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Área de Integração 10º Ano

1.1 A construção do conhecimento ou o fogo de Prometeu


(Ficha 03: O estatuto como orientação vital).

Texto 1 Texto 3
“Nós não nos (1)______________ com a vida que temos “Num mundo ideal, seríamos mais (1)____________.
no nosso próprio ser. Queremos viver na ideia dos outros Permaneceríamos inabalados, quer fôssemos ignorados ou
uma vida (2)______________ e esforçamo-nos para isso notados, (2)____________ ou achincalhados. Se alguém
por parecer. Trabalhamos incessantemente a embelezar e nos cumprimentasse de modo falacioso, não seríamos
conservar o nosso ser imaginário e (3)______________ o indevidamente (3)____________. E se, após procedermos
verdadeiro. E se temos ou a tranquilidade ou a a uma avaliação justa de nós próprios, nos tivéssemos
generosidade ou a (4)______________ empenhamo-nos decidido pelo nosso valor, o facto de alguém
em fazê-lo saber-se, afim de prender estas virtudes ao (4)____________ da nossa insignificância não nos
nosso outro ser e desprendemo-las de nós para as deixaria magoados. Teríamos uma consciência exacta do
juntarmos ao outro. Seríamos de bom coração poltrões nosso valor. Mas em vez disso, parecemos comportar
para adquirir a (5)______________ de valentes. Grande dentro de nós uma pluralidade de perspectivas
marca do nada do nosso ser é a de não estar (5)____________ sobre as nossas personalidades.
(6)______________ um sem o outro e de trocar Reconhecemos sinais de inteligência como de estupidez,
frequentemente um pelo outro. Porque aquele que não de humor e (6)____________, de importância e inanidade.
morresse para conservar a sua honra seria E nestas condições tão (7)____________, acaba por caber
(7)______________. (Blaise Pascal, Pensamentos; §806-147; sempre à sociedade a última palavra na questão da nossa
Traduzido por Wilson Rodrigues da edição de Louis Lafuma, Pascal, relevância. A negligência exalta as nossas auto-asserções
Œvres Complètes; Seuil, Paris, 1963, p. 506).
negativas (8)____________, ao passo que um sorriso ou
um cumprimento desencadeia a (9)____________ inversa.
contentamos fidelidade imaginária infame Parecemos estar dependentes dos afectos dos outros para
negligenciamos reputação satisfeito nos tolerarmos a nós próprios.
O nosso «ego» ou autoconcepção pode ser visto como um
Texto 2 balão suspenso, eternamente dependente do hélio do amor
“Qual o sentido de tamanha (1)_____________ neste exterior para se manter inflado, mas vulnerável às mais
mundo? Qual a finalidade da (2)_____________ e da ínfimas farpas da (10)____________. Há qualquer coisa de
ambição, da perseguição de riqueza, do poder e da absurdo e temperante na forma como somos animados pela
proeminência? Satisfazer as necessidades da atenção e afectados pela falta dela. A nossa
(3)_____________? O (4)_____________ do mais (11)____________ pode toldar-se pelo simples facto de
humilde trabalhador pode satisfazê-las. Quais serão então um colega nos cumprimentar de modo distraído ou de não
as vantagens desse grande objectivo da vida humana a que nos atenderem o telefone. E somos capazes de achar que a
chamamos melhorar a nossa (5)_____________? vida vale a pena por alguém se recordar do nosso nome e
Ser observado, ser correspondido, ser notado com nos enviar um cabaz de fruta.
simpatia, (6)_____________ e aprovação, são tudo
vantagens que podemos propor-nos retirar daí. O homem disposição divergentes enaltecidos impermeáveis
rico compraz-se na sua (7)_____________ porque sente insinuar latentes negligência reacção seduzidos
que ela faz recair as atenções do mundo sobre si. O homem sensaboria volúveis
pobre, pelo contrário, (8)_____________ da sua pobreza.
Sente que ela o coloca fora do (9)_____________ dos seus
semelhantes. Sentir que não somos notados representa 1. Com base nos textos anteriores assinale as proposições
necessariamente uma desilusão para os desejos mais verdadeiras com um (V) e as Falsas com um (F).
(10)_____________ da natureza humana. O homem pobre
sai e volta a entrar despercebido, e permanece na mesma 1. Contentamo-nos com a vida que temos no nosso
(11)_____________ seja no meio de uma multidão seja no ser.
recato do seu covil. O homem de nível e 2. Nunca queremos viver na ideia dos outros uma
(12)_____________, pelo contrário, é visto por todo o vida imaginária.
mundo. Toda a gente anseia por vê-lo. As suas acções são 3. Gostamos que os outros conheçam e falem bem
objecto de (13)_____________ públicas. Raro será o das nossas boas qualidades.
gesto, rara a palavra que ele deixe escapar que passe 4. Há pessoas que preferem morrer a ter má fama.
(14)_____________. 5. Só procuramos satisfazer as nossas necessidades
naturais.
atenções avareza azáfama candentes complacência 6. No mundo real temos uma consciência exacta do
condição despercebida distinção envergonha-se nosso valor.
horizonte natureza obscuridade riqueza salário 7. O nosso ego é sensível às mais pequenas formas
de negligência.
2. Preencha as seguintes palavras-cruzadas com 3. Responda às seguintes questões:
vocabulário e conceitos dos textos. 3.1. Enumere e caracterize as diferentes formas de
vida imaginária que têm vindo a ser
caracterizadas ao longo dos textos das várias
fichas apresentadas.
3.2. Tendo em conta as diferentes formas de vida
imaginárias identificadas anteriormente
considera que a sua vida é real? (Esta pergunta
não é para responder na aula, nem a resposta está
sujeita a avaliação escolar).

Horizontais
1. O mesmo que estado de espírito.
6. Desejo apaixonado de acumular dinheiro, excessivo
quer quanto à ambição com que o ganha, quer quanto ao
modo como o poupa.
7. A palavra utilizada no texto de Pascal para caracterizar
o tipo de vida que vivemos na mente de uma outra pessoa.
9. Diz-se daquilo que não tem boa fama.
10. Diz-se de uma acção segunda que procura combater
uma acção primeira.
11. Antónimo de convergente.
12. Aquilo que limita o nosso campo de visão, por
exemplo, quando olhamos para o mar é a linha em que o
mar e o céu se tocam.
13. Antónimo de patente, ou seja, aquilo que não se
apresenta de forma clara e directa.

Verticais
2. Diz-se do estado em que se encontram aquelas coisas
que estão pouco visíveis, que mal se vêem ou conhecem.
3. Aquilo que fazemos quando executamos uma tarefa
com pouca atenção e pouco cuidado, sem lhe atribuirmos
por isso a sua devida importância (verbo conjugado no
presente, na terceira pessoa do plural).
4. Retribuição monetária do trabalho realizado por um
trabalhador, normalmente pago no final do mês.
5. Aquilo que cada um diz de si quando a respeito de
qualquer coisa já não precisa de mais nada. Por exemplo,
quando já comeu o suficiente.
8. Aquilo que não deixa passar água ou outros líquidos.
Antónimo: permeável.
10. A fama ou importância que é socialmente atribuída a
alguém ou a algo.
Área de Integração 10º Ano
1.1 A construção do conhecimento ou o fogo de Prometeu
(Ficha 03: O estatuto como orientação vital).

pelo nosso valor, o facto de alguém insinuar da nossa


insignificância não nos deixaria magoados. Teríamos uma
consciência exacta do nosso valor. Mas em vez disso,
parecemos comportar dentro de nós uma pluralidade de
Texto 1 perspectivas divergentes sobre as nossas personalidades.
“Nós não nos contentamos com a vida que temos no Reconhecemos sinais de inteligência como de estupidez,
nosso próprio ser. Queremos viver na ideia dos outros uma de humor e sensaboria, de importância e inanidade. E
vida imaginária e esforçamo-nos para isso por parecer. nestas condições tão volúveis, acaba por caber sempre à
Trabalhamos incessantemente a embelezar e conservar o sociedade a última palavra na questão da nossa relevância.
nosso ser imaginário e negligenciamos o verdadeiro. E se A negligência exalta as nossas auto-asserções negativas
temos ou a tranquilidade ou a generosidade ou a fidelidade latentes, ao passo que um sorriso ou um cumprimento
empenhamo-nos em fazê-lo saber-se, afim de prender estas desencadeia a reacção inversa. Parecemos estar
virtudes ao nosso outro ser e desprendemo-las de nós para dependentes dos afectos dos outros para nos tolerarmos a
as juntarmos ao outro. Seríamos de bom coração poltrões nós próprios.
para adquirir a reputação de valentes. Grande marca do O nosso «ego» ou autoconcepção pode ser visto como
nada do nosso ser é a de não estar satisfeito um sem o um balão suspenso, eternamente dependente do hélio do
outro e de trocar frequentemente um pelo outro. Porque amor exterior para se manter inflado, mas vulnerável às
aquele que não morresse para conservar a sua honra seria mais ínfimas farpas da negligência. Há qualquer coisa de
infame. (Blaise Pascal, Pensamentos; §806-147; Traduzido por Wilson absurdo e temperante na forma como somos animados pela
Rodrigues da edição de Louis Lafuma, Pascal, Œvres Complètes; Seuil, atenção e afectados pela falta dela. A nossa disposição
Paris, 1963, p. 506).
pode toldar-se pelo simples facto de um colega nos
cumprimentar de modo distraído ou de não nos atenderem
Texto 2 o telefone. E somos capazes de achar que a vida vale a
“Qual o sentido de tamanha azáfama neste mundo? Qual a pena por alguém se recordar do nosso nome e nos enviar
finalidade da avareza e da ambição, da perseguição de
um cabaz de fruta. (Alain de Botton, Status ansiedade; Trad. Pedro
riqueza, do poder e da proeminência? Satisfazer as Serras Pereira, Dom Quixote, Lisboa, 2005, p. 22).
necessidades da natureza? O salário do mais humilde
trabalhador pode satisfazê-las. Quais serão então as
vantagens desse grande objectivo da vida humana a que Este texto talvez o deva remeter para uma ficha sobre o
chamamos melhorar a nossa condição? conhecimento de si enquanto conhecimento daquilo que
Ser observado, ser correspondido, ser notado com nos satisfaz.
simpatia, complacência e aprovação, são tudo vantagens
que podemos propor-nos retirar daí. O homem rico Texto 4: O que é suficiente para nos satisfazer?
compraz-se na sua riqueza porque sente que ela faz recair O nosso sentido de um limite apropriado seja para o que
as atenções do mundo sobre si. O homem pobre, pelo for - para a riqueza e para a estima - nunca é decidido de
contrário, envergonha-se da sua pobreza. Sente que ela o modo independente. Chegamos até ele através da
coloca fora d o horizonte dos seus semelhantes. Sentir que comparação da nossa condição com a de um grupo de
não somos notados representa necessariamente uma referência, com o das pessoas que consideramos como
desilusão para os desejos mais candentes da natureza nossos iguais. Não podemos apreciar aquilo que temos em
humana. O homem pobre sai e volta a entrar despercebido, estado de isolamento, ou avaliá-lo em função dos nossos
e permanece na mesma obscuridade seja no meio de uma antecessores medievais. Não conseguimos deixar-nos
multidão seja no recato do seu covil. O homem de nível e impressionar pela nossa riqueza em termos históricos. Só
distinção, pelo contrário, é visto por todo o mundo. Toda a nos consideramos afortunados quando temos tanto ou um
gente anseia por vê-lo. As suas acções são objecto de pouco mais do que as pessoas com quem crescemos,
atenções públicas. Raro será o gesto, rara a palavra que ele trabalhamos, que temos por amigas e com quem nos
deixe escapar que passe despercebida. (Adam Smith, Teoria dos identificamos na esfera pública.
Sentimentos Morais; Edimburgo, 1759 citado por Alain de Botton, Status
ansiedade; Trad. Pedro Serras Pereira, Dom Quixote, Lisboa, 2005, p. Se formos obrigados a viver num casebre frio e insalubre,
19). subjugados à ordem rígida de um aristocrata, senhor de um
grande castelo bem aquecido, e no entanto verificarmos
Texto 3 que os nossos iguais vivem nas mesmas condições que
“Num mundo ideal, seríamos mais impermeáveis. nós, então a nossa condição parecer-nos-á normal;
Permaneceríamos inabalados, quer fôssemos ignorados ou lamentável, é certo, mas estará longe de ser solo fértil para
notados, enaltecidos ou achincalhados. Se alguém nos o sentimento de inveja. Já se tivermos uma casa agradável
cumprimentasse de modo falacioso, não seríamos e um emprego confortável, mas cometermos a imprudência
indevidamente seduzidos. E se, após procedermos a uma de comparecer numa reunião de ex-colegas de escola e
avaliação justa de nós próprios, nos tivéssemos decidido viermos a saber que alguns dos nossos velhos amigos (não
existe grupo de referência mais poderoso) estão hoje a
viver em casas maiores do que as nossas, adquiridas com
os proventos de empregos mais cativantes, é bem provável
que voltemos para casa a alimentar um desagradável
sentimento de infortúnio. É essa sensação de que
poderíamos ser outra coisa que não aquilo que somos -
uma sensação transmitida pelos feitos superiores daqueles
que tomamos por nossos iguais - que gera um sentimento
de ansiedade e ressentimento. Se formos pequenos e
vivermos entre pessoas da mesma altura, não seremos
indevidamente atormentados por questões de tamanho.
(Alain de Botton, Status ansiedade; Trad. Pedro Serras Pereira, Dom
Quixote, Lisboa, 2005, p. 52).

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