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O futuro adiado A agricultura em África continua sem produzir

o que devia. E podia. Mas é preciso enfrentar


da agricultura africana décadas de políticas erradas, milhares de milhões
de investimento e o envolvimento da comunidade
internacional. O desafio é grande, mas só triplicando
a sua produção o continente consegue vencer as
dificuldades alimentares.

18 Nicole Guardiola, Miguel Correia,


Fernando Pacheco e Alves da Rocha

Três eleições simultâneas em Moçambique O reencontro


SUMÁRIO

A nova ponte do rio Zambeze A visita de Zuma


uniu mais Moçambique, numa a Angola deu início
altura em que Armando Guebuza, a uma nova era nas
Afonso Dhlakama e Daviz Simango relações bilaterais.
correm para a Presidência. A 28 de As duas economias
Outubro os moçambicanos votam podem contribuir para
também para as legislativas que a África Austral
e assembleias provinciais.
Leonardo Júnior
44 seja a locomotiva
do continente.
Maria Pons
Apresentada como o coração
do mundo, a Amazónia vive
dias atribulados. Um vazio
de poder em vastas regiões, a

Amazónia ocupação irregular de terras,


a contínua desflorestação

intranquila e a violência fazem deste


vastíssimo território um alvo

56 de diversas disputas.
Alfredo Prado 36
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4 setembro 2009 – África21


AOS LEITORES
ENTREVISTA

Raimundo Pereira A agricultura africana


Presidente interino da Guiné-Bissau
e os perdedores
Os guineenses O continente africano tem recursos natu-

carlospintosantos@africa-21.com
podem entender-se rais, energéticos e matérias-primas, de
todo o teor, em abundância. Apesar da ex-

6 Fernando Jorge Pereira


trema violência que ainda permanece, so-
bretudo alimentada por movimentos radi-
cais (Corno de África, Nigéria ou Repú-
48 GUINÉ-BISSAU blica Democrática do Congo), na última
Os sinais da mudança década vários foram os conflitos armados
Fernando Jorge Pereira que se extinguiram. Esta é uma das razões para o crescimento acelera-
52 SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE do da população continental, que deverá atingir, em 2020, 1400 mi-
Melhoria nas ligações internas e externas lhões de pessoas, mais 500 milhões que os actuais 900 milhões.
Juvenal Rodrigues
54 EUA-ÁFRICA Com muitas regiões deficitárias em produtos agrícolas, os proble-
Visita de Hillary Clinton cria expectativas mas de segurança alimentar agravam-se e as legiões de subnutridos po-
Itamar Sousa dem vir a crescer em espiral.
68 CPLP Mas o que também não falta em África é muita terra disponível
Estatuto do Cidadão Lusófono e livre circulação que continua a estender-se com o fluxo de população rural para as
João Carlos grandes urbes.
76 HONDURAS
Tal facto contribui para um fenómeno analisado pelo nosso cola-
O golpe de Estado que ninguém reconheceu
Manrique S. Guardim borador Alves da Rocha: o comércio internacional de terras africanas
90 AFROBASKET 2009 de aptidão agrícola por países compradores, situados num patamar
Angola ganha com facilidade superior de desenvolvimento em relação aos africanos, que se defron-
Jonuel Gonçalves tam com grande dependência do mercado mundial em bens alimen-
tares essenciais. Países como a República da Coreia, China, Japão, do
Golfo arábico, ou até africanos, como Líbia e África do Sul, que (di-

Crónicas Escravatura zem as estimativas), terão comprado até finais de 2008 sete milhões de
hectares a países terceiros. Em África, na lista dos principais vendedo-
39 PEPETELA A ONU classifica res deste novo comércio internacional – impulsionado pelas multina-
47 ODETE COSTA SEMEDO o comércio cionais do agro-alimentar e pelos próprios Estados – surgem Sudão,
51 GERMANO ALMEIDA
de escravos Uganda, República Democrática do Congo e o Congo.
61 LUIZ RUFFATO
71 CORSINO TOLENTINO de crime contra À grave situação da agricultura e às carências alimentares em Áfri-
96 JOÃO MELO a humanidade ca, acrescem os efeitos das alterações climáticas. O continente mais
Nicole Guardiola pobre do mundo, mas que apenas contribui com dois por cento na

Rubricas degradação ambiental planetária, é o que mais sofre.


Por isso, a proposta que saiu da reunião da Comissão da União
10 ANTENA21 Africana, em Adis Abeba, e de que se fez porta-voz o seu presidente
72 INSUMOS
Jean Ping, não deve surpreender ninguém. Reclamar na cimeira de
80 LIVRO DO MÊS
83 CULTS Copenhaga, em Dezembro próximo, aos países mais industrializados,
86 LIVROS, MÚSICAS 67 mil milhões de dólares por ano como compensação pelo impacto
e FILMES do aquecimento global. O início destes pagamentos foi apontado para
95 I&D

CAPA: Digiscript 62 2020. Será?


Carlos Pinto Santos

África21– setembro 2009 5


ENTREVISTA

Raimundo Pereira, Presidente da República interino da Guiné-Bissau

Os guineenses
podem entender-se
Cerca de uma semana antes
da investidura do novo Presidente
guineense, o chefe de Estado
cessante indicou que o diálogo
e a defesa dos interesses nacionais
é que lhe permitiram ultrapassar
os complicados desafios
enfrentados no cargo

Fernando Jorge Pereira


Fernando J. Pereira

6 setembro 2009 – África21


ÁFRICA21. Que balanço faz do seu diálogo frutífero e a desconfiança cedeu vorecia em nada a manutenção do clima
mandato? lugar àquilo que todos reconheceram ser de tranquilidade.
Raimundo Pereira. Após estes essencial naquela fase, isto é, o diálogo
seis meses nestas funções, vou retomar o permanente. Os partidos da oposição consideram
meu cargo de Presidente da Assembleia A marcação da data das eleições ti- que revelou défice de diálogo na no-
Nacional Popular (ANP), com a consci- nha, à partida, duas dificuldades. Pri- meação provisória da cúpula militar.
ência do dever cumprido. Assumi a Pre- meiro, era preciso ultrapassar o jogo Penso que não têm razão. Se sempre os
sidência interina em circunstâncias trá- partidário porque os partidos da oposi- auscultei em questões importantes,
gicas. A Guiné-Bissau acabara de ser ção fizeram um bloco para fazer passar os porque não o fazer nesta matéria? O
surpreendida por dois acontecimentos seus interesses e pontos de vista, enquan- que se passou foi que, em vez de convo-
que abalaram a sociedade. Apesar dos to o partido no poder também tinha a car todos os partidos, preferi dialogar
obstáculos e dificuldades de vária or- sua visão. Segundo, era necessário ul- com os líderes dos partidos com assen-
dem, conseguimos transpor as sucessivas trapassar a incompatibilidade de regi- to parlamentar, e no caso dos partidos
etapas, a começar pela marcação da data mes que existia entre a Constituição e a sem representação parlamentar, ouvi os
das eleições, que acabaram por decorre- Lei Eleitoral. A Constituição previa a coordenadores, e após lhes ter explica-
ram num clima de tranquilidade. realização de eleições em 60 dias, en- do a intenção de nomear as chefias cas-
quanto a legislação eleitoral estabelecia trenses interinamente, até à tomada de
Qual foi o seu maior desafio? Gerir o um regime para eleições em período posse do novo Presidente, e as razões
período a seguir às mortes do general normal, sendo necessários 90 dias para o porque não podia continuar a adiar a
Tagmé e do Presidente Nino, ou ga- escrutínio e 120 caso haja segunda volta. decisão num sector sensível como é o
rantir a realização das presidenciais Mais uma vez, através do diálogo com das Forças Armadas. Todos deram a
antecipadas? todas as forças políticas e depois de lon- sua anuência. A discordância surgiu de-
Cada um desses momentos teve a sua gas reuniões, foi escolhido por consenso pois, entre eles, quando foram prestar
particularidade. Após as mortes do ge- a data da ida às urnas. contas. Tentaram forçar a situação,
neral Tagmé e do Presidente Nino era mas já era tarde, porque já tinha toma-
necessário fazer baixar a tensão existen- Outro momento crítico foi manter a do a decisão.
te, o clima de suspeição instalado. Para data das eleições, apesar do assassínio
isso, tive de dialogar com os principais de um dos candidatos. Alguns analistas são de opinião que as
actores da vida política e com a classe É verdade, porque havia partidos que instituições republicanas permane-
castrense. Comecei com reuniões sepa- inicialmente hesitavam entre manter ou cem sob tutela militar.
radas com a sociedade civil, partidos po- alargar a data. Mas perguntei-me a mim Acho que qualquer analista atento con-
líticos e com as chefias militares. Depois mesmo o que era prioritário para a Gui- cordará comigo de que as Forças Arma-
tive novos encontros com todos, in- né-Bissau naquele momento. A resposta das tiveram muito protagonismo nos
cluindo a comunidade religiosa. Foram para mim não podia ser outra, porque últimos anos. Provam-no as crises polí-
reuniões marcadas, no início, por uma nessa altura o país estava suspenso à es- tico-militares. Será isso suficiente para
certa tensão, em que tive inclusive de in- pera da escolha do novo Presidente. Era dizer que as instituições republicanas
centivar as pessoas a intervirem. Feliz- urgente retomar a normalidade consti- estão sob tutela dos militares? Penso
mente, acabou por se desenrolar uma tucional. Não podia deixar perdurar que não. Mas é certo que os militares
discussão acalorada, e não faltaram troca uma situação de incertezas e riscos. Por influenciaram bastante o curso dos
de acusações entre políticos e militares. isso, decidi pela manutenção da data, acontecimentos na Guiné-Bissau nos
Mas a tensão atenuou-se, instalou-se um não obstante uma situação que não fa- últimos anos.

África21– setembro 2009 7


“ O país não podia
ficar suspenso
à espera da escolha
Com que impressão ficou da imagem
da Guiné-Bissau junto dos seus inter-
locutores estrangeiros?
Depois dos acontecimentos de 1 e 2 de
em contextos diferentes. A Lei eleitoral,
por exemplo, não contempla a situação
de eleições antecipadas.

de um novo Presidente Março a imagem do país não era boa. As A ANP vai convocar uma conferência
pessoas não compreendiam como foi de reconciliação nacional. Esta inicia-
numa situação possível o que aconteceu. Mas a nossa tiva pode estabilizar o país?


de incerteza e riscos presença nas reuniões, os esclarecimentos Sim. Vai na linha daquilo que tenho
e a reafirmação do nosso compromisso de vindo a defender. De facto, não pode-
romper com o passado violento, comba- mos ignorar a triste realidade da Guiné-
Nunca se pronunciou sobre a ques- ter a impunidade e o pedido às organiza- ‑Bissau desde a independência. É preci-
tão da vinda da força de estabilização ções internacionais para nos ajudarem a so conhecer as causas dos conflitos e cri-
africana? desvendar esses acontecimentos permitiu ses. Só depois disso é que poderemos fa-
Foi uma questão que não me foi coloca- mudar essa impressão inicial. zer uma verdadeira reconciliação. Apre-
da. Mas os guineenses devem saber ultra- sentei a ideia ao sub-secretário geral da
passar as suas diferenças. A forma como Concorreu à nomeação do seu partido ONU para os Assuntos Políticos, o nor-
tudo correu mostra que é possível os como candidato presidencial. Isso não te-americano B. Lynn Pascoe, quando
guineenses entenderem-se pelo diálogo entrava em contradição com as suas veio a Bissau em Junho. Concordou e
permanente, que coloque os interesses funções? admitiu apoiar a sua realização.
da Guiné-Bissau acima de tudo. Não, porque felizmente na Guiné-Bissau
as eleições são organizadas por um órgão O que não conseguiu fazer, que gosta-
A cimeira da CEDEAO* de Abuja de- autónomo. ria de ter realizado?
via pronunciar-se sobre o envio de um Modernizar a Presidência. Não pode con-
contingente militar a Bissau. A Lei guineense tem muitas lacunas tinuar a funcionar sem um estatuto, como
Este assunto não esteve sequer agendado no que toca às eleições presidenciais. se fosse um departamento governamental.
para a cimeira. Por isso não houve qual- Que aspectos merecem melhoria? Se tivesse tempo, teria criado estruturas
quer decisão. A nossa Constituição e a Lei eleitoral próprias para combater uma certa impro-
* Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental precisam de actualização. Foram feitas visação que ainda se verifica.

ADVOGADO, JORNALISTA, PRESIDENTE


Professor nas zonas libertadas do Centro-Norte da Guiné durante a luta
pela independência, Raimundo Pereira, terceiro Presidente interino gui-
neense, teve uma carreira política precoce e sempre ascendente. É o
segundo vice-presidente do PAIGC, força no poder, em cujas fileiras en-
trou com 17 anos. Na abertura democrática é eleito para a direcção do
partido, com 36 anos. Estreia-se na governação em 1994, como secre-
tário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, e foi ainda mi-
nistro da Administração Territorial, da Justiça e dos Transportes e Co-
municações. Antes de substituir, a 3 de Março último, o chefe de Estado
Nino Vieira, assassinado por militares, Raimundo Pereira, advogado for-
mado em Portugal e ex-jornalista, natural de Bissau (50 anos), foi eleito
presidente do Parlamento em Dezembro último.

8 setembro 2009 – África21


A ntena 21

Escom inaugura arranha-céus no Kinaxixi

dr

dr
QUANTIDADE DE CARBONO
EMITIDO EM ANGOLA
A quantidade de carbono e outros gases nocivos emitidos
por Angola para a atmosfera, entre 1995 e 2005, vai ser
divulgada em 2010, na Primeira Comunicação Nacional
(PCN). «Nesta PCN vamos trabalhar com dados referen-
tes aos anos passados, e na segunda vamos procurar
actualizar» a informação, afirmou Abias Huango, coorde-
nador do projecto. O metano e o óxido nitroso, gases pro-
venientes essencialmente da indústria, transportes e agri-
cultura, vão também passar a ser controlados e os dados
da quantidade emitida igualmente divulgados. A informa-
ção foi divulgada à margem do seminário de formação
«Elaboração de Inventário de Efeito de Estufa», realizado
em finais de Agosto, e que permitiu aos participantes adqui-
rir formação que lhes possibilita elaborar o referido estudo.

Com 102 metros de altura e 24 andares, o Edifício ESCOM, com inau-


guração a 22 de Setembro, é o mais alto de Luanda, e constitui a pri-
meira fase do conjunto de quatro prédios que o Grupo Escom está a
construir no bairro do Kinaxixi, no quadro do seu programa Sky Center. NOVA MISSÃO
«O edifício destina-se a várias actividades, entre elas a comercial, com DA NATO CONTRA
lojas no primeiro piso; serviços administrativos (do segundo ao 18.º an- A PIRATARIA
dar) e habitações (do 19.º ao último anel)» explicou o director-geral da
Escom, Hélder Bataglia, que precisou que toda a área posta à venda, a A NATO aprovou uma nova missão de combate à pirataria
um preço de 7500 dólares por metro quadrado, foi comprada e ocupa- no Corno de África, designada por Escudo Oceânico, que
da antes da inauguração oficial. Construído em 48 meses, pela Teixei- será chefiada pelo Comando Aliado Conjunto da NATO
ra Duarte, com projecto concebido pelos arquitectos Cristina Salvador Lisboa, cabendo ao quartel-geral de Northwood, do Reino
e Fernando Bagulho, do Atelier do Chiado, o prédio custou 135 milhões Unido, executar o controlo táctico no dia-a-dia. A operação
de dólares. A Escom tem distribuídos pelas províncias do Zaire, Ben- beneficia da experiência adquirida com a missão anterior
guela e Luanda projectos em curso com 1600 mil metros quadrados de contra a pirataria e irá assistir os Estados que o solicitarem
construção, com um investimento de três mil milhões de dólares. a desenvolver as suas próprias capacidades de combate às
actividades de pirataria. «Este elemento da operação está
desenhado para complementar os esforços internacionais e
CABO VERDE INVESTE NO KWANZA SUL
irá contribuir para uma solução de segurança marítima du-
O Governo cabo-verdiano criou uma sociedade anónima para explorar radoura no Corno de África», refere o comunicado. As for-
e gerir um terreno agrícola posto à sua disposição pelas autoridades ças navais que vão garantir a operação são as unidades
angolanas. À sociedade, com um capital social inicial de 455 mil euros que integram o Standing NATO Maritime Group 2 (SNMG2),
(652 mil dólares) integralmente subscritos pelo Estado de Cabo Verde, as quais incluem a fragata britânica HMS Cornwall, a fraga-
compete elaborar, aprovar e executar os planos estratégicos e de ges- ta italiana ITS Libeccio, a fragata grega HS Navarinon, o
tão para desenvolvimento agro-pecuário e de turismo rural no terreno contra-torpedeiro norte-americano USS Donald Cook e a
situado na província do Kwanza Sul. fragata turca TCG Gediz.

10 setembro 2009 – África21


África21– setembro 2009 11
Timor-Leste ratifica

STEPHEN MORRISON/lusa
Acordo Ortográfico
Timor-Leste tornou-se o quinto Estado-
‑membro da CPLP a ratificar o Acordo Or-
tográfico da Língua Portuguesa. Segundo
o gabinete do ministro português da Cultu-
ra José Pinto Ribeiro, a decisão do Gover-
no de Díli foi transmitida numa reunião de
trabalho realizada em Lisboa, a 2 de Se-
A GUERRA ACABOU NO DARFUR?
tembro, com o ministro timorense da Edu-
cação João Câncio Freitas. Timor-Leste Rodolphe Adada e Martin Luther Agwai, responsáveis máximos, civil e militar, da missão
junta-se assim ao Brasil, Cabo Verde, Por- conjunta da ONU e da UA (MINUAD) na região garantem que a guerra terminou no Dar-
tugal e São Tomé e Príncipe. Angola e fur. Esta afirmação é qualificada de «provocação» pelas ONG, mas apoiada por dados re-
Guiné-Bissau prevêem a ratificação do colhidos no terreno. Desde o início do ano, os confrontos interétnicos no Sul do Sudão
Acordo para 2010. Moçambique ainda não causaram mais vítimas mortais do que a violência no Darfur. A situação está, no entanto,
agendou a decisão de o ratificar. longe da normalização nas províncias ocidentais do Sudão e nas regiões fronteiriças do
Chade e da República Centro-Africana, onde 2,7 milhões de refugiados e deslocados con-
tinuam sem poder regressar às suas aldeias de origem.
O Presidente Barack Obama parece partilhar a convicção da ONU e da UA, dando
agora prioridade aos programas de estabilização, reconciliação e reconstrução das re-
giões mais afectadas pelos conflitos internos sudaneses, a mais longa das guerras ci-
vis africanas, dado que não conheceu praticamente interrupções desde antes da inde-
pendência, em 1956. Todas as atenções estão agora viradas para as eleições legislati-
vas de Fevereiro próximo e para o referendo sobre a independência do Sul do Sudão,
previsto para 2011.

ÁFRICA EXIGE COMPENSAÇÃO PELO IMPACTO DO AQUECIMENTO GLOBAL


O presidente da Comissão da União Afri- pagamentos anuais comecem em 2020.
LUSA

cana (UA) defende que África deve en- Os peritos dizem que África contribui
volver-se activamente nas negociações muito pouco para a emissão de gases
sobre as alterações climáticas, para que com efeito de estufa responsáveis pelo
os seus interesses sejam tidos em consi- aquecimento global mas, provavelmen-
deração na altura de elaborar respostas te, será o continente mais afectado pe-
globais. Jean Ping pronunciou-se no âm- las secas, inundações e aumento no ní-
bito da reunião de líderes e peritos africa- vel dos mares que se antecipam se as
nos sobre alterações climáticas, que se alterações climáticas não forem contro-
realizou na sede da UA, em Adis Abeba, ladas. Jean Ping disse que «as aspira-
em preparação para a cimeira que a ONU ções africanas de desenvolvimento es-
convocou para debater o tema em De- tarão em perigo, a menos que se adop-
zembro, em Copenhaga. tem medidas urgentes para enfrentar os
Fontes próximas na reunião da capi- problemas das alterações climáticas».
tal etíope, citadas pela Lusa, adiantaram Ao enumerar os efeitos nocivos que o
que os líderes de África pedirão às na- fenómeno arrastará para África, o presi-
ções industrializadas 67 mil milhões de dente da Comissão da UA considera
dólares por ano em compensação pelo que «a alteração climática afectará fun-
impacto do aquecimento global no conti- damentalmente a produtividade, aumen-
nente mais pobre do mundo. No caso de tará a incidência das doenças e a pobre-
ser aprovada, a resolução pedirá que os Jean Ping za e desencadeará conflitos
Uma das maiores e guerras».
pontes africanas

12 setembro 2009 – África21


NÚMEROS
AGITAÇÃO NOS QUARTÉIS SUL-AFRICANOS 47 milhões
Cerca de dois mil militares sul-africanos de turistas visitaram o continente

DR
foram despedidos pelo Ministério da Defe- africano em 2008, 5% do total dos 922
sa por terem participado a 26 de Agosto milhões de entradas internacionais de
numa manifestação em Pretória que deu turistas de todo o mundo

7000
lugar a actos de vandalismo e confrontos
com a polícia. Entre dois e três mil solda-
dos não fardados mas armados de paus e número actual de ogivas nucleares
catanas tinham respondido à convocatória operacionais dos Estados Unidos (2700)
do Sindicato Nacional da Defesa (Sandu) e da Rússia (4300), que chegaram a ser
para exigir um aumento de salários de mais de 70.000 nos anos 80

302
30% junto à sede do Governo. A manifes-
tação, não autorizada, foi violentamente
dispersada pela polícia que utilizou balas militares da NATO, dos quais 179 norte-
de borracha e canhões de água. americanos, morreram no Afeganistão
A ministra da Defesa, Lindiwe Sisulu, desde o início do ano até 31 de Agosto

200
afirmou que o Sandu, com 18 mil filiados,
«representa um problema sério e imediato
para a segurança nacional» e avisou que macacos do jardim do palácio presidencial
os desordeiros seriam «erradicados das fi- Lindiwe Sisulu, ministra sul-africana da Defesa de Lusaca receberam ordem de despejo
leiras das forças armadas». O sindicato in- depois de um deles ter urinado em cima
terpôs recurso junto do Tribunal Supremo capital, alastre aos quartéis. Os militares do Presidente Rupiah Banda, durante uma
e pede a demissão da ministra, apoiado queixam-se de que o pré, de pouco mais de conferência de imprensa

90%
por outro sindicato de soldados, o Sasfu, 150 dólares, não lhes permite garantir a
que reivindica 13 mil membros. subsistência das famílias num contexto de
O Governo de Jacob Zuma está deter- crise económica agravado pela recessão. A da produção anual de ópio no mundo é
minado a impedir que o descontentamento África do Sul é o único país africano que produzida no Afeganistão

65%
social, que já esteve na origem de manifes- consagra os direitos sindicais dos militares,
tações em Julho em vários musseques da incluído o recurso à greve.
dos africanos vivem hoje com menos
de um dólar por dia, na década de 70
eram 56%
UNIÃO EUROPEIA COM NOVA POLÍTICA DE IMIGRAÇÃO
A União Europeia apresenta, este mês, novas propostas sobre a política de imigração,
61,9
USD gasta em média por dia um
numa altura em que se multiplicam no Mediterrâneo os dramas com refugiados. As pro- cidadão suíço
postas, confiadas ao comissário para a Justiça, Jacques Barrot, centram-se na política
dita de «reinstalação», que visa a transferência de refugiados acolhidos no Mediterrâneo
para outros países europeus, assim como uma política de asilo mais eficaz, segundo in-
17
seres humanos morrem por minuto de
dicou o ministro sueco da Imigração, Tobias Billstrom, cujo país ocupa a presidência da fome no mundo
UE desde 1 de Julho. Está igualmente previsto para Setembro a apresentação de uma
proposta da Comissão sobre a reforma da política de asilo, que tem como objectivo o es-
tabelecimento de quotas de acolhimento de refugiados nos países europeus.
13
navios estão sequestrados no Golfo de
Mais de 67 mil pessoas atravessaram o Mediterrâneo em 2008 para tentar entrar na Aden e Somália em poder dos piratas
Europa, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), com 228 tripulantes como reféns
travessias efectuadas com frequência por passadores em condições muito precárias e
durante as quais os naufrágios e os afogamentos são numerosos.
A Itália, Malta, Espanha ou a Grécia não querem estar sozinhas a enfrentar o proble-
2,53
USD é quanto custa despejar uma
ma, e a Comissão Europeia, segundo Jacques Barrot, procura soluções para «partilhar o tonelada de lixo não reciclado em
fardo» do acolhimento de refugiados que atravessam o Mediterrâneo, quase sempre via África, contra 253 USD para a
Turquia ou Líbia. depositar na Europa

África21– setembro 2009 13


MANDELA RECEBE KHADAFI SOMA E SEGUE

SABRI ELMHEDWI/LUSA
PRÉMIO GEREMEK O Guia supremo da Revolução líbia feste-
O ministro de Estado e dos Negócios Es- jou em grande pompa o 40.º aniversário
trangeiros de Portugal, Luís Amado, este- da sua chegada ao poder, a 1 de Setem-
ve na África do Sul, a 27 de Agosto, para bro de 1969, aproveitando a oportunidade
entregar o Prémio Geremek a Nelson para lançar mais umas das clamorosas
Mandela. O líder histórico sul-africano, provocações que são a sua imagem de
de 91 anos, recebeu a distinção «por ac- marca. Decano incontestado dos chefes
tos notáveis para a promoção da Demo- de Estado africanos depois da morte do
cracia», atribuída pela primeira vez du- gabonês Omar Bongo, Muammar Khadafi
rante a Presidência Portuguesa da Co- convocou, na véspera das comemora- Aos 27 anos de idade, o tenente Khadafi
munidade das Democracias, em Julho ções, uma cimeira extraordinária da União derrubou a monarquia líbia
deste ano. Africana (que preside) para tratar dos conflitos em África. Mais de 30 chefes de Estado e
Amado afirmou em Joanesburgo que de Governo acudiram ao encontro que teve os Presidentes da Venezuela e da República
os portugueses «têm uma grande dívida Dominicana como convidados de honra, mas que contou também com a participação de
de gratidão para com este grande político representantes de vários governos ocidentais. Khadafi acusou Israel de «estar por trás
sul-africano» e manifestou o desejo de ver de todos os conflitos em África» e congratulou-se sem modéstia dos êxitos diplomáticos
o seu legado protegido em Portugal». conseguidos pela Líbia contra a «arrogância imperialista».
Para o ministro, «Portugal pode ser um Há um ano, a Líbia foi o primeiro país africano a obter «reparações» do seu antigo co-
instrumento de projecção deste legado no lonizador europeu, a Itália. Além de pedir desculpas, o Governo de Sílvio Berlusconi com-
continente europeu». Após um encontro prometeu-se a investir cinco mil milhões de dólares na Líbia nos próximos 25 anos em
na Fundação Mandela com Madiba, que troca do perdão dos crimes da era colonial.
se fazia acompanhar da sua mulher, Gra- Mais recentemente, a justiça escocesa libertou por motivos humanitários o agente
ça Machel, o chefe da diplomacia lusa sa- secreto líbio Ali al-Megrahi, condenado a prisão perpétua pelo atentado contra o voo da
lientou que Mandela «legou ao mundo e PanAm que causou a morte de 270 pessoas em Lockerbie, em 1988. E o presidente da
às gerações vindouras uma lição universal Confederação Helvética Hans-Rudolf Mertz apresentou um pedido formal de desculpas
e inestimável de respeito, tolerância e pela breve detenção, em Genebra, o ano passado, de um dos filhos do Guia, Aníbal, acu-
não-violência nos processos políticos que sado de maus tratos contra empregados domésticos. Em todos os casos, Khadafi não fez
Portugal pretende ajudar a difundir». mistério da chantagem exercida sobre os Governos italiano, britânico e suíço utilizando o
petróleo como trunfo, criando sérios embaraços políticos aos interessados.
Mandela festejou os 91 anos em 23 de Julho
DEBBIE YAZBEK / lusa

GABÃO VAI DE PAI PARA FILHO


Ali Bongo, filho primogénito do Presidente Omar Bongo falecido após 42 anos de poder,
é o novo Presidente eleito do Gabão. Ex-ministro da Defesa e candidato oficial do parti-
do no poder, Ali foi proclamado vencedor das eleições presidenciais que se realizaram a
30 de Agosto. Com 41,7% dos votos, Ali Bongo registou uma clara vitória sobre os outros
17 candidatos e em particular sobre André Mba Obame e Pierre Mamboundou, que se
auto-proclamaram vencedores após o fecho das urnas. O primeiro obteve 25,8% dos su-
frágios e o segundo 25,2%. Como se vem tornando hábito, ambos acusam o partido no
poder de fraude e rejeitam os resultados, em vez de reconhecer como fez a maioria dos
observadores, que foram as divisões da oposição que aplanaram o terreno para a vitória
anunciada de Ali Bongo.
Este prometeu ser «o Presidente de todos os gaboneses», o que não bastou para
acalmar os ânimos dos partidários dos dois grandes derrotados. Houve confrontos em Li-
breville e Port Gentil, o terminal petrolífero onde o consulado de França foi incendiado por
populares que acusam Paris de ter «cozinhado» mais uma «solução dinástica» como já
acontecera no Togo há três anos. Os observadores internacionais não constataram irre-
gularidades graves e os governos ocidentais e africanos felicitaram o povo gabonês pelo
civismo manifestado durante a jornada eleitoral.

14 setembro 2009 – África21


ZUELÓDROMO
Os militares, árbitros da crise de Madagáscar “A África exorta os doadores a oferecer
a muita necessitada assistência para o
As negociações de Maputo desenvolvimento para garantir que o

SAM TCHE/LUSA
para encontrar uma saída po- Governo de unidade esteja em
lítica para a crise em Mada- condições de enfrentar a sua
gáscar permitiram estabelecer responsabilidade de reverter a situação
um calendário para o regres- política e socioeconómica no
so à normalidade institucional, Zimbabwe”
mas a partilha do poder no JACOB ZUMA, Presidente da África do Sul
Governo de União Nacional “As aspirações africanas de
(GUN) encarregue de gover- desenvolvimento estarão em perigo, a
nar a Grande Ilha até às próxi- menos que se adoptem medidas
mas eleições pode ainda fazer urgentes para enfrentar os problemas
descarrilar todo o processo. A das alterações climáticas”
3 de Setembro, as três fac- Andry Rajoelina ainda conserva o apoio das chefias militares JEAN PING, presidente da Comissão
ções que se opõem à perma- da União Africana
nência no poder do actual homem forte, Andry Rajoelina, durante a fase de transi- “Andámos cerca de 1300 quilómetros
ção, propuseram nomear militares para os cargos de Presidente, Vice-Presidente e de Luanda ao Luena, passando pelas
primeiro-ministro, proposta imediatamente rejeitada pelas chefias das Forças Arma- províncias do Kwanza-Norte, Malanje,
das e de Segurança, que já avisaram que não tolerariam o regresso ao poder do ex- Lunda-Norte e Lunda-Sul, e não vimos
‑Presidente Marc Ravalomana, que forçaram a demitir-se em Março de 2009 para evitar nenhum painel ou outro objecto
um banho de sangue. publicitário do CAN-2010”
Joaquim Chissano, encarregue pela comunidade internacional e a União Africana AKWÁ, deputado e antigo capitão
(que condenaram o golpe de Rajoelina) para pôr fim ao braço-de-ferro entre este e Ra- da selecção nacional de futebol de Angola
valomanana, exilado na África do Sul, convidou para as negociações os ex-Presidentes “Em muitas circunstâncias, os camiões
Didier Ratisiraka e Albert Zafy como representantes das várias «sensibilidades» políti- sul-africanos voltam vazios. Já é altura
cas, mas Rajoelina não aceita ser colocado em pé de igualdade com os três «ex» que, de fazê-los regressar com a nossa
segundo ele, representam o passado. Quer para si a Presidência e 14 das 28 pastas do banana, o nosso café e madeira”
GUN, oito para a sociedade civil e apenas duas para cada um dos «ex». Ravalomana- JOSÉ SEVERINO, presidente
na exige o afastamento de Rajoelina, seis lugares para cada facção e apenas quatro da Associação Industrial de Angola

para a sociedade civil. “Com perdão da palavra, o homem


[Cavaco Silva] é, manifestamente,
reaccionário, pouco permeável à fluidez
social e tende a recuperar velhas
figuras de autoridade. É o pior
LUSA

Presidente da II República”
BAPTISTA-BASTOS, escritor português

“O acordo ortográfico é uma merda (…)


a Academia [Brasileira de Letras] é
uma excrescência de velhos tempos”
Millôr Fernandes, jornalista,
escritor e cartunista brasileiro

“ A crise trouxe poucas repercussões


económicas para o Brasil”
GUIDO MANTEGA, ministro brasileiro
da Fazenda

“A maior dádiva de Deus ao meu país


é a liberdade e a independência. Por
essa dádiva, estou disposto a perdoar”
Ali Bongo e a mulher Inge RAMOS-HORTA, Presidente
durante a campanha eleitoral da República de Timor-Leste

África21– setembro 2009 15


RAMOS-HORTA ELOGIA CHINA
O Presidente da República de Timor-Leste declarou o apoio do seu

JULIAN SMITH/lusa
país à política de «uma só China», elogiando o gigante asiático por
ter sabido encontrar soluções adequadas para a reunificação total. Ramos-Horta apoia
a reunificação
José Ramos-Horta, que discursava na inauguração do novo nacional da China
palácio presidencial, disse que «Timor-Leste continua a aderir à
política de uma só China e acredita que só os chineses, com os seus
valores éticos, tradicionais e sabedoria milenares, saberão encontrar
as soluções adequadas para a reunificação». Ramos-Horta frisou
ainda que «a reunificação de Macau e Hong-Kong são exemplos
claros de que a China sabe encontrar soluções para as situações
injustas e anacrónicas que resultam dos acidentes da História».
A China foi um dos primeiros países a reconhecer o direito de
Timor-Leste à auto-determinação e independência, território onde
existe uma importante comunidade chinesa. O novo palácio presi-
dencial é um projecto de cerca de 21,4 milhões de USD oferecido
pelo Governo chinês, que inclui amplos espaços exteriores ajardi-
nados e um parque infantil. Trata-se do segundo projecto constru-
ído pela China, depois do edifício do Ministério dos Negócios Estran-
geiros que recentemente entrou em funcionamento. Entre outras
obras previstas no âmbito dos acordos estabelecidos entre os res-
pectivos governos, a China deverá erguer igualmente um outro
edifício para o Ministério da Defesa, além de uma centena de habi-
tações e escolas.

16 setembro 2009 – África21


África21– setembro 2009 17
O tempo perdido
da agricultura africana
Em África, apenas sete por cento das terras aráveis são irrigadas
(contra 12% na América Latina e 14% na Ásia) e dentro
de quatro décadas os 900 milhões de africanos poderão ser
dois mil milhões.
A maioria dos governantes do continente diz-se consciente
destes factos e há seis anos os 53 Estados da União Africana
aprovaram em Maputo uma resolução destinada duplicar
os investimentos da agricultura nos orçamentos nacionais.
Mas não se conhecem dados fiáveis que tal tenha acontecido.
A prioridade de socorrer os milhões de subalimentados
esbarra com políticas agrícolas erradas, vulnerabilidade
de África face aos «grandes» que controlam a Organização
Mundial do Comércio, cobiça da terra do continente
por países deficitários de áreas aráveis e férteis, catástrofes
naturais, desflorestações, cheias, avanço dos desertos
e alterações climáticas.
Porque considera que África não deve, e não pode,
afrontar isoladamente a degradação do solo e do ambiente,
o presidente da Comissão da União Africana, Jean Ping,
reclamou dos países industrializados uma compensação
pelo impacto do aquecimento global em África no valor
de 67 mil milhões de dólares por ano. Uma verba astronómica?
Não. Sensivelmente o que a Organização das Nações Unidas
para Agricultura e Alimentação (FAO) e as ONG reivindicam
aos mesmos destinatários.
É sobre o panorama da agricultura em África e dos seus desafios
que trata este dossiê.

Carlos Pinto Santos

18 setembro 2009 – África21


África21– setembro 2009 19
África e o desafio
da agricultura
África precisa de triplicar nas próximas décadas alimentar uma humanidade em crescimento, e
África é o continente onde os progressos podem
a produção agrícola. Só assim conseguirá ser mais rápidos e espectaculares. Mas como e a
satisfazer as suas necessidades alimentares. que preços ambientais, sociais, humanos, con-
Mas as dificuldades são grandes: é preciso trapõem ecologistas, associações de camponeses
e as ONG?
vencer anos de políticas erradas, são necessários Sobre um ponto todos estão de acordo: há
muitos milhões de dólares de investimento que intervir em força num sector fragilizado por
décadas e séculos de políticas erráticas, impostas
e é essencial a participação da comunidade
do exterior pelos colonizadores, o FMI, a OMC.
internacional. O desafio é global. Pela primeira vez, em 2003, os chefes de Estado
dos 53 países membros da União Africana apro-
Nicole Guardiola varam a Resolução de Maputo, na qual se com-
prometiam a duplicar em cinco anos os orça-

P
mentos nacionais destinados à agricultura, que
ara alimentar correctamente a sua não deveriam representar menos de dez por cen-
população, que será de cerca de dois mil to das despesas públicas.
milhões em 2050, África precisa de Do Programa Detalhado de Desenvolvi-
triplicar a sua produção agrícola nas próximas mento da Agricultura Africana (PDDAA) então
duas ou três décadas. É obra, para o único conti- aprovado resultou uma profusão de iniciativas
nente cuja produção por habitante decresceu no e alguns planos nacionais, mas, regra geral, as
último quarto de século e que abriga actualmente realizações ficaram aquém das necessidades. Os
a maior percentagem de subnutridos. desequilíbrios regionais e o número de malnu-
Será possível vencer este desafio? Sim, dizem tridos aumentaram devido ao êxodo rural, às
os cientistas, investigadores e políticos. O aumento alterações climáticas e à brutal subida do preço
das superfícies cultivadas e da produtividade, o dos alimentos.
aproveitamento da água, a melhoria das técnicas A África subsariana está, mais uma vez, entre
agrícolas e a biotecnologia permitirão à Terra os principais «perdedores» da crise mundial, com

20 setembro 2009 – África21


a agravante de continuar excessivamente vulnerável A agricultura africana
às pressões externas, e às suas «correias de trans- em números
missões» internas, que são os Governos (financei-
ramente frágeis e, por isso, facilmente aliciados 60% da população
ou comprados) e os agentes privados nacionais. 57% dos empregos
17% do PIB
Dois exemplos recentes ilustram esta debilidade:
40% das receitas de exportação
as negociações dos Acordos de Parceria Econó- 874 milhões de terras cultiváveis
mica com a União Europeia e as compras ou 7% irrigadas (3,7% na África subsariana; 47% na África do Norte)
arrendamento de terras por parte de grandes gru- 1200 barragens, das quais 50% para irrigação (60% na
pos económicos multinacionais (ver texto de Alves África do Sul e Zimbabwe)
da Rocha). No primeiro caso, a mobilização das
Rendimentos por hectare: três a quatro vezes inferior à media
associações camponesas, bem apoiada pelas ONG
asiática e europeia para os cereais, 20 a 30 vezes inferiores
internacionais e as agências para o desenvolvi-
para a produção animal
mento, conseguiu travar a pressão da UE, que pre-
tendia eliminar por completo as barreiras alfande- Aumento da produção de cereais desde 1980: 0,14%
gárias que moderam a invasão dos mercados
africanos por bens alimentares oriundos dos países Aumento das importações de cereais desde 1980: 136%
desenvolvidos ou emergentes.
Importações de cereais em 2008: 56,4 milhões de toneladas
No que se refere às aquisições de terra, a ten-
dência é para a intensificação das «deslocalizações Vendas ou concessões de terras desde 2004: 2,4 milhões de ha
agrícolas», frequentemente embrulhadas em boas
intenções. Sem meios financeiros, humanos e téc- INVESTIMENTO NA AGRICULTURA/ANO
nicos para desenvolver a agricultura, aumentar os (em milhões de dólares)
rendimentos e dar de comer às suas populações, os África: 2000
Ásia: 6000
Governos africanos, que possuem a maior parte
União Europeia: 10.000
das terras (segundo a FAO a propriedade privada
fundiária não ultrapassa os dez por cento e a esma- TRANSACÇÕES FUNDIÁRIAS EM ÁFRICA
gadora maioria dos camponeses africanos não Principais países compradores:
possuem títulos de propriedade) são facilmente China, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos, Kuwait,
convencidos da vantagem de vender ou arrendar Arábia Saudita
grandes superfícies a investidores privados, exter- Principais países africanos afectados:
Etiópia, Gana, Madagáscar, Mali, Sudão
nos ou nacionais, que prometem aumentar a pro-
Principais operações:
dução, a produtividade, criar empregos remunera- Madagáscar: compra de 500 mil ha pelo grupo indiano
dos e gerar receitas fiscais. Varun Industries para produzir arroz; arrendamento de 1,3
O problema é que a existência de muitas terras milhões de ha pela Daewoo Logistics (Coreia do
por cultivar em África é uma ilusão. Na realidade, Sul) para produzir milho e óleo de palma (suspenso pelo
todos os recursos são utilizados, para cultivo ou Governo de transição); Tanzânia: compra de 500 mil ha pela
Arábia Saudita; Mali: compra de 100 mil ha pela Líbia para
como pastos e, apesar dos fracos desempenhos em
cultivar arroz

África21– setembro 2009 21


termos de produtividade, garantem a sobrevivên-

DR
cia de milhões de camponeses e pastores. As altera-
ções climáticas e as catástrofes naturais (secas,
inundações, pragas) tornam ainda mais precária
esta agricultura tradicional. Como não temer, nes-
te contexto, o desenvolvimento de explorações in-
dustriais, de capital intensivo, economicamente
mais rentáveis, mas que privam as comunidades
camponesas da maior parte das terras que explo-
ram actualmente, dando origem a uma classe de
Arrozal na Guiné-Bissau
«sem terra» até agora quase inexistente em África?

NOVA ERA PARA A AGRICULTURA Revolução verde, revolução azul?


GUINEENSE
Os quatro pilares do PDDAA identificados em
Um encontro, na segunda quinzena de Agosto, entre 2003 eram a questão da terra e gestão da água; in-
os ministros da Agricultura e Desenvolvimento Rural e


fra-estruturas rurais e acessos ao mercado; alimen-
das Finanças, pode dar início a um processo de
relançamento do sector agrícola na Guiné-Bissau. Na O camponês tos e redução da pobreza e da fome; e a ciência e
ordem do dia da reunião esteve a análise da situação tecnologia aplicadas à agricultura. A União Africa-
africano foi
geral da agricultura, dos investimentos públicos e na colocou a primeira questão à cabeça de todos os
privados, da questão do crédito agrícola, assim como considerado seus programas de desenvolvimento. A reunião or-
de outros aspectos relevantes do sector. Cerca de um
durante décadas ganizada conjuntamente pela UA e a FAO em
mês antes, o titular das Finanças prometeu que o
Syrte (Líbia) em Dezembro de 2008 foi mais uma
Governo ia dar maior atenção ao investimento na como o símbolo
tentativa de dar resposta à crise alimentar e às ame-
agricultura. A declaração do governante foi bem
acolhida pelos responsáveis da área, na expectativa
e o principal aças decorrentes das mudanças climáticas. O lema
de que os fundos para a agricultura, que nunca foram responsável era «A água para a agricultura e a energia em Áfri-
além dos três por cento no Orçamento Geral do ca» e as resoluções aprovadas tiveram o mérito de
Estado, possam conhecer finalmente um aumento do atraso pôr em evidência a inter-relação entre segurança


considerável, susceptível de modernizar e viabilizar a de África alimentar e energética e a importância do domínio
actividade. A retórica oficial sempre disse que a
da água para o desenvolvimento sustentável.
agricultura é a prioridade número um da economia
nacional, mas na realidade nunca foi assim. O país Tendo em conta o facto que África utiliza ape-
ainda não é auto-suficiente, apesar de extensas terras nas quatro por cento dos seus recursos hídricos, e
férteis e de água abundante. O arroz, base da dieta face ao agravamento das catástrofes humanitárias
local, que na época colonial se produzia e se exportava provocadas pelas secas e inundações cíclicas, o
para a ex-África Ocidental Francesa, é hoje importado conceito de «revolução azul» tem vindo a sobre-
em grande quantidade de Ásia, com enorme dispêndio
por-se ao de «revolução verde» no combate à inse-
de dinheiro. Se o Executivo garantir mais recursos
gurança alimentar.
financeiros e preservar a estabilidade política, a
implementação em curso de três projectos de apoio à Com efeito, o regadio é, com a drenagem dos
segurança alimentar vai mudar radicalmente a pântanos e zonas húmidas, o aproveitamento das
agricultura guineense nos próximos anos. águas subterrâneas e a retenção das águas superfi-
Fernando Jorge Pereira ciais, a forma mais simples e rápida de aumentar as

22 setembro 2009 – África21


superfícies cultivadas e os rendimentos por hecta- Incentivos à agricultura são-tomense
re, e o continente africano, que dispõe de recursos
hídricos importantes (rios, lagos, aquíferos subter- Diminuir a importação e estimular a produção nacional são eixos de actuação
râneos) acumulou neste particular um atraso con- do Governo no quadro do programa de segurança alimentar. Os agricultores
siderável em relação ao resto dos países em desen- têm sido incentivados com a oferta de sementes e viveiros para cinco produ-
tos: milho, feijão, batata inglesa, mandioca e matabala, além da fruticultura.
volvimento, já que apenas sete por cento das terras
Alguns parceiros têm colaborado neste esforço. A FAO, por exemplo, pôs à
aráveis são irrigadas, contra 12% na América Lati- disposição um financiamento de 250 mil USD destinado à concessão de se-
na e 14% na Ásia. mentes daqueles produtos aos produtores mais vulneráveis, para a sua ali-
Além disso, os equipamentos são desigual- mentação. Estes pequenos agricultores só poderão comercializar o exceden-
mente repartidos, dado que 40% se encontram na te para adquirir outras mercadorias para o seu sustento.
África do Norte (dos quais 54% no Egipto), segui- A Alemanha concedeu dez mil USD para o cultivo de cebola. Alguns insu-
mos têm sido vendidos aos produtores, igualmente a preços subvencionados.
da pelo Sahel com 19% (dos quais 63% no Su-
O Ministério da Agricultura reorganizou-se para prestar maior assistên-
dão). A África Austral só dispõe de 15% de super-
cia técnica aos agricultores, uma das reclamações mais constantes dos ho-
fície regada (dos quais 73% na África do Sul). mens que trabalham a terra. Outra reivindicação que ainda não encontrou
A FAO avaliou em 65 mil milhões de dólares/ resposta cabal é o apoio financeiro. Os bancos, por enquanto, não conce-
ano durante 20 anos os custos desta «revolução dem créditos aos pequenos agricultores. O Governo tenciona estruturar
azul» em África. As ONG e associações de campo- uma instituição vocacionada para esse efeito, que provavelmente verá a luz
neses defendem que estes investimentos deveriam do dia no final deste ano ou princípios de 2010. Entretanto, outra vertente
de actuação relaciona-se com a reabilitação de sistemas de irrigação em
ser financiados pelos países mais desenvolvidos e os
várias localidades.
grandes grupos industriais como parte da factura do Existe, igualmente, um entendimento com Cabo Verde para a exportação
aquecimento climático, mas parece evidente que os de hortícolas e frutícolas para aquele arquipélago lusófono. África21 sabe
países africanos deverão contar sobretudo com as que estão em São Tomé contentores com materiais de produção enviados
suas próprias forças para realizar projectos que vão pelas autoridades cabo-verdianas. O arranque está ainda dependente da as-
colocar à prova a integração regional. O aproveita- sinatura do acordo fitossanitário entre os dois países. Está também a ser de-
senvolvido o conceito de projectos integrados. Assim, a empresa Monte Café
mento das águas das bacias hidrográficas dos gran-
foi concedida a empresários líbios e decorrem negociações com a SOFINCO,
des rios africanos (Congo, Nilo, Zambeze, Níger,
uma empresa belgo-francesa, para a exploração de oleaginosas.
Volta e do Lago Chade) interessa a seis ou dez paí-
Juvenal Rodrigues
ses de cada vez e toda a actividade ou intervenção
DR

que afecta o caudal a montante afecta severamente


os países situados a jusante. Infelizmente e salvo al-
gumas excepções, as decisões em matéria de grandes
projectos (construção de barragens e de perímetros
de rega) são ainda tomadas individualmente pelos
Estados, quando uma gestão integrada permitiria
repartir os custos e maximizar os benefícios.

Modernizar a agricultura familiar

Pobre, cultivando em média menos de dois hecta-


res, muitas vezes sem outro meio que uma enxada,
mal-nutrido e pouco instruído, o camponês africa- A produção de mandioca é incentivada pelas autoridades são-tomenses

África21– setembro 2009 23



no foi durante décadas tido como o símbolo e o

lusa
A comunidade
principal responsável do atraso de África. As insti-
internacional tuições internacionais obrigaram os Governos dos
reconhece Estados pobres e pesadamente endividados a reti-
rar-se deste sector condenado, diziam, a desapare-
o seu erro cer, para investir na agricultura industrial, gerado-
e agora incita ra de excedentes exportáveis. O fim dos sistemas
Rega gota-a-gota em Cabo Verde
os Governos de estabilização dos preços, dos ofícios públicos de
CABO VERDE APOSTA compra, do fornecimento de adubos e sementes a
NAS BARRAGENS africanos preços subvencionados, a privatização dos organis-
a investir mos de investigação e vulgarização deixaram os
Três barragens para a retenção de águas pluviais vão


camponeses entregues à sua sorte.
ser construídas nos concelhos de Ribeira Grande, Ta- no campo
bugal e São Salvador do Mundo, todos na ilha de San- O acordo de Marraquexe, em 1994, no âmbi-
tiago. O financiamento das infra-estruturas hídricas to da OMC, destinado a liberalizar o comércio
está incluído nos 100 milhões de euros (143 milhões agrícola, com a perda do controlo das importa-
de dólares) disponibilizados pela cooperação portu- ções, acelerou o descalabro. Em 1998, a parte da
guesa, que prevê igualmente projectos de energias re- agricultura nas despesas públicas era de cinco por
nováveis, construção de diques de correcção torren-


cento em África (contra dez por cento na Ásia). Os
cial e 70 furos de captação de água no subsolo, de
modo a permitir mais recursos para irrigar áreas cicli-
Os investimentos privados também se retraíram: de
camente afectadas por secas prolongadas. desequilíbrios 6,3% em 1998 para 4,6% em 2000.
Segundo o Ministério cabo-verdiano do Am- Os resultados são sobejamente conhecidos. A
biente Desenvolvimento Rural e Recursos Mari- regionais parte de África no comércio mundial passou de
nhos, o arranque deste pacote de obras, que permi- aumentaram seis por cento em 1980 para dois por cento em
tirão a retenção de grandes quantidades da água da
2002, a pobreza e a fome aumentaram, o êxodo
chuva, está previsto para o início de 2010. O minis- em África
rural acelerou. De planos pela erradicação da fome
tro da tutela, José Maria Veiga, revelou em Agosto
devido em programas de luta contra a pobreza, a chama-
que estão a ser efectuados trabalhos preliminares
para ultimar os estudos de viabilidade dos projectos ao êxodo rural, da comunidade internacional reconhece agora o
aos quais se seguirá o lançamento dos concursos seu erro, e afirma que a agricultura é o motor de
de adjudicação das obras às empresas escolhidas.
às alterações
arranque para o desenvolvimento e incita os Go-
Além disso, Veiga deu a conhecer que o Governo climáticas vernos africanos a investir no campo.
está a trabalhar com outros parceiros para obter novos
e à brutal Não se trata, porém, de um regresso ao passa-
financiamentos visando a construção de mais
barragens e um melhor aproveitamento das bacias do. Se os conselheiros em desenvolvimento esti-
subida do preço mam que toda a «revolução verde» passa pela res-
hidrográficas. O Executivo vai também continuar a


apostar no projecto de dessalinização de água do mar, dos alimentos tauração da vocação primeira da agricultura, que é
no âmbito das medidas que procuram revolucionar a de alimentar correctamente as populações em
produção agrícola em Cabo Verde. Poilão, a única quantidade e qualidade, cultivos e pecuária são
barragem de Cabo Verde, foi construída em 2006 por
apenas uma das facetas de uma política integrada
técnicos chineses na bacia hidrográfica de Ribeira
de desenvolvimento rural. Esta deve também in-
Seca (ilha de Santiago), permite a irrigação de 65
hectares de terrenos e proporciona emprego a cluir o acesso dos pequenos produtores rurais à
centenas de famílias das localidades vizinhas. energia, para a produção e a transformação dos
Nuno Macedo produtos agrícolas; a construção de estradas, cami-

24 setembro 2009 – África21


nhos e meios de transporte (a mais de cinco horas MOÇAMBIQUE APOSTA
do mercado mais próximo, o camponês está con- NA REVOLUÇÃO VERDE
denado a entregar as suas colheitas a comerciantes
que ficam com a maior fatia da mais-valia). As potencialidades agrícolas de Moçambique são so-
bejamente conhecidas. O país dispõe, segundo da-
Os defensores do ambiente esperam que Áfri-
dos do Ministério da Agricultura, de cerca de 36 mi-
ca, precisamente porque ficou para trás, consiga le- lhões de hectares de terra arável, sendo mais de três
var a cabo uma «revolução verde» mais equilibrada milhões de hectares irrigáveis. Toda essa terra tem
e evite os danos ambientais de outras regiões do um enorme potencial agro-pecuário, podendo produ-
globo, mediante a fixação de uma mão-de-obra zir uma variedade de produtos agrícolas e pastos. É
abundante e «amiga» da terra. O desenvolvimento esse potencial que as autoridades moçambicanas
apostam, agora, em transformá-lo em «fonte de ri-
de técnicas eficientes de uso da água (retenção com
queza», incentivando o aumento da produção e da
pequenas barragens de terra, rega gota-a-gota); o
produtividade. Esta aposta, baptizada de Revolução
uso moderado de agentes químicos, adubos (colo- Verde, é para o Governo moçambicano um «proces-
cados junto de cada planta, e so de busca de solu-

DR
não por pulverização aérea) e ções para incrementar
pesticidas são algumas das a produção e a produ-
orientações recomendadas. tividade agrária», o
que passa pelo uso de
Mas para o conseguir não
sementes melhora-
basta investir em infra-estruturas, das, fertilizantes, ins-
máquinas, crédito e inovação trumentos de produ-
científica e tecnológica. Para le- ção e tecnologia ade-
var o pequeno cultivador africa- quada às condições
no (que é geralmente uma mu- dos terrenos. Em mui-
tos pontos do país já
lher) a encarar a vida no campo
se usam culturas de
como um futuro e não como Moçambique dispõe de 36 milhões de hectares de terra arável
ciclo curto, como
uma escravatura, é preciso dar-lhe saúde, educa- acontece com algumas variedades de arroz e de ma-
ção, protecção social e jurídica. pira (milho miúdo), permitindo a produção de duas ou
O problema é que estas políticas não produ- três colheitas por ano.


zem resultados a curto prazo e exigem visão estra- Ainda carente de fundos financeiros para gran-
tégica e capacidade de mobilização. Dado que os Apenas des investimentos na área agrícola, Moçambique
centrou a política da Revolução Verde no sector fami-
Governos estão sob pressão, muitos são tentados a sete por cento liar e na promoção do associativismo. Com cerca de
«passar a bola» para a iniciativa privada, com todas
das terras aráveis 60% da população a viver nas áreas rurais, e maiori-
as consequências políticas e sociais que isso pode tariamente ligadas à agricultura, o Governo pretende
implicar, como aconteceu recentemente em Ma- são irrigadas que cada família produza mais para assegurar a sua
dagáscar. Os camponeses, pelo seu lado, começam em África, alimentação e, depois, aumentar o seu rendimento.
a organizar-se para ter voz no debate. Na África Desta forma, o sector agrícola é visto, também, como
Ocidental a ROPPA (sigla francesa para Rede de
contra 12% uma garantia de criação de empregos. O Fundo de
Investimento de Iniciativa Local (conhecido por sete
Camponeses e Produtores Agrícolas) é já um inter- na América
milhões), alocado aos distritos, é, por isso, essencial-
locutor a ter em conta. Na África oriental, são os Latina e 14% mente destinado a financiamento de projectos de au-
sindicatos. O camponês africano já não é o «ma- mento da produção agrícola.


tumbo» de outros tempos.
na Ásia Leonardo Júnior

África21– setembro 2009 25


Solos degradados, mau uso
de fertilizantes, e cheias e secas
prolongadas são o resultado
de políticas agrícolas erradas
e das alterações climáticas.
A agricultura em África é a mais
atingida pelo aquecimento global
e a mais pobre em todo o mundo.
Procuram-se soluções, que podem
passar pela Conferência
de Copenhaga, em Dezembro.
Miguel Correia

Mau ambiente
na agricultura africana
O s estudos, promovidos pelas mais
diversas organizações mundiais,
sucedem-se, e os resultados, quase
sempre coincidentes, também: África seguiu nas
últimas décadas políticas agrícolas erradas, as al-
guns países africanos, e o pouco mais do que
assobiar para o lado dos países desenvolvidos, são
claramente insuficientes para reverter a situação.
As consequências no meio ambiente e que afec-
tam de forma directa a agricultura são já visíveis
terações climáticas estão a afectar de forma parti- um pouco por todo o continente: solos inférteis,
cularmente grave o continente, e com tendência grandes períodos de seca alternados com cheias,
para um agravamento, e é necessário um investi- pragas, aumento dos desertos, subida das marés e
mento forte na agricultura, com novas estratégias escassez crónica de água em algumas regiões. E as
na gestão dos solos, do tipo de culturas, água, fer- carências alimentares continuam por resolver na
tilizantes e colocação dos produtos nos merca- generalidade do continente
dos. No entanto, ano após ano, os erros vão-se Pior: apesar de ser o continente que, de lon-
mantendo, e as tímidas acções tomadas por al- ge, menos contribui para as alterações climáticas

26 setembro 2009 – África21


(cerca de dois por cento), é o que, segundo todos
os estudos, mais efeitos negativos vai sentir. Não
é aliás por acaso que, na última reunião da Co-
missão da União Africana (UA) dedicada às alte-
aqui, mais uma vez, África tem vindo a perder
terreno face aos outros continentes. A falta de
fertilizantes tem forçado os agricultores africanos
a explorar as suas terras para além da sua capaci-
“ África
é o continente
que menos
rações climáticas, e que se realizou em Adis Abe- dade de regeneração, retirando as substâncias contribui para
ba, o seu presidente, Jean Ping, se pronunciou nutritivas dos solos. Segundo Nteranya Sanginga,
as alterações
sobre o assunto, reclamando dos países mais in- director do Instituto de Biologia e de Fertilidade
dustrializados 67 mil milhões de dólares por ano dos solos tropicais no Centro Internacional de climáticas,
como compensação pelo impacto do aquecimen- Agricultura Tropical (CIAT), os agricultores mas é o mais
to global. Na reunião, que serviu de preparação africanos apenas utilizam oito quilos de adubo
para a cimeira de Copenhaga, em Dezembro, foi por hectare, contra os 200 quilos dos chineses.
atingido,
adiantada a data de 2020 para o início destes pa- A consequência são os cerca de 500 milhões de principalmente


gamentos. Falta agora aprovar a medida. hectares de terras degradadas, o que provoca um
a sua agricultura
prejuízo anual de mais de 20 mil milhões de
A água, sempre a água dólares por ano. Por outro lado, há um desco-
nhecimento geral sobre as características das ter-
Na base da agricultura, além da terra está a água. ras africanas. «Em muitos aspectos, conhece-se
Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa so- melhor o solo de Marte do que o da terra, princi-
bre Política Alimentar, a sua procura no continen- palmente de África», afirma Pedro Sanchez,
te africano, tanto para consumo como para a agri- responsável pelo departamento de agricultura
cultura, vai aumentar 67% nos próximos 20 anos. tropical do Instituto da terra da Universidade de
A forma de se ultrapassar tal aumento passa, se- Columbia (Estados Unidos). Com outros parcei-
gundo um relatório desta instituição, por um ros internacionais, esta instituição está a fazer um
grande investimento nos sistemas de irrigação, por levantamento das características das terras de for-


uma correcta política de gestão da água de abaste- ma a produzir um mapa digital dos solos (projec-
cimento público, e essencialmente por políticas re- to ASIS), o que vai tornar depois possível ade-
A falta
ais dos países desenvolvidos que atenuem os efei- quar o tipo de agricultura e prática agrícola a de fertilizantes
tos das alterações climáticas, bem como o próprio cada caso.
força os
aquecimento global. Só assim será possível garan-
tir água para a agricultura e para consumo huma- Sementes geneticamente modificadas agricultores
no. E não piorar cenários já de si catastróficos, africanos
como o aumento dos desertos em determinadas Com a crise alimentar a agravar-se, a última reu-
a explorar as terras
regiões, ou a diminuição da quantidade de água de nião do G8, em L’Aquila, Itália, trouxe um refor-
Norte a Sul do continente. Exemplos paradigmá- ço da verba para a ajuda alimentar a África de para além da sua
ticos – e mais mediáticos – destes erros são a drás- cinco mil milhões de dólares, atirando o valor to- capacidade
tica diminuição do lago Chade (ocupa apenas dez tal para os 20 mil milhões de dólares. Mas Ka-


por cento da área que ocupava em 1960) ou a re- naya Nwanze, presidente do Fundo Internacio-
de regeneração
dução das neves no monte Kilimanjaro, que pode- nal para o Desenvolvimento Agrário, embora
rão mesmo deixar de existir entre 2015 e 2020. saudando esta verba, não deixou de frisar: «É
Mas se a água é essencial na prática agrícola, tempo de mudar, porque a segurança alimentar
os bons solos, devidamente nutridos, também. E não se resume a ajuda alimentar. O que importa

África21– setembro 2009 27


O estado da
é a possibilidade de os povos produzirem ali-
mentos, tendo a eles acesso nos mercados locais».
E é precisamente aqui, no tipo de investimento
a concretizar, que as preocupações ambientais
nem sempre pesam nas opções governamentais.
E um dos problemas é a pressão para que os
campos de África sejam utilizados para a produ-
ção de biocombustíveis. Ao se alimentarem mo-
tores com biocumbustíveis, deixa-se de alimentar
populações. Além de que já está provado que «a
produção de biocombustíveis em África tem
custos altíssimos, até em termos ambientais»,
pode ler-se num relatório, de finais de 2008, da
Organização das Nações Unidas para a Agricul-
tura e Alimentação (FAO).
Polémicas são também as opções de algumas
multinacionais do ramo alimentar. Ao condicio-
narem os seus grandes investimentos em planta-
ções, principalmente em África e na América
Latina, à aceitação, por parte dos agricultores
destes países, de sementes geneticamente modifi-
cadas, nefastas ao meio ambiente, à biodiversida-
de e às próprias práticas agrícolas (o caso mais co-
nhecido é o da empresa norte-americana Mon-
santo), estas multinacionais estão a condicionar o
futuro da agricultura. O alerta já foi dado por
organizações defensoras da biodiversidade. Mas,
como noutras situações no passado (caso de de-
terminados pesticidas químicos), os ganhos ime- O Governo não foi capaz
diatos em termos de produtividade parece que,
de incrementar uma política justa
mais uma vez, estão a ganhar terreno.
Copenhaga e a sua conferência mundial dedi- de desenvolvimento da agricultura
cada ao ambiente, em Dezembro deste ano, apre- familiar, que permitisse
senta-se agora aos olhos de muitos como a grande
a transformação dos camponeses
solução para o aquecimento global e suas conse-
quências. Ao propor-se criar metas mundiais para em pequenos ou médios
a redução das emissões de carbono, bem como empresários, melhoria tecnológica,
apoiar políticas concretas para cada continente e
país, o acordo de Copenhaga poderá, caso os
aumento da produtividade da terra
principais países desenvolvidos assim o desejem, e do trabalho, aumento da renda
significar um ponto de viragem nas políticas am- familiar e garantia da posse da terra
bientais globais e das suas consequências numa
área tão sensível como a da agricultura. Principal- Fernando Pacheco
mente da mais necessitada – a africana.

28 setembro 2009 – África21


agricultura angolana
to. As estatísticas não são suficientemente credí-

lusa
veis para se avaliar a real dimensão dessa melho-
ria. Em Angola não há práticas de monitoria e
avaliação independentes dos empreendimentos
públicos. O mais preocupante é que estas melho-
rias acontecem de forma pontual, não consti-
tuem reflexo de uma mudança estratégica de fun-
do e não estão associadas a reformas estruturantes
que possam vir a garantir a sustentabilidade das
acções.

Promessas irrealistas

Por ocasião das eleições de 2008, o MPLA pro-


meteu aos angolanos metas de produção agrope-
cuária ambiciosas para 2012. Por exemplo, a pro-
dução de cereais passaria de 700 mil toneladas
para 15 milhões, ou seja, aumentaria mais de 20
vezes em quatro anos, o que seria absolutamente
inédito. Denunciei a falta de realismo dessas me-
tas em Maio de 2008.
Ao fim de um ano, o panorama não é anima-

R
dor. Principalmente no que se refere aos aspec-
ezam as cifras oficiais que a produ-
ção agrícola de Angola está a aumen-
tar. Pela primeira vez a barreira de um
milhão de toneladas de cereais foi atingida. Acre-
“ As cooperativas
de serviços
poderiam ser
tos estruturantes, aqueles que condicionam a
produção. A reforma da investigação promete
muito mas concretiza pouco. Um centro cons-
truído em Malanje e equipado com três labora-
dita-se que a produção de café tenha chegado ao tórios desde 2006, num investimento de mais de
uma solução
dobro da do ano passado. Os efectivos de gado dois milhões de dólares, ainda não entrou em
bovino de raças importadas ampliaram-se, assim para todos estes funcionamento. Programas de capacitação dos
como melhorou o desempenho de alguns empre- problemas, mas agricultores aprovados há mais de um ano e com
endimentos pecuários. Os números de explora- financiamento externo garantido, não arrancam
a legislação
ções de média e grande dimensão e de empregos por problemas de pormenor. Não há uma estra-
cresceram. O consumo de fertilizantes foi am- cooperativa está tégia adequada para estimular a instalação gene-


pliado e o Governo aprovou duas linhas de crédi- desactualizada ralizada de provedores de serviços públicos ou
to para investimentos e custos operacionais da privados nos municípios, em mais de 90% dos
campanha agrícola. quais os agricultores não conseguem sequer
As coisas melhoraram efectivamente, mas es- comprar sementes e ferramentas usuais, nem ob-
tamos longe, muito longe, do que deveria ser fei- ter conselhos técnicos elementares. Aumentou o

África21– setembro 2009 29


consumo de fertilizantes para 30 mil toneladas,
quando, segundo a FAO, já há muito devería-
mos ter ultrapassado as 400 mil.
As linhas de crédito aprovadas tardam a ser
concretizadas para desespero dos agricultores e o
acesso ao que existe é limitado, quer por deficiên-
cias do sistema bancário, concentrado nas capi-
tais de província e demasiado exigente nos requi-
sitos para financiamento de necessidades elemen-
tares dos agricultores, quer pela incapacidade
desses agricultores de apresentarem projectos cre-
díveis. Nos últimos anos foram adquiridos trac-
tores e equipamentos em quantidades e valores
consideráveis que têm uma vida útil média infe-
rior a dois anos, possivelmente uma das mais bai-
xas do mundo, e não são dados os passos necessá-
rios para a definição de uma política sensata de
mecanização, que tenha em conta o estado actu-
al de organização e as capacidades institucionais e
de recursos humanos, e preveja os níveis de in-
tensificação, o tipo de equipamento, a formação
de técnicos e de operários especializados e o uso
de métodos modernos de planeamento estratégi-
co e de gestão.
Os projectos agricolas de grande dimensão crescem em Angola

Cooperativas de serviços
jo com a realidade, é que o petróleo tem mesmo
As cooperativas de serviços poderiam ser uma so- os anos contados, o que torna o conceito de de-
lução para todos estes problemas, mas a legisla- senvolvimento sustentável para Angola mais per-
ção cooperativa está desactualizada e a nova lei tinente do que nunca.
está a aguardar provação há vários anos. Mesmo E o conhecimento, afinal, está aí à mão. Em
o ambiente do agronegócio também não é o me- meados da década de 90 uma equipa da FAO ex-
lhor, pois a maior parte dos empresários são agri- plicou ao Governo angolano que a sua aposta de-
cultores a tempo muito parcial colocando à fren- veria ser, prioritariamente, na agricultura fami-
te dos seus empreendimentos gestores geralmen- liar. Os pequenos agricultores constituem a
te pouco qualificados. maioria, encontram-se no terreno e já provaram
Para que serve investir no conhecimento se o que podem expandir a produção, de modo a ga-
petróleo paga tudo, inclusive o conhecimento rantir a sua alimentação básica e fornecer bens
que vem de fora para dar respaldo a decisões po- para o mercado, incluindo o internacional, o que
líticas sem fundamento? O que as pessoas pare- está estatisticamente comprovado desde antes de
cem ignorar, ou, na esteira de uma outra prática, 1975. Ademais, o crescimento da produção fami-
desejam que não aconteça e confundem tal dese- liar teria grande impacto na economia nacional,

30 setembro 2009 – África21


“ Aconselhei

arquivo áfrica21
rural próspera reduziria os factores de pressão
que induzem a migração para as cidades, e o au-
muitos líderes
mento dos rendimentos dos pequenos agricultores
poderia tornar-se o motor do desenvolvimento angolanos
rural e, por conseguinte, a chave para uma redu- a terem o livro
ção da pobreza estrutural.
de René Dumont
Parece simples, não é verdade? Mas não é
novidade. O agrónomo francês René Dumont já à cabeceira,
havia sugerido algo semelhante aos governantes mas alguns
africanos no início dos anos 60 e as suas ideias
foram compiladas num livro que ficou célebre, A
preferiram


África começa mal, que lhe valeu a interdição de Maquiavel
entrada em vários países do continente. Perante
o desastroso desempenho da agricultura africana,
nos anos 80 ele voltou à luta com novo livro,
Pela África, eu acuso!, que poderia bem ter outro
título: «Eu não vos avisei?». Aconselhei muitos lí-
deres angolanos durante os anos 70 e 80 a terem
o livro de Dumont à cabeceira, mas alguns prefe-
riram Maquiavel.
O que aconteceu foi que, ao contrário do
discurso oficial, o Governo angolano não foi ca-
paz de implementar ao longo destes anos uma
política justa de desenvolvimento da agricultu-
ra familiar, que permitisse a transformação dos
camponeses em pequenos ou médios empresá-
na geração de emprego e na erradicação da po-
breza, pois a produção acrescida em unidades de
pequena dimensão resulta de uma melhor utiliza-
ção dos recursos domésticos – sobretudo terra e
rios, a melhoria tecnológica, o aumento da pro-
dutividade da terra e do trabalho, o aumento da
renda familiar e até a garantia da posse da terra.
Nas áreas rurais não há comércio formal e o in-
“ Os pequenos
agricultores
constituem
trabalho – exige poucas divisas para maquinaria, formal é intermitente e penalizante para os pro-
a maioria,
fertilizantes, pesticidas e know-how estrangeiro, e dutores. E deste modo não há incentivos. Não
por isso torna-se menos dependente. Uma políti- há serviços sociais básicos, como o acesso à água encontram-se
ca a favor da agricultura familiar assegura desde potável, à saúde, à escola – ou não há com a no terreno e já
logo a alimentação de um número elevado de qualidade desejável – que possam estimular a
famílias, resulta numa expansão mais justa de be- presença de jovens nas suas aldeias, preferindo
provaram que
nefícios do desenvolvimento económico, contri- estes partir para as cidades para viverem de bis- podem expandir


bui para padrões de vida rural mais elevados e cates. Serviços estruturados de extensão rural e a produção
incentiva o consumo, e, consequentemente, esti- de medicina veterinária ainda são uma mira-
mula a expansão industrial em Angola, como gem. Os bancos estão geográfica e estrutural-
aconteceu no passado com o famoso boom eco- mente a uma enorme distância. A investigação
nómico dos anos 60 e 70. Enfim, uma economia científica e as instituições públicas em geral

África21– setembro 2009 31


quase ignoram a existência da agricultura fami-
liar. Assim, não poderia contribuir para a diver-
sificação da economia. Pior que tudo, instalou-
se a ideia de que a agricultura familiar, essa mes-
ma que foi responsável pela alimentação dos an-
golanos e pela exportação no passado, era, afinal
uma agricultura de subsistência, e, por isso,
condenada à estagnação.

Agronegócio e agrocombustíveis

O Governo angolano caminha, pois, no sentido


oposto ao indicado pela FAO e por Dumont.
Em vez de gizar uma política de transformação
gradual da sua agricultura que possa garantir a
Novo comércio internacional

A aquisição de terras
segurança alimentar, aposta na «importação» de
uma outra agricultura, baseada no agronegócio e
nos agrocombustíveis, para a qual o país ainda
não está preparado e só o voluntarismo e o fascí-
nio dos angolanos pela «modernização» a qual- Continente ainda rico em recursos naturais, África
quer preço explicam essa aposta. Hoje isso é pos-
apresenta uma disponibilidade de terra que começa
sível, com os meios técnicos e científicos de que a
humanidade dispõe, mas é insuportável porque a ser cobiçada – e comprada – por países que se
os custos de produção são assustadores. Se a crise mostram deficitários em terrenos aráveis e férteis
financeira trouxe alguma coisa de positivo, uma
delas foi o alerta para algumas das opções gover-
Alves da Rocha

A
namentais e particulares extremamente dispen-
diosas e com resultados mais do que duvidosos. inda que não seja um fenómeno re-
Há já alguns sinais de dificuldades, insucessos e cente, o comércio internacional de ter-
falências que alguns julgavam impensáveis. Por ras está a acontecer e duma forma mui-
incrível que possa parecer, algumas das grandes to intensa nos últimos anos. Parece que um dos
empresas têm transtornos para venderam o mi- pressupostos das teorias clássicas do comércio inter-
lho produzido, pois não têm organização nem nacional – a imobilidade do factor terra – começa a
experiência para enfrentarem dificuldades ines- ser posto em causa.
peradas. Mas esta é também uma aposta que vai Já não se trata, tão-somente, das multinacionais
conduzir, inevitavelmente, à exclusão da maioria do agro-alimentar adquirirem terras para o desen-
dos agricultores angolanos e à degradação da bio- volvimento da sua actividade. São os próprios Esta-
diversidade, o que terá consequências sociais, po- dos a incentivarem este novo negócio internacional.
líticas e ambientais desastrosas. Os principais ofertantes de terra situam-se na
Uma aposta que, como diria Mia Couto, Ásia (Indonésia, Filipinas, Paquistão, etc.), em
pode produzir ricos ou endinheirados, mas nun- África (Sudão, Uganda, República Democrática
ca a riqueza de que necessitamos para sermos um do Congo, Congo, etc.) e, muito recentemente,
povo desenvolvido. na Europa de Leste (Ucrânia). Os principais com-

32 setembro 2009 – África21


O Japão sempre teve um problema estrutural
com a falta de terras para a agricultura. O facto de
importar 60% da sua alimentação dá bem conta da
sua dependência externa e da gravidade do proble-
ma da disponibilidade interna de terras agricultá-
veis. Daí a sua decisão de disputar o mercado inter-
nacional de terras aráveis.
A República da Coreia apresenta constrangi-
mentos semelhantes aos do seu vizinho Japão. Entre
60% e 70% dos produtos alimentares do ex-tigre
asiático têm proveniência externa.
Os países árabes do Golfo dependem em 90%
Ilustração de Cristina Sampaio da importação de bens alimentares, por razões rever-
tíveis às características das suas terras.
A Líbia, com um enorme défice de terras ará-

em países terceiros
veis, tem praticado, há já algum tempo, este tipo de
novo comércio internacional. Recentemente, ad-
quiriu o direito de exploração de cem mil hectares
na Ucrânia, para a produção de cereais, e de outros
pradores têm sido a República da Coreia, China, cem mil hectares no Mali para os mesmos efeitos.
Japão, África do Sul e os países árabes do Golfo. A República da Coreia, por intermédio do seu
Todos estes países compradores de terras têm gigante automobilístico Hyundai Industries, adqui-
como característica comum a sua enorme depen- riu dez mil hectares de terras agrícolas na Rússia para
dência do mercado mundial em bens alimentares a produção de alimentos. Por intermédio do grupo
essenciais. As estimativas apontam para cerca de Daewoo, a Coreia assinou um acordo com as auto-
sete milhões de hectares a quantidade de terras que ridades de Madagáscar, em 2008, para a exploração,
estes países terão adquirido até finais de 2008. durante 99 anos, de 1,3 milhões de hectares de ter-
A China é um dos países com maior quantidade
de terras adquiridas no estrangeiro. A carência de re-
cursos energéticos, matérias-primas minerais e a fal-
ta de terra determinaram a construção duma visão
“ Um dos
pressupostos
das teorias
ras aráveis (equivalente a mais de um terço da super-
fície agricultável do país).
A República do Congo, deficitária em produtos
alimentares, com problemas importantes de segurança
chinesa enquadradora do relacionamento político e alimentar e uma enorme dependência da importação
clássicas
económico com África. A China não dispõe, senão, de cereais, negociou com a África do Sul a concessão de
de nove por cento das terras aráveis do planeta, por do comércio dez milhões de hectares de terras agrícolas com fins de
contrapartida com os 20% da população mundial. internacional, exportação de produtos alimentares.
No final de 2008, a República Popular da China Os Emiratos Árabes Unidos estão em negocia-
a imobilidade
possuía mais de dois milhões de hectares de terras ção com o Paquistão para a aquisição de 320 mil
agricultáveis no estrangeiro, em particular em Áfri- do factor hectares de terras.
ca. A exploração desta superfície de terras é feita por terra, começa
aquisição definitiva, aluguer de longa duração ou Determinismo subdesenvolvimentista
por direito de exploração. São as empresas estatais
a ser posto


chinesas os principais agentes desta política de aqui- em causa Uma vez mais, o continente africano aparece envol-
sição de activos fundiários fora do país. vido num processo cujos resultados finais não são se-

África21– setembro 2009 33


guros para os seus propósitos dum crescimento eco-
nómico sustentável e distributivo. A África parece es-
tar condenada a uma espécie de determinismo sub-
desenvolvimentista. No passado, foi a exploração co-
“ Coloca-se
em cheque
a sustentabilidade
derá ser feito à custa de mais terras ou da diminui-
ção das disponibilidades para a alimentação. Segu-
ramente que não haverá incrementos de produtivi-
dade suficientes para se deixar incólume a capacida-
lonial, sob as formas de «exportação» de mão-de-obra da auto- de de satisfação alimentar.
escrava e de exploração monocultural das matérias- A urbanização continuará a registar-se a um rit-
primas e produtos de base. Depois das independên-
-suficiência mo elevado e à custa das terras agricultáveis. Com
cias políticas, apareceram os modelos de desenvolvi- alimentar menos superfície disponível e com terras provavel-


mento que acentuaram a dependência e o neocolo- em África mente afectadas pela lei dos rendimentos marginais
nialismo face às antigas metrópoles coloniais. Não decrescentes (qualidade inferior), a produção ali-
houve capacidade, por diferentes motivos, de se con- mentar vai, com certeza, diminuir.
ceberem novas estratégias e novas políticas económi- Se se acrescentarem os efeitos ambientais, como
cas e sociais condizentes com as matrizes culturais na- a extensão dos desertos e a diminuição dos recursos
cionais e as necessidades da população. Depois, ain- hídricos, compreende-se a razão da perda anual de
da, os programas de ajustamento estrutural do FMI. mais de cem mil quilómetros quadrados de terras
O forte endividamento externo dos países africa- aráveis. Mesmo considerando possíveis progressos


nos – consequência de balanças de pagamentos defi- tecnológicos no futuro, as previsões de disponibilida-
Com enorme
citárias, onde o peso dos manufacturados importa- de de terra arável por habitante apontam para uma
dos suplantava, sistematicamente, as receitas das ma- dependência superfície média de 0,12 hectares em 2050 (contra
térias-primas – obrigou-os a aceitarem as modalida- de importação 0,32 hectares em 1960).
des de reajustamento propostas pelo FMI, muito Explica-se, assim, a recente tendência de co-
prejudiciais à adopção de estratégias activas de diver-
de cereais, mercialização internacional de terras aráveis, num
sificação das estruturas produtivas nacionais. o Congo negociou contexto de segurança dos países no acesso aos bens
Para além dum continente ainda rico em recursos alimentares. Mas não é só isso. Com a diminuição
com a África
naturais, África apresenta uma disponibilidade de ter- da superfície agricultável, os preços dos produtos
ra que começa a ser cobiçada – e comprada – por pa- do Sul a concessão alimentares vão aumentar, mesmo num quadro de
íses que se mostram deficitários em terrenos aráveis e de dez milhões progresso tecnológico. A aquisição de terras aráveis
férteis, colocando-se, portanto, em cheque a sustenta- em países estrangeiros é uma forma de se garantir a
de hectares
bilidade da auto-suficiência alimentar em África. satisfação das necessidades alimentares nacionais,
Que consequências este novo comércio mundial de terras agrícolas em contextos de enorme volatilidade dos preços
pode trazer, em termos gerais? A análise não pode es- para exportação dos respectivos produtos, influenciados pelos cli-
tar desligada de alguns fenómenos: o da urbaniza- mas especulativos.
ção, o da produção de produtos energéticos a partir
de produtos As consequências políticas da compra/venda de


de cereais (agrocombustíveis) e o do crescimento da alimentares terras aráveis podem ser graves. Do lado dos países
população. compradores, o risco político está sempre presente,
A população mundial ultrapassará os oito mil embora dependa da estabilidade dos países vendedo-
milhões de pessoas em 2025 e a concorrência entre res em matéria de consolidação das práticas demo-
utilizações alimentares e energéticas deverá incre- cráticas. Do lado de quem vende, o preço político as-
mentar-se dramaticamente, com um crescimento sociado à diminuição das capacidades internas de
previsível de cerca de 20% na produção dos agro- produção de cereais e da garantia da segurança ali-
combustíveis. Por exemplo, nos Estados Unidos, em mentar pode ser o da instabilidade, traduzida em gol-
2007, os agrocombustíveis alocaram 20% do milho pes de Estado. Como quer que seja, está-se a assistir
cultivado, prevendo-se para 2017 a utilização de ao surgimento de um novo quadro das relações co-
40%. Este incremento na utilização de milho só po- merciais internacionais.

34 setembro 2009 – África21


CONQUISTE
O SEU LUGAR NO MUNDO.
POUPANDO COM O BPA O FUTURO É SEU.
Saber poupar é essencial para criar uma base sólida para o futuro. Uma base que lhe permita viver com tranquilidade e maior
segurança. Mas não só. A poupança é também o primeiro passo para um dia poder investir e passar a olhar o mundo de forma
mais ambiciosa. Por isso, acredite nos seus sonhos e venha ao BPA conhecer a importância da Poupança e do Investimento.
Verá que o mundo está ao seu alcance. Nós, vamos ajudá-lo a partir à conquista.

África21– setembro 2009 35


GEOPOLÍTICA

ALADINO JASSE/LUSA
O grande reencontro
A visita de Estado a Angola
do Presidente da África
do Sul Jacob Zuma marca
o início de uma nova era
J acob Zuma tinha prometido es-
colher Angola para a sua primeira
viagem oficial como Presidente da
África do Sul, e cumpriu, levando
consigo a maior delegação de sempre:
regime racista sul-africano e da sua do-
minação sobre a Namíbia, tinha sido in-
terpretada como a manifestação do de-
sejo do ANC e do MPLA de pôr termo
aos desentendimentos políticos que
nas relações políticas, onze ministros e centena e meia de empre- marcaram os mandatos de Nelson Man-
sários. A visita, qualificada de «histórica» dela e de Thabo Mbeki.
diplomáticas e económicas
pelo Presidente José Eduardo dos Santos, Agora, a imprensa angolana e inter-
entre os dois países. foi o ponto culminante de um processo de nacional deu sobretudo ênfase aos as-
Inimigos durante a luta reaproximação iniciado com a eleição de pectos económicos e comerciais da visi-
de libertação, de costas Zuma à liderança do ANC, e que levou o ta, salientando o crescente interesse das
chefe de Estado angolano a Pretória em empresas e grupos económicos sul-afri-
voltadas desde a instauração
Maio para assistir à tomada de posse do canos em aproveitar as oportunidades
da democracia na África seu homólogo. de negócios oferecidas pela reconstrução
do Sul, Luanda e Pretória Já em Março de 2008, a participação de Angola e de disputar com chineses,
ensaiam uma parceria de Zuma, então vice-presidente do portugueses e brasileiros um lugar ao sol
ANC, nas comemorações do vigésimo no boom económico angolano, ignoran-
estratégica. aniversário da batalha do Kuito Kuana- do ou subalternizando o seu significado
Maria Pons Joanesburgo vale, tida como o «começo do fim» do político.

36 setembro 2009 – África21


Durante a estadia de Zuma em Ango- oportunidade de negócios e desenvolvi- mente no sul e no sector mineiro. São cada
la foram assinados vários acordos bilaterais mento para os empresários de ambos os vez mais os angolanos que vão à África do
nas áreas das comunicações, transportes e países e que, se ele fosse empresário, «a Sul, para estudar, fazer compras ou receber
comércio, bem como um acordo de coo- agarraria com as duas mãos e investiria tratamentos médicos, apesar da barreira
peração no sector das energias, nomeada- todo o seu dinheiro». linguística e cultural. Já os sul-africanos
mente na refinação de petróleo, que foi ro- são mais reservados, influenciados pela de-
tulado de «parceria estratégica». Por sua Primeiro investidor africano sinformação e a má imagem de Angola na
vez, Angola comprometeu-se «a criar as em Angola imprensa europeia, mas os que tiveram
condições políticas, jurídicas e financeiras oportunidade de visitar Luanda ficam sur-
para que os operadores económicos nacio- Segundo o presidente da Câmara de Co- preendidos pela hospitalidade dos seus ha-
nais e sul-africanos possam explorar as no- mércio África do Sul-Angola, Teddy de bitantes e o clima de segurança, bem
vas relações bilaterais de forma criativa e Almeida, «a convergência e o equilíbrio maior que nas grandes urbes sul-africanas.
capaz de corresponder às expectativas dos nas relações comerciais entre Angola e A «frieza» é sobretudo política e foi sob
seus povos». África do Sul é um cenário viável, princi- a presidência de Thabo Mbeki que as rela-
A imprensa sul-africana destacou a palmente devido ao preço do petróleo e à ções entre os partidos no poder em Pretó-
importância da parceria estratégica com diversificação da economia [angolana] ria e Luanda passaram pelo que Alex Vi-
Angola no sector energético para superar para satisfazer o mercado interno». nes, investigador do Real Instituto dos
as actuais restrições, vencer a recessão e Em matéria de investimentos, a África Negócios Estrangeiros britânico de Cha-
regressar ao crescimento económico. do Sul é o primeiro investidor africano em tham House, qualifica de «era glaciar»: os
Com efeito, Angola dispõe de recur- Angola, com mais de três por cento do Presidentes praticamente não se encontra-
sos praticamente ilimitados neste ram a sós e os dois Governos


sector (crude, gás, energia hidro- estiveram em campos opostos
eléctrica, biocarburantes). A par- Para Zuma o mercado angolano em quase todas as questões
te de Angola nas importações representa uma formidável oportunidade estratégicas que afectaram a
sul-africanas de petróleo, antes África Austral durante mais
mínima, tem aumentado abrup-
de negócios, e se fosse empresário investiria
de uma década.


tamente nos últimos anos, pro- todo o seu dinheiro É este «gelo» que Zuma
vocando um forte aumento das procurou enterrar durante a
trocas comerciais entre os dois países, e total, mas muito aquém das suas capacida- sua visita e as suas declarações públicas fo-
desequilibrando a balança comercial a fa- des e apesar da proximidade geográfica ram música celestial para os ouvidos dos
vor de Luanda desde 2007. Neste ano as que favorece a criação de empresas mistas governantes angolanos. Foi ovacionado
exportações angolanas para a África do e das sinergias que delas resultam. no Parlamento de Luanda quando se diri-
Sul quadruplicaram em relação ao ano Mas se as relações económicas entre os giu em português aos angolanos e aos de-
anterior: de três mil milhões de rands dois países tardam em atingir o nível dese- putados para afirmar: «O nosso país é o
(396,5 milhões de dólares) para 12 mil jável não é por falta de um diagnóstico vosso país. O vosso país é o nosso país.
milhões de rands (1586 milhões de dóla- correcto nem de um quadro institucional Nós somos um só povo, uma só família.
res). No mesmo tempo, as exportações favorável. Ambos são membros da SADC Sinto-me em casa».
sul-africanas para Angola também cresce- e estão unidos no plano bilateral pelo
ram, mas mais lentamente (de cinco mil Acordo Geral de Cooperação Económica, Quibaxe
milhões de rands (660,9 milhões de dóla- Cientifica e Técnico Cultural (assinado
res) para seis mil milhões de rands (793 em Abril de 1998) que deu lugar à criação Outros momentos altamente simbólicos
milhões de dólares). de uma Comissão Mista (em 2000) e à foram as homenagens a Agostinho Neto
No encerramento do Fórum Empre- conclusão de vários acordos sectoriais. e ao «Soldado Desconhecido» angolano,
sarial Angola/África do Sul que se reali- A título privado, muitos empresários e a visita ao antigo campo de treino do
zou durante a sua visita a Luanda, o Pre- angolanos têm interesses na África do Sul ANC em Quibaxe, na companhia de
sidente sul-africano disse que o mercado e homens de negócios sul-africanos procu- uma extensa delegação composta por ofi-
angolano representa uma formidável ram oportunidades em Angola, nomeada- ciais superiores das Forças Armadas da

África21– setembro 2009 37


“ Foi em Quibaxe
que os sul-africanos
que participaram
TA, dissidentes do ANC ou uma mistu-
ra de ambos. Em todo o caso, Zuma disse
que foi em Quibaxe que os sul-africanos
que participaram na luta de libertação se
guerra civil em Angola como para resol-
ver conflitos nos países vizinhos.
Os adversários do actual chefe de Es-
tado sul-africano vêem na nova diplo-
na luta de libertação forjaram como «verdadeiros soldados» e macia sul-africana uma prova de que a
se forjaram como que quando esteve «diante das campas realpolitik, a cooperação Sul-Sul e o es-

verdadeiros soldados, dos nossos combatentes desejei que to- treitamento das relações com a China
dos os sul-africanos viessem aqui para fa- estão a afastar a África do Sul do mode-


afirmou Zuma zer uma introspecção de onde começá- lo de democracia ocidental. Estas críti-
mos com a luta». cas são sobretudo para uso interno. Pelo
Palavras de agradecimento e o reco- contrário, analistas sul-africanos esti-
nhecimento oficial do papel fulcral de mam que o aproveitamento conjunto
África do Sul e antigos combatentes trei- Angola na «luta contra o apartheid e to- dos recursos naturais de Angola das ca-
nados no local, na década de 80. das as formas de discriminação e de ex- pacidades industriais, técnicas e finan-
Os «oito mártires» assassinados a 4 ploração» representam uma ruptura com ceiras da África do Sul podem fazer da
de Maio de 1984 em Quibaxe, a quem a atitude crítica que Mandela e sobretu- África Austral a «locomotiva» do conti-
Zuma rendeu uma sentida homenagem, do Mbeki sempre manifestaram em rela- nente e contribuir para promover a paz
foram vítimas de «rebeldes armados» ção à alegada preferência de Luanda pela e o desenvolvimento de África com base
não identificados, ficando até hoje por força das armas em detrimento da nego- numa integração regional equilibrada e
esclarecer se eram guerrilheiros da UNI- ciação política, tanto para pôr termo à progressiva.

38 setembro 2009 – África21


A CRÓNICA DE pepetela

A propósito de podas
A cena aconteceu à frente da
minha casa. Um grupo po-
dava as altas árvores de um
largo há muitos anos fechado para
ram. O ramo foi mesmo cortado, a inú-
til corda a agarrar a base, que ninguém
puxou. Pela lei da gravidade, o tronco
veio a direito e furou a lona do camião,
“ Não podemos deitar
culpas a tudo o que
sucede mal no país
obras. Abrindo parêntesis, o dito largo, caindo lá dentro. Objectivo cumprido e apenas aos kaluandas
a ser remodelado ou para jardim ou sem trabalho sequer de carregar o peso


para lhe aplicarem os já habituais para cima do camião. O rasgão na lona?
e seus administradores
quiosques «destinados a fomentar o tu- Ora, simples dano colateral, como di-
rismo» (?), os quais nunca funcionam riam os americanos dos muitos civis
por se situarem em zona residencial in- mortos em todas as guerras que vão fa-
flacionada de pontos de venda de cer- zendo pelo mundo. Ainda por cima
veja, foi condenado a virar uma savana agora não é época de chuvas, pode andar
rodeada de chapas de zinco na vertical, o camião com a lona rasgada. E depois,
com capim alto, onde tudo pode acon- a lona não é deles nem do fiscal que di-
tecer desde negócios escuros a alívio de rigia a operação, é do Estado, não per- Assim deram cabo da bela mulemba
necessidades de ordem fisiológico-dro- tence pois a ninguém, podemos estragar. da minha meninice. Isto não se passou
go-sexual. Mas voltemos à poda das ár- Por isso todos riram quando o tronco fu- em Luanda e portanto não podemos
vores ao lado da savana. rou a lona. Mesmo o utente da serra, ar- deitar culpas a tudo o que sucede mal no
Alguns ramos sofreram cortes na riscando-se a deixar cair o pesado instru- país apenas aos kaluandas e seus admi-
parte terminal. Os seis trabalhadores mento por não resistir às gargalhadas. nistradores.
reuniram os ramos cortados numa me- Típica cena luandense, dirão os mais Sejamos optimistas na questão das
tade da rua. O camião que os levara, conformados. podas. Como já verificámos, somos uns
destinado a transportar os restos, esta- A propósito de podas, recordo uma tremendos boelos nesses trabalhos. Po-
cionou na outra metade, fechando cena que já contei. Nos primeiros anos rém, certamente não faltarão gestores
portanto a rua. Lógico, a operação era da Independência, um comissário mu- urbanos a propor cursos de poda a uns
perigosa para o trânsito. Só um estava nicipal foi fazer uma «pós-graduação» tantos sobrinhos ou primos, nas capitais
em cima da árvore, com a famosa serra em gestão urbana na antiga Jugoslávia. da Europa ou até, se os santinhos ajuda-
mecânica. Amarraram uma corda a um Vindo para Angola, mandou podar as rem, nos Estados Unidos. Aí é que se
resto dos ramos a cortar, mas na sua árvores em pleno tempo das chuvas. poda bem, com modernidade! Virá tec-
base, onde se ligava ao tronco principal. Avisaram-no os velhos jardineiros: nologia de ponta, o que significa impor-
Era um coto de uns dois metros de com- – Camarada comissário, só se devem tação de material rolante, escadas mó-
primento e muitos quilos de peso. O podar árvores no cacimbo. veis e serras leves de última geração.
trabalhador pôs a serra a funcionar, os – Hábitos de colonos reaccionários. – Boas comissões em perspectiva. E
outros assistindo. Logo se percebeu o retorquiu o reciclado gestor urbano – que se danem os velhos podadores, uns
que podia acontecer: o coto caía em Estive na Jugoslávia, país que está mais analfabetos imbuídos de espírito saudo-
cima do camião, coberto com a respecti- avançado que nós no socialismo. Se estão a sista, trabalhando com catana e sabedo-
va lona. Ninguém fez contas, manda- podar agora, é porque sabem. ria da tradição!

África21– setembro 2009 39


moçambique

O rio Zambeze
já não divide Moçambique
Moçambique tem desde 1 de Agosto

Jorge Ataíde
uma ligação rodoviária que une
o Norte, Centro e Sul do país.
Com a inauguração da Ponte
Armando Emílio Guebuza,
sobre o rio Zambeze, concretizou-se
um sonho de décadas. Do Rovuma
ao Maputo há, agora, uma coluna
vertebral rodoviária que reforça
a unidade nacional.
A chegada para a festa
Leonardo Júnior MAPUTO

F oi em festa, e que festa! Moçambique assinalou o iní-


cio da travessia do rio Zambeze, por estrada, a 1 de Agos-
to, através da Ponte Armando Emílio Guebuza. Uma obra
há muito desejada, ainda antes da independência nacional, que
aconteceu há 34 anos. É um sonho que diversas vicissitudes foram
O dia da festa, um sábado, apresentou-se com um sol forte e
quente. Cedo ainda, a multidão juntou-se nas duas margens do
grande Zambeze. Aquelas duas margens onde muitos passaram
noites de desconforto, por não terem chegado a tempo de atraves-
sar (os batelões que garantiam a travessia fechavam às 17h00),
impossibilitando e que acabou de se tornar realidade. E a festa foi sendo obrigados a pernoitar. De sublinhar que a oferta de aloja-
mesmo ali em Chimuara, província da Zambézia, e em Caia, pro- mento, nas duas margens, é precária. A proximidade do rio faz das
víncia de Sofala, onde durante décadas um acidente geográfico di- margens um local cheio de mosquitos.
vidia, literalmente, o país em duas partes, dificultando, se não mes- Mas voltemos à festa. Muitos dos presentes vestiam t-shirts alu-
mo impedindo, a ligação entre o Centro, o Sul e o Norte. sivas à ponte. Predominavam também capulanas com imagens da
Um movimento desusado, sobretudo do lado de Caia, no dia ponte ou de Armando Guebuza. O Chefe de Estado chegou ao lo-
anterior à inauguração, dava indicação de que a festa seria rija. A cal, de helicóptero, do lado de Chimuara, onde assistiu às cerimó-
vila-sede do distrito de Caia estava apinhada de gente. Em muitos nias tradicionais. De seguida, fez a última travessia de batelão, de
locais ouvia-se, com alguma frequência, a expressão «também por Chimuara a Caia, simbolizando o fim daquela forma de ligação
aqui?». Era o reencontro de amigos e conhecidos. E todos iam ao das duas margens do rio Zambeze. Era o adeus aos batelões naque-
mesmo. Foi um acontecimento que muitos não quiseram perder. le local. Caia e Chimuara não mais serão ligados de batelão.
Os que não puderam estar acompanharam pelas televisões e rádios. Do lado de Caia, outra multidão recebe Guebuza, e há
A noite anterior, uma sexta-feira ligeiramente fria, já era de festa. E mais cerimónias tradicionais; afinal há antepassados importan-
foram muitos os que não dormiram. Já não havia camas disponí- tes de um lado e do outro do Zambeze a merecerem atenção
veis para tanta gente, de um e do outro lado do grande Zambeze. dos vivos. Nas duas cerimónias foram invocados os ancestrais,
Outros preferiram acampar, em tendas próprias ou nas muitas que que receberam o seu quinhão de comida e bebida, como bem
o governo do distrito de Caia disponibilizou. manda a tradição africana.

40 setembro 2009 – África21


Findas as cerimónias tradicionais, do lado de Caia, o Presi- Na tribuna, representantes de diversas organizações religiosas,
dente Guebuza dirigiu-se à entrada da ponte, onde o aguarda- como que fazendo jus ao ecumenismo e à tolerância religiosa do
vam milhares de pessoas para testemunharem o corte da fita, e povo moçambicano, fizeram, à vez, orações em nome de cada uma
passou pelos vários grupos culturais que actuavam, incansavel- das religiões presentes, das protestantes à católica romana, passan-
mente, de um lado e do outro da estrada, próximo da portagem do pela islâmica. Assim se completava o ciclo da bênção, que co-
da ponte. Era a festa! Armando Guebuza cortou a fita, entrou no meçara com as cerimónias tradicionais, dirigidas aos antepassados,
carro, do lado do volante, já à entrada da portagem. Fez o paga- e terminara com a evocação de Alá, de Deus. Depois, desfilaram os
mento da portagem e conduziu, seguido de uma longa coluna discursos dos financiadores da obra, nomeadamente o Japão, Itá-
de carros e pessoas a pé, em ritmo de cerimónia, até ao outro lia, Suécia e Comissão Europeia, trazendo, cada orador represen-
lado da ponte, em Chimuara, onde descerrou a placa que assina- tante daqueles países e instituição europeia, um sotaque sui generis,
la a inauguração. pois discursaram todos em português, arrancando aplausos do
povo. Desfilaram ainda os discursos dos representantes das popu-
Showmícios e cerimónias religiosas lações de Chimuara e de Caia, e igualmente dos governadores das
províncias de Sofala e Manica, que estão ainda mais próximas com
Em Chimuara, um mar de gente aguardava a chegada do Chefe de a abertura da ponte.
Estado para o comício. Na verdade foi um showmício, pois, no


compasso de espera, grupos culturais e musicais iam animando os
presentes, reforçando ainda mais o ambiente de festa. Paciente- Nas cerimónias foram invocados
mente, o povo esperou até que, finalmente, a comitiva presidencial os ancestrais que receberam o quinhão
chegasse. Ecoaram, então, ainda mais fortes os «vivas» e os «hoyês»
(uma outra forma de dizer Viva!) a Moçambique, à ponte, ao povo
de comida e bebida como manda


moçambicano e ao Presidente Guebuza. a tradição africana

Por sua vez, o Presidente da República enalteceu a


Jorge Ataíde

importância da obra acabada de inaugurar. Disse que aquele


empreendimento faz parte do esforço do Governo no combate à
pobreza, a pedra de toque dos cinco anos do mandato. E que era
objectivo do Executivo que o país tivesse «uma coluna vertebral
rodoviária», ligando o Norte, o Centro e o Sul. Agradeceu e
apresentou cada um dos que se empenharam para que a obra, um
sonho de décadas, que remonta ao tempo colonial, tivesse,
finalmente, visto a luz do dia. Todos e cada um mereceram os
aplausos do povo. Mas é para Joaquim Chissano que, enquanto
Presidente, foi incansável na mobilização de fundos para a
construção da ponte, que vai o maior aplauso.

A primeira ponte inteligente do país

A ponte é uma bela obra de engenharia. Construída pelo con-


sórcio português Mota-Engil/Soares da Costa, a obra salta à vis-
ta pela dimensão – tem um tabuleiro de 2376 metros de com-
primento – e pela elegância, que disfarça bem os 16 metros de
largura, quatro faixas de rodagem, sendo que a sua estrutura per-
mite uma eventual futura duplicação. Estava orçada em 66 mi-
Armando Guebuza assiste à evocação dos antepassados lhões de euros (94,5 milhões de USD), mas alguns atrasos, de-

África21– setembro 2009 41


Conselho
Jorge Ataíde

Constitucional
valida três
das nove
candidaturas
A corrida ao palácio da Ponta
Vermelha, a 28 de Outubro,
será apenas entre Armando
Uma imagem do passado
Guebuza (Frelimo), Daviz
Simango (MDM) e Afonso

“ A ponte tem um tabuleiro de 2376


metros de comprimento, 16 de largura,
quatro faixas de rodagem e uma estrutura
Dhlakama (Renamo).
Entretanto, os partidos
vão afinando as máquinas


que permite uma eventual duplicação
para a campanha eleitoral,
que arranca a 11 de Setembro.
vido às chuvas, terão provocado uma derrapagem dos custos
para montantes ainda não revelados. É uma das maiores pontes
de África e a primeira ponte inteligente em Moçambique, pois é
monitorizada por computadores instalados em Maputo, como
explicou o Eng. Elias Paulo, director da Ponte e que também
mereceu uma menção do Presidente da República. A ponte foi
construída em tempo recorde: três anos.
De referir que o local onde, ainda no tempo colonial, tinha
sido colocado o primeiro pilar para a construção de uma ponte
sobre o Zambeze, serviu para o espectáculo de fogo-de-artifício e
vai funcionar como miradouro para a nova ponte. É crença das
autoridades moçambicanas e pela entidade gestora da ponte que
ela será um atractivo turístico.
Mas a ponte Armando Emílio Guebuza não é a única obra
do género que o país pretende apresentar, este ano. Em
Novembro, já depois das quartas eleições gerais (legislativas e
presidenciais) e das primeiras eleições multipartidárias para as
Assembleias Provinciais, será a vez de ser dada como concluída
a ponte da Unidade, que liga Moçambique à Tanzânia, mas
cuja data de inauguração ainda não foi fixada.

42 setembro 2009 – África21


O Conselho Constitucional
(CC) chumbou seis das
nove candidaturas para as
eleições presidenciais de 28 de Outubro,
e que vão ocorrer simultaneamente e
dernos de recenseamento, o que faz presu-
mir não terem, dos respectivos titulares de-
las, tido conhecimento ou nelas tido inter-
venção». O rol de incorrecções, imprecisões
e casos duvidosos é enorme, o que levou a
pouco menos de um mês do arranque
oficial da campanha eleitoral.
Daviz Simango, candidato do
MDM (Movimento Democrático de
Moçambique), tem-se dividido entre a
pela quarta vez, com as legislativas e, pela que o CC recorresse à Direcção Nacional edilidade da Beira, a que preside, e a
primeira vez, com as multipartidárias dos Registos e Notariado para pedir espe- correr o país, para falar do seu novo par-
para as Assembleias Provinciais. De acordo cialistas em dactiloscopia e em grafologia. A tido e das razões que o levaram a ser can-
com o acórdão do CC, várias razões contri- peritagem feita por esses especialistas levou didato à Presidência da República.
buíram para a rejeição das seis candidatu- à conclusão de que «houve efectivamente O líder e candidato da Renamo,
ras, nomeadamente a inobservância de viciação intencional da vontade de eleitores Afonso Dhlakama, deixou a sua actual
grande parte dos requisitos previstos na que aparecem registados nas fichas como residência, em Nampula, para escalar
lei, como a recolha de dez mil assinaturas proponentes de determinadas candidatu- Sofala, onde quer reanimar os seus
de cidadãos recenseados e a apresentação ras», por um lado, e, por outro, «negligência apoiantes, como que querendo provar
de uma caução de 100 mil meticais de certos agentes notariais que abdicaram que as notícias da sua morte política são
(pouco mais de 3600 USD), depositados do seu dever de observar escrupulosamente prematuras. Ao chegar à capital da pro-
na conta bancária do CC. os ditames legais». víncia, Beira, Dhlakama disse que desta
Embora todas as candidaturas tenham Considerando o caso grave, o CC vez é que vai mesmo ganhar, argumen-
apresentado mais do que as dez mil assina- submeteu todos os documentos sob sus- tando que Armando Guebuza, o candi-
turas exigidas, todas elas viram parte dessas peita ao Ministério Público, por consi- dato da Frelimo, não pode voltar a ga-
assinaturas invalidadas por, entre outras ra- derar que podem indiciar a prática de nhar «porque mesmo em 2004 não ga-
zões, terem, segundo o acórdão do CC, «o ilícito criminal. nhou as eleições. Roubou como havia feito
mesmo número de cartão de eleitor com Chissano», disse o candidato da Renamo.
nomes diferentes e fichas de proponentes Candidatos em movimento, Já o candidato da Frelimo e actual Pre-
com diferentes nomes, fichas de proponen- partidos afinam máquinas sidente da República, Armando Guebuza,
tes sem fotografias, cartões de eleitores de terminou, em Agosto, a série de Presidên-
proponentes sem sequência numérica con- Dos três candidatos aprovados pelo CC, cias Abertas e Inclusivas, que ao logo dos
tínua, tornando evidente não serem mais dois já se movimentam pelo país, procu- cinco anos de mandato o levaram a escalar
do que meras reproduções de folhas de ca- rando apresentar-se ao eleitorado, a todos os 128 distritos do país. A menos de
um mês do início da campanha eleitoral,
A dança eleitoral já começou em Moçambique
Guebuza orienta reuniões para ultimar as
PEDRO SÁ DA BANDEIRA/LUSA

estratégias e o programa de candidatura do


partido em sessão alargada do Comité
Central da Frelimo.
Os partidos políticos começam a di-
vulgar os programas eleitorais, multipli-
cando-se debates, anúncios e aparições
nos órgãos de informação. Para garantir
a participação nas eleições de 28 de Ou-
tubro – que poderão registar uma das
maiores participações de sempre – a
Comissão Nacional de Eleições (CNE)
prossegue com as campanhas de educa-
ção cívica eleitoral, e a promover show-
mícios (comícios com shows culturais)
um pouco por todo o país.

Leonardo Júnior
43 agosto 2009 – África21 África21– setembro 2009 43
moçambique-malawi

LUSA
Os caminhos
tortuosos
da cooperação
Amândio Guebuza Bingo wa Mutharika

A visita do Presidente do Ma-


lawi, Bingo wa Mutharika, a
Moçambique, em Agosto,
deveria ter servido para o relançamento
das relações de cooperação entre os dois
mento rebelde moçambicano. As rela-
ções entre os dois países foram, desde
então, conhecendo algumas melhorias.
Para o Malawi, os portos de Nacala e da
Beira, bem como os corredores ferroviá-
“ O incidente
de Ngauma obrigou
ao cancelamento
da visita
países vizinhos e membros da Comuni- rios ligados aos mesmos, são de especial
dade para o Desenvolvimento da África importância para o acesso ao mar. do presidente
Austral (SADC). Porém, um incidente Recém-eleito, o Presidente Bingo malawiano ao Porto
fronteiriço acabou por trazer à actuali- wa Muthakira visitava Moçambique,


dade os tempos do Malawi de Kamuzu pela primeira vez, a convite do homólogo
da Beira
Banda. moçambicano, quando é noticiado o
Para Moçambique, o Malawi foi ataque, por parte de forças malawianas,
sempre um vizinho suspeito, que ora se a um posto fronteiriço moçambicano, gurança para se inteirar do sucedido e
juntava aos países da região – falamos em Ngauma, na província do Niassa. apurar responsabilidades e, depois,
dos países de regime de maioria negra – Na origem do incidente, segundo as informar pessoalmente o Presidente
quando convinha, ora se aliava ao apar- autoridades moçambicanas, terá estado moçambicano dos resultados das inves-
theid, pela calada, conspirando contra a apreensão de uma bicicleta de um cida- tigações. Da parte moçambicana, as
os demais. Foi nessa altura que o então dão malawiano, que transpôs ilegal- autoridades exigem que os responsáveis
Presidente de Moçambique, Samora mente a fronteira. Na sequência dessa pelo ataque ao posto fronteiriço de
Machel, visitou Kamuzu Banda e amea- apreensão, a 3 de Agosto, a força de Ngauma sejam penalizados.
çou colocar mísseis na fronteira, vira- guarda-fronteira do Malawi atacou o Entretanto, os diversos protocolos
dos para o Malawi. O Governo de Ma- posto de guarda-fronteira de Ngauma, de cooperação elaborados durante a vi-
puto alegava que o Malawi servia de re- usando gás lacrimogénio e tendo feito sita do Chefe de Estado do Malawi a
taguarda da Renamo, sobretudo depois diversos disparos, causando a destrui- Moçambique acabaram por não ser as-
da assinatura do Acordo de Nkomati ção das instalações, embora não provo- sinados, devendo merecer a análise e o
(um acordo de não agressão, boa vizi- cando vítimas. parecer de técnicos para posterior assi-
nhança e não ingerência) entre Mo- O incidente embaraçou a visita do natura. Apesar de tudo, o ministro mo-
çambique e África do Sul. Presidente malawiano, que se viu obri- çambicano dos Negócios Estrangeiros,
Mas o Governo da Frelimo e a Re- gado a cancelar a visita ao Porto da Bei- Oldemiro Balói, afirma que as relações
namo acabaram por assinar a paz, em ra e a outros locais, fechando-se no ho- entre os dois países «são muito boas» e
1992, pondo fim a 16 anos de guerra. tel para contactos com o Malawi. No defende que o incidente de Ngauma
Terminavam, assim, as razões de suspei- final da visita, prometeu reunir, depois não deve ser extrapolado.
ta de apoio do Malawi ao então movi- de regresso ao Malawi, as forças de se- LJ

44 setembro 2009 – África21


moçambique-BRASIL

Guerra do frango
passa para a publicidade

Q uem circula nos meios urba-


nos de Moçambique depara
com painéis de publicidade
que se destacam dos outros
pela agressividade e criatividade das mensa-
A guerra arrastou-se ao longo de meses.
E o braço-de-ferro entre a Associação
Nacional de produtores de frango prolo-
gou-se até que o Governo decidiu inter-
romper as licenças de importação de
gens. O mesmo acontece nos meios de co- frango. O objectivo, de acordo com as au-
municação. E o tema é o frango. O frango toridades moçambicanas, é incentivar a
nacional e o estrangeiro, representado pelo produção nacional de frango. É neste mo-
brasileiro. mento, que a importação do frango está


Há alguns anos que os produtores na- interrompida, que os produtores nacionais
cionais de frango vinham lançam uma campanha agressiva A Garota de Ipanema
fazendo uma contra o frango brasileiro. Um com um frango brasileiro
guerra ao dos spots, que passa nas televi-
sões, usa a música «Garota de
a dançar é empurrado
Ipanema», com um frango bra- por um frango moçambicano


sileiro a dançar que, de seguida, ao ritmo de pandza/dzukuta
é empurrado por um outro,
moçambicano, ao ritmo
de pandza/dzukuta, um frango, o Governo vai continuar a procurar
ritmo inventado por jo- garantir o fornecimento de soja e milho
frango vens músicos moçambi- para a produção de rações e a melhorar a
brasileiro. Tudo canos, há cinco anos. rede viária, o abastecimento de água e de
começou quando, perante a difi- Moçambique consome, electricidade, por um lado, e a intensificar
culdade de satisfazer o mercado em média, cinco mil tone- o controlo alfandegário, por outro.
nacional, se optou por im- ladas de frango por mês Entretanto, empresários brasileiros de-
portar frango brasileiro. e só produz, até ao mo- dicados à produção de frango foram convi-
Acontece que o frango do Brasil chegou a mento, quatro mil toneladas men- dados pelas autoridades a investirem em
Moçambique a preços mais baixos do que sais. No que se refere aos altos custos do Moçambique. Esta seria, na visão do Go-
o frango nacional. Os consumidores agra- frango nacional, o ministro da Indústria e verno, a melhor maneira do Brasil ter aces-
deceram e passaram a comprar o frango Comércio, António Fernando, diz que so ao mercado nacional, com 20 milhões
brasileiro. Os produtores nacionais pedi- tal se deve ao problema da produção de de consumidores, e da região da África
ram então ao Governo que impedisse a im- rações, que representam 67% dos custos Austral, com 250 milhões de consumido-
portação do frango brasileiro e o Governo de produção. A única forma de baixar es- res. De referir que uma tonelada de frango
entendeu, na altura, que isso só aconteceria ses custos, ainda segundo o ministro, é do Brasil custa 1200 dólares, contra 1400
quando a produção nacional fosse suficien- aumentar a produção de soja. dólares a que fica a tonelada na vizinha
te e a preços comportáveis com o poder de Como estratégia para proteger o mer- África do Sul.
compra dos moçambicanos. cado e promover a produção nacional do LJ

África21– setembro 2009 45


46 setembro 2009 – África21
A CRÓNICA odete costa semedo

Tio Paulo e os clientes Um mural contra a sida cujo vírus afecta


quase seis milhões de sul-africanos

A clientela somava a cada início


do ano lectivo. Velhos e novos
alunos; muitos vindos do in-
terior com o fito de tirar o BI1 e entrar
para o Ciclo2. Gente que se deslumbrava
daí a ideia do tio Paulo de transformar o
passeio do mercado central e da Farmácia
Higiene em estúdio, conforme a posição
do sol. Até ao meio-dia era num e à tarde
era noutro passeio. O calor não perdoava
“ A máquina
fotográfica do tio Paulo
quando fotografa
elefante é esse bicho
com a cidade grande, com os carros a e, até o cliente estar na posição certa, era que aparece no postal
desfilar pelas avenidas. Um amigo lem- um levanta queixo mais para cima, vira o


e não uma lebre
brou-se, um dia desses, que levou tempo pescoço para esquerda, estufa o peito...
para ir estudar na capital, pois o pai dele que os rostos das pessoas começavam a re-
achava perigoso partilhar estradas com luzir de tanto suarem. Mas aguentavam
carros. E se fosse atropelado? Seriam firmes, pois era quase uma missão esse A aniversariante era um pouco mais
mais despesas, além das dos livros. O jogo entre o fotógrafo e o fotografado. avantajada que a amiga, mas quando viu a
melhor seria ficar na sua pequena vila, Ter um estúdio fotográfico é um ne- foto parecia querer bater no rapaz do bal-
mas conseguiu convencer o seu velho, gócio que rende algum, dizia o tio. É dis- cão, porque achou-se gorda na fotografia
sabe-se lá por que mágica. creto, mas exige uma boa preparação físi- e esse respondeu à sua reclamação dizen-
Toda essa gente era cliente do tio Pau- ca. Tio Paulo não poupava posições: recu- do que a máquina fotográfica do tio Pau-
lo, e mais quando a Foto Siri caiu, a Usbai ava, ficava quase de cócoras, inclinava-se lo quando fotografa elefante é esse bicho
Foto desmaiou e os amigos Luís e Adria- ora para a esquerda ora para a direita à que aparece no postal e não uma lebre.
no davam voltas e voltas para terem mate- procura do melhor ângulo. Ia até junto à Fosse nos dias de hoje, tio Paulo não
rial fotográfico e servir o público, sobretu- pessoa e ele mesmo encarregava-se de lhe passaria por essa agonia. Hoje as máqui-
do no carnaval – a maior azáfama depois endireitar o pescoço, a cabeça... um toque nas moldam a imagem dos modelos, ti-
da época das matrículas. As moças e os na- no queixo e voltava para a sua posição ini- ram fotos a três dimensões, dentro e fora
morados ntrudu3 queriam ser fotografados cial, esticando-se e se encolhendo em bus- da água, resistem a quedas. O acto de fo-
e com direito a um álbum. ca da imagem de excelência, não vá o tografar já não é um exercício físico exi-
Para qualquer documento as autori- cliente dizer que saiu feio na foto. Aliás, gindo grandes malabarismos do profissio-
dades pediam fotografias: era retrato que essa era a maioria das causas de reclama- nal. E a fotografia, se antes fora, hoje con-
nunca mais acabava... para carta de con- ções que o nosso tio recebia. As meninas, tinua sendo uma arte, por isso os retratos
dução, cartão de trabalhador, guia – que dizia ele, são as que protestam mais. Di- querem-se espectaculares, captando mo-
se tirava para viagens ao interior e do inte- zem que saíram lampradas4 na foto, que mentos – o processo criativo de Auguste
rior para a capital. Quando se descobriu estão brancas, que saíram escuras demais, Rodin é um esplêndido exemplo –, ten-
que era bom viajar para o exterior, vieram que os lábios estão mais grossos do que dências, glamour; informando e denun-
mais consumidores de fotos: passaportes e são de facto, que aquele nariz não pode ser ciando um pouco do que vai pelo mundo.
formulários de pedido de visto de entrada delas. Mas eu faço o que posso, dizia. E a máquina tem o seu mérito.
no país estrangeiro. O tio contou que tirou fotos a duas
1
BI – bilhete de identidade
Tio Paulo desdobrava-se em mil para amigas. Eram os anos de uma delas. Ha- 2
Ciclo – Ciclo Preparatório
tirar e lavar as fotos. Às vezes faltava luz. via luz naquele dia e fizeram os retratos no 3
Ntrudu – mascarado em crioulo guineense
4
Lampradas – de lampra (brilhar em crioulo
Nesses casos o estúdio ficava às escuras, estúdio. Dias depois foram buscá-los. guineense, brilhantes, reluzentes)

África21– setembro 2009 47


Alguma luz
Guiné-Bissau

ao fundo do túnel
O dia-a-dia da maioria dos guineenses é uma sucessão
de carências de todo o tipo, mas nos últimos tempos
são visíveis sinais animadores de mudança
Fernando Jorge Pereira bissau

N o passado mês de Julho,


em plena campanha para a
segunda volta das eleições
presidenciais antecipadas, o ministro das
Finanças, o empresário José Mário Vaz,
zar. O regime de Kumba Yalá bateu to-
dos os recordes nesta matéria, com nove a
onze meses de salários em atraso. Em
2008, os agentes públicos chegaram a
passar o Natal sem ordenado.
anunciou que os salários em atraso esta- No entanto, estes ganhos recentes ain-
vam regularizados e prometeu que daí em da não estão consolidados, e só poderão ser
diante o vencimento dos funcionários ia reforçados se cada Ministério fizer o traba-
ser pago a tempo e horas. lho de casa e puser as contas em ordem, o Os polícias
sinaleiros
Na altura, o líder da oposição e can- que ainda não é o caso. Um exemplo nega- voltaram
às ruas
didato presidencial acusou o Governo de tivo apontado pelos responsáveis das Fi- de Bissau

propaganda eleitoral, a fim de favorecer o nanças é o do Ministério da Educação,


candidato governamental. Tanto mais onde o descontrolo com os professores
que a medida foi executada cerca de duas contratados dá lugar a muitos abusos, que zar as economias resultantes da redução de
semanas antes do final do mês. Contudo, penalizam bastante o Tesouro público. efectivos, nomeadamente nas Forças de
ao contrário do habitual, a promessa foi Defesa e Segurança, para melhorar os
cumprida, e em Agosto, os honorários Funcionários fantasmas salários e as condições sociais dos trabalha-
voltaram a ser levantados nas contas ban- dores. Se não for travada, a reforma ataca-
cárias no dia 21. O primeiro recenseamento biométrico rá ainda o privilégio de alguns ex-gover-
Num país onde o Estado é o maior dos funcionários, realizado entre Maio e nantes, que graças a uma disposição le-
empregador, o facto tem um peso econó- Agosto, deve permitir detectar os chama- gal, auferem salários equiparados a direc-
mico importante, até porque foi concre- dos funcionários «fantasmas», pessoas que tor-geral, sem porem os pés no serviço.
tizado apenas com recursos internos. A já morreram ou estão no estrangeiro, mas Mas alguns analistas duvidam que Fer-
União Europeia, o principal parceiro cujos títulos continuam a ser normalmen- nando Gomes, o ministro da Função Pú-
multilateral da Guiné-Bissau, elogiou te processados, em benefício de uma rede blica, ex-oposicionista e antigo presidente
prontamente o actual rigor nas finanças ilegal no interior do aparelho administrati- da Liga dos Direitos Humanos, consiga os
públicas, que permitiu alterar a situação. vo das diferentes estruturas estatais. apoios necessários para mudar a lei.
Até então, a regra era acumular três ou O recenseamento é uma das premissas O sector energético é outra esfera de
mais meses de salários. O último Executi- de uma reforma da Função Pública, desti- actividade onde se regista uma melhoria
vo do defunto Presidente Nino deixou nada a acabar com a roubalheira, equili- da situação. Embora as ruas às escuras, os
cinco meses de ordenados por regulari- brar o Orçamento Geral do Estado, utili- cortes de luz e o ruído de geradores nos

48 setembro 2009 – África21


MANUEL DE ALMEIDA/LUSA
A AGENDA DE MALAM BACAI SANHÁ

RICARDO BORDALO/LUSA
Antes de tomar posse a 8 de Setembro como sexto Presiden-
te guineense, Malam Bacai Sanhá esteve a repousar durante
uma semana de Agosto na ilha cabo-verdiana do Sal, en-
quanto um grupo de trabalho de 15 pessoas se encarregava
da elaboração da sua futura agenda. Um pouco mais de me-
tade dos membros do task force não pertence ao PAIGC, o partido governamental. A com-
posição plural da equipa, coordenada pelo agrónomo Mário Cabral, ex-rival de Malam Bacai
nas primárias para a designação da candidatura presidencial, indicia a forma consensual e
dialogante que o novo Presidente da República pretende imprimir à sua magistratura.
A intenção de facilitar o entendimento com o Executivo levou-o a deixar a representação
da Guiné-Bissau na sessão da Assembleia-Geral das Nações Unidas a cargo do primeiro-mi-
nistro Carlos Gomes Júnior, que já estava previamente inscrito. Se a experiência resultar, po-
derá trazer mudanças positivas no modelo político dominante no país e aproximar da órbita
do poder pequenos partidos dirigidos por personalidades influentes, alguns fortes nos planos
intelectual e profissional e outros com considerável capacidade de intervenção política.
A agenda presidencial, de cinco anos, deverá reflectir as promessas eleitorais de Sanhá.
Uma delas é promover a reforma da Justiça, área onde se acumulam dossiês escaldantes,
tais como o dos atentados que vitimaram o ex-chefe de Estado-Maior das Forças Armadas,
general Tagmé Na Wai, e o Presidente Nino Vieira. O relatório pericial, feito por especialis-
tas norte-americanos, está pronto, mas o inquérito judicial arrasta-se.
Além de alinhavar o discurso de investidura e de delinear a estratégia presidencial em
matéria do sensível sector da Defesa e Segurança, o grupo de trabalho deve formular a or-
gânica da Presidência da República, com a preocupação de introduzir critérios mais rigoro-
sos na definição do staff presidencial, assim como na sua gestão orçamental. O ex-director
de Gabinete do Presidente Nino e candidato às recentes presidenciais, João Cardoso, faz
parte do grupo de trabalho, assim como o jornalista Agnelo Regalla, o advogado Amine
Saad, o empresário Canjura Injai e o universitário Uko Monteiro, todos oposicionistas de lon-
ga data. A antiga ministra da Saúde, Eugénia Saldanha, e Zinha Vaz, a única mulher líder de
partido, também constam da equipa de trabalho. FJP

“ Há quatro meses que


Bissau tem abastecimento
menos irregular de luz
a empresa pública que detém o monopó-
lio da produção e distribuição de electri-
cidade e água.
rede eléctrica até a periferia de Bissau. A
vetusta central da capital terá a sua capa-
cidade produtiva aumentada de 5,5 para
No início da independência as auto- 15 megawatts. Enquanto a electricidade


eléctrica e de água ridades guineenses investiram muito na das barragens da OMVG (Organização
electrificação, mas com o tempo as infra- de Aproveitamento do rio Gâmbia) não
passeios ainda sejam a imagem de marca ‑estruturas degradaram-se, assim como chega, aposta-se nos 23 milhões de euros
do país, há cerca de quatro meses que se os problemas de gestão. A própria empre- (33 milhões de USD) do Fundo Euro-
assiste a um abastecimento mais regular sa reconhece os níveis elevados de fraude peu de Desenvolvimento (2010) para re-
de luz eléctrica e de água. e a péssima qualidade de serviço. Há dez lançar o sector energético.
Por enquanto, a mudança limita-se à anos, quando se preparava um programa Até lá, o interior do país vive mergu-
capital, em particular aos clientes com de reforma do sector, rebentou a guerra lhado na escuridão. A solução que o se-
maior poder de compra, empresas, em- civil que adiou os trabalhos. cretário de Estado da Energia, Papai
baixadas e organizações internacionais. Hoje está em preparação o Plano Di- Wasna Danfa, preconiza para as Regiões,
Mas um número cada vez maior de uten- rector, e em paralelo com um novo siste- é a recuperação de um fundo indiano,
tes também está a sentir os efeitos da ins- ma de gestão e de reorganização contabi- para o qual a Guiné-Bissau foi eleita, mas
talação do projecto de assistência técnica lística e financeira, decorre a moderniza- que acabou por perder, devido à crónica
à gestão comercial e financeira da EAGB, ção parcial, a reabilitação e a extensão da instabilidade política.

África21– setembro 2009 49


50 setembro 2009 – África21
A CRÓNICA DE GERMANO ALMEIDA

Urses ou ursus?
E stes meses de férias gerais,
estudantes, políticos, tribunais,
diasporizados, são meses de
muita animação porque tudo chega em
tique dos primeiro-ministros do MpD
não achar valor nas argumentações da
oposição, mas depois conclui que não, é
antes uma especialidade dos primeiro-
“ Mas depois conclui
que não, é antes uma
especialidade dos
confusas catadupas, agravadas este ano ‑ministros: desprezar os adversários!
primeiro-ministros:
pelo calor que despertou algo tardiamen- Que, por sua vez, não honram a situa-


te mas abruptamente, exemplo, ainda ção por aí além: um Governo de expe- desprezar os adversários
ontem estava quase fresco, agradável, dientes, sem políticas e sem resultado,
hoje parece que sai fogo da própria terra acusou o líder do MpD. E quando o líder
para incendiar o ar. Graças a Deus que da UCID tentou lançar um pouco de
temos a TACV a refrear a enchente das água no vulcão que era os outros dois par-
ilhas atrasando voos de partidas e chega- tidos, o primeiro-ministro, com alguma
das, desse modo atravancando os aero- infelicidade e evidente mau gosto, vitupe-
portos de passageiros desatinados em rou-o de se assemelhar a uma ave de rapi-
busca das bagagens, magotes de emigran- na da pobreza.
tes enfurecidos jurando nunca mais re- Mas, claro, isso tudo deu-se antes da
gressar ao país, esta é a última féria a ser senhora Clinton, distraidamente plagian-
passada em Cabo Verde! do Corsino Fortes (Si ONU tmâ Kabverde
Claro que é conversa! Mal recebem pâ vela/Munde/ka ta dormi na scure), ter
intacta a mala retardada, logo esquecem o tido a boutade de nos apresentar como
desaforo que começa no excessivo preço exemplo para toda a África. Ficámos to-
das passagens de que são vítimas nesta dos inchados de basofaria enquanto nos
época do ano e acaba no péssimo serviço entretemos com um programa televisivo
que concomitantemente lhes é prestado. sobre como ler e escrever em língua cabo-
Mas antes do início das férias os depu- verdiana. Tenho-a acompanhado porque
tados à Assembleia Nacional discutiram não só é breve (dura quase menos que um
com alarido e ofensas de parte a parte o minuto), como é transmitido no intervalo
«estado da Nação». Não tendo, no entan- dos noticiários. Já vai na letra «x» e nas pa-
to, chegado a qualquer conclusão incon- lavras que a usam: xuculate, xapéu, xinta-
testável, porque cada partido deu a sua do. Logo nas primeiras lições aprendemos
própria sentença, tendo o primeiro-minis- as vogais (aeiou) e como se usam nas pala-
tro mais uma vez se confessado muito «de- vras conforme se é de Santiago ou de S.
cepcionado porque a oposição não deu Vicente. Por exemplo, a letra «u» e o
nenhum contributo valioso ao debate». «urso»: se de um lado dá «urse», do outro
Bem entendido que foi a enésima vez diz-se «ursu», nunca «urso». Tenho vivido
que ouvi esta frase, desde 1993 que ela esta dúvida: e nós da Boa Vista, somos
está em uso. A princípio acreditei ser um «urses» ou «ursus»?

África21– setembro 2009 51


são tomé e príncipe um dos homens que trabalhou bastante na efectiva-

Na rota
ção desta etapa, estava satisfeito: «Concluímos um
projecto que há muito era ambicionado. Houve
uma grande satisfação das autoridades angolanas e
são-tomenses. Tendo em conta o factor histórico
que une os dois países, estamos extremamente satis-

do desencravamento feitos, porque continuamos com a mesma sinergia e


com a mesma forma de pensar».
Caeiro sublinhou que «é importante para São
Tomé e Príncipe, é importante para a auto-estima
Com um novo barco de transporte e a inauguração dos são-tomenses, que vêem as cores do país distri-
buídas pelo Golfo da Guiné e pelo mundo, e com a
da ligação aérea a Luanda pela STP Airways, o
promessa de continuar a crescer de forma construti-
arquipélago está menos perdido no meio do Atlântico va e chegar a outros pontos do mundo».
Alguns representantes do empresariado são-to-
Juvenal Rodrigues são tomé
mense que estiveram a bordo do avião considera-

P
ram que a ligação é uma mais-valia. Para o comer-
ríncipe, o barco construído de raiz ciante António Quintas Aguiar, é «mais uma possi-
para assegurar a ligação entre as duas ilhas bilidade que se abre aos operadores económicos,
deixava, no fecho desta edição, os estaleiros de são-tomenses e angolanos. É uma mais-valia para os
Arenys de Mar, na Catalunha, Espanha, para chegar operadores económicos dos dois países. Mesmo os
em finais de Agosto ou princípios de Setembro ao portugueses que queiram fazer esse trajecto têm a
país. Enquanto isso, a STP Airways, a companhia vida mais facilitada» O chocolateiro Claudio
aérea de bandeira são-tomense, inaugurou a rota Corallo, por sua vez, sublinhou que «as comunica-
para Luanda, num voo que liga três países no mes- ções são a base do desenvolvimento e este é um pas-
mo dia: Portugal, São Tomé e Príncipe e Angola. so importante. Tudo o que pode transportar merca-
Com a abertura desta rota, a companhia de bandei- dorias, passageiros e turistas é interessante. A aber-
ra são-tomense está a cumprir o seu plano de desen- tura desta ligação que depois continua para Portu-
volvimento faseado. gal é extremamente importante».
A STP Airways entrou assim no segundo nível Carlos Vila Nova, director da Mistral Voyage,
do projecto, que compreende o desenvolvimento re- pensa que esta ligação vem melhorar as perspectivas
gional do Golfo da Guiné. Daniel Caeiro, para o turismo: «cria uma certa competitividade sa-
do Departamento Comercial da lutar entre as operadoras e da nossa parte seria jun-
companhia aérea, tar o útil ao agradável se entre as companhias hou-
vesse eventualmente um acordo de permuta. Aí
sim, beneficiaria muito mais quem trabalha no sec-
tor, e os utentes acima de tudo. Com esta operação,
a STP Airways limita as pessoas a sete dias e com
uma permuta pode-se fazer operações de três, cinco
dias e jogar com a situação». O agente turístico con-
sidera ainda que a falta desta ligação se fazia sentir.
«A ligação com Luanda passa a ter três

52 setembro 2009 – África21


frequências e agora temos que trabalhar e explorar
as potencialidades que Angola tem».
No discurso oficial que marcou a inaugura-
ção, o presidente da STP Airways, Felisberto
Neto, reconheceu que ainda «há muito a fazer
para que a companhia possa atingir o patamar
desejado. Mas temos a certeza que com o esforço
dos accionistas e a colaboração de todos quantos
querem ver São Tomé e Príncipe melhor, o país
terá uma companhia aérea funcional e credível
que é a STP Airways».
A companhia foi constituída a 23 de Junho de
2008, entre a EuroAtlantic Airways, com 37%; Es-
tado são-tomense, 35%; Banco Equador, 14% e a Príncipe, o barco chegado da Catalunha
Golfo Internacional Air Service, também com 14%


das acções. A companhia são-tomense assegura
igualmente três ligações semanais para o Príncipe, Cruz, convidou especialmente a Aresa Boats e todos Santo António
em parceria com a África Connection. Mas as pas- os interessados a fazerem investimentos, na perspec-
do Príncipe
sagens são relativamente caras, devido à qualidade tiva da oportunidade de negócios que poderá surgir
da pista no aeroporto de Santo António, segundo com a construção do porto de águas profundas, que e São Tomé
os responsáveis. Espera-se que a entrada em funcio- será uma nova e moderna infra-estrutura no Golfo ficam agora
namento do novo navio permita reduzir os preços da Guiné. A empresa espanhola tem trabalhado
à distância
de viagem para a ilha irmã. com países da região: construiu cerca de 300 barcos
para a marinha de Angola, assim como para o Togo, de menos
Príncipe Gana e Benim. Em Angola, está a estudar a possibi- de cinco horas
lidade de construção de um estaleiro em parceria
Príncipe, o navio encomendado para dar resposta com o Estado angolano.
de viagem


às necessidades de ligação entre as ilhas de São O Governo são-tomense prepara o caderno de por mar
Tomé e do Príncipe, para além do transporte de encargos que permitirá entregar a gestão do barco
passageiros, quatro doentes acamados e carga, pode ao sector privado. A medida está no entanto a gerar
ser utilizado igualmente em expedições turísticas. A polémica com responsáveis do Governo regional.
viagem é passível de ser feita em menos de cinco Tozé Cassandra, presidente do Governo Regional,
horas, explorando a potência dos seus dois motores em declarações à Rádio Nacional, discordou desta
de 1000 cv, que poderão levar a embarcação aos solução e propõe que a base de estacionamento da
80km/h, sem forçá-los. embarcação seja o porto da ilha do Príncipe e que as
Os 63 passageiros podem viajar comodamente autoridades regionais façam a sua gestão. Argumen-
na cabine coberta com cadeiras confortáveis. Foi tou, entre outras razões, com a necessidade do trans-
também concebido para transportar 18 toneladas porte de doentes. Não seria prático a embarcação ter
de carga e combustível com segurança. O barco foi que sair de São Tomé para o Príncipe para recolher
construído seguindo as normas europeias de segu- doentes a necessitar de evacuação, pois seriam ne-
rança e qualidade, condições indispensáveis para a cessárias cerca de dez horas entre ir e vir.
sua certificação de navegabilidade. Entretanto, são Antes, os deputados da ilha tinham tomado po-
tripulantes nacionais, que receberam formação na sição idêntica no parlamento. O Príncipe custou
empresa construtora, que trazem a embarcação de 1,1milhões de euros (1,6 milhões de dólares) e a sua
Espanha para São Tomé e Príncipe. construção foi financiada pelo Estado são-tomense,
O ministro das Obras Públicas, Infra-estrutu- a cooperação taiwanesa e a empresa petrolífera
ras, Transportes e Comunicações, Benjamim Vera Addax Petroleum.

África21– setembro 2009 53


Durante os onze dias

ALADINO JASSE/LUSA
que andou por África, EUA-ÁFRICA
Hillary Clinton
não descurou nenhum
país ou dossiê. Na África
do Sul falou sobre Novos amigos
o Zimbabwe, no Quénia
para mais
negócios
recebeu o Presidente
interino da Somália
e falou do AGOA.
Porém, só o tempo dirá
se resultará a promessa
de novas parcerias.
Itamar Souza Nova Iorque
Eduardo dos Santos recebe a secretária de Estado norte-americana

P or alguma razão foi no Quénia onde


Hillary Clinton dedicou mais tempo a
falar dos problemas de governação em
África. Para desencanto do primeiro-ministro
Raila Odinga, Hillary Clinton censurou Nairo-
trabalhar para o alargamento dos acordos bilaterais
que ligam Washington a vários países africanos.

Consistência

bi por não tirar a limpo as mais de duas mil Embora não tivesse entrado em pormenores, disse
mortes, ocorridas após as eleições de Dezembro que o Governo está a trabalhar para reduzir as bar-
de 2007. Odinga disse que África não precisava reiras com que se deparam os agricultores africa-
de receber lições de ninguém. Mas o périplo de nos. Estes aguardam os detalhes da promessa do
11 dias ficou marcado, sobretudo, pela convic- G8, anunciada em L’Aquila (Itália) de patrocinar
ção norte-americana na «promessa africana», e um programa de assistência extensivo a agriculto-
no desafio aos africanos para que tomem conta res de todos os países pobres, no valor de 12 mil
do seu destino. milhões de dólares.
Hillary Clinton aproveitou a digressão para as- O maior triunfo económico usado durante a
segurar a disponibilidade da Administração Oba- viagem foi o AGOA, uma portaria em vigor há
ma em aumentar a ajuda a África, e a diversificar a nove anos, que permite que 6500 produtos im-
cooperação. portados de África entrem no mercado norte-
Carey Francis, director-adjunto do Centro de americano sem pagar impostos e livres de quotas.
Democracia Multipartidária, sediado em Nairo- Políticos africanos como Raila Odinga acham
bi, no Quénia, disse que a visita da secretária de que o AGOA deve ser mais acessível do que é hoje.
Estado norte-americana abriu novos caminhos. A solução eventualmente mora nos dois campos.
«As pessoas agora acreditam nos EUA, e estão As importações norte-americanas de têxteis africa-
convencidas de que a nova Administração está do nos desceram dez por cento em 2008. No mesmo
lado delas». período, as exportações de produtos agrícolas afri-
Hillary Clinton foi consistente nos sete países canos ficaram sete por cento abaixo da média dos
que visitou. Repetiu a promessa do seu Governo em cinco anos anteriores, quando atingiu o pico.

54 setembro 2009 – África21


Decidida a ajudar o crescimento económico encontro com Sheik Sharif, presidente do Gover-
africano, Hillary Clinton está convencida que a no Transitório da Somália, e a exaltação do su-
mais eficaz das respostas para este desafio está em cesso chamado Cabo Verde.
África. «A maior oportunidade colocada a todos Em contraste com o crédito que deu a este ar-
está na expansão do comércio intercontinental. quipélago, na Nigéria questionou o facto do sex-
O mercado americano tem 300 milhões de pes- to maior produtor africano de petróleo importar
soas. O mercado africano tem 700 milhões». derivados deste produto. Confessou ter constata-
A secretária de Estado disse que o continente do uma desconexão grande na Nigéria traduzida
africano responde por apenas dois por cento de na riqueza de uns, na acentuada pobreza de ou-


todo o comércio mundial. «Se a África Austral tros e no fracasso do Governo a todos os níveis.
Angola
aumentasse em um por cento a sua quota, seria Disse a este respeito que os investidores não
capaz de gerar receitas superiores àquelas que o vende aos Estados se sentirão atraídos por mercados onde não haja
continente recebe em ajuda externa». Unidos nove transparência. A abordagem desta matéria fez on-
As importações norte-americanas feitas no das em Angola. A oposição e os grupos de pressão
âmbito do AGOA totalizam 66 mil milhões de
por cento deram muita relevância a uma declaração sua se-
dólares. Os países da África Austral respondem do total gundo a qual o Governo tem procurado ser mais
por apenas três por cento do total deste volume. do petróleo transparente, sobretudo no que diz respeito à
Destes três por cento uma boa parte cabe a Ango- gestão da «conta petróleo».
la, país que vende aos Estados Unidos nove por
que o país A escala na Libéria, país governado por uma


cento do total do petróleo que importa. Projec- importa mulher, Ellen Johnson-Sirleaf, e a visita a Goma,
ções feitas até Novembro de 2007,
quando da entrada de Angola na

AHMED JALLANZO/LUSA
OPEP e à consequente quota
(obrigatória), diziam que o au-
mento de produção previsto até
2012 poderia levar Angola a ven-
der aos EUA 12% do total do pe-
tróleo importado.
A ênfase na criação de opor-
tunidades levantou o fantasma da
guerra fria agora protagonizada
entre Washington e Pequim, ten-
do como pano de fundo a con-
quista de mercado. Membros do
staff da chefe da diplomacia nor-
te-americana minimizaram todas
as sugestões neste sentido. Pierre
Englebert, especialista em assun- Hillary Clinton e Ellen Johnson-Sirleaf
tos africanos afecto ao Pomona
College da Califórnia, disse que a viagem se des- no Congo Democrático, foram actos escolhidos
tinou, sobretudo, a «matar vários pássaros, com propositadamente para enfatizar o apoio norte-
uma só pedra». ‑americano à promoção da mulher. No regresso
Assim se explica a abordagem sobre o Congo a Washington, Hillary Clinton disse que estava
na audiência que lhe foi concedida pelo Presi- muito tocada pelo potencial que tinha encontra-
dente de Angola, a conversa com Jacob Zuma a do em África. «Nós acreditamos na promessa
propósito do Zimbabwe, a preocupação manifes- africana». Os EUA vão ter que esperar para sabe-
tada em relação à situação no Delta do Níger, o rem como África responderá à nova América.

África21– setembro 2009 55


reportagem

Amazónia,
do Eldorado cobiçado
a cenário de violências

N o vasto teritório por onde se esten-


de, a Amazónia brasileira é hoje objec-
to de intensas lutas políticas, de des-
matamento desenfreado, de ocupação irregular de
terras, de  violência.
militares que descem os rios a bordo de um navio
hospital ou que fazem evacuações de urgência.
Apesar das distâncias, do isolamento e da ausên-
cia de infra-estruturas, a Amazónia é alvo de violen-
ta disputa que, frequentemente, não se fica pelas pa-
Em muitas regiões da chamada Amazónia Le- lavras e acaba em assassinatos por encomenda, uns
gal, que se estende  pelos estados do Amazonas, mais mediáticos que outros, como foi o da freira
Acre, Amapá, oeste do Maranhão, Mato Grosso, norte-americana Dorothy Sting, no Pará.
Rondônia, Pará, Roraima e Tocantins, num total
de cinco milhões de quilómetros quadrados, o Es- Interesses
tado Federal continua a ter dificuldade em se fazer
presente. A ocupação populacional do território é É frequente os governantes brasileiros brandirem a
escassa e dispersa. A muitas localidades só é possí- ameaça da cobiça internacional, real, sobre a Ama-
vel chegar por lancha. Não há estradas e os aeró- zónia. Mas, a devastação da região amazónica ou o
dromos são caros e também de difícil acesso. seu mau uso são responsabilidade dos próprios
Em muitas regiões da Amazónia brasileira, brasileiros. Grandes grupos económicos têm vin-
também apresentada como o pulmão do mun- do a avançar para a ocupação indiscriminada dos
do, há quase que um vazio de poder, pelo menos solos. E o Estado pouco ou nada tem feito para
segundo os parâmetros  dos países desenvolvidos. conter essa ocupação,  acompanhada muitas vezes
A presença do Estado é visível nos poucos destaca- da expulsão dos moradores autóctones. Só em Ju-
mentos militares nas fronteiras e, muitas vezes, no nho deste ano o Brasil adoptou legislação visando
auxílio médico às populações prestado por equipas a regularização fundiária na Amazónia.
LUSA
Cerca de cinco milhões de quilómetros quadrados de vegetação
exuberante, de riquezas minerais e botânicas. De madeiras nobres,
de rios que nunca secam, de civilizações de povos índios e de populações
ribeirinhas que guardam tradições seculares. Essa mesma Amazónia,
idolatrada por ambientalistas, é  palco de acesa disputa pelo seu controlo.

Alfredo Prado BRASÍLIA

Por trás da violência estão  interesses antagóni- tural de partidos que governa o país não é ideolo-
cos entre madeireiros, grandes criadores de gado e gicamente definida.
líderes comunitários dos povos indígenas ou das Enquanto, por exemplo, o ministro da Agri-
comunidades ribeirinhas. O quase vazio de poder cultura, Reinhold Stephens, defende abertamente
é agravado pela ausência de uma política de Esta- uma política de novas fronteiras agrícolas na Ama-
do, de uma estratégia para a Amazónia. zónia, ou seja, a possibilidade de abertura legal da
As divergências dentro do Governo de Lula região à expansão da agro-pecuária,  às grandes
da Silva, relativamente às vias de desenvolvimen- plantações de soja, transformadas depois em pas-
to para a região, são públicas e não se podem ana- tos, já o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc
lisar exclusivamente numa perspectiva de cho- – que sucedeu à senadora  Marina Silva, forçada a
ques de concepções entre forças de esquerda ou demitir-se pela pressão dos lobies da agro-indús-
de direita, até pelo facto de que a aliança conjun- tria e das grandes empreiteiras – tem vindo a exigir
a aplicação rigorosa da legislação ambientalista
para a execução de grandes obras, como as hi-
LUSA

dro‑eléctricas em construção no rio Madeira, e


para a ocupação populacional.
No início de Julho, o ex- ministro da Secreta-
ria de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira
Unger, conhecido filósofo e professor da Universi-
dade de Harvard (EUA), em carta de despedida do
Governo, para voltar aos EUA, refere como «he-
rança» o Plano Amazónia Sustentável (PAS), que,
aliás, levou à saída da ex-ministra do Meio Am-
biente Marina Silva.
Mangabeira destaca que, no futuro, o plano – a
regularização ambiental, o fortalecimento do ex-
trativismo, a superação do isolamento e a organi-
zação da posição brasileira do financiamento es-
trangeiro na região como principais pontos do
projeto – será reconhecido «como uma das princi-
pais realizações desse Governo». 
No entanto, até ao momento e a um ano do fi-
nal do mandato, a única medida do Plano Amazónia
Sustentável que deu alguns passos foi o lançamento
A desflorestação é um dos maiores problemas da Amazónia da regularização fundiária, aprovada recentemente
“ Em muitas regiões da Amazónia

LUSA
brasileira há um vazio de poder,
pelo menos segundo os parâmetros 


de países desenvolvidos

pelo Congresso, sancionada com vetos por Lula e


cuja execução se apresenta como muito difícil.

Desmatamento

Um dos problemas maiores enfrentados na Amazó- As alterações ambientais amazónicas colocam em perigo as comunidades indígenas


nia é o desmatamento. A área total vítima do desma-
tamento da floresta corresponde a mais de 350 mil Recentemente, grandes redes de supermerca- A área total vítima
quilómetros quadrados, a um ritmo de 20 hectares dos que operam no Brasil, com o Wal-Mart,
do desmatamento
por minuto, 30 mil por dia e oito milhões por ano. anunciaram apoiar as medidas contra o desmata-
O ministro do Meio Ambiente tem vindo a mento, boicotando a compra de carne provenien- da floresta é mais
afirmar que o desmatamento, neste ano, será o te de áreas desmatadas da Amazónia. «Esperamos de 350 mil km2,
menor dos últimos vinte anos. A afirmação, no en- que essa decisão seja adoptada pelas demais redes
a um ritmo de 20
tanto, é contestada por diversos especialistas. De de supermercados, como um claro recado ao agro-
acordo com o presidente do Instituto Nacional de negócio de que não há mais espaço para produtos hectares por minuto,
Pesquisas Espaciais (Inpe), Gilberto Câmara, em que destroem o maior património brasileiro e cau- 30 mil por dia e oito
declarações à agência Brasil, ainda não há dados sam mudanças climáticas», comentou André Mu-


que sustentem a afirmação do ministro. ggiati, activista do Greenpeace Brasil.
milhões por ano
Por causa das nuvens, o Sistema de Detecção do
Desmatamento em Tempo Real (Deter), que gera Ecologistas de Ipanema
relatórios mensais de alerta, não tem conseguido
observar o estado do Pará, actual campeão de des- Um exemplo das contradições que envolvem a
matamento, o que só poderá ser feito com as ima- questão amazónica é o asfaltamento da BR-319,
gens analisadas pelo Prodes. Este sistema, que usa construída em 1970, durante o regime de ditadu-
imagens de satélite mais precisas que as do Deter, ra militar, ligando Manaus, capital do estado da
vai avaliar o desmatamento acumulado entre Agos- Amazónia, a Porto Velho, capital de Rondónia.
to de 2008 e Julho de 2009. «O Deter não viu o Mais de três décadas depois, um trecho de 400
Pará. E é no Pará que está o maior dilema hoje, por quilómetros entre as duas capitais precisa de ser
causa da expansão da agropecuária, e não é mais em totalmente reconstruído e circular nele é uma au-
apenas uma região do estado, está avançando, atra- têntica aventura para os camionistas. Mas o pró-
vessando rios», disse o presidente do Inpe. prio Ministério do Meio Ambiente recusa aprovar
O Governo tem tentado aprovar várias medidas o projecto, alegando que a reconstrução com asfal-
para controlar o desmatamento, mas o seu sucesso tamento terá sérios impactos ambientais.
ainda é reduzido. Até final deste ano, as autorida- O governador do estado do Amazonas, Eduar-
des pretendem criar um sistema de monitoramen- do Braga, ao discursar recentemente numa sessão
to das 12 mil propriedades rurais existentes na da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciên-
região sul do estado do Pará e que ocupam cerca cia (SBPC) qualificou de «esquizofrénica» a dis-
de 150 mil quilómetros quadrados. cussão em torno da questão. «Não se pode sim-

58 setembro 2009 – África21


plesmente inventar análises botânicas sobre
uma Amazónia que não existe mais em torno da
BR 319. A rodovia tem uma botânica completa-
mente diferente a partir do asfaltamento. Essa dis-
cussão é esquizofrénica, até certo ponto pouco éti-
ca», disse o governador. Numa alusão ao ministro
Minc, o governador disse que não aceitará que
«ecologistas de Ipanema» (referência a conhecida
praia do Rio de Janeiro) decidam sobre questões
da Amazónia. «O que eu não aceito é os ecologis-
tas da praia de Ipanema quererem decidir sobre o
destino do povo da Amazónia».
Enquanto alguns sectores ambientalistas de-
fendem a preservação da região, sem concessões,
vários sectores sociais e políticos argumentam ser
necessária uma política de compromisso que pos-
sibilite o desenvolvimento económico e social da
região e que não vote as populações ao isolamento
em que ainda vivem. O estado do Amazonas, ape-
sar de ser o maior estado brasileiro e das riquezas
que guarda, tem a menor densidade demográfica
humana do país.
A «questão» amazónica não é um problema
exclusivamente brasileiro. Os nove países que
partilham o «grande pulmão» (Brasil, Bolívia,
Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa,
Peru, Suriname e Venezuela) enfrentam dificul-
dades semelhantes, de baixa densidade demográ-
fica, de programas fracassados de colonização e
de ausência da presença do Estado.
LUSA

África21– setembro 2009 59


PorÊumaÊcidadeÊlimpa angol
Sociedade de Investimento de Angola, Lda.

O Processo de crescimento das cidades, ocasionou o aumento da popula- voltada para as seguintes áreas: comercialização de veículos, rent-a-car e
ção e fatalmente aumentou os problemas relacionados com a limpeza prestações de serviços.
urbana, como tal, é necessário a tomada de medidas visando dar destino Com base numa política de diversificação das suas actividades a Rangol,
correcto e seguro aos resíduos sólidos gerados nas cidades. expandiu os seus serviços, incluindo a recolha domiciliar, a limpeza manual
Temos como objectivo oferecer à municipalidade, serviços especializados e mecanizada de vias e logradouros públicos, e a limpeza de valas e fossas
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A CRÓNICA DE LUIZ RUFFATO

Galiza em nossos
corações
C onheci a Galiza em julho
de 2005, por ocasião do VIII
Congresso da Associação In-
ternacional de Lusitanistas, realizado em
gua muito mais inteligível, para nós, bra-
sileiros, que o português falado em Por-
tugal. E, mais ainda, me entusiasmei com
a avidez com que os galegos buscavam re-
“ Me deparei com
uma língua muito
mais inteligível, para
Santiago de Compostela. Convidado pe- cuperar a sua tradição, sufocada desde nós, brasileiros, que
los professores Carmen Vilarinho Pardo fins do Século XIV, quando o Reino de
e Elias Torres Feijó, da universidade local Galiza, então centro irradiador de cultura o português falado em


e membros da comissão organizadora, da Península Ibérica (a literatura galega é Portugal
participei de um encontro paralelo ideali- considerada a segunda mais importante
zado pelo professor e escritor Carlos Qui- da Idade Média europeia), foi absorvido
roga, que consistia numa tentativa de in- pelo Reino de Castela. À exceção do perío-
tercâmbio entre autores das várias línguas do de ressurgimento ocorrido na segunda Dissolvida minha ignorância inicial,
lusófonas. Além de mim e de Adriana metade do Século XIX, a tentativa de re- fui aos poucos me convencendo de que
Lisboa, pelo Brasil, lá estiveram os portu- ativação da cultura galega encontrou for- talvez esta seja uma das grandes injustiças
gueses José Luís Peixoto e Possidónio Ca- te repressão por parte da ditadura de cometidas por nosso mundo lusófono:
chapa, o angolano Ondjaki e o timorense Francisco Franco, que durou de 1939 a desconhecer ou até mesmo desprezar o
Luís Cardoso, colunista desta revista. Foi 1975 – terrível ironia, já que o generalís- legado cultural galego. Porque, no fundo,
um verão inesquecível, pois, arrebatado, simo era galego, da cidade de Ferrol... deveríamos nos conscientizar de que a
me apaixonei para todo o sempre. Após aquela primeira viagem, voltei à língua disseminada hoje pelo mundo, à
Na verdade, sem o saber, eu já havia Galiza todos os anos. Aprofundei, assim, qual chamamos «português», não passa,
sido capturado pela Galiza mesmo antes meu conhecimento da cultura galega e na verdade, do galego... O que ocorreu é
de saber de sua existência... Em algum tive a oportunidade de perceber melhor a que, ao mesmo tempo em que, em fins
momento do final da década de 1980, riqueza e a dinâmica de sua língua e lite- do Século XV, o Império Português ini-
me deparei com um volume, Poesias, pu- ratura contemporâneas (além da extrema ciava seu apogeu político-econômico,
blicado em 1987 pela Editora Brasiliense, simpatia de seu povo, e, devo confessar, por meio do achamento do Brasil e da ex-
de São Paulo, que enfeixava poemas da ine- da maravilhosa culinária). Recentemente, ploração de partes da África e da Ásia, o
xcedível Rosalía de Castro (1837-1885), a convite do Conselho de Cultura Gale- Reino da Galiza submergia nos chama-
«traduzidos» por Ecléa Bosi. Mas, na oca- ga, órgão ligado ao governo local, partici- dos «séculos escuros».
sião, não me ative ao fato de que ela es- pei, junto com outros colegas brasileiros Assim, num gesto de humildade,
crevia em galego – língua, para nós, no (a cineasta Tata Amaral, o editor Samuel para sanar nossa dívida com a Galiza, po-
Brasil, conhecida apenas por estar presen- León, a professora Yara Frateschi Vieira, deríamos prestar atenção nos esforços
te no cancioneiro dos Séculos XIII e XIV, o maestro Roberto Lazzarini e o jornalis- que vêm sendo feito institucionalmente
e, portanto, considerada tão extinta ta Raul Juste Lores), de um seminário so- para, embora reconhecendo a região
quanto o latim... bre «Estratégias Culturais da Galiza no como parte integrante e indivisível da Es-
Por isso, surpreendi-me ao caminhar Brasil», mais um esforço no sentido de panha, ver-se reconhecida como membro
pelas ruas medievais de Santiago de ver incorporada aquela região no univer- de primeira hora da comunidade lusófo-
Compostela e me deparar com uma lín- so da lusofonia. na. Com isso, ganharíamos todos.

África21– setembro 2009 61


escravatura

O espelho quebrado
Desde 2001, data em que as Nações Unidas qualificaram o comércio
negreiro de «crime contra a humanidade», que a memória do «infame
comércio» tem vindo a ocupar o lugar que lhe corresponde na história
de três continentes: África, América e Europa, que organizou o tráfico
à escala industrial e amealhou a maior parte dos lucros

Nicole Guardiola

A s comemorações deste ano do Dia In-


ternacional em Memória da Escravatura
e do Tráfico Negreiro, celebrado a 23
de Agosto, ganharam uma dimensão especial com
em Março de 1998 à África. O seu sucessor, Geor-
ge W. Bush, qualificou o tráfico negreiro como «um
dos maiores crimes da história» ao visitar a ilha Go-
ree, no Senegal, em Julho de 2003.
“ Os europeus
são reticentes
nos pedidos
a eleição de Barack Obama à Presidência dos Es- O Papa João Paulo II e o Presidente brasileiro de desculpa ,
tados Unidos. Durante a sua primeira visita ofi- Lula da Silva também pediram perdão a África. Já
cial a África, em Julho, Obama foi com a família os europeus são mais reticentes, receosos talvez de
receosos de que sirvam
visitar o Forte de Cape Coast, no Gana (constru- que o arrependimento sirva de pretexto para os afri- para os africanos
ído em 1653 por mercadores suecos, Cape Coast canos pedirem reparações financeiras. A França foi pedirem reparações
foi um dos mais importantes entrepostos de escra- a primeira a dar o passo em 2001, com a aprovação


vos da antiga Costa do Ouro). A imprensa ganen- da Lei Taubira, que reconhece que «o tráfico negrei- financeiras
se destacou a simbologia do «regresso» de Michel- ro transatlântico e no Oceano Indico e a escravatu-
le Obama, bisneta de escravos, hoje primeira-da- ra praticada a partir do Século XV nas Américas e
ma da Nação mais poderosa do mundo, e o Presi- Caraíbas (…) constituem um crime contra a huma-
dente norte-americano, que não é um descenden- nidade». Em 2006, o então Presidente Chirac insti-
te de escravos, salientou a importância da visita tucionalizou o 10 de Maio como o Dia Nacional da
para as filhas Malia e Sasha não esquecerem que Memória da Escravatura e da sua abolição.
«a História pode tomar formas muito cruéis», mas
também «a coragem de tanta gente, brancos e ne- Portugal a contra-corrente
gros, que lutaram para abolir a escravatura».
Pouco antes, o Congresso dos Estados Unidos Os principais portos negreiros da Europa, Nantes
tinha aprovado por consenso e aclamação um pedi- e Bordéus em França, Liverpool e Bristol no Rei-
do formal de desculpas aos negros americanos, em no Unido, já dispõem de núcleos museológicos
nome de todo o país, pela escravidão e a segregação que retratam a importância do comércio dos es-
racial. Uma votação considerada «histórica»: nunca cravos no seu desenvolvimento. Só Portugal con-
os EUA tinham pedido desculpas formais às vítimas tinua de costas voltadas para este elemento funda-
da escravatura, apesar de o ex-Presidente Bill Clin- dor da sua identidade. Em Lisboa, apenas a topo-
ton ter «lamentado» a prática durante uma viagem nímia (Travessa do Poço dos Negros, Rua das

62 setembro 2009 – África21


intitulada «As Sete Maravilhas de origem portu-
guesa no mundo ignoram a história da escravatu-
ra e do tráfico negreiro». Eram especificamente
referidas a Fortaleza da Cidade Velha, em Cabo
“ O Brasil
já desenvolve
uma oferta turística
Verde (entretanto inscrita ao Património Mun- inteiramente
dial da UNESCO), Luanda, a Ilha de Moçambi-
baseada
que e o Castelo de São Jorge da Mina, no Gana.
Sobre este último «chegou-se ao cúmulo de afir- na memória


mar que este local foi entreposto de escravos so- da escravatura
mente a partir da ocupação holandesa em 1637»,
acusavam os signatários.
«Desde a sua construção, em 1482, a fortaleza
de São Jorge de Mina foi um centro de tráfico de
escravos (...) e os portugueses mantiveram o tráfi-
co negreiro na Mina até 1519, e a partir desta data
através da ilha de São Tomé», precisou o Professor
Gerhard Seibert, do Instituto de Investigação
Cientifica Tropical de Lisboa, numa carta aberta
Leva de escravos no interior de África (gravura séc. XIX)
ao Le Monde Diplomatique. Segundo o professor
Pretas) evoca ainda a presença passada de muitos Seibert, «não se entende que 35 anos depois do 25
africanos escravos, que impressionou todos os es- de Abril se recorra, em Portugal, a estes métodos
trangeiros que a visitaram no Século XVIII. de negacionismo (…)» e a pretensão «do Governo
Na cidade algarvia de Lagos, onde se realizou de José Sócrates de criar um centro cultural africa-
em 1465 o primeiro leilão de pretos, a Câmara no em Lisboa para reforçar a ideia de Portugal ser
disputa com o Estado Maior do Exército o usu- uma ponte privilegiada entre Europa e África (ver
fruto do edifício conhecido como o antigo Mer- África21, edição de Janeiro 2009) teria muito mais
cado dos Escravos, onde pretende criar um centro credibilidade se Portugal assumisse toda a sua his-
de interpretação do tráfico de escravos, integrado tória em relação a África e aos africanos, sem apa-
na Rota do Escravo, patrocinada pela UNESCO. gar a sua participação no tráfico de escravos»
É neste contexto que surgiu a polémica gerada «Propor tais lugares como emblemas da influ-
pelo concurso televisivo «As sete maravilhas de ência portuguesa no Mundo é um sinal lamentá-
origem portuguesa no mundo», que incluiu entre
os 27 monumentos sujeitos à votação popular vá- Alegoria à abolição da escravatura, pintura de F. Biar, 1848, Museu de Versalhes

rias das fortalezas construídas pelos portugueses


em África, e que fazem parte dos «lugares da Me-
mória» inventariados pelo Comité Português da
Rota do Escravo. O aval dado por instituições po-
líticas e académicas portuguesas e o empenho da
televisão estatal converteram um mero diverti-
mento em acontecimento nacional, com epílogo
a 10 de Junho, festa nacional «de Camões e das
comunidades portuguesas».
A omissão, deliberada ou não, do passado de
dor, violência e humilhação que estes lugares evo-
cam para os africanos e afro-americanos foi de-
nunciada por um grupo de 18 historiadores de
oito países, que lançaram na internet uma petição

África21– setembro 2009 63


culpas (reclamado pelo ex-Presidente Chissano
aquando do seu Doutoramento Honoris Causa
pela Universidade do Minho em 2005), o tabu
que a escravatura ainda constitui em Portugal e
que contaminou parte da intelectualidade africa-
na lusófona, pode fazer perder excelentes oportu-
nidades de negócios.
Outros países da costa ocidental de África já
estão a explorar este «mercado da saudade» junto
das diásporas afro-americanas, dos EUA ao Brasil
passando pela Jamaica. Há agências especializa-
das na organização de African Tours e empresá-
rios «retornados» que desenvolvem hotéis e servi-
ços mais adaptados às expectativas de turistas
americanos. O Brasil, depois de integrar a gastro-
nomia, a música, o camdomblé e a capoeira no
seu cardápio turístico, está a desenvolver uma
Captura de escravos numa gravura do séc. XIX oferta turística inteiramente baseada na memória
da escravatura, das roças e engenhos às minas e às
vel de insensibilidade cultural e moral, bem como comunidades quilombolas, para não falar no êxi-
de uma visão rasca e medíocre da História de Por- to de series televisivas como «Dona Chica» ou «A
tugal» comentou, pelo seu lado, o historiador luso escrava Isaura».
António Hespanha. «Quem se orgulha da nossa E é só o começo: por 350 dólares é possível
história de descobridores e parteiros de uma pri- para um afrodescendente residente em qualquer
meira globalização, não ignora que na coloniza- parte do mundo obter, via internet, um teste de
ção portuguesa, como nas outras, houve muito de ADN que identifique a etnia ou a região de Áfri-
violência, ao lado de actos de admirável valor hu- ca de onde partiram os seus antepassados, e são
mano. Devemos assumir essa violência como um cada vez mais numerosos os que se deixam sedu-
facto histórico passado, a ser lembrado e estuda- zir por esta proposta de regresso às origens, sinal
do, a bem do rigor histórico, mas também pela forte e relativamente recente de «reconciliação»
carga ética de que é portadora a memória de um das diásporas com a «Mãe África», que levou Lula
trato repugnante», acrescentou Hespanha. a reivindicar par o Brasil o estatuto de «segundo Fortaleza de S. Pedro
da Barra de Luanda,
As críticas foram rejeitadas pelos organizado- maior país africano». fotografia do início
do séc. XX
res do evento, e a petição recolheu 778 assinatu-
ras, uma gota de água face às cerca de 350 mil en-
tusiastas que participaram no concurso. Os con-
testatários foram acusados de «anti-portuguesis-
mo primário», e o Professor Boaventura de Sousa
Santos de «padecer de tiques neo-marxistas dos
anos 60» por diagnosticar nos seus pares uma
«percepção selectiva da história».

O mercado da saudade

À margem do debate, sempre adiado, sobre os te-


mas centrais da história de Portugal e da lusofo-
nia, e de um improvável pedido público de des-

64 setembro 2009 – África21


África21– setembro 2009 65
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setembro 2009 – África21
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ÁGUAS CORRENTES
CORSINO TOLENTINO

Queridos Estados
Unidos de África
A através do ministério dos
Negócios Estrangeiros e da
Universidade Cheihk Anta
Diop, o Presidente do Senegal, Abdoulaye
Wade, reuniu no hotel Mérien-Président
regresso à realidade com uma meia dúzia
de perguntas simples.
As línguas de origem africana e as ou-
tras. Sendo verdade que nos entendemos
em línguas de origem africana e em línguas
“ Se os senhores comissários
sabem que provocam
riso quando anunciam
as moedas únicas para datas
de Dacar, de 27 a 30 do passado mês de de origem estrangeira, que hoje são igual- improváveis, porque insistem
Julho, umas três centenas de intelectuais, mente nossas, vejam-se o árabe, o espanhol,
na desacreditação das suas
políticos e representantes de movimentos o francês, o inglês e o português, será hones-


associativos vindos de países africanos e da to e eficaz pensar o futuro da nossa região instituições?
diáspora para falar dos caminhos dos Esta- fingindo esquecer alguns dos instrumentos
dos Unidos de África. mais valiosos da construção nacional e da bral, com aquela de a língua portuguesa
Temas atraentes não faltaram: Fede- integração regional, que são estes idiomas? ser a melhor herança do sistema colonial e
ralismo e Soberania dos Estados, Cultura Não deveríamos valorizar inequivocamente a necessidade de pensarmos com a nossa
e Línguas Nacionais, Diáspora e Socieda- o princípio cientificamente provado da própria cabeça, dei um pequeno impulso
de Civil ou Diásporas Negras no Mundo compatibilidade entre o exercício do direito para sairmos do caminho da fuga em fren-
e Emergência de uma Comunidade Polí- à educação na língua materna e o uso das te, reafirmando, ao mesmo tempo, o dever
tica Africana. O local, comparado com a línguas de comunicação nacional e interna- e a utilidade da participação de Cabo Ver-
média da existência africana, era paraíso cional, seja qual for a sua origem? de no debate africano.
na Terra. Num espaço de 5 estrelas, boa A moeda única e a experiência das co- Outros temas inscritos para outros de-
gente começou a dissertar sobre coisas munidades económicas regionais. A análise bates foram a confusão entre África e Áfri-
mais ou menos mirabolantes: governo dos processos de integração através das sete ca Negra quando da Diáspora e da União
africano já; swahili, língua única no hori- regiões prova sem margem para dúvida que se fala, a democracia e a justiça como con-
zonte de uma década; banco central e África não terá moeda única antes de 2030. dição da integração regional para o desen-
moeda única até 2020. Se os senhores comissários da União Africa- volvimento e a promoção da educação e
Os imediatistas apoiantes de Mouha- na e das CER (comunidades económicas da ciência como via para preencher o nos-
mar Khadafi e Abdoulaye Wade pensam regionais) sabem que provocam riso quan- so grande défice de conhecimento
que melhor é não perder tempo com os do anunciam as moedas únicas para datas O grande rendez-vous terminou com
gradualistas do tipo Jacob Zuma ou José improváveis, porque insistem na desacredi- dois resultados positivos: (i) a não Declara-
Eduardo dos Santos, formar um pelotão tação das respectivas instituições? ção de Dacar em louvor dos Estados Uni-
de vanguarda, avançar para os EUA, talvez O paternalismo tradicional e a inde- dos de África de cima para baixo; (ii) um
sob o comando do Rei dos Reis, e logo se pendência intelectual. Perguntei aos aca- pelotão de vanguarda sim, mas se for for-
verá. O ambiente é pesado, porque o jogo démicos, que eram a maioria dos partici- mado por Estados comprovadamente de
parece viciado e por tradição os africanos pantes, se a nossa independência está ao Direito Democrático. E foi assim que, pela
não gostam de dizer certas verdades na serviço de África ou de quem teve o méri- estrada larga do Conhecimento e da Demo-
cara do anfitrião. Eu estava lá e resistindo to e os meios para nos reunir. Apesar de tí- cracia, académicos e políticos se aproxima-
mal à tentação de partilhar a minha parte mida, a resposta foi afirmativa e creio que, ram para pensar o futuro comum no respei-
da verdade com quem me escuta, sugeri o inspirado pela sabedoria de Amílcar Ca- to das respectivas funções e legitimidades.

África21– setembro 2009 67


CPLP

Os avanços e recuos
da cidadania lusófona
PAULO NOVAIS/LUSA

N as vésperas da campanha
para as legislativas e autárqui-
cas deste ano em Portugal, o
Partido Socialista (PS) anunciou no seu
programa eleitoral que irá diligenciar no
O projecto de criação do Estatuto de Cidadão Lusófono
é uma ideia que antecede a recente proposta do Partido
Socialista português, entretanto já adoptada por Cabo
Verde e seguida pela Guiné-Bissau. A livre circulação
sentido da criação do Estatuto de Cidadão
da Comunidade dos Países de Língua Por-
tem sido uma matéria polémica debatida ao longo de anos.
tuguesa, aquilo que considera ser um novo João Carlos
conceito de cidadania. O projecto, que faz
parte do Programa de Governo do PS, vai dos cidadãos, especialmente no tocante à provocar várias reacções na sociedade por-
permitir que os cidadãos dos países lusófo- reciprocidade de direitos». Os socialistas tuguesa, sobretudo do ministro português
nos se possam deslocar livremente pelos portugueses também querem com isso dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado,
Estados-membros da Comunidade. aproximar os cidadãos pelos aspectos cul- e de alguns dos principais da oposição,
De forma clara, o documento refere turais e afectivos, mas também estimular após a publicação de um artigo sobre a
que é necessária «uma actualização de a cooperação entre si. matéria no jornal Diário de Notícias.
acordos para concessão de vistos, de mol- No entanto, no seu discurso de 28 de De acordo com alguns observadores,
de a que os cidadãos lusófonos possam vi- Julho último para a apresentação do Pro- a aplicação da proposta do PS poderá co-
venciar efectivamente as condições de grama Eleitoral do seu partido, o líder nhecer entraves tendo em conta a eventu-
pertença a uma mesma língua e a um socialista, José Sócrates, não proferiu al conflituosidade com os estatutos do
mesmo espaço comunitário». E diz mais: nenhuma palavra sobre este tema. Na Tratado de Schengen, que define os parâ-
«a criação de um Estatuto do Cidadão da mesma altura, a proposta do PS, inscrita metros da livre circulação de pessoas e
CPLP corresponderá à maior ambição no capítulo da política externa, chegou a bens na União Europeia. Mas o secretário

68 setembro 2009 – África21


O TABU DA LIVRE CIRCULAÇÃO

TIAGO PETINGA/LUSA
Domingos Simões Pereira, secretário executivo da CPLP, considera em declarações à África21, que o
projecto da livre circulação acaba por «mexer com os ordenamentos jurídicos nacionais». Um acto que
obriga cada Estado a ter plena consciência das consequências desta opção. Uma das conquistas neste
processo foi a criação da Assembleia Parlamentar, em que os próprios presidentes dos respectivos ór-
gãos assumiram, por livre iniciativa, encetar esforços para que todos os parlamentos dos Estados da
CPLP promovessem uma revisão ou uma adaptação das suas leis fundamentais, de forma a não se criar
um obstáculo à aprovação da legislação necessária para se alcançar este objectivo, debatido com clare-
za e abertura. Reconhece, por isso, que «aqueles que colocam mais dificuldades [ao avanço do proces-
so] não o fazem apenas por falta de vontade política». Também o fazem, sublinha, movidos por razões
de credibilidade e de transparência.
Domingos Simões Pereira
É essa vontade política que permitiu «ultrapassar esse tabu», refere, acentuando o interesse de todos
em facilitar a circulação, tal como ficou expresso nas recomendações saídas no Conselho de Ministros da
Cidade da Praia. Simões Pereira entende que, a propósito de Schengen, o tema da «livre circulação», con-
siderado uma matéria sempre sensível, «não pode ser relegado apenas a Portugal». Porque, acrescenta,
«os nossos Estados, sobretudo os africanos, considerados os principais emissores de potencial imigrante,
têm que compreender que esse movimento tem de deixar de ser movido por razões ligadas à falta de liber-
dade e de oportunidade nos respectivos países. Ou seja, «enquanto o país europeu considerar que quem
vem de África está a fugir de uma situação de falta de oportunidade, ele vai tentar sempre se resguardar»,
afirma. Daí que os países africanos tenham também a responsabilidade de «arrumar a casa», embora tam-
bém considere já não ser muito compreensível «tanta restrição em relação a estes movimentos» de pesso-
as do espaço lusófono. «Deixa de ser aceitável dizer que a União Europeia é que não permite», sublinha,
acreditando, contudo, que os passos já dados possam levar os países membros a concretizarem aquilo
que é o desiderato de todos. JC

de Estado das Comunidades, António (CDS) recordam que o projecto lançado ordinária do Conselho de Ministros da
Braga, é peremptório ao afirmar que não pelo PS não é uma ideia nova. Na pers- CPLP, realizada em Julho deste ano na
há incompatibilidade entre a proposta do pectiva do PSD, trata-se de uma ideia Cidade da Praia, anunciou avanços no
PS e o Acordo de Schengen, afirmando que tem vindo a ser debatida a nível da que toca a matérias sobre Cidadania e
que o maior desafio será a entrada em vi- CPLP, e que só não foi por diante por- Circulação no espaço lusófono, depois
gor da ideia pelo Governo que sair das que nalguns aspectos entra em conflito do consenso técnico conseguido na reu-
eleições legislativas de 27 de Setembro. com as regras da convenção de Schen- nião do GTA/CC que decorreu a 9 e 10
Para os comunistas (PCP), a propos- gen. Por outro lado, defende o CDS, a de Julho último, em Lisboa.
ta contradiz o que o PS tem vindo a fazer sua concretização não depende apenas Fruto dos esforços desenvolvidos por
a nível interno e na UE, indicando, entre de Portugal. Terá de envolver os outros este Grupo de Trabalho ao longo dos úl-
outros exemplos, a recente decisão de es- países da CPLP. timos anos, os Oito têm conseguido um
tabelecer quotas na admissão de imigran- consenso mais alargado relativo ao con-
tes. O Bloco de Esquerda considera que o Debate começou em 2000 ceito de Cidadão Lusófono e aos impera-
projecto do Governo é compatível com tivos da facilitação da circulação no espa-
as obrigações ao abrigo de Schengen, mas Na linha destas reacções, África21 pro- ço da CPLP. Um dos instrumentos já
lamenta que o Governo nunca tenha curou saber junto da Organização Lusó- elaborados para o efeito, agora submetido
abordado a questão durante o seu primei- fona o que tem sido feito neste domínio à apreciação dos Estados-membros, é o
ro mandato e que ainda existam muitos nos últimos anos desde que foi lançado o Projecto de Convenção Quadro relativo
imigrantes com sérias dificuldades para se debate em 2000, no Maputo, altura em ao Estatuto do Cidadão da Comunidade
legalizarem em Portugal. foi criado o Grupo de Trabalho Alargado dos Países de Língua Portuguesa – discu-
Tanto o Partido Social Democrata sobre Cidadania e Circulação no Espaço tido desde 2002 em Brasília – no qual se
(PSD) como os democratas-cristãos Lusófono (GTA/CC). A última reunião define, além dos direitos políticos, so-

África21– setembro 2009 69


“ Há consenso alargado entre os Estados-membros
da CPLP mas ainda falta muito para levar à prática
Secretariado terá de obter dos Estados-
‑membros as listas das respectivas entida-
des credenciadoras. São estas que irão


o estatuto de cidadão e a livre circulação certificar as categorias profissionais, de-
vendo as tais listas serem enviadas depois
ciais, económicos e culturais, um conjun- múltiplas entradas com a duração míni- aos Grupos CPLP locais para fazer a sua
to de normas para a sua introdução. ma de um ano. Em cada seis meses pode- validação. Numa fase seguinte, estas listas
No Secretariado da CPLP, em Lisboa, rão permanecer 90 dias em qualquer dos serão distribuídas a todas as estruturas lu-
a ideia da facilitação da circulação de de- outros países da Comunidade. sófonas ligadas às questões de imigração e
terminadas categorias profissionais já não Para Hélder Vaz, director executivo fronteiras, que terão por incumbência a
é tomado como um «calcanhar de Aqui- da CPLP, significa uma ampla facilitação concretização das medidas de facilitação
les» nos debates do grupo. Estão defini- da circulação. «Não se trata da liberdade da circulação. Não há um prazo estabele-
das as tais categorias, que abarcarão de circulação como a que existe no seio cido, mas admite-se que, feitos os acertos,
homens e mulheres de negócios, profis- da União Europeia», precisa. Vaz consi- dentro de poucos meses este ciclo possa
sionais liberais, estudantes, cientistas, dera ser este o passo possível, que carecia ficar concluído.
investigadores, pesquisadores, desportis- de definição de instrumentos e procedi- Por outro lado, se não houver qual-
tas, jornalistas, agentes de cultura e artis- mentos práticos para a sua concretização. quer objecção ao texto da Convenção
tas, os quais, ao abrigo do acordo de Nos próximos meses, o Grupo de Quadro relativo ao Estatuto do Cidadão
2002 (aprovado na cimeira de Brasília e Trabalho e a CPLP trabalharão em ter- da CPLP, o documento poderá ser reme-
ratificado ao longo dos anos pelos Esta- mos práticos para a entrada em vigor dos tido ao próximo Conselho de Ministros
dos-membros) terão direito a vistos de respectivos mecanismos. Antes disso, o para aprovação final.

70 setembro 2009 – África21


África21– setembro 2009 71
insumos

Cem milhões em 2010 para censo angolano

arquivo áfrica21
O Governo angolano recomendou a consagração de verbas no Orçamento Geral do Estado
(OGE) para 2010, destinadas à preparação do recenseamento da população e da habitação em
Angola. De acordo com a ministra do Planeamento, Ana Dias Lourenço, o Executivo orientou o
Instituto Nacional de Estatística a prosseguir as acções preparatórias do censo, que, de acordo com
as previsões, custará ao Estado 100 milhões de dólares. Trata-se de uma operação estatística «com-
plexa e dispendiosa», cuja preparação leva entre três a cinco anos. O objectivo é saber «quantos so-
mos, onde estamos, como vivemos e quem somos», disse a ministra, acrescentando que no próxi-
mo ano entrará em funções o órgão com responsabilidade para a coordenação e organização desta
operação. Os trabalhos preparatórios incluem a aprovação do pacote legislativo sobre a matéria,
realização da cartografia censitária, em curso, e a preparação dos recursos humanos.

Cinco milhões de dólares para turismo Moçambique investe


em Inhambane na exploração de petróleo
DR
O investimento na exploração de petróleo em
Moçambique vai ascender a 782,5 milhões de
dólares até 2011. Arsénio Mabote, presidente
do Instituto Nacional do Petróleo informou
que as projecções se baseiam no número de con-
tratos assinados entre o Governo e as dez empre-
sas petrolíferas que operam no país desde 2006.
Os últimos dados divulgados com base nas pes-
quisas sísmicas feitas até ao momento, apontam
O Banco Mundial (BM) disponibilizou cinco milhões de dólares para apoiar o para múltiplos pontos de elevado potencial no
sector de turismo na província moçambicana de Inhambane, sul do país. O onshore e no offshore, que serão perfurados a par-
montante, que deverá ser aplicado nos próximos cinco anos, destina-se a relan- tir do quarto trimestre deste ano. Um estudo de
çar o sector na província. De acordo com o governador de Inhambane, Francis- campo de 2007 na bacia do Rovuma apontava
co Itai Meque, os cinco milhões serão usados no apoio ao empresariado e no de- para a existência de potencial de petróleo em
senvolvimento da construção e reabilitação de infra-estruturas turísticas. quantidades passíveis de exploração comercial.
Inhambane, com uma costa com cerca de 700 quilómetros, é uma das provín- A pesquisa, encomendada pela Artumas e reali-
cias moçambicanas com maior potencial turístico, pois à beleza das praias jun- zada pela norte-americana Rose & Associates,
ta-se uma das melhores gastronomias nacionais e a simpatia das gentes. Recor- conclui que em quatro perfurações naquele
de-se que foi a Inhambane que Vasco da Gama baptizou de «Terra da Boa Gen- campo pode ser extraído petróleo em rama em
te», quando da sua passagem para a Índia. «quantidade comercial e não comercial», sem
O valor disponibilizado pelo BM vem animar os empresários que investem especificar a proporção de cada uma delas. Em
naquela parcela de Moçambique que, com a presente crise, alguns pensavam em Julho de 2005, o Governo lançou um concurso
abandonar. No ano passado, Inhambane, que conta com uma capacidade de alo- para a exploração de diversos blocos offshore na
jamento de dez mil camas, quase metade da capacidade do país, investiu 150 mi- zona conhecida como Bacia do Rovuma, rio
lhões de dólares no turismo. A procura desta província como destino turístico que separa Moçambique da Tanzânia. No final
tem vindo a crescer. A realização da Fase Final do Mundial de Futebol, na Áfri- do ano, a Anadarko Petroleum Corporation
ca do Sul, no próximo ano, alimenta também a expectativa de um significativo leva para operar em Moçambique o navio de
crescimento do sector. prospecção petrolífera, Belford Dolphin.

72 setembro 2009 – África21


Auto-suficiência angolana em óleo de palma

DR
Num prazo de cinco anos, Angola poderá alcançar níveis satisfatórios de produção de
óleo de palma, com vista a inverter a importação deste produto, actualmente calcula-
da em três mil toneladas de litros/ano. Os indicadores foram avançados recentemen-
te pelo Instituto Nacional do Café de Angola, cujo director-geral, João Ferreira da
Costa, afirmou em declarações à ANGOP que consta nas acções do INCA a recupe-
ração e o aumento da produção de óleo de palma, a entrega de instrumentos de tra-
balho a empresas agrícolas familiares, a disponibilização de vastas extensões de terra a
empresários e a criação de indústrias de transformação de dendém de médio porte.
Aquele responsável adiantou que as medidas incluem um programa de fomento
do café e do palmar inserido na carteira de projectos de impactos socioeconómicos do
Governo, no âmbito do Plano Nacional e no Programa Executivo do Sector Agrário.
Em função deste programa, serão concedidos cinco mil hectares a produtores da pro-
víncia do Bengo, quatro mil aos agricultores de Cabinda e três mil hectares aos restan-
tes agentes agrícolas das demais províncias do país, para o cultivo de dendém. O
INCA proporciona assistência técnica aos produtores e realiza acções de fomento da
produção de café, palmar e cacau. Por outro lado, no âmbito das suas actividades, o
Instituto pretende estabelecer protocolos de intenções com a Sonangol e a empresa
petrolífera espanhola ENI, para a prospecção e investigação do palmar angolano. Feijão dendém para a produção de óleo de palma

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África21– setembro 2009 73
Addax-Sinopec aumentam Angolanos tomam controlo
posição na ZDC da Air Gemini e Starfish
A petrolífera Addax vai passar a operar um segundo bloco

DR
petrolífero na Zona de Desenvolvimento Conjunto
(ZDC), entre São Tomé e Príncipe e a Nigéria. A empre-
sa refere que a compra à petrolífera Anadarko de mais
51% do consórcio que explora o Bloco 3 «intensifica a
presença nesta região de exploração de nível mundial e es-
timula significativamente a racionalidade económica da
posição, permitindo explorar esta riqueza com uma estra-
tégia sustentada de perfurações». Com a compra, a petro-
lífera passa a operadora do bloco, estatuto que já tinha no A Escom, cuja maioria do capital (66%) é detida pelo Grupo Espíri-
bloco 4 da ZDC. De acordo com uma informação divul- to Santo, cedeu as suas participações na Air Gemini (transporte aéreo
gada pela Addax, já foi recebida a plataforma de explora- de carga e passageiros) e Starfish (pescas) aos parceiros angolanos da
ção Deepwater Pathfinder, que vai sondar as águas do AMLD. Segundo informou o Novo Jornal, que tem a Escom como
Golfo da Guiné a grande profundidade. O primeiro alvo principal accionista, gestores e trabalhadores das duas empresas fo-
desta campanha na ZDC, (no bloco 4), recebeu o nome ram informados da transferência, que não deverá afectar o funciona-
de Kina, devendo seguir-se a zona Lembá, no bloco 3. mento de ambas.
Em Agosto, a chinesa Sinopec adquiriu a Addax e anun- A mesma fonte indicou que a Escom, que reforçou os investi-
ciou a primeira perfuração no Bloco 2 (Bomu-1), realiza- mentos em Angola nos dois últimos anos através do lançamento de
da através da plataforma Sedco-702, a uma profundidade novos projectos e da aquisição das participações que a multinacional
total de 3.536 metros. Os resultados deverão ser formal- australiana BHP Billiton detinha em 14 zonas diamantíferas, vai re-
mente anunciados no último trimestre do ano. De referir centrar as suas actividades, e investimentos, nos sectores imobiliário,
que a Addax participa igualmente no Bloco 1, operado energia (hidroeléctrica), agrícola (bananas para exportação em Ben-
pela norte-americana Chevron, que inaugurou os traba- guela e açúcar em Malanje) e materiais de construção (fábrica de ci-
lhos de exploração na ZDC há mais de três anos. mento do Lobito).

Cooperativa de palaiês são-tomenses


DR

A ONG Marapa, através do Programa de Apoio Participativo à Agricultura Familiar e Pesca Artesanal,
com financiamento do FIDA e do Governo são-tomense, criou uma fileira de comercialização de pesca-
do. O objectivo é valorizar o produto de pesca nas comunidades mais isoladas, onde a procura das espé-
cies nobres é baixa. Foi constituída uma cooperativa de palaiês (vendedeiras) de peixe fresco denomina-
da Copafreco que terá como função fazer a comercialização de pescado (fresco no gelo e salgado) e ain-
da diversificar os produtos oferecidos. Vão ser introduzidos produtos de valor acrescentado, nomeada-
mente bolinhos de peixe, produtos fumados e as bexigas-natatórias secas, segundo uma nota da Marapa.
Estas acções têm sido o foco da actividade institucional da ONG, estimulando o aproveitamento inte-
gral dos peixes com o objectivo de favorecer a melhoria nutricional das pessoas. Está também em curso
na Marapa, a execução do projecto de valor acrescentado financiado pela cooperação espanhola, que con-
siste na produção de alimentos derivados de peixe, como croquetes, pastas, entre outros, de forma a ga-
rantir à população produtos diversos transformados a partir do peixe e de muito boa qualidade. Em São
Tomé e Príncipe, o pescado constitui a primeira fonte de proteína animal consumida pela população.

74 setembro 2009 – África21


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África21– setembro 2009 75
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Gustavo Amador/LUSA
Manifestação anti-golpista em frente do Parlamento hondurenho

N
honduras ada fazia pensar, a 28 de Junho, que a América
Latina voltaria a ter um acontecimento daqueles, um

Experiência-piloto golpe de Estado, sangue e direitos arrasados, tão dolo-


rosamente comuns no século passado. Nesse dia, no Sul, a demo-
cracia tinha os seus marcos na Argentina e no Uruguai, onde se
elegiam legisladores e candidatos para as presidenciais. Mas na
Quando tudo parecia mostrar que depois madrugada desse domingo, quando os argentinos e os uruguaios
ainda dormiam, nas Honduras, coração da América Central, os
de um século de turbulências a América
comandos militares entravam com a bestialidade que os distingue
Latina começava a consolidar em casa do presidente constitucional, Manuel Zelaya, e a pontapés,
a sua institucionalidade, um golpe de Estado meteram-no num avião que o depositou na vizinha Costa Rica.
Não foi o primeiro golpe de Estado do século, mas foi o que inau-
acabou com o Governo das Honduras.
gurou uma nova modalidade. Foi uma experiência-piloto que, por
O que se atacou era um esboço de uma nova ter resultado, coloca um grande ponto de interrogação sobre o
forma de entender a democracia. futuro da institucionalidade dos 37 países da América Latina e
das Caraíbas.
Manrique S. Guadin BUENOS AIRES Com quase trezentos golpes de Estado na sua sangrenta his-
tória, a região conheceu ditadores chegados para defender mul-
tinacionais da banana e do cacau, grandes empresas mineiras
ou petrolíferas, donos de terras ou bancos. Chegaram sempre
com o mesmo pretexto: libertar o país em causa de um suposto

76 setembro 2009 – África21


maléfico inimigo, identificado como tal apenas por ter denun- micos, os pequenos caudilhos locais, a imprensa e o Supremo
ciado os saqueadores das suas matérias-primas, das riquezas do Tribunal de Justiça (cujos membros foram designados em tempos
solo e do subsolo e também das esperanças e vidas das suas gen- de duvidosa democracia), algo terá feito Zelaya para que todos se
tes. Sempre chegaram da mesma forma: arrasando as institui- voltassem de repente contra ele, contra o modelo democrático tra-
ções, os partidos políticos e os sindicatos. Milhares de vidas. O dicional e contra os sectores populares que não foram os que o le-
que hoje ocorre nas Honduras é diferente. O golpe foi em de- varam ao Governo, mas que pouco a pouco se foram juntando ao
fesa de interesses determinados e precisos, mas o que se atacou seu projecto político. E algo fez Zelaya: tocou nos interesses de to-
foi o esboço de uma nova forma de entender a democracia, dos, incluindo os seus velhos amigos e sócios, porque não nos po-
com a participação dos cidadãos na concepção das políticas. demos esquecer que Zelaya é latifundiário, um dirigente do velho


A história mostra que para ha- e conservador Partido Liberal e que
ver um golpe tem que existir pri- Quando começou a sua metamorfose antes de chegar ao Governo fora
meiro um pretexto que permita ex- política, Zelaya gerou uma aluvião presidente do poderoso Conselho
plicar o inexplicável, uma série de Hondurenho da Empresa Privada.
grupos coligados para fazer frente à de feitos que escandalizou aqueles Em 2007, quando começou a


resistência popular e, por último, que tinham sido os seus apoiantes sua metamorfose política, Zelaya
um forte apoio exterior que assegu- disse que aderia «às ideias do libera-
re a sobrevivência desse regime malnascido. Nas Honduras, apa- lismo socialista para que todos os benefícios do sistema atinjam
rentemente, apenas se cumpriu o segundo dos critérios. O pretex- quem mais deles necessita: mulheres, crianças, idosos, trabalhado-
to foi mentiroso, como sempre, mas também foi estúpido: segun- res da cidade, camponeses e produtores».
do os pequenos ditadores nascidos no golpe, Zelaya tinha mostra- Em consequência, gerou uma aluvião de feitos que escandali-
do «intenções» de perpetuar a sua permanência no Governo. O zou aqueles que tinham sido os seus. Com uns – produção própria
apoio externo foi inexistente: com maior ou menor intensidade foi de medicamentos sem atender aos direitos de patente internacio-
repudiado por todos os governos latino-americanos, pelos EUA, nais, subsídios aos combustíveis, créditos com juro baixo para a
Organização dos Estados Americanos (OEA), União das Nações construção de habitações populares ou para as pequenas empresas,
Sul-Americanas (UNASUR), Nações Unidas e União Europeia aumento de 50% do salário mínimo, ataque à evasão fiscal – pene-
(UE). Além de não ter tido apoio, teoricamente, também não tem trou na política de redistribuição das receitas. Com outros apontou
qualquer crédito. contra a essência do modelo neoliberal que imperava no país: sus-
pendeu o processo de privatização do sistema de saúde e das em-
O pretexto dos golpistas presas do Estado (energia eléctrica, portos, telecomunicações); pas-
sou a fazer parte da Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA),
A 28 de Junho devia ter-se realizado uma consulta popular. Na uma entidade supranacional formada com Cuba, Venezuela, Ni-
realidade, um inquérito de opinião. Zelaya queria perguntar ao carágua, Equador e Bolívia; integrou a Petrocaribe, uma iniciativa
povo se concordava que, a 29 de Novembro, dia das eleições pre- dos países das Caraíbas que lhe permitiu romper com as multina-
sidenciais, se colocasse uma urna especial para que cada cidadão cionais do sector e aceder ao crude venezuelano em condições pre-
pudesse dizer se aprovava uma nova consulta para eleger uma As- ferenciais (pagamento de 50% a 90 dias e o resto a 25 anos, com
sembleia Nacional, que se encarregaria de reformar a Constituição, uma taxa de juro de um por cento anual).
com o fim de abrir um espaço de participação, consulta e decisão Em 2009, quando lançou a ideia da sondagem, o presidente
sobre aspectos da vida do país dos quais a população está excluída. fechava um processo atípico de conversão ideológica e confessava
Ou seja, tratava-se de uma pergunta sobre a eventualidade de fazer publicamente: «Pensava fazer todas as transformações dentro do
outra pergunta. Apenas isso. A Assembleia Constituinte só se faria esquema neoliberal, mas os ricos não cedem em nada, querem
quando Zelaya já não estivesse no Governo. O que quer dizer que tudo para si próprios. Então, logicamente, para fazer mudanças há
não haveria a possibilidade de uma reeleição, embora os media te- que incluir o povo».
nham dito que esse era o motivo do Presidente, dando aos golpis-
tas o único, pobre pretexto esgrimido para atacar as instituições. Incrível e inquietante, diz Lula
É preciso procurar motivos noutro lugar, porque seria inédito
que se tivesse dado um golpe de Estado só para se evitar uma son- Se não têm apoios nem têm crédito, como se mantêm os golpistas
dagem. Se quem apoia os ditadores são os grandes grupos econó- no poder? Além de mostrar que para subsistir qualquer golpe deve

África21– setembro 2009 77


“ As respostas para inverter o golpe estão
nos Estados Unidos, mas as boas intenções
de Obama chocam com os interesses
«Se os Estados Unidos quisessem acabar com os golpistas
fá-lo-iam em cinco segundos», disse Zelaya. A relação econó-
mica é de uma dependência quase absoluta: o grande país ab-
sorve 70% das exportações de bananas, café e açúcar; 96% da


de fortes lóbis ” indústria hondurenha e 40% das embaladoras são de capitais
norte-americanos; dos Estados Unidos chegam todos os anos
2900 milhões de dólares nas remessas que os emigrantes en-
viam às suas famílias. Como disse Zelaya, bastaria uma simples
contar com apoio externo, a história latino-americana diz expressa- ameaça de sanção para que a ditadura se desmoronasse.
mente que esse apoio deve ser o dos Estados Unidos, a potência do- Porque é que Obama não actua neste sentido? As respostas pa-
minante. Quando a 20 de Janeiro deste ano Barack Obama pôs fim rece tê-las o Departamento de Estado, quando, na voz da sua titu-
à permanência republicana na Casa Branca, disse que queria recom- lar, Hillary Clinton, explicou à Comissão de Relações Exteriores
por as relações com a América Latina. Deu alguns passos positivos do Senado que «recusamos a possibilidade de aplicar sanções por
no que diz respeito a Cuba – embargada economicamente desde respeito ao princípio de não intervenção», e justificou elipticamen-
1961 – e votou na OEA uma resolução amistosa dirigida ao Gover- te o golpe ao dizer que «antes do seu afastamento [Zelaya] fez uma
no socialista de Havana. Mas a crise das Honduras está a mostrar, e série de acções provocadoras» e que a sua tentativa de regressar ao
a provar, que Obama não é os Estados Unidos e que nos EUA exis- país foi uma «acção prematura e imprudente». Algo como a vítima
tem elementos de poder dispostos a bombardear as suas melhores transformada em atacante.
intenções. A 15 de Agosto, depois de receber Zelaya, o Presidente O certo é que Obama está de mãos atadas e o seu Governo
brasileiro Lula da Silva revelou algo «incrível e inquietante»: antes nem sequer admitiu oficialmente que o ocorrido a 28 de Junho nas
de tomar a rota da Costa Rica, o avião em que os golpistas levaram Honduras foi um golpe de Estado. Se o fizesse, as sanções seriam
o presidente do país «fez escala numa base militar dos EUA». automáticas e o fim dos ditadores uma consequência imediata.

MÁRIO LOPEZ/LUSA

Se os EUA quisessem acabar com os golpistas fá-lo-iam em cinco segundos, diz Zelaya

78 setembro 2009 – África21


África21– setembro 2009 79
livro do mês

O Eleito do Sol, de Arménio Vieira

Alegoria do Poder
e do Saber
Um livro que inaugurou novas vertentes
temáticas e formais na prosa cabo-verdiana
instaurando um discurso transgressor em
relação aos poderes instituídos O Eleito do Sol
Arménio Vieira
Rodrigues Vaz Vega, Lisboa

E
m Junho, quando ao poeta cabo-verdiano Arménio Egipto dos faraós, tem a ver sobretudo com os nossos tempos,
Vieira foi atribuído o Prémio Camões, uma espécie na África eterna, mas também nas chamadas democracias oci-
de Nobel da Lusofonia, já quase ninguém se lembra- dentais, onde a hipocrisia reina e o egoísmo mina todos os
va do seu livro, O Eleito do Sol, que a editora Vega tinha publi- princípios morais e éticos.
cado em 1992, pela mão da Ana Mafalda Leite, na colecção Partindo de uma narrativa natural e laboriosamente fluen-
que ali dirigiu, «Palavra Africana», que foi ficando nas pratelei- te que vai jogando com vários cânones da tradição universal,
ras, praticamente esquecido. das lendas europeias (a história do Capuchinho Vermelho, por
O galardão premiava aliás o conjunto da sua obra, essen- exemplo) às fabulosas estórias árabes (as Mil e uma Noites) e
cialmente poética, e não um livro determinado, pelo que se aos contos-provérbios africanos, Arménio Vieira constrói uma
compreende que a sua estreia na ficção tivesse continuado no obra quase perfeita, ao mesmo tempo surrealizante e realista,
limbo. Bem andou, portanto, a Nova Vega, que recuperou do picaresca e séria, enriquecida por uma imaginação notável,
armazém esta obra-prima de Arménio Vieira, permitindo que quase sem limites, servindo-se essencialmente do padrão da
déssemos conta do erro em que incorremos ao não repararmos conhecida boneca russa Matrioska, que, à medida que se des-
nele como de facto merecia, ao mesmo tempo que descobri- monta uma, outra aparece ainda mais deslumbrante, assim até
mos um poderoso manejador da Língua Portuguesa. ao infinito.
Com uma obra que – como diz Fátima Fernandes, docen- E mais ainda. Quando o protagonista enfrenta o poder,
te de Estudos Cabo-verdianos e Portugueses da Universidade sob qualquer forma, o autor utiliza sempre dois planos: o que
de Cabo Verde e investigadora de literatura cabo-verdiana – se diz e o que se pensa, permitindo a reflexão sobre a efemeri-
«pela diversidade em que ela se desdobra e pela complexidade dade do poder e os seus enganos, porque afinal tudo é aparên-
com que se permite o questionar da colocação do homem no cia no jogo de espelhos que se vão reflectindo indefinidamen-
espaço universal, bem como pela representação estética que te, mas que só levam ao nada, ao esquecimento.
delineou o emergir de uma Literatura nova, pujante e inquiri- Como salienta José Luís Hopffer Almada: «Tal como na
dora, representa, desde as suas primeiras manifestações, a con- poesia, também nesta prosa Arménio Vieira caustica os pode-
solidação do processo de afirmação estética e identitária cabo- rosos e a transitoriedade do seu poder, mediante a repertoria-
verdiana». ção da vida e obras do escriba egípcio, enquanto símbolo do
Febricitante fábula sobre o poder absoluto, os abusos do poeta-parente do gato e do intelectual-detentor do saber».
poder e os meandros da tirania e, ao mesmo tempo, uma des- Razão tem o linguista Manuel Veiga quando diz que O
montagem das fraquezas que são a sua causa, O Eleito do Sol, Eleito do Sol consagra Arménio Vieira como ficcionista, «não
primeira obra do agora laureado com o Prémio Camões, é, an- um qualquer ficcionista, mas um ficcionista de ruptura. Atra-
tes de mais, uma poderosa sátira que, apesar de localizada no vés dos seus poemas, ele nos tinha já habituado a uma certa

80 setembro 2009 – África21


‘dissidência literária’. Com O Eleito do Sol, essa ‘dissidência’ o Forte de Karnak, um verdadeiro inferno, ao qual nem sequer
conquista o estatuto de maioridade e reclama o direito a uma falta uma tortura especialmente concebida para os intelectuais
identidade própria». (o «gongue de bronze»), mas que se transmuta num «atelier de
Mas porquê um autor dissidente? Para Arménio Vieira, ex- criação e de exercício de sagacidade e amor por parte do escri-
plica Manuel Veiga, «os tempos são outros e a literatura tam- ba». («A alegoria do Poder e do Saber em o O Eleito do Sol, de
bém tem que ser outra. A temática do terra-longismo, da ma- Arménio Vieira) in A Sementeira, Edições ALAC, Linda-a-Ve-
mãe-terra, da chuva-madrasta e braba, do mar prisão-liberda- lha, 1994, também incluído em Cabo Verde, Insularidade e Li-
de, da seca-malfadada, da fome-ingrata e da ‘lei’ que manda teratura (coordenação de Manuel Veiga), Karthala, 1998).
fincar os pés no chão, já teve o seu tempo». Segundo Fernando J. B. Martinho, a imagem do «poeta»
Efectivamente, este livro de Arménio Vieira inaugurou no- que se desenha na obra do autor «muito tem a ver com toda
vas vertentes temáticas e formais no panorama da prosa cabo- uma tradição cultivada nos últimos séculos – a tradição do po-
verdiana, instaurando um discurso transgressor em relação aos eta inconformista, rebelde, irreverente, louco, e, enfim, maldi-
poderes instituídos, realizando uma estranha e surreal alegoria to». Postura que lhe vale, nas palavras do poeta cabo-verdiano
onde a figura de um escriba egípcio atravessa os trilhos do tem- Jorge Carlos Fonseca, a designação de «Irreverente, indomável
po em demanda crítica do onirismo mais vital. Beleza e cruel- espadachim da sorte e da morte, poeta de vento sem tempo».
dade, saber e poder, ambição e despojamento equacionam, na Esperemos agora por Mitografias, o seu mais recente livro,
encruzilhada pícara e maravilhosa de O Eleito do Sol, a perma- de 2006, que a Nova Vega deve lançar ainda este mês.
nência de princípios e valores intemporais.
OMAR CAMILO/LUSA

Tão depressa utiliza uma retórica barroca, tão característi-


ca do Oriente, como certos modismos brasileiros, que lhe ser-
vem sobretudo para desmarcar a acção, chamando a atenção
de que se trata de ficção, muito à maneira de Brecht, e não se
coíbe mesmo de brincar com Camões, que aqui aparece como
Khamsés, «o grande poeta nacional do Egipto».
Manuel Veiga: «Fundamentalmente, o tema do livro é
uma alegoria do Poder e do Saber. Toda a história, ou todas as
histórias do livro mais não são do que uma permanente luta
entre os dois poderes. Se o primeiro combate pela força das ar-
mas, o segundo age pela subtileza do espírito. Prova disso seria

UMA OBRA SATÍRICA E IRREVERENTE


Arménio Adroaldo Vieira e Silva, o primeiro cabo-verdiano a rece- boa-1971 denuncia essa vivência mas sem dramas de heroici-
ber o Prémio Camões, nasceu na Praia, Ilha de Santiago, a 24 de dade. Três poemas seus, Lisboa-1971, Quiproquo e Ser tigre,
Janeiro de 1941. A sua vida assume uma aura carismática, mar- foram incluídos no CD «Poesia de Cabo Verde e sete poemas
cada pela sua sede de saber e pela postura ideológica desde de Sebastião da Gama», de Afonso Dias; outros três na antolo-
cedo, quando foi estudar no Liceu Gil Eanes e se tornou um dos gia «Vozes Poéticas da Lusofonia»; e, mais recentemente, em
fundadores da página literária Seló, suplemento do Notícias de 2008, na antologia Destino di Bai. Desenvolve actividade crítica
Cabo Verde, que não passou do segundo número mas marcou e na sua geração desempenha um papel fundamental de refle-
profundamente a sua geração. Continuou a publicar a sua obra xão sobre a modernidade literária em Cabo Verde.
satírica e irreverente em diversas revistas, como a Vértice, Raízes,
Mákua, Alerta, Ponto & Vírgula, Fragmentos, Sopinha de Alfabeto BIBLIOGRAFIA: Poemas, Lisboa, África Editora, 1981; O
e outras publicações. Foi redactor do extinto jornal Voz di Povo. Eleito do Sol, Praia, Edição Sonacor, 1990 e Lisboa, Vega Edi-
Ganhou o 1.º Prémio dos Jogos Florais com o caderno A tora; Poemas [reedição], Mindelo, Ilhéu Editora, 1998; No Infer-
Noite e a Lira. O preço pela sua liberdade de expressão foi a pri- no, Praia e Mindelo, Centro Cultural Português, 1999; Mitogra-
são pela PIDE na década de 60, por dois anos. O poema Lis- fias, Mindelo, Ilhéu Editora, 2005.

África21– setembro 2009 81


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82 setembro 2009 – África21
cults

CPLP em São Tomé


homenageia Alda Espírito Santo 
S ão Tomé e Príncipe acolhe, entre A este momento CPLP associou-se a

Arquivo África21
4 e 19 de Setembro, uma quinze- Fundação Mário Soares, que organizou
na recheada de eventos científicos e a exposição «A luz desviada pelo Sol»,
culturais. Estes momentos dedicados à com o objectivo de dar a conhecer a ex-
CPLP juntam-se às comemorações do pedição de 1919 à ilha do Príncipe e à
Ano Internacional da Astronomia, com cidade de Sobral, no Ceará.
a realização pelo Laboratório de Instru- Entre os diversos momentos cultu-
mentação e Física Experimental de Par- rais, com música, literatura, debates, ex-
tículas, na cidade de São Tomé, de uma posições, desporto e gastronomia, é de
escola em português de física e astrofí- realçar o tributo a Alda Espírito Santo,
sica moderna. Reunindo investigadores poetisa são-tomense, antiga presidente
e professores dos países lusófonos, esta da Assembleia Nacional e presidente da RTP África, assim como da STP Ai-
acção é motivada pela comemoração União dos Escritores e Artistas de São rways. De referir que a CPLP aprovei-
dos 90 anos de observações fundamen- Tomé e Príncipe. O evento mobilizou tou a ocasião para a divulgação em São
tais para a física moderna, realizadas si- vários parceiros. Esta quinzena de ciên- Tomé do III Fórum da Aliança das Ci-
multaneamente na ilha do Príncipe e cia e cultura no arquipélago teve o vilizações, que terá lugar em Maio de
no Ceará, no Brasil. apoio da Caixa Geral de Depósitos e da 2010, no Rio de Janeiro.

Luanda ao ritmo do jazz


L uanda recebeu, entre 31 de Julho e 2 de Agosto, o primeiro Luanda Interna-
cional Jazz Festival, que apresentou 13 intérpretes e bandas diferentes, de vá-
rias latitudes. O recém remodelado Cine Atlântico viveu durante três dias sons tão
diferentes como os protazonizados pelo angolano Dodó Miranda, o moçambicano
Jimmy Dludlu, a angolana Sandra Cordeiro, acompanhada por Dalu Roger e Kizua
Gourgel, ou ainda os norte-americanos Mc CoyTyner e Gary Batz, estes dois já no
último dia do evento.
Embora ainda sem grande expressão em Angola, o jazz tem vindo a ganhar ter-
reno junto de diversas camadas da população, e a primeira edição do festival acabou
por demonstrar que tem espaço no país. Também os diversos músicos realçaram a
importância do festival, até pelos contactos que proporciona. Kizua Gougel sinteti-
zou bem este sentimento geral, ao afirmar que se viveram dias de um «ambiente de
perfeita harmonia, envolvente e com mistura de culturas». A organização ficou a
cargo da empresa angolana Ritek Empreendimentos.

África21– setembro 2009 83


Jornalismo cultural junta
profissionais dos cinco PALOP
T erminou em Luanda, em finais de Agosto, a formação
sobre jornalismo cultural destinada aos jornalistas dos
cinco países de língua oficial portuguesa. Durante  15 dias
formação, o que contribuirá para melhorar a qualidade do
trabalho prestado ao público.
Os jornalistas, que tiveram a oportunidade de conhecer
foram abordados temas como os media e a cultura africana como funcionam alguns dos órgãos dos média angolanos, sa-
no contexto da globalização, rádio e tradições culturais, im- íram de Luanda dotados de mais ferramentas, o que contri-
portância do humor na cultura africana, teatro africa- buirá para uma maior divulgação dos valores
no, uma tradição em evolução e a música africana culturais dos respectivos povos.
modernidade e tradição. Tratou-se de uma for- Conforme refere uma declaração assi-
ma de reforçar a difusão nos meios de comu- nada no final da acção, «o Jornalismo Cultu-
nicação social dos povos que falam português. ral tem, hoje, que contribuir para a qualidade de
Difusão que, na opinião dos participantes, deve ser feita cada vida. O Jornalismo Cultural tem que responder sobre as apli-
vez mais num espírito de cooperação e intercâmbio, respei- cações legislativas e suas implicações no desenvolvimento do
tando a diversidade e as autonomias culturais de cada um dos diálogo intercultural. Promover as diferenças e, sem antes
países. Satisfeitos com os resultados, os jornalistas dos PA- julgar, trazer ao público o que nos torna ricos culturalmente;
LOP destacaram as experiências que retiraram desta acção de exactamente as diferenças».

Reeditadas obras
de Agostinho Neto
O Ministério angolano da Cultura (MINCULT) vai ree-
ditar quatro das principais obras de Agostinho Neto,
«como forma de permitir que a nova geração conheça ou man-
nho. Além destas obras, sairá a público Sagrada Esperança, cuja
reedição está a cargo da União dos Escritores Angolanos (UEA).
Agostinho Neto, líder da independência de Angola, nasceu
tenha contacto com a sua escrita». A iniciativa foi anunciada, em na aldeia de Kaxicane, região de Icolo e Bengo, província do
Luanda, por João Lourenço, um dos membros da comissão de Bengo, a 17 de Setembro de 1922, tendo falecido em 1979. Da
actividades do Colóquio Internacional sobre Agostinho Neto, sua bibliografia constam, entre outras, obras como Poemas, Sa-
realizado a 15 e 16 de Agosto. De acordo com o MINCULT, grada Esperança, A Renúncia Impossível, Quem é o inimigo…
serão reeditados os livros A Renúncia Impossível, Sobre a Liberta- qual é o nosso objectivo?, Destruir o velho para construir o novo e
ção Nacional (colectânea discursos), Náusea e Ainda o meu so- Ainda o meu sonho.

84 setembro 2009 – África21


Cultura brasileira
em Luanda Cena do filme O Mistério do Samba

E ntre 31 de Agosto e 3 de Setembro decorreu em Luanda


a VI Semana Cultural do Brasil em Angola, com a exibi-
ção de filmes no CinePlace do Belas Shopping em Luanda. As
poder. O filme, que recebeu o prémio Lions Award na sua es-
treia no Festival Internacional de Rotterdam, na Holanda, con-
ta a história da ascensão e queda de Raimundo Nonato, um co-
sessões de cinema começaram com a obra de Lula Buarque de zinheiro com dotes muito especiais. A mostra encerrou com
Hollanda e de Carolina Jabor, O Mistério do Samba, na qual a Não por Acaso, que conta com dois protagonistas distintos, Ro-
cantora Marisa Monte conduz uma série de entrevistas que for- drigo Santoro e Leticilia Sabatella, que actualmente vive a vilã
mam um painel do quotidiano e das histórias da Velha Guarda Ivone na novela «Caminho das Índias». Este filme alterna duas
da Portela, grupo de veteranos artistas de uma das escolas de histórias com um ponto de intersecção: um acidente de auto-
samba mais populares do Rio de Janeiro. De referir a participa- móvel em que morrem duas personagens.
ção no elenco de Paulinho da Viola e Zeca Pagodinho. Por seu Várias outras actividades integraram a Semana Cultural do
lado, Estômago, vencedor de cinco prémios no Festival do Rio Brasil em Luanda, iniciativa organizada pela Associação dos
2007, ofereceu ao público dois temas universais: a comida e o Empresários e Executivos Brasileiros em Angola.

Vencedores anteriores disputam


Festival da Canção de Luanda
Kizua Gourgel, um dos concorrentes do festival
A próxima edição do Festival da Canção de Luanda, a décima segunda, re-
aliza-se a 24 de Setembro, apresentando como novidade o facto de, pela
primeira vez, ser disputada pelos vencedores das edições anteriores. Kimpaba, Ma-
tias Damásio, Mirol, Artur Neves, João Alexandre, Kizua Gourgel, Jomo Fortu-
nato, Célsio Mambo, Massoxi Max e os irmãos Dany e Pedro Bândua são, desta
forma, os concorrentes ao festival, e os candidatos a usufruir da oportunidade de
participar no Grande Prémio da Canção, avaliado em dez mil dólares. De acordo
com declarações da responsável do evento à Angop, Cristina Miranda, «não há in-
tenção de alterar o formato do festival», já que a organização apenas pretende co-
memorar de forma diferente a coincidência de ser a décima segunda edição, e de
haver 12 concorrentes, regressando ao formato normal para o ano. Os convidados
especiais deste ano são a banda belga Vaya Com Dios. O festival foi criado em
1998, e é uma organização da Rádio Luanda Antena Comercial, com o objectivo
de premiar a criatividade e originalidade dos compositores angolanos.

África21– setembro 2009 85


livros MIGUEL CORREIA

Uma questão de medida é um livro sobe o arquitecto


Siza Vieira. Ou, dito de outra forma, é um livro sobre
os olhares de Siza Vieira, como arquitecto, mas
também como cidadão, sobre a arquitectura, na sua
dimensão mais ampla. E sobre Portugal, e mesmo o
mundo. São perguntas e respostas. Perguntas com
respostas. Quem questiona são Dominique Machabert
e Laurent Beaudouin. O primeiro jornalista, o segundo
arquitecto. São 280 páginas onde Siza comenta as
suas obras e os seus projectos. Sim, projectos, pois
alguns não passaram disso mesmo. E ele explica-nos
porquê, um a um. Como também nos fala dos seus prémios de arquitectura, aprofunda a
sua intervenção no Chiado pós-incêndio, opina sobre o ensino em Portugal. Fala da fé, da
religião, das igrejas, do seu simbolismo. Da luz, tão importante na sua obra. Siza Vieira é
português, embora um arquitecto do mundo. E esse olhar universal trespassa todo o livro,
todas as respostas. Escreve Machabert: «Siza faz grandes gestos enquanto fala e dá o
corpo ao manifesto diante da palavra vã, último recurso perante o impossível que há para
Alguém disse que Leite derramado
dizer, dizer então mostrando-o, mimando, abrindo o leque realista, as suas mãos, quando
chega até nós, página após página,
não estão ocupadas a fumar ou a desenhar, ou os três ao mesmo tempo». É este Siza que
como uma suave melodia, de que se
nos chega, o arquitecto, e a pessoa. Não são os dois indissociáveis?
gosta, e da qual temos dificuldade
Álvaro Siza Vieira, uma questão de medida
em nos separarmos. Feliz exemplo,
Dominique Machabert e Laurent Beaudouin
este, levando obviamente em conta o
Caleidoscópio, Lisboa, 2009
seu autor, Chico Buarque. Não deixa
aliás, para muitos, de se revelar
uma tarefa difícil pegar numa obra
de Chico e não pensarmos, mesmo
que lá longe, em palavras musicadas
em dezenas de músicas que há
décadas enchem a nossa memória Prémio Nobel da Paz em 2003, Shirin Ebadi traz-
musical. Mas sejamos honestos: nos em A Gaiola de ouro o que acaba por ser um
tal não é justo para Chico Buarque. retrato de muitas famílias iranianas, vítimas de
Um excelente compositor e músico, um período conturbado que atravessou gerações.
mas hoje também um escritor Conflitos, guerras, a consequente emigração.
brasileiro do seu tempo acima da Décadas intensas a nível interno, mas também
média. E Leite derramado prova-o, na relação do país com o exterior. Um Irão que
desde as primeiras páginas. Intenso. suportou uma monarquia corrupta, que abandonou
Inspirado. Fala-nos do amor, da o seu povo, um Irão que conviveu durante anos
memória, da felicidade, da família. e anos com a ingerência estrangeira, e com uma
Da história do Brasil nos últimos dois política americana que não olhou a meios para
séculos. «Quando eu sair daqui, atingir os seus objectivos estratégicos para o país e
vamos nos casar na fazenda da a região. E tudo começa com duas famílias, a sua
minha feliz infância, lá na raiz da amizade, os momentos de prazer, em que as tradições estão presentes, mas também
serra. Você vai usar o vestido e o um olhar pelo mundo. É então que a revolução islâmica abana tudo. É então que a
véu da minha mãe, e não falo assim história divide as famílias. Shirin Ebadi nasceu no Irão em 1947. É advogada e activista
por estar sentimental, não é por dos Direitos Humanos. Na mira do regime de Ahmadinejad, devido às suas batalhas a
causa da morfina». Assim começa a favor da democracia e dos direitos das mulheres, desenvolve uma intensa actividade de
estória. Continuamos? propaganda e uma batalha legal que a tem levado a todo o mundo.
Leite derramado A gaiola de ouro
Chico Buarque Shirin Ebadi
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2009 Esfera dos Livros, Lisboa, 2009

86 setembro 2009 – África21


músicas

Cinco minutos de jazz Meditherranios


Vários (selecção de José Duarte) Luísa Amaro

Um, dois, um, dois, três, quatro, cinco São nove composições. Todas da autoria
minutos de jazz! Assim começava, há 43 de Luísa Amaro. É a guitarra portuguesa,
anos, o mais antigo programa da rádio acompanhada por um guitolão, clarinete
portuguesa, Cinco minutos de jazz, da alto e baixo e diversos instrumentos de
autoria de José Duarte. E assim continua percussão do Médio Oriente. Também lá
hoje. Para comemorar os 40 anos do está Mário Laginha, numa das músicas, com o seu piano. É o primeiro trabalho de
programa, festejados em 2006, foi lançada Luísa Amaro, que com a sua guitarra portuguesa – instrumento tradicionalmente
uma caixa com quatro CD, fotografias pegado por homens – nos traz por sonoridades novas. Aliás, essa é a primeira
de vários momentos jazzísticos do autor surpresa deste álbum: se nos habituámos a uma certa previsibilidade nos sons da
e diversas opiniões, a começar pela do guitarra portuguesa, aqui, pouco a pouco, faixa a faixa, vamos sendo surpreendidos
próprio. Rapidamente esgotou. Depois da com ambiências menos comuns. Fruto do casamento de instrumentos, é certo, mas
insistência de muitos, eis que chega ao também das particularidades da própria Luísa Amaro, que nos diz num pequeno
mercado a segunda edição da caixinha. texto introdutório: «Este disco surge de uma vontade de abrir um novo ciclo, criar
Uma embalagem com 40 anos de música, uma sonoridade distinta, com novas histórias para contar. Deu-me um enorme
de história. Uma caixa que nos transporta, prazer sentir o pulsar dos instrumentos com os seus timbres, as suas vibrações,
os seus sopros e arrebatamentos». Nota-se, Luísa, nota-se. Como também nos
apercebemos, mais nuns momentos do que noutros, de como a compositora e
intérprete nos transmite imagens sonoras que nos fazem recordar a guitarra nas mãos
de Carlos Paredes, bem trabalhada, acarinhada. É um disco que se escuta, na primeira
vez, simplesmente para explorar, investigar. E, mais tarde, então sim, saborear.

Tchamantché
Rokia Traoré

Funk, blues, rock e jazz, numa mistura com ritmos tradicionais dão cor à música
por horas, ao universo musical de José de Rokia Traoré, que lançou o seu quarto álbum, intitulado Tchamantché. Natural
Duarte, e do seu programa. São cinco do Mali, a compositora, cantora e guitarrista volta a trazer-nos com a sua música
minutos. Apenas. Cinco minutos diários, uma sonoridade muito própria, sofisticada, que a tem ajudado a conquistar, ano
que começaram na Rádio Renascença, após ano, públicos por esse mundo fora. Foi aliás já nomeada, por três vezes,
com um pequeno comentário, uma opinião, para o BBC Worl Music Award. Em Maio passou por Portugal, precisamente para
a acompanhar uma música. Simplesmente. apresentar este seu novo trabalho. Conhece também o palco do Festival Músicas do
Na Renascença continuou até 1975, altura Mundo de Sines, que pisou em 2004 e 2008. Mouneíssa, de 1997, foi a sua primeira
em que os emissores foram dinamitados. criação. Logo agradou, e algum marketing bem conseguido ajudou a dar um
Mas os cinco minutos não terminaram, e empurrãozinho em diversos mercados internacionais. Depois veio Wanita, em 2000,
regressaram em 1983 na Comercial, onde e Bowmboi, em 2003, com uma Rokia
permaneceram até 1993. Desde então, Traoré já mais solta na composição,
tem sido na Antena1 que o jazz tem ganho questão que tem sido referido pelo seu
direito aos seus minutos. «Jazz é apenas conterrâneo Ali Farka Touré. É verdade
uma linguagem musical, outra língua para que Rokia Traoré é uma mulher de palco.
aprender, como o inglês», diz-nos José É lá que se transforma, com os ritmos
Duarte. É, de facto, e estes quatro CD jazz a puxarem pelo resto. Mas escutar
levam-nos ao universo do swing dos anos este seu quarto álbum é um exercício
30, do jazz de New Orleans, ao bebop dos de prazer, de intensas descobertas,
anos 40 e por aí fora. Para os apreciadores, precisamente porque quando parece que
e para os candidatos, que para José Duarte não há mais, lá surge outro som, outro
estão sempre a tempo de aprender. acorde. Até a voz. Para escutar.

África21– setembro 2009 87


filmes

AUTOCARRO 174 ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

Autocarro 174 chega finalmente ao vídeo. Episódio um – numa apresentação privada do filme, ainda
O filme, pois já antes tinha sido realizado um não a versão final, José Saramago diz no final emocionado
documentário, pelas mãos de José Padilha. para Meirelles, o realizador: «Fernando, estou tão feliz por
O brasileiro Bruno Barreto transporta ter visto este filme como estava quando acabei o livro».
para a tela o drama vivido em directo pelo Fernando Beija-o no rosto. Rapidamente as imagens
Brasil, em Junho de 2000, quando Sandro correm mundo. Episódio dois – após a apresentação nos
do Nascimento entrou num autocarro Estados Unidos, o filme é criticado e alvo da atenção de
e manteve reféns, durante seis horas, diversas instituições de cegos. Interpretam o filme (porque o
diversos passageiros. É então que o Brasil livro nem o leram) como uma ofensa. Olhar «redutor da estória», diz Saramago.
passa horas frente aos ecrãs, a assistir em «E estúpida», acrescenta logo depois, com a sua frontalidade. E pronto, o filme estava
directo ao desenrolar dos acontecimentos. lançado no mercado. E bem, pelo episódio um. Ensaio sobre a cegueira, tal como o livro,
O sequestro correu mundo. O filme nem comove. Emociona. Está bem filmado, diria mesmo. Com uma fotografia muito forte e
tanto. Foi mesmo criticado, por o realizador uma interpretação de Julianne Moore fortíssima. Os ingredientes estão lá todos. Como
«conseguir» com que os espectadores está Saramago, e o seu livro, escrito uns anos antes. E o que imaginou ele? Uma cegueira
facilmente acabassem por ficar do lado branca, uma doença misteriosa, uma epidemia, que rapidamente se abate sobre uma
do mau da fita, cidade. Cegueira branca porque quem é atingido passa a ver uma superfície leitosa,
do sequestrador. estranha. Branca. E na sua luta pela sobrevivência, os instintos mais básicos, primários,
E pela forma revelam-se. Mas há uma mulher que não é atingida. E o resto é o filme, um filme que nos
como trata, em atira constantemente esta questão. Perturbadora: e se fossemos nós? Para ler e para ver.
determinados Realização: Fernando Meirelles
momentos, a Interpretação: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Gael Garcia Bernal, Alece Braga, Danny
própria polícia, Glover, Sandra Oh, Maury Chaykin, Don McKellar, Michael Mahonen
ou ainda a forma Duração: 120 minutos
excessivamente Distribuição: Zon Lusomundo
dura e negativa
como aborda o O LEITOR
Brasil. Mas mais do
que tudo, Autocarro A Alemanha do pós-guerra é o palco. Um pretexto, um
174 é um retrato social, é um retrato do pormenor, pois O Leitor é antes de mais uma magnífica
Brasil de hoje, da nossa sociedade. película sobre as relações humanas, com uma enorme
O real foi ponto de partida para a ficção. carga emotiva. O filme pode aliás ser dividido em duas
E o argumento divide-se por diversos partes – uma primeira, com pitadas de algum erotismo,
caminhos, entre os quais o do encontro e algumas cenas simplesmente bonitas, e bem exploradas,
desencontro de duas pessoas. O sentimento mas previsíveis; sim, previsíveis. E depois a cambalhota no
da perda. De deriva na vida. Da obsessão. enredo, quando desembarca a componente drama.
E da morte. O jovem Sandro morre na O moralismo, as verdades, os segredos, a vida mais íntima,
película. Como morreu na vida real. Mas o as angústias. E as surpresas, apesar de rapidamente
que fica é a sua história brutal, semelhante percebermos do mais que certo final infeliz de uma das personagens. Sthephen Daldry
à de muitos outros; e é uma obra que não conta-nos em O Leitor a estória, baseada num livro de sucesso, de um jovem que, doente,
sendo deslumbrante, facilmente nos faz recebe a ajuda de uma mulher mais velha. Apaixonam-se e vivem um romance de Verão.
pensar. Pensar como um dia igual aos Intenso. Onde as leituras estão presentes. Dele para ela. Dele, que estuda, para ela, que vive
outros, num autocarro igual aos outros, com as dificuldades do dia-a-dia, trabalhando numa época difícil. Depois, depois vem o resto.
pessoas iguais a todas, se pode transformar A cambalhota. A surpresa. E o desfecho. Tal como o livro bem recebido, o filme recebeu
num dia diferente. Ou não. cinco nomeações aos Óscares: melhor filme, melhor director, melhor argumento adaptado,
Realização: Bruno Barreto melhor fotografia e melhor actriz. E Kate Winslet ganhou. Com justiça.
Interpretação: Michael Gomes, Michel de Realização: Sthephen Daldry
Souza, Chris Vianna, Anna Cotrim, Gabriela Interpretação: Ralph Fiennes, Kate Winslet, Kirsten Block, Jeanette Hain, David Kross
Luz, Cris Vianna, Marcello Melo Jr. Duração: 120 minutos
Duração: 110 minutos Distribuição: Zon Lusomundo

88 setembro 2009 – África21


África21– setembro 2009 89
afrobasket 2009

JORNAL DE ANGOLA
Angola
ganha de novo
A seleção angolana conquistou o seu décimo título
de campeã africana de basquetebol, mais uma vez
com relativa facilidade

Jonuel Gonçalves, na LÍBIA

N a final do Afrobasket 2009, Angola


derrotou a Costa do Marfim por 82-72.
As dificuldades iniciais decorreram do A Tunísia tem a maioria dos seus jogadores na

JORNAL DE ANGOLA
excesso de confiança da seleção angolana que, nas liga nacional e pareceu-nos a segunda equipa do cam-
primeiras três partidas, só «começou» a jogar após o peonato, não tendo chegado à final apenas porque
segundo quarto, ou seja, depois do intervalo. Esta chocou com Angola nas meias-finais. Se nessa fase ti-
postura ia custando caro contra o Mali, que apareceu vesse enfrentado a Costa do Marfim (que defrontou
com uma equipa bem arrumada e com jogadores e bateu os Camarões) é provável que os tunisinos ti-
experientes que atuam no campeonato francês. vessem sido finalistas. Mesmo assim, venceram os ca-
Sete deles, aliás, nasceram em França. maroneses por 83-68 e arrancaram o terceiro lugar.
Outras equipas com jogadores de experiência Os marfinenses iniciaram a competição com
internacional foram a Nigéria, Senegal, Costa do prestações fracas, mas foram crescendo com o decor-
Marfim e República Centro-Africana. Porém, a to- rer do torneio. O seu treinador disse-nos que teve
das faltou entrosamento, em todo ou em parte do grandes dificuldades para juntar o plantel na fase de
torneio, significando que o recurso a atletas espalha- preparação, contando por vezes com apenas três atle-
dos pelo mundo exige mais tempo de articulação. tas. Assim, acrescentou, o aperfeiçoamento foi feito
Todos os jogadores angolanos atuam no campe- ao longo das jornadas. Estes três países vão represen-
onato de Angola tendo, portanto, um conhecimento tar África no Mundial do próximo ano, na Turquia.
mútuo importante para a movimentação coletiva. Os Camarões obtiveram o quarto lugar e confir-
Além disso, Angola como campeão africano nos anos maram que permanecem no topo do basquete africa-
anteriores tem beneficiado da presença nos mundiais no. Em Luanda, em 2007, ficaram em segundo.
e olimpíadas, aumentando a sua experiência. Além Abaixo deles, posicionou-se um bloco de países
disso, o basquetebol angolano beneficia de excelentes encabeçado pela Nigéria – que volta a ter pretensões
apoios financeiros oficiais que lhe permite efetuar – e composto pela República Centro-Africana, , Se-
Angola-Costa do Marfim na final
uma boa preparação. negal, Mali e Ruanda. Todos eles lançaram-se em muito disputada do Afrobasket

90 setembro 2009 – África21


Entre as explicações para a modesta exibição ca-
bo-verdiana estava a excessiva dependência de Xavier
como cestinha da equipa, com a melhor concretiza-
ção de pontos por partida entre todos os jogadores do
campeonato: 27,2, na frente de Sato (República
Centro-Africana), com 21,6.
Nesta matéria, Angola apresentou particularida-
de oposta, ou seja, teve os seus pontos distribuídos
por vários atletas. Ainda assim, o melhor triplista da
competição foi o angolano Morais. Outro angolano,
Joaquim Gomes, liderou os cinco «all stars» escolhi-
dos pela mídia que, além dele, incluiu Amagou (Cos-
ta do Marfim), Sato (República Centro-Africana),
Rzig (Tunísia) e Sagana (Senegal).
No balanço geral, o nível competitivo foi supe-
rior ao de anos anteriores, levantando a esperança de
que o basquetebol africano venha a crescer à escala
mundial. A superioridade angolana continua muito
evidente, porém, existe agora a real possibilidade de
que no próximo Afrobasket os projetos em anda-
mento em outros países possam conduzir a mais
Décima subida ao pódio da maior potência equilíbrio, o que seria fundamental até para Angola,
africana em basquetebol
e aumentava o grau de competitividade continental.

projetos de revitalização das respectivas seleções, in-


JORNAL DE ANGOLA

cluindo a mobilização de valores que atuam ou até


nasceram no estrangeiro, na maior parte dos casos fi-
lhos de emigrantes africanos, mas no caso ruandês
com a naturalização de um jogador de origem norte-
americana. Este jogador, Thomson, recebeu o título
de melhor ressaltador do campeonato. O Egito, que
já foi sistemático candidato ao primeiro lugar, ficou
desta vez nos lugares de baixo, como aconteceu a dois
lusófonos: Cabo Verde e Moçambique.
Dos moçambicanos esperava-se que opusessem
resistência a todos os adversários e não sofressem der-
rotas muito dilatadas. E foi isso que aconteceu. Per-
deram todos os jogos do grupo inicial com bons de-
sempenhos nas primeiras partes e, nas partidas de
classificação para os quatro últimos lugares, vence-
ram a África do Sul.
Já Cabo Verde prometia voos mais altos, na se-
quência do ótimo terceiro lugar alcançado dois anos
antes em Angola. E começou em força ao derrotar a
poderosa Tunísia, após o que entrou em queda livre
que o empurrou para o grupo dos últimos, onde ven-
ceu as duas partidas e ficou em 13º lugar. Meias-finais Angola-Tunísia (79-69)

África21– setembro 2009 91


Problemas de organização

Uma vez mais – é uma constante no desporto africa-


no – surgiram sérios problemas de organização, a co-
buição de quartos, principalmente a dirigentes e jor-
nalistas, enquanto que as ligações aéreas internas nem
sempre garantem que as bagagens cheguem junto
com os passageiros...
“ Morais foi
o melhor triplista
e Joaquim Gomes
meçar mesmo pelo país organizador. Devia ser a Ni- Mas o mais grave é que o tipo de sistema político liderou
géria mas, como também já se verificou outras vezes, causou ameaças contra jornalistas e membros de co-
desistiu, obrigando a uma transferência apressada missões técnicas. Enviados da mídia angolana estive-
os cinco all
para a Líbia. ram até dez horas retidos no aeroporto sob ameaça de stars escolhidos


As instalações preparadas pelos líbios são boas. devolução à procedência, embora tivessem visto e tra- pela mídia
Tanto o pavilhão de Bengazy (Suleiman Darrat) dução do passaporte. O técnico principal da Costa
como o de Trípoli (African Union) estão muito aci- do Marfim (de nacionalidade suíça) ficou na mesma
ma daquilo que possui a maior parte dos outros par- situação cerca de seis horas e o recorde absoluto foi
ticipantes, reflexo até do estado geral das infraestrutu- batido pelo treinador da Nigéria, norte-americano,
ras da Líbia, muitas vezes comparáveis à de países de- que ficou vinte horas retido numa sala do aeroporto.
senvolvidos (estradas, energia elétrica e contexto ur- Mesmo com vistos, certas categorias de viajan-
bano). O grande pavilhão previsto para a fase final tes são submetidos à apreciação de uma comissão
em Tripoli não ficou pronto e teve de jogar-se a se- especial, muito provavelmente composta por mem-
gunda fase no African Union, sem que isso afetasse o bros de serviços especiais. Não só à entrada mas
desenrolar da prova. Em dois aspectos a Líbia reve- também à saída quando, novamente detentores de
lou-se semelhante a vários outros países africanos: os passaportes angolanos foram objeto de atenção es-
hotéis são em pequeno número, provocando alguns pecial... desta vez apenas alguns minutos mais que
jogos de influências (e busca de comissões) para atri- os outros passageiros.

92 setembro 2009 – África21


África21– setembro 2009 93
zuma em angola
negócios e relações
reforçadas
amazónia
Cobiças e violências
moçambique
na véspera
de três eleições
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da revista África 21
INFORMAÇÃO, ECONOMIA E ANÁLISE

Nº 33 - SEtEMbRO 2009 – 350 Kz / 4 USD / 3,5 €

África
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mais rapidez e de maneira mais vantajosa, os diferentes assinantes da revista.

Muita terra Assim, as assinaturas serão recolhidas, conforme os casos, em três centros: Luanda,
Lisboa e Brasília. Com excepção dos assinantes angolanos, todos os demais receberão o
pouca seu exemplar a partir de Lisboa – onde África21 é impressa – pelo correio.
agricultura Como os custos de envio também são variáveis, conforme as re­giões, o preço das
assinaturas é igualmente regionalizado.
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os detalhes acerca dos centros onde os pagamentos deverão ser feitos, conforme os
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União Europeia € 30 € 55 Millennium BCP BCOMPTPL 45371872997 PT 50003300004537187299705 Triangulação
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94 setembro 2009 – África21


I&D

Para o dia-a-dia
O TELEMÓVEL DO OBAMA
É verdade. Se Barack Obama teve de
renunciar ao seu telélé (os Presidentes
dos EUA não podem ter telemóveis por
motivos de segurança) você pode fazer-lhe
inveja e utilizá-lo a toda a hora.
O BlackBerry é um smartphone, um
Para desporto
engenho inteligente que lhe permite
ver o seu e-mail em
OS TÉNIS DA MINHA ALMA quase todas partes do
Depois de Angola se ter reconsagrado como a maior potência do basket africano mundo, navegar na web,
não podemos deixar de falar de sapatos de ténis. A K-Swiss lançou no mercado o enviar mensagens e
sistema miSOUL, um conjunto de duas palmilhas intermutáveis (para os ténis que as fotos, tudo isto a uma
mereçam): com uma delas podemos fazer as tarefas de todos os dias com o maior velocidade estonteante
conforto; com a outra é meio caminho andado para os mais fabulosos afundanços e com uma qualidade e
nos jogos da liga ou do bairro. As palmilhas vendem-se em vários tamanhos, com uma segurança a toda a
uma versão para homens e outra para senhoras. Custam 40USD cada, pelo que prova. O écran, de alta
deve contar 80USD para o conjunto. Se quiser aplicá-las num bom invólucro a resolução, é na realidade
K-Swiss propõe-lhe, por exemplo, os Run One por 125USD. www.kswiss.com um touchscreen, o que
quer dizer que basta
tocar nos diferentes bonequinhos que
por lá andam para aceder de imediato
à função que se pretende activar. Por
cima do teclado alfanumérico (com
letras a sério) está uma touchball, uma
espécie de «rato» de computador que
facilita a navegação entre menus. Além
da câmara de 3,2 Mb com óptica de
alta qualidade, o aparelho está cheio de
funcionalidades, incluindo agenda de
trabalho e uns joguinhos para distrair.
E tudo isto pode ser seu por apenas
150USD, o que é barato para telemóvel
de presidente. www.blackberry.com

BLACK POWER PHOTO ART


É toda preta e é linda. A District Carbon da Trek é o último Pequena, leve e reflex, à prova de neófitos da fotografia, a
grito em matéria de bicicletas de cidade. Apesar de não ter E-450 da Olympus tem tudo para agradar. Juntamente com os
mudanças, o seu design inovador permite-lhe abalizar-se nos seus repeitáveis 10 megapíxeis de resolução vamos encontar
arrabaldes com comodidade e segurança. Em primeiro lugar três filtros «artísticos» hi-tech que permitem a qualquer um
é uma bicicleta inteiramente construída em fibra de carbono incluir nas suas imagens efeitos especiais como só os «prós»
OCLV, do melhor que se fabrica. Em segundo acabaram-se sabem fazer. Esta compacta dispõe de estabilização de
as correntes quebradas e as mãos cheias de óleo, porque a imagem, limpeza automática de lentes e quase
Trek substituiu a dita corrente por uma correia de transmissão todos os outros dispositivos das grandes
virtualmente indestrutível, insensível à dilatação e à prova (e caras) profissionais. Custa
de tudo (dizem que nem sequer se risca). Em terceiro lugar 620USD, com uma objectiva
custa 3360USD. Pode-se dizer que é cara (e é mesmo) mas 14-42 mm. Se a esta se quiser
esta bicicleta urbana, rebelde, agressiva e silenciosa vale de acrescentar uma tele 40-150
facto muito mais do que pesa, porque o resultado é uma bike mm o preço global sobe para
cómoda e leve, com muita, muita pinta. www.trekbikes.com 745USD. www.olympus.com

África21– setembro 2009 95


ÚLTIMA PÁGINA
JOÃO MELO

Angola entre o presente


e o futuro joaomelo@africa-21.com

H á um ano atrás, foram reali-


zadas em Angola as segundas
eleições legislativas da sua
história. O MPLA foi reconfirmado com
82%, resultado cuja explicação se deve a
para aumentar o número de professores
em todos os níveis de ensino é significati-
vo. Foi lançado o programa que prevê a
construção de um milhão de casas, que
está a mobilizar o país inteiro.
“ Apesar de certos avanços,
ainda há muito que
fazer para o desenvolvimento


e a democratização
uma rara conjugação de factores: a associa- No plano político, O OPSA registou
ção da imagem do referido partido à estabi- os progressos a nível da participação dos ci-
lidade de Angola e à segurança dos cida- dadãos na definição de políticas públicas,
dãos, enquanto o seu principal opositor de que são exemplos a discussão da Consti- luir a questão das eleições presidenciais e
continuava conotado com a guerra e a tuição, a aprovação da Estratégia de Segu- a relação estabelecida entre elas e a elabo-
destruição; o impacto das obras realizadas rança Alimentar e a criação dos Conselhos ração da Constituição. Alguns sectores da
pelo Governo desde 2002; e o ambicioso de Auscultação e Concertação Social. Este oposição e da sociedade civil acusam o
programa de reconstrução prometido pelo facto, associado ao aparecimento de novos MPLA de, ao defender a realização da
MPLA, na sequência dessas obras. órgãos de informação, em particular priva- eleição presidencial apenas após a Consti-
Um ano depois das eleições, que ba- dos, assim como a abertura dos conteúdos tuição, demonstrar uma atitude de me-
lanço pode ser feito? Retomarei a seguir desses órgãos, constituem um avanço ine- nosprezo pela opinião pública. A verdade
algumas constatações do Observatório gável do processo de democratização. é que, além do MPLA, outro partido
Político-Social Angolano (OPSA), um Apesar destes progressos, são notórios com assento parlamentar, a Nova Demo-
importante grupo de reflexão composto sinais de preocupação e descontentamento cracia, também defende a mesma posi-
por personalidades de diferentes partidos em vários círculos da sociedade. O reflexo ção. Essas duas forças representam quase
políticos locais, bem como da sociedade dos elevados índices de crescimento dos úl- 85% do eleitorado.
civil angolana, divulgadas no início deste timos anos na vida das populações é ainda Na minha opinião, Angola parece en-
mês em Luanda. claramente insuficiente, pois, embora An- trar na fase final de um longo e conturba-
No plano económico e social, o OPSA gola ainda padeça da falta de estatísticas do processo de transição, iniciado nos
reconhece a continuidade de importantes credíveis que permitam análises mais crite- anos 90, mas particularmente afectado
desenvolvimentos positivos no país, em riosas, continuam a ser evidentes os sinais pela guerra pós-eleitoral de 1992. A con-
particular a melhoria das infra-estruturas exagerados de riqueza coexistindo com clusão desse processo tem de ser conduzi-
rodoviárias, que estão a ter efeitos positivos preocupantes indicadores de pobreza. da de forma realista e ponderada, com a
na economia de extensas regiões do país e Um factor crítico que, de acordo com participação de todos, Governo, oposição
na vida das populações mais pobres. o OPSA, explica em grande medida o des- e sociedade civil.
Como nota o OPSA, vários indicado- contentamento que medra em certos sec- O grande desafio é, sem dúvida, como
res de saúde estão a melhorar, como, por tores da sociedade é a falta de resultados do fazer avançar o nosso país, não apenas no
exemplo, o rácio entre o número de médi- compromisso do Presidente José Eduardo plano económico, mas também social e
cos e o número de habitantes, que, em vá- dos Santos de combater a promiscuidade político, mantendo a estabilidade tão difi-
rias províncias, é actualmente melhor do entre os negócios e o exercício de cargos cilmente conquistada pelos angolanos. A
que em Luanda. O Programa Água para políticos e administrativos. futura constituição, mais do que a eleição
Todos tem feito progressos. O esforço Para alguns, a maka principal, em ter- imediata do Presidente, será uma peça cru-
para fazer avançar a reforma educativa e mos políticos, é a forma como está a evo- cial para atingir esse objectivo.

96 setembro 2009 – África21