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1 # 03 | março 2014 distribuição on-line gratuita

#03 | março 2014

distribuição on-line gratuita

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2 Editorial 3 Créditos e contato 56 Ana Ismar Martins Tirelli Marques Neto 5 9 Jeanne
2 Editorial 3 Créditos e contato 56 Ana Ismar Martins Tirelli Marques Neto 5 9 Jeanne

Editorial 3

Créditos e contato 56

2 Editorial 3 Créditos e contato 56 Ana Ismar Martins Tirelli Marques Neto 5 9 Jeanne
2 Editorial 3 Créditos e contato 56 Ana Ismar Martins Tirelli Marques Neto 5 9 Jeanne

Ana

Ismar

Martins

Tirelli

Marques

Neto

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56 Ana Ismar Martins Tirelli Marques Neto 5 9 Jeanne Callegari 18 Leandro Jardim 23 Lilian

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Ana Ismar Martins Tirelli Marques Neto 5 9 Jeanne Callegari 18 Leandro Jardim 23 Lilian Luci
Ana Ismar Martins Tirelli Marques Neto 5 9 Jeanne Callegari 18 Leandro Jardim 23 Lilian Luci

Jeanne

Callegari

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Tirelli Marques Neto 5 9 Jeanne Callegari 18 Leandro Jardim 23 Lilian Luci Nathalie Virna
Tirelli Marques Neto 5 9 Jeanne Callegari 18 Leandro Jardim 23 Lilian Luci Nathalie Virna

Leandro

Jardim

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Marques Neto 5 9 Jeanne Callegari 18 Leandro Jardim 23 Lilian Luci Nathalie Virna Aquino Collin

Lilian

Luci

Nathalie

Virna

Aquino

Collin

Lourenço

Teixeira

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Virna Aquino Collin Lourenço Teixeira 28 Rodrigo Sommer 46 33 38 As fotos da capa e

Rodrigo

Sommer

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As fotos da capa e ao longo da edição são de Carol de Andrade

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Lourenço Teixeira 28 Rodrigo Sommer 46 33 38 As fotos da capa e ao longo da

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h

3 h á quem diga que a literatura nasce da dor (na alma, de cotovelo, de
3 h á quem diga que a literatura nasce da dor (na alma, de cotovelo, de

á quem diga que a literatura nasce da dor (na alma, de cotovelo, de dente), mas nisso não arriscamos palpite, é pano para manga. O que temos visto por aqui é que ela frutifica belezas. Há quem diga que só o amor constrói. Pois do amor de quem aponta um lápis, cata milho num teclado, rascunha no verso da conta de luz vamos construindo uma revista. Temos recebido tanta coisa bonita, de tanta gente bonita. Soa repetitivo, mas é que a Parênteses chega à terceira edição ainda com espanto de recém-nascido. Será que perderemos a mania de editoriais empolgados?

No número três, oito escritores e dois fotógrafos. Coisas bonitas, gente bonita. No mais, andamos aprendendo, pla- nejando novidades, decorando fórmulas e prometemos contar aos poucos nossos acertos e erros. Abrimos um parênteses, inclusive, e pedimos desculpas por um atraso neste lançamento. É que na vida dos editores aqui aconteceram mudan- ças, literalmente falando. Ainda em tempo, chegou também o ano novo (para uns já em janeiro, para uns só depois do Carnaval), hora de de- sengavetar desejos. O nosso é que dessas páginas de luz continuem soando bele- zas.

os editores

Carnaval), hora de de- sengavetar desejos. O nosso é que dessas páginas de luz continuem soando

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Ana Martins Marques Anéis Um dia você me disse que gostava de usar palavras raras
Ana Martins Marques Anéis Um dia você me disse que gostava de usar palavras raras

Ana

Martins

Marques

Anéis

Um dia você me disse que gostava de usar palavras raras esquecidas é como usar joias antigas não familiares pedras precisas sem preço anéis de descompromisso para mãos livres abertas escuta esta por exemplo roubei de um dicionário português especialmente para você:

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A cidade sem você

Alguns trabalhos mostram cabeças dentro de outras, mais ou menos como quando você está pensando em alguém. -Leonilson

Você está pensando em alguém uma cabeça dentro da sua cabeça (que costura une o corpo ao pensamento?) você está pensando em

livros, laranjas em certas formas de silêncio em dinheiro, dieta, café

e em sexo, cinema, sexo

por que nunca fizeram aquela viagem juntos? por que não beberam juntos

ainda mais do que beberam?

o que afinal você fez

dos seus sábados à tarde? por que não escreveram

um para o outro

longas cartas com segredos coisas inventadas

e desenhos de flores e animais

nas margens? por que não ouviram juntos discos cheios de barulhos novos? você está pensando em alguém

uma cabeça dentro da sua cabeça mais ou menos como quando vocês andavam por aí

e a cada esquina

suas roupas se abraçavam mais ou menos como quando você o levava pela mão

mas você já não o leva pela mão

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Quiromancia

Suas mãos são hábeis para as coisas da noite inábeis para as coisas do dia têm trato com animais, canetas, cabelos mas não com aparelhos, armas, agulhas quase sempre quentes, às vezes secas firmes, descansam

fechadas

trazem marcas do sol, de tinta, da idade

e com que ferocidade acariciam

a madeira, a pele, a página aberta dos livros discernem a água da pedra, o plástico da areia, o vidro do pano

às vezes nelas repousa uma cabeça pesada às vezes lhes brota entre os dedos uma flor um lápis um cigarro aceso às vezes na ponta dos dedos guardam sal selos

sementes

aprendem, pouco, com dificuldade, mas algumas coisas sabem, apenas

conhecem a febre, a palpitação, o sexo algo nelas está escrito, fundo, cabeça coração surpresas cegas, tateando-se, tentam ler

a si mesmas

surpresas cegas, tateando-se, tentam ler a si mesmas Ana Martins Marques nas- ceu em Belo Horizonte

Ana Martins Marques nas- ceu em Belo Horizonte em 1977. É formada em Letras e doutora em Literatura Comparada pela UFMG. É autora dos livros A vida

submarina(Scriptum,2009)

e Da arte das armadilhas (Companhia das Letras,

2011).

Nesta ordem

Você me pede para contar a história de novo. Não há muito que contar, na realidade. Todas as canções poderiam, em última análise, chamar-se São Demais os Perigos Desta Vida. Porém, não sendo este o caso, cabe-nos apenas prosseguir. Medida. Humil- dade. O pátio ainda não anoitecera de todo. Ainda nada anoite- cera, nesta ordem. Fazia um tempo agradável para meados de dezembro. Já ia anoitecendo e a janela do quarto recém-alugado dava para uma pacata rua sem saída, um pátio interno, os fun- dos de outro edifício. Ou seja, tomara a decisão acertada. Arran- jara-se bem, não queria sair, não sabia se abria aos domingos, o pau comendo na esquina defronte. Um rapaz e uma moça de dezessete, dezoito anos, se tanto. Mas nós estávamos em cinco, apinhados à janela, e a postos. Apesar da tensão generalizada (a atmosfera estava irrespirável), a ida foi relativamente sem Deus. Alguma coisa a respeito de um churrasco, alguém tivera conduta imprópria ao longo de um churrasco. Um churrasco, ele pensa, depondo os binóculos sobre o parapeito. Difícil acreditar que ainda existissem pessoas tão jovens. Ela, uma arquitetura senhorial sobre saltos espelhados, parecia resoluta que não. O conflito deve ter principiado no trajeto de volta, foi preciso bre- car a marcha em alguma esquina e esperar que o sinaleiro des- se passagem. Na sacola plástica, o pacote de bolachas recheadas de doce de leite. No instante em que o rapaz ergueu a mão, Es- ter – cuja voz jamais ouvíramos altear-se para além de um sus- surro – deu sonoroso berro de “Polícia!”. Enquanto aguardava (arranjara-se bem), reparou que o posto de gasolina na calçada

Ismar

Tirelli

Neto

“Polícia!”. Enquanto aguardava (arranjara-se bem), reparou que o posto de gasolina na calçada Ismar Tirelli Neto
“Polícia!”. Enquanto aguardava (arranjara-se bem), reparou que o posto de gasolina na calçada Ismar Tirelli Neto

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oposta estourava de torcedores corintia- nos, comemorando uma vitória que lhes ocorrera – a todos, naturalmente – mais cedo pela manhã. O menino então estu- fou o peito, lançou o queixo insolentíssi- mo contra o edifício, começou a procurar – sem sucesso, felizmente – por nossa ja- nela. Um recuo discreto para a zona som- breada. Foi neste momento que a dama até então oculta se aproximou. A princí- pio um borrão pastel no canto dos olhos, irrompeu da transversal e foi centrando- -se cada vez mais. À medida que ganhava o primeiro plano, ia lançando-lhe à cara diversas imprecações contra a juventude num castelhano ofegante. Vez por outra fazia menção de ir embora, erguia a pró- pria camiseta deixando entrever o abdô- men musculoso, como se fosse enxugar as lágrimas. Não precisávamos de binó- culos para ver que era tudo encenação, ele não chorava, o cachorro. Era um ca- chorro, ela o chamava, algo a respeito de um churrasco. Um churrasco? Sim, parece mesmo impossível escapar a certas e de- terminadas fórmulas. Além do mais, de- via ter-se em muito boa conta para achar que poderia deixá-la assim na esquina, berrando sozinha. E lá ia ela sobre espetos

e sobre espelhos barrar-lhe a passagem. Pela veemência com que tingira as maçãs do rosto entendia-se que estava se refe- rindo aos meninos que comemoravam

no posto de gasolina. É provável que isto dure até de manhã cedo, quando, finda a serata, os convidados se retiraram e Ester comentou com Lola: “Veja só, você de fato tem amigos nessa cidade”. Agora dão-se as mãos e vão para debaixo do texto, mer- gulho sincronizado, sorrisos cúmplices enquanto levam os pratos para a cozinha. Porém, nada realmente restou daqueles disparos sucessivos salvo a palavra jóve- nes, percutida no blush, nos arcos bom- bardeados das sobrancelhas. Ela cravou o que ainda tinha das unhas no pulso em torno do qual ele enrolara a alça da saco- la plástica, e tudo em volta dissolveu-se numa água morna e barrenta dobrando esquinas, avenidas de atropelo, os do pos- to trepando esquifes improvisados. Não éramos o único casal enxurrado. Lanhan- do-lhe ainda e sempre o pulso, peço que não vá embora tão cedo, asseguro-lhe que em breve tocarão a nossa canção. Ele olha pela janela – bom tempo para dezembro,

janeiro, fevereiro, março

–, decide dar

um pulo ao mercadinho e comprar um

?

pacote de bolachas. Assim não precisará ir mais tarde até o mercadinho comprar um pacote de bolachas. Mas como conse- guirá chegar até lá sem pontos de refe- rência, com mais da metade do comércio da vizinhança fechado? Apaziguador, ele nos recorda do posto de gasolina. Dian- te disso, todos respiram aliviados, sacam de seus telefones e chamam táxis. Estão felizes. Não estão felizes. Não sabem da onda barrenta subindo a ladeira. Pare- ce mesmo impossível escapar a certas e determinadas fórmulas. Contudo, ele já se localizava com muita segurança pelos arredores, raramente (quase nunca) se perdia.

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O Anverso

Acreditava-se à época que os

bebês eram feitos em moviolas, e vivía- mos as certezas da forma e do ritmo como se tivéssemos, de fato, um corpo vivo, e dentro deste golpes de vento divinais que nos avançassem pelas presas dos parques com a noite já alta. Lembra-me um vigia que nos acenava com o quepe e abria os portões para que pudéssemos passar. Dizia-se então “fôle- go” para dizer uma série de outras coisas que com o passar do tempo foram silen- ciando de punho próprio. É sem reverso o silêncio que volta a recamar o parque. Sobre o banco nossas mãos já recamadas de formigas; adiante o barranco e seu turvamento. Observa- mos.

Por vezes nos chega algum estrondo de cidade conquistada. Falo então dos in- sistentes acessos de tosse do tipo que alu- gou o quarto ao lado. Os tranquilizantes já não dão vazão. Ora, mas que horror. O “horror”. Escuras as voltas à volta dos parques, legião as unhas que raspam distraidamente o verniz dos bancos. À volta dos parques, árvores coçam-se há meses sem dormir. Adiante, o barranco. O seu turvamen- to. O “horror” sem volume que se dissera. Crianças que não mencionamos por pu- dor de viciá-las. Adiante, o vigia ao ten- tarmos girá-lo à saída.

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Dezesseis Anos Novamente

Há uma dura simetria na cozinha – tenho dezesseis anos novamente. Uma dura simetria à medida que a manhã vai demovendo de seus esconderijos os obje- tos da cozinha e um vago som a patas cor- rendo para debaixo do armário. Isto tudo se cumpre com um princípio de azul. A cúpula da igreja, entrevista da janela, tem também um seu princípio de azul. Isto é de bom auspício?, eu me pergunto, tendo novamente dezesseis anos de idade.

*

Logo a casa inteira se vê sofreada, de- pois da cozinha, antes de púrpura, ama- relo, vermelho. Nesta luz, como o prin- cípio do azul, mesmo as imagens sacras da sala – imagens que tanto me punham nervoso aos dezesseis anos de idade –, pa- recem benignas, improvavelmente aco- lhedoras. É quase fria, a cor que beira esses anos devolvidos. Mas eu já vi uma chama. Os anos por dentro queimam.

*

Eu já vi uma chama? Eu já vi a extinção

de uma chama? Sim, eu já vi uma chama.

*

Tendo quase trinta anos de idade, sei que nada se contradiz, nada objeta nada, trata-se de um único princípio, um mes- mo princípio percorre tanto a cúpula azul da igreja quanto a devolução dos meus dezesseis anos, e a manhã se fecha sem qualquer esforço sobre todas estas águas digladiando-se entre si.

*

Tendo dezesseis anos de idade, penso que algo ainda vai acontecer. Estas ob- servações, esta atenção indivisa e reve- rente às primeiras chegadas da manhã, tudo isto me parece encerrar um futu- ro, um “modo de vida”. Isto é um modo de vida, penso eu – parar no meio do ruído, deste seguido balbucio que interpreto (equivocadamente) como sendo o futuro, e aguardar uma mensagem clara. Pen- so que, no futuro, ou melhor, a qualquer momento, me acontecerá uma mensa- gem clara. Como poderia discerni-la, vi-

vendo como vivia em constante revela- ção? Porém, nada objeta nada, trata-se de um único e mesmo princípio, e muito embora eu esteja parado, absolutamente parado em meio ao ruído, na expectativa de uma comunicação inteligível por par- te do futuro, estou também dançando, e equilibro um drinque branco, doce e lei- toso na minha mão direita – bêbado, per- corro os bolsos da calça sem encontrar minha carteira – tropeço de volta para casa agarrado a um homem que, ama- nhã de manhã, aos trinta anos de idade, vai me perguntar como deixei a situação chegar a esse ponto.

*

Passamos pela igreja na antiga névoa

azul.

*

Havia, naquela época, em torno de dez pessoas nuas no universo inteiro. Eu não era uma delas. Agora, há uma dura sime- tria no meu cabelo – seu comprimento, o mesmo dos meus dezesseis anos de idade

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– a maneira como reage ao vento, a mes- ma, ou uma reprodução muito fiel da mesma. Penso que meu corpo é revoltan- te. Torno-me belo, torno-me um fim-de- -mundo, torno-me um Belmondo. Mas a beleza é de configuração lenta, custosa. Tendo dezesseis anos, penso que um dia acordarei e algo terá acontecido. Penso na beleza, penso – isto está demorando.

*

Eu me ausento por alguns anos.

*

Torno-me um homem feio, um ho- mem monstruoso. Durante minha au- sência, a casa volta para o seu lugar. Vol- to para casa e sento-me na minha antiga poltrona. Passo um café. Penso em como costumava tomá-lo com açúcar aos dezes- seis anos de idade, em como costumava

despejar colheradas e colheradas de açú- car no café até torná-lo lamacento. Penso em como me agradava aquela lama doce e pegajosa. Que rapaz caprichoso que eu fui, penso eu, não sem desprezo.

*

Em seguida, ponho-me a esperar uma comunicação inteligível do futuro.

*

Nas cerdas do pente sobre a mesa, um tufo de cabelo que se soltou. Eu me au- sento por alguns anos. Tendo quase trinta anos de idade, penso que algo já aconte- ceu, que algo não aconteceu em absoluto.

*

Diante da sala, detido diante de um cinza e princípio de azul. Eu já vi isso antes? Poderia replicar as circunstân- cias? Penso que estou à soleira de algo, a configuração de um segundo rosto, uma comunicação clara. Será agora? depois de tanto tempo? agora? o êxtase de des- prender-se da forma desprender-se um futuro? “um modo de vida”? Os anos, por dentro, continuam queimando. Eu já vi uma chama – eu já vi a extinção de uma chama.

*

E de chapa essa dança que nada con- tradiz, nada objeta – nada. A borda azul do dia e seus interiores, inexprimivel- mente vastos. Essa dança imóvel, azul, como se eu tivesse dezesseis anos de ida- de novamente.

Os Ilhados

A hora parecia propícia à descoberta de que havia no mundo impulsos ainda mais vitais que o amor e o ódio. “Não”, ele observou, “está entre as pedras, depois da amurada, lá embaixo. Está entre as fendas no calçamento – onde o confete mina, há meses, em algo estranho e nobre”. Àquela altura, o céu revestia-se de azul bastante denso, qua-

se elétrico – logo involuiria para uma mesma escuridão tufada aqui e acolá de laranja – qualquer outra noite de verão. Refle- tia então na possibilidade, na mera possibilidade de abando- nar aquela doca, aqueles pequenos barcos nus entre os quais tinham-no encontrado há pouco. Decerto o sangue demoraria um pouco mais até alcançar os pés, suas pedras – nos joelhos havia uma dor ainda distante, do outro lado da baía. Ela não tinha pressa, assobiava, até. Partir ou ficar eram um mesmo lugar sem matizes. Mais ao sul, ele lembrava, o clima é bem mais amigável, mas quando o tempo clareia, abre, agu- lha, o sol parece perturbadoramente próximo, busca apoio aos ombros de quem passa. No entanto, poderia ainda salvá-lo uma grande inspiração, pois se as coisas não? se as coisas ao redor não? se as coisas ao redor já se tinham mostrado capazes de im-

Algo muito parecido haveria de aconte-

cer no instante em que o sangue preenchesse as solas por com-

provisos tão notáveis

pleto. Caminharia.

Sempre muito espalmados pelo calçamento irregular, os pés fincavam hastes, bandeiras que se recusavam terminantemente. “Posso viver num quarto em qualquer lugar do mundo”. Mas a questão, cumpre repetir, não é tão simples quanto amar a cidade, quanto amar ou odiar a cidade, esta cidade. Há – mal ou bem – a questão da sorte, e diversos pormenores a acer- tar. Preferia praias de seixos às de areia? Gostava de neblina pe- las manhãs? Gostaria de acordar todos os dias e ver um farol pela janela do quarto? Agradavam-lhe as narrativas em torno da ilha? Viveria num farol, para um farol?

NENHUM HOMEM É O CONTINENTE.

A dor não chega de todo – na onda opaca, longa travessia, in- digência das barcas. Havia um visco de sol sobre a água. Agora ele atravessa a ponte e desce as escadas de granito até alcançar a estreita fai- xa de areia branca. Escusado fazer pala com as mãos. Os bar- cos continuavam oscilando a uma distância irrisória, seu corpo lhes rendendo âncora. Teria ouvido uma voz áspera, cascalhosa, reclamando para si aquela praia e aquele tempo esterilizados pela contemplação. Naquela profundidade, a areia já não se di- zia “branca”. Agora ele não consegue respirar.

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Uma visita

Calculo mal a distância quando me inclino para beijá-lo e golpeio a testa contra a torneira. De uma altura muito grande, sou conduzido de volta à mesa da cozinha, na mão direita um copo de la- ranjada. Gostaria de saber se minha irmã também ouve o rumor a água corrente, mas temo que a pergunta a deixe ainda mais agitada. Enquanto me aplica uma compressa à protuberância que se formou na re- gião atingida, observo-lhe que, a cada ano, cresce a impressão de que meu cor- po está fora de proporção com relação ao mobiliário dessa casa. Ela diz ter a mesma impressão, e ajun-

ta, brusca: “Respira-se mal entre os acon- tecimentos”. Continuando meu raciocínio, surge em suas mãos uma pequena faca com cabo de marfim, com a qual ela rompe o laço que amarra as pesadas cortinas da sala. O cômodo, no entanto, não parece re- conhecê-lo. Em seguida, põe-se a observar o movimento dos carros do lado de fora. “Quando eu era pequena, tinha de fi- car na ponta dos pés para enxergar a la- goa por essa janela. Hoje em dia, se fizer isso, corro o risco de me desequilibrar e cair lá embaixo”. (Por alguns instantes, fico desconcer- tado com a facilidade com que ela me

exclui dessa memória de nossa infân- cia. Porém, não posso julgá-la. Sempre que me vejo obrigado a retomar esta casa também me vejo sozinho). Pisamos as tábuas amolecidas pela água. Em certos pontos da casa, o assoa- lho está tão carcomido que já se formam poças. No quarto de despejo, minha irmã cerra os punhos diante de uma eletrola quebrada. No quarto de despejo, minha irmã cerra os punhos diante de um velho tro- féu de equitação. No quarto de despejo, minha irmã cerra os punhos diante de um meteoro imprevidente.

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Trata-se, naturalmente, de uma pro- vocação. Por fim, estamos de volta ao quarto de nossa avó. Folheamos juntos antigos álbuns de retratos. De dentro de um de- les, assoma um panfleto de uma casa de roupas italianas situada em Montevideo, impresso em 1949. Tomo o panfleto nas mãos, inspeciono-o por alguns instan- tes, por longo tempo rumino o convite

estampado no cabeçalho – “visite-nos sem obrigação”.

Visite-nos

visite-nos sem

Trata-se,

naturalmente, de uma provocação. Po- rém, por alguns instantes, a frase exerce sobre mim uma leveza tão pouco habitu- al que me esqueço de todos os elementos imediatos da cena. Cerram-se os punhos diante da água que cresce, o rumor de água à nossa volta, aos nossos pés. Logo fi- camos tão sozinhos, tão separados quan- to querem nossas lembranças.

Quando dou acordo de mim, tenho as mãos sujas de 1949 e coço distraidamente a perna esquerda no lugar onde um mos- quito me picara na noite anterior. Horrorizado por esse descuido mo- mentâneo, peço licença às minhas com- panheiras e volto correndo ao banheiro.

Abro a torneira. Lavo a ferida insistente- mente. Neste leva-e-traz, acabo golpean- do o pé esquerdo contra a borda do bidê. Perco o equilíbrio. Procuro apoio na bancada de mármo- re, mas meu pulso escapa, subitamente rijo. Uma unha se desprende, salta na vista. Minha irmã cai de uma altura muito grande.

salta na vista. Minha irmã cai de uma altura muito grande. Ismar Tirelli Neto nasceu em

Ismar Tirelli Neto nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Publicou dois livros de po- emas, synchronoscopio (2008) e Ramerrão (2011), ambos pela editora 7Letras. Esteve entre os dez finalis- tas da edição de 2008 do concurso literário Contos do Rio, promovido por O Globo. Teve textos publi- cados em revistas como Modo de Usar & Co., Lado7, Bliss, Polichinello, Jacket2 (EUA) e Neue Rundschau (Alemanha). Atualmente – verão de 2014 – vive de fa- vor em casa de parentes desagradáveis.

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18 J e a n n e Callegari penélope a mão direita escreve a esquerda apaga
18 J e a n n e Callegari penélope a mão direita escreve a esquerda apaga

Jeanne

Callegari

penélope

a mão direita escreve

a esquerda apaga

o gato

pode ser insensato

e um tanto quanto leviano dizer que meu gato é, dentre tantos,

o mais belo

ele, que mia quando apertado

e é menor que os outros de sua espécie.

mas o tejo não é mais belo que o rio que corre na minha aldeia assim como os gatos de concurso - com seus pêlos compridos e caras amassadas - não são mais formosos que meu bichano de olhos amarelos sem raça definida

não é um siamês persa abissínio que se enrola – listrado -

em minha barriga nem um angorá ou ragdoll que brinca de esconder em meus vestidos

meu gato é mais sagrado que todos os da birmânia. mesmo quando arranca sangue de minha pele (quem mandou não aparar suas garras?)

pode ser que esses gatos tenham seu charme - e também não comam se a tigela está pela metade

talvez sejam educados

e não tenham por passatempo derrubar sapatos livros controles remotos

mas eles não são o meu gato : eu não sou a pessoa deles então prefiro as listras do meu gato que resmunga quando apertado

e é menor que os outros de sua espécie

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may or may not

I.

meus amigos têm tantas certezas eles as destilam seriamente entre risadas

enquanto isso minhas mãos assombradas deixam escapar – enigmas – sem ver que talvez saber seja superestimado. caçar aprendizados e vê-los desmanchar no próximo desvio

II.

num saquinho preto de veludo barato embalo uma dúvida com afeto

é tudo que tenho – embora não veja nisso tanto apelo.

queria mesmo era pegar o relativismo pelas pernas e quebrar seus ossinhos um a um.

perda

esses dias perdi uma memória soltou da bagagem no dia da mudança por sorte ficaram outros pacotes de segundos gastos um dia organizo um álbum bonito, pra guardar lembranças com legendas espirituosas na mais perfeita ordem

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anunciação

a divindade num clube de fetiche me abraça por trás e pergunta que canção ouço ao ver aquele rosto tão doce a entrega como o efeito da morfina conduz meus gestos e gemidos sabe o mapa e o destino

veja, não demora o acender das tochas : essa noite de novo ouço vozes volto ao princípio

tochas : essa noite de novo ouço vozes volto ao princípio Jeanne Callegari (Uberaba, MG, 1981)

Jeanne Callegari (Uberaba, MG, 1981) é es- critora e jornalista. Escreveu o livro Caio Fernando Abreu: Inventário de Um Escritor Irremediável (Seoman, 2008), biografia do autor gaúcho. Seus textos po- dem ser lidos em jeannecallegari.com.br e cancaodemim.org.

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Leandro

Jardim

Bucolismo

Sentado à sombra numa varanda ensolarada. Se fumasse, cigarro à mão. Um charuto talvez, desde que me acompanhasse esse extinto objeto chamado cinzeiro. O pensamento ao longe, pretensiosamente ao fundo. Na mesa ainda haveria um livro bom, caderno e lápis, muito café. O jornal, talvez. Silêncio igualmente abundante, en- trecortado pelos movimentos da natureza e de pessoas bem quistas por perto. Calor e brisa. Era isso que eu queria agora. A solidão efêmera e proveitosa. O ócio de um do- mingo noutro dia da semana. O clichê de um tempo em fluxo lento. A despreocupação criativa. Dali, logo ali, nascer-me-ia um verso: “o vento há de trabalhar por nós / içando vela e pensamento”. Mas seria melhor do que esse, é claro, dado que estou aqui e não lá. Embora, enquanto escreva, lá, bem breve, esteja. Estejamos. Todos em que nesse tex-

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to afundamos. Qual um barco imaginado, agora sem vento ou vela. Pois se essa varanda nos é, então, embarcação, ex- plica-se esse ar mareado. E a tarde que a passos largos se aproxima. O clima externo é outro. E nuvens já se têm à vista. Tudo em volta balança, ainda que sutil- mente. Na caneca agora rum, ou cerveja, ao sabor do marujo. E prosseguimos em tom plural, porque a soli- dão ora se dispersou. A companhia ao redor vai crescendo. Não estamos à deriva e é consciente nosso flanar a esmo. Senta- dos numa mesa de bar, dentro de um barco-varanda, exercitando nosso bucolismo. Proponho um brinde. Alguém sopra outro verso ruim: “o mar que no copo balança / algum porto sempre alcança”. Ao que outro responde já sem sombra de falso lirismo: “só se for um vinho do porto”. E a excitação das gargalhadas acalma. Aos poucos, vai-se embora um, outro precisa dor- mir. Alguém puxa o violão. E a música se presta a pro- longar o fio de prazer por uns preciosos instantes a mais. Nem percebi quando peguei no sono. E sinto fal- ta ao acordar tão longe do que imaginei. Ou sonhei, ou vivi, mesmo. Ou longe daquilo que simplesmente escrevi. Ou que foi escrito apenas porque o tempo foi suficiente, em meio à efêmera divagação, ao fugidio desejo daquele ócio passageiro. Bem breve.

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Vaga direção

O ato de estacionar o carro como sendo o momento cha- ve para a traição. Não o encontro em si, para o qual se dirige, onde vislumbra o beijo, ou o sexo inflamado pela proibição. Mas aquele período que começa com a busca irritadiça por uma vaga na rua. Muito dificilmente reconheceriam o carro. Mas não há uma maldita vaga no meio dessa tarde pouco movimentada e de sol a meia altura. Mesmo assim o motorista insiste. O encontro está marcado. E ele já perdeu quinze minutos da hora de que dispõe. Até que percebe uma área livre, em frente à praça, o espaço é exíguo, justo na medida do carro. Deve dar. Tem que dar. O mo- torista insiste. Capricha, portanto, na operação de baliza. Entra e sai algu- mas vezes, dando uma impressão falsa de hesitação. Porque é persistente. Enfim, após manobra precisa, intercalando giros de volante à direita e à esquerda, acomoda o carro. Sente-se um pouco mais acolhido. Braços já cansados, respira ruidosa e longamente. O espelho retrovisor ainda denuncia um misto de tensão e desejo, olha calmamente ao redor. Só então gira a cha- ve em seu próprio sentido. Chegou.

O silêncio do motor atrai o canto dos pássaros, os gritos do jogo de bola dos meninos, o apito de alguma garagem. Lembra- -se de sua própria infância e dos filhos. Preferia o mundo antigo, em que havia praças calmas e amor imaculado. Aproximam-se nuvens brancas que parecem carregar a paz. E ele só pensa nes- sa imagem porque hoje é feito de conflito por dentro. Conflito e excitação. Abre a porta. E alguma amargura, que também o autoriza. Um sopro gelado de brisa eriça seus pelos do braço. Pensa na sua mulher e na possibilidade de pegar um resfriado. Insiste. E decide usar o paletó que repousa no banco. Levanta-se e desce do carro, para que possa vesti-lo de pé. Olha ao redor mais uma vez. Espera não ser reconhecido, mas quer se sentir bonito. Des- fere alguns tapas no tecido, para a amenizar o amassado. Sor- ri artificialmente agachado perante o espelho para averiguar se há máculas nos dentes. Nos dentes não há. Não há máculas em seus bem cuidados dentes. O físico igualmente está bem, a aparência de cansaço não é tanta ainda. De novo olha em volta, agora procurando a portaria do edifício. Está vazia, felizmente. E ninguém o espera da janela também. Ainda assim o motorista insiste.

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Os bichos correm

1. O coelho, ou velocidade.

O tempo é uma tartaruga prati- cando atletismo. Assim pensou o coelho pouco antes de dar-se por si, e de volta à realidade, enquanto se olhava no espelho do vestiário. No instante seguinte, seu re- flexo crescente foi ocupando o espaço à volta até se tornar novamente uma re- flexão. Tudo não deixa de ser leitura do mundo, portanto literatura, pensou. Por- tanto, prosseguiu, não há nada que pos- sa afirmar que eu, um coelho surrealista tão palpável e material, não seja mera es- critura de algum ficcionista confuso. Ou, mais vão ainda, seja eu a efêmera inter- pretação de um leitor dedicado. Sua ca- beça descreveu um arco num gesto que olha ao redor e para cima. Encontrou um céu em que as cores eram o negativo fo- tográfico da noite. O fundo branco, com certo brilho, e diversos pontos pretos es- palhados. Não só pontos, mas vírgulas também, e letras. Sim, muitas e alinha- das letras.

2. A tartaruga, ou contemplação.

O coelho que corre tudo o que pode deixa imóvel o seu pensamento. Já se deixa

o corpo todo parado, pensando que pensa, perde-se no tanto que – em tão pouco tempo

– sua cabeça inventa. A tartaruga pensou e repensou repetidas vezes tais ideias. Ainda não sabe se atingiu a formulação correta. Mas segue caminhando, e pensando sempre antes de tentar. Mas também observando antes de pensar. E respirando antes de ob- servar. E garantindo ser ela mesma uma tartaruga antes de respirar. É esse o momento em que hesita. Nota, em seguida, a grama e a pista de corrida. Ouve os gritos deman- dantes da torcida. Olha à volta e vê as milhares de cabeças distantes, como se fossem pontos, os mesmos pontos pretos. O mais, se são bandeiras ou vírgulas, já pouco im- porta agora. Todos estão ali fazendo uma leitura dos seus movimentos. Olha pra trás

e enxerga o coelho que novamente se aproxima. Percebe que ele é feito apenas de seis

letras. E, como ela, tartaruga, é só letras em frases. Frases que logo trazem mais outras

tantas letras. Letras que só pensam em correr e correr, como o tempo, ou as frases, tão velozes, que não sabem onde chegar.

ou as frases, tão velozes, que não sabem onde chegar. Escritor e compositor carioca. Publicou Rubores

Escritor e compositor carioca. Publicou Rubores (contos, Oito e Meio, 2012), Os poemas que não gostamos de nossos poetas preferidos (poe- sia, Orpheu, 2010) e Todas as vozes cantam (poesia, 7Letras, 2008). Possui contos publicados nas antologias Para Copacabana, com amor, Veredas - panorama do conto contemporâneo brasileiro e Porto do Rio - do início ao fim. Em 2011 lançou Sementes musicais para um mundo cibernético (EP de canções com Rafael Gryner). Também possui parcerias com compo- sitores como Diogo Cadaval, Clara Valente e Matheus Von Kruger. Mantém o blog leandrojardim.blogspot.com.

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Lilian

Cena de mesa

Senta na cadeira

à sua frente.

Tamborila os dedos no tampo da mesa.

(ela suga pelo canudinho

o líquido vermelho fazendo barulho.

e cruza as pernas)

Diz então

súbito

olhando fixo nos olhos dela

foi sem querer eu te amei do avesso prometo que da próxima vez te visto do lado certo.

Aquino

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Ritual

para Fabiana Melchiori

No mesmo dia em que o filho deixou

a casa

(se afastando de costas para olhá-la nos olhos) ela resolveu plantar um ipê

na sala

Num ato solene quebrou o chão

e

revirou o solo

e

chafurdou-se toda

contente

E do desfeito

pelo rebento

ficou aquela cicatriz na barriga , a estranheza do ser

livre

e o olhar aquela árvore ainda sem flores

e se perguntar:

roxo ou amarelo?

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De passagem

Disse sem pensar muito

toda vez que eu passo aqui

lembro de você

uma ladeira

em paralelepípedos recém-

molhados pela chuva

do lado esquerdo a mesma

floricultura onde certa vez

comprei o vaso de

flores amarelas

na frente, a igreja

você tinha aquele jeito

de andar como se tivesse

uma pedra no sapato

Agora, ela anda descalça

pisando em

poças d’água

e ele vê no vaso

um cacto

e da janela

um terreno baldio

Ladrilhos

Que andasse

a procurar objetos de louça

e os levasse no bolso do casaco

polidos

era coisa sabida

E que no opaco

armário de cozinha

depositasse

essas preciosidades

não

podia evitar.

seus objetos de louça

seu cuidar que luzia com

o brilho seu

seus achados de cerâmica sem importar

o formato

Que recolhesse

e juntasse

as partes de modo imperfeito era o que fazia:

o fragmento de louça.

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Quaresmeira

Sábado de aleluia

o cheiro da cera

da luz murmurando

preces

– gosto das arandelas feito luminárias recolhendo os pingos da parafina que escaparam de queimar

propositadamente

meus dedos –

o círio aceso

me vela convida a ressuscitar no domingo.

– o círio aceso me vela convida a ressuscitar no domingo. Lilian Aquino nasceu em São

Lilian Aquino nasceu em São Paulo em 1979. Organizou eventos literários, junto com outros escritores, como a FLAP!, que acontece em São Paulo desde 2005, e as revistas virtuais Be My Mafia Family e POA2502, e, recentemente, a antologia de poemas É que os Hussardos chegam hoje (Patuá, 2014). Seu livro de es- treia, Pequenos Afazeres Domésticos, saiu em 2011 pela editora Patuá, tendo ainda poemas publicados em diversas revistas impressas e virtuais, tais como Inimigo Rumor, Mininas, Zunái e Celuzlose. Em 2012, traduzida para o espanhol, integrou a coletânea de poemas Radial: Antologia Contemporânea do Brasil e México, publicada pela editora mexicana CieloAbierto.

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33 Luci Collin Extravagante este cão que me segue a fuga das emergências na noite insignificada
33 Luci Collin Extravagante este cão que me segue a fuga das emergências na noite insignificada

Luci Collin

Extravagante

este cão que me segue

a

fuga das emergências

na noite insignificada

o

rosário dos inválidos

desconhece meu desalinho

o

desalme das pedras mal assentadas

este estar parado em esquinas

a

aflição do que é virgem

os goles de café ruinados

o

cenário flácido onde boiam

a

doutrina dos ácidos

luas e escapulários

este encarar salgueiros retóricos de gestos calcificados que vazam exílios e fidalguices

e os sóis de madeira

desta cidade imediata que me habita

este cão que me segue ignora meu desalistamento meu breviário de orbívago

onde fremem iniludíveis escadarias

e galhos nus que competem

em barroquismo com os braços da iluminação pública

inexperto e manco exemplar de desabilidade este cão me segue como eu sigo os deuses inventados pela escuridão

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Cerimônia da composição

o homem das letras

desnecessita de alfabetos cridos porque todo dia estreia um

seu

é um menino que treina

arremessos e sintaxes tem a experiência das estrelas

não sabe histórias de amores por isso passa sem rimas

mas urde as profundas de poço

e aço

conta dos movimentos

e acerta sempre na mosca só por olhar

olha colorido

e diz colorido

minuciando rocha e casca soleniza liquens

cria a mais rara exposição

de brisas

inclassificáveis

branduras e

e entende que deus se escreve com maiúscula

e deve estar

nos detalhes

Cover

se eu pudesse eu queria ser de verdade

o que eu sei passado a limpo

como me senti

quando caibo quando não inverno

como me sinto

diga-me por favor o que vibra o que vê diga-me o que é o próximo já que agora é tudo ao vivo

à noite gatos famintos e a fome mesmo

era a verdade esta gritaria e esta dor sim, é aguardente o olhar emancipado que divisa as flores mendazes

na boca a ferrugem – é boca sem fome frases cheias de alfinetes os instrumentos vão abandonando a cena

e o sol dentro de ninguém é só jamais se pôr

um homem dita as falas todas

e no palco é como num aquário

vamos apagar estes compassos de voz agressiva e mofada

vamos pular esta página que é só arfagem

eu estava procurando por algum você por algum pedaço apócrifo de mim

e pele e suor têm seus súbitos preços

você que ri enviesado que engasga não há vagas não há mais janelas disponíveis

e é equívoco aguardar que nasçam mãos

vou fingir que estou aqui

com a integridade desta vodca desta lamparina

e feliz como desvestir

você vai acordar cantando viver é fácil sim, eu tenho um último acorde pra gastar (os cavalos por dentro tantas patas)

o que o sorriso da xícara nos nega quadro onde a neve não vence não é mais o infinito aqui estar

neste momento encerram-se todas as intenções:

os ratos entraram no poema com suas vozes indecifráveis

e a avidez de suas mandíbulas machucará esta página

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Remissão

eu que alimentava lobos

e confundia lírios com pegadas

encontrei no bolso o sabre

e na tua pele um musgo e um frio inesperados e exaustos como uma tatuagem disforme

eu que reverberava um calor de urso uma respiração longa de invernos surpreendi na manga uma epifania

e no teu rosto um melro e um ânimo ácidos e maciços como uma bile de jade

eu que dançava sobre as brasas

e bebia o conforto das verbenas

conheci a proteção do divã

e no teu corpo um buquê de azáfamas escurecido e contuso como sopros crepusculares

e nesta juntura dos sexos

no fugaz entre inaugurar e morrer

revolvo a terra e ali semeio

a propriedade da cura

das fabulações e incompletudes

que nos fizeram adoecer

Representação

neste mundo clássico

crônico de adiamentos

gotejo

o vão e o infinito

nas murchas catarses

a escuridão existida

na pálpebra dos deuses que cada vez que piscam fazem cumprir as vazantes

neste teatro insatisfeito insuficiente de humanismos algo trágico tudo imposição de destinos exceto a mítica cortina e seus rombos

que deixam antever precariedades

a retidão inexistida

na barba insana das estátuas que cada vez que se arriçam interferem na beatitude da noite

e

andamos por entre agonistas e assassinos assistidos pelas flores que insubmissas

nitidamente

gargalham

pelas flores que insubmissas nitidamente gargalham Poemas inéditos do livro Querer falar , a ser lançado

Poemas inéditos do livro Querer falar, a ser lançado em breve.

inéditos do livro Querer falar , a ser lançado em breve. Luci Collin, poeta e ficcio-

Luci Collin, poeta e ficcio- nista curitibana, tem 13 li- vros publicados.

Nathalie Lourenço Nuvem 110 ás vezes a gente deixa a mente passear onde ela quiser.
Nathalie Lourenço Nuvem 110 ás vezes a gente deixa a mente passear onde ela quiser.

Nathalie

Lourenço

Nuvem 110

ás vezes a gente deixa a mente passear onde ela quiser. daí ela nos sussura, como bolhas que emergem d´água, as verdades escondidas na malha da vida. foi assim que eu descobri que o mundo é só uma pérola grande que as estradas também deixam marcas nos pneus que o futuro é feito de um tecido macio que o sangue não é a forma líquida da dor que que o espaço entre as coisas se mede em cachos de uva que a tartaruga é só o brinde que vem no casco barata e quebrável como todo covarde

que a música independe de sons que o vidro não quebra, ele se multiplica que o trabalho enobrece a cama pelo menos comigo foi assim que uma injúria despretensa vale mais que certos elogios que a fuligem purifica que as amoreiras tem voz mas as orquídeas não que alguns chocolates vêm com pedaços de silêncio e que eu eu sou apenas um fiapo de lã azul.

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constatação.

Queda de prédio, câncer no rim, falha no freio, fraqueza, naufrágio, alfinete no mingau, picada de cobra, tropeção em fio de cobre, tor- radeira na piscina, leptospirose, alergia a amen- doim, remédio errado, passo errado, múltipla falência de órgãos, comer mulher de cangacei- ro, fome, cabeça no fogão, engasgamento com tubinho de asma, desligamento dos aparelhos, engolimento de dentadura durante o sono, defi- nhamento lento, cirrose hepática, choque anafi- lático, parada cardíaca, piano na cabeça. Hoje em dia, ninguém mais morre de amor.

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Como assim?

Não é culpa sua Minha vida gira em torno de um objetivo pouco circular Não sofrer Não existe isso

Porém

Daí foi gestada a covardia

E a esquiva

Daí peneirar na polenta As pepitas de ouro

Que eu chamarei de amigos

E demora

A menos que haja um milagre

Mas eu pouco faço de milagres que não seja desperdício

Eu risco milagres feito fósforos ( a eletricidade não é afeita a milagres, eles se apagam) Eu bem sei Eu sou forte e ferrenha de unhas largas E sou mais feroz que sei quantos animais Mas não se eu já fui atropelada Apenas ontem Não que alguém saiba Porque eu não sangro Pra fora Mas não é culpa sua Me dizer o que eu me digo O que me custa 18 horas por dia De sutil persuasão Para não acreditar. (assim.)

Alegria

Alegria é fácil Você fica bem em cama, mesa e banho Fica bem na ponta dos meus dedos Nos côncavos das minhas mãos Alegria é fácil Tecido quente pra revestir as arestas do mundo

E machuca tão menos para quem bate os mindinhos por aí Alegria é fácil Eu acho incrível como tudo acontece sem trabalho Eu acho incrível como é simples Ser feliz pra caralho.

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Calada

Se ela se inclina por sobre o corrimão da escada de incêndio

é pra ver as carpas na fonte do prédio da frente. Ela não pensa em pular. Se ela arqueia o corpo pra fora do batente da janela

é para alcançar com os dedos o descoberto, para saber se chove. Ela não pensa em pular. Se ela caminha a passos incertos no degrau do meio-fio, beirando os automóveis,

é pelo vento no rosto

e para não meter as sandálias nas poças. Ela não pensa em pular. Se ela oscila com os dedos dobrados na borda da ponte

é para observar o próprio reflexo ondulante perpendicular e estendido como uma sombra a cores.

E olha por sobre os ombros se não vem vindo ninguém empurrar. Ela é calada, ela não pensa em pular.

ninguém empurrar. Ela é calada, ela não pensa em pular. Nathalie Lourenço tem 29 anos e

Nathalie Lourenço tem 29 anos e 32 dentes. Mas ainda não tem um pônei. www.sabedoriadeimproviso.wordpress.com

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Virna Teixeira

Le petit chaperon rouge

dorme. O lobo mau se perdeu no bosque. Em Wimbledon Common. Mary mary quite contrary. Meu jardim cresce sem rimas. Vejo um guarda florestal num

cavalo negro, recolhendo galhos. Vejo tenistas. Na feira anual, alguém desmonta

o circo. Um carrossel com um ônibus

vermelho. Um trailer com palmeiras de

néon. Não há acrobatas, nem picadeiro. É

só uma tarde de verão com nuvens que se

desmancham em formas, se dispersam. Entre o rastro de voo neste equinócio, que

desaparece, simétrico, na direção do sol.

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Era Alice explodindo botões de nuvens, agachada com as mãos nos

ouvidos, um coelho de pijama listrado,

o tic-tac do relógio de bolso a girar no passado dentro da armadura. Estão contadas as horas. Inertes manequins com máscaras de pano. Não fuja, lute.

A linguagem se rompe, violent femmes

agitam em fúria as correntes no ar. Vida sexual dos selvagens, Iatã Cannabrava e as gangues paulistanas. Não há de sobrar couraça. Muito a frente, com destino a wanderlust. Ao aterrissar batem palmas. As hélices do aeroplano entoam uma lullaby.

Misóginos disfarçados de mecenas. Sapatos

de couro bem lustrados com cadarços para amarrar. Riots em Croydon e Guaianases, centro de medicina fetal, mulheres de burqa. Lua cheia e fuga num trem para a Escócia ao som de London’s burning. Para escutar o vento com os druidas no Arthur’s seat. Outra chávena de chá no jardim botânico. Eu me recolhia tomando sol com as focas, sempre perto de vulcões em atividade. Rosencranz e Guildenstern não sabem tocar gaita- de-foles, mas Hamlet não se deixa manipular. Um lothario dirige a peça. Há algo de podre no reino da Dinamarca, apesar da verdura. A poesia não pode esperar, mas gestar é ofício extremo. Misóginos disfarçados de mecenas. Sapatos de couro bem lustrados com cadarços para amarrar. Riots em Croydon e Guaianases, centro de medicina fetal, mulheres de burqa. Lua cheia e fuga num trem para a Escócia ao som de London’s burning. Para escutar o vento com os druidas no Arthur’s seat. Outra chávena de chá no jardim botânico. Eu me recolhia tomando sol com as focas, sempre perto de vulcões em atividade. Rosencranz e Guildenstern não sabem tocar gaita-de-foles, mas Hamlet não se deixa manipular. Um lothario dirige a peça. Há algo de podre no reino da Dinamarca, apesar da verdura. A poesia não pode esperar, mas gestar é ofício extremo.

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Sentei com ela na areia e entrei no delírio. As irmãs jogavam vôlei na praia deserta. Incêndios e pontes queimadas invadiam os pesadelos. Manequins de meninos, com camisas floridas, diziam aloha e brindavam com os copos cheios de Pisang-ambon. Sono entrecortado, banheiro cheio de rãs no meio da noite. Terror noturno. Telhado de taipa e sombra sobre a casa em frente às dunas. Dois chalés mal iluminados em frente a piscina. Cloro e folhas secas, gritos. Depois se foi. Do quarto saiu rastejando uma cobra, era uma falsa coral.

Do quarto saiu rastejando uma cobra, era uma falsa coral. orquestra ilimitada música escute os acordes

orquestra ilimitada música escute os acordes profunda dissipa mergulho apneia corais medusas blefe poisson cor de rosa leonilson oceano verte sem limite lampedusa quem ancora terra movediça magreb tanta água pérola marujo escamas ondina ilusão escapa cortina ondas transborda a nado luzzu ilha poseidon videiras senza tardare nuvens lago infinito

Virna Teixeira nasceu em Fortaleza em 1971. É neurologista e vive em São Paulo. Publicou três livros de poemas: Visita e Distância pela 7 Letras, e Trânsitos pela Lumme Editor. Tem três livros de tradução de poesia escocesa publicados:

Na Estação Central (UnB, 2006), do poeta escocês Edwin Morgan; a antologia Ovelha Negra (Lumme, 2007), e Cartas de Ontem, de Richard Price (Lumme, 2009). Organizou e participou de diversos festivais de poesia no Brasil e exterior. Edita plaquetes artesanais pela Arqueria (www.arqueriaeditorial.net).

Rodrigo Sommer é designer gráfico (rodrigosommer.com) e sócio da editora Soul Kitchen Books. Sai sempre

Rodrigo Sommer é designer gráfico (rodrigosommer.com) e sócio da editora Soul Kitchen Books. Sai sempre de casa com uma câmera no bolso e publica as fotos que faz entre o primeiro bar e o primeiro metrô no Nocturnes (rodrigosommer.tumblr.com).

Rodrigo

Sommer

publica as fotos que faz entre o primeiro bar e o primeiro metrô no Nocturnes (rodrigosommer.tumblr.com).
publica as fotos que faz entre o primeiro bar e o primeiro metrô no Nocturnes (rodrigosommer.tumblr.com).

Edição Lubi Prates e Bruno Palma e Silva

Fotos Carol de Andrade

facebook.com/caroldeandradefotografa

Projeto gráfico Bruno Palma e Silva

palmaesilva.com.br

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