ao “verdadeiro Eu”. Não vou me estender mais aqui sobre este assunto, que trato com mais profundidade na minha obra Iniciação e autoconhecimento.

Enfim, o modo gurdjieffiano de mostrar o Eneagrama dos Traços Principais apontava, na minha opinião, na direção da descoberta de todos os nossos “problemas internos”, de todos os 9 “eus” e seus “subtipos”, com o objetivo de que o conhecimento de si mesmo fosse “completo”, ou seja, que nossos Eneagramas internos se tornassem conhecidos para nós mesmos. Então, conhecer o Traço Principal é importante, não apenas como uma classificação, não apenas para repetir como “papagaio” “sou 4”, “sou 7” ou “sou 3 com asa 2”, como ouço por aí de pessoas para

as quais o Eneagrama se tornou mais uma “armadilha” que só aumenta

seu grau de “sono”. Quando nos tornamos conscientes de nosso Traço Principal e conscientes dos demais “eus” que habitam nosso complexo

68

Khristian Paterhan C.

e labiríntico mundo interior, quando podemos ser conscientes dos “eus”

que, sem ser os principais, também influenciam no “esquecimento de si mesmo”, na “identificação” e na “consideração interna”, aí então é que o Eneagrama se torna verdadeiramente valioso e supera os limites de uma mera “tipologia psicológica”. Desta forma se torna também uma ferramenta para que possamos lidar melhor com nossas “realidades” pessoais e individuais. Torna-se útil como instrumento de apoio no profissional e em nossos necessários e cotidianos relacionamentos. Graças à minha experiência no estudo e prática destes conhecimentos,

a cada dia, torna-se cada vez mais fácil para mim perceber o Traço Prin-

cipal nas pessoas e observo o quanto isso é valioso para, usando a “con-

sideração externa”, compreendê-las melhor e obter delas o que realmente quero. Pessoas que não conhecem o seu próprio Traço Principal e que não o reconhecem em outras pessoas, só conseguem resultados em seus rela- cionamentos e trabalhos por mero “acidente”, ou porque com o tempo

ficam mais sensíveis às diferenças humanas devido às suas experiências e vivências. Gurdjieff reconhece que ele próprio se tornou com o tempo um especialista em descobrir o Traço Principal nas pessoas com as quais se relacionava, não somente com objetivos “espirituais” mas também com objetivos muito “concretos”. Em sua última obra, A vida é real somente quando “Eu Sou” cujo título já é uma grande lição a ser compreendida, Gurdjieff revela como isso se tornou para ele uma tarefa constante:

qualquer um que eu conhecesse, por negócios, comércio ou

qualquer outro motivo, fosse velho ou novo conhecido, e qualquer que fosse sua posição social, eu teria que descobrir imediatamente seu ‘calo mais sensível’ e ‘pressioná-lo’, preferivelmente com dureza.” Este deve ser o seu “espírito” ao se preparar para conhecer seu Traço Principal por meio desta obra, ou para, já conhecendo seu Traço Prin- cipal, aprimorar sua experiência por razões pessoais ou profissionais. Reconheça seu Traço Principal com sinceridade e descubra o seu próprio Eneagrama interior, no qual, todos os “traços” estão presentes. Conhe- cendo dessa forma seu “microcosmo”, você poderá conhecer todos os “microcosmos” que o rodeiam e, finalmente, quando alcançar a total consciência de si mesmo, o “macrocosmo” poderá ser conhecido tal qual

“(

)

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

69

ele é, uma expressão maravilhosa dos milhares de “rostos” daquilo que chamamos “DEUS”. Agora sim vamos ver como Gurdjieff “retrata” cada um dos nove Traços ou Defeitos Principais:

definiçõeS doS nove traçoS ou defeitoS PrinciPaiS Segundo gurdjieff

Após analisar detidamente os Traços ou Defeitos Principais definidos por Gurdjieff e confrontá-los com os que outros pesquisadores do Ene-

agrama destacam, baseados nas descobertas de Ichazo, consegui isolar todas as definições com as quais ele os “retratava” tão magistralmente. Novamente os livros Fragmentos de um ensinamento desconhecido

e Gurdjieff fala a seus alunos foram fundamentais para realizar essa pesquisa. Vejamos por Grupos.

traçoS PrinciPaiS doS tiPoS 8, 9 e 1 (centro do movimento queStão nuclear: eSquecimento de Si meSmoS)

Tipos 8: “Existem diversas espécies de consideração. Na maior par-

te dos casos, o homem se identifica com o que os outros pensam dele, com a maneira com a qual o tratam, com sua atitude para com ele [ ]

pensa sempre que as pessoas não o apreciam o suficiente [

o aborrece, o preocupa, o torna desconfiado; desperdiça em conjecturas

ou em suposições enorme quantidade de energia; desenvolve nele, assim, uma atitude desconfiada e hostil para com os outros. Como olharam para ele, o que pensam dele, o que disseram dele, tudo isso assume a seus olhos enorme importância. E considera não só as pessoas, mas a sociedade e as condições históricas. Tudo o que desagrada a tal homem lhe parece injusto, ilegítimo, falso e ilógico. E o ponto de partida de seu julgamento é sempre que as coisas podem e devem ser modificadas. A ‘injustiça’ é uma dessas palavras que servem frequentemente de máscara

a [este tipo de] ‘consideração’ [interna].”

] Tudo isso

70

Khristian Paterhan C.

Sem auxílio exterior, um homem nunca pode se ver.

Por que é assim? Lembrem-se. Dissemos que a observação de si conduz à constatação de que o homem se esquece de si mesmo sem cessar. Sua impotência em lembrar-se de si é um dos traços mais característicos de seu ser e a verdadeira causa de todo o seu comportamento. Essa impotência manifesta-se de mil maneiras. Não se lembra de suas decisões, não se lembra da palavra que deu a si mesmo, não se lembra do que disse ou sentiu há um mês, uma semana ou um dia ou apenas uma hora. Começa um trabalho e logo esquece por que o empreendeu, e é no trabalho sobre si que esse fenômeno se produz com especial frequência.”

Tipos 9: “[

]

Tipos 1: “Outro exemplo, talvez pior ainda, é o do homem que considera que na sua opinião, ‘deveria’ fazer algo, quando na realida- de, não tem que fazer absolutamente nada. ‘Dever’ e ‘Não dever’ é um problema difícil; em outras palavras, é difícil compreender quando um homem realmente ‘deve’ e quando ‘não deve’ (fazer algo).”

traçoS PrinciPaiS doS tiPoS 2, 3 e 4 (centro emocional queStão nuclear: identificação)

Tipos 2: “Há duas espécies de amor. Um é o amor escravo. O outro deve ser adquirido pelo trabalho sobre si. O primeiro não tem valor algum; só o segundo, o amor que é fruto de um trabalho interno, tem valor. É o amor de que todas as religiões falam. Se você amar, quando ‘isso’ [a máscara] ama, esse amor não depende de você e não haverá nenhum mérito nisso. É o que chamamos ‘amor de escravo’. Você ama até mesmo quando não deveria amar. As circunstâncias fazem-no amar mecanicamente [ ]”

Tipos 3: “Sugiro que cada um faça a si mesmo a pergunta ‘Quem

sou eu?’ Estou certo de que 95% de vocês ficarão perturbados

prova que um homem viveu toda a sua vida sem se fazer essa pergunta e considera perfeitamente normal que ele seja ‘algo’, e até mesmo algo

Isso

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

71

muito precioso, algo que jamais pôs em dúvida. Ao mesmo tempo, é incapaz de explicar a outra pessoa o que esse algo é, incapaz de dar

a menor ideia desse algo, porque ele próprio não o sabe. E se não

sabe, não será simplesmente porque esse algo não existe, mas apenas se supõe existir? Não é estranho que fechem os olhos, com tão tola

complacência, ao que realmente são, e passem a vida na agradável convicção de que representam algo precioso? Esquecem de ver o vazio insuportável por trás da soberba fachada criada por seu autoengano

e não se dão conta de que essa fachada só tem um valor puramente convencional.” Ouspensky lembra que alguém perguntou: “O que é que não com-

preendemos?” E Gurdjieff respondeu: “Estão de tal modo habituados

a mentir, tanto a si mesmos como aos outros, que não encontram nem

palavras nem pensamentos, quando querem dizer a verdade. Dizer a verdade sobre si mesmo é muito difícil. Antes de dizê-la, deve-se conhecê-

la. Ora, não sabem nem mesmo em que ela consiste [ ].”

Tipos 4: “Qual o papel do sofrimento no desenvolvimento de

si?” Ele respondeu: “Existem duas classes de sofrimento: consciente

e inconsciente. Somente um tolo sofre inconscientemente. Na vida

existem dois rios, duas direções. No primeiro rio, a lei é somente para

o rio, não para as gotas d’água. Nós somos as gotas. Num momento

uma gota está na superfície, num outro momento está no fundo. O

sofrimento depende da sua posição. No primeiro rio, o sofrimento é completamente inútil, porque é acidental e inconsciente. Paralelo a esse rio tem um outro. Neste outro rio existe outra classe de sofrimento. A gota do primeiro rio tem a possibilidade de passar ao segundo. ‘Hoje’

a gota sofre porque ‘ontem’ não sofreu o suficiente. Aqui opera a Lei

de Retribuição. A gota também pode sofrer por antecipação, tarde ou cedo tudo se paga. Para o Cosmo o tempo não existe. O sofrimento pode ser voluntário e somente o sofrimento voluntário tem valor. A gente pode sofrer simplesmente porque se sente infeliz. Ou pode so- frer por ‘ontem’ para preparar-se para o ‘amanhã’. Repito: somente o sofrimento voluntário tem valor.”

72

Khristian Paterhan C.

traçoS PrinciPaiS doS tiPoS 5, 6 e 7 (centro intelectual queStão nuclear: conSideração interna)

Tipos 5: “É impossível lembrar-se de si mesmo. E não podemos nos

Talvez vo-

cês se lembrem do que dissemos do homem: nós o comparamos a uma atrelagem com um amo [o Ser], um cocheiro [Centro Intelectual], um

cavalo [Centro Emocional] e uma carruagem [Centro do Movimento].

Não podemos nem falar do amo pois ele não está presente; de modo

Todos

os interesses que temos em relação à mudança, à transformação de nós mesmos pertencem apenas ao cocheiro, quer dizer, são unicamente de

ordem mental

mental, não tem nenhuma utilidade. Por essa razão devemos ensinar,

e aprender, não por meio do mental, mas do sentimento e do corpo

Naqueles que estão aqui se levantou acidentalmente um desejo de chegar

a algo, de mudar alguma coisa. Mas apenas no mental. E nada mudou

ainda neles. Não passa de uma ideia que têm na cabeça e cada um per- manece o que era. Mesmo aquele que trabalhasse mentalmente durante dez anos, que estudasse dia e noite, que se lembrasse mentalmente e lutasse, mesmo esse não realizaria nada útil ou real, porque mentalmente nada há para mudar. O que deve mudar é a disposição do cavalo. O desejo deve estar no cavalo e a capacidade na carruagem. Mas como já dissemos, a dificuldade é que, devido à má educação moderna, a falta de relação entre nosso corpo (carruagem), nosso sentimento (cavalo) e nosso mental (cocheiro) não foi reconhecida desde a infância, e a maio- ria das pessoas está tão deformada que não há mais linguagem comum entre uma parte e outra ”

A transformação não se obtém pelo mental; se for pelo

que só podemos falar do cocheiro. Nosso mental é o cocheiro

lembrar, porque queremos viver unicamente pelo mental

Tipos 6: “O homem, às vezes, se perde em pensamentos obsessivos, que voltam e tornam a voltar em relação ao mesmo objeto, às mesmas coisas desagradáveis que imagina, e que não apenas não ocorrerão, mas, de fato, não podem ocorrer. Esses pressentimentos de aborrecimentos, doença, perdas, situações embaraçosas se apoderam muitas vezes de

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

73

um homem a tal ponto, que assumem a forma de sonhos despertos. As pessoas deixam de ver e ouvir o que realmente acontece, e, se alguém conseguir provar a elas, num caso preciso, que seus pressentimentos e medos são infundados, elas chegam a sentir certa decepção, como se tivessem sido frustradas de uma perspectiva agradável O medo inconsciente é um aspecto muito característico do sono As pessoas não suspeitam até que ponto estão em poder do medo. Esse medo não é fácil de definir. Na maioria dos casos, é o medo de situações embaraçosas, o medo do que o outro pode pensar. Às vezes o medo se torna quase uma obsessão maníaca.

Tipos 7: “O homem, bem no seu íntimo, ‘exige’ que todo mundo

o tome por alguém notável, a quem todos deveriam constantemente

testemunhar respeito, estima e admiração por sua inteligência, por sua beleza, sua habilidade, seu humor, sua presença de espírito, sua origina-

lidade e todas as suas outras qualidades. Essas ‘exigências’, por sua vez, baseiam-se na noção completamente fantasiosa que as pessoas têm de

si mesmas, o que acontece com muita frequência, mesmo com pessoas

de aparência muito modesta [

].”

74

Khristian Paterhan C.

eneagrama doS traçoS ou defeitoS PrinciPaiS de acordo com oS nove “retratoS PSicológicoSde gurdjieff

Figura 11

Núcleo do “esquecimento de si mesmo”

Os esquecidos de si mesmos. Os que sofrem da “doença do amanhã”. Os proteladores.

(O pacífico protelador “boa gente)

9
9

Os que não se acham suficientemente apreci- ados. Os aborrecidos, desconfiados, hostis (O hostil “justiceiro” desconfiado).

Os que se acham “livres”. Os

inconstantes, não persistentes. Os que “exigem” respeito, ad-

miração,estimaeseacham“no-

táveis” (O narcisista gozador).

Os que se perdem em pensa- mentos obsessivos. Os que so- nham acordados negativida- des. Os que estão em poder do medo (O medroso ambivalente).

88 11 77 22 6 3 Núcleo 55 44 Os que sofrem “totalmente” (O sofredor
88
11
77
22
6
3
Núcleo
55
44
Os que sofrem “totalmente”
(O sofredor original invejoso)
Os sofredores “inconscientes”.

Os “moralistas” (O metódico direitinho irado). Aqueles que acham que “deveriam” fazer

algo. Os que julgam pela “moral subjetiva ou externa” do “bem/mal”; “certo/errado”.

Os “amorosos” escravos. (O amoroso generoso orgulhoso).

Aqueles que amamaté quando não deveriam amar.

Os que acham que “represen- tam algo precioso”. (O perfor- mático mascarado). Aqueles que se “auto-enganam”.

Núcleo da “consideração interna”

da “identificação”

Os que vivem só pelo mental. Isolados da realidade. Os que apre- endem mas não compreendem (O avarento e solitário pensador).

Parte I

9

8 1
8
1

Centro Físico ou Motor

Tipos 8, 9 e 1

O Tipo 8

O eu que confronta

“Existem diversas espécies de consideração. Na maioria dos casos, o homem se identifica com o que os outros pensam dele, com a maneira

como o tratam, com sua atitude para com ele [

as pessoas não o apreciam o suficiente [

preocupa, o torna desconfiado; desperdiça em conjecturas ou em suposições enorme quantidade de energia; desenvolve nele, assim, uma atitude desconfiada e hostil para com os outros. Como olharam para ele, o que pensam dele, o que disseram dele, tudo isso assume, a seus olhos, enorme importância.”

Tudo isso o aborrece, o

pensa sempre que

]

]

“E considera não só as pessoas, mas a sociedade e as condições históricas. Tudo o que desagrada a tal homem lhe parece injusto, ilegítimo, falso e ilógico. E o ponto de partida de seu julgamento é sempre que as coisas podem e devem ser modificadas. A ‘injustiça’ é uma dessas palavras que servem frequentemente de máscara a [este tipo de] consideração [interna].”

Os dois parágrafos acima, citados por P. D. Ouspensky em Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido, são de G. I. Gurdjieff

78

Khristian Paterhan C.

Então? Vamos nos conhecer melhor ou não?

Como diria G. I. Gurdjieff (um Tipo 8 “acordado” que foi, segundo o polêmico mestre Osho, “um dos Budas da nossa época”): “Lembre-se de que você veio aqui, porque compreendeu a necessidade de lutar contra si mesmo e unicamente contra si mesmo. Agradeça, portanto, a quem lhe proporcione a ocasião para isso.” Na verdade, este aforismo – um dos vários que estavam inscritos no toldo do “Study House”, no Prieuré (França), local onde Gurdjieff trabalhou com seus discípulos – abriga o grande mistério a ser conhecido por todos os seres humanos, mais especialmente pelos Tipos 8 “assumidos”. Espero que, tendo chegado até aqui, agradeçam a oportunidade que eu lhes ofereço de “lutar uni- camente contra si mesmos” a partir de agora, já que há tanto tempo se dedicam a lutar contra o mundo, contra seus “inimigos” e até contra o “tempo” e o “clima”!

O Poder: a grande fascinação dos “Guerreiros” do Eneagrama

Quando realizamos nosso workshop sobre o Eneagrama para o Projeto Simplesmente Copacabana, no Rio de Janeiro, contamos com a participação de uma jornalista que editava um jornal de bairro. Escre- vendo sobre seu Tipo, sob o título Por que 8, ela destacou:

“O poder me fascina. Vim a descobri-lo na caminhada da vida. A vida me empurrou para o resgate. No resgate descobri a força, o poder. Na medida em que avançava vim percebendo a minha verdadeira vocação: a liderança. As causas consideradas por mim justas e verdadeiras, as abraço com muita determinação. É por demais sedutor para mim tocar um pro- jeto em que possa ter o controle da situação. Dar oportunidade a outras pessoas me entusiasma e gosto da troca, desde que tenha o rumo das coisas. Guerreio sabendo o que quero, mas também quando não quero, simplesmente não faço. Entretanto, sinto uma enorme falta da inocência, da poesia, do frágil. Camuflo isso tudo em ações concretas.”

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

79

Este breve depoimento revela o que todo Tipo 8 sente – “O poder me fascina”, e finaliza com o que para todos eles é uma tremenda verdade:

a necessidade da simplicidade e da inocência, às quais vou me referir

no final deste capítulo. No Brasil, temos um excelente exemplo histórico de um Tipo 8 para quem este depoimento também foi verdadeiro. Ele foi um dos mais conhecidos e polêmicos políticos deste pais, considerado aguer- rido e destemido, dedicou sua vida, a seu modo, a lutar pelas causas que considerou justas. Refiro-me ao falecido Senador Antônio Carlos Magalhães ou “ACM”. Lembro quando o Senador ACM, contrariado com a famosa inter- venção no Banco Econômico, deu uma das tantas amostras do seu Tipo Eneagramático. A revista Veja do dia 23 de agosto de 1995 registrou uma das frases mais fortes ouvidas por um Presidente do Banco Central deste país:

“Você é um moleque, f. da p! Vou passar por cima de você! Quem é você para fechar um banco na Bahia? Lá as coisas não são assim.” Por ser o senador amante declarado da Bahia, essa terra maravilhosa,

e devoto fiel do Senhor do Bonfim, sua voz irada naquela ocasião, era

a voz irada de todos os baianos que, há mais de 40 anos viam neste

homem um grande líder. Essas atitudes públicas do senador refletiam seu tipo. Diante delas, qualquer Tipo 8 pode-se ver como em um espe- lho. O jornalista Marcos Sá Corrêa, no livro Política e Paixão, Editora Revan, define exatamente a tipologia deste polêmico e carismático homem público:

“ACM (era) conhecido pela agressividade que, sendo nele aparente- mente natural, (era) também um estilo cuidadosamente treinado. Como diz neste livro, está convencido de dever a ela – mais do que a outros atributos, seu grande trunfo político – o fato de ser reconhecido como um assunto jornalisticamente interessante.”

Todo Tipo 8 pode ser definido a partir dessa “agressividade” e de muitos Tipos 8 que detêm algum poder se pode dizer exatamente o que aparece numa das orelhas do citado livro: “Ninguém fica indiferente a

80

Khristian Paterhan C.

Antônio Carlos Magalhães, [ele] é um dos que mais acumularam inimi- gos. Afeto ou desafeto, admiração ou hostilidade, variadas são as atitudes que as pessoas assumem diante dele, mas ninguém o ignora.”

Como e porque Tipos 8 brigam desde cedo com “o mundo todo”

Numa das suas brilhantes tiras publicadas no Jornal do Brasil sob o título de “As Cobras”, o genial Luís Fernando Veríssimo (criador de muitos personagens, entre eles o Analista de Bagé, um analista muito 8, diga-se de passagem) nos resume esse estado de desconfiança e agressi- vidade pronto a se manifestar em todos os “representantes” deste Tipo Eneagramático. Duas cobras falam com uma terceira: “Todo mundo não está contra você desde que você nasceu, Pepe.” Ao que esta responde:

“Ah, é? Então por que o obstetra já me recebeu com um tapa?” Citei o texto desta tira porque ele combina com o depoimento em que Augusta, uma de nossas alunas, lembra o “momento provável” em que surgiu sua “máscara”:

É como se eu já tivesse nascido 8, e não me formado com o

Meu nascimento foi muito difícil e como todo 8

passar do tempo (

acha que deve brigar por tudo, eu briguei para nascer. A hora do meu nascimento já havia passado e não nasci de parto normal; pela demora eu ‘não devia ter nascido’, pois além da demora

eu estava com o pescoço enrolado no cordão umbilical, nasci talvez de teimosa ou por ser um 8 que nunca se dá por derrotado ( )” Magno, outro participante dos nossos workshops revelou:

“Muito cedo, se me lembro bem aos cinco anos de idade, essa ‘másca- ra’ já se manifestava em mim, em como eu ‘mandava’ nas minhas irmãs

A minha sensação é

ou como eu não aceitava ordens de meus pais (

que eu sempre fui assim, já nasci com essas características.” Em primeiro lugar, os Tipos 8 em sua maioria lembram-se de uma infância em que tinham que se impor (ou se impunham) ao meio por alguma razão. Tinham que lutar para serem respeitados. Tinham que

“(

)

)

)

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

81

“proteger-se” dos outros. Às vezes, enfrentaram ambientes agressivos, que os obrigaram a assumir responsabilidades muito cedo porque seus pais, por razões financeiras ou porque achavam correto, lhes exigiam de um modo ditatorial e imperativo que “aprendessem” a ser “fortes” desde crianças. Outros perceberam a fraqueza de um ou de ambos os pais, e decidiram não ser tão fracos quanto eles. O mesmo aluno lembra:

“Meu pai sempre foi um intelectual e tentou, por todos os caminhos, me mostrar as coisas certas por intermédio da palavra, pois as poucas

vezes que ele quis me obrigar a fazer qualquer coisa eu, como uma ‘boa mula’, me neguei. Achava que aquele ‘papo’ era uma fraqueza de meu pai, que ele deveria ser mais duro comigo, acredito que foi aí que minha máscara se consolidou. Minha mãe já não tinha tanta paciência assim

e com ela não se brincava, mas eu sempre achava um jeito de deixá-la bem brava ( )” Existem Tipos 8 que falam de uma infância difícil, em que foram

vítimas de “injustiças”, de que se vingavam de um ou outro modo. Ainda em relação a isto, outra aluna Tipo 8 nos contou:

“Na infância, lembro de uma injustiça entre tantas outras. Esta ocorreu na escola por volta dos 7/8 anos. Uma colega, vizinha da mesma

mesa circular (

reclamei com a professora, esta me castigou. Eu não entendi nada! ( ) Na família, antes dos sete anos, lembro-me de ter sido acusada de ter

feito o que não fiz, acabando por me conformar (

é claro!” Seu modo de se vingar era simples:

“Lembro que pegava dinheiro escondido de minha mãe pra comprar balas, sem pensar em culpa de fazer algo errado ( )” Outros pertencem a famílias poderosas em que se sentiram sozinhos e/ ou obrigados a “tomar iniciativas” para não serem considerados inferio- res aos demais e onde ouviam constantemente frases como estas: “nunca se deve confiar nas pessoas”, “temos que proteger o que conseguimos e você deve preparar-se para isso”, ou “você apenas cumpre com os seus deveres, não está fazendo nada demais”. A necessidade de se mostrarem fortes e capazes os faz desenvolver o que comumente chama-se “força

) e ia pro castigo,

quando

)

pegou seu lápis e tentou furar o meu braço (

)

82

Khristian Paterhan C.

de vontade”. A necessidade de perceber os riscos e possíveis perigos que aparentemente devem enfrentar sozinhos, desde cedo, os leva a desconfiar dos outros e a confiar demais nas suas próprias “forças”. Isto provoca neles uma constante atitude de alerta, um constante estado interior que se poderia traduzir como “estar pronto para a luta”.

Por isso decidem ser fortes, autoconfiantes, sem medo de nada, inclusive os que consideram ter tido infâncias felizes. A este respeito, vale a pena refletir sobre este depoimento:

“Tive uma infância feliz, mas muito competitiva, os jogos eram para

Cada jogo novo ou pessoa nova era uma ‘nova barreira

ser ganhos (

para se conquistar’. Briguei muito desde cedo, ao ponto de que quando começava eu não conseguia mais parar. Mas, apesar do ‘gênio’, brinquei muito e na rua, com muitos amigos que logicamente eu conquistei, o que não significa que os tenha cativado.”

)

Para estar protegido do mundo, é necessário controlar tudo

Os Tipos 8 sentem que devem criar e conquistar um extenso território

pessoal, do qual sejam os Controladores e donos absolutos. Precisam saber tudo com antecedência, conhecer de que maneira podem ter certeza de estar no comando de toda e qualquer situação, seja esta pessoal e/ou profissional. Neste depoimento, no qual a palavra controle é repetida sete vezes (as itálicas são minhas), uma de nossas alunas reconhece o quanto essa necessidade a esgota:

preciso exercer o controle em tudo o que me cerca. Seja nas

questões do trabalho, seja nas questões pessoais. A falta do meu controle em qualquer situação me deixa muito enraivecida. Preciso controlar tudo e apesar de já ter percebido, mesmo antes de estudar o Eneagra- ma, o quanto isso me faz mal, no sentido de gastar muita energia nessa incumbência de ter tudo sob o meu controle, ainda me é muito difícil

suportar a falta de controle (

No trabalho, posso perceber com

clareza quando as coisas estão fora do meu controle e como isso me

“(

)

)

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

83

incomoda, principalmente quando não estou bem informada. A falta de informação me deixa fora das coisas. É assim que me sinto. Na vida pessoal eu percebo isso quando me é difícil suportar as frustrações, ou seja, quando as coisas não acontecem do jeito que eu determino de forma que eu possa controlar.” Os outros devem reconhecer e respeitar o “controle” e o “poder” dos Tipos 8, garantindo-lhes “obediência”, porque, de outro modo, poderão ser “punidos”. Um aluno escreve a respeito:

“[O Tipo 8] se impõe com muita facilidade se as coisas não estão indo como deveriam ser, ele não pode perder o controle da situação e, se necessário, usa o ‘chicote’, mas não com a intenção de ferir e sim de ensinar uma lição.” Esse território está protegido sempre por uma espécie de cerca prote- tora contra os perigos, injustiças e inimigos que vêm e/ou que poderiam vir do mundo. Eles aperfeiçoam esse controle aprendendo, estudando, sabendo como, precavendo-se de todo e qualquer ataque exterior, num claro movimento ao Ponto 5 do Eneagrama. Os mais inteligentes e capazes se aperfeiçoam constantemente, e possuem uma tremenda capacidade de manipular dados e informações que, tanto confirmem suas ideias e posições, quanto colaborem para aumentar o seu senso de poder, controle e segurança. Paula, uma aluna, que é médica, escreve a respeito que:

) e tanto assim

que desde criança me vi às voltas com os livros e nunca porque alguém me mandasse, mas porque sentia necessidade de conhecer tudo, para que nada me pegasse desprevenida. Até os idiomas que aprendi eram uma forma de controle da situação, de não permitir que alguém falasse algo de mim, que eu não compreendesse, não dominasse ”

“O controle das situações é o que o 8 tanto quer ter (

84

Khristian Paterhan C.

Lealdade e proteção:

algo valioso que se pode cobrar

Os Tipos 8 decidem quais pessoas serão da sua confiança, quais as

pessoas que poderiam estar sob sua tutela e quais pessoas terão “direito”

à sua permanente “proteção”, numa clara influência do Ponto 9 Enea-

gramático e do movimento contra seta ao Ponto 2. Fazem isto apenas para aumentar o “controle”. É como se, desse modo, fossem criando

e assegurando uma “rede” de poder e influência ao estilo dos chefões mafiosos dos anos 30. Em outro trecho de seu depoimento, uma das alunas citadas revela:

até me lembro de minha mãe dizendo, em tom jocoso, que eu

era ‘a protetora dos fracos e oprimidos’ (

pessoas da família e os amigos também é algo muito presente em mim, desde a infância. Uma necessidade de fazer tudo ao meu alcance, para deixá-los tranquilos e de bem com a vida.” Porém, quando se sentem traídos, quando sentem que essa “leal- dade e proteção” não são recíprocas, os Tipos 8 reagem com fúria, e quem falhou pode estar certo que haverá uma punição. A mesma aluna acrescenta:

Esta mania de proteger as

“(

)

)

“Adoro meus amigos e sou amiga até o fim, mas se por acaso alguém fizer algo que me magoe, provavelmente não terá chances de fazê-lo outra vez. Pois a partir deste dia esta pessoa morreu para mim e ainda que viva ao meu lado não me diz mais nada. E ela saberá disto não só por palavras, mas por atitudes ( )” Com outro aluno 8, a coisa não muda muito: “Procuro ser leal às pessoas, quem não corresponder está em maus lençóis.”

Conquistando novos territórios

Sem limites

O que Tipos 8 desejam é conseguir o mais e o maior possível de

tudo

Os Tipos 8 decidem que esse imenso território desejado nunca poderá

limites. Precisam assegurar o poder e garanti-lo no tempo.

sem

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

85

ter limites e sabem que não vão parar de conquistar novos territórios e ainda que nunca nenhuma dessas conquistas será tida como a última. Ao invés do “castelo mental” no qual Tipos 5 desejam refugiar-se, e ao invés do “território limitado da sua própria ordem” que Tipos 1 tentam preservar, os Tipos 8 decidem que o único modo de enfrentar o mundo é criando uma ilimitada zona de poder pessoal, na qual eles se sintam com

o controle absoluto e permanente. Sentem, instintivamente, que nunca

deverão parar de estender-se e crescer. Descrevendo esse estado de perma-

nente ambição num momento de total entusiasmo com respeito ao fato de sentir-se “maior que o mundo”, um dos nossos alunos escreveu:

“Minha máscara não me dá limites, posso ocupar qualquer espaço que eu quiser.” Qualquer Tipo 8 poderia dizer o mesmo, e nesta frase o Traço Prin- cipal manifesta toda a sua potência.

O traço principal:

o excesso e a luxúria aumentam a agressividade

Para uma síntese do exposto até aqui, diríamos que em tudo o que Tipos 8 fazem, querem e dizem, existe excesso ou se procura o excesso:

excesso de brigas, excesso de controle, necessidade excessiva de infor- mação e dados, excesso de cobrança, ambição excessiva de um “espaço” ilimitado a se conquistar. O excesso é o “grande calo” dos Tipos 8. Eles querem tudo em demasia. O Dicionário Aurélio define o excesso como “aquilo que excede ou ultrapassa o permitido, o legal, o normal” e atrela a palavra à violência: cometer excessos é uma forma de violência, de agressão, contra si mesmo e contra os outros. O excesso implica um descontentamento permanente para este Tipo Eneagramático, existe uma possibilidade muito grande (tinha que ser muito grande, não é ?) de nunca

sentir-se satisfeito. Portanto, possui uma capacidade para frustrar-se com mais facilidade que os outros Tipos Eneagramáticos, excetuando-se os Tipos 4. Assim como Tipos 4 acham que a felicidade parece fugir deles

a cada instante e sofrem pelo que falta no presente, os Tipos 8 jamais

86

Khristian Paterhan C.

se sentem satisfeitos com o que possuem no “presente” efetivamente. Sempre querem algo mais. Os Tipos 4 sofrem pelo que falta. Os Tipos 8 ficam com raiva pelo que querem a mais. Os Tipos 4 sentem que o que se perdeu no passado é melhor do que o que se tem no presente. Os Tipos 8 não se importam com o que obtiveram no passado, mas com o que obterão no futuro. Quando essas ânsias de ter mais são frustradas por uma ou outra razão, eles sofrem e novamente acham que “a vida” está sendo injusta com eles. Não conseguem ficar agradecidos pelo que possuem e desfrutam agora. Eles sempre querem mais, mais e mais. Esse querer mais tem a ver com coisas sensoriais, tangíveis, concretas, não do tipo de coisas que os 4 procuram. Assim como o “espaço” deve ser ilimitado, as coisas que ocupam esse espaço devem ser muitas e devem trazer o máximo de prazer e bem-estar. Portanto, sempre pode haver coisas melhores, carros melhores, comidas melhores, ganhos maiores, festas grandiosas, equipamentos de som mais possantes, computadores mais completos, técnicas mais modernas, informações mais completas, prazeres mais interessantes, gozos mais extravagantes. De tudo deve haver algo mais, algo que supere o atual! Quando procurei o significado da palavra luxúria no Dicionário Aurélio, achei o brasileirismo “cheio de luxo”. É muito interessante e com certeza G. I. Gurdjieff teria gostado de citá-lo em alguma de suas obras quando fala sobre a psique humana. Como este é o capítulo que retrata os eneagramáticos “8” ou “80”, e deve ser bem incrementado e

impiedoso (afinal, excesso é excesso!), vale a pena conferir o que significa:

“Cheio de luxo: Bras. Fam. e pop. Diz-se do indivíduo implicante,( )

exigente, luxento (

tudo isso

entre outras coisas não menos “cheias”. Não fique zangado comigo. É o prestigiado Aurélio “o culpado e injusto”, tá? Por outra parte, o excesso sempre foi e sempre será atrelado ao “pecado capital” da luxúria, que significa, segundo o mesmo Aurélio, “incontinência, lascívia, sensualidade e dissolução”. Porém, o maior excesso dos Tipos 8 é o excesso de consideração interna, de achar que “todos estão contra ele”, que todos conspiram ou poderiam conspirar contra ele. Que devem enfrentar grandes desafios,

prepare-se

agora!) cheio de merda” (

!?)

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

87

graaandes problemas, graaaandes injustiças. É para enfrentar todos esses graaandes perigos, que Tipos 8 decidem ter de tudo o máaaximo! Aqui começa a luxúria: como tudo o ameaça, eles devem ter sempre muito de tudo: muito dinheiro, muito poder, muita segurança, muitos amigos, muito, muito de tudo. Logicamente, esta atitude os fixa na sua agressi- vidade, os cristaliza nos seus excessos e então nada parece contentá-los. Este é um dos aspectos da “máscara” que os Tipos 8 deverão observar em si mesmos para não se tornarem seus escravos.

Raiva e ação instintiva

Sendo esta “máscara” parte do trio 8/9/1, no qual a influência

maior provém do Centro do Movimento, temos que concordar em que as reações instintivas, viscerais e/ou “centradas na barriga”, são mais poderosas que as relacionadas aos Centros Emocional e Intelectual. O movimento até o Ponto 5 (intelecto) se realiza ora como uma reação de “segurança”, ora como um apoio para obter o que se deseja. O movimento ao Ponto 2 (emocional) tem a ver com uma “relação de conveniência”, com o que se pode “cobrar dos outros” pelo que se lhes dá. Então, temos que tanto os atos luxuriosos como os excessos revelam uma grande falta de raciocínio e reflexão. Lembra o depoimento no qual um dos alunos escreveu que “achava que aquele ‘papo’ (do seu pai

‘muito intelectual’) era uma fraqueza

se procura mais, quando se ultrapassam os limites, é quase impossível

Quando se quer mais, quando

”?

parar para “emocionar-se” ou para “pensar no que é realmente neces- sário”. Muitos 8 admitem que atuam “por instinto”, que não querem “parar para pensar”, que “pensar” não é importante, “o que importa

é fazer, já, depressa, agora”! Isto, os Tipos 8 percebem quando ficam com raiva, por exemplo, e “explodem” sem pensar nas consequências.

A respeito, vejamos este depoimento:

“Percebo que tinha receio de me tornar uma pessoa racional e por isso não usava muito a razão. Hoje percebo que dá para ser mais mental

88

Khristian Paterhan C.

sem perder as emoções, isso tem me ajudado muito. Mas ainda tenho algumas situações, que se repetem muito, (nas quais) a raiva visceral toma conta totalmente. Eu sinto isso fisicamente, parece que um furacão toma conta de mim. Se eu não deixar sair, a sensação é que vou explodir e aí eu explodo.”

Uma aluna, Clara, se refere a este mesmo aspecto da seguinte maneira:

“A vida é uma luta constante, só me aparecem desafios, só me meto em coisas complicadas, mas no fundo, até que gosto. Tenho dificuldades de aceitar opiniões contrárias às minhas. Estou sempre numa posição de autodefesa, dificilmente me sinto culpada. Numa discussão, gosto que a

minha opinião prevaleça (

)

Esta ‘coisa’ é tão forte e incontrolável que se

eu não puder dizer o que sinto, parece que vou explodir por dentro (

Às vezes eu estou tranquila, o monstro adormecido, e logo vem alguém atiçar este monstro e lá vou eu explodindo, dizendo desaforos e às vezes até humilhando, ou tocando com o dedo na ferida dos outros.”

)

O problema é que, após estas explosões, os Tipos 8 percebem os

desastres provocados; então, a maioria deles concordará que o seguinte

depoimento é totalmente verdadeiro:

Se por acaso a raiva que sinto é injusta por não haver cul-

pa na pessoa de quem estou sentindo a raiva, eu vou a ela e peço desculpas.”

“(

)

Só que a raiva já se expressou.

A energia gasta nessas explosões pode ser desastrosa para o equi-

líbrio psicofísico dos Tipos 8 e eles deveriam prestar mais atenção aos momentos nos quais esse processo “explosivo” se manifesta, até conse- guirem compreender como é destrutivo. Vale a pena registrar aqui um dos conselhos que Gurdjieff deu, certa feita, a alguns de seus discípulos, citado no livro Gurdjieff fala a seus alunos:

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

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“Gastamos sempre mais energia do que a necessária, utilizando músculos que não precisamos, deixando os nossos pensamentos darem voltas e reagindo demais com os nossos sentimentos. Relaxem os músculos; só utilizem os que são necessários, mantenham os seus pensamentos em reserva e só expressem os seus sentimentos quando quiserem. Não se deixem afetar pelas aparências; elas são por si mesmas inofensivas. Nós é que aceitamos ser feridos.”

A influência negativa dos parceiros eneagramáticos 7 e 9:

gula e indolência. O problema da “insensibilidade”

Devemos lembrar que os companheiros eneagramáticos desta oitava máscara são a gula e a indolência. Já vimos que a gula não permite o gozo verdadeiro. A gula leva o Tipo 8 a uma busca frenética, contínua e sem descanso, de poder e autosatisfação; e a indolência o leva a não saber e nem querer saber, nem perceber e nem poder perceber, quando é o momento

de parar e descansar. A palavra “indolência”, uma das que se usam para caracterizar os Tipos 9, além de significar “apatia” e “negligência”, significa também InsensIbIlIdade. E este é um dos aspectos mais negativos que não podem deixar de ser vigiados por aqueles que desejam obter autocontrole. Esta insensibilidade provoca, entre outras coisas, a incapacidade de aceitar, confiar e respeitar as pessoas. A luxúria e o excesso estão diretamente ligados

a ela. No caso dos Tipos 8 com forte influência do Ponto 7 eneagramático,

há um “hedonismo” egoísta que acaba por não se importar com os demais nem com suas necessidades. O “movimento” da seta ao Ponto 5 desta mani- festação negativa produz uma mistura muito ruim de “hedonismo insensível

e egoísta”, ou, como se diz vulgarmente: “primeiro eu, segundo eu, terceiro

eu e o resto que se f.!” Devo lembrar aqui que uma das características “ne- gativas” dos Tipos 8 mais desequilibrados destacadas por Naranjo, Riso e

Palmer é a forte tendência à “sociopatia” e ao “sadomasoquismo”. Para alguns Tipos 8 menos equilibrados, as pessoas são apenas meios, espécies de instrumentos para obter o que desejam. Quando obtêm o que desejam as abandonam sem nenhuma consideração.

90

Khristian Paterhan C.

Insensibilidade e poder

Na medida em que alguns Tipos 8 conseguem obter mais poder e conseguem consolidar suas conquistas e territórios, passam a correr um maior risco de ficarem insensíveis às necessidades das pessoas que os rodeiam e ainda a não se importarem com os meios usados para

aumentar e/ou consolidar esse poder. Então, pode acontecer (e acon- tece com frequência), que, a partir desse instante, o fim justificará os meios. É notável observar esta relação entre insensibilidade e poder, especialmente em tempos de guerra ou ditadura (nada mais 8 que uma guerra ou uma ditadura, certo?), quando os excessos e insensibilidades são lugar-comum. Sobre isso, transcrevo, para reflexão, um trecho da obra The Psychoanalytic Theory of Neurosis (Teoria Psicanalítica da neurose) de Otto Fenichel:

“O poder como um meio para combater os sentimentos de culpa é facilmente compreensível; quanto mais poder possui uma pessoa, me- nos necessidade tem de justificar seus atos. O aumento da autoestima implica uma diminuição nos sentimentos de culpabilidade. Assim como

a ‘identificação com o agressor’ é de uma grande ajuda para comba-

ter a angústia, os sentimentos de culpa também podem ser refutados mediante a ‘identificação com o perseguidor’ enfatizando o ponto:

‘Somente eu decido o que é bom e o que é mau.’ Entretanto, talvez este

processo fracasse pelo fato de que o superego é, efetivamente, parte da nossa própria personalidade. Portanto, a luta contra os sentimentos de culpa por meio do poder pode iniciar um círculo vicioso, precisando

a aquisição de mais e mais poder e ainda a execução de mais e mais

crimes pelos sentimentos de culpabilidade para afirmar o poder. Então, os crimes podem ser cometidos num intento de demonstrar a si mesmo que a gente os pode cometer sem ser castigado, ou seja, num intento de reprimir os sentimentos.” O mesmo acontece nesta outra situação, que acho que atualmente os governantes devem observar com a maior atenção.

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

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Insensibilidade e violência: uma reflexão necessária

A sociedade está promovendo, na atualidade, o surgimento de muitos Tipos 8 entre aqueles seres humanos que nascem e vivem na extrema pobreza. Não devemos estranhar que cada vez mais crianças e adolescentes pobres neste país, e em outros lugares do mundo, decidam

colaborar com o tráfico de drogas e usar armas pesadas, desenvolvendo desde cedo uma tremenda agressividade. Suas carências os tornam antis- sociais e, se as autoridades não realizam as modificações desse quadro social, muito logo teremos que lamentar os atos desses Tipos 8, nos quais se desenvolvem as piores características deste Traço Principal, como a frieza e falta de piedade, a desconsideração das necessidades alheias, a procura violenta e luxuriosa por prazeres de que se sentem merecedores

e que lhes são negados pela “sociedade injusta” em que vivem, a total

ausência de princípios e a incapacidade de relacionar-se positivamente

com os demais, pois veem e sentem ao seu redor todos os dias que a

violência, a agressão e a luta parecem ser “normais” e “necessárias” para

a “sobrevivência”. Algo que não se está considerando com profundidade

devida é o fato de esses jovens miseráveis e marginalizados serem levados

a derrotar todos os limites, normas e regulamentos, impostos por uma

sociedade moderna para a manutenção da sua ordem e equilíbrio. Os seres humanos que vivem em condições miseráveis passam a não sentir o

que crianças e jovens que vivem de maneiras mais apropriadas conhecem

e percebem sobre existência. O mundo que elas observam acaba desta

maneira “distorcido”. Como exemplo, posso citar o resultado de uma pesquisa que revelou que nenhuma das crianças e adolescentes recluídos na FEBEM jamais ouviu falar da palavra “solidariedade”. Desconheciam- na seu valioso significado. As consequências dessa visão “distorcida” da

vida, logicamente, são perigosas. Está na hora de agir para evitar aquilo que alguns antigos livros sagrados anunciaram: uma época (com certeza

a nossa) em que os adultos teriam medo das crianças. Esta reflexão se

aplica também aos países em permanente estado de guerra, sustentando ódios milenares; aos que ainda preconizam e promovem os ódios raciais, e, finalmente, aos responsáveis pela violência permanente exibida e

92

Khristian Paterhan C.

comentada a toda hora em diversos programas de televisão, tanto infantis quanto para adultos, nos quais a agressividade não só é denunciada ou “noticiada”, como também é, paradoxalmente, erguida e louvada como

a única maneira de “sobreviver” e “enfrentar” este mundo, criando e

promovendo personagens que só sabem usar a violência e a força bruta

para alcançar seus objetivos, quaisquer que sejam eles.

Iniciando o processo de mudanças positivas

Os Tipos 7, 3 e 8 são, quando equilibrados, são os mais ativos e os mais empreendedores dos Tipos Eneagramáticos. Por razões diferentes,

é claro. Os Tipos 7 desejam aventurar-se, criar, experimentar e descobrir

novas alternativas para alcançar a felicidade e sentir que o sofrimento pode ser banido tanto por eles, quanto pelos demais. Os Tipos 3 desejam realizar obras que possam trazer bem-estar aos outros e gerar atividades e progressos em troca de admiração e prestígio. Já os Tipos 8 são grandes realizadores, capazes de iniciar processos de mudanças muito positivos, pelo fato de serem sensíveis a tudo o que apresenta “falhas” e/ou que está “ultrapassado”. Sabem liderar e provocar positivamente as pessoas, direcionando-as com confiança até os objetivos que desejam atingir. São pessoas com um senso de justiça muito apurado e querem que todos se beneficiem com os sucessos que eles venham a obter.

O Tipo 8 e o tipo “intuitivo extrovertido” de Jung

Quando Jung descreve as características negativas e positivas do tipo “intuitivo extrovertido” consegue realizar o que acho um dos melhores

retratos psicológicos dos Tipos 8. Ele escreve entre outras coisas que:

possui um apurado olfato para tudo

que é novo e em desenvolvimento. Já que está sempre procurando novas

Nem a razão nem o

possibilidades, as condições estáveis o sufocam

sentimento podem restringi-lo ou atemorizá-lo para que se afaste de uma

“O intuitivo (extrovertido)

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

93

nova possibilidade (

bem-estar psíquico deles conta tão pouco como o próprio. Também, tem

pouca consideração pelas convicções e estilo de vida alheios ( Já que se ocupa de coisas externas e de indagar suas possibilidades, facilmente se dedica a profissões em que possa explorar ao máximo estas capacidades. Muitos magnatas dos negócios, empresários, especuladores, corretores da Bolsa, políticos, etc, correspondem a este tipo.

este tipo é extraordinariamente importante tanto econômica

quando sua atitude não é demasiado egocêntri-

como culturalmente. (

O respeito pelo bem-estar dos outros é fraco. O

)

) (

)

ca, ele pode brindar um serviço excepcional como iniciador e promotor

de novas empresas. (

Já que é capaz, quando se orienta mais às pessoas

que a coisas, de fazer um diagnóstico intuitivo de suas capacidades e

) Quanto mais

forte sua intuição mais se funde seu ego com todas as possibilidades que

visualiza. (

com um fogo dramático, a personifica ( )”

da vida, a sua visão a apresenta em forma convincente e

potencialidades, ele também pode “fabricar” homens. (

)

)

Concordo. Quando os Tipos 8 dirigem suas capacidades empreen- dedoras não visando apenas seus interesses pessoais e materiais, podem beneficiar a todos que os rodeiam. Por isso é muito importante que os processos de observação de si se iniciem a partir destas reflexões: como estou usando meu poder?; de que maneira meus atos serão benéficos para os demais?; quais destas metas ultrapassam minhas ambições pessoais e poderiam ser meios de realização coletiva/grupal/familiar? Outros Tipos 8 deveriam perceber quando transformam uma concorrência sadia numa luta desapiedada e destrutiva para conseguir seus objetivos. Deveriam aprender a distinguir a diferença entre possessividade e confiança nos seus relacionamentos pessoais. Deveriam aprender a observar os mo- mentos nos quais polarizam as situações, as pessoas, os acontecimentos, dividindo o mundo em dois bandos inimigos e irreconciliáveis. Este é um dos aspectos que deveriam aprender a superar. A observação da maneira em que a palavra “agressividade” é atrelada ao ato. Distinguir entre “força” e “agressividade”, e perceber que uma não implica, necessaria- mente, a outra. Refletir sobre o valioso que se “possui” neste momento

94

Khristian Paterhan C.

presente, sensibilizar-se a outras necessidades, como afeto e obrigação, tão valiosas para quem quer viver em harmonia e equilíbrio. Aprender

a observar quando se está com dificuldades de aceitar os próprios erros,

quando discute por discutir, quando bota a culpa de seus problemas, erros e/ou fracassos em pessoas, situações e/ou questões externas sem perceber sua própria culpa. Para os Tipos 8, aprender a “controlar a si mesmo” é o mais impor- tante. Essa será, sem dúvida, sua principal luta, da qual ele pode sair vencedor se quiser realmente atingir o “autodomínio”. Tenho escrito so- bre este Tipo com certa dureza, até porque, acostumados e programados

a sentir tudo intensa e excessivamente, nos é difícil iniciar os processos de transformação positiva sem uma grande “provocação”.

Desenvolvimento positivo das influências 7 e 9

Tipos 8 podem aprender muito de seus parceiros eneagramáticos mais imediatos. Do Ponto 7, podem obter uma maior força para realizar planos benéficos para todos e não apenas para si mesmos. Já do Ponto 9, o positivo a ser desenvolvido é a capacidade de “estar relaxado”, que os tipos 9 mais sadios possuem sem que por isso esqueçam suas neces- sidades. Valorizar a liberdade que os 7 sadios tanto apreciam e reservar momentos apenas para curti-la, sem compromissos nem controles. Dos

Tipos 9 mais equilibrados aprender a capacidade de conciliação, de fazer acordos pacíficos, de não provocar os outros para ver quais serão suas reações. Destes Tipos devem aprender também a tremenda capacidade de aceitar a todos igualmente, sem censuras, sem críticas e sem provocação de qualquer espécie. A análise destes parceiros eneagramáticos pode ser de grande proveito no seu processo de observação e crescimento pessoal

e profissional.

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

95

Observando os movimentos a favor e contra a seta

(do 8 ao 5 e do 8 ao 2) – (ver figura na página 334)

Os Tipos 8 devem observar quando o movimento ao Ponto 5 é negati- vo, por exemplo: para isolar-se dos outros, para preparar uma vingança, para interpretar “negativamente” os dados e informações recebidos do mundo exterior, quando fica imaginando prováveis conspirações contra ele, quando acha que estão sendo mobilizadas “forças ocultas” para destruí-lo, tirar seu “poder” e/ou evitar ou diminuir o seu controle das situações, quando acha que conhece as intenções dos outros, quando discorre o modo de fugir das regras e das normas, inclusive criando as

próprias de acordo com a conveniência. De positivo, Tipos 8 deveriam alcançar um equilíbrio entre reflexão e instinto, ou seja, treinar-se para planejar antes de executar, pensar antes de agir, sem perder nem acabar com suas capacidades “instintivas”. Dar-se tempo para ficar positiva- mente em contato com seus mundos internos, meditando, em silêncio

e sem nenhuma apreensão, nem expectativas, apenas sentindo o vasto

espaço interior. Refletir sobre as prováveis consequências de seus atos

e de como podem afetar aos demais. Aprender a não desconfiar e a

ficar mais aberto ao desconhecido, sem preconceitos nem julgamentos antecipados. Não supor nada de ninguém. Dar sem visar um retorno. Perceber quando está sendo utilitarista e egoísta demais. O movimento contra a seta até o Ponto 2, quando negativo, reforça

a ideia de que os outros devem dar algo em troca de sua amizade e/ou

proteção. Torna os Tipos 8 mais exigentes e controladores. Provoca a

impressão de que “os outros” não estão fazendo tudo o que deveriam por ele e por seus interesses. Quando positivo, o movimento até o Ponto 2 ajuda os Tipos 8 a se tornarem mais receptivos, ficando menos agressivos e muito mais meigos e amorosos. Ao mesmo tempo, podem aprender a ser menos

orgulhosos e menos egoístas, realizando coisas pelos outros sem es- perar retorno, sem cobranças, sem exigências. A compreensão de que

o poder não está apenas nas posses, e nas conquistas, levará os Tipos 8 a conhecer o valor da humildade e lhes inspirará para serem mais

96

Khristian Paterhan C.

agradecidos pelo que conquistaram até esse instante. Muitas vezes, os Tipos 8 se negam a deixar fluir seus sentimentos e ficam indiferentes às pessoas mais próximas e queridas, quase esquecendo-as. O movimento ao Ponto 2, quando positivo e deliberadamente vivenciado, rompe esse gelo emocional e permite a manifestação de carinho, amor e amizade. Graças a esse movimento deliberado, os Tipos 8 voltam a valorizar vi- vências simples, desprovidas dos excessos e luxúrias nos quais às vezes mergulham, não desejando apenas obter prazer sensual e/ou sexual e sim considerando e percebendo as necessidades “emocionais” de seus parceiros (as) e/ou amigos (as). A virtude da humildade, relacionada com o Ponto 2, fará com que consigam apreciar mais o que conseguem diminuindo os excessos e substituindo a luxúria pelo que os antigos cristãos e budistas chamaram de “contentamento”, ou seja, a capacidade de ficar satisfeitos e felizes apenas porque existir já é uma grande dádiva.

Redescobrindo a simplicidade e a leveza da inocência:

a virtude que conduz ao poder verdadeiro

Nossa aluna Heida tentou explicar porque achava necessária sua

“Máscara 8”: “Às vezes penso que é necessária para a sobrevivência do

animal que mora em mim. (

me colocar em qualquer situação. Ano passado, senti alegria e tristeza

fiquei realçando qualidades

e defeitos por meio do comportamento, como se a conscientização do

fato fosse uma afirmação para a máscara e daí veio o comportamento

Parece infantil a questão,

porém passei à fase de sentir tristeza devido às (minhas) sombras ( )

Fiquei mais atenta e passei a trabalhar o controle dos defeitos com mais vontade ( )” No final do seu depoimento ela escreveu o mais importante para os possuidores desta máscara compreenderem: “Bom, espero ter conhecido

o caminho que me leve a viver mais leve!”

questionando: ‘Vai querer me destruir?’ (

de saber que ‘8’ era a minha ‘máscara’ (

Reconheço sua utilidade para conseguir

)

)

)

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

97

Eureca! Tipos 8 devem conseguir “viver mais leve”. O primeiro passo

é deixarem de ser agressivos. Mas como? Simples! Voltando a confiar

nas pessoas e no poderoso fluir da existência. Isso lhes permitirá aban- donar suas armaduras e perceber que nem sempre devem ir “armados” para realizar e/ou relacionar-se com pessoas e/ou projetos. Tudo bem,

o mundo é hostil, é uma selva na qual cada um deve lutar pelos seus

próprios interesses e essas são as regras do jogo que garantem a sobre- vivência e a conquista do poder. Mas será que é assim mesmo? Sempre?

Não existirão outras formas de alcançar esse poder tão desejado? E será que é isso mesmo o que dá contentamento? Observe o seguinte: O “programa” que formou a máscara diz que você está sozinho (a) contra o mundo, que ninguém vai se preocupar com você, que ninguém vai mover um só alfinete para colaborar nos seus

projetos e objetivos e que, se isso chega a acontecer, não é por amor, não

é gratuito, mas implicará necessariamente uma espécie de “contrato”,

um “compromisso” que terá que aceitar se deseja atingi-los. Ou seu

“programa” diz que você pode fazer e obter o que quiser sozinho (a), por que você é autossuficiente, forte e capaz de lutar contra tudo e todos e que nada se interporá entre você e suas metas? Em qualquer dos casos, perceba quanta falta de “inocência” e reflita uns instantes em como isso

o esgota. Para Tipos 8, parece não existirem outros caminhos, senão

aqueles tortuosos, difíceis e cheios de perigos e inimigos a serem enfren-

tados. Eis sua falta de inocência. Porque entre os significados que esta palavra esconde, existe um que tem a ver com essa nova atitude interior na qual Tipos 8 se tornam sImples. “Simplicidade” é um dos significados da “InoCênCIa”. Na simplicidade, os Tipos 8 podem descobrir que tam- bém existem caminhos suaves, em que se encontram pessoas amigas, em que não se precisa lutar o tempo todo, em que se pode ficar aberto, em que não se precisa “pressionar” nem provocar. Na simplicidade existe

a falta de preconceito, tudo fica mais leve e se descobrem “jeitos” de se

fazer mais sutis, porém não menos efetivos. A simplicidade no gesto e na palavra diminui e esgota a agressividade. A inocência permite que a vida se mostre mais leve. Não se precisa “controlar” tudo e todos sempre, porque “a inocência confia”. Pode-se confiar, não existem riscos sem-

98

Khristian Paterhan C.

pre, e nem sempre existem “armadilhas”. A simplicidade da inocência implica estar “contente”: é sentir-se satisfeito. Na satisfação não existe excesso, nem pode haver luxúria porque “contentar-se” também significa “tranquilizar-se” e “limitar-se”. Tudo bem, acho que está bom por enquanto, não? Finalizo, então, com uma passagem do Tao Te King, de Lao Tse:

“Podes abarcar a Unidade sem abandonar o Tao? Podes dominar tua força vital

e chegar a ser como uma criança?

Podes purificar tua contemplação oculta e chegar à perfeição? Podes amar aos homens e governar o Reino sem perder tua paz interior?

Podes, enquanto se abrem e fecham as Portas do Céu, manter-te em calma? Podes penetrar tudo com tua clareza

e potência interior,

renunciando ao conhecimento?

Gerar e não possuir. Produzir e não conservar. Dirigir e não dominar. Nisto consiste o Mistério da Vida.

Quem assim o entende compreende o Caminho oculto.”

“(

)

O Tipo 9

O eu

que espera

Sem auxílio exterior um homem nunca pode se ver.

Por que é assim? Lembrem-se. Dissemos que a observação de si conduz à constatação de que o homem se esquece de si mesmo sem cessar. Sua impotência em lembrar-se de si é um dos traços mais característicos de seu ser e a verdadeira causa de todo o seu compor- tamento. Essa impotência manifesta-se de mil maneiras. Não se lembra de suas decisões, não se lembra da palavra que deu a si mesmo, não se lembra do que disse ou sentiu há um mês, uma semana ou um dia ou apenas uma hora. Começa um trabalho e logo esquece porque o empreendeu, e é no trabalho sobre si que esse fenômeno se produz com especial frequência ( )”

G. I. Gurdjieff

“Aquele que tiver se libertado da ‘doença do amanhã’ terá uma chance de obter o que veio procurar aqui.”

Aforismo de G. I. Gurdjieff

“A outro (Gurdjieff) disse que seu traço (principal) era que ele não existia de modo algum. – Compreenda – disse Gurdjieff – eu não o vejo. Isto não quer dizer que você seja sempre assim. Mas, quando é como agora, não existe de modo algum.”

Gurdjieff citado por Ouspensky em Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido

100

Khristian Paterhan C.

Antes de iniciar esta análise, permita-me lembrar um Tipo 9 maravilhoso, obrigado!

Acho que todos vocês, meus queridos 9, vão concordar comigo: Tom Jobim foi o melhor dos Tipos 9 que nasceu neste belo país! Quando vim viver neste paraíso terreno e comecei a ver Tom Jobim na TV, “ao vivo”, cantando desse jeito tão amigo, tão íntimo, simplesmente, me tornei mais um dos seus milhões de fãs! Gravei uma de suas últimas entrevistas-reportagens-ecológicas, realizadas pela TV Bandeirantes, em que ele falava da Mata Atlântica, dos pássaros, da natureza que tanto amava. Ouvir seus papos descontraídos na TV era muito agradável.

Quando soube da sua morte, foi como se perdesse um amigo muito querido. Com certeza, esse foi o sentimento de milhões de brasileiros e estrangeiros que o amavam por sua simplicidade e bonomia. Atrevo-me a dizer que Tom Jobim se enquadra, perfeitamente, na descrição do Tipo 9 “sadio” que Riso faz em seu Tipos de Personalidad

- El Eneagrama para descubrirse a si mismo: “(

mesmo (

indivíduo dono de si

autônomo e realizado: equânime e satisfeito. Profundamente

receptivo e pouco coibido, emocionalmente estável e pacífico. Otimista,

apaziguador, apoiador dos demais, paciente, bonachão, modesto, uma pessoa genuinamente agradável.” Pode-se perceber facilmente todas essas características em Tom Jobim na longa entrevista que deu ao jornalista Walter da Silva, numa manhã ensolarada de novembro de 1994 na sua casa do Jardim Botânico no Rio. A longa entrevista (“48 laudas, 67.258 caracteres”, segundo o re-

pórter) foi publicada numa “edição histórica” da revista Qualis e dela pincei algumas respostas que confirmam o Tipo Eneagramático “sadio” mencionado. Vejamos o que o excelente jornalista escreveu sobre este popular brasileiro:

“Ele não era uma pessoa que se entrevistasse, mas sim alguém com quem se poderia ficar ali conversando ao sabor de seus pensamentos de

pude notar seus gestos largos e vagaro-

as mãos eloquentes mantendo os braços sempre

abertos reforçavam o calor da hospitalidade dos agradáveis momentos

multidirecionalidade ( samente generosos (

)

)

)

)”;

“(

)

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

101

que passei em sua companhia. Um anfitrião nobre. Um gentleman abso-

luto (

com seu humor sutil, certeiro e maroto”. O repórter ainda lembra que

“ao nos despedirmos, Tom (

com a família (

que tudo isso é trabalho! Não se esqueça!’” Na entrevista, publicada ipsis litteris pela revista, Tom revela uma das características do Tipo 9 descrita por Helen Palmer como “entrar e sair de conversas pensando em várias coisas de uma só vez” . Numa parte ele lembra: “Eu recebi muita carta do exterior de gente que ia se suicidar e que disse ‘olha, eu não vou me suicidar porque escutei essa música sua e acho que a vida

vale a pena’”(

a Deus.” Num trecho longo, reclama da imprensa e dos críticos: “Você

) Primeiro,

sabe o que acontece? Música é um negócio que já é difícil de você falar

) (

) E dizer que isso

é crítica musical (

Depois fala com carinho da sua irmã e revela que foi por ela que seu

nome virou Tom: “A minha irmã não sabia dizer Antonio Carlos, então

ela me chamava de ‘tom, tom’.” Depois das criticas à imprensa, reclama das construções no Rio: “O que se fez com uma cidade linda como o Rio

aí nós vamos encher isso de espigões

cobrem ainda mais o perfil tão bonito, né?, do Rio de Janeiro.” Quando o jornalista pergunta sobre o tema ecologia ele diz: “Olha, quando eu comecei as minhas atitudes ecológicas, eu não sabia que elas eram ecológicas.” Depois fala dos animais, dos pássaros e das suas experiências no estrangeiro. Aí o jornalista lhe pergunta: “E quanto às suas atividades no exterior?” E ele responde como um bom 9: “Eu não estou muito preocupado com isso. Não.” Após falar numa série de no- mes internacionais famosos que estavam interessados em gravar músicas

(

(

numa outra diz: “A minha música é pra levar o cidadão

‘Walter, não se esqueça de colocar na tua matéria

gritou pra mim da copa onde almoçava

Nos momentos de análise rigorosa e aguda, ele nos surpreende

)

)

):

).

vê esse troço aqui, veja o peso deste troço, não tem nada. (

ele é isso, que ele é aquilo, aponta defeitos físicos (

)

E depois o cara acaba falando mal do próprio compositor, diz que

inclusive não conhecem música, né?” E por aí vai!

)

)

uma cidade feita por Deus (

)

dele e junto com ele, diz: “Em suma, o mundo tá cheio de coisas. Agora,

por exemplo, sair do Brasil pra fazer a América e tal, como

Ah, isso

não dá.” Será que um Tipo 3 ou 7 teria perdido essas oportunidades de

102

Khristian Paterhan C.

ir “pra fazer a América e tal”? Claro que não! Mas um 9 pode, mais ainda quando está realizado. Outro aspecto do seu Tipo aparece quando fala sobre as perdas das suas composições. O jornalista lhe pergunta:

Ele não o deixa terminar e

Pelo menos umas cem se perderam. Que eu

saiba, aí no arquivo talvez só tenham umas trezentas. Você vai perdendo ”

no avião, vai perdendo Outra de 9 no Tom é esta. Quando responde à pergunta: “Falando

sobre a bossa nova, um assunto inevitável, o que é que você guarda desse período?”, responde: “Ah, sei lá. É tanta coisa. Eu acho que é tudo isso aí que você disse (rindo). Mas de porre a gente não se lembra de quase

nada, né, tá tudo meio apagado (

falar da imprensa, do seu amigo João Gilberto a quem acha “bastante” introvertido. Então, o jornalista aproveita o “gancho” e lhe pergunta:

“Você é uma pessoa extrovertida, né?” e ele responde: “Talvez, por

força das circunstâncias. Porque quando era garoto, eu gostava de subir numa árvore e ficar quieto lá em cima. Gostava de subir no telhado Tinha um pouco um caráter meditativo. E hoje em dia, naturalmente,

tudo isso foi bagunçado (

porque é entrevista o tempo todo, né?” Quando o jornalista comenta que “você já produziu muita coisa e escreveu a história da música popular

brasileira

já posso parar, né?” Logo a pergunta inevitável: “O que você espera da tua vida e qual o teu plano para o futuro?” Sua resposta é: “Descansar, comprar uma bengala, uns óculos novos (rindo) pra poder ver as moças

de uma distância oficial.” Falando sobre sua absoluta falta de ambição e demonstrando seu desinteresse pela fama e o sucesso que já possuía diz:

“(

e foram movidas pelo amor. Ninguém pensou em dinheiro e nada disso

) (

em Copacabana.” O jornalista, então, lhe pergunta: “Vocês não tinham pretensão de ‘vamos atingir São Paulo e as outras capitais?’” E ele res- ponde como todo Tipo 9 faria: “Não, nada disso. ‘Vamos atingir São Paulo’, essa conversa já me dá uma preguiça. ‘Vamos fazer os Estados

eu achei que isso não ia sair de Ipanema, achei que isso ia chegar

o que move é que tem essas músicas bonitas, né, que foram feitas

Tom o interrompe novamente e diz: “Exato, eu acho que

hoje em dia inclusive tá difícil trabalhar

Após falar da bossa nova, volta a

responde: “Dizem, dizem

“Você, que compôs mais de 400 músicas

)”

)

”,

)

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

103

Unidos’, ‘made in America’, ‘to make America’, isso me dá um cansaço invencível. Eu nunca teria ido aos Estados Unidos se o Itamaraty não

E eu nunca teria tentado ir à América, uma

coisa dificílima. Sair daqui depois de grande, sem falar inglês, tentar a

vida, tentar o quê? Ser o quê? Sapateiro, pianista

poucas, ditador, carteiro, soldado

ainda falta muito para o mundo adquirir um nível razoável de cultura. Até lá felizmente estarei morto. Aí vai ter muita fumaça e tudo, né? De que adianta você pagar milhões de imposto e morar numa cidade que você não pode respirar?” Assim era o saudoso Tom Jobim, e, quando ele declara que “nunca teria ido aos Estados Unidos se o Itamaraty não tivesse me obrigado”, ele demonstra uma das características do Tipo 9 que, quando não superada pode provocar graves problemas aos que se identificam com este Traço Eneagramático. Quer saber por quê? Então, vamos começar a análise deste Tipo 9 antes que a gente esqueça :

O sábio declarou ao jornal que

tivesse me obrigado (

).

As profissões são

A “Doença do Amanhã” ou “Preguiça”

Relembremos uma das três citações de Gurdjieff com as quais iniciei este capítulo:

“Aquele que tiver se libertado da ‘doença do amanhã’ terá uma chance de obter o que veio procurar aqui.” Quando Gurdjieff fala de uma “doença do amanhã” e de nossa incapacidade de “ir até o fim” em tudo o que queremos fazer, está se referindo, com certeza, aos “efeitos negativos” da nona máscara enea- gramática e a destaca veementemente como algo a ser vencido, porque, esta “doença do amanhã” é considerada “falta grave”, tanto que ganhou o status de um dos “Sete Pecados Capitais”. Seu nome mais comum:

preguiça. Devemos lembrar que a Preguiça está localizada no vértice superior do triângulo equilátero do Eneagrama, e como a Mentira e o Medo, é uma das principais causas de todos os demais Tipos já analisados.

104

Khristian Paterhan C.

Quando alguém nos diz que alguma coisa foi adiada, postergada, pro- telada, esquecida, etc. sabemos que provavelmente esta coisa não estava pronta, não foi concluída porque alguém “esqueceu” de terminá-la, não foi considerada como algo “importante a realizar”. Todos nós sofremos desta “doença do amanhã”, só que os Tipos 9 a sofrem “principalmente”.

Repetidas vezes e sobre diversas ações, projetos, tarefas e necessidades, em qualquer nível, ouvimos dizer “amanhã vou continuar”, “amanhã ”

farei”, “amanhã sim, começarei a

ção” pode voltar a ocorrer “amanhã”. Por isso a “observação” deste “efeito” do Traço Principal é muito valiosa não só para os Tipos 9, mas para todos nós. Mas no caso dos Tipos 9, o problema não é somente esse e sim um mais profundo que completa e motiva este “Traço Principal.”

O problema é que essa “protela-

Tipos 9 são preguiçosos? Não. Pelo menos não como se entende esta palavra habitualmente

Como veremos no decorrer desta análise, o problema não é que os Tipos 9 sejam “preguiçosos”, no sentido de “não fazer nada”. Eles até fazem muitas coisas e, às vezes, ao mesmo tempo. Então, por que em todos os textos sobre Eneagrama se faz tanta questão de destacar este fato? Vejamos. Para Helen Palmer o “pecado mortal da preguiça é atribuído a Noves, porque seus hábitos se destinam a drenar energia e atenção para fora daquilo que lhes é essencial na vida”. Já para Don Richard Riso, a pas- sividade dos Tipos 9 é uma “ironia” já que devem fazer algo para não fazer nada”. Coincidindo com Gurdjieff, Riso conclui que os possuidores desta máscara “se tornam passivos, a vida começa a acontecer-lhes”. Claudio Naranjo tem uma visão ainda mais profunda sobre o assunto, quando diz que a intenção original da palavra preguiça está no termo latino anterior “accidia” o qual apontava para um problema muito mais “complexo”: “Psicologicamente, accidia se manifesta como uma perda de interioridade, uma recusa em ver e uma resistência à mudança.”

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

105

Na minha visão, os Tipos 9 não são preguiçosos no sentido de não fazerem nada, são Preguiçosos em relação a si mesmos. O que significa isto? Simples: que tudo o que tem a ver com eles, com suas necessidades, com seus reais problemas, com seus “negócios”, com seus projetos, enfim, eles esquecem, adiam, protelam, “deixam pra lá”. O que é essencial nas suas vidas, o que deveriam realmente fazer, o que lhes impede de ver qual

a sua “realidade” e o que lhes impede de ver e sentir que coisas, atitudes, práticas e hábitos deveriam mudar em suas vidas, eles “não lembram” graças a um truque com que se autoenganam: eles estão “ocupados”. Sim. Eles fazem muitas coisas ao mesmo tempo, falam muito, resolvem os problemas dos outros, dedicam-se a questões “simples”, enfim se evadem de si mesmos e até se esgotam nessas ações para poder dizer aos outros: “Trabalhei muito hoje e é por isso que não tive tempo para me preocupar com estes outros assuntos que sei são importantes para mim, mas ” Ao refletir sobre como “atuou” num determinado momento de sua

vida apenas “levado” pelas circunstâncias, ou seja, ele não “fez”, apenas “aconteceu” que teve que “fazer algo para não fazer nada”, um dos nossos alunos nos mostra esta manifestação do Traço Principal: “O Tipo 9 pertence ao triângulo mais próximo da essência e, olhando retrospec- tivamente, posso perceber o movimento automático pelos vértices, tanto na minha vida profissional como no meu casamento. A preguiça, talvez

o pior dos vícios capitais, é socialmente estigmatizada, em especial, nos estratos sociais mais favorecidos, no qual me incluo, ao receber uma educação preciosa. Existe uma pressão social para a pessoa ir à luta e fazer a vida. No meu caso, essa pressão coincidiu com uma paixão que me levou ao casamento e portanto à necessidade de trabalhar, ganhar

dinheiro, etc. e tal. Esses dois fatores talvez sejam universais para levar

o Tipo 9 a sair da inércia e ‘pegar o carro’. Como o Tipo 9 não tem

um querer próprio (ou custa a descobri-lo), o que fiz foi tornar-me um executivo de empresa onde eu podia seguir a reboque de um empresá- rio que, ao menos externamente, sabia o que queria. Assim, comecei

a desempenhar o papel de executivo, vestindo a máscara número 3 do

autoengano. Adaptei-me muito bem a esse papel na medida em que ele

106

Khristian Paterhan C.

me dava uma ‘identidade’ que não possuía. No papel era ‘mais realista que o rei’ e embora nunca chegasse cedo ao escritório – certamente um

sinal da ‘Preguiça’ a me dizer que aquele papel nada tinha a ver comigo – era capaz de passar dois ou três dias diretos sem dormir, trabalhando, se as circunstâncias assim o exigiam, não tirar férias, tudo em prol da

chamada ‘honra da firma’ (

va inteiramente amalgamada com um papel, eu não podia me relacionar com tranquilidade, de igual para igual com as pessoas que ocupavam

) Isto me fazia

falhar sempre que tinha uma negociação a fazer com um ‘superior’ ( ) se não contasse com o apoio de algum companheiro, me acovardava e

era malsucedido ou simplesmente postergava ou depreciava a entrevista

Em seguida, a pressão social e do cônjuge me faziam retornar ao

desempenho do papel ( )” Simplesmente, ele não existia para si mesmo, para suas necessidades,

enfim, tudo era porque tinha se casado, porque tinha que trabalhar e ganhar dinheiro, porque deve ser um executivo bom, porque, tudo era apenas um “papel” que demonstrava um forte “movimento negativo contra a seta ao Ponto 3 do Eneagrama. É disto que se trata o “Traço Principal”.

) (

outros papéis. As pessoas eram superiores ou inferiores (

Na medida em que minha identidade esta-

)

Esquecimento de si mesmo:

eis a causa do traço principal!

Os Tipos 9, simplesmente, sofrem do Esquecimento de Si Mesmos, ou seja, esquecimento de que somos seres capazes de atuar consciente- mente, no presente, no aqui e agora. Sabemos que a própria definição clássica de “consciência”, segundo Pradines, é cum-scire, ou “posses- são de si mesmo”. Para compreender o tremendo valor psicofilosófico que isto encerra, observe que só quando uma pessoa “lembra de si mesma” atinge o nível de “possessão de si” que Gurdjieff definia como “consciência de si”. Esta “consciência de si” é atividade consciente, ato consciente, ação consciente, e portanto um verdadeiro fazer, já que,

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

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como ele ensinava, no estado de “consciência habitual” nenhum ser humano “faz” realmente. Nesse nível, tudo apenas nos acontece. Para

o Tipo 9, estas questões sintetizadas aqui são de grande importância,

tendo em vista que seu Traço Principal, a preguiça, implica um contí- nuo estado de “Esquecimento de Si Mesmo”. Gurdjieff dizia que “para fazer é preciso ser”. Logo, o “Esquecido de Si Mesmo” é como se não existisse. Então, objetivamente, ele não faz, apenas tudo lhe acontece. Por isso Gurdjieff revela a seu aluno que, naquele momento, “ele não existia de modo algum”.

Dispersão: deixando de lado o mais importante (o que é mais importante mesmo?)

A maioria dos Tipos 9 percebe com facilidade esse Esquecimento de

Si Mesmo, e o sente como algo a ser trabalhado. Descrevem-no com expressões do tipo: “fico como uma barata tonta”, “atuação dispersa”, “acabo me perdendo”, “dificuldade de me ver”. A dispersão, no fundo,

é um modo de fugir do principal, do que realmente deve ser feito, do

que tem a ver com eles mesmos, e provoca muita tensão quando se tem consciência dela. Alice, uma de nossas alunas Tipo 9, escreve:

“Fujo muito dos meus propósitos, me disperso com a maior facilidade, faço uma porção de coisas ao mesmo tempo e acabo me perdendo.” Outra de nossas alunas assim expôs a questão:

“O que mais dificulta a caminhada de um 9, pelo menos no meu caso, é a atuação dispersa, a incapacidade de se concentrar por muito tempo numa direção, distraindo-se com mil interesses, sem concluir a maior parte deles. Por conta desta dispersão posso fazer muitas leituras,

ver filmes interessantes, peças de teatro fantásticas, fazer cursos de di- ferentes coisas, vibrar com tudo isto e, tão logo os deixo de lado, já os esqueci por completo, sendo incapaz de lembrar mesmo o tema central

Com esta mesma facilidade esqueço meu

de um filme interessante (

)

108

Khristian Paterhan C.

dispersão da atenção e esquecimento criam-me situações embaraçosas

) (

diferente ( )” Um aluno Tipo 9 declara:

“Me identifico com o número 9 por contrariar o dito popular: ‘não

deixe para amanhã o que pode fazer hoje’. Na maior parte das vezes, vejo-me protelando os meus afazeres ou dispersando-me neles, deixando de lado o mais importante e partindo para aqueles de menos valor ou mais fáceis de executar ( )” Neste outro depoimento, a percepção de que “O Esquecimento de Si” equivale ao esquecimento do que é importante para o Tipo 9 fica bastante clara:

A questão da procrastinação é uma questão séria, uma dificul-

e não raro esqueço a razão principal de uma ação para fazer algo

“(

)

dade imensa de realizar coisas, projetos. Dificuldade de priorizar o que seria mais importante fazer primeiro. Dificuldade de discernir se tal coisa

é importante ou não para mim (

ponsabilidades, responsabilidades que poderiam, às vezes, ser divididas com outras pessoas para as quais certos assuntos ou projetos também

Dificuldade de me ver, de ter um contorno de mim

muita dificuldade de saber o que é importante pra mim!” A dificuldade de priorizar o que seria mais importante pode ser tra- duzida mais objetivamente como: “o que seria mais importante fazer primeiro para mim”. Os Tipos 9 devem compreender profundamente que esta é a chave para a conquista do Traço Principal.

(

são importantes (

Tendência a absorver muito as res-

)

)

)

A dificuldade de estar presente (ou como Cronos, o tempo, devora seus filhos)

Os Tipos 9 tanto admitem ter grandes dificuldades para enxergar suas

próprias necessidades e valorizar seus projetos de vida pessoais como, em consequência do “Esquecimento de Si Mesmos”, sofrem ao perceber que

o “tempo passa voando” e não conseguem ou têm muitas dificuldades

para concretizar qualquer coisa. É como se não conseguissem perceber a

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

109

passagem do tempo. Os dias passam e as coisas vão sendo adiadas e/ou esquecidas. Os meses passam. Os anos passam. Muitos Tipos 9 admitem que esse passar do tempo parece algo muito difícil de perceber. Por esta razão, eles vivem situações muito “engraçadas” nas quais fica muito clara essa tremenda dificuldade de considerar e estar no presente. Em um engraçado e incrível depoimento, um aluno nos revela esta dificuldade:

“Certa manhã, por volta das 9 horas, me dirigi à padaria com o

objetivo de comprar pão e leite. Entretanto, antes de lá chegar, encontrei-

disse: ‘Vamos dar um pulinho rapidinho ali

na casa de um colega e daqui a, no máximo 30 minutos, estaremos de

volta ( )’ O cara entrou por algumas ruas de Niterói nas quais tinha passado e, de repente, depois de uns 10 minutos, entramos numa residência onde se encontravam várias pessoas comendo e bebendo e me serviram, imediatamente, uma cachacinha. Papo vai, papo vem, quando dei por mim, já estava na casa do

sogro desse amigo, participando de uma caranguejada

Só consegui telefonar para casa por volta das 2 horas da manhã do dia seguinte!”. A impossibilidade de ter contato com o momento presente é outra consequência do Esquecimento de Si Mesmo. O mais grave desta perda de contato com o presente é que, de alguma maneira, Tipos 9 começam, literalmente, a serem devorados pelo tempo. Neste sentido, sempre lem- bro aos participantes de nossos workshops que vale a pena lembrar o mito de Cronos, que costumava “devorar seus filhos”. Neste mito existe uma clara advertência sobre a necessidade de estarmos “conscientes e alertas” no “presente” para evitar que Cronos (o tempo) nos devore, ou seja, de nos conscientizarmos de que precisamos agir agora e não amanhã. Em função desta perda da noção de presente, os Tipos 9 deixam de fazer muitas coisas importantes e chegam até a “esquecer” as razões pelas quais realizam determinadas ações. Às vezes precisam inclusive que alguém lhes lembre o objetivo desses esforços. Por isso se sentem

Conclusão:

me com um amigo que (

)

110

Khristian Paterhan C.

mais seguros agindo sob o comando de alguém, já que desta maneira não correm o risco de perder o rumo de suas ações. Nos depoimentos

abaixo fica claro como essa incapacidade de estar no presente leva os Tipos 9 a deixarem de “lembrar” quais os objetivos relacionados às suas ações e decisões:

Uma aluna lembra:

“(

quando fui ter minha terceira filha, fiquei na casa de uma prima

(ela foi para a casa de praia e eu fiquei na sua residência com meus dois

filhos e a empregada). O neném nasceu. Tudo bem ( )

)

Já ia regressar à minha casa, malas prontas, tudo em ordem ( ) quando chegamos no elevador o meu filho (o segundo) perguntou:

‘Mamãe, e o neném, vai ficar?’ Eu tinha esquecido, ia embora, e ela lá no berço!” Outra aluna conta:

“Certa vez fui à cidade resolver um assunto e encontrei o local fechado para almoço indicando no aviso que reabriria às 14:00. Decidi ‘fazer hora’ para esperar e entrei numa livraria, folheei livros, li, saí, tomei sorvete, voltei, olhei novos livros e por fim olhei o relógio – 14:00. Pensei:

‘Está na hora’ e, ato contínuo, tomei o ônibus para casa. Só então me dei conta de que eu ‘fizera hora’ para esperar abrir o lugar onde deveria resolver um assunto.”

Muitos Tipos 9, quando compreendem o que significa ser “devorado por Cronos”, começam a valorizar mais o que chamamos o “momento presente”.

A questão do “território aberto” e “sem limites” e suas consequências

Temos dito que os integrantes da tríade superior do Eneagrama (Cen- tro Físico e/ou do Movimento), ou seja, os Tipos 8, 9 e 1 se relacionam de modos diferentes com o que chamamos o “território”. Vimos que

Eneagrama – um caminho para seu sucesso individual e profissional

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os Tipos 1 os delimitam e ordenam e que os Tipos 8 desejam sempre ampliá-los num inevitável desejo de expansão à procura do poder. Os Tipos 9, pelo contrário, não conseguem delimitar seus territórios e não possuem muito interesse em ampliá-los. Lembra Tom Jobim? Ele não escreveu suas músicas para ganhar mercados e muito menos tinha planos para conquistá-los. Isso lhe provocava um “cansaço invencível”. Os Tipos 9 não são “ambiciosos” e não possuem nada do jeito que outros Tipos desejam possuir. Carecem de apego a coisas materiais. Isto seria uma virtude, se não exagerassem. Questões importantes não são protegidas, coisas são perdidas, esquecidas, abandonadas. Muitas vezes, abrem mão demais de suas próprias necessidades e perdem facilmente o

controle das coisas. Ou seja, se os Tipos 8 exageram ao controlar e fixar limites, os 9 quase não o fazem. Se os Tipos 1 exageram na ordem, os 9 às vezes são largados demais. A dificuldade de delimitar sua própria ordem e de definir qual será o território pessoal a ser conquistado e protegido, leva os Tipos 9 a viverem situações muitas vezes complicadas. Em parte, por não saberem dizer “não” quando necessário. Um dos nossos alunos Tipo 9 escreveu:

“Minha atitude básica de vida é me sentir bem na medida em que vejo os outros bem. Nisto não meço esforços para ajudá-los, mesmo que às vezes prejudique a mim mesmo ” Querendo evitar atritos, muitas vezes aceitam qualquer coisa e con- cordam com situações que lhes são totalmente prejudiciais. Reconhecendo a falta de limites na sua relação com as outras pessoas, uma aluna escreveu, em terceira pessoa, que se achava:

demais. Às vezes não sabe o que é seu desejo, vai nas