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BENJAMIN, Walter.

Brinquedo e brincadeira: Observações sobre uma obra


monumental. História cultural do brinquedo. In: ______________. Magia e
técnica, arte e política: Ensaios sobre literatura e história da cultura.
Tradução de Sergio Paulo Rouanet. 6. ed. São Paulo: Brasiliense, 1993. P.
249-251. [Texto escrito por Benjamin em 1928]
Benjamin faz referência a Karl Gröber, autor do livro “Brinquedos Infantis
dos velhos tempos. Uma história do brinquedo.” (Kinderpielzeug aus alter
Zeit. Eine Geshichte des Speilzeugs), publicado em 1928, em Berlim.

p. 250

“O mundo perceptivo da criança está marcado pelos traços da geração


anterior e se confronta com eles; o mesmo ocorre com suas brincadeiras. É
impossível situá-las num mundo de fantasia, na terra feérica da infância
pura e da arte pura. Mesmo quando não imita os utensílios dos adultos, o
brinquedo é uma confrontação – não tanto da criança com o adulto, como
deste com a criança. Não são os adultos que dão em primeiro lugar os
brinquedos às crianças? E, mesmo que a criança conservar uma certa
liberdade de aceitar ou rejeitar, muitos dos mais antigos brinquedos (bolas,
arcos, rodas de penas, papagaios)de certo modo terão sido impostos à
criança como objeto de culto, que somente graças à sua imaginação se
transformaram em brinquedos.”

p. 251

Continuação do trecho anterior. “É, portanto, um grande equívoco supor


que as próprias necessidades infantis criam os brinquedos.”

p. 252

“Se até hoje o brinquedo tem sido visto demasiadamente como produção
para a criança, se não da criança, o erro oposto é ver a brincadeira
exclusivamente na perspectiva do adulto, do ponto de vista da imitação.”

Doutrina gestáltica dos gestos lúdicos, de Willy Haas:


- gato e rato (toda brincadeira de perseguição)
- animal-mãe que defende o ninho (goleiro, tenista)
- luta entre dois animais pela presa ou pelo objeto de amor (futebol, polo)

p. 252/253

“(...) a grande lei que, além de todas as regras e ritmos individuais, rege o
mundo da brincadeira em sua totalidade: a lei da repetição. Sabemos que a
repetição é para a criança a essência da brincadeira, que nada lhe dá tanto
prazer como ‘brincar outra vez’. A obscura compulsão de repetição não é
menos violenta nem menos astuta / na brincadeira que no sexo. Não é por
acaso que Freud acreditava ter descoberto nesse impulso um ‘além do
princípio do prazer’. Com efeito, toda experiência profunda deseja,
insaciavelmente, até o fim de todas as coisas, repetição e retorno,
restauração de uma situação original, que foi seu ponto de partida. (...) ela
[a criança] não quer fazer a mesma coisa apenas duas vezes, mas sempre
de novo, cem e mil vezes. Não se trata apenas de assenhorear-se de
experiências terríveis e primordiais pelo amortecimento gradual, pela
invocação maliciosa, pela paródia; trata-se também de saborear
repetidamente, do modo mais intenso, as mesmas vitórias e triunfos. O
adulto alivia seu coração do meso e goza duplamente sua felicidade quando
narra sua experiência. A criança recria essa experiência, começa sempre
tudo de novo, desde o início. (...) é a transformação em hábito de uma
experiência devastadora.”

p. 253

“É da brincadeira que nasce o hábito [por exemplo, comer, dormir, vestir-se,


lavar-se], e mesmo em sua forma mais rígida o hábito conserva alguns
resíduos de brincadeira.”

“Um poeta contemporâneo disse que para cada homem existe uma imagem
que faz o mundo inteiro desaparecer; para quantas pessoas essa imagem
não surge de uma velha caixa de brinquedos?”

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