A vingança da fantasia

APESAR DO DESPREZO declarado da presidente Dilma Rousseff pela ―fantasia‖, as energias renováveis tiveram um crescimento de 15% no Brasil somente entre 2010 e 2011, colocando o país entre as dez nações que mais investiram nessas energias no ano passado. E, ah! Não estamos falando aqui de grandes hidrelétricas, que o governo brasileiro insiste em chamar de energia renovável: na definição do relatório ―Who’s Winning the Clean Energy Race?‖, publicado ontem pela organização americana Pew Charitable Trusts, só contam como renováveis as ―fantasiosas‖ eólica, solar, biomassa, lixo e pequenas hidrelétricas. Considerando o período entre 2006 e 2011, justamente quando os ventos entraram para valer na matriz brasileira, o país foi o terceiro do G20 com maior aumento na capacidade instalada — 49%, atrás apenas de China e Turquia, que quase duplicaram sua capacidade. O crescimento brasileiro foi puxado pela eólica, que ultrapassou em 2011 a barreira do 1 gigawatt instalado, e pela biomassa (1,9 gigawatt instalado em 2011), na qual o Brasil se tornou líder mundial. Há dois jeitos de olhar esses números, já que o país está exatamente no meio do ranking. Para os adeptos do copo meio cheio, as cifras sozinhas bastarão. Com US$ 8 bilhões investidos em renováveis em 2011, o Brasil passou a França (US$ 5 bilhões) e passou em muito a pequena Coreia (US$ 333 milhões), tida e havida como modelo a seguir em economia verde (corretamente, aliás, como pretendo explicar num post um dia desses). Os adeptos do copo meio vazio repararão nos US$ 45 bilhões e os US$ 48 bilhões investidos em renováveis por China e Estados, segundo e primeiro lugar na corrida rumo às renováveis, respectivamente. Repararão também que a França tem 2,7 gigawatts instalados de energia solar, mais do que o dobro do que o Brasil tem em eólica. A energia solar, renovável que mais cresce no planeta — 44% de aumento nos investimentos em 2011 e capacidade instalada decuplicada em 2011 em relação a 2007 –, nem sequer figura na matriz brasileira, por motivos descritos no post anterior. Notarão, enfim, que nós terminamos o ano passado na vexaminosa posição de importador de etanol, graças a problemas de safra, sim, mas também aos subsídios malucos que o governo dá à gasolina. Fato é que energia limpa virou ―mainstream‖ no mundo dos negócios, girando US$ 263 bilhões em 2011. Os renováveis estão longe de atacar de forma significativa a mudança climática, mas são uma ideia que ―pegou‖, em não pouca medida graças ao vilipendiado Protocolo de Kyoto, inútil para conter o aquecimento global, mas crucial para dar os sinais certos para o mercado. Muito disso aconteceu, vejam só, por causa dos incentivos dos pacotes de recuperação econômica dos países mais afetados pela crise de 2008, como os EUA (palmas para o Brasil aqui, que não teve pacote e ainda assim cresceu sua fatia de renováveis). Barack Obama — que, aliás, provavelmente não virá à Rio +20, como me informou minha colega Luciana Coelho – não é bobo e sabe que investir em renováveis significa gerar empregos e produção de alto valor agregado em seu país. Não é à toa que botou no Departamento de Energia um Prêmio Nobel de Física, cuja palavra de ordem é ―inovação‖ (fico imaginando qual seria a palavra de ordem do nosso ministro Edison Lobão). Ainda ontem fiquei sabendo que a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) votará na semana que vem uma resolução determinando, pela primeira vez, que as distribuidoras de energia abram suas redes para painéis solares fotovoltaicos instalados em residências e indústrias (que poderão trocar energia com a rede) e cortando algumas tarifas para o setor. Bravo, Aneel. Mas o incentivo é pouco e vem tarde. Se o Brasil tivesse dado alguma bola para uma lei de estímulo a energias renováveis que coxeia há sete anos no Congresso, talvez pudéssemos hoje estar produzindo painéis solares com tecnologia nacional (já que silício nós temos para dar e vender — barato) capazes de competir nesse mercado (de US$ 128 bilhões em 2011). Mas, como sempre acontece por aqui, sempre que sobram recursos naturais, falta fantasia.

Fonte: Blog ―Entre Colchetes‖, Folha de São Paulo, de 12 de abril de 2012. Disponível em http://entrecolchetes.blogfolha.uol.com.br/

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