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Corporação Barrington 5 – Patrícia e Sam – Aviso de Amor – Bianca

Duplo 711

Aviso de Amor
Vivian Leiber

Romances Nova Cultural


Boletim da Corporação Barrington,
Volume 1 nº 5
Maio de 1999

Resumo:
Não podemos acreditar que o bonitão Sam Wainwright esteja se acomodando. E se
casando com sua fiel assistente, Patrícia Peel. Embora fontes nos digam que essa
estranha união começou por conveniência, amigos próximos dizem que o casamento pode
verdadeiramente estar baseado em razões do coração.
Será que ninguém mais além de mim está imaginando o que Mike, o homem do setor de
correspondências, discutia com o presidente Rex Barrington II na festa de aposentadoria
de Rex? Pareciam estranhamente camaradas. Vocês acham que Mike sabe de algum
segredo sobre o seu misterioso filho, “Rex III” e estava falando justamente isto para Rex II?
E por falar em “Rex III” ... não digam nada a ninguém, mas Sophia Sheperd tem escrito
secretamente as palavras “sra. Rex Michael Barrington III” em seu caderno de anotações.
Parece que está determinada a casar-se com “Rex III”... Afinal, todas suas amigas estão se
casando com seus chefes. Será que ela se tornará a próxima noiva do escritório?

***
Eu, Patrícia Peel, concordo em casar-me temporariamente com meu charmoso e sensual
chefe, San Wainwright. Prometo fingir ser uma noiva amorosa para ajudá-lo a satisfazer o
presidente da companhia, que está determinado a vê-lo casado. Nosso casamento deverá
ser estritamente fictício, a menos, que nos apaixonemos.

CAPITULO I
Outras mulheres fizeram. Até mesmo bradaram a respeito, orgulhosas. Uma reportagem
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publicada no jornal Arizona Republic, na semana anterior, mostrava que sessenta por
cento das mulheres havia feito ao menos uma vez. Em alguns casos, até duas.
Artigos de uma revista nacional procuravam ensinar passo a passo aquela "arte". Na era
moderna, de acordo com o artigo que Patrícia lera após ir para casa, uma mulher que não
fazia isso era definitivamente antiquada, tola ou tinha problemas de auto-estima.
— Tola — concordou Patrícia.
Outras mulheres convidavam homens para sair. Outras mulheres até mesmo propunham
casamento. Outras mulheres... bem, outras mulheres faziam muitas outras coisas que
Patrícia Peel não fazia.
Mas faria naquela manhã.
Colocou uma mecha de cabelos louros atrás da orelha e passou as mãos pelos quadris, na
tentativa de não roer as unhas.
— Sam, não aprovo casos — disse, o queixo erguido para enfatizar a sentença. — Casos
parecem vulgares. Escolha uma nova palavra. Nenhum de nós aprova relacionamentos
românticos entre pessoas que trabalham juntas. Especialmente quando o homem está em
posição de poder em relação à mulher. Fomos a um seminário sobre isso em Washington,
lembra-se? Ministrado por aquela moça do governo. Aquela com cabelos longos.
"Não saia pela tangente!", advertiu-se.
Ela e Sam haviam rido durante dias por causa do tamanho do penteado daquela mulher. E
mencionado que o seminário apenas provocaria outra roda de piadas. Era preciso começar
novamente.
Afastou os cabelos do rosto e tentou controlá-los em um asseado rabo-de-cavalo. Ajeitou
as flores de seda no vaso sobre a escrivaninha tão precisamente quanto estavam cons-
truídos os cinco andares da Corporação Barrington no deserto Sonoran, nas cercanias de
Phoenix.
Aprumou-se e ajeitou o terninho acinzentado de modelo conservador. Era quente demais
para aquele escritório, apesar do ar condicionado e de ser apenas o princípio da manhã. —
Sam, amo você desde que aceitei este emprego, seis meses atrás — disse ela,
imaginando que uma aproximação direta e simples fosse melhor. — Foi por sua causa que
aceitei este emprego. Quando me entrevistou, impressionou-me tanto que não pude parar
de pensar em você. Eu tinha aquela oferta em St. Louis mas não a quis porque... Bem,
apenas porque fiquei encantada com seu jeito. Tenho mantido meus sentimentos ocultos já
que você é, quero dizer, era, noivo. Ao menos foi o que ouvi.
Colocou a mão na testa. Por que não podia fazer aquilo direito? — O que pretendo dizer é
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que todos sabemos que você é noivo. Era. E não me interprete mal. Melissa é uma mulher
maravilhosa.
Mordeu o lábio diante da mentira. Nas poucas vezes em que Melissa fora à Corporação
Barrington, agira de maneira nada cordial.
Patrícia não gostava de ter pensamentos maldosos. Ficava imaginando também quanto de
seu julgamento estaria intensificado pelo... ciúme. Mas agora as fofocas da empresa eram
inequívocas: Melissa e Sam haviam rompido o noivado. Sam era vice-presidente de
recursos humanos da Barrington e, oficialmente, chefe de Patrícia. Era também um homem
descompromissado. Uma situação que, dado o interesse que despertava nas mulheres,
duraria pouco tempo.
De fato, Patrícia não teria ficado surpresa se ao chegar ao trabalho naquela manhã
descobrisse uma fila de lindas mulheres no saguão, diante da sala de Sam.
Por isso tudo, se tivesse uma chance com o chefe, agiria. Era agora ou nunca.
— Lamento por você e Melissa terem rompido — prosseguiu Patrícia. Oh, era outra
mentira. E das ruins.
Olhou para o relógio de pulso. Passava das nove horas. Pegou os papéis sobre a
escrivaninha. Quinze currículos de estudantes graduando-se nas melhores escolas. Fora
ideia sua recrutá-los em uma praia do sul da Flórida durante o feriado de primavera.
Sam ficara animadíssimo. Era uma ótima maneira de analisar os candidatos em uma
atmosfera relaxada e amigável. Haviam feito reservas que coincidissem com os feriados de
primavera das maiores universidades estaduais.
Patrícia e Sam haviam sido inseparáveis. Passaram seus dias na praia conversando com
estudantes e distribuindo brochuras sobre a corporação, nas quais eram expostos os
generosos pacotes de benefícios oferecidos aos funcionários.
Passaram as noites nos melhores restaurantes de Fort Lauderdale, avaliando os currículos
dos candidatos. E, nos intervalos do trabalho, divertiram-se. Certa tarde, assistiram a um
espetáculo na boate do hotel. E foram regularmente à quadra de basquete do parque local.
Patrícia até se esquecera de que ele era noivo. Obviamente, via-a apenas como uma
colega. Não como mulher.
Voltara para casa com quinze sólidos candidatos a emprego, queimada de sol, por causa
do único dia em que se esqueceu de aplicar protetor solar, e uma terrível sensação de que
a melhor semana de sua vida se fora.
Embora sua pele tivesse retornado ao tom pálido, nada no decorrer das últimas três
semanas mudara-lhe a convicção de que um sonho havia chegado ao fim.
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Levantou-se e caminhou até a porta fechada de sua sala.
— Sam, lembra-se de quando fomos ao Pequena Havana Nightclub e tomamos gim? As
garotas do espetáculo vestiam somente penas e pedras. Bem, quero voltar lá, mas não por
questões profissionais.
Patrícia fez sinal negativo com a cabeça. Não funcionaria. Não era uma mulher confiante e
assertiva, capaz de convidar um homem para sair. Talvez fosse covarde.
Havia coisas que algumas pessoas considerariam difíceis, mas que ela fazia sem muita
ansiedade. Encontrar-se com o ministro francês aos doze anos, estar perto da rainha da
Bélgica aos quatorze e conversar brevemente com presidente da Libéria quando seus pais
estavam na África.
O problema era convidar um homem para sair. Isso era difícil.
_ Tenho ingressos para o jogo de basquete — disse, as palavras saindo com a rapidez
desconcertante dos inseguros.
- Dois. Você gostaria de ir comigo?
Também não daria certo. Sempre iam a jogos de basquete juntos. Ele não teria a ideia
errada, ou melhor, correta. De fato, ninguém que os vira juntos no ultimo ano e meio em
festas, jogos e museus, jamais tivera a ideia "errada".
E esse era justamente o problema.
Patrícia alisou a saia que ia até os joelhos e saiu da sala. Estava atrasada e ele gostaria de
saber qual o motivo. Não que fosse desaprovar sua atitude. Apenas gostaria de saber, já
que Patrícia sempre fora muito pontual.
- Sam, eu apenas queria lhe dizer que gosto de você.
Bem, era claro. Eram amigos e colegas de trabalho.
- Eu gosto de você... mas não como amigo.
Também não soava adequado.
Parou no corredor. As paredes pintadas de azul, para deixar o ambiente tranquilo, não
faziam efeito Ergueu a mão para bater levemente à porta do chefe, antes de entrar.
- Se você não sente o mesmo por mim, sem problemas. Não afetará nosso relacionamento
profissional. Mas achei que devia lhe falar porque... Bem, porque a vida é curta e eu já
tenho vinte e nove anos. Quando se ama alguém é preciso revelar a existência de tal
sentimento. Por isso estou lhe contando que...
A maçaneta rangeu e a porta se abriu. Patrícia engoliu em seco e abriu os olhos, até então
semicerrados, para encarar um homem mais velho usando terno azul-claro.
Seu coração parecia pulsar na garganta. Os olhos verdes do homem mostravam confusão.
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- Sr. Barrington, sinto muito! — Patrícia falou, mantendo os olhos fixos na gravata
vermelha e azul para não ter de olhar diretamente para o presidente da Corporação
Barrington.
- Sempre achei que quando se ama alguém deve-se contar à pessoa amada — respondeu
o sr. Barrington, e, com um aceno, se foi pelo corredor.
"Grande!", pensou Patrícia, observando-o virar rumo à área dos elevadores.
Ótimo! O presidente da Barrington achava, deixara claro, que ela era uma idiota
apaixonada!
Engraçado, o artigo da revista não mencionara uma paixão idiota como explicação
plausível para sua inabilidade em convidar Sam Wainwright para sair.

Uma sentença de morte pairava sobre a cabeça de Sam Wainwright. Ele estava tenso.
Casamento.
Casamento.
Casamento.
Mal notou quando Patrícia sentou-se do outro lado da escrivaninha. Ela podia estar falando
no idioma hindu ao revisar os resultados da segunda etapa de entrevistas com os
graduandos que conheceram na Flórida.
Quando abriu uma pasta e então outra, Sam se lembrou dos artistas que equilibravam
pratos sobre longos pedaços roliços de madeira.
Patrícia o surpreendia. Como podia manter a mente no trabalho quando um desastre
acabava de acontecer?
Casamento.
Rex Barrington II podia muito bem ter dado a Sam o anúncio de que o estava despedindo.
Rex o havia tirado das ruas e lhe dado a oportunidade de ser alguém. E tinha apenas um
pedido simples antes de sua aposentadoria.
— Quero ver o vice-presidente de recursos humanos casado e acomodado — dissera
havia apenas dez minutos. — Quero deixar o departamento pessoal desta empresa nas
mãos de alguém com vida muito sólida. Esta companhia é como um filho para mim. Não
quero ter com quem me preocupar quando estiver relaxando nas praias do Taiti. Mas isso
não será problema. Você tem uma noiva, certo?
Antes que Sam pudesse dar alguma explicação, Rex já abria a agenda.
— Antecipe a data do casamento.
— Claro, Rex — Sam dissera, fazendo uma careta ao saber ser impossível mudar uma
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data de casamento sem uma noiva.
Rex II tinha o estranho hábito de indagar, requisitar e sugerir quando na verdade o que
estava fazendo era comandar. E aquilo começava a soar como um comando.
— Eu adoraria conhecer a mulher que o faz feliz — acrescentou Rex.
"Eu também", pensou Sam com tristeza.
— Leve-a à festa da minha aposentadoria. Porque, se eu não conhecer a senhorita
misteriosa que vai garantir seu desempenho profissional na minha ausência, terei de sair
da festa para encontrá-la pessoalmente.
— Está bem, Rex.
— Lembre-se: quero que meu vice-presidente de recursos humanos esteja casado.
Lembre-se: quando meu filho Rex III assumir, haverá um clima de incerteza na corporação.
Alguma confusão e caos até ele encontrar seu estilo de gerenciamento. O vice-presidente
de recursos humanos deverá estar firme e estável. No seu caso, casado.
— Claro, Rex.
Sem dúvida alguma. Uma ordem.
Mas que pesadelo!
Casamento.
Casamento.
Sam.
Casamento.
Sam.
— Sam?
Ele retornou ao presente.
— O que você disse?
Patrícia colocou o lápis sobre a escrivaninha.
— Perguntei se você acharia apropriado convidar os gerentes para assistir à visita que os
candidatos farão à sede da Barrington — disse, ajeitando os óculos de leitura. — Inclinou-
se e Sam notou o perfume familiar e relaxante. — Isso daria às novas pessoas
oportunidade de conhecer todos os gerentes. Não apenas aqueles com os quais estarão
trabalhando, mas os que poderão se tornar seus chefes no futuro.
— Ótima ideia — disse Sam.
Olhou para Patrícia bem de perto. Eficiente, confiável, perfeita para qualquer
eventualidade. Se fosse vice-presidente, Rex não pediria a ela para se casar. Ninguém
tinha vida mais estável do que Patrícia. Sua única fraquesa era chocolate. Em todas outras
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áreas de sua vida, era tão disciplinada quanto um relógio suíço.
Patrícia Peel devia tomar leite quente antes de dormir e usar roupas íntimas de algodão.
Embora Sam nunca tivesse pensado em suas roupas íntimas, nem sequer imaginado como
seriam, naquele momento achava que fossem de algodão. Tinha certeza absoluta!
— Sam? Está me ouvindo?
— Como? Oh, sim. Paty, dê-me seus óculos.
— Por quê?
— Há uma sujeirinha aí. Ela os tirou e inspecionou.
— Aqui, você não pode ver — disse Sam, pegando-os. Tirou um lenço de papel da caixa.
Observou-a minuciosamente. Sim, se Patrícia estivesse em seu lugar, Rex sequer pensaria
se a vida pessoal dela era estável e se Patrícia era tão firme quanto uma pedra.
Um pensamento diabólico se desenvolveu no cérebro conturbado de Sam. Sempre fora um
solucionador de problemas. Arrumava um jeito de superar dificuldades. Qualquer um que
conhecesse a história de sua vida diria, que de fato, ele nunca desistia de suas metas.
Colocou o analgésico novamente no frasco, guardou na segunda gaveta da escrivaninha. A
situação podia ser contornada, pensou com crescente confiança. Poderia passar por
aquilo.
— Patrícia, você diria que somos amigos? - Ela enrubesceu profundamente e baixou os
olhos. Sam ficou imaginando se teria ido longe demais. Mas, antes que pudesse tentar
amenizar as palavras, ela levantou a cabeça e anunciou:
— Sim. — E com que ênfase! — Acho que somos mais que amigos. Nos damos muito
bem. Rimos juntos. Trabalhamos lado a lado e de forma produtiva. Sim, eu definitivamente
diria que somos muito amigos. Por que a pergunta?
Sam fez um inventário mental, mal ouvindo as palavras escolhidas com tamanho cuidado.
Ela era bonita de um modo quase inocente. E não era tão jovem. Nem estaria nutrindo tais
pensamentos se fosse muito nova.
Podia se vestir um pouco melhor. Os ternos acinzentados não eram muito elegantes. Mas,
quando foram para Fort Lauderdale recrutar uma turma de assistentes de gerência para a
empresa, Patrícia usara roupas bonitas e da moda. Dera liberdade aos cabelos sempre
presos em rabos-de-cavalo, atraindo respeitável quantidade de olhares masculinos na
praia.
— Paty, acha que amigos devem fazer favores a amigos? — indagou, colocando os óculos
sobre a escrivaninha, mas fora do alcance dela.
— Claro — respondeu Patrícia com cautela.
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— Sou a espécie de amigo para o qual você faria um favor? Assim que fez a pergunta,
soube ser uma indagação tola.
Era claro que Patrícia lhe faria favores. Levara-lhe o trabalho a ser feito e um prato de
comida chinesa todas as noites durante duas semanas quando ele torcera o tornozelo
jogando basquete no piquenique da empresa.
Patrícia participara do time de basquete quando um dos homens saiu. E não jogava tão
mal. Pegara suas roupas na lavanderia quando estivera ocupado demais, e o ajudara a
planejar o jantar para Melissa e seus familiares, no anúncio do noivado.
Tentou pensar se os favores que fizera para ela estariam à altura. Obtivera-lhe uma sala de
bom tamanho com vista para o deserto. Persuadira Rex a lhe dar um merecido aumento de
salário. Mas teria feito isso para qualquer assistente que trabalhasse tão duramente quanto
Patrícia.
A escala de atitudes amigáveis pendia a favor dela.
— Deixe-me perguntar de outra maneira. Você está... envolvida com alguém? — indagou,
percebendo pela primeira vez que pouco sabia sobre ela.
— Não. Eu na verdade ia perguntar se... Sam hesitou, sentindo-se inseguro.
— Você ia me perguntar o quê?
— Nada. Absolutamente nada.
Sam teve certeza de que escutara alguma palavra como "tola" sendo sussurrada. Ou talvez
estivesse ouvindo demais.
— O quê?
— Nada. Por que perguntou se eu estava envolvida com alguém?
— Eu não gostaria de fazer a próxima pergunta se houvesse outro homem — Sam falou
com cautela.
Patrícia entreabriu os lábios. Ele nunca havia notado como tinham uma cor naturalmente
rosada. Ela começou a falar, seus olhos verdes cintilando como se pertencentes a uma
gata. E os seios arfando contra a camisa bem talhada.
— Que pergunta?
Sam aspirou profundamente, imaginando se estaria cometendo um erro. Mas então aquela
palavra assustadora voltou a ser repetida.
Casamento.
Pensou em quanto Rex já fizera por ele. Lembrou-se da pobreza de sua infância, do sabor
de pão amanhecido e leite azedo, do cheiro de uísque da respiração de seu pai, do funeral
da mãe e do caixão barato que o deixara furioso diante da própria fraqueza.
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Lamentara, aos onze anos de idade, não ser capaz de providenciar algo melhor para o
derradeiro descanso de sua mãe.
E tudo o que Rex II queria era que seu vice-presidente de recursos humanos se casasse.
— Patrícia, o que você acharia de ser minha noiva?
Uma alegria tão inocente e plena que não podia ser escondida iluminou o rosto feminino.
Sam ficou imaginando se acabara de cometer um erro terrível.

CAPITULO II
- Você disse noiva?
“Oh, mas que maravilhoso!, ironizou Patrícia em pensamento. Estou parecendo uma com-
pleta idiota. É claro que ele falou noiva.”
Noiva.
Noiva.
A mais linda palavra que ouvia em décadas.
— Foi uma pergunta retórica? — acrescentou rapidamente. — Porque, se foi, quero que
você saiba que qualquer mulher iria se sentir abençoada em ser sua noiva. A propósito,
quando entrei nesta sala, tinha a intenção de lhe dizer algo. Relacionava-se à mesma
categoria de assunto.
Sam continuou a encará-la.
— Não foi retórica — disse. Patrícia engoliu em seco.
— Você quer dizer, perguntou-me se eu gostaria de ser sua noiva porque quer que eu seja
sua noiva?
"Será que ele sente algo por mim, algo que não conseguiu expressar até agora?"
Respirou profundamente e conteve um sorriso. Não, não apenas um sorriso. Um sorriso
fenomenal que precisava deter.
Porque aquele homem acabara de romper um noivado e sem dúvida estava entristecido.
Não se encontrava em seu juízo perfeito.
— Noiva — repetiu Patrícia, mal podendo acreditar. — Você disse que gostaria que eu
fosse sua noiva. Não acha que devíamos levar o relacionamento com um pouco mais de
vagar?
Ele a fitou com aspereza.
— Esqueça. — Pegou a pasta no topo da pilha. Patrícia foi mais rápida e sua mão cobriu a
do chefe. — Foi só uma ideia. Uma ideia realmente boba. E a culpa é toda minha. Que
jamais devia tê-la formulado. E agora diga-me, o que temos para fazer esta manhã?
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— E qual foi a ideia? — insistiu Patrícia, pensando que não podia ser tão tola assim se
envolvia a palavra "noiva".
Sam olhou janela afora, observando o sol aquecer os carros no estacionamento.
— Estou enfrentando um problema — disse por fim. Patrícia soltou a respiração.
— E este problema envolve Melissa?
— Um pouco. Nós rompemos.
— Ouvi dizer.
— É mesmo?
— Compareci ao chá de bebé de Olívia, do departamento jurídico. A mulher que está
lidando com os convites para a festa de aposentadoria mencionou que você e Melissa já
não estavam mais juntos.
Patrícia procurou seguir o rumo da conversa que tiveram. As mulheres que já considerava
amigas mais próximas a haviam aconselhado a aproveitar a oportunidade, a convidá-lo
para sair. A fazer um movimento na direção do único homem que chamara sua atenção
desde sua mudança para Phoenix, havia seis meses.
— Não estava dando certo — disse Sam.
— Por isso você se sente tão deprimido?
— Não.
— Triste?
Ele ajeitou os ombros.
— Não muito.
— Sente saudade dela?
— Na verdade, não.
— Você rompeu com Melissa?
— Rompi.
— Ela está magoada?
— Sim. Deu-me um tapa. Mas não de modo muito convincente. Melissa fará algumas
compras e se esquecerá de tudo.
— E então... qual o problema em que você se meteu?
— Rex. O sr. Barrington.
Patrícia lembrou-se de seu encontro com o presidente e achou melhor manter o incidente
somente para si.
— Por que ele estaria envolvido com seu problema? – Sam apoiou a cabeça nas mãos.
— Ele quer conhecer minha noiva. Esteve aqui ainda pouco e pediu que eu a apresentasse
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na festa da aposentadoria.
— Diga-lhe que vocês romperam.
— Não tive coragem.
Patrícia podia compreender. Embora não fosse muito próxima do presidente da empresa,
sabia que ele era tão ligado àquele homem como se fossem parentes.
Sam jogava golfe com Rex, era sempre convidado para ir a casa dele para jantar, coisas
assim. Não achava que fosse apenas ambição o que motivava Sam. Falava sobre Rex II
com afeto genuíno.
— Você é tão bom para ele...
— Não é por bondade — Sam a corrigiu com aspereza
— Não sou uma pessoa bondosa.
— Você é.
— Não comece. Este é o único assunto sobre o qual um dia discutimos. Eu sempre lhe
disse que sou decente, o que é requisito mínimo para não ser canalha. Mas bondoso não,
acho que não.
— Pois eu acho que sim. Vamos discordar quanto a isso e pronto!
— Patrícia, não contei nada a ele por causa dos meus próprios interesses. Rex preocupa-
se em deixar o departamento de recursos humanos nas mãos de alguém cuja vida pessoal
seja sólida como pedra. Uma vida como a que o casamento proporciona. Por isso, quando
falou que queria que eu lhe apresentasse minha noiva, não lhe contei que havíamos
rompido.
— Você está dizendo que suas motivações não foram puramente bondosas.
— Fui egoísta. Pensei somente em meu emprego.
— Não. Você pensou nos sentimentos de Rex. Além disso, todos agem movidos por uma
mescla de razões, algumas egoístas, outras nem tanto.
— Como você sabe? Não estava nem mesmo aqui quando ele conversou comigo.
— Eu o conheço, Sam. Sei que você adora este emprego e que faria qualquer coisa para
se dar bem. Mas também é um bom amigo. E um bom amigo às vezes faz coisas
estranhas em nome da amizade.
- Quer saber o pior de tudo? — ele indagou agoniado, engolindo o restante do café. — A
primeira coisa que pensei quando você entrou foi que nós poderíamos... Oh, é tão ridículo!
- Não é. Pode falar.
- Pensei que você e eu poderíamos ir à festa como se estivéssemos noivos. Você fingindo
que é minha noiva apaixonada, eu fingindo ser seu noivo devotado. Sou um mercenário.
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Patrícia engoliu em seco. Não era assim que devia ser. Sonhara com uma vida de música,
luar ou Sam de joelhos. Ele não estava interessado em nada além de amizade. Mas
encontrava-se em uma situação difícil e Patrícia o amava e o considerava um amigo
mesmo desejando muito mais.
Um amigo com problemas e que necessitava de ajuda. E ela faria qualquer coisa para
ajudá-lo a manter o emprego que tanto estimava.
Mas suas motivações não eram mais puras do que as de Sam.
— Não acho que seja uma ideia tão terrível — disse Patrícia, procurando afugentar sua
natural aversão a qualquer espécie de subterfúgio. — De fato, não tenho objeções.
Provavelmente sou a melhor mulher para a tarefa de ser sua noiva. Trabalhamos juntos,
passamos muito tempo lado a lado até mesmo fora do expediente. Rex acharia natural que
nos envolvêssemos. — Sorriu. — Falou algo a Rex sobre sua noiva?
— Não. Nem tenho certeza se cheguei a mencionar quem era. A mulher que organizava a
festa obteve o número de telefone dela através de mim, mas não passou o nome para Rex.
— Ouvi dizer que você teve muitas namoradas antes de ficar noivo de Melissa. Ele
provavelmente não pode se lembrar dos nomes.
Sam pareceu envergonhado.
— Não sou um playboy.
Patrícia bateu o lápis sobre a pilha de papéis.
— Como?
— Está bem, está bem, talvez um pouquinho playboy — admitiu Sam. — Mas minha
reputação é muito pior do que a realidade.
- Sua reputação é justamente o motivo de Rex estar tão interessado em vê-lo casado e
acomodadeo.
Ele se levantou abruptamente e Patrícia ficou imaginado se fora longe demais.
- É rídiculo! Eu devia marchar diretamente para a sala dele e lhe dizer que rompi com
minha noiva dois dias atrás. E que ele faça o que quiser com essa informação.
- Isso partiria o coração de Rex.
Ambos sabiam que Patrícia tinha razão. Rex ficaria com o coração partido. Gostava de
saber que seus empregados estavam felizes e se preocupava com cada um.
- Além do mais, você não pode fazer isso – disse Sam. – É jovem demais.
- Tenho vinte e nove anos!
- Nao estou falando de idade.
- Bem, acho que eu posso julgar se sou velha o bastante.
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- Por que você gostaria de fazer isso? – perguntou ele com desconfiança – Se pensa que
seu emprego está em jogo, engana-se. É o meu. Na verdade, se eu perdesse o emprego
essa manhã, eles estariam colando uma plaqueta com o seu nome nesta porta ao meio-
dia.
-Sei disso.
- Você poderia se tornar vice-presidente.
- Não, obrigada.
- Por que faria isso por mim?
- Sou sua amiga, lembra-se? E estamos falando sobre ficarmos noivos durante algumas
semanas. Após a partida de Rex para a viagem ao redor do mundo, logo após a festa de
aposentadoria, vamos anunciar discretamente que rompemos. Quando ele estiver na praia
no Taiti, esquecerá os planos de casamento. E quando o novo presidente chegar...
- Oh, sim – murmurou Sam.
Ninguém na Barrington precisava se lembrar de que o misterioso filho de Rex II, Rex III,
estaria se mudando para a sala do presidente. A insegurança no emprego estava em alta.
- Com Rex III vindo, provavelmente seria bom que nós dois aparentássemos estabilidade.
Devemos ser membros leais do time Barrington – disse Patrícia.
- E somos.
— Sei disso. Você sabe. Mas nenhum de nós conhece Rex III. Ele não sabe de nada sobre
nós além do que o pai lhe conta. E se Rex lhe disser quanto está satisfeito com você... e
comigo... nossos empregos estarão garantidos.
Sam sentou-se.
— Então estamos noivos — disse. Patrícia assentiu com certa insegurança.
— Sim, suponho que estejamos. Oficialmente. Ele se inclinou e apertou a mão de Patrícia.
— Parabéns.
— Você deve me desejar felicidades — corrigiu ela, pegando os óculos. — O noivo recebe
parabéns porque ganhou o prémio do coração de uma mulher. A noiva recebe desejo de
felicidade porque o casamento é uma empreitada mais difícil para as mulheres do que para
os homens, segundo dizem.
- Isso mesmo — disse Sam, puxando a pilha de papéis.
— Otimo. Vamos ver o primeiro currículo. Oh, a propósito, o que você comeu no café da
manhã?
— Cereais e refrigerante dietético como sempre.
— Parece fácil de lembrar. Com o que você dorme?
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— Como?
— O que você usa na cama?
Patrícia abriu a boca. Fechou-a. De modo algum poderia confessar que usava uma
camiseta extra-larga com bainha desfiada. Tentava imaginar o que uma mulher sofisticada
usaria. Algumas gotas de perfume e nada mais?
— Patrícia, eu saberia dessas coisas se fosse seu noivo. Ela enrubesceu.
— Você sabe, uma mulher pode se magoar em um esquema como este — disse Sam. —
Um homem também, a propósito. Se houver qualquer mal-entendido.
— Não entendi nada mal — disse Patrícia, na defensiva.
— Trata-se apenas de um acordo de negócios. E os limites estão bem claros.
— Por exemplo, nada de sexo. Não gostaria que você me julgasse pouco profissional,
embora esta seja a proposta mais ausente de profissionalismo que eu já fiz a uma
assistente.
— Boa ideia. Nada de sexo — concordou ela, sentindo-se aliviada.
Sexo era o desconhecido. Deixando-o fora do caminho, o noivado parecia muito mais fácil
do que... bem, do que um noivado verdadeiro seria.
— A amizade poderia ficar maculada — prosseguiu Sam
— se um de nós fosse inexperiente e tivesse expectativas. Eu não gostaria de magoá-la.
Patrícia ergueu a cabeça.
— Não sou uma mulher sem experiência.
— Oh, é mesmo?
— Sam Wainwright, nunca conversamos sobre minha vida amorosa, mas vivi mais do que
você imagina. Ficaria surpreso.
— Eu não disse que você não teve homens em sua vida. Estava apenas perguntando.
— Bem, você perguntou e eu respondi. Tenho experiência suficiente.
— E suas expectativas?
— Nenhuma — disse, o que era estritamente verdadeiro. A realidade era que nem
esperava que ele a notasse. Mas Sam não havia lhe perguntado sobre esperanças, sonhos
e desejos. — Uso peças de seda na cama. E tire este olhar de descrença do rosto.
Ele que ousasse desafiá-la Sam a ficou analisando, uma série de emoções que iam da
confusão ao espanto alteravam sua expressão.
— Acho que deve haver muitas coisas a seu respeito que eu desconheço — disse por fim.
— Seda, não é mesmo?
— Sim. Você pensou que eu usasse camisola de algodão?
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— Flanela teria sido meu primeiro palpite.
— Seda. Seda vermelha. Sim, vermelha. Bem chamativa. — E, antes que Sam pudesse
absorver a informação, lançou-se à sessão de perguntas. — O que você usa na cama?
— Nada. Absolutamente nada.
A cena que veio à mente de Patrícia era muito vívida.
— Oh! — E então, antes que Sam pudesse dizer mais uma palavra, colocou os óculos e
abriu a pasta com as avaliações dos candidatos a emprego. — Chega de assuntos
pessoais. O que acha de decidir quem será o novo assistente de gerência?

CAPITULO III

- Você selecionou apenas candidatos fortes. Sempre faz isso — disse Sam ao final de
uma hora.
— Obrigada — respondeu Patrícia, ordenando a papelada. — Quanto ao outro assunto...
— Você não precisa ir adiante caso tenha reconsiderado.
— Não, não reconsiderei. Simplesmente não sei por onde começar a lhe fazer perguntas.
Conheço muito de sua vida profissional e sei que você usa...
— Não uso nada na cama.
— Nada na cama. Mas, na festa, Rex poderá me fazer algumas perguntas que não saberei
responder. Talvez devamos trabalhar melhor o assunto. Não durante o expediente, claro.
Não estava convidando Sam para sair.
— Vamos jantar esta noite — ele sugeriu.
— Eu o encontro na saleta de café por volta das seis? Ao menos quatro vezes por mês
jantavam juntos na sala de café, quando o trabalho os mantinha no escritório até mais
tarde.
Algumas vezes pediam comida chinesa ou pizza. Isso quando Patrícia era encarregada da
comida. Quando era a vez de Sam providenciar o jantar, eram batatas fritas, doces e
refrigerantes. Ela sempre se sentia culpada depois: todo aquele sal, açúcar e calorias.
Sam balançou a cabeça.
— No Dehlia's — disse, dando o nome de um restaurante de Fênix. — Se você é minha
noiva, terá de se familiarizar com o local. — Fez uma pausa. — Oh, há outra coisa. Algo
que está em meu bolso há dois dias. Fico toda hora olhando, imaginando o que venho
fazendo de errado.
Enfiou a mão no bolso e tirou um anel com uma pedra enorme. Um anel de diamante bem
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familiar. Patrícia o ajudara a escolher depois que Melíssa rejeitara a primeira escolha do
noivo.
Patrícia olhou para o anel que lhe era estendido. Cintilava.
— Acha que não combina com você? — disse Sam, não interpretando bem a súbita
mudança de humor de Patrícia.
— Quer que eu compre outro?
— Será apenas por algumas semanas — disse ela, não aceitando a oferta. — Eu o
devolverei quando rompermos.
Sam sorriu daquele seu jeito peculiar. Seus olhos cintilavam. Como sempre, o gesto fazia o
coração de Patrícia disparar.
— Obrigado — disse ele, coçando o queixo. — Apenas não me dê um tapa tão forte
quanto o que Melissa me deu.
— Prometo.
Ela reuniu os papéis que trouxera e o caderno de anotações. Quando já alcançava a porta,
Sam a chamou.
— Não sou muito bom em expressar emoções, mas... obrigado. Você é realmente uma
amiga verdadeira.
Parecia que ele ia dizer mais alguma coisa, mas calou-se.
— Eu o vejo no Dehlia's às oito horas.
Patrícia disse "adeus" e apressou-se pelo corredor. Quando chegou à sua sala, jogou os
papéis sobre a mesa e bateu a porta, em busca de privacidade.
Amigos.
Ela era apenas isso. Nada mais. Há seis meses estava naquele emprego e Sam nunca,
jamais a fitara com olhos de amante. Precisava manter isso em mente: era uma amiga
fazendo um favor a um amigo.
Amigo.
Mesmo assim, nem a força da realidade e do raciocínio sensato podiam banir
completamente sua esperança. Tão terna e frágil quanto uma flor do deserto determinada
em sobreviver sem água ou encorajamento.
Ele a veria no jantar, observaria-a por sobre a mesa e perceberia que vinha sendo um tolo
havia seis meses...
— Preciso sair mais — disse baixinho Patrícia, sentando-se.
Tirou o paletó. Embora o escritório tivesse ar-condicionado, sentia-se acalorada. Abriu os
três primeiros botões da blusa.
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Precisava comparecer àqueles encontros com conhecidos de suas amigas. Elas sempre
tentavam marcar, mas Patrícia se recusava a participar.
Precisava parar de sonhar com Sam todas as noites. Tinha de disciplinar-se para deixar de
pensar nele cada minuto. Seria bom juntar-se ao grupo de solteiras da igreja. E conhecer
aqueles homens franceses que sua mãe insistia em lhe apresentar. Precisava esquecê-lo.
E o faria, de alguma maneira. Depois que rompessem, pensou, olhando para o brilhante
diamante em sua mão.

— Desculpem o atraso — falou Patrícia, fechando a porta. As mulheres em torno da mesa


redonda de fórmica viraram-se para cumprimentá-la. Uma cadeira forrada com plástico azul
fora reservada para ela.
Em agosto, o calor era arrebatador. Por isso as mulheres preferiam comer do lado de
dentro, onde havia ar-condicionado.
Patrícia achou a sala de almoço particularmente abafada naquele dia. Tirou o paletó,
acomodou-se no assento e sorriu timidamente.
— Eu estava com uma papelada atrasada.
— Algo relacionado a Rex III? — indagou Sophia, mexendo nos cabelos louros e
encaracolados.
Todos sabiam que ela estava determinada a casar-se com o misterioso filho de Rex
II, aquele que tomaria conta da empresa em apenas uma semana. Ninguém o tinha
visto, nem mesmo Sophia, sua futura assistente pessoal.
— Alguma informação?
— Não. mas e quanto a Mike? — indagou Patrícia. Abriu a sacola onde estava o
almoço. Tirou os biscoitos feitos em casa, colocando-os defronte, a Olívia, que
andava com apetite especial por doces durante a gravidez.
— Mike, do departamento de correspondência, é muito bonito.
— De jeito nenhum. Ele não faz nada da vida e eu quero fazer alguma coisa da minha.
Quero uma casa, marido e filhos. Alguém com alguma ambição e charme, além de in-
teresse em constituir família.
— Alguém como Rex III? — provocou Rachel, a morena pequenina do departamento de
contabilidade.
Todas gargalharam.
— Confie no que estou lhe dizendo, terei o anel de Rex III em minha mão em seis meses
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— falou Sophia com confiança.
— Por falar em mãos, onde você arrumou isso? — indagou Olívia, olhando para o anel de
Patrícia. — Deve pesar um bocado.
— Pesa, sim — respondeu com gentileza, pousando a mão na mesa.
As mulheres se inclinaram por sobre sanduíches e saladas.
— Puxa! — disse Sophia.
— É zircônia? — indagou Molly, do departamento de propaganda. — Ouvi dizer que há
uma liquidação na joalheria do supermercado.
— Não, é um diamante — falou Patrícia. Houve um suspiro coletivo.
— Não sabia que faziam diamantes deste tamanho para pessoas comuns — falou Rachel.
— Quero dizer, que não sejam da realeza ou estrelas de cinema.
Patrícia lutou para que seu braço não tremesse enquanto o anel era admirado pelas
colegas. Estava prestes a mentir para as amigas. Detestava essa parte, mas ficara vinte
minutos em sua sala praticando como fazer.
Não houvera papelada mantendo-a ocupada. Fora culpa de seu "ensaio". E aquela seria a
noite de estreia. Tinha a atenção da plateia.
— Preciso contar uma novidade a vocês.
As cinco mulheres à mesa ficaram em silêncio, os lábios entreabertos e os olhos
arregalados. Patrícia não estava habituada a tanta atenção. Passou a língua pelo lábio
seco.
— Estou noiva!
A imobilidade era aterrorizante. Estariam percebendo que ela mentia? Ficariam bravas?
Não seriam mais suas amigas? Fariam com que almoçasse em outro lugar?
Olívia resmungou algumas vezes. Foi tão alto que Patrícia fícou preocupada, achando que
estivesse em trabalho de parto.
Mas não, eram sons de alegria. Ergueu os braços na direção de Patrícia e lhe deu um
abraço tão forte quanto sua barriga proeminente permitia. As mulheres se inclinaram para
tocá-la e lhe desejar felicidade.
— Isso é maravilhoso! — disse Rachel.
— Quem é o sortudo? — quis saber Sophia.
— Sim, isso mesmo! — disse Olívia, encarando Patrícia. - Você nunca saía porque sempre
estava pensando em Sam.
- Ele é um playboy, mas agora está noivo... Espere um minuto! Sam rompeu com Melissa,
não é mesmo? - Patrícia assentiu, não confiando na própria voz.
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— Fez isso porque descobriu que amava você e não a ela? — palpitou Rachel.
Patrícia abriu sua boca para dizer "sim". Mas então fez uma pausa. Aquelas amigas não
poderiam ser enganadas.
Sabiam que ela se desesperara por chamar a atenção de Sam e, até o final de semana
passado, aceitara que Melissa teria a honra de ser chamada de sra. Sam Wainwright.
Rex II a veria na festa de aposentadoria e acharia que ela e Sam estavam noivos já há
algum tempo. Mas aquelas mulheres sabiam da situação real.
Ao jantar, seria melhor dizer a Sam sobre a discrepância de tempo, considerou Patrícia.
Enquanto isso, a audiência queria um relatório completo do romance.
— Sim, foi o que aconteceu — disse por fim.
As outras não pareciam convencidas. E ninguém sugeria mudança de tópico. Nem mesmo
formularam perguntas, porque uma amiga não tinha coragem de ser tão incisiva assim.
— Lembram-se de quando eu falei que tentaria e, bem, vocês sabem...
— Não, não sei — falou Sophia. — O que você fez com ele?
— Seduziu-o — sugeriu Olívia. — Esta é a palavra que procura. Sua feiticeira! Você
obviamente fez um bom trabalho de sedução.
— Sedução — disse Patrícia, ajeitando o colarinho da blusa. Não tinha a menor pista de
como seduzir um homem, mas aquelas mulheres não sabiam disso. — Sim, foi o que fiz.
— Você seduziu Sam Wainwright? — perguntou Rachel. — Na sala dele? Durante o
expediente? Não ficou preocupada que alguém entrasse?
— Nós na realidade não... fizemos nada lá.
— Nada?
— Nós nos beijamos, é claro... .
— Claro — concordou Olívia.
— Sim, mas você tem um anel em seu dedo — Cindy ponderou.
Cindy planejava casar-se com seu chefe, da divisão de novos produtos. Seu romance se
tornara realidade e ela se sentia alegre em ver a felicidade de Patrícia.
— Para mim já basta. Não me importo com o que você fez na sala dele, sua danada.
O cintilar de seus olhos confirmava o apoio que dava à atitude de Patrícia.
— Força para você — disse Rachei. — O que Sam falou quando lhe contou que estava
interessada nele?
— Isso, presumindo que eles conversaram — observou Olívia. — Deve ter sido um beijo e
tanto!
“Nunca tive oportunidade de beijá-lo ou de lhe dizer como me sentia", pensou Patrícia. Mas
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resolveu ir adiante com sua história.
— Eu disse que sempre senti atração por ele.
— Isso é que é falar com sinceridade! — observou Sophia e foi prontamente silenciada
pelos murmúrios das demais.
— Foi quando Sam falou que sempre se sentira assim, também — prosseguiu Patrícia,
enquanto seu cérebro criava mais fantasias. — E então ele apenas... me beijou.
— E a pediu em casamento — concluiu Sophia, suspirando. — E incrível. E tão
romântico... Fico imaginando se será assim com Rex III.
— Pode parar de falar nele? — pediu Cindy. — Estamos concentradas em Patrícia.
— Desculpem-me — disse Sophia. — Eu não quis mudar de assunto.
Patrícia sentir-se-ia feliz em conversar sobre Rex III.
— Estou um pouco confusa — disse Olívia., mastigando um biscoito. — Sabemos que ele
rompeu o noivado com Melíssa na semana-anterior. E então esta manhã você foi até a sala
de Sam e tudo o que falou foi...
— Pare com isso, Olívia — pediu Rachel, — Você parece um advogado interrogando uma
testemunha.
— Mas eu sou advogada.
— Bem, controle-se. Estamos falando sobre romance -disse Rachel. — Acho que
precisamos planejar um chá de cozinha. O que dizem, garotas?
— Não, está tudo bem — falou Patrícia, entrando em pânico. Não havia considerado tal
possibilidade. — Vocês são muito atenciosas, mas não preciso de uma festa. Realmente
não.
— E por que não? — perguntou Olívia. Mastigou mais uma porção de biscoitos. — Quero
dizer, há algum problema sobre o qual ainda não tenha nos contado?
— Claro que não — falou Patrícia.
— Faremos o chá em minha casa — disse Cindy.
— Não, na minha — pediu Rachel.
Enquanto uma discussão era travada, Patrícia em silêncio tirou o sanduíche do saco
plástico. Não estava com fome. _ A situação começava a se complicar... Um simples favor
à Sam se tornava uma teia de decepções. Pensava em afastar comida quando notou que
Olívia a observava. Estaria percebendo que mentia?
— Se você não vai querer este sanduíche, posso comê-lo? — perguntou Olívia. — Juro
que você faz a melhor salada de galinha do Arizona.
— Claro. Estou animada demais para comer.
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— Fiquei assim antes do casamento, também — disse Olívia. — Estou tão feliz com sua
felicidade! É tudo o que você sempre quis.
Patrícia olhou ao redor da mesa. As cinco mulheres a haviam acolhido. Importavam-se com
ela. Planejavam até seu chá de cozinha!
Como poderia explicar-lhes que havia mentido quanto à sua felicidade em prol da felicidade
de Sam?
CAPÍTULO IV

Patrícia costumava viajar a negócios para hotéis, spas e restaurantes concorrentes da


Barrington. Nessas ocasiões, ficava especialmente atenta a detalhes; algumas vezes até
mesmo fazia anotações.
Mas ao conduzir seu carro pelo caminho aberto no jardim do Dehlia's, ladeado por
palmeiras, não sentia o mais leve interesse profissional pelas linhas fortes da arquitetura
nem pela saudação do porteiro.
Não tinha vontade de pegar o caderno espiral e escrever "manobristas usam gravata
borboleta vermelha" ou "boa localização com vista para o pôr-do-sol no deserto".
Em vez disso, experimentava ansiedade, mesclada à sensação perturbadora de ter
cometido um erro terrível, não por ter ficado noiva de Sam. Mas por ter mentido para suas
amigas.
Havia com sucesso persuadido as garotas a postergar o chá de cozinha por pelo menos
um mês e lhes explicaria tudo na semana seguinte à partida de Rex II. Não contava com o
perdão delas, mas apostava em sua bondade.
Sua mãe, graças ao trabalho diplomático, estava longe, em Paris, e jamais saberia. Algo
bom, já que os conselhos de sra. Peel eram exatamente o que queria evitar. Patrícia
gostava de ter uma vida menos... excitante do que a de sua mãe.
O noivado era uma grande ideia. Veria um lado de Sam que ele normalmente mantinha
bem escondido. Descobriria o que apreciava em uma mulher. A novidade era digna de
euforia, afinal.
Mas sua animação acabouu ao ver a multidão acumulada do lado de fora da pesada porta
do restaurante. Os moradores da cidade estavam habituados a serviço rápido e atmosfera
tranquila. Teriam isso no Dehlia's?
— Sam gosta de glamour — murmurou. — Se estas mulheres são alguma indicação, ele
admira saias curtas, cabelos espalhafatosos e decotes profundos.
Observou o terninho acinzentado que usava, um tanto quente para o calor de fim de tarde.
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Os sapatos, um modelo preto que se mostrara discreto mas sofisticado na loja, agora
parecia ortopédico.
Saiu do carro, esperando que o porteiro lhe perguntasse se queria uma bengala. Então
lembrou-se da maleta. Finalmente desceu e ficou parada, olhando ao redor, à procura de
Sam.
Patrícia ajustou a alça da maleta e passou pela fila de pessoas bem vestidas e com
cabelos arrumados. Do lado de dentro, um homenzinho com rosto de buldogue e terno es-
curo a cumprimentou.
— A senhora gostaria que eu guardasse sua maleta? — indagou com sotaque castelhano.
— Não, obrigada — respondeu, olhando por sobre o ombro do homem para o salão
espaçoso, arejado e pintado de azul. — Vou me encontrar com alguém aqui. Meu noivo.
Sam Wainwright.
Uma mudança de expressão quase imperceptível foi o único sinal da dúvida do maitre.
— O sr. Wainwright tem uma reserva para duas pessoas, mas ainda não chegou. Importa-
se em sentar-se... Ah, sr. Wainwright, que prazer em vê-lo.
— Dino, é um prazer — disse Sam, aparecendo logo atrás de Patrícia. Havia trocado de
roupas e estava muito elegante. O perfume era cítrico e os cabelos ainda se encontravam
molhados do banho. — Você separou minha mesa favorita?
Dino fez uma mesura.
— Claro. Esta jovem disse que é sua...
Esfregou uma mão na outra, como se as nuances do idioma inglês fossem um mistério.
— Minha noiva — completou Sam.

Beijou Patrícia no rosto. O toque foi assustador... para ela e para Dino. Os lábios do maitre
se entreabriram em uma expressão de espanto.
— Mas e quanto a... — O homenzinho considerou a própria pergunta e disse solenemente:
— Bravo! Eu lhe ofereço meus parabéns.
Rapidamente pegou dois cardápios com capa de couro, uma lista de vinhos e os conduziu
para uma mesa com sofás de couro.
A vista dava para o centro de Phoenix. E, mais atrás, para as montanhas cujo pálido tom
de rosa ainda guardava a beleza do pôr-do-sol.
— Ele está acostumado a ver Melissa — palpitou Patrícia.
— Melissa e eu vínhamos para cá toda semana — confirmou Sam, tomando um gole de
água. — O avô dela foi o Stanhope que primeiro descobriu prata e estanho em Chul-la
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Canyon. Quando o veio se exauriu, uma geração mais tarde, o pai de Melissa descobriu
outra forma de ganhar muito dinheiro. Ela está acostumada às coisas finas da vida,
incluindo este restaurante.
— Aposto que não vinha para cá usando terninho acinzentado e carregando maleta.
— Não, mas apenas porque não tinha emprego, embora parecesse estar construindo uma
carreira ao voar para Nova York a fim de ver seus costureiros favoritos. Ei, não está se
sentindo deslocada, está?
— Claro que não — mentiu Patrícia. — Mas olhe para as mulheres nas outras mesas.
Sam deu um olhar rápido e discreto para a sala lotada. Então fitou Patrícia. Ao ser
observada, ela colocou as mãos com unhas roídas no colo, deixando-as devidamente
escondidas pela toalha cor de damasco.
— São as pessoas que sempre frequentam este lugar.
— E como estou?
— Está com a mesma aparência de sempre.
— Aborrecedora.
— Não, você é apenas mais... digna de confiança do que as pessoas que normalmente
vêm para cá.
Uma mulher vestindo minissaia de couro verde clara e botas de couro brancas passou ao
lado da mesa. Patrícia viu-se observando a apreciação de Sam. Confiável, pensou. Droga!
— Não subestime a palavra "confiável" — disse ele. — De fato, em uma sala repleta de
senhoritas perfumadas e provocantes, é bom ter alguém com aparência tão natural.
Sam estendeu a mão e colocou uma mecha de cabelos de Patrícia atrás de uma orelha.
"Natural" não soava muito bem. Ao final da noite, ninguém se lembraria de quem era a
amiga confiável e "natural" de Sam. Bem, Patrícia faria tudo o que estivesse a seu alcance
para ganhar verdadeiramente o título de sra. Sam Wainwright.
— Se um novo vestido ou penteado a fará sentir-se melhor, vamos providenciar — disse
ele. — Amanhã encerraremos o expediente um pouco mais cedo. Eu a levarei para fazer
compras. E pagarei. Está bem?
— Não quero que você me compre coisas.
— Eu sei. Puxa, você podia aprender com Melissa!
— É mesmo?
— Faça manha. Insista. Diga que a vida não vale a pena a menos que você tenha aquele
modelito novo que tanto está namorando. Diga-me que ficará muito feliz se eu o comprar.
— Não preciso que me compre um vestido. Apenas acho que eu deveria comprar um. Para
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a festa. E talvez mudar o corte de cabelo. Quero dizer, para que tenha mais estilo.
— Não prestou atenção àquela lição.
— Não quero aprender. Você não detestava isso?
— Nem notava direito. Ela não era tão ruim. Foi assim que lhe ensinaram a agir. E você
não é desse jeito. Qualquer coisa que eu possa fazer para tornar este noivado mais fácil
para você, eu gostaria de fazer. Além do mais, vai querer que eu aprove seu novo vestido
para a festa de noivado.
— Vou?
— Sim, porque será traje a rigor. É melhor você não usar... Interrompeu o final da sentença
para reconsiderá-la.
— Terninhos acinzentados — sugeriu Patrícia. A expressão de Sam confirmou a suspeita
sobre o que ele pensava a respeito de sua aparência. — Está bem, conheço meus limites.
Que tal comprarmos um vestido juntos?
Ele fez um carinho em sua mão e Patrícia sorriu. Tinha pouco mais de uma semana para
mudar a opinião de Sam a seu respeito e fazer com que a fitasse mais demoradamente e
com apreciação. Usaria esse tempo de maneira bem inteligente.
— Agora vamos falar sobre itens mais importantes — anunciou ele.
— Como o quê?
— Como o que você irá comer no jantar — falou Sam, abrindo o cardápio. — Os nomes
dos pratos estão em espanhol e o pouco que sei do idioma não é suficiente. Mas sempre
que digo "bife porterhouse", o garçom me compreende. Talvez você tenha mais sorte.
Quando o garçom veio à mesa, anunciou que o maitre havia lhes enviado uma garrafa de
champanhe, para celebrar o noivado.
— Comerei o mesmo que ele — disse Patrícia quando Sam fez o pedido.
O garçom murmurou algo em aprovação à escolha e afastou-se. Sam com gentileza fez
com que suas taças se tocassem.
— Muito obrigado — disse. — Aos amigos!
Patrícia colocou a taça sobre a mesa. A hora de diversão tinha terminado. Acabara o
intervalo e era momento de voltar aos negócios.
— Você tem muito a me contar — falou Patrícia.
— Primeiro as senhoritas.
— Idade antes de beleza.
— Você é mais interessante.
— Dificilmente seria. Além do mais, não sou eu quem deseja um noivado.
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— Está bem, você venceu. Tenho trinta e seis anos.
— Já sabia disso.
— Cresci na região pobre de Phoenix.
— Eu sabia disso também.
— Mamãe morreu quando eu tinha onze anos.
— Desculpe, mas você já me disse.
— E meu pai está... nem mesmo sei onde está.
Patrícia olhou para o nada. Tinha consciência de aquele assunto era doloroso para Sam.
— Sim, eu sei.
— Frequentei a Universidade do Arizona e jogava basquete. Mas passava a maior parte
do tempo no banco do reservas, porque haviam jogadores melhores. Não me importava
porque não estava ali para me tornar um profissional. Estava, sim, para receber boa
educação.
— Não sei quão bons eram os outros jogadores, mas eu já sabia disso tudo.
— Agora que você sabe tanto sobre minha vida, vamos para a sua. Vinte e nove anos.
— Obteve isso em minha ficha do departamento.
— Seus pais eram diplomatas de carreira. Seu pai morreu no Butão. Sua mãe atualmente
presta assistência ao embaixador francês em Paris.
— Acertou tudo.
— Foi à escola em Londres, depois na Suécia.
— Suíça.
— Sabia que começava com "s". E frequentou a Universidade Noroeste, em Chicago.
— Muito bem.
— E após oito anos trabalhando no Clube Universitário de Chicago, veio para a Barrington.
Os dois tomaram um gole de champanhe.
— Então é isto — concluiu Patrícia. — Sabemos bastante um sobre o outro. Somos
amigos. Contamos fatos de nossas vidas.
— Se fôssemos amantes, contaríamos muito mais.
— Quanto mais? — perguntou Patrícia, secando a taça.
Inclinou-se para trás para que o garçom pudesse lhe servir o primeiro prato. O risoto
cheiroso a fez lembrar-se de que não comia desde o meio-dia. Talvez por isso sentisse
uma certa tontura.
— Amantes. Amantes no passado.
Ele assentiu para o garçom, que moeu pimenta sobre o arroz. Patrícia declinou.
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Amantes? Ela não havia tido nenhum.
— Eu falarei primeiro — declarou Sam.
— Não terei de conversar o restante da noite se começarmos com você.
Ele jogou o guardanapo em Patrícia, brincando.
— Não sou tão playboy quanto pensa. Nem sei por que tenho essa reputação.
— Porque é muito atraente.
Oh, mas que maravilha!, pensou, desconsolada. Por que não lhe disse que era o homem
com o qual sonhava todas as noites também?
— Atraente? — repetiu, parecendo genuinamente perplexo.
— Todas acham que é — disse Patrícia, procurando encobrir sua própria opinião sobre o
assunto. — E presume-se que um homem atraente seja... ocupado.
Sam abriu a boca, fitando-a intensamente. A tal ponto que Patrícia teve certeza de que lhe
perguntaria o que achava. Se achava que era atraente. Ela desejou que o deserto Sonoran
se abrisse e a engolisse.
— Acha que sou atraente?
— Você está bem — disse, dando de ombros.
— Acha que sou um playboy?
— Um pouco.
— Então a verdade é esta — ele ironizou.
— Que tal você me contar a verdade?
— Eu tive alguns... poderíamos chamar de casos de uma noite, só quando estava na
universidade e durante alguns anos após a graduação. Não me orgulho disso, mas você
deve saber. Ou, na verdade, deveria saber, se nós realmente fôssemos nos casar. Então
eu tive um relacionamento de dois anos com uma atriz que morava em Scottsdale. Saí com
uma modelo de Nova York, mas passei mais tempo em aeroportos do que com ela.
Conheci Melissa em um evento de caridade há dois anos e... você não está com fome?
Patrícia olhou para o prato intocado.
— Estou apenas tentando prestar atenção.
— É sua vez.
Como poderia lhe contar? O que Sam pensaria dela? Aos vinte anos, ser virgem parecia
razoável. Estivera viajando demais quando adolescente para desenvolver qualquer
relacionamento.
E os estudos haviam sido bastante difíceis. Ou talvez fosse apenas mais confortável
passar as noites de sexta-feira na biblioteca ou na companhia de amigas em bares de sol-
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teiras do que se amassando com rapazes da vizinhança.
Quando tinha vinte e cinco anos, já havia tido diversos relacionamentos. Mas nenhum a
envolvera em um amor avassalador que, julgava, devia ser pré-requisito para ir para a
cama com um homem.
Mas, ainda aos vinte e cinco anos, quando um jovem a chamara de pudica e fraca porque
não dormira com ele, Patrícia começara a reavaliar a situação.
Não era algo sobre o qual pensasse com frequência, mas estava ali. De alguma maneira
sabia que Sam trataria este "problema" com seriedade, mas também pressentia que a
julgaria mais frágil. Poderia até mesmo julgá-la frágil demais para participar daquela farsa
de noivado.
— Devo enviar de volta seu risoto? — indagou ele.
— Oh, não — disse Patrícia. — Vejamos, houve Belmondo. Era um instrutor de esqui em
Lausane, Suíça. Eu tinha dezoito anos.
Realmente houvera um Belmondo. De fato era instrutor de esqui. E Patrícia
verdadeiramente tinha dezoito anos na época. Mas o modo como suas palavras foram
ditas deixaram bastante espaço para Sam especular.
— O relacionamento não durou. Eu me mudei para os Estados Unidos, a fim de ir para a
universidade.
Era claro que não durara. Não havia nada para durar. Belmondo tinha quarenta e oito anos
de idade, uma esposa e três filhos. Nem mesmo se recordaria do nome dela ou de sua
aparência, já que tinha centenas de garotas a cada semestre.
— Então houve Steve. Frequentavamos o mesmo clube — prosseguiu Patrícia. —
Mantivemos o relacionamento firme até eu ser admitida na Barrington.
Steve conseguira um emprego no clube da universidade, no departamento pessoal, assim
como ela. E o companheiro de Steve, um consultor matrimonial do norte da cidade, com
frequência dissera a Patrícia que lhe encontraria um marido.
Claro, não fizera isso, mas esforçara-se bastante para marcar encontros com diversos
rapazes.
— Está bem, Belmondo e Steve — disse Sam. — Acho que consigo guardar a informação.
Patrícia relaxou. Até mesmo tentou saborear o risoto com especiarias. Começava a se
descontrair. Tudo funcionaria bem.
Iria à festa com Sam. Rex lhes faria algumas perguntas educadas, talvez até se
decepcionasse um pouco, mas Sam manteria o emprego. Teria feito um favor a um amigo
e poderia, apenas poderia, chamar sua atenção.
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Tinha uma semana para conseguir fazer Sam prestar atenção nela. Poderia dar conta de
tudo. Faria isso caso se propusesse realmente a fazer.
Já não estava mais nervosa. Seu rosto, até então acalorado e provavelmente vermelho,
estava fresco. A comida, até então relegada a segundo plano, mostrava-se deliciosa.
O champanhe maravilhoso, ela com o homem de seus sonhos... A vida estava ótima!
Sorriu quando Sam voltou a encher sua taça.
Foi quando ele fez a pergunta letal:
— E então, quando descobrimos que era amor?

CAPÍTULO V

O garfo de Patrícia bateu contra a porcelana do prato. Embora o restaurante estivesse


cheio e o nível de barulho rivalizasse com a música clássica ao fundo, diversos casais nas
mesas próximas se viraram.
para observá-la.
Ela tomou um gole de champanhe e as bolhas, tão doces, não a confortaram.
Era uma pergunta assustadora. Poderia ser honesta e dizer: "Comecei a pensar em você
desde a primeira vez que o vi. Mas minha relutância não me deixou perceber que estava
desesperadamente apaixonada. E, desde então, o sentimento se tornou amor".
— Acho que devíamos dizer que mantivemos nosso relacionamento em sigilo por causa do
trabalho — falou apenas.
— Não soou muito romântico.
— Não deve soar romântico. Deve apenas responder à pergunta.
— Acho que, se alguém me perguntar, direi que tenho trabalhado a seu lado, participado
de viagens de negócios com você, até mesmo a considerado uma boa amiga — disse
Sam. — Nada mais. Até o dia em que realmente lhe prestei atenção. E percebi que, por
baixo dos comportados terninhos acinzentados, batia o coração de uma mulher sensual e
vibrante que me deixa louco de desejo.
Ficaram se encarando. Por um instante, Patrícia imaginou se ele a estaria olhando de
verdade. Aspirou profundamente, mordeu o lábio inferior e obrigou-se a enfrentar aquele
olhar.
— Manter as aparências e o profissionalismo parece melhor — disse ela. — E mais
realista.
— E quanto ao chá de bebé de Olívía? — perguntou Sam. — Todas as outras funcionárias
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sabem que rompi com Melissa, e que nós dois não estamos noivos. E se Rex trocar
algumas palavras com aquelas senhoritas?
— Era com isso que eu estava preocupada, mas não acho que vá acontecer. Ninguém
conhece Melissa a não ser eu. E apenas a conheci porque minha sala fica a duas portas de
distância da sua.
— E porque ela uma vez lhe deu as chaves do carro e lhe disse para ir até o
estacionamento e ligar o ar-condicionado porque o calor ia arruinar seu penteado.
— Agora eu me lembro.
— Sempre achei que a ignorância de Melissa em fazer o ar-condicionado funcionar fosse
intencional.
Ambos riram à lembrança.
— A questão é que ninguém a conhece pessoalmente — prosseguiu Patrícia. — Apenas
sabem que uma mulher chamada Melissa existiu. E que constava da lista de convidados
para festas, como sua acompanhante.
— Isso jã é bem ruim.
— Andei pensando no assunto esta tarde. Tenho um plano.
— Seus planos são sempre bons.
— Tudo o que você terá de dizer é que Melissa era um código para se referir a mim. Então,
quando as fofoqueiras do escritório o ouviam falar sobre sair com Melissa, não saberiam
que estava se referindo a mim.
— Boa idéía! Ainda bem que os familiares dela eram contra o casamento e nunca
anunciaram oficialmente o noivado. Caso contrário, nossas fotografias teriam constado na
coluna social do jornal e Mildred Van Hess saberia.
— Por que a assistente de Rex saberia sobre a família Stanhope?
— Ela lê a coluna social todos os dias — disse Sam. — Sempre que vou para a sala de
Rex, conta alguma novidade sobre qual estrela de Hollywood está comprando apartamento
em Phoenix e qual líder de negócios está se casando. Nunca falei sobre Melissa com ela.
Agora estou feliz por ter me calado.
— Mas ela conhece o sobrenome Stanhope?
— Claro!
— Então suponho ter sido ótimo que a boa família de Melissa não tenha anunciado
oficialmente o noivado. Por que não fizeram isso?
— Porque acharam que eu estava tentando dar o golpe do baú.
— Você é tão bom quanto Melissa! — exclamou Patrícia, indignada.
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— Ouça, cresci em uma casa caindo aos pedaços — disse ele com gentileza, embora a
tensão em seu rosto deixasse evidente que a lembrança daqueles dias o magoava. — Ma-
mãe considerou um progresso quando nos mudamos para um trailer. Meu pai foi embora
quando eu era pequeno e mamãe morreu quando eu tinha onze anos. Comecei sem nada,
e a família Stanhope sempre se preocupou que eu terminasse não tendo nada também. Ou
pior, que eles tivessem de resgatar Melissa de um casamento desastroso.
— Você é melhor do que eles.
— Você é uma boa amiga. E uma noiva melhor do que Melissa.
Amiga. Noiva. Amiga. Noiva. Sam não fazia idéia de como as palavras a afetavam. E em
quanto Patrícia se empenhava para mudar os sentimentos dele. Um rapaz apareceu para
retirar os pratos no instante em que um garçom aproximava-se com uma bandeja.
— Apreciem o jantar — disse, enquanto colocava os pratos na mesa.
— Então amanhã não trabalharemos na parte da tarde — disse Sam, cortando um pedaço
do bife. — Encontraremos um vestido para você ir à festa. E falou que gostaria de cortar o
cabelo. O que acha de ir à manicure também?
Patrícia olhou para as unhas roídas.
— Não acho que causaria muito efeito. Mas acho melhor eu ir, já que a aparência não está
nada boa.
— Oh, você não faz ideia de como é interessante — disse Sam, fazendo-lhe um carinho no
cabelo.
Não notou a careta que Patrícia fez diante daquela palavra.
— Mas se tudo isso a deixa mais tranqüila em seu papel de noiva, quero que faça. A oferta
é minha. A menos que tenha um salão de beleza predileto, telefonarei esta noite para
Gascon e pedirei para arrumar um horário para amanhã à tarde.
— Gascon?
— É o dono do salão de beleza Gascon, o melhor de Phoenix. Normalmente é preciso
marcar horário com meses de antecedência, mas ele cresceu na minha vizinhança.
Jogamos basquete juntos. Encontrará um horário para você. Iremos logo após o almoço.
Apenas teremos de revisar aqueles currículos, não é mesmo?
— Sim.
Em minutos estavam debatendo acaloradamente os méritos dos diversos estudantes
universitários que desejavam trabalhar na Corporação Barrington quando se formassem.
O ocupado manobrista sentiu-se grato quando Patrícia disse que preferia buscar o carro
em vez de aguardar na fila. Sam a acompanhou até o automóvel, consciente de que ela
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caminhava um pouco adiante, mantendo uma distância condizente a dois amigos.
Uma distância razoável, nada íntima. Casais caminhando nas proximidades se abraçavam.
— Patrícia, temos outro problema. Ela tirou a chave da bolsa.
— Qual?
— Sei que combinamos não ter sexo, mas precisamos ao menos... nos tocar.
— Tocar? Como?
— Bem, sei que participamos daquele seminário sobre relacionamento entre gerentes e
assistentes. Dizia que gerentes não deviam colocar os braços nos ombros das pessoas de
sua equipe ou fazer comentários sobre sua aparência ou de qualquer maneira sugerir...
— Assédio sexual.
— Bem, procuro não ultrapassar a linha do comportamento profissional.
— Nunca ultrapassou.
— Mas acabei de perceber que a ideia de nosso noivado não funcionará a menos que eu
possa romper um bocadinho esta linha. Ao menos na festa.
— Entendo o que quer dizer.
— Estou falando de ficarmos de mãos dadas ou em eu colocar o braço sobre seus ombros.
— A expressão de Patrícia era suficiente para tornar o mais forte dos homens inseguro. —
Talvez até mesmo um beijo. Não será terrível, prometo.
Ele não conseguia decifrar a expressão da assistente, que virou abruptamente a cabeça e
enrubesceu.
— Suponho que não seja tão ruim quanto dissecar sapos nas aulas de ciências do primeiro
grau.
— Obrigado, Patrícia.
— O que tem em mente?
— Como Belmondo segurava sua mão? Ela o encarou.
— Belmondo?
— O instrutor de esqui.
— Oh, claro! Eu me esqueci de quem ele era por um momento.
Sam ficou imaginando se haveria tantos homens na vida de Patrícia a ponto de ela não
conseguir se lembrar de todos. Talvez a inocência de seu rosto sardento não fosse
verdadeira.
— Nós apenas... ficávamos de mãos dadas como qualquer outro casal, acho.
Sam pegou-lhe a mão, entrelaçando os dedos nos dela e tomando cuidado para não
apertar muito fortemente. Os dedos femininos eram delicados e pequenos. E uma das
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unhas arranhou levemente sua palma.
— Assim? — indagou ele.
Patrícia manteve o olhar fixo em uma janela do outro lado da rua. O que poderia achar
interessante em uma quitanda?
— E quanto a beijar Belmondo?- Ela o encarou.
— Eu nunca pensaria nisso... quer dizer, quando estava beijando. Nós nos beijávamos o
tempo todo. A toda oportunidade que tínhamos.
— Eu poderia beijar você?
— Agora?
— Não, eu gostaria de fazer uma solicitação por escrito.
— Está bem, pode me beijar.
— Apenas para praticar. Se estivermos em uma situação de necessidade, não quero que
seja esquisito.
— Está bem, vá em frente — disse Patrícia, sem fôlego. Fechou os olhos, erguendo o
rosto, Sam a encarou. Não sabia o que fazer. Talvez a incerteza viesse do fato de ela ter
tido um amante europeu. Estava habituada a amar homens com mais cultura do que ele
tinha.
Colocou a mão firmemente em suas costas e a puxou para si. O breve suspiro o fez
hesitar. Patrícia estava de olhos arregalados e então engoliu em seco.
Seria possível que não fosse tão sofisticada quanto aparentava ser? Não, por que razão o
estaria enganando? Por que uma mulher alegaria ter mais experiência sexual do que
tinha?
Sam tocou os lábios de Patrícia. Nunca sentiu tanta suavidade, e uma reação primitiva o
excitou. Voltou a beijá-la, dessa vez não para praticar ou manter o emprego. Não, era por
ele mesmo, porque algo naquele perfume delicado e no modo como os lábios se
entreabriam o atraía muito.
Beijou-a, tocando com gentileza os dentes cerrados e o contorno dos lábios. E então
subitamente parou, assustado. Manteve uma das mãos nas costas dela para sustentá-la,
mas afastou a cabeça.
— Desculpe-me — falou, a boca inesperadamente seca. — Foi mais do que o estritamente
necessário. Pode levar um tempo até eu descobrir o que é certo e o que é errado. Quando
somos colegas de trabalho, a linha é muito clara. Mas a situação atual é mais confusa.
— Oh, está tudo bem — disse Patrícia, pousando o rosto no peito dele. — A culpa é minha.
Eu não estava preparada.
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— Não, se a culpa é de alguém, é minha — protestou Sam. — Nós nos beijamos. Eu
gostei um pouco... muito. Só isso. Mas foi apenas um beijo. E você sabe o que dizem.
Patrícia olhou para cima, encontrou seu olhar e riu.
— Um beijo é apenas um beijo.
— Exatamente. E nós estamos em treinamento — disse ele. Ela assentiu, entusiasmada.
Sam não tinha vontade de deixá-la, mas sabia que, se a tivesse nos braços novamente,
não seria capaz de se conter. Iria beijá-la mais e mais vezes.
— Você sabe, seu emprego não está em questão — disse ele. Patrícia o encarou com
expressão indecifrável.
— Eu sei.
— O problema é com o meu.
— Também sei disso.
— Se você tiver vontade de voltar atrás, compreenderei.
— Sou sua amiga, lembra-se?
— Então vamos sair juntos à tarde. Você ainda acha que estará tudo bem?
— Claro — disse Patrícia, acomodando-se atrás do volante. — Pode marcar o corte de
cabelo com Gascon.
— Obrigado. Mais uma vez, obrigado.
Ela assentiu. Sem lhe dar um único olhar, ligou o carro e foi embora.
Sam ficou observando o automóvel durante muito tempo.
— Quer que eu pegue seu carro, senhor? — indagou o manobrista.
— Não, não, está tudo bem. Eu o encontrarei sozinho. O que Patrícia estaria querendo
dele? A caminho de casa, nos arredores da cidade, Sam continuava a fazer essa pergunta
a si mesmo. Concentrou-se tanto que se esqueceu da saída na rodovia e teve problemas
em voltar.
Sempre considerara a assistente um tanto inocente, talvez até uma solteirona, embora
jamais admitisse o uso de um termo tão incorreto.
No decorrer dos últimos seis meses, desenvolvera um senso de proteção em relação a
Patrícia. Como se fosse a irmã mais nova que nunca teve.
Sim, considerava-a uma irmã. Havia afeto, leveza e diversão no relacionamento dos dois.
Nunca a julgara complicada ou misteriosa.
Mas agora ficava imaginando se aquelas blusas discretas e os terninhos talhados para o
sucesso esconderiam uma mulher experiente, de bom nível cultural, sofisticada...
Seu tipo de vida sempre o fez precisar de favores. Mas o que Patrícia estaria querendo
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dele? O que esperaria em troca de participar daquela farsa maluca? Dinheiro, uma
promoção, uma transferência?
Não importava o que fosse. Sam prometeu a si mesmo que lhe daria.

CAPITULO VI
Patrícia abriu uma revista de moda e achou a página que havia marcado.
— É assim que eu quero.
Sentado diante dela à mesa de consultas, Gascon balançou a cabeça.
— Esta modelo não tem sobrancelhas. Pode parecer bonito nas passarelas, mas não na
vida real.
— Bem, há outra — Patrícia falou, mudando para a página seguinte. — Quero ficar com
esta aparência.
Gascon puxou a revista e analisou a modelo. Retorceu os lábios finos em sinal de
desaprovação.
— Sério demais. Otimo se você quiser ir para uma prisão de segurança máxima, mas nada
adequado para... a mulher de Sam.
— O que você sugere então? — indagou Patrícia, certa de que seu rosto se tornara do
mesmo tom de rosa do papel de parede do salão de beleza.
— Confia em mim?
Ela analisou Gascon. O dono do salão a cumprimentara com entusiasmo no saguão,
conduzindo-a até sua sala. Pelo modo como outras mulheres a olharam ao passar, esse
encontro era raro e uma comodidade muito preciosa.
— Você é amigo de Sam. Como ele quer que uma mulher fique?
— Sim, sou amigo de Sam. Crescemos em um ambiente muito pobre, a tal ponto que um
homem tão bem sucedido quanto ele poderia se esquecer disso. E de mim. Mas ele não é
assim. Emprestou-me dinheiro para abrir este salão. Sempre lhe serei grato.
— Você me tornaria linda... para ele? Gascon sorriu.
— Não posso torná-la linda, Patrícia. Deus já cuidou dessa tarefa. Faço meu trabalho. E
lhe darei um certo... brilho!
Brilho parecia ser algo que Sam gostaria em uma mulher.
Três horas mais tarde, Gascon destrancava a porta do salão de beleza para deixar Sam
entrar. Ele acabava de vir do escritório e usava calça comprida caqui, camisa pólo azul-
marinho. O blazer estava sobre os ombros.
— E então, companheiro, como vai? — indagou Sam, e os dois se abraçaram. —
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Desculpe-me pelo atraso. Maria vai ficar aborrecida?
— Talvez. Nesta noite devo tomar conta das crianças...
— Diga-lhe que peço desculpas. Vou levar Patrícia. — Teve problemas em reconhecer a
loura que se aproximava, vinda dos fundos do salão. Arregalou os olhos. — Quem é ela?
A loura usava vestido de seda rosa claro, que revelava os contornos de seu corpo. Sam
ficou de queixo caído. Poderia aquela mulher de parar o trânsito, absolutamente eston-
teante, ser... .
— Patrícia?
— Não precisa agir como se estivesse chocado — Gascon o advertiu baixinho.
Mas Sam estava. Nunca a vira assim. O primeiro pensamento que lhe ocorreu foi que
aquela Patrícia poderia ter o homem que quisesse. Não precisava passar a noite de sexta-
feira ajudando-o a amansar as preocupações de Rex quanto à sua vida pessoal.
— Sam? Você está bem? — perguntou Patrícia.
— Apenas atordoado.
Ela sorriu, a espécie de sorriso que fazia suas sardas ficarem mais salientes e graciosas.
— É mesmo?
— Sim, é mesmo.
— Por minha causa?
— Oh, sim, por sua causa.
— Já basta — falou Gascon, rompendo o silêncio. — Fora daqui, vocês dois. Minha mulher
vai me matar se eu a fizer atrasar-se para o jogo de cartas.
— Obrigada, Gascon — falou Patrícia.
— Foi um prazer — respondeu ele, beijando-lhe a mão. — Oh, belo diamante. Fico feliz em
vê-lo em seu dedo, e não em Melissa. Agora lembre-se, nada de roer unhas. Você
arruinará o trabalho de minha manicure e ela ficará desolada.
— Prometo.
— E aqui — falou Gascon, segurando uma sacola plástica com olhar desaprovador — está
seu terninho.
Sam pegou a sacola, estendendo a mão para tocar o tecido familiar e reconfortante de
gabardine. Olhou para a calçada, para onde Patrícia caminhara. Já angariava assobios
masculinos, buzinadas e viradas de cabeça dos transeuntes.
Olhou para a sacola. Patrícia Peel era uma colega de trabalho responsável, confiável e que
não atraía muita atenção. Usava ternos acinzentados, sapatos discretos e blusas de
colarinho alto.
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Ao menos vestia-se assim quando estava no escritório.
E então havia a Patrícia Peel que estava fazendo o trânsito parar na rua Alejandro. A
Patrícia Peel que o obrigara a fitá-la boquiaberto, de olhos arregalados. A Patrícia Peel que
o deixava excitado.
Puxa! Nunca, em sua carreira, tivera um pensamento errante sobre uma colega. Mantinha
a vida pessoal estritamente no âmbito pessoal. E a vida profissional centrada
exclusivamente no trabalho.
De fato, a amizade com Patrícia era meio esquisita, mas apenas se desenvolvera porque
ele tivera certeza absoluta de que não se transformaria em algo mais.
Mas a mulher em pé na calçada parecia...
— Perigosa — falou Gascon. — Você está vivendo uma brincadeira muito perigosa.
Gascon era o único amigo em quem Sam confiava a ponto de contar sobre aquele noivado.
— Começo a perceber que sim.
— Mas é um perigo bonito. E, agora, fora de meu salão!
— Quanto lhe devo?
Gascon deu de ombros e Sam foi para a calçada. Já havia saído com modelos e atrizes, e
por isso estava acostumado a mulheres que nem se incomodavam com assobios e coisas
assim. Patrícia, entretanto, parecia melindrada e muito embaraçada. Especialmente
quando um homem colocou a cabeça para fora do carro e gritou:
— Querida, eu amo você!
Ela parecia verdadeiramente inexperiente. De tudo, parecia até agoniada por chamar tanta
atenção.
— Meu carro está estacionado no próximo quarteirão -disse Sam, tocando-lhe o braço. —
Desculpe o atraso. Eu estava ao telefone com Vail. As lojas estão para fechar, e por isso
teremos de comprar o vestido para a festa amanhã. Pensei em jantar fora, se você quiser,
e depois, caso concorde, poderíamos ir a minha casa. Tenho uma coleção de peças de
arte Pueblo que você devia ver. Rex ajudou-me a selecionar dois itens em um leilão de
caridade no mês passado.
Estava prestes a lhe contar mais quando notou uma figura familiar no quiosque de jornais,
no quarteirão seguinte. Mildred Van Hess estava com o nariz metido em um exemplar da
revista Phoenix Life. Pelo menos parecia ser Mildred.
O terno profissional na altura dos joelhos, a figura de aparência esmerada. Tinha de ser
ela. Se ao menos conseguisse empurrar Patrícia, para que dessem a volta no quarteirão...
Subitamente, Mildred olhou para cima, como que pressentindo a aproximação de ambos.
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Não havia tempo para correr.
— Querida, espero que você me perdoe pelo que irei fazer. — Então Sam agarrou-a pela
cintura, comprimiu-a firmemente de encontro ao peito e a beijou.
Patrícia arregalou os olhos e virou a cabeça, como para afastar-se, mas Sam a manteve
presa, segurando-lhe a nuca. O longo trabalho de Gascon foi arruinado quando as
cascatas de cachos escaparam dos grampos.
Ela gemeu e submeteu-se ao beijo. Abriu a boca e ele viu-se beijando-a pelo prazer do ato.
Mal se lembrava de que fazia isso com o propósito de enganar a assistente de Rex.
Somente quando ele a soltou, Patrícia recordou-se de que estava em uma rua
movimentada. Caso contrário, teria implorado por mais. Encarou-o e viu em seu olhar calor
mesclado a espanto.
Será que Sam finalmente percebera? Teria passado a noite anterior se revirando na cama,
como ela? Teria descoberto que Patrícia o amava e que o sentimento era recíproco? De
que outro modo poderia explicar aquele beijo impulsivo?
— Desculpe-me.
— Oh, não, Sam. Eu devo lhe dizer que sempre me senti como...
Notou que ele não a escutava, seu olhar estava fixo ern um ponto adiante.
— Otimo, ela foi embora.
Patrícia sentiu-se como um balão voando para o infinito.
— Quem foi embora?
— Mildred Van Hess.
— Mildred? E o que fazia por aqui?
— Juro que a vi. Estava em pé perto do quiosque.
— Mas apenas passam das cinco horas. Ela não deixa o escritório antes das seis ou sete.
— Também estou surpreso, mas eu poderia jurar que era ela. Não, não olhe agora.
Mildred nos viu e por isso beijei você. Ali. Ela cruzou a rua Alejandro e agora está naquela
sapataria.
— Oh! — Humilhada e confusa, Patrícia tentou ajeitar o penteado.
— Deixe assim mesmo — falou Sam. — Está com uma aparência fantástica. Obrigado por
ser boa esportista e deixar-me beijá-la. Eu a vi, mas não tive tempo suficiente para avisar
você.
— Sem problemas — Patrícia falou baixinho. Poderia dar um chute em si mesma. Que tola
fora em pensar que Sam a tinha notado! Mesmo depois de três horas fazendo as unhas,
arrumando o cabelo, sendo maquiada e com roupas novas.
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Boa esportista? Ele a chamara de boa esportista?
Precisaria de mais. Embora em sua falta de experiência nem fizesse ideia do que
significava esse "mais". O beijo a afetou mais do que a Sam. Procurou afugentar uma
lágrima e passou o dedo pelo canto de cada olho, a fim de evitar que o rímel escorresse.
— Pronta para jantar? — perguntou ele.
— Claro.
— Amigos? — indagou, estendendo a mão.
Talvez isso seja tudo o que ele tenha a me oferecer, pensou desconsolada.
Se era apenas amizade, poderiam continuar a ser...
— Amigos.
Apertaram as mãos.
Não, pensou Patrícia. Não desistiria. Aquele beijo fora apenas o começo...
O passeio até o restaurante El Matedor, no carro conversível de Sam, acabou com o que
restava do penteado de Gascon. Mas o talento do cabeleireiro era tamanho que, quando o
manobrista abriu a porta de passageiros e ela desceu, o caimento do cabelo tinha o
mesmo efeito observado em mulheres que iam quase todos os dias ao salão de beleza.
O jantar estava delicioso. Patrícia relaxou ao perceber que era um pouco diferente dos
diversos jantares de negócios e refeições rápidas que haviam partilhado até então.
Era claro, Sam normalmente não tinha problemas em concatenar palavras para formar
sentenças completas. E era incomum perder a trilha do pensamento e simplesmente dizer
"puxa!" de tempos em tempos.
Podia estar cansado, era verdade. Patrícia certamente estava. Os últimos dois dias tinham
sido exaustivos. Por isso, quando Sam sugeriu que fossem para a casa dele após a
sobremesa, ela quase disse "não". Um breve olhar para seu relógio de pulso confirmou que
já passava das dez horas; Mas a festa de Rex seria na noite seguinte e, se queria
conversar de modo inteligente sobre a arte Pueblo que o presidente da empresa encorajara
Sam a comprar, era melhor que a conhecesse.
O ar do deserto estava frio. O trajeto foi percorrido com tranquilidade e ela mal notou como
os próprios pensamentos iam para o nada. Quando Sam estacionou diante de sua casa,
Patrícia não escondeu a admiração. A arquitetura era hispânica colonial.
— Comprei-a cinco anos atrás — explicou ele. — Não era habitada há quase vinte anos.
Eu a reformei, começando pelas telhas quebradas e o sótão. Contratei metade de meus
companheiros de antiga vizinhança para colocá-la em ordem.
— É linda!
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Desceram do carro e caminharam até a pesada porta.
— Diga a Rex que você adora a fonte — falou Sam, apontando para um anjo que cuspia
água pela boca. — Ele me deu de presente.
— Vou me lembrar disso.
Sam destrancou a porta, deixou-a passar e a acompanhou até o saguão. Acendeu a luz,
fazendo com que as doze luminárias penduradas no teto da sala de estar se acendessem.
— Sente-se — convidou, colocando as chaves sobre um altar mexicano que servia como
console. — Farei café para nós.
O ambiente era acolhedor. Muito confortável. As almofadas macias do sofá, os móveis
bonitos... Patrícia puxou o vestido para baixo o máximo possível e tirou os sapatos.
Ouviu Sam como se estivesse a uma boa distância. A água correndo, a porta da geladeira
sendo aberta e fechada, um grito lhe indagando se gostava de creme e açúcar no café.
Ela não respondeu de imediato porque pareceu-lhe um esforço demasiado lembrar-se de
que nem mesmo tomava café. O perfume másculo parecia mais vívido do que em seus
sonhos. Ia conquistar aquele homem! E aquele era o momento certo. Aquela era a semana
certa. Oh, aquela era a noite certa!
CAPITULO VII

Sam, eu amo você. Sempre amei. Ela gemeu baixinho. Desejo Satisfeito uma vez, duas
vezes, três vezes noite adentro fizeram-no refém da suavidade e da maciez daqueles
quadris. Sam cheirava a almíscar, paixão e café...
Café?
Patrícia aspirou o cheiro forte de café e chocolate. Espreguiçou-se, sentindo-se leve como
o ar ao ter lençóis de seda acariciando suas pernas nuas.
Não tenho uma boa noite de sono assim desde...Abriu os olhos e sentou-se, aprumada.
Oh, céus, o que fizera?
O espaçoso quarto onde se encontrava era em tom salmão, as cortinas de renda alvas
filtrando a luz do sol e fazendo as paredes parecerem esponja. A cama era entalhada. A
um canto do quarto havia uma cômoda com gavetas e um belo abajur. Uma coleção de
troféus esportivos e medalhas acomodava-se nas três prateleiras.
Sem dúvida alguma era o quarto de Sam.
O que ela fizera? O que Sam fizera?
Suas recordações da noite anterior eram claras, mas apenas até o momento em que
esteve aguardando na poltrona por uma xícara de café. Não se recordava de ter ido para a
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cama.
Com ele? Sem ele?
O vestido que Gascon lhe arrumara estava enrolado ao redor dos quadris. O fato de ainda
estar em seu corpo, com o zíper até o pescoço e a calcinha no lugar, lhe dava um certo
grau de conforto.
Embora chegasse a decepcionante e contraditória conclusão de que nada, absolutamente
nada, tinha acontecido.
Mas havia um sonho. E embora com frequência sonhasse com ele, sonhos que jamais
revelaria a alguém, tinha certeza de que o sonho da noite anterior fora de alguma maneira
diferente. Mais vívido. Mais real?
Se fora real, então Sam devia saber. Saber de tudo. Tudo sobre ela, não apenas a respeito
dos assuntos que podiam conversar a uma mesa de restaurante. Será que a julgava
extravagante? Ou antiquada? Pior, na certa a julgava uma inocente que não poderia ser
sua parceira. "Preciso sair daqui e pensar com clareza", decidiu, ficando em pé e
procurando desamassar o vestido. Sapatos. Bolsa. Chaves. Nada.
Olhou debaixo da cama, sobre a cômoda, por baixo da colcha. Até mesmo ajoelhou-se no
chão para ver melhor.
— Tentando encontrar algo? — perguntou Sam.
Ela se virou e ficou em pé, tomando o cuidado de puxar a bainha do vestido a fim de cobrir
a calcinha. Sam estava ao batente, usando calça comprida e camisa pólo. A xícara de café
em sua mão parecia tentadora. Poderia clarar suas idéias. E a mente de Patrícia precisava
mais do que nunca de clareza.
— Como você... se sente esta manhã? — indagou ela, aprumando-se e aceitando o café.
— Bem descansado. Não havia percebido quanto estava tenso durante toda a semana.
Com toda esta tensão aliviada, sinto-me ótimo. E quanto a você?
Patrícia arregalou os olhos.
— Alívio de tensão? A noite passada foi um alívio de tensão?
— Oh, sim — ele concordou alegremente. — Sínto-me melhor do que em semanas!
— Então é apenas algo físico?
Sam passou a língua pelo lábio inferior.
— Claro que sim. Por que seria qualquer outra coisa?
— Você alguma vez sentiu alguma espécie de... reverência por isto?
Sam pensou longamente.
— Sabe, eu deveria.
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— Preciso ir — disse Patrícia, ajeitando o cabelo em um rabo-de-cavalo e então
descobrindo que não tinha uma presilha. Nem mesmo um elástico. — Pensei que eu o
conhecesse.
— E conhece. Pois agora nós nos conhecemos melhor.
— Isso é tudo? "Nós nos conhecemos melhor"? E houve alívio de tensão física?
— Grande combinação, não foi?
— Já vou indo.
— Eu a levarei ao salão de Gascon para que pegue seu carro. Quer tomar café da manhã
primeiro?
— Acho que devo ir agora. Passou ao lado de Sam.
— Patrícia, você está bem? — ele indagou, seguindo-a escadaria abaixo até a sala de
estar. — Parece... agitada. Quer reconsiderar este acordo? Eu poderia ligar para Rex
imediatamente e lhe explicar que Melissa e eu rompemos e que ela não comparecerá à
festa de aposentadoria.
— Estou bem.
Certamente estou bem. Acabei de descobrir que o homem a quem aparentemente dei
minha virgindade... Mas que frase antiquada, porém verdadeira! Bem, este homem acha
que fazer amor comigo equivale a um exercício de trinta minutos em uma bicicleta ou vinte
em uma piscina, pensou Patrícia.
Oh, como pude ser tão tola?
Um sapato estava perto do sofá. Ela ficou de joelhos para procurar o outro.
— Não consigo me lembrar de nada da noite passada! — queixou-se, capitulando à
frustração.
— E o que há para lembrar? — perguntou Sam. — Nós jantamos e viemos para cá.
— E o viemos para cá que se apagou de minha mente! A parte do alívio da tensão física.
— Você se refere ao sono?
— Antes disso.
— Não houve nada antes disso.
Patrícia olhou para cima, esquecendo-se do sapato. Estava prestes a lhe dizer que havia
um lápis e um papel embaixo do sofá. Mas o comunicado sobre a localização de objetos
domésticos teria de aguardar.
— Não aconteceu nada?
— Nada.
— Absolutamente nada?
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— Absolutamente nada.
Patrícia devia sentir-se feliz. Satisfeita. Aliviada. Física, mentalmente, ou ambas as coisas.
Mas em vez disso estava deprimida.
— Nem mesmo alguma... coisa?
— Não. Você dormiu.
— Sei desta parte.
— Na poltrona. Bem aqui.
Ela olhou acusadoramente para a poltrona.
— E depois? — indagou, estendendo a mão para resgatar o sapato de debaixo de uma
mesinha.
— E então pensei que você fosse machucar o pescoço se dormisse aí. Por isso a carreguei
para a cama.
— Você...me carregou? — A imagem que veio à mente de Patrícia assemelhava-se a que
vira num filme romântico. Mas teria sido assim? — Em seus braços?
— Com os pés seria difícil.
Ela se levantou, calçou os sapatos e ganhou diversos centímetros de altura. Mesmo assim,
teve de levantar a cabeça para encontrar o olhar de Sam. Como Gascon a persuadira a
desistir de seus sapatos tão confortáveis em prol de saltos agulha?
— E então?
— E então nada. Fui dormir no quarto de hóspedes.
— Fez isto? É aí que entra a parte sobre alívio de tensão?
— Foi a melhor noite de sono que tive na semana. Acha que eu me aproveitaria de você?
De nossa amizade?
Na verdade, não. Mas perguntou-se se devia se preocupar por Sam não ter feito isso.
— Desculpe-me. Eu estava um tanto confusa. Sabe como é, acordar na casa de um
homem... Sinto muito.
— Experimente isto.
Sam deu-lhe o café e, pousando a mão forte no cotovelo de Patrícia, guiou-a pelas portas
de correr de vidro até o pátio, que dava para o vale do deserto. Ofereceu-lhe uma poltrona
de vime com almofada, próxima à piscina. A água parecia fresca e reconfortante.
— Eu estava acabando de preparar o café da manhã — disse ele. — Trarei para cá. Tome
devagar pois está quente.
Patrícia ordenou-se a permanecer calma enquanto o via desaparecer rumo à cozinha.
Tomou um gole do café com aroma de chocolate e aspirou o ar do deserto.
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Um vento sibilante, refrescado pela noite, trouxe o cheiro de flores. Vinha das montanhas.
Estava habituada a sonhar com Sam para então guardá-los em uma preciosa caixinha.
Não estava acostumada, entretanto, a sonhar na cama dele enquanto Sam a observava!
Ele retornou com uma bandeja contendo frutas, torradas e ovos mexidos. Patrícia sentia-se
renovada o suficiente para ajudá-lo. Foi até a cozinha, pegou uma jarra com suco de
laranja e dois copos.
— Um brinde a hoje à noite — disse Sam, tocando seu copo no dela. — A festa de
aposentadoria. Nem sei dizer quanto lhe sou grato. Se eu puder fazer alguma coisa para
retribuir, basta falar.
— Não faça nada. Meu gesto não é mercenário.
— Eu sei, mas há alguma coisa que você gostaria de obter... em troca?
— Nada.
— Nada?
— Bem, há algo.
— Pois diga. E seu.
— Quero uma de suas camisas porque não me sinto exatamente vestida esta manhã. A
ideia de Gascon sobre a altura de uma saia é quase indecente.

— Patrícia, querida, onde você esteve? — A pergunta da mãe foi a primeira coisa que ela
ouviu quando atendeu o telefone. — Liguei a noite toda!
— Oh, desculpe. Acabei de chegar.
— Mas é uma hora da tarde! — disse a sra. Peel. — Espero que você tenha se divertido.
— Eu estava... na casa de uma pessoa amiga.
— E esta pessoa é homem?
— Bem, sim, mas eu dormi durante a maior parte do tempo.
— Oh, céus! Gostaria que você se mudasse para Paris. Os homens franceses não são tão
aborrecidos quanto os americanos.
— Mamãe, não é nada disso.
Quando Sam a deixou no estacionamento de Gascon, após uma rápida ida ao shopping
para a compra do vestido perfeito para a festa, beijara-a no rosto. Não havia realmente
necessidade de praticar mais beijos românticos.
Mas o aperto de mão especial com que se brindaram ao dizer "adeus" parecia não bastar
para a proximidade conspiratória atual.
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O relacionamento dos dois voltaria a ser o mesmo? Mais do que isso, como torná-lo mais
íntimo quando Sam teimava em vê-la como uma amiga? E nem mesmo uma amiga
próxima o bastante para lhe fazer um favor sem esperar nada em troca?
Deixarei Barrington e Phoenix quando isto terminar. Jurou Patrícia ao ter uma visão muito
clara e súbita da realidade. Caso ficasse, seria humilhante demais. E um dia teria de vê-lo
casar-se com outra mulher. Seria doloroso demais. A menos que, por algum milagre, Sam
viesse a saber da profundidade de seus sentimentos e isso alterasse o que se passava em
seu coração. Teria de lhe mostrar que era a mulher certa para ele.
Empurrou as mangas da camisa de Sam até a altura dos cotovelos, aspirando
profundamente o perfume.
— Patrícia, está ouvindo?
— Desculpe, mamãe. O que estava dizendo?
— Telefonei na noite passada porque estou pensando em tirar o final de semana para vê-
la. Presumi que você estaria em casa às sete horas em uma noite de sexta-feira, embora o
restante do mundo saia para encontros.
— Mamãe!
— E então voltei a ligar às oito e então às oito e meia. Sabe, com sua habilidade em
idiomas, diplomacia e com todas as viagens que fez comigo e seu pai, fico surpresa por
não ser mais atirada. Mas espero que a noite passada seja um indício de que isso está
mudando.
— Em que final de semana você está pensando? — perguntou Patrícia, ignorando o
sermão materno.
— O próximo.
— Claro. Não tenho nenhum compromisso.
Oficialmente noiva. Rex só partiria para sua viagem de volta ao mundo em duas semanas.
Não ajudaria muito ter sua mãe por perto. — Mamãe, eu me esqueci. Vou estar muito
ocupada com o trabalho.
— E quanto ao final de semana seguinte? Patrícia fez um cálculo rápido.
— Acho improvável. Talvez um pouco mais adiante... no outono.
— Você está mais ocupada com este novo amigo do que gosta de admitir.
— Não estou ocupada com ele.
— Está bem. Diga como quiser. Mas sou mãe e sei o que está acontecendo. Fico feliz por
você. Telefonarei novamente em poucos dias, para saber se haverá uma data convemente
para minha ida. Au revoirl
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Patrícia colocou o fone no gancho, deixando escorregar a sacola com o vestido para a
festa de aposentadoria, sua maleta e a correspondência do dia anterior.
Aprumou-se, pegou a sacola, a maleta e foi para o quarto situado nos fundos do
apartamento. Ligou o rádio na música mais provocante que encontrou e descobriu que
tinha apenas seis horas para sonhar acordada e então transformar-se na mulher mais linda
e exuberante que Sam já vira.
Houvera algo especial quando se beijaram. Talvez só ela tivesse sentido porque era
virgem, mais sensível a essas coisas. Mas houvera uma centelha. Certamente poderia
transformar-se em uma chama potente.
Caso falhasse e Sam simplesmente lhe dissesse "muito obrigado" ao final do noivado, pelo
menos ela saberia que tentara conquistar o coração do homem que amava.

CAPÍTULO VIII

Sam ajustou o colarinho da camisa branca e formal. Flagrou-se assobiando uma balada
romântica.
— Sam Wainwright, você está perdendo o juízo — falou ao espelho. — Será um evento de
negócios. De negócios, ouviu bem?
Sobre a cômoda estava sua lista. Fazia anotações para cada festa da Barrington à qual
comparecia. Até mesmo após quinze anos não confiava na memória para lembrar-se de
todas as pessoas que precisavam de um tapinha nas costas e das recém-promovidas ou
contratadas que deviam ser apresentadas a alguém.
Reviu as a notações daquela noite:
1. Comprimentar o vice-presidente do Texas por ter aprimorado o movimento do Dallas
Barrington Spa e estar adiantado dois meses no cronograma.
2. Comprimentar Lucas Hunter do departamento jurídico e sua esposa, Olívia, pela
gravidez.
3. Aproximar Kyle Prentice, da divisão de novos produtos, do gerente da divisão oeste. A
divisão oeste precisa de alguma ajuda do departamento de novos produtos.
4. Cumprimentar Sophia Shepherd pela promoção ao cargo de assistente de Rex III (ela o
conhece?). Apresentá-la a Mike, do setor de correspondência.
Sam se deteve no item quatro. Lembrou-se de que o jovem que entregava correspondência
em sua sala duas vezes por dia mencionara que achava Sophia Shepherd que a moça
parecia hesitante em aceitar convites.
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Sam normalmente limitava suas intromissões a assuntos que ajudariam a corporação.
Bancar o cupido não fazia parte de seu jeito de ser. Mas Mike parecia muito interessado
nela e ele desejava ajudá-lo.
— Por que estou fazendo isso? Será que me tornei um cupido?
Devia pensar na corporação. De fato, os poucos lembretes que anotara para a festa
mostravam-se pálidos, comparado à importante tarefa a que se propusera naquela noite
apresentar Patrícia a Rex como sua noiva.
Esse objetivo era tão importante, tão vital para seu futuro que ele amassou a lista e a jogou
fora. O emprego era tudo, mais do que o contracheque ou até mesmo o prestígio ou
satisfação de ser o melhor no que fazia.
Não, seu emprego era uma afirmação de que ele não era apenas um garoto de subúrbio
pobre. Superara todos os obstáculos: pobreza, uma escola pública que não tinha dinheiro
suficiente para comprar livros, a tentação de gangues que recrutaram seus colegas, as
longas horas trabalhando em dois empregos de meio período para terminar a universidade.
Passou o dedo pela carta com inscrições em relevo que estavam sobre a cômoda. Fazia
dezesseis anos que aquele papel fora dobrado duas vezes para caber em um envelope
comercial. Mas era mais precioso para ele do que uma obra de arte.
Era uma carta de Rex II, acolhendo-o na família Barrington.
“Há um fogo dentro de você, a espécie de fogo que faz um homem realizar grandes feitos.
Você me deixará orgulhoso, Sam, tão orgulhoso quanto estou de meu próprio filho, que
tem sua idade mas nunca foi testado pelas circunstancias, do modo como você foi. Eu me
sentiria honrado se aceitasse um cargo em nossa companhia. Caso aceite, garanto-lhe que
o céu será o único limite à sua ambição e trabalho duro.”
Quando Sam recebera aquela carta, gritara tão alto que os vizinhos discaram para a
polícia. E aquela vizinhança estava habituada à violência.
Precisara explicar à polícia e à multidão que se juntara do lado de fora de sua quitinete que
havia conquistado o emprego de seus sonhos.
Sam fazia o possível para deixar Rex orgulhoso da decisão de contratá-lo. Era o primeiro a
chegar ao escritório, pela manhã, e o último a sair, à noite.
Fora ao alfaiate de Rex com seu primeiro contracheque e para a loja de camisas
frequentada por ele com o segundo. Cultivava gosto por vinhos, arte navaho e móveis em
estilo colonial hispânico.
Exatamente como Rex II.
De fato, Rex era a razão de Sam ter achado Melissa Stanhope tão atraente. Ela era de boa
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família, bonita e culta. E curiosamente também fora Rex II o motivador do rompimento com
Melissa, embora sem o saber. Ele lhe relatara que a esposa, morta havia quinze anos, fora
sua alma gêmea.
Sam sabia que ele e Melissa eram tão diferentes que jamais poderia descrevê-la desse
modo. Não era sua alma gêmea. Era um troféu.
O que Rex acharia de Patrícia como sua noiva?, pensou ao pegar o paletó e ajeitá-lo.
Era bonita, amigável e trabalhava duro. Que contraste em relação a Melissa! Na verdade,
achava que Rex julgaria Patrícia a mulher perfeita para acompanhá-lo.
Fez uma pausa diante do altar mexicano no saguão central. Estivera procurando por suas
chaves mas agora essa já não parecia uma procura tão importante. Patrícia... perfeita para
ele? Aquela farsa já havia ido longe demais. — Não estamos falando de uma noiva de
verdade! Pegou as chaves, ligou o sistema de segurança e saiu para o calor. Quando
entrou no carro, ficou imaginando se aquela encenação seria uma ideia terrível.
Ele poderia, deveria, diria a Rex que havia rompido com Melissa. Que não tinha noiva,
namorada, nem perspectiva de casamento.
Mas o foco daquela noite deveria estar em Rex e não na situação marital de um
funcionário. Pois bem! Se a encenação sobre o noivado tinha o poder de deixar Rex
satisfeito e convencê-lo de que Sam ainda era uma boa contratação, então que
acontecesse.
Dirigiu pela estrada à toda. Ao aproximar-se do prédio de Patrícia flagrou-se
desesperadamente feliz. Até levava flores!
Estendeu-lhe o buque assim que entrou no apartamento.
— Aqui estão — disse, meio sem jeito. — Nem sei porque as comprei. Coloque-as na
água. Patrícia escondeu um sorriso.
— É um agradecimento adiantado por tudo o que você fará esta noite.
Ela pegou as flores e as levou até a cozinha, colocando-as em um vaso. Flores eram
flores. Um bom começo.
Voltou à sala de estar decorada com móveis e peças exóticas. Um divã zulu, da África,
dominava o ambiente, complementado de modo agradável por um trono de bambu dourado
de Bancok e uma peça de cetim trançado do Egito.
Os móveis elegantes eram suavizados por enormes almofadas e rolos feitos de tecido
branco, que Patrícia comprara em uma lojinha na Suíça, próxima à escola onde estudara.
— Lembra-se? Meus pais eram diplomatas — falou, colocando o vaso sobre a mesa
defronte à janela. — Por isso meu apartamento tem a aparência das Nações Unidas.
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— E muito simpático — falou Sam, e então observou-a dos pés à cabeça. — Você está
com aparência ótima. Será a bela do baile.
Para uma festa de aposentadoria, Patrícia escolhera um vestido mais conservador do que
aquele usado na noite anterior. Era de chiffon verde-claro. Salientava os seios e ia até os
calcanhares.
Gascon lhe ensinara a fazer um coque francês e a deixar mechas caindo pelo pescoço.
Conseguira domar quase todas as madeixas revoltas de seu cabelo. Seguira as sugestões
de maquiagem do cabeleireiro, usando um batom rosa que tornara seus lábios cheios e
tentadores.
— Puxa! — Sam falou simplesmente.
Patrícia nunca gostara de morar em um lugar pequeno, mas os preços de moradia eram
altos em Phoenix e aquele apartamento de um quarto se encaixava em seu orçamento.
A decoração a agradava muito. Pela primeira vez em seis meses, ela abençoou a
experiência acumulada em vinte e nove anos como filha de diplomatas.
Sam levantou-se. Ficaram bem próximos. Tanto que os seios de Patrícia quase roçavam
na camisa branca. Ele estava com olheiras bem suaves. Os braços jaziam ao longo do
corpo, como se prestes a abraçá-la.
Ela aproveitou a excelente oportunidade e o beijou levemente nos lábios.
— Para praticar — disse com voz rouca e com toda a sofisticação que pôde reunir.
Sam não disse uma palavra, não se afastou, nem mesmo a fez lembrar-se de que já
haviam praticado bastante. Em vez disso, tomou-a nos braços e a beijou. Como se para lhe
mostrar como realmente isso devia ser feito.
Patrícia submeteu-se ao poder daqueles lábios e ao despertar de sentidos que nem
mesmo sabia possuir. Quando finalmente Sam a soltou, passaram-se diversos segundos
antes que um dos dois conseguisse falar.
— Desculpe... — ele começou a dizer, mas Patrícia colocou um dedo em seus lábios.
Aqueles lábios fortes e lindos que ainda estavam úmidos por causa do beijo. — Apenas
treino — disse por fim.
— Apenas treino — concordou Patrícia.
Ambos sabiam que, se deixassem o apartamento naquele momento, chegariam à festa na
hora exata e não com quinze minutos de atraso, como mandava a etiqueta. Mesmo assim,
quando Sam ofereceu a Patrícia a minúscula bolsa branca de noite, ela não disse uma
palavra.
Em vez disso, considerou que havia algo naquele beijo. Ele sentira alguma coisa. Alguma
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coisa que podia se transformar em amor.
Embora os eventos da Corporação Barrington normalmente acontecessem nos domínios
da própria empresa, o Phoenix Barrington era um spa pequeno e íntimo, acolhedor demais
para uma festa tão grandiosa quanto a da aposentadoria de Rex. Festa que incluía a
presença dos funcionários, dos poderosos vice-presidentes até os garotos de recados dos
restaurantes Barrington. Felizmente, o gerente do local onde a festa ocorreria havia
começado a carreira na corporação e fechara o restaurante de seu hotel, chamado Mary
Elaine's, para que pudesse ser usado naquela noite.
Patrícia e Sam deixaram o carro com o manobrista e se apressaram a atravessar a ponte
do lago Necklace, fazendo uma pausa para admirar a beleza da vista.
Cumprimentaram diversas pessoas do departamento de contabilidade. Haviam se reunido
mais cedo para uma bebida no saguão. Sam pareceu levemente confuso quando Rachel,
pertencente ao departamento, ofereceu um brinde a seu noivado.
— Ele trabalha tanto que algumas vezes até se esquece de sua vida pessoal — falou
Patrícia, esgueirando o braço por debaixo do cotovelo de Sam.
Diversas pessoas riram.
— Querida, cuidado — ele disse em tom de brincadeira. — Alguns acharão que você não
está brincando.
Após lembrar-se de parabenizar Rachel e Nick Delaney por seu recente casamento, Sam
falou a Patrícia que deviam ir para a festa.
O restaurante cintilava, repleto de velas douradas e lindas orquídeas brancas. A vista
panorâmica do vale estava esplendorosa naquela noite. Mildred Van Hess postava-se à
porta com Rex. A moça parecia especialmente radiante em um conjunto de calça e blusa
de seda creme.
— Sam, meu caro, é bom vê-lo — Rex II falou, estendendo a mão para cumprimentá-lo. —
E esta... mas esta é Patrícia, seu braço direito no departamento de recursos humanos. E
sempre bom ver uma linda mulher, mas eu esperava conhecer sua noiva hoje.
Patrícia olhou para Sam, que hesitou. Será que voltaria atrás?
— Mas você a está conhecendo — disse ele por fim, pousando o braço na cintura de
Patrícia. — Rex, eu gostaria de lhe apresentar a futura sra. Sam Wainwright.
Patrícia estendeu a mão com unhas cuidadosamente pintadas para Rex II. As
sobrancelhas do homem mais velho se juntaram e ela subitamente lembrou-se do encontro
do lado de fora da sala de Sam. Será que Rex se lembrava?
— Eu nunca soube! Nunca vi vocês dois juntos! Exceto, claro, em circunstâncias
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profissionais.
— Estávamos tentando ser discretos — alegou Sam. — Nos dias de hoje, é importante que
diretores da área de recursos humanos dêem bom exemplo.
— Bem, vocês foram mesmo discretos. A tal ponto que nada suspeitei. E você, Mildred?
— Eu os vi juntos — falou ela. — Na rua Alejandro.
— É mesmo? — indagou Sam, quase com casualidade. Ela assentiu com firmeza.
Sam ficou imaginando se a mulher suspeitava da verdade. Sempre fora muito esperta e
parecia saber tudo sobre a empresa, sobre as pessoas que ali trabalhavam e sobre o que
faziam. Mas nunca tivera conhecimento de seu noivado com Melissa.
— Mildred, ela é perfeita para Sam! — entusiasmou-se Rex. — É realmente linda, não é
mesmo? Simpática também. Pode-se dizer que combinam tanto quanto... quanto... Como é
mesmo que diz aquela canção famosa?
Notando que Rex não largava a mão direita de Patrícia, Mildred tomou a mão esquerda da
jovem na sua. Olhou para o diamante.
— Tanto quanto amor e casamento — completou.
— Isso mesmo! Esta é a canção. Amor e casamento, casamento e amor, vão juntos como
mão na luva... — Rex largou a mão de Patrícia, esfregou uma palma na outra e perguntou:
— E então, quando será o grande dia?

CAPITULO IX

- Grande dia? –Sam perguntou perplexo.


— Do casamento de vocês — Mildred completou.
Ele olhou para Patrícia, que baixou a cabeça. Acabariam sendo apanhados.
— Quanto antes melhor — respondeu.
Mas no mesmo instante Patrícia erguia o queixo e anunciava:
— Ainda não marcamos a data.
— Espero que vocês concordem em outras coisas — disse Mildred, pegando uma taça de
champanhe.
— Os dois pombinhos devem decidir logo — aconselhou Rex. — Não deixem o amor
escapulir por entre os dedos. Amor e casamento, desejo lembrar-me desta canção. Amor e
casamento combinam como... o que era mesmo?
— Mão e luva — falou Mildred. Esticou o pescoço para olhar por sobre o ombro de Sam.
— Rex, você está tão animado e a festa que está apenas começando. Olhe para todas as
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pessoas que vieram comemorar. Por que não conversamos mais tarde com este casal
sobre seus planos de casamento?
Patrícia meneou a cabeça em sinal de concordância.
— Sim, não devemos monopolizar seu tempo — falou Sam, olhando para trás e
contemplando a fila de hóspedes que aguardavam para entrar no Mary Elaine's. — Vamos
indo.
— Estou muito feliz por você, meu jovem — disse o senhor, dando-lhe um tapinha no
braço.
— E eu feliz por você, Rex.
Colocou a mão no cotovelo de Patrícia e a guiou até o bar. O atendente indagou o que
gostariam de tomar.
— Uma soda para mim, por favor — declarou ela. Inclinou-se para perto de Sam e
sussurrou: — Não quero me sentir presa em uma armadilha. Isto é mais difícil do que
imaginei. Casamento em breve, casamento mais tarde. Por que não pensamos no que
dizer quando ele perguntasse sobre a data?
— Porque nunca imaginamos que a conversa fosse além de uma rápida apresentação.
— Ele percebeu nossa farsa...
— Não percebeu, embora Mildred pareça suspeitar. Por favor, não se preocupe. Não acho
que foi tão ruim assim. E nós provavelmente não os encontraremos novamente esta noite.
Rex estará muito ocupado. Nem mesmo se lembrará de que tenho a noiva mais linda e
charmosa do mundo. Agora vamos relaxar. Há algumas pessoas que devo cumprimentar.
Patrícia o teria seguido a qualquer lugar. Linda? Charmosa? Bem, finalmente ele a estava
notando!
Trocaram cumprimentos com diversos outros casais. Sam tinha palavras gentis para todos,
aceitou agradecimentos de vários chefes de departamentos e cumprimentou outros pelo
trabalho bem feito.
Patrícia resplandeceu de alegria quando os casais comentaram que os dois formavam um
par perfeito. Alguns confidenciaram que sempre suspeitaram de um romance, pelo modo
como os dois se davam bem e pelo tempo que passavam juntos.
— Sou um homem de sorte — Sam dizia, em resposta às congratulações.
Repetiu a sentença tantas vezes que Patrícia ficou imaginando se ele se esquecera de que
aquele não era um noivado de verdade, tampouco o romance era verídico e o re-
lacionamento "afetivo" dos dois não iria além daquela noite.
Aos poucos o salão foi se enchendo. Um gerente de Dallas pediu a Sam alguns conselhos
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sobre um "assunto sensível". Patrícia entendeu a indireta e foi até o toalete. Lá, encontrou
suas amigas na saleta.
— Você está radiante! — disse Olívia. Sentou-se em uma poltrona e estendeu-lhe os
braços. — Mal posso acreditar que esteja noiva!
— Sim, parece um conto de fadas — falou Rachel, virando-se do espelho onde retocava o
batom. — Estou feliz por você.
— Todas nós estamos vivendo um conto de fadas - comentou Cindy. — Eu tenho meu
chefe Kyle, Olívia casada com Lucas.
— E não era por ele que Olívia arrastava um bonde.— disse Molly. — Lembra-se de
Stanley Whitcomb? Ela tinha certeza de que ele era o homem de seus sonhos!
— Ainda o acho simpático — insistiu Olívia. — E Lucas se dá muito bem com ele.
— E Molly... — Rachel fez um afago no braço da amiga.
— Você se casou com Jack, que era seu chefe. E eu, com Nick. Então, com o noivado de
Patrícia com Sam, há apenas uma de nós disponível...
Todos os olhares pousaram em Sophia, que, junto ao espelho, fazia o máximo para ajeitar
os cabelos louros e encaracolados.
— Ei, Patrícia, Rex III fará uma surpresa aparecendo na festa? — indagou Sophia.
— Acho que não. Deve estar na França. Sophia tentou não parecer desapontada..
— Serei noiva de Rex III. Ao menos é o que espero. Acha que ele vai me notar?
— Seria difícil não notá-la, já que você será assistente dele — respondeu Patrícia.
— E quanto a Mike? — provocou Olívia.
— Posso sentir atração por ele, mas atração não basta.
— Rex III pode ser um canalha — advertiu-a Rachel.
— Tenho certeza de que não é — respondeu Sophia. — Pelos memorandos que recebi
dele, sei que é simpático, doce, sensível...
— Está bem, está bem — falou Olívia, tentando manter o clima ameno. — Sophia tem
razão. Ela deve ter oportunidade de casar-se com seu chefe, se é o que pretende fazer. A
propósito, viu como Mike conversava com Rex? Pareciam tão entrosados...
— O que Rex teria a dizer ao rapaz do setor de correspondência? — perguntou Rachel.
— Fico imaginando qual é sua história. Talvez haja um mistério ali — especulou Cindy. —
Ninguém realmente sabe alguma coisa sobre Mike. Ele é forte e tem uma presença
marcante. Não parece que devesse estar no setor de correspondência. Parece, sim,
pertencer à equipe de executivos. Mas de onde ele veio? Que espécie de emprego teve
antes de entrar na empresa? Onde conseguiu aqueles músculos?
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— Ora, ora — disse Sophia, pousando o braço nos ombros de Patrícia. — Ao menos diga-
me algo sobre Mike, se não pode me contar nada sobre Rex III.
— Não sei de nada — respondeu Patrícia, sentindo-se mal por não poder ajudar. — Mike
foi contratado por Sam.
— Deixe-me entender direito — falou Sophia, com expressão de descrença. — O vice-
presidente da área de recursos humanos de toda a empresa, em âmbito internacional e
nacional, contratou o rapaz do setor de correspondência?
Patrícia assentiu.
— Soa esquisito — comentou Olívia. — Sam é importante demais para lidar com o
departamento de correspondência.
— Mas tem interesse genuíno nas pessoas — Patrícia falou, e então ficou em silêncio. —
Você tem razão. Vices-presidentes não contratam pessoas do departamento de
correspondência.
— Pergunte a ele qual é a história de Mike — pediu Sophia.
— Os arquivos pessoais de Mike são confidenciais, e, como assistente do diretor de
recursos humanos, tenho de respeitar essa confidencialidade.
— Mas você é noiva de Sam — ponderou Sophia. — Isso deve valer para alguma coisa.
— Vocês dois ficam ótimos juntos — elogiou Olívia, deixando claro que o assunto Mike
estava encerrado. — E tudo foi tão repentino.... Você apenas teve de lhe contar como se
sentia, e a magia esteve em Sam sentir a mesma coisa.
— Sim — disse Rachel. — Ainda no final de semana anterior, você estava tão triste,
achando que jamais teria coragem de convidá-lo para sair... Conte-nos novamente o que
aconteceu.
Sophia estava a um canto e implorou com o olhar. Patrícia acabou assentindo. Veria o que
poderia descobrir sobre Mike, embora soubesse que Sophia apreciaria muito mais se
conseguisse informações adicionais sobre Rex III.
— Patrícia, você está nos escutando? — perguntou Olívia.
— O quê? Oh, sim, vocês estavam perguntando o que aconteceu, certo?
— Sim, comece do princípio.
— Mas é tão aborrecido!
Rachel colocou as mãos nos quadris.
— Você considera seduzir Sam Wainwright na sala dele e ganhar um anel de noivado
aborrecido?
— Quando você foi à sala dele e quando Sam a pediu em casamento? — indagou Olívia.
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— Queremos ouvir toda a história novamente. Com detalhes. Menos os censurados.
— Não houve detalhes censurados.
A porta se abriu e Mildred Van Hess entrou.
— Boa noite garotas. Vocês não podem ficar a festa toda no banheiro. É injusto para com
os homens. Embora eu admita estar apreciando ter toda a atenção masculina devotada a
mim...
As moças riram.
— Estávamos conversando sobre o noivado repentino de Patrícia e Sam — explicou Olívia.
— No final de semana passado, em meu chá de bebê...
Patrícia ficou de olhos arregalados, o pânico parecendo dar um nó em sua garganta. Seria
apanhada se Mildred Van Hess descobrisse que o "noivado" pensado por suas amigas
fosse a novidade daquela semana.
— Já ouvimos o suficiente sobre estes dois pombinhos — Mildred interrompeu Olívia. —
Quero saber como vai sua gravidez.
Olívia sentiu-se deliciada em dar a Mildred todos os detalhes. E, quando as mulheres
deixaram o banheiro, Patrícia estava tão envolvida na vida da amiga que quase se esque-
ceu da teia de decepções que era o seu dia-a-dia.
— Olhe para Rex e Sam — Mildred falou, colocando o braço no de Patrícia. — Sam
sempre foi o favorito de Rex. E está feliz pelo noivado. Você é boa para ele. Sam merece
cada gota de felicidade que a vida tem a lhe oferecer. Não a conheço muito bem, mas
suspeito que o mesmo seja verdadeiro a seu respeito.
Patrícia nunca ouvira Mildred Van Hess fazer uma avaliação pessoal sobre alguém, e isso
a levou a pensar em como seria seu futuro após a aposentadoria de Rex II.
— Mildred, o que fará quando Rex se aposentar?
— Recebi uma grande pensão. Acho que vou me dedicar a algum passatempo.
Jardinagem, talvez. Colecionarei selos. Ou até mesmo aprenderei danças de salão.
Guiou Patrícia até os dois homens.
— Ah, fico feliz que esteja de volta — falou Sam, uma expressão esquisita no rosto. — Rex
acabou de nos fazer a oferta mais generosa deste mundo.
— É mesmo? — indagou ela, tentando parecer casual. E, quando Sam a beijou no rosto,
sussurrou: — Tudo bem, vamos superar isso.
— Oh, espero que você não se importe com a intromissão de um homem velho — falou
Rex. — Mas eu estava dizendo a Sam que não quero perder o casamento de vocês por
estar viajando. Por outro lado, não gostaria de perder a apreciação das pirâmides de
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Quéops ou das belezas da China para ver vocês dois unidos pelos laços do matrimónio.
Por isso, podem fazer isso agora.
— Agora? — indagou Patrícia, experimentando uma sensação de puro terror.
— Bem, não exatamente neste momento — aclarou Rex. — Embora seja tentador, não é
mesmo? Falo em algum momento nas próximas duas semanas. Antes de minha partida.
Façam em minha casa. Isso me daria um prazer indizível. Então eu partirei, sabendo que
minha empresa, meus funcionários e meu amigo Sam estão em melhores mãos.
Sam olhou para Patrícia, parecendo indefeso.
— Não podemos — ela falou com suavidade. — Oh Sam sempre quis um casamento...
grandioso. E isso requer muito planejamento.
— Na verdade, ele disse que era você quem queria um casamento grandioso, mas que
concordava de qualquer maneira.
Rex riu.
— Há outro problema — Sam interveio, lutando por encontrar desculpas. — A mãe dela é
diplomata. E viaja para os lugares mais remotos do mundo, como selvas e montanhas. Não
pode conseguir um vôo em duas semanas. Onde ela está mesmo, querida?
— França.
— Eles realmente têm dificuldade de transporte — Mildred falou secamente.
— Está bem, devo confessar que sou imensamente grato a você — disse Sam. - Tenho-
lhe uma fidelidade ímpar. Devo-lhe minha vida. Jamais teria vencido na vida e saído de
onde morava sem sua ajuda.
— Oh, você tem tanta ambição que algumas vezes acho que a Corporação Barrington o
impede de realizar façanhas ainda mais grandiosas.
— Não, Rex, estou feliz aqui. Muito feliz. Mas talvez você não fique tão feliz comigo quando
eu lhe contar a verdade.
A expressão de dor no rosto de Sam comoveu Patrícia, que esqueceu seus temores e
colocou-lhe os dedos nos lábios.
— O que ele está querendo dizer é que nós, honestamente, nos sentiríamos muito... gratos
e honrados se nosso casamento ocorresse em sua residência. Mas não queremos que se
sinta obrigado a isso.
— Obrigado? Eu me sentiria honrado!
— É mesmo? — perguntou Sam.
— Sim! Então, irão permitir que eu organize a festa de casamento?
Patrícia olhou para Sam e assentiu de modo encorajador. A gratidão no rosto masculino foi
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tamanha que ela soube que valeria a pena o esforço. Mesmo que nunca viesse a amá-la.
Ele engoliu em seco.
— Ficaríamos emocionados — disse. Acariciou a mão de Patrícia. — Não será maravilhosa
uma festa de casamento na casa de Rex, querida?
— Certamente.
— Eu ajudarei a organizá-la — declarou Mildred. — Será divertido. Rex, mas que modo
especial de sair para o mundo! Uma celebração de casamento e um bota-fora reunidos
numa festa só!

CAPÍTULO X

- Porque que fez aquilo?


Patrícia acenou para Rex e Mildred. Fiz o quê? — indagou ela. — Por que concordou com
o casamento na casa de Rex?
— Porque não quis ver um homem adulto chorar. Sam riu, guiando para a rua.
— Eu não ia chorar. Mas estava suando frio.
— Você ia contar a verdade.
— Sim, ia. Descobri que era a coisa certa a ser feita.
— Outra opção é esperar e ver — falou Patrícia.
— Talvez Rex até se esqueça disso — comentou Sam. Ela o fitou.
— Não — ambos murmuraram.
Rex era muito sistemático. De que outro modo poderia ter começado do nada e criado a
Corporação Barrington, um império?
— Talvez fique distraído com os preparativos de última hora para a viagem — sugeriu
Patrícia.
— Certo. Ou talvez seja raptado por alienígenas — comentou Sam — Então, por que fez
aquilo? Você quer o Taiti, certo?
Patrícia franziu a testa.
— Taiti?
— Sim, todas as pessoas com as quais trabalhei na Barrington pediram para gerenciar a
unidade do Taiti. É sua, caso a queira. Praias, água límpida, plantas...
—Ficarei queimada de sol. Vê estas sardas? Ficarão enormes.
— A Suíça é a segunda escolha de todos.
— Já estive lá.
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— Está bem, você quer meu dinheiro.
— Não preciso de dinheiro e pare de se irritar.
— Todos precisamos de dinheiro então é aumento de salário.
Patrícia bufou. Não fazia aquilo em troca de nada. E mesmo assim ele parecia determinado
em favores dados e recebidos.
— Não quero aumento algum.
— Já sei! — Sam falou, triunfante. — Você quer uma promoção. Bem, não poderá tê-la...
até eu ser promovido e estarei muito feliz em colocar sua escrivaninha em minha...
— Não é nada disso!
— Então há apenas outra possibilidade, e Oh meu Deus! Estou muito triste. Você quer ir
embora.
— Ir embora?
— Você quer ir embora e precisa de uma boa carta de referência. Patrícia, não quero que
vá. Acho que nos damos bem juntos. E somos amigos. Sentirei sua falta. É provavelmente
a única mulher que conheço que concordaria em participar de um casamento falso na
residência de Rex, e sei que eu não poderia...
— Não poderia o quê? Sam estacionou o carro.
— Patrícia, você alguma vez se julgou inadequada para o casamento?
Na verdade ela vinha pensando muito nessa questão. Até conhecer Sam, presumira que
poderia ser uma boa esposa... para o homem certo. E o homem certo, naquela época, sim-
plesmente ainda não aparecera em sua vida.
Quando se apaixonou por Sam, percebeu que não poderia ser uma boa esposa... para
qualquer outro homem. E, se Sam não a amasse, ficaria solteira. Porque era injusto casar-
se e comparar outra pessoa a ele.
— Acho que já me preocupei com isso — respondeu com cautela. — É algo em que você
pensa?
— Sim, é. Tenho pensado muito nisso ultimamente, e sei que não posso me casar —
disse ele. — Foi o que aprendi em meu relacionamento com Melissa.
— Nem todas as mulheres são como Melissa.
— Todas as mulheres precisam ser amadas. Eu não posso amar uma mulher. Oh,
certamente posso fazer os movimentos e... e fiz com Melissa. Fui atencioso, lembrei-me de
aniversários e feriados, fui fiel, mas algo sempre faltava. Eu mesmo. Eu faltava.
— Sam, você é duro demais consigo mesmo. Não se sentirá ausente quando estiver com a
mulher certa. Vai acontecer.
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— Você é mesmo uma grande amiga. A única com quem posso conversar a respeito. —
Estendeu a mão e Patrícia tocou seus dedos, em um gesto melancólico. — Faltam duas
semanas para a partida de Rex. Não imagino que o casamento possa ser cancelado. Mas
felizmente você concordou em ir adiante. E lembre-se, darei o que quiser. Realmente é a
melhor amiga do mundo.
Patrícia desceu do carro e acenou ao ver o automóvel afastar-se.
Amiga...
A palavra parecia queimar seus pensamentos como ferro avermelhado de tanto ficar no
fogo. Agora sabia o que os rapazes sentiam quando uma mulher dizia: "Vamos ser apenas
amigos". Cortava todas as esperanças, deixava claro que não se poderia ir adiante.
Caminhou até o apartamento, fez uma xícara de chocolate e permitiu-se ficar entristecida
durante algum tempo. Antes de aprumar-se e se preparar para outra tentativa.
— Mildred Van Hess virá em vinte minutos, com alguns livros sobre casamento. O que
devo dizer a ela?
Sam abriu os olhos e fitou o fone que acabara de pegar. Era uma manhã brilhante e
quente.
— Sam, você está aí?
Ele se ajeitou na cadeira e passou os dedos por entre os cabelos, como se isso o pudesse
deixar acordado. Então pediu que Patrícia repetisse o que dissera.
— Mildred Van Hess acabou de telefonar e disse que gostaria que eu visse alguns livros
sobre casamento — declarou ela, a ansiedade chegando ao extremo. — Virá em vinte
minutos.
— Irá à seu apartamento?
— Sim. Disse que traria alguns bolinhos para eu escolher. Quer que eu lhe diga que não
haverá casamento?
— Acho que precisamos fazer isso.
— Ela falou que está muito satisfeita pelo vice-presidente da área de recursos humanos
estar se casando. É importante que a Barrington tenha um homem bem estabelecido no
comando, alguém que personifique o espírito da companhia: família antes de tudo.
— Ela falou isso?
— Sim.
— Por que não lhe disse que estava ocupada?
— Sam, não me importo em encenar que estamos noivos. Mas não sei o que fazer quando
Mildred chegar.
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— Realmente sente-se tranquila a respeito do casamento?
— Eu lhe disse na noite passada que sim.
— Está bem. Patrícia, onde está seu vestido?
— Que vestido?
— Aquele que você usou ontem à noite.
— No cesto, para ser levado à lavanderia.
— Tire-o de lá. E... Patrícia?
— Sim?
— Passe batom. Da mesma cor que usou ontem.
Sam desligou, deu dois passos em uma direção, reconsiderou, foi para outro lado e então
aspirou, profundamente.
Não é hora para pânico, aconselhou-se. Esta é uma oportunidade. Todas as calamidades
são oportunidades. Mas aquela oportunidade sem dúvida parecia uma calamidade. Talvez
Mildred os estivesse testando. Se falhassem, a mulher sentar-se-ia na sala de Rex, na
manhã seguinte, dizendo que Sam não era adequado à vice-presidência.
E ele perderia o emprego!
Gastou três ou quatro minutos defronte à cômoda do quarto, remexendo as gavetas em
busca de uma calça de pijama. E então se deu conta de que há tempos não usava pijama.
Nem mesmo possuía um. Buscou cuecas de algodão e uma calça jeans puída.
Jogou tudo dentro de uma sacola de lavanderia e pegou a roupa que usou na noite
anterior. Meteu tudo no banco do passageiro e então lembrou-se das abotoaduras. Pegou
a escova de dentes em seu segundo trajeto para o carro. Ao todo, demorou nove minutos
para sair de casa.
Sentiu um breve momento de pânico ao notar uma sombra em seu queixo.
— Não, é o toque perfeito — disse.
Freou, cantando pneus. Olhou para o relógio de pulso. Chegara ao apartamento de Patrícia
em cinco ou seis minutos. Subiu a escadaria e parou à porta.
— Você não está usando camisa — disse Patrícia, fitando-o com olhos arregalados. —
Mildred chegará em poucos minutos. Não pode ficar aqui sem camisa.
— Passou o batom?
— Sim.
— Beije-a — ordenou, estendendo-lhe a camisa branca
usada na noite anterior.
— Beijar o quê?
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— Beije a camisa!
Ela continuou de olhos arregalados.
— Quê?
— Não pense, Patrícia. Não temos tempo para pensar. Apenas beije-a.
Ela com vagar beijou o colarinho da camisa.
— Bom trabalho — elogiou Sam. — Agora, onde estão seus sapatos?
— No armário.
— Pegue-os.
Sam derrubou um dos próprios sapatos à porta, deu dez passos e então deixou outro.
Patrícia retornou com um par de sapatos pretos, que Sam jogou no corredor.
— Você não vai colocar aquela camisa? — indagou ela, indo para a cozinha.
Sam a seguiu. Meteu a mão nos bolsos do jeans e tirou as abotoaduras. Trocou de roupa
ali mesmo.
— Qual o problema, não gosta do meu corpo?
Olhou para cima enquanto se vestia. Notou o enrubescer de Patrícia. Pela primeira vez
naquela manhã relaxou e fitou-a longamente.
— Por que, Patrícia Peel, nunca pensei nisso? Sabe de uma coisa? Você é muito atraente.
Ela mordeu o lábio. Sam pousou os cotovelos no balcão e sorriu ao tocar a camisola,
revelando no olhar o que gostaria de fazer. Em seguida deixou a saia voltar à posição
anterior.
— Tudo bem, Paty. Acho que você está muito atraente. Ela o espantou ao ficar sem fala.
Pela primeira vez, desde que Patrícia Peel entrara para a Barrington, ele a deixava sem
palavras. Poderia passar horas maravilhando-se com a descoberta. Com a constatação de
que a apática Patrícia Peel, vestida para o sucesso, tinha um ponto fraco: peitos
masculinos. Nus.
Mas era preciso esquecer as horas de contemplação. Não tinha nem um minuto para isso.
A campainha tocou, o que significava que Mildred Van Hess estava do outro lado da porta.
Sam jogou o paletó e a calça comprida usados na noite anterior nos braços da assistente.
— Coloque isto no chão de seu quarto. Junto com seu vestido. A cama está feita?
— Sim, eu sempre...
— Combina com você. Pois desfaça-a.
Em qualquer outra circunstância, Patrícia teria feito perguntas, mas limitou-se a obedecer.
Na hora que retornava ao quarto, a campainha já havia tocado duas vezes.
Sam sentou-se no sofá com uma xícara de café e a seção de esportes do jornal Arizona
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Republic. Desalinhou o cabelo.
— Vá em frente e atenda.
— Mas você não colocou a camisa!
— Atenda, ora!
Patrícia mordeu o lábio e obedeceu.
— Puxa, Mildred — disse ele, afastando o jornal para o lado depois que as mulheres
haviam trocado cumprimentos. Levantou-se, passou a mão pelo queixo e se espreguiçou.
— É bom vê-la. Patrícia disse que vocês duas vão começar os preparativos para o
casamento.
Mildred, usando um terninho creme, ficou em pé na pequena sala, olhando ao redor.
— Não esperava vê-lo aqui — declarou simplesmente. Sam olhou para o peito nu, como se
notando pela primeira
vez que não havia vestido camisa.
— Meus modos estão terríveis esta manhã — desculpou-se. Pegou a camisa que deixara
pendurada no trono de bambu. — Quer uma xícara de café, Mildred?
A mulher abriu a boca. Fechou-a. Abriu-a novamente. Fitou Patrícia, que lhe lançou um
olhar do tipo "não podemos viver com os homens, nem sem eles". E então as maneiras
impecáveis de Mildred falaram mais alto.
— Sim, uma xícara de café seria maravilhosa — falou e ergueu uma caixa da padaria. —
Trouxe alguns pães doces.
— Que ótimo! — disse Sam, pegando a caixa. — Patrícia nunca mantém bons ingredientes
para o café da manhã..
— Como você... — ela começou a falar, ultrajada, e então suspirou. — Como você gostaria
da xícara de café, Mildred? Lembre-se, querido, as xícaras estão no armário sobre a
máquina de lavar pratos.
— Eu sei, querida, eu sei — ele respondeu, já na cozinha. — Por que você não leva
Mildred para conhecer o apartamento?
— Mas não posso levá-la para o quarto — protestou Patrícia. Ele colocou a cabeça à porta
da sala de estar e sorriu para as duas mulheres.
— Está tudo bem, querida. Mildred compreenderá que nós ainda não arrumamos a cama
esta manhã.

CAPÍTULO XI
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Três horas mais tarde, Mildred Van Hess deixava o apartamento.
- Esta mulher poderia ter planejado todos os eventos do planeta — Sam maravilhou-se, em
pé ao batente, o braço casualmente pousado na cintura de Patrícia. — Acho que é isso que
a torna uma assistente tão boa. Tenho apenas uma pergunta: O que acontecerá se todas
aquelas borboletas morrerem?
— Não vão morrer. Receberão um tratamento especial. E Mildred garantiu que serão
soltas assim que você e eu entrarmos na limusine que nos levará para a lua-de-mel.
— Mas... e se morrerem na caixa?
— Não acontecerá. Céus, mal posso acreditar que ela tenha obtido uma lista das
borboletas nativas do Arizona para que nós estejamos ajudando o ecossistema!
Patrícia afastou-se do abraço e fechou a porta.
— Então realmente vamos nos casar... — disse ele. — Isso já foi longe demais. É melhor
eu confessar a verdade antes que Mildred encomende aquelas borboletas. Ou o bolo. Ou o
vestido.
— Não. Já viemos até aqui e não há motivo para não ir adiante — declarou Patrícia,
pegando a xícara de café. — Ambos somos pessoas sofisticadas. Sabemos como lidar
com a situação. Moraremos juntos na sua casa. É maior. E nos divorciaremos
silenciosamente após um intervalo adequado.
— Divórcio silencioso? Isso soa frio como gelo.
— A alternativa seria ficar juntos para sempre. Sam a encarou. Permaneceram em silêncio,
pensando que para sempre era muito tempo. Pareciam em dúvida.
— Sinto-me realmente grato — falou Sam. Nossa agora, sei que fez o melhor que pôde.
— Eu sei.
— O que você quiser, eu lhe darei.
— Não quero.
— O que está fazendo? — Sam perguntou, postando-se atrás de Patrícia no instante em
que a via inclinar-se para pegar um dos sapatos dele.
Mãos enormes tocaram nos quadris femininos. Patrícia aprumou-se de imediato e se virou.
— Pegando suas coisas, para você poder ir embora. Estou certa de que tem milhares de
coisas melhores a fazer.
— Oh, não. Estou muito bem aqui — comentou ele. E, quando deu um passo adiante,
Patrícia recuou, apoiando-se na porta do quarto. — Já nos acarinhamos, beijamos e sus-
surramos para enganar Mildred esta manhã.
Era verdade. Começara com o beijo quando ele retornara da cozinha com o café de
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Mildred e um prato com os pães. Outro para tirar uma migalha de pão que alegou estar nos
lábios de Patrícia. Ficaram de mãos dadas enquanto contemplavam o catálogo de vestidos
de noiva que devia ter vindo de Paris. E acariciou-lhe o pescoço enquanto Mildred
detalhava o cardápio do jantar. — Galinha ou peixe?
Sam não se importava, declarara, entrelaçando seus dedos aos de Patrícia.
Ela se mostrara animada e enrubescida como uma noiva devia estar.
Mas as horas haviam sido longas e agora Patrícia sentia que seu autocontrole estava
escapulindo. Obviamente, ocorria o mesmo com Sam.
— Então você também sente? — divagou Patrícia.
Era uma maravilha que ele se sentisse tão animado... e dolorosamente preparado. Tanto
quanto ela. Mas isso significaria amor? Ou simplesmente algo mais... animalesco?
Subitamente Patrícia percebeu que não sabia como agir quando o relacionamento entre
um homem e uma mulher ia além de um beijo e de um afago. Ficaria nua diante de Sam,
indefesa sob seu toque, dominada pelos anos de experiência que dariam a ele uma força
misteriosa?
Pretendia fazer um sinal negativo. Mas viu-se entreabrindo os lábios para recebê-lo, em
poucos centímetros de distância, o peito nu. Sua respiração quente e doce aquecia a testa
de Patrícia. Caso erguesse o queixo...
— Sim, eu sinto. Este beijo não é para praticar. Beijou-a, explorando e provocando todos
os seus sentidos.
As mãos pousaram nos quadris delicados, puxando-a. Ela suspirou e então Sam a afastou
com gentileza.
— Quero você — disse com voz rouca. O corpo de Patrícia respondeu sim.
— Eu quero... — ela conseguiu balbuciar. — Eu quero... — Ao menos encontrou forças
para balançar a cabeça.
Não.
— Não acho que seja uma boa idéia.
— Por que não? Você mesma falou que somos pessoas sofisticadas. E adultas. Somos
amigos e poderemos lidar com a situação.
Como a conhecia pouco! Patrícia não poderia lidar com a situação. Nem Sam, ao descobrir
quão inexperiente ela era.
— É exatamente isso — improvisou, perturbada. — Somos amigos.
— Você acha que isto — beijou-a na nuca — destruirá nossa amizade?
— Não sei. Não quero arriscar.
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Sam afastou a cabeça e a fitou. Patrícia piscou algumas vezes e então olhou para o nada.
— Você é um verdadeiro mistério. Parece tão segura... Mesmo assim, às vezes, vejo uma
inocência que não combina com a mulher de negócios com a qual trabalho.
— Não sou... inocente — mentiu.
— Eu jamais tiraria vantagem de você, se fosse.
— Como definiria uma inocente?
—Uma virgem. Uma mulher que tenha pouca experiência. Oh era justamente o que ela era!
— E isso que você gosta em uma mulher? Experiência?
— Apenas não quero ser responsável por magoar alguém. Patrícia mordeu o lábio.
— Você não me magoaria. Eu apenas não acho que devamos dormir juntos. Não...
ajudaria, no escritório. Tudo já está muito complicado.

Sam a soltou com rapidez. A dor deixada pela ausência daquele toque levou lágrimas aos
olhos dela.
— Desculpe-me, Patrícia. Detesto homens que usam sua posição no trabalho para
conquistar uma mulher.
— Não é isso. Apenas acho que preciso de um pouco de espaço — declarou, fitando o
nada para que Sam não pudesse ver o tormento em seu olhar. — Isso está se tornando...
ahn... um tanto intenso.
— Vou pegar minhas coisas.
Ele se afastou rapidamente, recolhendo as roupas. Quando estava pronto, Patrícia tinha se
recuperado o bastante para abrir-lhe a porta.
— Vejo-o no escritório.
— Claro — respondeu ele, a voz muito tranquila. Mas seu corpo estava prestes a explodir.
— E mais uma vez obrigado. Se houver algo...
— Não há — disse ela com firmeza, e fechou a porta. Banho frio. E rapidamente. Patrícia
puxou a camiseta por sobre a cabeça.
Banho frio. Naquele momento! Antes que corresse por aquela porta e implorasse para Sam
fazer amor com ela.
E o que haveria de errado nisso? Ora, nem sabia o que fazer com um homem! Seria tão
errado... Talvez fosse fraca.
Já estava na metade do corredor quando se lembrou de que a camiseta estava no chão.
"Não sou Sam", pensou, e voltou para pegá-la. Ainda tenho meus padrões de
comportamento.
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Banho frio.
A urgência não seria negada pelo desejo de manter seu apartamento limpo e asseado.
Jogou a camiseta e lutou contra a calça jeans no corredor mesmo.
Com uma perna na calça comprida e uma fora, abriu o chuveiro e lembrou-se de que Sam
havia jogado a única toalha de banho no chão, ao lado da cama. Quando foi buscá-la, viu-
se ao espelho.
Não sou tão ruim assim, considerou, colocando as mãos na cintura. Um tanto mais
curvilínea do que as modelos da moda, mas mesmo assim bonita.
Jogou o jeans ao chão. Virou-se para se observar de perfil e tocou a calcinha. Então suas
mãos pousaram nos seios. Estavam doloridos, os bicos entumescidos roçavam no tecido
delicado do sutiã. Sempre imaginou que seria mágico.....foi por pouco...Baixou as mãos,
como se um alarme disparasse e estremeceu, sentindo-se culpada, até perceber que não
era alarme mas sim o telefone.
— Alô, Patrícia, é Mildred novamente. Desculpe pela interferência, mas o telefone do carro
não está funcionando direito. Esqueci de lhe contar que Rex dará um pequeno chá em sua
casa esta tarde e achou que seria bom se você e Sam vissem o local onde vão se casar.
Poderão vir?
Patrícia olhou janela afora e viu Sam entrando no carro.
— Claro, adoraríamos. A que horas?
— Às quatro — respondeu Mildred. — Isso lhe dá apenas duas horas, mas eu tinha certeza
de que Sam estaria aí, já que vocês dois praticamente estão morando juntos...
— Certo. Então, até mais.
Patrícia abriu a janela e gritou para Sam, mas ele já havia fechado a porta do carro. Se não
entrasse em contato com ele e perdessem aquele chá...
Correu escadaria abaixo e foi para o estacionamento, alcançando o carro no instante em
que se aproximava da esquina.
Pulava a calçada escaldante queimando seus pés descalços. Acenou freneticamente. Sam
pareceu surpreso ao vê-la, até mesmo confuso. Parou o carro e baixou o vidro da janela do
passageiro. Baixou os óculos de aviador para poder fitá-la melhor.
— O que está acontecendo?
— Mildred telefonou e nos convidou para um chá esta tarde. Às quatro horas. Daqui a duas
horas. Devemos ir?
Ele continuou a encará-la. E então Patrícia notou. Em um momento aterrorizador percebeu
que estava em pé na calçada usando apenas calcinha, sutiã e um rubor indescritível.
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— Bem, srta. Peel, estamos empatados — disse ele, descendo do carro.
— Empatados? Sam tirou a camisa e a estendeu.
— Eu lhe mostrei a minha. Você me mostrou a sua. Eu tive a melhor visão.
Patrícia preferia correr. Gostaria de devolver a Sam a camisa, mas... Não! Adoraria
arrancar aquele sorriso de seu rosto. Ou talvez pedir que parasse de zombar da situação.
Gostaria que a queimadura em seus pés fosse mais intensa e a fizesse derreter-se. Seria
melhor do que ficar em pé ali, observando a franca apreciação de Sam.
Mesmo assim, não correu. Nem devolveu a camisa. De fato, nada fez exceto apertar a
peça nos braços. Não disse a Sam para deixar de observá-la porque não tinha certeza se
queria que ele parasse. Estaria achando-a bonita? Sensual?
Um assobio veio de um carro que passou. Ela vestiu a camisa, abotoando-a o mais alto
que podia e a puxando para baixo. Seus quadris ficaram cobertos, mas as pernas à
mostra. Fez uma careta.
Sam ainda sorria, os braços cruzados. Apoiou-se no carro como se tivesse todo o tempo
do mundo.
— Temos duas horas — disse. — Podemos fazer muita coisa nesse período.
— Sugiro que troque de roupa.
Patrícia caminhou de volta para o prédio com a graça e a majestade que pôde reunir.
Precisava daquele banho frio. Terrivelmente.
E sentia-se satisfeita por saber que Sam necessitava muito mais de um resfriamento de
emergência do que ela.
— Bom dia, sra. McGillicuddy — disse ao passar pela dona do apartamento, na escadaria.
— E eu que sempre a julguei uma garota tranquila e simpática... — a sra. McGillicuddy
murmurou.
Duas horas mais tarde, Patrícia entrava no carro de Sam. Ele imediatamente lhe relatou
seu espanto. Parecia tão surpreso quanto a dona do apartamento.
— Nunca imaginei que você usasse roupa íntima de renda — declarou.
Patrícia usava um vestido de verão e sandálias brancas.
— Tomei um banho frio. De gelar até a alma. Suponho que você não tenha feito o mesmo.
— Não — disse Sam. — Dirigi por Phoenix e Scottsdale por uma hora e meia, imaginando
o motivo de não termos feito amor. Tive tempo apenas para um banho rápido, para
barbear-me e vir para cá. Ouça, quero fazer amor com você.
— Eu sei — disse ela, ajeitando a alça da bolsa.
— Sei que você também quer.
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Ela nada respondeu.
— Está certo, talvez eu esteja enganado. Tem muita tensão no ar. Nunca prestei atenção
em você, mal a olhava até aquele momento, eu daria tudo para levá-la escada acima, tirar
seu vestido e fazer amor durante horas e horas.
— E perder o chá de Rex?
— Horas e horas.
O coração de Patrícia resplandeceu. Sempre quisera ouvir isso. Sam a notava. Via-a.
Queria-a.
E embora o banho frio tivesse feito maravilhas, o fogo começou novamente a dominá-la.
Gostaria de lhe dizer sim. Pedir que a levasse escada acima e fizesse amor. Mas primeiro
era preciso lhe contar um pequeno segredo...
Não saberei o que fazer, Sam. Preciso que você me ensine como agir numa cama.
— Não farei isso de novo, me desculpe. Isso é surpreendente, nunca desejei uma mulher
como você. Mas sei algo a seu respeito, você quer mais. Pode ter um relacionamento com
o homem que escolher...casar e ter filhos. Não posso lhe oferecer nada além de cama.
— Bem, então acho que isso encerra o assunto, concorda?
— Sim, acho que sim — disse Sam, nem um pouco calmo. Patrícia fechou os olhos e ele
ligou o motor. Era como se uma porta tivesse sido batida em sua vida. Mesmo assim,
procurou recobrar a dignidade.
Quando o mordomo da Mansão Barrington anunciou que o sr. Sam Wainwright e sua noiva
Patrícia Peel haviam chegado, ela era toda sorrisos.
Como toda noiva devia ser.

CAPITULO XII

A primeira coisa que caiu sobre a escrivaninha de Patrícia foi uma cueca de seda ver-
melha. Seguida pela chave de uma casa. E então um barbeador elétrico. Em seguida, uma
escova de dentes preta, uma camisa do time de basquete da Universidade do Arizona e
uma camisola cor de pêssego, com robe combinando. Ela olhou para cima, atônita.
— Sam comprou este conjunto para noite — explicou Melissa. Bateu o dedo com unha
pintada de rosa-claro na escrivaninha de Patrícia. — Bem, ao menos fez isso quando lhe
pedi. Decidi que não gosto da cor. Lembra primavera e eu sou invemo.
— Inverno?
— Gosto do inverno e preciso de cores dramáticas. Pêssego cai bem em mim, mas não
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tanto quanto outras cores. Por isso estou devolvendo as peças.
— Naturalmente.
— Juntamente com estas coisas dele. — Melissa então colocou uma luva de beisebol suja
sobre a pilha. — Pronto. Estou quite com Sam Wainwright. É como se ele nunca tivesse
existido.
— E quanto às esmeraldas?
Melissa prendeu a respiração e tocou as orelhas. Duas esmeraldas cintilavam, rodeadas
por minúsculos diamantes.
— Que esmeraldas?
— Sam lhe deu brincos de esmeraldas no dia dos namorados. Estes brincos, a propósito.
— Você é uma pessoa muito detalhista — rebateu Melissa. — Por isso conseguiu um
emprego aqui. Bem, vou ficar com a jóia. O melhor livro de etiquetas diz que uma mulher
pode manter os presentes que um homem lhe deu durante a corte. Especialmente quando
esmeraldas caem tão bem e combinam com seu estilo.
— Não se preocupe. Sam não se importa. Deixaria que você ficasse com elas.
Provavelmente está apenas preocupado em ter de volta os apetrechos de beisebol. Não
sei sobre a camisola cor de pêssego.
— Senti-me obrigada apenas a lhe devolver o anel de noivado e notei que está em sua
mão.
Melissa se debruçou sobre a escrivaninha, agarrou a mão de Patrícia e examinou o anel.
— É meu agora.
— Espero que tenha mais sorte do que eu.
— O que quer dizer?
— Ele não é capaz de amar uma mulher — Melissa falou com muita certeza. Largou a mão
de Patrícia. — Mantém uma parte de si muito bem guardada.
— Foi por isso que vocês romperam?
— Certamente não foi por eu ter feito alguma coisa errada. Patrícia ofereceu a Melissa uma
cadeira e uma xícara de café. A moça aceitou sentar-se, mas declinou o café.
— O que acha que ele quer em uma mulher? — indagou Patrícia. — De que ele gosta?
Melissa ajeitou a saia de seda vermelha sobre as coxas torneadas em academia de
ginástica. Apoiou o queixo em uma das mãos. Patrícia podia apostar que usava todos os
neurônios para pensar na resposta.
— Sam gostava que eu usasse seda. Pérolas. Renda. E se admirava quando eu não
usava absolutamente nada. Ei, por que está me perguntando?
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— Eu apenas gostaria de saber sob sua perspectiva. Melissa franziu a testa.
— Amiga, você compreendeu mal. Sam é um amante maravilhoso. O melhor. Ambas
sabemos disso — acrescentou, mal notando a pontada de mágoa que passou pelo rosto de
Patrícia. — Mas quando ele faz amor com você, proporcionando lhe uma explosão de
alegria e sensações maravilhosas, há algo que falta, concorda? — Parou de falar e
observou Patrícia com atenção. — Querida, você nunca fez amor com ele, não é mesmo?
— Não preciso responder.
— Nem é necessário — Acrescentou em um sussurro — Ele é um homem e tanto. Com um
apetite másculo incrível. Uma mulher tem de ser forte para satisfazê-lo. Sam precisa de
uma mulher de verdade.
— E você não foi?
— Não foi este o problema. — Melissa aprumou-se e seu rosto tornou-se vermelho. — Eu
não teria me casado com ele, de qualquer maneira. Sam não era civilizado o bastante.
— É mesmo?
— Não vem de família rica. Fez-se sozinho. Uma qualidade muito atraente no início do
namoro, mas exaustiva no final. Papai me enviou para a Europa a fim de que eu o
esquecesse. E agora você pode me fazer um favorzinho antes de eu ir embora.
— Qual?
— Não quero ver Sam. Seria ruim para minha dignidade. Você poderia dar uma olhadela
na sala dele e ver se há alguma fotografia minha sobre a escrivaninha? Se houver, quero-a
de volta.
— Está bem, mas fique aqui. E não tente decifrar estes papéis sobre minha mesa.
— Nem sonharia em fazer isso. Detesto matemática. Patrícia caminhou até a sala de Sam.
Devia ter dito a Melissa que ele estava ausente em uma conferência sobre programas de
benefícios e só retornaria na hora do almoço. Ela mesma poderia pegar a fotografia.
Deu uma verificada na escrivaninha e não encontrou nenhum retrato de Melissa. De fato, a
única fotografia em um porta-retrato era de Patrícia, quando os dois estiveram
entrevistando estudantes em Fort Lauderdale, na última primavera. E não se encontrava ali
no dia anterior.
Isso a fez sorrir.
Mas Sam apenas a colocara ali até a hora do divórcio.
Mas ao menos está aqui, pensou.
Saiu da sala para dar uma resposta a Melissa.
— Sinto muito, mas não há fotografia nenhuma sua lá. Está tentando decifrar estas
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planilhas?
Melissa olhou para cima, debruçada na escrivaninha. Ela colocou a mão sobre o fone.
— É sua mãe — explicou. — Por que você não disse pra ela que ia se casar?
Patrícia levou a mão à testa enquanto Melissa ajeitava sua bolsa, acenava alegremente e
deixava a sala.
— Mamãe...
— Irei para o casamento.
— Não, mamãe, não é esta espécie de casamento - falou Patrícia, inclinando-se para
fechar a porta da sala.
Não queria que ninguém ouvisse a conversa.
— Como assim, não é esta espécie de casamento? O que quer dizer? Minha única filha vai
se casar. Preciso comparecer.
— Mamãe, lembra-se quando você e papai estavam na Rússia e havia um físico que eles
queriam mandar para a Sibéria?
— Sim, eu me lembro que a secretária de seu pai casou-se com Sergei Rathmikolov para
ele conquistar imunidade diplomática e poder ir para os Estados Unidos.
— Certo. Pois é assim.
— Divorciaram-se assim que ele chegou em segurança aos Estados Unidos — prosseguiu,
a sra. Peel — Sergei passou a frequentar a universidade de Harvard. Mas foi um
casamento arranjado.
— Certo, mamãe. Pois meu casamento...
— Ela, é claro, nunca mais pôde voltar à União Soviética — interrompeu-a a mãe. — Então
seu pai lhe arrumou um emprego no Paraguai pouco antes de morrer.
— Bem, a situação é parecida. — Houve uma longa pausa.
— Mamãe? Ainda está aí?
— Oh, querida! Eu nunca soube que o Arizona tivesse problemas políticos dessa natureza.
O que você vai fazer? Casar-se para que ele possa se mudar para o Texas?

- Rex deu-nos ingressos para esta noite — disse Sam, colocando duas entradas de teatro
sobre a escrivaninha de Patrícia. São para assistir a ópera Madame Butterfly. — No
Orpheum.
Patrícia suspirou alegremente, examinando os convites.
— Não é aquele teatro que foi recentemente reformado?
— É muito bonito. Tem escadaria imponente e tudo o mais.
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— Eu gostaria de ir — disse ela. — E aqui diz que é camarote. Mas poderíamos dizer que
o casamento está próximo, que temos muito a fazer...
— Estes convites pertencem a Rex. Ele devia cumprimentar o governador, que estará no
mesmo camarote. Concordei em cumprimentá-lo representando Rex. Ficaria muito
esquisito se você não me acompanhasse.
— Não tenho nada para vestir.
— Então não vista nada — Sam provocou. — O que você está usando hoje parece muito
adequado.
Ela vestia terninho de seda cor de coral. Seus cabelos estavam ajeitados. Tinha de acordar
quarenta e cinco minutos mais cedo cada manhã para obter o efeito correto nas madeixas,
e seus braços estavam doloridos de tanto ajeitar o secador.
Mas sabia que já estaria com o terninho amarrotado e os cabelos em pandarecos quando a
cortina do Orpheum fosse aberta.
— São roupas de trabalho — alegou Patrícia. — Usarei um vestido.
Sua conta corrente estava quase zerada. Mas, com Gascon como aliado, tinha um vestido
para cada ocasião.
— O que aconteceu com todos os seus terninhos acinzentados e suas blusas brancas de
colarinho alto?
— Estou tentando não parecer antiquada.
— Nunca pareceu. Mas está mais sensual. Notei na noite passada, no jantar, que você
chamou a atenção dos homens. Quem foi aquele que parou à mesa e pediu seu autógrafo?
— Era fã de uma atriz. Pareceu bem aborrecido quando escrevi meu nome no guardanapo.
— Eu devia estar com ciúme.
— E está?
— Claro que não — disse Sam, mal notando o modo como os ombros dela caíram. — A
propósito, seu perfume também está gostoso.
— É mesmo? Quero dizer, obrigada.
— Sim, você está com cheiro...
— De uma essência de especiarias oriantal? — indagou ela com esperança.
Gastara quase cem dólares por algumas gotas do perfume precioso. Mas a vendedora lhe
garantira que os homens ficavam loucos de desejo quando sentiam aquele cheiro em uma
mulher.
Ainda não havia encontrado um perfume cuja propaganda dissesse que o interesse sexual
voraz dos homens se transformaria em amor. Quando encontrasse, planejava comprar um
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galão gigantesco.
Sam prometera que jamais voltaria a constrangê-la. Ele brincava, elogiava, admirava,
assobiava e até mesmo oferecia-lhe um olhar de admiração. Mas nunca ultrapassara a
linha que conduzia à sedução.
Patrícia não tinha dúvidas de que, se mexesse um dedo, ele viria em sua direção. Iria
tomá-la nos braços e a satisfaria.
A perspectiva a amedrontava.
Por isso, as duas últimas semanas foram perfeitamente castas. Percebia que Sam estava
interessado nela, muito além dos laços de amizade. Mas ele era, segundo Melissa, um ho-
mem de grande apetite sexual. Queria apenas fazer amor.
Patrícia precisava de todo o seu autocontrole para dizer não quando seu corpo queria o
sim. Mas, caso aceitasse, Sam descobriria que ela era virgem. E então Patrícia se afastaria
Sam inclinou-se, quase a tocando com o nariz.
— Não, não é cheiro de perfume. É de croissant de chocolate. Você vai comer isso?
— Aqui está — disse Patrícia, empurrando o pão doce na direção de Sam. — Eu não
deveria comê-lo. Mildred diz que não posso ganhar ou perder peso de modo algum antes
do casamento ou meu vestido não servirá.
— Não deve ser difícil — disse ele, dando uma mordida no pão.
— Especialmente com você comendo meu café da manhã. Sam tirou algumas migalhas da
lapela.
— Tem certeza de que não se importa em ir para a ópera? Eu a tenho mantido acordada
até tarde todas as noites.
Vinha sendo uma semana e meia muito intensa, desde a festa de aposentadoria de Rex.
Patrícia dormia tarde e acordava bem cedo para chegar ao escritório, o que não lhe dava
muito tempo para pensar na farsa em que estava metida.
— Ficarei bem. Se Rex quer que você cumprimente o governador, deve ter um motivo.
— Otimo. Porque eu não gostaria de ir com outra pessoa. Melissa levou-me à ópera certa
vez. Eu adormeci e ela ficou louca de raiva. Pegarei você às oito horas, então.
— Certo.
Sam lhe lançou um beijo. Passaram-se três segundos inteiros antes de Mike, do
departamento de correspondência, vir trazer algumas cartas e Patrícia perceber que o beijo
fora apenas mais uma encenação.
Vinham acontecendo muitos beijos no decorrer das duas últimas semanas.
— Ei, Patrícia, aqui está sua correspondência — falou Mike. — Parece um tanto
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deprimida... Correria de casamento?
— Oh, não — respondeu ela, balançando levemente a cabeça. — Eu... Bem, talvez seja
isso mesmo.
— Muito simpático o sr. Barrington lhes dar a festa de casamento.
— Certamente. Mas será uma pena que Rex III não possa comparecer.
— Rex III?
— Sim, nós chamamos o filho de Rex II de Rex III. Porque ele se chama Rex Barrington III.
Entendeu?
O lindo rosto de Mike iluminou-se em um sorriso.
— Entendi. Por que ele não vai?
— Negócios. Está fora do país. Ninguém ainda o viu. Exceto Rex II, claro.
Mike riu.
— A propósito — disse ele, ainda sorrindo — devo lhe dizer que sua mãe está aqui.
— Aqui? — falou Patrícia, arregalando os olhos. — Onde?
— No saguão. Esperando por você.

CAPITULO XII

Patrícia calçou os sapatos de salto alto. Mal conseguia andar, mas naquela manhã teria de
dar um jeito. Caminhou até o elevador. Estava demorando tanto que ela desceu a pé até o
saguão.
Sua mãe, elegante em um terninho azul-claro, conversava com a recepcionista.
— Mamãe, o que faz aqui?
— Bon jour! — falou, parecendo ter se esquecido de que os norte-americanos, incluindo
sua filha, não falavam francês.
— É maravilhoso vê-la, mas o que faz aqui? — repetiu, suavizando a voz ao notar que a
recepcionista a espiava por sobre a revista de moda.
— Estou aqui para o casamento de minha única filha — a sra. Peel respondeu. — Mesmo
sendo um casamento movido por conveniências legais.
— Mamãe!
A mãe olhou para a recepcionista.
— Não acho que ela me aprove — a sra. Peel sussurrou para Patrícia. — Escute, vai se
casar depois de amanhã e eu não poderia perder a cerimônia por nada neste mundo. Além
do mais, oficiais da emigração poderiam notar o fato de a mãe da noiva não comparecer.
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Isso poderia prejudicar vocês... Oh, querida!
— O que foi?
— Você está apaixonada! — disse, com o mesmo tom de voz que teria usado para
anunciar o fim do mundo.
— Como sabe?
— Posso ver em seu olhar. Patrícia da tocou os próprios olhos.

— Dá para perceber? — indagou, fazendo uma careta quando a sra. Peel assentiu.
Se a mãe podia ver, o restante do mundo também podia.
— Uma mãe sabe dessas coisas. Você está se casando por amor, e ele não. Este é o
problema, não é mesmo?
— Por favor, mamãe, fale baixo — pediu Patrícia, empurrando-a para dentro de um
elevador. — Preciso levá-la até minha sala. Ficará ali e não se meterá em problemas.
— Nunca me meto em problemas.
— Foi o que você falou antes daquele incidente em Helsinki.
Patrícia escoltou-a até sua sala e fechou a porta. Então sentou-se no pequeno sofá à
janela e lhe contou tudo. Omitiu-se, entretanto, as partes referentes à virgindade.
Simplesmente não poderia confessar isso a ninguém!
— Eu o amo — concluiu. — Mas sei que Sam não me ama. Ainda. Casar-me com ele é
tão terrível assim?
— Não estou em posição de julgar. Apenas desejo que Sam consiga ver a mulher
maravilhosa que você é. E quão precioso é seu amor por ele. — Tocou na lapela do
terninho de seda de Patrícia. — Engraçado, é exatamente o tipo de roupa bonita e
chamativa que eu sempre quis que você usasse. Sua maquiagem e os cabelos estão mais
sofisticados. Está até mesmo usando salto alto. E este perfume é tão francês! Nossa! Até
parou de roer as unhas!
— Precisei. Não se pode morder unhas de acrílico. Gostou?
— Sim, claro.
— Não, não gostou.
— Está bem. Pode me chamar de maluca, mas sinto falta da antiga Patrícia. Do rabo-de-
cavalo, das sardas. Das unhas roídas. Posso estar perdendo o juízo. Até mesmo sinto-me
nostálgica em relação a seus terninhos acinzentados. Não eram chiques, mas eram uma
característica sua.
— Estou mudando porque quero que Sam me note. E se apaixone por mim. E isso só
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poderá acontecer se eu fizer algumas alterações.
— Sam é tão afeiçoado assim a um pouco de maquiagem, vestidos da moda e a unhas
esmaltadas?
— Não, mas quero ser a mulher de quem ele gosta. Tornar-me amante e esposa.
— Oh, minha querida, você está mal, pior que imaginava.
— O que quer dizer com isso?
— Já é difícil o bastante amar alguém que não faça qualquer coisa por você. Mas é
realmente difícil que alguém a ame e você nem mesmo consiga perceber isso.

Champanhe e rosas brancas, tule e renda, uma enorme tenda branca no pátio da Mansão
Barrington para abrigar os convidados e protegê-los do forte calor do do sol de fim de
verão.
Na porta que conduzia a improvisada nave de piso de pedra estava Mildred Van Hess,
dando a Patrícia o abundante buquê de rosas brancas do deserto.
— Você está fazendo a coisa certa — disse ela. — Vá em frente. É hora de o espetáculo
começar.
O quarteto de cordas começou a tocar a marcha nupcial. A sra. Peel, sentada na primeira
fileira, já havia tomado emprestado um segundo lenço a alguém a seu lado. Soluçava
dramaticamente.
Foi somente quando estava na metade do trajeto até o altar que ela registrou o comentário
estranho feito por Mildred.
Você está fazendo a coisa certa.
Mas que sentença esquisita a ser dita a uma noiva!
Patrícia olhou para o altar e viu Sam, os olhos acinzentados fixos nela. Usava meio-fraque
e estava muito elegante. Parecia um noivo orgulhoso.
Ela fizera o melhor para deixá-lo contente. Seu vestido era de seda branca e o corpete,
bordado com pedrarias. Acariciou a mão da mãe ao aproximar-se do altar e então olhou
para o noivo.
— Você não deve se sentir obrigada... — ele sussurrou ao oferecer-lhe o braço.
Patrícia o silenciou com um meneio de cabeça. O ministro começou a cerimônia. Patrícia
ouviu as palavras primeiro com tristeza, percebendo quão pouco poderiam ser
verdadeiramente aplicadas a ela.
Gostaria tanto de ser como outras mulheres, as que encontravam o amor e podiam ouvir
aquelas palavras com confiança e alegria...
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Mas na medida que o sermão prosseguia, ela sentiu uma estranha calma. E as semanas
de decepção simplesmente desapareceram de sua mente.
Aquelas palavras realmente podiam ser aplicadas a ela. Eram verdadeiras. Estava criando
uma conexão especial com Sam que persistiria muito depois de Patrícia deixar a Barrington
para prosseguir com a própria vida.
Permaneceria muito tempo, na verdade. Porque os votos que fazia eram sinceros. Amava
aquele homem. E seu casamento, mesmo longe dele, seria para toda a vida.
Não haveria outro homem a quem pudesse amar, honrar, tratar com carinho e estar ao
lado na doença e na saúde, nos tempos bons e ruins. Seria sua esposa para sempre,
embora Sam jamais fosse saber disso.
Sam, imóvel, nunca prestara atenção a uma cerimônia de casamento. E notava que as
palavras sagradas eram diretas e precisas. Amor. Honra. Carinho. Na doença e na saúde.
Na riqueza e na pobreza. Nos bons tempos e nos ruins. Até que a morte nos separe.
Os pais de Sam nunca se casaram. Seu pai nem se importara em dar um sobrenome ao
filho. E a mãe fora fraca demais para protestar contra a existência de tantas mulheres na
vida do companheiro.
Sam decidira muito cedo que iria se casar. Não era uma decisão romântica e sim a marca
de sua determinação em viver segundo as normas da sociedade.
Mas aquilo não era um casamento. Ou era?
Olhou para Rex, que sorria tão amplamente que parecia explodir de alegria. Notou Mildred
apoiada no braço de Rex. E Mike, do setor de correspondência, estava em pé, ao lado do
presidente da Corporação Barrington.
Sam não conhecia a história inteira da contratação de Mike por Rex, mas imaginava que o
rapaz tivesse uma história semelhante à sua.
Acariciou a mão de Patrícia, que lhe fazia um favor e tanto, salvando-o quando mais
precisava. Uma boa amiga fazia isso, considerou, mas as palavras da cerimônia de ca-
samento iam além da amizade.
Ela estava prometendo diante de Deus que seria sua mulher para sempre. E Sam fazia o
mesmo. Era errado brincar com a cerimônia sagrada dessa maneira. Devia parar
imediatamente com a farsa. Dizer a todos que aquilo tudo era uma fraude. Que ele não era
mais o garoto de rua que passara a usar ternos caros e que não pertencia àquele lugar.
Não era capaz de amar uma mulher. Não era capaz de dar tudo a ela. Não pôde dar a
Melissa. E, ali, fingia dar seu amor à melhor amiga que já teve. Não havia entrentanto, uma
saída graciosa, um jeito de não humilhar Patrícia.
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Admirava-a. Era maravilhoso observar seu desejo de dar tudo para ajudar um amigo. Era
linda e seria uma esposa maravilhosa para alguém, um dia. Merecia o melhor...
O que ela estaria desejando? Uma promoção rápida? Aumento de salário? Um emprego
melhor? Uma boa carta de referência? Ou simplesmente a promessa de que poderia seguir
a estrela de Sam à medida que ascendesse dentro da corporação? Não, estava fazendo
aquilo porque... considerava-o um amigo. Ficou imaginando se merecia uma amiga tão
bondosa, mas nem teve tempo de explorar a mente em busca de uma resposta. O ministro
havia lhe dito, pela segunda vez, que ele poderia beijar a noiva.
Patrícia o fitou com uma inocência tão radiante que ele quase gritou que era um canalha.
Um canalha que havia aceitado a oferta daquela mulher, uma oferta de amizade. Mas o
sorriso feminino, tão pleno de mistério e beleza, o fez hesitar. Ela pousou a mão na lapela
do paletó. Com aquele toque, tão poderoso quanto a varinha de um mágico, Sam
esqueceu-se de tudo.
Beijou-a. E prometeu, com o toque de seus lábios nos de Patrícia, que seria seu marido.
Para sempre.
Algo novo acontecia naquele exato momento. Porque, quando ergueram a cabeça em
busca de ar, ambos pareciam chocados.
— Senhoras e senhores, é com prazer que lhes apresento o sr. e a sra. Sam Wainwright —
declarou o ministro, sorrindo.
Os convidados irromperam em aplausos, quase capazes de ocultar os soluços da sra.
Peel. Sam caminhou pela nave com Patrícia, e ao final do trajeto um garçom lhes ofereceu
duas taças de champanhe.
— Cada vez que for dado um brinde, você tem de beijar a noiva — o homem falou para
Sam.
- Claro — disse ele, sentindo uma alegria indisfarsável e inexplicável.

CAPITULO XTV

Houve um brinde, e então outro. Beijos e mais beijos. Sam sentia-se dopado, como se
tivesse tomado toda a taça de champanhe. Queria tomar Patrícia nos braços.
Uma pergunta o instigava: por que ficara batendo o pé, irritado, enquanto Rex dançava a
primeira valsa com Patrícia? Resposta: impaciência.
Algumas semanas atrás, teria considerado tola a idéia de beijar sua assistente. Semanas
antes, dançar com ela teria lhe dado tanto frenesi quanto as aulas de dança a que fora
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obrigado a frequentar durante o ensino médio. Havia somente algumas semanas, Patrícia
Peel figurava em seus sonhos à luz do dia como alguém com quem partilhava alguns
segredos comerciais.
Mas agora os beijos dela eram tão irresistíveis quanto chocolate, seu riso precioso como
diamante e a pele, suave como seda.
Gostava dela. Sempre gostara. Embora somente como boa esportista e companheira de
trabalho. Agora, porém, a desejava.
A meia-noite disse-lhe, enquanto dançavam, que queria ir para casa.
— Casa? — ela indagou, arregalando os olhos.
— Sim, casa. Ouça, eu a quero. E acho que também me quer.
Ela o encarou, as pupilas se expandindo a tal ponto que os olhos ficaram quase negros.
Então baixou a cabeça e fitou o nada.
— Sim, eu quero — falou com suavidade.
Os minutos seguintes foram caóticos. Rex apertou a mão de Patrícia, lágrimas de alegria
fazendo seus olhos cintilarem. Então beijou Sam no rosto e prontamente pediu desculpas,
por estar confuso a ponto de inverter o protocolo. Devia ter beijado o rosto de Patrícia e
apertado alegremente a mão de seu vice-presidente.
Mildred deu a Patrícia um buquê, e Sophia, a nova assistente de Rex III, o apanhou. Sam
olhou para Mike e fez sinal afirmativo, embora soubesse que Sophia alegava não estar
interessada no moço do setor de correspondência.
Enquanto o casal caminhava para o local onde um carro os aguardava, Mildred estendia a
cada convidado uma caixa em formato de pirâmide e, na direção do casal, centenas de
caixas foram abertas.
Uma delicada nuvem de borboletas flutuou primeiro em direção às luminárias e então rumo
aos picos da montanha escura. Centenas de adeus seguiram Sam e Patrícia durante o
caminho até os portões de ferro.
Nada falaram no carro. Sam não queria estragar o momento. Quando parou à porta de sua
casa, desceu e abriu a porta do passageiro.
— Permita-me — disse, e a tomou nos braços, carregando-a para dentro.
Quando acendeu a luz do saguão, notou que o rosto de Patrícia estava enrubescido, virado
em sua direção como se estivesse se entregando como um presente. Os beijos
decorrentes de centenas de brindes ao casamento haviam feito sua mágica.
— Eu te desejo — ele disse com voz rouca. — Muito. Colocou-a no chão e estendeu os
braços para envolvê-la, mas Patrícia recuou.
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— Há duas coisas que devo lhe contar — falou devagar
— Se é sobre controle de natalidade, eu já...
— Não, não. é.
O rosto dela era uma máscara de tristeza.
— Oh, não! — exclamou Sam, e apoiou-se na mesa. — Você não quer fazer amor comigo.
— Quero. Mas devo lhe contar...
Sam teria de ouvir, embora a desejasse tanto que mal conseguia permanecer em pé.
Talvez ela quisesse indagar-lhe alguma coisa importante.
— A primeira coisa é... que sou virgem.
Sam arregalou os olhos, deu um passo para trás e quase perdeu o equilíbrio. Estava tão
chocado que mal conseguiu respirar. Não havia esperado por isso.
— Virgem?
Ela assentiu, o queixo baixo, os cabelos praticamente cobrindo o rosto.
Sam recriminou-se, atormentado. Agira mal. Levara-a para o alto e Patrícia nem mesmo
soubera onde estava.
— Oh! — murmurou ele, e sentou-se no segundo degrau da escada. — E qual é a segunda
coisa?
Resolveu ficar em pé e aproximar-se de Patrícia. Sabia que não apenas levara uma mulher
a uma atitude extrema como também conquistara o coração de sua melhor amiga. Ela
estava apaixonada.
— Então agora você sabe de meu primeiro segredo terrível. E provavelmente imagina qual
é meu segundo segredo terrível.
Ele a fez erguer o queixo com gentileza.
— Não é tão terrível assim.
— Qual não é tão terrível? Ser virgem aos vinte e nove anos? —Patrícia piscou repetidas
vezes para tentar conter as lágrimas.
— Eu nunca devia tê-la envolvido nisso.
— Você não sabia. Eu não lhe contei. Estava envergonhada e preocupada, achando que
iria me julgar uma pessoa menor.
— A virgindade de uma mulher é um presente precioso.
— Estou pronta para oferecê-la.
Sam a abraçou. Ela sentiu uma pontada de esperança. Mas logo foi embora, diante da
distância decorosa que ele manteve.
— Não vou tirar vantagem de você.
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— Mas estou lhe pedindo para fazer isso. — Seu desejo por ele era quase doloroso.
— Não sou esse tipo de homem. Vou preparar-lhe o quarto.
— E onde dormirá?
— No sofá.

Patrícia tirou os sapatos. Retirou um grampo. Procurou enxugar as lágrimas, nem mesmo
se importando se o batom e a maquiagem se dissolviam.
Foi para o andar de cima. Sam estava fazendo a cama.
— Eu admito, Sam. Tinha esperanças de que, se passássemos bastante tempo juntos,
fingindo ser um casal, você olharia para mim e decidiria que eu era...
— Era o quê?
— Bonita o bastante. Inteligente o suficiente. Adorável.
— Oh, mas você sempre foi tudo isso.
— Só que você não notava.
— Tem razão. Oh, você fez tudo isso porque tinha esperanças de que eu me apaixonasse?
— Não foi o único motivo. Eu apenas desejava o melhor pra você, a ponto de fazer
qualquer coisa para ajudá-lo.
— Mesmo se nada lhe fosse dado em troca? Mesmo se eu lhe dissesse que não sou o
tipo de homem que ama uma mulher? Mesmo se eu estiver lhe dizendo que minha carreira
e minhas ambições sempre virão em primeiro lugar?
— Sim.
— Se terminasse aqui, Patrícia, teria valido a pena para você?
— Se você mantivesse o emprego que tanto ama, sim — respondeu sem hesitar. — Não
acho que essas revelações vão mudar alguma coisa. Nós ainda vamos nos divorciar
quando Rex estiver viajando, e seu emprego ficará seguro.
— Acho que agora tudo mudou. Tirei vantagem de alguém. Não, não apenas de alguém.
Tirei vantagem de uma amiga. Minha melhor amiga.
— Você não fez isso — falou Patrícia, tentando alcançá-lo através da cama. Mas ele
recuou. — Eu sabia o que estava fazendo.
— Não tinha experiência suficiente para saber o que estava fazendo. Era como uma
criança brincando com fósforos. Não tinha intenção de se queimar, mas queimou-se. Agora
durma um pouco. Descobriremos o que fazer pela manhã.
— Vou lhe dar o divórcio quando chegar a hora certa. Cumprirei tudo o que combinamos.
E não vou me arrepender. Nem um pouco. Porque fiz isso por você. Oh, não é verdade. Fiz
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por mim. Fiz... por nós.
Ele se deteve à porta.
— Você é a única mulher na qual confio o suficiente para saber que faria o que disse que
faria. Mas é também a única mulher à qual eu não gostaria de perguntar.
Com gentileza, fechou a porta, e Patrícia desabou sobre a cama.
Por que lhe contei que sou virgem?, lamentou. Porque ele saberia. Se fizessem amor, Sam
teria percebido. E todos os penteados da moda, roupas novas e saltos altos não teriam
feito nenhuma diferença. Ela era uma mulher simples, com gostos simples, uma aparência
que atraía olhares masculinos, mas sem exageros, e nenhuma experiência sexual.
Tirou uma unha postiça, fazendo uma careta. Então tirou outra. E outra. Depois
despenteou os cabelos, fez um rabo de cavalo e achou uma camiseta nos fundos da mala
que havia feito para a lua-de-mel de dois dias que Mildred planejou no Barrington Spa no
Novo México.
Retirou a maquiagem, dizendo olá às sardas que haviam se tornado artigo raro nas últimas
duas semanas. Lavou os pulsos e o pescoço, para livrar-se do perfume caro. O cheiro
límpido de sabonete não era sedutor, mas era assim que Patrícia gostava de sentir sua
pele.
Meteu-se debaixo das cobertas, inalando o aroma de Sam. Era demais.
Foi para o andar térreo e o encontrou sentado no sofá, segurando uma taça de brandy em
uma mão, a outra firmemente fechada.
— Não vou conseguir dormir, Sam. Por favor, poderia vir para a cama comigo?
Ele a encarou. Grossas linhas de preocupação maculavam sua testa.
— Não vou fazer amor com você.
— Não estou lhe pedindo isso. Peço-lhe algo muito mais difícil.
Sam assentiu lentamente. Pousou o copo na mesa e a seguiu para o andar de cima. Tirou
gravata e cinto, permitindo-se abrir o primeiro botão da camisa. Então entrou na cama com
gentileza e a abraçou.
Ela não dormiu, embora mais tarde tenha ouvido a respiração de Sam tornar-se profunda e
compassada. Os braços musculosos ficaram pesados ao redor de seu corpo, mas Patrícia
não se mexeu.
Nunca havia partilhado uma cama com um homem, mas nem pensava em sair para
encontrar um lugar mais confortável para dormir. Em vez disso, ficou olhando para o
relógio sobre a cômoda.
Três horas, quatro horas. Cinco. Aguardou até um horário decente para telefonar a Mildred
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e lhe explicar que teria de deixar a Barrington.

- Bom dia. Aqui está sua correspondência — falou Mike, puxando o carrinho para dentro da
sala de Sam. — Aquela companhia parisiense lhe enviou uma caixa gigantesca com
amostras de sabonetes deliciosos, na esperança de que você os compre para os hotéis
das Bahamas. Trarei mais tarde. Também vou lhe contar um segredo. Os sabonetes a prin-
cípio têm uma fragrância fina e gostosa, mas deixam um cheiro, depois, como o de ovos
estragados.
Sam encarou o rapaz. Como Mike, o moço de correspondências, sabia qual o cheiro dos
sabonetes europeus mais caros?
— Ei, você não devia estar em sua lua-de-mel? — indagou Mike. — E o que um noivo
devia estar fazendo na manhã seguinte a seu casamento?
— Analisando papéis no trabalho — palpitou Sam.
— Devia estar na cama. Além do mais, é tão cedo! Realmente cedo. Mesmo assim,
Patrícia já havia ido embora.
Sam telefonara para o apartamento e não houvera resposta. Cuidaria de alguns assuntos
pendentes, conversaria com Rex e iria para casa. Teria de encontrá-la e fazê-la perceber
que ele agira mal. Muito mal.
— Sabe, Mike, você fez uma boa escolha ao trabalhar no departamento de
correspondências...
Mike o encarou.
— É mesmo?
— Se colocar sua carreira à frente de qualquer outra coisa, será fácil achar que ir adiante é
importante o suficiente a ponto de perder amigos. E de perder uma boa mulher.
— Ei, não seja tão duro consigo mesmo. Como funcionário do departamento de
correspondência, posso lhe garantir que as mulheres nem sequer olham para mim.
— Está pensando em Sophia? Percebi que seu interesse por ela não diminuiu.
— É tão óbvio assim?
— É.
— Ela quer um homem com uma sala ampla, uma secretária e muito poder. Não aceitaria
quem não tivesse essas qualidades.
Mike tirou o carrinho da sala de Sam, que observou algumas cartas e fez alguns
telefonemas. Então ajustou a gravata e colocou o paletó. Caminhou pelos corredores
vazios da Corporação Barrington.
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Não precisaria ligar antecipadamente. Rex estaria em sua sala.
— Você não devia estar em lua-de-mel? — perguntou Mildred quando Sam adentrou a
sala espaçosa do chefe.
— Onde posso encontrar Rex?
— Estará aqui mais tarde — respondeu a mulher, retornando ao trabalho. — Sente-se.
Sam acomodou-se no sofá de couro, perto da janela. Mildred assobiava uma canção
enquanto analisava alguns papéis.
— Foi um casamento maravilhoso — disse. — Até mesmo tendo sido planejado por mim.
As borboletas ficaram espetaculares. Você gostou?
— Fez um trabalho e tanto, Mildred. As borboletas estavam lindas. E todas sobreviveram.
— E aquele bolo! — exclamou ela, sem perceber o desconforto de Sam. — Não me
importo em contar que terei de passar horas extras fazendo regime por causa daquela
indulgência. O champanhe estava maravilhoso. Oh! Minha cabeça ainda dói esta manhã.
Você também não parece muito bem.
Ele com relutância a fitou.
— Nada de que eu não possa me recuperar.
— Mesmo assim, foi um casamento maravilhoso. E após um relacionamento tão longo...
Rex comentou sobre como ficou satisfeito quando você noivou, meses atrás. Mas nunca
pôde se lembrar do nome da moça. Nem mesmo suspeitava de que fosse Patrícia. Vocês
dois foram muito discretos. Sim, um casamento após um longo namoro é muito satisfatório.
Sam assentiu, imaginando como interromper o discurso para indagar exatamente a que
horas Rex chegaria. Mildred tirou os óculos.
— Ou foi um relacionamento curto? Ouvi a conversa de algumas garotas daqui, durante um
almoço. Falavam que na semana anterior ao noivado Patrícia se queixava do fato de você
jamais tê-la notado. Que reuniria coragem para lhe contar sobre seus sentimentos. E isso
foi pouco antes de Rex convidar sua noiva para a festa de aposentadoria. Foi um namoro e
um noivado ágeis ou um relacionamento desenvolvido com vagar?
Sam fechou os olhos e aspirou profundamente.
— Há quanto tempo você sabe da verdade?
— Desde o princípio.
— Como?
— Patrícia estava usando o mesmo anel com que Melissa Stanhope foi fotografada no
último exemplar da revista Phoenix Life. Você esqueceu que gosto de fofocas. Mas sei
manter um segredo.
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— E por falar em segredos... Rex sabe?
Ela sorriu.
— O que ele não sabe não o magoará.
— Preciso contar a ele.
— Eu não o aconselharia.
— Por que não?
— Porque primeiro você deve descobrir a verdade antes de tentar explicã-la.
— A verdade é que me casei com Patrícia porque não queria desapontá-lo ou fazê-lo
pensar que não era estável o suficiente para manter o emprego.
— Acho que isso faz parte da verdade.
— E a verdade é que ela se casou comigo porque me ama e queria o melhor para mim,
embora tivesse esperança de que eu me apaixonasse.
Mildred assentiu.
— Parece-me certo.
— Então, o que estou omitindo?
— Você está se esquecendo da parte sobre seu amor por Patrícia.
— Você é simpática. Muito doce. Mas interpretou errado. Patrícia me ama. Mas a recíproca
nunca foi verdadeira.
Mildred continuou a encará-lo.
— Bem, sou mais velha e, por isso, mais experiente. Pense melhor no assunto. De
verdade, fazendo uma busca em sua alma. E rapidamente. Dê a si mesmo dois ou três
minutos. No máximo.
—- Por que a pressa?
— Patrícia me telefonou esta manhã e disse-me que está saindo da empresa. Não me
contou o motivo, mas tenho alguns palpites. Estou preenchendo a solicitação de demissão
agora, escrevendo coisas que não devem ser mostradas para Rex a menos que seja
absolutamente necessário.
— E onde ela está agora? — Sam exigiu saber, a meio caminho do corredor.
— Ela e a mãe vão pegar o próximo vôo. Patrícia está partindo — complementou Mildred.
— Para sempre.

CAPITULO XV

Contemplar o pôr-do-sol no degrau de casa. Pescar no rio Vermelho. Jogar basquete.


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Contemplar o canyon. Seu emprego. O respeito de Rex II. Eram coisas que o fariam ter
saudade do Phoenix.
Mas teria de partir. Era a única coisa certa a ser feita.
Sam pisou com mais força no acelerador, aproveitando o trânsito que fluía. Pensava em
Patrícia empacotando tudo o que tinha. Na certa demoraria bastante. Mas não saberia o
que fazer se ela já tivesse ido embora.
Sentiria falta de Patrícia quando deixasse Phoenix. Sentiria saudade dos terninhos
acinzentados. Do modo, até mesmo durante o decorrer de uma discussão séria, como seus
dedos tentavam colocar os cabelos atrás das orelhas.
Ansiaria por ouvir novamente seu riso. Sentiria falta do modo como ela jogava basquete
com os rapazes, dedicando-se ao máximo sabendo que não era a melhor mas jamais per-
dendo o entusiasmo.
E sentiria saudade das longas conversas após o jogo, sobre absolutamente nada e
absolutamente tudo. Exausta, deitada na quadra vazia, ela não queria tomar um banho
porque... isso significaria o final da noite.
— Mildred tem razão — Sam falou, desviando de um motorista adolescente que guiava
com mais pressa do que ele. — Estou apaixonado.
Sam Wainwright apaixonado. Era amedrontador, e ele não era homem de se assustar com
facilidade. E então, após um momento de medo, veio a calma.
Tudo o que faria, daquele instante em diante, seria pelo amor que sentia por Patrícia. Havia
encontrado seu propósito, que não era aumentar a lucratividade da Corporação Barrington
ou contratar os melhores funcionários para a empresa. Seu único propósito seria amar
Patrícia Peel. Fazer amor com ela e lhe mostrar a ternura e a suavidade que a paixão
verdadeira pode dar.
Finalmente entrou na rua de Patrícia. Viu o táxi.
A sra. Peel, tentando equilibrar um enorme vaso e uma mala, estava em pé na esquina. O
motorista, mastigando chiclete, saía do prédio carregando uma enorme caixa.
Sam estacionou o carro defronte ao táxi.
— Ei! — o motorista resmungou. — Vou sair assim que a senhorita do andar de cima
descer.
Sam olhou para a sra. Peel.
— Ela já conseguiu uma entrevista no Ritz-Carlton em Paris — disse a senhora. — E
muito organizada.
— Sempre é.
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— Mas, se quiser conversar com ela, não faço objeções. Nosso avião parte em duas horas
e... Ei! Largue isto!
Sam tirou a maleta da mão da sra. Peel e já estava a meio caminho dos degraus.
— Patrícia! — gritou ao passar pela porta aberta do apartamento.
Ajoelhada no chão, fechando uma caixa, ela arregalou os olhos.
— Sam, não diga uma palavra — pediu, ficando em pé. — Está tudo bem. Estou indo para
casa.
— Você nunca morou em Paris.
— Eu sei, mas é onde está minha família.
— Eu sou sua família. Sou seu marido.
— Foi apenas encenação.
— Não, não foi. Quando se faz os votos diante de um altar, as palavras se tornam
verdadeiras. Eu a amo — declarou, dando um passo na direção dela, que recuou.
— Você apenas está sentindo pena de mim.
— Não sinto pena de ninguém, mas sentirei de nós dois se você pegar aquele avião. Eu a
amo. Apenas não havia percebido antes.
— Não acredito. Não acho que esteja mentindo para mim, apenas considero que não sabe
quais são seus sentimentos. É um cavalheiro que está tentando fazer a coisa certa, sal-
vando-me da humilhação. Bem, não preciso dessa proteção. Tenho meus sentimentos e
vou partir com eles. Você pode contar na empresa a história que preferir. Não falei nada a
Mildred quando me demiti.
— Não quero dizer nada a ninguém! Quero minha esposa!
— Nunca fui sua esposa. Jamais consumamos nosso casamento.
Sam suspirou pesadamente, passando as mãos pelos cabelos.
— Quando deixei a Barrington esta manhã, escrevi uma carta de demissão e a entreguei a
Mildred em um envelope que ela dará a Rex se eu não lhe telefonar e lhe disser que
ambos vamos ficar.
— Você não precisa fazer isso. Eu pedi demissão.
— Se não permitir que eu seja seu marido, vou deixar Phoenix. A cidade será sua. Não
precisará ir a lugar algum. Explicarei tudo a Rex, dizendo que foi idéia minha.
— Não foi idéia sua.
— Foi também. Sou um canalha.
— Você não é um canalha. Fez tudo aquilo porque é um homem honrado. Um homem
maravilhoso e honrado. E eu estou partindo porque o amo... demais.
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— Não vai ficar?
— Não.
— Não precisa fugir para Paris. Ambos sabemos quão importante é ter um lar verdadeiro,
permanente. Você está feliz na Barrington, feliz em Phoenix. Então, fique. Eu vou.
— Mas seu emprego é a coisa mais importante de sua vida.
— Não. Você é. Se eu sair de Phoenix mas souber que está feliz, e que o prejuízo que
causei de alguma maneira foi diminuído, estarei mais tranquilo.
— Você não pode desistir de seu emprego!
— Posso. Porque a amo.
Ela enxugou as lágrimas que corriam abundantemente pelo rosto.
— Você não pode me amar.
— Por que não?
— Não sou linda. Não sou sofisticada. Não sou...
Sam já havia ouvido o suficiente. Chutou para o lado a caixa e tomou a esposa nos braços,
acarinhando-lhe os ombros que tremiam convulsivamente com a força dos soluços.
— É isso que eu amo. É isso que sempre amei. Mesmo não tendo bom senso suficiente
para perceber.
Patrícia o encarou, os olhos cintilando como esmeraldas. Sam beijou uma lágrima que
ficou detida no lábio superior dela. E então voltou a beijá-la, dessa vez de verdade. Sol-
tando sentimentos que havia muito tempo vinha negando.
— Abrace-me. Está tudo bem, querida. Somos casados, lembra-se?
Ela entrelaçou os dedos atrás da cintura de Sam. Seu sorriso era amplo, e ele soube que
morreria feliz se aquele sorriso fosse a última imagem que visse na Terra.
Patrícia enrubesceu.
— Você está... excitado! — disse, surpresa.
— Claro que estou.
Ela abriu o primeiro botão da camisa masculina.
— Acha que uma virgem com vinte e nove anos é muito velha?
— Querida, acho que ser virgem aos vinte e nove anos é perfeito.
Duas horas mais tarde, Patrícia sentou-se abruptamente na cama.
— Sam, temos um problema. Ele se espreguiçou.
— Se temos um problema, estou feliz demais para me importar com isso — declarou.
— Não, querido, tentos um problema de verdade. Nenhum de nós tem emprego. Entreguei
meu pedido de demissão. Você falou a Mildred que estaria se demitindo caso não lhe
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telefonasse.
Sam arregalou os olhos.
— Isso é mesmo um problema — concordou. — Porque eu planejava lhe comprar um
novo anel de noivado.
Em quatro minutos encontravam-se defronte ao edifício. A camisa de Sam não estava
abotoada e ele não conseguira localizar as meias, mas os sapatos haviam sido calçados, e
isso devia contar para algo.
A mãe de Patrícia, apoiada no táxi, mascava chiclete.
— Esqueci completamente de você! — exclamou Patrícia. — Desculpe, mamãe.
— Esqueça. É a primeira coisa impensada que você fez em sua vida. Devia ter começado
aos treze anos. Além do mais, eu me diverti — falou sra. Peel, tirando o chiclete da boca.
— Você sabia que este moço, Igor, morava em Moscou quando seu pai e eu estávamos
lá?
— Ela é uma boa mulher — disse Igor, pondo a cabeça para fora da janela. — Boa
diplomata.
— Estivemos relembrando os velhos tempos, minha filha. E você está com aparência de
quem não vai mais para Paris.
— Precisamos descobrir se ainda temos empregos aqui em Phoenix — explicou Sam.
— Igor e eu vamos colocar estas coisas no apartamento — disse a sra. Peel, suspirando.
— E então tentarei pegar o avião. Igor pode dirigir rapidamente. Quanto a você, seja um
bom genro. Ou usarei minhas conexões diplomáticas para deportá-lo...para o Texas.
— Prometo ser bonzinho.
Após o emaranhado de abraços e beijos, Sam conduziu a esposa para a sede da
Barrington.
— Parabéns! — a recepcionista os cumprimentou. — Ouvi dizer que foi um casamento
lindo.
— Obrigada — falou Patrícia, começando a correr ao lado de Sam.
Tomaram o elevador para o último andar. Sam fez uma pausa à porta da sala de Rex.
— Se não conseguirmos manter nossos empregos, daremos um jeito — falou. — Não
pareça tão deprimida. Estar desempregada apenas significa que teremos mais tempo para
fazer amor.
Beijou-a, buscando boa sorte, e Patrícia resistiu à vontade de abraçá-lo fortemente.
— Bom dia — cumprimentou Rex, olhando para os dois que entravam na sala. — Os
pombinhos não parecem felizes!
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— Rex, você recebeu algum... papel nosso esta manhã?
— Sim.
— Pedidos de demissão?
— Sim.
— E vai... aceitá-los? — indagou Patrícia.
— Estou completamente pasmo. Pensei que vocês dois estivessem felizes aqui.
— Estávamos. E estamos. Mas temos uma confissão a fazer — falou Sam.
— É mesmo? E vai demorar muito?
— Provavelmente.
— Sentem-se. — Rex pressionou um botão para falar com a secretária. — Mildred, não
passe meus telefonemas. Sam e Patrícia vieram conversar comigo. E agora, crianças —
falou, dando atenção ao casal —, o que posso fazer por vocês?
Sam segurou a mão de Patrícia, procurando amansar seu tremor.
— Mentimos para você — declarou, certo de que falar a verdade seria a coisa mais
sensata. — Mentimos sobre o noivado.
— Não estavam noivos?
— Não.
— Bem, estão casados agora. Por isso, suponho que não importe mais. Isso significa que
voltarão ao trabalho?
— Não compreende? Menti para você. Quando foi à minha sala e disse que queria
conhecer a mulher com a qual eu me casaria, eu não estava noivo.
Rex franziu a testa.
— Não estava?
— Não. Eu estivera noivo de uma mulher chamada Melissa Stanhope.
— Das minas de prata Stanhope?
— Sim.
— Graças a Deus você recuperou o bom senso! Eu o teria demitido apenas por ficar ao
lado da moça. Ela é a maior mimada do mundo.
Mas pedi a Patrícia para fingir ser minha noiva e para ir à festa comigo, para que você
pensasse que eu estava noivo.
- Fizemos isso pela segurança do emprego de Sam — acrescentou Patrícia — Você disse
que gostaria que o vice-presidente da área de recursos humanos tivesse uma vida pessoal
sólida como rocha.
A porta da sala se abriu.
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— Eu trouxe as cartas de demissão deles — Mildred Van Hess anunciou, aproximando-se
da escrivaninha.
— Oh, fico feliz por você ter tomado conta disso — Rex comentou. — E as duas crianças,
vão aceitar aquela lua-de-mel ou não?
— Mas eu menti para você! — Sam protestou. – Foi um erro!
— Você está casado agora?
— Sim.
— Então por que eu deveria me importar sobre o modo como tudo aconteceu?
— Porque você queria que o vice-presidente de recursos humanos estivesse casado e fiz
isso apenas para garantir meu emprego.
— Eu nunca quis que meu vice-presidente estivesse casado — declarou Rex. —
Não quis?
— Eu apenas queria ver meu amigo Sam feliz antes de minha partida.
— Você tem um amigo de verdade aqui — disse Patrícia — Um amigo realmente
verdadeiro.
Sam olhou para Patrícia e então para Rex.
— Se minhas palavras o ajudaram a encontrar homem de sua vida, então não vou pedir
desculpas por ter passado a idéia de que eu apenas queria que continuasse com o cargo
de vice-presidente se estivesse casado. Patrícia, lembre-se, quando se ama alguém, deve-
se revelar à pessoa seu sentimento. Meu erro foi não saber que vocês dois ainda não
haviam revelado seus sentimentos um ao outro.
— Isso significa que ainda temos nossos empregos? - perguntou ela.
— É claro! — respondeu Mildred.
Sam acariciou a mão de Patrícia. Quando a beijou e apoiou o queixo nas mãos e suspirou.
— Meu maior desejo ao aposentar-me torna-se realidade. Sam finalmente está feliz —
disse, e então olhou para Mildred. — O amor não é grandioso?
— Sim, certamente.
Patrícia trocou um olhar especial com Sam. Ele a fitou de modo como ela sempre desejou.
Retribuindo o amor que ela lhe dedicava.
Mulheres faziam isso o tempo todo. Convidavam os homens de seus sonhos para sair.
Aproveitavam o momento e apaixonavam-se. Mas Patrícia fizera isso uma vez só em toda
sua vida.
Com Sam. E foi o bastante.
Saíram dali para sua lua-de-mel merecida.
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FIM
***

Este romance pertence ao projeto revisoras e foi revisado por Fernanda Soares.