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VELHICE E DIFERENÇAS NA VIDA CONTEMPORÂNEA organizadoras Neusa Maria Mendes de Gusmão | Olga Rodrigues de

VELHICE E DIFERENÇAS NA VIDA CONTEMPORÂNEA

VELHICE E DIFERENÇAS NA VIDA CONTEMPORÂNEA organizadoras Neusa Maria Mendes de Gusmão | Olga Rodrigues de

organizadoras

Neusa Maria Mendes de Gusmão | Olga Rodrigues de Moraes von Simson

VELHICE E DIFERENÇAS NA VIDA CONTEMPORÂNEA organizadoras Neusa Maria Mendes de Gusmão | Olga Rodrigues de

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Ivan Grilo

Da dos In ter na ci o nais de Ca ta lo ga ção na Pu bli ca ção (CIP) (Câ ma ra Bra si lei ra do Li vro, SP, Bra sil)

Ve lhi ce e di fe ren ças na vida con tem po râ nea / (or ga ni za do ras) Ne u sa Ma ria Men des de Gus mão, Olga Ro drigues de Mora es von Sim son. - - Cam pinas, SP: Edito ra Alínea, 2006. - - (Co le ção ve lhi ce e so ci e da de)

Vá ri os au to res. Bi bli o gra fia.

1. Enve lhe ci men to 2. Ge ron to lo gia 3. Re la ções ho mem-ani mal 4. Ve lhi ce-Aspec tos so ci a is I. Gus mão, Ne u sa Ma ria Men des de. II. Sim son, Olga Ro drigues de Mora es von. III. Série .

06-4449

CDD-362.6

Ín di ces para Ca tá lo go Sis te má ti co

1. Ve lhi ce: Aspec tos so ci a is: Ge ron to lo gia so ci al 362.6

ISBN 85-7516-153-9

To dos os di rei tos re ser va dos à

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Rua Ti ra den tes, 1053 Gua na ba ra Cam pi nas- SP CEP 13023- 191 PABX: (19) 3232.9340 e 3232.2319 www.ato moea li nea.com.br

Im pres so no Brasil

Conselho Editorial Coordenadora Anita Liberalesso Neri Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da UNICAMP Membros Elizabeth Fröhlich

Conselho Editorial

Coordenadora

Anita Liberalesso Neri

Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da UNICAMP

Membros

Elizabeth Fröhlich Mercadante

Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia da PUC-SP

Emílio Antonio Jeckel-Netto

Programa de Pós-Graduação em Gerontologia Biomédica da PUC-RS

Luis Enrique de Aguilar

Programa de Pós-Graduação em Educação da UNICAMP

Maria José D´Élboux Diogo

Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da UNICAMP

Neusa Maria Mendes de Gusmão

Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da UNICAMP

Olga Rodrigues de Moraes Von Simson

Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da UNICAMP

Ruth G. da Costa Lopes

Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia da PUC-SP

Suzana A. Rocha Medeiros

Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia da PUC-SP

Valdemarina Bidone de Azevedo e Souza

Programa de Pós-Graduação em Gerontologia Biomédica da PUC-RS

Apresentação

SUMÁRIO

Velhice, heterogeneidade e a dança dos esquisitos............................7

Andrea Lopes

Capítulo 1.

Políticas Públicas e Velhice:

Reflexões sobre velhos que vivem nas ruas .....................................19

Roberta Cristina Boaretto e Neusa Maria Mendes de Gusmão

Capítulo 2.

A Perspectiva dos Sujeitos Sociais:

Uma ação política direcionada aos velhos de rua ............................35

Roberta Cristina Boaretto e Neusa Maria Mendes de Gusmão

Capítulo 3.

Reinserção de Idosos no Mundo da Vida e no Mundo do Trabalho: Algumas possibilidades ..........................51

Wanda Pereira Patrocinio e Maria da Glória Marcondes Gohn

Capítulo 4.

Envelhecimento, Trabalho e Educação:

Um estudo sobre cooperativas populares .......................................75

Wanda Pereira Patrocinio e Patrícia Gatti

Capítulo 5.

Velhos, Cães e Gatos:

Interpretação de uma relação.......................................................107

Marília Anselmo Viana da Silva Berzins e Elisabeth Frohlich Mercadante

Capítulo 6.

Memória, Loucura e Velhice:

Os ganhos no processo de envelhecimento pós-reforma psiquiátrica..............................................................169

Reginaldo Moreira e Olga Rodrigues de Moraes von Simson

Sobre os Autores.........................................................................185

APRESENTAÇÃO

Velhice, heterogeneidade e a dança dos esquisitos

Andrea Lopes 1

A leitura dos textos que compõem esta coletânea e as situações e pessoas que são retratadas trouxeram-me a lembrança de um trecho da canção Eduardo e Mônica, cantada aos quatro ventos, na década de 1980, pelo vanguardista Renato Russo e sua Legião Urbana: Festa estranha com gente esquisita. Que festa estranha é essa que ainda vivemos duas décadas depois da menção dos artistas? E que gente esquisita é essa? Na década de 1980, Mônica era uma das personagens da canção, esquisita porque era uma mulher mais velha e experiente que se apaixonava por Eduardo. A mulher que fascinava o menino Eduardo era, na época, a “gente esquisita” que representava milhares e milhares de mulheres que sacudiam as relações de gênero daquele momento. Agora, em 2006, Mônica talvez já tenha netos e continue revolucionando sua geração, agora de velhos ou, no caso dela, dos parceiros da assim chamada Terceira Idade ! Será que continua parecendo esquisita? Ou há outros ainda mais esquisitos? As pes soas esqui si tas de hoje, que revo lu ci o nam silen ci o sa- mente a contem pora ne i dade são as Mônicas e Joa quins, Pedros e

Antônias que circu lam por aí nadando, dançando, alim entando gatos e pom bos, demarcando espaços nos faróis (vide os pedintes idosos exclusi vos da esquina da Praça Roose velt, no centro da cidade de São Paulo), fre qüentando bancos escola res , vivendo sozinhos nas ruas ou em residên cia s de luxo, lotando os pontos turísti cos, sendo voluntá - rios, escolhendo novas carre i ras , alongando filas para asilos ou para cine mas no domingo à tarde. São aque les que ganha ram mais vinte, trinta anos de vida, com os quais muitos parecem nem sem pre saber ao certo se é um present e troi ano ou vitori ano. Toda essa “gente esqui sita” que encontra m os por todos os cantos da vida contem porâ -

nea nos faz lembrar da exis tên cia de uma nova fase ou face do curso de vida, que nos parece ainda estra nha, posto que mal ini ci ada e reco - nhe cida como expe riên cia cole tiva.

Um dos marcos da constituição da velhice como categoria social começou a se formar no Brasil em meados da década de 1960, com a fundação da Sociedade Brasileira de Geriatria (Lopes, 2000). Nessa época, a necessidade era resolver o problema da “gente esquisita” que dava o que fazer nos corredores do Hospital Miguel Couto, no Rio de Janeiro. Um grupo de médicos preocupava-se com a população idosa que crescia e se acotovelava em meio às demandas de gerações mais jovens e em fugir de propostas charlatonas, próprias da época no tocante aos assuntos do envelhecimento. O cenário nos hospitais públicos brasileiros parece não ter mudado muito desde então, conforme o relato de uma médica que conheci no último carnaval, a qual desistiu da esquisitice do sistema público de saúde. Mas, no seu depoimento, pude perceber que a esquisitice ao menos

deixou de ser relativa às pessoas, e passou a ser do sistema, que não dá conta mais dessas “gentes”.

Hoje, quarenta anos depois que os pioneiros da Geriatria no Brasil preocuparam-se com os idosos que transitavam pelos corredores de hospitais, os idosos estão também em outros espaços sociais, incomodando não apenas um grupo de médicos, mas outros agentes sociais. Uma categoria social legítima se forma assim mesmo:

incomodando! Foi incomodando que os idosos franceses impulsionaram a criação e a disseminação, na França, na década de 1960, do conceito de “Terceira Idade”. Conforme Peixoto (1998), a política de integração da velhice naquele país, a partir de 1962, visava a

modificações político-administrativas, assim como à transformação da

imagem das pessoas envelhecidas (p. 75), com o objetivo de evitar o

agravamento das condições de vida dos idosos no pós-guerra e a conseqüente revisão dos critérios de exclusão e integração dessa população. A imagem de uma velhice decadente, associada às camadas populares, foi paulatinamente substituída por uma imagem ativa e independente, que se expressava socialmente no conceito e na imagem da Terceira Idade, assumidas principalmente pelos novos aposentados que começaram a reproduzir as práticas das camadas médias assalariadas.

Pensando na visibilidade e no alcance que a velhice e os velhos atingiram atualmente, vemos que a criação de novas expressões e denominações sociais funciona não apenas como novos adjetivos, mas também para nomear novas fases no curso de vida – a Terceira Idade como a fase entre a aposentadoria e a velhice serve para estimular e

legitimar a criação de uma gama de equipamentos e serviços (Peixoto,

1998, p. 76) e para estimular a formação de profissionais aptos para o trato dessa população e suas demandas (Lopes, 2000), movimentando o cenário das preocupações sociais. Na América Latina, as novas imagens e o novo trato do envelhecimento chegaram da Europa e sensibilizaram especialmente os médicos argentinos, além dos brasileiros da Sociedade Brasileira de Geriatria. Imprimiram sua marca, ainda timidamente, também nos documentos e órgãos oficiais. Um exemplo é o nascimento do Instituto Nacional de Previdência Social (INPS) em 1966, que colocou a Previdência no rol das questões sociais de ordem pública (Peixoto, 1998). O curso de vida brasileiro, com o aumento da longevidade e outras tantas transformações, vive, hoje, a edificação do conceito de velhice como categoria social legítima. Em análise que realizei sobre o estabelecimento da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (Lopes, 2000), chamei de “Primeira Geração” os médicos dessa instituição que iniciaram o processo de legitimação da velhice como categoria social digna de atenção pública no Brasil, nos anos 1960. A “Segunda Geração” ampliou o âmbito da instituição, ao envolver outros profissionais, além dos médicos, que trouxeram ao estudo e trato do fenômeno uma abordagem multidisciplinar. Por fim, a “Terceira Geração”, na década de 1990, correspondeu à participação da universidade como instituição interessada na formação de jovens

profissionais e acadêmicos absortos pelo tema. Acredito que, hoje, já podemos pensar em uma “Quarta Geração”, que extrapola o universo da SBGG, na medida em que envolve uma ampla rede de órgãos públicos, universidades, profissionais, empresas, mídia, entre outros, envolvidos e interessados na construção da categoria social idosos. Porém, apesar dos ganhos próprios da visibilidade e legitimação da velhice, deve-se atentar para as armadilhas inerentes à construção de categorias de idade, visto que tendem a homogeneização de demandas e populações inteiras, ou ainda, no caso da velhice, podem funcionar como aprisionamento e ordenação das diferenças (Peixoto, 1998; Debert, 1999). Ou seja, reconhece-se a categoria social idosos, mas não se reconhece que entre eles existe forte heterogeneidade associada a diferentes condições de renda, saúde, idade e de acesso a oportunidades. Assim, todos são vistos ora como doentes, inaptos e dependentes, ora como saudáveis e produtivos, quando, na verdade, existem diferentes combinações dessas condições em idosos que podem estar na fase inicial desse estágio de vida ou na velhice avançada. Estudando idosos franceses, Peixoto (1998) indicou que as caracterizações próprias da construção de categorias etárias mascaram diferenças de classe social e de nível econômico. Na verdade, diferentes grupos, mesmo fazendo parte da grande categoria idosos, demandam diferentes práticas e políticas sociais, compatíveis com suas necessidades. Debert (1999) chama a atenção para uma segunda armadilha criada pela homogeneização dos idosos por critério etário. A armadilha consiste em apresentar idosos saudáveis e produtivos como o único modelo aceitável de envelhecimento, relegando os menos saudáveis e menos produtivos a uma outra categoria, com status mais baixo e menor legitimidade. Assim, não é incomum categorizar idosos ativos e produtivos, independentemente de terem 60, 70, 80 ou mais anos como pertencentes à Terceira Idade. Ao mesmo tempo, os que não correspondem a esse padrão modelar são simplesmente chamados de velhos, com todas as conotações negativas inerentes ao termo. Além disso, tanto os saudáveis como os não saudáveis são apontados, muitas vezes, como os únicos responsáveis por sua condição, eximindo a coletividade da obrigação de oferecer mecanismos que atendam as diferenças. A esse fenômeno Debert dá o nome de “reprivatização” da velhice.

Em lugar disso, devemos nos perguntar se o idoso tem recursos suficientes para custear dietas nutricionais caras, ou se existem parques perto de sua casa, onde possa realizar as exigidas caminhadas. O risco apontado por Debert é o desaparecimento da velhice como categoria social do nosso leque de preocupações sociais, se ela se tornar um empreendimento de cunho exclusivamente privado. Por exemplo, a reestruturação e universalização das aposentadorias e Estatuto do Idoso são ganhos da visibilidade da velhice como categoria etária legítima, mas sempre devemos ter em mente que a efetivação e a manutenção dessas conquistas devem ser fruto não só de esforços individuais como principalmente coletivos, atendendo à multiplicidade dos sujeitos envolvidos. Ao pensarmos na construção de uma categoria de idade legítima e merecedora de atenção pública, devemos considerar, como sugere Featherstone (1994), o conceito de “cursos da vida”, no plural. O que a heterogeneidade da velhice atualmente evidencia é que, apesar de o curso da vida ser apontado como um processo biológico universal e de a velhice ter ganhado destaque social, se investigarmos as culturas humanas, e a nossa própria cultura, veremos que cada uma delas e cada indivíduo pertencente a elas constrói sua própria história do envelhecer e chega à velhice das mais diferentes formas, embora compondo uma única categoria social. Essa categoria deve ser vista como um espectro de experiências e possibilidades, pois como aponta Debert (1998, p. 51), a velhice não é uma categoria natural, mas, como qualquer outra categoria de idade, é uma construção histórica e social. A periodização da vida

implica um investimento simbólico específico em um processo biológico

universal, diz a autora. A construção de uma categoria social depende da elaboração simbólica de rituais que demarcam e definem espaços, demandas, comportamentos, direitos e deveres. Hoje, além de continuar avolumando as filas da saúde e do INSS, os idosos também fazem crescer as filas dos bancos quando, por direito garantido por lei, têm prioridade de atendimento. Ao mesmo tempo em que ganham legitimidade pública, os idosos estão cada vez mais mostrando suas diferenças ao ganharem visibilidade pública. Neste livro, vamos ver o que idosos marcados pela diferença têm a oferecer ao debate social e, especialmente,

gerontológico, voltado à compreensão da contribuição da heterogeneidade para a construção das categorias de idade. No primeiro capítulo, Boaretto e Gusmão discutem a importância de se refletir sobre a formatação de categorias sociais e a identificação de demandas sociais, tendo em vista a elaboração de políticas públicas destinadas a segmentos específicos da população. Por meio do conceito de “problema social”, conforme discutido por Debert (1998) e por Lenoir (1989), as pesquisadoras relatam a condição dos velhos de rua como objeto de disputa das instituições sociais, bem como alvo de pesquisas acadêmicas, a partir da década de 1990. Para ilustrar, oferecem um breve cenário do município de São Paulo e do papel dos velhos de ruas no Fórum Estadual das Minorias, ocorrido em 1996. Tal participação ocasionou o despertar da atenção pública para esta população, cuja demanda nos albergues e casas de convivência gerou a necessidade de novos projetos que administrassem a sua insatisfação e a dos idosos residentes em instituições e que avaliassem a qualidade dos serviços a eles oferecidos. O Capítulo 2 estende os investimentos das pesquisadoras dirigindo-se para a experiência paulista do Casa-Lar e Convivência São Vicente de Paula. O capítulo tem como objetivo descrever a criação, em 1999, e o fechamento da instituição, que tinha como finalidade atender velhos de rua. Notamos neste capítulo a participação de uma rede composta pelos mais diversos atores sociais atuando como agentes de mudança, entre eles, especialmente, o próprio velho de rua, sujeito ativo de sua condição. Com muita competência, as pesquisadoras descrevem o processo de reconhecimento, legitimação e expressão do velho de rua como alvo de ações políticas, bem como descrevem o impacto e a repercussão que a experiência de viver naquela instituição gerou nos velhos de rua envolvidos. O Capítulo 3 segue a lógica de pensar a inserção do idoso na vida social e discute formas de participação cooperativa dessa população muitas vezes vista como “esquisita” no mundo do trabalho.

Com base no conceito de Economia Solidária, Patrocinio e Gohn discutem o conceito e os princípios do sistema de cooperativas e de participação popular como alternativa para o modelo capitalista de produção, salientando a necessidade da

criação de projetos e programas dessa natureza, específicos para a população idosa.

O Capítulo 4 ilustra os conceitos apresentados no capítulo anterior, ao analisar a influência da presença dos idosos no desenvolvimento dos princípios de autogestão e da economia participativa. Foram pesquisadas oito cooperativas da cidade de Campinas atendidas pela Prefeitura em parceria com a UNICAMP. O objetivo foi retratar a realidade de trabalhadores e trabalhadoras acima de 50 anos, participantes dessas iniciativas, com base nas categorias de análise educação, trabalho e envelhecimento. Patrocinio e Gatti apontam que o critério de exclusão do mercado de trabalho é muito mais dependente do nível educacional do trabalhador do que da idade em si. O difícil e caro acesso aos meios educacionais e à atualização profissional desqualifica a mão-de-obra idosa. O estudo faz brilhante análise do impacto das condições de trabalho na saúde dos idosos e nas relações de gênero. Tais análises remetem as pesquisadoras ao estudo das representações da velhice no mundo atual. A educação para o

envelhecimento é apontada como o caminho para a emancipação das pessoas e de populações específicas. O quinto capítulo, de Berzins e Mercadante, trata da situação de idosos denunciados por seus vizinhos por apresentarem irregularidades na acomodação e no trato de seus numerosos animais de estimação. Este capítulo é revelador do processo de transposição da condição de invisibilidade dos idosos, que fazem valer suas demandas na esfera pública. Como dizem as pesquisadoras, no universo dos idosos pesquisados, o idoso carrega outros estigmas sociais, como o de “esquisito”, ou o de “velha cachorreira”, que refletem o incômodo causado por aquele que é tido como “diferente”, ou o “outro”, caso análogo ao dos velhos de rua e ao dos velhos cooperados. Os depoimentos, as situações e as relações entre velhos e animais falam daqueles anteriormente vistos apenas como personagens de contos infantis. As falas dos participantes da pesquisa retratam suas interpretações do mundo, de si, das relações sociais, da forma como organizam a vida, seres isolados e solitários. As pesquisadoras descrevem em detalhes a relação entre essas pessoas e os animais e mostram a existência de mundos paralelos, especialmente dentro das grandes metrópoles, e de quanto são merecedores de atenção pública. A missão que assumem de cuidar dos animais gerou senso de utilidade,

bem-estar, propósito de vida e senso de significado nos participantes da pesquisa, mesmo vivendo sob condições de alarme sanitário. O caso deles exemplifica, mais uma vez a heterogeneidade do envelhecimento. O sexto e último capítulo, de Moreira e Simson, fala de “esquisitos” por tradição, os doentes mentais. Os pesquisadores apresentam a trajetória de vida de idosos que realizaram tratamento de saúde mental no Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira, na cidade de Campinas. Utilizaram a metodologia da história oral para investigar os temas memória, loucura e velhice em três grupos de idosos ligados a essa instituição, que passou por uma abrangente reforma psiquiátrica na década de 1990. O objetivo da pesquisa foi avaliar a qualidade de vida dos idosos que passaram pelo processo de desospitalização. Devido a uma nova postura de atendimento, que prevê a integração assistida dos doentes mentais à vida social, desde 1993 a instituição é considerada pela Organização Mundial da Saúde como uma referência no tratamento à saúde mental no Brasil. Os pesquisadores descrevem essas transformações e demonstram a conquista de direitos e espaços sociais por parte dessa população, já na velhice, como também as diferentes formas de participação dos reinseridos na comunidade.

Assim como os outros pesquisadores deste livro demonstram nas situações dos velhos de rua ou dos idosos cooperados, Moreira e Simson falam de um movimento protagonista por parte desses velhos egressos de um hospital psiquiátrico, seja por si mesmos, seja por meio dos agentes das instituições a que pertencem. Apesar de tímido, este movimento nos faz pensar na construção de novas redes sociais, com novos agentes e novos papéis, não mais apenas os de ex-loucos, pessoas de rua ou pessoas dependentes, estigmas que muitos deles carregaram ao longo de toda a vida.

Cada diferente forma de envelhecer apresentada nesta coletânea fala de uma velhice como categoria socialmente legítima, levando em consideração a diversidade de trajetórias e de cursos de vida. Na presença de um ganho de dez, vinte ou trinta anos de vida, faz-se necessário estimular a formação de uma rede de interessados nessa nova população que cresce em número, demandas e visibilidade. Como podemos ver neste livro, esta rede é formada por órgãos governamentais os mais diversos, pela comunidade, pelo mercado, pela mídia, pela comunidade científica, pelas

organizações não-governamentais, por profissionais diversos, mas, principalmente por velhos de cooperativas, manicômios, de rua, de “zoológicos domésticos” e de outros tantos espaços “esquisitos” que, como a Mônica de Renato Russo, seguem seduzindo e se legitimando no curso de vida “normal” , como o de Eduardo. Na juventude, este vivia jogando futebol de botão com um avô que ainda não conhecia os clubes de caminhada, as Universidades para

a Terceira Idade, as filas de cinema e tantos outros espaços que a velhice conquistou a partir da década de 1980.

Como um manifesto, eu escrevo esta apresentação em tom otimista, apesar da trágica situação dos velhos de rua, dos locais de poucas condições de trabalho ocupados por cooperados, ou das condições daqueles que ainda não dispõem de um tratamento de saúde mental adequado às suas fragilidades. Não pretendo desqualificar ou ignorar as condições relatadas por Patrocinio e Gatti, que apontaram a situação de vulnerabilidade econômica e social dessa população e os perigos da noção de que os idosos formam uma categoria homogênea. Numa opção assumidamente pouco romântica, quero ressaltar que, apesar de suas duras vidas, estes idosos superam suas dificuldades de alguma maneira e com dignidade. Por meio de distintas formas de experimentar a vida, e o que ainda de pouco lhes é disponibilizado, contribuem para a construção da visibilidade e para a legitimação de suas demandas no competitivo cenário das disputas sociais brasileiras. É como “velhos” que fazem isso, não como pessoas de rua, loucos, mulheres, ou qualquer outra identidade. Poucas foram as populações vulneráveis, na contemporaneidade, que lograram obter tanta visibilidade e conquistar recursos para superar seus problemas.

Sustentando famílias inteiras no Nordeste brasileiro com suas aposentadorias, chamando a atenção da mídia, de pesquisadores e governantes, o aumento da população idosa vem provocando a formação de novas categorias de gênero e redefinindo as relações de dependência (Debert, 1994; Lopes, 2003); vêm criando novas trajetórias, demandas sociais e mentalidades no mundo do trabalho e da aposentadoria (Simões, 1998, 1999); gerando novos enfoques em educação (Cachioni, 1999, 2003), em cuidado (Santos, 2003; Neri, 2002), nas relações entre os idosos e a mídia (Neri, 2003; Orjuela, 1999) e em relação à finitude (Py, 1999). Estão dando origem a novas políticas públicas (Boaretto & Heimann, 2003; Borges, 2003), a novas

formas de ver as relações intergeracionais (Pacheco, 2003; Barros, 1987) e as relações com o corpo (Featherstone, 1994). Revelam-se, assim, novas possibilidades de existir para os idosos, não mais como “esquisitos”, mas como parte de uma ampla categoria social reconhecida e integrada. Não podemos fechar os olhos para essas transformações e devemos ter claro o papel de protagonistas que esses velhos e suas experiências heterogêneas desempenham no redelineamento do curso de vida atual. Talvez não sejam “pessoas esquisitas” numa “festa estranha”, uma vez que a própria existência da diferença provoca mudança e os insere silenciosamente num novo curso de vida, na construção de novas fases e no estabelecimento de novos papéis sociais. A vida tem sua dinâmica e não espera. As formas de gestão do curso de vida estão paulatinamente mudando, pedindo a acomodação de novas “gentes”, entre elas várias categorias de idosos. Os trabalhos apresentados neste livro mostram que podemos ser nós os Eduardos, “pessoas perdidas nessa festa estranha com gente esquisita”, os cursos de vida contemporâneos.

Referências

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Borges, M. C. M. (2003). O idoso e as políticas públicas e sociais no Brasil. In O. R. M. Simson, A. L. Neri & M. Cachione. (Orgs.), As múltiplas faces da velhice no Brasil (pp. 79-104). Campinas, SP: Alínea.

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Cachioni, M. (2003). Quem educa os idosos? Um estudo sobre professores de universidades da terceira idade. Campinas, SP: Alínea.

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Featherstone, M. (1994). O curso da vida: corpo, cultura e imagens do processo de envelhecimento. In G. G. Debert (Org.), Textos Didáticos: Antropologia e Velhice. 1(13), 49-72. Campinas, SP: IFCH/UNICAMP.

Lenoir, R. (1989). Object sociologique at problème social. In P. Champagne, R. Lenoir, D. Merliê & L. P. Bordas (Orgs.), Initiation à la pratique sociologique (pp. 55-100). Paris: Dunod.

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Neri, A. L. (Org.), (2002). Cuidar de idosos no contexto familiar: questões psicológicas e sociais. Campinas, SP: Alínea.

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velho, velhote, idoso, terceira idade … In M. M. L. Barros (Org.), Velhice ou Terceira Idade? Estudos antropológicos sobre identidade, memória e política (pp. 69-84). Rio de Janeiro, RJ: Fundação Getúlio Vargas.

Py, L. (Org.), (1999). Finitude: uma proposta para reflexão e prática em gerontologia. Rio de Janeiro: NAU. Santos, S. M. A. (2003). Idosos, família e cultura. Campinas, SP: Alínea.

Simões, J. A. (1998). A maior categoria do país: o aposentado como ator politico. In M. M. L. Barros (Org.), Velhice ou Terceira Idade? Estudos antropológicos

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Simões, J. A. (1999). A previdência social no Brasl: um histórico. In A. L. Neri, & G. G. Debert (Orgs.), Velhice e Sociedade (pp. 87-112). Campinas, SP: Papirus.

CAPÍTULO 1 POLÍTICAS PÚBLICAS E VELHICE Reflexões sobre velhos que vivem nas ruas Preso à minha

CAPÍTULO 1

POLÍTICAS PÚBLICAS E VELHICE

CAPÍTULO 1 POLÍTICAS PÚBLICAS E VELHICE Reflexões sobre velhos que vivem nas ruas Preso à minha

Reflexões sobre velhos que vivem nas ruas

Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.

Carlos Drummond de Andrade

Roberta Cristina Boaretto | Neusa Maria Mendes de Gusmão

Velhice, idade cronológica e a formulação de políticas públicas

Andar pelas ruas de uma grande cidade impressiona o olhar, marcado pelas pessoas com as quais nos deparamos e pelos contrastes existentes entre elas e entre os lugares por onde passamos. No meio de uma urbanidade que parece disforme, aos poucos é possível distinguir as pessoas que transitam pelas ruas e outras que nelas permanecem. Um olhar mais atento nos faz enxergar, no entanto, os velhos que aí estão, fazendo parte também do mundo das ruas.

Partindo desse cenário, surge uma primeira inquietação:

quem são esses velhos que encontramos nas ruas? Para refletir sobre isso, é necessário indagar previamente sobre a própria velhice. Para compreendê-la, a Gerontologia e as Ciências Sociais mostram que é necessário realizar uma discussão que contemple as várias dimensões do processo do envelhecimento, uma vez que ele não é uniforme ou único para todos os indivíduos.

É possível começar pela discussão do limite etário que divide a velhice da idade adulta. Não existe um consenso sobre a partir de qual idade a pessoa deve ser considerada idosa. A Psicologia do Envelhecimento, por exemplo, considera a idade cronológica como uma das causas do desenvolvimento e, conseqüentemente, do envelhecimento. É, portanto, a escala de tempo que marca este processo e isso significa que ela é um importante indicador a ser considerado na compreensão da velhice. Dessa maneira, a idade configura-se como um organizador para quem deseja pesquisar este tema (Neri, 2002).

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No entanto, ao tratar de velhos que vivem nas ruas, a idade pode ser um indicador pouco expressivo e insuficiente. Observa-se, por exemplo, que pessoas que envelhecem e dependem de trabalhos informais obtidos nas ruas percebem seu próprio envelhecimento não pela entrada na faixa etária dos 60 anos, mas quando outros as reconhecem como velhas e, portanto, como improdutivas e inaptas para o trabalho, impedindo que garantam a continuidade de seu meio de sobrevivência. Isso significa que características biológicas, tais como a idade, são afetadas, dentre outros, por aspectos culturais. Assim, desloca-se a discussão sobre os limites etários que distinguem quem é velho ou não para a necessidade de identificar como as marcas culturais afetam a velhice. Nesse sentido, Camarano et al. (1999) apontam que demarcar um limite pela idade cronológica pode ser decisivo para os formuladores de políticas, pois isso permite prever o número de pessoas sujeitas a benefícios previstos em programas ou políticas públicas. Porém, isso mostra um pressuposto de que os sujeitos são considerados homogêneos espacial ou temporalmente, ou seja, não leva em conta diferenças individuais ou de segmentos particulares como é o caso dos velhos que vivem nas ruas. Esse processo de fixar critérios e, portanto, de selecionar pessoas para que possam se inserir em políticas determinadas envolve disputa de interesses, trata-se de uma escolha. Isso significa que existe uma flexibilidade nos parâmetros de inclusão/exclusão dos sujeitos nas políticas públicas, que varia de acordo com a prioridade estabelecida por seus formuladores. Um breve detalhamento sobre essas prioridades permite dizer que a pauta diretiva das ações políticas, bem como do destino dos orçamentos públicos estão permeados por uma valorização dos aspectos econômicos em detrimento dos sociais, especialmente nas últimas décadas. Um exemplo disso é a divergência existente entre as diversas leis que tratam sobre idosos, tais como a Política Nacional do Idoso (Brasil, 1994), o Estatuto do Idoso (Brasil, 2003) e outras. A idade de 60 anos é o marco usado para definir alguém como idoso, mas benefícios como o de Prestação Continuada (BPC) e o direito à gratuidade para andar nos transportes coletivos são reconhecidos para aqueles com mais de 65 anos – no caso deste último, existe uma distinção por gênero, em que mulheres têm esse direito a partir dos 60

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anos 1 . Essa flexibilidade reflete não somente a ausência de um consenso, mas mostra, portanto, que selecionar pessoas para serem incluídas ou não em determinadas políticas envolve interesses diversos. Nesse sentido, fica acentuada a importância atribuída à divisão das faixas de idade existente em nossa sociedade para a demarcação de um grupo social, como o dos idosos. Ressalta-se também que a própria heterogeneidade inerente aos idosos acaba por burlar os esquemas de classificação estabelecidos. Debert (1998) mostra que a relevân cia atri buída à idade crono - ló gica está asso ci ada à ins ti tu ci o na li za ção do curso da vida que é pró - pria das socie da des ociden tais modernas, ou seja, à divisão dos dife ren tes perío dos da vida em infân cia, idade adulta e velhice. Esse mecanismo tem como fun ção a atri bu i ção de status, a defi ni ção de papéis ocu pa ci o nais e a for mu la ção de deman das soci ais, res pec ti va - mente reco nhe ci dos como a maio ri dade legal, a entrada no mercado de tra ba lho e o dire ito à apo sen ta do ria. Além disso, a fragm en ta ção das fases da vida pela idade está rela ci o nada à deter mina ção de uma ordem cien tí fica que teve como fun da mento marcar parâ metros fixos e pre ci - sos para anali sar o desenvol vi m ento humano. A autora aponta ainda que esses cri té rios que sepa ram as ida des atuam como deter minan tes dos deve res e direi tos do cidadão e são estes que defi nem as rela ções entre gera ções, em detri mento da atu ação de um aparato cul tu ral que reflita os está gios de maturi dade 2 . O estabelecimento de classificações pela idade envolve, portanto, uma luta política em que pesa a redefinição dos poderes

  • 1. Elevar o limite de idade e criar restrições econômicas – como estabelecer o direito ao BPC apenas àqueles que se situam abaixo da linha da pobreza, fixá-la em um salário mínimo e posteriormente reduzi-la para meio salário mínimo – são estratégias normalmente utilizadas para restringir o número de beneficiários que teriam acesso a direitos legalmente constituídos. A esse respeito, conferir Lessa et al. (1997).

  • 2. Uma distinção desta forma de divisão das faixas etárias que encontramos em nossa sociedade pode ser observada na descrição de estudos antropológicos com tribos indígenas do Brasil e da América do Sul. Dentre elas estão os Xavante, que estabelecem classes de idade, organizadas hierarquicamente e que conferem características e reconhecimento da capacidade de realização de determinadas funções, autorizando práticas específicas a cada classe, independendo da idade cronológica. Os velhos, por exemplo, são aqueles encarregados de formar as classes de idade abaixo deles e são reconhecidos por terem esse papel social (Maybury-Lewis, 1974).

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ligados a grupos sociais distintos em diferentes momentos do ciclo da vida. Isso significa que, apesar de existir uma antiga preocupação com o envelhecimento, ele passou a se destacar como objeto de interesse juntamente com o advento da Modernidade, que coincide

com a divisão do ciclo da vida pelas faixas etárias e com a atribuição de um espaço social determinado para a infância, a idade adulta e a velhice (Debert, 1998).

Considerando, portanto, os velhos que vivem nas ruas e as políticas destinadas a eles, é possível partir do referencial trazido pelas Ciências Sociais, que compreende a velhice como uma construção

social, o que não significa uma restrição, mas que é preciso levar em conta como ela aparece em diferentes contextos e como é produzida pela sociedade em que está presente. No caso daqueles que estão nas ruas, pode-se ainda verificar como são tratados pelos outros e como passaram a ser alvo das preocupações sociais.

A população de rua é um fenômeno que está relacionado com os centros urbanos e sua existência tem implicações sobre a estrutura e organização de grandes metrópoles, fazendo assim parte de nosso cotidiano. Pensar a velhice, levando em conta que os velhos também estão presentes na população de rua, portanto, requer uma reflexão cuidadosa. Nesse sentido, para verificar como os velhos de rua tornaram-se alvo das preocupações sociais e, conseqüentemente, de políticas públicas, é necessário descrever o contexto social e político no período em que eles se tornaram alvo dessas ações, especificamente na década de 1990. Assim, torna-se possível compreender como foram influenciadas a formulação de políticas nos municípios em que se situa a população de velhos de rua, de acordo com as diretrizes estabelecidas num panorama mais amplo.

A década de 1990 e a Reforma do Estado

Para fundamentar as ações destinadas aos diferentes segmentos sociais, tais como aquelas específicas para os velhos que estão nas ruas, é necessário fazer uma digressão sobre as políticas públicas e o processo de Reforma do Estado deflagrado a partir da década de 1990, a fim de estabelecer uma relação entre uma linha de

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ação mais abrangente e sua influência nas ações políticas municipais direcionadas aos diferentes segmentos sociais. A Constituição de 1988 foi um marco de referência no estabelecimento de direitos e na consolidação dos espaços formais de negociação entre Estado e a sociedade civil, conformando o processo democrático inexistente até então. Em análise sobre a política social brasileira na década de 1990, Lessa et al. (1997) afirmam que os grupos menos favorecidos não tiveram suas necessidades básicas transformadas em direitos sociais efetivos, ao contrário do que propunha o capítulo da seguridade social da Constituição. Além disso, esse período foi acompanhado por uma grave crise financeira e política, que resultou em uma crise de governabilidade, atingindo as três esferas de governo, a União, estados e municípios. Como resultado dessas crises foram criados planos de estabilização econômica e redefinidas as políticas sociais, que acabaram por adquirir um caráter compensatório. O orçamento gasto em projetos e programas sociais foi reduzido e a prioridade passou a ser conferida a outras áreas, como a de defesa e a econômica. Assim, houve um redirecionamento do recurso específico da seguridade social – que originalmente deveria ser empregado apenas para as áreas da saúde, assistência social e previdência – para, por exemplo, os reajustes fiscais de emergência, tais como o Fundo de Estabilização Fiscal (Lessa et al., 1997). Isso significou colocar recursos sociais à disposição do governo federal para serem redistribuídos segundo seus critérios, desviando a finalidade primeira do orçamento da seguridade, ou seja, as políticas sociais 3 . O processo de Reforma do Estado, iniciado na década de 1990 pelo Ministério da Administração Federal e Reforma do Estado – MARE, criado em 1994 – teve como objetivo oferecer respostas à crise de governabilidade por meio da reforma da administração pública e conseqüentemente do Estado. De acordo

  • 3. A disparidade entre os valores das despesas executadas da União, por exemplo para o ano de 2002, indica sobre essa prioridade: as despesas realizadas com Saúde, Assistência Social e Previdência totalizaram pouco mais de 155 bilhões de reais, enquanto que as despesas com juros e encargos de dívida e com amortizações da mesma totalizaram mais de 360 bilhões de reais no mesmo ano (Fonte: Ministério do Planejamento, disponível em http://www.planejamento.gov.br).

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com essa proposta de reordenamento, a origem de uma crise importante no sistema estaria no mercado ou no Estado e as soluções propostas variam de acordo com a filiação ideológica do grupo que as propõe (Pereira, 1997). Assim, a Reforma do Estado proposta pelo MARE teve como fundamento a ideologia neoliberal que, segundo Soares (2005), produziu um retrocesso histórico na questão social e uma valorização do aspecto econômico. O pressuposto neoliberal da Reforma determinou que não havia problemas com o mercado, mas a questão crucial que envolvia a crise tinha origem no Estado, que tinha característica intervencionista e, portanto, criava um obstáculo para o bom funcionamento da gestão pública 4 . Além disso, o Estado brasileiro foi considerado ineficiente e centralizador, permeado de práticas clientelistas e paternalistas que possuem raízes históricas na política brasileira 5 . Esse cenário produziu reflexos na formulação das políticas públicas do período. A crise foi definida, portanto, pelo seu aspecto econômico, sendo necessário reduzir o Estado burocraticamente, adotando um modelo de administração gerencial, que toma como referência as práticas privadas, tornando o Estado supostamente mais eficiente e moderno. As práticas recomendadas são a profissionalização dos funcionários estatais, a reestruturação organizacional, a redução dos níveis hierárquicos e a privatização e terceirização dos serviços, permitindo transformar o serviço público em mais barato e de melhor qualidade 6 . Por meio dessa reorganização, as políticas públicas e sociais seriam as atividades estratégicas do Estado e seriam financiadas por ele. No entanto, esse processo foi acompanhado por cortes significativos no

  • 4. Segundo a concepção de Bresser Pereira, autor da proposta de reformulação do Estado brasileiro, “quando há uma crise importante no sistema, sua origem deverá ser encontrada ou no mercado, ou no Estado. A Grande Depressão dos anos 30 decorreu do mal funcionamento do mercado, a Grande Crise dos anos 80, do colapso do Estado Social do século vinte” (Pereira, 1997, p. 9).

  • 5. As reflexões feitas sobre a prática gerencial, introduzida pela Reforma do Estado e aplicada à administração pública neste texto, fundamentam-se no trabalho elaborado pelo Grupo de Estudos sobre a Construção Democrática (1998/1999).

  • 6. De acordo com Laura Tavares Soares (2005), sob a égide da modernização do Estado, esse processo de reforma também teve como conseqüência a introdução de novos mecanismos de privatização do aparato público-estatal, implicando a precarização das relações trabalhistas, as demissões em larga escala e a baixa qualidade dos serviços prestados pelas empresas privatizadas.

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orçamento social, fazendo com que essas ações estratégicas ficassem em segundo plano, pouco incidindo sobre as desigualdades sociais ou sobre a qualidade de vida dos menos favorecidos. Um outro aspecto a ser ressaltado diz respeito ao enfoque subjacente à Reforma do Estado, que não tratou da crise pelo seu caráter ético e político. Isso implicaria a reconstrução da gestão pública sobre bases mais democráticas, o que propiciaria o exercício da cidadania. No entanto, a elaboração de políticas públicas tais como as propostas pela Reforma do Estado não previa a participação da sociedade civil, em especial na definição das prioridades, uma vez que essa é uma das tarefas estratégicas do Estado. Isso vai em direção contrária a uma divisão de poder, em que a sociedade civil seria decisiva no processo de tomada de decisão e de estabelecimento de prioridades, restringindo-se à execução das ações definidas pelos formuladores de políticas. Com relação ainda à partilha de poder, compreende-se que a prática política ficou novamente centralizada, o que pode ter como resultado a manutenção e reprodução de práticas privatistas e clientelistas criticadas pela própria Reforma. A conformação de uma noção de interesse público, essencial para o processo democrático, caracteriza a necessidade da participação da sociedade civil no processo decisório, ou seja, é fundamental a partilha de poder e de responsabilidades entre Estado e sociedade civil, em que o primeiro é o executor, garantindo não interesses particulares, mas comuns. É importante ressaltar que há uma multiplicidade de interesses envolvidos no processo de elaboração das políticas públicas, que conseqüentemente não ocorre sem conflitos, mas contribui para a conformação de uma esfera pública de negociação (Dagnino, 2002). Não é, portanto, um processo uniforme, há intensa disputa que se reflete especialmente na prática da administração pública e na formulação das políticas.

Desta forma, é possível dizer que, apesar da garantia constitucional de direitos que asseguram a justiça social, existem diferentes formas de colocá-los em prática. O município de São Paulo é um exemplo a ser descrito no que se refere à formulação de uma política pública para um segmento específico, os velhos de rua, afetada pelo contexto em que foi formulada, o da reforma administrativa do Estado brasileiro, conforme apresentado a seguir.

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A cidade e os velhos de rua

O município de São Paulo passou, desde a década de 1990, por gestões sucessivas de caráter centralizador e conservador, que foram descritas como um retrocesso na conquista de projetos sociais 7 . Duas gestões foram permeadas por essa característica específica, consideradas o divisor de águas nesse período – ocorridas entre os anos de 1993 e 1996 e entre 1997 e 2000 – uma vez que priorizaram a extinção de políticas municipais das áreas consideradas como direitos básicos, privatizaram setores – como a saúde e transportes – e desarticularam os espaços constitucionais de diálogo entre sociedade civil e Estado, como os conselhos municipais. Assim, em 2000, o município estava com uma expressiva dívida pública, presenciou o aprofundamento das desigualdades existentes entre as diferentes regiões da cidade e restringiu o acesso da população aos programas sociais. Nesse contexto, alguns idosos que viviam em albergues do município de São Paulo participaram em 1996 do Fórum Estadual de Minorias (São Paulo, 1999) – promovido pela Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania, pelo Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, pela Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa e pelo Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo – que tinha como objetivo organizar o Programa Estadual dos Direitos Humanos. Esse fórum foi composto pelos segmentos da população especialmente afetados em seus direitos humanos e, dentre estes, estavam os velhos que viviam nas ruas. Eles apresentaram os problemas vividos nos albergues, tais como a inadequação do espaço físico e a convivência com pessoas de outras faixas etárias que não os respeitavam. A população de rua em São Paulo possui algumas formas de atendimento. Dentre elas estão os albergues, que oferecem o pernoite e são instituições de abrigamento, em geral gerenciados por entidades filantrópicas e conveniadas com a prefeitura. Eles possuem

  • 7. O Instituto PÓLIS – Instituto de Formação e Assessoria em Políticas Sociais – criou, em 2001, o observatório dos direitos do cidadão, que teve como objetivo acompanhar a evolução das políticas públicas em São Paulo nas últimas décadas, tais como as políticas de saúde (Junqueira, 2001), de educação (Freitas et al., 2001), de habitação (Amaral, 2001) e da assistência social (Sposati, 2001).

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horários e procedimentos rígidos: a entrada ocorre no período entre cinco e seis horas da tarde e a saída é por volta das sete horas da manhã seguinte. Os usuários têm uma carteira de identificação e há um prazo máximo para usar seus serviços – de três meses a um ano, dependendo do albergue. Há também as casas de convivência que não se destinam ao pernoite e são locais onde moradores de rua podem se alimentar, fazer a higiene, lavar roupas e participar de oficinas de discussão de temas como cidadania, saúde e outros; também são conhecidos como instituições de acolhimento da população de rua. Os albergues, portanto, destinam-se ao pernoite e seus usuários não podem ficar no local durante o dia, enquanto que as casas de convivência são destinadas a atividades diárias. Algumas instituições oferecem no mesmo local ambos os serviços, ou seja, durante o dia realizam atividades de uma casa de convivência e à noite oferecem o serviço de albergue. A participação no Fórum Estadual de Minorias constituiu uma das primeiras apresentações das questões vividas pelos velhos que viviam nas ruas. Ao mesmo tempo, as instituições que prestavam serviços para população de rua reconheciam como dificuldades para o cotidiano da instituição a demora dos idosos nas filas para realizarem as atividades de alimentação, banho e outras. A partir disso, foi destinado a eles um tratamento diferenciado em alguns albergues e casas de convivência – tais como distinguir uma fila e horários especiais. Isso significa que o reconhecimento das necessidades diferenciadas dos velhos que viviam nas ruas aconteceu não somente pelas queixas dos mesmos, mas também – e principalmente – pelas dificuldades provocadas por eles nas instituições por onde passavam. Esta foi uma das maneiras pela qual a atenção pública voltou-se para esse segmento social. As necessidades dos velhos de rua foram, a partir desse momento, incrementadas e subsidiadas pelo apoio das instituições assistenciais, ganhando força e respaldo político suficiente para demandar ações da administração municipal, que teve como resposta projetos pontuais, como a criação de uma moradia provisória somente para idosos que viviam nas ruas. A elaboração desses projetos, portanto, surgiu como resultado não somente da insatisfação dos idosos com os serviços destinados à população de rua, mas também por uma atuação das instituições assistenciais, que

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partiram de um pressuposto de que os velhos não se adequavam ao serviço oferecido. As instituições assistenciais filantrópicas tradicionalmente trabalham com a população de rua em geral, o que se estende também no caso dos velhos que vivem nas ruas. Quem vive nas ruas encontra formas alternativas de sobrevivência, que vão desde a mendicância até os trabalhos informais. Além disso, essas pessoas mantêm uma rede de relações que as permite sobreviver em situações adversas. Essa rede se dá com pessoas e também com as instituições assistenciais, conformando o que Gregori (2000) chamou de trama institucional, auxiliando em dois mecanismos essenciais para quem depende das ruas: a circulação e a viração. A circulação ocorre num espaço delimitado, onde se situam os locais de alimentação, descanso e de obtenção de dinheiro. A viração, por sua vez, possui um caráter duplo, ou seja, ao mesmo tempo em que é uma estratégia de sobrevivência material, é mediadora de posicionamentos simbólicos que estabelecem quem deve ser aquele sujeito que está nas ruas e, conseqüentemente, qual deve ser a forma de tratamento e as ações destinadas a eles. A trama institucional que envolve os velhos que vivem nas ruas, bem como a população de rua em geral, age de forma paradoxal, pois ao mesmo tempo em que as instituições assistenciais acolhem, também alimentam sua situação e impedem o rompimento com essa forma de viver. A conseqüência disso é a transformação de quem vive nas ruas em um objeto de disputa, passando a pertencer às instituições. A disputa pelos velhos que vivem nas ruas não é restrita às entidades assistenciais, ela se estende aos profissionais, ONGs e órgãos governamentais que contribuem para tornar públicas as questões relativas a esse segmento social.

Publicização e a construção de um problema social

A população de rua passou a ser alvo de estudo especialmente a partir da década de 1990, o que tem explicação tanto pelo seu crescimento numérico, como também pelo efeito econômico que

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esse segmento passou a representar nos orçamentos municipais – por meio da assistência social – e na estruturação urbana. Isso explica, em parte, o interesse despertado pela população de rua como objeto de pesquisa, ou seja, no momento em que ela afeta a dinâmica da cidade da qual faz parte e quando o Estado passa a ser responsável pelas ações políticas destinadas à mesma. Os censos sobre população de rua, realizados no município de São Paulo, ganharam destaque a partir de 2000, quando foi criada uma metodologia para realizar essa contagem, o que reafirma o interesse sobre esse segmento social e mostra a necessidade de quantificar e exercer um controle sobre seu crescimento e, conseqüentemente, sobre suas demandas.

Considerando o cenário apresentado para a década de 1990 para o Brasil e o município de São Paulo, é possível dizer que havia uma pequena possibilidade de que os velhos de rua obtivessem visibilidade política suficiente para adquirir legitimidade em suas demandas frente ao poder público. No entanto, em 1999 foi criada uma instituição

destinada à moradia de velhos que viviam em albergues e nas ruas de São Paulo, em que diversos atores sociais promoveram a publicização da situação vivida por eles. O detalhamento dessa ação política será apresentado no capítulo subseqüente.

É necessário ressaltar que esse processo ocorreu de maneira conflituosa e, segundo Dagnino (2002), isso acontece quando o projeto político da administração pública diverge do que propõe a sociedade civil. A participação desta no momento de formulação das políticas públicas pode ser retomada, pois essa foi a maneira encontrada para que, por exemplo, as questões dos velhos de rua ganhassem expressão. Debert (1998) mostra que, apesar de o crescimento numérico de um segmento social ser um importante argumento para explicar a atenção sobre ele, é insuficiente. Isso significa levar em conta os processos pelos quais algo se transforma em problema que adquire expressão e legitimidade no campo das preocupações sociais. Para Lénoir (apud Debert, 1998), um problema social é uma construção social, não é resultado apenas de um problema de funcionamento da sociedade. Esse processo é constituído por quatro dimensões: o reconhecimento, a legitimação, a pressão e a expressão por parte do social.

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O reconhecimento confere visibilidade a uma situação que é particular e, por isso, é necessário conquistar a atenção pública, o que supõe a ação de grupos socialmente interessados em produzir uma nova categoria de percepção sobre o real para atuar sobre ele. A legitimação, por sua vez, parte de um esforço realizado para promover este problema e inseri-lo no campo das preocupações sociais, implicando uma mobilização e incorporação como objeto de luta política. A pressão é realizada por meio de atores sociais que ocupam posições privilegiadas, atuando como porta-vozes e tornando a categoria social uma questão pública. O passo seguinte é a expressão pública, na qual se estabelecem as definições sobre o problema e sobre as práticas a serem concretizadas a partir dele. Pode-se dizer que os velhos de rua tornaram-se um problema social no contexto das políticas públicas no município de São Paulo. No entanto, isso não significa que se tornaram um segmento prioritário para a ação política. Diversos apontamentos se afiguram quando se trata essa questão, mas vale dizer que a prática política exercida em municípios como São Paulo, quando pontuais e pouco efetivas, acaba reproduzindo as práticas vigentes de marginalização dos idosos e associando a velhice às ruas, configurando este como um novo lugar para os velhos.

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CAPÍTULO 2 A PERSPECTIVA DOS SUJEITOS SOCIAIS Uma ação política direcionada aos velhos de rua A

CAPÍTULO 2

A PERSPECTIVA DOS SUJEITOS SOCIAIS

Uma ação política direcionada aos velhos de rua

CAPÍTULO 2 A PERSPECTIVA DOS SUJEITOS SOCIAIS Uma ação política direcionada aos velhos de rua A

A pessoa que eu fui, depois que eu trabalhei, vivi com meu esforço próprio, chegar naquela situação de miséria na rua.

(

)

Que a vida na rua é ruim, é. É uma guerra, não respeita ninguém.

...

Roberta Cristina Boaretto | Neusa Maria Mendes de Gusmão

A epígrafe acima faz parte do depoimento de um idoso que passou um período de sua vida nas ruas de São Paulo. Ela nos permite uma breve aproximação daqueles que se encontram nessa situação e nos mostra o estranhamento do próprio narrador por estar nas ruas. O presente capítulo tem como finalidade descrever uma instituição criada no município de São Paulo em 1999 e reestruturada em 2004, destinada à moradia provisória de velhos que viviam em albergues e nas ruas. Ela foi resultado da iniciativa de diversos atores sociais, tais como os velhos que viviam nas ruas, assistentes sociais que trabalhavam na administração municipal e em instituições de atendimento de população de rua, além de integrantes do conselho de representantes dos idosos no município. O processo aqui apresentado refere-se ao período de implementação da instituição, sendo possível definir o contexto em que foi criada e assim compreender a convergência de aspectos necessários para sua concretização. Outro ponto a ser destacado é sobre o papel e o lugar destinado aos velhos de rua a partir da criação da instituição.

Os diferentes atores e o processo de reconhecimento do problema social

A proposta dessa moradia provisória, designada como Casa-Lar e Convivência São Vicente de Paula, teve origem a partir de um grupo de discussões composto por idosos que freqüentavam

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uma das casas de convivência conveniadas com a então Secretaria da Família e Bem-Estar Social – FABES 1 – área responsável pela população de rua e pelos idosos no município à época. Essas reuniões tiveram início alguns anos antes da criação da Casa-Lar, como resultado de oficinas de cidadania e direitos, realizadas com os usuários da casa de convivência. Um dos motivos de interesse por essas discussões estava na constatação de que o número de idosos que usavam os serviços da casa de convivência tinha aumentado e, além disso, constatou-se que eles tinham dificuldade e lentidão nas filas para tomar banho, fazer a alimentação e outras atividades. Pode-se dizer que os idosos, a partir disso, foram considerados diferentes do restante da população de rua que freqüentava as casas de convivência, tornando-se um segmento com necessidades diferenciadas e, como tal, deveriam ser atendidos por um serviço específico oferecido pela FABES. O projeto da Casa-Lar propunha que fosse destinada a

idosos moradores de rua, independentes e socialmente ativos, de ambos os sexos, a partir de 60 anos, com flexibilidade para o atendimento de pessoas com mais de 50 anos que apresentem evidente envelhecimento precoce (São Paulo, 1999, p. 4).

Os chamados “idosos” correspondiam às pessoas com mais de 60 anos, mas para essa proposta, era permitida a inclusão daqueles com mais de 50 anos, uma vez que os profissionais que trabalhavam com população de rua compreendiam a existência de um “processo de envelhecimento precoce” para esse segmento, flexibilizando a idade em que considerariam idosos os que viviam nas ruas. Esse fato demonstra a dificuldade existente para os formuladores do próprio projeto em definir a idade a partir da qual seriam inseridos os sujeitos, estabelecendo um critério arbitrário para que mais pessoas fossem incluídas, relativizando o limite etário que define a velhice.

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A casa de convivência onde se realizavam as reuniões era conveniada com a FABES e, portanto, estava sob sua supervisão. Assim, teve início uma negociação com a Secretaria sobre a possibilidade de criar uma instituição específica para os idosos de rua, incorporando nas discussões assistentes sociais da FABES juntamente com os idosos. As reuniões realizadas indicavam para as funcionárias da FABES e para as assistentes sociais da casa de convivência que não bastaria criar um albergue diferenciado para idosos, uma vez que suas necessidades os impediriam de sair daquela situação e não teriam como obter renda por meio de trabalho, como outras pessoas que vivem nas ruas. Assim, a proposta formulada deveria contemplar um espaço de permanência para os idosos durante o dia, configurando uma instituição nos moldes de uma casa e não de um albergue. A proposta de moradia provisória que se concretizou com a criação da Casa-Lar e Convivência São Vicente de Paula não tinha como objetivo substituir a rede já existente de acolhimento para a população de rua, pois tratava-se apenas de uma alternativa específica para os idosos. Ao mesmo tempo em que se realizavam as discussões com os idosos na casa de convivência, as assistentes sociais da prefeitura promoveram uma articulação entre as instituições filantrópicas assistenciais que trabalhavam com idosos – para além das que trabalhavam com a população de rua, incluindo as de lazer e cultura – na região central da cidade, onde seria criada a Casa-Lar, com a intenção de promover um diálogo sobre os trabalhos realizados por essas instituições. Iniciaram também uma articulação com as associações e federações de aposentados, que estavam localizadas na região central da cidade. Esse trabalho resultou na proposta de formalização de um fórum de representação dos idosos da região Centro, juntamente com o conselho de participação dos idosos em São Paulo, o Grande Conselho Municipal do Idoso – GCMI. Pode-se afirmar que esse processo foi o responsável por destacar o tema dos idosos nos espaços de discussão da FABES, no conselho dos idosos e nas associações de aposentados, publicizando os problemas e as demandas dos velhos de rua na região Centro de São

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Paulo. Dessa forma, outras instituições agregaram-se às reuniões dos idosos de rua, nesse momento já realizadas no local destinado à moradia provisória. O projeto estava fundado em três eixos principais: a moradia provisória, com capacidade para dezesseis pessoas, a convivência com a população do entorno da instituição, com capacidade para a participação em oficinas de 150 pessoas e a geração de renda. O número de idosos que participava das reuniões era superior a dezesseis, sendo necessário um processo de seleção, ou seleção de demanda. Nesse momento, a seleção foi ampliada para outras casas de convivência conveniadas com a FABES. Um dos critérios estabelecidos foi, estivessem os idosos em albergues ou nas ruas, a necessidade de participarem de algum grupo de discussão nas casas de convivência. Dessa forma, elas se tornaram a ponte para a Casa-Lar. Da mesma forma que as instituições de acolhimento e de serviços voltados para a população de rua formam uma trama institucional (Gregori, 2000), elas se caracterizam como fonte de recurso e como oportunidades de deslocamento para os moradores de rua. Além disso, tentam minimizar as condições de sofrimento, atuam na construção de uma imagem junto à opinião pública e fazem o papel de mediadoras de conflitos diversos, envolvendo a população de rua e os agentes que provocam sua expulsão dos logradouros (Frangella, 2004). Isso significa que as redes institucionais alimentam o circuito da rua, produzindo uma clientela e sendo produzida por ela, em uma contínua aliança permeada por conflitos. As casas de convivência foram, dessa forma, a passagem para a Casa-Lar e as assistentes sociais eram responsáveis pela indicação de quais idosos tinham condições de participar do projeto. Esse processo de elaboração da Casa-Lar conferiu, inicialmente, visibilidade à particularidade da situação dos velhos de rua. Para isso, foi necessário o reconhecimento promovido por meio da ação das instituições, do conselho e da Secretaria, que tinham interesse nesse segmento social.

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A efetivação da proposta:

legitimação e expressão

Nesse contexto, a Casa-Lar e Convivência São Vicente de Paula foi criada como proposta de moradia provisória para idosos que viviam em albergues e nas ruas do município de São Paulo, instituição administrada diretamente pela FABES. Essa era uma ação de intervenção, que tinha como objetivo a transição dos idosos a uma outra condição, mais autônoma em relação a sua manutenção. A visão subjacente a essa proposta era a de responder, portanto, a um problema social que os idosos representavam e que foi adquirindo reconhecimento e legitimidade como tal. Além disso, a instituição respondia à necessidade de se encontrar uma solução para os limites dos equipamentos assistenciais disponíveis para os velhos que viviam principalmente nos albergues, de uma maneira que atendesse aos reclamos dos sujeitos sociais. A despeito da organização empreendida para se criar a Casa-Lar e Convivência São Vicente de Paula, a coordenação central da Secretaria – FABES – desconhecia os detalhes do projeto e tinha como prioridade naquele momento – 1999 – os trabalhos realizados com crianças 2 . Como descrito no capítulo anterior, esse foi o período final de uma gestão municipal que encerrou diversos projetos sociais e não considerava importante a participação da sociedade civil na formulação das ações políticas. A criação da Casa-Lar transcorreu paralelamente a essa gestão, por meio de profissionais da Secretaria que tinham estabelecido uma prioridade de atendimento para os velhos de rua. Uma das propostas da instituição era a co-gestão, pois se tratava de idosos autônomos que tinham condições de realizar tarefas na casa, como alimentação e limpeza; os funcionários

2. As responsáveis pela área do idoso na região central da FABES e pela efetivação da Casa-Lar encontravam-se, segundo seus relatos, numa situação, dentro da Secretaria, em que eram “orientadas” a não fazer trabalhos que envolvessem os movimentos sociais ou provocassem grandes polêmicas. A gestão municipal deste período (1997-2000) era uma continuidade da gestão anterior (1993-1996), dirigida por Paulo Maluf, que sucedeu a primeira gestão do Partido dos Trabalhadores na cidade, administrada por Luiza Erundina, da qual estas funcionárias – assistentes sociais – participaram ativamente.

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tinham como atribuição orientá-los na execução dessas tarefas. No decorrer da implantação da instituição havia um discurso de valorização das decisões dos idosos sobre o funcionamento da casa. No entanto, a prática mostrou ser diferente do que se propunha o projeto inicial. A dinâmica da Casa-Lar contava com reuniões dos idosos e reuniões técnicas. Um dos temas tratados constantemente era sobre a provisoriedade da instituição. De acordo com a proposta inicial, o caráter provisório da moradia não deveria ser entendido como um prazo determinado, mas como o tempo necessário para que todos os residentes tivessem condições de garantir a sua moradia definitiva, fosse por meio do retorno à família, da geração de renda ou da organização e reivindicação por moradia. Por esse motivo, a instituição oferecia oficinas sobre vários temas, enfatizando a cidadania e a moradia. Esta ênfase originou-se nas reuniões com os idosos, uma vez que eles expressavam a insatisfação com os albergues, a falta de respeito por serem mais velhos e a falta de dignidade que sentiam. Isso foi traduzido pelas assistentes sociais da Secretaria responsáveis pelo projeto como a busca pela cidadania, pois o fato de eles estarem nas ruas não significava que não fossem cidadãos ou que não tivessem direito de opinar sobre suas necessidades. O discurso permeado pela cidadania, presente nos moradores e funcionários da instituição foi, portanto, uma interpretação do que os sujeitos sociais demandavam, tendo como resultado a estrutura e organização da Casa-Lar tal como foi criada. A despeito disso, houve uma distância entre o projeto proposto inicialmente e a prática que se desenrolou após a entrada dos moradores. O caráter de “co-gestão”, por exemplo, que visava à autonomia e à reinserção na sociedade, foi compreendido como proposta inovadora 3 , mas não repercutiu dessa maneira no cotidiano dos idosos, caracterizando uma incongruência entre o que os idosos pareciam ter como idéia de projeto e a prática vivida.

3. As responsáveis pelo projeto na FABES estudaram a Política Nacional do Idoso (Brasil, 1994) juntamente com a Lei de Organização da Assistência Social (Brasil, 1993) e levantaram as instituições existentes para idosos no país. As alternativas destinadas às moradias existentes não possuíam o caráter conferido à Casa-Lar, consistiam apenas em experiências de repúblicas para idosos e asilos.

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Por outro lado, o projeto ganhou visibilidade na Secretaria, na mídia, no conselho dos idosos do município – GCMI – e nos eventos públicos sobre idosos 4 realizados na cidade de São Paulo, por meio da participação dos moradores e da atuação das responsáveis pela instituição na Secretaria. Em 2000, ano eleitoral, a FABES sofreu algumas alterações, passou a ser designada como Secretaria de Assistência Social – SAS – e teve nova coordenação. Iniciou-se outro projeto para a população de rua e para idosos de rua, mas desta vez, com pleno conhecimento e apoio da Secretaria. O terreno destinado à construção do novo projeto comportaria um albergue para a população de rua e uma área somente para idosos, composta por 20 casas destinadas à moradia provisória, um espaço de convivência e uma cozinha comunitária. Os idosos da Casa-Lar foram convidados a visitar o terreno onde seria construído o projeto, o que mostrou não somente o reconhecimento, mas também a legitimidade dessas pessoas como representantes dos idosos que viviam nas ruas. Outro aspecto relevante é sobre a seleção de demanda para esse novo projeto: teve prioridade o grupo de convivência da Casa-Lar, o que confirma mais uma vez os moradores da Casa-Lar como representantes legítimos dos velhos que viviam nas ruas. Até então, a experiência da Casa-Lar e Convivência São Vicente de Paula adquiriu visibilidade suficiente para que o poder público municipal incorporasse a necessidade de criação de instituições voltadas especificamente para idosos que viviam nos

  • 4. A FABES, juntamente com a prefeitura, organizou dois seminários intitulados O idoso e a cidade de São Paulo, que contou com a presença de várias secretarias municipais, vereadores, conselheiros do GCMI e teve como temas as políticas municipais do idoso e diretrizes a serem traçadas pelo governo municipal. O segundo seminário ocorreu em 1999 e foi o primeiro evento público da FABES em que os moradores da Casa-Lar organizaram-se, com o auxílio das supervisoras do projeto, e fizeram relatos sobre sua situação nos albergues e a mudança com a Casa-Lar. Em todos os eventos em que se apresentavam, os moradores narravam uma história de participação e reivindicação que haveria culminado na criação da instituição. Além desse evento, os moradores da Casa-Lar fizeram depoimentos na Câmara Municipal dos Vereadores de São Paulo, dentro do seminário mensal intitulado Qualidade de Vida para um Envelhecimento Saudável, organizado pelo então vereador José Eduardo Cardozo desde 1996, que contava com a participação de profissionais da área do idoso, secretários municipais, acadêmicos e representantes de movimentos sociais, além dos próprios idosos.

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albergues e freqüentavam casas de convivência. Isso, no entanto, não significou uma diretriz política voltada para o idoso de rua, mas afetou suficientemente os espaços de discussão para que se conformasse uma noção sobre as demandas específicas desse segmento. Não houve, portanto, a consolidação de uma política municipal para o idoso de rua que integrasse diversas secretarias municipais. A ausência de uma diretriz política fez com que a Casa-Lar fosse substituída por um projeto diferente em 2004. Ainda em 2001, houve mudança na gestão administrativa da cidade e a SAS também foi reformulada. O projeto inicial da Casa-Lar foi questionado, essencialmente sobre a provisoriedade, que não era aplicada, e sobre os custos, ou seja, a Secretaria considerou excessiva a permanência dos moradores na instituição, além de ser um projeto caro para atender dezesseis pessoas, sem levar em consideração a capacidade para as atividades de convivência. O processo de desmonte da Casa-Lar teve como argumento a questão da tutela 5 . Entre 2003 e 2004 foram realizadas audiências públicas na Câmara dos Vereadores de São Paulo, no intuito de promover um debate entre a SAS – que entendia a Casa-Lar como instituição de tutela sobre os idosos de rua, uma vez que oferecia gratuitamente moradia e alimentação – e os moradores da instituição – que entendiam não serem tutelados pela Secretaria, pois a Casa-lar oferecia condições de recuperarem sua autonomia, não sua dependência. O resultado desse embate político foi o consenso de que os idosos não deveriam ser tutelados pela SAS, que reconhecia sua autonomia; mas em contrapartida, as instituições de moradia para idosos deveriam ser remuneradas 6 e ter prazos fixos de permanência. A Casa-Lar trouxe benefícios para seus moradores, bem como para os velhos que vivem nas ruas, pois promoveu um discurso sobre esses sujeitos e publicizou suas demandas. Além

  • 5. Outras estratégias usadas pela SAS foram a suspensão do fornecimento de gás e alimentos pela Secretaria Municipal de Abastecimento – SEMAB – como forma de pressionar os moradores para se cotizarem e manterem o funcionamento da Casa-Lar, além da suspensão gradual das oficinas, reduzindo o número de conviventes da instituição.

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disso, os moradores da Casa-Lar mobilizaram-se para a organização de um movimento de reivindicação por moradia para idosos de rua, explicitando que a passagem para uma moradia definitiva somente seria possível por um diálogo do projeto com outras Secretarias, como a da Habitação, construindo uma política municipal integrada com projetos de moradia popular. Dois aspectos foram decisivos para a extinção da Casa-Lar: o primeiro deles refere-se à prática institucional exercida no dia-a-dia dos moradores. A idealização do projeto inicial não garantiu que se concretizassem as diretrizes estabelecidas – que tiveram como causa tanto a falta de apoio institucional da SAS, quanto a atuação de funcionários e moradores – o que resultou na aplicação de normas rígidas e descaracterização da instituição como uma casa e retirando a prioridade pela autonomia, fazendo com que a prática fosse reprodutora e mantenedora apenas da instituição e das práticas de segregação de idosos e de moradores de rua vigentes em nossa sociedade, esquecendo-se e afastando-se dos sujeitos aos quais foi destinada. O segundo aspecto refere-se à disputa de poder entre a Secretaria e os idosos e estes passaram a representar um projeto político distinto do que a primeira intencionava, fazendo parte de uma disputa na qual não tiveram condições de se sustentar politicamente, em especial em um momento em que não contavam com o apoio das instituições assistenciais e da própria Secretaria, contrariamente ao que foi observado no período de criação da Casa-Lar. Todo esse processo de início e fim de uma ação política teve implicações na vida daqueles que passaram pela instituição.

A repercussão da instituição no cotidiano dos sujeitos sociais

Primeiramente pode-se dizer que a Casa-Lar funcionou como objeto de publicização de uma situação vivida pelos idosos no contexto paulistano, suficiente para ser o enunciador de uma política a ser efetivada pela administração municipal. O que se viu, no entanto, foi uma ação política que se fez mais em nome dos

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próprios gestores e das demandas de um campo político, do que em razão dos sujeitos que dizia defender. Assim, pode-se dizer que o destaque e a repercussão dos idosos como atores sociais, obtidos dentro dos espaços de negociação política, implicaram ações pontuais e paliativas, sem promover uma reestruturação da concepção sobre os idosos que vivem nas ruas, mostrando a ausência de uma política efetiva e abrangente.

A transformação que esses idosos sofreram, entretanto, não foi apenas externa, física, ou seja, das ruas para a Casa-Lar. Eles também transformaram a forma de se posicionar diante de um mundo que os coloca à margem. Investiram-se e foram investidos de novos papéis, encararam o que lhes acontecia de modo a avaliar o que e quem eram, o que e quem eram os outros que com eles compartilharam um processo de organização e de luta por cidadania e direitos. Não sem contradições, uma vez que são sujeitos, não apenas de uma história, mas de muitas que fizeram parte de seu cotidiano. Dentre elas, a de terem se apropriado dos fatos em movimento, compondo a cada

momento a própria história, antes e depois da rua, antes e depois da Casa-Lar e Convivência São Vicente de Paula.

A experiência de viver na Casa-Lar foi vivenciada por alguns moradores como um aprendizado, a instituição foi considerada uma “escola de vida”. Eles entenderam que naquele espaço tiveram possibilidades inexistentes enquanto estavam nos albergues e nas ruas, onde não tinham reconhecimento; além disso, consideraram relevante a existência de um projeto daquela natureza para idosos, especialmente pela iniciativa de oferecer uma possibilidade até então inexistente. Ao mesmo tempo, os sujeitos dessa ação política identificaram os problemas de funcionamento da instituição, especialmente em relação ao gerenciamento das normas e à diferença de tratamento dispensado pelas funcionárias a alguns moradores. As regras criadas na Casa-Lar serviram como um mecanismo de readequação que reproduzia o tratamento conferido à população de rua em geral. Isso significa que eles eram tratados – por funcionários e pelos próprios moradores – como inadequados e precisavam, portanto, ser reeducados em seu modo de agir e de se comportar. Um outro aspecto importante é sobre a intolerância existente em relação aos moradores, marginalizados duplamente pela sobreposição do mundo das ruas e da velhice. Essa imagem

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negativa refletia-se na prática cotidiana da Casa-Lar, ou seja, aqueles eram sujeitos que carregavam consigo não somente o estereótipo da teimosia, intransigência e decrepitude, mas também da vagabundagem e desleixo. A organização e a estrutura da Casa-Lar funcionou, para alguns moradores, tanto como medida de correição – necessária para os outros moradores – quanto como possibilidade de conscientização política. Além disso, a Casa-Lar ofereceu visibilidade pessoal para alguns moradores, uma vez que se tornaram representantes dos idosos da instituição nos espaços de negociação política, como o Grande Conselho Municipal do Idoso – GCMI – e as audiências públicas na Câmara dos Vereadores. Isso significa dizer que, por meio dessa tentativa de ampliação da publicidade de suas questões, ocorreu uma institucionalização do grupo dos moradores da Casa-Lar, pois eles não ocupavam mais apenas aquele espaço, articularam-se com movimentos de moradia, inseriram-se no GCMI e representaram o segmento da população de rua no Orçamento Participativo da cidade, definindo, em algumas regiões, prioridade orçamentária para projetos com idosos de rua. Ampliaram-se, desta forma, a atuação e a legitimidade desse grupo nos espaços de negociação política. O processo de implantação da Casa-Lar mostra, como aponta Gusmão (2004), que a elaboração de uma política social pode, na verdade, deixar transparecer uma prática frágil diante dos desafios encontrados, a despeito de parecer buscar a efetivação dos direitos sociais. As políticas sociais são o reflexo de uma capacidade de organização em que estão envolvidos tanto o Estado quanto a sociedade civil, porém, nem sempre em diálogo, como se pôde observar na relação entre os moradores da instituição e a Secretaria de Assistência Social.

A concepção sobre os velhos de rua e as perspectivas para a ação

Os velhos que viviam nas ruas de São Paulo e passaram a viver na Casa-Lar alcançaram visibilidade em relação à sociedade civil e ao governo municipal, desdobrando-se em ações políticas e

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no reconhecimento deles como um segmento social relevante e merecedor da atenção pública. No entanto, ações pontuais que não refletem uma política pública ganharam notoriedade pelos meios de comunicação, em especial quando ficou evidente o descaso com aqueles que vivem nas ruas. Três fatos acontecidos em 2005 são representativos da maneira como essa questão da população de rua tem sido abordada pela administração municipal, indicando as concepções subjacentes à sua atuação.

O primeiro mostra um idoso que vivia em uma praça de um bairro nobre de São Paulo. Manoel Menezes da Silva, 68 anos de

idade, fora internado dias antes involuntariamente no Hospital Psiquiátrico Pinel por apresentar, segundo laudo médico, condições de demência. Ele transitava no bairro há 20 anos e o incômodo causado por sua presença – em especial as condições de higiene – levou os moradores do bairro a acionarem a Guarda Civil Metropolitana, a Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social e a limpeza urbana para retirá-lo da praça. O secretário municipal do desenvolvimento e assistência social afirmou que Manoel apresentava

(

...

)

as características de uma pessoa mentalmente enferma:

não trabalha, nem como carroceiro, não consegue se limpar, dorme no chão, é refratário ao uso de albergues e

equipamentos municipais para alimentação e higiene. (...) Queremos institucionalizar todos os moradores de rua” (Capriglioni & Bergamo, 2005, p. C10).

Retirar esse idoso das ruas não significou necessariamente uma maneira de reinseri-lo na sociedade, mas consistiu, fundamentalmente, em retirá-lo de circulação, institucionalizando-o.

Pouco tempo depois, Manoel foi liberto e recebeu um habeas corpus conferido pelo Ministério Público para transitar livremente pelas ruas da cidade. Em agosto de 2005, os jornais noticiaram o despejo de crianças de rua de suas “casinhas de boneca”. Eram pequenas casas de madeira colocadas na rua por uma instituição assistencial como forma de atenuar a situação das crianças; a iniciativa foi aprovada por seus moradores. No entanto, a prefeitura decidiu recolher as moradias improvisadas e a ação ficou restrita ao despejo que se deu

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ao ar livre. A cena mostrava a brutalidade dos funcionários da prefeitura arrancando as casas e o caminhão saindo às pressas, atingido por algumas pedras jogadas pelas crianças que continuaram na rua, ao contrário das casas.

Em outubro do mesmo ano, a prefe i tura colocou as cham adas “ram pas anti men di gos”, cons tru í das sob via du tos para impe dir a per- manên cia dos morado res de rua. Como resultado dessa ação, dias depois os morado res expulsos de um viaduto na região central encon- tra vam-se em outro bairro, ape nas trans fe ri dos for ço sa mente de lugar. Essas ações não conformam uma política pública destinada à população de rua, pois visam apenas à retirada dessas pessoas de locais onde são indesejadas. Apesar de visíveis publicamente, o lugar dos moradores de rua, velhos, adultos e crianças permanece sendo as ruas, reafirmando a falácia de ações que em tese pretendem reinserir essas pessoas na sociedade ou dar condições para que elas sobrevivam dignamente.

Os canais de interlocução entre o governo municipal e a sociedade civil por vezes ficam interrompidos, comprometendo as perspectivas de elaboração de ações efetivas conjuntamente com segmentos específicos como os velhos de rua. Os grupos consolidados e organizados, tal como se constituíram os moradores da Casa-Lar, continuam atuando para garantir a manutenção desses espaços públicos de negociação.

Em A flor e a náusea, Carlos Drummond de Andrade (1997, p. 25) nos chama a atenção:

Uma flor nasceu na rua! Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. Uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto. Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu.

A for mu la ção e a imple men ta ção de polí ti cas sem a par ti ci - pação da soci edade civil podem prom over ações que se distan cia m dos suje i tos a quem elas se des ti nam. Sendo assim, a real dis po si ção dos diver sos ato res gover na men tais é impres cin dí vel para uma apro xi ma ção efe tiva entre as polí ti cas públi cas e as neces si da des dos dife ren tes seg men tos sociais.

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Referências

Andrade, C. D. de. (1997). A flor e a náusea. In C. D. de Andrade. Antologia Poética. Rio de Janeiro, RJ: Record.

Brasil. (08 dez. 1993). Ministério da Previdência e Assistência Social. Lei 8.742, de 07 de dezembro de 1993. Dispõe sobre a organização da assistência social e dá outras providências. Diário Oficial da União. p. 18769.

Brasil. Presidência da República. (05 jan. 1994). Lei 8.842, de 04 de janeiro de

  • 1994. Dispõe sobre a política nacional do idoso, cria o Conselho Nacional do Idoso

e dá outras providências. Diário Oficial da União, p. 77.

Brasil. Presidência da República. (03 out. 2003). Lei 10.741, de 01 de outubro de

  • 2003. Dispõe sobre o estatuto do Idoso e dá outras providências. Diário Oficial da

União, p. 1.

Capriglione, L, & Bergamo, M. (maio 2005). O morador de rua que irritou um bairro e acabou no Pinel. Folha de São Paulo (p. C10). São Paulo, 22. Cotidiano.

Frangella, S. M. (2004). Corpos Urbanos Errantes: uma etnografia da corporalidade de moradores de rua em São Paulo. 361p. Tese de Doutorado em Filosofia e Ciências Humanas), Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas.

Gregori, M. F. (2000). Viração: experiências de meninos nas ruas. São Paulo:

Companhia das Letras. 288p.

Grupo de Estudos sobre a Construção Democrática (1998/1999). Dossiê: os movimentos sociais e a construção democrática. Idéias. ano 5(2) 000000/ 6(1), 7-122. Campinas, SP.

Gusmão, N. M. M. de. (2004). Os filhos da África em Portugal: antropologia, multiculturalidade e educação. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais – ICS – Universidade de Lisboa, 362p.

São Paulo, Secretaria Municipal da Família e Bem-Estar Social. (26 abr. 1999). Projeto da Casa-Lar e Convivência. Ofício nº 041/99.

CAPÍTULO 3 REINSERÇÃO DE IDOSOS NO MUNDO DA VIDA E NO MUNDO DO TRABALHO Algumas possibilidades

CAPÍTULO 3

REINSERÇÃO DE IDOSOS NO MUNDO DA VIDA E NO MUNDO DO TRABALHO

CAPÍTULO 3 REINSERÇÃO DE IDOSOS NO MUNDO DA VIDA E NO MUNDO DO TRABALHO Algumas possibilidades

Algumas possibilidades

Wanda Pereira Patrocinio | Maria da Glória Marcondes Gohn

Neste texto pretendemos desenvolver uma reflexão sobre a problemática da velhice na sociedade contemporânea, na qual os velhos são, muitas vezes, excluídos, sofrendo de preconceitos e discriminação. Partiremos desse contexto para discutirmos como a economia solidária, por meio do cooperativismo, pode promover uma possibilidade de transformação desta realidade, reinserindo os idosos no mundo da vida e no mundo do trabalho. Num primeiro momento, contextualizaremos o conceito de velhice adotado em nossa reflexão e abordaremos as possibilidades de sua reinserção no mundo da vida. Por fim, discutiremos o conceito de mundo do trabalho por meio da Economia Solidária e do Cooperativismo como alternativa para a inclusão social de idosos como sujeitos participativos e ativos no mundo.

Contextualizando a velhice e as possibilidades de sua reinserção no mundo da vida e do trabalho

Mundo da vida

O conceito de Mundo da Vida é tratado por Habermas (1987), na obra Teoria de la acción comunicativa, em que esse autor nos traz uma teorização sobre mundo da vida e sistemas. O mundo da vida é um lugar transcendental em que os sujeitos podem se encontrar, podem se criticar, resolver seus desentendimentos e

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chegar a um acordo. E temos como componentes estruturais do mundo da vida: a cultura, a sociedade e a personalidade. Analisaremos o primeiro componente do mundo da vida, a cultura Habermas compreende a cultura como acervo de saber, em que os participantes na comunicação se abastecem de interpretações para entender algo no mundo. O segundo componente estrutural de mundo da vida, segundo Habermas (1987), é a sociedade que são as ordenações legítimas através das quais os participantes na interação regulam seu pertencimento a grupos sociais, assegurando com isso a solidariedade. Por fim, a personalidade compreende competências que convertem um sujeito a ser capaz de linguagem e de ação, isto é, que o capacitam para tomar parte nos processos de entendimento e para afirmar nesses processos sua própria identidade. Freire (1975, p. 65) considera fundamental a questão da cultura; para ele:

O homem como um ser de relações, desafiado pela natureza, a transforma com seu trabalho; o resultado desta transformação, que se separa do homem, constitui seu mundo. O mundo da cultura que se prolonga no mundo da história.

Mas o conceito de cultura que permeia este texto é o adotado por Gohn (2001b, p. 98):

A cultura é concebida como modos, formas e processos de atuação dos homens na história, onde ela se constrói. Está constantemente se modificando, mas, ao mesmo tempo, é continuamente influenciada por valores que se sedimentam em tradições e são transmitidos de uma geração para outra.

A autora coloca que Malinowski demoliu a concepção de cultura como colcha de retalhos, muito presente em abordagens evolucionistas, reafirmando que ela é constituída por sistemas de significados que são parte integrante da ação social organizada. Tendo apresentado os componentes do mundo da vida, cabe discutir como os idosos serão reinseridos neste mundo. Traremos para discussão a realidade brasileira e toda diversidade existente nela; para tanto enfocaremos a reinserção das pessoas que estão envelhecendo no âmbito do mundo da vida e iniciaremos através da

Reinserção de Idosos no Mundo da Vida e no Mundo do Trabalho

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componente sociedade, ou seja, como a questão do envelhecimento tem sido tratada em nossa sociedade 1 . Os estudos em Gerontologia são relativamente recentes em nosso país e as pesquisas começaram a ganhar relevância principalmente após 1982, quando a Organização das Nações Unidas (ONU) legitimou a Gerontologia como campo de saber multidisciplinar para tratar das questões do envelhecimento (Lopes, 2000). Com isso, um número significativo de pesquisas tem sido realizado; grande parte dos estudos toma como referencial teórico pesquisas desenvolvidas nos Estados Unidos. Segundo Debert (1997), desde a década de 1980, as questões relacionadas com a velhice ocupam cada vez mais espaço entre os temas que preocupam a sociedade brasileira. De acordo com Camarano (2002), a população brasileira tem aumentado sua longevidade nas últimas décadas, mas não podemos atribuir unicamente a esse fato o surgimento de novas representações sobre a velhice e o envelhecimento, assim como o aumento da participação social dos idosos, pois de acordo com Lima (1999, p. 2), isso

é reflexo de mudanças que implicam redefinições das formas de periodização da vida, das categorias etárias que recortam a organização da sociedade e a revisão das formas tradicionais de gerir a experiência do envelhecimento.

Em termos gerais, para análise da velhice no contexto social, utilizaremos como premissa básica neste texto a abordagem antropológica (Debert, 1998) que agrega aos aspectos naturais, biológicos, características da espécie humana ao longo da vida, os aspectos culturais, lingüísticos, os valores sociais e costumes específicos a determinado contexto social, em dado momento histórico.

Segundo Neri (2001), a sociedade constrói cursos de vida na medida em que prescreve expectativas e normas de comportamento apropriado para diferentes faixas etárias, diante de eventos

  • 1. O envelhecimento pode ser considerado, segundo Neto (2002, p. 10), como a fase de um continuum que é a vida, começando esta com a concepção e terminando com a morte. Em termos gerais, quando falarmos de envelhecimento, estaremos nos referindo à fase da vida que precede a entrada na velhice, que permeia essa fase e que continua até o final da vida.

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marcadores de natureza biológica e social, e na medida em que essas normas são internalizadas pelas pessoas e instituições sociais.

Numa perspectiva sociológica, a velhice representa uma construção social que diz respeito à capacidade de desempenho de papéis na comunidade ou numa coletividade. É um fenômeno sociológico o fato de que, em todas as sociedades, a cada faixa etária corresponde uma função social. Com isso, temos que nossa categoria social é a velhice e as pessoas que fazem parte dessa categoria podem ser chamadas de velhos, idosos, novos velhos, aposentados, entre outros 2 . A idade é uma categoria de análise referente aos sistemas de organização das sociedades, do sistema produtivo, das políticas públicas, etc. O conceito de idade abrange, dessa forma, não apenas os aspectos biológicos ou cronológicos, mas também os aspectos sociais, psicológicos e culturais (Debert, 1998). Dessa forma, podemos perceber que a questão do tratamento que é dado ao velho é muito forte em termos de idade

e papel social. Partindo da produtividade que permeia nossa sociedade, Gusmão (2001, p. 117) afirma que:

O caráter do mundo moderno em sua natureza capitalista está dado pela ordem produtiva que toma o jovem e o adulto como produtores e compreende o velho e a velhice como uma irrupção perigosa da ordem, posto que já não são produtivos para o capital.

E por isso o velho pode ser considerado um “ser descartável”. Infelizmente, é nessa cultura que estamos inseridos, que valoriza a juventude, aqueles que ainda produzem bens materiais palpáveis, algo para a sociedade capitalista. Por outro lado, cabe ressaltar que o velho não é tratado dessa maneira descartável em todos os lugares do Brasil. Se percorrermos nosso país, vamos encontrar formas diferenciadas de cuidado e atenção ao velho, diferenciando-se principalmente nos locais onde a cultura local, mais tradicional, ainda mantém certos costumes. O resultado é esse cenário onde encontramos alguns respeitando, se sociabilizando, outros negando, rejeitando, talvez seja o que Bosi (1987, p. 7) chama de cultura plural:

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Não existe uma cultura brasileira homogênea, matriz dos

... nossos comportamentos e dos nossos discursos. Ao contrário: a dimensão do seu caráter plural é um passo

decisivo para compreendê-la como um "efeito de sentido", resultado de um processo de múltiplas interações e oposições no tempo e no espaço.

Retomando o conceito de cultura adotado neste texto, Gohn

(2001b) destaca que ela abarca a pluralidade dos modos e formas de

construção histórica dos homens. E a velhice, seria uma outra cultura? A velhice é uma etapa neste processo. Gusmão (2001) destaca ainda que a cultura do velho resulta de sua própria vida em acontecimento e de suas atividades diárias. Dessa forma, a cultura representa a experiência vital de seu tempo e espaço em termos do próprio velho e como sujeito coletivo e é nesse sentido que vamos reinseri-los, dando voz aos participantes como sujeitos sociais. Como isso pode ser feito em termos metodológicos numa pesquisa? De nada adianta formularmos projetos, programas, atividades direcionadas ao público idoso, se antes não os consultarmos, não dermos a palavra a eles e escutarmos suas reais necessidades. Muitas vezes, criamos estratégias de atendimento e atenção à velhice acreditando que estamos fazendo o bem para os velhos, sem sequer indagarmos a eles se é isso, realmente, o que eles querem e do que necessitam. No tocante ao outro componente apresentado por Habermas, a personalidade do mundo da vida, podemos entendê-la como a individualidade de cada ser em seu processo de envelhecimento. Nesse sentido, nossa individualidade é marcada socialmente, pois pertencemos a determinados grupos etários e isso delimita as nossas possibilidades de expressão e de sociabilidade. Segundo Magro (2003, p. 35),

na cultura ocidental contemporânea, pode-se dizer que quando crianças devemos brincar, quando adolescentes devemos experimentar, quando adultos trabalhar e produzir, e quando velhos devemos nos aposentar.

A legislação brasileira relativa à Previdência Social dá aos trabalhadores que contribuíram 35 anos com o INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social) e às trabalhadoras que contribuíram

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30 anos o direito à aposentadoria. Além disso, trabalhadores com mais de 65 anos e trabalhadoras com mais de 60 anos também podem se aposentar, desde que tenham contribuído um tempo mínimo necessário com o INSS. Contudo, muitas vezes, os cidadãos não conseguem adquirir esse direito e continuam no mercado de trabalho, pois muitos trabalharam na roça ou em empregos que não lhes dão, atualmente, a comprovação do tempo de trabalho e de contribuição (Patrocinio, 2005).

Se considerarmos que nossa sociedade está imbricada no mundo do trabalho e que, portanto, somos considerados dignos através da produtividade e do trabalho, as pessoas acima de 50 anos, que não conseguem trabalho no mercado formal ou aquelas que não conseguem o benefício da aposentadoria, acabam procurando formas alternativas de inserção no mercado, como nas cooperativas. Em muitos contextos, não é necessário atingir 60 anos para ser considerado velho no mercado de trabalho. Peres (2002) afirma que existem várias profissões e carreiras em que as pessoas já são consideradas velhas quando atingem os 40-50 anos; muitas vezes, isso ocorre porque ainda prevalecem em nosso meio representações sociais negativas sobre o envelhecimento. Isso sem falarmos de algumas profissões, no campo das artes, moda e esportes, nas quais a idade ativa é muito curta. As representações sociais mais comuns sobre a velhice consideram que ser idoso é ter determinados aspectos físicos e de saúde, em que se associa velhice à doença. Outros associam a velhice a uma etapa que precede a morte, portanto, a última etapa do ciclo vital, em que não há mais nada a ser feito apenas esperar a morte chegar. E, por fim, existe uma comparação marcante entre sentir-se velho/jovem e se ver velho fisicamente. O fator beleza, sempre associado à juventude, é um indicador do ser ou estar velho. É importante enfatizar, também, o papel exercido pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e pelo Serviço Social do Comércio (SESC) na institucionalização da gerontologia e da geriatria e no início do esforço para a formação de recursos humanos para atender o idoso nas áreas social e de saúde (Neto, 2002). Cabe ressaltar, ainda, na área da educação, o papel pioneiro de alguns programas de Pós-Graduação strictu sensu em gerontologia, a exemplo da UNICAMP e da PUC de São Paulo e, também a iniciativa da Universidade da Terceira Idade da Pontifícia

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Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) e das demais Universidades desse tipo que vêm se constituindo pelo Brasil, pois todas trazem contribuições valiosas para o trabalho com pessoas que estão envelhecendo. Essas experiências são algumas das possibilidades de trazer o idoso para o convívio e contato social. Com o envelhecimento populacional, o aumento do número de pesquisas na área da gerontologia e as diversas atividades direcionadas para o público idoso, cresce também o respaldo legal para a categoria social da velhice. Borges (2003) afirma que com a criação do Ministério da Previdência e Assistência Social, em 1976, iniciou-se a elaboração de uma política direcionada a esse grupo etário, principalmente dos aposentados. Atualmente, em termos de legislação brasileira, temos a Constituição Federal (1988), a Política Nacional do Idoso, Lei 8.842/94, o Estatuto do Idoso, Lei 10.741/03 e, em âmbito de participação direta, local estadual e nacional, os Conselhos de Idosos. De acordo com Boaretto e Heimann (2003, pp. 111-112), os

conselhos são espaços legais reconhecidos pelo Estado em que a sociedade civil pode exercer sua cidadania e ter seus direitos conquistados

para além do voto 3 . O Art. 230 da Constituição Federal traz o

seguinte: A família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida.

A Política Nacional do Idoso, em seu Art. 1º, nos apresenta o

objetivo dessa proposta: assegurar os direitos sociais do idoso, criando condições para promover sua autonomia, integração e participação efetiva na

sociedade. No tocante à questão do trabalho, o Estatuto do Idoso é o mais efetivo em assegurar os direitos das pessoas acima de 60 anos, sendo o Capítulo VI (Art. 26, 27 e 28) todo dedicado a essa questão. O aparato legal em torno da questão da velhice tem apoiado um grande número de movimentos, crescentes, em torno da luta pelos direitos dos idosos na sociedade (Borges, 2003). Habermas (1987) afirma que características como, por exemplo, idade, servem à construção e à determinação de comunidades, ao estabelecimento de comunidades de comunicação que se autoprotegem em forma de subculturas, buscando condições adequadas para o desenvolvimento de uma identidade pessoal e coletiva.

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Mundo do trabalho

No item anterior, apresentamos algumas possibilidades de reinserção dos idosos no mundo da vida (sociedade, cultura e personalidade). Neste tópico, pretendemos discorrer sobre a reinserção no mundo do trabalho, através da componente mercado, tratando da Economia Solidária e do cooperativismo como formas para tal reinserção. Relacionada com o conceito de mundo da vida, Habermas (1987) traz a perspectiva dos sistemas sociais, que são considerados

como as estruturas macro da sociedade. Nessa perspectiva, o autor nos traz uma análise mais conjuntural da sociedade e suas relações com o Estado, fornecendo elementos para analisarmos melhor o mundo do trabalho e a realidade de trabalhadores idosos neste contexto.

Para ele, o capitalismo e o Estado moderno são entendidos como subsistemas que, através dos meios dinheiro e poder, se

diferenciam da estrutura social do mundo da vida. De um lado temos o capitalismo/dinheiro e o Estado/poder contrapondo-se à sociedade e à vida em comunidade. Em todas essas estruturas encontraremos a esfera da vida privada e a esfera da opinião pública. O núcleo institucional da esfera da vida privada constitui a unidade familiar, a qual desde a perspectiva de sistema econômico fica definida como economia doméstica. Já o núcleo institucional da esfera da opinião pública constitui aquelas redes de comunicação reforçadas inicialmente pelas formas sociais em que se materializa o cultivo da arte e depois pelos meios de comunicação de massa. Na sociedade brasileira atual observa-se o crescimento populacional de idosos em nosso país e, também, o alarmante aumento do número de desempregados que afeta não somente a jovens, mas inclusive a muitos adultos maduros e idosos que precisam, ainda, trabalhar para ajudar ou manter o sistema familiar.

Como já vimos, o mundo da vida está constituído pelas estruturas da sociedade, personalidade e cultura; esse mundo se contrapõe aos sistemas sociais que têm como componentes o Estado e sua estrutura de poder, e o Mercado e suas relações capitalistas. Através do mercado e do capitalismo, podemos entrar no mundo do trabalho. Coraggio (1991), analisando o desenvolvimento da questão urbana na América Latina, afirma que na década de 1980

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ocorrem, na maior parte da América Latina, pesquisas sobre a vida cotidiana popular, as estratégias de sobrevivência, os modos particulares de se agenciarem terra, moradia e serviços. Esse autor afirma que:

A privatização e municipalização dos serviços começa a pôr no centro da atenção a autogestão, as tecnologias alternativas, a informalidade e a denominada “economia popular de solidariedade” 4 , na expectativa de que se acaba a etapa de reivindicações eficazes ao Estado e que o mercado capitalista promete mais exclusão e carências (Coraggio, 1991, p. 36).

Observa-se que Coraggio (1991) afirmou para a década de 1980, generalizou-se nos anos 90 via economia informal. Atualmente, o mundo do trabalho, o mercado formal só tem diminuído suas ofertas 5 , principalmente no tocante às pessoas acima de 50 anos. Gohn (2001b, p. 95) afirma que:

O maior problema no mundo do trabalho é o desemprego e a necessidade de alterar as políticas públicas, de forma que se priorize a retomada do desenvolvimento e a expansão do setor produtivo.

No item anterior, apresentamos algumas possibilidades de reinserção das pessoas em processo de envelhecimento no mundo da vida (sociedade, cultura e personalidade). Neste tópico, pretendemos discorrer sobre a reinserção no mundo do trabalho, através da componente mercado, tratando da Economia Solidária e do cooperativismo no Brasil.

Economia solidária

Antes de adentrarmos pelo conceito de Economia Solidária, é necessário contextualizar brevemente o cenário social, político e econômico em que se deu seu surgimento no Brasil.

  • 4. Os conceitos concernentes a este assunto serão explicitados adiante.

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Segundo análise do mundo do trabalho, sabemos que a ótica vigente em nossa sociedade é o modelo neoliberal. De acordo com Reginaldo Moraes 6 , o neoliberalismo pode ser visto por três aspectos: primeiro, como uma corrente de pensamento e uma ideologia; segundo, como um movimento intelectual clássico; e, por último, como um conjunto de políticas aplicadas e adotadas por governos neoconservadores. Esse autor acredita que, atualmente, o neoliberalismo seja uma ideologia do capitalismo financeiro que tem algumas orientações estratégicas, tais como: destruir os sindicatos, privatizar as empresas e liberar a entrada de capital estrangeiro. Além disso, ele tende a destruir as políticas sociais e a destruir a resistência organizada de grupos sociais. Esses dados parecem assustadores, mas, se pensarmos na questão do desemprego, perceberemos o quanto essa política influenciou o aumento do número de desempregados em nosso país. Ainda segundo dados de Reginaldo Moraes, em 1994, na Grande São Paulo, o número de desempregados era de 500.000, com um tempo médio de procura por outro emprego de 22 semanas. Em 2001, o número de desempregados saltou para 1.800.000, com uma média de procura de 28 semanas, segundo o mesmo autor. De acordo com Antunes (2004), a adoção do modelo neoliberal em nosso país foi iniciada de forma aventureira pelo governo de Fernando Collor de Mello em 1990, tendo prosseguimento essa política com a presidência mais racional de Fernando Henrique Cardoso de 1995 até 2002, que visou pavimentar os caminhos do neoliberalismo no Brasil. Essa mesma política vem sendo seguida pelo atual governo do presidente Luis Inácio Lula da Silva.

Na ótica vigente do neoliberalismo estão presentes o livre mercado, a produtividade e a competitividade penetrando não só na produção, mas também nas relações sociais. O alto nível de desemprego, a flexibilização de direitos conquistados e a necessidade de qualificação profissional colocam os trabalhadores e trabalhadoras de nosso país em constante luta para se manterem dentro dos critérios exigidos pelo mercado.

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Antunes (2004) afirma categoricamente que o primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso não se contentou em fincar os andaimes da desmontagem do país, que ele fala que foi chamada eufemisticamente de “modernização” e isso se deu através dos seguintes acontecimentos:

Através da privatização, da “integração” subordinada à ordem, da destruição do que foi criado desde o varguismo, como as empresas de siderurgia, energia elétrica, telecomunicações, a previdência etc. Isso sem falar no destroçamento social que se acentua crescentemente, na desregulamentação e na precarização do trabalho, no desemprego explosivo, conferindo-nos o título de quarto país em desemprego absoluto mundial (Antunes, 2004, p. 44).

E o que essa política traz para o mundo do trabalho dos idosos? Em relação à Previdência, Antunes (2004) acredita que o ponto mais danoso dessa política foi a substituição do tempo de trabalho pelo tempo de contribuição na Reforma da Previdência Social. Se antes as pessoas se aposentavam pelo tempo de serviço trabalhado, hoje, não importa se elas trabalharam ou não, importa que elas tenham contribuído para o INSS, pois sem isso não conseguirão o direito ao benefício da aposentadoria. Isso significa que:

Os aposentados gozarão a previdência quando a Justiça do Trabalho lhes der ganho de causa. Provavelmente, embaixo da terra. Isso sem falar na exclusão, pura e simples, de mais de 20 milhões que estão no chamado trabalho precário, sem carteira de trabalho assinada e sem direitos. A estes, não resta nada! (Antunes, 2004, p. 49).

Esse é o contexto social, político e econômico em que se dá o surgimento da Economia Solidária, que vem de encontro à vontade daqueles que se contrapõem à lógica destrutiva do sistema produtor de mercadorias ou que estão sendo esmagados por essa nova forma de estruturação do trabalho. Antunes (2004, p. 50) acredita que

essas pessoas devem buscar alternativas que contraditem fortemente estas tendências hoje dominantes, em vez de fazer coro com os interesses da ordem, que estão em sintonia com o neoliberalismo.

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Além disso, ele acredita que o maior desafio do mundo do trabalho e dos movimentos sociais de esquerda é inventar novas formas de atuação autônomas, capazes de articular e dar centralidade às ações de classe. Gohn (2001c) assinala que a luta imediata é pela sobrevivência física: o emprego, a fuga aos efeitos da recessão, em que

o coletivo deve ser o cenário, o espaço de construção das vontades, através do pluralismo das idéias, de seus confrontos, e da formulação de linhas comuns que possibilitem a canalização das vontades individuais em vontades coletivas (Gohn, 2001c, p. 108).

Com tudo isso, vemos que é emergente o surgimento de algo diferente, em que os trabalhadores e trabalhadoras possam, realmente, acreditar e ter perspectivas de uma sobrevivência e um envelhecimento mais digno. Singer (2002) afirma que a Economia Solidária é outra forma de produção, cujos princípios básicos são a propriedade coletiva ou associada do capital e o direito à liberdade individual.

No entanto, ainda não se tem um consenso em relação ao nome

a ser dado a este fato novo na vida econômica de amplas maiorias da população. Alguns chamam de Economia Solidária, outros de Economia Popular Solidária, outros ainda de Socioeconomia Solidária e temos, também, Economia de Solidariedade. Não vamos aqui destrinchar cada um desses conceitos, porque não é nosso objetivo e, também, porque muitos autores já o fizeram 7 . Vamos citar apenas alguns autores que têm se destacado em relação à discussão desse tema. Tal apresentação se faz necessária para que todos entendam o que significa Economia Solidária e a capacidade

que este movimento tem de apresentar alternativas para os idosos que vêm sendo excluídos e expulsos do mercado de trabalho. Grande parte desses trabalhadores poderiam até já ter a própria aposentadoria, alguns já a possuem, mas o nível socioeconômico se mantém baixo e eles precisam continuar trabalhando. Singer (2000, 2002) é um dos pioneiros a estudar esse tema no Brasil, e usa o termo Economia Solidária como um modo de produção e distribuição, de certa forma, alternativo ao modo

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capitalista, que é sempre criado e recriado por trabalhadores que se encontram marginalizados do mercado de trabalho formal. Segundo Singer (2000), a Economia Solidária começou a ressurgir em nosso país de forma esparsa na década de 1980 e só foi tomar maior impulso a partir da segunda metade dos anos 90, pois seria uma espécie de reação dos movimentos sociais contra o desemprego em massa que começou a assolar o Brasil a partir de 1981, se agravando com a abertura do mercado interno às importações, a partir de 1990. Alcântara (2003) complementa ao constatar que a Economia Solidária surge para atender a uma necessidade, a geração de renda, porém o público-alvo desse modelo, em princípio, não eram indivíduos desempregados, sem qualificação e que já estivessem fora do mercado de trabalho. Ela afirma:

Na verdade, o modelo está sendo "apropriado" por esses indivíduos, ou melhor dizendo, destinado a eles com a intenção de sanar uma necessidade imediata: a inexistência de renda (p. 35).

Luis Inácio Gaiger, da UNISINOS/RS, considera a Economia Popular Solidária como iniciativas populares de geração de trabalho e renda baseadas na livre associação de trabalhadores e nos princípios de autogestão e cooperação. Para ele, os projetos

coletivos contribuem para a racionalização da solidariedade, uma vez que criam espaços para a sua prática intencional e cotidiana (2000, p. 275).

Usando o termo Socioeconomia Solidária, Marcos Arruda, coordenador-geral do Instituto de Políticas Alternativas para o Cone Sul, fala em um movimento que transcende as iniciativas restritas ao econômico. Ele acredita que, além das transformações institucionais na esfera social e econômica, implica uma mudança profunda no nível das relações sociais e culturais; a socioeconomia estaria a serviço da sociedade humana e não apenas como um fim em si mesma. Ele fala também de uma economia a partir do coração, que seria:

Aquela que segue o caminho da “cooperatividade” em vez da competitividade, da eficiência sistêmica em vez da eficiência apenas individual, do “um por todos, todos por um”, em vez do “cada um por si e Deus só por mim”. E esta economia já existe. Ela tem como centro o coração, cuja

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energia é o amor. Trata-se, então, de uma economia amorosa, que pressupõe seres amorosos (Quintela & Arruda, 2000, p. 317).

Aqui podemos fazer uma relação da economia solidária com as relações sociais que permeiam a vida dos idosos em nossa sociedade. Como visto, vivemos em uma sociedade que discrimina e mantém muitos preconceitos em relação à velhice. Para ocorrer uma mudança no olhar discriminatório sobre o envelhecimento será preciso, antes de tudo, transformarmos a mentalidade das pessoas, buscando, cada vez mais, formar e orientar indivíduos para olharem o outro como seres humanos, semelhantes, agirem e viverem como seres amorosos. Uma nova cultura política a respeito da velhice tem que ser construída. Coraggio (1991, p. 335) fala em Economia Popular e entende esse conceito como o conjunto de recursos, práticas e relações econômicas próprias dos agentes econômicos populares de uma sociedade; tal conjunto abarca

unidades elementares de produção-reprodução orientadas primordialmente para a reprodução de seus membros e que para tal fim dependem fundamentalmente do exercício continuado da capacidade de trabalho deles.

Essa economia é então diferente da economia empresarial capitalista exatamente pela sua lógica, que se caracteriza por uma melhoria da qualidade de vida e não, simplesmente, pelo acúmulo de riquezas. Tiriba (2000, p. 229) também concorda com esse conceito quando afirma que

os empreendimentos pertencentes ao setor da economia popular têm se caracterizado, fundamentalmente, pela lógica da reprodução da vida e não do capital.

Tauile e Rodrigues (2004) se referem à Economia Solidária quando tratam dos Empreendimentos Autogestionários, ou seja, um conjunto de elementos de fomento e suporte às empresas formalmente constituídas ou grupos com potencial de constituição:

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Estamos falando de administração e gerenciamento fundamentados na democracia e na igualdade de direitos e responsabilidades; sociedades econômicas cuja natureza jurídica caracteriza-se por ser sociedade de pessoas, as cooperativas.

Lima (s/d) cita Car bo nari (1999) e Razetto (1998), que enten dem a Eco no mia Soli dá ria como uma eco no mia cen trada na busca de con di ções de satis fa ção das neces si da des dos seres huma- nos, na pers pectiva do bem viver de todos e para todos, a ser viço do homem, e não apenas como a chamada eco no mia de sobrevi vên cia, margi nal à eco no mia de mercado; esses auto res caminham na linha da soci o e co no mia soli dá ria. De acordo com Sin ger (2000, 2002), também acredi tam que a eco no mia soli dá ria pode ser vista como o caminho propul sor para uma nova forma de organi za ção do traba - lho na socie dade capita list a, advinda das popula ções pobres e mar- gi na li zadas, a par tir da força da soli da ri edade, a qual liberta e cria vín cu los de orga ni za ção e de comu ni dade. Com a crescente atenção que esse tema passou a ter na sociedade e nos órgãos públicos, criou-se, em nível federal, a Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes), no âmbito do Ministério do Trabalho e Emprego, cujo secretário nacional é o economista Paul Singer. De certa forma, os conceitos têm nomes diferentes, mas podemos identificar elementos comuns entre as reflexões desses autores. A Economia Solidária representa um conjunto de iniciativas econômicas populares que expressam valores e práticas diferentes do atual sistema capitalista; nesse sentido, acreditamos que tais valores são os primordiais para a aceitação de idosos no mundo do trabalho. Ao trabalharmos de forma solidária, um empreendimento deste nível abarca qualquer indivíduo, pois o importante não é a idade, mas sim o ato de estar junto e produzir ações coletivas, geradoras de produtos e bens materiais ou imateriais. No tocante à reinserção de idosos no mundo do trabalho através de empreendimentos autogestionários, Coraggio (1991, p. 351) afirma que:

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Em relação à economia popular urbana em suas várias possibilidades de setores de atuação (serviços ou produção), a possibilidade de obter satisfação de alta qualidade e baixo custo está já aberta e pode ser acentuada com uma apropriada adoção de novas tecnologias. Tudo isso pode ser feito contando com profissionais hoje excluídos do mercado capitalista.

Como pudemos perceber, a Economia Solidária abrange várias situações e iniciativas econômicas, uma delas é o cooperativismo e a autogestão como maneira de vencer o desemprego. Mas o que é uma cooperativa popular? Segundo a Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da Universidade Estadual de Campinas (ITCP-UNICAMP), uma cooperativa popular é um empreendimento de grupo de trabalhadores, com no mínimo 20 integrantes, que se unem para desenvolver atividades econômicas de forma democrática, cuja gestão é exercida por eles. A missão da ITCP-UNICAMP é contri buir para o desenvol - vi mento da eco no mia soli dá ria no Bra sil, aju dar a com ba ter o desem prego e a pre ca ri za ção do tra ba lho e auxi liar a ampli a ção do exer cí cio da cida da nia através da participação popular. Além disso, essa Incubadora teria como objetivos: primeiro, acompanhar e assessorar a formação de cooperativas populares autogestionárias e, também, outras iniciativas de economia solidária – para tanto, pretende disponibilizar aos grupos atendidos o conhecimento técnico e científico produzido pela UNICAMP e ajudar na consolidação de tais iniciativas; segundo, permitir aos professores e estudantes vinculados ao programa um campo permanente de observação e aprendizado em relação à sociedade e a suas demandas sociais mais urgentes. A atuação dos monitores da ITCP-UNICAMP ocorre diretamente junto às cooperativas e grupos atendidos, em seus locais de trabalho, e envolve ações de extensão e de pesquisa nas áreas de trabalho e geração de renda, educação popular de jovens e adultos, autogestão, adequação sociotécnica e tecnologias apropriadas, saúde e meio ambiente, bem como ações experimentais de ação coletiva nas mais diversas áreas do conhecimento. Singer (2002) nos traz uma exemplar comparação entre uma empresa capitalista e uma empresa solidária, aqui se entendendo

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uma cooperativa, para ficar mais claro quais as diferenças entre esses empreendimentos. Teoricamente, as cooperativas estão inseridas num processo dual, em que, dentro delas, entre os cooperados, deveria haver união e solidariedade para que o grupo caminhasse, já que são autogestionários; e fora dela, na relação com o mercado, como estão atuando num sistema capitalista, precisam ser competitivos.

Em termos gerais, segundo Singer (2000), os princípios organizativos de uma cooperativa estão baseados na posse coletiva dos meios de produção pelos membros do grupo que a utilizam para produzir; gestão democrática da empresa; repartição da receita líquida entre os cooperados por critérios aprovados em assembléias e reuniões destinadas para esse fim.

A forma de organização e funcionamento de uma cooperativa vai depender da construção prática de cada grupo, porém existem alguns princípios do cooperativismo, que foram criados pela cooperativa Rochdale em 1844 e, depois, de acordo com Singer (2002), foram imortalizados como os princípios universais do cooperativismo, quais sejam:

  • 1. Livre ade são;

  • 2. Orga ni za ção demo crá tica da ges tão (auto ges tão), em que cada coope rado tem direito a um voto e a sobera nia plena é da assembléia- geral;

  • 3. Suprem acia da vida sobre o traba lho e do traba lho sobre o capi tal;

  • 4. Eqüi dade e soli da ri e dade: repar ti ção do tra ba lho, do poder de decisão, do conheci m ento e do produto do tra balho;

  • 5. Que a dife rença nas reti ra das não ultrapasse 3 para 1;

  • 6. Segu ri dade social (fun dos soci ais coo pe ra ti vos);

  • 7. Inter co o pe ra ção;

  • 8. Qua li dade no pro duto, ética na con cor rên cia, res pe ito ao con su mi dor, pre ser va ção ambi en tal, tec no lo gias soci al- mente adequadas;

  • 9. Trans for ma ção da soci e dade: cida da nia ativa, par ti ci pa - ção popu lar, dis tri bu i ção soli dá ria da riqueza;

10.Edu cação con ti nu ada e defesa da escola pública.

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Atualmente, existem vários ramos de atuação de cooperativas, as mais comuns são: reciclagem de resíduos sólidos, alimentação, confecção/costura, limpeza e de profissionais liberais. Em termos de trabalho para o idoso, temos que os trabalhadores dessa faixa etária que se encontram nas classes populares poderão visualizar alguma saída por meio das cooperativas de reciclagem de entulhos, alimentação, confecção/costura e limpeza, pois são atividades que não requisitam qualificação profissional ou são atividades comuns na vida dessas pessoas. Já os idosos das classes mais abastadas, com maior conhecimento educacional, poderão se reunir em cooperativas de profissionais liberais, cada um buscando sua área de atuação ou montando cooperativas mistas, que envolvem vários ramos de atuação com um ideal comum. Existe todo um aparato para a montagem e atuação dessas cooperativas. Além dos requisitos apresentados anteriormente, é preciso ter uma orientação educacional e jurídica para funcionamento efetivo desse sistema alternativo de produção. Havendo interesse, os idosos e idosas que precisam de reinserção no mundo do trabalho poderão procurar órgãos especializados neste tipo de atuação como Incubadoras de Cooperativas nas Universidades ou mesmo órgãos do Poder Público que, muitas vezes, já possuem Programas direcionados para o cooperativismo.

Considerações finais

Nosso texto buscou contextualizar a realidade social dos idosos e idosas em nosso país no tocante ao mundo da vida e ao mundo do trabalho, refletindo sobre possibilidades de reinserção dessas pessoas nesses espaços. Na formulação de projetos, programas e atividades direcionadas ao público idoso, é necessário darmos a palavra a eles e escutarmos suas reais necessidades. Dessa forma, ao criarmos estratégias de atendimento e atenção à velhice, criaremos ações efetivas de atuação no mundo da vida dos idosos e idosas em nossa sociedade. Vimos, também, a manifestação ativa dessa população nos Programas das Universidades da Terceira Idade e nos Programas das

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Escolas Abertas do SESC, bem como a importância dos estudos e pesquisas na área gerontológica desenvolvidos pelos programas de Pós-Graduação em Universidades públicas e privadas. Para ocorrer uma mudança nos paradigmas errôneos sobre o envelhecimento, apontamos a necessidade de transformação na mentalidade das pessoas, por meio de formação e orientação aos mais variados grupos, para que possam perceber os idosos como seres humanos, semelhantes, agindo e vivendo como seres amorosos. Acreditamos na construção de uma nova cultura política a respeito da velhice. A Economia Solidária, por meio das cooperativas populares, pode ser uma grande possibilidade de reinserção de pessoas que hoje são discriminadas pelo mercado de trabalho, em nosso caso, os idosos. Tais empreendimentos recebem qualquer indivíduo, pois o importante não é a idade, mas sim a vontade de trabalhar do cidadão. Torna-se imprescindível uma parceria com o Poder Público para que essas cooperativas possam vislumbrar uma certa efetividade de produção dos grupos. Os recursos advindos do Poder Público, por exemplo, por meio do Orçamento Participativo, podem propiciar às cooperativas a aquisição de maquinário, equipamentos de proteção individual e construção de barracões para se instalarem. Além disso, é preciso que os Órgãos Públicos e Privados, que atuam com a Economia Solidária, percebam que existe, ainda, um gargalo de atuação na população idosa, que se criem projetos e programas específicos para essa população. Que os formadores de políticas públicas com formação gerontológica possam pensar e criar mecanismos de geração de renda para idosos em todos os âmbitos de atuação, desde as classes mais necessitadas até orientação e assessoria para os idosos mais privilegiados socialmente.

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CAPÍTULO 4 ENVELHECIMENTO, TRABALHO E EDUCAÇÃO Um estudo sobre cooperativas populares Wanda Pereira Patrocinio | Patrícia

CAPÍTULO 4

ENVELHECIMENTO, TRABALHO E EDUCAÇÃO

CAPÍTULO 4 ENVELHECIMENTO, TRABALHO E EDUCAÇÃO Um estudo sobre cooperativas populares Wanda Pereira Patrocinio | Patrícia

Um estudo sobre cooperativas populares

Wanda Pereira Patrocinio | Patrícia Gatti

Este capítulo foi elaborado tendo como base os resultados obtidos na dissertação de mestrado, Cooperativas populares:

representações sociais, trabalho e envelhecimento, de Patrocinio (2005a). Os dados foram coletados no ano de 2004 e o trabalho foi defendido em fevereiro de 2005, no Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da Faculdade de Educação, UNICAMP, com subsídios da CAPES. Utilizando-nos dos dados desse estudo, pretendemos desenvolver uma reflexão sobre a realidade de trabalhadores e trabalhadoras de cooperativas populares, do município de Campinas, e a partir desse contexto realizar uma discussão em torno das seguintes categorias de análise: educação, escolaridade e cultura; trabalho e envelhecimento; gênero e velhice; e representações sociais do envelhecimento e suas relações com a saúde. A metodologia utilizada na pesquisa se apoiou em uma abordagem quantitativa – qualitativa. Num primeiro momento, realizou-se um levantamento quantitativo de cada cooperativa em estudo com o objetivo de conhecê-las mais profundamente, através do histórico de cada grupo e dos dados estatísticos de cada cooperado. Com esse material, realizou-se um retrato socioeconômico dos trabalhadores e trabalhadoras acima de 50 anos nas cooperativas populares. O segmento dos idosos caracteriza-se pela faixa etária com 60 anos ou mais e que tem uma população crescente, porém o contingente de trabalhadores mais velhos tem conferido uma nova orientação e adequação à realidade nacional que comumente os priva das condições de trabalho, trazendo para a discussão idosos ativos com 50 anos ou mais, afetados pelo contexto de exclusão e pelas ideologias sobre o envelhecimento.

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Wanda Pereira Patrocinio e Patrícia Gatti

No total, estudaram-se oito cooperativas populares espalhadas pela cidade de Campinas, que foram atendidas por um Programa da Secretaria de Desenvolvimento da Prefeitura Municipal em parceria com a Universidade Estadual de Campinas. Para o segundo momento da pesquisa, selecionaram-se duas cooperativas para realização do trabalho de campo e as entrevistas com os trabalhadores e trabalhadoras acima de 50 anos. Os critérios adotados para a escolha das cooperativas foram:

primeiro, grupos que já estivessem com seus barracões em funcionamento; segundo, que possuíssem o maior número de cooperados na faixa etária desejada e, terceiro, que fossem de ramos de atividades diferentes.

O desenvolvimento deste texto se iniciará pela apresentação da realidade socioeconômica dos trabalhadores e trabalhadoras com idade igual ou superior a 50 anos das cooperativas estudadas e se encerrará com uma discussão baseada nas categorias de análise supracitadas.

Retrato socioeconômico dos trabalhadores e trabalhadoras acima de 50 anos de cooperativas populares na cidade de Campinas

O retrato socioeconômico – no conjunto das variáveis antecedentes representadas pelos dados sociodemográficos (idade, gênero, nível de escolaridade, renda, estado civil, profissão, entre outros) –, que será apresentado foi realizado junto à Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da UNICAMP (ITCP-UNICAMP). Essa Incubadora é um Programa da Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários da Universidade Estadual de Campinas. Segundo informações disponíveis no site da ITCP-UNICAMP (Ver http://www.itcp.unicamp.br/), sua missão é a de contribuir para o desenvolvimento da economia solidária no Brasil, ajudar a combater

Envelhecimento, Trabalho e Educação

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o desemprego e a precarização do trabalho e auxiliar a ampliação do exercício da cidadania através da participação popular. Além disso, essa Incubadora teria como objetivos: primeiro, acompanhar e assessorar a formação de cooperativas populares autogestionárias e, também, outras iniciativas de economia solidária – para tanto, pretende disponibilizar aos grupos atendidos o conhecimento técnico e científico produzido pela UNICAMP e ajudar na consolidação de tais iniciativas; segundo, permitir aos professores e estudantes vinculados ao programa um campo permanente de observação e aprendizado em relação à sociedade e suas demandas sociais mais urgentes. Uma cooperativa popular é um empreendimento de grupo de trabalhadores, com no mínimo 20 integrantes, que se unem para desenvolver atividades econômicas de forma democrática, cuja gestão é exercida por eles. A ITCP-UNICAMP, juntamente com a Prefeitura Municipal de Campinas e as outras Incubadoras da cidade (EDH – Ecologia e Dignidade Humana e CRCA – Centro de Referência em Cooperativismo e Associativismo) escreveram um pequeno livro sobre as cooperativas populares da cidade de Campinas. Para isso, os monitores dessas incubadoras aplicaram um questionário nas cooperativas atendidas para atualização dos dados, que permitiu a realização do retrato socioeconômico dos trabalhadores e trabalhadoras na faixa etária selecionada em Cooperativas Populares que participaram do Programa de Cooperativismo da Prefeitura Municipal de Campinas.

Tabela 1. Faixa Etária – Cooperativas Populares – Campinas.

Ida de

Qu an ti da de de co o pe ra dos

Por cen ta gem

Aci ma de 50 anos

Menos de 50 anos To tal

57

215

272

21%

79%

100%

80

Wanda Pereira Patrocinio e Patrícia Gatti

Masculino 35% Feminino 65%
Masculino
35%
Feminino
65%

Figura 1. Gênero.

Ensino superior 5ª a 8ª série 2% 1ª a 4ª série 48%
Ensino superior
5ª a 8ª série
2%
1ª a 4ª série
48%

Figura 2. Escolaridade.

Cargos técnicos (Enfermagem, Telefonia, Digitação)

Construção civil, agricultura

26%

11%

Faxina, limpeza, organização

33%

Fábricas,

empresa, lojas

30%

Figura 3. Experiência profissional.

Envelhecimento, Trabalho e Educação

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Região centro-oeste Região sul 2% 11% Região nordeste 28%
Região centro-oeste
Região sul
2%
11%
Região nordeste
28%
 

Região sudeste

59%

Figura 4. Local de nascimento.

 

7 a 9 pessoas

5%

1 a 3 pessoas

1 a 3 pessoas

4 a 6 pessoas

48%

47%

Figura 5. Pessoas que moram na mesma residência.

11% 2% 34% De R$ 101,00 a R$ 200,00 De R$ 201,00 a R$ 500,00 Até
11%
2%
34%
De R$ 101,00 a R$ 200,00
De R$ 201,00 a R$ 500,00
Até R$ 100,00
Acima R$ 1000,00
25%

De R$ 501,00 a R$ 1000,00

28%

Figura 6. Renda familiar.

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Menos de 2 anos 7% De 2 a 5 anos 2% Mais de 20 anos 61%
Menos de 2 anos
7%
De 2 a 5 anos
2%
Mais de 20 anos
61%
De 5 a 10 anos
11%
De 10 a 20 anos
19%

Figura 7. Tempo de moradia em Campinas.

Não 12% Sim 88%
Não
12%
Sim
88%

Figura 8. Emprego registrado.

Fonte: Wanda Patrocinio – Cooperativas Populares: Representações sociais, trabalho e envelhecimento – 2005.

Do retrato socioeconômico acima exposto, podemos apreender que do total de pessoas atendidas nas cooperativas populares estudadas, 21% são pessoas acima de 50 anos. A grande maioria é do sexo feminino, 65%, o que nos remete ao tema da feminização do envelhecimento, que requer uma atenção no tocante às chefias familiares e domiciliares por mulheres idosas.

A escolaridade dessas pessoas é de 48% nas primeiras séries do Ensino Fundamental (1ª a 4ª série) e ocorre um empate de 18%

entre aquelas que nunca estudaram e aquelas que cursaram até o Ensino Médio.

A grande maioria dos participantes nasceu na Região Sudeste, 59%, e em segundo lugar encontramos 28% de cooperados advindos da Região Nordeste. Não há pessoas da Região Norte.

Envelhecimento, Trabalho e Educação

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Encontramos um empate entre os trabalhadores que moram sozinhos ou com até duas pessoas e aqueles que dividem a residência com três a cinco pessoas. Cinqüenta e quatro entrevistados estão nessa condição, sendo 27 na primeira circunstância e 27 na segunda.

A renda familiar que mais se destacou foi na faixa de R$ 201,00 a R$ 500,00 (34%); 28% têm renda de R$ 501,00 a R$ 1.000,00. A grande maioria dos participantes, 69%, vive em Campinas há mais de 20 anos. Na experiência profissional, os trabalhos mais encontrados foram: limpeza, faxina e organização em geral, com 33% das respostas, e 30% para serviços em fábricas, empresas e lojas.

Grande parte deles já fez parte do mercado de trabalho formal, trabalhando com carteira assinada – 88%. Em relação aos bairros de moradia, as cooperativas estão espalhadas por toda a cidade de Campinas, nas suas 14 Administrações Regionais e mais dois subdistritos, Barão Geraldo e Nova Aparecida.

Um dos temas que merecem cada vez mais destaque e se constituem em desafios para as políticas públicas é que a população brasileira tende a se tornar, cada vez mais, uma população de idosos num crescimento desordenado e, mesmo diante das conquistas nos campos social e de saúde, a possibilidade de envelhecer relativamente bem, a despeito das perdas e incertezas da velhice, coloca muitos idosos em situação de vulnerabilidade, com poucas condições de infraestrutra econômica e social decentes.

Resultados e discussão

Para discussão dos resultados, levaremos em consideração as seguintes categorias de análise:

  • 1. Com pa ra ção entre as duas coo pe ra ti vas sele ci o na das;

  • 2. Educa ção, esco la ri dade e cul tura;

  • 3. Tra ba lho e enve lhe ci mento;

  • 4. Gênero e velhice;

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Comparação entre as duas cooperativas selecionadas

Dentro das oito cooperativas apresentadas abaixo, utilizamos os dados da Tatuapé e da CooperMimo para realização da discussão aqui presente.

Tabela 2. Cooperativas e Ramo de Atividade – ITCP – UNICAMP

Nome da Co o pe ra tiva

Ramo de Ati vi da de

Co o per Vi da

Re ci cla gem de Re sí du os Só li dos

Vi tó ria Ba rão

Pro du ção de Ali men tos Re ci cla gem de Re sí du os Só li dos

Ta tu a pé

Re ci cla gem de Entu lho

Co o per

So nho

Arte sa na

to

Bom su

ces so

Re ci cla gem de Re sí du os Só li dos

Co o per Mi mo

Cos tu

ra

Re nas cer

Re ci cla gem de Re sí du os Só li dos

Fonte: Wanda Patrocinio – Cooperativas Populares: Representações sociais, trabalho e envelhecimento – 2005.

Como se dá o trabalho em cada uma delas? Tatuapé: esta cooperativa funciona juntamente com uma Usina Recicladora da Prefeitura Municipal de Campinas em parceria com a Sanasa.

São feitas montanhas de entulhos, os cooperados recolhem os materiais mais fáceis da base e, quando a base fica limpa, o trator passa na montanha, abrindo caminho para os cooperados recolherem mais materiais. O trabalho é realizado a céu aberto e a Prefeitura cedeu os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) – chapéus, aventais, máscaras, óculos, luvas e botas.

Envelhecimento, Trabalho e Educação

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Envelhecimento, Trabalho e Educação 85 Figura 9 . Seu Benvindo, 64 anos. Na montanha de entulho,

Figura 9. Seu Benvindo, 64 anos.

Na montanha de entulho, eles separam para aproveitamento da cooperativa em vendas: papelão, plástico, madeira, ferro e outros materiais; e só ganham em cima do material que vendem, conforme os seguintes valores: Madeira – R$80,00 o caminhão; Papel/Papelão – Branco – R$0,25/kg; Cimento – R$0,08/kg; Papelão – R$0,27/kg; Plástico – PVC/PET – R$0,40/kg; outros – R$0,27/kg; Ferro/Sucata – R$0,27/kg; Vidro – R$0,08/kg; Cobre – R$7,00/kg.

A infra-estrutura observada estava precária, não havia luz elétrica, nem cozinha, eles almoçavam sentados no chão ou em

cadeiras improvisadas. Há um local provisório para descanso com um sofá e cadeiras que, provavelmente, vieram nas caçambas ou caminhões. Entram às 7:00 horas, param para almoço e descanso das 12:00 às 13:00 horas e depois trabalham até 16:20 horas. Na medida do possível, fazem pequenos intervalos para beber água e descansar um pouco, mas nada sistematizado.

A formação da cooperativa começou em agosto de 2001. Havia um aterro onde os caçambeiros jogavam entulhos; nesse terreno trabalhavam, irregularmente, em média 100 pessoas. A

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Prefeitura Municipal prometeu que a regularização aconteceria dentro do prazo de 90 dias. Com a demora desse processo, muitas pessoas foram desistindo ao longo do caminho e as que ficaram e estavam interessadas em montar a cooperativa se juntaram, somando 21 pessoas que acreditaram nessa empreitada, realizaram cursos de qualificação e receberam todas as informações necessárias para formação e atuação de uma cooperativa popular. Mesmo com todo o conhecimento adquirido, o grupo, em geral, ainda mantém uma postura de trabalhador assalariado, que chega de manhã, trabalha, pára para almoçar, volta a trabalhar e, no final do dia, se arruma e volta pra casa. Segundo o presidente, eles ainda não conseguiram compreender o poder que cada um possui dentro desse sistema de trabalho e, por essa não-compreensão, acabam tendo dificuldades em assumir responsabilidades, deixando tudo nas mãos do presidente e de outros do Conselho Administrativo.

CooperMimo:enquanto os cooperados da Tatuapé trabalham num local extenso a céu aberto, o barracão da CooperMimo encontra-se nos fundos da casa da atual presidente. É um espaço um tanto pequeno e apertado para o trabalho das nove cooperadas.

86 Wanda Pereira Patrocinio e Patrícia Gatti Prefeitura Municipal prometeu que a regularização aconteceria dentro do

Figura 10. Dona Noemia, 66 anos.

Envelhecimento, Trabalho e Educação

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O trabalho na Tatuapé é um serviço precário em termos de condições estruturais do ponto de vista da saúde física, pois os cooperados carregam materiais pesados e vivem em meio a objetos que são descartados pela população. Já as cooperadas da CooperMimo realizam um trabalho mais fino, suave e limpo no sentido do tipo de material que utilizam – panos, linhas e agulhas. Modo de produção: A encomenda chega (encomenda esta já acertada previamente via telefone ou pessoalmente e o contratante já entrega a peça piloto com o tamanho desejado), elas recebem o material (panos, moldes, linhas), discutem como é a melhor forma de realizar a confecção daquela peça, por exemplo, uma calça de uniforme – olham cós, vincos, barras, bolsos etc. e qual máquina é melhor de utilizar para cada momento do trabalho. Daí partem para a produção. Existia a promessa de um barracão da Prefeitura Municipal de Campinas para mudança de local de trabalho da cooperativa, mas isso ainda não aconteceu. O horário de trabalho é das 7:30 às 17:00 horas, com intervalo mais ou menos das 9:00 às 9:30 e das 15:00 às 15:30 horas e o horário de almoço é das 12:00 às 13:00 horas. Em relação ao retorno financeiro de cada trabalho, elas cobram os seguintes valores por tipo de serviço: Camisetas – R$ 0,30 por peça. Blusinha social para boutique – R$1,00 a peça. Calça para uniforme – R$1,60 a peça. Uma grande diferença em relação à Cooperativa Tatuapé é que nesta o trabalho não exige qualquer tipo de habilidade específica, é só chegar e ter um conhecimento rápido da separação dos materiais que qualquer pessoa pode executar a tarefa. Por outro lado, saber costurar exige um conhecimento mais apurado, ter mais prática e habilidade. Essa especificidade traz problemas para a CooperMimo, pois algumas cooperadas não sabem executar a tarefa efetivamente, o que ocasiona muitos erros de produção e, conseqüentemente, gera estresse entre as trabalhadoras.

Educação, escolaridade e cultura

Há uma diferença marcante entre as duas cooperativas analisadas no tocante à escolaridade dos cooperados. Na Tatuapé, as pessoas com idade igual ou superior a 50 anos cursaram no

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Wanda Pereira Patrocinio e Patrícia Gatti

máximo até a 4ª série do Ensino Fundamental; já na CooperMimo a grande maioria das entrevistadas possui o nível de escolaridade no Ensino Médio.

Essa diferença pode registrar-se, também, na escolha da atividade profissional de cada cooperativa, pois como já citado anteriormente, na cooperativa de reciclagem de entulhos, o cooperado não precisa ter qualquer tipo de habilidade específica para realização do trabalho; já na cooperativa de costura, é necessário estudar um pouco mais para realizar o serviço.

O que temos de comum entre as duas cooperativas é que, em ambas, os participantes na faixa etária supracitada não fazem mais parte do ensino formal, a educação da qual eles fazem parte é essa que se dá ao longo do curso da vida, segundo Gohn (2003, p. 98) é a

educação atrelada à cultura, adquirida ao longo da vida dos cidadãos; uma

das cooperadas da Mimo afirma “então, a vida dá muita experiência prática” (Dona Noemia, 66 anos, CooperMimo). Tendo-se em conta o caráter polissêmico do construto “cultura”, entende-se o termo cultura popular como a soma dos valores tradicionais de um povo, expressos na forma artística, ou nas crenças, costumes gerais, ou nos valores individuais e sociais. Não se trata de um tecido linear, que basta ir seqüencialmente desvelando, tendo como esteio uma metodologia bem traçada, mas sim de uma trama complexa para a qual é preciso construir um olhar que possibilite uma leitura e uma escuta intercultural. Uma constante no aspecto do aprendizado foram depoimentos de assistir à televisão, mais especificamente à Rede Globo e, principalmente, novelas, pois é o horário em que eles e elas já chegaram em casa, tomaram seus banhos, jantaram e podem descansar um pouco antes de ir dormir para começar tudo de novo. Segundo Acosta-Arjuelo (2002), ao considerar o conteúdo da TV como fonte de informação sobre a realidade social, o idoso limita seu contato com o mundo externo.

Outro aspecto da educação que nos chamou a atenção foi a questão de passar para os filhos o que eles tiveram ou não ao longo da vida. Por exemplo, uma depoente da Tatuapé frisou que tentou dar para os filhos a educação escolar que ela não teve, que fez questão que os filhos estudassem. Já uma cooperada da CooperMimo trouxe a educação recebida pelos pais no seio familiar, dizendo que tudo que

Envelhecimento, Trabalho e Educação

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ela é hoje foi por causa da criação que ela recebeu dos pais e que tenta passar isso para suas filhas. Em relação à trajetória educativa, existe uma diferença muito grande entre as duas cooperativas. Enquanto os depoimentos da maioria dos cooperados da Tatuapé foram muito marcados por uma educação através do trabalho, pois desde muito cedo eles já tiveram que ajudar suas famílias no trabalho e, geralmente, na roça, as cooperadas da Mimo trouxeram uma trajetória mais voltada para a educação formal e só adentraram no mundo do trabalho quando adolescentes ou adultas.

Sabemos que no processo de envelhecimento do ser humano ocorrem algumas perdas em funções biológicas, que podem afetar a aprendizagem da pessoa que envelhece, porém, temos outras funções que realizam uma espécie de adaptação para os aspectos declinantes do organismo. Conforme ocorre o amadurecimento de cada indivíduo, as possibilidades de influências biológicas, psicológicas, sociais e culturais apresentam-se cada vez mais de forma ampla, o que aumenta as possíveis maneiras de o ser humano se auto-educar (Cachioni & Neri, 2004). Além disso, seguindo uma perspectiva de educação constituidora do ser social, Freire (1975, p. 83) nos chama a atenção para o fato de que:

O que importa fundamentalmente à educação, contudo, é a problematização do mundo do trabalho, das obras, dos produtos, das idéias, das convicções, das aspirações, dos mitos, da arte, da ciência, enfim, o mundo da cultura e da história, que, resultando das relações homem–mundo, condiciona os próprios homens, seus criadores.

Trabalho e envelhecimento

Os cooperados e cooperadas de reciclagem de entulhos relatam a questão da pobreza e necessidade financeira como principal motivo para trabalharem na Tatuapé. Segundo Fortes (2005), a pobreza que gera dificuldades relacionadas aos cuidados com a saúde e outros estressores fatores psicossociais tem sido

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Wanda Pereira Patrocinio e Patrícia Gatti

associada a distúrbios de humor na velhice, assim como às perdas sociais – habilidade para o trabalho, perdas de papéis, mudanças nas redes sociais. Os fatores psicológicos e os ambientais e o estilo de vida também são importantes na relação envelhecimento e doença. Já na Mimo, apesar de elas também precisarem de uma renda, a retirada que conseguem é muito baixa e algumas dizem estar na cooperativa pelas relações sociais que lá se estabelecem, o que

mostra a importância do grupo num momento de vida em que muitas

perdas podem vir a ocorrer

...

(Patrocinio, 2003, p. 220).

O que ficou muito forte em ambos os grupos é a questão de não terem outra oportunidade de trabalho devido à idade avançada, por isso, optaram por fazer parte da cooperativa: “Mais na minha idade não tem jeito de arrumar mais. Só serve pra aposentar,

aposentou, saio de lá” (Seu Benvindo, 64 anos, Cooperativa Tatuapé). E isso não foi percebido somente na Tatuapé e na CooperMimo; quando do levantamento histórico das outras cooperativas da ITCP-UNICAMP, uma líder relatou:

Essas senhoras que estão lá já têm uma certa idade, não vamos falar que é velha, velha não é, mas pra sociedade elas não servem mais, porque elas já têm uma certa idade, não serve mais. Qual empresa vai pegar uma pessoa de 50 anos, 60 anos? Me fala, ninguém pega” (Dona Josenilda, CooperVida). Muitas vezes, os cooperados e cooperadas até tentaram um emprego no mercado formal, mas tiveram respostas negativas que os levaram a desistir:

Porque, infelizmente, aqui no Brasil, passou de 30 anos é considerada velha e eu tive em vários lugares, que eu tenho conhecimento de muitas coisas que eu já fiz, certo? Ah, é muito bom, levei meu currículo, tal faz isso, faz aquilo, mas a gente precisa de pessoas mais novas, então foi uma ducha de água fria que me deram, daí que eu falei: O quê que eu vou fazer? Ninguém me aceita pela idade, eles não vêem a experiência que a pessoa de

mais idade tem” (Dona Nena, 54 anos, Cooperativa CooperMimo). Segundo Peres (2002) a “velhice” aos 40 ou 50 anos verificada no contexto atual do mercado de trabalho é um fato, na medida em que os profissionais que atingem tal faixa de idade sofrem com a estereotipia que caracteriza a velhice.

Envelhecimento, Trabalho e Educação

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O critério de exclusão no mercado não é, necessariamente, a idade e sim a educação do trabalhador, que precisa satisfazer as exigências das empresas no tocante a habilidades, fluência em algum outro idioma e experiência no cargo. Com isso, os trabalhadores e trabalhadoras mais velhos que não tiveram e não têm acesso à educação ficam excluídos do mercado formal de trabalho (Patrocinio, 2005b). Em relação ao motivo que mantém as pessoas trabalhando nas cooperativas, encontramos um sentimento contraditório. Na Tatuapé, se por um lado temos a repulsa ao tipo de trabalho, temos também o sentimento de dignidade que o trabalho proporciona,

segundo Peres (2002, p. 1): É pelo trabalho que não só se obtém o próprio sustento, mas também que se mantém a dignidade e que se

constrói a própria identidade. Vários dos cooperados relataram ser um trabalho árduo, sujo e difícil: “É que ali é um serviço sujo, é sujo mesmo sabe, aquelas coisas né, aquele poeirão, bicho morto, aquele barulho de máquina no ouvido da gente” (Seu Benvindo, 64 anos, Cooperativa Tatuapé). Por outro lado, relataram que acabam se acostumando com esse tipo de serviço e que se sentem felizes por terem um trabalho, por serem úteis de alguma forma. Na CooperMimo, a contradição encontra-se no fato de elas relatarem ter entrado no grupo para ajudarem na renda familiar e essa questão econômica também tem a ver com a dignidade do trabalho:

...

que era preciso trabalhar, arrumar alguma coisa assim,

que ao menos eu ganhasse assim, uma coisa mais certa né, aí digo:

ah, vou procurar serviço de costureira, falei pra ela, inclusive eu

fui na cidade, tinha um serviço de costureira, mas sabe quando chega, que olha pra sua cara e vê a sua idade, acho que elas pensam que a gente tá caindo aos pedaços, que a gente não vai dar conta” (Dona Noemia, 66 anos, CooperMimo). Mas durante esses anos de luta dessa cooperativa, a retirada delas mal dá para manter a continuidade do trabalho, isso significa

que elas têm levado muito pouco para suas casas, é a esperança de que ainda vai dar certo que as faz continuar trabalhando:

Mas tem que lutá, sei lá, tem que ir até onde vê que dá, a hora que não der mais mesmo, que a gente vê que não tem jeito, aí

junta todo mundo, vende o que conseguiu, divide, acabou, mas até que tiver uma luzinha lá no fim do túnel, tem que correr atrás e

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Wanda Pereira Patrocinio e Patrícia Gatti

ainda dá pra ver a luz, vamos ver se nós alcança” (Dona Terezinha, 50 anos, Cooperativa CooperMimo) A questão da dignidade nessa fase de envelhecimento pode ser explicada pela ótica da produtividade e da valorização do jovem em nossa sociedade, segundo Debert (1997): O velho, por não se

constituir em mão-de-obra apta para o trabalho, é desvalorizado e abandonado pelo Estado e pela sociedade. Nessa perspectiva, trabalhar

nesse momento da vida de uma pessoa pode trazer o sentimento de realização por estar produzindo, mesmo que não tenha renda, como é o caso da CooperMimo: “Eu fico muito orgulhosa em falar: EU TRABALHO!” (Dona Eva, 55 anos). No tocante ao trabalho propriamente dito, foi uma constante na Tatuapé o relato dos cooperados de que se encontrassem um emprego registrado deixariam a cooperativa sem pensar duas

vezes: “Se você arrumasse um serviço registrado, quer dizer, não por contrato, pra eu trabalhar direto, se eu achasse eu saía dacolá, agora eu saía dacolá. Aí se eu achasse, eu saía, agora eu saía” (Seu Vicente, 58 anos, Cooperativa Tatuapé).

Já na Mimo elas ainda mantêm uma esperança muito forte de que a cooperativa vai dar certo e que dali elas vão tirar uma renda para ajudar as próprias famílias. Segundo uma das cooperadas, elas precisam tocar a cooperativa para a frente para ganhar dinheiro:

Nós temos que lutar pra ter alguma coisinha nossa

...

eu queria

que fosse pra frente, o meu sonho era ganhar dinheiro, meu Deus, eu queria ganhar, pelo menos um salário, se eu trouxesse pra dentro de casa” (Dona Eva, 55 anos, CooperMimo). Por fim, sabemos que a exclusão no trabalho não ocorre apenas por causa da idade, de acordo com Neri (2002, p. 13):

O desemprego dos adultos mais velhos e dos idosos é mais devido à falta de oportunidades educacionais e de treinamento em serviço e aos preconceitos do que ao envelhecimento em si mesmo.

E isso foi amplamente relatado pelos cooperados e cooperadas da Tatuapé e da CooperMimo, então, o que seria preciso realizar para que essas pessoas pudessem envelhecer no mundo do trabalho com dignidade? A mesma autora nos traz uma saída:

Envelhecimento, Trabalho e Educação

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A superação de falsas crenças é fundamental para a promoção de um tratamento mais conseqüente da questão da velhice. A educação permanente de pessoas de todas as idades é o instrumento mais adequado para essa finalidade. Por meio dela, será mais provável conseguir superar não só os estereótipos sobre o idoso e a velhice, como também as práticas sociais discriminatórias em relação aos que envelhecem no ambiente de trabalho (Neri, 2002, p. 25).

Gênero e velhice

Segundo Scott (1990), gênero é uma maneira de se referir à organização social da relação entre os sexos e só é pensado em termos de relação. Para ela, o interesse pelas categorias de classe, de raça e de gênero assinalava, primeiramente, o engajamento do pesquisador numa história que incluía os discursos das(os) oprimidas(os) e uma análise do sentido e da natureza de sua opressão. Retomando os dados deste trabalho, perceberemos que a grande maioria dos trabalhadores acima de 50 anos, nas cooperativas populares, é do sexo feminino, 65% do total. Por que encontramos essa maioria esmagadora de mulheres? A feminização da velhice é um fenômeno sociodemográfico a se considerar. Segundo Neri (2001), esse fenômeno não somente se atribui à maior presença relativa de mulheres na população, ou também pelo aspecto da longevidade da mulher, mas à crescente integração das mulheres idosas em diversas esferas da vida social. No Brasil, segundo dados do IBGE, 53% das mulheres integram a População Economicamente Ativa – PEA, mas apenas 17% estão no mercado formal. Vinte e três por cento estão no setor informal e 12% desempregadas. Os fatores que afetam a participação das mulheres idosas no mercado de trabalho ocorrem principalmente pela falta de desenvolvimento profissional e educacional devido às interrupções da atividade de trabalho e das obrigações relacionadas com a família, como também os baixos rendimentos durante os anos produtivos da mulher, gerando mais pobreza na velhice.

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Wanda Pereira Patrocinio e Patrícia Gatti

Além disso, com a situação econômica atual, a mulher acaba tendo que buscar saídas de geração de renda e encontra nas cooperativas uma forma de driblar o desemprego. O que torna o trabalho neste sistema tão interessante é que nele não há a tão famigerada diferenciação salarial entre homens e mulheres. A desigualdade de remuneração entre homens e mulheres é uma constante em todo o mundo, o que não ocorre dentro das cooperativas, pois não importa ser homem, mulher, jovem, velho, branco, negro, todos recebem a mesma retirada no final do mês. Salvo apenas em casos de cooperativas que trabalham com o valor por hora de trabalho, nesse caso, ganha-se o quanto se trabalha em horas por dia.

Há que se levar em consideração, também, a questão da dupla jornada de trabalho, pois ainda resta para as mulheres chegar em casa e cuidar dos afazeres domésticos e da educação dos filhos, por mais que os homens passem a ajudar mais, ainda sobra para as mulheres a maior responsabilidade sobre essas tarefas. Por exemplo, a mãe ou avó que precisa pegar um filho ou neto na creche, participar de uma reunião de professores, levar um filho ou

neto ao médico. Ela vai ganhar menos por ter que sair em horário de trabalho? Ou será que ela tem o direito de ganhar a mesma retirada?

Ainda existe muita resistência de homens e, também, de mulheres que não têm filhos ou netos de ver esta mulher como uma igual. Há muitas frases do tipo: “Elas que se virem!” Se achávamos que dentro de um ambiente, teoricamente, solidário, isso não aconteceria, estávamos muito enganados, pois eles e elas viveram toda sua experiência de trabalho como empregados e empregadas, é muito difícil, de uma hora para outra, terem que pensar em soluções de maneira não competitiva. E terem vindo de um ambiente competitivo e individualista mostra claramente as relações de poder que permeiam a sociedade e nela as relações de gênero. Segundo Scott (1990), o gênero é uma primeira maneira de dar significado às relações de poder. Seria melhor dizer: o gênero é um primeiro campo no seio do qual, ou por meio do qual, o poder é articulado. Nesse sentido, ela afirma que Os

conceitos de gênero estruturam a percepção e a organização concreta e simbólica de toda a vida social (p.16).

Estudar gênero implica compreender quatro elementos que a ele são constitutivos: primeiro, os símbolos culturalmente disponíveis que evocam representações simbólicas; segundo, os

Envelhecimento, Trabalho e Educação

95

conceitos normativos que põem em evidência as interpretações do sentido dos símbolos e que se esforçam para limitar e conter suas possibilidades metafóricas; terceiro, uma noção de política bem como uma referência às instituições e à organização social; quarto, a identidade subjetiva.

Para Scott (1990, p. 15),

os historiadores devem antes de tudo examinar as maneiras pelas quais as identidades de gênero são realmente construídas e relacionar seus achados com toda uma série de atividades, de organizações e representações sociais historicamente situadas,

acreditamos que essa afirmação não se direciona somente para os historiadores, mas também para todos que se preocupam com essa categoria analítica de estudo (o gênero) e que buscam compreender melhor as situações que nos são postas em nossa sociedade, principalmente, na relação de gênero e velhice.

Representações sociais do envelhecimento e suas relações com a saúde

Neste item, trataremos das representações sociais sobre o envelhecimento nas duas cooperativas populares estudadas e, também, discutiremos as condições de saúde que permeiam o processo de envelhecimento analisado. Escolhemos tratar do aspecto da saúde, pois existe uma prevalência de representações negativas sobre essa fase da vida por conta do aparecimento de doenças e incapacidades físicas que, muitas vezes, perpassam a caminhada dos idosos e das pessoas que começam a entrar na velhice. Segundo Neri e Yassuda (2004, p. 8):

Uma velhice bem-sucedida revela-se em idosos que mantêm autonomia, independência e envolvimento ativo com a vida pessoal, com a família, com os amigos, com o lazer, com a vida social. Revela-se em produtividade e em conservação de papéis sociais adultos.

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Wanda Pereira Patrocinio e Patrícia Gatti

O sonho do ser humano é poder envelhecer com saúde e independência; nessa perspectiva entende-se por saúde um campo de estudo, que não se restringe apenas à concepção de doença localizada no corpo. Ela se constitui de ampla visão do homem num equilíbrio dinâmico da interação do indivíduo nos seus aspectos sociais, relacionamentos entre as pessoas, aspectos biológicos, aspectos psicológicos, a história do desenvolvimento do indivíduo e a cultura na qual as pessoas estão inseridas (OMS) 1 . Os vários elementos indicativos na literatura que podem contribuir para melhorar a saúde são a moradia, alimentação, transporte, trabalho, ecologia, cultura, lazer, educação, bem-estar subjetivo e atividade física, portanto a presença de doenças é determinada por grande variedade de fatores genético-biológicos, ambientais e de estilo de vida, os quais afetam de modo diferente homens e mulheres de várias idades. Em relação às duas cooperativas em estudo, era de se esperar que na Tatuapé, por ser um trabalho mais pesado, pudéssemos encontrar mais problemas de saúde. No entanto, a diferença que sentimos foi que, nessa instituição, os problemas eram agudos, dores advindas do árduo trabalho do dia-a-dia, porém com o descanso noturno, os cooperados já se restabeleciam e ficavam prontos para mais uma jornada.

Já na CooperMimo, talvez por elas ficarem muito tempo sentadas, paradas e executando movimentos repetitivos, encontramos problemas mais crônicos nas cooperadas acima de 50 anos, como problema de coração, LER (Lesão por Esforço Repetitivo), febrite, trombose, tendinite, osteoporose, artrose, problema de coluna, bursite, dor no cóccix e labirintite.

O que encontramos de comum nos dois grupos foi a questão da dor e cansaço nas pernas e inchaço nos pés. No primeiro grupo, por ficarem muito tempo de pé, carregando peso e, no segundo grupo, por ficarem muito tempo sentadas, dificultando a circulação sangüínea.

Sobre os aspectos do relato de doenças e desconfortos de saúde, verificamos que esses resultados apontados estão relacionados com os dados de outro estudo sobre o bem-estar físico de homens e mulheres

Envelhecimento, Trabalho e Educação

97

idosos. De Vitta (2001) apresenta uma grande associação entre velhice, gênero feminino e sedentarismo. Neste estudo, os resultados apresentados mostram que as mulheres idosas apresentaram as maiores taxas de doenças músculo-esqueléticas e os idosos masculinos as maiores taxas de doenças cardiovasculares. A outra correlação foi que as mulheres adultas e idosas e os sedentários relataram mais desconfortos músculo-esqueléticos. Em relação a gastos com remédios, foi unânime nas duas cooperativas o fato de os cooperados pegarem os remédios no Posto de Saúde do bairro e só gastarem dinheiro para esse fim quando não encontravam o remédio desejado. Isso mostrou que a renda que eles e elas retiravam da cooperativa não se destinava a gastos com remédios, mas sim para gastos com suprimentos básicos de sobrevivência: alimentação, água e eletricidade. No tocante à valorização versus discriminação, em sua maioria, os depoentes de ambas as cooperativas relataram que se sentiam valorizados ou não, mas não pelo fato da idade, de ser mais velho e sim pelo trabalho, se trabalhavam conforme o esperado ou não.

Em termos de representação social, podemos separar os resultados em quatro grupos:

  • 1. Aspec tos físi cos e de saúde;

  • 2. A velhice como algo natural;

  • 3. A velhice como etapa que pre cede a morte;

  • 4. Compa ra ção entre sen tir-se velho/jovem e se ver velho fisi ca mente.

No primeiro grupo, encontramos pessoas que se diziam não se sentirem velhas porque não tinham cabelos brancos suficientes:

Meus cabelos estão brancos, mas não são tão brancos como do Zé Ovídio, do Zé Ovídio é mais branco, ele parece mais velho do que eu. Repara nele uma hora pra você ver. O Zé Ovídio parece mais velho do que eu. Eu não estou tão velho porque, pra eu parecer mais tão velho assim, meu cabelo tem que estar mais branco” (Seu Benvindo, 64 anos, Cooperativa Tatuapé). Nesse grupo, houve um depoimento de uma mulher que está na faixa etária abaixo de 50 anos, que mantém a representação social do envelhecimento como “ser velho é ser doente”. Segue sua fala:

Vai chegando a velhice, é assim mesmo!”.

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Wanda Pereira Patrocinio e Patrícia Gatti

Pesquisadora: Para a senhora, ser velho é sentir dor e essas coisas aí?

Cooperada: É, porque vai ficando velho e os problemas vão aparecendo” (Dona Ernestina, 44 anos, Cooperativa Tatuapé). Essa representação da velhice como doença acaba sendo reforçada pelos próprios depoentes que salientam que esperam envelhecer com saúde: “O importante é que eu chegue nos 50 anos, nos 60, nos 70 e que eu chegue com saúde, isso que importa, não penso que eu vou estar feia, bonita, tá velha, ou sei lá” (Dona Terezinha, 49 anos, CooperMimo). A auto-observação subjetiva ou avaliações de parâmetros pessoais e sociais que as pessoas fazem sobre a qualidade do funcionamento de sua saúde física e mental refere-se ao conceito de saúde percebida. A saúde percebida pode se referir ao funcionamento atual, do passado ou que inclui expectativas do funcionamento futuro e não se justifica simplesmente pela ausência de doenças e de incapacidades, mas sim pela ausência de danos

agudos. A capacidade de avaliar positivamente a própria saúde comparada à de outras pessoas da mesma idade, segundo De Vitta (2001), pode ser considerada um mecanismo de adaptação, mediante o qual o indivíduo mantém a auto-estima e representa uma integração individual de muitos aspectos do conceito de saúde, tais como a capacidade de realizar determinadas tarefas, o status funcional e o status de saúde. De certa forma, eles possuem uma representação social de que o envelhecimento leva à doença e que, portanto, eles não querem isso para suas vidas. Não podemos negar que o envelhecimento, em muitos casos, traz doenças, mas isso não pode ser uma constante, é preciso modificar essa visão e partir do pressuposto de que nós envelhecemos conforme nós vivemos e nos cuidamos durante todo o nosso curso de vida. Se tivemos um curso de vida marcado por doenças, fraquezas, medos, não é na velhice que isso mudará. Ao contrário, se sempre cuidamos de nossa saúde física e mental, teremos menos perdas em nosso processo de envelhecimento. Segundo Neri (2002, p. 16):

O importante é que não se pense que envelhecer é igual a

ficar doente, uma vez que o envelhecimento normal não é doença e que o progresso social e a disseminação de hábitos de vida

Envelhecimento, Trabalho e Educação

99

saudável fazem com que aumente o número de idosos saudáveis e

bem-sucedidos na população.

Sob essa ótica, envelhecer satisfatoriamente depende do

equilíbrio entre as limitações e as potencialidades do indivíduo, que

possibilita lidar com graus de eficácia, preservando o potencial

individual, com as perdas inevitáveis e com os limites da

plasticidade de cada um (Neri, 1995). Tanto o desenvolvimento

quanto o envelhecimento são processos adaptativos caracterizados

pela ocorrência conjunta de ganhos, perdas e manutenções das

capacidades e potenciais individuais determinados sob diferentes

fatores, pois a velhice é um momento da vida que pode ser vivida de

forma prazerosa, com satisfação e realização pessoal.

No segundo grupo, tivemos uma visão mais positiva sobre o

envelhecimento, como um processo natural e que, portanto, todos

viverão, por isso, não há o que temer. Essa visão esteve muito abarcada

pela questão do trabalho e de se sentirem ainda produtivos.

Uma das cooperadas da CooperMimo disse o seguinte: “Eu

encaro assim: que todo mundo vai passar por isso, eu penso que

todo mundo vai passar por isso, eu também vou, eu não tenho nada

assim medo da velhice, Deus dando saúde, o resto a gente corre

atrás” (Dona Eva, 55 anos, CooperMimo). Já uma cooperada da

Tatuapé salienta a questão de viver melhor no envelhecimento por

conta do trabalho: “Eu acho que minha vida agora tá muito mais

melhor do que da época que eu era mais nova, pelo menos, graças a

Deus, eu trabalho e na época que eu era mais nova, eu não

trabalhava, dependia, às vezes, de uma ajuda da minha mãe

(Dona Luci, 49 anos, Cooperativa Tatuapé).

No terceiro grupo, encontramos a representação social da

velhice como etapa que precede a morte e essa representação está

baseada no fato de que, segundo Neri e Yassuda (2004, p. 8), é

conhecimento amplamente disseminado que a velhice é a última etapa do

ciclo vital. Pelos relatos a seguir, perceberemos, de um lado, uma

visão positiva dessa etapa que é fortalecida pela produtividade e,

por outro, uma visão mais de abandono e falta de perspectivas.

A história da vida da gente é só isso aí mesmo, porque gente

sempre cada dia que passa a gente vai ficando cada vez mais velho e

chegando o dia, sempre o dia da vida da gente vai chegando pra

perto da morte (

...

)

Então, a pessoa tem que sempre conformar né.

100

Wanda Pereira Patrocinio e Patrícia Gatti

Fazer que nem, então, nesse meio tempo, a gente tem que, cada dia

que, antes de chegar, a gente tem que ir lutando até chegar o dia, não

pode esmorecer, tem que ir lutando, porque aí a gente, cada dia que

passa, cada dia que vem lutando até chegar o dia, aí esse dia que

nenhum de nós sabe, é só isso que eu falo também, e pra mim é só o

que tem que falar” (Seu Francisco, 51 anos, Cooperativa Tatuapé).

Ah, o que eu espero da vida é Deus me dar saúde, porque a

pessoa velha o que quer esperar de bondade daqui pra frente? Eu

acho ...

pessoa de idade ainda ter esperança, só se for Deus mesmo. O

que eu espero é Deus me dar saúde até o dia que ele quiser. É isso aí

(Seu Vicente, 58 anos, Cooperativa Tatuapé).

No último grupo, temos uma representação muito forte de

comparação do sentimento de ser velho e sentir-se velho, ainda mais

quando comparado ao outro; segundo Gusmão (2001), é sempre na

visão do outro que as pessoas se percebem entrando na velhice e isso

fica muito claro no depoimento de uma das cooperadas:

No começo foi mais difícil pra mim aceitar né, mas depois

de repente, eu pensei assim: Gente, eu vou envelhecer, to ficando,

pra ser mais, foi minha neta mesmo que me acordou, porque um

dia, o pessoal tem mania de falar que ela é parecida comigo né, (...)

E sabe que ela veio pra cá e ela falou assim: (

...

) eu não me acho

parecida com a senhora, ela falou. ‘E por que fia?’ Ai, eu não sei

mãe, eu não tenho isso aqui ó (se referindo às rugas da avó)” (Dona

Noemia, 66 anos, Cooperativa CooperMimo).

Como uma representação profundamente arraigada em nossas

mentes, a valorização social se dá em termos de juventude e vitalidade,

como se ser velho fosse sinônimo de decrepitude e essa comparação do

sentir-se velha e/ou jovem ou com força para viver apareceu com certa

freqüência: “Eu vou falar sinceramente, eu não me considero velha

não, em vista de muitas que eu vejo por aí mais nova do que eu, nossa,

tenho muito gás ainda, eu não me considero (

)

...

pra mim tá tudo bom,

eu quero é mais dar risada” (Dona Nena, 54 anos, Cooperativa

CooperMimo). E uma outra cooperada disse o seguinte: “Eu não tô

vendo minha vida mudar, pra mim, eu tô sempre a mesma coisa, pode

mudar as rugas aqui ó, né, mas disposição é a mesma coisa” (Dona

Terezinha, 49 anos, CooperMimo).

Na CooperMimo, ainda, foi também marcante a associação

da entrada na velhice com a chegada da menopausa.

Envelhecimento, Trabalho e Educação

101

De todos os grupos de representações aqui expostos,

percebemos que existe uma mistura entre os participantes das duas

cooperativas nos diversos tipos de representações, mas, em geral,

podemos apresentar a seguinte comparação: os cooperados e

cooperadas da Tatuapé referiram-se mais freqüentemente a

representações voltadas para a velhice como uma fase de doenças e

perdas, que podem ser modificadas pela produtividade e pelo

trabalho. De acordo com Luca (2003, p. 202), enquanto trabalha, não é

velho, independentemente da sua idade ou aparência. Já as cooperadas da

CooperMimo referiram-se com mais freqüência a representações

voltadas a uma comparação entre ser jovem, ser velho, ser ativo e ter

disposição para viver, aqui também, independentemente da idade

que se tem.

Foi praticamente unânime o desejo de viverem uma velhice

com saúde, por meio da ajuda de Deus, o que traz a questão da

religiosidade como um instrumento de força para essas pessoas

envelhecerem no mundo do trabalho.

Considerações finais

Nossa discussão mostrou a importância das cooperativas na

vida das pessoas acima de 50 anos no sentido de que lhes devolvem

o direito ao trabalho que o mercado formal lhes roubou. O Estatuto

do Idoso clama para que o velho tenha autonomia e possibilidades

de continuar uma vida de produtividade, não importa em que

âmbito de atuação. Através do trabalho, essas pessoas puderam se

sentir cidadãs à medida que utilizaram os meios da cultura popular

para criar condições de sobrevivência básica, que são o trabalho, a

moradia, a saúde e a alimentação.

O retrato socioeconômico dos trabalhadores e trabalhadoras

com idade igual ou superior a 50 anos em cooperativas populares da

cidade de Campinas apresenta dados da realidade desses

cooperados, mostrando-nos quem são essas pessoas, de onde

vieram, em qual situação econômica e social vivem; mesmo que os

resultados tenham sido de uma parcela que não corresponde à

totalidade dos grupos do município, podemos vislumbrar como é

formada a categoria das pessoas que estão envelhecendo nas

cooperativas populares estudadas.

102

Wanda Pereira Patrocinio e Patrícia Gatti

O crescimento demográfico trouxe consigo uma preocupação

crescente com relação às condições de vida dos idosos, num país em

desenvolvimento como o Brasil, onde as políticas públicas ainda são

muito precárias para a população em geral e os sistemas de saúde não

estão preparados nem respondem à demanda crescente. Se por um

lado, vislumbramos a possibilidade de viver mais anos, por outro,

convivemos com condições deficitárias de atendimento público em

saúde, pouco acesso à educação e ao mercado de trabalho.

Este estudo também mostrou que a grande maioria das

pessoas com idade igual ou superior a 50 anos nas cooperativas

populares é do sexo feminino, o que reforça a tese de que nesse

ambiente de trabalho a mulher está envelhecendo mais que o

homem, confirmando estudos gerontológicos que trazem o

envelhecimento como um processo, majoritariamente, feminino

(Camarano, 2002). Além disso, em nossa sociedade, a força de

trabalho no mercado formal ainda é do homem e, por mais que

tenha crescido o oferecimento de vagas e oportunidades para as

mulheres, estas ainda são mais discriminadas como seres

produtivos e, atrelado a isso, envelhecem mais que os homens.

Então, se elas estão envelhecendo e sendo expulsas ou não aceitas

no mercado, resta-lhes buscar trabalhos em sistemas alternativos

de produção.

Em termos de Representações Sociais como um sistema de

valores, idéias e práticas, percebemos uma dupla perspectiva. Em

um primeiro sentido, a velhice valorizada por seus aspectos físicos,

de perda da saúde, o que, na prática, pode ser amenizado pela idéia

de continuar sendo produtivo por meio do trabalho. Por outro lado,

a idéia que vigora em nossa sociedade é a de velhice como sinônimo

de inatividade e incapacidade comparada com a idéia de juventude,

que é cheia de vida e esperança.

Cabe aqui a pergunta: como mudar essas representações

sociais negativas sobre o envelhecimento?

Por tudo que já foi exposto, sabemos que a velhice, apesar de ter

características comuns nas populações, é um processo individual e

que, portanto, temos que considerar três padrões de envelhecimento:

normal, patológico e bem-sucedido. Nas representações sociais, vimos

Envelhecimento, Trabalho e Educação

103

uma predominância nas considerações de uma velhice normal, quando

podem ocorrer mudanças típicas, mas que não trazem doenças que

incapacitem as pessoas para as atividades de vida diária (Neri;

Yassuda, 2004).

Encontramos também uma perspectiva de representação

social e de avaliações da saúde percebida voltada para os aspectos

do envelhecimento patológico, em que a preocupação com doenças

incapacitantes estava bastante presente. Nesse sentido, resta-nos

ressaltar, na população das classes populares, a perspectiva de um

envelhecimento bem-sucedido, pois este ainda é pouco

vislumbrado pelas pessoas que estão perto de entrar na velhice e

que pertencem a uma classe social que pouco acesso tem a esse

conhecimento. Reconhecer e buscar novas possibilidades e

modalidades de trabalho, participação na força de trabalho e no

aprendizado continuado da população idosa são contribuições

valiosas para reduzir o risco de exclusão, dependência e melhorar as

condições de vida dessa população.

Acreditamos em uma educação para o envelhecimento, em

que a educação popular se constitui em um caminho de

emancipação das pessoas. Realizar um trabalho de educação tanto

do próprio idoso que já está na velhice quanto para os outros

(crianças, jovens, adultos) que um dia envelhecerão nos mais

variados espaços. Promover uma orientação sobre as possíveis

perdas que ocorrem com o envelhecimento humano e como

prevenir doenças incapacitantes, assim como programas

educacionais e de reeducação postural e nas variáveis sedentarismo

seja entre adultos e jovens. Acreditamos que é relevante iniciar um

trabalho de conscientização desde a educação infantil, para que as

crianças possam valorizar o velho e tenham noção, desde pequenas,

de como viver para conseguir um envelhecimento bem-sucedido.

Nessa perspectiva, ansiamos por um país que envelheça com mais

dignidade e qualidade.

104

Wanda Pereira Patrocinio e Patrícia Gatti

Referências

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CAPÍTULO 5 VELHOS, CÃES E GATOS Interpretação de uma relação Marília Anselmo Viana da Silva Berzins

CAPÍTULO 5

VELHOS, CÃES E GATOS

Interpretação de uma relação

CAPÍTULO 5 VELHOS, CÃES E GATOS Interpretação de uma relação Marília Anselmo Viana da Silva Berzins

Marília Anselmo Viana da Silva Berzins | Elisabeth Frohlich Mercadante

Sei tão pouco sobre pessoas velhas!

Vi uma velha bruxa. Olhei para a decrépita criatura e

pensei: uma bruxa (

...

)

Uma mulherzinha magra e curvada, o

nariz quase encostado no queixo, roupas negras pesadas e empoeiradas, e uma coisa muita parecida com a touca que as

mulheres usavam antigamente (

...)

Era o cheiro dela, um

cheiro doce, azedo, empoeirado. Vi as linhas da sujeira no

pescoço magro e velho, e nas mãos (

)

A casa tinha um

 

)

Entrei

com ela, meu coração apertado, meu estômago contraído por

causa do cheiro

Eu jamais vira nada igual a não ser no nosso

Arquivo de Miséria (

)

Um velho fogão a gás, engordurado e

negro, uma pia de louça branca, rachada e amarela (

)

O lugar

todo cheirava, cheirava horrivelmente (

)

no chão. Tudo muito sujo e encardido, sombrio e horrível ( ...)

Acariciava a gata o tempo todo – minha belezinha

...

afinal,

acorda com a gata ronronando e se esfregando em suas pernas

(Lessing, 1983, pp. 11-13 e 102).

Este texto é parte do livro O diário da boa vizinha que Doris

Lessing escreveu com o pseudônimo de Jane Somers. O livro

descreve uma relação de conflito e amor entre ela, uma jornalista e

uma velha senhora chamada Maudie que tinha uma íntima relação

de afeto com uma gata de estimação, sua única companhia até o

momento em que Jane entrou em sua vida para estabelecer com ela

uma relação de amizade, carinho e resgatar os valores humanos

perdidos no tempo da existência de Maudie.

110

Marília Anselmo Viana da Silva Berzins e Elisabeth Frohlich Mercadante

Neste primeiro capítulo, é apresentada uma velhice muito

semelhante à descrita nas primeiras linhas deste capítulo e muito

diferente daquela que está presente nos grupos da Terceira Idade ou das

Faculdades da Terceira Idade, retratos atuais dos velhos brasileiros.

O estudo fundamenta-se em uma perspectiva multidisciplinar

e tem como proposta a análise de uma relação muito específica que se

dá entre velhos e animais, no caso cães e gatos. O tema não se refere à

relação dos velhos com o seu animal de estimação, mas do velho (a)

com seus muitos cães e gatos, número superior a dez animais vivendo

em seus domicílios e em condições irregulares. Essas condições são

irregulares tanto para o velho quanto para os animais, uma vez que

estes animais não recebem o tratamento ideal e necessário. Agrava-se

o fato de o grande número de animais abrigados representar uma

infração de lei municipal 1 .

Os idosos depoentes desta pesquisa foram denunciados por

seus vizinhos por apresentarem irregularidades; no manejo e trato

com seus inúmeros animais de estimação. Os veterinários que

fizeram as visitas nos domicílios constataram as irregularidades,

todos foram intimados a tomar providências e alguns chegaram a

ser multados. Eis alguns motivos referidos nos processos em

relação às pessoas atendidas:

Trata-se de pessoa idosa que se descontrola facilmente.

Sugiro que a Assistente Social tente diálogo com a intimada”.

Encaminhamos o presente expediente, sendo que a

proprietária dos animais é idosa e de difícil trato e o problema com

falta de higiene na criação de cães e gatos vem causando incômodo

aos demais moradores”.

Sugiro que a Assistente Social vá ao local fazer uma visita

devido ao fato da intimada ser idosa”.

Trata-se de uma pessoa doente, idosa e difícil de se

conversar”.

Velhos, Cães e Gatos

111

À medida que o trabalho 2 era desenvolvido e as visitas

realizadas nos domicílios dos idosos, várias reflexões começaram a

nos incomodar, sobretudo aquelas em que se procurava identificar

quais os significados dos animais domésticos – gato e cachorro –

para os idosos. Importante destacar o nosso interesse em estudar a

relação que se estabelece entre o idoso e o animal doméstico, que,

neste caso, não significa o animal de estimação, tendo em vista o

número, a quantidade de gatos e cachorros com os quais esses

idosos lidam. Ultrapassa a casa dos 10, chegando em alguns casos a

mais de 50 animais.

Assustava-nos ver tantos animais com as pessoas idosas.

Inquietava-nos mais ainda verificar a intensidade da relação que

essas pessoas estabeleciam com todos aqueles animais: relações

únicas, singulares e permeadas de profundo significado. Não era

fácil compreender as respostas que eram dadas sobre os

significados dos animais para elas, principalmente esta: “eles são a

razão da minha vida”. Ao se aprofundar na entrevista, verificava

que isso era absoluta verdade. Aqueles idosos não tinham outra

razão para viver, senão os animais. Ouvia, com certa freqüência,

eles dizerem que os animais eram os “filhos deles” ou também

respostas como “os animais são melhores que os homens” e ainda

“eles me fazem companhia”. Todas essas questões fizeram-nos

refletir sobre essa forma singular de envelhecer e viver a velhice.

Pessoas com escassos ou com ausência de laços afetivos humanos e

sociais. Não há pessoas em suas vidas, somente animais. Onde

estavam os seres humanos? Desapareceram na linha do tempo e na

construção social desses sujeitos e históricos.

Este grupo de idosos se compõe na sua maioria de mulheres

solteiras ou viúvas. Elas não tiveram filhos. Residem sozinhas em

casa própria ou cedida por terceiros. Constata-se a ausência de

vínculos afetivos de família e, muitas vezes, faltam até mesmo esses

familiares. Há ainda, na condição delas, fatos como o de elas não se

relacionarem com os vizinhos e seus imóveis se encontrarem em

péssimo estado de conservação, higiene e limpeza.

112

Marília Anselmo Viana da Silva Berzins e Elisabeth Frohlich Mercadante

Fundamentação

teórico/metodológica

A discussão metodológica da pesquisa veiculada neste texto

fundamenta-se na reflexão proposta pela atual “Antropologia

Interpretativa” que provocou um impacto importante no sentido de

alterar a prática antropológica. Ela substituiu a ênfase de uma

análise antropológica tradicional do comportamento e estrutura

pelo estudo dos símbolos, significados e mentalidades. Um de seus

expoentes, Clifford Geertz, chama a atenção para as interpretações

antropológicas. Assim, na perspectiva desse autor, a Antropologia,

com um conceito semiótico de cultura, deixa de ser uma ciência

experimental na busca de leis, e passa a ser uma ciência

interpretativa à procura do significado.

Descobrir os significados implica o estabelecimento de um

contato mais próximo entre pesquisador e pesquisado e a

possibilidade de um diálogo entre os mesmos. A interpretação dos

significados que os idosos dão aos seus animais é permeada nos

seus discursos. Essas interpretações não se esgotam em si mesmas,

mas elas constituem elementos para outras que poderão surgir. Na

construção dos significados interessa-nos desvendar o processo de

construção de novas concepções simbólicas elaboradas pelos

próprios idosos.

Geertz propõe uma noção que interprete o conjunto simbólico.

Na verdade, ele quer analisar o trânsito cultural dos símbolos de uma

dada cultura. Sustenta-se Geertz em Weber, afirmando que o homem é

um animal amarrado às teias de significados tecidos por ele mesmo. A

cultura seria o conjunto dessas teias e, assim, caberia à antropologia o

estudo delas. Este conceito de cultura – interpretar significados – é

entendido como sendo um conceito semiótico.

A perspectiva proposta por Geertz é muito rica e ampliadora

das possibilidades de descoberta de novos significados. Ao afirmar

isso, certamente estamos refletindo sobre o tema da interpretação

de uma relação de “velhos e seus bichos”, questão singular e

inusitada que a partir da perspectiva de interpretação dos

significados possa ser clareada.

Velhos, Cães e Gatos

113

Os significados que a pesquisa procurou desvendar são aqueles

relativos à identidade de velho e de velhice. Interessaram-nos não só os

significados que os próprios velhos atribuem à relação com seus

animais, mas, principalmente, descobrir outros significados distintos,

ainda não revelados, que os velhos possuem a seu próprio respeito.

Voltando à fundamentação teórica sobre as propostas de

Geertz, vê-se que esse autor objetiva descobrir e interpretar e não

esgotar sua explicação em teorias já estabelecidas e que explicam a

relação entre velhos e seus muitos bichos, classificando-os como

sujeitos carentes emocionais ou os bichos como seus objetos

transacionais.

Assim, na literatura psicológica temos Nise da Silveira,

fundadora do Museu do Inconsciente e uma das primeiras

profissionais a utilizar, no Brasil, animais como co-terapeutas em

pacientes com transtornos mentais. Ela expressa o seguinte:

Parece-me merecer observação atenta a maneira como se processa o relacionamento do homem (doente ou não) com o animal. Este relacionamento reflete a problemática entre o homem, que se esforça para firmar-se na condição humana, e o animal existente nele próprio. Relacionamento difícil, de luta, sacrifício, confronto, amizade, desenvolvido ordinariamente numa trama complexa de projeções e identificações (Silveira, 1982, p. 87).

Ela continua, conceituando os animais como excelentes

catalisadores não-humanos. O cão, segundo a autora, reúne qualidades

que o fazem muito apto a se tornar um ponto de referência estável no

mundo externo. Ele nunca provoca frustrações, dá incondicional afeto

sem nada pedir em troca, traz calor e alegria. Já o gato tem um modo de

amar diferente, pois é discreto e esquivo.

Não refutamos essas avaliações psicológicas, mas, elas são

insuficientes para explicar um ser tão múltiplo e complexo como é o

homem. Esse homem não é somente um ser psicológico, é também

ao mesmo tempo cultural, social e biológico. Quando dizemos ao

mesmo tempo referimos novamente a Geertz, que chama a atenção

para o nosso pensamento que se estratifica em níveis cultural,

psicológico e biológico, como se o segundo fosse mais profundo

que o primeiro e o terceiro que o segundo. Geertz reconhece o

114

Marília Anselmo Viana da Silva Berzins e Elisabeth Frohlich Mercadante

psicológico, o cultural e o social, mas como dimensões que se

articulam e não como níveis de estratificação.

A aná lise que leva em conta níveis de estrati fi cação aponta

para um redu ci o nismo e clas si fi ca ções injus tas e estig ma ti za do ras.

Desta forma, no decor rer das con si de ra ções pos te ri o res dos suje i tos

desta pes quisa, os lei to res pode riam ir clas si fi cando esses suje i tos

como pato ló gi cos ou pro cu rar enqua drá-los em uma psi co pa to lo-

gia, prin ci pal mente por causa da sin gu la ri dade que esta rea li dade

apre senta. Não é este o nosso objetivo e torna-se neces sá rio des ti -

tuir das clas si fi cações preexistentes o que diz respeito a estes

sujeitos idosos.

Insistimos que num primeiro momento, o grupo de idosos

constante nesta pesquisa pode parecer que é caracterizado por uma

psicopatologia. Não é o caso. Gilberto Velho nos diz que:

Tradicionalmente, o indivíduo desviante tem sido encarado a partir de uma perspectiva médica preocupada em distinguir o ”são" do “não-são” ou do “insano” (Velho, 1983 p. 12).

O objetivo desta classificação seria então diagnosticar o mal

e tratá-lo, localizando o problema somente no indivíduo. Esta é uma

postura reducionista que a teoria proposta por Geertz refuta por não

considerar a vida sociocultural do indivíduo.

Num estudo quantitativo publicado recentemente nos

Estados Unidos sobre pessoas que têm um grande número de

animais, elas foram denominadas como “colecionadores de

animais” cuja definição é a seguinte:

É alguém que acumula um grande número de animais, sem proporcionar condições mínimas de nutrição, limpeza e cuidados veterinários, e falha na ação sobre a deteriorização das condições dos animais (incluindo doença, fome e até a morte) ou do ambiente (superpopulação, precaríssimas condições sanitárias) ou os efeitos negativos e prejudiciais a sua própria saúde e bem-estar, como também aos seus familiares (Patronek, 1999, p. 81).

Essa definição coincide com as características dos sujeitos

constantes nesta pesquisa. Entretanto, o estudo mencionado

classifica e enquadra os “colecionadores de animais” como sendo

Velhos, Cães e Gatos

115

dementes e portadores de uma doença mental. Não podemos nos

esquecer de que o homem é um complexo dinâmico de idéias, forças

e possibilidades. E de acordo com as suas motivações e relações de

vida e suas mudanças, ele pode fazer de si mesmo um fenômeno

diferenciado e claramente definido. Essa relativa autonomia de sua

vida é nutrida numa fonte comum de sua energia e que é difícil de

classificar. Portanto, partir do princípio de que todos os

Colecionadores de Animais são patológicos é negar a particularidade

do ser humano e o meio social onde ele está inserido.

Uma interpretação como a proposta por Geertz percebe os

símbolos como sistemas entrelaçados de signos interpretáveis.

Assim, estudar a cultura e, nosso caso específico, as interpretações

que os idosos formulam para explicar suas relações com os animais

é tentar compreender os símbolos no sentido de que eles possam ser

descritos de forma inteligível.

Segundo Geertz (1973, p. 30):

A análise cultural é (ou deveria ser) uma adivinhação dos significados, uma avaliação das conjeturas, um traçar e não a descoberta do continente dos significados e o mapeamento da sua paisagem incorpórea.

E continua afirmando que o propósito de uma análise

interpretativa permite o alongamento do discurso humano:

O que procuramos, no sentido mais amplo do termo, que compreende muito mais do que simplesmente falar, é conversar com eles (Geertz, 1973, p. 24).

Encontramos ainda na mitologia primitiva uma outra

interpretação para o relacionamento com os animais. Eles, assim como

os caçadores, foram os primeiros inspiradores da mitologia.

Estabelecia-se uma relação de respeito, reverência, submissão e

também inspiração. Quando um homem queria poder e conhecimento,

dirigia-se à floresta, jejuava e orava e um animal vinha ensiná-lo. Hoje

não é mais assim. Os animais passaram para outro estágio na relação

com o homem.

Françoise Dolto (1998, p. 338), psicanalista contemporânea,

define a relação homem-animal como sendo projeção:

116

Marília Anselmo Viana da Silva Berzins e Elisabeth Frohlich Mercadante

É porque o ser humano também tem algo dos mamíferos. Diz respeito ao domínio do homem sobre os animais. Os animais de companhia são objetos transicionais,

não entre o sujeito humano e uma pessoa exterior, mas o sujeito humano e uma parte de si mesmo, a parte não verbalizável de seus afetos. E dentro dele, o animal desempenha o papel dele em pequeno como um adulto,

adulto que o protegia

ou que o explorava. E ele é assim

... como seu animal de estimação, que ele educa e cujas pulsões recalca, como as suas foram recalcadas. O animal que ele educa e adestra para ser animal exibicionista é como ele mesmo o foi, guardadas as devidas proporções, pela educação que recebeu.

Este estudo procura também analisar o estigma social que

este grupo específico tem na comunidade onde mora e habita. O

velho em questão, além da idade e do aspecto físico, que o

caracterizam como “velho”, é também o “diferente” na rua e bairro

onde mora. A existência das diferenças, da multiplicidade de

grupos heterogêneos no interior das sociedades pode expressar que

as sociedades são complexas.

Os velhos aqui apresentados evidenciam atributos que os

tornam diferentes das outras pessoas. Eles se diferenciam pela

idade, presente na aparência física, pelas condições péssimas da sua

moradia, pela falta de higiene com que tratam seus animais e suas

casas, pelo odor desagradável que exala das dependências de suas

casas, pelo isolamento social no qual vivem e sobretudo pelo

grande número de animais que possuem. Esse conjunto de variáveis

é muito forte para os outros a tal ponto que há um rompimento com

o estigma informal, já que eles são “denunciados” ao serviço

público municipal à espera de providências.

Goffmann nos lembra que o termo estigma se originou do grego

e se referia a sinais corporais com os quais se procurava evidenciar alguma coisa extraordinária ou má sobre o status moral de quem os apresentava

(1975, p. 11). Esses mesmos sinais avisavam – aos outros – que o

portador deveria ser evitado, especialmente em lugares públicos.

Hoje, o termo se refere a um atributo profundamente depreciativo

no qual se confirma a normalidade de um e a anormalidade do outro. São

duas contraposições, em que os que são diferentes dos normais

Velhos, Cães e Gatos

117

constituem uma categoria com identidade diferente e depreciativa.

Assim, o estigma surge como um produto da relação social.

Falar da velhice é sem dúvida alguma falar de estigma. Falar

de velho com animais domésticos e de estimação reforça mais ainda

esse estigma.

Várias situações práticas confirmaram a manifestação do

estigma. Num dos casos atendidos, a senhora, que é proprietária de

animais (pombas, galo e galinhas), não deixa ninguém entrar em

sua casa. Ela mora em um prédio de apartamentos e quitinetes. O

prédio foi pintado e era necessário entrar em sua casa para fazer a

pintura externa e o acabamento. Como ela não permitiu a entrada

dos pintores, eles fizeram um X de tinta no lado externo de sua

janela. Esse sinal identifica para todos os moradores e demais

pessoas que passam pelo local que ali mora um “diferente”.

Outra situação semelhante: num prédio na região central da

cidade, um senhor, proprietário de cachorros e gatos, que é visto

como uma pessoa não muito sociável e amigável pelos seus

vizinhos do prédio. Tudo o que acontece de ruim no prédio é

atribuído, pelos outros moradores, como sendo de sua

responsabilidade. Observa-se que na parede onde está instalada sua

campainha há um círculo maior que o botão e, um pouco acima,

uma seta indicando a palavra danger (perigo). Um aviso para quem

se atrever a tocar a campainha: poderá estar mexendo com o perigo.

É um sinal, o “velho” que ali mora é perigoso ao convívio social.

Aproximar-se daquele apartamento ou dele é aproximar-se do

perigo, do desprezível e daquele que não obedece as normas de

convivência social. Torna-se necessário reafirmar que o ser velho é

a marca que se dá pela visão do outro, estigmatizado no sentido de

depreciá-lo, porque ele “é velho, velho sujo e com bichos”.

A velhice e os velhos entrevistados

A compreensão filosófica sobre a velhice que norteia este

trabalho orienta-se em Simone de Beauvoir, uma vez que suas

idéias coincidem plenamente com a velhice que encontramos nesta

pesquisa e que se apresenta como uma totalidade complexa, não

apenas do ponto de vista de um grupo de pessoas maiores de 60

anos, mas como sujeitos biopsicossociais e também seres culturais.

118

Marília Anselmo Viana da Silva Berzins e Elisabeth Frohlich Mercadante

É a própria Simone de Beauvoir (1990, p. 156) no seu estudo

sobre a velhice que assim a resume e sobre ela reflete:

É um fenômeno biológico: o organismo do homem idoso apresenta certas singularidades. Acarreta conseqüências psicológicas: determinadas condutas, que são consideradas

típicas da idade avançada. Tem uma dimensão existencial como todas as situações humanas: modifica a relação do homem no tempo e, portanto, seu relacionamento com o mundo e a própria história. Por outro lado, o homem nunca vive em estado natural: seu estatuto lhe é imposto na velhice, como em todas as idades, pela sociedade a que pertence. A complexidade da questão é devida à estreita interdependência desses pontos de vista. Sabe-se, hoje em dia, que considerar isoladamente os dados fisiológicos e os fatos psicológicos constitui uma abstração: eles são interdependentes. O que denominamos vida psíquica de um indivíduo só pode ser compreendido à luz de uma situação existencial; também esta, portanto, tem repercussões no organismo e vice-versa: o relacionamento com o tempo é sentido de maneiras diferentes, segundo esteja o corpo mais ou menos alquebrado. Finalmente, a sociedade determina o lugar e o papel do velho, levando em conta suas idiossincrasias individuais: sua importância, sua experiência, reciprocamente, o indivíduo é condicionado pela atitude prática e ideológica da sociedade a seu respeito. De modo que uma descrição analítica dos diversos aspectos da velhice não pode ser suficiente: cada um deles reage sobre todos os outros e é por ele afetado. É no movimento indefinido desta circularidade que temos de apreendê-la.

Ao apresentar a questão da velhice destacamos que diante

da complexidade que ela encena, fica claro que, ao a analisarmos,

não é possível entendê-la como algo homogêneo, como uma

situação que pudéssemos generalizar para todos os sujeitos

classificados como velhos.

A própria concepção da velhice, que estabelece relações

entre o biológico, o social, o psicológico, o cultural e o existencial

na medida em que sugere várias combinações desses elementos,

Velhos, Cães e Gatos

119

aponta também para uma diversidade, uma heterogeneidade de

vivência desse processo de envelhecimento.

Cabe aqui uma pausa para discutirmos um pouco sobre o termo

“pessoa idosa”. Messy aponta esta expressão como anônima, pois:

Designa uma categoria social, no sentido de uma corporação que agrupa os indivíduos que pertencem à mesma profissão, assim como o nome de um país serve de raiz para designar seus habitantes. Infelizmente esta composição de palavras faz desaparecer o sujeito com sua história pessoal, suas particularidades, seu caráter. A "pessoa idosa" vira um habitante da velhice (Messy, 1992, p. 18).

Deste ponto de vista, a pessoa idosa não existe, pois ela é

apenas um termo social que não tem existência humana. Ela é uma

categoria sem vida. O mesmo autor nos diz que “envelhecemos

conforme vivemos” e que a velhice aparece quando acontece uma

ruptura brutal do equilíbrio entre perdas e aquisições. Assim, tais

raciocínios nos levam a concluir que os velhos apresentados nesta

pesquisa estão sim velhos, pois houve uma ruptura com a vida, com

a esperança e com a expectativa de vida. Eles se relacionam com

animais em detrimento do relacionamento humano.

Os velhos(as) que fazem parte desta pesquisa têm mais de 60

anos e apresentam características muito peculiares de organização

de vida. São indivíduos dos quais o que ressalta é o ato de serem

sozinhos e solitários. Embora os termos possam ser muito

semelhantes, identifico algumas diferenças. O ser humano tem

necessidade do outro. Somos seres sociais e comunicarmo-nos com

os outros. Há solidão quando não há contato físico, emocional,

psíquico, afetivo ou sensorial. Sozinho não é apenas estar

desacompanhado de outro ser humano. Estar sozinho é um modo de

ser, é a experiência de uma vida no isolamento das relações, é a

ausência de um movimento interno em direção ao outro, não se

sentindo digno de estar no meio dos outros seres ou mesmo de

outros seres não serem dignos da sua companhia. Ser sozinho é o

fruto de uma solidão interior refletida na ausência do outro e que

recusa contatos de um outro interlocutor que o ouça, o aceite ou o

negue.

120

Marília Anselmo Viana da Silva Berzins e Elisabeth Frohlich Mercadante

Solitário é aquele que, mesmo vivendo num espaço comunitário

(casa, rua, bairro, cidade) e habitado por seres humanos, não se relaciona

com seus pares, continuando a viver sozinho, abandonado por todos.

Este grupo de pessoas escolheu os animais para serem seus

companheiros de vida. Eles são seus companheiros inseparáveis e

que suprem as necessidades de afeto, amor, carinho e companhia,

elementos indispensáveis à sobrevivência humana.

Estamos chamando a atenção para esses idosos, um grupo

diferente, como já relatei na introdução deste trabalho, pelo fato de

apresentarem peculiaridades. Além do estigma social da velhice que

pesa sobre seus ombros, acrescentam-se outros como serem

esquisitos”, “diferentes”, mas muito diferentes no sentido de a marca

diferencial não ser um fator positivo, que faça com que sejam

respeitados na sua diferença, mas que sejam desprezados, denunciados

como “velho estranho”, “velha esquisita”, “velha cachorreira”,

“velha gateira” ou “velha bruxa”. Se a diferença respeitada pode

incluir o sujeito na comunidade, estas marcas diferenciais dos nossos

entrevistados são claramente excludentes.

Esses velhos também sabem o que significa ser velho. Sabem

que são percebidos assim pela alteridade. Negam, porém, que sejam

velhos, pois não se sentem incapacitados fisicamente, como

veremos nas várias falas dos entrevistados em outros momentos

deste trabalho.

Claro está que eles – os entrevistados – negam a velhice.

Assim, não se sentem velhos, portanto sabem que ser velho é “só o

outro” e que são denominados como velhos pelos outros.

Diferentemente do grupo “terceira idade”, os entrevistados não se

articulam com outros do próprio segmento, vivem sozinhos, sem

contato com vizinhos, parentes e muito menos com amigos. A

diferença que aparenta uma certa fraqueza desses indivíduos é o

não desenvolvimento de vínculos sociais com outros seres

humanos.

Dessa forma, o estigma “velho” absorve esses indivíduos, e é

ressaltado com todas as suas cores e formas em uma linguagem

metafórica. Em outros termos, a marca velho, com todas as suas

características negativas e generalizadoras, classifica esses

indivíduos, negando-lhes qualquer possibilidade de defesa, no

sentido de negar as marcas, a grande classificação pejorativa.

Velhos, Cães e Gatos

121

Se até o presente momento chamamos a atenção para a força

da alteridade em relação a classificar esses indivíduos, não os

consideramos totalmente passivos, vítimas de uma força externa,

de um movimento que vem só do outro lado, da alteridade.

Claramente, há por parte dessas pessoas um movimento – presente

nas suas diversas histórias de vida – de negação do contato social

que se agrava com a idade, com o passar do tempo. Esse movimento

de negação de convívio social com seres humanos será analisado no

decorrer desta obra. Também é neste trabalho que analiso a relação

desses indivíduos com os animais – gatos e cachorros –,

substituindo ou não os vínculos humanos.

Campo de pesquisa

A pesquisa foi desenvolvida no Centro de Controle de

Zoonoses (CCZ) no período de 1997 a 2000, período que

correspondeu ao desenvolvimento das atividades profissionais da

pesquisadora, na função de Assistente Social. O CCZ é certamente

uma das instituições públicas que carrega um significado muito

negativo perante a população paulistana. Os munícipes desconhecem

ou ignoram a função de saúde pública e a associam apenas à

carrocinha. A instituição está associada à morte, ao sacrifício de

animais e ao mesmo tempo à maldade e crueldade humanas.

A instituição recebe constantemente cartas de pessoas

manifestando o horror que sentem por ela. Esses manifestos se dão

principalmente quando são veiculadas reportagens sobre o serviço

de apreensão dos animais. Percebe-se nesses documentos o

desconhecimento pelo serviço e, sobretudo, a revolta que as

pessoas sentem pelo trabalho da “tão famigerada carrocinha,

como é popularmente conhecido o veículo de apreensão dos

animais. Uma estudante de 23 anos escreveu uma carta endereçada

à instituição, manifestando o seu protesto pela atuação da

carrocinha. Eis alguns trechos da sua carta:

Fiquei impressionada com tanta maldade. O caminho que

vocês encontraram para garantir a segurança da população é

muito cruel, eu realmente desconhecia que poderia haver pessoas e

122

Marília Anselmo Viana da Silva Berzins e Elisabeth Frohlich Mercadante

métodos tão maquiavélicos para se livrar de uma animal, que

apesar de ser um animal é um ser vivo e merece respeito.

O nome da instituição era freqüentemente associado a um

campo de concentração e à prisão.

...

Não importa se choram a noite toda por estarem aos

montes e de qualquer maneira em jaulas como se fossem

criminosos, o que importa é que choram, um choro triste, uma

melodia deprimente que pode durar até três dias, pois este é o prazo

de vida concedido para aquele que é tirado de sua liberdade e que

não tem um dono para ir buscá-lo.

São sentimentos e valores de vida e morte, amor e ódio, prisão e

liberdade que permeiam a ação dos serviços prestados pela instituição.

Uma breve análise da relação homem-animal

O animal, desde os primórdios, ocupou lugar de destaque na

humanidade. Ele teve uma complexa participação na vida do

homem primitivo, deixando marcas profundas na consciência da

humanidade. Em quase todas as religiões, há resquícios de velhos

cultos, mitos e lendas, traduzindo o íntimo relacionamento do

homem com o animal.

Iniciando-se na pré-história, os animais eram transformados

em forças do bem e do mal; as primeiras eram veneradas e as do mal,

temidas. O relacionamento caracterizou-se por diversas fases

confusas, de respeito, adoração, horror e perseguição. Dos

caçadores pré-históricos até os egípcios, exerceram papéis de

totens, símbolos, emblemas ou seres sagrados.

Esse conceito foi quebrado quando se colocou a espécie

humana acima de todas as outras, inaugurando o antropocentrismo. O

homem ocupava o topo da criação e todos os demais seres viventes a

escala inferior. Esse pensamento prevaleceu até o século XVIII e início

do século XIX. O progresso da ciência através da astronomia,

botânica, biologia e zoologia trouxe grandes contribuições para a

quebra desse paradigma, chegando-se à conclusão de que a Terra e as

Velhos, Cães e Gatos

123

espécies que nela viviam não foram criadas em benefício da

humanidade, mas tinham história independente do homem.

Houve momentos na história relacional homem-animal em

que estas relações com os animais domésticos foram mais estreitas.

Não podemos esquecerque o número de animais era bem menor do

que existe hoje, decorrente do tipo de vida doméstica, vivendo mais

próximo do ser humano.

No início do período moderno (século XVII), os animais

estavam por toda a parte. Eles eram considerados como indivíduos.

Por serem poucos, os donos estabeleciam um contato íntimo com

seu rebanho, chegando mesmo a nomeá-los, alguns até com nomes

humanos.

O cão sempre foi o privilegiado de todos os animais na

interação com o homem. Havia muitos cães nas propriedades dos

tempos modernos. Ele exercia várias funções, destacando-se como

principal a de guarda da propriedade. Além da guarda, eles puxavam

pequenas carroças, trenós, acompanhavam tropeiros, agricultores,

pastores e açougueiros. Eram assim considerados cães de utilidade.

No século XVIII, o cão já era conhecido como o “mais

inteligente de todos os quadrúpedes conhecidos” e louvado como

“o servo mais fidedigno e a companhia mais humilde do homem”.

Diferente dos cães, os gatos demoraram um tempo maior

para subir na escala de afeto humano. Na Idade Média, eles eram

criados apenas para combater ratos e camundongos. Alguns donos

não davam comida para que eles mesmos tivessem razões para a

caça. Os gatos também eram acusados de serem os responsáveis por

alergias e causadores de problemas respiratórios.

Eles eram ainda apreciados para tortura Keith Thomas

conta que:

Durante as procissões de queima do papa realizadas durante o reinado de Carlos II, era costume encher as efígies com gatos vivos, de maneira que seus gritos pudessem aumentar o efeito dramático (Thomas, 1989, p. 132).

Foi no século XVIII que os gatos começa ram a ser reco nhe ci -

dos como anim ais de estim ação, conso li dando sua posição como cria -

tura a ser mimada e afa gada por seu compa nhe i rismo. Uma das razões

124

Marília Anselmo Viana da Silva Berzins e Elisabeth Frohlich Mercadante

para essa condição foi a evolu ção do asseio doméstico, associ ado ao

gato como sendo o anim al mais limpo.

Por volta de 1700, a humanidade já dava sinais de obsessão aos

animais domésticos. Em muitas casas eles eram mais bem alimentados

que os serviçais. Assim se referiu Thomas aos animais:

Como enfeites, traziam anéis, plumas e sinos e vieram a tornar-se presença constante em retratos de família em grupo, geralmente simbolizando a fidelidade, a domesticidade e a integridade, embora às vezes (o caso dos cães), também uma irreverência maliciosa (Thomas, 1989, p. 141).

A morte de um animal doméstico e de estimação causava

profundos abalos. Em alguns casos, os restos mortais recebiam

túmulos e sepulturas, com direito a funerais.

Os animais de estimação proporcionavam companhia aos

solitários, alívio aos fatigados e compensação aos que não tinham

filhos, pois manifestavam aquelas virtudes que os humanos com

tanta freqüência mostravam não ter e serviam de modelo para os

empregados domésticos.

Hoje, nossa sociedade vem cada vez mais dando um lugar

especial aos animais domésticos. A professora Mary Del Priore

resumiu esta realidade em sua coluna no Suplemento Feminino do

Estado de S. Paulo do dia 23 de agosto de 1998. Eis o que ela nos diz:

Muitas vezes ter cachorro ou gato pode, também, funcionar como derivativo para a solidão e a insegurança. A necessidade de autoridade, de dominação, de apropriação, bem como a angústia, agressividade, a riqueza de uma vida excessivamente interiorizada ou a timidez e dificuldade de comunicação, as frustrações afetivas ou sexuais de um casal desunido, separado, ou sem crianças, a velhice em que as pessoas se sentem abandonadas pelos filhos, o narcisismo, mas também as tensões sociais e profissionais, todas essas motivações geradoras de desequilíbrio podem levar à aquisição de um cachorro ou gato, responsabilizado, em alguns casos, por comportamentos anti-sociais (Priore, 1998, p. 2).

Os animais de estimação estão cada vez mais presentes na

sociedade atual. O jornalista Gilberto Dimenstein, da Folha de S.

Velhos, Cães e Gatos

125

Paulo, assim resumiu a necessidade que o homem moderno tem

hoje com respeito aos seus animais de estimação:

Psicólogos detectam que cada vez mais o animal de estimação é tratado como se fosse um membro da família, cuja morte provoca a mesma comoção reservada aos

humanos...

O animal de estimação seria o amigo ou parente

ideal: dá afeto incondicional e não questiona as ordens

recebidas (Dimenstein, 1997, p. 24).

Ele conclui dizendo que:

o culto ao animal de estimação, substituindo o contato humano, é uma doença social (Dimenstein, 1997, p. 24).

Essa “doença social” estaria vinculada à versão tecnológica,

que nos leva a nos comunicarmos a qualquer hora com qualquer

pessoa do planeta. O que torna as relações humanas difíceis é “falar

com o vizinho ou conviver com os familiares, por isso é mais fácil a

convivência com o animal de estimação.”

Análise interpretativa dos significados do animal para os idosos entrevistados

A seguir, os sujeitos da pesquisa se apropriam do processo

interpretativo, se revelam e interpretam os significados dos animais

em suas vidas. Um significado não é único e nem solto, mas é

contextualizado e referendado pelo trânsito simbólico. Na medida

do necessário, as falas são reorganizadas e os códigos simbólicos

decifrados, partindo em seguida para uma interpretação de segunda

mão, indo ao encontro da opção metodológica adotada e sugerida

por Geertz e já apontada anteriormente.

O significado não se explica por ele mesmo, ele não é algo solto,

encontra-se contextualizado e é parte integrante de um conjunto que

contém outros símbolos que encontram-se em movimento. Isso aponta

para um trânsito simbólico. Para a interpretação que nos propomos

realizar, as falas dos entrevistados se apresentam como a

matéria-prima e assim são reorganizadas a partir da metodologia que

indica como fundamental o deciframento dos códigos. Reafirmamos

que a fala dos sujeitos idosos é a fonte das informações e interpretações

126

Marília Anselmo Viana da Silva Berzins e Elisabeth Frohlich Mercadante

que esses sujeitos culturais têm de si mesmos, dos outros seres

humanos, das relações sociais e de seus animais.

Recorremos ainda a outras fontes que não são os depoimentos

formais. Essas fontes, diversas e informais, incluem falas recolhidas por

meio da prática profissional diária e também de material coletado de

jornais, revistas, filmes e outros.

Os idosos da pesquisa são designados por siglas. A primeira

letra da sigla identifica a letra inicial do primeiro nome da pessoa. As

letras seguintes identificam a espécie animal que a pessoa tem em casa

e com a qual se relaciona. Assim, a letra C identificará o Cão como o

animal escolhido e a letra G, que o animal presente na casa é o Gato.

Nos casos em que a pessoa se relaciona com as duas espécies as letras

serão CG, respectivamente, Cão e Gato. Optamos por associar a

pessoa ao tipo de animal para que se evidenciem as diferenças e

semelhanças que se apresentam na relação estabelecida com o tipo do

animal eleito. As siglas estão sempre entre parênteses no final da fala.