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4. AS RELAÇõES SO- CIAIS EM UMA CO- MUNIDADE AMÀ- ZôNICA.

Na pequena comunidade amazôni ca de Itá, como

em tôdas as sociedades humanas, os homens são classi ··

ficados

de acôrdo

com o seu prestígio.

Em Itá

a

po-

sição

social

depende

de

uma série

de

fatores,

alguns

dos quais

se

esta;be l ecem

pelo

nascimento,

tais

como

sexo

raça e posição da família, e, outros, como ocupa -

ção 'e educação, dependem de

esc olha e iniciativa pró -

prias,

embora também estejam condicionados . às. opo1· -

tunidades favoráveis e à capacidade do md1v1duo

150

para as aproveitar.

(I)

Sendo Itá uma comunidade

p equena

e i solada,

a

di stâ ncia entre os indivíduos de

maior

e

menor

prestígio

na

escala

 

social

não

é

tão

grande como nas grandes cidades ou nas sociedades ele

es trutura

social

mais

aprimorada

e

comp l exa .

é

um

Não

obstante,

o sistema

de

escalonam ento

pec to importante ela vida de Itá.

social

as-

Houve uma

época em

que

foi

maior a

diferença

rnt re os indivíduos da mais alta

e da mais baixa posiÇão

soc ial ele Itá. Nos primeiros séculos da história da ci dade, os que nasciam de índios, ou com mistura de

raça no sangue,

na zona da "aldeia", traziam consigo

o es tigma de escravos herdado d e seus pais. As · cria-

turas nasciam escravas ou livr es. Era raríssima a

mobi lidade vertical. Durante o surto da borracha

a tliferença econômica entre os ricos comerciantes de bor-

racha e os miseráv eis seringueiros d eterminou grandes

diferenças sociais .

Àquela

época

existia uma

"aristo -

·racia" em Itá. Famílias como a do barão ele Itá

orgulhavam-s e de seus ancestrais portuguêses.

Man-

clavam educar os filhos nas grandes cidades do Brasil

l' da Europa. Possuíam ricas propriedades territo-

riais e participavam

da

vida social e política

de tôda

n reg ião amazônica. Viajavam freqüentem ente para

l k lém e Manaus e recebiam visitantes de outras comu-

11 idades .

Formavam a alta sociedade, ou a aristocracia.

Nn sua qualid ade de comerc iantes e donos de t'erras, ·o tlt ro lavam a vida econômica e polítü;a da cidade, e ()( : ll pava m todos os cargos públicos da municipalid.ade.

l' l' HHOa ·, como o Corone l Filomena Cesar Andrade t' oll tct·cwnte que se mudou do Maranhão para

.

'

rico

Itá ·

Jr'lnvi~uto Flavio de Batista, dono de terras, intendent~

( l)

Cf.

Ralph

Linton,

1\t:ltl),

pp.

113

e segs.

The

Study

of

Man

(New

York,

151

de

Itá e líder político respeitado e acatado em Belém;

e Dr. Joaquim Nobre,

o juiz, formado

pela Escola de

Direito do Pará, que mantinha a mulher l eg ítima e uma

filha em Belém e uma outra família em Itá, eram

Tepresentantes

típicos

 

dessa

 

classe.

Os

limites

de

classe

eram

mais

rigorosamente

mantidos

nos

tempos

dos

aristocratas,

antes

 

do

colapso

da

borracha.

Um

m embro

da

classe baixa

não

se

sentava

na

presença

de

um

dêsses

brancos,

 

como

eram

chamados.

Nas

f estas havia sempre dois saes, um para a classe baixa.

e outro para a aristocracia.

Em Itá, como na maioria

das

ren ça

comunidades de cl asse

latino-americanas,

entr e

a

a

acentuada

aristocracia co lonial e a

dife-

popu-

la ção

de

ongem

indígena

e

escrava,

subsistiu

no

século atual.

 
 

Hoje

em

dia,

apenas

a~guns descendentes

dessas

famílias aristocratas vivem em Itá.

restam

são

relativamente

poucas que pobres , tendo perdido sua

E · as

alta posição social. No fim do surto da borracha,

mudaram-se, uma por uma, quase tôdas as famílias

aristocratas.

Seus prósperos filhos partiram para

estudar em Belém ou no sul do Brasil. Êsses homens,

como o médico judeu a que nos referimos anteriormente, nunca mais voltaram, depois de terminados os estudos, muito embora seus pais lá ficassem ainda por algum

tempo.

Atualmer..

te, com exceção do médico sanita·

rista uo SE'SP, não existe em Itá um único indivíduo com educação secundária completa. Das antigas e só -

lid as casas comerc iais dos tempos da borracha, hoje

re sta apenas a Casa Gato .

Das famílias aristocráticas

de Itá e líder político respeitado e acatado em Belém; e Dr. Joaquim Nobre, o juiz,

a amazô nica - sociedade de

formam

classe ma is

não I .

alta,

contemporânea,

da r egwo

h á qualquer r ep r ese ntante 11a atual

Itá, p01: conseguinte, dá ao forasteiro

a impressão

de uma socie.

homo O'ênea

de

camponeses, de

p ess oas:

t que pouco diferem umas c as outras quanto à po s ição

s ocial.

Em

Belém,

as

pessoas das classes mais a ltas

cos tumam

classificar

a

g·ente de

Itá,

com exceção

de

uns poucos repres enta ntes elo govêrno que lá trabalham, de caboclos . Os viajantes procedentes dos grandes

ce ntros, gera lm ente, visitam o médico do SESP, Dona Dora, ela Casa Gato, ou o prefeito, homem ainda jovem

que antes pertencera à Marinha brasileira.

A

gente da

cida de

considera

essas

pessoas mais ou menos

corres-

pon dentes à classe média das cidades. A gente de Be lém, quando visita Itá, comenta às vêzes a ausência

na dizem que "o prefeito não é mais do que um caboclo"; ou se espantam da a lta posição social de Dona Dora que é mulata escura e cujo marido era negro. Entre- tanto, quando se vive em Itá e se participa de sua

da

classe mais alta

cidade.

Ent're

outras

coisas

viela social, log o se percebe que aquela gente, dentro

elos limites aa

comunidããé""j)'ropnamente dita, é mmto

H :r;_síve l

às

d1fere~ças

ele

posic~o

sociãl.

ea mmlte ,

os mora dores da terra são absolutamente francos

e cate-

g 6ricos a re;;peito das diferentes camadas sociais de sua uomun iclacle.

Essas diferenças de posição social que hoje existem dC' correm elo sistema ele classes da sociedade colonial du Amazô nia, ela antiga escravi dão dos ínclios e dos t'Htlra v os negros importados ela África, e da ascendência

tradi ci onais (que ainda controlam grandes propriedades

Htlt'ial elos colonos portuguêses.

Refletem ainda a

põ-

t erritoriais da Amazônia),

da classe profissional, dos

t it· ,o econôm ica

e social

elos vários

grupos que

atual-·

militares, dos dignitários da Igreja, dos grupos indus-

triai s e comercia is, dos líder

es políticos - que, junto s,

152

1111'111, vivem em Itá. Na sua forma mais simples, e

153

segundo seus próprios habitantes, as camadas sociais de

g_uint e, de acôrdo

com

a

posao

social

pe la

qual

Itá são as seguintes, de acôrdo com o prestíg·io social:

é encaradQ .

E ,

como

s e tornará

claro,

as diferenças

s ocio-econômicas são maiores entre a Gente de Primeira

 

1.

Gente de

Primeira, ou os "brancos", que for-

mam a

class e local

mais

as Seg unda, os lavradores e os seringueiros da Ilha, os

·e

Entr~ a

outras três

camadas inferior es .

Gente de

d efinidos;

a mobilidade social se processa fàcilmente e

2 .

Gente

de

Segttnda,

ou

os

alta; moradores urbanos

limites de discriminação social não são tão claramente

da

classe mais baixa ;

 

3.

Gente

ele Sítio,

ou

os que vivem nas proprie-

as condições econômicas dif erem menos do que entre

dades

agrícolas

de

terra

firme ;

e

 

êss es três g rupos

e a

Gente

de P1·i1n eim.

Portanto, em

talvez

se

possa

classificar

a

soc ie-

4 .

Caboclos

ela Beira,

ou

os

que

vivem

em · ca-

11m certo sentido,

banas construídas sôbr e es tacas, nos pântanos

da de de It.á em duas classes sociais apenas - a mais

 

das

baixadas

e

na s

ilbas

a la ga diças, e que

a lta e a mais baixa; mas esta simples classificação dup la

ganham a vida nas indú strias puramente ex-

n ão expressaria fielmente as distinções sociais estabel e-

trativas.

 

eidas pela própria população.

 

Para as poucas pessoas que reivindicam algum

 

Não

se pode

dizer

que

tôda gente

em

Itá tenha

ea rent:esco com a velha aristocracia de Itá,

como Ma-

plena consciência de cada uma dessas categorias .

 

Assim

nuel

Freire 1 _ o

agente

da coletoria

estadual,

e

como

a

g ente

da

cidade

tem

uma tendência

a

consi-

Dona Branquinha, a I!rofes sorã, s ão poucos os qu~

derar Itá uma sociedade homogên ea de camponeses de

r ealme nte

pertencem aos

"brancos"

ou

Gente

ele

Pn-

aldeia,

a Gente

ele

Prim eira de Itá

também costuma

meira.

Dona Branquinha só r eco nhecia c omo

alta

so -

classificar

todos os

que

lhe

ficam

abaixo

na escala

(:iedade ou

Ge111te ele Pr-imeira a família de Dona Dora

social de "o povo" ou "caboclos". Por sua vez, a

Cesa r Andrade.

Nunca incluiria Dona D eb orah, viúva

Gente ele Segunda da vila demonstra sua superioridade

d

um importante comerciante judeu, porque seu filho

sôbre tôda

a

população

 

rural,

chamando-a

de

"cabo-

v ive "amigado" com uma moça criada pela própria

clos", termo que,

entre os lavrador es, é reservado· aos.

Dona Branquinha . Para ela, hoje em dia, as danças

seringueiros

da

Ilha

que

consideram

inferiores.

E,

·11 [ 0

são festas,

mas "orgias em que as moças de família

finalmente,

êsses

seringueiros

se

sentem

ofendidos

~o misturam com todo o mundo". Disse-nos o senhor

quando

são

chamados

de

"caboclos",

pois

não

 

fazem

:-lenTa

Freire que

"antigamente

os postos

políticos

distin ção ent re si próprios e os lavradores.

(2)

O

sis-

o' I'H m

ocupados pela

Gente

ele

Prim eira",

e referiu-se

tema

de

estratific~~ão social de

Itá varia 1 por

Cill,lS,.e-

i1 baixa orig·em do atual prefeito, como um sinal da

 

, io'eadê ncia da sociedade de Itá.

Não l evava a família

 

(2)

Os

se ringueiros

da

Ilha

empregam

o termo "cabo-

i\s

so l enidades

públicas por

não

achá-las

convenientes

clo" para desi g n ar os 'índios de tribos que habitam as cabecei-

ras dos afluentes do Amazonas.

O

"caboc lo "

amazônico

1•, (' 11 [Uanto residimos em Itá, êle próprio nunca .assistiu

ud1nini s tração.

Mesmo

as

pessoas

das

classes

mais

existe, portanto, no conceito dos grupos de posição mais alta

quando se referem às pessoas de posição mais baixa.

'L q n alquer reunião social promovida pelas pessoas da

'"'J)U {. '-J

~c

..

J

~

ccn-

· +~o:> _ ~~o~ cerf~

~

baixas

reconhe ce m

que

são

poucos os aristocratas de

que

ê l e nunca

legalizara

seu

casamento

 

porque s ua

origem local que hoje ainda restam em Itá. Uma mu-

Gente de Primeira é co·nstituído pelo prefeito, o chefe

de polícia,

os agentes

da coletoria federal

e estadual,

os funcionários

do

SE.SP

e suas respectivas famílias

-

todos administradores e funcionários públicos assa-

lariados.

"amiga" não era "de boa família" .

 

lher da classe baixa disse-nos que "a única e verdadeira

Em festas semelhant es realiz adas em 1948, já essa

Gente d e Primeira que hoje se encontra em Itá são os

" linha"

entre a

classe mai s

alta

e

as

mais baixas pa-

forasteiros". Com exceção de duas ou três famílias de comerciantes, o grupo considerado "branco" ou

rec ia menos rígida. Para um baile oferecido em 1948 pe lo prefeito, foram convidadas muitas pessoas da

Gent e de Segundaj comentou-se muito, na ocasião, que

o prefeito

precisava de votos para a próxima eleição.

A

reintegração do Brasil no regime de eleições livres,

depois de dez anos de ditadura, dava, de fato,

ao eleitor,

ma ior importância , fôsse de que classe

fôss e .

Muita

G.

Entretanto,

as linhas

de

divisão

social

entre

a

g ente

da seg11nda classe,

entretanto, não ia à festa

do

prefeit o,

apesar

de

convidada,

porque

 

"sentiam-se

"brancos"

e

o "

e os gTupos inferiores, entre os ovo · , ainda são nitidamente definidas

em Itá. Em 1942 a " linha " entre os dois grupos era

ainda

ri gorosamente ·mantida.

Durante

as

comemora-

ções do dia do nascimento

de um conhecido herói polí-

houve uma parada e fogos de artifício,

aca nhados diante de tanta gente importante".

Outros

não iam, simplesmente, porque não possuíam sapatos e

roup as apropriados e não tinham dinheiro para os

comprar .

Mas às pessoàs da segunda _ classe que éom-

tico da região, acompanhados

de

discursos,

a

que

todos

assistiram,

parec iam,

convidados

fazia -se

sentir

sua

classe

posição.

inferior.

Aos

aparentemente

sem

distinç ão

de

classes.

Mas

à

noite

da

primeira

ofereciam-se

 

cadeiras '

houve

dois bailes;

um,

no

salão

público

de

dan ç as ,

'<ervia-se

café,

e

convidava-se

para beber

 

cerveja

na

para o "povo". Ali os homens dançavam em mangas

de

camisa e, tanto

os homens como as mulheres,

dan-

s ala dos fundos, junto com o anfitrião.

As pessoas da

t>cgunda classe não eram convidadas a sentar e eram

çavam descalços sôbre

o

chão

duro .

Na r es idên cia do

prefeito, que nessa ocasião dente de uma das famílias

era Benedito Levi, d esce n-

judias, houve danças e re-

frescos para os "brancos" - um grupo de cêrca de

Hcrvidas por último.

Ouve-se

ainda

com freqüência,

c·m Itá,

a expressão "meu branco", como sinal de res-

P ito

pela posição social e a gente

da classe

mais baixa

Hr.mpre se l eva nta quando se dirige a um "branco",

trinta

pessoas.

Para essa festa

dos

"brancos"

foram

eomo Dona Dora Cesar Andrade e Dona Branquinha .

convidadas algumas ,

solteiras de boa reEut a ção,

l~ntre a

camada mais

alta

e

as

mais

baixas

são

ainda

__moças

a gunda foi , com sua mãe,

mas

nte

de

Se ttnda.

Uma

dessas moças

d e

se-

à festa da Gente de Pritmeira.

, lr om

definidas as linhas de

discriminas;&:o social.

Entre as< três classes mais baixas. entretanto,

.

essa

de

vestido

e sandálias

de

bail e,

enquanto

seu

irmão

d

Íi-i riminaçã o

não

é

tão

acentuada.

Os

lavradores ,

dançava no pavilhão público.

Um homem, aceito pela

trrt gerãl , vivem na mesma margem do braço principal

Gent e d e Primeira, foi

à festa

sem sua companheira,

do Amazonas em que está localizada a cidade que visi-

porque esta não era · de primeira. Explicaram-nos

11

1111

freqüente mente.

A

gente

da

classe

 

baixa que

156

{'<o c

._

·

_.

e-

..._

157

~ (p) o~10 .ev~-.f IV- ( o /

 

4--bcvc:;-

 
 

k-rr

 

vive na

cidade tem muitos amigos e parentes entre o1;

vive na cidade tem muitos amigos e parentes entre o1; mac ia dos i gapós) .

mac ia dos

 

i gapós) .

Como,

aEás,

em

tôda

part e,

o

l avradores

da

zona

rural

e comparece

aos vários

fes-

"ma tuto" é ridicularizado e os morador es da cidade e

mo Qo de viela

da

g·ente

das Ilh as e das áreas alagadiças.

tejos oferecidos pelas irmandad es religiosas d ess a zona. Compreendem que não são muito diferentes dos lavra ··

da zona rural de It á acham ainda meio bárbaro o

dores

-

também são capazes

de ganhar

a

vida,

pelo

Referem -s e aos

numerosos

 

"casamentos

na

ponta do

menos

em

parte,

com

a

lavoura .

Contudo,

os

lavra-

revó lver"

realizados

p elo

cl1efe

de

polícia,

entre

o::;.

dores vivem isolados,

tendo

um

padrão

de

vida mais

cab oclos

das Ilhas,

como sinal

de seus baixos padrões

baixo do que a gente de segunda classe da cidade.

 

de moral

e

de

seu

atraso .

Os

seringueiros participam

A gente da cidade tem uma certa vantagem sôbre os

tão pouco

da

vida

social da

cidad e de

Itá

que nossos

lavradores:

pode

env iar

os

filho s

à

esc ola

ou

ao

posto

co mpanheiros

da cidade nunca

foram

ca paze s

d e

nos

de

saúde que fica

à mão.

Há, portanto, entre a

ge nt e

dizer os nomes dos moradores das barra cas s ituadas ao

de segunda

classe

da

cidade,

 

longo

do s

rios,

nas áreas

de

extracão da borracha da

zada

uma tendência ge ner a li · s eu s am i gos e parentes

a se considerar superior a

com unidade.

Entretanto, conhecia~ de nome todos os

   

habitantes isolados da zona rural da vizinhança.

Mas

ela zona rural. Tanto a gente cl ª'ª- classes

inferiore~g)'L,Cid,acl.e CQJ2lll ...

os lavrador es , entrgtapto .x --:-ú -c.ei:to-d.es.p.r~z_g 12,el~

caboclos que ganham a vida exclusivamente da extração

da borracha e do côco. Muito embora, em anos de

os

caboclos das

Ilhas não tratam

a

gente

das classes

ma is baixa s da cidade e do campo, com o mesmo ex-

e ess o de respeito

de nível

inferior

e cortesia que geralmente os grupos

demonstram

pela classe

alta.

"Êles

alta

dos

preços

da

borracha,

os

moradores

da

cidade

(os seringueiros e lavrador es) são menos

c ivilizados",

e da zona rural se transfiram para as Ilhas para extrair

 

êsse

produto,

são

apenas

residentes

itinerantes

dessas

       

disse Juca, um citadino da segunda classe, "porque vi- v em isolados e . são pobr es".

   

áreas

isoladas.

Consideram-se

difer entes

dos

que

tra-

 

balham

permanentemente

na

extração

da

borracha .

 

Êstes são

os

"matutos".

Quando

o seringuei ro

va i

à

 

II

cidade para assistir à festa

de

São Benedito ou Santo

   

Antonio,

veste

a

roupa branca, que

de

tão

engomada

 

Os moradores de Itá classifica ram mais ou menos

"fica em sozinha".

 

"L eva

os sapatos, que

muitas

1111t têrço dos residentes da cidade de "bran cos" ou

vêzes não

usa há

dois anos,

e agüenta a

dor provocada

 

0 1'nte de Primeira e os restantes de Gente de Segnnda

pelos mesmos durante quase todo o primeiro

dia, mas

01 1 a

classe baixa

ela cidade.

Numericamente, isto quer

tira-os

para

dançar",

 

diz

do seringueiro a

gente

da

•I ir.

r

que os habitantes da comunidade de Itá, inclusive

 

cidade, divertindo-se a valer.

"Quando dança, pisa no

1"1111 zona rural, constituem uma populaçã o de menos

pé do parc eiro.

Ninguém g osta de dançar com os ca-

1!11 10 % da classe superior, e de cêrca de 20% da classe

boclos".

No segundo dia

da festa

"os pés

do

caboclo

11111 iH

baixa .

O censo

aproximado

que r ealizamos na

estão inchados; êle não está habituado a usar sapatos,

 

ll l 'l'a Ja co munidade demonstrou -qu e cêrca de 60-% da

nem

a

andar no

chão

duro"

(muito difer ente da lam a

pnp1 1ht ção

eram constituídos por gente de sítio.

Ape-

158

159

nas uns 10 % dos habitantes da comunidade era:rn s erin-

gueiros,

que

a grande

maioria

dêstes vive fora

de

~u?. área, na regmo das Ilhas do

Havia

certa

divergência

de

opiniões

entre

nossos

diversos

amigos de Itá quanto

à posição social de al guns indiví ..

duos

dos

degTaus mais baixos da primeira· classe.

Manuel Cesar Andrade, por exemplo, um rapaz da classe mais baixa, criado por Dona Dora Cesar Andrade,

foi

classificado na primeira classe depois de muita

hesitação por parte de várias pessoas. E, como

expusemos

antes,

algumas

pessoas

d a primeira

classe,

como o

senhor Serra Freir e e Dona Branquinha, reco-

nhecem

a muito poucos o direito d e serem classificados

como "v erdad eira Gent e

d e

Prim eira" .

De maneira

geral, entr etanto, nossos amigos de Itá estavam de

acôrdo

sôbre

quais

as

famílias

da

primeira

classe

e

quais, por eliminação, as que pertenciam às classes mais

baixas das áreas urbana e rural. Os habitantes de Itá basearam-se em critérios diversos para atribuir às

pessoas sua legítima posição social,

alg;,uns

dos

quais

estavam claramente definidos em suas mentes e outros que eram implicitamente aceitos. (3)

(3) Obtivemos esquemas pormenorizados sôbre compo-

sição

da

família,

sua

renda,

despesas

de alimentação, sua

ocupação, suas propriedades, etc., de cêrca de 113 residências da comunidade de !tá. :ffisses esquemas proporcionam um

quadro de mais de 30% de sua população total (calculada

em

350

residências)

que

obedece

à

seguinte

disposição:

17

residências

da primeira classe,

55

da

segunda

classe,

31

do

grupo

de lavradores

e

10

do

grupo

de seringueiros das

Ilhas.

Dificuldades de transporte nos impediram de colher dados re-

ferentes à força numérica de ambos os grupos rurais no

conjunto

da

população;

entretanto,

creio

que

nosso

quadro,

um tanto incompleto, dos dois grupos em questão, fornece

boa

indicação

sôbre

as

diferenças de padrão de vida entre

os

mesmos.

160

\ 1
\
1

Um dêsses critérios, J da ocupação profissional.

explícito

Vários

e importante, escritores referem.se

era

o

a um chamado "complexo de fidalguia" existente no

· B rasil.

O

esf,ôrço

físico,

no

século

passado,

era apa-

n á gio exclusivo da casta de peões-escravos e dos recém ..

a

lforriados e, mesmo depois da liberta ção,

o trabalho

br a çal continuou a

ser

um

símbolo

de

baixa

posição

s ocial.

À

medida que as pessoas subiam na escala so-

ci al, adotavam as atitud es dos antigos senhores de ter-

ra s

e donos

de

escravos

e, ainda hoje,

no

Brasil con-

te mporâneo,

existe

um

sentimento de

desprêzo

y or

qu alquer forma de trabalh l. É um valor

soCi a

ace1 o,

não

pelos

descendentes

das

famílias

pro prietárias de escravos, como também pelas camadas

'.!'n édia

e comercial

das

classes mais altas das

cidades e

p elos habitantes

de inúmeras cidadezinhas do

inferior

do Brasil.

Mesmo em Itá, uma pequena cidade isolada

elo Vale do Amazonas, a ocupação de uma pessoa é

·ind icação

de

sua

classe

social.

E

como

a

população

de

Itá não

descende

da

fidalguia

proprietária

de

<scr avos

(na realidade,

emancipação

grande parte

descende

de

es-

erav os), a

do trabalho braçal constitui

um símbolo particularmente importante de alta posição

Hocial.

Dos dezessete homens classificados na primeira

l asse no estudo das famílias que realizamos, nenhum oxec utava trabalhos braçais; eram todos funcionários p(tblicos ou comerciários . Ésse gTupo incluía o agente

d~1 coletoria

estadual,

o

prefeito,

o subpref eito

e o~

pl'opr ietários de três casas comerciais. Embora suas

t' Hpos as se ocupassem com trabalhos êaseiros, a maioria

I i nha

empregados domésticos. Em compensação, dos

<'i nqüe nta e cinco homens da segunda classe incluídos t' ilt n oss o estudo, com exceção de dois (escriturários da I ' r·c fe itura), todos g anhavam a vida com aLguma forma

t io t ra balho manual. Os poucos artesãos de Itá, como

161

o sapateiro e os carp int eiros, eram incluídos na segunda classe. Mesmo a lavoura é considerada uma ocupação da classe baixa. Das dezessete famílias da primeira classe, apenas um a possuía uma roça de mandioca e, assim mesmo, fôra plantada por la vradores assalariados.

Qm

ou t&J,l&, d-ª. .r enda de um a pessoa e seu padrão

crit ério

explícito

com

.. de vida também constituem um

que a gente de Itá estabelece a classe social de um

indivíduo.

'l'ôdas

as

famílias

incluídas

na

primeira

dasse tinham um atributo comum: n eg ociavam com · di -

nheiro.

Tôdas possuíam uma r enda r elativamente fixa,

proveni ent e de salários ou do comércio e,

portanto, ou

dispunham de dinheiro ou tinham crédito nas lojas ela

loc alidade.

S eg undo

a

definição

grosseira

mem

da

segunda

classe:

"Os

"brancos"

de

são

um

ho-

aquêles .

que têm um pouco (de dinheiro) guardado no baú.

1'i

o sapateiro e os carp int e iros, eram incluídos na segunda classe. Mesmo a lavoura

diferença é que quando eu quero um côco, tenho que subir na á rvore e apanhá-lo eu mesmo, mas quando êles querem, pagam alguém para o fazer". Nosso estudo

elas r endas

das famílias

a idéia , comumente aceita

em Itá,

de que

o dinheiro

é

um

fator

import ante para

a

posição

social.

Na

nheiro,

das

dezessete

cidade,

famílias

a

renda média, em

da

primeira

classe

di-

era

de cêrca de Cr$ 1. 597,10 por mês, enq uanto que a das

famílias da segunda classe era apenas Cr$ 452,30.

( 4)

As famílias

da

primeira

classe

tinham

casas me-

lhor es, vestiam-se e alimentavam-se

melhor d:o

qt e~

Ciã s e'gúnci ã class e. f3êiilêXcê'Çãõ,-tód~~;-rncluídos

-

na

primeira

classe

moravam em

residências

classifi-

cadas de casas, ...

§ituadas

na Rua "Primeira" ou na Rua

"Segunda" e não em barracas

de éobê rtura de pal1iã,

(4)

A renda mens a l das famílias da primeira classe va-

riava entre Cr$ 500,00 e Cr$ 5.000,00 e a das famílias da segunda classe entre uns parcos Cr$ 50,00 e Cr$ 1.700,00.

162

<:omo o faziam

75

por cento

elas famílias

da segunda

classe .

Nas casas das famílias

de

primeit·a; a porcen-

tagem

era

de

0,9

pessoas por quarto, enquanto havia

1J2 pessoas por quarto nas barracas da Gente de Se-

(jttnda.

Na

Amazônia

brasileira

o

__

calcado constitui

,

11

iii

li'P

uma parte importante da indumentária, tanto do ponto

de vista social como para proteção contr a

Entre

as

famílias

da

primeira

cl asse

os

a verm ino se . homens pos-

suíam em média,

3,3 pares de sapatos, enquanto os da

. egunda

classe tinham

apenas

1,8.

As mulheres da

primeira classe possuíam em média 3,6 pares de sapatos,

• as da segunda classe, apenas 1,7. As habi tações da

primeira

classe eram mais bem mobiliadas,

continham

m a is cadeiras, mais roupa branca, ut ensílios de cozinha

o apare lhos de

louça e maior número

de rêdes

do

que

ns da segunda classe.

As poucas camas existentes em

ftá

pertenciam

às

casas

das

famílias

da

classe

mais

ulta.

Como em várias regiões isoladas,

a

máquina de

eostura é um artigo extremamente valioso, não só por s ua contr ibuição à econom ia do lar, como pelo prestíg-io

que dá ao seu proprietário.

mllias da primeira

classe,

De tôdas as dezessete fa-

apenas três.

não

possuíam

ndtquina de costura, ao passo que, das cinqüenta e cinco

1l a segunda

classe

incluídas

un ze possuíam uma .

em

nosso

estudo,

apenas

·

Na cidade focalizada pelo nosso estudo, a média

<111 despesa mensal das famílias da primeira classe, com ·

n l i mentos e outras necessidades domésticas,

era

cêrca

d o Cr$ 926,20, enquanto que entre as da segunda classe

c'I ' H aproximadame nt e Cr$ 207,20. (5)

A dif erença das

di'~'P s as em dinheiro entre os dois gr11pos é

compen-

(5)

As despesas das famílias da primeira classe variavam

• 111 o·

111ol.o· (

cêrca de Cr$ 455,00

e Cr$ 2 .609,50;

as da segunda classe,

uns míseros Cr$ 55,00 e Cr$ 900,00.

163

sada, entretanto, pelo fato

de que muitas famílias

da

seg'Unda classe possuem roças onde cultivam mandioca

para fazer farinha e, às vêzes, um pouco de milho

( 6)

e pelo

fato

de

que muitos de

seus hom ens se dedicam

à pesca durante

a estação sêca.

Contudo, essas fontes

adicionai s de alimentos mal dão para diferen ça ex istente nas despesas b ásicas.

cobr ir a grande Determinados

alimentos nunca fig·uram nos or camentos das famílias da segunda classe. - .As da pri~eira classe alime~ ­

vam-se de pão, manteiga de lata,

e outros g·êneros im-

portados, tais com o l eite condensado, queijo e goiabadai

  • - qu e em uma família da segunda classe eram comprados uma vez por ano, num aniversário ou al-

guma outra

data

comemorativa.

.As famílias da pri-

meira classe também compravam mais feijão, arroz, ca rne sêca, açúcar, café e outros gêneros que têm de ser adquiridos em um dos três armazens de Itá. Con-

quanto o nível de vida das famílias

de Itá seja baixo

e

insuficiente, mesmo na classe mais alta, as diferenças, tanto de renda como de despesas comuns, entre as clas- ses mais altas e as mais baixas, dividem a cidade em dois gTupos.

O nível

de vida

dos

dois grupos rurais

de lavra-

dores e seringueiros das Ilhas é mais difícil de avaliar, pois ambos dependem, para sua subsistência, quase ex-

clusivamente de suas roças,

da pesca

e

até

mesmo

da

caça.

Entretanto, a análise de suas rendas e despesas

indica

que

o nível

de vida que levam pouco

difere

da

classe baixa das

cidades.

Uma

família média

de

la-

vradores possuía uma renda mensal de cêrca de

Cr$_ 301,90,