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A opinião de Denise Frossard

ENTREVISTA

A opinião de Denise Frossard ENTREVISTA A juíza Denise Frossard, atualmente deputada federal, ganhou reconhecimento

A juíza Denise Frossard, atualmente deputada federal, ganhou reconhecimento nacional por suas decisões firmes em favor da justiça. A mais famosa foi a sentença de prisão (1993) para os 14

homens que, com a fachada do jogo do bicho, operavam uma estrutura criminosa com alto poder de influência política. Se para muitos a determinação pareceu ousada, para ela nada mais foi do que o cumprimento de um dever profissional. “Era a única decisão possível diante do que havia nos autos”, afirma. “Nada de paixão por aventuras. Trago os meus pés no chão, sou muito racional.” Seu prestígio foi comprovado quando se candidatou ao Senado, em 1998: sem fundos de cam- panha, recebeu mais de 600 mil votos. Isso mudou definitivamente os rumos de sua trajetória profissional. Na eleição para a Câmara Federal, em 2002, foi a deputada mais votada no esta- do do Rio de Janeiro e a mulher mais votada no Brasil.

A seu ver, quais são os

problemas de base mais gra- ves, que emperram o desen- volvimento do Brasil? Um problema é central e razão de todos os outros: o Estado Bra- sileiro não cumpre as funções que, por definição universal, cabem ao Estado. Daí a cruel desigualdade social, a corrupção e a criminalida- de recorrente. O Estado Brasileiro

está voltado para atender aos parti- dos, às composições e aos interes- ses políticos, deixando de cumprir uma função fundamental, que é atender ao interesse público.

O que poderia reverter

essa situação? Fazer com que as instituições do Estado Brasileiro se libertem dos interesses partidários. Precisamos recuperar nossos instrumentos pú- blicos, para que eles cumpram um papel que não podem delegar: o de indutores do processo de recupera- ção do País. Um passo importante é criar condições ideais de transpa- rência.Ao jogar luz sobre o ambien- te público, a sociedade terá conhe- cimento de como operam as insti- tuições e saberá fazer o resto pela cobrança permanente. Outro ponto a rever: a estrutura legal que supor- ta o processo político-eleitoral, democratizando os partidos para que a sociedade tenha oportunida- de de participar mais das decisões

e, conseqüentemente, da definição dos candidatos. Com essa providên- cia, se abrirá o espaço político ao interesse geral e, com certeza, tere- mos nomes melhores a disputar as eleições. Como analisaria os diversos aspectos que envolvem a ques- tão da impunidade no País? Há um só aspecto, e bastante claro: a ineficiência do Estado para punir, porque os processos legais são permeáveis às protelações jurí- dicas. O criminoso sabe que, com um bom advogado, ele empurra a possibilidade de punição por uma

eternidade. Ineficiência do Estado também para investigar. Os nossos instrumentos de investigação são frágeis, e isso impede que os inqué- ritos e processos sejam eficientes no punir. Há também um problema de conscientização social – não são poucos os casos de crimes de cor- rupção perdoados pela sociedade com a chancela das urnas. É por isso que alguns fogem do processo legal pela renúncia aos mandatos:

eles confiam que nas urnas irão recuperá-los e, de fato, têm conse- guido isso. A implicação é a preva- lência do crime e do cinismo. Nestes tempos de CPMI, é fácil ver o resul- tado da impunidade. O que levou o consumo de drogas a assumir uma propor- ção tão grande entre os jovens?

A mudança de paradigmas. Isso fez com que os pais não soubessem mais como lidar com os filhos. A família se desestruturou e se desa- gregou a partir disso, e a sociedade não estava preparada para lidar com uma situação criada por ela mesma. Esse novo desenho tirou

um freio social: a função da família como um núcleo. Outro paradigma

é o do emprego. O conceito cedeu

lugar ao de trabalho, mas no cére- bro, no nosso eixo de decisões pes-

soais, ainda estava presente a idéia de que a falta de emprego formal é uma comprovação de inferioridade. Muita gente, ao não saber lidar com tudo isso, fugiu para as drogas. E, por fim, há o sentido de desordem, de desarmonia. Veja que

o mundo, se considerados os para-

digmas de antes, está na mais abso- luta desordem, e algumas cabeças se perdem nesse emaranhado.Ago- ra, há um ponto a se considerar: o consumo de álcool que, visivelmen- te, cresce entre os jovens, gerando a perda de excelentes cabeças e de vidas em acidentes de trânsito e atos de violência. Qualquer festinha de adolescentes, hoje, é regada a muito álcool. O alcoolismo vem substituindo o vício com as drogas. Quais seriam os caminhos mais eficazes para combater a disseminação das drogas e a violência gerada por ela?

É uma pergunta de difícil res- posta. Há os que advogam a libe- ração, porque resultaria em menos violência. Mas isso bate de frente com o caso do alcoolismo. O álcool está liberado e, no entanto, o seu consumo por jovens é preo- cupante. Não é fácil ver um pai e uma mãe se drogando com os filhos na frente de uma TV ou nos

encontros de férias e nos almoços de domingo. Já bebendo uma cer- vejinha, uma dose de uísque, um vinho a mais é coisa bem normal, aceita culturalmente. Eu continuo advogando uma saída que me parece mais lógica. Ora, se o consumo de drogas é uma resposta dos jovens a uma situação social desconfortável, o caminho

para reduzir o consumo seria resol- ver os problemas originais. Acredito que quando os novos paradigmas se assentarem na cabeça, o consu- mo de drogas entre os jovens começará a cair. É o que eu chamo de formação de uma mentalidade não consumidora. Como enfrentar o poder cada vez maior dos traficantes? Estes são homicidas. Volto à questão central: precisamos de um Estado que tenha autoridade e objetivos claros em favor da socie- dade. Recuperada a autoridade, passa-se a cuidar do problema a partir de suas causas. O poder dos

LIVRARIA CULTURA NEWS - Janeiro 2006 Publicação interna da Livraria Cultura Direção geral: Pedro Herz
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    VITRINE   traficantes não está nas drogas que vendem, mas no armamento que
   
    VITRINE  

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traficantes não está nas drogas que vendem, mas no armamento que possuem e no poder de captura das instituições públicas (leia-se: cor- rupção), principalmente da polícia. Os governos estão imobilizados diante dos traficantes porque, com

das leis. Há a questão dos costu- mes. Nosso corpo de juízes, com belas exceções, ainda está arraiga- do a costumes antigos, distanciado do cidadão. Prova disso é a lingua- gem de comunicação que utiliza. Veja que coisa confusa é ler uma sentença ou um despacho! A popu- lação, por vezes, não consegue compreender a linguagem dos tri- bunais, e isso produz insegurança jurídica. Mas o ruim está se tornan- do um pouco melhor graças ao pro- cesso de recuperação dos princípios básicos de cidadania.

Qual a sua projeção para o Brasil na próxima década? Faço a projeção de melhora significativa, porque percebo que a sociedade brasileira está recu- perando a capacidade crítica. Há em andamento um processo de conscientização, a compreensão de que não podemos mais deixar que outros tracem o nosso cami- nho – esta é uma obrigação nos- sa, indelegável. O que mais contribui para esse processo? O criar consciência sobre um fato ou uma situação é um acumu- lar de informações e de formulações sobre elas. Isso não se dá num esta- lar de dedos, como num passe de mágica, mas a partir da experiência vivida, da troca de informações, do debate, do ouvir, do falar, do ler. Considero a leitura fundamen-

 
vivida, da troca de informações, do debate, do ouvir, do falar, do ler. Considero a leitura

CARMEN

Ruy Castro

O

autor narra com riqueza de detalhes a

 

trajetória de Carmen Miranda, a brasi- leira mais famosa do século 20. Mes-

clando intimidade e vida pública, a bio- grafia enfoca desde seu nascimento numa aldeia em Portugal (e vinda ao Rio de Janeiro, com 10 meses de idade) até

dinheiro, eles imobilizam a polícia e, com as armas que a polícia lhes for- nece, implantam o medo para impedir uma ação mais dura e efi- ciente. Então, vamos à solução:

recupera-se o princípio da autorida-

consagração internacional e a morte em Beverly Hills, aos 46 anos.

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de, reforma-se a relação da polícia

com o crime, recupera-se a confian-

ça da sociedade pela reversão das

expectativas e, por fim, freia-se o poder dos traficantes. Na sua visão, quais os prin- cípios éticos que deveriam prevalecer entre os cidadãos? Existe um único princípio ético que deve reger as relações huma- nas: faça aos outros o que você espera que façam a você. Você gosta de ser roubado? Se não, então não roube. Você acha justo passar fome porque o governo cuida mal dos impostos? Então, quando for governo, cuide melhor dos impostos. É agradável não dor- mir enquanto um filho não chega em casa, simplesmente porque quem poderia dar segurança a ele prefere gastar o dinheiro público com campanhas eleitorais? Então, quando você puder dar segurança aos filhos dos outros, não deixe de

dar. É um único princípio, sem muita

 

EU RECEBERIA AS PIORES NOTÍCIAS DOS SEUS LINDOS LÁBIOS

Marçal Aquino

Numa pequena cidade do Pará, repleta de garimpeiros, comerciantes inescrupulosos, prostitutas e assassinos de aluguel, o fotó- grafo Cauby está convalescendo de um trauma quando se envolve com Lavínia, a misteriosa e sedutora mulher de um pastor evangélico.

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John Dunning

Mais de uma década depois de estrear no premiado romance Edições perigosas, o ex-policial Cliff Janeway está de volta. Ele recebe a visita de uma velha senhora que lhe pede algo impossível: recuperar uma coleção de livros raros do famoso explora- dor inglês Richard Burton, roubada 80 anos antes.

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QUASE TUDO

 

Danuza Leão

 
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Em suas memórias, a autora fala de seus romances e de suas dores, das pessoas com as quais conviveu, das patotas do Rio, de sua carreira diversificada até se tornar cronista. Não faltam histórias engraçadas da sociedade parisiense, episódios inusita- dos e também um gran finale. Sem dar receitas, uma enorme lição de vida.

e bastante antigo:

está no Sermão da Montanha, dito por Jesus Cristo. O que pensa da atuação da Justiça no País? Ruim, e nisso está, de certa forma, a minha decisão pela políti- ca. Deixei o Judiciário ao verificar que as leis que eu aplicava não con- feriam justiça, mas disseminavam a injustiça. É necessário mudar a qua- lidade das leis que o Congresso e o

firula filosófica

tal nesse processo. Algumas sugestões: os cartuns do Henfil

um dos bons é Graúna ataca outra vez – ; Desenvolvimento como liberdade, de Amartya Sen; O que é democracia, de Alain Touraine; Escute Zé-Nin- guém!, de Wilhelm Reich; A sociedade contra o social, de Renato Janine Ribeiro; e, principal-

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SILÊNCIO DA CHUVA

 

mente, os clássicos de Norberto

Luiz Alfredo Garcia-Roza

 

Bobbio e Os donos do poder, de Raymundo Faoro, sem dispen-

Neste romance de estréia de Luiz Alfredo Garcia-Roza, um executivo é encontrado morto, sentado ao volante do próprio carro, num edifício-garagem no centro do Rio de Janeiro. Além de um único tiro, não há outros sinais de violência. Quem vai solu- cionar este caso, sem pistas ou testemu- nhas, é o detetive Espinosa.

 

Poder Executivo fabricam; eles, sim, podem fazer justiça. E essa preocu- pação tem pontuado a minha atua- ção na Câmara, principalmente na Comissão de Constituição e Justiça.

sar ainda Paulo Freire, em especial

Pedagogia do oprimido, para

uma reflexão mais profunda. São obras feitas em linguagem e com- plexidade diferentes, que podem

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construir conceitos e ajudar na conscientização política.

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